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A SEGUNDA SIMONE DE BEAUVOIR1

Sylvie Chaperon
Tradução do francês: Carmem Cacciacarro

RESUMO
O artigo apresenta um comentário crítico sobre O segundo sexo (1949), de Simone de Beauvoir,
buscando inscrevê-lo no contexto histórico em que foi produzido e debatido. O principal foco
de abordagem da obra é o esclarecimento das contradições suscitadas pelo conflito ali presente
entre a visão naturalista acerca das mulheres, que mesmo refutada sempre retorna, e a pers-
pectiva sociológico-cultural, muitas vezes postulada insuficientemente.
Palavras-chave: Simone de Beauvoir; O segundo sexo; feminismo.

SUMMARY
This article offers a critical commentary on Simone de Beauvoir's Second sex (1949), placing
the book within the historical context within which it was produced and discussed. The
author's main focus seeks to elucidate the contradictions created by the conflict between a
naturalist view of women, which even though refuted always re-emerges, and the sociological-
cultural perspective, often postulated in an insufficient manner.
Keywords: Simone de Beauvoir; The second sex; feminism.

Querer trazer algo de novo sobre O segundo sexo é um desafio (1) Publicado originalmente
em Les Temps Modernes, nº
temerário. Tudo parece já ter sido escrito e uma vida inteira não seria 593, abril-maio de 1997.
suficiente para a leitura de todos os comentários feitos a seu respeito 2 . (2) Para se ter uma idéia dessa
massa de documentos, pode-
Modestamente, pretendo sobretudo inscrever o pensamento de Simone se consultar as seguintes bibli-
de Beauvoir em seu contexto histórico. Trata-se de submeter a obra a uma ografias: Bennet, Joy. Simone
de Beauvoir: an annotated bi-
grade de análise próxima àquela utilizada por Thomas Laqueur, que bliography. Nova York/Lon-
dres: Garland, 1988; Nordquist,
descreve a história do pensamento dos gêneros ou, se preferirmos, das Joan. "Simone de Beauvoir, a
bibliography". Social Theory,
ideologias de gênero 3 . Sem cair num esquema linear, ele aponta a relativa nº 23, 1991; além das publica-
ções trimestrais da revista Si-
preponderância de um pensamento diferencialista a partir do século XVIII mone de Beauvoir Studies. É
forçoso constatar que o inte-
que, reforçado pelos discursos médicos do século XIX, pressupunha os resse anglo-saxão por Simone
de Beauvoir é bem maior do
gêneros como profunda e naturalmente diferentes. Essa ideologia, que se que o da França.
tornou dominante, foi contestada pelas feministas do século XX. As teses (3) Laqueur, Thomas. La fabri-
de O segundo sexo, bem como o debate que suscitaram, representam um que du sexe. Essai sur le corps
et le genre en occident. Paris:
dos momentos altos dessa longa história de idéias, pois os anos 1950 e Gallimard, 1992. Ele mesmo se
inspira em trabalhos freqüen-
1960, ainda que permaneçam mal conhecidos, encerram uma grande temente mais militantes.
riqueza e variedade de reflexões acerca dos gêneros. A esse título,

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preparam a segunda onda feminista do Movimento de Libertação Femini-


na (MLF).
Simone de Beauvoir foi considerada mentora de um feminismo
radical, firme partidária de uma perspectiva sociológica e cultural. Admiti-
lo sem mais, porém, é fazer pouco caso do processo intelectual empreen-
dido por ela, cujos meandros e esforços permanecem presentes em O
segundo sexo sob a forma de esclarecedoras contradições. A maioria dos
comentadores, movida por uma legítima preocupação política, detém de
O segundo sexo apenas os argumentos ou passagens que se coloquem sob
o estandarte da famosa frase que se tornou slogan — "Ninguém nasce
mulher: torna-se mulher" —, deixando cuidadosamente de lado as passa-
gens mais ambíguas. Outros, menos favoráveis à autora, ressaltam por sua
vez os trechos em que Simone de Beauvoir manifesta uma, incontestável
misoginia, com o intuito de invalidar a obra, que, assim, não seria mais
que o triste fruto de uma neurótica incapaz de desoprimir sua feminilida-
de. De minha parte, proponho-me ao estudo das próprias contradições,
tomando-as como outros tantos traços deixados por um pensamento num
certo estágio de sua elaboração e num determinado momento histórico.
Não pretendo, portanto, fazer uma leitura sintética desta obra múltipla,
mas simplesmente seguir, página após página, uma de suas características
singulares, o que não anula nem desvaloriza nenhum de seus outros
numerosos aspectos mais bem conhecidos. Trata-se de ver o conflito,
presente na obra, entre o naturalismo, que mesmo refutado sempre
retorna de súbito, e uma vontade cultural obstinada, mas muitas vezes
impotente.
O comentário crítico que proponho deve muito aos avanços teóricos
propiciados pelo MLF; é, em suma, uma releitura pós-MLF de um texto
pré-MLF. As diferenças, os hiatos, os desvios produzidos por esse encon-
tro de dois tempos feministas mostram o quanto os movimentos sociais
são portadores de rupturas (inclusive epistemológicas). As falhas do
sistema beauvoiriano somente são desveladas porque numerosas discípu-
las superaram a mestra, o que é a maior homenagem que lhe poderia ser
prestada.
Antes de examinar em maiores detalhes esse fragmento da história
intelectual, porém, é preciso indicar brevemente os conceitos que permi-
tem abordá-lo.

O conflito entre duas concepções

De maneira um tanto simplificada, mas completamente heurística, a


história contemporânea do pensamento de gênero pode ser resumida no
conflito entre duas grandes tendências, que recobrem múltiplos avatares
e concorrem para explicar as diferenças observáveis entre os gêneros.
Uma delas pode ser chamada "naturalista", já que seu princípio causal

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reside, em última análise, na natureza (conceito, por sua vez, polimorfo);


a outra, oposta, pode ser dita "cultural", na medida em que procura
mecanismos explicativos unicamente na sociedade (quaisquer que sejam
as teorias sociológicas subjacentes). Essa clivagem é apenas um avatar do
debate entre natureza e cultura, ou entre o inato e o adquirido, que
obseda a época.
A primeira lógica postula diferenças consubstanciais aos sexos,
próprias de sua natureza, inatas, freqüentemente enraizadas no substrato
corporal, físico e biológico dos indivíduos, mesmo quando suas localiza-
ções precisas variam segundo as modalidades médicas (cérebro, hormô-
nio, cromossomo, gene etc.). A partir dessa base natural e material,
difunde-se uma série de efeitos em cadeia. Assim é que se diz, por
exemplo, que as psicologias masculina e feminina se estruturam a partir
de instintos diferentes: no primeiro caso, a agressividade, e no segundo,
o instinto maternal. As atividades divergentes dos sexos só fazem refletir
essa divisão em atitudes complementares (trabalho fora de casa e trabalho
doméstico, atividades produtivas e reprodutivas). Esse pensamento natu-
ralista, muito coerente, insere a causa primeira numa ordem natural, quer
ela seja materialista, darwinista, quer seja metafísica, deísta. Ele se impôs
de maneira verdadeiramente dominante somente no século XVIII, em
sincronia com as idéias acerca dos direitos naturais4. A partir de então, (4) Sobre este aspecto, além
da síntese de Laqueur (op. cit.)
esse conjunto discursivo se apresenta como uma evidência, não explica- vejam-se os trabalhos de Fran-
da, não questionada e partilhada por qualquer um. Chega, muitas vezes, ce de Colette Capitan, La na-
ture à l'ordre du jour 1789-
a preconizar a resignação ao legitimar o presente por meio de uma ordem 1793 (Paris: Kimé, 1993), e de
Geneviève Fraisse, Muse de la
imutável sobre a qual ninguém tem poder. Encontramos porém uma forte raison. La démocratie exclusi-
ve et la différence des sexes
corrente feminista que reivindica esse naturalismo, revalorizando o femi- (Paris: PUF, 1996).
nino.
Por oposição a essa primeira tendência se construiu um pensamento
sociológico ou cultural. A causa primeira, eficiente, provém desta vez da
sociedade, das relações sociais, qualquer que seja a concepção — existen-
cialista, funcionalista, estruturalista, marxista, de estudos de gênero ou
outras. As relações entre homens e mulheres produzem posições sociais
diferentes e hierarquizadas, cujo aprendizado e experiência imprimem
marcas sobre os comportamentos e as estruturas psíquicas de uns e
outros. Enfim, mais tardiamente, a reflexão mostra a incorporação dos
imperativos sociais, seus efeitos sobre o próprio corpo dos indivíduos
bem como sobre a percepção íntima que têm dele. Assim, demonstra-se
de um lado uma sexualização natural dos efeitos sociais: dos sexos
provêm os gêneros; e de outro uma sexualização social que penetra o
íntimo dos indivíduos: os gêneros informam os corpos e fabricam os (5) Não que eles sejam res-
sexos5. ponsáveis, é claro, pela exis-
tência dos órgãos genitais, mas
dos sexos, ou seja, uma repar-
A reflexão cultural elaborada pelos movimentos de contestação surge tição artificial dos indivíduos
a partir do naturalismo, e em luta contra ele, por meio de um processo em apenas dois grupos. Ver
Delphy, Christine. "Penser le
conflituoso em tudo parecido com a constituição de um novo saber. Essa genre: quel problèmes?". In:
Hurtig, M.-C. Kail, M. e Rouch,
tendência contém também, com freqüência, importantes resíduos biologi- H. (coords.). Sexe et genre de
la hiérarchie entre les sexes.
zantes e até mesmo misóginos. É preciso portanto evitar uma visão por Paris: CNRS, 1991, pp. 89-101.

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demais simplista e otimista do advento desse novo conhecimento (e das


perspectivas políticas que ele abre), já que ainda se mantém ligado ao
antigo e maculado por ele. A análise de Gaston Bachelard sobre o pensa-
mento científico aplica-se perfeitamente ao esforço laborioso que as femi-
nistas empreenderam para se desvincular do pensamento comum 6 . (6) Busquei desenvolver esse
paralelo em: Chaperon, Sylvie.
Esses dois eixos interpretativos das diferenças de sexo não existem "Femme, objet non identifié;
analyse épistémologique du fé-
em estado puro. A mudança somente se produz na ambigüidade e na minisme". Les Temps Modernes,
nº 487, fevereiro de 1987.
ambivalência. Aliás, o vocabulário é o mesmo nos dois casos: as palavras
"homens", "mulheres", "sexos" podem ser utilizadas com os mais diferentes (7) Aproximo-me assim à posi-
ção expressa por Naomi Schor
sentidos segundo o ponto de vista adotado. Isso favorece as confusões e os em seu estimulante artigo "Cet
essencialisme qui n'(en) est pas
deslizes entre um pensamento e outro, daí o uso de novas expressões, un: Irigaray à bras le corps".
Futur Antêrieur (suplemento
como "gênero" ou "relações sociais entre os sexos", que procuram romper "Féminisme du présent"). Pa-
ris: L'Harmattan, 1993. Aí ela
com o naturalismo de que se impregnam os outros termos. Além disso, observa que "o essencialismo
desempenha o mesmo papel
feminismo e misoginia podem se alojar numa ou noutra tendência. para o feminismo que o revisi-
onismo [...] para o marxismo-
Certamente o antifeminismo se legitima pelos argumentos biológicos e, leninismo: é a linguagem do
inversamente, a posição sociológica é sustentada por aquelas que reivin- terrorismo cultural e o instru-
mento privilegiado da ortodo-
dicam para si o feminismo. Mas também sempre existiu um autêntico xia política" (p. 87), e em se-
guida assinala "a urgência de
feminismo essencialista e os mais radicais dos antiessencialistas podem cair se repensar os termos de um
conflito que — todas as partes
numa certa misoginia. Escolhi, pois, privilegiar as contradições, os parado- concordam — deixou de ser
positivo" (p. 88). Com efeito,
xos, as ambivalências, que me parecem ser a fonte do dinamismo da se o conflito deixou de ser
produtivo, significa que o diá-
subversão 7 . logo terminou dando lugar ao
dogmatismo, processo clássi-
Com muita freqüência, um só e mesmo autor incorpora esses co na história das idéias. Mas o
diálogo predomina amplamen-
diferentes aspectos, e cada qual "ajeita" sua teoria a partir de pedaços te nas décadas que precede-
ram o MLF.
tomados cá e lá. Portanto, não há nem verdade nem ciência nesse campo,
somente crenças e vontade de crer. E, como diz Thomas Laqueur, o
"discurso da diferença sexual ignora o entrave dos fatos e permanece tão
livre como um jogo de adivinhação"8. É preciso lembrar ainda que esse (8) Laqueur, op. cit., p. 282.
jogo implica riscos políticos importantes, porquanto diz respeito a nada
menos do que a definição dos homens, das mulheres e de suas relações.
Por todos esses riscos, O segundo sexo desempenhou um papel pioneiro (9) As citações do livro foram
extraídas da tradução de Sér-
e instigador. gio Milliet: O segundo sexo (2
vols., 2a ed.). Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1980. Elas apa-
recem seguidas da indicação
do volume e da página desta
edição [N. T.].
Natureza e sociedade em O segundo sexo
(10) Simone de Beauvoir apóia-
se notadamente em Hegel: "Ser
é ter-se tornado, é ter sido feito
tal qual se manifesta" (I, 18).
O segundo sexo9 repousa sobre princípios rigorosos e muito clara-
(11) O conceito de situação é
mente culturais que podem ser lembrados brevemente. Muitos postulados central para Simone de Beau-
voir. Muitos pesquisadores
beauvoirianos implicam uma ruptura profunda com o pensamento natura- mostraram como O segundo
sexo se distancia sensivelmen-
lista. Em primeiro lugar, a concepção do humano como ser definido e te do existencialismo de Sartre.
A primeira a fazê-lo foi Fran-
construído por ele mesmo impossibilita a visão de um determinismo çoise D'Eaubonne, em Le com-
natural10. O mesmo se dá com a liberdade, colocada no topo dos valores plexe de Diane (Paris: Julliard,
1951). Segundo Michèlle Le
morais. Em segundo lugar, a importância constitutiva das relações interpes- Doeuff (L'etude et le rouet. Pa-
ris: Seuil, 1989), Simone de
soais na formação do indivíduo contradiz a perspectiva essencialista. Enfim, Beauvoir recusa o sujeito todo-
poderoso em nome de uma
o estudo do humano, não de forma abstrata, mas sempre em situação11, liberdade sempre delimitada
por uma determinada situação
anula igualmente qualquer pretensão a uma essência corporal. social.

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Uma clara perspectiva cultural

Mais que a originalidade ou a pertinência dessas hipóteses, é a siste-


maticidade com que elas são introduzidas que torna O segundo sexo tão
temido pela ideologia naturalista. Todo construído com base na recusa às
suas premissas, o livro funciona como uma obstinada máquina de guerra,
minando página após página o fundamento das opiniões mais correntes,
encurralando nos menores recantos as tentações essencialistas, não hesi-
tando em martelar sua verdade a fim de fazê-la entrar na cabeça do leitor
ou leitora: "As condutas que se denunciam não são ditadas à mulher pelos
seus hormônios nem prefiguradas nos compartimentos de seu cérebro; são
marcadas pela sua situação" (II, 363); "Diga-se mais uma vez: para explicar
suas limitações [da mulher], é portanto sua situação que cabe invocar, e não
uma essência misteriosa" (II, 482); "Cumpre repetir mais uma vez que nada
é natural na coletividade humana e que, entre outras coisas, a mulher é um
produto elaborado pela civilização" (II, 494).
Assim, a propósito da biologia, da qual se conhece a farta prolixidade
para justificar as diferenças de gênero, Simone de Beauvoir é incisiva: "o
que recusamos é a idéia de que [os preceitos biológicos] constituem um
destino imutável para a mulher" (I, 52). Ela aplica obstinadamente essa
firmeza ao longo de toda a obra. O biológico só é válido pela maneira como
é apreendido pelos indivíduos: "Vê-se que, se a situação biológica da
mulher constitui um handicap, é por causa da perspectiva em que ela se
apreende" (II, 70); por exemplo, "é em grande parte a angústia de ser
mulher que corrói o corpo feminino" (II, 70), e não a sua constituição. E
reafirma: "A mulher não é vítima de nenhuma fatalidade misteriosa; as
singularidades que a especificam tiram sua importância da significação de
que se revestem" (II, 496). Ela consegue portanto realizar uma inversão de
perspectiva, substituindo a explicação física pela das relações sociais —
relações de um indivíduo com os outros, com o mundo e com seu próprio
corpo: "A mulher não se define nem por seus hormônios nem por
misteriosos instintos e sim pela maneira por que reassume, através de
consciências estranhas, o seu corpo e sua relação com o mundo" (II, 494).
Toda essa inversão se expressa de forma igualmente clara com relação ao
corporal, não pertinente em si, mas cujo sentido é construído socialmente:
"a situação não depende do corpo, ele sim depende dela" (II, 460).
De forma muito lógica, ela derruba todos os preconceitos de seu
tempo e assim abre os caminhos que serão percorridos pelas novas femi-
nistas dos anos 1960 e 1970: "não há nenhum instinto maternal inato e
misterioso" (I, 307), e a boa mãe não passa de um mito: "A atitude da mãe
é definida pelo conjunto de sua situação e pela maneira por que a assume"
(II, 278). Para ela, o homossexualismo não é o fruto de um desregramento,
mas "uma atitude escolhida em situação" (II, 164). Quanto aos problemas
da menopausa, "é principalmente a situação psicológica que [os] comanda"
(II, 349). Além disso, ela mostra a armadilha daquelas palavras que sempre

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carregam preconcepções: "Quando emprego as palavras 'mulher' ou 'femi-


nino' não me refiro evidentemente a nenhum arquétipo, a nenhuma
essência imutável; após a maior parte de minhas afirmações cabe subenten-
der: 'no estado atual da educação e dos costumes'" (II, 7).
Infindáveis seriam as provas de sua diligência. Lá onde o pensamento
comum enxergava apenas destinos naturais ela revela a imensa complexi-
dade das experiências humanas, e sua pena afiada esboça os traços
contraditórios, infinitamente variáveis, das vidas femininas encerradas em
suas estreitas situações.
Sobretudo, sua análise culturalista penetra mais fundo onde em geral
seus contemporâneos não se aventuraram: nos psiquismos, nas relações
amorosas e mesmo sexuais. Temas considerados tabus, como aborto e
violências sexuais, são tratados sem condescendência. Ela é uma das
primeiras a mostrar o sexismo dos estudos freudianos e a recusar a inveja
do pênis, que "resulta de uma valorização prévia da virilidade. Freud a
encara como existente quando seria preciso explicá-la" (I, 63). Ela mesma
consagra algumas páginas acerca de sua origem (I, 391 ss.) e empenha-se
outro tanto em demonstrar as causas sociais do masoquismo feminino: "O
Complexo de Electra não é, como ele [Freud] pretende, um desejo sexual;
é uma abdicação profunda do indivíduo que consente em ser objeto na
submissão e na adoração" (II, 29). Além disso, "a mulher sente-se diminuída
porque, em verdade, as determinações da feminilidade a diminuem" (II,
148). Na relação amorosa, assim como em outras, as divergências não são
inatas, pois "não é de uma lei da natureza que se trata. É a diferença de suas
situações que se reflete na concepção que o homem e a mulher têm do
amor" (II, 42). Mesmo os comportamentos sexuais, tão comumente apreen-
didos como naturais (até mesmo animais), não são poupados por sua
análise obstinada: "A diferença nada tem de natural [...], ela vem do
conjunto da situação erótica do homem e da mulher, tal qual a tradição e
a sociedade a definem" (II, 321), visto que a sexualidade "nunca se nos
apresentou como definindo um destino [...], mas sim como exprimindo a
totalidade de uma situação que contribui para definir" (II, 496). Assim, por
exemplo, "a mulher só se sente tão profundamente passiva no ato amoroso
porque já então se pensa como tal" (II, 496). E todo O segundo sexo
demonstra infatigavelmente como a educação, os preconceitos, as tradi-
ções, os papéis esperados de cada um conduzem pouco a pouco à
construção desse segundo sexo reprimido de todas as formas. Ele descreve
o que em termos modernos denominaríamos a incorporação das normas
sociais ou a constituição dos "habitus".
Compreende-se assim que Simone de Beauvoir tenha se tornado a
líder do feminismo antiessencialista. Seu volumoso tratado parece de uma
rara coerência, inteiramente imbuído de uma vontade implacável de acabar
de vez com o eterno feminino, tanto que ela jamais deixará de defender
essa posição e mesmo reforçá-la com o decorrer dos anos.
Essa homogeneidade, contudo, é apenas ilusória. Paradoxalmente, o
caráter implacável da determinação cultural de Simone de Beauvoir eviden-

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cia os resíduos naturalistas que seu pensamento carrega. É como se ela fosse
incapaz de aplicar, em toda a sua extensão, o princípio que ela mesma se
fixou; como se as zonas sombrias permanecessem inacessíveis à sua própria
clareza, representando ângulos mortos na acuidade do seu pensamento.

Os últimos refúgios do natural

O objetivo de O segundo sexo é muito simples: uma vez recusadas


todas as explicações dos gêneros dadas pela natureza, é preciso empreen-
der uma interpretação sociológica e existencialista, o que é feito em dois
volumes, correspondentes, grosso modo, a dois tempos: o da filogênese e
o da ontogênese.
Simone de Beauvoir retoma, após muitos outros autores, um esquema
que se pode dizer típico do historicismo do pensamento moderno, que
consiste em ver a história da humanidade na escala de uma vida humana,
caminhando em direção do progresso e da maturidade segundo um
processo linear e cumulativo12. As grandes características do presente (12) Para uma história desse
modelo moderno, bem como
encontram suas origens na infância da humanidade, a saber, nas sociedades de sua falência, ver Touraine,
Alain. Critique de la moderni-
à época chamadas "primitivas". Assim, Simone de Beauvoir produz sua té. Paris: Fayard, 1992.
própria "cena original" na qual a derrota feminina foi representada. Essas
"robinsonadas" (segundo a expressão de Marx, que já as havia desengana-
do) dão a entender mais sobre a época à qual recorrem do que sobre uma
pré-história para sempre desconhecida. Isso mostra como Simone de
Beauvoir partilha, tal qual muitos outros de seu tempo, de uma visão
psicologizante da história.
Aonde vão dar, então, aqueles primeiros passos da humanidade? Após
destacar as insuficiências de Bachofen e de Engels, Simone de Beauvoir dá a
sua própria versão. Retomando os princípios sartrianos — "Já verificamos
que, quando duas categorias humanas se acham em presença, cada uma
delas quer impor à outra sua soberania" (I, 81) —, ela se pergunta por que o
homem saiu vencedor desse combate inelutável. Poder-se-ia considerar a
questão mal formulada desde logo (segundo as próprias exigências beau-
voirianas). De fato, se antes mesmo do início da civilização havia duas
categorias humanas, logo os sexos precedem os gêneros. Logicamente,
segundo a inversão operada por Simone de Beauvoir, são os gêneros (ou
seja, homens e mulheres socialmente construídos) que informam os corpos e
lhes dão sentido, notadamente ao classificá-los em duas categorias definidas,
em dois sexos. Mas é levar longe demais o anacronismo; não se pode ler
O segundo sexo à luz dos avanços teóricos muito posteriores ao seu tempo.
Visivelmente, a lógica de Simone de Beauvoir não vai tão longe na
substituição dos sexos pelos gêneros. É portanto conveniente circunscrever
os limites dessa inversão.
A fissura surge na resposta à sua questão, que não é anódina: ela se
apresenta como "a chave de todo o mistério" (I, 84) e a autora, retoman-

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do-a na Conclusão, confirma-a como explicação central13. Ora, ela contém (13) Não partilho, pois, da in-
terpretação de Michèle Le
uma boa dose de biologismo. Com efeito, a natureza parece tão injusta Doeuff, que vê aí uma "aporia
explicativa": "Eu apostaria que
que dota desigualmente os homens de privilégios e as mulheres de Simone de Beauvoir, ela mes-
handicaps: "Desde a origem da humanidade, o privilégio biológico per- ma, não acreditou na 'chave'
que propôs e isso produziu
mitiu aos machos afirmarem-se como os únicos soberanos", enquanto as sua atenção minuciosa à rede
polimorfa das limitações im-
mulheres permaneciam na retaguarda, visto que "engendrar, aleitar não postas às mulheres: a vida co-
tidiana é tão rigorosamente
são atividades, são funções naturais; nenhum projeto nelas se empenha. esquadrinhada que a sujeição
das mulheres deve ser rein-
Eis por que nelas a mulher não encontra motivo para uma afirmação altiva ventada a cada instante" (Le
Dceuff, op. cit., p. 134). Minha
de sua existência: ela suporta passivamente seu destino biológico" (I, 83). posição é outra: em vez de
querer pôr coerência onde ela
Simone de Beauvoir diz assim, claramente, que certas ações femininas são talvez não exista, fio-me no
que me podem ensinar as pró-
em essência naturais e não sociais. O argumento lhe parece tão evidente prias contradições.
que é imposto e abundantemente repetido tal qual mesmo quando
contradiz toda a sua posição. "A razão está em que a humanidade não é
uma simples espécie natural: ela não procura manter-se enquanto espécie;
seu projeto não é a estagnação: ela tende a superar-se" (I, 83). Não se
pode imaginar maior desvalorização da maternidade, com toda a dimen-
são humana sendo-lhe retirada: "Não é dando a vida, é arriscando-a que
o homem se ergue acima do animal" (I, 84). O ventre fecundo das
mulheres consagra-as, ipso facto, à própria repetição, à pura reprodução,
enquanto o ventre estéril dos homens lhes permite o projeto, a criação, a
transformação. Como se dar à vida não fosse também abrir o futuro, como
se o trabalho jamais pudesse ser também uma morna repetição. Os
homens, portanto, tomaram o poder naturalmente e mais: para o grande
bem da humanidade "a desvalorização da feminilidade foi uma etapa
necessária de evolução humana" (II, 488), permitindo-lhe assim dedicar-
se à vontade, à transcendência. Não se pode deixar de ver aí uma analogia
com o pai que introduz a lei e separa o casal fusional, e necessariamente
regressivo, da mãe e da criança na teoria freudiana. Ainda que se conceba
essa pré-história revisitada como uma tela branca onde se projetam os
fantasmas de uma época, essas tantas páginas são prodigiosas. Vê-se nelas
o masculino elevado a um pedestal grandioso; o homem conquista
orgulhosamente o mundo todo — "dilatou-lhe as fronteiras, lançou as
bases de um novo futuro" (I, 84) —, enquanto o mundo feminino, con-
fundido com a maternidade, "se perpetua quase sem modificação através
dos séculos" (I, 83). Por diversas vezes Simone de Beauvoir mostra as
mulheres por detrás das luzes, da racionalidade, dos progressos da
humanidade, como grilhões atados aos tornozelos desses homens a
marchar, eles sim, rumo à modernidade (II, cap. 4, sobretudo). Apesar de
seu cuidado, ela utiliza com bastante freqüência os termos "homem",
"mulher" e "sexo" sem subentender "no estado atual da educação e dos
costumes", como nesta passagem: "Nem sempre houve proletários; sem-
pre houve mulheres. Elas são mulheres em virtude de sua estrutura
fisiológica" (I, 13); ou ainda: "a divisão dos sexos é, com efeito, um dado
biológico e não um momento da história humana" (I, 13). Ocorrem por-
tanto aqui e ali um resvalamento e uma possível confusão entre os dois
conceitos evocados anteriormente.

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E quanto à ontogênese? As mesmas observações se impõem: Simone


de Beauvoir revela-se incapaz de aplicar até o fim seu próprio projeto.
Comentou-se muito, e com razão, o sombrio retrato que ela pinta da
condição física das mulheres 14 . Uma vez passada a fase abençoada da (14) Ver Simone de Beauvoir
Studies, 7(1), 1983.
infância, e até os tormentos da menopausa, tudo se conjuga para martirizar o
corpo feminino: regras dolorosas, maternidades patológicas, frigidez obse-
dante15, menopausas dramáticas etc. O mais importante aqui, porém, não é a (15) A obra de Stekel, La fem-
me frigide (1937), inspira nu-
extensão dessa terrível morbidez, mas o papel que ela desempenha em seu merosas passagens.
sistema explicativo dos gêneros e o fato de que esse ponto permanece
sobejamente impermeável aos princípios reivindicados pela autora. Os
obstáculos surgem sobretudo em três terrenos: o dos corpos femininos (em
particular no que diz respeito à maternidade), o da sexualidade e o da
psicanálise.
É a propósito da fisiologia feminina que Simone de Beauvoir mais
apela para a concepção naturalista. Ela encerra o corpo feminino numa
natureza aflitiva ditada pelas maternidades. Dessa forma, a mulher (mas
não o homem) é dividida entre sua individualidade, que aspira à liberdade,
e as leis biológicas, que lhe impõem as pesadas obrigações da reprodução.
"A individualidade da fêmea é combatida pelo interesse da espécie. Ela
aparece como possuída por forças estranhas, alienadas" (I, 45), diz ela, e
mais adiante exagera: "A mulher é adaptada às necessidades do óvulo mais
do que à sua própria" (I, 48). Todo esse primeiro capítulo descreve tal
batalha desde as primeiras até as últimas regras: na puberdade o organismo
se revolta, já que "não é sem resistência que o corpo da mulher deixa a
espécie instalar-se nela" (I, 47); em seguida, "é comum que a cada mês a
mulher passe por um estado de semi-alienação" (II, 67). Já a mulher grávida
conhece as turbulências que "manifestam a revolta do organismo contra a
espécie que dele toma posse" (I, 50); esse "conflito espécie-indivíduo [...]
no parto assume um aspecto dramático" (I, 50). Por fim, é pela difícil crise
da menopausa que "a mulher acha-se libertada da servidão da fêmea"
(I, 51). Essa natureza que aliena e possui as mulheres não poderia trazer (16) No capítulo sobre a moça
ela analisa a maneira pela qual
nada de positivo e agradável, de modo que a mulher deve lutar contra seu percebe suas primeiras regras,
que são qualificadas de "acon-
corpo para aceder à humanidade 16 . A alienação, portanto, não é social, mas tecimento vergonhoso", "sujo"
(II, 50 ss.). Mais adiante, a
natural. Importantes desigualdades existem por parte da natureza e todo propósito da excitação sexual
esse capítulo realiza uma comparação entre o homem e a mulher, tomando feminina, a descrição atinge o
macabro: "Se a carne ressuma
o primeiro como modelo de referência: "A mulher, como o homem, é seu — como um muro velho ou
um cadáver — a impressão
corpo, mas seu corpo não é ela, é outra coisa" (I, 49). Com freqüência, a não é de que está emitindo um
líquido e sim de que se está
libertação das mulheres parece também supor uma verdadeira amputação liquidificando: é um processo
de decomposição que causa
somática, ou ao menos uma transformação dos corpos em razão dos horror" (II, 125), enquanto "o
sexo do homem é limpo e
progressos médicos, já que "elas encerram um elemento hostil: é a espécie simples como um dedo" (II,
124). Certamente Simone de
que as corrói" (I, 51). As mulheres devem se libertar de seu próprio corpo, Beauvoir não pretende afir-
já que ele é subjugado pela espécie. Para Simone de Beauvoir, o progresso mar com isso uma verdade e
sim mostrar a maneira como
nas condições das mulheres é explicado sobretudo por um recuo do poder os indivíduos se apreendem.
No entanto é preciso uma aten-
da natureza ante as novas técnicas da medicina. ção complacente ao se ouvir
uma afirmação desse gênero.
Entretanto, o conflito indivíduo-espécie que corre ao longo desse É nesse tipo de metáfora do
líquido que a analogia com
capítulo afirma tanto a alienação biológica das mulheres quanto a sua Sartre mais se afirma.

JULHO DE 2000 111


A SEGUNDA SIMONE DE BEAUVOIR

revolta. A contradição, pois, permanece aberta: "é ela, entre todas as fêmeas
de mamíferos, a que se acha mais profundamente alienada e a que recusa
mais violentamente esta alienação; [...] dir-se-ia que seu destino se faz tanto
mais pesado quanto mais ela se revolta contra ele, afirmando-se como
indivíduo" (I, 52).
A despeito de sua vontade, Simone de Beauvoir não logra extirpar o
biologismo da psicanálise. Viu-se, é certo, que ela recusa a interpretação
freudiana da inveja do pênis, mas o que propõe lhe é estranhamente
semelhante. Ela começa por postular uma tendência existencial no sujeito
que, assustado com sua liberdade, se refugia nos objetos; depois observa
que "o pênis é singularmente indicado a desempenhar, para o menino, o
papel de 'duplo'" (I, 68), enquanto, "privada desse alter ego, a menina não
se aliena numa coisa apreensível, não se recupera; em conseqüência, ela é
levada a fazer-se por inteira objeto, a por-se como o Outro" (I, 69). Tudo
parece ser uma questão de anatomia entre os que têm e os que não têm, e,
como Freud, ela não se desvencilha da "valorização prévia" da genitália
masculina, afirmando por exemplo que o homem, ao contrário da mulher,
"possui uma anatomia erótica que a ereção manifesta claramente" (II, 18).
Mais adiante, retomando a questão, é a boneca que, desta vez, desempenha
o papel desse pênis decididamente insubstituível (I, 301). E da boneca para
o bebê é somente um passo. A interpretação existencial é, pois, paralela à
freudiana: a mulher é definida por um defeito original: "a ausência do pênis
a impede de se tornar presente a si própria enquanto sexo" (I, 69).
A respeito do corpo-a-corpo amoroso, as hesitações do pensamento
beauvoiriano são também esclarecedoras. Ela trata o tema com sua habitual
franqueza no capítulo "A iniciação sexual" (II)17. Seu pensamento oscila de (17) Este capítulo foi prelança-
do em Les Temps Modernes e
um parágrafo a outro e sem dúvida aqui, mais do que em outro lugar, a causou um enorme escândalo,
o que é suficiente para provar
ambivalência se faz presente. Observa-se um pensamento que procura que seu pensamento, por mais
contraditório que seja, não é
indefinidamente renegar o naturalismo, mas que a ele sempre retorna. menos avançado em relação
aos dos seus contemporâneos.
Aqui, segundo a autora, o conflito que aflige a mulher é o que existe entre
atividade e passividade e que se encarna na sexualidade feminina com a
dualidade dos prazeres clitoridiano ou vaginal. A idéia não é nova, mas
Simone de Beauvoir lhe dá sua própria interpretação. No ato sexual as
mulheres novamente se encontram "na dependência do macho e da
espécie"; "ele é que desempenha o papel agressivo, ao passo que ela
suporta o amplexo" 18 (II, 111). Essa passividade, porém, é ao mesmo tempo (18) Ela acrescenta que a pene-
tração "constitui sempre uma
aceita como natural e combatida por Simone de Beauvoir, que se recusa a espécie de violação" (II, 110).
vê-la como uma fatalidade19. Na adolescente virgem, diz ela, "sobrevive o (19) "Recusando a passivida-
de, [a mulher] destrói o feitiço
erotismo agressivo da infância; seus primeiros impulsos foram preensivos que a conduz ao prazer" (II,
e ela ainda tem o desejo de abraçar, de possuir" (II, 114). Entretanto logo 460). A idéia da passividade
feminina na sexualidade não
recai no determinismo anatômico ao afirmar que "ela não tem os meios de era colocada em dúvida antes
dos anos 1960, quando então
possuir[...]: sua anatomia condena-a a permanecer inábil e impotente como começou a ser questionada.
Os discursos sobre a prática da
um eunuco. O desejo de posse aborta na falta de um órgão em que possa sexualidade podem ainda con-
ter desvios; uma história das
encarnar-se" (II, 116). A seguir atenua essa passividade, que "não é pura práticas sexuais, ainda que di-
fícil, ainda está para ser escrita.
inércia" (II, 116), para então restaurar toda a autonomia à mulher: "fazer-
se objeto, fazer-se passiva não é a mesma coisa do que ser um objeto

112 NOVOS ESTUDOS N.° 57


SYLVIE CHAPERON

passivo" (II, 117). A contradição também parece se resolver quando a


mulher reconquista "sua dignidade de sujeito transcendente e livre, assu-
mindo sua condição carnal" (II, 142). Assim é preciso que a mulher se
submeta de livre vontade à sua natureza, ou seja, que aceite ativamente sua
passividade ontológica, formulação paradoxal que afirma a liberdade mas
não suprime o destino.
Vê-se então que, por maior que seja a intenção de fugir ao determi-
nismo, Simone de Beauvoir jamais o consegue totalmente. Ela não pode se
libertar inteiramente da ideologia dominante. O revolucionário, o crítico
fazem-se acompanhar freqüentemente do conformismo e da fidelidade ao
pensamento dominante; as maiúsculas, a imanência e a transcendência
colocam-se então a serviço dos lugares-comuns, e até mesmo do ultrapas-
sado. É preciso pois constatar que Simone de Beauvoir, apesar de toda a
determinação que possui, nem sempre consegue se desvencilhar dos
conceitos que combate. Os ferrolhos, os bloqueios permanecem e é
importante constatar que eles impedem o acesso ao mais íntimo do corpo
das mulheres: inconsciente, maternidade, sexualidade.

O sujeito e o universal

Recentemente, dois artigos que colocaram em questão as noções de


sujeito e universal em Simone de Beauvoir chegaram a conclusões diametral-
mente opostas 20 . Para Naomi Schor, ela retoma o sujeito todo-poderoso (20) Schor, op. cit; Kruks, Sô-
nia. "Genre et subjectivité: Si-
forjado por Sartre, sujeito prometéico lutando até a morte contra o "em si". mone de Beauvoir et le fémi-
nisme contemporain". Nouvel-
Sônia Kruks sustenta, ao contrário, que ela desenvolve uma posição original, les Questions Féministes, 14(1),
1993.
desvinculada da de Sartre assim como isenta dos vieses pós-modernistas:
"Ao considerar as mulheres como sujeitos 'em situação', Simone de Beauvoir
pode ao mesmo tempo levar em conta o peso da construção social, inclusive
do gênero, na formação do eu e recusar reduzi-lo a um 'efeito'". De minha
parte, mesmo reconhecendo plenamente o interesse dos dois trabalhos, não
me inclino por nenhuma dessas interpretações. Acredito, mais simples-
mente, que Simone de Beauvoir não chega a fazer a síntese das duas
tendências que a inspiram. Com efeito, ela entregou-se a uma tarefa árdua.
Seu ponto de vista requer uma fusão entre o marxismo, que lhe permite
desenvolver a noção de situação, e o existencialismo, que, ao contrário,
postula a liberdade total do sujeito. Essa síntese dificilmente se sustenta, o
que somente mais tarde ela perceberá: "para defender minha posição ser-
me-ia necessário abandonar o terreno da moral individualista e, portanto,
idealista em que nos situávamos"21. Aliás, a filosofia existencialista fornece (21) Beauvoir, Simone de. La
force de l'âge. Paris: Gallimard,
um quadro que se adapta muito mal ao seu projeto, conforme já foi 1960, p. 448.
sublinhado diversas vezes 22 . (22) Para um comentário críti-
co da filosofia de Sartre e de
A análise marxista, ou pelo menos marxizante, da sociedade permite a sua interpretação beauvoiria-
na, ver Le Doeuff, op. cit.
Simone de Beauvoir demonstrar a construção social das mulheres. Em várias
passagens de O segundo sexo elas são apresentas sem qualquer margem de

JULHO DE 2000 113


A SEGUNDA SIMONE DE BEAUVOIR

liberdade: tornaram-se o produto da situação que as criou. Seu eu não passa


de um efeito de sua dominação. Elas são criações artificiais: "a mulher é um
produto elaborado pela civilização" (II, 494); "é o conjunto da civilização que
elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que
qualificam de feminino" (II, 9). É a alienação encarnada, sem nenhuma
margem de manobra: "Ela não tem domínio, nem sequer em pensamento,
sobre essa realidade que a cerca" (II, 364). Jamais puderam agir sobre o curso
da história: "A ação das mulheres nunca passou de uma agitação simbólica;
só ganharam o que os homens concordaram em lhes conceder; elas não
tomaram; elas receberam" (I,13); "toda a história das mulheres foi feita pelos
homens, [...] nunca as mulheres lhe disputaram esse império" (I, 16). E
mesmo o feminismo jamais foi um "movimento autônomo" (I, 168). Enfim,
Simone de Beauvoir não apenas estuda a ideologia da feminilidade como a
crê encarnada. "A Mulher" não é uma visão do espírito: ela existe realmente,
fez-se carne e espírito e é essa marionete manipulada pelos discursos que
depois Michel Foucault esquadrinhará.
Para tanto, porém, ela não renuncia à tradição liberal, levada a seu
extremo por Sartre, segundo a qual o sujeito é fundamentalmente livre. Em
conseqüência disso as mulheres são às vezes apresentadas como responsá-
veis por sua situação: "O homem que constitui a mulher como Outro
encontrará nela profundas cumplicidades [...], muitas vezes, ela se compraz
no seu papel (I, 23); "ela chafurda na imanência" (II, 363); "renuncia pois
a criticar, a examinar, a julgar por sua conta. Confia na casta superior" (II,
366). Em diversas passagens, homens e mulheres carecem igualmente de
razão, têm tanto benefícios quanto prejuízos, notadamente no último
capítulo, "A caminho da libertação": "essa guerra não beneficia ninguém";
"cada campo é cúmplice do inimigo" (II, 488). Mas essa concepção do
sujeito prometéico floresce sobretudo nas descrições do masculino. De
maneira geral, pode-se notar uma verdadeira supervalorização dos homens
em toda a obra. Eles não são o produto da sociedade, uma vez que a
produzem, representam a liberdade encarnada, a transcendência em ação,
o mais alto estágio da humanidade. Ela glorifica todas as características da
virilidade, inclusive o uso da violência: "A violência é a prova autêntica da
adesão de cada um a si mesmo, às suas paixões, à sua própria vontade" (II,
69). Curiosamente, se a feminilidade é artificial, a masculinidade é autênti-
ca; o inimigo portanto é a primeira e não a segunda, que, ao contrário,
figura como modelo a ser imitado: "Essa disputa [de sexos] durará enquanto
os homens e as mulheres não se reconhecerem como semelhantes, isto é,
enquanto se perpetuar a feminilidade como tal" (II, 488). Ela também
conclui, logicamente, que "será assimilando-se a eles que ela se libertará"
(II, 483). Preconiza pois, claramente, a imitação do menino pela menina, do
adolescente pela adolescente, do esposo pela esposa, do pai pela mãe, etc.
(II, 494 ss.). Nada da feminilidade poderia ser conservado. O segundo sexo
termina, então, com um apelo à fraternidade, cabendo às mulheres reunir
os valores pelos quais os homens lutam. Em Simone de Beauvoir não há
praticamente distinção entre o masculino e o universal.

114 NOVOS ESTUDOS N.° 57


SYLVIE CHAPERON

Mas é possível também encontrar a expressão mais dialética desse


sujeito em situação, conforme destaca Sônia Kruks. Sua formulação mais
elaborada está na Conclusão: "A mulher se define [...] pela maneira por que
reassume, através de consciências estranhas, o seu corpo e a sua relação com
o mundo" (II, 494). As relações sociais ("as consciências estranhas") são
portanto constitutivas da personalidade (inclusive na percepção do corpo),
sem por isso denegar a margem de liberdade de cada indivíduo, que
reelabora ("reassume") essa influência. Essa concepção tão interessante não
é porém adotada sistematicamente por sua criadora, embora se possa
encontrá-la em outras passagens. Ela enriquece, por exemplo, os capítulos
sobre a moça (II), a mãe (II) ou ainda o da maturidade à velhice (II), em que
Simone de Beauvoir mostra a dualidade das reações femininas, tomadas
entre a resignação e a revolta, sob múltiplas formas: "sua docilidade
comporta sempre uma recusa" (II, 364).
Quanto à questão do corpo, também levantada por Sônia Kruks, sou
igualmente menos otimista. Por certo encontramos a esse respeito formu-
lações felizes. Simone de Beauvoir havia estudado atentamente a fenome-
nologia de Merleau-Ponty, que dá subsídios para reflexões ainda muito
aceitas nos debates atuais23. Ela sabe pois tomar essas idéias, e se partilha, (23) Em Les Temps Modernes
(nº 2, novembro de 1945) ela
como se viu, de uma visão muito negativa acerca da physis feminina, não fez a apreciação crítica de suas
obras, notadamente acerca da
preconiza a sua negação, precisamente em nome dessa assimilação do Fenomenologia da percepção.
modelo masculino: "O homem é um ser humano sexuado: a mulher só é
um indivíduo completo, e igual ao homem, sendo também um ser
sexuado. Renunciar à sua feminilidade é renunciar a uma parte de sua
humanidade"; "Ela se recusa a confinar-se em seu papel de fêmea porque
não quer mutilar-se, mas repudiar o sexo seria também uma mutilação"
(II, 452).
De maneira mais global, vimos que Simone de Beauvoir não leva a
cabo a inversão de perspectiva a que a escolha culturalista induz; ela fica (24) Ela bem diz que "os pró-
prios sábios, e de ambos os
no meio do caminho e recai na trilha da qual quer fugir. É por isso que sexos, são imbuídos de pre-
conceitos viris" (La force des
penso ser lógico insistir sobre a fundamental ambivalência de Simone de choses. Paris: Gallimard, 1963,
p. 258).
Beauvoir. Minha hipótese é de que o naturalismo dominante que impregna
(25) Mounier, Emmanuel. "La
seu pensamento desvia acentuadamente seu projeto, ainda assim autenti- condition humaine. Simone de
Beauvoir: Le deuxième sexe".
camente libertador, e isso tanto na sua visão negativa das mulheres e de seu Esprit, n° 12, dezembro de
corpo quanto na visão do homem como modelo do universal humano. 1949. Ele afirma, com sutileza,
que Simone de Beauvoir "hesi-
Quais interpretações dar a essa ambivalência e a essa impregnação de ta, com efeito, entre duas posi-
ções entre as quais seu livro
"preconceitos viris"24 que ela contudo despreza? oscila constantemente, sem ja-
mais escolher uma delas".
Como exemplo, cita a frase "[a
mulher,] da puberdade à me-
nopausa, é a sede de uma his-
tória que nela se desenrola mas
Quais interpretações? que a ela não concerne pesso-
almente", e comenta: "fórmula
ambivalente, na qual se cho-
cam uma espécie de reconhe-
cimento de uma condição na-
tural e a recusa em aceitá-la
A questão das contradições (e, em menor medida, do antifeminismo) como tal para transfigurá-la em
de O segundo sexo não é nova. Desde o lançamento da obra, Emmanuel uma via pessoal original".

Mounier levanta o problema 25 ; depois Suzanne Lilar empreende um longo (26) Lilar, Suzanne. Le malen-
tendu du Deuxième sexe. Pa-
e sistemático inventário26; e mais recentemente os comentadores destaca- ris: PUF, 1969.

JULHO DE 2000 115


A SEGUNDA SIMONE DE BEAUVOIR

ram a misoginia presente no cerne do feminismo beauvoiriano 27 . Duas (27) Ver Simone de Beauvoir
Studies, 7(1), 1983; Le Doeuff,
interpretações dominaram durante muito tempo. A primeira, enunciada op. cit.; Moi, Toril. Simone de
Beauvoir. Conflits d'une intel-
pela primeira vez por Colette Audry, consiste em ver nas passagens lectuelle. Paris: Diderot, 1995.
sombrias de O segundo sexo um cálculo consciente da autora. Simone de
Beauvoir teria tido a intenção de provocar uma espécie de catarse em suas
leitoras, abrir-lhes os olhos, fazê-las despejar "a lama cultural" dos precon-
ceitos a seu respeito a fim de que, uma vez conscientes de sua situação,
agissem para modificá-la28. A segunda, igualmente defendida por uma das (28) Audry, Colette e Coquillat,
Michelle. "Simone de Beauvo-
primeiras admiradoras da obra, Françoise d'Eaubonne, responsabiliza o ir". In: Femmes et societé, tomo
4. Paris: Martinsart, 1981, pp.
pensamento sartriano pelas visões negativas acerca da natureza feminina. 70-121. Esta tese é retomada
A idéia correu a partir de então 29 . em seguida por Jacques Zephir:
"Simone de Beauvoir et la fem-
Essas duas hipóteses tornam a anular a contradição enquanto tal, me: féminisme authentique ou
misogynie incosciente?". Simo-
seja porque ela provenha de um artifício pedagógico, seja porque perten- ne de Beauvoir Studies, 1(l),
1983.
ça a outrem e, portanto, polua um discurso de outra maneira irrepreen-
(29) Cf. D'Eaubonne, op. cit.
sível. Ora, parece-me mais pertinente supor a contradição como interna Essa idéia é retomada, por
exemplo, por Anne D. Corde-
ao raciocínio beauvoiriano. ro: "Simone de Beauvoir and
woman: authentic feminism or
Outras interpretações recorreram à psicologia e procuraram dar unconscious misogyny? The
wrong question". Simone de
relevo à personalidade de Simone de Beauvoir, particularmente renitente à Beauvoir Studies, 1(1), 1983.
physis por diversas razões 30 . Além das anotações extraídas do próprio livro, (30) É pelo menos uma das
numerosos são os testemunhos que corroboram essa interpretação. A mais indicações sugeridas por Deir-
dre Bair (Simone de Beauvoir.
explícita a esse respeito é sem dúvida a de Jehanne Jean Charles, romancista Paris: Fayard, 1991) concernen-
tes à sexualidade de Simone de
que como muitas outras se beneficiava da ajuda e dos conselhos de Simone Beauvoir e, de forma mais ge-
ral, à sua percepção dos fenô-
de Beauvoir. Sua admiração e gratidão não impedem um julgamento às menos corporais, sobretudo fe-
mininos. Pode-se acrescentar
vezes mais crítico: que esse tipo de atitude é parti-
cularmente encorajado pelo
meio católico rígido no qual
ela cresceu.

Ela sempre me deu a impressão de ser fraca dos sentidos. [...]. Os deuses
[...] privaram-na injustamente, e sem que ela jamais tivesse consciên-
cia, da sensualidade elementar, essa que emerge à flor da pele por um
beijo, por um perfume, um som. Simone de Beauvoir fazia amor,
escolhia sua água de toalete, escutava Bach ou os Beatles. Mas um
filtro invisível, mais espesso que uma máscara de esgrima, lhe permitia
entrever as únicas aparências que ela reconstituía com a minúcia de
um guarda-livros31. (31) Declarações colhidas por
Françoise d'Eaubonne: Une
femme nommée Castor. Paris:
Sofinem/Encre, 1986, p. 365.

Não seria difícil acumular uma antologia de apreciações no mesmo


sentido (a começar pela maneira pela qual seus alunos a denominavam:
"um relógio numa geladeira"), bem como de outras afirmando exatamente
o contrário. Simone de Beauvoir acreditava-se dotada de uma excepcional
fome de viver e particularmente "apta para a felicidade". Françoise
d'Eaubonne insiste sobre a sensualidade de sua prosa etc. Também esse
terreno da interpretação psicológica permanece vago: pode-se afirmar uma
coisa e seu contrário.
Mais recentemente, Toril Moi propôs uma interpretação psicanalítica
da obra de Simone de Beauvoir, em particular de O segundo sexo e de

116 NOVOS ESTUDOS N.° 57


SYLVIECHAPERON

A convidada. A propósito do primeiro, ela observa "que os argumentos de


Beauvoir fracassam tão logo ela aborda, por mais indiretamente que seja,
o tema da sexualidade feminina"32. No segundo, aponta um triângulo (32) Moi, op. cit., p. 278. Eu
diria, de minha parte, que a
edipiano numa situação psíquica maternidade (rejeitada brutal-
mente na natureza), muito
mais do que a sexualidade,
derruba a argumentação.

curiosamente ambivalente na qual a filha vê a mãe como sua pior


inimiga justamente por ela não ter concluído o processo que deveria
separá-la dela. Fantasiando sobre o caráter destruidor da mãe, a filha
extrai desse próprio fato sua persistente unidade com ela33. (33) Ibidem, p. 184.

Segundo a autora, Simone de Beauvoir expressa nesses dois textos os


elementos de sua estrutura psíquica e notadamente sua não-separação do
modelo maternal. O medo da devoração e da perda de si na mãe remete à
sua desvalorização e à supervalorização do pai. "Dividida entre a mãe e o
pai, lutando para se desvencilhar (sem querer) do corpo, eternamente
presente, da genitora por meio de um rebaixamento da mãe e da idealização
do falo"34 — tal seria a lógica em curso na contradição beauvoiriana. Sem (34) Ibidem, p. 278.
dúvida alguma esta análise é interessante, mas limita-se à Simone de
Beauvoir como indivíduo, marcado por um certo percurso edipiano. Ora,
todo o sucesso de O segundo sexo vem do fato de que ele encontra as
palavras para toda uma geração. As contradições beauvoirianas também são
encontradas, de forma idêntica, em dezenas de intelectuais: Pauline Archam-
bault, Colette Audry, Célia Bertin, Geneviève Gennari, Ménie Grégoire,
Marguerite Grépon, Andrée Marty-Capgras, Evelyne Sullerot e muitas outras
partilham da idéia de que a mulher é dividida entre sua natureza biológica,
imanente, e suas aspirações humanas, transcendentes. Os argumentos a
favor da contracepção e do parto sem dor fundamentam-se fartamente nessa
dualidade. A passividade sexual feminina por natureza é também uma
evidência até meados dos anos 1960. As similitudes são aliás de tal forma
impressionantes e conhecidas que fazem supor não uma influência de O
segundo sexo sobre suas contemporâneas, a qual seria muito vasta, mas uma
cristalização nesse texto do espírito de toda uma geração. É preciso pois
interpretar as ambivalências beauvoirianas como representativas de seu
tempo e de seu meio.
A hipótese que gostaria de desenvolver fundamenta-se na concepção
dialética do sujeito enunciada na Introdução geral. O sujeito é dual,
dividido entre as normas sociais que o constituem e o esforço de libertação
que produz. É o fruto de uma oscilação entre alienação e libertação. Ele
possui duas faces e são essas duas faces que precisam ser interrogadas em
Simone de Beauvoir. Por outro lado, esse sujeito encontra-se situado
historicamente. O contexto e o meio nos quais ele evolui e se expressa
impõem uma certa configuração.
Pode-se ver em Simone de Beauvoir o que eu chamaria de "síndrome
das pioneiras", ou seja, daquelas que se aventuram por novos caminhos

JULHO DE 2000 117


A SEGUNDA SIMONE DE BEAUVOIR

tendo como único apoio as referências masculinas, ante a falta de ante-


cedente feminino. Numa certa medida, Simone de Beauvoir pertence a um
meio em que o sucesso intelectual se conjuga forçosamente ao masculino:
se existem inúmeras romancistas, filósofas são raríssimas. Essa acentuada
masculinidade se encontra, aliás, no corpo da filosofia, que pouco prima
por avanços em matéria de gênero. Após os estudos secundários, realizados
num universo feminino e religioso pelo qual guarda apenas desprezo,
Simone de Beauvoir encontrará unicamente companheiros masculinos
quando de sua formação superior. De maneira geral, a razão, a inteligência
abstrata, a manipulação dos conceitos ainda pertencem em grande parte
aos homens e permanecem, portanto, definidas como aptidões intrinseca-
mente masculinas, de tal forma que uma mulher que pretende penetrar e
agir nesse universo sofre uma forte pressão, sobretudo se não tiver
consciência disso. Essa pressão pode ser exercida de forma muito cortês.
Assim, seu pai, que muito se orgulha dela, diz com freqüência: "Simone tem
um cérebro de homem"; e Sartre afirma igualmente mais tarde: "Ela possui
a inteligência de um homem" 35 . (35) Respectivamente, apud
Bair, op. cit., p. 66, e Francis,
Que efeitos podem produzir tais julgamentos, já que essas compara- Claude e Gonthier, Femande.
Les écrits de Simone de Beauvo-
ções, por mais que sejam apontadas como cumprimentos, são tudo, exceto ir. Paris: Gallimard, 1979, p. 20.
anódinas? Sob o pretexto da lisonja a uma mulher, reafirmam brutalmente o
menosprezo com o qual todas as outras permanecem consideradas.
A mulher assim saudada é a exceção que não colocaria em questão a regra.
O raciocínio é macho e aquela que se aventura em seus domínios deve se
redimir. Para os homens que proferem tais elogios, seu significado é: "Você é
boa por ser como eu, por parecer comigo"— o que reafirma seu sentimento
de superioridade em relação às mulheres 36 . Para aquelas que os recebem, (36) Trata-se então de fazer
um disfarçado elogio a si mes-
significam forçosamente que a integração passa pela identificação, e assim mo, sem qualquer declaração
de igualdade, pois é preciso
escutam: "Você é boa porque não é mais completamente uma mulher". É uma certa superioridade para
poder designar aqueles que
uma injunção à não-solidariedade entre as mulheres. De fato, Simone de merecem ser seus pares. O
Beauvoir se vê como superior: "Eu estudava como um homem. Sentia-me reconhecimento enunciado
implica a desigualdade, bem
um pouco excepcional"37. Nessa perspectiva compreende-se melhor essa como a superioridade daquele
que fala.
confusão que ela produz entre o universal e o masculino, confusão que se
(37) Cf. entrevista a Madeleine
consuma à custa de depreciação da corporalidade feminina, a diferença Chapsal: Les écrivains emper-
sonne. Paris: Julliard, 1960, pp.
sendo obstáculo. Essa negação do corpo é ainda mais encorajada por uma 17-37, apud Francis e Gonthi-
er, op. cit..
recorrente tradição filosófica ocidental da qual ela se nutre. Esse processo é
tão forte nessa pensadora quanto é evidente que ela queria tornar-se alguém,
que possuía uma forte (e legítima) ambição. Ela é pois, de alguma forma,
eleita a exceção que confirma a regra — posição lisonjeira mas pouco
subversiva.
Além do mais, O segundo sexo foi escrito no momento em que Simone
de Beauvoir começava a tomar consciência dos gêneros. Ela nunca fez
mistério de que para ela a questão das mulheres era totalmente nova. Aos
40 anos descobria ingenuamente sua existência: "É estranho e estimulante
descobrir, de repente [...], um aspecto do mundo que salta aos olhos e que
não se enxergava"38. Colette Audry, sua amiga de longa data, era bem mais (38) Beauvoir, La force dês cho-
ses, loc. cit., p. 258.
sensível à injustiça feita às mulheres; discutiram muitas vezes esse tema

118 NOVOS ESTUDOS N.° 57


SYLVIE CHAPERON

antes da guerra, mas Simone de Beauvoir o abandonava rapidamente.


Audry recorda: "Eu me espantava ao encontrar tanto desapego em relação
à situação imposta às mulheres" 39 . Simone de Beauvoir também se lembra (39) Audry, Colette. "Portrait
de l'écrivain jeune femme".
dessas conversas e conta como certa vez respondeu à amiga, que lhe Biblio. Hachette, novembro de
1962.
perguntava como "ser reconhecida pelos homens como igual": "Ora, é
simples: é preciso ser um homem!" — e acrescentou: "Para mim isso era
evidente: era preciso ser tão inteligente quanto eles, é tudo"40. (40) Entrevista a Francis Jean-
son, in: Simone de Beauvoir
Esse diálogo assinala as perspectivas bem diferentes das duas jovens ou l'entreprise de vivre. Paris:
Seuil, 1966, p. 255.
mulheres da época. A questão de Colette Audry não é saber como ser igual
aos homens, mas como se fazer reconhecer por eles como igual, o que não é
a mesma coisa. A primeira formulação supõe uma desigualdade a ser
ultrapassada (qualquer que seja a causa) e faz referência, portanto, à infe-
rioridade das mulheres (ou à superioridade dos homens); a segunda indica
uma resistência dos homens diante de uma igualdade possível, e portanto
sugere uma relação de poder. Em resumo, a primeira coloca como problema
a inferioridade das mulheres e a segunda a dominação masculina. Ora,
Simone de Beauvoir responde, e sem dúvida a compreende, à primeira
formulação e não à segunda. De maneira muito lógica, declara então que
para ser igual aos homens é preciso elevar-se até eles. Abandonar as terras
baixas das mulheres para juntar-se às altas esferas dos homens ou forçá-los a
ser menos pretensiosos diante das mulheres, eis a diferença entre as lógicas
de ambas. Em suma, Colette Audry havia tomado consciência da injustiça
cometida contra as mulheres, do poder arbitrário dos homens, enquanto
Simone de Beauvoir não via nenhuma injustiça, mas um simples dado
ultrapassável por quaisquer indivíduos tão excepcionais quanto ela. Uma já
se encontrava num estado de questionamento, a outra não. Simone de
Beauvoir não poderia pois se apoiar numa teoria feminista que, de resto,
pouco tinha para transmitir como herança. E sua formação filosófica, assim
como sua descoberta tardia da situação imposta às mulheres, lhe interdita-
vam o acesso a ela. O corpus dos textos feministas disponíveis então fazia
muita falta a O segundo sexo.
Quando, enfim, Simone de Beauvoir descobre a realidade de sua
condição feminina, graças ao contexto particular da Libertação, é para ime-
diatamente acreditar-se à parte. Ela se estima imune — melhor prova de que
não é41. Desde a Introdução de O segundo sexo ela se apresenta não como (41) Nicole-Claude Mathieu
(L'anatomie politique. Catégo-
juiz ou parte, como são os homens e as feministas, mas como uma espécie de risations et idéologies du sexe.
Paris: Côté-Femmes, 1991) vê
observadora externa, uma vez que jamais "viu sua feminilidade como um duas maneiras de o dominado
embaraço ou um obstáculo; muitos outros problemas nos parecem mais negar a opressão: a recusa em
perceber a realidade ou a de-
essenciais do que os que nos dizem respeito; e esse próprio desinteresse negação, ou seja, a recusa em
se ver como parte da realidade
permite-nos esperar que nossa atitude seja objetiva" (I, 21). Ela repetirá mais que começa a ser percebida.
Esta segunda etapa correspon-
tarde a idéia de que trabalhar, ser independente, escapar "à maioria das de ao caso beauvoiriano.
obrigações da mulher, as da maternidade, as da vida doméstica", é escapar
da condição feminina42. Concepção muito estreita da dominação, que se (42) Declarações colhidas por
Alice Schwarzer em Le Nouvel
limita à exploração material e não deixa lugar para a alienação, o partilhar Observateur, 14/02/72, apud
Francis e Gonthier, op. cit., p.
das crenças que desvalorizam o grupo ao qual se pertence. A dominação, ao 488.
contrário, impregna e trespassa o indivíduo em seu todo, ou seja, tanto sua

JULHO DE 2000 119


A SEGUNDA SIMONE DE BEAUVOIR

capacidade de pensar quanto, singularmente, sua capacidade de se pensar


além dos discursos pejorativos a seu respeito.
Enfim, Simone de Beauvoir está bastante imbuída da ideologia natura-
lista quando inicia a redação de O segundo sexo. Ela escreve ao mesmo
tempo que toma consciência. De fato, esse ensaio parece um caleidoscópio,
o que ela mesma reconhece: "Eu extrairia dele uma obra mais elegante;
descobrindo minhas idéias ao mesmo tempo que as expunha, não pude
fazer melhor"43. Ainda falta uma gênese da obra, mas a Introdução, a (43) Beauvoir, La force des cho-
ses, op. cit., p. 266.
Conclusão e as transições entre os capítulos, que se pode supor tenham sido
escritas por último, são os textos mais coerentes e elaborados. Os conflitos
recorrentes refletem o processo em curso, entre alienação e questionamento,
entre partilhar dos "preconceitos viris" e afirmar sua arbitrariedade. Melhor
ainda, a recusa beauvoiriana da condição feminina é proporcional ao
desprezo que ela lhe reserva. Donde, ao mesmo tempo, a desvalorização das
mulheres (e a valorização complementar dos homens) e a afirmação da
injustiça dessa divisão e, portanto, de um outro futuro possível. Não é tanto
ao corpo maternal que Simone de Beauvoir permanece ligada, mas à
ideologia de gênero dominante, como uma língua materna que é preciso
desaprender. As passagens biologizantes e misóginas devem pois ser
interpretadas como tentativas infrutíferas de rompimento com a ideologia
naturalista, ou, segundo uma terminologia mais científica, como uma ruptura
epistemológica inacabada. O que se lê em O segundo sexo é uma consciência
alienada, um pensamento que procura se libertar sem o conseguir por
completo, um esforço não inteiramente compensado, mas que propicia
instrumentos para se tentar novamente e ir mais além.
De outra parte, esses reveses não acontecem por acaso. A gravidez,
as regras, a sexualidade, o inconsciente freudiano, que são os lugares onde
o pensamento beauvoiriano repentinamente tropeça, têm tudo a ver com
a vivência corporal e íntima das mulheres, ou seja, com os domínios nos
quais historicamente as feministas e os movimentos femininos pouco
penetraram e que anunciam, vinte anos antes, o começo do MLF. Aliás,
sobre terrenos mais balizados como o trabalho, a família, a condição
jurídica, os mitos etc. Simone de Beauvoir demonstra um pensamento
sólido, agudo e claro. Trata-se, portanto, de um pensamento pioneiro que
caminha sem ajuda pela escuridão e procura, tateando, contornar o
biologismo apalpando sua massa. Sobre os temas mais audaciosos, esses
que ainda permanecem envoltos por uma capa de silêncio e tabu, Simone
de Beauvoir não alcança a inversão de perspectiva a que a escolha da
sociologia induz; e esse corpo feminino, prisioneiro da espécie segundo
ela, é presa desse pensamento naturalista que subsiste sob uma forma
extremamente negativa. Mais precisamente, é preciso notar que a pedra no
caminho do pensamento beauvoiriano sempre está relacionada com a
maternidade. O conjunto formado pela fecundação, gravidez, gestação e
parto permanece encerrado no continente sombrio do naturalismo. Sobre
esse ponto, aliás, o MLF permaneceu silencioso; a maternidade é ainda
pouco pensada pelas feministas.

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SYLVIE CHAPERON

Paradoxalmente, é essa mesma alienação presente em O segundo sexo


que lhe dá valor e renome. Uma obra mais coerente, fruto de muitos anos
de maturação e de afirmação feminista, não teria encontrado mais do que
uma pequena minoria radical entre os já convencidos. O ensaio de
Françoise d'Eaubonne é desse tipo, mas quem o conhece hoje44? Inversa- (44) D'Eaubonne, op. cit.
mente, um trabalho muito normativo, sublimando os discursos de desigual-
dade, como as análises católicas da época, também não respondia às
aspirações de todas as mulheres que experimentavam um mal-estar e se
questionavam. É nesse espaço que se situa O segundo sexo, o que lhe
assegura um grande público, apesar de seu formato volumoso (cerca de mil
páginas). Ele expõe os conflitos cognitivos que milhares de mulheres
experimentavam ao tentar dar sentido a suas vidas e aspirações. Por aí, ele
acompanhou de muito perto os passos de suas contemporâneas, presas
entre seus desejos de realização pessoal e o contexto altamente repressivo
e conformista dos anos 1950, e depois 1960.
O segundo sexo dá palavras, ainda que confusas e desajeitadas, a uma
voz balbuciante que as mulheres começaram a emitir a propósito de seus
próprios corpos, da sexualidade e da gravidez. O debate acerca da mater-
nidade que acompanhou a publicação da obra é ainda mais revelador sobre
essa voz à procura de sua própria expressão, que busca seu caminho entre
a apologia e a condenação. Muitas mulheres ficaram intimamente chocadas
ao ver sua experiência de mãe desvalorizada sem piedade pela obra. "Odiei
esse livro que me fascinava", lembra-se Ménie Grégoire em suas memórias,
pois estava "profundamente revoltada com a secura intelectual que chega
à recusa da feminilidade e da maternidade" 45 . Inversamente, porém, isso (45) Grégoire, Ménie. Telle que
je suis. Paris: R. Laffont, 1976,
mesmo é o que seduziu de imediato Judith Okely: p. 184.

De Beauvoir descrevia a maternidade com desgosto, como algo degra-


dante e em conflito com o ideal existencialista de realização pessoal.
Era para nós uma revelação que o feto pudesse ser descrito como um
parasita de nosso corpo. Algumas dentre nós tomaram com entusias-
mo essas imagens de monstro crescendo no ventre, ameaçando nossa
identidade em vez de revelá-la. Nós procurávamos a linguagem para
rejeitar a gravidez e a maternidade, que, na época [início dos anos
1960], pareciam comandar o retrato das mulheres no lar marital e no
núcleo familiar46. (46) Okely, Judith. Simone de
Beauvoir. Londres: Virago,
1986, pp. 93-94.

A violenta desvalorização da maternidade empreendida por Simone de


Beauvoir é, com efeito, proporcional à não menos violenta obrigação à
maternidade atribuída a todas as mulheres nesses anos de Guerra Fria, de
baby boom e de conjugalidade triunfante.
As contradições beauvoirianas se explicam, portanto, também pela
época particular em que ela escreve. Os anos 1950 são, ao mesmo tempo,
de forte conservadorismo em relação às mulheres e um momento em que

JULHO DE 2000 121


A SEGUNDA SIMONE DE BEAUVOIR

os temas inovadores são abordados por uma estreita minoria. A subjetivi-


dade feminina deve pois procurar se expressar entre os mitos dos discursos
normativos e o exagero daqueles que os recusam. O impulso redireciona-
dor parece ser uma fase obrigatória na liberalização dos discursos.
Tal é, então, a dialética da "retomada" e do "rompimento" presente em
O segundo sexo, para tomar as palavras de Françoise Collin. Mas a história
não pára aí, pois Simone de Beauvoir conduzirá mais longe esse rompimen-
to. Junto com seu próprio amadurecimento, que se dá no contexto mais
geral da radicalização dos anos 1960, ela retoma suas hipóteses e as torna
mais coerentes. Num artigo de 1961, ela volta à questão das regras:

É a mitologia masculina que faz delas um símbolo penoso e até certo


ponto vergonhoso de nossa fraqueza; se ocorressem aos homens, eles
achariam esse legado mensal de seu sangue magnificamente viril;
enquanto as mulheres permanecerem um sexo economicamente sub-
desenvolvido, toda singularidade masculina simbolizará, aos olhos
do macho, sua superioridade47. (47) Beauvoir, Simone de. "La
condition féminine". La Nef
(nouvelle série), nº 5, janeiro-
março de 1961, pp. 126-127.

Assim, as regras não marcam mais a fraqueza feminina, salvo na


mitologia totalmente criada pelos homens. A entrevista que ela concede em
1965 a Francis Jeanson é igualmente reveladora dos progressos alcançados
em quinze anos 48 . Vêem-se duas concepções em confronto: uma diferen- (48) In: Simone de Beauvoir
ou l'entreprise de vivre, loc.
cialista, que enraíza os gêneros nos sexos naturais, e outra, culturalista, que cit., p. 247.
deseja separá-los. Francis Jeanson se esforça para fazê-la reconhecer "a
pequena diferença", mas Simone de Beauvoir persiste em negá-la. Ele
continua a insistir, e como último argumento acaba por se refugiar na
sexualidade e na tradicional passividade feminina: "Eu quero dizer, por
exemplo: a mulher é penetrada pelo homem, enquanto o homem penetra
a mulher"49. Mas Simone de Beauvoir não se desmonta por tão pouco e, (49) Ibidem, p. 259.
sem negar frontalmente o argumento, contesta-lhe a importância: "Por já
existir a mitologia do homem como superior e da mulher como inferior é
que a idéia de penetração surge como algo humilhante para a mulher, e a
idéia oposta, da virilidade penetrante, como uma superioridade do ho-
mem"50. Ele persiste, porém, em sublinhar as diferenças de uns e outras no (50) Ibidem, p. 260.
comportamento erótico. Concede, então, educadamente: "Sim, por certo
que o erotismo não tem as mesmas características para o homem e para a
mulher", mas acrescenta logo a seguir: "Não se poderia encontrar entre dois
homens ou duas mulheres nuanças de erotismo que atingissem as diferen-
ças que se constatam entre os dois sexos?"51. Ainda uma vez ele tenta fixar (51) Ibidem, p. 261.
os sexos em atitudes opostas: "Um homem, por exemplo, pode eventual-
mente reagir 'como uma mulher' no prazer [...], mas ele reagirá enquanto
homem que reage como uma mulher. Você vê o que tento dizer?". Sim, ela
vê, mas faz notar que o inverso também é verdadeiro e que as mulheres
cada vez mais tomam a iniciativa nesse terreno também 52 . Mais adiante ele (52) Ibidem, p. 261.

122 NOVOS ESTUDOS N.° 57


SYLVIE CHAPERON

volta à carga, sobre a questão da maternidade. Ela admite sem dificuldade


que essa experiência, como qualquer outra, pode ser positiva. "Ademais, se
não se é expressamente requisitado por outras coisas, deve ser fascinante
a descoberta do que é uma criança"53. Mas quanto a saber o que é (53) Ibidem, p. 283.
especificamente a maternidade, ela se mostra bem mais cética: "A materni-
dade tem certamente qualquer coisa de específica, mas me parece que no
essencial ela é quase da mesma ordem que a paternidade. Ou, antes, que
ela poderia sê-lo"54. (54) Ibidem, p. 283.
Assim, com o decorrer dos anos Simone de Beauvoir expurga o (55) Numa entrevista ulterior
ela critica o ponto de vista das
naturalismo de sua reflexão e por meio dela busca mais adiante a via feministas radicais em relação
à sexualidade, esquecendo
culturalista. Toda a vivência corporal das mulheres é separada do naturalis- suas próprias afirmações: "Cho-
mo e dissociada do filtro dos mitos masculinos. Ela prolonga, dessa forma, ca-me que se pretenda que
todo coito seja uma violação.
seu ensaio, que já então abria caminho para a desconstrução dos mitos, Não acredito nisso. Ao se dizer
que todo coito é uma violação,
notadamente na literatura. Indo mais além, ela desmistifica sua própria retomam-se os mitos masculi-
nos, o que significa dizer que o
obra, o que, em termos modernos, poderíamos chamar de "desalienação". sexo do homem é uma espada,
uma arma" (declarações a Ali-
Esse processo continua nos anos 197055. ce Schwarzer em Le Novel Ob-
servateur, 14/02/72, apud Clau-
O segundo sexo pode ser tomado, por fim, como um momento do de e Gonthier, op. cit., p. 488).
longo processo que a libertação do sujeito exige, admitindo-se que jamais
Recebido para publicação em
tenha fim essa tensão da libertação. É uma etapa ao mesmo tempo 12 de junho de 2000.
necessária e insuficiente, inscrita num certo contexto histórico. O fato de Sylvie Chaperon é professora
associada da Universidade de
que esse processo seja individual, na falta de um movimento coletivo, Toulouse le Mirail.
explica amplamente os seus limites. No entanto, o livro preencherá em
parte o isolamento angustiante de muitas mulheres insatisfeitas com sua
situação ao suscitar numerosas cartas, algumas longas correspondências e
sobretudo inúmeros encontros para leituras femininas, representando
assim uma espécie de movimento coletivo precursor do movimento social
do fim dos anos 1960.

JULHO DE 2000 123

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