A Parábola dos Talentos Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins

. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem cessar: O mundo inteiro ainda deverá transformar-se num jardim. O mundo inteiro deverá ser belo, perfumado e pacífico. O mundo inteiro ainda se transformará num lugar de felicidade. As suas terras eram uma sucessão sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Dava muito trabalho cuidar de todos os jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pássaros, as borboletas, os insectos, as fontes, as frutas, o perfume… Sozinho ele não daria conta Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados. Aconteceu que ele precisou de fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longínqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou três dos jardineiros que contratara, e disse-lhes: Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero que vocês cuidem de três dos meus jardins. Os outros, já providenciei quem cuide deles. A você, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japonês. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas… A você, Hermógenes, entrego o cuidado do jardim inglês, com toda a sua exuberância de flores espalhadas pelas rochas… E a você, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com romãs, hortelãs e jasmins. Ditas essas palavras, partiu. Paulo ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim japonês. Hermógenes ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim inglês. Mas Boanerges não era jardineiro. Mentira ao oferecer-se para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro disse: Cuidar de jardins não é comigo. É demasiado trabalho… Trancou então o jardim com um cadeado e abandonou-o. Passados muitos dias voltou o Senhor, ansioso por ver os seus jardins. Paulo, feliz, mostrou-lhe o jardim japonês, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Hermógenes mostrou-lhe o jardim inglês, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. E foi a vez de Boanerges… E não havia forma de enganar: Ah! Senhor! Preciso de confessar: não sou jardineiro. Os jardins dão-me medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das lagartas, das aranhas. As minhas mãos são delicadas. Não são próprias para mexer na terra, essa coisa suja… Mas o que me assusta mesmo é o facto das plantas estarem sempre a transformar-se: crescem, florescem, perdem as folhas. Cuidar delas é uma trabalheira sem fim. Se estivesse em meu poder, todas as plantas e flores seriam de plástico. E a terra estaria coberta com cimento, pedras e cerâmica, para evitar a sujeira. As pedras dão-me tranquilidade. Elas não se mexem. Ficam onde são colocadas. Como é fácil lavá-las com esguichos e vassoura! Assim, eu não cuidei do jardim. Mas tranquei-o com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos não o invadissem. E com estas palavras entregou ao Senhor dos Jardins a chave do cadeado. O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: Este jardim está perdido. Deverá ser todo refeito. Paulo, Hermógenes: vocês vão ficar encarregados de cuidar deste jardim. Quem já tinha jardins ficará com mais jardins. E, quanto a você, Boanerges, respeito o seu desejo. Não gosta de jardins. Vai ficar sem jardins. Gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, irá partir pedras na minha pedreira… Rubem Gaiolas ou Asas Publicada por Helena em 6:40 Etiquetas: Rubem Alves 30/DEZ/2008 O Senhor Palha Conto japonês Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo. Ora o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha. Era por esse Alves

motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha. Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar: — A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há- de trazer-te uma grande fortuna. O Senhor Palha apanhou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e que o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu a pensar: “Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?” Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra. Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fio de palha. “Bom”, pensou ele, “uma palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu o apanhasse, é melhor guardá-lo.” E lá foi ele, com a palha na mão. Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou afastá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele. “Muito bem”, pensou ele. “Se não queres ir embora, fica comigo.” Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda. Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou a descer a rua com a libélula presa à palha. Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho pequenino, para vender as suas flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar. Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se. — Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor! “Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte. Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que ficará certamente mais feliz com um pequeno presente.” E deu ao menino a libélula presa à palha. — É muita bondade sua — disse a florista. — Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa. Aceita? O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que tinha acontecido. — Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz. — Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer. — Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha. — Não tenho nada de valor mas, se quiser dar-lhe esta rosa ela é sua. O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa. — Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem. — É só o que posso dar-lhe em troca. O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas. Em seguida, encontrou um vendedor ambulante a puxar uma pequena carroça. — Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto. — Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água. — Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha. — Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas. O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo: — O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca. E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho, com o rolo de seda debaixo do braço. Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha. — Onde arranjou essa seda? — gritou ela. — É justamente aquilo de que estou à procura. Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real. — Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda — disse o Senhor Palha. A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte. — O senhor é muito generoso — disse sorrindo. — Por favor, aceite esta jóia em troca. A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.

“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Sinto-me contente.” Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz. Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico. Mas a riqueza não o modificou. Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam. Diziam que a sua sorte tinha começado com um fio de palha, mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade? William J. Bennett O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral

Publicada por Helena em 6:47 Etiquetas: William J. Bennett A menina e o pássaro encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão… — Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

Pensou que ele acabaria por se acostumar. Assim. menina. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar. tu ficarás mais bonita. o prendeu na gaiola. Tenho de partir. Voou que voou. pássaro. Cansado da viagem. para que ele nunca mais a abandonasse. para lugares distantes. ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. — Nunca se sabe. As minhas penas ficaram como aquele sol. e a cada dia que passava a saudade crescia. aquele não era o pássaro que ela amava. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho… — Eu também terei saudades — dizia o pássaro. Outra vez voltou vermelho como o fogo. E tu deixarás de me amar. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. triste de saudade. Até que ela adormecia. Também a menina se entristeceu. * * * . Pode ser que ele volte hoje… Sem que ela se apercebesse. Mas chegava a hora da tristeza. comprou uma linda gaiola. ia para a cama. Ele chegou finalmente. não vás. Os vermelhos. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. imaginando se o pássaro voltaria. cada noite. Caíram as plumas e o penacho. — Tenho de ir — dizia. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. o mundo inteiro foi ficando encantado. Longe. — Por favor. Abriu a porta da gaiola. E de novo começavam as histórias. eu ficarei mais bonito. — Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo… E ela ia ao guarda-roupa. Sempre que eu ficar com saudade. de prata. E de noite ela chorava. penacho dourado na cabeça. Fico tão triste. E ficou à espera. Foi então que a menina. o amor ir-se-á embora… A menina não acreditou. Se eu não for. Não mais terei saudades. assim. muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. cuidadosamente. e sonhava que voava nas asas do pássaro. E enfeitar-te-ás. E o pássaro amava a menina. na saudade. e por isto voltava sempre. A menina contava os dias. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água. É aquela tristeza. e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.E. nós precisamos do ar. ele partiu. chorava à noite de tristeza. onde os grandes. dia após dia. que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama… E foi assim que ela. para me esperar… E partiu. Acordou de madrugada. — Eu também vou chorar. e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes. — Podes ir. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade. O tempo ia passando. E adormeceu feliz. pensando naquilo que havia feito ao seu amigo… Até que não aguentou mais. para que ele não acordasse. os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. com histórias diferentes para contar. adormeceu. não haverá saudade. E veio o silêncio: deixou de cantar. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola. — Venho de uma terra queimada pela seca. sozinha. E ficarei feliz…” Com estes pensamentos. Será meu para sempre. e o pássaro ficando diferente. Volta quando quiseres… — Obrigado. maravilhoso nas suas novas cores. com um gemido do pássaro… — Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. escolher os vestidos. Mas não foi isto que aconteceu. os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. Terei saudades. Não. Sempre que ficares com saudade. que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. própria para um pássaro que se ama muito. A menina. ele nunca mais partirá. terra quente e sem água.” E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro. como o pássaro. Ah! Mundo maravilhoso. mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã…. na espera do regresso.

Recebendo esta resposta. Decidiu-se enfim a mandar perguntar a certo Martim. como os outros. Lars Larsson era homem abastado. proprietário de uma próspera granja. – Duvido que ele ache melhor. fica aquele vazio imenso: a saudade. Mas não é isso. Mas Olle de Saby deu a mesma resposta que Martim. se podia vir tocar no casamento de sua filha. para sempre… Para que não haja mais partidas… Poucos sabem. preparam-se os abraços. quase pronta. ele lá não iria tocar. que morava na comuna de Stora Kil. esperou Nils Elofson alguns dias para reflectir. A bênção nupcial seria na igreja. visto que Nils Slofson promovia uma festa extraordinária. A saudade faz crescer o desejo. mas era tão pobre. Especialmente aquelas que moram dentro de nós. e. não uma cabeça esquentada como os outros músicos. Parecia-lhe até que era agora um ponto de honra achar outro músico que não fosse João Oster. E. . e.Para o adulto que for ler esta história para uma criança: Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus… Depois do adeus. havia ocasião de ouvi-lo todos os dias. Para que sejam deles. enquanto houvesse naquela comuna o melhor músico de toda a Vermlândia. Visto que tinham aquele. Não é um maltrapilho assim que a gente gosta de ver à frente de um cortejo nupcial. enquanto durasse a festa. ia celebrar-se um rico casamento na comuna de Svarstjo. Esta história. É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano. Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas… Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. E quando o desejo cresce. que é a saudade que torna encantadas as pessoas. respondeu Martim. como João Oster morava em Svarstjo. angústias e medos ficam mais mansos. desejava oferecer aos seus convidados alguma coisa melhor. Com isto. não o queria ele por preço algum. mais rara. pensou logo em João Oster. enquanto houvesse em Svarstjo um músico como João Oster. respondeu o criado de Nils que. o Tocador. que nunca tocaria em Svarstjo. na Vermlândia. pois que se devia dançar tanto. mais belas Edições histórias de Asa. Mas esse. de Josseherad. o rico camponês que casava a filha. depois mandou perguntar a Olle de Saby. Claro que são para crianças. e Olle de Saby – disse o criado. Alguns dias depois de receber a resposta de Olle de Saby. Nils Elofson não achava graça à pretensão dos músicos de lhe imporem quem ele não queria. Sem um instante de hesitação. não havia necessidade de mandar chamar outro. eu não a inventei. – Sem dúvida. Quanto ao músico que habitava em Svarstjo. perguntando por que não se tinham dirigido a ele para o que queriam. Mandou dizer a Nils Elofson que. enviou o criado a Lars Larsson. era prudente e reflectido. o violinista de Engsgardet. Tudo se enche com a presença de uma ausência. vai dar a mesma resposta que Martim o Tocador. chamado o Tocador. vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim. e a festa duraria três dias inteiros. Por malícia. Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. devia dançar-se desde o anoitecer até de manhãzinha. e a Nils Elofson. Rubem Alves 2003 Publicada por Helena em 6:30 Etiquetas: Rubem Alves 27/DEZ/2008 A marcha nupcial Há muitos anos. atormentava mais este problema do que o resto dos preparativos. e o nosso camponês sabia bem que tinha grande nomeada. cantão vizinho. na comuna de Ulerud. e têm medo da solidão… As Lisboa. que às vezes se apresentava nas festas descalço e de colete rasgado. Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. era muito importante achar um músico consumado. Chamava-se João Oster. se estava disposto a vir tocar no casamento de Svarstjo. entretanto. Fiquei triste.

Lars Larsson não se moveu. pois. porém.contando-lhe o acolhimento que aqueles tinham feito ao convite do seu senhor. Nisto pararam ambos. se lhe disser que não foi convidado. acentuando as palavras. Fizeram ambos os músicos simultaneamente o mesmo gesto de apoiar o violino ao queixo. Seria inoportuno procurar aborrecimentos no momento em que o cortejo se formava na praça da igreja. – Não são demais com efeito. se quer o meu parecer. mas. João Oster retirou o violino do queixo e deu um passo para o lado. – É João Oster quem deve começar – repetiu. dirigindo-se aos músicos. Era um belo homem. Veio o pai do noivo pedir a Lars Larsson que começasse.Dize a teu amo que agradeço o convite e que irei à hora marcada. João Oster que o outro. e não podemos ter a certeza de que não vá fazer escândalo. – Oh. como se tivesse sido convidado para tocar na festa. Recebeu-o Nils Elofson com todos os respeitos devidos à sua categoria: aquele. e se a luta incessante contra a miséria lhe não houvesse marcado o rosto de rugas. – Oh! Não. se não estivesse tão miseravelmente vestido. façamos de conta que de nada desconfiamos e vá dar-lhe as boas-vindas. reflectindo. Viera no seu próprio carrinho. ouviu Lars Larsson a narração do criado. Guardou silêncio um momento. colocaram-se ambos os músicos à frente. . Espera um pouco. pareceu Lars Larsson contrariado. lhe pudesse ser inferior. Aceitou Nils sem hesitação este conselho. lá foi Lars Larsson à igreja de Svarstjo. À porta da igreja apareceu o porteiro. como se tratava de casamento tão rico. que lhe farei saber que nada tem a fazer aqui. Mas. de modo nenhum! Viu que o noivo tocava no cotovelo de Lars Larsson. que vestia há longos anos. Atrás deles. Vinha com o seu velho colete de burel cinzento. dois músicos para tão magnífico casamento. pediu-lhes que iniciassem a marcha nupcial. Tenho ouvido dizer que ele é arrebatado de génio. justamente quando começava a formar-se o cortejo nupcial para se pôr a caminho. Foi direito ao cortejo que cercava a noiva. de alta estatura. – Não compreendo por que veio. Vendo chegar João Oster. sob o pálio. vestido tão ricamente como um senhor. confuso. No domingo seguinte. sim. porque. – Não têm mais do que pedir a João Oster que comece – respondeu Lars Larsson. com o violino debaixo do braço. Viram-no chegar à ladeira que conduz à igreja. – Mas não o convidei – protestou Nils Elofson. vinham depois os pais dos noivos. vinha de uma pobre cabana onde não havia mais do que trabalho e miséria. envergando um velho colete de burel. – Nós. Era pouco delicado fazê-lo esperar. . também não levantou o arco. como homem habituado a fazer o que quer. Feito isto. a ele que. puxado por um cavalo de preço. à espera. de João Oster e cumprimentou-o. e os diversos membros de ambas as famílias. viram aproximar-se João Oster. pondo nos cotovelos grandes remendos de pano verde. e faria grande figura à frente do cortejo nupcial. um rapaz. de modo que o acompanhamento tinha na verdade um aspecto imponente. parecendo tranquilo e contente de si. Olhou o rapaz para Lars Larsson como a indicar que este começasse. dizendo: – É João Oster quem deve começar! Não pensava. dizendo: – Lars Larsson deve começar! Ouvindo estas palavras. e deu resposta afirmativa. Quando tudo estava pronto. fazendo-lhe sinal para que se apressassem. seguido dos pajens e donzelas de honor. Houve não pouca agitação no cortejo. o par. mas de modo nenhum – disse ele. a mulher fizera alguns consertos. vestia um belo trajo negro e tirou o instrumento de uma esplêndida caixa. – Convidou-o também? – perguntou a meia voz a Nils Elofson. Contudo. mas Lars Larsson olhou para João Oster. Aproximou-se. por causa da demora. Pouco depois da chegada de Lars Larsson. Atento. rígidos. – Foi então algum trocista que o convidou. ficou no seu lugar. um velho costume exigia que fosse o músico mais hábil a iniciar a marcha nupcial. o pastor já estava diante do altar. em Svarstjo. era um músico de quem a gente se podia orgulhar. dois a dois.

é preciso acabar com isto. – Ninguém dirá que me considero acima de João Oster! – gritou ele. Sem mostrar cólera. tenaz e desdenhoso como nunca. Fez sinal a João Oster para retomar o seu lugar à frente. que só levará daqui vergonha e confusão. Lars Larsson. estava constantemente curvado sob o pesado fardo de cuidados pequeninos e miseráveis. pôs-se a caminhar altivamente para a igreja.músicos. o mais hábil. porque. – Pode ser que assim seja – replicou o camponês – mas nós. Quando ouviu rebentarem as cordas do violino de Lars Larsson. achamos que és tu. que se partiram. e. para o honrar diante de todos. adiantou-se alguns passos para que todos o pudessem ver. lá em casa. tem razão. lhe aparece de improviso com maravilhosa limpidez. Mas Nils Elofson enfurecera-se perante a obstinação de todos em quererem impor-lhe João Oster. mas que era incapaz de fazer sair das cordas do violino. Tinha os traços do rosto tensos. E estavam todos tão contentes. atirou para trás a cabeça e aspirou violentamente o ar nos pulmões. é o caso que há três anos ruminava João Oster uma ária que sentia palpitar em si. – Sim. produzindo um som agudo. sabemos que é o mais hábil de todos. e de repente. Selma Lagerlöf. Mas agora trata de começar. Porque a ária que procurara em vão durante três anos. E jamais a gente do cortejo ouvira ária tão triunfal. Ora. lançou longe o arco. senão vou enxotar da praça este esfarrapado. como se escutasse alguma coisa que lhe vinha de muito. – Mas começai – diziam – o pastor está à espera. Arrastou-os a todos com tão irresistível ímpeto que o próprio Nils Elofson não se pôde manter quieto. Aproximou-se de Lars Larsson e disse-lhe ao ouvido: – Compreendo que foste tu quem chamou João Oster. com um gesto rápido. . – Não compreendo por que a gente daqui se opõe com tanto ardor a que o seu próprio músico tenha o primeiro lugar – disse ele. E. Lars Larsson. mas também de Lars Larsson. não só de João Oster. tirou a faca do bolso e cortou de um golpe as quatro cordas. Depois.) Histórias Inesquecíveis para Crianças. Ilse Losa (org. porém. fazendo ressoar as notas claras. Vamos servir de risota a toda a gente. Cercavam-nos todos os convidados. camponeses. pôs-se a tocar. e nunca lhe sucedera nada que o pudesse elevar acima da tarefa quotidiana. permaneceu ali. muito longe. olhou-o Lars Larsson nos olhos e fez com a cabeça um sinal afirmativo. que o acompanhamento inteiro tinha os olhos rasos de lágrimas ao entrar na igreja.

o aldeão viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade em meio a borrasca de neve. Decorrido algum tempo.Publicada por Helena em 6:23 Etiquetas: Selma Lagerlöf 24/DEZ/2008 Conto de Natal Um aldeão russo. mal acordou. levantou-se imediatamente e começou a pôr a casa em ordem para receber o hóspede tão esperado. Uma violenta tempestade de granizo e neve acontecia lá fora e o aldeão continuava com os afazeres domésticos. muito cristão. constantemente pedia em suas orações que Jesus viesse visitá-lo em sua humilde choupana. Teve tanta certeza da visita que. Na véspera do Natal sonhou que o Senhor iria aparecer-lhe. cuidando também da sopa de repolho. que era o seu prato predileto. De vez em quando ele observava a estrada. Era um . sempre à espera.

. Compadecido..Já por três vezes. pegou a criança e levou-a para a cabana.. o aldeão sentou-se e acabou por adormecer junto ao fogo. E Jesus lhe respondeu: ... Não a deixou partir enquanto não readquiriu forças suficientes para a caminhada.era Eu! E essa criança que salvaste da tempestade...era Eu! A pobre mulher. O Bem que a cada um deles fizeste. saiu de casa e foi ao encontro do vendedor. também era Eu. lamentou-se o aldeão. Levou-o para a choupana.pobre vendedor ambulante. embrulhou-a em sua própria capa. uma luz radiosa. E nada de Jesus! Já quase sem esperanças. Mas. Só o deixou ir embora depois de ver que ele já tinha forças para continuar a jornada. o aldeão novamente foi até a janela e examinou a estrada coberta de neve. surgiu risonho o Senhor. Fez com que sentasse próximo à lareira. e não demorou muito para que a visse adormecida ao calor da lareira.Ah! Senhor! Esperei-O o dia todo e não aparecestes. que não provinha da lareira. envolto em uma túnica branca! . avistou uma mulher na estrada coberta de neve. iluminou tudo! Diante do pobre aldeão. A noite começava a cair. que conduzia às costas um fardo bastante pesado.. a quem deste a capa... Olhando de novo através da vidraça. visitei tua choupana: o vendedor ambulante que socorrestes. Foi buscála. Saiu mais uma vez. aquecestes e deste de comer.. de repente. a mim mesmo o fizeste! Leon Tolstoi Publicada por Helena em 5:51 Etiquetas: Leão Tolstoi Conto de Natal . hoje. Deu-lhe de comer. Distinguiu uma criança e percebeu que ela se encontrava perdida e quase congelada pelo frio. Cansado e desolado... pôs sua roupa a secar ao calor da lareira e repartiu com ele a sopa de repolho.. e abrigou-a na choupana. deu-lhe de comer.

O pai agachou-se zangado: — Porcaria. Agora era preciso passar a mulher. A mulher seguiu-o sem compreender.. o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado... Curvou-se. afastou dois fios de arame e passou. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados. — Que é? O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. — Péra aí. .Sem dizer uma palavra. Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado.. puxando pela mão o menino de seis anos. mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O menino preferiu passar deitado.

então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo! A mulher não achou graça.. A casa do fazendeiro estava fechada. No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. sem saber o que fazer. mulher.. mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. do outro lado da várzea.. e a mulher passou de quatro. mulher.. De tardinha seguiram caminho. Arranjou afinal um lugar melhor. quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses. — Não. Ela foi devagar.. — Eu acho que o jeito.. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado. mostrando os dentes pretos de fumo: — Eh. O menino Jesus Cristo estava morto. O menino choramingava.Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher.. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia... Ficaram parados os três. o suor correndo pela cara mulata. Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima. O menino tinha nascido. hoje é dia de Natal. — Eh. e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado. pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias. Ela fez um sinal com a cabeça: sabia.. Faustino de repente riu.. Eu nem me lembrava. O carreiro deu uma espiada. graças a Deus. vem vê. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.. Caminharam até a árvore.. Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor. — Vamos ver aqui. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto. cerrando os olhos. e sentaram-se no chão. Há muitos dias não ria. e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha... A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro. Mas caiu sentada num torrão de cupim! — Mulher! Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se.. Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo. O carreiro morava numa casinha de sapé. Riu muito. O calor abafava. — Olhe. Ouviram então o guincho de um carro de bois. Faustino. — Péra aí. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café. à sombra. O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. Deus me acuda. pai. chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. — Oh. mulher. com dificuldade. — Uai! Péra aí. O carreiro apontou a estrebaria.. — Vai ser hoje. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos: — Eh. ao lado da mãe adormecida. Ô Natal desgraçado! — Natal? Com a pergunta de Faustino a mulher acordou. — Eu de lá ouvi os gritos. calados. vai ser hoje. a única que havia no pasto. . Faustino agradeceu a boa-vontade. Às 7 horas da noite. desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos.. Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina.

um canzarrão que latira o dia todo. soltando suspiros. ou menos ainda. .Texto extraído do Artes Gráficas Rio de Janeiro. durante a manhã. tinha se aproximado do catre. Por sua vontade. ocupava-se em soprar esse vapor da boca. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. tateando. nas soleiras das casas vizinhas. Seu hálito formava. depois. e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. onde num colchão de palha. uma espécie de vapor branco. soprou os dedos para esquentá-los. se não tivesse medo de encontrar. por desfastio. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia. 1964. teria saído mais cedo. pág. chato como um pastelão. ao se exalar. sem fazer ruído. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber. um garotinho de seis anos de idade. "Faz muito frio aqui". saiu do cômodo. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Tendo apalpado o rosto de sua mãe. com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta. os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária. reumática. queixas e imprecações contra o garoto. Souza Havia num porão uma criança. jazia a mãe enferma. e ele. pegou o seu gorrinho abandonado no leito e. que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha. de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. ao cabo de um instante. e o menino já ganhava a rua. Publicada por Helena em 5:40 Etiquetas: Rubem Braga A árvore de Natal na casa de Cristo livro Gomes "Nós e de o Natal". no alto da escada. sentado num canto em cima de um baú. mas nem a menor migalha para comer. e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Mas o cão não se encontrava alí. envolto nos seus pobres andrajos. a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. pelo prazer de vê-lo se esvolar. com um saco sob a cabeça à guisa de almofada. refletia ele. Tiritava. Diversas vezes. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. Por fim. 39.

pensou o menino. de onde vinha. Nunca tinha visto bonecos assim. de tanto medo. que olha com curiosidade.. estende-lhe os braços e. malvado. O menino apertou o passo para ir mais longe . Um moleque grande. O menino julgou. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito. quando finalmente compreendeu que eram bonecos. quando. ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha. Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem. Ele ainda pensava que era a mãe. sentiu um grande bem-estar. A cada instante. ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam. não era ela. que claridade.. penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo. desde o cair da noite.. vamos ver a árvore de Natal. A criança olha. por se sentir tão só e abandonado. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. Tem vontade de chorar. e.. abriu a porta e bruscamente entrou. frutas douradas. algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado.uivam. corre para mais longe. a porta se abre para um senhor que entra. comem e bebem alguma coisa. Em uma janela. falam. e em torno bonecas e cavalinhos. seguramente. enquanto seus lábios se mexem.. é por causa da vidraça. mas dessa vez tem medo e corre.toda gente se apressa e se acotovela. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. "Aqui. "não me acharão: está muito escuro. Atravessou o portão de uma cocheira. em compensação. sem saber para onde.e. nunca tinha visto .. através de uma vidraça. cavalos. Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro. a princípio. desejaria chorar. e só os cães. e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta.Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido. E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. que grande algazarra ali. mas não. e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças.. meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa. como todo mundo grita.nem ele mesmo sabe aonde. davam-lhe de comer. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades.murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura. pelo menos".de verdade . avista ainda um quarto. estão bem vestidas e muito limpas.. pôs-se de súbito a rir. Mas. é um pinheiro. meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão. mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro. há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino. nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente. quanta gente. com uma árvore que sobe até o teto.às centenas e aos milhares. de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém. e. para fingir que não vê. O menino rolou pelo chão. mas era tão cômico. ao passo que ali. amarelos. e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. e bruscamente. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos. através da vidraça. No quarto há crianças que correm. refletiu ele. vou dormir. põe-se a chorar. as mãos e os pés tinham deixado de doer. que estava ao lado dele. que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!". durante a noite. e o frio. deu-lhe de repente um tapa na cabeça. pois foi muito rápido. o menino se aproximou. era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos. vermelhos. latem. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos". Uma angústia o domina.. abrindo-lhe ela mesma a porta da rua.. e eis que. dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores. uma árvore de Natal onde há muitas luzes. e atrás dessa vidraça um quarto. muitos objetos pequenos. não se encontra mais ninguém fora. devem falar . De lá. Corre soprando os dedos. sem poder retomar fôlego. riem e brincam. logo. toda gente permanece bem enfunada em casa. carruagens. e sentia calor. ah! como é bom dormir aqui!" . logo sorri.. "Mamãe. como ao pé de uma estufa. que não podem se dobrar nem mesmo se mover. bolos de amêndoa. vai. lá era tão quente." Sentou-se e encolheu-se. através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada. e como está claro. Na ponta dos pés. muito calor..Venha comigo. se não se ouve nada. que eram pessoas vivas. vem e corre. e neste outra árvore. meu menino . Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali. surpresa. olham uns para os outros.

em algum dispensário finlandês. sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha. meninos? E vocês.. tudo resplandece. e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça. neste dia. recomendando-lhes que não chorem mais. na casa de Cristo.. sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. meninas. ainda. Mas todos estão ali nesse momento. e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.mas não. a fome de Samara. são meninos e meninas. Estava morta um pouco adiante. que eles estão muito bem ali. os dois se encontraram no céu.exclama a criança. e choram. há. onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo. e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas. levam-no com eles. De novo abraça seus companheiros. Dostoiévski Publicada por Helena em 5:31 Etiquetas: Dostoiévski 23/DEZ/2008 Bom Natal. todas.Mamãe! mamãe! Como é bom aqui. como nas brincadeiras de roda. estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães. uma árvore de Natal. tomam-no. gelados nos cestos. no meio das crianças. todos juntos a Cristo... Pai Natal .. . cruel. E nesse lugar. uns sobre o seio exaurido de suas mães. cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas. Quem são vocês então. Procurou-se a mãe. é a árvore de Natal de Cristo .. bonecos . num lugar separado. E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele. . por toda parte. só que muito luminosos! Todos o cercam.. E as mães dessas crianças estão ali.. e Ele. junto ao bom Deus. mas alguns tinham morrido.. abraçam-no em seu vôo. mamãe! . no tempo em que grassava. todos são agora como anjos. quem são? .Isto. para os meninos que não tiveram sua árvore na terra... os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. e em torno.Todos os anos. pela manhã. outros. outros tinham morrido junto às amas..respondem-lhe.pergunta ele. . abraçam-nas.

mas. Foi ela que me escolheu. Nessa altura não me chamava Pai Natal e sim Thor. Toda a gente me conhecia e eu conhecia toda a gente. Vi as crianças tornarem-se homens e mulheres e partirem para as cidades grandes em busca de trabalho. Vi coisas boas e más. à passagem. no fundo. mas também de ameaça. As peripécias são muitas e os azares ainda mais. E eu estava sempre ao lado de quem sofria ou de quem ficava contente. mas também das preocupações que não me dão sossego. que. eu acompanhava a vida das notícias que levava e que trazia. nelas vai pousando. também vi o mal que as guerras podem fazer a quem quer viver em paz. Pode ser-se Pai Natal de muitas maneiras. sim porque os ofícios também podem escolher as pessoas e não o contrário. São aqueles com quem se pode contar tanto nas horas boas como nas más. mesmo quando trazem más notícias. muito antes de ser Pai Natal. Acho que é assim que os carteiros são . alegres e tristes e. sim porque os amigos são isso mesmo. usando um tom que era de brincadeira. Querem saber como é que se chega a Pai Natal? Então eu vou explicar-vos. acreditavam que eu podia fazer alguma coisa para tornar mais agradáveis as notícias tristes e ainda mais alegres as notícias boas. o frio e a solidão dos grandes espaços brancos onde só há renas e bonecos de neve com narizes feitos com cenouras geladas como estalactites. também são capazes de deixar uma palavra amiga e um abraço de consolo. É por isso que as minhas barbas estão cada vez mais brancas. em flocos. Vi desaparecer os mais velhos. Como qualquer carteiro que gosta do seu ofício. que tratam por tu o gelo. vê lá que notícias nos trazes hoje! — diziam-me. não escolhi esta profissão. Uma lágrima de tristeza no rosto de quem as recebia dizia-me que podiam ser bem melhores do que eram. onde a invernia durava mais de seis meses e onde a luz do sol era caprichosa e fazia muitas caretas antes de aparecer. Brancas da neve. Se não acreditam.Não é nada fácil a vida de um Pai Natal. Durante muitos anos eu fui carteiro numa pequena cidade do Norte. prestem atenção àquilo que vos vou contar. um nome comum nos países do norte da Europa. com casas de madeira. as pessoas que moravam na pequena cidade de província. — Thor. Elas sabiam que eu não lia nem podia ler as cartas que lhes entregava. Vi nascer famílias inteiras. As pessoas costumam gostar dos carteiros. por exemplo. Um sorriso largo mostrava-me que elas tinham trazido felicidade a alguém. Eu. porque eles. sobretudo nas terras pequenas.

contávamos um ao outro. — Mas eu não passo de um pobre carteiro à beira da reforma — respondi-lhe eu. Qualquer dia tens uma grande surpresa — disse-me Hans Christian. Eu contava-lhe histórias e ele retribuía com outras que a mãe e o pai lhe contavam. rapaz? Se tu partires. Passei a caminhar mais lentamente e algumas pessoas começaram a protestar porque a entrega da correspondência se fazia cada vez mais tarde. Ele fez-me muita falta. nem as histórias que ele contava ao filho ao adormecer. rostos novos e eu já não era capaz de conhecer toda a gente. actor. uma vez postas em livro. até porque me dava a sensação de ter um poder que realmente não tinha. Uma dessas pessoas era um simpático sapateiro chamado Andersen.vistos um pouco por toda a parte e eu não me importava que isso acontecesse comigo. Com a idade. Tu qualquer dia também vais fazer grandes viagens. mas. comecei a pensar em retirar-me para ter um fim de vida mais descansado. — Mas nada te obriga a teres este ofício até ao fim dos teus dias. talvez mesmo escritor. comecei a sentir dores nas pernas e nas costas e o exercício matinal de andar vários quilómetros ao frio deixou de ser agradável e estimulante. Um dia vi Hans Christian de malas feitas para partir e perguntei-lhe: — Para onde vais. que pediram ao chefe da estação de correios para me substituir. queriam que familiares e amigos partilhassem a sua alegria. Mas retirar-me para fazer o quê? Para essa pergunta eu não encontrava resposta. Nas semanas que se seguiram senti saudades de Hans Christian e das histórias que. — Não chores que ele qualquer dia volta — foram as únicas palavras que consegui dizer-lhe no dia em que o seu pai partiu para muito longe. e longe estava eu de imaginar que muitas dessas histórias. mesmo puxando pela imaginação. dando asas aos sonhos que fazem voar as histórias e as lendas por cima das fronteiras que separam os países e os homens. mas melhor do que isto já não consigo fazer — lamentava-me eu. mas ele. ao . de tão felizes que estavam. como as personagens das histórias de que ambos gostamos tanto. — Desculpem. Os pais. sem a sua presença. principalmente para um modesto carteiro cujo único poder era o de ler os endereços nos envelopes e de os entregar às pessoas certas sem demora. Durante muito tempo ele deixou de querer saber se chegavam ou não cartas de longe com notícias frescas e boas. Ao menino foi dado o nome de Hans Christian e quando cresceu passei a contá-lo entre os meus amigos. Quando ele nasceu. fora das horas do meu serviço. não consegui descobrir qual poderia ser. um imperador francês que ele muito admirava. bailarino. a sua substituição está fora de questão. Fiquei a pensar na surpresa de que ele me falou com um sorriso matreiro no rosto magro e pálido. mas devo confessar que. havia mais casas. a partir dessa altura. Acreditem que era uma sensação agradável. ansioso por que chegasse a reforma e. como nos velhos tempos da juventude. enquanto subia para a carruagem que o levaria até à capital. Houve mesmo pessoas que não eram da cidade. que tinha ideias arejadas apesar de o seu ofício ser modesto. As ruas eram agora mais compridas. O pai de Hans Christian nunca mais voltou. Era uma criança pequena e muito metida consigo mesma. Ninguém mais lhe poderia dar a notícia pela qual ele ansiava: a do regresso de seu pai. que era meu amigo e que sabia como eu era estimado. mas que para lá foram entretanto viver. * Ao longo da minha vida como carteiro conheci muita gente. num dia do princípio de Abril. levei cartas para várias cidades e aldeias a dar a notícia da sua vinda ao mundo. a quem vou eu contar as minhas histórias de carteiro velho? — Vou para Copenhaga. Entristecia um pouco mais todos os dias. eu sentia-me mais velho. mais cansado e menos capaz de cumprir a minha função de carteiro. lhes nasceu o único filho. sorriu e limitou-se a responder: — Enquanto ele puder andar e quiser continuar a ser carteiro. para participar como soldado nas campanhas de Napoleão Bonaparte. Quero ser cantor. mas ela acabou por surgir. viriam depois a torná-lo famoso em todo o mundo. com pena de que o meu serviço estivesse a perder qualidade. Fiquei-lhe agradecido por aquele gesto de amizade e de confiança. Portanto. porque. o lugar é dele. Era casado com uma senhora mais velha e recordo-me bem da alegria que o casal teve quando. para ser famoso e rico.

Era Hans Christian quem as mandava e em todas elas me dava conta dos seus êxitos literários. — E será que posso saber qual é esse ofício que agora me propões? — quis eu saber. vais contar os natais e ficarás sempre com a mesma idade. porque dentro de pouco tempo vais receber a visita de uma grande amiga minha que te levará boas notícias”. com a esperança de que ela tardasse o mais possível. onde as crianças da cidade me vinham pedir que lhes contasse histórias e saber se eu tinha presentes para lhes entregar. Nem podia imaginar a alegria que o seu triunfo me dava. estou com muito poucas forças e a saúde muito fraca. Os seus livros eram agora lidos em muitos países e as suas histórias contadas a crianças de todo o mundo. balbuciando com a comoção — não sei o que é preciso fazer para se ser Pai Natal e. Eu devia estar a delirar com a febre e a Fada do Inverno não devia passar de uma alucinação. Foi então que a fada. ao verem-me passar. porque são boas as razões que me trazem à tua casa. Afastado do meu trabalho. satisfeito e intrigado. Deitando contas à minha pobre vida. — Ah. vais ter uma saúde de ferro e a idade vai deixar de contar para ti. Thor. Às vezes as crianças. cá fora. — Não sei se sou ou não uma surpresa. a partir de hoje. então és tu a surpresa de que ele me falava com tanto mistério — exclamei.mesmo tempo. Numa dessas dessas cartas ele fazia-me um anúncio estranho e ao mesmo tempo agradável: “Prepara-te. Confesso que a ideia me agradou bastante. Acho mesmo que estou velho de mais para aquilo que me propões. As pessoas vão sentir saudades tuas. já cansado de tanto mistério. te terá falado em mim. a parte mais importante da surpresa. não desisti de a ver chegar à porta da minha pequena casa de madeira. — Vais fechar os olhos — disse-me — e. Os grandes frios de Inverno deixavam-me cada vez mais abatido e com menos vontade de distribuir correspondência de rua em rua. de casa em casa. por ser muito diferente. — Não deves preocupar-te com nada disso — explicou ela — porque. Tem que ter sempre a mesma idade e o mesmo aspecto. como sabia que Hans Christian não era pessoa para mentir. Tens direito a descansar e a passear pelas ruas e pelas praças sem a obrigação de entregares cartas e encomendas. eu iria sentir-me inútil e abandonado. nem me apercebi da presença. ou será que não o podes dizer a um pobre carteiro que deixou de entregar cartas e que vê a sua vida a aproximar-se do fim? — Claro que podes saber o meu nome. A partir de agora alguém mais jovem se ocupará da tua tarefa. Primeiro de Itália. Todos os dias eu ficava à espera dessa visita que tardava a chegar. Eu sou a Fada do Inverno e venho propor-te um outro ofício que. diziam-me: — Em vez de cartas cheias de gatafunhos. . porque um Pai Natal não pode ser mais novo nem mais velho do que tu. Suponho que Hans Christian. depois de Espanha e de Portugal. — Venho propor-te que te tornes Pai Natal — esclareceu a fada — e. me levantou da cama e me levou até à janela para ver. bem podias trazer-nos um presente bonito. junto à minha cabeceira de doente. mas podem vir visitar-te a casa. acaba. Um dia adoeci com gravidade e os meus amigos disseram-me: — É tempo de parares. mesmo que não seja Natal. uma amiga que te vem ajudar — disse ela. como uma estrela ou uma fogueira nocturna. mas não me atrevi a acreditar que nada daquilo fosse verdade. que parecia ter luz própria. acho que vais gostar muito do teu novo trabalho. Em vez de contares os dias. — Diz-me o teu nome e o que fazes aqui? — Não te assustes. na rua. pegando-me na mão. de uma rapariga de vestido branco e olhos verdes. que assim se aproximava do fim. Mas. Foi nessa altura que comecei a receber cartas de muito longe. afinal. vais abri-los e ver o que está parado à tua porta. Quis saber quem era e o que fazia ali. para além disso. sendo parecido com o que tiveste durante tantos anos. — Mas eu — respondi. mas sou. por aquilo que sei de ti e pelo que sei que as crianças sentem a teu respeito. pelo menos. — E posso ao menos saber o teu nome. quando eu acabar de contar até dez. nosso amigo comum.

e não é muito diferente daquilo que fazias quando eras carteiro. Ouvi atentamente todas as palavras da fada e comecei logo a fazer projectos quanto à forma de realizar da melhor maneira o meu novo trabalho. escritores seus amigos e a ver os seus livros traduzidos noutras línguas nas montras das maiores livrarias. Mas eu sou um Pai Natal e as pessoas como eu não devem andar de carro ou de comboio. Nesse instante deixei também de sentir dores nas pernas e nas costas e a fraqueza que me levara à cama transformara-se num vigor e num bem-estar imensos. primeiro com os aviões e mais recentemente com as naves espaciais. Os meus maiores problemas foram sempre com os objectos voadores. Às vezes eu levava horas a tentar decifrar os pedidos que as crianças me faziam. Alguns até traziam desenhos bonitos. as pessoas a andarem cada vez mais depressa. — Claro que gosto — exclamei — mas não acredito que seja para mim e que vá ser eu a viajar nele. deparei com um lindo trenó. E muitos não eram. — Eu gosto de ser criança e tenho vontade de ser feliz — diziam-me os mais pequenos. as populações a aumentarem e a movimentarem-se de uns países e de uns continentes para os outros. para a terra dos meus amigos cangurus. se desfazia num clarão. Vi. No começo tudo foi agradável e entusiasmante. puxado por quatro parelhas de renas. ainda ouvi um insulto (digo que era um insulto pelo tom e não porque saiba o significado da palavra) que ainda hoje me dá que pensar: — “Desaparece da minha frente.Fiz exactamente como ela disse e. nem lhe pude responder. para que não se estrague a magia das histórias que ajudam a sonhar. Era uma questão de justiça e eu. ao fazê-lo. Quis agradecer ao meu amigo Hans Christian. as fábricas a aparecerem e a encherem os céus de fumo espesso e escuro. depois de ter evitado à justa a colisão com um avião gigantesco que voava para a Austrália. Outros vinham escritos com uma letra miudinha e cheia de hesitações. Eu gostava muito daquilo que fazia e não havia pedido que não satisfizesse. Mas é mesmo essa a função de um Pai Natal. de onde são e em que medida podes ou não satisfazer os seus pedidos. — Gostas? — perguntou ela. e eles responderam-me: “São os automóveis. Tive que aprender várias línguas e arranjar óculos com lentes mais fortes. presentes a crianças de muitos países. com roupa de macia flanela vermelha. Apenas terás que viajar mais e não te poderás limitar a entregar encomendas. cá de cima. A partir de agora serás tu a conduzir aquele trenó e a levar. ou. Eu nunca percebi verdadeiramente para que servia tudo aquilo. — Isto nunca esteve tão mal — lamentavam-se os velhos. nem o seu paradeiro. os autocarros e os comboios. pelo menos. prometi: “No próximo Natal vou deixar-lhe um presente na chaminé”. feitos a várias cores. ninguém espera que andem. gorro da mesma cor com uma borla branca na ponta e com barbas ainda mais compridas do que as que habitualmente usava. se já tinha sido justo como carteiro. senão ainda lhe teria . até por ser novidade. o mundo a transformar-se: as cidades a crescerem. pouco ou nada tinham recebido. Claro que vais receber muitas cartas e ter que as ler para saber o que querem. como era Natal. Tornara-me Pai Natal e não ia ter mãos a medir. E eu. Os pedidos eram satisfeitos pela ordem de chegada e primeiro estavam sempre os meninos e as meninas que. mesmo que não fosse fácil de atender. — Pois podes acreditar no que vês. os aviões e os navios”. mas não sabia a sua morada. ao longo do ano. Senti a tentação de satisfazer primeiro os pedidos das crianças da minha cidade. Já estive em vias de chocar com alguns e só por milagre isso não aconteceu. Tive que perguntar aos gnomos que me ajudavam e que estavam mais atentos às pequenas e às grandes coisas da terra os nomes de estranhos objectos metálicos que eu observava cá em baixo em movimento. desaparecendo do meu quarto sem sequer me dizer adeus. Dividido entre o sonho e a realidade. com os olhos a faiscarem de raiva. mas não caí nela. senti que ela me tocava na testa com a varinha de condão e que. agora tinha de o ser ainda mais como Pai Natal. Ao longo do ano chegavam-me cartas e postais de todo o mundo. porque os meus problemas de deslocação resolviam-se com um simples e rápido trenó. Falando com os meus botões. ao abrir os olhos. em Dezembro. Há uns anos. ovni de uma figa”! — gritou o comandante furibundo. Eu nunca me sentira tão bem na minha vida. Alguém havia de me dar a sua morada. Eu era agora um Pai Natal a sério. já que ele andava agora por todo o mundo a visitar cidades.

tudo se torna possível. As renas conhecem-me há tantos. carros de bombeiros feitos de lata. e foi precisamente isso que eu fiz. tantos anos que. Ninguém tem tanta sensibilidade como os animais para perceber se estamos ou não a sofrer. É isso que se espera de um Pai Natal. de estar com as outras pessoas. Não quero dizer que fosse melhor nem pior. Acho apenas que era diferente. quando finalmente chegaram. Guardei os seus presentes no meu sótão iluminado. o velho Thor às vezes interroga-se: “Será que os presentes que eu entreguei ao longo da minha vida fizeram bem aos meninos e às meninas que os receberam? Será que não ficaram mais mesquinhos e gananciosos por terem presentes a mais?” Ainda não consegui e se calhar nunca conseguirei encontrar respostas para estas perguntas. não os encontrei. Agora pedem-me coisas muito diferentes: jogos de computador. que há coisas que as pessoas não podem nunca perder: o gosto de conversar. também perdi a conta aos anos que tenho de idade. sabem logo que é uma grande tristeza a tomar conta de mim. é ver os estragos que as guerras provocam às pessoas e às casas. Claro que não pude satisfazer o pedido. e. das crianças. Vou ver se não me esqueço de satisfazer o pedido da Bárbara. porque é para isso que um Pai . nem que seja para contar estrelas ou ondas. Ovni é a tua prima! Mas achei de bom tom ficar calado e seguir viagem. quando o respeito falta. vi que uma menina chamada Bárbara me pedia um telemóvel para poder falar a qualquer hora do dia com os primos que estão emigrados no Canadá. na maior parte das vezes. No tempo em que eu contava histórias a Hans Christian e ele mas contava a mim. Às vezes. das árvores e dos rios. Pai Natal? — Por nada. Por aí vejo as voltas que o mundo deu. depois da minha conversa com a Fada do Inverno. mas. Era só o que faltava: eu envolvido numa discussão de trânsito! O que mais me tem custado em todos estes anos que levo de ofício e que já não têm conta. Eu sei que o mundo não pára e que tudo se transforma. até perto das casas dos meninos que me tinham escrito cartas e postais. Um Pai Natal não pode contar tudo aquilo que vê. Não me chegam os dedos das mãos para contar os natais em que fiquei sem entregar presentes. Mas esses dias. de olhar para o céu e para o mar. Confesso que tenho feito um grande esforço para me manter actualizado. nada disto existia. dos pássaros. Para dizer a verdade. jornais. Mas eu não lhes menti inteiramente quando falei no fumo das fábricas. mesmo sem querer armar-me em filósofo de trazer por casa. sempre à espera de dias melhores e mais pacíficos. eu acho que as pessoas cada vez têm menos respeito umas pelas outras. Levei o meu trenó o mais longe que pude. Há meses até recebi uma carta de um colibri a pedir-me uma máscara contra os fumos de uma grande fábrica que construíram perto do seu ninho. Mas também sei. dos que fazem espirrar e dos que nos deixam cheios de comichões na pele. os meus ouvidos andam cansados de ouvir tantas queixas. já estavam fora de tempo. carros telecomandados. porque nos fazem pensar e nos ajudam a fazer pensar os outros. folhetos explicativos e muita outra papelada.dito: — Ovni és tu. de ouvir e de contar histórias. Cada vez mais andam no ar fumos esquisitos e irritantes. mas não faz mal. leitores de CDs. muito diferente. dos que fazem chorar. — Quando ele está assim triste. Antigamente pediam-me ursos de peluche. meu azelha dos céus. lendo o segundo parágrafo. é do nevoeiro e do fumo que sai das chaminés das fábricas — respondi eu com pouca convicção. as perguntas são muito mais importantes que as respostas. mas elas perceberam que eu não estava a falar verdade. É mesmo verdade. Tinham deixado de morar ali. Era tudo mais simples e menos confuso. Mas os pedidos estranhos não se ficam por aqui. sobretudo quando são pequeninos como os colibris. dos peixes. o melhor é deixá-lo ficar em paz com os seus pensamentos — costuma ser este o comentário das renas. marionetas e bonecas de pano. tinham sido levados para campos longínquos onde as pessoas são tratadas como bichos e alguns nunca mais puderam regressar às suas casas. mal eu começo a fungar. Muitas vezes chorei sobre as cidades destruídas e incendiadas pela guerra e ouvi as minhas renas a perguntarem-me: — Porque choras. Ainda há pouco abri uma carta vinda não sei bem de onde e. Aqui. Por isso. primeiro porque não costumo dar máscaras antipoluição e depois porque não existem nenhumas feitas à medida dos pássaros. Leio livros. Até me arrepio quando falo nisto. porque eu. Vai mas é arrumar essa banheira de lata pintada na garagem da tua avó. mesmo não vos contando as coisas terríveis que já vi.

Quanto a dar televisões de presente. Vim até à tua casa para te oferecer este pequeno trenó. à passagem por uma aldeia de montanha. como sempre acontece nos sonhos. que estava mais rígido que um pedaço de granito numa montanha. me torno um desmancha-prazeres. um miúdo de cabelos negros e olhos muito vivos. barbas tão compridas como as minhas e este ar cansado e errante com que hoje me vês. este ano tens que me trazer uma televisão gigante para eu ver o que se passa no mundo. nos sonhos tudo. e senti uma grande ternura. tinha chegado o momento de acabar o sonho. — Pai Natal. recebeu. Eu sei que. Se calhar. mas presentes desse tamanho já não cabem no meu trenó. Não leves a mal. — Ninguém me disse. — Mas como podes tu saber a meu respeito coisas que eu nem sou capaz de imaginar? — Se calhar é a vantagem de ser Pai Natal. às vezes. fui eu que adivinhei. hás-de lembrar-te de mim e hás-de lembrar-te daquilo que irás ser quando tiveres a minha idade. só que muito maior e com renas verdadeiras. Sentei-me na cama e tentei tocar-lhe nas barbas. Eu sei que quando tiveres a minha idade. vais precisar de um trenó como aquele que agora te ofereço. em tom de menino esperto e inquiridor. em sonhos. Eu ia fechar os olhos. mas. Olhei para aquela cara e confesso que ela não me pareceu nada estranha. prefiro fazer outras escolhas. se aqui estivesse o meu amigo Hans Christian. ou quase tudo. Olhei. nascida da imaginação de quem já foi menino e de quem. cheio de coisas para contar e de presentes para entregar. na altura certa. é possível. Mas eu vou tentar satisfazer a tua curiosidade. ainda menino. Não tenho nada contra a televisão. que não conseguia sequer mexer um músculo. na minha terra fria do Norte. os presentes da alegria e da saudade de ser menino? Podem ter a . Eu estava a dormir. e de repente bateram à porta e era eu que vinha entregar um presente a mim mesmo. Ainda esta noite tive um sonho. — Mas quem foi que te disse que eu ia querer um trenó para usar quando tiver a tua idade? — perguntei eu. Sentei-me na cama e perguntei-lhe: — Que presente me trazes? — Trago-te um trenó pequenino para tu poderes viajar nele quando tiveres a minha idade — respondeu-me o Pai Natal. De resto. Agora eu pergunto: será que é real o que vos estou a contar nesta história? Será que há histórias verdadeiras? Será que um Pai Natal. ainda com a idade de ser um menino. Como vocês sabem. tenho saudades das noites e dos dias em que havia paciência para sonhar e para inventar histórias. mas por todos aqueles a quem consigo dar um pouco de alegria com o recheio mágico do meu saco iluminado. mas. até sonharmos que recebemos a nossa própria visita. como sou do tempo em que ela ainda não tinha sido inventada. senti que tinha os movimentos presos. para aquele Pai Natal que era eu com os anos que hoje tenho. Não por mim. Sempre que olhares para ele. que me pediu para não me esquecer de ti nesta noite de todos os presentes e de todos os afectos. antes de vir bater à tua porta. Era eu menino a olhar para mim já velho e a sentir simpatia por aquele homem de barbas compridas e brancas que me trazia um presente de muito longe e de um sítio secreto no fundo da noite. Quando o ecrã é grande até as guerras são um espectáculo! — disse-me na semana passada. mas prefiro dizer o que penso e o que sinto.Natal existe. sendo menino. E pronto. mas. eu gostava de vos dizer que o Pai Natal também tem sonhos e gosta muito de sonhar. não é sempre uma figura mágica. sinceramente. Esta madrugada. mesmo quando conta a sua própria história. eu não sei mesmo o que seria a vida de um Pai Natal se não fossem os sonhos que o acompanham por toda a parte. são manias que eu tenho. e eu respondi-lhe: — Em vez da televisão. preferia que ela me tivesse pedido um livro de lendas ou uma boneca. E foi isso que eu fiz. era bem capaz de me dar razão. Sonhei que recebia a minha própria visita. * Embora todos ou quase todos sonhem com o Pai Natal quando são pequenos. mas. Pode ser que eu esteja a ver mal as coisas. este ano vou oferecer-te um livro muito bonito. mergulhar numa escuridão profunda e preparar-me para ser apenas aquilo que sou nesta história que hoje vos conto na primeira pessoa: um Pai Natal vindo das terras geladas e brancas do Norte. eu passei pela casa de um outro menino chamado Hans Christian.

que tenho passado por muitas peripécias e também por muitos azares. Estávamos a ver que nunca mais acordavas! — desabafou uma das renas. quando senti que o tapete fofo das nuvens me fugia debaixo dos pés. Vá lá um Pai Natal orientar-se no meio destas mudanças de temperatura! A constipação que agora me anda a incomodar apanhei-a há dias quando me saltou um esqui do trenó e passei ao relento mais de duas horas a repará-lo. Visto o meu casacão de flanela e faz um calor abrasador. o mais esperto e espevitado de todos eles. — Pronto — gritou-me ela — ainda não é desta que vais deixar de ser Pai Natal! . o que não quero é faltar ao encontro com os meus amigos de todo o mundo na noite de Natal. Tudo isto é bem capaz de ser verdade. mas também é verdade que quem escreveu estas cartas de resposta gostou sempre. Os esquis estão desengonçados e as renas. mas agora passo os dias a espirrar. “lamentamos informar que a resposta será negativa. no meio de um enorme clarão. E. de varinha de condão em riste. pedindo para me ser dado um trenó novo. também me sei amado como só os pais. — O Pai Natal vai ficar de cama e não pode entregar os presentes — disse-me Adónio. mas a verdade é que temos outras prioridades para respeitar”. Mas eu não me deixei assustar com a perspectiva de ficar de cama. Um grupo de amigos meus do País dos Sonhos Azuis decidiu escrever uma longa carta aos governos de vários países. Por isso eu vos disse. Não tenho medo de morrer com uma constipação. Um Pai Natal é muito mais interessante quando pergunta do que quando responde. talvez não tivesse salvação. Fui ao armário dos segredos antigos buscar um xarope feito a partir de uma receita da minha avó e hoje já estou bastante melhor. quando eu dava os primeiros passos no meu novo ofício. E eu gosto muito de ser perguntador. O que me está a preocupar é o mau estado em que tenho o trenó. cada vez têm que fazer mais esforço para o puxar através das longas e sempre engarrafadas avenidas do céu. “porque não tentam uma fundação ou uma empresa de brinquedos? A nossa função não é dar subsídios ao Pai Natal”. Agora estou acordado outra vez. Ai. a cair daquela maneira. coitadas. e achei-a tão bonita e tão luminosa como na primeira luz em que nos encontrámos. Nunca sei se é Verão ou se é Inverno. Gosto de perguntar onde começa e acaba o sonho dos meninos que me inventam em cada noite de Consoada. As estações do ano andam todas trocadas. Sigo o fio de luz deixado por um cometa que atravessa a noite em direcção a lado nenhum. — Vamos fazer-nos outra vez ao caminho. “as nossas disponibilidades financeiras estão esgotadas com a compra de dois novos porta-aviões”. Estão todos muito ocupados a pensar nas suas vidinhas. pela primeira vez em tantos anos. quem manda às vezes tem a memória curta e esquece-se de que um dia já foi pequeno. Gosto de perguntar qual é a morada das estrelas que me iluminam o caminho. O maior de todos os azares aconteceu-me há dias. Quando cheguei a casa os gnomos que me ajudam notaram que eu tinha o nariz a pingar e os olhos muito vermelhos. e ainda tenho muito para viajar e outro tanto para contar. quando era pequeno. Eu bem apito. os avós e os grandes amigos podem ser. Porque não quero e porque não sei.certeza que não vou dar resposta a nenhuma destas perguntas. se é Primavera ou se é Outono. porque isso só pode acontecer no fim da história. Gosto de perguntar qual é o melhor caminho para chegar mais perto daqueles de quem gosto. pedi a ajuda da Fada do Inverno que não tardou em vir em meu auxílio. no começo desta minha história. * — Atchim! Atchim! — desculpem lá o mau jeito. Porque vocês me inventam e porque eu. Fico em mangas de camisa e sinto um frio de rachar. e eu ainda tenho um longo caminho a percorrer até lá chegar. Vi-a chegar em voo picado. Pai Natal. bem sacudo os guizos e os chocalhos. mas ninguém se afasta para me deixar passar. Mas as respostas que receberam eram quase todas iguais: “O orçamento deste ano não prevê despesas supérfluas”. Foi então que. É seguindo estes rastos que eu encontro sempre o caminho que me leva até ao fim das histórias e até à casa de cada um de vós. Senti que me afundava e que. só não vos entrego já o presente que trouxe para vos dar. meus amigos. Ia eu todo satisfeito a sacudir as rédeas do meu trenó. de receber as minhas visitas na noite da Consoada. dito isto. Endireito as costas no assento do meu velho trenó e parto para um outro capítulo. ao saber-me inventado.

sobre as culturas e no próprio clima. Ainda quis convidá-lo para beber um chazinho de tília. quando os abri. Vão ter uma boa recompensa de erva fresca. muito longe. — Com certeza que vou satisfazer o seu pedido. surpreendido com tão inesperada visita. que é uma das últimas maldades que os homens conseguiram fazer a este pobre planeta. os laços nos embrulhos e as mensagens nos cartões que acompanham cada pacote. mas ele já estava de partida com a sua montada. Quem me procura é um senhor de idade. Quando ouvires os guizos das renas. encarrego-me pessoalmente de verificar se tudo está em ordem: os endereços. — Essa é a parte mais fácil de tudo isto — respondeu o homem — porque eu trago nos alforges do meu cavalo centenas de sacos desses. que é o do sonho e da fantasia. Têm dentro um pó luminoso de magia e algumas sílabas encantadas que só se usam nas palavras das fadas e dos adivinhos. meninas. — Obrigado.— Obrigado. podes contar comigo. tal como eu. — Desejo que tenhas também uma boa noite de Natal. Logo à noite vou mais uma vez distribuir presentes de Natal às crianças de todo o mundo. digo-lhes num tom calmo e afectuoso. Dar com a sua casa foi tão simples como sonhar. porque um Pai Natal tem que ser cuidadoso com todas as etapas por que passa o seu trabalho. que vai ser só mais uma viagem para entregar presentes. Não fiquem nervosas. Fechei os olhos. piores serão os efeitos do sol sobre a pele dos seres humanos. As minhas renas começam a ficar impacientes com a proximidade da grande viagem através dos céus da noite. Jorge Edinter. cheio de curiosidade de saber como tudo aquilo tinha acontecido. a quem devo o ofício que hoje tenho. Traz um velho cavalo preso pela rédea e parece estar muito cansado. Ainda vou precisar de ti para entrares em muitas das minhas histórias. — Quero pedir-lhe que. É que os homens esqueceram-se de como se sonha e isso tornou-os muito mais tristonhos e carrancudos. pensei que tinha esse desejo e. O velho cavaleiro que nunca teve Natal já deve estar muito. já sabes que sou eu que estou a chegar. — Meu querido Pai Natal — esclareceu-me ela com a sua voz doce e bonita — o que aconteceu foi que caíste no buraco do ozono. Fada do Inverno. — Mas o que é o buraco do ozono? — quis eu saber. Hans Christian — respondo. Senhor Pai Natal. Era só o que nos faltava! Está a aproximar-se a grande noite da distribuição dos presentes e eu. exausto de tantas peripécias e visitas inesperadas. Logo à noite passarei pela tua casa para te deixar uma lembrança. como sempre acontece. junte a cada um dos presentes que entregar um saquinho de sonhos e de mistérios. me impeça de cair de novo no buraco do ozono. vestindo roupas escuras de um século anterior àquele em que eu nasci. pela tua ajuda. Letria 1996 . embora não saiba onde posso encontrar esses saquinhos de sonho e mistério. de tão desnorteado que estava com a prolongada queda. estava aqui a bater à porta. mas será que posso saber o que me aconteceu? — perguntei eu. E só espero que a protecção da Fada do Inverno. — Eu sou aquele que nunca teve Natal — diz-me — e venho aqui pedir-vos um grande favor. ajeitei a minha amarrotada fatiota e fiquei a saber que existe mais um problema que todos vamos ter que resolver: o do buraco do ozono. Batem-me à porta e vou abrir. muito pálido e magro. a caminho de qualquer lugar que eu nunca serei capaz de encontrar no mapa. — Faça favor de dizer — respondo-lhe. Esclarecido. Fechei os olhos e adormeci. Do outro lado está Hans Christian. cenouras e açúcar e muito tempo para descansar”. que me diz: — Quero desejar-te um bom Natal e pedir-te que nunca te esqueças desta noite. no meu velho e esvoaçante trenó. — Venham os saquinhos — propus eu — e logo me encarregarei de os distribuir. — É o resultado de todos os males que os homens têm feito à atmosfera. — Não foi difícil. Toca o telefone e eu atendo. José Porto. mas preocupado. Nada mais simples. Quanto às histórias. usando e abusando de “sprays” e de outros produtos químicos que poluem e estragam. “Calma. porque nós agora pertencemos ao mesmo mundo. — Nunca pensei que um homem que nunca tem Natal desse com a minha morada — comentei. Quanto mais o buraco do ozono se alargar. neste Natal. Nunca deixei essa tarefa em mãos alheias.

se tornar nessa altura notável. sempre atenta aos passos das monjas. dobrava-se quase até ao chão. O vinho de arroz queimava-me a garganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. Todavia. A seguir ao jantar falava-se nisso. tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite de festa. uma em frente da outra. As criadas cortejavam-na nos corredores. nem no segundo. coscorão lençol. na época do Natal. aparecia com as especialidades da terra: aluares. a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça. Sorríamos.Publicada por Helena em 6:34 Etiquetas: José Jorge Letria 21/DEZ/2008 Natal Chinês A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. Os restantes comêlos-iamos nós. . e saía atrás delas. Servia-se vinho de arroz. pensativos. Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas. no pátio maior. preparavam-lhe pratos especiais. que por sua vez o oferecia à directora. a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório. Toda de vermelho. a senhora Tung. Uma das criadas entrava. a subdirectora e a mestra dos estudos. Aldegundes. embevecida. a filha sabia. fanática terceirafranciscana. como quem cumprisse um dever. falava inglês. no grande e deserto refeitório.. à porta da cozinha. Além de ser mãe da subdirectora. Ficávamos. Para lá dos pátios. de fumar. «chá de Paris». indicando a irmã Chen-Mou.. em ar de gracejo. Entretanto. a senhora Tung sorria constantemente. Via-a casualmente a contemplar. Daí a presença da senhora Tung. tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores. a irmã Chen-Mou desconversava. A filha. que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes). com as meninas em férias. Costumava vê-la logo de manhã. A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau. farte almofada. bebia dois cálices. saboreava-o devagar. Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhes permitia comer connosco): a directora. Vinham e partiam logo (tarde de mais para se demorarem). os seus olhos eram dois riscos tremulantes. Encontrava-a por fim à mesa. de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo. Inclinando a cabeça para o peito. E muito empertigada. O chocolate era a esperada surpresa da directora. mas o coração atraiçoava-a. que achava isto enternecedor e gratificava a velha generosamente. E eu traduzia em inglês para a senhora Tung. a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita. com chocolate quente. assim. passando a bandeja dos bolos à superiora. como mal provara o «chá de Paris». Quanto à senhora Tung. A directora. a senhora Tung balbuciava. gostava de comer. A senhora Tung chamava-lhe. seca de carnes. as criadas espreitavam. No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate. segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda. o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras. mas todos os anos se nomeava catecúmena. Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo. e Miss Lu. Baixa. com a irmã jardineira. Rezava-se. o presépio do convento. Nesses dias. Com um sorriso meio complacente meio contrariado. que separava uns tantos para o convento. a senhora Tung e eu. Finalmente. vestira-se de gala para a festividade da meia-noite. uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim. Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito. O certo. a irmã Chen-Mou.. ao fim da Missa do Galo. o reposteiro ao fundo da sala apartava-se. levavam-lhe chá ao quarto. molhando nele o bolo. quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa. À luz das velas olorosas do centro de mesa. nem no terceiro Natal que passei em Macau. é que ambas o bebíamos. a criada macaense mais antiga do colégio. na noite de Natal. a senhora Tung era cristã. dizendo que aluá era o colchão do Minino Jesus. perguntava em chinês formal quando era o baptizado. e. de olhos atenciosos. a acompanhar os bolos de sésamo. sorvia à pressa o líquido escaldante. entregando cerimoniosamente o presente à filha. curiosas. fartes e coscorões. de jogar ma-jong. depois. e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse. silenciosa. O coração continuava apegado a antigas devoções. Nem no primeiro. contudo..

. em cima da cómoda. A menina sabia. Fora ela quem lhe dera filhos. sob uma lua branca. E aquele mistério da virgindade de Nossa Senhora! Virgem e mãe ao mesmo tempo. de um palmo de altura. Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos. Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada. num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor? A Deusa da Fecundidade. como se à procura de compreensão. entre flores.. Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?» Não era essa a lei do Senhor? Porquê então a Mãe de Cristo diferente das outras. Já em casa. Como o Céu alagando a Terra na estação própria. tinha as mãos quentes e as faces afogueadas. Mudava. E quem sabia mais do que a filha ? Eu já sentia frio. Depois. toda nua e toda de oiro. atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atracção. sentada. Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus. E as palavras saíam-lhe lentas e soltas.. Parava a meio do largo átrio enluarado. à viagem de regresso. ― a «menina» era a irmã Chen-Mou. aludindo ao tempo. Tratava-se de uma pequena divindade.. por causa da deusa. Toda a felicidade lhe provinha daí. Despedíamo-nos. não devia fazer aquilo. convidava-me a ir ver o seu presépio. mãos cruzadas no colo. Não podia portanto deixar de a amar. na gaveta. Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto. A China Fica ao Lado . por causa da deusa. anunciadora do Inverno para a madrugada. no entanto. não me acreditaria... Não. Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela. A Deusa da Fecundidade era de oiro. feições chinesas. E que. mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura. pequenina. em cima da cómoda.. O quarto cheirava fortemente a incenso. sim. chegava de repente. de pé. a senhora Tung abria-se em confidências. de cabaia de seda encarnada. lá estava o Menino Jesus. apesar da aguardente de arroz. na gaveta. Difícil para mim responder às dúvidas da senhora Tung. operava milagres..Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa. O Menino Jesus era de marfim. rápida. A senhora Tung. às saborosas guloseimas da criada macaísta. trajando ricamente. de qualquer jeito. O Menino. espantada. ali. A deusa. que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer. como se falasse sozinha. A filha asseverara que o Menino Jesus entristecia. a senhora Tung recorrera à sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa. de olhar meditabundo. Estéril durante sete anos.. Em cima da cómoda. e surgia a deusa. Maria Ondina Braga. de assunto. mas racionalmente. patrona dos lares. a subdirectora do colégio ―. timidamente. sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade. O Inverno. dessa afortunada hora em que a deusa a escutara. nem ela parecia esperar resposta. sapatinhos de veludo preto. a senhora Tung abria a gaveta. nua.

Quando o rapaz já ia sendo crescido. e o velho levou o dinheiro e o rei ficou com o cão. mandou-o embora para casa do pai. e começou logo a andar caçando. e as lebres que vir apanho-as todas! De maneira que o rapaz fez-se num cão. e foram-se para o campo. que o queria educar muito bem-educado. mas vendo-o o filho tão apaixonado e adivinhando logo a razão por que era. que levasse o afilhado. e deixou-se ficar muito bem parado. e o rapaz tudo era querer aprender. todas apanhava! Carregaram o burro de lebres. e o rapaz aprendeu a ler na ponta da língua. como deu notícia que o rapaz ia já fazendo algumas coisas. que o meu cão é o meu governo! De maneira que o velho foi-se embora a vender as lebres. Fazia artes diabólicas o padrinho. e o padrinho pô-lo à escola. O compadre disse-lhe que sim. Começou o rapaz a praticar.Publicada por Helena em 6:10 Etiquetas: Maria Ondina Braga O Conto das Artes Diabólicas Era uma vez um padre que tinha um afilhado. todos se admiravam! – Oh! Tanta lebre que leva aquele velho! Diz-lhe o rei: – Ó velho! Como apanhaste tu tanta lebre?! – Isto. Assim que percebeu que já o não avistavam. para verem o cão apanhar as lebres. começou logo o cão a andar à busca. senhor. diz o filho: – Pai. que o padrinho fazia artes diabólicas. não senhor. mas vossemecê peça muito dinheiro. começou ele a ver fazer artes ao padrinho. Levantou-se uma não tardou nada. e fartava-se de espreitar o que fazia o padre! Até que uma vez encontrou um livro e pôs-se a ler – e viu que dali estudava o padrinho as artes que fazia. O padrinho. Vendo o velho com tanta lebre a carregarem o burro. olhe que o rei há-de-lhe dizer para me vender. não passas sem me vender o teu cão. e não tinha sequer que lhe dar de comer. de modo a nunca vender senão as lebres. e o burro tornou a vir outra vez carregado de lebres! Diz o rapaz: – Pai. – O meu cão não vendo eu. e como vissem um homem perguntaram-lhe: – Você viu pra aí algum cão atrás duma lebre? Diz ele: . o cão fez-se num homem. diz-lhe o rapaz: – Pai. No outro dia voltaram à caça. Todas as lebres que apareciam. e levou com ele todos os companheiros. De maneira que pediu ao compadre que lhe deixasse ir o afilhado lá pra casa. e ele mete-se a correr atrás dela – e dali a pouco já o não avistavam. que eu to dou pelo teu cão. O pai era pobre. foi o meu cão! Diz-lhe o rei: – Hás-de-me vender o teu cão. Correram todos a uma altura para avistarem o cão. e já ia fazendo algumas coisas. Pediu uma quantia que a ele lhe pareceu. Depois de chegarem ao campo. Um dia determinou o rei sair à caça. que o meu cão é o meu governo! – Pede o dinheiro que quiseres. Passa o velho pela porta do rei. Foi o rapaz pra casa do padrinho. e vieram-se embora a vendê-las à terra. Assim que chegaram ao campo. e passaram à rua do rei. e vão dizer logo a Sua Majestade: – Ali vai o velho outra vez! E outra vez com o burro carregado! Diz-lhe Sua Majestade: – Ó velho. – O meu cão não vendo. não tenha fezes! que amanhã saímos. e verá que arranjamos muito dinheiro! No outro dia prepararam os dois um burrinho que tinham. eu agora faço-me num cão e vou à caça. não senhor.

Chegou: – Então. ladrões o levaram. – e o padrinho. feito num cavalo. Dizem as mulheres: – Tira-se-lhe o freio. faz-se numa lebre. Diz uma: – Aquele cavalinho tem muita sede. Tanto que viu que o padrinho o agarrava. que era muito bonito. assim que as viu. Mas apanha-se o cavalinho sem freio – e agora verás quem há-de fugir! Vem o padrinho e faz-se noutro cavalo mais forte. Levaram-lha e ele não podia beber. porque a sua vontade era apanhar o cavalo pra em seguida dar cabo dele. quando a princesa se foi deitar. e vossemecê vai à feira a vender-me. e mete atrás dele. O pai recebeu o dinheiro e entregou o cavalo – mas não se lembrou de lhe tirar o freio! Apanha o padrinho o cavalo e monta-se nele – e agora verás quem há-de fugir – e da corrida ia-o rebentando! Até que se apeou à entrada de um povo. tudo era querer ir também direito ao poço. tiraram-lhe o freio. O padrinho fez-se num galgo. Diz-lhe o pai: – Tu que tens?! Diz: – Ó meu pai! que tenho um homem dentro da cama! O pai buscou e não viu nada. tire-me o freio. e ele aí vai atrás da lebre! Tanto que viu que o padrinho já a agarrava. e disse para a filha muito alterado. lá baixo! Lá vai ele já muito longe! Ora até agora eles correm.– Vi! Lá vai ele a correr. A princesa quando o viu: – Olá! Um anel tão bonito aqui na varanda?! Apanhou-o e meteu-o no dedo. já temos que comer?! – Isso sim! O que me deu o rei. A noite. De maneira que o velho marchou para a feira. a ver o que era: – mas ele torna outra vez a fazer-se em anel e meteu-se logo no dedo da princesa. Roubaram-mo! – Deixe! Logo se arranja mais! Torna o filho a dizer ao pai: – Pai. porque não viu onde caiu o anel. Corre o pai ao quarto da filha. e antes de ir onde tinha de ir disse para o animal: – Quieto ai! Com outra corrida hei-de-te arrebentar! Ali perto havia um poço. – Isso são loucuras! Vê lá agora se ainda tornas! . a ver se ele bebe. Passaram duas que iam para lá. O padrinho faz-se numa águia. Diz: – Ó compadre! Quer-me você vender o cavalo? Diz: – Vendo! Mas vai-lhe custar muito dinheiro! O padre deu-lhe todo o dinheiro que ele lhe pediu. Prendeu o cavalo a uma árvore. vai vossemecê ver como se arranja mais! Agora faço-me num cavalo. não quis tirar o anel e deitou-se com ele. faz-se numa pomba e larga a voar. e o cavalinho. Foram elas. e mete logo atrás da pomba. a ver se descobrem o cão! De maneira que trataram mas foi de se ir pra o palácio – e o rapaz para casa do pai. pai. onde as mulheres iam à água. O anel fez-se-lhe num homem deitado com ela – que mal o vê começa a gritar. mas quando me vender. e achou o anel. Vamos-lhe levar uma caldeira de água. fez-se num anel – e caiu! Onde havia de cair o anel? Na varanda do palácio do rei! Foi a princesa até à varanda. com um cavalo que era uma lindeza! Quem havia de ele encontrar? O compadre! Viu logo que tinha o afilhado diante dele. esse nunca soube para onde foi o rapaz. Quando viu que o padrinho já o agarrava.

e ainda cá há-de voltar pra que me vendas. não vendo. . e diz: – Oh! Aquilo é o meu afilhado!. o homem fez-se outra vez no anel. deitado ao pé da princesa! Ela.Com que não sei se o anel ainda existe ou se já levou fim – porque eu vim-me de lá embora e nunca mais o vi. Ele anda pra ver se dá cabo de mim.. Foi-se embora o padre pelo mesmo caminho.. toda esbugalhada! Faz-se o padrinho numa galinha. Outra vez foi o padre onde à princesa: – A Senhora Princesa há-de-me vender o seu anel.Começou a andar muito soado um anel que tinha a princesa! O padrinho. e deitam-se todos a comer nos bagos. e ele ficou feito anel no dedo da princesa. – sempre lhe disse: – Vá lá! Vendo! Trataram o preço. Ela disse-lhe que não – que lho não vendia. desconfia. e tu vende-me – mas quando me passares para a mão dele. Escapou um bago que os pintos não viram! Era ele – que se fez numa raposa e comeu a galinha. E foi e disse à princesa se lhe vendia o anel. e quando foi de manhã ao levantar... com muitos pintos. . deixa-me cair no chão. Mas estaria o rei a pegar no sono. Mas ela a desenfiar o anel – e a deixá-lo cair no meio do chão! Cai o anel no meio do chão – e faz-se logo numa romã... e o anel diz à princesa: – Aquele homem que veio aí pra tu me venderes é o meu padrinho. com medo do pai. Os meus amores Publicada por Helena em 5:56 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores 20/DEZ/2008 Conto de Natal . Vende? Vendo. e ele deu o dinheiro.E foi-se para o quarto e meteu-se na cama. Trindade Coelho. e a princesa meteu-o no dedo. já não gritou.. e os pintos matou-os todos! Ali acabou o padrinho com a existência. o anel que torna outra vez a fazer-se num homem.. que ouve falar tanto no anel.

os três reis do Oriente. ou mesmo infraestruturas. atravessava os rios e os lagos. eu ia a Belém. perguntava eu. caixas e tábuas desapareciam. mais rebanhos. eram bonecos de barro comprados nas feiras. Acendiam e . Não era como o presépio da Igreja que estava sempre todo pronto. E todos os caminhos iam para Belém. Via-se logo que era a fingir. nos recantos mais húmidos do jardim. Seguia-se a mãe. Nós estávamos ali e não estávamos ali. mesmo antes de o Menino nascer. mas não. a minha irmã. dos muros ou dos troncos das árvores velhas. com bocados de espelhos antigos. a avó já tinha colocado figuras mais toscas. que era mais do que um presépio. Até que todos os caixotes. se quiserem. João Baptista baptizava nas águas do Jordão e aquele monte. o burro. José. Jesus deitado nas palhinhas. De dia para dia mudávamos de lugar. de porcelana inglesa. junto da parede da sala de jantar que dava para o jardim. todos a caminho de Belém. sem lá entrar. lagos. Enchia-se a canastra devagar. andávamos pelo Velho Testamento. À noite tremulavam luzes. gente que descia das serras. De repente era a Judeia. olhando levemente para trás onde. como aquele caçador que a avó colocava à frente dizendo: Este é o pai. enquanto a avó ia montando o que se chamaria hoje as estruturas. Eram caixotes. Eu já estou velha para essas andanças. passeávamos nas margens do Tiberíades. A viagem começava em Dezembro. Os caminhos ficavam cada vez mais cheios. E todos iam para Belém. entretanto. tábuas. Mais tarde os rios e os lagos. no princípio das férias. podia ser o Sinai ou talvez o último lugar de onde Moisés. Não o da avó. principalmente da ameixieira. ao mesmo tempo que fazia carreiros e caminhos com areia e areão. de vidros ou mesmo de travessas cheias de água. a vaca. rios. planícies. os primos. uma jornada mágica ou. um milagre. Ficavam montanhas. A cabana. E todas as manhãs deparávamos com novas casas. saía de cima de uma mesinha da sala de visitas e agora estava ao lado do pai. viu finalmente a terra onde corria o leite e o mel. alguns mais antigos. Mas agora era o Novo Testamento. pastores. Aqui e ali uma casinha ou um pastor com suas cabras. Era uma nova criação do mundo. dir-se-ia que ia para o baile. A avó ia buscar as figuras ao sótão. eu. alguns amigos. ao longe.Todos os anos. pelo Natal. Cortava-se como um bolo. era uma peregrinação. Primeiro pela colheita do musgo. de vestido comprido. era bom sentir as grandes fatias despegarem-se da areia. Maria. E a avó?. caixas de chapéus e de sapatos viradas do avesso. que pouco a pouco ela ia cobrindo de musgo.

trocavam-se presentes. Mas ninguém. o incenso. Até que chegava o primeiro dos grandes momentos solenes. nós não estávamos na sala de jantar em frente do presépio. todo rosado. Talvez recordassem outras avós. os rios. os que faziam gala em dizer que o Natal para eles não significava nada. dizia a avó. dir-seá. Pela mão da avó ela brilhava. Caminhos e caminhos que iam para Belém. Confesso que às vezes fazia batota. o mesmo buraco por dentro. para lá de todas as crenças ou não crenças. Nunca nos deixou ver o resto. estávamos ali em carne e osso. E a estrela de prata. atalhava a avó. o mesmo sentimento de algo para sempre perdido. quando regressávamos da missa do galo. havia um irremediável sentimento de perda. muito mais tarde. mas não fui capaz de bebê-la assim. Mas ainda não se via a cabana. E os Magos lá vinham.” Não chegaram nada. E também nervosos. No céu. eram mistérios da minha avó. agitava os braços e as pernas. Maria e José debruçavam-se sobre o berço. verdadeiramente mágica era a avó. na Judeia. não éramos de porcelana nem de barro. Uma noite de Natal. E era uma estrela que nos guiava. Naquela noite. uma estrela nos guiava. a estrela que nos guiava. dizia S. para mais perto de Belém e do lugar onde eu sabia que mais tarde ou mais cedo a avó ia pôr a cabana. Mais tarde. E a casa também ia até Belém. A avó chamava-nos ao sótão ( nós dizíamos forro ). eu. Nicolau atravessando as estepes. Reuniamse em casa deste ou daquele.Não há nada tão antigo nesta casa. onde Jesus. a mãe. Depois. era uma estrela nova. improvisava-se uma árvore de Natal. eu estava sozinho. Cheirava a musgo e a lenha molhada que secava em frente do fogão. Era uma estrela no céu. entre as estrelas do céu. às vezes eu ia à janela e via a projecção daquela estrela. Muitas vezes me perguntei o que seria. Comprei uma garrafa de vinho do Porto. de vestido de baile. Saudade. nem Maria. A estrela brilhava intensamente sobre a cabana. Mas talvez fosse mais do que saudade e solidão e o pior de todos os exílios que é o de se sentir estrangeiro no mundo. ainda não. talvez dentro de nós. chegávamos a casa e finalmente estávamos em Belém. ficava confuso. a que a avó não ia. os vales. E a estrela lá estava. Por vezes surgiam novos lagos. O cheiro a musgo e a lenha. quase assustado. . de José. deitado nas palhinhas. envolvido pelo bafo quente dos animais. não conseguia deixar de corrigir o meu pai. de camelo. os três reis do Oriente. já não sabia se era a estrela da sala ou uma estrela do céu. nem mesmo esses conseguiam disfarçar uma sombra no olhar. nem mesmo os mais duros. completamente só. Mas ela descobria. de burro. Esta é a estrela. o incenso. quase sempre com lágrimas nos olhos. era noite de Natal. chegavam a Belém para depositar aos pés do Menino o oiro. A avó limpava-os com muito cuidado e mandava-nos sair. Era ela que fazia o milagre da transfiguração. Cheirava a musgo na sala de jantar. Magos. Na noite de Natal os revolucionários ficavam tristes e nostálgicos. agora sim. não podes apressar o tempo. nem José. Cada vez havia mais luzes na Judeia. Então uma noite. dentro de nós. brilhava dentro de nós. uma estrela de prata. Procurei o bistrot onde . e vínhamos nós. de caçador. Peguei na garrafa e fui até aos Halles. Traziam o oiro. podes apressar toda a gente. já eram dos avós dos meus avós. . a minha irmã. na sala. Os montes.apagavam. tínhamos chegado finalmente a Belém para adorar o Menino ao lado de Maria e José e dos três reis do Oriente. E vinham os pastores. num quarto de criada de um sexto andar numa velha rua do Quartier Latin. naquele momento. e vinha o pai. À noite. Magos. a mirra. Impressionava-me sobretudo o manto muito azul de Maria e o rosto magro. Talvez fosse a consciência de que. as figuras de Maria e José. Estávamos cada vez mais perto. os mais pequenos. Mas mágica. Na manhã seguinte lá estavam eles. a grande estrela de prata que brilhava mais do que todas as outras. era uma estrela que nos guiava. a mirra.Não lucras nada com isso. explicava o pai. que também não dizia Pai Natal. eu estava no exílio. Empurrava-nos um pouco mais para a frente. outros lugares. brilhava sobre a Judeia e sobre o presépio. Pela sua magia Belém estava dentro de casa. os primos. enquanto os três reis do Oriente. juntávamo-nos e cantávamos: “Os três reis do Oriente / Já chegaram a Belém. brilhava cá fora entre as estrelas. abria uma velha arca e desempacotava a cabana. em Paris. trazia o Natal para dentro de casa e levava-nos a todos até Belém. a pé. aparecia uma que brilhava mais que todas. outros presépios. talvez por influência de uma misse de origem russa que em pequeno lhe falava de renas e trenós e de S. Nicolau. Mas não conseguia responder. muito comovida. Sentia o mesmo aperto. os lagos. dentro de casa. Às vezes nós.

com os três reis do Oriente. Beto estava preparado com o carrinho de cargas. Esperaram que a mãe saísse e quase nem comeram. A estrela da avó.. Então o porco exercitou as habilidades que aprendera e os miúdos ficaram contentes com a professora a dar atenção àquelas brincadeiras. Depois. Recomendava-lhes que levassem a chave. Até que chegou a hora de se cumprir a promessa. Ela desceu. Então eu perguntei ao africano como se chamava. mesmo nesse dia. E agora? perguntei a Baltazar. o "Carnaval". A mãe avisou-os de que no dia seguinte ela e o pai iriam almoçar fora. quase posso jurar que brilhava dentro dos outros três. Era uma estrela de prata. Toma banho todos os dias. rodava a cabeça. em Les Halles. E sem que sequer eu lhe perguntasse o eslavo disse: O meu nome é Gaspar. Era noite de Natal e talvez ainda por magia da avó eu estava na rua. Perguntei ao velho e ele disse: Melchior. agora vamos para Belém. Trouxeram-no para casa e guardaram-no num vão escuro da escada. Convidei-os para partilharem comigo a garrafa de Porto. o bicho ficou logo dei-tado de pança para o ar e a mexer as patas. pediu o velho. Encomendámos outras bebidas. Cá em baixo. os dois irmãos mais o Beto conseguiram arranjar um carrinho do supermercado. Magos. um velho de grandes barbas. Zeca fez uma cócega na barriga do porco. Chegados à rua o africano apontou o céu e disse-me: Olha.. E que a comida deles ficaria pronta. Para disfarçar. Uma estrela que brilhava mais que as outras estrelas. cobriram-no com sacos. E ele respondeu: Baltazar. Conta uma história de Natal do teu país. meninos! Qual quê! Ninguém lhe ligou. Manuel Publicada por Helena em 6:00 Etiquetas: Manuel Alegre 14/DEZ/2008 Um porco de estimação O Ruça e o Zeca têm em sua casa um porco de estimação. um africano. um tipo com cara de eslavo. solta a corda. E eu vi. veio ao pátio e quis saber o que se passava. Vamos fazer uma roda e deixar o "Carnaval" no meio! — sugeriu Beto.costumava comer uma omelete de fiambre. E na escola a grande festa começou. Então conta. Um dia prometeram levá-lo à escola.Agora. — E os pais dele? — perguntou um dos miúdos. Aí a professora cocegou também e os miúdos bateram palmas. num quase entendimento das palavras. Alegre . brilhava outra vez dentro de mim. Só se for a do presépio da minha avó. Ruça afagou a espinha do bicho e contou que "Carnaval" era um porco que tinha aprendido a fazer habilidades. Até que a professora surgiu na varanda da escola e bateu as palmas. "Carnaval" consentiu na imobilização e as patas ficaram bem amarradas. diria o meu pai. E outro respondeu: — Devem ter morrido na guerra contra os talhos. — Está na hora. E todos desataram à gargalhada. respondeu o africano apontando a estrela. pesadão. Era já muito tarde e o patrão disse-nos que queria fechar. — A camarada professora pode tocar na barriga dele que está limpa. Havia mais três solitários no bistrot. farejava e mais outro miúdo queria cocegar-lhe a barriga. Camuflaram bem o suíno e arrastaram o saco até ao patamar. Então o plano foi traçado e. Eu contei. Foi quando despontou uma lembrança: — Zeca. . Felizmente estava aberto. Pedi a omelete e abri a garrafa. que não resistiu muito tempo. Ruça segurava a trela. Brilhava no céu.

piorava. Tinha o quarto transformado em viveiro. Trazia já o vício da terra.O porco andava de um lado para o outro. Manuel Rui.ª classe em Pedornelo. O reitor mandava-o ir ao gabinete. . Guimarães com ele! Mas não havia padre Macário capaz de endireitar semelhante criatura. No dia seguinte. Metia a sonda em cada agulheiro que encontrava. punha-lhe a cara num pimentão. alheado. Por isso. mas de pouco valia. a dar encontrões aos miúdos. fora do mundo.. Só quando o estômago dava horas das grandes regressava a casa com vinte ou trinta bichos daqueles. a esgravatar. gaiolas de todos os tamanhos dependuradas nas paredes. e voltava para o meio do círculo em velocidade de corrida. abstracto. E era num tal cenário que o prefeito o encontrava .Estou a estudá-la. com folhas de alface e de serradela metidas nas grades. aos grilos. Os garotos enxotavam e ele repetia a cena. e o pobre do habitante do buraco não tinha outro remédio senão vir à tona. até que numa arranca-da veloz passou no meio das pernas da professora e fugiu. lá fugia ele outra vez. mal o pequeno acabou a 4.A lição? . mas. com a idade. Fazia uma pausa.. De palha na mão. Nem a puxões de orelhas e a golpes de régua se conseguia evitar que o rapaz saltasse a toda a hora pelas janelas do colégio e desaparecesse pelas serras a cabo. em vez de a coisa melhorar. abanava as orelhas e voltava a tentar furar a roda. Na aula a seguir é que a coisa se via: um estenderete! .quando o encontrava -. Quem Me Dera Ser Onda Publicada por Helena em 9:17 Etiquetas: Manuel Rui: Quem Me Dera Ser Onda 11/DEZ/2008 O senhor Nicolau O pai queria fazer dele um homem. Em vez de retratos de actrizes e de cowboys. era vê-lo à torreira do sol. punha-se a esgravatar.

Se lhe dá para coleccionar burros. não lhe fosse quebrar um braço. catalogados e suspensos num alfinete que lhes entrava nas costas e saía na barriga. apenas o mestre disse a ironia. amorosamente. mudaram de ideias e puseram-se a vender-lhe quantos insectos havia nas redondezas. . a folha corrida do rapaz registava apenas uma enigmática distinção em ciências naturais e reprovações no resto. por umas cascas de alho. E os outros mestres. O pai sonhava com ele em Pedornelo a curar maleitas. para que a comprasse logo por um tostão.. tínhamos a aldeia transformada numa estrebaria. ou lhe davam os bons-dias com o mesmo automatismo com que tiravam o . Para médico.. num justo e desconfiado espanto. Coimbra. a não ser pelo S. concêntrico. entre grandes armários. o velho julgava que tinha ali o Paracelso dos Paracelsos. na altura do pagamento das rendas. A princípio. carregado de inocência. Deus não quis. o coveiro. Nicolau voltou definitivamente a Pedornelo. juntamente com as esperanças que depositara no filho. E.. amarelos. Tirava um frasco do bolso. brancos.. E. Nas vésperas de o cábula regressar.perguntou o professor. pegava na infeliz com mil cuidados. Tinha-os em caixas de papelão. ano sim. se mostrava renitente na aceitação de tão grande desgraça. que o levou desta para melhor. Além da Gertrudes. E bem é. E abaixava-se a agarrar uma louva-a-deus. foi desta maneira: . ia envelhecendo entre os mortos.E com quem? .. pretos. As nações desabavam. De modo que semelhante maluqueira era uma mina. veio pôr na veiga e nos montes da terra uma nota que até ali não havia: a mancha lírica dum cidadão de guarda-sol branco a caçar bicharocos. quando passavam. o boateiro do Fagundes lançou a atoarda do próximo casamento do lunático. A nota de Zoologia podia muito.O Sr. matar o santo homem com a punhalada duma desilusão. Só o mestre-escola. Porque. Rodrigues só tirava vintes. . um ou dois de cada qualidade e de quantas qualidades fora capaz a imaginação divina. do mal o menos. desde as pulgas às carochas. Às ironias do antigo professor e ao egoísmo do povo. A certa altura. Mas o senhor Nicolau. muito obrigado. e todos acabaram de se rir à vontade. e o professor gorava de grande prestígio entre os colegas.Contudo. em fila. Como sabe tanto de grilos. ou já nem o cumprimentavam. e bojo do vidro com ela. Fica tudo em família. a própria aldeia oscilava nos gonzos. e com a Arca de Noé sabida de cabo a rabo. alheio às paixões humanas. davam o 10 e desabafavam: . Mas quando. Calmamente. que vinha de vez em quando lavar-lhe a roupa e fazer-lhe um caldo. E foi assim. azuis. que já na instrução primária se vira e desejara para meter naquela cabeça tonta as contas de multiplicar. à medida que o tempo andava. No fim do curso do liceu. vermelhos. calmamente. Nicolau resistia a tudo. O seu mundo fechara-se ali. crescia o cemitério. Nicolau. continuava a povoar os dias de libélulas e borboletas. ao cabo de seis anos. aos centos. os bens de que passara a ser dono. mal o sol apontava na serra de Alijo. ninguém mais lhe entrava em casa. apertados. rematou ele: . tio Armindo. E.. Alto. . seco. Havia-os de todos os tamanhos e de todas as cores possíveis. e o viram contente com a transacção. mandou-lhe piedosamente uma broncopneumonia. onde o sonho se conservava em naftalina.. Nicolau. Viam-no então no escritório.Talvez com alguma lesma. o desgraçado saiu da lembrança da povoação. Mas o Sr. ano não.Bem. todavia. lá ia ele pelos restolhos fora. como inexplicavelmente na cadeira do Dr. Grandes. Anselmo. sucediam-se guerras. delicado. pequeninos. Logo a seguir. Vivia sozinho. Andava então pelos trinta anos. o Sr. o velho Sr. sem horizontes.. herdeiro das ricas terras do pai. Mas como ninguém lhe soube dizer o nome da noiva.. ..Vá lá. quando acabou por dar o braço a torcer. No que dera o filho do Sr. Adriano Gomes! Mas apenas lhes arrendou. Miguel. dormiam o sono eterno quantos seres a sua paciência e os seus vinténs conseguiram agarrar em Pedernelo e cercanias. Nicolau passou bem? . lá passava. Bastava chegar ao pé dele e mostrar-lhe uma joaninha. onde. A balela foi por assim dizer o derradeiro sinal que Pedornelo deu de que não se esquecera inteiramente da vida social do Sr. murado pelas estantes envidraçadas. pequenos. que o Sr. todos arregalaram os olhos. vista por qualquer lado.Enfim. pálido.

Mas o sr. Quem podia admitir que fossem motivo de desespero a tenaz quebrada dum besoiro ou qualquer sinal de traça numa bicha-cadela?! A sensibilidade de Pedornelo não reagia aos estímulos de tão subtis calamidades. de fraldas brancas e roçagantes. Primeira parte O pequeno pegureiro contou as cabras à porta do curral. – Que faria de ti a política.. A maioria. desatou a chorar com a maior boca e bulha que podia fazer. e só então. porém. ralo. tomou o pulso. pôs o termómetro. e propalava que a alma do homicida. Sentiu vagamente a dor na coluna. O moleiro das Poldras contrariava a opinião pública. o amo. e pedia ao padre Santo António com muitas lágrimas que lhe deparasse a cabra perdida. por vingança de ciúmes.. pôs em evidência o facto psicológico. e resolveu por fim entrar pelo corpo dentro do moribundo com uma agulha que lhe enterrou na espinha. muitos anos antes. dando pela falta de uma. Às vezes. a ruga tinha profundidade. Era noite fechada. asseverando que a avantesma não era alma. o meu nome em latim. Saul olhar aquele ser como habitante da terra e criatura de Deus.. onde aparecera o cadáver de um estudante de Coimbra. ali ficou quieto e feliz. significava o mesmo que carrapato.. Mas cinquenta anos de alheamento colectivo tiravam-lhe o direito de ser compreendido por homens.. meu querido. porque era a égua branca do vigário. Minava-o um desgosto tão verdadeiro como o de qualquer vizinho aflito com os estragos de uma trovoada. que fora encontrar o velho encolhido como um feto no sofá do escritório. auscultou. Miguel de Seide. agora. a um canto do curral. Tu não os recitaste porque tinhas lágrimas na voz e no rosto. Ali. formiga ou coisa assim. veio. O nome do amalucado. porque se afirmava que a alma do defunto capitão-mor andava penando na Agra da Cruz. Nicolau. correctamente. Ah! é verdade. nem constava que tivesse matado algum francês. lembrou-se do que tinha feito aos milhares de irmãos.Má técnica. Miguel Torga. se lembravam de o lamentar. João da Laje. estou ouvindo os teus versos recitados em nome de meus filhos. às Trindades. entender. Tinha medo de voltar ao monte. depois da última contracção. Era por 1813. infestava aquelas serras.chapéu. Quis finalmente o Dr. tinha sido soldado na guerra do Rossilhão. não se desobrigava anualmente no rol da igreja. e pensou: . agora. Um inofensivo bicho.. a respeito de sofrimento. Jazem ali os homens que então éramos. Estou vendo Castilho encostado ao friso da coluna tosca. só fome. quando o pastor chorava encolhido. Oxalá não se esqueça ele ao menos de escrever no rótulo. febres e facadas.. Delirava. Os Bichos Publicada por Helena em 5:56 Etiquetas: Miguel Torga: Os Bichos Maria Moisés A Tomás Ribeiro São passados dez anos depois que vieste aqui.. sereno e de olhos fechados. O povo atribuíra aquela morte ao capitão-mor de Santo Aleixo de além-Tâmega. divulgando que o moleiro era homem de maus costumes. à espera que o metessem na sua caixa. Nem que ele atravessasse o largo com uma ruga funda e desesperada na testa. meu poeta da pátria e da alma? S.. nem a tinha. E daí a nada. estava de todo integrado no destino dos seus companheiros. Chamado à pressa pela Gertrudes. Foi ontem: e a pedra onde gravei o teu nome está denegrida como a dos túmulos antigos. Debaixo dela estão dez anos da nossa vida.. assomou à porta da corte. meado de Agosto. Era um bicho. e. e bradou: – Perdeste alguma rês? . Era éter acético primeiro. Novembro de 1876. igual aos milhares quê tinha no escritório embalsamados.

e fazendo-lhe duas figas. assentados em religião e pátria. – Isso sei eu. O rapazinho deitou a correr. sua bruxa. – Sou eu. e vinha cantando: Já Já Agora Destas fui lhe canário fugi sou meninas do da rei. és tu? – perguntou o suspeito fantasma. – Vamos lá. que te arranco os fígados pela boca. descia o moleiro do lado da serra pela barroca escura com dois jumentos carregados de foles. Deixe passar os parentes. havia matado dois franceses doentes nas ambulâncias retardadas. você lá sabe desses tolhiços. não fazem mal a ninguém. jacobino? – replicou a velha. e as más são do diabo.O rapaz tartamudeou. e sei que ele à conta da cabra. – Espera aí que eu venho já. gargalaçou da borracha uma vez de vinho. a tua ama Zefa também anda à procura da cabra? – Àgora! A senhora Zefinha está doente há mais de mês e meio na cama. e levava um saiote pela cabeça. Conheço bem o teu amo. a quem a tia Brites contava casos vários de almas penadas. que te dou eu. e perguntou a meia voz: – Seria a alma? – Do sr. Este João da Laje era homem de princípios menos maus. – Ó Zé da Mónica. senhor. rapaz? É da alma do capitão-mor? Não sejas tolo. Mete aí pela cangosta do Estêvão. – Não me meta medo aos burros que eles já estão estacados a olhar p’ra você. – Boa hora é esta para um rapazinho se meter à cangosta do Estêvão! – Então que tem? – Que tem?! Vai perguntá-lo à Zefa do João da Laje. E. e. ia rezando alto quanto sabia da cartilha: os Pecados Mortais. Vira um fantasma branco a destacar das trevas. é capaz de te quebrar os braços. que feitiços está você a fazer aí? – respondeu o veterano do 2º regimento do Porto. Olha lá. tudo. foi descarregá-los. que ficou lá tolhida uma noite e nunca mais teve saúde.. pintassilgo d’agora. – Está mesmo indo. ladrão? Vai em cata dela. tia Brites – respondeu o rapaz suspirando ofegante. À saída da aldeia. que as não larga das unhas. olha lá: se a não trouxeres. acrescentou: – Toma. capitão-mor? Não me pareceu. tangendo os burros que espontavam o tojo dos valados. Tens medo. De que tens tu medo. E deu-lhe dois valentes pontapés à conta. – Perdeste. que ela ia de saia escura. mas ouvia-a berrar lá para o rio. encheu-lhes a manjedoura de erva. e agachado na raiz de um castanheiro. mas havia de jurar que a vi saltar agora o portelo da cortinha do rio! Se não era a Zefa era o demo por ela! O rapaz tornou a tolher-se de medo. preferia encontrar o defunto capitão-mor. tiritando de medo. – P’ra pintassilgo estás muito fanhoso. Neste comenos. gaiola. e eu também sei como as raparigas se tolhem nas cangostas. e lá foi caminho da serra. se tiver meio quartilho de aguardente no bucho. sim. sim. por isso é que eu ta vou ajudar a procurar. ó Luís! – disse galhofando a Brites do Eirô. . Você viu-a? – Eu não. não me apareças mais. herege! – Ó tio Luís! – perguntou o pegureiro – Vossemecê viu aí na Agra da Cruz uma cabra? – Não a vi. – Eu não sou da tua família.. e vai pela beira do rio abaixo que a topas lá para a Várzea das poldras ou na Ínsua. – Sim. pequeno – disse o moleiro –. As almas boas dos que morrem são de Deus. e voltou onde o esperava o pastor. rapaz? – Tenho. as Obras de misericórdia. – Olá. Tendo de optar entre os malefícios da alma penada e a biqueira do tamanco do amo. recuou estarrecido. – Credo! Que medo você me fez! – Tu onde vás a esta hora?! – Vou à cata de uma cabra. Ainda assim. rapaz. os Sacramentos da Santa Madre Igreja. ouviste. tia Brites. e acreditava que o fantasma era a alma do capitão-mor e não a égua branca do vigário. – interveio a tia Brites.

benzendo-se de ombro a ombro. e meteu-se em casa às arrecuas. que vinha batendo com a chumbeira as angras do rio por onde o escalo costumava acardumar-se. O rapaz expediu um ai rouco e. outro à esquerda para um panascal que entestava com a corrente do Tâmega. graças a Deus! – respondeu Brites com desvanecimento. Aí bem perto donde tu estás. ouviram gemidos. – Que está você a rosnar. mulher! Que este rapazelho seja parvo. vejo. vai-te. O peixe meteu-se aos poços. – Temos de ir passar às poldras.. havia de ser pelo açude. Saía então do rio para a cangosta um grande vulto alvacento chofrando na água com pernadas longas e mesuradas. agarrando-se aos suspensórios de couro do moleiro. Lá está a cabra a berrar. – É má noite. ao passar nos lanços mais escuros do pedregal. já tinha tempo de ter juízo nesses cascos. Não é coruja nem sapo. mas já depois a ouvi lá p’ra baixo na Ínsua. é a alma do capitão-mor que anda a pescar bogas com chumbeira. Adeus. – Que é? – Vossemecê não vê? – Vejo. – Não se metem no seu corpo? Pudera. desatava a fugir. – Isso era coruja ou sapo – replicou o moleiro com a intemerata certeza das ciências naturais. que desembocava no rio.– Arrenego-te eu! Este homem está vestido e calçado no inferno! – murmurou a tia Brites. erguendo-se indignada. Ao fundo da viela. jacobino. – redarguiu o veterano sempre risonho.. – Coisa má? Topaste algum avejão no rio? Olha que a alma do capitão-mor anda na serra. Agora é! . Tendes que fazer. cruzes. bruto! Era o caseiro da quinta de Santa Eulália. vou contigo. um à direita para uma várzea de milho espigado com grande folhagem. que lhe metia a riso a covardia. * – É o que te digo. Olha que espiga! Eu antes queria pagar a rês a teu amo que ir agora além do rio! Neste momento. berrava ali no bravio do Pimenta. ó Francisco Bragadas? – perguntou o moleiro. com mais de setenta anos na carcaça. – Elas bem sabem com quem se metem. – Eu. – Homem – volveu o pescador escrupuloso –.. – Vai-te. O pastor então maquinalmente agarrava-se ao braço do moleiro. cruzes! – exorcismou a tia Brites com dois dedos em cruz. – Se tens medo. Vou-me chegando a casa. ó tio Luís!. mas você. que das almas do outro mundo te livro eu. tem desculpa. ouvi eu.. ó criatura? – A mim não me empecem. rapaz? – Já passou para além do rio – disse o da chumbeira –.. Você já viu almas. e às vezes um melro assustado batia as asas na ramagem das sebes. Deixa lá asnear o povo.. uma coisa que parecia uma criatura a chorar e a gemer. quando passei p’ra riba. O pastor.. rapaz. – Ouviste por’í berrar uma cabra? – Há pedaço. ouves. gritou: – Ó tio Luís. Apesar das palavras animadoras do veterano. Os vaga-lumes fosforeavam entre os silvedos. – És tu. Anda coisa má por aqui.. – O peixe cai? Dá cá duas bogas para eu cear.. o rapaz. com as mãos fechadas sobre a boca. pedaço de asno. – Bem dizia o outro. à beira do rio. – Má raios partam a cabra! – praguejou o moleiro. que pareciam pouco distantes. havia dois portelos. e pondo-se de cócoras. – Sou. que a noite está quente. deixemo-nos de graçolas. O moleiro ia conversando com o pastor pela pedregosa cangosta do Estêvão. Não vês que é um homem em fralda? Abre esses olhos. diabo. topando com você. se fosse alma penada. Olha se te guardas de alguma sacholada de teu amo. e do alto da cabeça ao umbigo. disse: – Ai Jesus! – Aquilo é cousa! – observou o veterano com pachorrenta reflexão.. Luís. mas hás-de repartir do peixe que levas. mas talvez viesse tomar banho. para lá desses salgueiros. ia orando mentalmente fragmentos da Cartilha... A alma que se metesse nesse corpo devia sair suja como a ratazana dum cano.

ouviram estas palavras: – Quem me acode. agitou-a. João. Josefa? Ela não respondeu. levantando-a a custo. moça. molhados pela água que escorria dos vestidos. A Brites do Eirô. sentiu nas costas da mão um contacto de líquido quente com fartum enjoativo de sangue. desciam a cangosta do Estêvão com fachos de palha acesos. O moleiro seguiu-o. Ao chegarem ali. e com incrível ânimo rompeu a direito por entre a ramaria do salgueiral. Poucos minutos depois. mas pareciam-lhe mais longe ao passo que mais se avizinhava. nem gesticulou levemente. – É uma mulher a chorar. Transpôs o moleiro de um pulo o valado. como se em ânsias de asfixia se houvesse agarrado nele. – Isto que foi. sem arregaçar-se. o vigário e outras pessoas.– Então que é. ao toque das Trindades. que eu morro sem confissão! – Ela é a senhora Zefinha! É a minha ama! Valha-me Deus! – exclamou o pastor. e. encostando-a à ribanceira. ajuntou-se ao grupo dizendo que. e tens a cara a arder. – Ó ti Luís. e a cabeça balançava maquinalmente conforme os movimentos variados que ele lhe dava ao corpo ajeitando-o para saltar a parede escadeada. confirmou: – Está coberta de suor frio. aqui não te deixo. vista à luz dos archotes. tremia. e lá no interior o rio espraiava-se. invocou as almas à míngua dos recursos humanos. porque a voz ia esmorecendo em soluços abafados. e.. – Que é isso. rapariga? – perguntou o pai. Josefa? Que vieste aqui fazer tão de noite? – Jesus valei-me! Jesus acudi-me! Jesus salvai-me! – murmurava ela perdendo o alento. e saltou. Luís. tu não ouves? Vamos ver quem geme antes de mais nada. ao rio. como gelado do terror do cadáver que lhe parecia resfriar nos braços. mal distinto na escuridão cerrada da ramagem. entreviram. que estás toda ensopada em água. parecia viva porque tinha os olhos abertos. – Tem paciência. tio Luís? – perguntou o rapaz com a rouquidão afónica do pavor. Ao cabo do ervaçal adensava-se uma moita de álamos e salgueiros. Deixe-me deitar na terra. sentou-se esbofado no respaldo duma fraga. Com meio corpo a água e os braços enroscados no esgalho de uma árvore. receando que a convulsa rapariga lhe expirasse nos braços. João da Laje. tossindo de maneira que significava coragem neste bravo do Rossilhão. com o saiote pela cabeça. que lhe dava pelo joelho. que ela está com Deus – respondeu Luís. estorcendo-se nos braços do moleiro. A filha de João da Laje. descendo do ombro para o regaço a mulher que efectivamente estava morta. de vez em quando ouvia os gemidos. Na extrema da viela encontraram o Luís moleiro sentado à beira de Josefa que. O pequeno seguia-o tão de perto que o trilhava nos calcanhares. e conseguindo assentar o pé no trilho pedregoso por onde viera. Chamou-a.. que eu estou a expedir. Então pensou que ela estivesse ferida. dizia com palavras soluçantes: – Não me leve para casa. teve de colher as saias com a mão esquerda. dizendo ao rapaz que fosse adiante avisar o amo. e tiritando em calafrios. atirou-a para o ombro direito. e apertou o passo por entre o ervaçal. e galgando a custo o valado que se esbarrondava cedendo aos pés vacilantes de Luís. Que foi isto? – ajuntou ele voltando-se para o João da Laje – Você há- . vigário para me absolver. que os vira passar. Vencida a dificuldade. Tu caíste ao rio. que repetia as palavras: – Quem me acode. No momento em que transpunha o portelo com o embaraço do peso e do estorvo que lhe fazia o vestido molhado. neste lance. onde os pescadores colhiam com a chumbeira as bogas no tempo da desova. O vigário. ajude-me que eu não posso! – Eu cá estou – disse o moleiro. e. mas que em outros bravos que tossem não tem sempre o mesmo significado. formando lençol de água murmurosa. – Não lhe perguntes nada. Os braços pendiam inertes ao longo das costas do moleiro. e perguntou: – Tu feriste-te. enxugava com a rama de fetos secos o suor que lhe gotejava das faces ao peito. porque ela tinha as mãos recurvas e os braços rijamente hirtos no tronco do salgueiro. tomando-a nos braços. tinha visto Josefa saltar para o campo da Lagoa e meter para o lado do rio. pelas almas benditas. que eu morro sem confissão! – Ó senhora Zefinha! – disse o rapaz – É vossemecê? – e deitou-lhe os braços ao peito erguendoa para si. Seguiu bem rente a ourela do Tâmega. apalpando-lhe as mãos e o rosto. atraídas pela curiosidade ou pela compaixão. e vá chamar o sr. aquele vulto de mulher. Josefa? – perguntou Luís.

Assisti-lhe aos exorcismos na capela do Santo. A Brites aconchegava-se do vigário a fim de. e ela já me não respondeu. A maternidade é uma ilustração que lhe dá a intuitiva inteligência do amor e das grandes tristezas. e. Nunca vi uma lágrima luzir nestas caras. é natural que bebesse. foi direita à filha. Às vezes. o cadáver de Josefa de Santo Aleixo. . – Ah! Conte-me isso. em toda a parte. Ela tinha demónio no corpo? Note você. mandei chamar o boticário de Friúme. é-lhes concedido remirem--se pelas lágrimas. são mulheres.. ainda na derradeira curva que atasca em lama a espiral da degradação. que assistira aos responsos. e lia O Citador de Pigault Lebrun. voltaram-se todos para um dos campos por onde vinha correndo a mãe da morta. Maria da Laje. fez um ano em 24 de Agosto. deitou-se sobre ela a beijá-la. Os mais lúgubres. e João esperava quieto. Ela saltou do campo à barroca por cima do tapume de espinheiros e silvas. se estão seis horas no forçado jejum a que os obriga a funeral lareira apagada. e ali perdeu os sentidos entre os braços brutais do marido que se esforçavam por desprendê-la da morta. e. fugira para o lado da serra. a loura mocetona. nas securas da sua ardente aflição.. diziam que dava em louca. e chamava à carniceria da revolução francesa a grande operação da catarata social. no caso de intervenção diabólica. quando tornei a casa à noite e perguntei por minha mulher. o cérebro e o coração são umas empadas de massa inerte. e. a mãe. Luís meditava nas revelações do lavrador. e não deu azo a que o espírito forte abrisse a válvula dos sarcasmos. – Vi-a uma vez na romaria de S. soube que ela estava ainda no palheiro. aborrecido dos interrogatórios impertinentes que lhe faziam os vizinhos e parentes acerca das causas que levaram Josefa a matar-se. – Bonita era ela. conversava com um minorista da Póvoa. a sacudi-la.de saber pouco mais ou menos porque esta boa rapariga se deitou a afogar! – Eu não sei – respondeu o pai com a serenidade de um estranho narrador. fui regar um campo de milho. Fui-me onde a ela. Não há nada mais bestial que o homem sem a alma que se faz na educação. O pai da defunta. Nesta conjuntura. A estupidez é mais valente que a morte. Os archotes erguidos ao alto alargaram a penumbra e condensaram mais a treva por onde o vulto da mulher vinha crescendo com as mãos na cabeça. e. peguei nela e deitei-a na cama. porque estava sem acordo. que fora desanojar o João da Laje.. desceu à cova. nem bebia. quando lá chegou o rapaz com a notícia. Dizia cousas como os socialistas de hoje.. – Você conhecia esta rapariga. – Ela estava doente há mais de mês e meio. se encostar à coluna da igreja. Se falta a luz que adelgaça e rompe a treva do homem bárbaro. fechou-se na adega. que estão a chocar o ovo de uma cousa pior. ele receitou-lhe não sei que barzabum de xaropadas que a rapariga nem p’ra trás nem p’ra diante. – concordou o estudante de teologia dogmática. por causa dos quais havia sido expulso de um convento graciano onde noviciava.. padre Bento? – perguntou o funcionário ao minorista. nem chorava. mas nada me disse. A mulher já não é assim. O leitor urbano mal imagina como são estes pais e maridos rurais quando lhes morrem as filhas ou as mulheres. silencioso e estúpido a chegada da mulher. e também porque sabia francês. Essas. Bartolomeu. Ora vai hoje ali pela sesta fui achar a minha Maria a chorar. movendo pausadamente a cabeça como quem confirma uma recordação dolorosa. acrescentou: – Bem sei eu quem foi a causa deste suicídio. à mistura com a velhacaria que a civilização lhe tem dado. posto a um canto do sobrado.. perguntei-lhe o que tinha. a chamá-la com gritos de louca. chamando a filha a grandes brados. e. * Vinte e quatro horas depois. Estas reflexões não são todas minhas: quem fazia algumas era um escrivão do juiz de paz. Depois. começam a cair num sentimentalismo de burros com fome. que há-de ser os socialistas de amanhã. Os viúvos olham para os pequeninos de través. que os espíritos maus quase sempre se ferram nos bons corpos! O tonsurado entreabriu um sorriso de forçada complacência. a chorar. porque não comia. morrem mães que deixam um grupo de crianças ali a chorar num canto da cozinha. umas substâncias granulosas ou fibrosas contidas em sacos membranosos. e agora. e ralham-lhes brutalmente. durante a noite. e. porque o fedor da podridão obrigara a alterar o estilo das quarenta e oito horas sobre a terra. padre Bento. ia eu mandar chamar o barbeiro das Vendas Novas a ver se ma sangrava.

como os pastores de Fernão Álvares d’Oriente. meteu-o no Limoeiro. quis despedir-se de João da Laje. Sumariamente contou o seguinte: Que Josefa.. . – Sabe?. Gregório. – Não vamos tão longe. toda a sua erudição neste importante assunto era um fragmento de má e velha poesia francesa que dizia assim: On se livre à la volupté Parce qu’elle flatte et qu’on l’aime.. O minorista. – Foi. – Lembre-se que essa pobre mulher ainda está quente na terra. e altercavam os seus queixumes ao som do arrabil. – Padre. – Não inventemos culpas. – Estou a brincar. Foi ele então quem na apaixonou. disse o que sabia. ouvida a tradução da quintilha. porém não citava autor digno de crédito.. e o cadete. É necessário atender aos temperamentos das pessoas. aplicou as teorias do Sulmonense. – Devagar – atalhou o prudente moço. Sei quem é o meu amigo. Entretanto. calo-me. era a paixão que a desnorteava... depois. Maurício conhece o morgado de Cimo de Vila? – Se conheço! Aquele cadete de cavalaria de Chaves que estudou primeiro para frade crúzio... O senhor sabe. O sr.. Santo Anastásio. O futuro presbítero compreendia cristãmente o dever da caridade. continuou: – Não era possessa.– Sabe? E está calado com isso. atidos à lógica dos delitos. e. Conversaremos outro dia. Maurício – emendou o minorista. si du diable on est tenté.. O meu padre mestre de latim chamava-lhe a Ilha dos Amores. Et. Esse rapaz foi para a corte com o pai. O que afirmo é que o morgado de Cima de Vila. Vamos ao fim do conto: a rapariga. como o senhor sabe. Josefa suicida-se. metia-se na Ínsua. quando as tenho. – Digo o que sei e presumo sempre o melhor quando não tenho provas do pior.. ou mesmo recusasse obedecer-lhe. Há quem os visse no bosque de amieiros da Ínsua. e a Josefa ia lá ter. encarecendo o melindre da revelação... não tinha no corpo o espírito imundo. Quer dizer que eles se amavam honestamente? Diga isto assim pelo claro. mas. que eu acredito tudo quanto há virginalmente extraordinário em um cadete de cavalaria de Chaves. autorizado com S.. com o filho para a capital.. E. que lutou com eles em forma de mulheres. onde estuda matemática. – Já sei quem foi a causa de se suicidar a Josefa – acudiu o escrivão. frágil e bonita. e acrescentou entre parêntesis que não duvidava da existência de demónios súcubos e íncubos (1). a respeito da filha de João da Laje.. a Cavez. – Estou. Então quem foi?! – Foi você. sr. e cada qual era o demónio de si mesmo. e. E demonstrou que havia obsessos.. quando não quisermos extremá-las pela virtude. foi lá que todos os bons latinistas meus condiscípulos leram a Arte de amar de Ovídio. confundiu o adversário com latim. chegando há dois meses de férias de Coimbra. sabe-o toda a gente. e lá. com a cana de pesca e o cacifro. pediu ao vigário de Santa Marinha que o casasse com Josefa de Santo Aleixo. vencido pela pertinácia do amigo. O escrivão replicava que todos os homens eram Hilariões. defronte da Granja.. pelos modos. – Tudo isso é inocentemente pastoril. estarei – respondeu discretamente. e ela de Florisa. que o não largou até lhe arrancar o segredo às relutâncias do escrúpulo. – O que se diz é que ele passava o Tâmega nas poldras. quando foi exorcismar-se à capela de S. e saiu acompanhado do escrivão.. O vigário recusou-se e avisou Cristóvão de Queirós. como o cadete quisesse fugirlhe. Il faut dire la vérité: Chacun est son diable à soi-même. eu não o percebo. padre Bento. pai do cadete.. e assentou praça quando ficou senhor da casa por morte do irmão!. Santo Hilarião. – Conheço esse bosque. Bartolomeu. Depois ele fazia de Felício. padre! – Não me diga isso nem a rir! – acudiu o teólogo com semblante mortificado. que se fechara na adega com a sua dor.. O minorista ergueu-se. mas conte-me essa história se confia em mim. O fidalgo saiu.

. Manuel. cabo rabo é. é a crítica mordaz dos costumes.. quando ele lhe malsinou a inocência nos sinceirais da Ínsua. * A nossa curiosidade. eram mais inocentes que os pássaros. as frases do meu tempo. como se vê só.. Era pescador e caçador António de Queirós e Meneses.. e a religião chora uma alma condenada. no fundo lodoso deste tinteiro. morrer. quando cuidam que é virtude e resguardo a ignorância das cousas mundanais. Maurício. – Nem quero saber – acudiu o minorista... Desenterre-se o cadáver..Agora. Viu no monte a filha do lavrador de Santo Aleixo.. O coração aí é maior que as dimensões do peito. que é a arte de pensar bem. que os maus homens quase sempre têm.. e retirou-se.. imenso. faz lembrar Camões: . que. Estes bons corações passam entre nós mordidos. e diz-lhes: Muitos As E E Aos E E E Terão E presumem operações que o anjos ao o que eles um não mundo sabem todos cão sabem morte que e e tem em pelo cujo dos hão-de há-de a ao por saber céus.. Enlevadas no especulativo. Não se pode ser perfeito hoje em dia sem se ser um bocadinho idiota. e venha para o anfiteatro anatómico. pelo mastim da ironia que lhes crava o dente canino da chufa. Se o amor lhe rutilou aí como um relâmpago que fulgura numa vasta cordilheira de montes. já que me coube em sorte arpoar com pena de ferro. Quem pensava mal era o teólogo. no cabeço de um fraguedo.. emboscados no choupal da Ínsua. tinha no corpo a nevrose que aumenta o calibre da retina. Isto. é um amor olímpico... fé. – Adivinhei o que o padre não sabe. é verdade. a caridade o que aí vê é uma desgraça. disparado sobre a modéstia e singeleza de uma rapariga montesinha. mede-se pelo comprimento de horizonte a horizonte. como se a sociedade fosse obra deles. As serras têm sombras do infinito.. Uma cousa verdadeira.. Josefa não fora caluniada pelo escrivão. A esta saudável ignorância das misérias do próximo chamava o meu padre Manuel Bernardes «trevas claríssimas». acontecer Deus.. titânico... agitando rapidamente ambas as mãos com gestos negativos. * Ora vamos à história. dá-se grandeza extraordinária. são filados. Raciocinou com a lógica dos corruptos. Os que se derem a parafusar operações do céu. e lhe espelha imagens através de corpos opacos. Percebem e farejam os actos mais abscônditos da sociedade. nesta época de escalpelo. e vão deixando os paletós nas mãos incontinentes das Zuleikas. De Qual ninfa que será sustente o o amor dum bastante gigante? . seja qual for a causa que levou esta mulher morta à desesperação. onde quer que seja. com os dedos no nariz. quando mal se precatarem. As pessoas cândidas e boas vivem constantemente logradas. diabo. vai além dos limites que o teólogo abalizou à sua. espavoridos. O homem. pairando ao de cima destas ambulâncias em que todos gememos amputados na alma ou no corpo. e andam tão vendidas nesta feira de pecados como o Serafim do auto de Gil Vicente. imaginando que o cadete e a loura de Santo Aleixo. vem o Mercúrio do poeta jogralesco de D. que diz aquele grande realista do século de quinhentos. o escrivão.

Andava ele cursando retórica em Coimbra para ir vestir o hábito de frade fidalgo em S. da palidez dos que amam. quer meu pai queira quer não. insinuando o amor selvagem. porque estava sempre às avessas da mulher. não precisava destas esperanças. Tinha êxtases nos píncaros das serras.. Foi visto. Escodrinhou razões secretas que o movessem. e ela. não perturbem o serviço da casa. preferia uma mulher feia. Nas suas pesquisas descobriu que o filho. Sou o morgado. mas a casta varonil iria pelas gerações além menos sujeita a reparos de genealógicos. para ser feliz até às lágrimas. faz os poetas. O velho fidalgo de Cimo de Vila ponderou na mudança de ideias do filho. Tinha meninas para conservar a raça dos Queiroses e Meneses. – Antes por lá que pelas criadas da casa – disse o assisado fidalgo. Como não tinham florestas confidentes. Ele foi para Coimbra. como se ouvisse as harmonias das esferas. – É rapaz. palmilhada pelos lobos. nos montados da sua freguesia. Nestas ideias o encontrou Josefa da Laje. e queria fugir. nos recôncavos das penedias. o João da Laje. à mais nítida metáfora de Cícero ou Vieira. e até as mães – santo Deus! – dizem aquilo. Coraram ambos. normandos. O velho não deu a mínima importância à denúncia. no sinceiral da Ínsua. Tinha vinte e dois anos. nem de filha malquista de seus pais: eram lágrimas de mãe. estremecia. Não lhe bateu. os pais. cheio de fluidos inflamáveis. cavernas. vindo a férias do Natal. uma tarde. sentados naquela fraga onde o Luís Moleiro encostou o cadáver de Josefa. não o contrariou. à volta de poucos dias. rapariga. não queria tropos. Vicente de Fora. António de Queirós viu chorar Josefa. alheios a tudo o que é epistolografia amorosa – peles-vermelhas no rigor antropológico. em vez dos froixéis da relva. É que os arvoredos estavam desfolhados. Josefa a conversar em uma barroca com o fidalguinho. A rapariga tremia pois da mãe. havia lençóis de neve. Dava-lhe este direito haver sido filha humilde e esposa honrada do homem com quem a casaram. ninguém que lhes lesse os grandes livros do padre Sanches acerca do matrimónio. que era vesgo. bosques. Preferia tê-lo e amá-lo nas matas chilreadas. Precisam divertirse os filhos: levem a desonra onde quer que seja. e disse-lhe: – Se tua mãe o sabe dá-te cabo do canastro. No último quartel da vida. porque meu irmão mais velho morreu. Com que zelo estas matronas veneram a moral da cozinha. A mãe era cruel com as mulheres manchadas. algum tanto gaélicos.. se alguém a encarava a fito. – Não serás frade – disse-lhe o coração a ele. cambado. Foi por aí que deslizaram três meses do estio e outono de 1812. e precisa de se divertir. então com certeza lhe dava. o fogo levou de assalto aquele combustível edifício de inocência. mas eles adoravam-se. Vou sentar praça. passara o Tâmega e caçara nos montados de Santo Aleixo. mas talvez primitivos demais. Oh! A solidão. entre dois amantes. A forma selvática e antiga do proscénio deu-lhes jeitos de antigos actores da vida animal. e aspecto pouco de bernardo. O pai viu de longe. não embarrem pelas criadas. Ninguém a suspeitava. mas o cadete. Não eram lágrimas de amante magoada. Queria o amor. No seu serviço não entrava jornaleira de má nota. ali mesmo. logo que lhe disseram quem era a rapariga. cheio de bons propósitos. os choupos da Ínsua mostravam as grimpas curvadas à flor da corrente arrebatada. nos desfiladeiros dos montes. foram vistos à beira do rio. na cangosta do Estêvão. se as há. jurou-lhe . mas não corrompam a disciplina doméstica. caso contigo. Era magro e pálido. lanzudo e bêbedo. Ela. Assim seria. o grande urso e o grande veado. todavia. da salgadeira e da despensa! * Nas férias de Páscoa. Não se ajoelhava na igreja à beira de criatura de ruim vida. à vista do modo como a gente em honesta prosa costuma casar-se. nas alcovas de ramagem que só eles e os rouxinóis conheciam nas margens do Tâmega. Sentia o grande vazio que a retórica lhe não enchia. Entrara-se de uma terrível vergonha e confusão. com farda de cadete. segundo o preceito ovidiano: Paleat omnis amans. Este rubor era o primeiro lampejo do incêndio. A serra tinha penhascais. Rodeava-os uma natureza contemporânea do homem vestido da pele do seu confrade em civilização. Depois. Se ele imaginasse que a mãe fechava os olhos às toleimas da moça. Ninguém que os visse. – Assim que meu pai morrer – disse ele à filha do lavrador –.

vascónio. Ou hei-de casar com uma rapariga de baixa condição a quem prometi. Ximena. Dizia o cirurgião que o velho tinha uma anasarca. uma genealogia estragada. Al-horr-Ibn-Abdur-rahman-Ath-Thakefi. e aí casou com Telo. os bons. ibero. castelhano que entrou em Portugal a servir el-rei D. mas o velho. ilustríssimo galego.ª dispor da minha vida. Virá ela portanto a herdar os vínculos. agenciou-lhe noiva entre as mais estremes do sangue germânico das Astúrias. civilizados e finos. mas aflita. Fernando contra o de Castela. e pediu-lhe que os recebesse. o solarengo provinciano. S. pode V. tem barrigadas de orgulho de raça. o Casto.que viria casar com ela. antes de cinco meses. quando recebeu esta nova com os parabéns do cirurgião. Proíbo-lhe que se assine Queirós de Meneses. O velho pôs a mão convulsa nos copos do espadim. huno. mas o irmão morgado está ético. Parecia castigo um pouco zombeteiro! O estudante. Estendeu o braço. quanto mais bárbaras na origem. nem têm diplomas de assassinos desde o século X (2). porém vão lá filtrar em uma neta de Pelágio ou Cid uma gota de sangue muçulmano! É uma árvore podre. filha de Ordonho 2º. não só descendente de Bernardo del Carpio. oriundos de uma D. entenda-se. se o filho reagisse. Ao outro dia. que fugiu ao pai com um cavaleiro. O fidalgo. onde não havia corte nesse tempo. A mãe olhava para ela com atenção. O velho lutava entre a cólera e a vergonha. Passados os cinco meses aprazados. – Meu pai – respondeu António com respeitosa serenidade –. Os árabes eram inteligentes. que seu trigésimo avô era celta. sobrinho d’el-rei D. Cristóvão de Queirós desinchou ao contrário da Josefa da Laje. e. e o segundo-génito é aleijado e incapaz para o matrimónio. com trinta e seis quartéis. ou não casarei nunca. na comarca de Vila Real. É preciso que a visites hoje comigo. e apontou-lhe a porta. Quem puder hoje provar. O estudante contava com isto. Afonso. quando tal ouviu mandou selar as mulas dos lacaios e pôr aos varais da liteira a parelha dos nédios machos. – um renegado da pátria. ou gépida. * Josefa esperava confiada. e não viveria mais de três. mas também representante de Fernão de Queirós. mas dos bons. arquejou largo espaço. Era Teles de Meneses. O filho recebeu ordem de acompanhar seu pai à corte. iria à sua panóplia – que era um feixe de montantes e partazanas ferrugentas encostadas a um canto da tulha – e seria capaz de lhe meter um ferro de lança no degenerado peito! Assim fizeram sempre Queiróses. sujeito que foi muito amado pela melodia suavíssima do seu nome. que a abandonou em um bosque donde a mísera foi dar ao sítio que hoje é Turgueda. Pobres pais! A verdade é que o fidalgo tinha as pernas inchadas. porque pode ser que alguma dessas Urracas. mas bom será que tenha doutras para a digestão. rugindo: – Espere as minhas ordens no seu quarto. e prometia não incomodar muito tempo a sua família. Não sabia escrever. Não é herdeira. e estes fazem o que lhes parece. Não estava no rol das infelizes senhoras de raça mista a destinada esposa de António de Queirós. mas sem desconfiança. porque há em Portugal outros Queiróses. porque não são dos bons. Isto de esposas. – Escolhi-te mulher – disse Cristóvão. Adopte o apelido de algum dos meus lacaios. em todo o prumo da sua soberba. não tinha ninguém a quem pedir a esmola de uma carta. como disse já o minorista. e disse: – Duvido que você seja meu filho. mas do meu coração já eu dispus. expôs ao vigário o estado melindroso da rapariga. Ortigas ou Gelorias antigas passasse pelo harém do amir de Córdova. um mandado da regência ao intendente geral da polícia ordenava a prisão do cadete de cavalaria António de Queirós e Meneses no Limoeiro. Já sabem que o vigário denunciou ao velho o propósito do jovem doido que pensava envergonhar seu pai. António levantou o rosto e redarguiu: – Não se ultraja assim a memória de minha mãe. foi à terra. melhores. A surpresa abafou a reacção do moço. lavrador do casal de Meneses (3). sem consultar o filho. Chegados à capital. e dizia-o com uma sossegada fleuma como se se tratasse da esperançosa morte de um parente desconhecido para onde houvesse de lhe vagar a administração de um vínculo. Fazia-lhe . que não vêm de Bernardo del Carpio – o qual matou o rei dos Longobardos em Itália –. – É ainda tua parenta por Meneses.

– Meadas? Vocês lá as arranjam. levou os olhos para o céu. santinha. saía o lavrador da adega. dizendo isto. ao que a mulher retorquiu: – Vai-te deitar. – Sou. e baixou-os logo para a terra com humildade de pessoa indigna das mercês do alto. Expedia gritos de indizível angústia. pela boca de Gil Vicente. Se nunca fora outra tal. – disse ironicamente João. – Então que sonhou você. perguntou-lhe no adro. João – disse a hóspeda. e disse-lhe a meia voz o que quer que fosse muito semelhante ao que uma comadre. foi-se deitar. O cirurgião da terra. – Rebentada te veja eu a ti! O cirurgião continuou até ao quinto mês. Vou cá dentro conversar com a sua companheira à conta dumas meadas. a mulher de Manuel Tocha revelava à mãe de Josefa que sua filha estava doente de morte. pois que a sua casa é que venho. ressupinos em almofadas da Pérsia. A vida íntima é cheia de passagens ridículas. A curiosa respondeu que era de além-Tâmega. como estava a sua Josefa. Estava ali aquela desgraçada mulher sobre as brasas do seu suplício. no apuro da sua indignação. ficaste a beber. ao sair da missa. a mulher do Manuel Tocha. como quase sempre ia. e. que escreve casos tristes. ó Maria? – Que te importa? Se havias de ir à missa. fez o soído de umas castanhetas. bradou-lhe: – Ainda eu te veja como está a rapariga! – Salvo tal lugar! – retrucou. – Vossemecê não é a Rosária. porque. – Guarde-o Deus. – Valha-a o demo! Custou-me a conhecê-la! Você vem assim a modo de quem anda a pedir p’ra uma missa! Se quer beber. e à volta dela a bruta vida de seus pais – ele a esconder o pipo da aguardente de medronho. infitando-se nela. e inferia das respostas que a rapariga não estava sã. que matava pelo Portugal Médico e pelo Mirandela. que matava o bicho todos os dias. e perguntou-lhe quem era. A mulher refilou. borracho! Entre cá p’ra dentro. que. há quatro meses a eito todas as noites – . E muito acontecedeira. sargento--mor da Temporã? – perguntou João. queixou-se rusticamente das sangrias que sofrera o pipo. Disséramos que era mal. sim senhor. António de Queirós não chegava! Um dia. Ao fim de quatro meses. batendo na imediata do rosário. se lhe não acudissem.. tocou brandamente na face da doente. a fim de evitar que a vissem. havia dito três séculos antes a Rubena: Isto é cousa natural. agora não é preciso. uma mulher não conhecida de Maria da Laje. Você parece esmaleitada. aquela hidra de Lerna que botava cabeças todo o santo dia no bucho hercúleo de João da Laje. onde tinha visões como nunca tiveram os narcotizados califas de Damasco. e viera àquela freguesia por causa de um sonho que tivera. – Em sua casa lho direi. Ele não se ofendeu. se lhes não joeirasse a parte cómica. e tão copiosamente como se tivesse no estômago a arca de todas as bestas-feras diluviais.. Por serdes vós a primeira. João da Laje. mulher! – Deus lhe dê saúde. em verdade. depois. nos fenos do palheiro... Entretanto. fervidas em um quartilho de aguardente.umas perguntas da maior naturalidade. caseiro do sr. receitava-lhe emplastos de ervas orjavão e semprónia. a mãe a pisar a erva semprónia e a pedir sinceramente ao céu que lhe levasse o marido em uma das suas frequentes borracheiras. entre cá. porém. Quando entraram no quinteiro. muito velha e bem agraciada de semblante devoto. sr. – Tenho-lhe posto cataprasma de orjavão e semprónia. tiazinha? – perguntou Maria da Laje aconchegando-se da mulher com bastante fé. sorrindo com certa velhacaria. A lavradeira disse mal humorada o que sabia da doença. perguntou-lhe: – Quem é essa criatura. onde pela terceira vez fora matar o bicho. não arranjava nunca uma tragédia. E. A gente. estorcia-se em frenesins. E deixou cair uma das contas de pau preto. Vendo a companheira da esposa. Tinha alanceada a alma pelo tormento da desesperação. Josefa já não saía da cama...

santinha. que eu preciso requerê-la. e até me leu a carta. como o outro que diz. que é do sr. meu Deus! Preso! – Não barregue. São Bartolomeu – contraveio Maria. Nada de chamar quem está quedo. – Não abra a porta do quarto em que a tolhida estiver comigo. e coisas e tal. – Pois sim – exclamou Josefa com exaltação e profundamente abalada. de S. que ninguém lá vai. é o mesmo que pô-las na barriga daquela cadela – e apontava para uma perdigueira que uivava. que é o sr. que em bom pano cai uma nódoa. mas não desfaz os bruxedos – replicou Rosária Tocha.ª Josefinha estava nesse estado. encaminhando a suposta benzedeira no sobrado alto em que estava a filha. E. – Sua filha está enfeitiçada. leu-me a carta. – Deu-lhe p’ra inchar! – observou a mãe da enfeitiçada. – Eu já a levei ao sr. se nos ouvem. – O santinho tira o cão tinhoso. custasse o que custasse. e contou-me resvés tudo. Rosária escutou à fechadura os passos da outra que descia. Venha daí com Deus. Josefinha. O fidalgo escreveu de Lisboa ao filho do meu amo. duas pontas de vaca loira. que. – O sr. – Ai. – Vá vossemecê rezar sete salve-rainhas. lá vai tudo com a breca. o sino-saimão aberto em placa de chumbo. – Vamos. entrou com ela e disse a Josefa: – Aqui te trago a saúde. E mostrou dependuradas de um negalho surrado e sebáceo as seguintes. o sr. – Raios partam a cadela! Isto é agouro! – exclamou a dona da casa. a dizerlhe que o pai o metera em ferros d’el-rei porque ele não quisera casar com uma menina de lá. e de S. bracarense também. Ora aqui tem. – Ele onde está? – exclamou Josefa em ânsias de alegria. Aqui levo as arrelíquias p’ra lhe deitar ao pescoço. p’r’aqui. acrescentou: – Preciso ficar sozinha com a doente. – Vamos ver se ainda lhe podemos valer. outro como um dedal. que eu vou dizer-lhe ao que venho e vossemecê vai ficar alegre como uma levandisca. Antoninho está preso em Lisboa. e escreveu-lhe então a dizer-lhe que a sr. rapariga! Mal haja quem te meteu no corpo o feitiço! Tantos diabos o levem. Pascásio. e lá seria recolhida pelo feitor até ele vir de Lisboa. Dizia ela que os canudos continham ossos das sete irmãs santas naturais de Basto. e diz que o não tira da cadeia enquanto ele teimar que não casa. Antoninho. – Não qu’ele é isso quando o feitiço adrega de pegar d’ostrução – explicou suficientemente Rosária. Rosendo. e vossemecê enquanto eu lá estiver não me corte o ar. as mulheres nasceram para os trabalhos! Não chore. E. – Vejam vocês! – volveu a outra assombrada. sargento-mor da Temporã. entende? – Olhe que eu não sei o que vossemecê diz. Antoninho escreveu ao meu patrão novo a contar-lhe isto e aquilo e aqueloutro.. p’r’acolá. – Eu fujo amanhã. Olhe que diabo de homem. cruzando os braços. Feche-se por dentro no sobrado. * Fechada com Josefa. Deus me perdoe! E vai ao depois. tia Maria – prosseguiu a outra. ouvindo tocar ao longe uma requinta. um canudinho de latão como um agulheiro. de S. e lhe dissesse que fugisse quanto antes de casa e fosse ter à quinta do Enxertado. – Credo! Credo! – atalhou a benzedeira. fale baixo.atalhou Maria da Laje. porque . E vai depois o meu amo foi onde a mim. lá disso de cortar o ar. O meu patrão mandou-me chamar. disse-lhe com o maior e mais desbeato desempeno: – Eu venho aqui com um recado do fidalgo novo de Cimo de Vila. leve-me onde a ela. Ó filha. – Quem ma tolheu? – Isso agora! – e olhou para o tecto. exibidas as relíquias. Cucufate de Braga. e disse-me que viesse eu falar com vossemecê. criatura.-lhe um canhoto às pernas com grande cólera. entre outras cousas cabalísticas: duas figas de azeviche. vá descansada. do Porto. salvo seja. remessando. – Isso não lhe faz nada. e. cidade que ainda não deu outro santo. nem promete. que as bagadas me caíam quatro a quatro por esta cara abaixo (e alimpava a cara enxuta ao avental). e não fale no berzabum. Eu lhe conto.. percebe agora? – Ah! quanté isso. abeirandose à doente assustada pela inopinada visita.

erguendo- . – Estou aflita. A mãe. Hão-de roê-la! Sabes quem foi? – Quem foi o quê. vossemecê agora há-de mastigar um bocado de presunto para beber uma pinga do velho. sentando-se. – Ora ainda bem! – exclamou a risonha velhota. – Deus lho acrescente. benza-a Deus! – Pois ela sãzinha e escorreita é como não há muitas. E explicou-lhe o trilho que devia seguir passadas as poldras do Tâmega. e então virtude? Isso é que nenhuma. rapariga? Há cinco semanas. e esmorecida como se o súbito incêndio de felicidade fosse um lampejo de estopas que se inflamam e nem faúlhas deixam. Andaram aí atrás dela os fidalgos de Agunchos. O pior é que eu não sei o caminho para o Enxertado. Pois olhe que esses feitiços são invejas das desavergonhadas que não podiam levar à paciência a virtude da minha Josefa. esvaída de alento. boca! Enfim... não forte. mulher? – exclamou a mãe. Vá vê-la que já não parece a mesma. caindo em si. mas acompanhada de um calefrio. – Quem foi? – Eu sei lá. e mal hajam as invejosas que te fizeram a mandinga. A minha Josefa nunca tolejou tanto como isto. – Mas quê? Não foi outra senão aquela tísica que não quer que haja outra mais bonita na freguesia. Bebe-lhe. criatura – respondeu Rosária. Deus o despene! – Pois é verdade. isso disse ela.. mas tem cura. – Sim. e foi topar a filha sentada na cama a desengrenhar os seus loiros e bastos cabelos com uns meneios largos de braços e um atirar de tranças para trás que parecia uma alegre amante a pentear-se para ver passar o noivo amantíssimo. senhora mãe? – Quem te fez o feitiço? Ninguém foi senão a Bernarda do Manel Zé que te veio aqui pedir um dia – lembras-te – o teu jaqué amarelo com botões azuis. respondeu balbuciante: – Ah! sim. e correu a trazer-lhe uma farta malga de caldo fumegando por entre uma floresta de couves recheadas de feijões vermelhos. sabe Deus o que elas fazem. disse que mandaria o rapaz das cabras esperá-la na encruzilhada do Mato. mas. e a rapariga teve bons casamentos falados. e que lhe dissesse somente: «anda lá». se for preciso que eu cá torne. Rosária embiocou o rosto no lenço. mas. muito aflita! Jesus. a mais os filhos do sr. sentia-se como cansada. Maria da Laje saiu-lhe da porta da cozinha com a boca aberta e cheia de interrogações: – Então? – É o que eu lhe dizia.ª Maria: eu jejuo para ganhar o jubileu. – Àgora foi. não tem mais que mandar-mo dizer. Pões-te a pé ou não? Josefa.. para se não enganar. que é um que dizem que anda a penar na Agra. de ir lavar ao rio e de guardar as ovelhas era matarem-na. Vou-me indo que são horas. tem outro doairo na cara. – Pegou-lhe deveras.. capitão-mor. e a cabeça encostada à mão esquerda. ao pé da caixa das alminhas. uma posta de presunto e um pichel de vinho. e lá quem na tirasse das suas devoções. – Foi o meu padre Santo António que trouxe cá a santa da mulher! Vais-te prantar a pé. – Que tens tu. atribuiu o desmaio à fraqueza.. Deus lhe fale na alma. desconhecida. e chamando Jesus. cachopa. se desconfia. e algumas. É que ela nesse momento sentira uma dor física. esbofeteava-os). Foi para te fazer o feitiço no jaqué. – Então quem foi? – interpelou a mãe com azedume. – Não tem que saber.tenho medo que minha mãe me mate. sr. que não sais desse ninho! Queres tu comer? Vou-te buscar uma tigela de caldo. estendendo os beiços.-las amanhã. está com uma pele de rosto que parece uma rosa. e desceu as escadas. enfiou as camândulas no pulso esquerdo. vestindo as saias com agitação febril. Quando entrou no quarto.. fá. com o pente na mão direita descaída e inerte. vossemecê há-de ter ouvido dizer. nem na mais pintada! As outras por aí na freguesia todas têm rapazes que lhe rentam. senhora mãe! Quem foi o quê? – A mulher que aqui esteve contigo não te disse que era feitiçaria o teu mal? Josefa. com os dentes cerrados. Adeusinho. Cala-te boca! (e. viu a filha fora da cama. Havia de ser a brejeira da Rosa da Fonte e aquela tinhosa da Bernarda do Manel Zé! Cala-te. e não descobrisse ela quem era ao rapaz. vendoa mudar de cor. coitada da pobre rapariga que é tão boa! – contradisse Josefa. sim. Maria galgou as escadas.. valei-me! – dizia Josefa entre gemidos.

– Hoje não se come? Cá vou ver o que está na panela: quando ela vier. E. sentou-se ao pé da cuba. Viveu assim largos anos. João. O confessor não lhe ensinara outra interpretação da terceira virtude teologal. – Dóite alguma coisa? – Tenho uma dor muito grande. coberto de musgo. Ainda um destes dias contavam as gazetas de uma ilustre dama parisiense que matou a ferro frio uma neta que conspurcara a sua raça em amores abjectos. João da Laje. Como era deslinguada e mordacíssima nas fraquezas alheias. entrando à cozinha para jantar e não vendo ninguém. * Com toda a certeza. um tudo-nada do espírito de Epicuro. reclamando-lhe a cabra ou os fígados.se. malvada? Então p’ra onde vais tu? Morta te veja eu antes de à noite! P’ra onde queres tu ir? Quem foi que te botou a perder? Respondes. Este homem tinha em si algumas faíscas do génio de Diógenes. e o mais era espírito de vinho. impunha tacitamente à filha o dever de a sustentar na sua soberba inexorável. com as mãos no rosto lavado em lágrimas. convicto e implacável. que tua mãe não faz outro». seguindo-a espavorida naqueles trejeitos frenéticos. O seu ódio às mães tolerantes com os desatinos das filhas era entranhado. reformando-se sempre para pior. Ai que eu endoideço! ai que eu endoideço!. pai.. Se há inverosimilhança na crueldade das mães como Maria da Laje é lá onde são raras as que podem ler às filhas o livro da sua vida honesta. – Que tens. – Não está aqui. Era dura de condição. mulher? – bradava a mãe. e morreu aos 80. como levasse as mãos aos quadris no ímpeto da dor aguda. e murmurou: «Aguentate. ouvindo dizer que o pegureiro perdera uma rês. dou-te com o olho de uma enxada na cabeça! Pois tu! Pois tu!. a enxerga e a fome. partiu a fugir escada abaixo. com as mãos fincadas nas fontes. Da caridade cristã só entendia o preceito da esmola. havia o tronco. Fez-se uma desfiguração improvisa e medonha nas feições de Maria da Laje. minha mãe. Com alguma sentimentalidade no coração e frugalidade no estômago.. e murmurou: – Deixe-me chorar. – Que é de tua mãe. e foi sumir-se no palheiro.. porque a língua da chave estava corrida. morreria na flor dos anos. os mosteiros portugueses eram o dragão com os colmilhos abertos para esta espécie de vítimas que os pais lhe atiravam: se o cubículo claustral as não amordaçava.. como nunca vira.. os sinais exteriores do crime nem sonhado. segundo o marido contou ao vigário na cangosta do Estêvão. foi para a adega. e fazendo até uns gestos diante da mãe como se quisesse ajoelhar-se-lhe com as mãos erguidas. João. Aqueles gritos e contorções recordaram-lhe que havia sido mãe: viu. sr. e foi interpelar o rapazinho.. os modos suplicantes da filha confessavam o crime. e julgava-se com direito a murmurar de todas as frágeis. Uma ligeira camada de verniz social não sei o que faria desta mulher. Neste instante fez-se-lhe luz na alma a um clarão infernal. de feito. crescendo para a filha. mulher perdida? Olha que se me gritas de modo que alguém oiça. a mãe de Josefa. E. sem discriminar as infelizes. naquele lance. foi bater à porta da filha. que era o sarro interior que lhe porejava na casca. e.. Não perdoava cegueiras de amor porque não amara nunca. tinha o orgulho selvagem da honra. com as mãos na cabeça. que eu à noite vou-me embora. diz-lhe que eu cá m’arranjei. como lá dizem. deixou a mulher a escabujar no catre. amaldiçoada? Josefa ajoelhou-se. sentia nas mãos as crispações nervosas de quem estrangula um pescoço.. bramiu: – Tu que tens? Tu que fizeste. Se imaginava que a filha podia desvairar uma vez. Maria da Laje sofrera punhalada que rasga profundas fibras em peitos de mães honradas. E. depois a sepultura. mas o brasão limpo. foi levada em braços para a cama. dando gritos com a cabeça metida no feno para os abafar. . Ao entardecer daquele dia de Agosto. muito grande. rapariga? – perguntou de fora. extraindo do pote um naco de toicinho com que fez uma enorme e pingue sanduíche entre duas talhadas de broa. Entretanto. Em tempos tenebrosos. a mãe quedou-se como estupefacta a olhar para ela. compreendia barbaramente o dever da mulher. – Vais-te embora. quando.

saltou a vala. ao atravessar o quinteiro. quando a soledade e o desamparo a obrigam a socorrer-se de si mesma. ergueu-se cambaleando. no mesmo plano da cozinha. nivelando-a nesse lance às espécies irracionais. perdido o tino. que perdera a cabra. caiu. agarrou-se ao esgalho do salgueiro em que o pastor e o Luís moleiro a encontraram moribunda. na queda. Estremeceu. quando ouviu dizer que a filha se afogara. Pôs o berço à cabeça. onde um claro de areia se lhe afigurou o berço. e a queda de nenhum perigo. e com o fundo fasquiado de madeira tão impermeável. na precipitação com que o fez para não cair. Depois. era o mesmo berço em que a mãe a criara. o pescador da chumbeira ouviu-a chorar na cangosta do Estêvão. O remorso pôde mais com ela que a selvajeria da sua virtude. mas ainda viveu seis anos com reveses de demência. não achando leite. Viram que Maria da Laje. benzendo-se. O seu destino era o abrigo que o pai da sua filha lhe dera. Ninguém lhe ouviu os últimos gritos dela nem os primeiros vagidos da criança. lançando a saia de pano azul pela cabeça. mas neste instante ouviu os brados da mãe. mas. sentia-se esvaída.Ao mesmo tempo. se lhe estirava hirta nos braços como morta. * António de Queirós soube no Limoeiro. logo à ourela do rio. Lembrou-se de José da Mónica. o pastorinho que lhe era muito afeiçoado. deitada sobre a velha enxerga de serradura. pediria que a fossem guiar no mau caminho da grande légua que a distanciava da quinta do Enxertado. convence-se de que a mulher do período quaternário (vou assim longe porque na Bíblia se conhecem de nome as parteiras Séfora e Fua) não carecia de mais assistência que a loba das cavernas. escorregou ao rio. Quem ler. amparando-se à parede. pisou com firmeza as quatro primeiras pedras. encobrindo a baça claridade das estrelas. e disse entre si: «Eu vou morrer». Arremessou-se então ao rio. mas contava consigo. rompendo sozinha pelo escuro da noite. por carta do seu amigo da Temporã. e sentia-se torvada. a corrente parecia-lhe caudal e negra. desfalecida e sem forças para transpor as poldras. uma canastrinha de verga urdida tão densa e solidamente. mas os altos choupos da margem. se tomasse algum alimento. Atormentavam-na dores outra vez. conselhos e desvelos que a ciência agrupou à volta de uma puérpera. trazia debaixo do braço um berço com o filho. invocando o auxílio das almas benditas. Olhou para a lareira a ver se acharia um pouco de caldo. desde que ela expirou nos braços do veterano até que o escrivão do juiz ordinário nos deu o exemplo da dissecção daquele cadáver. Neste lance.-Tâmega. quando descia de manso a escada do seu quarto. Não o queria para si. cuidando que fosse apanhada. e apertando o berço contra o peito. Sabem os sucessos posteriores. quando o infortúnio ou o acaso interceptam o menor auxílio à mãe. escureceram o berço. Um saiote de baeta dobrado envolvia a criança. Era o Luís moleiro que vinha descendo com o rapaz. e souber da inutilidade da arte e dos preceitos. repelindo o marido desde que lhe ouvira dizer: «A rapariga faz-me falta porque não tenho quem me governe a casa». Josefa. em um tratado de obstetrícia. que Josefa de Santo . Quando aí chegou. Pousou o berço no escano. a desgraçada cortou de través para a margem. que poderia estancar a água sem transudar. mas daí em diante ia como cega. as regras. privando-a da confiança pessoal. que era bastante forte para o derivar. e morreu em casa de seus irmãos em Santa Maria de Covas de Barroso. Ao avistar as poldras que alvejavam puídas e resvaladiças ao lume d’água. Quando ouviu vozes. Da parte de além. mas o berço caiu na veia da corrente. esfregou os olhos turvos de pavor. cuja cama era na tulha. ouviu a voz do pai a praguejar contra o rapaz. Quis sentar-se em uma das poldras. e esperou que as pancadas do coração sossegassem. que não estavam perto. A água era pouca. e. ao longe. e. Havia de atravessar o ervaçal que o moleiro e o pastor percorreram um quarto de hora depois. ia levantar o testo do púcaro. e fugiu. pegou da criança. A mãe era robusta. era para o converter no leite da sua filha. teve vertigens. foi mãe naquela já tardia explosão de angústia e amor. e lhe parecia que a filha. da consciência da força própria e de algum modo estorvando as influências directas da natureza. Quando ela estendeu o braço já o não alcançou. Josefa era mais um dos inumeráveis exemplos da força prodigiosa da mãe. Na cozinha não estava ninguém quando ela atravessou de passagem para o quinteiro. A Brites do Eirô reconheceu-a a saltar para o campo da Lagoa. E observa também que os encarecimentos e demasias da arte a enfraqueceram e melindraram. quando amamentava a criança. no alto da barroca.

Aleixo se suicidara no mesmo dia em que ele conseguira enviar-lhe o aviso para a fuga. quando a avistou. que espraiava para dentro de um algar. Ele. o choro abafado de uma criança. atribuía à demência repentina a resolução da infeliz que ainda na manhã desse dia se mostrara contentíssima com a deliberação da fugida para a quinta do Enxertado. as quais. escondeu-a em uma lura do valado. mulher! – disse ele. o mundo está a acabar! – Dá-lhe o peito quanto antes.ª S. À primeira esfriou de medo. berço e tudo. um homem que eu sinceramente temo. A mulher de Bernardo. – Um quê. acercou-se do lugar sombrio donde vinha a toada incessante daquele ríspido chorar. Segunda parte Francisco Bragadas. atravessava para a margem da Ínsua. apalpando-lhe o corpo por baixo do saiote. embalava uma filha com o pé. enquanto amamentava a mais nova. O vigário de Santa Marinha também avisou Cristóvão de Queirós do suicídio da rapariga. com o berço debaixo do braço. As bóias arfadas pela corrente chofravam nos flancos do berço. – Para onde quer ir? – Para o Rio de Janeiro: seguirei lá a vida militar. – Sabe que é o sucessor dos meus vínculos? – Disponha V. O informador. ó Isabel! A mulher benzeu-se. – Vamos para a província. . – Nem caso nem vou para a província. que eu vou contar aos fidalgos este caso. despedindo-se do moleiro. – Com quem cuida você que fala? – repetiu o convulso velho. teria dado trinta passos rio abaixo com a rede já enrolada. homem? – Um crianço que pesquei no rio. Recebê-los-á hoje. – um bosque de choupos assim chamado. olhou para o céu com profunda mágoa. convenceu-se que era uma criança viva. Olha que desgraça. – Tornará para o Limoeiro. Sua mãe teve cinco mil cruzados de dote. Afuzilavam-lhe os olhos. a mim me bastariam a felicidade. e o intendente geral da polícia mandou passar alvará de soltura ao cadete de cavalaria. porque tem a minha liberdade e o Limoeiro à sua disposição. – Cá tens mais um. Aqui to deixo. atado nele. se não quer casar – disse Cristóvão ao filho. mas esperou a reacção do bom senso. Estendendo a mão. por via de regra. Francisco Bragadas exclamou levantando a canastrinha: – Oh! Pobre menino! Atiraram-te ao rio! Ainda eu mais verei neste mundo? – E. – Irei já enquanto lá tenho a minha bagagem. Bernardo? – Aqui o tens tal qual o topei engasgalhado num amieiro. senão o mundo acaba-se para ele. e amanhã partirá. que dali.ª deles se quer e se pode. – Não é meu filho! Vá para o Brasil. meu pai – respondeu António de Queirós. e exclamou: – Ó homem. quando ouviu no recanto escuro ou angrazinha da corrente. tocou na face tépida da criança. Dessa sei eu que você é filho.ª. pôs as mãos. – Com quem cuida você que fala? – interpelou o fidalgo com Bernardo del Carpio às cavaleiras que lhe esporeava as ilhargas com o direito de avô. como ao seu antepassado quando matou o rei dos longobardos em Itália.ª S. Pé ante pé. espantado do sucesso. foi buscar a candeia. costumam cacarejar casquinadas de riso quando lavam nas claras águas das ribeiras os seus indecentes arcaboiços. – Com V. não podia confundir os vagidos de um menino com os guinchos das desdentadas bruxas. sentada à porta da cozinha. com certas apreensões agoirentas. que era pai de muitos pequenitos. o timorato pescador de chumbeira. como lá dizem. O fidalgo conferenciou com a regência. a mocidade e a alegria que me matou. e deitou a correr para casa. O berço quedara-se enleado na ramagem de um salgueiro vergado pelo peso de uma rede ou pardelho. vá para onde quiser. disse maravilhado: – E nem sequer está húmido! Isto é milagre! Como a chumbeira lhe pesava. – Tu estás tolo.

e presa à bisca sueca pelo espírito e à caixa do esturrinho de 1813 pelo nariz. Largaram as cartas a um tempo. com o maior sossego de alma e muita conformidade com as dores. mas povoador de sua lavra. A criança é filha do mano Teotónio. – Isso sei eu. com umas cores rosadas que parecia uma noiva na véspera de ser esposa. Maria Filipa: – Olha que isto é marosca.. Êxodo. idade em que o sexo principia a descaracterizar-se. Maria Tibúrcia e D. mas muito honestas. matava uma galinha e dizia ao marido: – Vamos a isto. Maria Tibúrcia disse ao ouvido de D. e talvez pelo cónego. – Eu sei! – duvidou a outra. Passavam dos cinquenta. Confessava-se na véspera. Deixemo-nos de tretas. comungava de madrugada. dava-lhe aos braços toda a liberdade. uma coisa melancólica. – O mano Teotónio não precisava de estar com estas endróminas.. Para estas senhoras não tinham significação estas palavras do padre Manuel Bernardes: «Mui íngremes e costa arriba são as veredas da castidade!» Eram castas estas duas irmãs como as melancias são frescas e os tremoços sensaborões: – era o seu feitio e a sua natureza. cap. Haviam sido feitas de modo e feitio pouco vulgar. apareceu a dar notícia do achado da criança no Tâmega. * Quando o caseiro. Maria Filipa eram solteiras. Era como as mulheres de Israel. e asseverava que o primeiro e mais verídico historiador do género humano fora Moisés – asserto que ninguém lhe contestava. outros as armas: tinha filhos para todos os ofícios e artes. 1º. que também era solteiro. Era o D. e. parece que foi sempre assim. e ela ia para a labutação da cozinha. Esta família era do Arco de Baúlhe. estavam as senhoras e mais o cónego e o irmão a jogar a sueca. por causa da má cara que possuíam. Sancho povoador de seis comarcas. não na queria enfaixada. . Enquanto os dois pilares da história sagrada e profana porfiavam em erudições respectivas ao caso. lá prestava os cuidados à criança. se não tem filhos que lhe afirmem uma serventia retrospectiva. Gostavam de alguns sujeitos que fingiram ignorar o sentimento involuntário que acendiam. período equívoco em que a mulher. todos nascidos sem mais auxílio que o do seu homem e o da sua serena coragem naquele acto. Estava hóspede na casa o cónego de Braga João Correia Botelho. tornaram sagrado aquele fogo de que elas mesmas eram as vestais. mas. dois dias depois. gente nobre e antiga. Elas tinham fogo latente no peito.– Ai! – exclamou ela examinando a criança – É uma menina e ainda não tem cortada a invide! Queria dizer que ainda não estava ligado o cordão umbilical. porque elas mesmas se sabem partejar.. D.. vº 19). Umas filhas eram freiras franciscanas. Na folha de inventário cabia a cada uma dez mil cruzados. grave. O mano doutor tinha servido lugares de magistratura. de quem as parteiras egipcíacas diziam ao Faraó: «As mulheres de hebreus não são como as dos egípcios. ainda frescal. alguns filhos seguiam as letras.. – Marosca? – Sim. o doutor Teotónio de Valadares. mas menos casto que as manas. todo o alento aos pulmões. da maceira... falava muito no Pentateuco. E quem há-de ser a mãe? – Faltam elas por aí. homem erudito em história pátria. antes de nós chegarmos. recordando-se. em várias comarcas. senhor de grandes prazos. – Credo! Tu que dizes. porém. e depois. mandava o homem para a lavoura. mas arranjava esta comédia com o caseiro. mana Tibúrcia? O mano doutor não mandava atirar ao rio a criança. dos cevados.. desde juiz-de-fora até corregedor. sabendo de cor a Monarquia de Brito. e por todas elas deixara prole ilegítima. Bernardo. Isabel tinha a ciência prática da mãe de onze filhos. embalsamada. posto que não antipatizassem com Cupido.. parem» (Bíblia. E era isso não pequeno desgosto para elas. O Bragadas vem ensaiado por ele. a deitar os bofes pela boca. O caseiro atravessou um campo de hortas e pomares na extrema do qual estava a casa nobre. mana!. onde os fidalgos de Santa Eulália costumavam passar o estio para se banharem no Tâmega.. e exclamou: – Parece um caso bíblico! – Há factos análogos na história da Lusitânia – observou o desembargador. D. moto próprio e propagação pessoal. Depois. outras eram mães. O cónego ergueu os óculos de tartaruga para a testa. nunca exigiram quantia notável de seu irmão. ela mesma a lavava. Duas senhoras de outros tempos com seu irmão desembargador aposentado. E.

portanto. – Serão vossas senhorias ambas. Muito bem sabe o sr. leia o meu Bernardo de Brito. Tibúrcia. Maria Filipa. O rei da Lusitânia Górgoris teve uma filha que se . dizendo: «Lançai ao rio todo o que nascer macho. sr. rei da Lusitânia. – E porque não há-de chamar-se Maria Ábidis? – perguntou o doutor. – O senhor ri-se – acudiu o doutor. – Então qual é madrinha? – perguntou o padre. tomando do esturrinho de D. Maria Tibúrcia. visto que a recém-nascida não tem mãe conhecida. padrinho há-de ser o sr. O cónego sorriu-se. em comemoração de tão estranho sucesso. Tibúrcia. – Pode ser a mana Filipa – disse a outra. Madrinha há-de ser uma de vossas senhorias. – Não sejas má língua! Olha quem! Coitado do homem. cónego. ou mãezinhas.. pois que o Francisco Bragadas tem onze filhos. nem conhecia o limbo. – Prontamente! – anuiu o doutor Teotónio. desembargador o que a Bíblia refere. minhas senhoras. – Vês? Não é ele o pai – disse D. – Se o cónego quer que o inventor do mel haja sido o inventor das abelhas. Achou-o. a pensar que Deus lhe olharia pelos seus pequenos. Parecia-me.. – Matercula. Leia. vai o cónego contar-nos o caso de Moisés. Maria Filipa à irmã a meia voz. – Que por inventar o mel se chamou o Melícola. em paga de ele acudir àquela criança que. – Ábidis?! – disse o padre invocando a memória. mas há-de acrescentar-se-lhe um sobrenome indicativo da circunstância em que foi encontrada. Francisco – disse o desembargador –. responda que o inventor dos casacos foi o inventor dos carneiros que dão a lã dos estofos. Salvador baptizá-la. – Sim. continuou com ênfase: – Górgoris. – Isso – confirmou o cónego. Ele não era teólogo. conte lá a história. – Como há-de ela chamar-se? – perguntou o cónego. já se vê – respondeu D. que não vá ela morrer. – Eu não sei. – Essa não me parece de homem que lê! Esse casaco que o senhor tem vestido quem o inventou? Quem é que inventou os casacos. – E. tomaremos conta da enjeitada. mano. – Serão doze – atalhou o agricultor – mas. minhas senhoras. que a menina se chamasse Maria Moisés.. porque madrinhas têm lugar de mães. depois de baptizada. de invento – eu acho. tem de ficar a criança a cargo de seus padrinhos. mães.. – Bem sei. minha senhora. – Meli e colo: não o inventou. foi o inventor do mel. se ela me falhar. que é livro que nunca me larga. – atalhou D. Amanhã iremos a S. já teria asas que a levantassem até ao paraíso. – Vamos à história de Górgoris. e vinha à flor da corrente deitado num berço. – Justamente. – Vá.– É necessário – disse o cónego Botelho – baptizar a criança amanhã. – A mana é Maria. – É melhor – obtemperou o hóspede. – Interrompa quanto quiser. enquanto as duas irmãs estavam a ver se percebiam o modo como eram mães por um figurado esforço de latinidade. Não lhe tenho eu dito cem mil vezes que a nossa história é um tesouro de ricos acontecimentos aplicáveis filosoficamente a tudo quanto há mais extraordinário?! Eu lhe conto de memória: e.. no ano 2806 da criação do mundo. – acrescentou o cónego. boa esmola lhe fazem. que é o mais natural. de mater – acrescentou conspicuamente o doutor. que é o diminutivo de madres. desembargador. e não reserveis senão as fêmeas». se morresse. O caseiro saiu alegre. que eu cá estou. num berço sobre o rio. O ímpio Faraó mandara matar as crianças do sexo masculino. – Eu não interrompo mais seu mano. – Tem razão – conveio ironicamente o cónego. – Ai que fazem sono à gente com a seca dos latinórios!. – E na qualidade de mães substitutas que o sacramento lhes confere. irei buscar o tomo I da Monarquia Lusitana. – Sim – conveio o desembargador –. Moisés foi achado no rio. – Inventou.. se vossas senhorias tomarem conta da enjeitadinha. cultivou-o: são coisas diversas – reguingou o padre. – Maria. – Que é isso de Ábidis?! – É um caso semelhante da história portuguesa. – Será ele o cónego? – redarguiu D. – Eu cuidei que o inventor do mel houvesse sido o inventor das abelhas – explicou o padre. pergunta a minha curiosidade.

e. Maria Tibúrcia com a energia explosiva dos dizeres sentenciosos e finos. Maria Tibúrcia. Salvador festejavam com três repiques o baptizado de Maria Moisés. fidalgas? Faz p’rá semana santa dois anos que ela foi de Madalena na procissão do enterro. ouvindo alémTâmega o tanger a finados... diz Bernardo de Brito. – atalhou D. o filho no Limoeiro. O desembargador foi discorrendo acerca da corrupção dos costumes. Previu o advento monstruoso das ideias jacobinas. a Rousseau e a Helvetius. posto que nunca os lesse. sr. que existiram tanto neste mundo como o tal Ábidis. O que denunciou estes amores foi. em uma palavra de cunho português de lei..ª S. como as feras o não comessem. Esse frade. é um bêbedo. chamou-se o menino Ábidis. – E abandonou-a? – perguntou o cónego. O mano Teotónio. doutor Teotónio de Valadares. atirou-se ao rio. segundo o testemunho do moleiro. – Não queremos saber disso. Aleixo dobravam a finados. que era a virtude em carne e osso! E então bonita. Antoninho de Cimo-de-Vila.. sr. na qualidade de desembargador. com a maior gravidade. como quer que uma corça lhe desse o primeiro leite. posto no lajedo da igreja. Deus lá sabe. porque a moribunda. hoje em dia a civilidade não permite dizê-las. – Tudo isso me parecem vocábulos corruptos e interpretações corruptíssimas. foi a «emprenhidão». Maria Tibúrcia. exclamou: .. num rapto de vidente.. ria-se. a mulher do Bragadas que levava a menina. que o avô deitou às feras. eu não sei se isto que dizem se assim é nem se não é. e Mestre Menegaldo e Pedro Aládio. Ande lá com a filha de Górgoris. A opinião dos padres e dos assistentes ao ofício era que a suicida praticara aquele crime porque devia ter chagas de lepra que a corroíam. Vamos embora. – Outros – prosseguiu o informador – dizem que lhe subira o flato ao miolo. Sim. até toparem um homem de Santo Aleixo a quem perguntaram quem lá morrera. permitame que eu repugne a que a enjeitada tenha um sobrenome procurado na fábula (4) . Quando a família de Santa Eulália ia a caminho de casa com a afilhada. fábulas de Brito não me engodam. – Nada. –objectou o cónego Botelho – e. – Eu cá por mim antes queria nascer que morrer – disse D. e o cónego.. e. O que dizem é que aí pelo verão ia por lá um fidalgo. e daí veio chamar-se ao lugar Esca Abis (manjar de Ábidis). Não saberei eu dizer quais são os mais felizes. o cónego. – Eu dou licença – disse o cónego rindo. disse: – Uns nascem e outros morrem. – Você que me diz. Quando os sinos de S. senhoras. era responsado por alguns clérigos que franziam os narizes ofendidos dos miasmas da carne podre. Disse que. Eu digo o que ouvi. corrupto. desembargador..as. à conta dela. – Mas que é que dizem? – instou o doutor. que eu não sei nada. lavraria a sentença de morte dos portugueses que militavam na França com o tigre da Córsega.apaixonou por um homem de baixa extracção. Deus lá sabe..ª manda. Misérias. homem? A Josefa. – Deu ela à luz um menino. – Não parece pa lavra de pessoa eclesiástica! – notou a outra senhora não menos escandalizada. Contou ele que se deitara ao rio a filha do João da Laje. Enfim. Conversaram a respeito da enjeitada. – Enfim. pedira fervorosamente a confissão. atirou-o ao Tejo.. Ai.. e. A criança saía da pia baptismal.. que atribuiu a Voltaire. V. como tinha piscado o olho direito ao cónego. – Saberá vossa senhoria que até esta manhã não se dizia nada ao certo.. com licença de V. Scalabis. se não inventou o mel como Górgoris.. ao mesmo tempo que o esquife da mãe.as S. misérias. disse: – Minhas senhoras. O vigário consentia que a enterrassem em sagrado. que eu não quero que haja mais lindo anjo do céu! – Por que se matou ela? – perguntou o desembargador. Citou os generais portugueses que deviam ser enforcados... morreu. isto é o que dizem. inventou Laimundus. e.. Enfim. acabou-se.. entre quatro círios.. etc.. O sr. o que ele confessava com honrada jactância. ainda que as entendesse. e ela então. os sinos de S. o que dizem é que o fidalgo velho meteu. – A Josefa? – perguntou Isabel. Foi o menino encontrado no sítio que hoje chamam Santarém. Deu como prova da corrupção das aldeias um suicídio e uma tentativa de infanticídio no mesmo dia e na área de um quarto de légua.. mas o que por lá corria agora é que ela. Uns diziam que ela não podia aturar o pai que.. os antigos faziam as coisas e diziam-nas. – Credo! Que palavra! – exclamou com engulho D. Fez ao propósito reflexões políticas e até proféticas.

e deixou 5000 cruzados a sua afilhada Maria Moisés. Foi ele quem recolheu no convento das Teresinhas de Braga. – Falo na fé. nem acreditava nas invencionices de Bernardo de Brito. Maria Moisés. como há pouco presenciámos. não sei se me acreditam. e a sustentar-se (6). em que espécie de serviço aos enjeitados empregaria a sua caridade? Indo buscá-los à roda para os criar em sua casa? Assoldadando amas para a criação física e mestres para a criação moral? Mestres para as letras e para os ofícios? Em que veios de imaginário ouro se alimentara esta utopia que poderia ser virtuosa se não fosse indiscreta? . em Braga. que ele. cónego! – Ah! Isso é outra coisa. Marcos. Ideara um viver muito diverso do monástico. em dias de alegre humor. em benefício da enjeitada. Conhecia toda a simbólica das flores. cara a cara: – Estás uma carcaça e queres casar! Não tens vergonha! Põe um cáustico nessa cabeça. Maria Moisés. disse-lhe o anjo. a única pessoa. a caridade dos seus hospedeiros amigos. na galeria dos benfeitores do hospital de S. Vicente de Paulo em dar abrigo às crianças abandonadas. a madrinha da enjeitada. Maria Tibúrcia. Assim que chegou a Santa Eulália revelou ao cónego o seu pensamento: era criar meninos enjeitados! Era bom e caridoso o padre. Maria Tibúrcia. mas dava aos pobres inválidos e enfermos parte de suas rendas e estimulava. – Deixá-la cair? E a fé? – Qual fé? A estátua que está no frontal da Inquisição no Rossio? Deixá-la cair também. não era. D. a herdeira da quinta. Além disso. posto que já desvidrados pelo puir dos setenta anos. porque os não tinha. eram boi e leitão. que perfazia quatro emancipações completas. um estrénuo defensor do Santo Ofício.. que preferiu D. deu-se bem o florífago. mas não as comia como Esdras. não ignorava que uma respeitável matrona. fez testamento. Manducabis solummodo de floribus. Tibúrcia com 10. preenchidos os cinquenta e sete anos. frigideiras de Braga e morcelas de Arouca. Cuidei que me falava da Fé de pedra. auxiliara S. Maria.– Quem viver dez anos há-de ver caída a inquisição. Sabia o cónego que uma anónima viúva francesa abrira um asilo de expostos perto de Saint. Estava ao pé de mim o nonagenário provedor da Misericórdia que me disse ter ainda conhecido aquele alegre ancião com a sua cabeça veneranda à gelosia de uma casinha na rua d’Água. Não podia conventualmente exercitar umas estranhas humanidades que lhe agitavam o coração desde que sua madrinha lhe legara recursos para as realizar. que lha desaprovou em termos enérgicos. ó sr. chamava as duas biscas. o cónego Botelho. Isabel Lhuiller. resolvida a não tornar para o convento. na margem direita do Tâmega. doida! Depois. que se sustentou catorze dias de flores. O tutor e director da recolhida. no dogma. representados na quinta de Santa Eulália. como quem diz que só tinham préstimo para a sueca. não lhe refilou os dentes. e uma das irmãs. * Este cónego. mas a minha obrigação é atirar para aí com as pérolas da verdade sem me preocupar com o destino delas. cónego! – Deixá-la cair – disse o padre. A idiossincrasia do marido de Tibúrcia não eram flores.. Este moço fazia sonetos e madrigais. mas ela. A outra. e – acrescenta Isidoro de Barreira – tornou a comer outros sete dias flores. D. sem auxiliares.-Landry. mas achou tão original e extravagante aquela ideia em uma menina de dezoito anos. desembargador (5). Maria Filipa. sr. injuriou-a até ao extremo de lhe dizer. sozinha. Folguei de ver aquele ridente aspeito em que reluzem uns olhos sagazes. contanto que nenhum de nós esteja debaixo. Pelo que respeita a D. quando já eram falecidos o desembargador. que estudava teologia moral com tanta incapacidade. casou com um mancebo. como se vê. aos quinze anos. que eu saiba. O desembargador quis pôr a irmã por demente. mas uma menina solteira a lidar com enjeitados afigurou-se-lhe exercício menos consentâneo com a pureza e candura de anos tanto em flor. acompanhou-o. e desprovida de recursos bastantes. mas safou-se de casa e desmaiou cheia de pudor e denguice nos braços do seu bardo e marido.000 cruzados ao Mestre Larraga com a ciência do céu. sem família. sr. desejou residir um verão na quinta de Santa Eulália para repassar tristemente na memória os vinte estios que aí folgara com o seu amigo Teotónio e com as duas irmãs. cujo retrato eu vi há dias.

Miguel. A enjeitada quedou-se a olhar para Joaquina com muita tristeza e espanto. mas o pudor. Não a encontrou no quarto. todavia as angústias da rapariga recresciam. sentindo-se apertada ao seio daquela a quem se confessara mãe desonrada e perdida. acorçoada pelo amoroso desvelo de Maria. E olha que são mais dignos de compaixão os órfãos que viram morrer sua mãe do que os enjeitados que a não conheceram. O coração decerto as tinha. e foi levada sem alento para casa da mãe do morto. se ele o souber. Quem tem seis por ano e gasta sete. acredito eu que a divina Providência tos manda. Ora. e fez-se a sua enfermeira moral.. um era o noivo de Joaquina. sr. Exercita a caridade quanto as tuas forças to permitirem. Maria – replicou o padre – mas vieste tarde à procura dum mundo que passou. Volvidos alguns dias. Uma noite. depois das colheitas. que a tratou com o amor que tinha ao filho. mas na noite de 24 de Agosto. revelou que estava perdida. – Vê. – Vem para o meu quarto. Maria Moisés deulhe uma cama em sua casa. cónego – disse Maria apontando para o quarto do hóspede. A rapariga ainda o viu moribundo. mulher do Bragadas. correu à porta da sala de espera que ela nesse momento abrira. Joaquina. Do seu próprio nascimento inferia ela uma desgraça semelhante à de Joaquina. Separou-se dela fundamente magoada e pensativa. e.-Montes. com mais lágrimas que expressões. que não ouça o sr. balbuciou: – Não diga a ninguém a causa da minha morte. O tiroteio de ambas as margens do Tâmega principiou às dez da noite. D. ao fim de seis anos tem só um. quis despenhar-se da ponte. segundo o bárbaro estilo daquela romagem. que meu pai está muito acabado. Ao romper da alva.Ela ouviu silenciosa o cónego. morre de paixão. e o propósito do suicídio revia-lhe nas meias confidências à sua benfeitora. que era agora caseiro da enjeitada que encontrou no rio. Contam-se milagres de multiplicação que talvez se possam repetir no teu pouco. Maria Moisés tinha em casa dois meninos na primeira infância. – És uma virtuosa criança. Maria. porque o pai de seu filho já não podia remediar a sua desonra. Miguel. Joaquina. passados alguns dias. Ergueu-se alvoroçada pelo pressentimento de que a infeliz rapariga ia matar-se. os seis somente em obras justas de misericórdia. amamentava. – Fala baixinho. tornou para casa de seus pais. com a vista vaga e turva de quem chorou até que a demência lhe secasse as lágrimas. O velho Francisco Bragadas. não vás além do que te rende esta quinta. * A filha que Isabel. posto que pobre. depois de muito instada a explicar o seu propósito. quando em Cavez se festeja o S. Assim. mas não adormeceu. fora pedida por um lavrador abastado de Cavez. Alta noite ouviu ringir a porta do quarto de Joaquina. e disse-lhe abraçando-a: – Onde vais? Joaquina. se o reumatismo me deixasse. Bartolomeu. Maria. Reteve a desvairada.. os turbulentos acometeram-se peito a peito de clavinas engatilhadas. contou-lhe que a moleira da Trofa. e lembra-te que eu sou aquela enjeitada que teu pai pôs no . morrera de cambras deixando dois filhos pequenos. – Mas tencionas procurá-los? – Isso não. vai. viúva de um soldado que estava lá para as Ilhas com o irmão do sr. quando o marido lhe levou a enjeitada. Oito carros de milho. espero que a divina Providência os leve onde eu estiver. e não dês alento aos costumes depravados tomando a teu cargo os filhos que as mães abandonam. Gasta os seis. era agora uma guapa moça de quem Maria se afeiçoara fraternalmente. mas não lhe inspirou de pronto palavras confortadoras. cónego? – disse ela – Já tenho dois! – Esses dois iria eu buscar-tos.. quatro pipas de vinho e dez almudes de azeite é o teu rendimento. e disse singelamente: – O meu desejo é dar aos enjeitados a caridade que eu recebi. mas o mais prudente é contares pela aritmética que eu te ensinei. deviam casar no S. – Também eu fui abandonada – disse ela. que não tinham migalha de pão. a religião. – Então vou eu? – Pois vai. a repugnância congenial da sua vida pura sofreram uma dor íntima com a inesperada confissão.. menina. porém. e dos dois valentes que caíram mortalmente feridos na ponte. a filha do Bragadas. os festeiros do Minho brigaram com os de Trás-os.

em Santo Aleixo. Vinho. está a tocar ao viático. Maria Moisés saiu de Santa Eulália. mas a minha ama dá conta do que tem. adeus! Isto assim vai tudo pela água abaixo. Aqui lhe deixo os meus órfãos. Na primavera seguinte. mas a melhor porção há-de ser a minha. nem nunca me fez minga. – Não quero. E. – Que tem que eu morra pobre? Acabarei como comecei. – A senhora lá sabe o que lhe convém. Esta senhora carece de tutor. sabendo ler. – Venho despedir-me – disse ele –.. – Paciência. onde tenho as minhas amigas do convento. e a senhora não a deixou deitar à roda. e depois é agarrarem-se à enxada e à rabiça do arado. Puseram-na no pátio da nossa casa. guardarem uns cevados enquanto não podem ir para o monte com a rês. Para nós e para os pequenos sempre há-de chegar. Maria. * No começo do inverno. * O cónego Botelho. Trate-os como costuma tratar os filhos que não têm mãe. Isto por aqui é um louvar a Deus de mulheres perdidas. O caseiro. lembra-te do teu amigo. Francisco. – Ora adeus. porque o prazer de dar é muito maior que o de receber. no estio de 1835. sim. se se espalhar a notícia de que a senhora recolhe os enjeitados. sr. Já nasceu alguém mais pobrezinha que eu? Não se arrependa de ter sido quem deu causa a que eu fosse a dona desta quinta. O que eu lhe digo é que. vá.. nem me assustes. Vem. ó moça? – É uma enjeitada de que tomou conta a senhora. quando viu apear uma mulher desconhecida com uma criança nos braços. quando não. Chamava-se a árvore do cónego.. – Sim. – Vou passar o inverno em Braga. tio Francisco.colo de tua mãe quando tu lá estavas.. Quero que aprendam. – Deixá-la ouvir. mas. Se eu ficar sem ela. meu pai. Este olmo que ainda tem um sinal de letras. e as oliveiras estão tolhidas da ferrugem. – obtemperou ironicamente o Bragadas. sim? – Vá descansada. se és minha amiga. mas o que eles carecem é de se pegar ao trabalho. Maria e Joaquina voltaram à quinta. Já não há pais que saibam criar as filhas com pão e pau. e pediu aos seus caseiros que deixassem ir com ela a sua filha. Joaquina afastou-se com os olhos manejados de lágrimas. E olhe que está em terra azada para meter em casa mais garotos do que andam na escola do Farripas. sorrindo. isto de escola p’ra que monta? Eu também não sei ler. então. queira perdoar-me. não era mau. Talvez os mande para o Brasil. que já podem ir à escola. verá que lhe chovem em casa como a praga do Egipto. Lá se eles tivessem que comer. e destas árvores que eu vi plantar. e Maria Moisés.. fui eu que o plantei há vinte e três anos. – Olhe que ela ouve. e.. daqui a poucos anos. – Está bem aviada a senhora! – tornou o Bragadas com bastante rabugice e algum zelo pelas comodidades da sua ama.. – Para onde vai a senhora então? – perguntou o Bragadas. perguntou à filha: – Aquilo que é. que eu não me ofendo – disse Maria Moisés. Lá pela vida fora.. Olhe que os milhos este ano quase que não espigaram. – E tem de pagar e dar de comer à mulher que o cria? – Pois ela!. é porque a reparti por muitos pobres. – Ralhe. ralhe. – Ah! A senhora está a ler! Qué-los fazer brasileiros? Boa vai ela! Se vai nesse modo de vida. ó senhora.. retirando-se.. com o seu frio egoísmo de velho. e depois veremos. não se enche a cuba pequena. fez a última visita à quinta de Santa Eulália. cortou a diatribe que o pai austero vociferava contra a dissolução dos costumes. despedir-me de ti. quando te sentares neste banco de cortiça. para que possas mais alguns anos possuir a tua quinta e ser a dona da árvore do . tio Francisco. não chores. O melhor é dizer que a quinta dos fidalgos do Arco é agora a roda dos enjeitados.

pediam-lhe donativos para reformar paramentos de sacristia. De vez em quando. * Faleceu o cónego João Correia Botelho em 1836. as meninas tinham mestras. dera-lhe Deus a alegria dos três enjeitados. grossas.cónego. saberás que no meu testamento reparto entre ti e a Misericórdia de Braga os meus poucos haveres. É o mesmo que deixá-los a um hospício de infância desvalida. não com dinheiro. pobremente enfaixados em pedaços de lençóis velhos e baetas rapadas. Os filhos da moleira já tinham ido para o Brasil. A esmola é boa mas a prodigalidade é má. – Tem a graça de Deus que lhe dá tudo – respondiam os pedintes. Joaquina ouvia com a alma confrangida as exclamações do pai. supriram ainda assim as despesas no transcurso de dez anos. era havida em conta de tola pelos velhacos. três expostos lhe pusera a Divina Providência no pátio. Maria. Maria. Como só de per si já não podia cuidar na educação dos enjeitados. e pedia a Deus que a ensinasse a responder aos argumentos do padre. Assim foi que o abade de Pedraça tomou para si aquele pequenino que se chamou Álvaro. Receberás quatro mil cruzados. outros andavam na escola. mas a dor e a vergonha eram bem remuneradas pelo prazer de abraçar um gordo rapaz que lhe chamava tia. vermelhaças. A falsa piedade explorava-a. baptizava-os e alimentava-os com leite de ovelha enquanto não apareciam amas. exceptuava sempre as suas filhas. que eram Joaquina em coisas de costura e Maria no ler e escrita. Aplica-os segundo o teu plano caritativo. e lhe desse meios para ver criados os dez enjeitados que tinha em casa. e imagina que me ouves estes conselhos que te deixo. esmolas para entrevados de longe. capas para outros. e os que mandara criar fora. que lhe emprestavam o dinheiro a juro. Maria Moisés. declamando contra a estragação dos costumes. Principiou a inquietar o ânimo de Maria o receio de não poder com tamanho encargo. ainda quando se quer justificar com o título usurpado de caridade. vem sentar-te aqui onde agora estamos. para cabaneiros a quem o incêndio devorou a choça – com verdade ou impostura – ninguém ia da sua porta com as mãos vazias. As irmandades. esmolas para aleijados que iam a caldas e ao mar. na verdade mal administrados. Festas de capela. neste ano. ouviao com saudade. Da confluência de expostos à quinta de Santa Eulália pode inferir-se que a virtude e a castidade de uma mulher era um afrodisíaco para a fecundidade das outras. esmolas para rapazinhos que iam para o Brasil. quando eu já estiver dormindo o sono eterno. transcendia de júbilo. As amas desciam das terras de Barroso. Por toda a corda de Basto e Ribeira de Pena. de grandes peitos e quadris. dando-as como exemplo. mas não sacrifiques o passadio da tua velhice. A herança do cónego e os rendimentos da quinta. e madeiras para os vigamentos das igrejas. com a certeza de que ela já havia pedido alguns centos de mil réis sobre a quinta. durante o ano. mas com a caridade de se encarregarem de alguns. resplendores para uns santos. porque a profecia de Francisco Bragadas se realizara. Como conforto à saudade do seu benfeitor. O velho Bragadas dizia que a patifaria era tal que as amas eram as próprias mães dos enjeitados que regateavam o ordenado da criação antes de darem os seios exuberantes aos filhos. * . Onde chegou a nova foi também o sobrenome da senhora: chamavam-lhe a santa Moisés. Lavava-os e vestia-os. por todo o Barroso e Cerva. votos de missas pedidas. com a sua fama de santa. – Eu também sou pobre – dizia ela. Quando se assentava à sombra do olmo. e depois legou ao filho natural do visconde de Agilde o farto ouro que parecia trazer consigo o condão de virtude da enjeitada de Santo Aleixo (7). E. propalou-se que uma senhora de grande riqueza e caridade aceitava enjeitados em sua casa. Assaltavamna a cada passo as reflexões do cónego Botelho. Maria Moisés pedia às pessoas abastadas que a auxiliassem. sem respeito a processos de canonização. d’aquém e d’alémTâmega.

. onde lhe entraram redivivas e pungentes ao âmago da alma as recordações de Josefa de Santo Aleixo. Isso vai tão longe. 27 de Agosto de 1813. trinta e oito anos depois que saíra de Portugal. nesse mesmo dia à noite. que ainda tenho. António. deixa-me ver se reúno umas ideias vagas. datadas de Coimbra.. brutos e forçados... no amplo casacão de baeta. o esbelto cadete de cavalaria que o outro conhecera de cintura feminil.. Os dois velhos abraçaram-se a chorar. – Há trinta e sete. aquele que. Espera lá. para que eu não morra sem ver um amigo da juventude – dizia ele. me disse ele que a Josefa talvez não se suicidasse. tal qual ela era... na mesma noite em que essa rapariga apareceu moribunda no rio.. se ele vivesse. enviara a astuta caseira a Santo Aleixo com o recado da fuga. sentiam um vago contentamento na hipótese de ser Deus servido levar-lhes o mano general... ordenava ao mordomo que lhes desse porção das suas rendas supérfluas. e tão funda amargura o avassalou que se arrependeu de voltar à terra natal. depois que teu pai morreu me disseram teus cunhados que entre os papéis dele apareciam cartas que eu te escrevera falando-te daquela rapariga de Santo Aleixo. de vez em quando. – Não pode ser – atalhou António de Queirós. Gonçalves Penha foi pressurosamente. ergueu-a com ímpeto. Este mesmo. – Ainda. casadas com pequenas legítimas. Viera só. A omnipotência de teu pai chegou a subornar o fiel do correio de Vila Pouca de Aguiar..Em 1850. curvou-se bamboando a cabeça. era agora um ancião de grandes barbas brancas. – Porquê? Então mataram-na?! – Já não vive há muitos anos o cirurgião que a tratou. Como a velhice nos varre tudo da memória! Ah! uma circunstância. Os vínculos não pôde o pai desviá-los da linha varonil. Olha. eu saí daqui há trinta e cinco e nunca mais o vi. aquelas senhoras mandavam deitar as cartas a uma criada velha para saberem se lhes viria alguma herança.. fragueiros. As irmãs. Como viviam casadas com uns fidalgotes de meia escudela. reformado com a patente de general no império brasileiro... Tinha sessenta anos. António de Queirós era rico em Portugal. Vem. – a sombra plangente que lhe seguira todos os passos da vida. Queirós. noticiando-lhe a sua chegada. da casa da Temporã. nem os mordomos por ele encarregados da fiscalização dos grandes bens lhos depreciaram. Entretanto. nunca se fechou a ferida. o irmão. não me quebres o fio das recordações. nem granjeara família de ordem nenhuma.. Perguntou pelos seus amigos da mocidade: todos eram mortos.. Não casara. Reconheceram-se pela voz. – Porque não pode ser? .. – Recordo-me. assim que chegavam navios brasileiros com a notícia das febres devastadoras. Gonçalves Penha tapou a cara com as mãos. – Há quantos anos me não escreveste? – dizia Gonçalves Penha. Sim. e disse: – Parece que vejo reviver o passado. a tiritar de frio. era juiz em uma das Relações do reino. exceptuado Fernando Gonçalves Penha. e faces angulosas. Só me recordo. porém.. a seu pedido. mas que morresse quando ia a fugir com a criança para tua casa. António de Queirós e Meneses.. poderia ajudar-me a recordar. e olhos negros docemente ameigados por alma apaixonada. um homem que andava à pesca encontrou uma criança viva num berço levado à tona da água. Está essa infeliz diante dos meus olhos como a vi.. – Ah! vou-me lembrando. cheio de condecorações e mais nada.. suicidou-se. António de Queirós.. à míngua de recursos. chegou à sua casa de Cimo-de-Vila em Ribeira de Pena. – O quê? – Espera. há trinta e oito anos. que seguira a carreira das letras. Escreveu-lhe Queirós. eu mandei lá a minha caseira. recolheu-se à casa onde nascera. Recebi duas cartas tuas. Nunca. Falando eu a este respeito com o cirurgião. mais velho que a sua idade. a matarem coelhos para matarem o tempo. Era tudo o mais uma transformação em que os vermes do sepulcro já pouco teriam que destruir. Que me dizias tu nessas cartas que eu não li? – Posso lá lembrar-me agora!. mas. olhos apagados. Esse suicídio é que eu punha em dúvida nas minhas cartas que não recebeste.. O general chegou inesperadamente. e Josefa respondeu alegremente que fugiria para o Enxertado na noite do dia seguinte. – Só duas? Escrevi-te mais. Parece-me – prosseguiu o desembargador reparando na comoção de António de Queirós – que ainda te sangra o coração.. o aparecimento de uma criança no rio.

Era ali que Josefa esperava o juvenil aspirante embrenhada no choupal. recordo-me eu agora perfeitamente de que. Só de enjeitadinhos tem onze de portas a dentro. O general recordava-se daqueles nomes. mas a mãe dos pobres acudiu-me. e soube com certeza que foi achada nesta mesma noite... – Onde era essa quinta? – interrompeu o general. – Sou. – Ó filho! Isso é que te não posso dizer já. – Isso mesmo disse eu ao cirurgião. nem uma choupana. e que.. com uma barca de passagem amarrada a uma argola de pedra chumbada na parede. dava esmola generosa aos necessitados. – Sim.. mas deixa estar. que dez léguas em arredor toda a gente conhece a senhora de Santa Eulália. pensando bem.. V. quando se julgava abandonada. E foi por isso mesmo que teu pai as subtraiu. Ele parava também diante deles.. descobriam-se e paravam. E espera. perguntou-lhe se aquela azenha ali estava há muito. se bem me lembro.ª S. mas à vinda para baixo são todas. – Não que ele também há muita desavergonhada por esse mundo de Cristo.. Alguns haviam sido seus companheiros na caça. te dizia que o teu filho podia existir. Os homens antigos. Não te parece? – É possível. a minha caseira foi disfarçada a uma quinta onde estava a criança que apareceu. e perguntava quem eram. Os processos por causa de sucessões estão cheios de factos que parecem novelas. dizias-me que. pela primeira vez. quando o viam ao longe.. do seu carrancudo solar. e oferecia a sua amizade aos outros. – Há nove anos. – Lá isso sim.. mas o cirurgião convenceu-me de que bastava a alegria de fugir. Ó Queirós! – exclamou o juiz com entusiasmo. para lhe produzir um forte abalo. mas. mas.... outros brincaram com ele na infância.. – Justamente.. Chegando à ourela do Tâmega. ainda que eu seja confiada. O general sorriu-se e disse: . contando-lhe o que sabia da tua carta escrita do Limoeiro. olha que eu sei de casos de mais dificultosa averiguação que se tiraram a limpo. não é de cá. – Não conheço. Ali mais arriba havia um moinho que a cheia me levou. Eu te direi o que souber.. e nas genealogias há muitos dessa espécie. * Ao outro dia. Fiquei com dois filhos pequenos.– Era cedo para ter já nascido o filho.. que novas dores a esperança me está gerando na alma! A esperança! Que posso eu esperar das transformações de trinta e sete anos. – E se tu descobrias agora o teu filho! – Não me passa pelo espírito esse devaneio. Gonçalves. Eu quisera antes que a morte dessa infeliz não fosse um acto de desesperação. porque tu. e lembravam-se das travessuras do fidalguinho.. meu senhor. a caseira deixou filhos que ainda são meus caseiros. mandava-os cobrir. Nesse lugar estava uma azenha. meu amigo. senhor... Ainda mesmo que o pequeno encontrado fosse o teu filho.. Já dentro da barca. Não há outra assim no mundo. porque havia de suicidar-se ela?. mas tenho estado longe. – Então. o general Queirós de Meneses saiu. Mulheres más por aqui é uma casa sim e outra não à ida para cima.ª há-de conhecer a senhora da quinta de Santa Eulália. – Bom é que haja uma santa onde há tantas mães que abandonam os filhos. meu amigo? – Tens razão. É natural que eles a ouvissem muitas vezes falar do caso milagroso da criança que apareceu deitada num berço de junco. – Quero. nas minhas cartas. parou defronte da Ínsua. outra circunstância. – Faltava um mês.. À porta do moinho apareceu a moleira a perguntar-lhe se queria passar para além. e caminhou a pé e sozinho na direcção do Tâmega. Um conhecido amieiro de tronco esgalhado em ramos recurvos já não existia.. há que anos terá morrido o homem que o encontrou no Tâmega? Que destino levaria o rapaz? Ainda assim. sem modo de vida. – Onze! – É o que lhe eu digo. tendo-me dito a caseira que a rapariga chorava de alegria? António.

– Bendito seja Deus! Então V. João da Laje morreu pobre. Era uma flor a moça. todavia. Ainda acolá se vê de pé um sobrado onde eu vim para acompanhar a morta à igreja. Devia tudo às irmandades e à fazenda. Está aqui reitor há muitos anos? – Há vinte e sete. Um brasileiro comprou esta quinta. apoiado na bengala. coaxavam as rãs. – Aqui – disse o vigário – morou um lavrador que morreu há três anos com mais de oitenta. e Deus sabe quando terei outra. etc. Chamava-se o João da Laje. Entrou na aldeia de Santo Aleixo. Como ia fatigado. mulherzinha. Chegaram a um recanto onde se viam ruínas de uma casa de lavrador muito espaçosa. O general absteve-se de interrogações.. e não os chamar a contas.ª Ex.ª não é d’aquém-Tâmega? – Não sou.. Bebia um quartilho de aguardente todos os dias. Ele parecia ver e ouvir. Há que anos isto vai!.. apareça. vigário.-mor. – Sim.ª quer que eu espere? – perguntou a barqueira. que esbeiça lá em baixo com o rio. Ainda me recordo que. O general parecia querer reconhecer o sítio e a casa. – Se lhe não custa. general que chegou há dias? – Adeus. pois que é tão atencioso com os forasteiros. – Não. – Todos os velhos são fáceis em chorar. Continuemos o nosso passeio. cortejou-o e ofereceu-lhe a sua residência. fuja para lá. enxugando o suor. Da casa da residência saiu então um clérigo ancião. foi preciso enterrá-la ao outro dia. e chegou a idade tão provecta! Fiem-se lá nos médicos! Desta casa tenho eu uma recordação muito funesta. – disse o vigário atentando nas lágrimas represas do ancião. sr. perdoai aos mortos. mas eu até já tenho vergonha de lá ir. desde que a mulher lhe morreu de paixão lá para Barroso. Ali é que ela dormia. e às vezes um escalo de ventre prateado saltava à flor d’água.ª Ex.ª é o sr. uns disseram que por vontade própria. o antigo capitão. reitor. e embebia no lenço as lágrimas. e está arrasando a casa para fazer um palacete. mas via e ouvia no passado o rosto e a voz de Josefa. – Pudera! Mas a mim já me não pega o andaço.. Parece que V. porque não se podia sofrer o cheiro do cadáver. A mãe dos pobres já me prometeu a madeira. Tomara eu pão para os meus filhos. os Pimentas. senhor. sr. iremos dar um passeio por esta aldeia que me parece muito pitoresca. na fraga a que o moleiro encostara o cadáver de Josefa.. dizem os livros sagrados. Em baixo murmurava a corrente agitando as franças dos salgueiros.. O nosso dever é orar por eles. porém.. sentou-se. pergunte pelo Queirós.ª S. e o corpo não me pede folia. Daqui descese para as poldras? . – Da melhor vontade. e outros disseram que por desastre. Reparando no desconhecido. O cansaço ansiava-o. Perto de quarenta. Subiu o íngreme barrocal da Cangosta.– Bem faz você em viver perto da ilha: quando a corrupção for geral. O reitor dizia-lhe os nomes dos possuidores dos melhores edifícios. Trabalho muito.ª está magoado com a história da pobre moça. O reitor. V. o padre acrescentou: – Esta casa vai desaparecer daqui. o tenente-coronel.. Como a morte em poucas horas transformara uma criatura linda como os anjos num charco de podridões! – Que motivo se deu para o suicídio? – Não tenho a certeza. morrendo ela à noite. e sentou-se no adro. Em 1813. – Há proprietários muito ricos. e receberá dinheiro para a sua nova barca. – Pois não vá. que vou passar às poldras de Santo Aleixo. com o breviário debaixo do braço. quando eu era minorista. Amanhã vá você à casa de Cimo-de-Vila. Saltou à margem. e lembrou-se que ali mesmo haviam estado sentados ambos em uma tarde de Julho. vim aqui assistir com a minha sobrepeliz aos responsos de uma pobre rapariga que se afogou no Tâmega. – V. E caminhou pela orla do Tâmega até saltar o combro que descia para a Cangosta do Estêvão. – Aqui é aldeia de ricos lavradores. Tenho esta barca a meter água. ao que parece. tenho a suspeita. – É o reitor desta freguesia? – perguntou o general. e sentou-se à sombra do plátano do adro. Gastou trinta mil cruzados. que assim falava. era aquele padre Bento da Póvoa que já em anos de indiscretas verduras queria que o escrivão respeitasse o cadáver ainda quente da suicida.ª S.

agora dizem que os saldanhistas vão sair com a procissão porque querem dinheiro. mas ninguém lhe dá o que ela vale. Maria Moisés é uma mulher que faz lembrar as antigas santas. – Sabe então o sr. e quem o tem fecha-se com ele. e dalguns se conta que foram para o Brasil e lá estão bem encaminhados. Não sei.. Seja de quem for filha. – É isso. sem os filhos que enjeitaram. mas sou franco. escreve-lhe a pedir pelo amor de Deus que o aceite e sustente com as migalhas da sua mesa..ª que todos os juízos temerários são venialmente pecaminosos quando redundam em desdouro de vivos. senhor. Verdade é que um cónego de Braga. trinta e sete.. Pena é que os poucos recursos lhe não permitam ir tão longe como o coração lhe pede. mas a caridade na alma da santa mulher é que não esmoreceu. que foi madrinha. e que parece ter vinte anos. – Ouvi dizer que a criança fora salva. que a baptizaram com o nome de Maria Moisés. se sabe que um fidalgo ou abade rico ou viúvo sem filhos está no caso de poder aceitar-lhe um órfão ou enjeitado. foi encontrada sã e enxuta num berço de canastra por um homem que andava pescando: era o caseiro dos Valadares de Santa Eulália. de 1813 a 1850. não há-de ir longe. perguntou o general: – O sr. Alargou mais do que podia a área da caridade.ª S. E assim tem conseguido arranjar bastantes. porque não há dinheiro. e na porta da minha igreja está um aviso anunciando que quem quiser comprar a quinta de Santa Eulália fale com a dona da mesma.. mas nunca se soube quem era a mãe. porque vou ver uma doente que mora à beira do rio. não é. Não concorda comigo? – Eu já disse a V. O enjeitado era uma menina de que tomaram conta os fidalgos.. Deu muito que pensar e que suspeitar tal coincidência. vigário nunca ouviu dizer duma criança que apareceu por aqui num berço ao de cima da corrente? – Foi muito perto daqui. depois. mas. Essa criança recordo-me eu muito bem que apareceu na mesma noite em que a Josefa da Laje se afogou. Acudia a todas as desgraças com mais liberalidade que prudência.. santo homem que eu conheci. Eu não sei com quem tenho a honra de falar. O Bragadas é hoje caseiro da mesma enjeitada que ele achou! – Como?! – exclamou António de Queirós. reitor que Maria Moisés está pobre agora? – Pobre de todo não direi. E o que eu não sei para mim é apenas possível. talvez cem passos. A pouco podiam montar. Os cabralistas querem dinheiro. Os rendimentos da quinta são escassos e talvez mal pagos pelo caseiro a quem ela não pede contas. por ter sido achada no rio como o santo legislador dos hebreus. – Tem razão de se espantar. os patuleias querem dinheiro. onde o rio faz uma enseada. Esta terra. Quando chegaram às poldras. deixou-lhe a quinta de Santa Eulália.. – Sim. porque foi ele quem a salvou. Depois. senhor. – Parece – atalhou o general – que são muitas as probabilidades a confirmar a hipótese de que essa enjeitada seja filha de Josefa. o que eu digo é .. A santa cegueira não a deixava prever os limites das suas medianas posses. – Trinta e sete. aos olhos do mundo. Deitaram-se muitas inculcas. sim. lhe deixou alguns mil cruzados com que ela custeou por bastantes anos as despesas de alimentação e educação de enjeitados e órfãos. e recolhe. Saiu um anjo a criatura de Deus. Ainda há dias vi no livro dos baptizados que ele fez já oitenta anos. ainda mal que teve sempre pecadoras das que cuidam esconder-se aos olhos de Deus. porque a suprema riqueza é a graça de Deus. uma das senhoras. Não pede nada. e quem não for uma das três cousas há-de pagar para todos os três partidos. Eu acompanho-o até lá. É uma bonita propriedade. e nasceu nesta freguesia. reitor? Nunca a vi. ensina e dá modo de vida a quantos órfãos e enjeitados a mão da desgraça lhe leva ao seu regaço. chamam-lhe a mãe dos pobres. mas necessitada de recursos para continuar a sua santa dedicação aos infelizes. com certeza está. – O homem que encontrou a criança já é falecido? – Nada. mas ouço dizer que tem no rosto a formosura da alma. mas eu reprovei que se fizessem juízos temerários. ou aceita as que ele quer dar--lhe. porque eu sei que ela deve mais de três mil cruzados a várias confrarias.. por medo das revoluções que são umas atrás das outras. salta-se ao campo da direita. e muito mais de mortos que não podem justificar-se.– Sim. Mas há aqui um caso que parece conto de romance. – Conhece-a. Afinal o dinheiro acabou-se. mas a verdade é esta. chama-se o Bragadas.. meu senhor. por esta viela. lá ao fundo. sr... andando já perto dos quarenta. quando podem aparecer.

e o padre Bento.ª Ex. – É verdade. – A certeza? A certeza? Veja o que me diz. Fiquei eu sabendo um segredo que nunca revelei.ª não estava na América? – Estive: há oito dias que cheguei. Deus me perdoará. nos períodos de lucidez. O senhor Queirós denunciou ao vigário da Santa Marinha a gravidez de Josefa. mas. contou-me o que fizera. antes de sentar praça. Esta mulher tinha intermitências de loucura. coberta de lágrimas. Miguel I a ver se Portugal se endireita de vez. e passara temporadas de que não lhe restava a menor lembrança. e. porque. onde vivia com seus irmãos a mãe de Josefa. me disse que sua filha. de súbito. e o director da caridade de minha filha! * . O general ouvira apenas a toada confusa das fortes razões por que o inofensivo reitor de Santo Aleixo queria o sr.ª estudava para crúzio. D.. – Com quem eu tenho falado!. indo ao quarto da filha depois que a vira morta. lembrando-me do aparecimento de Maria Moisés. reveste o semblante duma gravidade misteriosa. vigário! – exclamou o general apertando-lhe as duas mãos nas suas com arrebatada alegria. e diz como em segredo: – Agora é que eu compreendo as suas lágrimas de há pouco.. fugira para casa dos irmãos. mas com o inverosímil e desatado das felicidades sonhadas. – Bento Fernandes. e depois a prisão. Estava a moribunda então no perfeito uso das suas faculdades. pensando que me dava o exemplo de um bom feito. sr. na tarde do dia em que morrera. posto que.. – Folgo de o ver assim excitado por um sentimento que me demonstra que tem sido infeliz e nunca esqueceu a desgraçada Josefa.. – Santo Deus! – exclamou o reitor. Perguntei-lhe se era menino ou menina. Abraçou o padre. não o achara. nas vinte e quatro horas que precederam a sua morte.. – disse o vigário. Veja se se lembra do Bento Fernandes. – Que V. e quando voltara a si. se divulgou por boca do cirurgião e de uma caseira da casa da Temporã. respondeu que. sentia na sua ânsia a alegria desconexa de um sonho feliz. quando fugiu de casa. falecida Josefa. como que o afligia o sobressalto da esperança.ª. quando V. O general estreitou ao peito o padre Bento. fui eu mandado paroquiar na freguesia de Santa Maria de Covas de Barroso. ora pro nobis. – Eu sou António de Queirós e Meneses. e. D. em 1817. passava mais amargurada porque chorava sempre pela filha. e exclamou com a alegria de uma criança: – Havemos de ter uma velhice muito feliz.. – O vigário denunciou a seu pai o bom intento de V. e ainda fomos condiscípulos alguns meses de 1809 em latim na aula do padre mestre Simão no Vale de Aguiar. tenha a certeza que é. Em 1818 fui chamado para ouvi-la de confissão. onde não sabia como viveu muitos meses. mas que tinha a certeza que ela. caíra como morta. seria absurda a observância de um preceito que envolveria um segredo prejudicial à sua felicidade à de sua filha. O vigário. achara no sobrado uns embrulhos que estavam dentro de um berço de vime. – Eu conheci-o em rapaz. da casa de Cimo-de-Vila. Respondeu-me que não sabia. vai ser o meu capelão.ª e outros patuscos chamavam Beatus Benedictus.ª Ex. mas. V. mas. – repetiu o general. em frente do quarto onde viveu e foi amortalhada Josefa. Daí resultou a sua ida para a capital.ª procura sua filha? Suspeita que Maria Moisés seja a sua filha? É. apenas dera pela falta do berço. Miguel. se eu nesta hora transgredir o sigilo da confissão. E o bom velho casquinhava a rir.ª Ex. sr.ª Ex. Queirós! Olhe que somos ambos da mesma criação. Eu hei-de viver muitos anos.ª Ex. quando lhe pediu que o casasse clandestinamente. procurando o berço. Para mim era ainda duvidoso se Josefa já era mãe quando acaso se afogou ou determinadamente se matou. Era febril o desassossego de António de Queirós. beijou-lhe as cãs.que Deus traga o sr. Para mim – concluiu o vigário – está provado que Maria Moisés é filha de Josefa.. o meu condiscípulo. – Mas eu não sei com quem tenho a honra de falar. mas. da Póvoa. V. neste caso. levava uma criança.. Perguntei-lhe se não ouvira dizer que nessa mesma noite fora encontrada uma menina no rio dentro de um berço de vime. dera à luz uma criança. e convidou-o a passar um dia o Tâmega para ir a sua casa...

e sentara-se. que desmaia a epiderme compensando-a nas graças mórbidas da beleza aristocrática. com grande tristeza. Ergueram-se todos. e disse entre si: «Querem ver que temos penhora na quinta?» E. . – Não quero saber disso. Não conheço a sua pessoa. para os ver quando subiam por entre a álea de faias e olmos. disse a um neto: – Vai ver quem é. e do ar puro das serras. o sr. como quer que fosse. Teremos mais algum enjeitado? Estou a ver quando começa o desaforo de os trazerem mesmo de dia! Aberta a porta. Pouco depois que entraram à sala. refeita. para encher o vácuo do silêncio que se fez. – Eu não dou a quinta por menos de dez mil cruzados. coragem! – alentou o desembargador. perguntou a D. Queirós. – Vai dizer isso à senhora.. entraram os três sujeitos. – Para o servir. desejava comprar a quinta de Santa Eulália. livres para a vendedora – resmoneou o ancião. Maria era alta. Quantas vezes nós conversámos no rio! Eu andava com as redes.-lhe um gesto de silêncio. general Queirós de Meneses. em frente da quinta de Santa Eulália. Mas. ali como aquele meu neto. Velho sou eu que já tenho dois carros e mais um (8). subindo as escadas. esta senhora dispensa procurador – observou o tabelião. general Queirós. menos rica do colorido da saúde e das insolações tépidas. – Dez mil cruzados! – disse o tabelião espantado. entreviu a mãe. – É o sr. acompanhado do desembargador Fernando Gonçalves Penha e dum tabelião do julgado. levantando-se encostado a um forte tanchão de sobro. era Josefa de Santo Aleixo. e em dez estios o ar latrinário dos Passeios de Lisboa. – Visto que aqui está a dona. Então – perguntou ela ao general com hesitação e visível mágoa – V. rapaz – mandou Bragadas.. apareceu Maria Moisés. – Então.ª não é velho. António de Queirós e Meneses. – Vossemecê é o sr. perguntou: – Querem alguma coisa? – É este cavalheiro que quer comprar esta quinta – disse o tabelião. Não pudera. amparava-se no braço de Gonçalves Penha. Francisco Bragadas. – Preciso ver os títulos – disse o funcionário. colhido de sobressalto quando esperava a filha sem presunção antecipada da sua figura. e dizia.. as hipotecas é isto. O desembargador. As batalhas do coração são as piores. – Nas hipotecas está avaliada em seis. disse que o seu amigo.-lhe ao ouvido: – Nunca me senti neste abatimento nos combates do Recife e do Lima. Maria: – Aceitando eu a quinta pela quantia que se pede. recozendo os seus oitenta anos.. Esta impressão para mim vem tarde. da casa de Cimo-de-Vila. – O meu caseiro diz a verdade – confirmou Maria Moisés com tristeza e irresolução. depois de respirar em dez invernos o ar do teatro de S. S. Ex. – Ah! Bem me lembro dele quando era moço. quando ouviu tilintar a sineta. mas de uma beleza mais senhoril. chegou o rapaz que levara o recado. – Vou buscá-los. Francisco. e uma vida longa de domesticidade. passaram o Tâmega. mas o general apenas fez um gesto. que estava na eira. de barriga ao sol. Tinham passado por ela alguns anos de convento. O tabelião ia replicar com a coarctada das hipotecas.ª quer ocupar a quinta imediatamente? – Não é forçoso isso. quando o general. loura e bela como Josefa de Santo Aleixo.. e mais V. Está muito acabado. Depois. Tiraram pela sineta do portão com força. dizendo que a senhora mandava subir para a sala. – São dez mil cruzados – repetiu Francisco Bragadas que já estava encostado à ombreira da porta. – É porque eu tenho uma numerosa família de crianças que por aqui se criaram e estão educando. e ele pescava à cana na Ínsua. era o retrato de sua mãe. Francisco Bragadas? – perguntou o general. são dez mil cruzados. E aí está a razão por que o general. e acrescentou: – A quinta não se dá menos de dez mil cruzados. balbuciando palavras que não se perceberam.Ao outro dia. fazendo. tabelião para lavrar a escritura. pôs a mão na testa contra o sol. Quero comprá-la simplesmente. poderei hoje fechar este contrato? Já trouxe comigo o sr. Carlos.. Neste comenos. favorecido pela palheta de artista caprichoso que desadorasse as fortes e vivas cores das formosuras do campo.

indo cumprir as ordens de má vontade.. encostava-se às muletas. – Não é urgente.. e poderei com o restante amparar alguns anos mais estes pobrezinhos. – Oh! Que ingranzéu eles aí vão fazer! – tornou o Bragadas. Joaquina. e agora sou obrigada a vendê-la porque os juros são grandes e mais tarde ou mais cedo as confrarias hão-de tomar conta disto tudo. – Que eu ainda conservo – disse ela sorrindo – porque é a herança de meus pais. minha senhora – respondeu ele com a voz tremente das lágrimas. – É muito bem tecido – explicou ela. – Devo a vida a este homem. tem muita habilidade. general! – acudiu Maria alegremente. – Este aleijadinho é o que ensina os outros a ler. e as meninas de riscadinho azul. – Já não sou sua ama. Vendendo eu a quinta por 10. – Talvez – observou ela – mas quem sabe? Pode ser que nem ela me visse. Os rapazes vestiam uniforme de cotim escuro.ª há-de ter caseiro nesta quinta. Neste instante. diga à sua Joaquina que mande cá os pequenos. Fui enjeitada. enquanto eu vou dar uma vista de olhos por estas janelas – e encostando-se ao desembargador. e entrara muito contente. e ajuda-me muito – disse Maria. sr. Custa a crer que minha mãe. com uma alegria de idiota. e tenho querido dar aos infelizes que não têm mãe nem pai o bem que recebi dos meus benfeitores. O general parecia examiná-lo atentamente. – Ó tio Bragadas.... – Parece incrível que o naviozinho não fosse a pique! – disse o desembargador. – Parece-me que está com saudades da sua quinta. – Sim. minha senhora.. – Num berço de vime – ajuntou António de Queirós. Empenhei a quinta... está bom – atalhou Bragadas. * . segredou-lhe: – Preciso ar. e acrescentou: – Eu vou agora buscar os títulos. – Vai buscá-lo. – disse o general – você é meu caseiro e há-de dar.. pelo menos.. com suas próprias mãos. senhor. e retirou-se às recuadas para a frente do grupo.. – Se V. tio Francisco.– Desejo vê-las – disse o general com os olhos cheios de lágrimas.000 cruzados. pago cinco e tanto que devo. – Minha senhora. – Eu já fiz experiências no Tâmega com os meus enjeitados. Os títulos depois – disse o general. Se VV.. peço-lhe que conserve aquele velhinho. Ex. – Olhe. Maria Moisés sorria--se ao reparo do fidalgo. – Pois não. Foi ele quem. – Está bom. tabelião lavra a escritura. Ex. – acrescentou o general. Chegara o berço. e não foram ao fundo pondo-os eu à flor da água dentro do meu berço. ou pelo menos aqui vi a luz e o amor de uma madrinha que me criou e me deixou esta propriedade por esmola.. – A canalha toda? – perguntou o velho. limpando as lágrimas com a manga da jaqueta. porque eu nada tinha. Maria – disse António de Queirós.. senhora D. o que eu queria era ficar perto da minha ama – disse o velho. – Foi ele quem a encontrou no rio. general – disse Maria Moisés. que sacudia a cabeça porque o importunavam os soluços.-se bem comigo.. que tem muitos filhos e netos. – Chegue-se cá. O mais velho tinha onze anos. – Esteve este berço nas mãos de sua mãe. e dizia: – Está já muito velho o meu berço.. – Pode-se dizer que nasci aqui. – Sr. – O sr. esteja certo disso. quando olho para ele é que eu conheço que já tenho muitos anos. me entregasse à corrente de um rio. entrou um rancho de treze meninos e meninas. e era aleijado. sor Bragadas. saltando na única perna. Cumprimentou os circunstantes com desempeno de grande sociedade. Infelizmente os recursos não me chegaram. – É verdade. – disse António de Queirós. mas sou sempre a sua amiguinha – e abraçou o ancião. é possível que minha mãe tivesse aquela canastrinha na mão.as querem vêlo? – Estimava – disse o general.

Novelas do Minho O Conto da Infeliz Desgraçada A D. e os velhos. Enviuvou e ficou-lhe uma filha. trementes e extáticos. pondo as mãos convulsas. tomando as mãos de Maria. e todos os dias ia à missa a fazer as suas orações. com o colorido gótico dos românticos.. mas que há-de ser com um homem que tenha dentes de marfim. Era A A tua uma minh‘alma por Maria vez por mim Calheiros um ti não Veiga rei. Mas um dia a princesa estava muito apaixonada. morre. sr. Maria? – Eu! Jesus! Eu sua filha! – exclamou ela. Maria caiu de joelhos. que eu já estou cos pés prà cova. imagina este quadro e descreve-o. prosseguiu: – Se eu morrer debaixo da luz dos teus olhos. pendente dos braços do pai. não pelos meus merecimentos. com o teu coração. e nas literaturas é o podre. mas pelas virtudes de minha filha. e as crianças ajoelharam também. e então quero-te deixar amparada quando morrer! A princesa não pendia a casar e vivia com algum desgosto. Deus me chamará a si. se tens nele uma lágrima. – À sua ama. e esse quero eu que me assista na morte. sei. Nos literatos o que predomina é o verde. O desembargador Gonçalves Penha contou dez mil cruzados em soberanos sobre a mesa onde o tabelião escrevera. A passar tempos de casado. os quadros comoventes que rutilam na alma a faísca do entusiasmo. – Um anjo só me basta na vida. que eu não posso. – Aqui está a quantia estipulada – disse Queirós.Estava lavrada a escritura. Ela disse-lhe que sim. – E. e foi esse que casou com a princesa. impeça o rei a dizer prá filha: – Filha. Vieram muitos homens com dentes de marfim. da idade de quinze anos. porque o último feitio das novelas é não pintar. temos que ir à minha terra. para ver se havia algum homem com dentes de marfim – e que se o houvesse que lhe dava a filha. e tratou logo de se aprontar para ir com o marido. – Mil anjos o acompanhem na vida e na morte. Pedirás então a Deus por teu pai. conhecia-se logo que eram postiços. e o pai mandou logo deitar bando pelas outras nações. Tomás Ribeiro. mas afinal sempre apareceu um que os tinha de raiz.. general! – exclamou Maria. Camilo Castelo Branco. sob a faísca eléctrica daquele sublime lance. – Mil anjos são muitos – disse ele. e que se os não tiver que não casas! A filha assim o disse ao pai. a ver a minha família. a lembrar-se das fezes que lhe dava o pai por amor de a casar. nem quero. Agora somente se pintam as gangrenas com as cores roxas das chagas. A passar já de algum tempo. Francisco Bragadas a pagá-la à mãe carinhosa dos enjeitados. ouviu uma voz que dizia assim: . – A renda desta quinta continua o sr. quando ele a beijava na fronte.. – À minha ama?! – bradou o ancião. casa-te! Casa-te. mas quando se iam a examinar. quando ouviu uma voz que dizia assim: – Isabel! Diz a teu pai que te casas. Vindo Isabel a descer as escadas. e com as cores verdes das podridões modernas. diz-lhe o marido: – Isabel. se podes..

– Isabel! Diz ela: – Valha-me Deus! Quem me chama parece mesmo que está na estrebaria! Foi ela e assomou-se à porta da estrebaria, e estava lá dentro um cavalo cardano de clinas pretas, e diz-lhe o cavalo: – Isabel! Diz a teu pai que já lhe fizeste o gosto de te casares, também ele te há-de fazer o gosto de te deixar levar o cavalo cardano das clinas pretas – porque se me não levas estás perdida! Ela foi, e disse ao rei: – Meu pai, fiz-lhe o gosto de me casar; agora também me há-de fazer o gosto de me deixar levar o cavalo cardano das clinas pretas. O pai disse-lhe logo: – Pois sim, filha, leva-o. Ela tratou logo de mandar arrear o cavalo, e montou-se nele e o marido noutro, e lá foram. Já com duzentos dias de jornada, e mais sete, e eles que não chegavam à terra! Mas vai um dia, caminhavam os dois por umas serras, que eram umas montanhas tão fragosas que se não via senão céu e mato, olha a princesa para trás e não avista o marido! Diz ela! – Valha-me Deus! Que é isto?! Desapareceu-me o meu marido da vista dos olhos! Diz-lhe o cavalo: – Isabel! Volta para trás! A princesa voltou logo com o seu cavalo, e o cavalo largou dali a quanto podia! Onde parou ao pé dum monte, e diz-lhe o cavalo: – Isabel! Apeia-te! Sobe àquele monte, e entra na casa que lá encontrares – mas não olhes para lado nenhum. O que lá vires apanha! Ela foi, coitadinha, sempre muito assustada, e quando entrou na casa inda teve mais medo; mas reparando para trás da porta viu dois canudos, e um papel que estava enrolado, e apanhou tudo e retirou-se logo. Chegou ao pé do cavalo, e diz-lhe o cavalo: – Anda que sempre olhaste... Ela montou, e toca a fugir! Quando lhe a ela pareceu, olhou para trás. – Ai que desgraça, que aí vem o meu homem! Diz-lhe o cavalo: – Atira com esse papel! Ela foi e atirou com o papel. E logo ali se armou um nevoeiro, mas um nevoeiro que era tão cerrado, que o marido se atrasou no caminho, e não a alcançou. Mas quando depois passou a névoa, e já se via, o marido que larga outra vez atrás da princesa, a ver se a podia agarrar. Mas ela que o vê lá atrás, e grita logo: – Ai que desgraça, que aí vem o meu homem! Diz-lhe o cavalo: – Atira com um desses canudos! O canudo estava cheio de agulhas. Tancharam-se todas logo no chão, e armou-se um rochedo tão grande que o marido não podia passar. Arrodeou muito o pobre do homem, que não teve outro remédio; e quando se viu para além do rochedo, que largou outra vez atrás da mulher, ela ao vê-lo e a gritar logo: – Ai que desgraça, que aí vem o meu homem! Diz-lhe o cavalo: – Atira com o outro canudo! O canudo estava cheio de água. Armou-se num rio muito grande, que o marido não pôde passar – e o remédio foi voltar para trás! Caminhou a princesa com o seu cavalo, sem saber pra onde, até que lhe diz o cavalo: – Isabel! Vai além àquela casa, e que te vendam um fato de homem, ou que to troquem pelo teu se to não venderem. Ela foi; e pediu aos da casa o favor e esmola de lhe venderem um fato de homem, e que se lho não vendiam que lho trocassem. Tiveram dó dela os de casa, e deram-lho. E ela veio ao pé do cavalo e disse: – Cá está o fato! O cavalo: – Veste-te agora em trajo de homem, e despreza o que trazes vestido.

Ela vestiu-se em trajo de homem, e montou a cavalo; e foram ter a uma terra que não conheciam, porque já não era o reino dela, mas onde havia também um rei. E passando por aquela corte, a fazer uma grande gala no seu cavalo porque não havia outro que fosse mais lindo, todo o mundo lhe mirava o cavalo. E foram dizer ao rei que passava ali um cavalo muito bonito – e logo o rei se prantou à espera de o ver passar. O cavalo disse à princesa: – Isabel! Olha que o rei está à espera de me ver passar. Ele há-de-te chamar, e dizer-te se me queres vender – mas tu não me vendas, senão olha que estás perdida! Quando passou pela rua, que o rei o viu, mandou-o chamar e disse-lhe assim: – Ó rapaz! De quem é esse cavalo? – O cavalo é meu! – Hás-de-mo vender. – Não vendo, não senhor. E retirou-se logo – e mais cavaco não deu ao rei. Depois disse-lhe o cavalo: – Isabel! Olha que o rei inda te manda chamar, e há-de ateimar contigo para que me vendas; e logo que tu não queres, há-de-te concertar para o seu jardim, por fazer gosto em me lá ter em palácio. E tu concerta-te, mas olha não te esqueças de mim! Como assim foi: o rei mandou-o chamar e disse-lhe assim: – Ó rapaz! Então tu não me vendes o cavalo? – Não vendo, não senhor! – Então concerta-te comigo cá prò jardim. – Pois sim me concerto! O rapaz concertou-se, e pergunta-lhe o rei: – Tu como te chamas? – Eu chamo-me José. O rei mandou-o para o jardim. Mas, como solteiro, Sua Majestade ia todos os dias ver as flores, e começou a olhar muito para o rapaz e a dizer consigo: – Não parecem olhos de homem... Parecem olhos de mulher... Ela indo tratar do seu cavalo, diz-lhe o cavalo: – Isabel! Olha que o rei anda desconfiado que tu és mulher, e vê lá agora se lhe dás cavaco... O rei já ia ao jardim a todas as horas, e começava a conversar com ele, mas ele não lhe dava cavaco. O rei sempre desconfiado, foi-se ter com uma feiticeira já muito velha, e disse-lhe assim: – Ó sua velha! Você há-de-me aqui dizer se o rapaz do meu jardim é homem, ou se é mulher. Respondeu a velha: – Sua Majestade convide-o para ir jantar ao palácio, e prante-lhe uma cadeira alta, e ao pé prantelhe outra baixa. Se se sentar na baixa, é mulher; e se escolher a mais alta então é homem. Ela indo tratar do seu cavalo, diz-lhe o cavalo: – Isabel! Olha que o rei manda-te convidar para ires jantar ao palácio. À mesa pranta-te duas cadeiras, para te experimentar se és homem ou mulher. Mas tu escolhe a mais alta. – E assim aconteceu. O José depois veio-se embora; mas o rei, sempre duvidoso, foi-se outra vez ter com a velha: – Você há-de-me dizer se o rapaz do meu jardim é homem ou mulher! Senão, morre. – O que quer Sua Majestade que lhe eu diga?! Como quer saber, convidei-o para ir dormir ao quarto de Sua Majestade, «porque tem medo de dormir só». Ela indo tratar do seu cavalo, diz-lhe o cavalo: – Isabel! Olha que o rei há-de-te convidar para ires dormir ao quarto dele, «que tem medo de dormir só»; e tu vais, que não tens mais remédio. O que ele quer saber é se és homem ou mulher, mas tu não te esqueças de mim! Como assim foi, disse-lhe o rei: – José! Tens que ir esta noite dormir ao meu quarto, porque tenho medo de dormir só. José disse: – Pois irei. Como foi, dormir ao quarto de Sua Majestade. Depois de ter o quarto bem fechado, diz-lhe o rei:

– José, eu desconfio que tu não és homem. Mas agora aqui é que mo hás-de dizer! Es homem ou és mulher? Responde! – Sim! Sou mulher! O rei mandou-a logo mudar de fato, mas ali passaram a noite. Sendo já muito de dia, e o quarto ainda fechado, foi a mãe do rei e bateu à porta. Ele veio abrir, e diz prà mãe: – Mãe! Não lhe dizia eu que os olhos do José que não eram de homem, mas de mulher?! A mãe ficou muito contente por ver que era uma cara linda, como princesa que era – e o rei tratou logo de casar com ela. A passar algum tempo já de casados, veio uma embaixada ter com o rei para ir vencer uma batalha. O rei disse-lhe: – Isabel, tenho que te deixar. Vou para a batalha e levo o cavalo cardano. Fica tu em palácio com minha mãe, que nada te há-de faltar. O rei caminhou para a sua batalha; e a dias de lá estar, teve a mulher dois meninos que eram duas caras muito bonitas; e foi a mãe e escreveu-lhe uma carta mandando-lhe dizer: – «Filho, cá teve tua mulher dois meninos que são as caras mais lindas que têm aparecido!» E a carta foi remetida por um soldado, e o soldado caminhou um dia todo, e foi-lhe anoitecer perto de uma casa onde pediu pousada por uma noite. Disseram-lhe que sim, que entrasse. O soldado entrou e sentou-se, e não viu mais que foi um homem naquela casa. Ali conversaram um bocado ambos-e-dois; e perguntando ao soldado que caminho levava, disse-lhe ele que ia levar uma carta ao rei que andava em batalha. Depois preparou a cama para o soldado, e o soldado deitou-se e deixou-se dormir. Ele assim que apanha o soldado a dormir, deu-lhe volta à mochila, e tirou-lhe a carta e esteve lendo. Depois começou a escrever outra em vez daquela, dizendo: – «Filho, cá teve tua mulher dois bichos, que não há quem possa parar em palácio, e então vê o que determinas dela.» Fechou a carta e meteu-a na mochila e o soldado não deu notícia. Assim que amanheceu, o soldado levantou-se e foi-se embora. Chegou ao sítio onde era a batalha, e entregou ao rei a carta que levava. O rei abriu a carta e esteve lendo, e assim que leu começou a chorar. Ele queria muito à sua mulher; e assim escreveu logo a mandar dizer: – «Mãe, deixe estar minha mulher em palácio até eu ir.» Remeteu a carta pelo dito soldado, que foi dar à mesma pousada; onde lá encontrou o companheiro que lhe fizera a cama, e ali dormiu também essa noite. O soldado pegou no sono mal se deitou; e ele mal viu o soldado pegado no sono, dá-lhe logo volta à mochila, e tirou-lhe a carta, e depois de a ler queimou-a, e escreveu outra a mandar dizer: – «Mãe, logo que esta receba ponha minha mulher fora do palácio, que a não quero encontrar quando daqui for.» E meteu a carta na mochila do soldado, e o soldado não deu notícia. No outro dia caminhou o soldado para o palácio; e assim que chegou, entregou a carta à mãe do rei. Ela abriu a carta, e viu o que vinha dizendo. E disse: – Jesus! Isto que é?! O meu filho endoideceu! Assim começou a andar muito triste, e um dia diz-lhe a princesa: – Ó minha mãe! O que tem que anda tão triste?! – Nada! Não tenho nada! O teu homem que endoideceu! Manda-te prantar fora do palácio – «que te não quer encontrar quando voltar». Ela, coitadinha, disse: – Ai que sorte tão desgraçada! que só vim ao mundo prà desgraça! Logo que o meu homem me manda prantar fora do palácio, então vou-me já embora! Muito chorava a mãe; mais chorava ela por se ver assim; – e pegou nos seus dois meninos, um em cada braço, e caminhou pelos campos sem saber para onde, e disse: – Seja o que Deus quiser, que eu vou caminhando sem destino, que não sei onde irei parar! O rei continuava em batalha, mas muito apaixonado por ter recebido uma tão ruim nova. Não bastava só isso, senão deixar fugir o cavalo cardano! Eram duas paixões que o matavam! Mas deixemos o rei, e vamos à infeliz desgraçada, que se viu sozinha numa montanha, com os seus

dois meninos. Vai a olhar, e viu vir o cavalo cardano, que vinha a quanto podia; e depois olha e vê também o seu marido primeiro, que vinha para a matar! O cavalo chegou ao pé e diz-lhe: – Isabel! Ai o teu homem primeiro que te quer matar! Mas não te mata, que eu brigo mais ele, e ele mata-me a mim e eu mato-o a ele, e tu em me vendo morto mete-me a mão dentro da boca, e tira o que lá achares e segura-o no chão! O cavalo cardano brigou mais o dito indivíduo, e por fim caiu cada um para seu lado, ambos mortos. E ela assim que viu morto o seu lindo cavalo, meteu-lhe a mão dentro da boca, e apanhou-lhe a língua e a firmou no chão. Formou-se-lhe uma torre, e ela dentro mais os seus meninos; e tinha tudo quanto lhe fazia falta. O rei que chega da batalha, e pergunta à mãe novas da mulher. A mãe responde: – Ingrato! que a mandaste deitar fora do palácio, e agora perguntas por ela! Ele disse: – Não há tal! Para onde foi a minha mulher?! Quero ir em busca da minha mulher! E correu logo a correr, e perguntando se alguém lhe dava notícia de uma infeliz desgraçada. Soube por notícia o pai da princesa que a filha andava desgraçada, e tratou também de a procurar, a ver onde a iria topar. Como andavam de terra em terra, encontraram-se os dois numa pousada, o pai e o marido, à procura ambos da mesma pessoa; mas não se conhecendo um ao outro, e dizendo um que andava em pergunta de uma infeliz, dizia o outro que procurava também uma desgraçada! Ali se fizeram os dois muito conhecidos, e trataram de marchar caminhando juntos um dia todo, até que lhes anoiteceu. Não encontrando quem procuravam, onde se haviam de eles agasalhar? Vendo brilhar uma luz, dirigiram-se logo direitos a ela, e viram que era de uma torre; mas pondose ambos de roda dela, à pergunta da porta, foi coisa que não encontraram! Ele ouvindo falar em baixo, assomou-se à janela; e observando e conhecendo quem era, deitou uma escada de corda para subirem, porque a torre não tinha porta. Eles subiram; mas não se conhecendo um ao outro e ela conhecendo-os a ambos, obsequiou-os muito, e prantou a mesa para comerem todos – e avisou em segredo os seus meninos: – Vocês em acabando de comer hão-de rezar, e depois tomar a bênção àquele homem mais moço primeiro, e depois também àquele mais velho. Os meninos isso fizeram. Mas o rei moço admirou-se muito e diz assim: – Oh! Uns meninos tão bem-educados, e não têm preceito de pedir primeiro a bênção ao mais velho?! Vieram-na pedir primeiro ao homem mais moço?! Diz-lhe a mãe: – Os meus meninos têm muito preceito, que o preceito é tomar a bênção primeiro ao pai e depois à mãe e depois ao avô. Foi quando eles se conheceram, e se abraçaram todos com muito choro! E como então já se conheceram, determinaram logo ir-se dali embora – e a torre desapareceu. Trindade Coelho, Os meus amores

História da Gata Borralheira Durante alguns parágrafos o narrador alonga-se na DESCRIÇÃO do tempo, do espaço, do ambiente em que decorre a acção, utilizando alguns recursos expressivos. Destaca alguns exemplos. DESCRIÇÃO A A O DE: ambiente noite casa da festa

Sophia de Mello Breyner: Histórias da Terra e do Mar História da Gata Borralheira Parte I UTILIZADOS: 1. da analepse. Qual é a prova definitiva da verdadeira identidade 5. 6. personagem? analepse. 7. -espaço.2. Indica a passagem do texto que melhor ilustra a afirmação acima apresentada. Já no interior.1. O quê? 6. na tua opinião. que personagens se podem associar à Gata Borralheira e à fada do conto tradicional? 2.2. Indica o nome dos três objectos que. 6. 8. Que efeito provocou Lúcia quando entrou na sala? 4. A A dado momento Identifica as expressões que Que ficamos nós Explica então Lúcia O Como Lúcia O A mira-se no que lhe classificou a narração marcam o início e a saber sobre a função grande pareceu rapariga a a espelho a loira o é fim a da da sua o interrompida. 6. o rapaz? enquanto dançava? identidade. de Lúcia? para: . 8. -tempo.2.2.1.RECURSOS EXPRESSIVOS Adjectivo Verbo Comparação Personificação Publicada por Helena em 6:43 Etiquetas: Fichas. O que vê ela no 4. Lúcia volta a mirar-se no espelho atrás da porta como há 4. 2. Lúcia foi praticamente ignorada pelas amigas da dona da casa. 7. 9. 3. Que explicação encontram as pessoas vinte anos.3. 8. No texto de Sophia de Mello Breyner Andresen. a acção no: 4. 4. 8. 7. imagem? espelho? a acaba por despertar Que pressentimento que aconteceu à protagonista nega toma uma decisão atenção tem heroína sua altera de um rapaz.1. espelho? espelho. Qual? personagem que Parte II 1. Como? a sua vida. 5.1. Refere-te à simbologia do 4. são fundamentais para a compreensão do conto em estudo. entrada. Que significado tem o facto de o segundo baile ocorrer no mesmo dia do primeiro e na mesma casa? 3. Resume o que aconteceu à personagem nos vinte anos seguintes. Localiza.3.1. agora.3. Lúcia começa a aperceber-se de que algo a distingue das outras raparigas.

espelhos. Ilustra a tua resposta a 4. Recursos expressivos: 1. Lê. irmãos. dançar.5. às amigas. Sophia de Mello Breyner: Histórias da Terra e do Mar História da Gata Borralheira Verificação de leitura do conto "História da Gata Borralheira" de Sophia de Mello B. espaços. Verbo. de os Lúcia Lúcia filha Lúcia apresentou convidou . 2.2. in Histórias da Terra e do Mar. 1. Andresen. retirando do primeiro parágrafo do texto as palavras ou expressões que apontam para a personificação da noite. 5.2. agora.3. A passagem da descrição à narração é também perceptível na mudança dos tempos verbais. 5. 6. Indica o tempo verbal predominante na: -descrição.1. 3. 5. Verbo + Advérbio expressão 2. Comparação. 2. 2. 1992 Lê atentamente o conto "História da Gata Borralheira" de Sophia de Mello B. as afirmações aqui inscritas e coloca à frente das mesmas a resposta " Verdadeiro" ou "Falso" consoante o que leste no conto. -narração. Texto Editora. Partes I e II 1. com exemplos do texto.1. e antiga. ____ ____ ____ ____ ____ ____ grande. Andresen. A O Do Baile jardim ocorreu via-se era foi da ficou ao dona só. -na -nos -nas -na A O O morte desaparecimento aparecimento de do do sapato Lúcia? de sapato Lúcia? roto? Procura indícios reflexos falas do coincidência do desfecho trágico descrição de Lúcia nos rapaz e da rapariga loira de datas e de do conto: inicial. Publicada por Helena em 6:39 Etiquetas: Fichas. Atribui um título a cada uma das partes. a uma baile da casa ninguém numa casa. (parte I). anos.1. jovem com não a noite de cor-de-rosa dezasseis pais e Lúcia para Agosto. Adjectivo. 2. Completa o esquema abaixo. 4.

____ ____ Lúcia esfarrapado direito. Publicada por Helena em 6:34 Etiquetas: Fichas. bonito. 9. 14. a ouro. A meio da noite ela voltou à sala onde se escondera há anos atrás. 20. Lúcia. 13. Lúcia E alto meio Lúcia com da decidiu um 15 Lúcia sapatos casou passaram muito anos. 15. O Lúcia Lúcia Lúcia Um Lúcia Com Depois vestido achou sempre de o Lúcia seu sonhara no e no era vestido ir sótão moreno de seda muito azul. rotos. ____ 19. 11. 10. Ao clarear tinha do dia. baile. rico. 17. caiu. 16. ____ ____ ____ ____ ____ ____ ____ ____ a uns sorriu sala ir homem um sapatos para quando viver encontrou rapaz dançava vergonha. um encontraram sapato Lúcia desmaiada no pé no chão. Sophia de Mello Breyner: Histórias da Terra e do Mar História da Gata Borralheira .7. 12. 8. recebe um Numa Lúcia manhã mandou de fazer Maio uns ____ ____ bordados 18. ____ convite. só.

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o abismo atrai o abismo: asneira pura asneira. faz sentir a sua presença. O título «Abyssus Abyssum» é uma simplificação da locução latina abayssus obyssum Invocat cujo significado fomos procurar no dicionário: abyssus abvssum invocat (lat. fig. então. pois uma narrativa pode ter mais de um tema} é a ideia principal que dá vida ao texto e na base da qual actuam as personagens. O tema (ou os temas. 4. isto é.2. por exemplo. um erro. 3.1 Considerando o seu significado. uma falta leva muitas vezes a cometer outro erro. etc. o narrador deste conto está ausente. Retira exemplos da primeira parte do conto. parece-te bem escolhido este título? Justifica a tua resposta. Após a leitura feita. o enredo de «Abyssus Abyssum». 3. Pode ser o amor. apreendeste. a ambição.). quando se dirige directamente aos leitores. a liberdade. nas suas linhas gerais. resumir a sua história 2. Qual te parece ser o tema predominante deste conto? 3. No entanto. . Como verificaste. outra falta. Procura.30/NOV/2008 Abyssus Abyssum Leitura Orientada 1. a amizade. uma desgraça nunca vem só. limita-se a narrar os acontecimentos sem neles participar. Sugere um novo título para o conto.

Aponta marcas de oralidade nos diálogos. descrição. o desenlace.3.»? (último parágrafo) 9. O que te propomos é que a modifiques.3. quanto ao tempo de duração da acção? 6. interjeições. Ao longo da narrativa. Para tal. parece-te adequada a escolha de um círculo para esquematizar esta narrativa? 7. 8. prostrados da fadiga e das lágrimas. então. a(s) personagem(ns) secundária(s). O narrador utilizou diferentes modos de expressão.2. Faz o levantamento de pormenores descritivos em que são expressas sensações visuais e auditivas.1. os dois irmãos experimentam variados sentimentos.4. 6. Descobre características das personagens a par dos seus comportamentos.5.1. indica: a(s) personagem(ns) central(ais).. 8. 9.5. Tendo em conta o papel que desempenham. diálogo. Identifica as várias personagens da narrativa. Como sabes. A chegada a casa.2. Indica passos do texto correspondentes a: narração. suspende a narrativa no parágrafo «Até que por fim. Considerando a resposta anterior.A acção decorre num período de tempo limitado.3.. 8. imaginando um desfecho diferente para a aventura dos dois irmãos. no que respeita a: vocabulário.4. 7.1.1. O verbo doer é repetido várias vezes. Qual a função da estrela Vésper no desenrolar da acção? 8. 9. 8. Identifica recursos expressivos utilizados pelo narrador na descrição do espaço/tempo do segundo momento da acção. a que elementos do texto poderíamos recorrer para confirmar o tipo infantil destas personagens? 8. Esta narrativa apresenta-nos um desenlace trágico.3.6.. Que significa a frase «. de novo se deixaram adormecer. Aos diferentes momentos desta narrativa correspondem também espaços distintos. a estrela feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!. Que efeito se pretenderá obter com esta repetição? 9. Que concluis.2. 9. . Que momentos do dia representam os desenhos? 6. o desenvolvimento as peripécias o ponto culminante. Identifica os locais e as cores correspondentes a cada parte ou momento. Identifica-os. 8. 6. que esquematizámos deste modo: 6.4.. estrutura da frase.5. Classifica esta narrativa: aberta fechada 6.» e conclui-a com mais duas sequências narrativas.1. das suas falas ou da fala i narrador. Em qual destes tempos (momentos do dia) localizas a situação inicial? E o desenlace? Justifica as tuas respostas com expressões do texto. 10. numa narrativa há momentos determinantes no desenvolvimento da acção. Distingue neste conto: a situação inicial. era já alta noite. Se o narrador não nos dissesse que o António e Manuel eram crianças. que poderão ser O salvamento. pontuação. 9.

o rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos. mal abriam as janelas. mas então não os deixassem dormir naquele quarto! Logo de manhã. com todo o seu entono vibrante de ameaça. aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara. eles não tinham ido ao rio. Assim eles tivessem uma coisa boa! … Mas que tentação para ambos.Trindade Coelho: Os meus amores ABYSSUS ABYSSUM* *Abismo dos Abismos Nesse dia. um dia que lhe apareceram em casa tarde e às más horas. de cabeça para baixo. os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. muito chegados um ao outro. uma corrente muito lisa e esverdeada. Lá estava a ponte velha. cheios de susto. com a mão em gume sobre as suas cabecitas louras… Lembravam-se de haver tremido. a primeira coisa que viam era o rio. ameaçadora. serpeando entre os renques baixos dos salgueiros.Publicada por Helena em 11:52 Etiquetas: Fichas. E então. sim… — lá estavam as calças rotas do Manuel a dizê-lo — … aos pássaros é que eles tinham ido. Mãe Santíssima! Colérica. humildes sob aquela ameaça terminante. Ao rio era bom!. — Olhai se ouvistes! Se voltais ao rio. a mãe que o soubesse… Ah. nesse dia. e então o barquinho branco do fidalgo — lindo barquinho! — . Aos pássaros. — Ouvistes? — ralhara-lhes a mãe. mato-vos com pancada! Andai lá… Ih! Como ela dissera aquilo. de onde os rapazes se atiravam despidos.

sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse para passar à grande quinta que tinha na margem de lá. De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo da praia e deixá-lo ir então para onde ele quisesse, contanto que fosse sempre para diante… Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao barco. Era o seu «adeus até amanhã!» àquele pequeno objecto que valia tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo… Ah, tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada… — Mais nada? — Isso não… mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.

Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida — gente que passava para os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados, grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto se ouvia o retintim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do vinho. E àquela hora onde iria já a missa! A última beata, encapuchada e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, dava com valentia num carro cujo eixo ardera na véspera, e que era urgente compor, pelos modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a loja e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta diária, enfim; os senhores sabem. Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois pequenos. — Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos na cama! — E, enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas. — Persignar e vestir, vamos! Calças… colete… os jaquetões… tomem! E pôs-lhes tudo sobre a cama. — Mãe, a bênção! — balbuciaram os dois, tontos de sono ainda. — Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora, eu já volto! Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver! Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito, que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego morno da cama, onde se estava tão bem, onde os sonhos eram tão lindos!…

Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo, o achou encantador, todo resplandecente de verduras. — Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque será? O outro encolheu os ombros, não sabia; só se fosse por não haver nuvens… Pela janela aberta, avistava-se o trecho de paisagem que a luz viva da manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas. Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio, que nessa manhã deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu imaculado. — Ah!, ah!… — riu-se o Manuel, contemplando-o. — O rio! Que te parece?! Olha que é lindo, o rio! Ora é, ó António?! — É, lá isso… Mas tamém de que vale? — tornou-lhe com desalento o irmão. — A gente não pode lá ir… Olha se a mãe o soubesse, hã? — E, mirando por sua vez a paisagem, perguntou: — Já reparaste no barco, ó Manuel? — Tão bonito! Os dois riram. — Parece pintado de novo… E nem se mexe, repara! — Pudera!… — explicou o Manuel — … amarrado com uma corda… — E depois, radiante, gesticulando para o irmão: — Mas eu era capaz de o desamarrar… — Ai eras! — disse duvidoso o António, para o incitar.

Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era! Ambos dentro dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O barco! Era tão bom andar de barco! E aquele então era lindo, como não tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido — olhem lá não esquecessem! — aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do barquinho, ensinando-lhes como se remava. O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela. Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando. — Está um dia lindo, avia-te. — Olha «avia-te»! para quê? — perguntou o António, torcendo e retorcendo o pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama. O Manuel sorriu-se, triste. Era verdade… Aviarem-se para quê? A mãe não os deixava ir ao rio… E senão, que fossem! — «Mato-vos com pancada se desceis a ladeira.» — Já se vê que depois

disto… E os dois suspiravam, desgostosos. «Que pena serem pequenos!». Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo! Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de tentação! E para mais tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que apenas meio palmo acima do nível da água! — Tate, ó Manuel! E se nós fugíssemos? — Ora! Se fugíssemos!… E depois? A gente tínhamos de voltar… Ora aí está!, isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da mãe: «Se voltais ao rio…». Ai, ai, a triste sorte! Recaíram no silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o Sol que rompia ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na largura muito ampla da paisagem. — Mas palavra que o barco parece pintado de novo… — relembrou com alegria o Manuel. — Mas é que está, palavra que está! Agora é que havia de ser bom andar dentro dele!… Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no barquinho, assim pintado de novo. Diacho!, e porque não? Por isso, cobrando ânimo, o António disse resoluto: — Olha agora o medo! Seguro que nos mata! — E puxando-o pela jaqueta: — Vamos lá, ó Manuel!? O Manuel fez que não com a cabeça e espreitou se vinha a mãe. Como não vinha, disse baixo ao irmão: — À tardinha, hem? Dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela nossa falta, ali à tardi-nha. A gente finge que vai para o adro. Levam-se os piões… — Há-de ser mesmo assim!, à tardinha! — concordou o António. — Eh!, eh!, eu cá desatraco. — E eu remo — disse logo o Manuel com gesto de quem remava. — Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula — explicou. — Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se queres assim… — Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser! E recapitulando, para melhor ficarem combinados: — Ao pra baixo remo eu, ora remo? — Remas. — E tu regulas, ora regulas? — Regulo. — Ao pra cima é às avessas, ora é? — É. Muito bem, «basta palavra»! E ambos, ao mesmo tempo, um ao outro se impuseram segre-do… — Psiu!… — Psiu!… *** A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens alvejavam, imóveis. Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes franjavam-se de púrpura e ouro, na decoração mágica dos poentes. Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos, e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer a natureza para grande sono reparador de toda a noite. … E a tarde ia descendo, cada vez mais límpida. Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando, os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as coisas criem vulto e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as formas às coisas… Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas e um fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o tranquilo sono em que iam adormecer.

os dois irmãozitos silenciosos iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendas nas águas… Não!. dirse-ia que. independentes. iam abrindo fenda na água. Com licença do teu querer. mas havemos de passar-lhe adiante. os dois não desfitavam os olhos da estrela feiticeira que perseguiam. — Bem de ver! — volveu-lhe convencido o irmão. — Vês? — disse o Manuel. vejo: . que eu cá vou. imitando a palpitação crebra e irregular da luz sideral. esse é de ouro! — disse ainda o Manuel. — Remas. convencido da facilidade da empresa. bem se afoga… — E apontando-lhe um punho cerrado. onde as primeiras estrelas começavam de lampejar. só por isso… — Olha o milagre! Ela está queda! — fez o outro. — Depois. E esta feliz convicção de liberdade alcançada fazia-os agora orgulhosos. assim no meio do rio. antes queria as estrelas! Olha que rebanho! — Pois eu antes queria o Sol. viraram-me para as estrelas e disse então a mãe: Ar Lua Estrelas vejo. qual era? Em menos de meia hora era certo alcançá-la. exclamou: — Eh!. uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul. o barquinho branco deslizava mansamente sobre a água tranquila do rio. com certo ruído muito doce… E. António? — perguntava o do leme. — Olha que não! Aquilo é a fazer-nos negaças. Tão linda!… — Anda-me tu com o leme! — tornou-lhe com intimativa o Manuel. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes. engastada no azul-escuro do céu. — É que tem sono! — respondeu o outro a rir. Olha como brilha. sempre é mais grande! E enquanto falavam. incitando-os. livres de admoestações alheias. — Olha se a vês… — E apontava para Vésper. Pois está visto! Então o outro. Dentro daquele adorado barco. — De que são feitas as estrelas? — perguntou o mais novito. vejo. boieira! Neste momento. se me dessem à escolha. — Torna a apontar para elas… Eu cá não aponto. falta pouco. No céu alto e sereno cintilavam as estrelas em cardumes. poderiam ir para onde lhes parecesse. ó Manuel! — Diz a mãe! À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água para cima do corpo! E a água que havia de estar fria — observou encolhendo os ombros. a noite acentuava-se. criada. gritou a rir: — Eh.E a tal hora e no meio de tal silêncio. a estrela parecia brilhar mais. Dentro dele. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram em tom de reza as palavras rituais: Deus Que te no guie céu bem foste guiada. — De prata. sumindo-se rapidamente. — A ti talharam-te o ar. ó António! — Mas rema. que era dos dois o mais supersticioso. tanta prata! — O Sol. Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo brilho diamantino os fascinava. Ao direito daquela fraga é que ela está. que nascem «cravos» nas mãos. Espertava nas margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em sorrisos. no entanto. a estrela que mais brilhava. a feiticeira estrela mais brilhava. de instante para instante. lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu. — Está queda. tamém to digo! — Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo. lá no alto céu. E. e quem sabe se o seriam jamais?!… No entanto. eram senhores absolutos da sua vontade. está queda. — Vê-la a fazer assim? — e pôs-se a pestanejar. além de os encher de alegria. quanto mais a olhavam. era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma tão pode-rosa e viva alegria — alegria doida que lhes transvazava do peito. — Ai a estrelinha! Deixa que ela faz-se fina. mas sempre na frente de nós! Vai lá entendê-la. — Que eu. Os remos. Não era difícil passar-lhe adiante. sozinhos.

agarrados um ao outro. estonteado pelo sono. de novo lhe gritou. e eles sem darem fé. Mas o irmão. Senão quando. no céu havia muitas estrelas brilhantes. os dois pequenos entraram de olhar menos para ela. … E os braços já não doíam. A noite estava calma. desvairado pelo medo. um silêncio contínuo dominava tudo em volta. enlevados como iam no desejo louco de alcançar a estrela. preludiando-lhes as agonias lentas da morte. doíam muito… Devia já ser tarde. — Ora! — tornou-lhe incrédulo o irmão. cortando-a com levíssimo ruído. e logo um movimento brusco de balanço. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém viesse acudir-lhes. — Tu não cabias lá! — Não sei! Assim é que anda nos livros! … Mas os braços doíam já dos remos. e rezar uma ave-maria. procurando chamá-lo à realidade. muitas. fez acordar o do leme. uma vez por ano (ao menos uma vez por ano) tenho de olhar pelos ralos do lenço pràs cinco chagas. ainda assim. Na grande alucinação do perigo. — Sempre. afligia-os como se fosse o salmodiar monótono e rouco duma legião de espíritos maus. gritou imediatamente: — Manuel!. mas nenhuma como aquela. olha! — disse. Depois de morrer. feridos de um terrível susto que a hora e o lugar aumentavam angustiosamente. sempre?! — Até que morra. — Então não lhe passamos adiante? — perguntou ingenuamente o Manuel. sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro. Manuel! E. Tinham perdido os remos. Entretanto. … E os braços sempre a doerem!… Por algum tempo. a ver quando se talhava o ar! — Mas talhou-se! Agora. um ruído surdo.O Pra mal trás das do costas meu o corpo despejo. a água da corrente ia espumando na quilha. umas estrelas que além estão. nem ao de leve sequer… O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente. ambos romperam num choro muito violento. pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o peito e as pálpebras se lhes cerravam. diz que vou morar três dias com três noites dentro de uma. a despeito de todo o esforço. sacudindo-o convulsamente. Aos dois pequenos os rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes que num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça. referindo-se ainda à estrela. com lágrimas na voz: — Manuel. mal conheceram o grande perigo em que estavam. acorda! Olha que estamos perdidos. com certo ruído cada vez mais doce. os remos foram com a pá mergulhada na corrente. O Manuel despidinho. — A estrela? Ainda lá está. … Mas os braços já doíam mais!… Agora. Riram muito. E amolentadora e múrmura. havia de ser engraçado! E então todos de volta. não havia forças que o arrancassem dali. incoerente. a música levíssima das respirações dos dois pequenos adormecidos… Algum tempo assim. em paga. sobressaltado. Imobilizara-se também o cabo do leme. E o barco sempre encalhado. ó Manuel! O remador acordou. não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro. alguém que ouvisse de longe os seus gritos de aflição! . Dentro dele. sem impulso algum estranho. coiracho ao colo da mãe. — Uma fraga de cada lado! Ouves o rio?! É já muito tarde! — continuou aflito o António. Parecia-lhes medonho aquele marulhar contínuo da corrente.

Até que. como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença criminosa. quem nos vale! Acudam! Acudam! Tinha surgido a manhã. que ali era muito forte. — Se ela pudesse acudir-nos! Até que por fim. doía-lhes agora o corpo todo. de novo se deixaram adormecer. os dois pequenos. Quando a água se precipitou para dentro.Transe crudelíssimo! E então os braços continuavam a doer. assim de súbito acordados. não cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. na sua fúria constante. no último paro-xismo da sua enorme dor desesperada. e entrou de girar com ele. os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também com ele!… . a corrente. balbuciante de medo. o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se contorciam em remoinho. violentamente. Mas. era já alta noite. serena. — Mas a estrela sempre além… — notou ainda o Manuel. romperam em gritos lancinantes: — Ai quem acode! Ai Jesus. Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual. cheia de gorjeios e de azul. no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela se haviam precipitado. após tamanho lidar. prostrados da fadiga e das lágrimas. num repelão mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e lá se sumiu para sempre! Feridos de morte. parece que embrutecendo-os. ao mesmo tempo que uma tristeza cada vez mais pesada lhes oprimia o espírito. tranquila.

como quando se está doente. no entanto. Uma escritora no Castelo 10 Por causa dos laços de confiança e ternura que as uniam. Na verdade.… Nesse mesmo instante… — e mais longe do que nunca — … a estrela feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!… Trindade Coelho In Os meus amores Publicada por Helena em 11:42 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores 10. por essa razão. ao pensar nessa pessoa. a fazia ter medo — tanto medo que. Inês começou a ajudar Teresa a libertar-se de quem não sabia respeitála e que. os dragões que deitam labaredas pela boca e fumaça pelo nariz não existem (a não ser na imaginação que o medo faz surgir e então parecem mesmo reais). Deste modo. Inês foi ter uma longa conversa com os pais da sua nova amiga que logo foram tomar as medidas necessárias para que a filha não voltasse a ser maltratada. precisamente por usar a vantagem de ter um corpo de pessoa crescida . Decidida a cumprir o que prometera. quem seja parecido com eles. Inês e Teresa tornaram-se inseparáveis. Há. a menina imaginava um dragão e chegava a ficar agoniada.

.. poderás. — respondeu Inês. E este calor de Verão. — Mas porquê? — Porque há outro castelo à minha espera. muito triste.. chamou Teresa ao salão e disse-lhe muito calmamente: — Sinto-me cansada. E a menina foi crescendo.. quando Inês já era velhinha... terrestres e extraterrestres. que ia escrevendo para que outros pudessem lê-las e passar umas horas na companhia daquelas personagens tão diferentes umas das outras: havia-as divertidas e sisudas. Sabes.. medrosas e aventureiras. lugar que passou a escolher também para estudar e escrever as suas histórias — agora já sem um dragão a aprisionar meninas ou meninos. já vivi muito tempo aqui. Assim. E. que sempre gostei de adormecer a ouvir os pássaros.. cada vez mais encantada com o mundo de histórias guardadas na sua alma. com um sorriso daqueles que ela fazia quando estava completamente em paz. Abre um pouco a janela. aqui no castelo. Depois de abrir uma das janelas e de afastar a cortina. .... Teresa passou a viver com alegria. voltou para junto da amiga que.. — Vais deixar o castelo?! — inquietou-se a amiga. vais continuar a escrever.. Talvez seja altura de pensar em mudar de casa. Teresa ficou preocupada. Não se sentia preparada para ficar sem a companhia da sua amiga de sempre.. Acho que vou adormecer aqui no salão. indo quase todos os dias ao castelo. Tomarás conta da biblioteca para que nenhum livro se perca e mandarás restaurar os que se forem estragando. se quiseres. no Céu. de espírito prático e sonhadoras. claro.. entretanto fechara os seus olhos verdes e doces como o canto dos pássaros do jardim. Um dia.. Teresa fez o que a amiga lhe pedira. — Mas é claro que sabes! — E Inês voltou a sorrir antes de acrescentar muito baixinho: — Estou a ficar ensonada. de vez em quando.para fazer mal a quem é ainda pequeno em idade e tamanho. — Ora! Sabes que. receber as crianças que quiserem vir ouvir uma história! Há tantas crianças que nunca ouviram uma história! — Não sei contar histórias como tu. Então. percebeu que deveria estar a sonhar porque continuava a sorrir. — E o que é que eu farei sem ti? — perguntou-lhe. olhando para ela.

Numa delas estavam escritos os títulos de todos os livros que Inês lera desde a infância. Tal como a amiga lhe sugerira. Alguns tinham até perdido o receio de falar e de escrever sobre tudo o que imaginavam e sentiam! Por outro lado. veio ao seu encontro e trazia duas enormes folhas de papel em ambas as mãos. tinha passado a gostar de tal maneira que veio a ser professora de Literatura. ajudaste a crescer e a ser mais felizes. alguns escritos pela nova habitante do castelo. aqui tens a história que aprendi na minha visita ao Castelo dos Livros. que tudo vê e quer que todos sejam felizes! Inês não entendeu logo as palavras do anjo. quase se sentia uma sábia! — Que nomes são esses que aparecem na outra folha? — perguntou ela ao anjo. ao longo da tua vida na Terra. contada por Teresa. E isso agradou a Deus. evidente¬mente: o da menina sardenta filha de um marinheiro.. que era certamente o seu anjo-da-guarda.. Inês lembrou-se imediatamente das palavras que o velho marquês lhe dissera pouco antes de ir para o Céu: «Mesmo que vivas até aos cem anos.. outras nem tanto.» O marquês tinha razão. lá estava na lista.. no Céu. Inês não se tinha apercebido do quanto tinha sido útil a essas mesmas crianças cujos nomes já nem recordava. — Não adivinhas? Estes são os nomes de todas as crianças que. transformada numa espécie de vulcão capaz de produzir excelentes ideias para grandes aventuras. em letras maiores do que os outros. que nunca mais parou de escrever. o nome de Teresa. . E.. o nome da menina de pele da cor da canela que dissera que nunca haveria de gostar de ler e que. E que bem lhe tinham feito essas leituras! Sim.. E pronto. Foi essa missão que te tornou mais sábia. que só queria histórias de piratas. Inês não foi sozinha. mas ela acabou por conseguir ler muitos mais livros do que supunha. afinal. a não ser alguns. enquanto subiam pelo azul que se tornava cada vez mais clarinho à medida que subiam e se chegavam a uma fonte de luz muito branca. de vez em quando recebia crianças e jovens que vinham ouvir as suas histórias. E todos regressavam a casa com um sorriso e muitas imagens fantásticas a fervilharem na sua imaginação. Porém.. de quase nada). Lembrava-se dos rostos de algumas das crianças e dos jovens que tinham visitado o castelo para a ouvirem contar ou ler histórias que fala-vam de muitas coisas — umas alegres..Na sua viagem rumo ao novo castelo que iria habitar. Um companheiro de asas grandes. como não podia deixar de ser. Foi assim que Teresa passou a habitar o Castelo dos Livros. também não vais ter tempo de os ler todos. as quatro torres da biblioteca foram ficando cada vez mais recheadas de livros. mas todas muito interessantes. a maior biblioteca do mundo (pelo menos do mundo conhecido pelos humanos). a menina que um dia resolveu escrever para contar a sua história triste e que se transformou numa contadora de histórias alegre e sem medo de nada (bem. o do menino gorducho que não parava de fazer perguntas e falava com uma pronúncia engraçada.

.. E a menina vivia infeliz.. ainda por acabar. para poder realmente ajudar Teresa a resolver o seu problema. estava só a pensar em qual seria a mais certa.Então. no caderno onde a menina escrevia. roncando estrondosamente como um motor. Depois de ter lido a história escrita no caderno. o problema que vinha contado. quando ele caía em sono profundo. fixara o olhar da autora e . Inês continuou a lembrar-se da parte mais importante do seu dia.)! Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 8:06 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 9. Amigas verdadeiras 9 Era quase meia-noite. jamais sairia. Inês não tinha ainda sono porque ficara a pensar na história que Teresa lhe trouxera. acaba por fazer amigos (se calhar. de certa maneira.. não é verdade? Inês sabia que teria de tomar uma atitude. Na sua história. Então. punha-se a inventar histórias com que acabava por adormecer o dragão. com Teresa. é isto que costuma acontecer quando ficamos preocupados com alguma coisa real¬mente importante.Agora. falando ou escrevendo. por pouco tempo. desejando libertar-se daquela vida sem. sobretudo àqueles que ainda não sabem como é bom ler e ouvir uma história! Porque quem conta histórias. talvez possas tu também contá-la. contudo.. De resto. Teresa falava de uma menina que vivia como escrava de um dragão que não a deixava afastar-se dele e ao qual ela só podia escapar.. Teresa e a sua história não saíam do pensamento de Inês. ainda não tinhas pensado nisto. encostada nos almofadões da cama. Provavelmente. para escapar à tristeza. conseguir.

podes vir comigo. vou tentar ajudar-te — tornou Inês. e eu prometo que farei tudo o que puder para que não volte a tratar-te mal. que não suspeitavam de nada. Ao princípio.. Depois. ele fosse morar para outra cidade e ficasse para sempre muito longe! — Se me deixares. Teresa levantou-se como se uma mola a tivesse empurrado para fora da poltrona e.. — Para te ajudar preciso que me digas quem te tem maltratado — pediu Inês com muita suavidade. com uma vida bonita como todas as crianças merecem e devem ter. a menina ficou calada. Aliás. Se conseguisse chorar.. bem o sentia. — E Teresa deu um longo suspiro. de facto. Na realidade. chorar era algo que. Já que lhe tinha contado a sua história verdadeira. O nó na garganta estava quase a soltar-se.. as duas choraram baixinho. foi ajoelhar-se junto da poltrona onde ela estava sentada. e era isso que ia fazer.perguntara-lhe se havia alguma coisa na vida dela que estava a correr mal. E acrescentou: — Seja quem for. sob os últimos raios de sol da tarde. mas é de alegria. Tinha muito medo de que as coisas não corressem bem. necessário agir depressa para que a vida de Teresa mudasse e ela fosse uma menina alegre. . confessou: — O que eu queria mesmo era que. passeando entre as árvores. Teresa disse o nome de quem a maltratava já há muito tempo. já tinha menos medo. deu-lhe a mão e fez um convite: — Vamos agora até ao jardim? Eu estou a sentir uma certa vontade de chorar. obrigando-a a fazer coisas que ela não queria e metendo-lhe medo para que ela não contasse nada fosse a quem fosse.. Sim. porque sei que vamos resolver o teu problema! Se não te importares de me ver chorar. mas o seu olhar continuava triste quando respondeu: — Lembro. Lá fora. Teresa não se queixava e ninguém a via chorar. Só que esses pensamentos tristes acabavam sempre por voltar. como ninguém sabia o que se passava. o melhor era deixá-la ajudar. a menina preferia ir sentar-se no seu quarto a imaginar histórias bonitas para afastar os maus pensamentos. nem se lembrava já de quando tinha sido a última vez. Acreditas em mim? Teresa acreditava. mas um familiar que a maltratava desde que ela completara seis anos de idade. Inês levantou-se do sofá. E era uma história tão triste como a da menina que vivia com o dragão. Compreendendo o que a menina estava a sentir. havia também na sua vida não um animal gigantesco e verde que deitava labaredas pela boca. Porém. Além disso. Ora. Agora. mas São Jorge já morreu e eu não sei se alguém que morreu pode aparecer montado num cavalo com uma lança na mão para me salvar. sim. em silêncio. podia dizer toda a verdade à amiga que vivia no castelo. porque.. só muito raramente lhe acontecia. ninguém tinha podido acabar com aquilo.. era uma pessoa crescida. portanto. não vamos ter medo! Lembras-te da lenda que uma vez contei sobre São Jorge? A menina sorriu. porque ela era sua amiga. sem nada dizer. Era. podia fazer muitas coisas que ela ainda não podia. mas confiava em Inês.. em vez disso. Porque. — Diz-me só quem é essa pessoa. nem mesmo os pais. o nó soltar-se-ia e ela sentir-se-ia mais leve. Então. Depois. Na realidade. desviando o olhar para o tapete. mais ainda do que quando contava histórias. encheu-se de coragem e começou a contar uma história verdadeira: a sua. seguiu a amiga até ao jardim do castelo.

não é uma atitude nada civilizada. Diz a lenda que havia um dragão terrível que assustava os habitantes de uma cidade. as famílias daquela terra iam perdendo raparigas que o dragão atacava. os dragões costumavam fazer. um jovem soldado do Império Romano que veio a ser chamado santo e que é o padroeiro de muitos países.às vezes. E as lágrimas choradas na companhia de um amigo têm o poder misterioso de lavar o nosso coração e de o deixar mais leve. Teresa lembrou-se da lenda sobre Jorge. saltando aqui e ali sem se importarem com o resto. como. é preciso chorar para depois respirar melhor e voltar a sorrir. Assim. diga-se de passagem. porque os anjos são bons e os esquilos vivem lá no seu mundo de avelãs. Ao reler o livro. entre eles Portugal e Inglaterra. de resto. Teresa e Inês choraram sem pressas. mas não fazia mal. Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 8:01 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros Histórias com dragões 8 O livro que falava do dragão lá estava devidamente arrumado numa estante da Torre Dourada. . o que. Aflitas e muito desgostosas. E só os anjos e os esquilos as viram e ouviram. saindo das profundezas de um lago e deitando grandes labaredas pelo nariz. precisamente por ser muito corajoso.

salvando a jovem e valente princesa.Um dia. assim. de uma menina. montado num cavalo branco e vestido com um manto e uma armadura onde se via uma cruz de cor vermelha. No fim. e não era uma história divertida. mas ainda não descobrira o quê. no fim de mais uma sessão de leitura para as crianças. Jorge disse a toda a gente da cidade que tinha vindo em nome de Cristo e que gostaria muito que todos os que se sentiam aliviados e felizes por verem que o dragão tinha sido vencido fossem baptizados. apareceu Jorge. Então. derrotou-o em combate. da qual ela ainda nada sabia a não ser que também falava de um dragão.. — Eu gostava de ler a tua história. foi a vez de a filha do rei decidir ir entregar-se ao dragão para ver se. alguma coisa que não era boa — talvez um problema difícil que ela não conseguia resolver sozinha. para que mais ninguém fosse vítima daquela criatura tão má. ainda havia pouca gente baptizada e não costumavam sê-lo senão já na idade adulta. naquela altura. subitamente. Inês compreendeu finalmente que a menina andava a escrever sobre alguma coisa que deveria estar a acontecer na vida dela.. — .. Inês ficou a pensar na história de São Jorge e na que a pequena Teresa estava a escrever. A verdade é que. ele pouparia a vida ao povo. Sentia que devia fazer qualquer coisa. Poucos dias depois. Inês chamou Teresa e perguntou-lhe: — Como vai a tua história? Tens escrito? A menina fez que sim com um gesto de cabeça e contou: — Não posso ainda terminar a minha história. porque quero que ela acabe bem. indo enfrentar o dragão. mesmo sem estar ainda acabada — disse ela a Teresa. provando que acreditavam em Jesus Cristo como Filho de Deus e vencedor de todo o mal do mundo. Precisava de saber o que Teresa tinha para lhe contar.. Numa mão trazia uma lança e. Porque é normal não conseguirmos resolver sozinhos certos problemas.

parecida com algo que se passava na sua vida real e que muito a entristecia e embaraçava.. e a menina tinha as bochechas coradas do calor e da vontade de mostrar à sua amiga mais velha o que tinha escrito. tratavase de uma história muito importante para ela. bater à porta do castelo. Disse-lhe que Inês se encontrava na oficina. Inês disse: — Vamos então sentar-nos no salão. realmente. então. apesar de ser imaginada.. É tão raro alguém merecer toda a nossa confiança. queres? A menina disse que sim com um gesto de cabeça e um sorriso. trouxe a minha história. como fazia muitas vezes. não é? Ao chegar ao castelo. tubarões e outras criaturas marinhas. Teresa resolveu levantar-se do banco e ir. com a mochila aos pés. Teresa mordeu o lábio inferior e contou: — Hoje. a acabar o trabalho de restauro de um dos livros mais antigos da Torre dos Arrepios. Ainda que não soubesse exactamente porquê. provavelmente perceberia. já que preferes assim. Aquele era. por isso. Isto fazia Inês sentir-se satisfeita. Teresa dirigiu-se para o castelo. abismos marinhos. parecia-lhe agora que todas as dúvidas já tinham desaparecido da sua cabeça: Inês iria com certeza compreender a sua história! Não havia razão . animais e lugares da Terra onde ninguém esteve. colocou-o no colo e ficou à espera. Por um lado. porque não queria que nenhum livro fosse destruído pelos ácaros ou pela humidade. O coração de Teresa batia cada vez mais depressa. um dia importante para si! O dia em que ia mostrar a sua história a alguém em quem ela confiava. — Prefiro o salão — disse a menina. — E que lá fora está um bocado abafado e cá dentro do castelo está sempre fresco. Retirou o caderno da mochila.. — Estou a acabar o meu trabalho de hoje. de certo modo. mas. por outro lado. vamos sentar-nos lá fora só nós as duas ou. a biblioteca do castelo continuava em perfeito estado de conservação. porque Inês já tinha lido muitos livros e sabia coisas incríveis acerca de pessoas um pouco estranhas. enquanto acabava de colocar um livro já restaurado sobre um tabuleiro. Foi Rudolfo quem veio abrir-lhe a porta.. era. Teresa — disse-lhe Inês. sugeriu: — E se viesses comigo guardar estes livros na biblioteca? Um pouco atrapalhada. grutas misteriosas. talvez possa ter uma boa ideia para te dar uma ajuda. com a mochila às costas. tinha muita vontade de mostrar a Inês o que escrevera. enquanto acompanhava a nova dona do castelo até à Torre dos Arrepios. excepto alguns cientistas: picos de montanhas geladas. Nunca tinha falado da sua história a ninguém. mas sentia que chegara a altura certa. baleias. Logo no dia seguinte. depois de sair da escola. entre lulas gigantes.Como conheço muitas histórias. animada com a possibilidade de vir a acabar depressa a sua história. Animada com estes pensamentos.. Depois. jamais imaginara como escrever podia ser tão importante. se preferires. como tanto queria. vulcões em actividade. Depois.. a menina levava o caderno onde andava a escrever a sua história. a menina foi sentar-se num dos bancos de pedra do jardim e pôs-se a pensar. enquanto vou preparar um refresco para ambas. Está aqui dentro da mo¬chila.. Vai andando. Inês sorriu-lhe: — Tiveste uma excelente ideia! Depois de arrumarmos os livros. que dizes? A menina voltou a dizer que sim com um gesto de cabeça e saiu a correr do castelo. Como era bom poder contar no papel o que o seu pensamento lhe ditava! Nos primeiros anos de escola. Estava um dia de Maio muito quente. porque.. Quando acabaram de arrumar os romances de aventuras no lugar que lhes cabia. seguiu para o salão e sentou-se numa das poltronas.. Inês tinha acabado por aprender com o marquês aquela arte de recuperar os livros que estavam estragados ou em risco de se estragarem e. porque Inês merecia toda a confiança.. como Inês tantas vezes fizera quando ainda era criança. vamos para o salão. E se Inês não percebesse a sua história? Não. No meio dos seus livros escolares. um romance de aventuras passadas no fundo do mar. antes de ir bater à porta.

. reuniam-se no salão onde havia uma lareira. a Torre do Céu e a Dourada. mas um grupo que aos poucos se foi formando até serem vinte os meninos e meninas que ali vinham todas as semanas. claro. foi feliz. Na verdade. poderiam manter-se por longo tempo ao serviço de pessoas de todas as idades. partiu para o Céu. No dia da sua partida deste mundo. comprometendo-se a não deixar morrer o seu tesouro: os livros guardados nas suas quatro altas torres — a Torre dos Arrepios. Foi isto que ficou combinado entre o velho dono do castelo e a sua herdeira. que merecia toda a sua confiança. até alguns animais da . Nos dias de calor. Na verdade. Nos dias frios.. Assim. Mais do que tudo. A contadora de histórias 7 Como talvez já tenhas adivinhado. conforme deves lembrarte.. Inês rapidamente pôs em prática o seu plano com as crianças da cidade — não todas. que lia para eles ou lhes contava alguma das suas histórias favoritas. sentavam-se no jardim do castelo à volta de Inês. ao ficarem gastos ou danificados pelo uso ou por outra razão (como por exemplo a humidade ou o pó). o marquês. que faziam sonhar. que faziam crescer! E a jovem tornou-se uma perita contadora de histórias. Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:56 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 7. Mas então por que seria que as suas mãos estavam a ficar húmidas e não conseguia manter as pernas quietas?.para receios. continuassem a ser restaurados. que já estava muito velhinho e doente. o marquês queria que os seus livros fossem lidos por muita gente e que. a das Asas. porque Inês aceitou ficar a morar no castelo..

. E continuou: — Já tenho várias páginas e sei como quero que termine. que raramente se ria. Ela gostava de inventar as suas histórias. num deserto. No entanto. por exemplo.. que estava apaixonado por uma rosa. Era um jovem muito curioso que viera à Terra para descobrir como se faz um amigo. Tinha apenas seis anos e.. Inês cedo percebeu que aquela menina de olhos castanhos. a tal que me recebeu no castelo e me contou esta história toda. Teresa. a escrever uma história — disse Teresa. Apesar de conversarem pouco. apesar de ainda faltar muito para chegar ao fim. que costumavam fazer a sua vida a uma altitude mais baixa... Então. Teresa aproximou-se de Inês no fim de uma sessão de leitura e contou-lhe: — Eu também ando a escrever. Uma das meninas que ia todas as semanas ao castelo tinha. nunca lera um livro. Quando Teresa foi ao castelo pela primeira vez. E havia muitas outras histórias de que ambas gostavam... .. como aquela acerca de uma princesa que ficara pobre e sem abrigo e era tão incrivelmente sensível que. ficava longo tempo pensativa depois de ouvir uma história lida ou contada e não gostava muito de falar. não conseguira adormecer. muitos meninos que nunca tinham lido um livro começaram a descobrir as grandes e maravilhosas aventuras guardadas na Torre Dourada e passaram a gostar de ler! Na verdade. alguns deles. Mesmo as lebres. ficando meio escondidos atrás das árvores que havia à entrada do jardim. uma noite. embora. — A escrever? — perguntou Inês. portanto.. porque descobriram que as histórias favoritas de uma eram também as da outra. uma característica diferente dos outros meninos que ali iam... porém. como a própria Inês. tendo aprendido muitas coisas com uma raposa e ensinado muitas outras a um piloto aviador que estava meio perdido. fizesse perguntas curiosas.. sem dizer nada a ninguém! O nome dessa menina era. quando já tinha dez anos.. de vez em quando. tornaram-se mesmo grandes leitores. Um dia. atraídas pela voz magnética da contadora de histórias.. como. essa mesma em que estás a pensar. incomodada por uma ervilha que ficara debaixo do colchão. subiam até à zona do castelo. vindo de um planeta distante. Inês e Teresa começaram a tornar-se amigas. — Sim. ainda nem aprendera a ler.montanha vinham ouvi-la. a história que falava de um pequeno príncipe.

e a cozinheira. mais ou menos como eu. mas não este. para dizer a verdade. em certas ocasiões. Inês não lhe fez mais perguntas naquele dia. Ora. E um que eu imaginei. Rudolfo. — Não sabia que tinhas inventado uma história! — Bem. Na realidade... O marquês. é sobre um castelo. provavelmente. abrindo muito os seus olhos castanhos. Talvez um dia ela lhe contasse mais sobre a sua história com um dragão que. deste castelo! E uma história sobre este castelo? A menina sorriu. O dragão de que ela falara. eu já inventei várias.. Aliás. era mau.. lembrava-se de já ter contado aquela mesma história às crianças. Uma história com um dragão. alguns são até um bocado perigosos. Porque. com o seu sorriso um pouco triste: — Bem.. mas esta é a primeira que eu decidi escrever. não lhe saía da cabeça.... até agora não se conhece nenhum dragão bom nem sequer simpático.. Teresa gostava de ficar em silêncio. de que é que tu gostas muito?. — Mas não é.. porque não estava com vontade de continuar a conversa.. junto da lareira do salão. como deves imaginar. de maneira que Inês resolveu ir à Torre Dourada procurar um livro que tinha lido quando era criança sobre um homem muito generoso e valente que tinha combatido contra um dragão e saíra vencedor desse terrível combate. não digas nada! Deixa-me adivinhar. embora pouco.. Inês voltou para o castelo a pensar na menina que gostava de inventar histórias. Já sei! Gostas muito de pensar e. Matilde. Sabia que como todos nós.. uma menina de olhos castanhos. — Ah.. passaram a ser os seus melhores . onde ia ler quase diariamente. Uma ideia brilhante 6 A verdade é que Inês nunca mais deixou de visitar o castelo. Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:49 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 6. Depois.— Essa novidade é muito interessante — animou-se Inês. pode ser muito desagradável ter um dragão na cabeça. Naquele fim de tarde. não — apressou-se Teresa a dizer.. Ora vejamos. como se sabe.. onde vive um dragão e. num dia de Inverno. gostas muito. — E posso saber de que trata a tua história? Não. Parece-me muito empolgante e divertida a tua história. o mordomo. ficou pensativa e afastou-se.

todos foram compreendendo que ela sentia mais necessidade de aprender do que outros jovens da sua idade. Convém lembrar que um sábio não é apenas alguém que sabe muitas coisas.. Rudolfo apareceu-lhe com olhos tristes. príncipes encantados. A família de Inês achava um pouco excessivo o tempo que ela passava no castelo. mas também alguém que consegue realizar algo importante para si e para os outros. era que ela estava a tornar-se sábia. sem contar com os livros. porque a idade não conta entre os amigos verdadeiros. Inês também ficou preocupada e correu ao quarto onde o marquês estava sentado numa cadeira de braços. princesas encantadoras. com uma manta no colo. O médico já veio vê-lo e não quer que ele se canse — contou o mordomo. Livros que falavam de tudo quanto Deus criou.. Ao abrir-lhe a porta.. com as ideias mais importantes à frente e as outras atrás? — começou ela. histórias sobre factos reais e outras sobre coisas imaginadas. A pouco e pouco. excepto o velho marquês. quando Inês já frequentava a universidade. mas se estás a querer que eu obedeça ao médico. — Não. transformando-se numa rapariga que cada vez sabia mais sobre o mundo. Ora. aos poucos.. Lembra-se de uma conversa que tivemos há muito tempo sobre a importância de ter a cabeça organizada.. desta vez. — O que foi? — perguntou ela.. como ler também ensina a pensar.. porque esses também contribuíam muito para que a sua vida fosse feliz. — Hum. lendo e conversando sobre o que lia. O que ninguém ainda sabia. . com ar preocupado. — O senhor marquês está muito doente. é porque eu tenho uma notícia muito importante para lhe dar e. piratas de um só olho. nesse mesmo dia. devo dizer-te que não posso. embora ela nunca pensasse na idade dele (noventa e nove anos). junto do amigo que estava realmente muito velhinho. mas o que eu quero é ouvir-te! A rapariga sentou-se no tapete. aventuras de sereias cantoras. — Isso é por eu estar muito velhote? — Não. se for dormir. não posso.. teve uma ideia que lhe pareceu brilhante e. foi a correr ao castelo para a contar ao seu amigo marquês. porque sinto que já não me resta muito tempo e não quero passá-lo a dormir! Inês riu-se. de preferência a dormir. E a menina foi crescendo. — Ainda bem que vieste mais cedo — disse-lhe ele. claro.amigos. de tal maneira que os seus pais até ficavam admirados não só com os seus resultados escolares mas com os elogios que alguns professores faziam a seu respeito. — Concordo consigo.. Mas. Inês foi-se tornando uma aluna brilhante. não me lembro. de modo a que a vida fique mais bonita de viver! No princípio da idade adulta. ia conseguindo compreender melhor as tais coisas que via e ouvia e de que não se falava na escola.. — O médico aconselha-me a que fique em repouso.

Pensei que posso vir aqui uma ou duas tardes por semana contar histórias a crianças que queiram vir até ao castelo ter comigo e também ler para elas passagens de alguns dos livros de que mais gostei quando era pequena! Não quero que percam tantas aventuras fantásticas que estão escondidas nas quatro torres! Quando estiver frio. onde há lareira e podemos aquecer-nos. pensou Inês. Tinha muito que fazer. provavelmente. apesar de se sentir fraco. se não te importas. no jardim. Havia mesmo meninos na cidade a quem ninguém tinha tempo de contar histórias. Era preciso falar com os pais das crianças para lhes explicar os seus planos. Por outro lado.. Inês — respondeu suavemente o marquês. porque não quero que as crianças venham aqui incomodá-lo com algum barulho que possam fazer. também é lamentável que haja outras crianças que já andam na escola mas que ainda não descobriram que ler um livro pode ser muito divertido! — E então tiveste uma ideia — atalhou o marquês. no jardim. porque já é tarde e. Um lugar de sonho . E era justamente disso que ia tratar sem demora! Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:43 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 5. ficaremos lá fora.. — Estás em tua casa. que é tão bonito! — Parece-me uma grande ideia — aplaudiu o marquês. — Nada disso. Lá fora.. ajeitou a manta que tapava o colo do velho amigo e saiu. acho que vou seguir o conselho do médico e vou fazer uma sesta. Não te digo hoje. Inês olhou os bancos de pedra e imaginou-se sentada num deles. — E quando vais começar? — Quando estiver melhor. por pequenas que fossem! Esses meninos não faziam ideia de como é bom ouvir uma história divertida e empolgante como as que Inês conhecia! Mas também havia outras crianças que nunca tinham pegado num livro e não sabiam como um livro se pode tornar num amigo para toda a vida. Inês ficou feliz. animado.. — Ontem à noite estive a pensar que é uma pena haver crianças que não sabem ler e a quem ninguém conta uma história. rodeada de crianças a ouvirem contar uma história. nada disso! Podes começar amanhã.— E que notícia é essa? — interessou-se o marquês... saboreando os últimos raios de sol. ficamos no salão. — E agora. ainda não falaste com os pais dessas crianças.. — Então quer dizer que posso realizar os meus planos?! — entusiasmou-se a jovem. Nos dias quentes.. E gostou muito do que ali viu com os seus olhos tão treina¬dos para imaginar. — Tive. encostando a porta atrás de si. Então.

Estava desejosa de acabar de ler o livro que começara na véspera! O que iria acontecer à menina que sabia voar?. mas pelo menos aqueles que tinham as histórias mais interessantes e os que ensinavam exactamente o que queria saber! Ao chegar ao castelo. Havia tantas coisas para aprender e tantas aventuras para viver! Talvez os livros lhe ensinas-sem como arranjar essas asas que a fizessem voar ou lhe dessem pistas para desvendar muitos mistérios e compreender algumas coisas que via e ouvia e de que não se falava na escola. poderia viajar pelo céu fora e descobrir muitas coisas sobre as nuvens. Se precisares de alguma coisa. tendo na mesa ao seu lado o livro que a menina começara a ler na véspera. A jovem visitante do castelo estava precisamente a acabar de ler o livro e era fácil perceber que nada a perturbaria. Ao fim da tarde. aldeias e cidades. num lugar de sonho. de mochila às costas. mas o mordomo fez um sinal para lhe lembrar que ainda não tinha saudado o dono do castelo. Eu vou para o meu escritório porque tenho uns trabalhos para fazer. o marquês. Toda a sua atenção estava posta na página que estava a ler e a sua expressão era a de quem estava noutro mundo. Que bom seria falar a língua dos pássaros e pedir a uma cegonha das que todos os anos faziam ninho na torre da igreja ou no telhado da câmara municipal que lhe emprestasse as asas ou lhe dissesse como arranjar umas que dessem para voar! Então. sentou-se imediatamente no lugar que o marquês lhe indicara e começou a ler o livro na página onde tinha ficado no dia anterior. menina Inês! — cumprimentou-a... o marquês veio ao salão. Mal viu o livro. mas ela lembrava-se exactamente de qual era. Vendo que a menina estava desejosa de retomar a sua leitura. E que os livros têm este poder quase mágico de nos transportarem para outros lugares: sítios onde já estivemos e outros que nunca visitámos nem mesmo em sonhos! Os livros são autênticos comboios a levarem-nos por montes e vales. mal saiu da escola.. o arco-íris. muito satisfeito por ver nela uma futura leitora. Bem. onde o marquês a aguarda' vá. chama o Rudolfo ou vai à cozinha ter com a Matilde. cumprimentou-a com um aperto de mão e disse-lhe: — Podes sentar-te naquela poltrona e fica à vontade. perguntava-se. E Inês lá seguiu Rudolfo até ao salão. — O senhor marquês está à sua espera no salão. Outras . Seria bom vir a ter uma vida longa para poder ler todos aqueles livros da biblioteca do castelo. bateu à porta e foi o mordomo quem veio abrir: — Boa tarde. todos talvez não. Queira seguir-me. Inês encaminhou-se para o castelo.5 No dia seguinte. Inês pegou nele e. a qual não estava marcada. a chuva. entusiasmada. ia começar imediatamente a lê-lo.. que ela prepara-te um refresco. Inês pousou a mochila no tapete.

que nos transportam para lá das nuvens e nos levam para o meio de cometas.. Certamente seria interessante. E o rosto enrugado do marquês iluminou-se num sorriso de ternura. Se bem me lembro. para que te lembres bem desses pedidos. saboreando as últimas palavras que lera. que costumava compreender tudo rapidamente. — Posso agora ir escolher outro livro? — Claro que sim! Fico muito satisfeito por teres gostado de ler! Um dia. — O que pede outra pessoa qualquer — apressou-se Inês a responder. aquelas a que damos mais valor. é fácil: por ordem de importância. Acompanha-me.. assim como a nossa cabeça. As coisas mais importantes. as outras são arrumadas atrás. catalogar e restaurar tantos livros. no espaço sideral! Foi enorme a alegria do marquês ao ver aquela menina tão interessada na leitura.. disseste que gostavas de dançar. E podem também ser foguetões. ele próprio! Inês fazia-o sentir que tinha valido a pena coleccionar. numa das estantes da torre número quatro. Por exemplo... deve estar organizada. num instante. porque a menina ainda não dera pela sua presença. — Como? — quis saber Inês. A menina compreendeu-o imediatamente e fez questão de ser ela mesma a ir colocar o livro no seu devido lugar. — Vem. são aviões que nos fazem chegar. desta vez. a países longínquos.. parar às mãos. mas teremos de ir à torre número três. — E de vulcões! E de trovões! E de relâmpagos! — Hum. Depois. a menina exclamou: — Ler é extraordinário! Acho que nunca mais vou parar! Posso ir à biblioteca buscar outro livro? — Primeiro. E o marquês lá se pôs a ensinar o que significava o código de letras e números que estava na etiqueta colada no livro que Inês tinha estado a ler. E Inês lá seguiu o dono do castelo. ansiosa por ver que livro lhe iria. — Como estás a ver — disse o marquês —. estrelas e meteoritos. que vou ensinar-te a fórmula mágica para descobrires o lugar exacto onde deves guardar um livro. é muito importante que cada livro esteja correctamente marcado.. . nesse caso. posso indicar-te um livro magnífico sobre fenómenos da Natureza. — Como é que se organiza uma cabeça? — Pois bem. aquilo que os teus pais te pedem que faças é mais importante do que. ao longo da sua já longa vida. — Estou a perceber — disse a menina. Mas vejamos agora o que queres ler a seguir.. onde vivem muitas ideias.vezes. porque o marquês parecia saber muitas coisas importantes sobre vários assuntos! O marquês — dava para ver — era um sábio. Inês acabou de ler o livro — e antes de o fechar — deu um longo suspiro de olhos fechados.. devem estar sempre à frente. — Assim sendo — continuou o marquês —. se quiseres.. porque uma biblioteca onde vivem muitos livros deve ser um lugar sempre organizado. nunca tinha visto ninguém tão concentrado a ler senão. ao ver que não estava só. em primeiro lugar. Na verdade. finalmente. o que eles pedem para tu fazeres tem de vir antes de todas as outras coisas que te são ditas pelas outras pessoas. pode-mos falar da tua leitura... vamos colocar esse no lugar de onde saiu — disse o marquês. Ora bem. tal era a sua concentração! Quando.

sobretudo. tal como Teresa ma contou. mas vou tentar dizer-te toda a verdade.. porque. lá em baixo no vale. Eram pessoas de várias idades e profissões. o marquês mandou o mordomo à cidade para que entregasse. muitos seriam os curiosos a desejarem vir conhecer o castelo e. muitos convites para serem distribuídos pelas casas.. expostas em vitrinas: . Naquela altura. Sentei-me num dos bancos de pedra para aqui te contar o resto da história deste castelo. o que nele se encontrava. No primeiro sábado após a entrega dos convites.Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:39 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 4. o castelo começou a receber visitantes logo de manhã.. O tesouro 4 Estou novamente no exterior do castelo. quem conta um conto aumenta um ponto. a parte mais interessante da história estava mesmo para começar. no posto do correio. Provavelmente. Como eu calculava. já que o marquês tinha fama de ser um homem rico e o seu pai tinha sido o dono de muitas terras por aquelas bandas. tratar-se-ia de barras de ouro. senão tudo teria sido mais rápido. Bem. no momento em que Teresa parou de falar.. num bonito jardim com uma vista magnífica para a cidade. talvez não exactamente como ela contou. Certamente. amigos e empregados. Estava o marquês quase sozinho no castelo quando teve uma ideia para acabar com a sua solidão e a monotonia dos seus dias: e se mandasse um convite aos habitantes da cidade lá em baixo. Ou então talvez fossem encontrar jóias extravagantes. para que viessem conhecer o seu tesouro? Sabia que nunca ninguém ali tinha entrado a não ser os seus familiares. ainda não havia Internet. Contente com a sua ideia. Vinham cheias de curiosidade para descobrir o tal «tesouro» de que o convite falava.

esmeraldas. safiras. colares. que foi despedir-se à porta do castelo. fica com vertigens! — E há ainda o problema dos mosquitos e das meigas. Então era aquilo o «tesouro» que vinha anuncia-do no convite que tinham recebido?! Seria. ao levantar a cabeça. Porém. poderiam vir ao castelo requisitar gratuitamente os livros que desejassem ler. mas verificou que apenas três ou quatro esboçaram um sorriso para se mostrarem agradecidos. Rudolfo não teve mãos a medir. — Eu cá fartei-me de espirrar enquanto subia a montanha.anéis. apenas livros. faz um calor dos diabos por aqui — comentava o alfaiate. Ainda foi colocar-se no meio dos visitantes dizendo-lhes que. entre dois espirros. que se tinham estafado a subir a Montanha Azul num dia de Sol?! O marquês ficou triste ao perceber que ninguém estava a dar o devido valor à extraordinária biblioteca recheada de tantos livros e todos — sem excepção! — em excelente estado de conservação. rubis. — Para não falar das vertigens — queixava-se uma senhora idosa. porque não?. até gostava de vir buscar um ou dois livros — atalhou um técnico que fazia reparações em televisores. Além do mais. E como podia alguém não ter tempo para ler.. desde que se comprometessem a devolvê-los. a caminho daqui — lembrava uma senhora com voz de cana rachada. coroas enfeitadas com pedras preciosas — diamantes. lá em baixo ao pé do lago. passando a vida a ir receber os visitantes à porta do castelo e conduzindo-os aos lugares que o marquês queria que eles conhecessem... aquelas que moravam na cidade logo ali no vale. — Bem vê. Porém. — E. afinal. graças ao seu interesse e trabalho... voltou para dentro cabisbaixo. — Por mim. ao serem abertas as portas das quatro torres que constituíam a fabulosa biblioteca. que não nos podemos esquecer de que estamos a quase mil metros de altitude e. O marquês estava profundamente desolado com o que ouvira. julgava que a sua oferta ia ser recebida com grande entusiasmo pelos habitantes da cidade. Naquele dia. deparou-se-lhe uma visão que lhe iluminou as ideias e aqueceu o seu coração magoado: uma . já que viviam ali tão perto. Na realidade. se uma pessoa olha para baixo.. perguntava-se o marquês. o anfitrião. afinal. — Sim. no Verão. para verem livros. limpando a testa com um lenço branco. perante o olhar igual¬mente desanimado do mordomo. Deve ter sido alergia àquelas flores azuis! — queixou-se uma jovem. que é uma das coisas mais bonitas e interessantes que há?! Que pessoas eram. a partir daquele dia. tão perto do castelo? Seria que não havia ninguém que quisesse aventurar-se a descobrir o mundo tão grande e fantástico que a sua biblioteca guardava em silêncio?. o castelo fica aqui no cimo da montanha. Quando os visitantes saíram. que coxeava da perna direita. fazia sentido que fossem conhecer o monumento mais antigo e bonito daquela zona. a subida é íngreme — desculpava-se o sapateiro. — Mas acontece que não tenho tempo para ler. Calor?! Vertigens?! Meigas?! Mosquitos?! Espirros?! Que desculpas tão esfarrapadas. os visitantes mostravam-se decepcionados. pulseiras e até.

. No terceiro ano. além disso. mas li muitos e sei de que tratam os que ainda não li. ela ergueu o olhar para o dono do castelo que lhe perguntou: — Tu gostas de ler.. visivelmente contrariada por ter sido interrompida.. o marquês foi despedir-se de Inês. no mar e no céu! Há tantas perguntas que quero fazer. Este é o primeiro livro que estou a ler. vestida com jardineiras e uma camisola cor-de-rosa estava sentada no segundo degrau da escadaria que dava acesso ao primeiro andar e tinha entre as mãos um livro. Mas. e dizse que os gatos têm sete! Não. Então. já se foram embora e devem estar preocupados.. dizendo-lhe adeus da porta do castelo. O marquês ficou contente ao ouvir estas palavras e disse: — O Rudolfo e eu teremos muito gosto em que venhas cá visitar--nos todos os dias. portanto poderei ajudar-te nas tuas escolhas.. Em minha casa há sempre coisas para fazer e. Ainda por cima. se preferires.. regressarás amanhã.. Toda a gente já se foi embora. Sabe. — Não?! — entristeceu-se a menina. quero dizer. já leu aqueles livros todos?! O marquês riu-se: — Para ler os livros todos da minha biblioteca precisaria de ter mais vidas do que os gatos. muito feliz. este lugar é tão bonito!. Mas agora.. passarás a vir quando desejares! — E posso ler o que eu quiser? — Evidentemente. Depois. mas acho que sim. O marquês estava encantado. Se te deixarem. se não se importa. respondeu à pergunta do marquês: — Ainda não sei se gosto de ler. leva o livro contigo e devolves-mo quando já o tiveres lido — respondeu o marquês. visto que tu. ..menina de uns oito anos de idade. — Adoro relâmpagos.. de cabelo doirado.. — Posso voltar amanhã para acabar esta história? — perguntou ela. Se eles estiverem de acordo. mesmo que vivas até aos cem anos. — Agora. são horas de voltares para tua casa. — Não. apanhado em rabo-de-cavalo. Tão entretida estava a ler.. é claro. mas o que importa é que vais ter ocasião de ler muitos e mergulhares nas suas aventuras extraordinárias que farão de ti uma pessoa muito mais sábia e melhor! A menina ficou encantada. também não vais ter tempo de os ler todos.. A menina de olhos verdes consultou então o seu relógio de pulso e compreendeu que era tarde. a menina de olhos verdes. se precisares de algum conselho sobre os livros. Afinal.. — Mas não será melhor ires ter com os teus pais? Se vieram contigo... — É claro. entregando o livro ao mordomo. gostava de acabar de ler a história — pediu a menina. A menina ficou a pensar uns instantes e.. depois. depois da escola. alguém se tinha interessado pela sua colecção de livros! E era uma menina que parecia saber bem o que queria! — Eu vou deixar-te ler. E que livro escolheste tu da minha biblioteca? — Este que tem uma capa bonita e um título de que gosto «A menina que voava». levantando-se com o livro na mão. menina de olhos verdes?! — Chamo-me Inês — apressou-se ela a informar. não li os livros todos. Iria ser sábia. mas o que eu queria mesmo era saber voar. tendo ele que tossir duas vezes para se fazer notar. que nem se apercebeu da presença do marquês. que era o seu maior sonho desde que entrara para a escola! — Eu acho que vou ser uma grande cientista — disse ela. E. ouve-se sempre o barulho que vem da rua e da minha irmã a reclamar ou a pedir qualquer coisa. infelizmente.. Mas. sem contar com os da escola. trovões e vulcões! Quero saber tudo o que há na terra. Já ando no terceiro ano! — Hum. sim — disse ele. fala comigo! — O senhor.. mas primeiro deverás falar com os teus pais. por exemplo: será que Deus ouve os trovões no lugar do Céu onde Ele vive? O marquês sorriu. concluiu: — Acho que é melhor vir ler aqui para o castelo.. eu tenho aulas de ballet e gosto de dançar.

A história do Castelo 3 Já no salão. — Todas as histórias que conheço começam assim! — reclamo. então recomeço de outra forma... começo a ouvir Teresa contar a história deste castelo que vim conhecer. um marquês. — Há muitos muitos anos.... . Depois de ajeitar a almofada do sofá de veludo cor de mel. E repito: — Prometo! — Mas será que vou mesmo conseguir não interromper? Eu tenho sempre tantas perguntas para fazer. confortavelmente instalada. — Que condição é essa? — pergunto. — Não poderás interromper-me uma única vez! — Prometo — apresso-me a dizer. Sim. nem um duque. não era um conde nem um visconde. Não era um príncipe. — Muito bem. — Teresa olha para mim e percebe que estou a impacientar-me. Teresa recomeçou: — Era uma vez um marquês...Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:33 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 3. para não perder tempo.. mas devo avisar-te de que há uma condição para eu te contar a história...

que recebeu o nome de «Torre das Asas». conseguia transportar uma pilha de livros debaixo de cada braço! Chegados ao castelo. mas. apenas o que lhe parecia interessante. passou a pedir ao mordomo que lesse para ele.. o marquês chamava a «Torre Dourada». Era um homem invulgar. com apenas oito anos de idade. mas. a Marquesa de Genciana. Teresa calou-se. bem como todos os livros sobre a vida de Jesus. conhecida como a «Torre dos Arrepios». nem sabia ler. quem carregava os livros era Rudolfo. à torre número quatro.. a verdade é que. como sabes. portanto. mas acabou por sofrer um acidente fatal. apesar de usar óculos. para que o livro fosse correctamente colocado numa das estantes. neste momento. em cada ano que passava. que foi o primeiro livro impresso no Mundo. O que ele fazia era colar em cada um uma etiqueta com um código. onde ficaram até hoje. sabias? Esta fui eu que a inventei precisamente para descrever alguém muito rico em. naturalmente. Se fosse um livro de poesia. E que. claro está. com belíssimas ilustrações. o jovem marquês mandou construir uma oficina aqui no castelo e foi lá que. A parte mais interessante está a chegar. Aliás. mais velhos. com a capa em mau estado. a sua biblioteca ia ficando mais recheada com livros de todas as espécies e dos mais variados autores do mundo inteiro. não havia computadores. nessa altura. este marquês tinha milhares e milhares de livros guardados aqui mesmo.Creio que está a pôr-me à prova. mesmo já adulto. a lombada descolada ou com algumas páginas descosidas! Por esta razão. Naquela altura. Uma nuvem nublou-lhe os olhos. se dedicou ao trabalho de restaurar os livros mais gastos e em mau estado. ou melhor. já não nas estantes destinadas à poesia. dos santos e dos anjos iam para a torre número três. Mas. iria para a torre número um. de que muito gostava. mesmo assim. na realidade. o único filho do marquês. claro. isto é. no seu castelo. vou ouvir com atenção até ao fim e depois conto-te tudo. sinto-o e estou desejosa de fazer perguntas. Começou a coleccionar livros ainda muito jovem. Não havia mais ninguém a não ser a cozinheira e essa. o marquês e o mordomo iam até à oficina e era lá que o marquês se dedicava à tarefa de catalogar os livros que tinha trazido. mas. mas.. A Bíblia.. Talvez esteja um pouco cansada ainda por causa do livro que acabou hoje de escrever. ler ajuda a afastar a tristeza! Assim foi vivendo até ficar muito velhinho e já lhe custar ler. Um livro de viagens também deveria ser guardado na torre número dois. a voltar a pô-los como eles eram no momento em que acabaram de ser feitos. Resolvi manter-me em silêncio. como é fácil de ver. o Marquês de Genciana. E o seu amor pelos livros cresceu depressa. à qual o marquês deu o nome de «Torre do Céu» e. Também. Não trazia tudo. portanto este trabalho de catalogar os livros levava muito mais tempo. ia visitar a livraria e procurava ver todas as novidades. Por exemplo. ficava cansado. foi isso mesmo que prometi fazer. porque.. prometo! . — Era um marquês biblionário — continua ela. uma das primeiras coisas que aprendeu a fazer quando era jovem foi a restaurar livros. e devo dizer-te que nessa torre há apenas livros para crianças e para jovens. Estes eram sempre colocados na torre número quatro.. O mordomo lia o melhor que sabia. Tenho o pressentimento de que a primeira parte da história deste castelo já foi contada. Tal como outros têm milhares e milhares de notas num banco. já não tenho tanta certeza. coitada. não se interessava pelos livros nem pela escola. mas nem por isso são em número inferior ao das outras torres do castelo. o marquês não gostava muito de o ouvir. o código de cada um deles indicava que se tratava de livros religiosos. tinham já partido para o Céu. por ser um homem muito forte. voltando ao nosso marquês. O marquês e sua mulher ficaram muito tristes. Gostava apenas das aulas de esgrima e tornou-se um atleta nessa modalidade. continuava a coleccionar livros de histórias para crianças. O castelo foi começando a ficar cada vez mais vazio de pessoas. Edmundo. olhando para mim. os escritores inventam palavras. de tal maneira que não podia ver nenhum maltratado. Infelizmente. os escritores escreviam à máquina ou mesmo à mão. iria para uma das estantes da torre número dois. Ou talvez se tivesse lembrado de alguém querido que também já tenha partido. Então. E. — As vezes. para ter a certeza de que não vou interrompê-la. porque uns tinham viajado para terras distantes e outros.. se se tratasse de um romance de aventuras. Quanto a mim. livros! Alguém que possui milhares e milhares de livros. voltava sempre cheio de livros novos. Assim. Exactamente! Este castelo foi a casa do marquês durante toda a sua vida. só o fazendo porque não via alternativa. até ser muito velhinho.. demorava muito mais tempo a ter um livro pronto para ir para as livrarias. o mordomo do castelo. e ele só conseguia animar-se lendo ou relendo um dos seus livros favoritos. aliás. que o acompanhava para todo o lado e. como a mulher do marquês. Sempre que descia a montanha para ir à cidade.

Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:28 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 2. Visita guiada 2 .

Uns grossos. — Ora isso já faz parte da história que quero contar-te — disse Teresa. há estantes repletas de livros! Provavelmente. porque. — Como vês — começou ela —. outros fininhos. porque é esse o seu trabalho. que vou já sentar-me ao teu lado. outras duas. Lá vou atrás dela. uma duquesa. a nova dona deste castelo. — E acrescento.. há um número idêntico de exemplares.— Que prazer receber uma visita! Já é raro. uma marquesa. — Oh. são muitas as histórias que poderia contar acerca deste castelo. acho óptimo! Gosto de me sentar confortavelmente num sofá bem fofo e macio. mal ela é aberta. daqueles onde podemos afundar-nos e ficar a magicar ou. acompanhando a escadaria mesmo até ao cimo.. — Espantoso! Vamos agora ver as outras torres? A actual dona do castelo concorda com um gesto de cabeça. há uma escadaria. alguns de cores escuras. tenho de mostrar algo de que ninguém parece estar à espera. Vem comigo. muitas centenas de livros.. sem parar de observar aquelas estantes que sobem do chão até ao cimo da altíssima torre cheia de livros: — Não fazia ideia de que poderia haver mais de mil livros numa só casa. — Todos diferentes?! — Sim.. quero dizer. fora de uma biblioteca daquelas que existem nas grandes cidades. Teresa explica-me: — Em cada uma das três torres restantes. parando na enorme portaria onde já estive. Pelos vistos. lá ao fundo.. E sugeriu: — Vamos agora regressar ao salão... enfim. digamos que é uma história que requer que nos sentemos confortavelmente. A terceira e a quarta torres têm o aspecto das anteriores e também estão a abarrotar de livros até ao cimo. Não sabia que podia haver tantos livros juntos.. uma condessa. uma baronesa. aqui neste castelo a abarrotar de livros. — Enfim... outros de cores claras e outros ainda quase sem cor. a ouvir uma história. porque é onde se encontram os sofás mais confortáveis.. — Quem comprou estes livros todos? — pergunto. Estou desejosa de ouvir Teresa. que são todos diferentes. Confesso que fiquei um pouco decepcionada por não estar antes a seguir uma rainha. Suponho que queres saber a história deste lugar. A anfitriã sorriu.. de cabeça voltada para o tecto. . claro. Por mim.. à esquerda. nos livros.. Mas senta-te. mas acho que vou escolher a que é para mim mais interessante.. Espero que a subida da montanha não tenha sido demasiado cansativa.. — Não sabia que era costume haver tantos livros num castelo. Encaminhamo-nos para a porta indicada e. todos diferentes. nem sequer uma baronesa. — Estou a ver que a história é longa — ponho-me a adivinhar... muito mais de mil. Mas o que é verdadeiramente extraordinário é que. a segunda torre é semelhante em tudo à primeira. Comecemos pela primeira porta da direita. Não é uma rainha. Do nosso lado direito. antes de começar a contar a história... nem uma duquesa.. estão duas portas e. Podes seguir-me. no meio de um espaço quadrangular. depara-se-nos uma enorme escadaria em caracol. a forma como vive. Percebo que estamos dentro de uma das quatro torres do castelo.. nos tempos que correm. sim. estava enganada. excepto. Lá vamos então. — Mas os que estamos a ver não são os únicos livros que há neste castelo! — Não?! Estou cada vez mais surpreendida. mas certamente saberá contar histórias. Teresa voltou a sorrir.. Conforme me foi dito. — Devem estar aqui mais de mil livros! — digo eu. sem conter a minha admiração. Eu sou Teresa.. Na verdade.

porque os outros.. segredos. mas tenho o pressentimento de que vai valer a pena. É isso mesmo que eu vou fazer. Lá no cimo. interessam-me muito menos.. Porém. sim. quem nele se atrever a entrar encontrará um mundo fantástico. do vale. Já decidi: vou ao castelo.Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:22 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 1 A Montanha Azul Começo por te falar de uma montanha que ganha nova cor em cada Primavera. ao ficar magicamente coberta de flores pequenas e azuladas — gencianas e campainhas. parecido com outros. há um castelo com um portão de madeira e ferro. E o Castelo da Montanha Azul... o que não é tarefa fácil. é preciso escalar a montanha. aqueles em que já ninguém mora. Quem o olhe aqui debaixo. Primeiro. cheio de mistérios. Lá vou eu! Olhando à direita e à esquerda vejo como são mesmo azuis as res que cobrem a terra! Acho que nunca tinha caminhado entre flores assim tão bonitas! Não é à toa que chamam a esta montanha a Montanha Azul! . e quatro torres que quase chegam ao céu. enigmas e muitas. Chegou o mês de Maio. muitas histórias para contar. É Primavera! A montanha está azul como os olhos dos anjos.. Sempre tive muita curiosidade em conhecer um castelo habitado... se quiseres fazer-me companhia nesta aventura. Tu podes seguir a minha trajectória. Acho que se pode ir bater ao portão do castelo e esperar que nos abram a porta.. apenas verá um castelo de pedra.

Deve ter acabado de escrever um livro. Parece-me que ouço o ruído de dedos num teclado.. que a meta é mais acima.. mas também é capaz de cansar um bocado.. Cheguei! Cá estou. certamente. em frente do portão. E muito maior do que parecia lá debaixo! Que estranho. Compreendo perfeitamente. a precisar de um pouco de óleo nas dobradiças.. A escritora precisa de ir descansar antes de falar comigo. Vou aproximar-me! Ah-ha. enquanto ela vai repousar um pouco. está aberto! Vamos entrar? Também ouviste ranger. sentada à escrivaninha. já calculava: é uma escritora... apesar de tão antigo e gasto! Está mesmo muito gasto! Quantos pés não devem ter já pisado este chão!. Escuta!.Ah! Dá mesmo vontade de respirar fundo. Na primeira sala à direita está alguém. já que tudo leva a crer que mora aqui. in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:18 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 19/NOV/2008 O Conto das três maçazinhas de oiro .. Escrever um livro deve ser muito interessante.. que este ar é muito mais puro do que aquele que respiramos lá em baixo. porque parece contente. na cidade. embora um pouco cansada. Vê só que portaria enorme! E como é bonito este chão de pedra.. finalmente... Pede-me delicadamente que espere no salão. Tão perto estou já do castelo que quase parece que vou chegar ao céu! Como é alta esta montanha! O melhor é não olhar para o lugar de onde vim.. Nem se pode comparar! E melhor continuar a subida. Assim farei. a pessoa indicada para falar deste castelo. E só um portão muito velho. E.. senão ainda posso ficar com tonturas.. aí onde te encontras? Não te assustes. Maria Teresa Maia Gonzalez. em frente de um computador.

ou um bocado de pão para o caminho? – Mais quero o pão – respondeu o filho mais velho. que lhe pareceram a ele só sete dias. e quando já ia perto de casa. – Mas vai senão quando. porque ninguém o tinha presenciado. porque nem idade tinha para se governar. e o pai que as repartisse por todos como quisesse. tu onde vais? – A ganhar a vida – respondeu o pequeno. esse a bem dizer nem sabia aonde ia. O mais pequeno. À vista disto. Quem me dera! – respondeu logo o rapazinho.. e no fim a ama mandouo embora. que nascia onde o pequeno estava enterrado! Cortou-a e fez uma flauta. que é a soldada. um pastor passa por ali. e responderam o mesmo os outros todos até ao sexto. Quando chegou a hora da partida. Mas daí a mês pouco mais. e cada um tomou por caminho diferente. sim senhora. filho. o pastor põe-na à boca. os dois desapareceram no ar. e vê uma cana muito viçosa e muito bonita. mais aos teus irmãos. Mas não as dês senão ao teu pai. O pai partiu uma fatia de pão e deu-a ao filho.. eu não tenho que vos dar. – Toma! Dá-as a teu pai. Chamou-os então. e a aparecida disse-lhe assim: – Queres tu justar-te comigo?. qual queres mais: a minha bênção. Queres? – Quero. então estamos justos! Mas olha lá que tens de me servir sete anos. ouviste? O pequeno foi-se logo embora muito contente. lembrou-se de os despedir todos por esse mundo fora. e o mais novo contou aos irmãos a boa ama que tinha encontrado. Mas ele respondeu que só as dava ao pai. Mas vai senão quando. à boamente. – mas qual não foi o espanto deles. e mostrou-lhes as três maçãzinhas. que tinha só sete anos. e muito crentes que o seu crime se não saberia. logo ali resolveram matá-lo e tirar-lhas depois. e punha-se a chorar já muito cansado. mas a ama era Nossa Senhora. e no fim dou-tos três maçãzinhas de oiro. e diz-lhe que é para te sustentar com elas. que haviam de chegar para ele e para os outros irmãos. quando viram que nem mesmo depois de morto arrancavam as maçãzinhas da mão do irmão?! Os dois resolveram então enterrar o pequeno. e disse-lhes assim: – Filhos. Saíram os rapazes. Os irmãos ficaram cegos com o brilho do oiro. e respondeu que mais queria a bênção. quero. – Tão pequenino?! Ele então contou-lhe o que se tinha passado com o pai mais com os outros irmãos. e disse-lhe o pai as mesmas palavras: – Vê lá. e logo ali rogaram muito ao mais pequeno que lhes desse a cada um sua maçãzinha. à procura de trabalho. Até que à boca da noite encontrou uma mulher muito bonita. e fez-lhe a mesma pergunta. e ganhe para o seu sustento. que se voltou para ele e disse-lhe assim: – Menino. mas por sinal ambos muito pobres. e deu-lhe as maçãzinhas do ajuste. Veio depois o mais novinho. e às vezes sentava-se debaixo de uma árvore. morto por dar ao pai as três maçãzinhas. – Sim senhora. E o pequeno foi algum tempo detrás da ama. qual queres mais: se o meu pão se a minha bênção. Os rapazes ficaram todos muito pensativos. encontrou dois que já tinham voltado. Os três puseram-se então a conversar. Toma. que se foi embora sempre a chorar. que logo em seguida se foi embora. Chamou depois o seguinte em idade. para que fossem procurar vida. filho. e a flauta impeça a dizer: . mas nenhum deles disse palavra. Como não tinha com que os manter. ou de algum amo para se apreitar. O pequeno pôs-se a chorar. e por isso é preciso que cada um de vós vá tratar da vida.Era uma vez um pai que tinha sete filhos. – A ver se encontro um amo para me apreitar. – E então quanto queres ganhar? – Eu. e como o irmão não queria dar as maçãs. – e o pai deitou a bênção ao filho mais novo. nem trabalho para lhes dar. e foram-se para casa depois de o enterrar. e se bem o pensaram melhor o fizeram. que eram três. o que me der! – Bem. e nem sequer trabalho. assim como uma nuvem de fogo! – O pequeno nem tinha desconfiado. o pai chamou o mais velho e disse-lhe assim: – Vê lá. e esse respondeu também que mais queria o pão. Por lá andou o pequeno sete anos. porque eu já estou muito velho e não posso mais.

A este tempo entrava na forja o pai do morto. porque. Mas como os filhos do velho eram sete e só dois é que tinham voltado. e a flauta diz logo assim: Toca. toca. e cava-que-cava mesmo no sítio. P’r amor de três maçãzinhas E ao cabo não nas levaram. O pai parece que o coração lhe adivinhou. abriu a mão e largou-as logo. toca. que andava no monte a fazer carvão. não foram capazes de lhe tirar as maçãs. que os levou onde tinha cortado a cana. inda mais espantado. e ela começa logo: Toca. e a flauta que entra logo a dizer: Toca. P'r amor de três maçãzinhas Que ao cabo não nas levaste! O rapaz ficou muito aterrado. ó meu pai. precisavam saber qual era o morto. e contou-lhe o caso. Levou a flauta o carvoeiro. O pastor ficou muito aterrado com o sucedido. Mal o ferreiro a pôs à boca. Por três maçãzinhas d’oiro E ao cabo não nas levaram. P’r amor de três maçãzinhas E ao cabo não nas levaram. e a primeira casa onde entrou foi a do ferreiro. mal o rapaz entra na forja. que ficou também muito admirado quando lhe contaram o que dizia a flauta! Pega também nela o pobre do velho e põe-se a soprar. ó ferreiro. Viu-se então que se tratava de um grande milagre. mas mal que o pai lhe tocou. O velho pôs-se muito branco. e foi-se dali onde a um carvoeiro. e viu-se-lhe logo na cara o sinal do crime. no meio de uma nuvem de fogo! Logo em seguida a terra abriu-se e engoliu os dois irmãos! Trindade Coelho. e logo ali contou o que tinha acontecido e mostrou-lhe a flauta. e a flauta tinha a virtude de falar. E ao cabo não nas levaram. pega na flauta e põe-se a soprar. Que meus irmãos me mataram. toca. P’r amor de três maçãzinhas. O carvoeiro. não tardou que aparecesse o corpo do pequeno. e. Que meus irmãos me mataram. a ver se lá plo povo adivinhavam aquilo. na boa fé. a flauta começou logo: Toca. Que tu mesmo me mataste. e numa das mãos as três maçãzinhas! Por mais que alguns fizeram. levados à presença do cadáver. carvoeiro. e que trazia carvão para aguçar umas ferramentas. ó pastor. toca. Ficou o carvoeiro que nem sabia donde era! E como estava de caminho para ir para a aldeia. Nessa ocasião entrava na frágua um dos filhos do velho. Foram-se então dali onde ao pastor. e acudiu-lhe logo que as palavras da flauta diziam respeito à sua família. Os meus amores Publicada por Helena em 5:30 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores 15/NOV/2008 Miura . toca. Que meus irmãos me mataram. que era um dos dois que já tinham voltado. Que meus irmãos me mataram. meu irmão.Toca. os dois irmãos confessaram o que se tinha passado – e logo ali apareceu a Virgem Santíssima e arrebatou para o céu o corpo do pequeno. dá-lhe a flauta para que a tocasse: – Toma! Toca essa flauta! Leva o rapaz a flauta à boca. pediu ao pastor que lha emprestasse.

Estremeceu. O ilimitado redil das noites luarentas. Nada. Depois. Os muros eram resistentes. Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido. um toiro nado e criado na lezíria ribatejana. pois. de gaiola como um passarinho. tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação. O bebedoiro da Terra-Velha. A planície!. a ruminar o tempo.. só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado.. e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco. empurrou as paredes do cubículo. Um som fino de corneta. Seria agora? Teria chegado.. Assobios.. desesperante. A fornalha escaldante.. loiro de sol e trigo. Foi a porta da esquerda que se abriu. passos incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco. a sua vez? Não chegara... sedante. sedenta. uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo.. com bocas mudas.. O Bronco não fazia bem o papel. o som grosso e pacífico das chocas. impedido de dar um passo. ele. ao lado. Novamente o silêncio. num desespero de Sansão. Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo... o rei da campina! A multidão calou-se. encurralado. Miura. . limpas. os homens. Um toque estranho. Ele. triste.. à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. inchado de raiva.... à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural. Dali a nada. com água limpa a espelhar os olhos. Começou a ouvir-se. A planície. enfim. fresco. ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais.. O descampado infinito. nostálgico. que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro..Fez um esforço. Estava. calou a praça e rarefez o curro. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria.. cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. O Malhado dava gozo às senhorias. Sem querer. Embora ardesse numa chama de fúria.. A planície. Palmas e música lá fora. condenado a divertir a multidão! Irreprimível..

Infelizmente. tornou a avançar. com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão. Olhava-a sem pestanejar. deramlhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez. Gritos da multidão. Um largo espaço assim. Admirado. Algum tempo depois. Um tapume redondo e. Com ar de quem joga a vida. Todo inteiro a escutar o dobre a finados. escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Pronto! A tremer como varas verdes. angustiados. Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo. Parou.Eh! boi! Eh! toiro! Tinha de ser. quase de voo. olímpica e ansiosamente. o manequim de lantejoulas caminhava sempre.Rápida e vaga. . não podia nada. Mas o homem que visou. ei-lo. até lhe não poder sair do domínio dos chifres. olhou à volta. doirado. sem acabar. porém. Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Olhou-o a frio. juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. Desgraçadamente. quando Miura o tinha já à distância dum arranco. num ímpeto. E. estava na arena. a nuvem vermelha apareceu. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. . À suprema humilhação de estar ali. Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo. cheio de lealdade. veio vindo. para se atrever assim a transpor a barreira? A figura franzina avançou. e uma ferroada fina. Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria. o fantasma. Assim nada o poderia salvar. funda. entrou no redondel. Inteiramente confiado. Que força traria no rosto mirrado. Pequenino. um tipo magro. de cólera e de angústia. O espectro doirado lá estava sempre.Miura! Cornudo! Dum salto todo muscular.Eh! boi! Eh! toiro! A multidão dava palmas. Tal e qual. e arqueou-se. gente. . Urinou sem querer. e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo. Agora! De novo. Cerrou os dentes. Apertou-se-lhe o coração. nas mãos amarelas. a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva. Miura olhava aquela fragilidade de dois pés. Silêncio. inesperadamente transfigurouse na confusão de uma nuvem vermelha. Cego daquele ludíbrio. gente. deram em cor. com ar de troça. novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim. Era preciso ver calmamente. Mais palmas ao dançarino. um rumor de tranca que cede. abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão. que atacou de frente. Nova picada no lombo. Mas por que razão o espetava daquela maneira? Três pancadas secas na porta. enfatuadamente o outro bateu o pé direito no chão e gritou: . O homem ia desafiá-lo certamente outra vez. Que papel ia representar? Que se pedia do seu ódio? Hesitante. que aparecia e desaparecia no mesmo instante. olhava-o como se olhasse um brinquedo inofensivo. Subitamente. onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido. Esperou. abrasado de não sabia que lume. gritos. Que seria? Palmas. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento. veio vindo. música. Os cornos ávidos. Não. do lado de lá. E de novo Miura gastou nela a explosão da sua dor. senhor de si. uma fresta que se alargou. entrou-lhe na carne viva. O senhor homem sabia bem quando e como as fazia.

o miserável saltava a vedação. Esperou. Mas quê! Como um gamo. sem dar tempo ao inimigo. num sofrimento sem limites. Apesar disso. Calmamente. espetou os chifres na tábua dura. Miura. Quê?! Pois poderia morrer ali. aparentava dar-lhe mais oportunidades. tornou a escarvar o chão. no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada. Não trouxesse ele o pano mágico. Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados. numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão. que arquejava ainda do outro lado. porém. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento? Subitamente. Avançou e bateu. como sempre na miragem enganadora. Talvez para exaltar a própria vaidade. as duas farpas que erguia nas mãos. escarvou a areia mais uma vez. Parou. como sempre. O homem! Mas o inimigo não desistia. com quanta alma pôde. desceu solitário à consciência do seu martírio. Nada. Passada a bruma que se lhe fez nos olhos. Miguel Torga. Humilhado. agora com as patas e com os galhos. Então?! Como não recebeu qualquer resposta. Desesperado. por isso. avançou. Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo. quase sem tino e a saber que era em vão que avançava. em algodão. Avançou de novo. Mas o outro estava escudado. em direcção à barriga do fugitivo. Iludido. outra vez. com o sangue a ferver-lhe nas veias. Apenas palmas ao actor. tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole. avançou quatro vezes. avançou. Renovou a investida. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda. Miura fitou-a bem. Mesmo assim. Protestos da assistência. Voltou à carga. O corpo fino do toureiro. morria.Eh! toiro! Eh! boi! Sem lhe dar tempo. dolorosas. que trazia também a nuvem. Se vinha sem a capa enfeitiçada. Lá vinha todo empertigado. Depois. Mas era um novo palhaço. Os Bichos Publicada por Helena em 5:54 Etiquetas: Miguel Torga: Os Bichos 14/NOV/2008 O coelho de jade . agora pequena e triangular. quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço. disposto a tudo. e lá saltava na arena outro farsante doirado. Desesperado. E. caiu sobre ele. num domínio perfeito de si. e a gritar como há pouco: . Deu. a lâmina oferecia-se inteira. urinou e roncou. Quem seria? Voltou-se. Lá levavam o moribundo em braços. a apontar dois pequenos paus coloridos. joguete nas mãos dum zé-ninguém! Num ímpeto. fugia-lhe por artes infernais. gritos. relanceou a vista pela plateia.Palmas. e veríamos! Não trazia. entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume. fundas. Ouviu uma voz que o chamava. lançou-se-lhe à figura. o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque. sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? Num último esforço.

Como se percebe. recusava a honra. assistente dos fracos. Quis conhecê-la. Olhem uma andorinha implume. apanhada pelo caminho da noite. coberta de modéstia. acorria com palavras de estímulo e amparo onde fosse preciso. produzia numa hora mais acções boas do que outros conseguem juntar num ano. Vinha a lebre e zumba! . Olhem a abelha trémula. aos saltos pelo mato. As cigarras zuniam ao calor da tarde. o mais belo de todos. pelo menos. Era o caso da lebre. o que tudo sabe porque escuta o coração dos seres e interpreta a notícia dos ventos. todos os seres animados se entendiam. A força do ânimo e do bem-fazer. é raridade. lá muito atrás de todos os séculos conhecidos. até. Que ela tinha muita força. ambulatória. Só sei que foi pena. houve um tempo de maravilha em que os homens entendiam a fala dos bichos. Vinha a lebre e zumba! carregava com ele até à beira do riacho.soprava-a para o cortiço. alcançavam o respeito dos demais. Exemplo semelhante não se encontra em parte alguma. os outros animais gratamente lhe davam o título de princesa. senão.repunha-a no conchego da asa materna. nesse tempo.Contaram-me que. caída do ninho. a espernear de aflição. por outras épocas e sítios. Quando e como deixaram de perceber o sussurro das formigas. desceu o declive da colina que a lebre habitava. Olhem um cachorro sequioso. Buda. Pois. Nela não havia fingimento.despegava-os da contenda e punha-os a balir a mesma canção de amizade. o apelo do gavião. desta lebre da nossa história. Sozinho e cansado da jornada. De uma vez em que andava por perto em visita aos seus discípulos. nos romances de cavalaria e não em todos. de língua encortiçada e pendente. cansados de uma luta de que já nem sabiam o porquê. Vinha a lebre e zumba! . Como tinha de benefício a rapidez. Lebre assim. com discursos de fugida e actos de raspão.virava-o para a terra. E alguns. o quei-xume do caracol ou o pausado discorrer dos tigres. quando e como os homens ensurdeceram às outras vozes da terra não sei. só entregue ao socorro alheio. Mas não a julguem lebre pregadora. Aos pés da colina encurvava-se o rio. Vinha a lebre e zumba! . Vinha a lebre e zumba! . Mas isso provinha da velocidade com que nascera para a vida. pela abundância das suas virtudes. na hora de semicerrar os olhos ao sol do meio-dia. Bichinho lesto. que os bichos do sítio supunham o único do mundo ou. ouviu o que de bom se contava da lebre. . Olhem dois carneiros de chifres encavalitados um no outro. Não senhor. Olhem um cágado de carapaça voltada. Bastava-lhe ser lebre sem mais quê. recurso dos aflitos. Ela. era uma lebre esmoler e piedosa. Buda estendeu-se à sombra de um penedo.

. Tenham piedade de mim . Mas. num impulso. exclamou.. a lebre ou o coelho tritura. E nós vamos deixar? perfilou-se a garça. Não podiam adivinhar que. Os restantes bichos recuaram. estendendo os braços. era de Buda que se aproximavam. à beira de muitos caminhos. retomando as forças de Buda. Trouxeram tudo de presente ao brâmane. Todos achavam o mesmo. Diante deles o desgraçado definhava. Buda adormeceu. a lebre. Piedade.Que tudo torne ao que era: o fogo em tronco seco e a bondade ao seu corpo vivo.. a imortalizaram numa imagem que ficou conhecida por «O coelho de jade».Estava a dormir na minha toca. sob aquele disfarce. Há muitas histórias de Buda que contam destes feitos. sacerdote mendigo. movida pela preocupação de acudir e abafar os excessos da Natureza. Descalço e esfarrapado pêlos espinheiros. erguendo os braços.. . .suplicava o brâmane. A garça pernalta em direcção ao rio.Quem acordou o fogo? .Está muito fraco. sabiamente. Estavam desolados.. o brâmane não tocou em nada. a lebre debruçou-se sobre o brâmane. Já as chamas rente a ela a cobiçavam. O brâmane também a fitava com estranha atenção. Devagarinho. Compadecida. . Daquela vez acordou transformado em brâmane. . acordar ainda com as vestes e as configurações do sonho. .Piedade.Piedade.sentenciou. . Quererá ele provar da minha? Perante o pânico da lontra. quando se deteve: . num almofariz. Ele que escolhesse. Tanta generosidade nunca se vira.Algum voto o proíbe de comer peixe. Sugeriu não sei qual: .perguntou o rato de água aos bichos da vizinhança. atraída pelo lume da fogueira. depois. O coitado não dura muito. ao grupo se juntou a lebre. Os seus companheiros de colina estavam paralisados de espanto. da garça e do rato.Faça-se um fogo para assar o peixe. . o brâmane. E eles não sabiam como valer-lhe.Piedade. a lebre ia lançar-se à fogueira.Carne de caça fresca é a da lebre.perguntou ela. Vasculhando pelas ramagens. Agora pasmem com o que lhe ocorreu: .. um dos bichos. .. remédio miraculoso contra todos os males.. A lontra em direcção aos seixos da margem. saltou para o meio delas. Os animais correram para a lebre num alvoroço de alegria. para surpresa deles. levantou-se e. Mas nem mesmo depois de cozinhados o brâmane os quis. Depois de ter limpo de si todos os parasitas. fruta. como se as chamas fossem um lago. a garça pescou um peixe. Assim se fez. de braços erguidos para o céu: . o brâmane causava pena. a lontra filou uma cobra.Não tenho o direito de sacrificar ao meu gesto os parasitas que me povoam o pêlo.. Precisa de comer carne de caça fresca para se salvar . recordando o feito da lebre. . em voz alta. sem uma hesitação nos passos. Ele que comesse.pensou.suplicava o brâmane. Se morrer. Tenham piedade de mim suplicou. E.Confortado com o que vira. ora um ora outro. De curtas patas dianteiras e longuíssimas patas posteriores. será de fome suspeitou a lontra. Acon-tecia-lhe no sono transmutar-se noutro e. Mais eis que.. E começou a catar-se. Conta ainda a lenda que os magos tauístas. Tenham piedade de mim . pendendo os braços.. os animais da colina iam-se chegando ao brâmane desolado. Nesse mesmo instante. para despelar a cobra. o «Elixir de jade». Via-se que aquele brâmane há muito que não conhecia abrigo nem pão. Levantando as pedras molhadas da beira-rio. quando o ouvi. Tenham piedade de mim . Logo ali se aplacou o fogo. Explicaram-lhe o sucedido e apontaram-lhe o brâmane moribundo. que desfalecia. para estalar os frutos. Então os bichos correram cada qual para seu lado. Esvoaçando sobre as águas. magicamente desperto da sua prostração.Como veio aqui ter? .suplicava o brâmane. A lebre fitou-os. o rato colheu frutos silvestres. Confrangia. encaminhou-se para a fogueira. O rato em direcção ao bosque.

Indique as principais vítimas das intempéries. de Hermann Hesse. Quem.. que trabalha. Seria bom. «as montanhas francesas». Após a leitura do conto «O Lobo». Talvez uns grãos de pó. em noites luarentas. Certamente. um Inverno rigoroso e inóspito. e no espaço. por desenfado. constatou que o narrador nos localiza no tempo da acção.Entretanto. . pesquisar a Lua com olhos indagadores há-de divisarlhe a silhueta debruçada sobre o almofariz. uns minúsculos grãos de pó se derramem do almofariz e caiam sobre a Terra. É ela. a lebre incansável. atente nos dois primeiros parágrafos. António Torrado Publicada por Helena em 4:04 Etiquetas: António Torrado 6/NOV/2008 O Lobo Leitura Orientada 1.. já Buda ordenara que à estóica lebre fosse concedido o panteão lunar. naquele espaço.

. "É um mundo onde uma certa -(. os pensamentos e sentimentos que dominam homens e animais. 3.1.2. 6. Aplica o mesmo modelo às histórias em que os narradores são também personagens. 4. Explique a atitude das pessoas quando sentiram a presença do trio de «intrusos» na sua região. 1. Se preferir. «Ninguém reparou na beleza da floresta coberta de neve." 2.1. Identifique dois recursos estilísticos presentes no excerto. 7. nem na Lua vermelha pendurada por cima do Chasseral. Contudo. Publicada por Helena em 15:52 Etiquetas: Fichas. que evidenciem o sofrimento do lobo.1. 6.1. . AS PERSONAGENS 1. 2. nos cristais de neve e nos olhos mortiços do lobo abatido. Delimite.1. Que concluis quanto às possibilidades de existência real desse espaço? 2. Sublinha no texto as frases que situam a acção no tempo e no espaço.2.1. cuja fraca luz se quebrava nos canos das espingardas.2. O que significa a palavra coexistência? 2. 5. nesta breve história. 3.2.3. percepcionamos. Explique. nem no brilho do planalto. Cada história tem as suas personagens. há um grupo de animais que decide emigrar. 7. Descreva o grupo que se dirigiu para o Jura suíço. 1. Releia os dois Transcreva excertos do texto Esclareça a oposição entre a últimos parágrafos do texto. 3. Indique as marcas linguísticas que lhe permitiram concluir que se encontra perante uma pausa na acção ou face a um momento em que a acção progride. Face ao clima inóspito. presente e até futuro. 2.2.2. Identifique-o. Escreva um breve texto. 8. de cinquenta a sessenta palavras.1. classifica as personagens da história do ladrão.2.1. dor do animal e o júbilo das pessoas. o segmento textual transcrito. 2.1. O TEMPO / O ESPAÇO 2. 2. O narrador não reproduz o discurso das personagens através do discurso directo. é possível. Decifre a possível simbologia da alcateia. escreva o diálogo entre a alcateia faminta e desprotegida.) -coexistência de passado. Herman Hesse 29/OUT/2008 Os Parâmetros da Vida Leitura orientada A compreensão do texto 1.4.2. 2.1. Considerando a classificação de personagens em principais.1. secundárias e figurantes. 2. Quer então esta frase dizer que este é um mundo onde: -coisas de diferentes épocas se podem passar ao mesmo tempo D -se pode viajar para o passado e para o futuro D -se pode antecipar o futuro D -num determinado momento se podem juntar . Imagine um possível diálogo entre os camponeses que perseguiram o lobo.» 4.1. um segmento descritivo e um segmento narrativo. 4. no conto. no qual apresente a sua impressão sobre o conto «O Lobo». Esclareça a situação que originou o massacre dos animais.2. por palavras suas.1.

a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente: . O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias. . na sebe de marmeleiros.4. Mas à volta. a alcoviteira. na margem do texto.. como se alguém rasgasse um pano cru.. Cucu. desesperada: . Publicada por Helena em 11:35 Etiquetas: Fichas.. De parada.Ouvirias mal!. maroto. e prometera levá-la à igreja logo a seguir. viu. rijo e comprido. há rãs. que a seu lado sachava milho. Pela leitura do texto. 4. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. e gritou-lhe aos ouvidos. Maria Isabel Barreno Farrusco Dentro da poça do Lenteiro. em que pessoa te aparece a maior parte dos verbos? 4..1..2. Vais anotar. pois. Compara a maneira de contar do narrador ausente e a do(s) narradore(s) presente(s) quanto à objectividade ou subjectividade das respectivas narrações. olhou de lá.Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem. que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. . a natureza animou-se. Na leitura que fizeste apercebeste-te que estás diante de várias histórias que de algum modo se ligam entre si..3..pessoas (Escolhe do a passado resposta que e consideres do mais futuro D adequada. Naquela água coberta de agriões e de juncos moram centenas delas.1. Três anos! A moça ficou varada.> 3. E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada.1. Quando a narração é feita por um narrador ausente. silva-macha e alecrim.1. em certo entardecer de Agosto. A HISTÓRIA 3. 4. Que significava. E quando o narrador é presente? 4. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas.2. o melro. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente. apercebeste-te. Que verificaste? 4.Cuco do Minho. 4. chegou-se à Isaura. Nada mais do que isso. Sabe-se isso desde que.1. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço. que há vários narradores: narrador ausente e dois narradores presentes. cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira? A rapariga era toda ela de se comer. as entradas respectivas de cada tipo de narrador através do pronome pessoal que o identifica. mouca como um soco.Cucu. Que histórias? Quem as conta? 4.1. Mas o bastante para mudar o sinal do desencanto. Cucu. Faz agora corresponder o pronome pessoal que indica o narrador presente à persona. O NARRADOR 4. vive Farrusco. e respondeu: .. com certeza. no silêncio da tarde serena.Ora vê?! Que lhe dizia eu? A Isaura nem queria acreditar. semelhante demora? Aflita.gem (ou personagens) que ela representa. E o cuco.3. .

Chamadas por aquela volatina. e quanta arraia miúda tinha fala. os saudáveis. novamente solidário com os direitos da moça. comprometida. passou pelas penas luzidias de Farrusco. Miguel Torga. arrastada pela onda de harmonia. Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais.. imaginárias.. Para uns essa linha parece longínqua. deitado na cama dura. . naquele instante. Pela manhã. pronto para comer a bicharada da veiga. £ de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro. os descuidados -outros sentemse apertados dentro de muralhas asfixiantes. sonolenta do calor do dia. no ar de coisa sã que toda ela ressumava. que partiu da verdura do milhão. um rapaz triste. muito pelo contrário.. um ângulo de alguns graus inflectido. que tão factual e foneticamente se revelou imaginária. e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. confiante. Ele não está separado deste agora em que vos falo. o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu. Desapontada. Sim. a que chamais vosso. espartana. a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. Uma Linha Maginot.. velho contador de histórias e que disso fiz profissão.. que enchia o mundo de confiança. Depois continuou tudo a cantar.Cucu. por isso.. ela teve sua plena realidade e acontecer num mundo ligeiramente lateral àquele que conheceis: um mundo que faz com este. e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Os Bichos Publicada por Helena em 5:53 Etiquetas: Miguel Torga: Os Bichos 26/OUT/2008 Os parâmetros da vida A linha da rotina diária necessária à sobrevivência instala-se. Acontece que ela não se passou neste mundo. E quando a noite se aproximou disposta a selar com negrura aquela tristeza humana. cósmico e fraterno. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. Cucu. em boa parte. Antes de me adiantar. ou porque o mundo. pressurosos. Assim pensava ele e era. Mas o lusco-fusco começava a empoeirar o céu.Cuco do Minho. por certos eixos e fortificações. ainda o sol vinha lá para Galegos. Deixando a imaginação -por agora.. Cucu. tia Isaura! Até um melro se riu!. que a rapariga ganhou ânimo. as cegarregas. . Clara. se alguma tola de Vilar de Celas se fiasse outra vez no aldrabão do cuco. deixou correr as horas. falava.. situada no presente. apelou da sentença: . se há pouco fora cruel. Depois. porque ela nunca nos deixa a nós e voltando ao tema que me propus. Ou vice-versa. Um coro imenso.. . os grilos.O estafermo do cuco.. honesta. falava. a passarada. saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão. eu. quero hoje contar-vos a história dum rapaz cuja linha de sobrevivência era estrita e rigorosa.Riem-se de tudo.. prometedora.A própria terra. foi preciso que Farrusco. poderemos figurar esta questão como uma linha militar de defesas contra o inimigo . e sorriu. mas com um sabor antigo nos seus pormenores. É um mundo onde uma certa -mas não total -coexistência de . a Isaura. simples. Discordância de tal maneira fresca. A vida que lhe ensinara a mãe. juntou a sua alegria à alegria do melro. A esta. A vida homenageava a vida. sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. na força criadora das margaridas abonadas. desta vez requintou. E. Soltou então também uma risada cristalina. cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira? O que foste fazer! O malandro do pitoniso. num amuo justificado.. juntaram-se logo. A seu lado. Pôs os olhos em si. os ralos. as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. e rir de novo. quase perdida no horizonte dum grande espaço cheio de liberdade e de caprichosos ricos. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. não lhe consentia luxos de noitadas. esses diabos. era um orfeão aberto. passando.a morte. Cucu. acordou. Às rãs. Sim. Ou de propósito. esta história. sadia. esclareço ainda uma outra coisa: parecerá estranha. as nossas linhas de sobrevivência são. e Farrusco ia fechando docemente os olhos. já ele tinha de estar de perna à vela. que tinha garantido o noivado a curto prazo. pelo menos tal como o conhecem.

Sabedorias que aprendi. o ladrão caíu e resvalou quase até ao fundo do precipício. absorção de todos os possíveis. irremediavelmente coxa e dolorosa. Tinha nascido de pais que. herdou o negócio do sogro. responderam-lhe. O pano negro era o espaço que separava quem falava e quem escutava. Mais do que indignados. Algumas pessoas revoltavam-se com a história. também. como sempre faço. Não necessariamente pior. disse aos filhos: aceitem os vossos destinos. desesperados: o ladrão roubara-os vezes sem conta. prisão improvisada. um rectângulo nem muito pequeno nem muito grande. mais do que isso. sozinho. não sendo ricos. muita gente passava. que chame a atenção para não ser pisado. magro. quando uma noite fugia.passado. sua evidência. eles fugiam da miséria. um mundo que contém este. que conseguiu rastejar penosamente ao longo da ravina. Uma víbora. dizia eu. perguntou o que se passava. foi dito depois. Morreu. Apenas o susteve um penhasco agudo. Era dia de mercado. muitos anos depois. Estas julgam geralmente que o pano preto apenas se destina a recolher as moedas e assim fixam o seu olhar naquele rectângulo. Tudo necessita duma infra-estrutura. contando o dinheiro. tão querido e tão absolutamente limitado. Sim. Qualquer coisa espantou o animal. O que parece uma desgraça. mas ninguém viu tal víbora ou seu rasto. junto à fonte. o coxo ladrão aceitou os acontecimentos. Eu chamei-lhe velho idiota e afastei-me. com o olhar das pessoas. Com um sorriso amargo perguntou-me: achas então que o sofrimento torna as pessoas boas? E eu disse-lhe que não. Há muitas causas misteriosas neste mundo e não vale a pena determo-nos sobre elas. que o tornou seu ajudante. Caiu do cavalo. em paz. O ladrão aceitou tudo isto. Os perseguidores perscrutaram as sombras dos fundos. Mas com o andar do tempo foi acreditando no significado da sua própria presença ali. Ainda adolescente. que considerais vosso. o rectângulo destinava-se à recolha de moedas. raízes e até de caules lenhosos. Pois conheci esse rapaz num dia igual a muitos outros. por isso tinham superado o medo e estavam dispostos à morte. planeando. com os mestres e com a vida. Este. o ladrão coxo foi acolhido por um alfaiate. sem cavalo. seu significado. E antes de morrer. Mas. embrenhou-se por um córrego na encosta dum fundo precipício. O ladrão saiu do desfiladeiro. é possível. coxeando. refrescando-se no intervalo ou no fim das compras. Decidiram que era impossível procurar o ladrão naquela ravina quase a pique. A queda salvou-o da morte. que conhecia bem todos os caminhos e sítios desertos. pretender desmentir o que fora predito e acontecera? Como várias outras pessoas de similar experiência. Ainda perplexo. bebendo das águas furiosas do fundo. Como poderia ele. com gritos de boas-vindas e hossanas. alimentando-se de bagas. Chegou a uma aldeia distante e as pessoas juntavam-se à sua volta. Casou com a filha do alfaiate que era feia e dedicada. dias e dias. sua ou do ladrão. decidiram que certamente ele tinha morrido. julgando responder inteiramente ao seu apelo com essa esmola para a voz que ouvem com mais ou menos atenção. Eu sentara-me na praça. torta. bebendo água. muita gente se atardava. não necessariamente melhor. os meus pais . foi acreditando na profecia. coxeando. perseguido por homens indignados. Caminhou para longe. Eu começara a contar a história dum salteador de estradas que um dia sofrera um grande desastre. A vida dum coxo não é igual à de quem tem duas pernas sãs. considerando uma honra albergar aquele que fora anunciado. empestando os caminhos daquela região. por muito longa que fosse a agonia. pode não ser. Teve filhos. vazio intermédio. Admirado. Reconhecemos-te. ajudando todos os que querem fugir do mal. Eu estendera o pano preto à minha frente. Poderia ser branco. A queda quebrou a perna direita do ladrão. sem aptidão para saltear nas estradas. diz uma velha profecia que um dia chegarias. pelo menos não sairia dali com vida. viviam desafogadamente. Achavam injusto que um ladrão morresse feliz e em paz. perseguindo o ladrão. pensando nas vantagens imediatas: cama e comida garantidas. O cavalo empinou-se. era um adereço. Foi então que se aproximou o rapaz triste. Em baixo corriam águas negras e apenas alguns penhascos e árvores raquíticas separavam o galope do cavalo daquelas águas furiosas. Nada torna as pessoas boas a não ser elas próprias. presente e até futuro. tive uma infância feliz. Outras comoviam-se e diziam que Deus é bom e tudo depende de nós aceitarmos as suas oportunidades. desistindo de opiniões próprias. a não ser quando elas nos chamam e se revelam. era saudável. Para não ser demasiado pomposo direi que o pano rectangular era o necessário ritual. mas que não crie também a interrogação hostil dum espaço grande que obrigue ao desvio dos itinerários naturais. A perna soldou. e foi feliz. sempre assim aconteceu com as minhas histórias. Pai dos arrependidos.

morreram. com grandes sacrifícios económicos. um dia. julgam desencorajá-la. que tanto te desagradaram. Sempre rectos. Não é vantagem. O meu tio e os meus primos trataram-me o melhor possível. Até que um dia saí de casa. e eu insistia que a questão não era essa. ou fingiu que não. Esta curou-se. Achariam mesmo que O meu propósito não era ir-me embora. Eu pensava: talvez morra. Resumindo o nosso estranho diálogo. concluí eu. em que as linhas se cruzam e dão situações invertidas. E que comendo pouco. disse uma voz no meio da . O que quer dizer? Que as boas acções não dão bons resultados? Quer dizer que os resultados das acções permanecem secretos. durmo onde calha: o meu mal agrava-se de dia para dia. Mais algum tempo fiquei com o meu tio e os meus primos. disse uma mulher da assistência. esta se julgará chamada e avançará com mais rapidez. e tenho dois filhos. poucos trabalhos posso fazer. a necessidade de que tal injustiça fosse reparada por mim. No fim. apenas com sentido do dever. pois que parecia essa a única solução. O meu tio insistia em contar-me quanto lhe custava alimentar-me. Nada mais acrescentava. sem nada dizer a meu tio ou aos meus primos. poderia ter sido outra espécie de desespero? A mulher má foi salva e continuou má. e achava que seria uma boa solução. Consegui que aceitasse o jantar adequado à sua dieta. mas úteis. Foi tudo isto o que eu não contei ao velho idiota que contava histórias sobre os benefícios da adversidade. Mas era muito novo. mas também não vejo outra solução. Fiz planos. A vida tem situações destas. Como o que calha. sempre falando dos esforços redobrados a que eram obrigados por minha causa. Podemos sempre tornar pior a sorte. à qual ele se sentia obrigado. e não conseguia trabalhar para ganhar o suficiente para comer os alimentos de que realmente necessitava. excepto pelo ódio e pelas mãos feias. Não interessa o que eu quero. Que história tão estúpida. Isto acontece com muita frequência entre as pessoas: julgam que. Desde aí tenho andado à deriva. Tenho poucas forças para trabalhar. mas ele não me ouviu. Não sou rico. Mas fiquei com uma doença incurável: para sobreviver em condições satisfatórias teria que fazer uma dieta rigorosa e cara. ou a infelicidade do rapaz era tal que ele nem se atrevia a dizer o nome da sua doença. disseme o velho. ficando mesmo com ódio especial em relação àquela que a salvara. ao fim de longo sofrimento: ficou com as mãos feias. dizendo o nome da doença. ele contou-me que comia pouco para que não se agravasse o mal que lhe atacava as entranhas. Ele dizia-me não vale a pena. desta vez contando a história da mulher que queimara as mãos ao tentar salvar das chamas uma vizinha maldosa que lançara fogo à própria casa --ao tentar fazer um bruxedo contra alguém. mas o que eu posso. Se falasse. nem a mim nem a ninguém. Aí é que tu te enganas. Deixei-lhes uma carta agradecendo tudo o que haviam feito por mim. prejudicando os próprios filhos. E a nossa conversa acabou aí. respondi-lhe. Fui viver com um tio. eles sentir-se-iam na obrigação de me forçar a ficar. o seu desejo de sobrevivência oscilava. pagar-me alguns estudos. Entre o comer pouco para sobreviver e não sobreviver por comer mal. muito pouco. A minha ansiedade tornou-se muito grande e eu adoeci gravemente. À noite encontrei-o na estalagem. Fiquei muito impressionado. A única solução era eu partir sem nada dizer e deixá-los a lamentar a minha ingratidão na minha ausência: estaria então cumprido o dever deles. O que quer você afinal? Perguntei-lhe. Sobretudo se insistirmos em nos sentirmos desgraçados. um jantar. Em médicos e remédios se gastaram todas as poucas economias do meu tio. Uma forma de cumprir o meu desejo de desaparecer. assistindo aos seus óbvios sacrifícios. Insisti para que nessa noite o rapaz comesse aquilo de que necessitava. como os raios de luz se cruzam e invertem as imagens. dizia-me. Reparte comigo o produto das minhas histórias. O rapaz encolheu os ombros e disse que comia pouco. é necessidade. Resolvi desaparecer. Talvez seja uma vantagem. Aparentemente tudo ficou na mesma. Quando o rapaz se afastou. não adianta. Vários meses se passaram sem que eu o visse. Todo o dinheiro que vou conseguindo arranjar reparto entre vocês os três. Poucos trabalhos sei fazer. e eu sentia aquilo que ele queria que eu sentisse: a injustiça daquela igualdade. Mas que poderia eu fazer? A minha existência era. agradeceu-me e eu respondi-lhe que não me devia agradecimentos. homem nem bom nem mau. eu chamei-o. porque as pessoas fazem o que querem. Ele disse que não valia a pena discutir comigo e despediu-se. mas obrigá-los a insistir para que ficasse junto deles. vestir-me. que temos. só por si. Não sei se é isso que quero. Fiz planos. e convidei-o para jantar comigo. De novo eu estava na praça do mercado. má ou boa. e eu não morri. ficava fraco. diziam. misteriosamente. igualmente. Acho que em breve morrerei. não tinha experiência de vida nem certeza quanto à forma de ganhar dinheiro. respondi-lhe. O medo. disse-lhe. ignorando-a. causa de um desequilíbrio.

In O Enviado Publicada por Helena em 11:29 Etiquetas: Maria Isabel Barreno 25/OUT/2008 Vicente . E eu não compreendia como fora possível a minha cegueira. ou tomar banho. Por isso pôde contar-me tudo o que lhe acontecera. Era o rapaz. o rapaz sorria. Tal como a sua dieta. repeti com alegria. certamente que o perderemos. Encontrou assim um trabalho de que gostava. tomaram-no por um sábio. Medo de não cumprir o que consideravam um dever. esperando um milagre. E eu olhava aquelas três criaturas. órfão e abandonado que um dia encontra uma benfeitora que o ama perdidamente. Fitando o negro. justos e edificantes. é uma coisa que me obriga a uma rotina diária. Um mundo onde os narradores se misturam. nem mais nem menos penosa do que comer como todos fazem. naturalmente que esse trabalho estava também dentro das suas forças. ou lavar os dentes. depois de uma infância triste e de uma juventude doentia. e beijei-o. tentando escutar as queixas ou alegrias do seu corpo. atento também às reacções dos outros. aos outros. podem ser visitados. por exemplo. mesmo os mais subjectivos. longínqua a necessidade. temos todos uma doença incurável: aproximamo-nos da morte todos os dias. Passei um mau período. e tive medo de piorar ainda a minha sorte. Foi a partir daí que as pessoas passaram a acreditar que o rectângulo de pano preto não servia apenas para recolher esmolas. Eu soube que ele estava curado. e matou-se num desastre. É possível que sim: que tenha havido uma cura. não encontrava final satisfatório. Colocava o rectângulo preto à sua frente porque isso lhe recordava o velho -agora grata memória -e lhe facilitava a concentração. Depois a benfeitora adoeceu e o rapaz tratou-a com desvelo incomparável. Contava. Ajustou-se mais ao seu corpo. Maria Isabel Barreno. tudo passou a ser condição natural da sua existência. Que a felicidade não dura. e compreendia quanto eram tímidos e inseguros: apenas haviam temido que eu não os notasse. Estava curado: quero dizer. Queixavam-se porque tinham medo. e miraculosa. Esta é a minha própria história. Medo da vida. deixando uma esmola. até que compreendi que o medo não ajuda a sorte de ninguém. do não ser ao ser? É neste mundo de onde vos falo que se situa a fonte dos milagres. Tornou-se meu ajudante. onde o tempo não tem sentido único. as histórias também. E depois? Perguntava quem o escutava. diziam. Ele comoveu-se muito e chorou abraçado a mim. Bem vistas as coisas. Que grande alegria deste a nosso pai. Para fugir do medo comecei a contar histórias: a mim próprio. aproximou-se de mim. Perdi o medo: se não cuidamos do nosso património de felicidade. a história do menino infeliz. juntando-me a um velho sonho. Contou então que o menino cresceu rico e descuidado. Como eu me tornei um contador de histórias. A minha doença foi um aviso. O jovem inventava vários finais para a história. a quem detestara por me contarem o que faziam por mim. e eu reinterpretei toda a minha história. mas que tinha qualidades mágicas. Não é todo o crescimento uma miraculosa cura. Tão descuidado que achava longínquo o perigo. Fui visitar meu tio. indignando-se. que é perdidamente generosa. que eu não notasse a sua dedicação. O que queres provar. mas os seus ouvintes maçavam-se. as palavras surgiam. que ficaram igualmente contentes por me verem. que lhe parecera tão terrível. As pessoas ficavam então junto dele discutindo o final. onde todos os espaços. e todos os dias temos de tentar prolongar um pouco mais o nosso trajecto. Quando as pessoas tocavam esse rectângulo. que a riqueza é um mal? Davam-lhe também dinheiro ou comida. Percebeu que a reacção dos ouvintes eram o sinal da verdade da história -da falta de verdade. Chegou a contar esta história em verso. desenfreadamente o guiava. Entraram então meus primos. quieto e calado. diziam.multidão. Depois viveram felizes para sempre. Mas como ele comia frugalmente e ficava sentado. Recordei muitas vezes o que me disseste. O rapaz aprendeu a contar histórias. Comprou um carro de corrida. Resolvi então vir ter contigo. com acompanhamento musical. a minha doença já não é uma limitação terrível.

temerário. de irreprimível repulsa. indecisa. enfim.Vicente!... mais crescia a revolta de Vicente. porém.. a voz de Deus: .. e reduzia a uma pura passividade vegetativa o resíduo da matéria palpitante. uma mortalha de silêncio. . integrado na leva dos escolhidos. superar o instinto da própria conservação.. Nada. Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado.. à mercê da primeira subversão. apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Em semelhante balbúrdia . . Ninguém o viu? Procurem-no! Nem uma resposta. bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão. Em que sítio é que ele se meteu? Até que alguém. viram-no. titubeante. onde está o meu servo Vicente? Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados. Voou. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo.a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens. compadecido da mísera pequenez daquela natureza. A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Quarenta dias. A criação inteira parecia muda.Fugiu?! Fugiu como? . Mas a divina autoridade não podia continuar assim. Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!. como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. era homem. Conseguira. Vicente abriu as asas negras e partiu. à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro. Noé.Fugiu. larga como um trovão. Novamente o Senhor paralisara as consciências e o instinto. . na Arca. De repente. . como tal. numa severidade tonitruante. . sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate. quanto mais inexorável se mostrava a prepotência. Quarenta dias eram já decorridos desde que. desceu.. e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar. penetrante como um raio. andava de cá para lá numa agitação contínua.. como que passou. pesada.. porém. Sobre o tombadilho varrido de ilusões. Numa indignação silenciosa. depois. Calado e carrancudo. E. um estremecimento de hesitação. Mas ninguém disse nada.Noé. que o Criador queria punir? Justos ou injustos.lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino -. terrível. por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. de peito aberto.Naquela tarde. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso. atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Pasmados e deslumbrados. os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo. E. O instante de perplexidade durou apenas um instante.Deve andar por aí.. perguntava: .Vicente! Vicente!. pôs fim à comédia.Vicente fugiu. Pelas mãos invisíveis de quem comandava as fúrias. Mas pudera vencer-se.. aprestou as armas de defesa. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e. . dera entrada na Arca. e já do alto.. A consciência em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados. a carne fraca o prendeu ali. rápido.

sereno. A mim não me pesa a consciência de o ter ofendido. ou. suavemente. dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia. um lince de visão mais penetrante viu terra.a total autonomia da criatura em relação ao criador -. como que movida por uma força misteriosa.Noé. e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. medonha. cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino. e nada mais importava e tinha sentido. E salva-o. Entretanto. a Arca ia virando de rumo. gritada a medo. como tu mandaste.. Nem mesmo a macicez tranquilizadora dum monte. nem desertos. apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente. A palavra. Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. Restava dele apenas o topo. para exemplo? Ou que iria fazer? E teria Vicente resistido à fúria do vendaval. Encarnava a própria realidade deles. o choro desesperado do Patriarca. ia diminuindo. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. porém. ninguém podia lutar contra a determinação de Deus. comandados pela sua implacável tirania. seguiuse um silêncio mais terrível ainda. só o guardei a ele. os corações apertavam-se num sentimento de revolta impotente. Mas perdoa-lhe. Mas o filho? Mas Vicente. este dilema. apressada e firme . Subitamente. se vencera tudo. e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco . Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo. e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Apenas a crista de um cerro a emergir das vagas.. no alvoroço grato e alentador de haver ainda chão firme neste pobre universo. E a seguir. A defendê-la e a defender Vicente. as águas cresciam sempre.. recortada no horizonte. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião? Horas e horas a Arca navegou assim. único representante do que era raiz plantada no seu justo meio. no vácuo em que tudo parecia mergulhado. Foi a sua pura insubmissão que o levou. sobre o qual. mas estavam «rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu»! E homens e animais. existia ainda o ventre quente da mãe. que até os mais confiados a fixavam ansiosamente... como a defendê-la da voragem. e era ao mesmo tempo um perfil de vontade. Ninguém o maltratou aqui.. Para quantos o viam. como que guiada por um piloto encoberto. o teu servo Vicente evadiu-se. Palmo a palmo. Ah. Como um espectador impessoal. E. sim. Terra! Uma minúscula ilha de solidez no meio dum abismo movediço. vivia. E toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima.. seguia a Arca que vinha subindo com a maré.. Escolhera a liberdade. Mas bastava. submerso o ponto de apoio. E a palavra de Deus.. a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Transida. Olhava a barca.. Terra. morria Vicente. começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. ao convés. Terra! Desgraçadamente. linha severa que limitava um corpo. ouvia-se.. Depois.. o legítimo fruto daquele seio? Vicente. e o tempo passava. . impávido. nem veigas. Chegara! Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada. Terra! Nem planaltos. a que paragens arribara? Em que sítio do universo havia ainda um retalho de esperança? Ninguém dava resposta às próprias perguntas. pura e simplesmente. . E no espírito claro ou brumoso de cada um.Noé!. que tinha então seiscentos anos de idade.. trémulo e confuso. de segundo a segundo. Simplesmente. À medida que a barca se aproximava. Noé!.ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas -. Os olhos cravavam-se na distância. ou de lhe haver negado a ração devida. foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia. a doçura do nome trazia em si um travor. correu a Arca de lês a lês como um perfume.. onde está o meu servo Vicente? Acordado do desmaio poltrão. por parecer ou miragem ou blasfémia. carregada de incertezas e terror. o cabeço fora devorado. negro. infantil. Não. permanecia Vicente. Sim. e o pequeno outeiro. Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos. que. Noé tentou justificar-se. toou de novo pelo deserto infinito do firmamento.Senhor. Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. mas para encarar de frente a degradação que recusara. Terra! Mas uma porção de tal modo exígua. à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E. o pequeno penhasco resumia a grandeza do mundo. e perdoa-me também a mim. . até ali transfigurados em meros fantasmas flutuantes.

desafiava a omnipotência. Os Bichos Publicada por Helena em 5:57 Etiquetas: Miguel Torga: Os Bichos A Sombra A um dia assim como o de hoje costumo chamar. de poeta em férias. num arranco de fim. Pois foi precisamente hoje – dia de sol. logo pressenti o desconcerto do dia. E tu vale-me também. no meu calão.. com pinchos de tonta. A morte temia a morte. Não consinto que venhas. Até cheira mal!. Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. seiva de seiva. o coração frágil da Arca. Foi precisamente hoje que todos vieram para a rua com tempestades por dentro. nesta idade. já não ia só. Tenho muita pena. fechava.. saltitava uma velhota de farripas e chinelos rotos. o desabar de mil universos num quarto sem janelas). pé ante pé. pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural. e tapa-me bem os ouvidos para não voltar a escutar mais confidências lastimosas nem carpires de dramas à guitarra. Colada ao meu silêncio. como relâmpagos negros nos olhos sorumbáticos e trovões no furor justo daquela mulher. sub-repticiamente. velha dos diabos! Hoje faz sol. enrolada num xaile com rendas de miséria. etc. calma e obstinadamente. melancolicamente. de árvores azuis. bem visível nesta nãocoincidência do azul do céu com as carantonhas de palmo e meio das pessoas que me acotovelavam na rua. num estoirar de trovoada interior a rasar as almas de lés a lés. aos berros para uma senhorita encostada ao parapeito da janela do seu terceiro andar com os braços papudos de nada fazer: – Se quiser. esmagar-me o coração com essa mão encarquilhada de pobre velha que nunca teve céu azul. Miguel Torga. as ruas riscam-se da rapidez das sombras.. a alegria canta nas águas das mangueiras dos regadores das ruas e não quero passar todo o dia com o peso do teu menino ao colo dentro de mim. luz e árvores com flores azuis no Largo do Rato. Anjo da Fleuma... lastimo muito o teu pequenino drama (para ti. Quem é o 26? Sei lá! – Sou o 26 da 4. há céu azul. Agora. em que me apetecia apenas existir como uma coisa qualquer a vegetar ao sol. respiração. lambeu as garras do corvo. que. com uma criança de mama ao colo. E disfarçadamente mirei-me no espelho lateral duma montra... pá? . de giga à cabeça. Três vezes uma onda alta. Uma serenidade tépida cinge toda esta paisagem de trapeiras e de ceroulas a secarem ao sol numa sinfonia natural de cores. para salvar a sua própria obra. de andorinhas. Mas não cheguei a qualquer conclusão. A cada vaga. avulta mais os vincos desta bendita cara de pau que repele os homens. dia «incoincidente». Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre. Logo hoje. Coitadinha! Está no hospital toda podre. minha rica. é que encontrei o 26.. mas falava-me com esse à-vontade dos velhos que já não perdem tempo a fazer cerimónias com a vida: – Veja o que a minha filhinha me deixou nos braços. as árvores escorrem verde e chilreios de pássaros. – que os homens resolveram não coincidir com a natureza. venha cá a baixo. Não me conhecia. sua gulosa! Mal deitei o nariz fora da porta. talvez. «A minha também deve estar de meter medo» – pensei. Que. mas três vezes recuou. não! Hoje não me comoves. Sangue.ª B do Liceu de Camões. era aquele corvo negro.. estremeceu de terror. molhado da cabeça aos pés. pombas. Ah.Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. mas basta. Limitei-me a verificar mais uma vez o espanto de trazer por fora um ser tão completamente diferente de mim e pus-me de novo a caminho. Mas qual! O queixume persegue-me como um rasto. porém. dependente do coração resoluto de Vicente. O céu desde manhã que se conserva azul com gradações cruas de quadro mau. Não te lembras de mim. Até no eléctrico. as comportas do céu. Salva-me! Pinta-me de frio. Tudo por causa da parteira que lhe carregou na barriga e..

. Fugi vexado. – Fiquei com toda a família às costas: mãe e três irmãos. E. de jogo da barra e de azedumes no Parque Eduardo VII: – Eras o «Cabeça». Contente do êxito. com agilidade de acrobata. pá!. amigos. Em vão. principalmente. se quiseres.» (Lá vem história – pensei eu. Porém. apontando-me uma pistola. ó 26! E saltei do eléctrico.. Tudo isso é muito bonito. Aliás nem chegou a acabar o curso. sacudi-a aos urros: não. Preciso absolutamente de 42 escudos e 50 centavos para remédios. abro. já febril. E. Deitou-me um olhar rápido de análise e. o faduncho da impotência que parece ter substituído de vez o protesto viril.. Dê-me mais 20 escudos. com esforço enorme.. chorosa na voz implorativa.. porém. a primeira amargura amarela que me viesse à boca. 26. cantochão. senti galgar-me o desejo chorincas de desafogar..a B. o lacrimejar. lívido de angústias alheias. Até sabe a minha alcunha desses bons tempos de calções. perdi o emprego e hoje o senhorio deu-me ordem de despejo. Não estragues o céu azul dos outros. mas digo-lhe que sim para não o desiludir. Meteu mais alguns cartuchos de lágrimas na pistola. o silêncio firme do desespero calcado no coração ou as gargalhadas heróicas daquele meu amigo que certo dia me confidenciou. intimidou-me: – A minha mãezinha está a morrer! preciso absolutamente de 20 escudos. mas hoje não quero afligir-me. pieguices. sufocado com o cheiro a suor da flibusteira.. entornou de novo todas as suas abundâncias em cima de mim e intimou-me numa voz sem tergiversações: – A minha mãezinha está moribunda. naquela cerca do passado tão cheia de gritaria. tão fácil. Alonguei ainda mais esta bendita cara de pau (não me abandones. fincou-me outra vez as mãos aos pulsos. «V.. Cheio duma cólera negra de vergonha que vinha do frio dos ossos. para sempre amarrada àquele passado da 4.. condoído de mim mesmo.. nada mais de importante (de aristocrático ia eu a escrever) lhe sucedeu na vida.. agarrou-me nos pulsos. Conta-me partidas do liceu. resolveu voltar à carga. Não me faltava mais nada senão gastar cérebro a recordar-me do passado. com um futuro tão perto.. Imagina que me aconteceu um drama à Dostoievski. quando seguia distraído o deslizar da minha sombra no chão. espezinhado. a Lamúria. torvo. não tive forças para resistir e entreguei-lhe a tremura duma nota de 20 escudos. Adeus. Pouco a pouco. carestia da vida. Estava escrito que. de pele oleosa e formas abundantes mal contidas por um vestido preto a luzir de sebo. e com vontade trémula de começar também a lamurinhar. ó 26! Desculpa. Anjo da Fleuma!) e no meio da tarde. Ao dobrar a esquina de certa rua deserta. que não têm culpa de que a Dor na vida não possua a fantasia fidalga dos poetas. filhos com sarampelo. Dê-mos! Zaranza. Não fazes ideia do que tenho passado.Lembro-me lá agora. falar. pá! Infelizmente. lobrigando outras notas na carteira.. Não tenho cheta. em objurgatórias de raiva e cinza nos cabelos: . decidi regressar a penates. gorda. Pois eu sou o 26 da 4. ó 26. Mas lá nénias não. durante todo o dia. Uma história análoga a milhões de histórias banais. tentativas de suicídio. Lá vem história!) E veio. «O meu pai morreu e. encostou-me à parede. de sol e de joelhos feridos. doenças nervosas. Desde que deixou o liceu. tão forte que – confesso – me contagiou também.. destroços. esmagado por aquela inundação de formas. Mas desta vez não me verguei. ainda me restava atravessar a prova suprema. não e NÃO! E fugi. a rejubilar com os olhos tristes: – Estou contentíssimo.a B. entornou-se-me toda em cima do peito até me tirar a respiração e. pá? Não me lembro. ó 26! Tenho muito que fazer. Enfim: o coro da choradeira tornou-se tão insistente. de imprevisto. com a primeira pessoa que encontrasse. a megera. percebeste? Escusas de perder o teu latim de queixas comigo. Mas ele repara lá no sorriso! O que quer é falar. falar. eis que me surgiu de súbito na frente uma mulher alta. Não te lembras. inimigos e indiferentes me chorassem no seio amores não correspondidos. Hoje acordei com cara de muro das lamentações e não consegui intrujar o Destino. sofridas por milhões de homens também banais. Mas resisti. Mas ele em compensação conhece-me bem. o soco na mesa. Ex. um sorriso que mal cobre o frio da caveira.ª quer ter a bondade de me emprestar dez tostões para uma sopa?». despediram-me do emprego e. desgraças.

tranquilamente.. os doze filhinhos tinham seguido a mãe. metia dó com tamanho sofrer! Um pouco aterradas. para esta reportagem poética fi car com um desfecho digno. a Choca recolhera ao poleiro mais cedo do que o costume. sem bem lhe fazer. O Mundo dos Outros. De repente. fora o mesmo que nada. pior ficara. aninhando-se. a pobre! Ainda a trazia. Mas caludinha. sabiam muito dolorosa.. que a velha. quase já não sabia o que era comer.. Eles mesmos tinham estranhado recolher tão cedo aquela tarde. – e se mal estava. E depois. a Choca. essas! Pelo buraco do poleiro. os pequenitos. – tanto ou mais que a própria doença. pelo terreiro. porque a pobre. doente. debaixo da asa materna. o bando das companheiras.. mas façam de conta que acreditam. Atrás dela. a seguir. e que certas delas.. lembrando doze novelitos de ouro a mexerem-se como por milagre.. sim?) Como ia dizendo. um a um tinham-se encarrapitado no velho cesto de palha onde faziam a cama. – e lá dentro. havia entre todas rixas alegres. cá fora. sentia-as agora cacarejar. o rancho das outras galinhas atribuía isso à doença da Choca.– Ai que desgraçado eu sou! Ai que triste vida a minha! Calei-me porque me aconteceu então uma coisa extraordinária. – e não tardaria que o milho do recolher. alvoroçasse no prazer do costume. Por isso recolhera cedo. tinham assistido havia três dias a essa operação que a Choca sofrera. gozando ainda o seu resto de tarde. A pena que lhe espetara no pescoço a velha que cuidava delas.. essa pena. a minha sombra no chão levou um dedo à boca e impôs-me silêncio: – Psiu! Caludinha! Se queres lamentar-te. – mas. em que por via de um grão. às vezes. o rancho das companheiras. calei-me porque me aconteceu qualquer coisa de extraordinário. eram bem felizes.. afligia-a como se fosse um estigma. morta de sede. trazia para elas no seu mandil. deixando fora. todas as tardes. a Sombra não esteve com meias medidas: ergueu-se e esbofeteou-me. voltou a deitar-se ao sol no chão. Só ela. e entretanto. mas quase seca porque não purgava. com o gogo. vai para casa e fecha-te num quarto às escuras para não maçares os outros. a olhar para o céu azul. invejara . (O que vão ler. Ai. qual deles com mais dificuldade. ouviste? E como ainda lhe parecesse ver nos meus olhos atónitos um lampejo de desobediência. na grei. é mentira evidentemente. 1950 Publicada por Helena em 5:52 Etiquetas: José Gomes Ferreira 20/OUT/2008 A Choca Ao Senhor Emídio Navarro Aquela tarde. – e ainda essa tarde. o melhor que puderam.

sentira-o aninhar-se onde passava as noites.. Mas nem comer nem beber. Descuido. ora a imobilidade a que se votava por amor dos seus pequeninos. nem o bastante para a ouvirem os filhos. na quase escuridão do poleiro. vinha-lhe das muitas ninhadas que havia chocado. passara. deitara um monstro cá para fora. Certo galo. – e muitos pintainhos doutras ninhadas queriam-lhe como se fosse avó. como ela própria. ela era feliz. tantas vezes repetidas. e erguendo um voo pesado. coitadinhos. talvez. quando o viu boiar. combates. numa trave a um canto do poleiro. e alguém... sem paciência para aturar os filhos. – quem lhe dizia a ela. mais saudosas da mocidade. – como tudo isso ia longe. depois de saciado. o melhor que lhes fora possível. posto que lhe segredasse a natureza que o não era. para os dirigir. que alegria! Outro se lhe afogara. e por fim já se não via nada. a Choca. sobretudo. não era já dela que tinham ciúmes. às vezes. até no comedouro era moderada e no bebedouro. agora já também sem entusiasmos.. que era muita a gosma. e. para merecer à sorte um sofrimento daqueles: – e esse mesmo nome de Choca. mas esse era bem seu filho. cair do biquinho como uma pérola. como a agonia do seu velho amor?! Pelo que respeitava às companheiras. – e. pareciam às vezes também doentes! . como ela. ia endoidecendo com a aflição! Querelas com as vizinhas eram a toda a hora. para os admoestar. intrigas. quando deu pela falta e o procurou. mas esse bom tempo ia passado! Já chocara a ninhada com pouca saúde. ao romper da manhã. opressa da gosmeira tenaz. ela própria. Episódios. para os guardar. a aflição ia-a matando. ela mesmo era boa companheira. que era agora. que eles mesmos.– adivinhara-o na inveja das outras. e essas. esse prestígio mágico da sua beleza. nas convalescenças esses mil cuidados com os seus pequeninos. agora! Nos bebedouros. ignorava se seria por isso. pouco a pouco se estabelecera o silêncio.Entretanto. sumira-se ao fundo na sombra densa. por a ver doente. afligia-a. debaixo da asa materna. e agora. ainda assim. – e agora. agora já velho. na sua justa decrepitude) não tardara a recolher-se também. de fora. Estava então muito doente. e os frangos. e certos deles muito heróicos. uma vez por outra. de tantos que a tinham amado.. dir-se-ia que o enfeitiçara. mas retirara-se muito triste. cada uma das quais – e não tinham conta! – lhe havia custado uma doença. talvez doença também. Decorria o tempo. a sua fama de cantadeira! Galos que ela apaixonara.. afinal. ensinava-os a cacarejar.. e quando o procurou e o achou morto. nessas três semanas de choco. sobretudo. tapara com uma pedra o buraco do poleiro. de outra vez. – tremendo por ele como por um filho. eles tinham-se aninhado todos. lhe declaravam o seu amor dos poleiros à roda. as galinhas todas haviam-se já recolhido. e ia talvez morrer! E todavia ela fora toda a sua vida muito prestante. ela mesma se namorara da sua figura esbelta. – e. ora esses abalos irreprimíveis de todo o corpo. muitas criara-as ela. e tirante algum fogacho de génio por amor dos filhos. e que ao aclarar das manhãs. Ah. e aflições então não tinham conta! Certo ovo de pata que ela chocara. Subtil. mais do que a doença. prestes talvez a expirar. e aquela vez que o viu entrar numa ribeira. se tinha de os proteger ou se lhos ofendiam. Febre que era mesmo lume. que ele se não recolhera por a ver recolher. para os alimentar. de manhã. todos a dormir e talvez sonhando. e agora mesmo. e não podia! E pelo que tocava a cacarejar. se concorriam ao que esgravatava. e ela. todos os dias.. alguns tinha a sua biografia. por certo. entretida com os mais. e depois. pesava-lhe na memória uma grande culpa: essa . Esse alguém fora ainda vê-la um instante enquanto as outras comiam. para ela e para os seus. esse velho e trôpego apaixonado (mas belo. vendo-a recolher cedo com a ninhada. ainda assim.. ela. – quanto mais para uma dessas tiradas que outrora lhe haviam feito. se por a verem talvez doente. do que lembradas.a gotinha de água que um ou outro dos seus pintainhos. com uma alcunha. fora-se a beber à pia e lá ficara. ralhos. ciúmes em que fizera arder tantas rivais. Cansaço talvez da vida. as da sua geração eram já poucas. – e que o não adivinhara na devoção dos galos. para os ensinar. muito parecido. e surpreendendose. – e embora muito enferma. mas dormir não podia. – e agora. De resto. e quanto às novas. a Choca. beberricando na pia. por ter tão quentes os seus pequeninos. com a ideia de que se lhe afogava! Depois. * À boca da noite. deixava. muitas vezes. quando algum acesso mais forte a sacudia. por um impulso de compaixão. entretanto.

A esse tempo aclarara a manhã. com os seus filhinhos abrigados debaixo das asas.» – Coitada. Em suma. brincando familiarmente com os príncipes. pois. de uma vez que o pobrezinho. Além disso. no ódio aos gatos. enovelavam-se agora. alguns já desabrigados. e os dois irmãos crescendo. – e disso não se arrependia. Também a mãe deste morrera. nem mesmo do homem. deixara de comer. debicar-lhe no peito à cata de um grão. De resto. não tinham deixado pregar olho. e daí a pouco já não sentia nada. viera-lhe isso do que ouvira de alguns. como num celeiro. – e se eriçava as penas e arrastava as asas. ao companheiro. associando vários factos.bicada feroz com que matara um pintainho estranho. Vieram os melhores sábios indígenas. muitas a haviam conhecido. – e sobre o corpo tépido da mãe. Toda a gente. porém... – e sentia que o rhom-rhom da gosma. para os seus pequeninos. para os que eram dela! Disso pediria ela perdão a Deus. como inimigos. que já para ela não tinha encantos. Se se lhe extraviavam. ali guardado. sim. ainda bem que iludiam a fome com o sono que era fadiga. muito à boca pequena murmuravam os maledicentes que não era só bonito como compreensível. ou coisa que o valha. com mais direitos. A mãe-rainha morrera para os dar à luz. A gosma sufocava--a. – e ela já sentia. e que os dois filhos do rei eram gémeos.. – coisa que pertencia aos físicos determinar – ou. – Inerte instantes depois. ainda por cima sentiase pior. um havia de ser considerado mais velho. que tinha a mãe também doente. e até . que eram traiçoeiros e comilões. achou bonito que o pequeno se criasse no palácio. Desde já. e remira-o. o rei tinha dois fi lhos gémeos. muitas. e isso mesmo. inclusivamente. Má noite. nunca fugira. em verdade. lá cima. Chuvadas que no campo havia apanhado. O marido fora um dos cortesãos favoritos do rei. se ao menos o dia nascesse! Mas eis que certas intermitências dos sentidos sobrevinham à pobre da Choca! Não dormia. disseminados. à vista de certos cães. – Ah. do título de Majestade.. um daqui. e que pareciam tosse. dos dois príncipes gémeos. – e pelo que tocava às raposas. dir-se-ia até que lhe sabiam bem. Entretanto. convém acrescentar que o rei tinha ainda um filho adoptivo. já viúva. e recebendo educação quase igual à sua.. mas lá fora. – e aquele que uma vez não apareceu. Importa saber que esse era o reino do rei.. sentia os filhinhos tremerem com frio. Ainda não luzia o buraco. cumprira na sua vida todos os seus deveres. procurava-os. Toda a gente. e muitas vezes. mais a enfrenesiara. também.. Evidentemente se torna que.. que na própria morte ficara dócil. pela vida adiante. e por fim (cantou agora o galo no seu poleiro!) veio-lhe um espasmo e caiu na morte. e outros doutra. era a sua gosma! Cansada já de sofrer. que tratara sempre. Adiante se esclarecerá este caso. e uns debaixo de uma asa. com muita obra de caridade. os pobres dos pintainhos! Trindade Coelho In Os meus amores Publicada por Helena em 11:59 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores 15/OUT/2008 Os Três Reinos Era uma vez um rei – é claro.. que tinha um reino: o reino do rei. com o frio da noite! Não tardariam os galos a cantar. viera.... – mas vivera em paz com a maioria. essa alvorada?.. desde esse dia. mas de longe. achou bonito! quase toda a gente. o frio apertava com ela. outro dali.. aquilo não era sono. e a alguns se atirara com bico e unhas. piando. do ceptro. mas os inocentes. decerto. Claro que seria esse o herdeiro do trono da coroa. muito inquietos. não fora por querer. como quer que fosse. para que os seus não tivessem fome. entrou com ela um tremor de frio. esvaía-se-lhe a luz do instinto. O tempo foi passando. cansados e mal comidos. humilde. para defender os seus filhinhos. para toda a vida. Mas. natural. ouviam-se já cantar os galos. pela noite velha. mexerem-se inquietos os seus pequeninos. * Mas o que não melhorava. mas a memória já se lhe apagava. – «Que é da sua força? que é da sua alegria. e os acessos que tinha às vezes. coitada. deixando fama de um pouco ligeira de costumes (não demais) e muito formosa. na escuridão ainda cerrada.

depois constrangidos. aos acontecimentos do reino que havia de governar. e até já falara em se meter freira. que. Por fim. fitando-o. um dia. e lá davam com ele descalço. Estava nu. ou parecia mergulhar em abstracções. como é natural. a apanhar a água do céu. fugia para os jardins nos dias de chuva. Na corte da noiva feia. aconselhá-lo: Sua Alteza não devia abusar do seu grande amor pelos livros. ou estendido na relva. triste. o jovem príncipe revelava aptidões de excepção. Longos anos se haviam guerreado. O rei nem repetiu os seus pratos favoritos. patinhando nas poças. quase perigava a saúde de Sua Alteza nessa vida sem ar que Sua Alteza levava. Dizia-se que andava a escrever um grande livro. O Mestre caiu na imprudência de uma breve alusão ao que de manhã. Felizmente. um sorriso alheio. os . estavam ambos velhos. Mais tarde se viu que era um grande livro. com os seus esplêndidos olhos de cego. todos sorriram maliciosamente. Nisso tomasse exemplo em seu irmão. choros. mas o trato dos homens também. mas as que cintilam demasiado longe. espantos. Então. agora. Finalmente. O moço príncipe ouvia-o como se o não ouvisse. dissera ao seu educando. Homem experimentado. aos jogos e folguedos próprios da sua idade. Nesse mesmo dia. ao fim da tarde. «Era o que tinha a fazer!» comentou o seu ex-futuro cunhado «Com aquele olho vesgo.» Lera isto. por exemplo. Quando se levantava dos alfarrábios. El-Rei sorriu também e deixou de lamentar o filho. Envenenara-se com flores perigosas que havia na estufa. porque reinar não é coisa fácil. exéquias magníficas. um ar quase de estátua. cega dum olho. Ao herdeiro do trono eram dispensados cuidados especiais. o príncipe herdeiro levantou-se e respondeu: «O meu reino não é deste mundo. idiota.» E começou ele. era para olhar não as estrelas da terra. Todos os Mestres contavam ao rei a sua paixão pelos livros e a sofreguidão da sua curiosidade. também ia crescendo. Todos ficaram primeiro atónitos. Todos lamentaram a sorte do jovem príncipe – assim sacrificado a razões de Estado. mais ou menos fora educado como tal. a ser preparado para o difícil ofício de reinar. também as experiências pessoais e vivas. E. exposição de grandes veludos negros e galões de oiro. Quando tal não sucedia. Conversava familiarmente com os pajens. Do mesmo passo educavam o filho adoptivo. o velho rei decidiu firmar um tratado de amizade com o rei do reino vizinho. Ora a princesa noiva era feia. A pedido do rei. e tão ladino se mostrava na curiosidade por tudo que à sua volta decorria. Mesmo nas horas de recreio o príncipe se recreava folheando os cartapácios de pergaminho. Tentou-se falar doutras coisas. no dia seguinte. deu em fechar-se na sua câmara. Morrer virgem – não era com este. o de equitação e o de dança eram mais reservados nos seus louvores.. Agora. não sendo seu irmão. A noiva do morto sempre se meteu monja. O próprio pai algoz o lamentava. Agora. As formosas donas um pouco ligeiras de costumes (não demais). morria virgem. triste. A proximidade da sepultura restringe as ambições e faz embotar os impulsos bélicos. Como para a sua pessoa se haviam transferido. era na rica sala de jantar. não empalidecia este sobre alfarrábios de pergaminho! Aos catorze anos. para os educar. Nesse tratado ficou assente que a princesa real do tal reino vizinho casaria com o sábio príncipe. com os respectivos maridos. ou jogar à pedrada. sem o ver. um dos seus Mestres ousou. num livro que fora de sua mãe. até certos pormenores da sua infância eram agora recordados. estava-se à mesa. Bailava tão bem que nem parecia um príncipe. repetidos com sorridente complacência: Que.estrangeiros. Claro que houve gritos. só as não comprometia por já estarem comprometidas: pelo menos. Aliás. até naquele que. meditações. Só o jovem príncipe parecia indiferente ao que se passava: Era como se nada daquilo houvesse de ser com ele.. feliz. perdia-se por caçadas. caía o príncipe numa espécie de alheamento. Ou que se misturava com os rapazes da rua para ir aos ninhos. de que falavam com entusiasmo os embaixadores. o jovem príncipe herdeiro apareceu morto. Decerto muito ensinam os livros. e tinha sobre o peito o livro que terminara essa noite. nem de fácil ensinamento ou aprendizagem. o irmão gémeo do morto. e a sua cabeça loira dobrava sobre os alfarrábios – tão amorosamente como sobre um seio. E saía de lá com olhos de cego. Todos os Mestres? Mas não: O Mestre de esgrima. cega dum olho e mística. Convinha que Sua Alteza se prendesse mais aos costumes da corte.. A sua cabeça loira pendia sobre os alfarrábios – tão amorosamente como sobre um seio. pelo menos. já comprometera uma nobre donzela da corte. havia donzelas e donas muito belas. cogitações talvez não muito próprias dos seus verdes anos.. aquelas particulares atenções que sempre se fixam sobre o herdeiro dum trono. Por esse tempo. Não.

recebera o moço instrução idêntica à dos príncipes. O príncipe ouvia-o sem nada dizer.. Também o moço parecia não se poder afastar do seu leito. Na história política do reino. o verdete do ódio nos corações. os vilões. em atenção ao alto papel que fora Deus servido distribuirlhe. mas nem sempre convenientes num príncipe real. durante tantos anos. Já quase o não podia dispensar o rei. Ele que. o novo herdeiro revelava também aptidões de excepção. Ora. porém. Mas. e lhe continuasse a obra. como respirando uma ironia que nenhum dos seus traços acusava. já todos temiam que não resistisse a este novo grande golpe. mentiras. Como se disse. Um ponto único havia. El-Rei conversava com ele. E a inteligência que no tratamento destas questões manifestava – áridas. era na rica sala de jantar. temos homem!» Pelo contraste.criados. um dos seus Mestres se atreveu a aconselhá-lo: Sua Alteza não devia abusar da originalidade de seus espíritos.. tendo sido educados quase no mesmo pé. Dois filhos legítimos tivera: gémeos e tão diferentes. fantasias. vários pretendentes ao mesmo disputavam entre si seus direitos. como geralmente são. trouxera às costas um miserável que achara desfalecido no caminho. porventura apreciáveis em um qualquer. um esplêndido apetite. deixar-se-ia fazer um rei como se quer. O rei ergueu-se pouco depois. O rei caiu de cama. agora se via sem herdeiro natural que lhe sucedesse. Então. cada um procurava . o de matemáticas e o de protocolo eram mais reservados nos seus louvores. habilissimamente retivera nas mãos a governação do seu reino tão policiado. Em certos assuntos. com uma naturalidade fingida. A expressão do seu rosto é que era ambígua. ao fim da tarde. no palácio. Todos ficaram sem compreender. o velho rei decidiu fazer jurar seu filho herdeiro do trono. perdidos os seus dois filhos legítimos. Correu mais tarde que fugira numa carroça de saltimbancos nómadas. e pouco à vontade. Nesse mesmo dia. E. Já os pretendentes e partidários rivais se falavam com o sorriso amarelo nos lábios. escapulia-se disfarçado para ir correr aventuras. intrigas. Tratou-se de coisas várias. e beliscões à socapa. na discussão das suas Leis. mostrava uma curiosidade que nenhum dos príncipes mostrara. E agora já no seu reino tão disciplinado fermentavam pequenos focos de anarquia. Às vezes. o príncipe real ergueu-se e respondeu: «O meu reino é deste mundo». Compenetrado do seu papel de futuro rei. podá-lo como fazia ele às roseiras. nas suas actuais relações com o estrangeiro. Coisa interessante!. Estava cansado. durante as cerimónias. Por esse tempo. e sentia que a vida se lhe ia apagando. ágil. Os seus Mestres resolveram limá-lo. O mesmo Mestre falava. Todos os Mestres contavam ao rei a sua paixão pelas coisas e a viveza dos seus pontos de vista. Sempre que lhe era permitido falar. E ninguém como ele para divertir as damas com histórias. Todos os Mestres? Mas não: O Mestre de línguas mortas. não ficava atrás da que noutras haviam manifestado os príncipes. Pelos meios de que dispunha cada um. no dia seguinte. De modo que. o jovem príncipe herdeiro tinha desaparecido do palácio. Já as massas pressentiam a senilidade do pulso que tão energicamente as havia refreado. senhores de extraordinários dons. a pedido do rei. renunciando à herança para que os preparara. felizmente. tão dirigido. Claro que houve consternação geral. Não lera isto em parte alguma. Todos diziam: «Desta vez. em que todos se entendiam: a malquerença àquele moço que tão visivelmente seduzia o velho rei. ainda foi o tal adoptivo que principiou a fazer-lhe companhia. para jovens – por atrevimento que seja afirmá-lo. etc. – nessas práticas achava grande prazer. fervia a intriga na sombra. um certo dó humilhante recaía sobre a memória do irmão suicida. Neste desconsolo. O príncipe começou a apurar a sua educação intelectual. Certas noites. Urgia que Sua Alteza renunciasse a dadas particularidades do seu temperamento.. Era moreno. continuava a morigerar seu ilustre aluno. Duma vez. embora subtil e indirectamente. Atitudes há do entendimento. ainda pequenos mas que poderiam alastrar. – pouco dignas da solenidade do acto. liberdades insólitas. que muito eram da especialidade do rei. saídas de humor que chegaram a provocar o riso na ilustre assembleia. desaparecidos os dois herdeiros naturais do trono. o príncipe herdeiro teve excentricidades. anedotas.. na sua geografia humana. como formas de conduta. tinha bons músculos. tão submetido. por exemplo. Já. fazia-se jardineiro: podava roseiras cantando canções da arraia miúda (nem sempre muito decentes) e até chegava a cavar com uma sachola! Dava esmola aos mendigos por sua própria mão. e. Em vão se fizeram as mais diligentes e minuciosas inculcas por todo o reino. estava-se à mesa. chegado El-Rei ao último quartel da vida. Ambos como que o haviam renegado.

Tu. dizendo: «Tive dois filhos legítimos. que esse ia ser perfilhado. quem o rei afastou da sua câmara. mas eles. foi o seguinte: Uma tarde. ao fim da tarde. aqueles grandes senhores que. Talvez o moço hesitasse um momento. Dado o que depois se passou. qual é o teu reino?» Um silêncio pânico se fez. Ora o que depois se passou. De nada valeram as conspirações dos pretendentes despeitados. teve de fazer um grande esforço para não soluçar. que um após outro sonhei me sucedessem. até do seu paço. o procuravam desprestigiar a ele. e ainda pôde viver alguns anos. que eram pessoas da família real. poderiam quaisquer manejos do moço passar incompreendidos do seu protector? O diabo sabe muito porque é velho. A ser isto verdade. Isto disse ele sorrindo. O rei para aí os convocara. o velho rei restabeleceu-se. e que sem demora ele. embora filho natural. que estavam sumamente intrigados. O do outro era-o por demais.. pois não só estava cansado. apertou a sua cabeça contra o peito. se dirigiu o rei ao seu jovem protegido. Impossível. pois todos achavam estranhíssima esta cena. estavam reunidos na câmara real os importantes da corte. não mais que um momento. jurado herdeiro do trono.. Mais tarde declarou que sempre esse fora. Há mais Mundos. por seu turno. O reino dum não era deste mundo. Como já não podia fugir à sensibilidade dos velhos. poder-se-á admitir que «a velha raposa astuta» (como depois. assim se fez. Morreu de muito avançada idade. porém destrinçar até que ponto no seu espírito de velha raposa astuta. («Ainda não é desta!» lamentavam os seus parentes tornados seus inimigos). Com a satisfação de ter um digno sucessor para o seu reino. esse conhecedor dos homens brincava ou não. – atribuindo àquele moço uma tão diabólica intuição na intriga que suplantava toda e qualquer experiência. resignaria no filho o poder real. Decerto não passava isto despercebido do jovem. junto do seu real amigo. 1962 . Por maquinações do jovem? Sustentavam os escorraçados que sim! e espumavam de raiva e juravam tremendas vinganças futuras. Laus Deo. E o resultado foi não ser este. E diante de todos. Logo respondeu: «Que reino pode ser o meu senão o vosso?» Então o rei chamou-o a si. rei. pois há algum tempo dava grandes sinais de melhoras. lhe chamavam os seus parentes escorraçados) até apreciara o engenho com que o moço ia tentando exautorar. e a debilidade física do rei não se manifestava mentalmente. secretamente.desacreditar no espírito do velho rei o seu jovem amigo. Olhava complacentemente o filho. o mais amado dos seus filhos. como temia ver-se constrangido a fazer por força o que desde já faria de vontade. E assim se disse.

a criada velha. Era talvez o único que não me assustava. Sempre tive medo que as pessoas saíssem das molduras e começassem a passear pela casa. se dos olhos. Não sei se da blusa muito branca. estou convencido que isso aconteceu algumas vezes. Mesmo assim. às vezes triste.Essa pergunta não se faz . benzia-se quando passava diante do quadro. Havia na casa da tia Hermengarda um quadro deslumbrante. Às vezes fazia figas e estranhos sinais de esconjuração. Há olhos que nos seguem do alto e nunca se sabe o que de repente pode acontecer. às vezes alegre. Não sei se do sorriso. .disse-me um dia em que lhe perguntei quem era aquela senhora. às vezes verdes. Creio até que dele se desprendia uma luz benfazeja. Eu parava muitas vezes em frente do retrato. Ninguém me dizia quem era a senhora do retrato. Para falar verdade. irradiava uma luz que só podia vir de dentro da dama do retrato. Ainda hoje não gosto de atravessar os longos corredores das velhas casas com grandes retratos pendurados nas paredes. à entrada do corredor que dava para os quartos de dormir. quando eu era pequeno. Ficava ao cimo das escadas. que de certo modo me protegia. às vezes cinzentos. E ao mesmo tempo assustam-me. ouvia passos abafados e tinha a sensação de que a casa ficava subitamente cheia de presenças. A prima Luísa passava sem olhar. Em certas noites. Arminda. rodeado de sombras. .Publicada por Helena em 6:08 Etiquetas: José Régio 13/OUT/2008 A Senhora do Retrato Os retratos a óleo fascinam-me. Mas havia um mistério.

sobretudo. com uma um névoa nos olhos. Até a minha mãe me ralhou e me pediu para nunca mais fazer tal pergunta. eu tinha uma relação especial. O Homem do País Azul. quase cinzentos. farto já de tanto mistério e ralhete e. Creio que troçava das convenções. por vezes os meus pais. Pushkine. Apesar de já ser muito velha. Eram quase todas da senhora do retrato e do meu primo Bernardo. Depois levantouse.Percebi que não gostava dela e que era um assunto proibido. Mas eu não resistia. E era como se me tivesse armado cavaleiro. gente que eu não conhecia. Era uma propensão do seu espírito. Voltou a sentar-se e lentamente começou a mostrar-me as fotografias. Dormia no andar de baixo e nunca subia as escadas. talvez das próprias pessoas. A minha tia sorriu. não me contive e perguntei-lhe. pegou no molho de chaves que trazia preso à cintura. Creio que amava secretamente o príncipe André e gostava de ter sido Natacha. sempre a tratei assim. Por vezes era difícil saber quando estava a sério ou a brincar. Foi a primeira pessoa verdadeiramente subversiva que conheci. E também de fato de banho. que me sorria de dentro do retrato. Manuel Alegre. Com a minha tia-avó. Falava muito da alma russa. silêncio: . Havia alguns em que o meu primo estava de smoking e ela de vestido de noite. das gaifonas da Arminda e do ar empertigado da prima Luísa. tinha um sentido agudo do ridículo. Apareciam juntos a cavalo e de bicicleta.Ela chama-se Natália. É preciso dizer que a tia Hermengarda tinha vivido em Moscovo no início da carreira diplomática do marido e era uma apaixonada dos autores russos. que visitou algumas vezes em Isnaia Poliana. Dostoievski. na praia da Costa Nova. Até que chegámos à senhora do retrato já de branco vestida. Um dia. Identificava-se com as personagens de Guerra e Paz.Tu também tens alma russa . Ela lia-me histórias e poemas inquietantes. abriu uma gaveta da escrevaninha e tirou um álbum muito antigo. Por vezes descaía-me e dava comigo a perguntar quem era a senhora dos olhos verdes. que há muito tinha partido para a África do Sul. Era óbvio que tinha um fraco por mim. principalmente Tolstoi. E Natacha murmurou depois a minha de tia. Talvez por isso eu nunca lhe tinha perguntado quem era a senhora do retrato. mas eu gosto mais de Natacha. 1989 A cerejeira da Lua . mais nova. Pelo menos era o único membro da família a quem ela tratava como um igual. Via-se também a tia Hermengarda.dizia-me. .

Telescópios potentíssimos perscrutam-lhe todos os socalcos. . as lanternas tudo convertem à cor dos sonhos mais imprevisíveis. um por um. à roda do imperador. por sinal. Que sonhe. a Dama Toda Branca embuça-se de mistério e faz de conta que é a Bela Adormecida. Ela que nos ignore.A Lua fita-nos quando a fitamos? Não..Tudo à nossa volta aspira à perfeição .Se Vossa Majestade assim o quer. será . Quem se atreve a dizer-lho? Não contem comigo. ao perto. Entre muitas evocações mimosas a Lua sonha com o imperador Meng Uóng. Onde isso vai. Satélites zumbem à sua volta. depois seu mestre. A relva. ornamentada de gaiolas de ouro. Foi seu aio. Descem da varanda ao jardim alumiado por grandes lanternas de pétalas roxas. antigas glórias. .comenta o sábio Tien-o-Tzê. que dela se enamorou. Até uma pena de cotovia repete o sábio. Se a chamarmos. Isto mesmo diz o imperador. Um perfume adocicado de ervas preciosas evola-se dos turíbulos mansamente agitados pela brisa do princípio da noite.. cofiando a barbicha branca e encerada que lhe escorrega até à cintura. . Tocada por um raio do luar parece de prata.pergunta o imperador. E. dá de comer às cotovias.diz. Brilha o esmalte das colunas à luz dos archotes. Presunçosa. todos os conselhos do livro dos veneráveis e pacientemente guiou-lhe a mão inábil de menino sobre o desenho das primeiras letras gravadas em tabuinhas de sândalo. deste canto da Terra. pouco importa. Que dirija a atenção para a distância azul da noite. O imperador suspira: Até uma pena de cotovia. Botas memoráveis pisaram-lhe a superfície desolada. rente ao chão. subitamente ansioso. Suspensas.. A Lua é a nossa vizinha defronte. rugas e verrugas. se perde por entre a ramagem dos sicómoros. Nunca. enquanto acompanha o devanear da pena que.Não será um sinal. O sábio Tien-o-Tzê segue-o em silêncio como uma sombra protectora. Introduziu-o no segredo dos cultos. pensativo. nada bonita. Aliás. Meng Uóng. depois. Que recorde outros tempos. um aviso da Lua? . tocado pela tristeza do crepúsculo. Como se toda a gente não soubesse que a Lua deixou de ser inacessível. para ilustração do jovem imperador. Deixem-na sonhar. Criados de sandálias sussurrantes varrem com leques de penas de pavão o fumo do ar. as ramagens . O sábio permite-se sorrir. interpretou. Uma pena cinzenta de cotovia esvoaça e como que hesita entre a varanda e o escuro do jardim.. Numa das varandas do palácio imperial.

entusiasmado. os espera. luminosa. que os pés.Pode abrir os olhos. É insuportável. Manter os olhos fechados. se soltam do solo e divagam no vazio como se os tivesse suspensos de um baloiço. Não abra os olhos. Mais custaria abri-los.Quero ir à Lua. Talvez por isso as jovens que acorrem a receber os visitantes. calçados com finas babuchas escarlates debruadas a pérolas. . . rodeada de fadas dançarinas. . Seong-Ngó não profere uma única . Majestade torna a recomendar-lhe Tien-o-Tzê.pergunta. num arrepio.Pois irá . O imperador. De súbito..Tens razão. Proferidas estas palavras graves. O imperador Meng Uóng. não abra os olhos. não abra.pergunta. Levados pelo redemoinho da festa. o arrocho de cerejeira a que me arrimo para as pequenas e grandes caminhadas da vida.. Ah! Eis a Lua! A seu lado. . o imperador. . Vão longe? Vão perto? Por onde voga o bordão a que sábio e imperador se fincam como náufragos que rodopiassem no turbilhão de uma tempestade silenciosa? O imperador pergunta e não quer achar resposta.proclama o sábio. o imperador.brada. Porque o sábio não desaproveita uma oportunidade sem retirar um ensinamento que sirva de alimento espiritual ao jovem imperador. que subia ao céu. de pálpebras apertadas.. . sente. logo acrescenta mais esta fala: .Um vosso antepassado. Fecha os olhos. apoiado a um tronco nodoso de cerejeira que lhe serve de bordão.. Hau-Ngai. o sábio Tien-o-Tzê. a castelã da Lua . Ela.Seong-Ngó. os pés encontram chão. Majestade. têm um andar precioso de dançarinas rituais. Encara-o.. Sobem agora uma escadaria de marfim onde. Cerre os olhos. Majestade . repercutida por toda a abóbada celeste: Não abra. o imperador.Este bordão. que eu vou lançar o bordão ao céu. que representava um monge de pálpebras descidas. o erudito e judicioso imperador La-long.Não abra os olhos Majestade. corresponde ao mandado.Os meus desejos são os vossos. . primeiro indistintamente depois mais nítidos. Aos ouvidos do jovem imperador soam. cantam e riem como sinos de porcelana. O sábio abre os olhos: . que ambos seguramos. agora. Agitam leques. Elas rodeiam-nos e empurram-nos brandamente enquanto tangem alaúdes. os acordes de guitarras e vozes femininas. logo por trás dos últimos sicómoros do jardim. não custa. habituado a confiar no mestre. ergue o bordão e aponta-o à Lua. O vento pacifica-se em aragem. A voz dele ressoa em eco. O frio em amenidade. genial amigo . se exilara no palácio do Sol. escreveu na base de uma estatueta de jade. ora toma a configuração de uma rã de três pernas ora se ostenta em toda a sua beleza de imortal. numa fresca melopeia de boas--vindas. Felizmente que. que dá a cada passo uma cadência de dança. Seong-Ngó reina sobre as selenitas. aturdido. fofo e macio.comanda o sábio numa entoação de riso. o que seria deselegante. Majestade. Procurava apenas adivinhá-los.Estás a desejar alguma coisa? . o imperador e o sábio distanciam-se do lugar onde tinham poisado.baixas dos arbustos e os pés do imperador e do mestre ficam aureolados de roxo e lilás. Tien-o-Tzê recupera só para ele a vara de cerejeira e enterra-a no musgo esbranquiçado do solo lunar. que pela primeira vez sente o peso da sua túnica de brocado azul onde fulgem dois dragões de oiro. para receber as visitas.Para onde nos levam? . um luminoso pensamento: «O inatingível está à tua mercê. Queres que os teus desejos aconteçam? Fecha os olhos».exclama. Parece que caminham sobre nuvens. surpreendido. num acesso de inespe-rada força... Vossa Majestade. Um vento ciclónico e cada vez mais frio encortiça-lhe o rosto crispado. o sábio ou mago Tien-o-Tzê. não apareceu sob a forma de batráquio. reconhecendo-a ao primeiro relance. vestidas com túnicas de cores celestes. no alto. há-de levar-nos à Lua . O sábio não errara.. Sentada num trono de coral.Segure. redonda e enorme. E descobriste-os? Tien-o-Tzê. ... que se refugiara na Lua enquanto o seu esposo. . . em resposta.exclama Tien-o-Tzê. suspende os passos.

prepara incansavelmente o remédio contra todos os males.E aonde me agarro desta vez? O sábio. Antes de alcançarem o coelho. . Um Tigre cinzento e branco assoma ao outro extremo do desfiladeiro. Quanto ao bordão de cerejeira que o sábio Tien-o-Tzê plantara na superfície musgosa da Lua. escorregam pelo raio de luar que se arqueia e alarga até parecer uma estrada de descida suave.. olvidou. À voz entrecortada do sábio responde o imperador.Fujamos . . Quem quiser ver a cerejeira que olhe para a Lua na noite que precede o décimo quinto dia do oitavo mês lunar. o que lhes prejudica o despacho da corrida. rodopiando o leque. na sua oficina de alquimista.Agarre-se à minha mão . E entusiasmado pêlos bailados e cânticos das fadas lunares criou uma escola.... . A Lua escondeu-se.O tigre não conhece a máxima e não fecha os olhos . a máxima de La-long: . outro e outro ainda. à luz da madrugada. após este. Sábio e imperador vão sós e estremecem quando lhes chega às narinas um odor áspero de animal feroz. chegam ao jardim imperial.. os olhos». flores. aconteçam? Fecha. sem parar de correr.. Se não conseguir ver. Assim.. soluçando de cansaço.. que os teus desejos. os jovens do palácio foram industriados na arte de dançar e cantar como os habitantes da Lua. onde o deixaste? Longe responde-lhe o sábio.enquanto lha estende. Sentem sobre as costas o hálito em fogo do tigre implacável. o imperador Meng Uóng..«Queres. Os archotes da varanda ardem. .O teu bordão. Cessaram os cânticos de saudação. que já corre à frente do príncipe.O tigre tem medo de cair. Sábio e imperador descem. no meio de um pomar de pereiras. Desde essa noite inesquecível que o imperador Meng Uóng tange o alaúde. Com um gesto insinuante. Nós não! De olhos fechados. segundo o calendário chinês. Tien-o-Tzê. grita num assomo de impaciência: . Revi rã os olhos rancorosos e vai saltar sobre os dois viajantes. conta a lenda que ganhou ramos. inúteis. No espelho da imaginação tudo acontece como nós queremos.. acredite. evocando as melodias que ouviu das selenitas. Seong-Ngó aponta para o cimo de uma colina próxima onde o coelho de jade.. naquele transe.. diante do almofariz. Aí... . todos assustadores. -Acabo de descobrir a raiz de um raio de luar que nos levará até à Terra.teme o imperador.palavra. num pavilhão. O sábio repete. como são designados os seus actores. Logo em seguida um rugido e. Majestade! Mas o imperador duvida: E o tigre? O tigre não virá atrás de nós? . sem sobressalto. têm de passar por um desfiladeiro obscuro. no seu refúgio. Majestade.grita. mas eles percebem pelo brilho dos seus olhos maliciosos tudo o que ela tem para lhes contar. em corrida. apavorado. Os pés afundam-se no musgo como na neve. folhas. a escadaria e precipitam-se para a colina. O sonho mau vai passar. Esquecidos das regras de reverência nem agradeceram a generosidade do convite. as precedências da etiqueta e o comedimento a que a sua provecta idade obrigaria. Feche os olhos. A guardiã da Lua parece dizer: «Querem provar? Apressem-se». E o elixir da imortalidade. Assim é justificada a origem do teatro chinês e o nome de lei-un-tchi-tâl.exaspera-se Tien-o-Tzê.Aguentará o nosso peso? . Acredite. pela primeira e única vez na vida. aflito: . «discípulos do pomar das pêras». feche os olhos.

dobrado o cabo de Todos-los-Santos e dos Fiéis Defuntos.. De nada serviram os pedidos ao Doutor. Ah! Mas. Se não fosse algum molho de palha que o Menino Jesus sempre acende.. bravas nos corredores.. Ora. muito poucas dispensas. Só de verão havia um pouco de alegria e de cor nalguma maçã madura. O cebolinho de ao pé do forno ficava de cabelo ceifado: Aqueles casebres mais pareciam fojos de bruxas do que tectos de gente baptizada... já praça pronta. Abaixem-se aí!» A casa da Cacena ficava plantada neste inferno. o fogo passou-se à copeira. O vento carpinteiro levava-lhes a agulha e o cheiro delicado da resina. Era daí que uns pinheiritos – poucos mas bons e baixos como uma quadrilha de ladrões – se atreviam a subir com os braços cheios de pinhas: uns. uma ave ou duas debaixo do lenço. bravo e alto. esbracejando direitos no meio da lava e dos faiais. E então veio a recruta. houve a peste numónica em Santa Bárbara e ele foi destacado lá para os quintos. os presentes. fora de suas estribeiras. e o grilo.. a este e àquele: os cambos de ofertas. seriam umas três da manhã (água. o sol era um rei em seu balcão. De dia. a coivinha atempou. E um belo dia. – suor de sangue! Escorralho do Rei dos Reis coroado por mangação! O lugarejo molhava as suas abas naquele mar podre e morto. era um saudoso namorado. Só as faias da terra e as do norte vingavam ali entre silvas.. passante disso. frios. enquanto as cisternas vazias mostravam os fundos cor de telha. que parecia falar-lhes ao ouvido: «Abriguem-se vocês! Vá. A Cacena era uma triste mulher. morreu a leitoa empachada.. A faia do Norte. se Deus a dava!) quando João se ergueu do quente da enxerga e disse para a velha: – São horas. algravitadas. corado duma banda só. nas gretas. de manhã. O pêssego amadurecia tarde. Acudiu-lhe a vizinhança . Turvava-se tudo. Vento excomungado. Primeiro. Enfim. atirando a espuma às poças. De noite. com madrugadas. minha Mãe! Aqueça-me uma pinga de leite.. Vizinhança – nenhuma. As correias da mochila levaram-lhe uma tira do lombo. cornudos e torcidos. Entretanto a triste Necessidade (a feiticeira!) fazia o seu pé de alferes à porta da casa sem homem. o Inverno era frio como a neve e negro como um tição. tirara-lhe o bordão da velhice mandando-lhe o filho às sortes e levando-o para o Castelo. outros. O mês de Abril começava a consolar quem no via carregado de flores brancas e de botões cor-de-rosa. sozinha neste mundo. a casa da Cacena era uma barca à flor do mar das vinhas.António Torrado Publicada por Helena em 3:54 Etiquetas: António Torrado 5/OUT/2008 Mau Agoiro A Canada do Búzio era uma bocarra. Pareciam talhados nos lombos verdes do mar e atirados vivos à costa. cobria-se de bagas meladas que era um louvar a Deus! Em Setembro as uvas tingiam as pernas dos homens enterrados nos lagares e o vinho esguichava nas dornas. A Canada do Búzio parecia uma goela aberta à noite. ou lá quem quer que é que bebe o sangue dos pobres. Tempo perdido! O rapaz ficou apurado para caçanha.. e.. as botas do Casão fizeram-lhe um calo de sangue. o forro do sótio ardia todo. Não se via vivalma. emmentes o diabo esfrega um olho (cruzes!). a lua subia a terraço. O Rei. um deserto.. um tição de lume queimou as faias da cozedura. de casca sardenta. a matutar como um tolo nos penedos da Ponta do Cavalo vigiada dos garajaus – ou então.

Mas lá que têm pitafe. com dois amigalhaços. as cancelas do céu fecharam-se de repente. salpicando o telhado com as asinhas de rasto. s’o mê fi lho me morre!. Um deu vinte tábuas de forro. que não hás-de pôr pé em ramo verde! E Nossa Senhora apartou as labandeiras para suas galinhas. com frechais e asnas novas. vinha um biquinho esfregar-se melgueiramente no chumaço. de amor-Deus. e. Afinal. Têm-no co elas… Agora. e lá levantaram ambos a cozinha. de rabo de forquilha. estando a cardar lã de ovelha. à Cacena pareciam de propósito aquelas andadas dos bicos peneirando-se. as codernizes. minha Mãe? – disse ele.. de mais a mais viúva e apartada do fi lho. Aquilo era no batente – ora. O Niquinha tirou dois dias de obras. e logo.. com pena dele. mas porque a triste sina se apega adonde elas apontam os biquinhos. de cá.. A terra fi cou como uma furna negra. outro. e varejou-lha rente. A coderniz é pior. Por isso o Senhor disse à paqueta da coderniz: – Deixa tu estar. a todo o comprimento. e leva de guinda o postigo envidraçado para cima duma riça de silvas. no Castelo. a telha de vidro iase enchendo de flor de anil e azulão. Essa noite desceu como um fugido à justiça. Mas vem o caim dum pé de vento.. dão duas guinadas de espreita e põem-se ao fresco.. têm. à porta. tia Cacena! O sê João lá deu baixa ò espital. em menos dum amén. com efeito. corsaira. João andou a tirar umas esmolas para ajuda da casa. Quando João soube disto. sem o mais leve clarão.. como se dizia na Peluda. pela calada. Mas desde esse dia reparou que. – Mais fizera a Nosso Senhor Jasu-Cristo! – cramou a Cacena resignada. uma coisa de nada.. por cima da cama. ao ouvirem o passo mais à toa. a escuridão das canadas parecia tinta de . E pôs um rolho de trapos no buraco do seu postigo. outro.. muito madrugada. – Que mais quer. voando baixo. como quem pede para toiros. No quarto da pobre Cacena. E. assim abaulada. não choveu. – labandeiras! Eram as labandeiras! São passarinhos brandos de asa.. se Dês quiser!. Quando Herodes mandou botar o bando e degolar os Inocentes. Mas o bicho fez a modo um pouco caso e veio tombando duma asa até lha passar rente à boca. uns pios de aflição pareciam picarnos o juízo como pontinhas de alfinetes. Três dias e três noites a fio a Cacena malucou naquilo. fez «cantar à Ordem» aqueles três diazinhos «a benefício dos fundos do caldeiro». que às vezes malucam nos caminhos em riba de burgalhaus.. – Não se afl ija. cismava-se no caixão de um pagãozinho que um anjo levava para o céu. Desde menina que a Cacena com elas vivia e labutava. chorou malaguetas curtidas e quase se pôs de joelhos: – Só uns dias meu promeiro! Foi a casinha que me ardeu. lá iam apagando as passadas do santo carpinteiro e os sinais dos cascos da jumenta. de olho vivo.. – Que me dizes?! Ai. A prove da minha mãe stá pràli sozinha. Uma tarde. todas repatanadas. uma mancheia de telha. se não! O certo era que se não ouvia mais nada senão dali a um pedaço: Umas asinhas miúdas vinham espenujar-se no trapo. não sei. Donde lhe vem. uma noite. Bateu-lhe as palmas. – Nem que vossemecê se tornasse agora a casar. – Jasus! Disse isto e. de mãos postas.em peso (ninguém está livre de trabalhos!) e à força de água e de machado salvaram o resto da poisada – seja pelo santo amor-Deus!.. o Trigueiro que passa da cidade: – Boa noite.. de ponta a ponta do cume. davam fé daqueles santos pelingrinos e. tremem da passarinha. três unhinhas de nada riscavam. Então o Capitão. que José prantou a Senhora mai-lo Menino na burra e abalou para o Egipto.. amassadas nos restolhos. serva de Deus! Aquilho não há-de ser nada. Veja mãis é se lhe manda coisa duma quarta de açucre. os barrotes. Nã l’há-de chover pinga dentro. mas benzendo-se: – não porque levem bruxedo. até encontrarem solidão. mal luzia o buraco. deu fé de que uma delas aporfiava na dança. e que. Era ao azular da hora de alva. sem ter quem no ganhe. pegou numa pedrinha. Era um gorgulho de ave. com a rabadilha em forquilha. toca a chocalheirar: – «Cá vão eles! Cá vão eles!» Mas as labandeiras vinham e. cobrindo a velhota de beijos.

queres-ia-a? Nã te dou lençóis de linho. nem a velha. O Mistério do Paço do Milhafre.. outras chuva. figo passado. 1949 . Nosso Senhor JesuCristo nasceu em Belém para nos remir e salvar e. Umas vezes é frio. meu home! Mãis stá calado.. Há anos sem uma coisa nem outra – e sempre pobreza! sempre desconsolos e lágrimas em casa de quem nas chora! Também há casas sem vagar nem água para vertê-las. à tarde engaroupava-se no xailinho e esperava o carteiro à sua porta. Burra na na tenho. – Dá Deus nozes a quem nã tem dentes! Ter uma pessoa a mão incarangada a pontos de le custar a apanhar a ponta do xaile se Pele cai. Enfim. Um soldado magro como um cão e de barba de dias deitava a mãe velha e tonta na cama e aquecia-lhe o caldo da panela. para não ouvir a velha. Chega sempre. João. Na Canada do Búzio o Natal desse ano não podia ser mais festejado.. Deus dá o frio cunforme a roipa. Herodes Antipas manda botar o bando: «Que toda a criença nacida por li seja degolada imcuntinente».. ! Nã te dou pão de milho azedo. dentro em casa.. que é que tens? João. Faço-te um esfregalho. que bate. na pedra do lar. furtava-lhe a volta e seguia pelo Rebalde até à Praia.... Galo? «Qu’é dele os esporães? Caldo de frango nunca fez mal a doente.. vai. discansa! O milho amarelo secou no tirante e na burra estes dois meses. A tia Cacena passava as manhãs no trabanaco. que é só chomar a aia que as venha vestir e calçar! Mum grande é o mundo. cabaço. a cinza e a sombra do lume jogavam à Pata-Cega. Às vezes. um vento parecia dançar de porta a porta. qu’a mãe vai ò mato e já vem. Em baixo.. vai daí.. Daquela boca para baixo não lhe passava oitra coisa. canja de galinha. deu-le o rato. o Natal chegou. tu oives! A manta de fi ampua está ali na caixa. Às vezes. Como se lhe tivessem dado com um barrote nos peitos. que os nã tenho. filho! Faço-te um esfregalho. Dá-me dali o bordãozinho. foi-se toda a ninhada da pedrês. pois.. não oives? João stá pior.. Passaram-se quase oito dias – e o Trigueiro sem trazer notícia de alívios do doente. outras são tão alegres ou tão tristes. Pirolito que já bateu. escanchou a Senhora na burra co anjo de Deus ò colo e se largou prò Egito.... Mãis o poleiro. As estrelas próprias dum céu limpo e frio brilharam por cima da casinha consertada depois do fogo. que nem cara têm de coisíssima nenhuma! É na maior parte dessas casas que o Menino Jesus reina entre trigos sem terra. a moda do Pirolito que bate. Só eu incaranguei . Fazia para a ceia coives espernegadas.. fi lho! Stá caladinho.. e é aí que se come bolo-rei.. graces a Deus! E maior ainda a Mezricórdia Devina! «Quem fosse à Missa do Galo!. Por isso José pegou no bordão. O Egito será no Castelo? Quem tem boca vai a Roma. há casas ricas e casas proves.. e havê-las senhoronas. sentada a remendar. que batia.. a Cacena meteu-se para dentro de casa e afundou no xailinho a sua triste cisma.escrever. meu amor! Vamos cozer de tarde. mãis tenho pernas.. «E. A panela da ceia cantava com água choca e feijões.

Publicada por Helena em 6:22 Etiquetas: Vitorino Nemésio 4/OUT/2008 Com que é que se parece um professor? Ngunga tinha um princípio: se havia algum problema. Deveria esperar que o Comandante o chamasse. Mas não esperou. ele preferia resolvê-lo logo. Foi ele mesmo falar ao Comandante. Para quê ter medo? O Comandante Mavinga estava divertido com a conversa. Falou: .

Mavinga encontrou o que podia convencer Ngunga. Pepetela. Se não gostasse da esco-la. Andar só. Não devia ser bom. Vendo bem as coisas. Ngunga imaginara-a de outra maneira. aprender a ler e a escrever. — Não há problema! — respondeu o Comandante — Vou falar com o povo. acrescentam um pouco para os dois pioneiros. Com que é que se parecia um professor? Sim. As Aventuras de Ngunga Notas: (1) cubata (2) capim — planta (3) quimbo — habitação gramínea que cresce — aldeia tradicional espontaneamente (termo africana. ainda mais novo que o Comandante. Chegou agora um professor que vai montar uma escola aqui perto. Se não me querem aqui.— És um rapaz esperto e corajoso. digo que vou embora e vou mesmo. que veio comigo do Guando. — Não é a mesma coisa. E não estás a aprender nada. Sem o saber. precisava de conhecer o professor. não é bom. . Não preciso de fugir como um porco-de-mato. angolano). Ouvira falar. Estou a aprender. isso sim. Para estes dois. Eu parto amanhã e tu vais comigo. não perdia nada em experi-mentar. Um dia vai acontecer-te uma coisa má. — Eu nunca fujo! — respondeu Ngunga — Quando quiser. Vais ver como gostarás da escola. sorridente e falador. o seu saquito era fácil de arrumar. novos rios. tu és pequeno demais para ser guerrilheiro. então vou para outro sítio. Não queres? Ngunga ficou silencioso. Era um sítio onde tinha de se estar sempre sentado. vai haver o problema da alimentação. — Espero então que não queiras ir embora. Os outros alunos são externos. Escola? Nunca vira. Oiço o que falam. Julgava que ia encontrar um velho com cara séria. se fugires da escola. vivem nos quimbos(3) e vêm só receber aulas. — Como? Estou a ver novas terras. alguns ban-cos de pau e uma mesa. como fazes. Aqui já te disse que não podes ficar. nos campos. Por isso deves estudar. E. novas pessoas. Ngunga? Se não trabalhares bem. E assim vais conhecer o professor. Esse aí sabia mesmo para ensinar aos outros? Mavinga apresentou-o. Já viste um professor? Diz-me com que é que se parece um professor? Vais conhecer a escola. O Ngunga precisa de estudar. Numa escola aprendes mais. — Ngunga. Se se portar mal avise-me. O professor riu. numa sombra. Também o professor o surpreendeu. A escola era só uma cubata(1) de capim(2) para o professor e. eu vou saber. Deves ir para lá. para não ser como nós. Estás a ouvir. Quando derem comida para o camarada professor. — Prefiro ser guerrilheiro. eu encontrar-te-ei. — Tem de ficar a viver aqui comigo! — disse o professor — Também já tenho o Chivuala. Disse que ele não tinha família. a olhar para uns papéis escritos. Afinal era um jovem.

os bardos de moscatel eram polipeiros de olhos irónicos e coniventes.Tu que tens? . a vigiar-se mutuamente. Passou a mão pelo restolho da barba. farto de conhecer a causa do formigueiro. e deixou os felizardos na paz do Senhor. numa melancolia de faminto sem pão.Não me apetece dormir..Agora caso com ela.. Um noivado ao luar. Olha a raça da Tirana Que até no beber tem graça.. sumida no entrançado de vides e de folhas. não parava sobre a palha centeia.e continuava a mexer-se. que metia aflição.. com a terra empapada de doçura a servir de lençol.Vou até lá fora .. homem! E agora? . . . . sem poder mais. o Rasga foi-lhe no encalço. pois então! Isto nem tira nem põe. E à noite. o cheiro do mosto embebedava os sentidos. . .disse por fim o Vitorino. enquanto cegava aquelas pupilas abelhudas.Publicada por Helena em 9:19 Etiquetas: Pepetela: As Aventuras de Ngunga 2/OUT/2008 A Vindima Ao cabo de quatro dias de vindima na Arrueda. parecia um rouxinol: Eu já vi a Tiraninha A beber numa cabaça. cada vez mais insofrido. Pé ante pé.. Quando de madrugada o outro voltou à cama.Nada.perguntava-lhe o Rasga.. O que se há-de fazer ao tarde. só lhe disse: . E o que havia de ver?. o colchão de todos. E saiu. Pela manhã a vindima continuou. .. Orvalhados. na cardenha. E a Lúcia. com a namorada ali quase à mão de semear.Valha-te Deus. os restantes homens da roga jaziam estendidos e adormecidos no chão. Apenas os dois amigos velavam. o Vitorino. Era um rolar sem tino para um lado e para o outro. Como troncos derrubados.

arredonda a saia. chamava a si toda a atenção dos olhos.Não estás farta. maldoso. A lama de cinco meses de inverno. a fazer quanto podia para dar também um ar da sua graça. E com segundas. onde crescia e se colhia o espirito celeste. porém. Duma maneira que eu sei. Eu hei-de te amar. O sol. Rita. E. Vindimei-te o coração. uma penedia por ali acima. sempre à vista do céu. ajeitou-o na troika e foi juntar-se aos outros companheiros. Foi a Guilhermina. tinha ainda a voz fresca como uma alface. que sim. no maio. continuou a cantar como se nada fosse. já enfastiada. num respeito de escravos.. E agora. O harmónio repenicava-se todo em redor dela.. certamente fecundada já pelo seu amor. Cada canção . o raio da rapariga rompia por ali adiante.. Dispersa pela encosta. à direita. ao longe.. .O que vale é que a Tirana tem as costas largas. Os geios eram degraus do Olimpo. Enquanto os mais. eu hei. Tinham findado de todo os horizontes largos do planalto.. arredonda-a bem. E o bombo. era agora uma camada de poeira fofa pelo caminho além.. Eu hei-de te amar.. onde a alma corre de fraga em fraga. a Lúcia punha o coração a voar: A oliveira da serra O vento leva a flor. de xaile à cabeça e cesta no braço. a semear milhão. Ia a vindimar um cacho. Ergueu o vindimeiro. ao deitar. levava tudo adiante. Daí a nada arrebitou outra vez. ao chegar à Arrueda. queria empassar a terra. Depois. que a primavera apenas endurecera. À frente da estúrdia. Rita...um . lhe meteu medo. que a luz da tarde transformara numa barra cintilante... apesar da tristeza a que a pele de cabra o condenava. Desde a saída de Lamares que não se calara mais. e à noite. faziam tudo para entristecer quem lhes passava ao pé. Obra dum suspiro. enquanto o Vitorino ficou a olhar com ternura a rapariga. como uma veia aberta a escoar-se morosamente do corpo ciclópico dos montes. em escada. o patrão. que só de vê-la faltava a respiração. ou inspirada pela beleza do cenário. mulher?! Riu-se e continuou na dela. Eu hei-de te amar. o Rasga comentou: . num mútuo entendimento da significação oculta da cantiga. ao cabo de quatro dias de azáfama. Mas o grande rio doirado. atirava com a voz bonita pelos montes a cabo. um despenhadeiro de meter medo. se descobriam ou cumprimentavam aquele símbolo do trabalho e dos ganhos na Ribeira. Tirana. Encostas negras. Berkeley. e. atirou logo: Foi no Pinhão. ainda trauteava uma moda. bem feita. ao fundo. Cristóvão é que esmoreceu. Os dois rapazes riram-se. mortórios escalvados e desiludidos. que nem o pai. depois de empassar as uvas. Tirana.. Os ferrinhos a dizerem que sim. Nem a cara seca e vermelha do Sr. cobertas de estevas ou eriçadas de zimbro.. e a paisagem emergia do abismo engrandecida e transfigurada.. que a mandou calar. Ou porque trazia dentro o fogo da paixão a aquecê-la.Ninguém lhe levava a palma. Ao passar diante do cemitério aproado como uma galera de morte no mar verde dos vinhedos. mal o Doiro apareceu lá em baixo. a escaldar.. À esquerda. apenas. uma tristeza súbita calou-a. com asas nos pés. Só mesmo por alturas de S. Invulnerável. desembaraçada. a roga mais parecia festejar um deus generoso e pagão do que trabalhar.

lhe berrava aos ouvidos: . quase teve de berrar. O tear mágico urdia desumanização. asfixiado dentro do bojo da cuba. que se assina simplesmente Aurélia-Maria provavelmente um pseudónimo. nenhuma desconfiança do futuro. que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino. que só pedia contentamento em troca dos seus frutos. cada vez mais agradecida ao céu pela sua redenção terrena. Chora videira. com a sua voz pesada.. descia em cascata pelos socalcos. já o Seara. ó vida minha. Entretanto.a dádiva desse amantíssimo Senhor. Garroteada como a do namorado. e havia . a signatária do referido documento. ó videirão. E o bombo. em absoluto. Não havia tristeza que entrasse naquelas almas. E o Seara. sonora e ritual . Principalmente na de Lúcia. Chora videira. Cantavam todos. A pobre garota tem o coração transtornado pelos infortúnios que vem sofrendo. de amigos ignorantes e inimigos insidiosos. para arranjar onde o meter.hino de louvor. porque o deus da abundância não se cansava de multiplicar o mosto no lagar. ó meu coração. descuidada. Não há desgraça na vida Que aos pés da mulher não caia. E os cestos acogulados. ó videirinha. Chora videira. quando daí a bocado chegou congestionado à vinha e deu a notícia do desastre. uns diferentes dos outros. Foi então que a voz da Lúcia estacou de vez. a roga emudeceu também. Nervosa. continuou a agoirar a tarde com o seu lamento fanhoso: A mulher é desgraçada Até no despir da saia. que desciam a escadaria de xisto aos ombros dos fiéis devotos. Ainda o Vitorino não acabara de sair da sua contemplação. a garganta fechou-se-lhe num espasmo de perpétua agonia. tal as vítimas dos sacrifícios antigos pela boca do dragão. desgarrada numa valeira solitária. Contos da Montanha Publicada por Helena em 5:25 Etiquetas: Miguel Torga: Contos da Montanha 27/SET/2008 O Noivado Infeliz da Aurélia Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jovem da bela cidade de San José. Só a Casimira velha.um solavanco no ritmo do cerimonial. Lá fora continuava o coro. o Vitorino deslizava submisso pela portinhola dum tonel. E só quando um dos fios da meada emperrava.. E sente-se tão perturbada pelos conselhos. numa fila indiana. como que dava forma à incorpórea harmonia que. Devo esclarecer que não conheço. Dir-se-ia que tudo naquele paraíso suspenso se movimentava lúdica e religiosamente. a alma de cada romeiro entregava-se pressurosamente ao esquecimento colectivo que alijara do mundo as misérias e os desenganos.. Transida e comandada por tão grave silêncio. vigilante e profana. por causa daquele barulho e do ouvido duro do Sr. Berkeley.Tu andas parvo ou quê? Mexe-te! Ergue e espera-me no armazém. é que se via que uma vontade prática subjazia ali.. Alegre. na qual parece encontrar-se presa para sempre. o feitor. nenhum ódio. suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos. Nenhuma mágoa. que tens que preparar uma vasilha. recorre a mim. Miguel Torga. Chora videira. que não ouvira nada da morte do Vitorino. falando-me com uma .

limitou-se a transferir o casamento para depois. porém sua família se opõe terminantemente ao casamento. um rapaz de New Jersey. como um negociante que teima num negócio e tem prejuízo regularmente. Caruthers é pobre e não pode mais trabalhar. antes que ele sofresse tão alarmante depreciação. Com o consentimento de seus pais. numa indecisão cruel. Apesar de todo o seu desgosto. Em seu desespero. Ainda assim. novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado. coitada. Um dia. o pobre-diabo fez-se transportar imediatamente para a casa de sua noiva. tendo em vista que a sua generosa obstinação já excedia os limites normais. O coração da pobre Aurélia foi horrivelmente machucado por essas verdadeiras calamidades. e quebrou uma perna. Enfim. com esse sistema de progressiva redação. e só fez mesmo transferir o casamento. Aurélia sentiu uma emoção cruel. com relativo conforto. Era enorme a sua aflição. que tocaria o coração de uma estátua. Ainda ama o noivo . como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz. Já não era o mesmo. os índios de Owen River arrancaram o couro cabeludo de um só homem.é o que ela me escreve em sua carta. percebendo que mais um pedaço do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. quanto à anulação do seu compromisso. não atendeu aos rogos dos seus. numa festa cívica. de New Jersey. Ouçamos a sua triste história.diz ela . a face da realidade transformou-se. tinho o rosto desfigurado. Aurélia está indecisa quanto à atitude que deve tomar. como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgraça que sempre tocam à humanidade. Os pais e os amigos da moça. ainda deu graças a Deus por haver-se salvo. Ama-o de todo o coração. verificara que não tinha nenhuma razão de queixa contra o noivo. quando acompanhava com os olhos um balão que subia aos céus. que o campo de suas afeições mais puras diminuía a olhos vistos. . Aurélia sentia um grande e profundo arrependimento por não haver casado logo de início com Caruthers. com pouco nada mais restaria do rapaz.quando encontrou e amou. Caruthers. as lamentáveis disposições do seu noivo. . encarando a situação com ânimo firme. e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Caruthers. a pele marcada pelas bexigas. porém pondeu a todos que. É que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi então que perdeu um dos olhos. Mas. no hospital.eis o que ela me pergunta.eloquência extraordinária. Novamente Aurélia teve a intenção de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. Ainda na convalescença. entretanto. e durante um largo período tudo correu muito bem. mesmo por esse preço exorbitante. Aurélia chegou a hesitar. Aurélia pensou logo em romper o seu compromisso. A esta altura. Contudo. distraído. três me-ses depois. Outra infelicidade aguardava o noivo caipora. embora tivesse perdido os cabelos para sempre. E doía-lhe verificar que nada podia fazer por ele. porque a sua beleza desaparecera para sempre. com todo o ardor de uma alma apaixonada. mas. todos os dias. Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que. Sentiu. caiu. Foi o seguinte: durante o ano. O noivo ou o pedaço de noivo que lhe resta. num poço. teve o outro esmagado numa prensa agrícola. e da espécie mais virulenta e terrível. ainda uma vez. resolveu pôr à prova. Aurélia tinha dezesseis anos . Foi transferida a data do casamento. viu os cirurgiões mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado. quase seis anos mais velho que ela. apesar da sua imensa bondade de sentimentos. ficaram noivos. Por sua vez. aconteceu outra desgraça. chamado Wilhamson Brockinridge Caruthers. por uma questão de piedade para com o infeliz. Foi marcado o dia do casório e de novo turvou-se o céu com as nuvens da desilusão. Tiveram de amputá-la acima do joelho. O casamento foi transferido e ela deixou que o tempo corresse. Caruthers perdeu um braço quando de uma descarga imprevista de um canhão. O jovem Caruthers caiu de cama com varíola. Aurélia não temo necessário para que possam viver os dois juntos. Acontece que na véspera do casamento. poucos dias antes da data fixada. por ver seu jovem noivo abandoná-la pedaço por pedaço e imaginar que. reflectindo direito sobre o assunto. Quando ficou bom. sobretudo. o coração transbordante de alegria.Que devo fazer? . e eis que Caruthers quebra a outra perna.

Quanto custaria a reconstituição de um Caruthers completo? Se Aurélia tem algum recurso. tratando de fazer coisa definitiva. sua próxima experiência na certa será fatal. na realidade. casada ou não. uma questão delicada. Deve-se é procurar tirar o melhor proveito das circunstâncias. e este me parece o melhor partido a tomar no caso. Estou certo de que seria assumir uma grande responsabilidade responder indo além de uma simples sugestão. É tentar a sorte. Feito isto. se o rapaz não torcer o pescoço. com o rebanho atrás dele. a não ser. as pernas de pau e outros objectos. por haver feito o que lhe pareceu melhor. e não vinha das habitações o mais . Não creio que assim procedendo Aurélia se aventure a grande risco. sem o menor ressentimento. com efeito. propriedade do defunto. Já que escolheu outro método. poderá arriscarse a casar com ele. as portas conservavam-se fechadas.Esta é. para torná-lo apresentável. de qualquer maneira. Casada. Reflecti bastante sobre o assunto. Decerto. dispondo-se a prolongar o sacrifício o mais possível. portanto. Se Caruthers ainda uma vez cede à tentação estranha de quebrar alguma coisa sempre que se lhe apresenta a ocasião propícia. ficarão como herança para a viúva. não se pode criticá-lo. Mark Twain Publicada por Helena em 14:17 Etiquetas: Mark Twain Idílio Rústico A Fialho de Almeida Quando atravessou a povoação. Ao longo das ruas tortuosas. rua abaixo. Questão cuja resposta deve decidir sobre o destino de uma mulher e de um pedaço de homem. era ainda muito cedo. um olho de vidro e uma cabeleira postiça. que durante a vida toda não fez outra coisa senão contentar os seus extraordinários instintos de autodestruição. ao fim do qual. e assim Aurélia não perderá nada. deve comprar para o seu noivo mutilado umas pernas artificiais. o último pedaço vivo dum esposo honesto e infeliz. Caruthers teria agido com acerto se houvesse tentado quebrar o o pescoço logo da primeira vez. e então a pobre noiva poderá ficar tranquila. seria conveniente que lhe desse um prazo improrrogável de noventa dias.

insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas. Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo companhia aos novilhos. De onde em onde, galos madrugadores entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma estúrdia, a desoras… Mas, passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho em ziguezagues. Fulgiam no céu azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima do rumor brando dos choca-lhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando a marcha se de novo ele se punha a caminhar. Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro, que o eco levou para longe. – Não gastes pólvora, António! – recomendou o pastor. – Ouviste? E logo a voz do guardador: – Madrugas hoje, Gonçalo! – Pra que saibas! Cá um homem não tem medo! – Está bem. Adeus! – Saudinha. A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham atitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços. De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens secas, onde algum réptil passasse vagaroso. – Busca, Turco! – fazia-lhe o Gonçalo, que tinha medo às cobras. – Busca, valente! À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se, mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de paciência, – reflectia o pastor, a quem abor¬reciam de morte os intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado, o Gonçalo desabafou: – Uff! até que enfim! – E pensava aliviado: – Nada mais fácil do que terem-me saído os lobos!... Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda acidentada de rochedos informes, blocos medonhos por entre os quais no inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num descuido involuntário – simples remadela pouco a tempo, manobra menos segura de leme, ou impulso errado de vara. E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo limitada a paisagem. A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e manso, e sem o mínimo ruído. Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também. – Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada... E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:

– Ora se será ela?... Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira. – Ai, se fosse a Rosária!... – disse consigo. E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta. «O rebanho parecia ser o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser outro que não a Rosária...» Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica. No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe: – Eh lá, Gonçalo, és? O pastor desatou a rir. – Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona! E logo a voz fresca da rapariga lembrou: – Não te esqueceu a moda, rapaz! – Isso esquece ela!... Ouviste, Rosária? – Se outra fosse que ma tivesse ensinado... Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou: – Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa? – Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p’r’as ovelhas. Han? – Basta! E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a pouco entrava, mais o rebanho, pela velha ponte mourisca, toda severa de construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas bravas. A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que era como um talismã precioso para livrar de maiores desgraças – naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles caminhos escabrosos que eram um perigo constante para homens e animais. Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual seguida do seu rebanho. – Ora viva a Rosária! – disse o pastor muito alegre, parando defronte da cachopa. – Bons-dias, Gonçalo! Então que ventos? Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da feira dos Caniços. – Por sinal que nem rez se vendeu! – lembrou o Gonçalo. – Por sinal! – disse com pena a Rosária. Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que a encontrava. – «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de sonhar! Nanja ele...» – Mas se eu estive tão doente! – volveu triste a Rosária. E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou: – Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era mesmo lume, desde manhã até ao escurecer... Uma assim! E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados, como agora tinha acontecido, – «tal e qual». – Assim te Deus salve, ó Rosária! – atalhou rápido o pastor, a quem enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga. – Assim; pois que dúvida? – tornou-lhe confiada a Rosária. – Não! – disse agastado o Gonçalo. – Não hás-de dizer assim... Dize certo, hás-de jurar direito. – Pois assim me Deus salve… – Como é verdade... Dize, tudo, Rosária! – suplicava o pastor. – Sim – volveu-lhe paciente a companheira – como é verdade que sonhava que nos encontrávamos – concluiu por fim muito risonha. E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também não a esquecera. – «Tanto

é que tirava da frauta as cantigas todas que ela lhe tinha ensinado.» – Lembras-te? A Rosária fez que sim com a cabeça. E logo, batendo na frauta de sabugueiro, o pastor apressouse a declarar: – Saem daqui sem falhar uma! – E resoluto: Vá feito, Rosária, pede por boca! A Rosária pediu então a Pastorinha. – Eu é da que mais gosto – explicou. – É a mais linda. E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a Pastorinha, enquanto a Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra: Onde vás, ó pastorinha, Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé... – Sabes essa! É mesmo assim! – disse-lhe a Rosária a rir-se. – É como vês! – afirmou contente o Gonçalo. Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois reba¬nhos, confundidos, andavam na pasta-gem. – Olha as ovelhas juntas! – notou o Gonçalo. – Também nós nos quedámos juntos, – volveu-lhe a pequena, sorrindo. – As pobres dão-se bem, são amigas... – continuou com júbilo. – E nós também, ora também, Rosária? – Também – respondeu afoita a pastora. E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias. * A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela de alva fenecera por fim, e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam despertar tudo: a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de asas – passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre renques verdejantes, gente em mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada chó! que se ouvia na outra ladeira. Já nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a ave-marias. Nas quintas e casais fumegavam os tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante, no céu imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores e continuavam conversa. Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a Rosária... – Mas o cabelo assim cortado... – disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça nua, e passando a mão pela dele – é que te não fica bem! «Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças! Negras, de mais a mais, que era como ele gostava...» – Promessa da mãe se eu melhorasse – explicou a Rosária. – Lembranças... A gente quando está aflita... – Quando está aflita... – repetiu como um eco o pequeno. E depois, amuado: – Se te promete os olhos... A rapariga fitou-o, espantada. ...é porque tos tirava! – concluiu convicto. Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.

E pondo-se de joelhos.. – E depois. No entanto. lá isso. – Turco. as necas.. Pois era para Nossa Senhora. a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo de que sempre valiam as promessas. mas ela foi-se. Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando. não lhe agradava a conversa.. tu não conheceste. bato-me com qualquer. era ele que ia buscar o pauzinho. dando ao demónio os pássaros. que ia valente. ia descaindo a tarde. que mais era que dormissem no mesmo curral... aposto! Bateu no peito e fez com a cabeça que sim. o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia subindo e descendo. e já começava para poente a decoração fantástica do ocaso.– Não falas. Nunca tinham dado fé que as horas passassem tão depressa. e para os pinheirais.. agachado. acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto se deixara estar sentado. – E interrompendo: – Sabes quem fez este bilro? – Foste tu. firme na sua objecção: – Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina! * À medida que o sol ia subindo. E para acabar com ela: – Que enfim como melhoraste. E foi-se a recolher as esparrelas. Num prego ao lado do altar. Rosária? – perguntou o pastor sem levantar os olhos para ela. aos domingos à tarde. – Também tu. iam os dois conduzindo as ovelhas para os sítios mais ensombrados. a bilharda. Ao alto. no céu glorioso e fulvo. No entanto. Ainda armaram aos pássaros. eu mais a mãe. a Rosária ia entretendo o pastor. traze cá.. disse-lhe assim: – Mas olha o que prometeste. deitado de costas. E sempre ao lado um do outro. Ela então propôs que jogassem a pocinha. já cansado de estar à espreita. – E deitando-se para trás: – Lá anda ela a pastar! – concluiu desalentado.. – logo te zangas! Olhem a lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso. com o fio da armadilha preso ao dedo. as pernas em ângulo tocando-se com os joelhos. repara que é a melhor. para as terras onde tinham de pernoitar. Como o tempo rendia. A gente bem rezou e bem promessas fez. Ficou lindo. batendo com o bilro nos dentes: – Que às vezes as promessas pouco valem.. os santos! – Olha a minha Joaquina.. quando zenia para longe. – E o fito. – Pois foi lá que deixámos as tranças. que foi quando tomaram para a banda das azinheiras. mais pensativo. – Se eles fossem tolos.. para se livrarem da estiagem. não vês? A que se vai agora deitar. – que as promessas sempre fazem. E contando. Parece que se ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio. – Aquela ovelha. Depois continuou: – Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Inda vais feita no que disseste? «Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo o santo dia. a branca. Ora. depois. com a jaqueta a fazer de travesseiro. sabias? E generoso: – Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta. ali por volta do meio-dia. pondo o bilro a girar. começou a procurar pelo rebanho. Mas quando ela fazia pausa. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno.. – Mas tinha de ser – volveu-lhe triste a Rosaria. . mostrando-lho orgulhoso – «que visse os torneados». ó Rosária? – perguntou de novo com interesse. contando casos. logo o rapaz acudia. ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro. jogaram tudo – a pocinha. E fitando fixamente os olhos negros da Rosária.. – começou com medo a pequena. mais as ovelhas.. – fez que concordava. Na bilharda. os dois companheiros levaram de conversa quase o dia inteiro. como o rafeiro trazia à mão. o fito.. essa noite?» – E o mais.. E convicta. um lacinho verde nas pontas. já não faiscava assim tão viva a areia branca das margens.. O pastor teve um movimento de enfado.. mas foi o mesmo que nada: os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas. Calor de rachar. credo! – E depois animando-se: – Já foste à Senhora dos Remédios? O Gonçalo fez sinal que não tinha ido. o largo céu esmorecia no seu azul suavíssimo. – Olha lá não caiam! – tinha dito o Gonçalo. – Olha como dança.

Gado para dentro e toca a merendar.. o Gonçalo apontou para a cabana que ficava ali perto. o Gonçalo perguntou. tirando à água a sua translucidez normal. o Gonçalo ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. cobrindo-se com as mantas. e da caminhada agora. – Huum! Arrependeu-se. Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o colmo. em mangas de camisa. – E os lobos? – perguntou a Rosária com medo.. três vitelos passavam o rio a vau. * Pouco a pouco.. Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou. A ladrar. tinha anoitecido havia instantes.. a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo areal a sombra dos três arcos. repetiu-lhe muito contente: – É mesmo além. Até que chegaram a um topo de serra. Quando passavam a velha ponte. um largo quadrado de cancelas marcava o espaço que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.A pequena ficou perplexa... Mas como o pastor não cessava de a olhar. e a companheira não dava palavra. À frente. confraternizavam os cães como bons e leais amigos. muito devagar. * Até que por fim chegaram. – Isso é lá com os cães. ó Rosária? – Triste… não… Já agora. lhes ia ensinando as manobras. E de novo se puseram em marcha. parando um momento. – Pois eu. A Rosária explicou logo: – São as mouras a caçar com redes de oiro. a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista. e deu o sinal de partida. um naco de queijo. tilintando campainhas. assomavam à flor da corrente as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. o guardador cantarolava. e pondo-lhe à cara a flauta. sabias? Para a outra banda. e propôs que se deitassem: estavam moídos da soalheira de todo o dia. pão. uma luz alaranjada tremeluzia. fundindo-se numa nota subtil.-tardes!» Ao sair da ponte. enquanto o pai. e interrogou: – Então é ali? – Ali mesmo – volveu-lhe já de marcha. que é só mau para quem passa a cavalo. escurentado de matagal rasteiro. e então. colocando na sua frente a Rosária. As ovelhas continuavam confundidas. que se levantava de todo o rebanho. tem de ser – volveu-lhe cabisbaixa. casava-se com a música. o que era de um era de outro: ele ainda trazia azeitonas. Numa terra de restolho. bebendo mansamente. – E sorriu-se. pequenos! – cumprimentou. assobiando aos cães. Sobre o vitelo das malhas brancas. – Não há perigo – tranquilizou-a o Gonçalo. Nas rugas da corrente. na direcção em que devia olhar: – Vês além?.. O brando rumor dos chocalhos. – Adeus. estavam de marcha para o curral. – Falta pouco. – Venha com Deus! – tornaram-lhe ambos... e achegando para a cabeça um do outro os bornais que faziam de travesseiro. Mal acabaram de comer. e formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul indefinido do céu. de um pitoresco ingénuo de balada. quis então saber: – Estás triste. Daí a pouco.. Dentro da chata que vogava serenamente. os cães . foi-se extinguindo no curral a música triste dos chocalhos. alongando o pescoço para a veia de água serena. respondeu: – Também. parando a espaços. – volveu consigo o pastor. A gente vai pelo atalho. o rebanho teve de se afastar um pouco do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos carregados. Ao fundo. um pouco mais abaixo. Neste direito? Resvés do castanheiro. – É bonito! – fez notar o pastor. E como ele ia expansivo. não enxergas? A outra fez que sim com um gesto. E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga. de pé num topo de fraga. cerrara de toda a noite. acenando com o chapéu ao moleiro – «Boastardes! Boas.

pergunto-me se tu. a tomar uma cerveja.. se deixaram adormecer – quando a história das mouras encantadas ia no seu melhor episódio. mesmo sobre a cabana. e saíram a ver o céu. quem sabe?. eu trato da necrologia. dumas palavras que desejas ouvir e nunca ouviste... a estrela da tarde não era nem mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas crianças.. E respondo ao Justino Soares que se vá embora descansado. a ilusão de que estão a viver um momento único. a brincar a brincar. de palavras grandiloquentemente romanescas. Trindade Coelho. Rosária! Olha. os dois conversaram algum tempo. então porque lhe chamas gaja em vez de princesa das laranjas de oiro. há vinte anos.. uma doçura verde de erva molhada) ou se terão somente a lúcida consciência de colherem da vida o resíduo mais imediato e provisório – resíduo sem memória futura. a calma repousante dum rosto de mulher. tão identificado com o presente que até já passou. alguma mulher. pois acabará certamente por chegar ainda mais atrasada do que tu)? E. Ou então. um “para a esquerda” difícil.. de todas as coisas. que não se preocupe. neste fim de tarde. – Bonito dia. aliás inútil. que fará do mundo. saberás que ele te trata por gaja. como falarás tu – se nesse encontro não porão vocês um pouco de sonho. a aceitar dilemas que talvez sejam simplesmente problemas mal postos? Pois. se haverá realmente. casada com o Eugénio. outros do Nouvel Observateur. porque te apostas em sonhar tão baixo? (Penso na Guilhermina. Dentro da cabana. duns compridos cabelos de azeviche (que é o azeviche?). por descargo de consciência. grande maroto!. daquele).. que aliás não farei logo à noite (falta-me o tempo!) possa sentir-me de bem comigo próprio. possa dizer-me que não sou um puro egoísta – muito antes pelo contrário sou capaz de sacrifícios (quais?) pelos outros: adio.. do trabalho irrespirável. bandos de pombas mansas iam voando. te esfregas na cama com uma gaja bestial – mas. conquistador imaginário? Mas se essa mulher não existe e tu procuras apenas um pouco de sonho.. são um nonagésimo sexto do dia). …na calma placidez do azul. a minha boa acção diária para que no exame de consciência. raio de sol.faziam eco. imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a Natureza. uma simples cerveja. mulher que vais chegar atrasada.. ao largo. Gonçalo! – Bonito dia. “ Sim. vencidos da fadiga. ao pensar daqui a uma hora que enquanto bebo café e converso O arquimortes inutilmente com amigos sobre os boatos que já não há (aquelas velhas revoluções que estavam para rebentar no dia seguinte e que nunca rebentavam).. E lá no alto céu. nos encontros que . voando. E se eu te armasse uma ratoeira? Se fosse à tua procura por todos os cafés de Lisboa e ao encontrar-te dissesse cruelmente: “Então essa gaja?” Que me responderias. estarás. que estou quase a acabar a crónica sobre política internacional (uns pozinhos do Monde. um momento que irá prolongar-se por muitos anos. um conflito assim entre irmãos – mas que mundo é este em que somos obrigados a julgar as coisas nas bases postas pelos outros e não por nós.. invocandome como testemunha para dares mais realidade ao sonho.. de resto: o conflito sino-soviético. mas puxando a coisa bem mais para a esquerda. O rebanho devia dormir profundamente. ou porque ela não aparece ou porque nunca existiu. inesquecível. tu. “Pá – tinha-me ele dito –. como poderíamos imaginar possível. nas conversas que temos. Justino Soares. a minha saída deste antro detestado – mas como aproveitaria eu esses quinze minutos se não tenho como tu.. na realidade. ao mesmo tempo que nas paredes brancas das casas do outro lado da rua a luz do Sol me obriga a desviar os olhos da janela. combinei um encontro com uma gaja bestial e já estou atrasado . na mais modesta das leitarias do teu bairro. pergunto-me como te falará ele. uma doçura verde de erva molhada (sim. por quinze minutos (e quinze minutos. até que por fim. mulher de branco. deste. e para que eu te inveje. num ciciar brando de vozes. jamais vivido sobre a Terra. se não terás falado assim para te safares do jornal. Quando ao repontar da manhã se levantaram. neste caso. dado que a censura se encarregará de tosquiar esse “para a esquerda”.. Justino Soares.. uma gaja bestial à minha espera (que nem estará à tua espera. in Os meus amores Publicada por Helena em 8:24 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores O Arquimortes A tua boa acção diária.

esfregava as mãos sempre que alguém morria. pertencia a uma família extremamente pobre. Alegria. não precisavam de ser mortos. muito pálido.. nascidos homens feitos afinal – (e não foste tu. reservara o registo complementar: os novos heróis que iam nascendo para a glória. como se fosse eu a dar-lhes vida? E a dar-lhes vida já com mais de quarenta anos. não humanos? – o ordenado que recebo não dá margem para ver humanidade nos homens que tenho de dirigir). S. falo verdade. do sarampo. que me falaste da tua juventude como de uma época terrível?). não a tive espontaneamente. essa tristeza. Ao que parece e apesar do nome aristocrático. dos tormentosos anos de aprendizagem. que poderia desempenhar a sua função discretamente. um Stravinsky). a boa acção que hoje me imponho). os ténues fios da vida!). vou buscá-la ao Arquimedes Meneses e Castro. Nascendo para a glória! Que sensação estranha a minha. a U. Porque o Arquimedes. Quanto aos interesses do Arquimedes. em suma. tirara um curso comercial com grandes sacrifícios e dizia-se que a mulher o enganava. decretará a verdade. dessas que bem ou mal têm honras de arquivo. e terminei – a censura que faça o resto. me sentia igual a um deus criador. como se todos aqueles mortos permanecessem vivos até o instante em que eu lhes baixasse os nomes ao papel. porque não confessá-lo?. só me lembro de lha ver nos dias em que alguma sumidade. dizia. em vez de imortais (um Picasso. tem uma voz que não é a minha. e mal acabava de escrever com letra gótica as palavras fatais (falecido em tantos de tal de mil novecentos e qualquer coisa) relia-as em voz alta para que tão importante acontecimento a ninguém passasse despercebido. que penso nele a sério durante alguns momentos. Olá! Olá! Alegria que talvez não se tivesse manifestado logo de início. Quase direi que nem dera pelo Arquimedes. mas sob a forma simples dos próprios atributos: não um homem calvo. porque ela acabaria por um fracasso. se coleccionava selos. a primeira vez que dou por ele.. mas provavelmente isto era falso. R. calvo. a estrutura última dos genes. Guilhermina. o seu papel sobre a Terra. a primeira vez. Pego depois na lista dos mortos (a tarefa do Justino Soares. nem sequer um romance policial. mas tristeza – sim. não um homem triste. e pelo braço do marido. mulher aparentemente com sangue na guelra. era geralmente um homem triste. “Vamos lá matar mais este gajo!”. os sentimentos profundos do Arquimedes. portanto. naquele nosso último diálogo em que elipticamente concluímos que nem sequer valia a pena tentarmos uma aventura fugaz. muito mais nova. ela decidirá o que o público deve ou não saber. não discutia futebol. mas calvície. quando introduzia um novo nome no ficheiro. um Prémio Nobel. nunca consegui imaginar como ocuparia o tempo em casa. abria o ficheiro aparatosamente. porque a frase (“Vamos lá matar esta cambada!”) não a inventei eu. Precisamente: dei-lhe um sujeito. nunca consegui descobri-los. Para mim. vistosa (vi-a uma única vez. nunca lhe vi um jornal desportivo nas mãos. complexa. porque quando dou por ele. mas pouquíssimo cheguei a saber da vida dele para além destas simples aparências. do ABC. passava desta para melhor. a China. que olho para ele com olhos de ver e não como se olha para um simples objecto igual a milhares de outros objectos (humanos?. por exemplo. resultava da comparação do seu aspecto (um homem apagado) com a frescura dela. aliviando-os assim da tortura sem nome de terem sido crianças e adolescentes. a descer a Avenida da Liberdade num domingo de santos populares). como se fossem àquelas mãos que estivessem presos os ténues fios da vida (aprecia a expressão. porque eram simples e puros mortais. um desses homens que tinham descoberto a dupla hélice. descobri-o para além das aparências ao ver que num desses dias de homens mortos-mortais ele folheava desencantado o . alegria verdadeira. ouço-me dizer. lendo o primeiro nome (Manuela dos Santos Cruz): “Vamos lá matar esta cambada!”. dos exames. se faria palavras cruzadas ou se votara no general Humberto Delgado. tarefa ao que eu pensava mais. já o Arquimedes era o que depois vim a considerar ilusoriamente que sempre fora. apesar de trabalharmos juntos todos os dias. tornando público o que até aí fora privado e desconhecido. Guilhermina. se via televisão. mas palidez. até certo ponto. o seu destino mais autêntico. Baixinho.evitamos. que tinha a seu cargo a actualização necrológica dos ficheiros do jornal. S. por detrás desse juízo definitivo estavam muitos meses de observação distraída em que ele não me aparecera ainda como um sujeito dotado de certos atributos. embora ao invés. ela imitava. esfregando as mãos. autonomamente. sessenta anos. inexistente. Mas esta sensação. da tabuada. não um homem pálido. Ouço-me dizer.) Sim. anunciava-nos. Eu próprio. dava gritos de satisfação (Olá! Olá!).. talvez nem ele próprio conseguisse localizar o dia exacto (o morto exacto) em que descobrira a sua verdadeira missão neste mundo. atributo sem sujeito (atributo ao qual eu não dera ainda sujeito) nesses dias em que os mortos. Decerto. que se entretinham a ler no ADN o romance das nossas vidas! E precisarei de acrescentar que. ao incluir no ficheiro esses recém-nascidos para a glória. penso agora.

futuro breve que ficaria indestrutivelmente conservado nas nossas memórias. a satisfação com que gritava: “Apanhei-o! Ah. perguntava. dissera. porque nos negamos um passado inviolável. que ao morrer prescindiam dos serviços dele. que já haviam inventado a história do Arquétipo. como diziam os graciosos sem graça nenhuma lá do jornal) já deviam ter setenta e nove anos (média exacta). os homens vulgares. Guilhermina. Para ele. esse mundo longínquo do qual tudo o mais é sombra na caverna. vinha noticiada no mais obscuro lugar da mais obscura das páginas. um anónimo sem honras de arquivo – de contrário ficaria horrorizado mal sentisse poisados sobre mim os olhos do Arquimedes. explicou. invadido por uma suspeita. o maroto que se me ia escapando!” O maroto que assim quase se lhe escapara. Objectei-lhe que o número parecia razoável se o comparássemos com o que sucedia em Lisboa: efectivamente. Guilhermina – a vida. consultava as outras fichas para saber as idades de quantos se obstinavam em ficar vivos. sofrendo com a ideia de que aquele (ou outro) continuasse clandestinamente vivo. a percentagem dos lisboetas vivos é bem mais elevada ainda. Muito corado. porque não tentamos a grande aventura? Porque a experiência nos ensinou que o amor passa. é nos jornais a vala comum dos homens vulgares) na vã esperança de encontrar algum morto-imortal – e o êxito. e com a mesma falta de humor. pois lhes falta o Arquétipo. caso quiséssemos saber com rigor se um Thomas Mann era vivo ou morto. por ser pouco provável que ainda pudesse estar vivo. senão no arquivo.ficheiro com a esperança de que algum já lá estivesse. Porque para o Arquimedes. Limitei-me a uma dúvida: que data havíamos de escolher? (Se nos amamos. fosse afinal um grande homem (os outros. desprezava-os. mal me vira. o que. era estatisticamente improvável num arquivo de personalidades que se distribuíam por cerca de quarenta séculos desde Amenofis IV (não sei bem porquê o ficheiro começava com este adorador do Sol) até o último coronel que fez ontem (ou há-de fazer amanhã) mais uma revolução fascista já não me lembro (ou não sei ainda) em que desgraçado país. De facto. a pouco e pouco fui-o percebendo. se nos entendemos como tu não te entendes com o Eugénio. tu com o Eugénio. Sim. Porque ninguém. Recorria à minha comparação com Lisboa: “Acha crível que trinta por cento dos Lisboetas andem à roda dos setenta e nove anos. onde. mais mês menos mês?” Objectei como pude (concedo que o argumento era de peso) e alguns dias depois o Arquimedes propôs-me que matássemos o Picasso. um desses homens que nem sequer são sombras na caverna. mas a sério – e à espera que eu lhe abrisse a luz verde para a ambicionada hecatombe universal. tenho de o dizer). insistia. cuja morte. o Thomas Mann ou o Bertrand Russell. que dentro de um ano já não nos entenderemos assim e que portanto não vale a pena ensaiar o que está destinado ao fracasso e que seria somente a repetição de experiências que ambos já tivemos. o arquivo do Diário da Tarde transformara-se no mundo dos arquétipos. lia em voz alta a data do nascimento. E por vezes surpreendi-o a reler o jornal (a ler até a necrologia. De caminho. por vezes. nós a quem nada mais resta do que a morte próxima ou longínqua?). “O gajo não nos terá escapado?”. e associando-me à sua própria alegria. o Arquimorto). toda a gente o sabe. poderia roubar-nos os próximos meses da nossa aventura. como eu não me entendo com a Helena. era o Matisse. a ficha do Picasso na mão. nem mesmo nós. orçando pelos cem por cento. apesar de tudo. fazia contas. eu com a Helena?) Os brincalhões do Diário da Tarde. O argumento perturbou-o e ele não se atreveu a dar-me resposta imediata. como se brincasse. um desses homens que não chegaram portanto a existir (e que recusam – recusamos. certos dias alcançado. esfregando as mãos. Porque lhe fugimos. e se por acaso o morto tinha ultrapassado os noventa anos não escondia a sua indignação. começaram então a chamar-lhe o Arquimortes (também. recorrendo sempre a demonstrações de ordem estatística: trinta por cento dos mortais-imortais vivos ainda e registados no ficheiro (no Arquétipo. bem à portuguesa. Felizmente sou um anónimo sem honras de arquivo. “Hoje vamos aqui matar uma porção deles”. Já então o dia que ele sempre recordava com saudade era uma certa segunda-feira em que nada menos de sete homens geniais haviam morrido. poderíamos encontrar a resposta? Certo dia. e que por pouco ia conseguindo ficar vivo ad aeternum. mas no dia seguinte contra-atacou. sujeitou ao meu exame um cálculo perturbador: dez por cento dos mortais-imortais incluídos no ficheiro ainda estavam vivos. “Nunca mais os matamos?”. pois falava na primeira pessoa do plural. consideravaos mortos de nascença). que. tanto quanto sei. substância de . e isto não é insinuar que conhecesse Platão (o Arquimedes era um filósofo espontâneo. a vida era a inevitável concessão que um universo imperfeito se vira obrigado a admitir para que a morte.

jovem ainda com os seus noventa e dois anos!). que todos os dias abro o jornal com receio de que o Casals e o Picasso. e despediu-se do Diário da Tarde com um argumento sem pés nem cabeça. E escrevo. ó irmão! Preciso agora de acrescentar-te. o poeta que tanto admiro. por nunca pensarem em ti.. O Arquimortes não os matara directamente. residente na Rua Braga de Melo. embora de forma mais genial e prática. apoiado na sua bengalinha. limitara-se a retirar-lhes as fichas. nunca mais ninguém lhe ouviu dizer olá!. porque nós já morremos há muito tempo ao desistirmos um do outro). a cargo da Agência Rebordão. mas rico de imperfeição. não serei eu a matar-te. o Casals. não tinham ainda posto outra cruz à frente do teu nome. Um pressentimento levoume a consultar as fichas do Picasso. Outro pressentimento forçou-me a procurar alguns nomes por mim recentemente ali introduzidos (o Luria. ainda aterrorizado No azul tranquilo. pelas quinze horas. vi perfeitamente evolar-se a foice que ele segurava. sem coragem de chamá-lo à ordem. Observei de longe o Arquimedes. um homem irrealizado. Guilhermina. 17. Nisto nesta visão niilista. e que nesse momento. tornou-se um homem triste (tornou. Arquimedes Meneses e Castro. vou passar por cima do teu nome – a ti. um homem que perdera o ser.. o nome seguinte é o de Arquimedes Meneses e Castro. aliás.. então ainda vivos (ou considerados vivos por toda a gente. portanto. 1. Leio o nome da Manuela dos Santos Cruz. saltou-me à vista o verbete do Teixeira – devidamente falecido.. Esq.? Precisarei de acrescentar-te que o proibi de continuar aquela tarefa? Mas a partir de então a alegria varreu-se-lhe do rosto. realiza-se amanhã. com toda uma família de grandes espíritos que desde a aurora do mundo têm visto no homem um cadáver adiado um momento de negatividade na positividade do nada. Manuela dos Santos Cruz. que posso até deixá-la em suspenso se não lhe puser o nome no jornal (mas amanhã quantas pessoas protestariam por tê-la salvo? Mesmo sem bens de raiz precisa de ser morta para que os vivos possam herdar-lhe a pobre mobília). “Por aqui?”. Se o Teixeira fora morto daí a um ano. disse-lhe depois. ouvi-o dizer num dos seus raros dias de fraqueza confessional: “Conseguiremos alguma vez pôr unicamente mortos naquela gaveta?” Conseguiremos e não conseguirei. do Stravinsky. enquanto esfregava as mãos.. contribuindo. (e profunda!) do cosmos reencontravase ele. sessenta e dois anos. pura ilusão que és. casada. antes de me aproximar. não dá quaisquer garantias de verdade). etc. tão pouco!. receava que o considerassem provinciano). nem sombra da caverna chegou a ser. Alguns dias adiante tive de ir ao Arquétipo para lá introduzir um novo gigante acabado de entrar no tablado da fama (com trinta e cinco anos!) e. de quarenta e quatro anos. para um acréscimo de imperfeição no universo. Poderei matar quem nunca chegou a existir no mundo das essências. da sua residência para o cemitério de Benfica. que não morrerá enquanto eu não lhe puser o nome no jornal. natural da Azinheira. Guilhermina. pudesse triunfar. natural de Portunhos (costumava dizer que era de Lisboa. conversava já não sei com quem. deixando no céu um ténue rasto de fumo que se prolongou sobre Lisboa por muito tempo (falou-se dessa nebulosidade no boletim meteorológico da televisão). vou deixar-te vivo para sempre. atributo sem sujeito).-se tristeza. abandonando assim uma empresa à qual estava ligado havia mais de trinta anos. Hesito. da tarde que anoitecia. Ainda perplexo. alguém que já não podia introduzir no mundo imperfeito um pouco de perfeição. até porque já ninguém te recorda e ninguém dará portanto pela tua falta. quem. esses novos vivos que as marés do talento iam substituindo aos mortos. só porque existia. (não. que o Teixeira veio efectivamente a morrer no ano seguinte. logo abaixo do título: “Faleceu a senhora D. mulher humilde (ao contrário do Arquimedes sou hoje um matador de gente humilde) e sinto que estou a adiar-lhe a morte.º. e quase posso garantir que lhe vi uma foice. os olhos presos ao Teixeira (o Teixeira. o Stravinsky fora-o daí a dois. o Álvaro Teixeira. o Picasso daí a três.). agora estás definitiva-mente morta até para aqueles que.. que o Stravinsky morreu dois anos depois. não era o teu. vou deixar-te vivo para a eternidade! Augusto Abelaira . embora no ano seguinte. incluindo os próprios – mas a opinião destes é evidentemente subjectiva e interessada. por acaso. uma longa foice na mão. Certo dia encontrei-o-na rua. negando-lhes assim que tivessem chegado a existir. quem nem sequer era sombra duma sombra? Decido-me. do Casals..” O nome seguinte. casado. mato-te friamente (vejo as minhas mãos ensanguentadas)..todas as coisas. Manuela dos Santos Cruz. o Delbrück. não era o meu. Não. no Arquétipo do Arquimortes. O funeral.

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