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POLÍTICAS DE EDUCAÇÃO INDÍGENA: DA TUTELA À EMANCIPAÇÃO

Telmo Marcon
Universidade de Passo Fundo
telmomarcon@upf.br

Resumo: O presente texto objetiva analisar as políticas de educação indígena formuladas nas
últimas duas décadas na perspectiva da emancipação. Essa discussão justifica-se no contexto
de uma tensão histórica entre práticas educativas tuteladas e emancipatórias. Buscando dar
conta dessa problemática, o texto faz uma análise documental das Constituições brasileiras
e da legislação educacional recente. A conclusão é de que as políticas de educação indígena
avançaram significativamente nas últimas três décadas, superando relações de tutela, mas as
práticas precisam avançar na perspectiva da emancipação.

Palavras-chave: políticas de educação indígena; tutela; emancipação.

INTRODUÇÃO
O tema proposto para a discussão é complexo. Evidentemente que não é novo, visto
que existem muitas pesquisas que abordam essa problemática sob diferentes perspectivas.
Para o presente estudo, busca-se, nas Constituições brasileiras e no Estatuto do Índio de 1973,
elementos que legitimaram a tutela do indígena ao Estado. Na Constituição de 1988 e na
legislação educacional posterior a LDB de 1996 encontram-se elementos para compreender a
perspectiva de emancipação inerente às propostas de educação indígena.
O interesse pelo tema nasceu de algumas pesquisas realizadas sobre história e cultura
indígena (MARCON, 1994) e de orientações de dissertações de mestrado que tratam de questões
relativas às comunidades indígenas, especialmente da educação. O que se tem observado, em
linhas gerais, é que a legislação educacional como um todo, e indígena em particular, tem
avançado muito em termos de formulação. A afirmação Constitucional do dever do Estado e do
direito do cidadão à educação provocou mudanças substanciais. Devendo-se acrescer que, em
relação aos indígenas, a Constituição contém outros avanços importantes, como o fim da tutela
ao Estado.
Esse panorama instaurado pela Constituição coloca duas questões fundamentais: de um
lado, a afirmação da identidade indígena (costumes, tradições, concepções de mundo, etc.),
tendo como consequência a necessidade do próprio índio assumir-se como sujeito da história
e, de outro, o papel da educação como instrumento para efetivar esses princípios. O problema
está em como efetivar a passagem de práticas tuteladas para uma perspectiva emancipatória
que implica na construção de mecanismos efetivos que garantam a autonomia e as condições
objetivas para a sobrevivência das comunidades. Aqui, reside um dos grandes desafios da
escola na problematização da história, das transformações em curso, das possibilidades de


articular organicamente sustentabilidade com sobrevivência. É possível tratar de emancipação
quando muitas comunidades indígenas continuam dependentes do Estado para a sobrevivência
econômica? São essas questões que se pretende aprofundar, dentro dos limites do texto.

TUTELA E AUTONOMIA: UMA ANÁLISE DA LEGISLAÇÃO


Do ponto de vista legal, os indígenas são, praticamente, desconhecidos, pelo menos até
a Constituição de 1988. A Constituição de 1824 (CAMPANHOLE & CAMPANHOLE, 1992)
e a de 1891 (idem) não fazem menção aos indígenas, ademais, quando tratam dos brasileiros,
utilizam o conceito cidadão. A Constituição de 1934 (idem) traz, no art. 5º, inciso XIX, letra ‘l’,
que cabe à União legislar sobre “a incorporação dos silvícolas à comunhão nacional”; o artigo
129 trata da posse das terras dos índios que “nellas se achem permanentemente localizados, no
entanto, vedado alienal-as”. A Constituição de 1937 (idem) faz referência às terras indígenas. As
Constituições de 1946 (idem) e de 1967 (idem) tratam de um tema que não aparece nas demais,
isto é, a obrigatoriedade do ensino primário a ser ministrado em língua nacional. A respeito
do ensino em língua, a Lei n. 4.024 (BRASIL, 1961), art. 27, registra: “O ensino primário é
obrigatório a partir dos sete anos e só será ministrado na língua nacional”. A Lei 5692 (BRASIL,
1971), artigo 1º, § 2º, amplia a obrigatoriedade para o ensino médio: “O ensino de 1º e 2º graus
será ministrado obrigatoriamente na língua nacional”. O Estatuto do Índio, artigo 48, refere:
“Estende-se à população indígena, com as necessárias adaptações, o sistema de ensino em vigor
no País” e o artigo 49 consigna: “A alfabetização dos índios far-se-á na língua do grupo a que
pertençam, e em português, salvaguardado o uso da primeira”. Há, portanto, um conflito no
âmbito da própria legislação. A Constituição de 1967 atribui à Nação o poder de legislar sobre
“nacionalidade, cidadania e naturalização; incorporação dos silvícolas à comunhão nacional”
(art. 8º, inciso XVII, letra ‘o’).
O discurso da integração nacional é recorrente, especialmente durante os governos
militares, nas décadas de 1960 e 1970. É nesse contexto que foi aprovada a Lei n. 6.001
(BRASIL, 1973), na qual os índios são classificados em três categorias do ponto de vista da
integração: “isolados”, “em vias de integração” e “integrados”. O artigo 50 menciona: “A
educação do índio será orientada para a integração na comunhão nacional mediante processo
de gradativa compreensão dos problemas gerais e valores da sociedade nacional, bem como do
aproveitamento das suas aptidões individuais”.
Com a criação da FUNAI pela Lei n. 5.371 (BRASIL, 1967), os índios continuam
tutelados ao Estado, agora através desse órgão. O artigo 1º da Lei, letra “d”, inciso VII, diz ser a
sua função “exercitar o poder de polícia nas áreas reservadas e nas matérias atinentes à proteção
do índio”. No parágrafo único desse mesmo inciso tem-se: “A Fundação exercerá os poderes de
representação ou assistência jurídica inerentes ao regime tutelar do índio, na forma estabelecida
na legislação civil comum ou em leis especiais”. Mesmo que, no Estatuto do Índio e no Decreto
de criação da FUNAI, esteja presente um discurso de liberdade e autonomia aos índios, eles
permanecem na condição de tutelados pelo órgão federal.


Uma mudança radical nessa concepção de tutela ocorre com a Constituição de 1988
quando afirma, no artigo 232: “Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas
para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público
em todos os atos do processo”. Assim, não há mais necessidade da mediação de um órgão para
representá-los judicialmente. Outro passo importante, nessa direção, deu-se, em 1991, com
a emissão do Decreto n. 26 (BRASIL, 1991) que transfere a responsabilidade da educação
indígena da FUNAI para o Ministério da Educação. O artigo primeiro do referido decreto refere:
“Fica atribuída ao Ministério da Educação a competência para coordenar as ações referentes à
Educação Indígena, em todos os níveis e modalidades de ensino, ouvida a FUNAI”.
A superação da política de tutela, conforme proposta pela Constituição, representou um
passo importante na afirmação da identidade indígena. Essa ruptura é resultante de todo um
processo de mobilização das comunidades indígenas, que se iniciou na década de 1970 e foi
aprofundado na década de 1980. Loebens (2008) faz uma análise importante desse contexto
quando assevera:

A década de 1980 até meados dos anos 90 mostra um movimento indígena ativo e vigo-
roso em que as organizações próprias criadas até então lhe emprestavam força política
e capacidade de mobilização. As lutas principais eram por terra/território, respeito à di-
versidade étnica e cultural e pelo estabelecimento de relações autônomas com o Estado
norteadora das políticas públicas e conseqüentemente o fim da dominação neocolonial,
sobretudo na sua forma mais evidente, materializada no Instituto da Tutela.

Distintamente das Constituições anteriores, a Constituição de 1988 dá um tratamento


substancial para os indígenas, não apenas nos enunciados mais gerais como a garantia dos
direitos, mas também com a destinação de um capitulo (VIII) que trata exclusivamente de
questões indígenas. A Constituição é apenas um marco inicial visto que a legislação educacional
posterior avançou no sentido de fortalecer a identidade indígena, valorizar as culturas, propor
uma educação intercultural, reconhecer e valorizar a diversidade sociocultural, etc. Assim
sendo, o índio deixa de ser visto, pelo menos formalmente, como incapaz e tutelado pelo Estado
e passa a ser tratado como sujeito e cidadão.
A Lei n. 9394 (BRASIL, 1996), artigo 26, reafirma a tese bastante discutida por
educadores da necessidade da educação ter uma base nacional comum, mas também uma parte
diversificada “exigida pelas características regionais e locais da sociedade, das culturas, da
economia e da clientela”. O § 4º do artigo 36 dessa Lei reconhece a participação indígena na
formação do povo brasileiro ao assinalar que “o ensino de história do Brasil levará em conta as
contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro especialmente
das matrizes indígenas, africana e européia”. Esse reconhecimento traz algumas implicações
importantes, entre as quais, a de colocar os indígenas como sujeitos e protagonistas da história
juntamente com o negro escravo e os colonizadores e imigrantes europeus.
Ressalve-se que condição de tutela atribui um papel central ao Estado (através de suas
instituições específicas, no caso do Serviço de Proteção ao Índio – SPI – e da FUNAI) que é


sujeito do processo e o indígena que é tratado de forma subordinada e incapaz. A Constituição
de 1988 e a LDB de 1996 demarcam, portanto, uma ruptura com a noção de tutela e tratam
os indígenas como sujeitos e protagonistas da história. As legislações específicas posteriores
avançam nessa mesma direção.
Em setembro de 1999, o Conselho Nacional de Educação (CNE) e a Câmara de Educação
Básica (CEB) aprovaram o Parecer n. 14 que trata das “Diretrizes Curriculares Nacionais da
Educação Escolar Indígena” (BRASIL, 1999a). Em seguida, em novembro de 1999, a Câmara
de Educação Básica (CEB) aprovou a Resolução 03/99 que estabelece as “Diretrizes Nacionais
para o funcionamento das escolas indígenas” (BRASIL, 1999b).
Essa legislação é explícita em relação à perspectiva emancipatória e intercultural, em
consonância com o artigo 79 da Lei n. 9394 (BRASIL, 1996), o qual assegura que a União deve
apoiar “técnica e financeiramente os sistemas de ensino estaduais e municipais no provimento
da educação intercultural às sociedades indígenas”. O artigo 1º das “Diretrizes para a educação
indígena” informa ser necessário estabelecer, no âmbito da educação básica:

A estrutura e o funcionamento das Escolas Indígenas, reconhecendo-lhes a condição


de escolas com normas e ordenamento jurídico próprios, e fixando as diretrizes cur-
riculares do ensino intercultural e bilíngüe, visando à valorização plena das culturas
dos povos indígenas e à afirmação e manutenção de sua diversidade étnica (grifo meu)
(BRASIL, 1999b).

Entre as várias questões discutidas no Parecer n. 14 pode-se destacar a da “Escola


Indígena”. Articulada a discussão sobre a escola indígena derivam outras implicações, entre as
quais, a formação dos professores indígenas; a organização de um currículo que dê conta das
questões específicas; a estrutura e o funcionamento das escolas; a contratação de professores
indígenas. Tudo isso significa um avanço importante no sentido de se pensar uma educação
indígena. Essas questões são afirmadas no parecer 14/99 que tem como objetivo: “Contribuir
para que os povos indígenas tenham assegurado o direito a uma educação de qualidade, que
respeite e valorize seus conhecimentos e saberes tradicionais e permita que tenham acesso a
conhecimentos universais, de forma a participarem ativamente como cidadãos plenos do país”
(BRASIL, 1999a, p. 2).
O fortalecimento de uma perspectiva emancipatória e cidadã dos indígenas têm
implicações fundamentais que a legislação busca contemplar, como pensá-los como sujeitos
que têm história, tradições, culturas, memórias, conhecimentos, etc. As Constituições anteriores
a de 1988, bem como o Estatuto do índio de 1973, pleiteavam a integração do índio à sociedade
através da incorporação à cultura nacional. Diferentemente dessa posição, as diretrizes políticas
pós-LDB de 1996 reconhecem e valorizam a cultura e as tradições culturais dos índios. Há,
portanto, uma visão positiva do papel da educação escolar visando ao fortalecimento das
comunidades indígenas e das suas identidades. É isso que as “diretrizes curriculares para o
funcionamento das escolas indígenas” estabelecem, no artigo 3º, ao definirem critérios para


a organização da escola indígena. Além da participação das comunidades, é preciso levar em
consideração:

Suas estruturas sociais; suas práticas sócio-culturais e religiosas; suas formas de pro-
dução do conhecimento, processos próprios e métodos de ensino-aprendizagem; suas
atividades econômicas; a necessidade de edificação de escolas que atendam aos interes-
ses das comunidades indígenas; o uso de materiais didático-pedagógicos produzidos de
acordo com o contexto sócio-cultural de cada povo indígena (BRASIL, 1999b).

Distintamente do que propunham as Constituições de 1946 e a de 1967, bem como a


LDB de 1961, considerando que o ensino primário deveria se efetivar na língua portuguesa,
as novas orientações fortalecem a educação bilíngue, dado que implica, entre outras coisas, na
formação de professores indígenas capacitados para alfabetizarem as crianças em sua língua
materna. Essa perspectiva de educação não é simples, demandando, pois, a necessidade de
envolvimento de várias instituições e forças sociais. Conforme o artigo 10º das diretrizes, “o
planejamento da educação escolar indígena, em cada sistema de ensino, deve contar com a
participação de representantes de professores indígenas, de organizações indígenas e de apoio
aos índios, de universidades e órgãos governamentais”.
Como parte dessa nova compreensão de educação indígena, o Parecer 14/99 e a
Resolução 03/99 destacam várias categorias, como é o caso de “Educação indígena” e de
“Escola indígena”. Segundo o Parecer 14/99, a educação indígena designa:

O processo pelo qual cada sociedade internaliza em seus membros um modo próprio
e particular de ser, garantindo sua sobrevivência e sua reprodução. Diz respeito ao
aprendizado de processos e valores de cada grupo, bem como aos padrões de rela-
cionamento social que são intronizados na vivência cotidiana dos índios com suas
comunidades. Não há, nas sociedades indígenas, uma instituição responsável por esse
processo: toda a comunidade é responsável por fazer com que as crianças se tornem
membros sociais plenos. Vista como processo, a educação indígena designa a maneira
pela qual os membros de uma dada sociedade socializam as novas gerações, objeti-
vando a continuidade de valores e instituições consideradas fundamentais (BRASIL,
1999a, p. 2).

Convém refletir que essa compreensão de educação como prática social precedeu,
historicamente, a presença da escola. Todas as sociedades construíram mecanismos de
socialização efetivados através de práticas educativas. No caso dos indígenas brasileiros, a
educação escolar passou a fazer parte da sua história após a colonização europeia. Como o
próprio parecer, recém referido, reconhece, esses processos ganharam diferentes dimensões,
desde a “imposição de modelos educacionais aos povos indígenas, através da dominação, da
negação de identidades, da integração e da homogeneização cultural, a modelos educacionais
reivindicados pelos índios, dentro de paradigmas de pluralismo cultural e de respeito e
valorização de identidades étnicas” (BRASIL, 1999a, p. 3). É o reconhecimento da pluralidade
étnica e cultural que se faz presente na Constituição de 1988 e é reafirmado pelas legislações
educacionais posteriores.


A educação escolar indígena não significa apenas adaptar os currículos e os períodos
letivos. Além disso, implica numa concepção de educação que envolve a formação de professores
indígenas que dominem as línguas maternas, a produção de material que contenha elementos
das tradições, histórias, memórias, experiências, etc. É isso o que refere o parecer 14/99 quando
postula que a educação diferenciada não pode se limitar ao uso da língua materna, mas é
“necessário incluir conteúdos curriculares propriamente indígenas e acolher modos próprios de
transmissão do saber indígena. Mais do que isso, é imprescindível que a elaboração curricular,
entendida como processo permanente de construção, se faça em estreita sintonia com a escola e
a comunidade indígena a que serve, e sob a orientação desta última” (BRASIL, 1999a, p. 18).
É indiscutível que as diretrizes para a educação indígena avançam no sentido de fortalecer
uma perspectiva voltada para dentro da história e da cultura indígena. No entanto, ao se pensar
numa educação intercultural, conforme proposição do Parecer 14/99 e da Resolução 03/99, é
necessário criar condições para um diálogo com o conhecimento produzido pela humanidade.
Essa questão não é fácil de ser resolvida, mas está posta no próprio Parecer 14/99 de uma forma
adequada.

Os conjuntos de saberes historicamente produzidos pelas comunidades, priorizados


no processo educativo entre alunos e professores, deverão compor a base conceitual,
afetiva e cultural, a partir da qual vai-se articular ao conjunto dos saberes universais,
presentes nas diversas áreas do conhecimento, estabelecendo o diálogo entre duas
naturezas e de significado social relevante, caso seja mediado por um processo de
ensino-aprendizagem de caráter crítico, solidário e transformador na ação educativa
(BRASIL, 1999a, p. 18).

O Parecer 14/99 (BRASIL, 1999, p. 4) reafirma essa posição ao considerar que a escola
indígena ganhou novo significado e sentido “como meio para garantir o acesso a conhecimentos
gerais, sem precisar negar as especificidades culturais e as identidades daqueles grupos”. Para
tanto, é imprescindível organizar um currículo capaz de articular conhecimentos e valores
socioculturais distintos, “sem a perda dos processos reflexivos e criativos, incluídos os hábitos,
costumes e princípios religiosos, constituindo-se como conteúdos dos conhecimentos escolares
e direito de acesso à cultura universal e, jamais, somente de obrigatoriedade legal” (BRASIL,
1999a, p. 24).

EDUCAÇÃO EMANCIPATÓRIA
Com base nas contribuições de Paulo Freire, especialmente na obra Pedagogia do
Oprimido, pretende-se aprofundar algumas implicações de uma educação emancipatória.
Conforme observações anteriores, as políticas de educação indígena pós-Constituição de 1988
apontam para uma perspectiva de emancipação. O que isso traz como implicações?
Freire (1981), entre outros educadores, argumenta que os processos históricos de
dominação deixam marcas profundas nas pessoas e nas instituições sociais. Consequentemente,
a tendência é um aprofundamento das relações de subordinação e de tutela.


Os oprimidos, que introjetaram a sombra dos opressores e seguem suas pautas, temem a
liberdade, na medida em que esta, implicando na expulsão desta sombra, exigiria deles
que preenchessem o vazio deixado pela expulsão, com outro conteúdo – o de sua auto-
nomia. O de sua responsabilidade, sem o que não seriam livres. A liberdade, que é uma
conquista e não uma doação, exige uma permanente busca (FREIRE, 1981, p. 35).

O que se observa é que muitas comunidades indígenas, pelo menos no sul do Brasil,
vivem o paradoxo apontado por Freire: a busca da libertação por parte de alguns grupos e o
desejo de permanecer na condição de tutelado ao Estado, nele, buscando não apenas os direitos
fundamentais assegurados em lei (saúde e educação), mas também alimentação, distribuída
através de cestas básicas. A liberdade, conforme assegura Freire, é uma conquista e exige esforço
da parte dos oprimidos para conquistá-la. Essa decisão é um pressuposto para a efetivação da
emancipação e da cidadania. Neste sentido, sublinha Freire, (1981, p. 57) que é fundamental,
para qualquer processo emancipatório, a consciência da vocação para ser sujeito: “os oprimidos,
nos vários momentos da sua libertação, precisam reconhecer-se como homens, na sua vocação
ontológica e histórica de ser mais”.
A perspectiva emancipatória torna-se complexa em decorrência das precárias condições
em que vivem muitas comunidades indígenas. A situação se agrava porque, em muitos casos,
as condições históricas e naturais de subsistência não existem mais. Daí, decorre a necessidade
de passar de um modo de produção da subsistência física (caça, coleta, pesca), para outras
formas que assegurem a sobrevivência física e simbólico-cultural. É importante destacar que há
situações em que esses processos estão ocorrendo, enquanto outros resistem em mudar. Cumpre
mencionar, ademais, que, no âmbito das comunidades indígenas, no sul do Brasil, existem
muitas disparidades internas, especialmente entre os Kaingang. Hoje, existem indígenas com
cursos de graduação e de pós-graduação lato e stricto sensu, enquanto outros permanecem
analfabetos; alguns incorporaram a lógica capitalista de produção e outros sobrevivem de
atividades esporádicas como diaristas; há os que desenvolvem agricultura mecanizada e outros
não têm terra para cultivar e sobrevivem da venda de artesanato; existem os que lutam pela
preservação das matas, ao mesmo tempo em que outros se associam a madeireiros. Esses poucos
exemplos evidenciam paradoxos de difícil solução.
As reflexões de Freire são importantes porque tratam de questões inerentes a qualquer
processo pedagógico crítico e emancipatório. Freire jamais romantizou os processos educativos
e nem simplificou sua proposta pedagógica. Pelo contrário, insiste na complexidade das
propostas pedagógicas que se proponham a superar as relações de opressão.

Os oprimidos, contudo, acomodados e adaptados, imersos na própria engrenagem da


estrutura dominadora, temem a liberdade, enquanto não se sentem capazes de correr
o risco de assumi-la. E a temem, também, na medida em que, lutar por ela, significa
uma ameaça, não só aos que a usam para oprimir, como seus proprietários exclusivos,
mas aos companheiros oprimidos, que se assustam com maiores repressões. (...) A
libertação, por isso, é um parto. E um parto doloroso. O homem que nasce deste parto
é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-
oprimidos, que é a libertação de todos (1981, p. 35-36).


A passagem da condição de tutela para a libertação exige, portanto, um duplo movimento:
assumir a condição de sujeito e ajudar na superação das práticas históricas que legitimaram
a opressão. Trata-se de um movimento voltado para dentro das comunidades indígenas e ao
mesmo tempo para a sociedade. Evidentemente que isso exige esforço e decisões radicais. Não
existe meia libertação: ou ela existe ou não.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao concluir o presente texto, persiste uma questão: como avançar efetivamente no
sentido das comunidades indígenas se assumirem como sujeito dos processos históricos? Isso
implica em assegurar as condições para uma educação emancipatória, conforme apregoam
as diretrizes políticas educacionais, garantir as condições de produção da sobrevivência,
superando a dependência do Estado, produzindo sínteses criativas entre os saberes tradicionais
das comunidades indígenas e os conhecimentos produzidos pela humanidade.
Os avanços nas políticas de educação indígena são inegáveis, no entanto, há que se
avançar também na construção e na ampliação de experiências que possibilitem a passagem da
condição de oprimido (tutelado) para emancipado. Não há como ser livre, enquanto persistem
práticas de tutela, mesmo que formalmente tenham sido superadas e que todas as condições de
sobrevivência sejam assumidas pelos próprios sujeitos. O discurso assistencialista pode encobrir
interesses e posturas pedagógicas não emancipatórias. Crer na capacidade das comunidades
indígenas se emanciparem efetivamente é condição para a concretização dos princípios
presentes nas políticas educacionais indígenas, formulados e aprofundados desde a década de
1980. Contudo, tal procedimento não é possível sem uma participação efetiva das comunidades
indígenas, mas num diálogo permanente com as instituições sociais, entre elas, o Estado, não as
considerando em condições de tuteladas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Acesso em: 13 ago. 2009.
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