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O céu é o limite Alison Nöel

Digitalização e revisão: Marina

Formatação: Dominique

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O céu é o limite Alison Nöel

Sinopse:

Acima das nuvens...

Hailey ficou eufórica quando o vôo para o qual estava escalada foi
cancelado e ela pôde antecipar a volta para casa e fazer uma surpresa ao
namorado! Mas quem teria uma surpresa... e das mais chocantes... seria ela.

Para recuperar o equilíbrio emocional, esquecer o, passado e começar


vida nova, Hailey decidiu partir numa longa viagem ao redor do mundo.
Afinal, seu trabalho de comissária de bordo lhe possibilitava conhecer
lugares exóticos e pessoas interessantes. E em cada vôo, aeroporto ou
hotel, Hailey encontrou passageiros galanteadores, hóspedes sedutores,
amores passageiros e também o que ela jamaispoderia imaginar... O seu
verdadeiro amor!

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O céu é o limite Alison Nöel
Capítulo I

Lá estava eu, tentando pegar o exemplar do USA Today do lado de


fora da porta do quarto de hotel, e fazendo o possível para ignorar o fato
de que minha grossa meia-calça preta estava me apertando demais, quando
ouvi o som abafado do telefone.

Em qualquer outro dia, eu pegaria o jornal e me jogaria em direção ao


elevador, pois um telefonema naquele momento só poderia significar que
estavam me procurando e que eu tinha menos de trinta segundos para
chegar ao saguão do hotel.

Mas hoje tudo era diferente. Estava adiantada cinco minutos, era
meu vigésimo oitavo aniversário e, antes do fim do dia, estaria noiva de
Michael, meu adorado colega de quarto e namorado nos últimos quatro anos.
Tudo começara no dia anterior a minha partida para esta viagem. Eu limpava
o quarto e cantava e, de repente, bati contra a mochila de Michael, fazendo-
a cair. Agora admito, até aquele momento a tal mochila não tinha o menor
interesse. Sempre a considerei uma maleta sem importância; mas, quando vi
a bagunça espalhada ao meu redor, ajoelhei-me para examinar cada
pedacinho como se fosse o portão para um mundo de segredos que eu jamais
pensei que pudessem existir.

Claro que havia tudo que se poderia esperar de um comissário de


bordo. Mapas, barras de proteína inacabadas, o documento de identidade
dele na companhia, e uma lanterna amarela enorme que deveria ser usada em
caso de emergência. Mas havia também algumas surpresas, como o tubo de
pomada, a garrafa vazia de um remédio e um cartão de uma locadora nada
familiar. E havia também aquela caixinha pequena, azul, amarrada com uma
fitinha branca. E eu, cheia de emoção, com o coração acelerado, logo
imaginei Michael ajoelhado a minha frente, com olhos apaixonados, pedindo-
me em casamento. Quase disse "sim" naquele mesmo instante, ali, sozinha no
quarto.

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Assim, antecipando um café-da-manhã com meu quase noivo, voltei
para dentro do quarto e atendi ao telefone. Uma voz masculina, com forte
sotaque sulista, perguntou:

— Hailey Lane? Aqui é Bob, do setor de programação de vôos. O


restante de sua viagem foi cancelada. Pode voltar para casa.

Eu não poderia receber uma notícia melhor! Mesmo assim, dei-me o


direito de duvidar:

— Ora, deixe disso, Clay. Já estou descendo.

— Sita. Lane, lembre-se de que todas as ligações são gravadas —


disse a voz dele, num tom divertido.

— Não é Clay quem está falando?

— Seu vôo para casa é o 001, sem escalas, de San Diego a Newark.
Vai chegar às três horas.

— Está falando sério? Não preciso mais ir a Salt Lake, Atlanta, e


depois a Cincinatti?

— Ainda preciso entrar em contato com o restante de sua tripulação.


Portanto... — Ele começava a parecer aborrecido.

. — Está bem. Só mais uma pergunta: Posso mudar um pouco o


caminho? Porque há um vôo sem escalas até La Guardiã uma hora antes.
Posso ir nele?

— Sem problemas. Vou fazer a transferência agora mesmo.

— Mesmo?! Oh... Obrigada! Muito obrigada! Não faz idéia do quanto é


importante para mim! É meu aniversário e... Alô?

Desliguei, já que ele o fizera primeiro, e enfiei o jornal embaixo do


braço. Fui até o quarto de Clay, bati duas vezes, esperei, bati de novo, pois
era nosso código secreto há seis anos.

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Clay e eu nos conhecemos no primeiro dia do treinamento para
comissários da companhia e devo a ele o emprego, pois teria desistido logo,
se não fosse seu apoio. Quando eu pensava em desistir, lá vinha ele com seu
discurso longo, descrevendo emoções, aventuras, alegrias. E eu ia ficando.
Fiquei até hoje. Mesmo enfrentando um treinamento quase militar no qual
até mesmo esquecer de sorrir poderia acarretar uma passagem sem volta
para casa.

Aprendemos tanto juntos, eu e Clay! Como tentar sobreviver com o


mínimo possível num caso de queda de aeronave, como Tingir que não viu
quando dois passageiros estão envolvidos num «braço que vai além do
normal, como segurar um passageiro agindo em seu lugar, sejam quais forem
as conseqüências, como lidar com palavras pesadas, gente mal-educada,
cantadas, ferimentos, lírios, vômitos etc.

Passamos, enfim, por tudo que deveríamos no treinamento e, quando a


companhia tinha, finalmente, quebrado nosso espírito, e nos tornamos
apenas símbolos de seu emblema, entramos em nosso primeiro vôo com
aquele sorriso absolutamente simpático e autêntico no rosto.

— Feliz aniversário, boneca! — disse ele, na voz arrastada do sul. —


Você está linda! — Ele vestia um blazer azul-marinho.

— São quatro da manhã e nem estou com olheiras! — exclamei. Valeu a


pena não dar aquela esticadinha com vocês ontem à noite.

— É, mas perdeu bons momentos. Nós nos encontramos no bar e cli


vidimos a conta fraternalmente. Nosso primeiro oficial até usou nina
calculadora.

— Está brincando!

— Não estou, não. Gastei exatos oito dólares numa comida ruim e um
copo de vinho seco.

— Bem feito. Isso incluiu a gorjeta.

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— E ele paga gorjeta a alguém? Tive de tirá-la do meu bolso, li então,
vamos desviar do caminho?

— Eu vou.

Estávamos já caminhando em direção ao elevador, quando ele


observou:

— Ótimo, porque eu disse ao pessoal que faria exatamente o que você


fizesse. Assim, podemos dividir o dinheiro do táxi.

— Está bem, mas nada de parar pelo caminho.

Clay era famoso por ficar parando aqui e ali no caminho entre o
aeroporto La Guardiã e qualquer lugar em que estivesse hospedado naquela
semana.

— Nada de caixas eletrônicos, lanchonetes, locadoras, bares... tenho


uma noite maravilhosa pela frente e agora que vou chegar mais cedo em
casa, quero tomar um longo banho e talvez, até, ir à manicure.

— Ah, então esta noite é a noite...

— Exatamente.

— Vai dizer sim ao sujeito?

— Talvez.

— Como assim?

— Ah, acho que sim, porque vivemos juntos, ele é bom para mim, é
normal.

— Ótimo. Então, qual é o problema?

— Problema? Nenhum! Quero dizer...

— Hailey, ele é piloto! Que tipo de emoção achou que iria ter?

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— Ah. Mas ele não é como os outros! Vive em Manhattan, não se veste
feito um bobo... E vai me levar ao Baboo esta noite porque é meu aniversário.
E lá elevai deixar uma gorjeta gorda porque é, também, generoso.

Entramos na van que nos levaria ao aeroporto. — Bem, então nada


mais me resta dizer a não ser que você se sentiria muito mais segura se
olhasse dentro daquela caixinha da Tiffani que encontrou.

Passei o vôo todo fazendo uma lista mental de todos os motivos pelos
quais deveria me casar com Michael. Não podia fazer uma lista real, escrita,
pois tinha de ficar fingindo que dormia para evitar conversa com os dois
homens gordos e cheirando a cigarro no meio dos quais fui colocada no avião.

Havia dois lados em minhas impressões. O que dizia que deveria


simplesmente dizer sim e outro, que me mandava cair fora quanto antes.
Continuei fazendo minha revisão mental, mas não consegui chegar a uma
conclusão que pudesse ser definitiva. . Passei a maior parte de minha vida
adulta seguindo de um lado para outro e viajando pelo mundo, deixando uma
trilha de projetos inacabados, como faculdade, namorados, o romance que
comecei a escrever há sete anos. Nunca consegui ficar com alguma coisa por
muito tempo, nem mesmo com a cor de meus cabelos! Assim, não era de
estranhar que agora tivesse dúvidas. Na verdade, a única coisa que
realmente completei foi meu treinamento de comissária de bordo e isso se
deveu mais à insistência de Clay do que a minha boa vontade.

Portanto, o fato de agora estar com os músculos do estômago tensos


era devido apenas e exclusivamente a mim mesma e não a algo que Michael
pudesse ter feito.

O problema era que, agora, tudo era diferente. Estava trabalhando


para a Atlas Linhas Aéreas há seis anos, o que era um recorde, e estava com
Michael há quatro, unia marca maior ainda! É verdade que nós dois
viajávamos muito e que o tempo que tínhamos estado juntos jamais
ultrapassaria seis meses, se todos os dias fossem somados. Mesmo assim, o
recorde persistia. Isso para não mencionar que todas as minhas amigas,
nesse espaço de tempo, tinham se casado e eu era sempre convidada a vê-

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las desfilarem pela igreja sem nem mesmo um ligeiro sinal de pânico. E,
depois de casadas, todas elas tornavam-se, invariavelmente, grandes sábias
da filosofia matrimonial, dando-me conselhos e mais conselhos sobre como
fisgar um homem, porque, em minha idade, supunham que eu já deveria estar
casada. Há, realmente, uma idade para isso?!

Bem, agora chegara minha vez.

E eu, nesses anos todos na aviação, sabia muito bem que o avião nunca
espera. Que, se não estivesse no portão de embarque na hora certa, seria
imediatamente substituída. E estava começando a acreditar que talvez
essas frases se aplicassem também a minha própria vida. Quero dizer,
talvez Michael não fosse a pessoa mais emocionante, mais criativa, ou
mesmo a mais divertida, mas era apresentável, confiável, tinha uma boa
conta bancária e me tratava bem. E eu começava a ver que retroceder e
esperar por alguém mais atraente resultaria apenas em acabar perdendo de
vez o avião e ficando sozinha para sempre. Assim, quando estávamos quase
chegando, eu já decidira a me mostrar surpresa e emocionada quando ele me
desse a tal caixinha azul e pretendia dizer sim com tanto entusiasmo quanto
possível.

Assim que pousamos, verifiquei minha mala de mão, liguei meu celular
e passei a seguinte mensagem para Michael:

Olá, querido. Tenho boas novas. Meus vôos foram cancelados e


estarei chegando mais cedo. Sei que deve estar na academia ou algo
parecido, mas queria apenas dizer olá e mal posso esperar por esta noite.

Enfiei o aparelho de volta na bolsa e tentei ignorar o cheiro de cebola


que vinha do sujeito à minha direita. Nesse momento, a voz do comandante
soou pela aeronave:

Senhoras e senhores, queiram por gentileza aguardar mais alguns


momentos, pois estamos com um ligeiro problema com a conexão para
abrirmos a porta. Contamos com sua paciência e colaboração. Obrigado.

O homem à minha esquerda cutucou meu braço e perguntou:

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— O que ele disse?

G que estava acontecendo? Não tínhamos todos ouvido o mesmo


anúncio no mesmo volume? Ele achava que por estar usando uniforme de
comissária eu teria ouvido algo mais? Sorri, tentando manter a calma e a
educação e respondi:

— Acho que ele disse que está havendo um probleminha com a porta.
— E vi que ele ficava absurdamente vermelho, como se estivesse a ponto de
ter um ataque cardíaco.

— Linha aérea de quinta! — resmungou, olhando-me como se eu fosse


pessoalmente responsável por qualquer coisa que o tivesse desagradado no
vôo. — Nunca mais vou voar nestes aviões!

Passei os olhos ao redor para verificar se minha supervisora ou


qualquer outro colega em serviço estava por perto, pois se estivessem eu
tentaria, calmamente, diminuir a tensão do passageiro e discorreria sobre o
excelente serviço de nossa companhia. Mas como não havia ninguém,
simplesmente dei de ombros e liguei meu iPod.

Pouco depois, já correndo para a fileira de táxis do lado de fora do


saguão, encontrei Clay, como já era de esperar.

— Olá! — ele saudou, espremendo-se entre muitas outras pessoas que


carregavam malas pretas idênticas, com idênticas fitas vermelhas
amarradas nas alças para poderem ser identificadas mais depressa entre as
demais. — Demorou a chegar.

— Tive de aceitar o lugar onde me puseram, lembra? E então, como


foi na primeira classe?

Ele era três meses mais velho do que eu, o que, naquele caso, era tudo
que era necessário para mantê-lo sentado na frente confortavelmente
enquanto eu ficava atrás, espremida entre dois barris.

— O serviço está cada dia pior — disse ele. — Sabe que não vamos
mais servir pretzels com o coquetel antes do vôo? Parece o fim do mundo!

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Já era nossa vez para o próximo táxi e Clay abriu a porta, avisando ao
motorista:

— Vamos fazer duas paradas. — E deu meu endereço e depois o seu,


que costumava mudar praticamente toda semana.

Estávamos acomodados no banco de trás quando decidi indagar:

— Está em Chelsea esta semana?

— Já faz um mês, na verdade.

— Ora, ora, estamos falando de um novo homem!

— Vamos mudar de assunto. E então, está nervosa? Olhei pela janela,


vendo as luzes de Manhattan.

— Um pouco.

— E? Então, não se esqueça dos pobres coitados que estiveram


sempre a seu lado antes de decidir dar o passo final dentro do mundo dos
casados, certo?

— Clay, sabe que eu jamais me esqueceria de você. — Segurei-lhe a


mão e apertei-a de leve.

— Ah, isso é o que todas dizem, mas é uma história velha. Perder faz
parte da vida, afinal.

— Oh, pare de choramingar. Você é meu melhor amigo! Ele tornou a


sorrir enquanto eu prosseguia:

— E, além do mais, Michael adora você.

Clay ficou me olhando, desconfiado, obrigando-me a corrigir:

— Está bem, ele tolera você. Mas prometo que nada vai mudar. Você
vai ver. — Sorri também, tentando parecer animada e verdadeira, mas não
sei por que, não convencia nem a mim mesma.

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Ao chegarmos a meu prédio, inclinei-me e dei-lhe um beijo no rosto,
prometendo:

— Ligo para você amanhã. Podemos nos encontrar, tomar um café e


lhe darei todos os detalhes sujos além, claro, de lhe mostrar o anel.
Prometo.

Peguei minhas malas e corri para dentro, ansiosa por subir as escadas
e tirar aquele uniforme de poliéster que eu detestava.

Fui tirando partes no elevador, até chegar ao décimo quarto andar e,


quando cheguei e abri a porta de meu apartamento, já estava sem os
sapatos, sem a jaqueta, e a ponto de sair da saia. Foi então que vi o blazer
azul-marinho no tapete turco que tínhamos comprado num bazar na
primavera anterior. Peguei a peça de roupa e dobrei-a sobre meu braço,
empurrando a porta entreaberta do quarto. Deparei, então, com uma cena,
no mínimo, inquietante, como outras de que ouvira falar muito, mas que
jamais imaginei que pudesse acontecer na vida real.

Ali, sentado na beirada de nossa cama enorme, estava meu futuro


marido, Michael, usando o suéter cinza de cashemir que eu lhe dera no
aniversário, empurrado para cima, até seu pescoço com as calças baixadas
até os tornozelos, a cabeça voltada para trás, os olhos cerrados e os lábios
entreabertos, enquanto uma comissária morena, de cabelos curtos, dava
beijos em seu peito.

Fiquei parada, chocada, vendo outra mulher fazendo o que eu mesma


fizera dois dias antes, pouco antes de sair e pegar o ônibus para o
aeroporto. Houve, então, um grito horrível. Demorou para eu entender que
saíra de minha garganta.

— Hailey! — Michael gritou, levantando-se de imediato. — Não é o que


está pensando! — E tentava erguer as calças, o que lhe dava uma aparência
patética.

— Oh, Deus, o que está havendo aqui, Michael? — continuei aos gritos.

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— Calma, meu amor! Está tudo bem, ouviu? Mas eu repeti, ainda mais
alto:

— O que está havendo aqui, seu miserável?! — Não conseguia me


mover, nem fechar os olhos, o que me obrigava a ver aquela moreninha
ridícula encurralada contra os fundos da cama.

— Hailey, por favor, querida. Posso explicar.

-— Quem é ela?! — exigi saber, vendo a garota enfiar o rosto na


colcha.

Foi então que ambos me encararam, de repente, e compreendi. Não se


tratava do que eu estava pensando. Era ainda muito pior. A garota em
questão era um homem!

— Oh, meu Deus! — sussurrei, enojada, saindo do quarto.

— Hailey!

Mas eu já estava na sala, puxando o zíper da saia e procurando meus


sapatos. Tinha de sair dali o quanto antes. Ajoelhei-me para pegar os
sapatos que tinha lançado embaixo tia mesa de centro e ouvi, numa voz
suave, quase suplicante:

— Hailey, por favor, devolva minha jaqueta, sim? Vou me atrasar para
meu vôo.

Ergui os olhos para ver o jovem que, segundos antes, beijava o peito
de meu namorado. Então baixei os olhos para a jaqueta que ainda trazia no
braço, achando, todo aquele tempo, que era minha e que a tinha deixado no
chão por ser uma péssima dona de casa. Joguei-a para ele e, arrebanhando o
que era meu, saí correndo. Ao fechar a porta atrás de mim, ainda pude ouvir
os gritos de Michael:

— Hailey! Espere! Posso explicar! Não diga a ninguém!

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Capítulo II

Assim que consegui colocar minha cabeça em ordem, passei a me


fazer todas as perguntas que, normalmente, uma comissária faz assim que
desperta para um novo dia: Onde estou? Que hotel é este? Será que perdi
meu vôo? Por que não me acordaram pelo telefone, como pedi? Onde fica o
banheiro? E, em meu caso, em particular:

Quem é essa pessoa peluda deitada a meu lado?

Abri um olho e tentei saber quem poderia estar ali, junto a meu
ombro. E, quando me voltei, cuidadosamente, fui cumprimentada pelo olhar
cinzento e gelado de Conrad, o gato persa esnobe e de nariz empinado que
ganhou o nome do terceiro marido de Kat. Só então os fatos do dia anterior
começaram a voltar a minha mente, arrebatadores.

Depois daquela cena terrível, peguei um táxi e dei ao motorista o


endereço de Kat. Mas fazia sentido. Afinal, Clay estava em Chelsea, e todas
as amigas com quem eu costumava sair estavam agora casadas ou tinham
acabado de dar à luz, tinham sido transferidas para outra base, não
trabalhavam mais para a Atlas, enfim, não estavam disponíveis para me
oferecerem seu ombro amigo. Além do mais, desde a viagem que tínhamos
feito juntas a Madri, há cinco anos, Kat tinha se tornado quase uma mãe
para mim, embora, claro, muito menos intrometida do que uma mãe de
verdade poderia ser. Ela também era a única que j á tinha horas de vôo
suficientes para seguir para Istambul ou Atenas no meio da semana, o que
significava que deveria estar em casa naquele momento.

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Assim que abriu a porta para mim, Kat me olhou profundamente .e


disse apenas:

— Vou lhe preparar uma bebida.

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E eu entrei em sua sala de estar e me joguei no sofá, querendo apenas
morrer.

— Acho que vou vomitar — murmurei.

— Bobagem. Deixe sua bagagem aí e venha comigo enquanto preparo


seu copo. Quero que me conte tudo. — Kat passou o braço por meus ombros
e me guiou até sua biblioteca, onde costumava deixar uma ou duas garrafas.

Eu me enrodilhei num sofá de veludo, enquanto ela colocava a bebida


em dois copos. Como sempre, estava impecavelmente vestida, com a
maquiagem perfeita e os cabelos loiros, brilhantes e suaves, com cada fio no
seu devido lugar. Olhando-me com atenção, apenas comentou, sorrindo.

— Não me parece que seja um momento para champanhe. Vodka é


mais apropriada.

Eu não queria álcool de espécie alguma, mas aceitei o copo e dei um


pequeno gole, sentindo a bebida descer, queimando por minha garganta.
Depois tornei a olhar para Kat e bebi de novo.

Katina Wikes-Noble-Whitmore é uma comissária de carreira, com


mais de trinta anos como sênior. Uma mulher que, em sua vida fascinante, já
jantara com grandes estadistas e os servira. Casada por três vezes, e agora
viúva, sem filhos, parecia ter adotado tanto a Clay quanto a mim.

Quando seu terceiro marido, Conrad, caíra fulminado por um ataque


do coração, havia três anos, Kat se tornara mais rica do que jamais poderia
imaginar. E depois de tirar uma licença-prêmio de seis meses para poder
chorar a morte de seu amado, acabara voltando a voar. E, de imediato, se
tomara inimiga de qualquer comissário júnior que, num mundo liderado pelos
comissários sêniores, passa a vida toda esperando que mulheres como ela
acabem desistindo do serviço.

Mas Kat tinha de continuar voando. Gostava de saber dos dramas


alheios e ajudar as pessoas. Pode não parecer, mas, a tantos pés de altura,
muitos dramas se desenrolam...

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— Kat, eu... — comecei, mas ela me interrompeu:

— Não diga nada. Vá bebendo.

Obedeci, vendo que a vodka estava começando a me fazer bem.


Minutos depois, deixei o copo sobre a mesa de centro e caí em prantos.
Quando consegui parar de soluçar, Kat me ofereceu uma caixa de lenços de
papel.

— Obrigada.—Assoei meu nariz, deixando de lado a vergonha por


fazê-lo diante de alguém. Afinal, vergonha era algo bem relativo naquele
momento. — Sinto muito... Eu... devo estar horrível.

— Bobagem. Agora, conte-me o que houve e vamos dar um jeito em


tudo.

Respirei fundo e contei tudo a ela. Cada detalhe. Ela apenas me


olhava.

— Tem certeza? — perguntou, por fim. — Sobre o que realmente viu,


quero dizer.

Peguei a garrafa de vodka e me servi.

— Sim, tenho certeza — murmurei, relembrando cada segundo


daquela cena horrorosa.

— E quem era? Alguém que eu conheça?

— Acho que não. O sujeito voa pela Lyric.

—A linha que oferece aqueles descontos?! — Ela parecia ainda mais


chocada. Considerava o uniforme deles horrível, os sapatos fora de moda e
os descontos o fim do mundo!

Assenti, vendo-a erguer as sobrancelhas para comentar:

— Bem, não me surpreende. São uns verdadeiros animais...

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— Sabe, sou uma idiota! Uma enorme idiota! Pensei, mesmo, que
Michael ia me pedir em casamento!

— Voltei a soluçar e enfiei o rosto nos lenços de papel.

— Você não ia aceitar, ia?

Encarei-a novamente, vendo seu olhar desaprovador, e de imediato me


arrependi de tê-la procurado. Afinal, eu estava procurando por
solidariedade apenas e não havia nada de solidário no que Kat acabara de
dizer.

Ela se levantou e me olhou de frente, muito séria, para concluir:

— Hailey, sei que não quer ouvir isto, mas acho que o que aconteceu
foi apenas para seu bem.

Encostei-me nas almofadas e cerrei os olhos, determinada a não mais


ouvi-la. Devia ter ido à casa de Clay, imaginei. Ou a um hotel. Ou me enfiar
nas estações do metrô como tantas outras pessoas solitárias.

— Você é jovem demais para se amarrar — Kat prosseguiu, lira


estranho ouvir uma mulher que passara por três casamentos dizer tal coisa.

Cruzei os braços, numa atitude de proteção. E ela continuava: —Além


do mais, não acha que foi melhor descobrir tudo agora, em vez de daqui a
cinco anos? Já pensou? Você, numa casa de subúrbio, com quatro crianças
agarradas a sua saia, Michael voando pelo mundo, voltando apenas para
largar a roupa suja e as bobagens compradas no free-shopl Comecei a ouvir.
Fazia sentido.

— Mas como uma coisa horrível assim pôde me acontecer? —


murmurei, chorando de novo.

— Como pude não saber? Não perceber? Clay sempre diz que sou tão
esperta e, no que se refere a meu próprio namorado, estava cega!

Kat tornou a erguer as sobrancelhas. Bebeu um gole de sua vodka e


indagou:

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— O que pretende fazer?

Fui até o barzinho, onde peguei mais gelo e respondi:

— Tudo o que sei é que estou oficialmente solteira e sem teto.


Poderia me deixar ficar aqui por alguns dias? Apenas até eu ir buscar
minhas coisas e arranjar outro lugar para morar.

— Mas é claro que pode ficar! Harold, William, Conrad e eu vamos


adorar sua companhia!

Olhei para os três gatos acomodados pelos tapetes, cada um com um


nome dos ex-maridos de Kat, inclusive a gatinha Conrad. Eles também me
encaravam, sérios, mas intensos. Deus, eu tinha me esquecido de que era
alérgica a pêlo. Mas eu não tinha muitas alternativas. Portanto, seria melhor
ficar na cobertura de Kat com os três gatos ou morar na sarjeta.

— Obrigada — disse, sentindo as lágrimas descerem por meu rosto


novamente.

— De nada, minha querida.

E agora, apertando a cabeça dolorida com ambas as mãos, saí da cama


onde Conrad permaneceu e segui para a cozinha, determinada a encontrar
minha amiga e me desculpar pela choradeira, pela bebedeira e pelo desmaio
de cansaço e sofrimento como terminou o espetáculo da noite anterior.

Encontrei apenas um recado colocado sob uma pirâmide de latas de


comida para gato, no qual Kat me dava instruções detalhadas sobre como
alimentar os bichanos. Um P.S. anunciava que ela seguira para Atenas, para
visitar uma amiga.

Fiquei imaginando quem ela poderia conhecer na Grécia e dediquei-me


a colocar a comida nos pratinhos de vidro quando, de repente, Clay entrou na
cozinha, com um buquê de tulipas, sorrindo e praticamente gritando:

— Bom-dia, boneca!

Meu coração quase parou de susto.

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— Como foi que entrou? — foi minha resposta a sua saudação matinal.

— Kat me ligou hoje cedo, disse que eu deveria dar uma passada e
verificar se você estava bem. Então nos encontramos no Grand Hotel e ela
me entregou as chaves. Você está bem? — Ele largou as tulipas e deu-me um
abraço que provocou outra onda de choro. — Sinto muito — ouvi-o sussurrar
em meu ouvido.

Sequei meus olhos inchados e peguei as flores que ele me entregava,


cheirando-as, mesmo sabendo que não tinham perfume.

— Ela lhe contou tudo? — perguntei, olhando-o por cima das pétalas.

— Sim. — Clay baixou os olhos; era evidente que estava des-


confortável.

— Oh, Deus, sou tão idiota! — exclamei.

— Não diga isso.

— Sou, sim. Nunca me ocorreu que ele estivesse... — Parei, sem


conseguir terminar a frase.

— Pilotando um teco-teco? Desculpe, foi uma piada de mau gosto.—


Ele se voltou para pegar um vaso para as flores. — Vamos combinar uma
coisa: sei que se sente devastada e isso é compreensível. Vou te ajudar a
superar isso, e acredite em mim, tenho um bom plano. Mas, antes mesmo que
comecemos, tenho de insistir em que tire esse uniforme e tome um bom
banho. O que me diz?

Olhei para mim mesma, surpresa por ver que ainda estava usando meu
uniforme azul.

—Não acredito que dormi assim. Devo estar horrível. — Meus olhos
estavam cheios de lágrimas de novo.

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— Olhe, vá para o chuveiro, depois vista um daqueles robes que Kat


coleciona enquanto vejo o que ainda resta aqui de um dos ex. Depois
explicarei o que tenho em mente, está bem?

Pouco depois, vestida num aconchegante robe vermelho e com meus


cabelos soltos, ainda úmidos, encontrei Clay no sofá da sala, com um charuto
apagado entre os lábios, vestido num enorme paletó de um smoking.

— Onde encontrou isso? — perguntei, rindo.

— Num dos quartos de hóspedes. E então, estou bem? — E colocou-


se numa posição supostamente masculina entre as al-i notadas.

— Parece o mestre-de-cerimônias do filme Cabaré. E esse charuto?

— Já experimentou um?

Neguei com a cabeça e me sentei, colocando um pé embaixo do corpo.

— Eles são tão... Másculos, não acha? — Ele observava o charuto. —


Um sujeito hetero que goste muito deles não deve ser tão hetero assim...

— Oh, Deus... Michael adora charutos, especialmente os cubanos.—


Senti um aperto na garganta.

— Sinto mais uma vez ter acertado...

Olhei para os dois bloody mary que ele tinha preparado e peruei um.

— Não devia beber isto — comentei. — Um café seria melhor.

— Esqueça. Quer ficar alerta? Ou quer se sentir melhor? Não, eu não


queria ficar alerta. Tomei um gole e, logo em seguida, o segundo.

— Muito bem, qual é seu plano, então?

— Bem, abriu meu presente.

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A pergunta estalou em minha mente. Eu não só não abrira o presente
como me esquecera completamente dele até agora. O olhei, cheia de culpa, e
murmurei:

— Eu não tenho bem certeza de onde ele está

— Tem sorte por eu tê-lo encontrado porque, mesmo parecendo


estranho, ele se encaixa perfeitamente em meu plano.

Clay retirou um pacote retangular embrulhado em papel dourado


debaixo de uma almofada.

— Onde o encontrou?

Ele o entregou a mim, explicando:

— Bem no fundo de sua mala.

— Vasculhou minhas coisas?

— Não tem segredos para comigo, tem, boneca? Vamos lá, abra!

Obedeci, vendo o DVD com o retrato em preto e branco de Audrey


Hepburn segurando uma longa cigarreira aparecer diante de meus olhos.

— Oh, adoro este filme! — exclamei, inclinando-me para abraçá-lo.

— Ótimo. Muito bem, este é o plano. — Clay deixou sua bebida e


olhou-me, sério. — Vamos nos deliciar com nossos bloody mary enquanto
assistimos Bonequinha de Luxo. Depois vamos pedir comida japonesa ou
chinesa. Quando terminarmos, já será de tarde; e vamos então comemorar
com outro coquetel e, se você quiser conversar e espantar toda essa
tristeza, vou ficar calado e ouvir. Prometo não interromper, nem mesmo dar
conselhos, a não ser que os peça. Então, vamos ligar para uma doceria e
pedir sorvetes, bem como um jornal, e depois, quem sabe, vamos
experimentar uns daqueles uniformes antigos e engraçados que Kat ainda
guarda, dos anos setenta. Imagino que, em certo momento, vamos acabar
dormindo. Quando amanhecer será domingo. — Ele parou, movimentou o
charuto apagado no ar e completou: — Bem, ainda não completei todos os

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O céu é o limite Alison Nöel
detalhes para o domingo, mas acho que lá pelas onze e quarenta e cinco, da
noite, claro, vamos ter que limpar toda a sujeira que fizermos. E, pouco
depois da meia-noite, quando for oficialmente segunda-feira, você vai
recomeçar sua vida.

— Não sei se vou conseguir... — Eu poderia parecer patética, mas


estava sendo honesta.

— Claro que vai! Vai ter que fingir durante algum tempo, mas vai
conseguir, sim! Acredite em mim, Hailey! Não estou lhe pedindo que esqueça
o que houve porque sei que isso vai demorar muito mais do que ura fim de
semana de ócio. Só estou sugerindo quarenta e oito horas para descansar,
sem esquecer o que já sofreu ontem, e depois vamos limpar tudo e não olhar
para trás.

— Não sei... — recomecei a chorar. Clay aproximou-se e tocou meu


queixo.

— Sei que agora parece impossível, mas vai conseguir, boneca. Agora,
vamos, passe-me esse DVD.

Depois de assistirmos duas vezes ao filme, de bebermos três bloody


mary, comermos salgadinhos à vontade, e nos deliciarmos com duas caixas
de comida chinesa, além de mordiscarmos, sem jamais acendermos o
charuto, e depois também de muitas lágrimas o duas caixas de lenços de
papel usadas, consegui, finalmente, convencer Clay de que estava pronta
para levar minha vida adiante.

Estávamos nos despedindo, à porta, quando o abracei, murmurando:

— Não sei o que faria sem você.

— Tem certeza de que agora está bem?

— Absoluta. Então, vai voar amanhã?

— Sim. Ficarei dois dias em San Juan.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Ah, você sempre consegue as viagens mais interessantes! Não sei o
que faz para ter tanta sorte.

— Acho que são meus seis anos de suborno com chocolate e vinho
comprado fora e trocado pelo favor certo, com a pessoa certa... Podia fazer
isso também.

Sorri, negando de leve com a cabeça.

— Não tenho seu jogo de cintura.

— Devia vir comigo a Porto Rico.

— Não posso. E nem quero estragar sua estadia lá, embora curta. Sei
o quanto San Juan é divertida e sei que vai adorar.

— Bobagem. Venha comigo! Sei que não está trabalhando, e sei


também que não tem nada melhor para fazer.

— Ah, obrigada por me lembrar...

— Ora, vamos! E tudo grátis! O vôo e, como vai ficar comigo, lambem a
hospedagem!

— Clay, não posso...

— Posso até comprar seus quatro primeiros mojitos.

Sorri novamente. O drinque porto-riquenho era uma tentação. Mesmo


assim, insisti:

— Eu adoraria, mas não posso. Kat deixou-me encarregada da comida


dos gatos e preciso começar a procurar um outro lugar para morar. Não vou
ficar aqui para sempre.

— Não sei por quê. Você e Kat poderiam ficar neste apartamento
durante meses sem, nem mesmo, se encontrarem, tão grande ele é.

— É verdade.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Olhe, vou me apresentar às sete no aeroporto. Prometa que vai
pensar com carinho em meu convite.

Tornei a negar, com a cabeça, e disse apenas:

— Ligue para mim quando voltar.

Assim que ele se foi, passei os olhos ao redor, considerando o fato de


que, realmente, me sentia melhor. Não que um filme, guloseimas e comida
chinesa fossem um grande antídoto, mas eu me sentia mais segura, sabendo
que não teria de voltar a minha antiga vida de solteira sozinha, sem apoio.
Tinha grandes amigos para me fazer companhia e a liberdade de viver como
bem entendesse.

Era como se, agora que estava sem a interminável seqüência de


opiniões não pedidas de Michael, tudo me parecesse mais leve, mais...
Agradável. Podia, por fim, concentrar minha atenção em meus próprios
sonhos, que tinham sido deixados de lado enquanto vivia os dele. Talvez
pudesse, até, terminar o manuscrito que tinha começado havia anos, já que
agora Michael não podia mais ficar espiando sobre meus ombros e dar
palpites, como: ficção não passa de uma perda de tempo.

Obviamente, era tudo apenas uma questão de perspectiva. Quero


dizer, ser largada e traída como eu fora, não significava que o mundo tinha
acabado, porque pode significar também um novo e bom recomeço.

Voltei à sala de tevê, peguei minha bolsa e liguei meu celular. Devia
haver inúmeros recados lá. Afinal, no mundo da aviação, fofocas se espalham
como o vento e muita gente podia, já, saber que eu fora trocada por outra...
pessoa.

De fato, logo recebi uma mensagem de voz:

— Hailey ? Ouvi dizer que rompeu com Michael. Se quiser falar a


respeito, é só ligar.

Outra mensagem veio logo em seguida:

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O céu é o limite Alison Nöel
— Hailey? Nossa! Vocês romperam, mesmo?! Onde você vai morar
agora? Faz idéia de como seu estilo de vida vai mudar?

E mais outra:

— Oi, Hailey, sou eu. Ligue se quiser jantar em minha casa. Ah, e
traga o vinho. O macarrão é por minha conta.

E então, bem no meio da mensagem número quatro, outra chamada


apareceu no visor:

— Hailey, tentei localizá-la o fim de semana inteiro!

Era Michael! Fiquei tensa. Pensei até em pressionar o botão que


encerrava a mensagem e deixá-lo de fora de minha vida por completo.

— Hailey, você está bem? — ele insistia. — Onde está, pelo amor de
Deus?!

— O que você quer? — indaguei, fria.

— Oh, graças a Deus! Quero apenas saber se você está bem.

— Estou ótima! E muito obrigada por ter ligado.

— Olhe, sei que está aborrecida e sinto muito por isso. Mas precisa
saber que não se trata do que possa estar imaginando.

Revirei os olhos. Ele estava falando a sério? Tinha, de fato, uma


desculpa para o que eu vira?! Decidi saber:

— Muito bem, explique, então. — Era pena, mas toda a calma c alegria
que tinha sentido com a presença de Clay acabavam de ir por água abaixo.

— Olhe, não sou gay, se é o que está pensando.

— Sei. Bem, perdoe-me por tocar neste ponto, mas percebeu que era
um homem que estava beijando seu peito?

— Ouça, Hailey, gostaria que você mantivesse esse assunto apenas


entre nós dois.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Mesmo? E por que eu deveria fazer isso?

— Porque não sou gay\ Ele estava apenas... me mostrando...

— Oh, pelo amor de Deus! E essa a justificativa que escolheu?!

— Estou apenas lhe dizendo que não houve nada de mais.

— Naquele momento, não, porque eu cheguei! Acha que foi bom para
mim chegar de uma longa viagem, no dia de meu aniversário, achando que
você ia me pedir em casamento, e encontrar você com outro homem?!

— Achou que eu ia pedi-la em casamento? — Ele estava rindo. — De


onde tirou tal idéia?

— Porque encontrei a caixinha da Tiffani!

— Sinto muito, mas jamais tive intenção de falar em casamento com


você. Abriu minha mala, vasculhou minhas coisas, encontrou a caixinha e não
deveria tê-la aberto, concorda? Mas acho que devo explicar que ali estava
apenas o que eu pretendia dar-lhe como presente de aniversário.
Aniversário, nada mais. Na verdade, nunca pensei em me casar com ninguém.
E, quando o fizer, garanto que será com uma garota bem mais nova.

— O quê? — Eu mal podia acreditar no que acabava de ouvir.

— Hailey, vamos, seja honesta consigo mesma! Quando eu achar que


estou preparado para o casamento, você já deverá estai quase na casa dos
quarenta.

Ia demorar tanto assim? Ele pretendia casar-se quando já esti vesse


cinqüentão? Era isso?!

— Nunca lhe prometi nada — Michael continuava, deixando me cada


vez mais atônita. — Lembre-se sempre disso.

Joguei o aparelho no chão, ouvindo-o cair no tapete persa. Não


acreditava ainda no que ouvira. Como podia ter sido tão tola?

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O céu é o limite Alison Nöel
— Hailey? — ele gritava, no aparelho. Olhei para o celular e peguei-o
novamente.

— Já terminou?

— Sinto se a feri. Só estou tentando ser franco.

— Claro... Olhe, Michel, vou precisar passar por aí e pegar minhas


coisas.

— Certo. Já deixei tudo na portaria. Pode passar quando quiser. Lá


estava eu, sentada, pasma, com o telefone na orelha. Depois

de quatro anos de vida em comum, eleja arrumara todas as minhas


coisas e as mandara para a portaria do prédio. Simples assim.

— Ah, Hailey, falei sério quando disse que quero este assunto apenas
entre nós. É algo muito particular que deve continuar assim.

Senti o sangue ferver nas veias. E usei as palavras dele para atacá-lo
e, ao mesmo tempo, defender-me:

— Escute aqui, Michael, nunca prometi nada. Não se esqueça disso. —


E desliguei. Logo em seguida, disquei o número de Clay.

— Não é de admirar que os passageiros fiquem tão malcriados quando


embarcam. É tudo culpa dela. — Clay apontava para a agente que ficava no
portão de embarque e que, minutos antes, fizera mil caretas quando ele lhe
perguntou se haveria um assento extra na primeira classe para mim.

— Clay, terei sorte se pelo menos conseguir embarcar. Deixe a


primeira classe de lado — pedi, de olhos pregados no visor que mostrava o
número de passageiros aumentando segundo a segundo. Talvez não houvesse
um assento sequer nem na última classe daquele vôo.

— Pois eu gostaria de aproveitar este momento para mostrar que sou


um grande amigo. Afinal, estou aqui, sentado, segurando sua mão, quando
deveria estar trabalhando...

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O céu é o limite Alison Nöel
— Seus colegas de viagem não devem estar gostando muito disso.
Oh!, Veja! Não vai haver assentos disponíveis. Minha sina será ficar aqui,
sentada. — Enfiei a cabeça nas mãos, numa reação exagerada.

Parecia que, agora que eu me decidira a ir para San Juan, não


conseguia suportar a idéia de não ir. Tinha feito as malas e esperava
ansiosamente pelos deliciosos e preguiçosos dois dias que poderia passar na
piscina, com um mojito numa das mãos e meu manuscrito abandonado há
muito tempo na outra. E agora tudo que me restava esperar era a longa volta
de ônibus para Manhattan, onde minha vida se resumiria a abrir latinhas de
comida para gato e procurar, no jornal, por apartamentos que,
antecipadamente, sabia que não conseguiria pagar. Agarrei minhas malas e
me levantei, pronta para desistir.

— Aonde você vai? — Clay estranhou.

— Clay, não olhou para o monitor? Há um monte de zeros nele i- isso


significa que não há assentos disponíveis!

— Não desista até o último minuto! — Ele sorriu, daquele jeito •.o seu,
tranqüilo, simpático, mas, naquele momento, um tanto irritante pelo
otimismo que eu não conseguia partilhar. — E, lembre-se, o último minuto é
aquele em que eu vou a bordo. — E bateu no banco a seu lado, para que eu
voltasse a me sentar.

Pode nem parecer verdade, mas, assim que me sentei, um passageiro


foi conduzido para fora do avião. E logo em seguida ouvimos, pelo alto-
falante do saguão de embarque:

Hailey Lane e Clay Stevens, por favor, dirijam-se ao portão


desembarque imediatamente.

Lá estava eu agora, completamente à vontade no assento delicio SO de


primeira classe, apoiando meus pés num banquinho próprio para isso, um
travesseirinho sob o pescoço, bebendo champanhe e folheando meu
manuscrito, que começara a escrever seis anos antes, mas ao qual não
lançara um só olhar nos últimos quatro. E pensava:

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O céu é o limite Alison Nöel
É assim que deve ser. Talvez meu carma seja recomeçar, afinal.
Talvez este momento marque o início de uma vida nova, emocionante, de
primeira classe! Oh, eu devia fazer isso com mais freqüência! Pertenço a
este lugar!

Mas, então, alguém disse, bem perto de meu ouvido:

— Vai ter que se mudar.

Ergui os olhos para ver aquela mesma agente de embarque olhando-me


com firmeza. Imagino que devia estar tendo uma manhã horrível, então o
mínimo que podia fazer era não lhe causar mais problemas... Por isso sorri ao
perguntar:

— Como disse?

— Não discuta comigo. Pegue suas coisas e mude-se daí. Puxa, aquele
hálito gelado tinha um cheiro horrível de anos e

anos de abuso de nicotina e tabaco. E aquelas unhas quadradas,


vermelhas, crispadas à cintura, deviam ser falsas. Toda ela devia ser falsa.
O mundo era uma farsa! Eu tinha de mudar de assento!

— O passageiro que reservou este lugar acaba de chegar e está


entrando no avião neste exato momento — ela me informou com o que
parecia ser uma satisfação pessoal na voz rouca.

— Está bem, está bem! — Eu sabia que minha posição ali, quase
clandestina, não me permitia discussão alguma. — Onde posso me sentar,
então?

Os passageiros mais próximos me olhavam como se eu fosse alguma


espécie de ameaça disfarçada.

— Sorte sua ter havido uma contagem errada — disse ela, a


contragosto. — Deve haver um assento vago em algum lugar depois da
cabine.

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O céu é o limite Alison Nöel
Nesse momento, um homem alto, esguio, de cabelos muito negros,
apareceu atrás de mim.

— Oh, sr. Richards! Sentimos tanto pelo mal-entendido! Seu assento


estará vago assim que a srta. Lane pegar suas coisas e seguir para trás da
cabine.

Ela estava flertando com o passageiro ou seria apenas impressão


minha?

— Oh, não se apressem — respondeu o passageiro, amável. —Na


verdade, ela precisa, sim, apressar-se—a agente insistiu.

— Não podemos fechar a porta e nos afastar do portão enquanto ela


não estiver instalada. Mas, por favor, coloque sua mala aqui, sobre a dela.

Olhei, vendo minha mala de roupas cuidadosamente colocada sendo


esmagada sob o peso da outra. Mas, novamente, devido ao código de
comportamento exigido pela companhia, nada pude fazer. Então, peguei
minha valise e segui pelo corredor da forma mais profissional possível.
Mesmo assim, sabia que muitas pessoas ali torciam a cara, achando-me uma
intrusa que ocupara um lugar já reservado.

Encontrei Clay lendo uma revista, alheio a tudo que se passava. Por
fim, acomodei-me no assento estreito e desconfortável que me restava e
liguei meu iPod.

Eu já estava terminando meu terceiro mojito quando a idéia me


pareceu viável de ser exposta:

— Acha que Michael chegou a me amar?

Tomei mais um gole e olhei para Clay, que se deliciava ao sol na


espreguiçadeira a meu lado. Estávamos no Hotel Intercontinental, nas
proximidades de San Juan, e vínhamos relaxando à beira da piscina já há
mais de duas horas.

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O céu é o limite Alison Nöel
Ele retirou os óculos de sol, suspirou profundamente e, com enorme
paciência, respondeu:

— Hailey, pelo amor de Deus!

— Está bem, se não quiser, não diga mais nada. Acho que a resposta
está em seus olhos, mesmo. Sei que me tornei uma pessoa patética, chata,
daquele tipo que nós dois sempre fizemos questão ile evitar. — Olhei-o de
esguelha, esperando que negasse minhas palavras de alguma forma, que me
assegurasse que eu estava exagerando, que a situação não era assim tão
ruim. Mas ele apenas ergueu os ombros e voltou a se acomodar.

— Honestamente, Hailey, nunca apreciei Michael.

Ótimo. Ele vinha me dizer isso agora! Primeiro fora Kat e agora Clay.
Será que, intimamente, todos os meus amigos detestavam Michael?

— Pode me dizer por quê?

— Ora... Ele sempre me pareceu... Desonesto. Não sei, sempre tinha


aquele jeito de falsa ingenuidade, sabe? Como se dissesse certas coisas
apenas para parecer educado, mas sem querer dizê-las de fato.

— Acha que isso seria pelo fato de ele não gostar de você? Poderia
não parecer algo muito simpático para se dizer, mas

tanto eu quanto Clay sabíamos como Michel se sentia a respeito dele.

— Bem, a princípio, até achei que poderia ser isso. Mas, quanto mais
tempo passava com vocês, mais achava que esse era o jeito dele, sim. Quero
dizer que vocês dois não tinham muitos assuntos. Bons assuntos. O que
tinham em comum? Nada! — Ele me encarou, de sobrancelhas erguidas, à
espera de um comentário.

Assenti, tomando mais um gole. Então disse:

— Nós dois gostávamos dos mesmos restaurantes, gostávamos de viaj


ar para a Europa, gostávamos de fazer compras em pequenas repúblicas

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O céu é o limite Alison Nöel
centro-americanas... — Minha lista acabava aí e isso, agora, me
envergonhava.

— Pois é. Só você para conseguir ficar com um sujeito durante quatro


anos baseada nesses... gostos em comum.

— Sabe, acho que vou pedir mais um drinque.

— Nunca entendi seu relacionamento — Clay prosseguiu, como se


tivesse aberto uma represa que não conseguiria fechar até ter esgotado
toda a água. — Você está sempre lendo, gosta de ir a museus, adora teatro,
e nunca poderia partilhar essas coisas com Michael!

— Mas tenho você para esses programas... — Tentei sorrir.

— E quer saber de uma grande verdade?

Não, eu não queria, mas ele disse, mesmo assim:

— Acho que você estava desperdiçando sua vida, seu tempo, seu
conhecimento! Por isso concordo com o que Kat lhe disse: foi melhor assim.
— E, terminando sua bebida, concluiu: — Não quero mais falar neste
assunto, Hailey. E você precisa parar de ficar obcecada desse jeito.

Simplesmente o olhei, assentindo, obediente, sabendo que ele tinha


razão.

Então, daquele momento em diante, tinha me decidido a parar de me


obcecar, pelo menos, em voz alta.

— Mas está quente! — Clay reclamou, encaminhando-se para a piscina.


— Quer entrar?

Neguei com a cabeça, vendo-o mergulhar. Depois o vi emergir, com os


cabelos ensopados, colados à cabeça, parecendo um patinho. E agradeci a
Deus por ter um amigo como Clay, alguém que sempre me diria a verdade,
independentemente de ela não ser o que eu quisesse ouvir. Mas também me
perguntava por que ele nunca antes tinha se importado em me dizer tais
verdades.

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O céu é o limite Alison Nöel
Clay nadou até o bar no meio da piscina, onde outros membros da
tripulação estavam bebendo e rindo. Pensei em me juntar a eles, mas
acabara de pedir outra bebida e ela já estava chegando. Assim, apliquei mais
uma camada de protetor solar e inclinei-me em minha espreguiçadeira,
revirando na mente tudo que Clay acabara de me dizer.

Era verdade. Eu me desgastara naquele relacionamento e, pior de


tudo, achara que poderia haver um compromisso saindo dele. Mesmo
detestando admitir, trocara sonhos e felicidade pela ilusão cie segurança e
conforto. Relembrava todos os jantares caros em que Michael ficava
falando sobre seus próprios interesses enquanto eu passava os olhos ao
redor, e imaginava que as outras mulheres estariam também tão entediadas
quanto eu. E depois que ele esgotava todas as histórias grandiosas sobre si
mesmo e suas idéias, havia um silêncio total e obsessivo, muito, muito
diferente do que existe quando um casal vive anos e anos de absoluta
familiaridade e cumplicidade.

i Agora reconhecia que sempre ficava esperando que a conta \ viesse


depressa para que pudéssemos deixar o restaurante o quanto i antes e que
pudéssemos ir a algum bar onde nossos amigos nos esperavam, amigos
comuns, que adorávamos, e com os quais ficávamos até o momento de
voltarmos para casa. ', E, mesmo tendo de admitir que era o salário dele que
me permitia ir a lugares tão caros e elegantes, viver em um apartamento H
de luxo, comprar tudo o que quisesse, esse ainda não era o motivo principal
pelo qual eu estava com Michael.

Era como se, até conhecê-lo, minha vida amorosa tivesse sido uma
seqüência patética de um ou, no máximo, dois encontros. Acho que
desenvolvi o hábito de não querer que nada ficasse sério demais... Mas,
quando Michael apareceu em minha vida, eu já estava começando a me
preocupar em ficar sozinha. Era como se, de repente, todos ao meu redor
estivessem encontrando suas caras metades e, sem querer ficar para trás,
eu tivesse suportado os último quatro anos ignorando todos os avisos, todos
os perigos, criando o mito de que nosso relacionamento era maravilhoso.

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O céu é o limite Alison Nöel
Isso foi apenas uma confusão. Misturei tudo. Troquei o amor pela
conveniência.

O tempo passou e nem percebi. Senti Clay tocando meu ombro e


chamando:

— Vamos voltar para o quarto e trocar de roupas. Vamos todos a San


Juan para jantar.

O sol já começava a se pôr e, com exceção de nós, não havia mais


ninguém à beira da piscina.

— Ach"o que acabei adormecendo — e desculpei-me.

— Você entrou em coma, isso sim. — Ele pegou seus óculos e meu
manuscrito, enfiando-os na sacola de praia que partilhávamos. —Já passa
das seis e está mais do que na hora de uma pequena diversão. Vamos. Aqui
em Porto Rico dá-se um sentido novo à expressão happy hour, sabia?

— Ah, sim. Vi o vídeo. Living La Vida Loca, não é?

— E, mas não viu nada ainda.

Assim que voltamos ao quarto, segui para o chuveiro. Clay e eu já


tínhamos partilhado aposentos muitas vezes antes e tínhamos uma espécie
de acordo para que eu sempre usasse o chuveiro primeiro, já que demorava
mais a me aprontar. Na verdade, ele é obcecado com seus cabelos tanto
quanto eu com os meus, mas acaba sendo sempre mais rápido.

O jato de água baixou minhas ondas rebeldes, colando-as a minha


cabeça e fazendo-me sentir revigorada. O sol deixava minha pele assim
também. E, naquele momento, achei que não poderia haver nada melhor do
que um bom banho depois de algumas horas ao sol.

Apesar de todos os malefícios atuais que ele pode causar à pele, não
há como negar que um bronzeado bonito dá uma aparência mais saudável, até
mais jovial, a qualquer pessoa.

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O céu é o limite Alison Nöel
Depois do banho, não resisti à tentação de passar o canto da toalha
pelo espelho embaçado e ver meu próprio reflexo. Meus ombros estavam
ligeiramente vermelhos. Mas no dia seguinte estavam dourados,
maravilhosos. No entanto, meus olhos arregalaram-se quando focalizei meu
rosto. Eu tinha, de fato, adormecido ao sol! É de óculos! Meu nariz e minha
testa estavam vermelhos e a marca dos óculos não poderia estar mais óbvia!
Horrorizada, saí enrolada na toalha e segui até Clay, que estava jogado na
cama, ouvindo seu iPod e assistindo à televisão sem som.

— Por favor, diga que não está tão feio quanto estou vendo! —
implorei.

Mas quando ele voltou os olhos para me ver, sua expressão disse tudo
que eu não queria ouvir.

— Oh, Deus! — gemi, sentando-me na cama do outro lado do quarto.

— O que houve? — perguntou ele, tirando os fones de ouvido.

— O que houve?! Como vou fazer agora?! Não posso sair deste jeito!
— Voltei-me para o espelho da penteadeira e tive de rir de mim mesma, tão
ridícula estava.

— O que acha de voltar a colocar os óculos? — ele ria também agora.

— À noite?!

— Posso guiá-la, podemos dizer a todos que está com um problema nos
olhos. Ninguém vai rir de você, aposto.

— E se eu tentar cobrir a diferença na pele com maquiagem?

— Não acho que vá funcionar. Afinal, está um calor insuportável. A


maquiagem vai escorrer.

— Ah... Tenho de fazer alguma coisa! Não posso sair deste jeito. E
não quero ficar aqui sozinha!

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O céu é o limite Alison Nöel
Clay me encarou por alguns segundos. Parecia pensar. Então se
levantou e, respirando fundo, disse:

— Vamos ter que fazer um milagre, então. — E me conduziu de volta


ao banheiro.

Quando Clay terminou de me maquiar, olhei no espelho e senti meu


estômago se apertar.

— O que acha?

— Clay...

— Pense que está usando uma maquiagem dos anos setenta, ora. Eu
estava, no mínimo, supermaquiada, apesar do calor. Não havia outro jeito.
Camadas e camadas de base, sombra forte, muito

rímel... E, como Clay disse que seria melhor não fazer nada nos
cabelos, eles estavam revoltos, em ondas flutuantes que simplesmente me
desesperaram, já que eu estava acostumada a mantê-los lisos com minha
chapinha.

— E você?

— Bem, vou tomar meu banho e sairemos logo em seguida.

— Mas vai fazer algo diferente também, não? Porque, se vou como
uma drag queen, você também terá de ir.

— Por quê? Não fui eu quem sofreu esse acidente solar.

— Ora, Clay... vai ser divertido. Pode maquiar-se como David Bowe
fazia.

Ele me empurrou para fora do banheiro e se trancou lá dentro, de


onde respondeu:

— Vá assistir um pouco de tevê. Saio num minuto.

35
O céu é o limite Alison Nöel
Quando saímos para nos encontrarmos com o grupo, tínhamos entrado
num acordo. Ele pintara os olhos com lápis negro, seus cabelos tinham mais
gel do que de costume, e pintara os lábios com um pouco de gloss.

— Lá vêm os gêmeos — disse Jack, um comandante com quem eu voara


alguns anos antes.

— Mas eu não sabia que íamos a uma festa a fantasia — reclamou Bob,
um co-piloto de quem eu nunca realmente gostara.

— Então, por que vocês estão vestidos como uma tripulação de folga?
— indagou uma comissária, chamada Jennifer, apontando para as camisas
coloridas e as bermudas largas que eles dois usavam.

— Vamos parar com a conversa e seguir logo para San Juan — Clay
apressou.

— Outra tripulação vai se juntar a nós — Bob anunciou. — Eu os vi


chegando no hotel há pouco; tiveram o vôo cancelado na última hora por
causa de um furacão e vão ficar por aqui alguns dias.

— Mesmo? E quem são eles?

Assim que Clay fez a pergunta, sentando-se no saguão para esperar,


Michael apareceu.

De repente, minhas orientações para momentos de pânico soaram em


minha cabeça: Abracem os tornozelos, mantenham a cabeça baixa e
permaneçam curvados para a frente!

— Mas é você quem sempre anda flertando com todo mundo por aí.

— Exato. Quem usa, cuida...

Revirei os olhos; era melhor ignorar as loucuras de meu melhor amigo,


que se levantava e seguia para o balcão onde, eu sabia, além de pedir
algumas rosquinhas, ia também flertar com a garçonete. E, de repente, senti
meu estômago se apertar. Dane acabava de entrar. Sorriu logo para mim e
aproximou-se.

36
O céu é o limite Alison Nöel
—Como vai ? — saudou, passando os dedos pelos cabelos lisos,
maravilhosos.

— Bem, e você?

— Bem. Como foi a festa?

— Ótima. Obrigada por me convidar.

— E Harrison?

Dei de ombros, sem saber exatamente o que responder, ou o que ele


queria saber. E Dane apenas assentiu.

— Fomos até o Elaine's — decidi revelar, não sei por quê. Mais uma
vez, ele apenas assentiu. Não me parecia muito contente.

— Vamos nos ver neste fim de semana — continuei, ainda sem saber o
motivo.

— Certo. Bem, vou pegar um café e sair. Estou com pressa. Vejo você
por aí.

— Está bem. Diga que mandei lembranças a Cadence.

Nem sei por que toquei no nome dela, mas, enfim... Clay voltou pouco
depois, curioso.

— Quem era?

— Dane. Foi ele quem me convidou para a festa à qual você fez o
favor de não ir.

— Não adianta ficar brava comigo, já lhe disse. Sou o que sou L'
pronto. Escute, mal posso acreditar que tenha saído com esse sujeito. Ele é
muito bem apessoado!

Encarei-o, abismada.

— Oh, obrigada... E, para sua informação, não fui com ele, ou não teria
chamado você.

37
O céu é o limite Alison Nöel
— Sei. Mas gostou dele, aposto.

— Claro que não. Ele tem namorada.

— Tem certeza?

— Tenho. Eu a vi. É o sonho de qualquer homem.

Clay ergueu as sobrancelhas e, mordendo uma de suas rosquinhas,


ofereceu-me o prato em que havia mais três delas.

Harrison podia ser ganhador de dois Pulitzer, mas, ainda assim, não
queria que ele soubesse meu endereço. Mas me preparei para sábado com
esmero, usando saltos agulha, um vestido florido c-elegante e meus
infalíveis, magníficos brincos comprados em Bombaim.

Peguei um táxi e estava no Elaine's em quinze minutos.

Estava já entrando e me dirigindo para a mesa que tínhamos


combinado quando ouvi meu nome:

— Srta. Lane?

Era um motorista de limusine, que me conduziu até o banco de trás,


onde Harrison me esperava, com um sorriso.

Eu caminhava para a mesa, sentindo que todos ali estavam nos


olhando. Por fim, nos acomodamos e, logo em seguida, ele pediu um vinho.
Decidi, então, fazer a pergunta que há muito estava em minha mente:

— Harrison, você sempre soube que queria ser escritor?

Ele demorou a responder. Ficou saboreando a bebida pelo que me


pareceu uma eternidade e depois assentiu muito levemente. Depois se
inclinou e, como se fosse dizer um grande segredo, perguntou:

— E você? O que a levou a ser comissária?

— Bem, digamos que foi por acidente. Sabe, gosto de viajar, ouvi
dizer que estavam abrindo vagas para moças e rapazes...

38
O céu é o limite Alison Nöel
— Sei. Fale-me sobre seu treinamento.

— Tem certeza de que quer ouvir essa história?

— Sou escritor, lembra? Gosto de histórias. Vamos, conte-me tudo.

A noite estava deliciosa demais para voltarmos de carro. Por isso,


Harrison dispensou o motorista e seguimos devagar pelas ruas, conversando.

— Se entendi direito, você só recebe pelas horas que voa, certo? A


conversa, pelo visto, continuaria num assunto que me aborrecia, pois não me
tirava da monotonia de minha vida. Ele queria saber de cada detalhe e eu
falava, embora preferisse outros assuntos. Depois de quase dez minutos,
porém, ganhei coragem para d ir:

— Harrison, poderíamos falar sobre algo diferente? Algo como...


editoras, agentes, livros, prêmios... Qualquer coisa que não tocasse na Atlas.

Mas ele apenas me encarou e sorriu, apontando para o edifício

nte do qual tínhamos parado.

— Este é meu lar. Vamos entrar e beber algo?

-— Bem... Certo. Mas apenas um drinque, depois vou ter de ir. — Vai
voar amanhã?

Neguei, apesar de ser mentira. Não haveria mais conversa sobre


aviação.

O apartamento era enorme. Conheci sua coleção de máscaras tribais,


vi as fotos espalhadas aqui e ali, de pessoas de sua família, mirei as pinturas
de artistas famosos que tinham sido presentes pecai s para ele e quase
morri de emoção quando estávamos em um escritório particular e vi a
belíssima escrivaninha antiga e a cadeira de couro, na qual ele escrevia seus
romances.

Cassei os dedos por ela, encantada, e depois lhe pedi para usar
banheiro. Emoções fortes sempre tinham esse efeito em mim.

39
O céu é o limite Alison Nöel
— Terceira porta, no corredor. Vou preparar uma bebida para nós.
Tem alguma preferência?

— Não.

O banheiro era ainda mais lindo do que tudo que eu já tinha no.
Antigo, refinado... Olhei-me no espelho e retoquei meu bani, avaliando a
noite até aquele momento. Além da curiosidade um tanto excessiva de
Harrison em minha profissão, não tinha sido tão ruim assim. Imagino que
estivesse escrevendo algo sobre avião e quisesse maiores detalhes, nada
mais. E eu estava satisfeita relê não ter tentado me beijar ou me tocar em
nenhum momento, esmo sendo um escritor de primeira linha, minhas
intenções com Harrison Mann eram totalmente castas.

Quando saí do banheiro, mal pude ver qualquer coisa. Havia •nas um
abajur distante aceso. Harrison? Aqui. — ele me pareceu distante.

Tentei me acalmar, Ele era um escritor famoso, não um serial killer.

— Venha até aqui, Hailey. No fim do corredor. Obedeci. A porta de


onde vinha outro foco de claridade, diáfana estava aberta. Olhei e senti uma
onda de choque. O grande autor premiado, reconhecido, estava deitado
numa enorme cama, segurando dois copos de uísque, completamente nu.

— Pronta para nossa noite?

Ele se levantou e veio ao meu encontro.

— Eu acho que preciso ir — murmurei. — Não estou me sentindo bem.


Acho que foi o camarão.

Parecendo realmente consternado, ele me seguiu, mas consegui


chegar até a porta mantendo certa distância.

— Hailey, eu gostaria muito de ler seu romance. Por que n o manda


para mim?

Sua voz ficava mais e mais distante, conforme eu descia as escadas,


esquecendo o elevador porque ele poderia demorar a chegar.

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O céu é o limite Alison Nöel
Ao chegar em meu apartamento, tudo o que queria era um bom banho,
uma bebida, e um apagão em minha memória. Graças a Deus, Lisette estava
voando e eu podia aproveitar minha solidão em paz.

No entanto, a primeira coisa que vi ao entrar foi o peludo piloto


casado, largado sobre o sofá e usando apenas cuecas e meias pretas.

— Posso saber o que está fazendo aqui? — indaguei, irritada. Mas ele
apenas aumentou o volume da televisão com o controle.

— Onde está Lisette? — perguntei, sentindo a raiva crescer dentro


de mim.

— Paris.

— Olhe, este apartamento não é seu. Portanto... não deve estar aqui
quando ela não está.

— Ela sabe que estou aqui. E se não estiver gostando, fale com ela,
não comigo.

Olhei para o infeliz que ganhava cinco vezes meu salário e que
ocupava meu lugar de dormir, e senti nojo.

— Olhe aqui, pago novecentos dólares para dormir nessa droga de


sofá. Se não quiser me reembolsar, acho melhor sair daí e ir para o quarto!
Ou, melhor ainda: volte para sua mulher e filhos!

Sem mais uma palavra, o sujeito desligou a tevê, levou-a para o quarto
e trancou a porta.

Ao acordar, na manhã seguinte, notei o aparelho no lugar de costume.


O piloto se fora. Alimentei Jonathan, fui para a cozinha e coloquei um pouco
de cereal numa vasilha. Mas tive de comer i seco, porque alguém tinha
tomado todo o meu leite e deixado a caixa vazia dentro da geladeira para
evitar suspeitas. Isso me fez chegar à brilhante conclusão de que aquela
fase de minha vida precisava acabar e que tinha de reservar algum dinheiro
para poder sair daquele apartamento o mais breve possível.

41
O céu é o limite Alison Nöel
Eu e Clay seguíamos para o aeroporto J. F. Kennedy, onde minaríamos
o vôo direto para Paris.

— Sabe de uma coisa? — disse meu amigo, que estivera calado pelos
últimos dez minutos. — Acho que deve aceitar a oferta do tal escritor.

— Diz isso porque não estava lá, diante dele, nu e redondo, a minha
espera.

— Pois o mínimo que ele poderia fazer após submetê-la a tal grosseria
seria ler seu livro!

— Esqueça. Vi o preço da admissão no mundo literário a que ele


pertence, e estou fora!

— Exatamente. Você já pagou o preço, então, agora é hora de exigir


os benefícios.

— Eu já disse para esquecer.

Clay apenas ergueu as sobrancelhas e tornou a se calar pelo resto do


caminho.

Quando entramos na área reservada para funcionários, notei que algo


estava estranho; normalmente o lugar está sempre cheio de gente vestida
azul-marinho, à espera de seus vôos, falando sem parar. Mas todos ali
estavam um tanto calados, arredios. Kat veio logo em nossa direção,
avisando:

— Parece que vão demitir mais de mil funcionários, desde pescai de


terra a pilotos.

— Supervisores também? — Clay perguntou depressa, ansioso. -— Os


O.O., não. Aparentemente, entregar colegas e manter o mau humor é o que
faz com que se fique nesta companhia. Isso só podia estar acontecendo,
mesmo, já que a companhia vinha tendo problemas financeiros desde a posse
do mais recente executivo encarregado. Ótimo. Eu já precisava muito de

42
O céu é o limite Alison Nöel
dinheiro e podia fazer uma idéia do que me aconteceria se também perdesse
o emprego.

— Acho que está na hora de eu me aposentar — Kat comentou, como


se já tivesse tomado a decisão há algum tempo. Afinal, o tempo da diversão
se foi.

Ela tinha razão. Eu e Clay jamais tínhamos conhecido esse tempo a


que ela se referia, quando era considerado um privilégio trabalhar para uma
companhia aérea americana. No entanto, nós dois estávamos surpresos com
a decisão dela. Mas não tivemos muito tempo para pensar a respeito, pois
fomos chamados para o próximo vôo.

Há meses eu não voava para a Europa e há anos não flertava com um


passageiro. Mas o rapaz da poltrona 2B seria uma exceção. Simpático,
falante e divertido, ele não teve dúvida em me convidar para jantar em
Paris.

— Tenho um motorista a minha disposição no Ritz — disse, enquanto


eu lhe servia o almoço terrível da Atlas. — Posso apanhá-la onde quiser.

Ele estava no Ritz e tinha um motorista! Voltei depressa para a


cabine, para contar a Clay. Mas nossos planos para o jantar acabaram por aí,
pois meu querido sr. 2B caiu num sono pesado logo depois de comer.
Desapontada, disse a Clay que nem queria mais tocar no assunto e ele, como
sempre, me atendeu. Restou-me apenas voltara meu assento e esperar até
que o comandante anunciasse a chegada a Paris.

Estávamos já pegando nossas coisas para descer do avião quando,


surpreendentemente, 2B apareceu a meu lado.

— Puxa! Acho que dormi demais. Não é de meu feitio, sabe? E então,
nosso jantar ainda está em pé?

Assenti, novamente animada.

— Sete horas está bem para você?

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O céu é o limite Alison Nöel
— Perfeito!

— E onde devo procurá-la? Por qual nome?

— Hailey Lane, no Grand Hotel. — Sorri para ele e segui, correndo,


para o portão de desembarque.

Às seis e cinqüenta e cinco, eu estava em meu quarto, ainda sem me


vestir, e tensa. Nada sabia sobre esse passageiro, a não ser o que verificara
na lista de embarque. Seu nome era Maxwell Dunne, costumava usar a
companhia com freqüência, era bonito, gostava de vinho tinto, ia ficar num
dos melhores hotéis de Paris e tinha um motorista.

Vesti-me depressa, mas com esmero. Estaria ficando louca por sair
assim com um desconhecido? Mas a emoção de um encontro, de um novo
relacionamento, talvez, me dominava.

Tentei me controlar, imaginando que nada havia de mais naquele


encontro. Ele era homem, eu, mulher, e íamos jantar juntos, nada mais.

Assim que pisei no saguão, vi-o entrando pelas portas duplas de vidro.

— Consegui uma reserva no Júlio Verne — anunciou. Arregalei os


olhos, pois o restaurante ficava no segundo nível da Torre Eiffel. Conseguir
uma reserva ali e ter dinheiro para pagar a conta já demonstrava que meu
possível namorado era muito rico.

— No entanto, se preferir outro lugar, não há problema — ele


acrescentou, talvez estranhando meu silêncio.

— Não, não, está tudo perfeito! — E entrei no banco de trás do carro


de luxo que nos levaria ao restaurante.

Olhar para a Torre Eiffel dá a impressão de que ela está sempre


muito próxima. Por isso, mal pude acreditar que tivesse levado tanto tempo
para chegarmos.

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O céu é o limite Alison Nöel
O restaurante mais parecia um night club e, assim que entramos, Max
escorregou alguns euros na mão do maitre, que nos levou a um local
privilegiado, de onde se poderia ter uma visão espetacular da cidade.

— Mas que maravilha!

— Que bom que gostou.

— Vem sempre aqui? — Abri o cardápio, imaginando se ele era do tipo


que levava comissárias a restaurantes o tempo todo.

— Uma vez apenas, há muito tempo. O jantar não poderia ter sido
melhor. Inclinei-me em minha cadeira, olhando para Max e analisando quanto
ele era interessante. Tinha viajado muito, era inteligente e tinha um ótimo
senso de humor.

— Para onde vamos agora? — perguntou ele.

Curiosa e ousada, apenas dei de ombros. Estava disposta a segui-lo


para onde quisesse ir.

— Já foi ao Temple?

— Vamos, então. Vai ser divertido.

Jean Claude, o motorista, estava a nossa espera, junto do Mercedes.


Fumava e falava ao celular, mas logo parou e abriu a porta para nós.
Seguimos pela cidade maravilhosamente iluminada, até um prédio de fachada
muito interessante. O clube era um desses muito privativos, com membros
selecionados, e fiquei ainda mais surpresa.

— Não pensei que seria assim — disse. Max apenas sorriu e comentou:

— E parece que há, até, uma lista de espera...

Entramos, porém, sem maiores problemas. Max parecia muito bem-


vindo onde quer que fosse. Bem, eu já sabia que ele morava em Boston, que
viajava com freqüência para Paris, e observei:

— Passa muito tempo aqui, não?

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O céu é o limite Alison Nöel
— Nos últimos seis meses, uma ou duas semanas por mês. Brandyl

Eu teria de voar na manhã seguinte, por isso preferi apenas um


refrigerante. Estávamos acomodados num desses bancos de couro, reclusos,
e ele se sentou ainda mais perto. E, quando o vi inclinando-se em minha
direção, soube que o beijo seria a próxima coisa da lista. Talvez nunca mais
o visse novamente e isso poderia ser motivo tanto para levar a situação
adiante, sem receio, como para terminá-la ali mesmo.

Mas, quando ele me beijou, esqueci de tudo o mais e mergulhei de


cabeça. Acho que nunca antes tinha sido beijada com tamanha paixão.

— Bem, deve ter sido muito bom, porque você está ótima! — Clay
comentou, quando seguíamos para o elevador do hotel.

— É, foi bom.

— Só isso?

— Não fomos para a cama juntos, se é o que quer saber. Só nos


beijamos.

— Bem, e os beijos foram bons?

— Intoxicantes. — Sorri, maliciosa. Tinha sido bom ter beijado Max.


Eu me sentia bem, meu ego tinha sido bem massageado, mas não havia culpa,
porque tinha mantido o controle e não dormido com ele.

— E você, o que fez?

— Comi, fiz algumas compras...

Passávamos pela recepção, quando a moça atrás do balcão chamou:

— É a Srta. Lane?

— Sim...

— Temos uma entrega para a senhorita. Espere, por favor. Quando


ela voltou, da parte de trás da recepção, com o enorme

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O céu é o limite Alison Nöel
buquê de flores, percebi logo que era de Max. Ele tinha classe e
elegância suficientes para um gesto assim. Abri, apressada, o cartão que
vinha com as flores.

— O que diz? — Clay parecia mais ansioso do que eu.

— Obrigado pelos momentos maravilhosos. Tenha uma boa viagem.


Max.

Ao chegar a meu apartamento, depois de todas as escadas, eu estava


exausta. Não tinha dormido bem e a diferença de fuso estava, não sei por
que, sendo mais difícil agora do que jamais fora. A ida tinha sido ótima, mas
a volta fora terrível. Passageiros aflitos, passageiros desesperados,
passageiros mal-educados...

Portanto, depois de um bom banho e de vestir meu pijama favorito e


tomar um bom copo de leite quente, sentei-me em meu sofá horrível,
dividindo minha atenção entre Jonathan, em seu pequeno aquário, e minhas
flores, colocadas num vaso junto à janela. Fiquei ali por um bom tempo e foi
apenas quando me levantei que vi o bilhete junto ao telefone:

Hailey, sinto, mas nossa situação não está dando certo. Você tem
duas semanas para encontrar outro lugar para viver.

Lisette

Capítulo V

Kat falava a sério quanto a se aposentar. Dias depois, estávamos em


sua cozinha, eu, com meu laptop e ela preenchendo a papelada de sua
aposentadoria. Sentia inveja dela. Tinha uma semana para me mudar e nem
sabia se continuaria empregada. Isso para não mencionar o fato de que já

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O céu é o limite Alison Nöel
tinham se passado sete dias e eu estava começando a sentir saudade de
Max.

— O que está fazendo? — ela perguntou.

— Procurando um lugar para alugar.

— Bobagem. Fique aqui.

— Não. Preciso cuidar de minha vida e, depois, sou alérgica aos gatos.

— Poderia ficar e cuidar da casa, porque vou embora para a Grécia.

— O quê?!

— Já é hora de mudar! Yanni tem casas maravilhosas em várias


cidades gregas.

— Yanni...

— Meu namorado grego.

— Pretende se casar com ele?

— Talvez. Tudo o que sei é que estou pronta para começar o novo
capítulo de minha vida. E você?

Encarei seu sorriso por intermináveis segundos.

— Posso até aceitar sua oferta, mas, quando você voltar, ainda terei
de procurar um lugar para viver.

— Vou demorar a voltar e preciso de alguém para cuidar da casa e dos


gatos. Sei que é alérgica, mas há remédios contra isso, não?

— Bem... está certo. Mas promete me chutar para fora quando voltar?

O que uma mudança assim não opera na vida de uma pessoa, não? Já
que não tinha mais que pagar aluguel, eu dispunha de dinheiro para levar uma
vida tranqüila, podendo, até, escolher os vôos que queria. Assim, com tempo
livre para escrever, terminei meu livro em três semanas. Fiz seis cópias do

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O céu é o limite Alison Nöel
original e já estava colocando-as em seis diferentes envelopes para enviá-
los a diferentes editoras, quando meu celular tocou.

— Hailey? É Max. Como vai?

Meu coração disparou. Tinha desistido de pensar nele, de sentir sua


falta, e agora ele me ligava!

— Estou ótima! E você?

— Bem, estou de partida para Paris esta noite e imaginei se


poderíamos nos ver. Sabe, há um novo restaurante lá que quero muito que
conheça. Vou estar lá nas próximas duas semanas, no Ritz. Ligue-me se
puder ir também.

— Claro...

Nem mesmo tinha apertado o botão que finalizava a chamada, já


estava eu ligando para a Atlas. Faria qualquer coisa por ura vôo para Paris.

Fui aos correios, para enviar meu livro e, na volta, parei numa livraria,
só para ter a sensação antecipada do que seria ter meu nome numa das
prateleiras dos mais vendidos. Um livro mais fino que os demais, estava em
lugar de destaque, como best seller da semana. Peguei-o e, ao voltar a parte
de trás para cima, senti a respiração presa. A foto de Cadence fazia jus a
sua beleza, num dos cantos da capa. Folheei as primeiras páginas, só para
ver se ela fizera menção ao nome de Dane nos agradecimentos ou na
dedicatória.

—É um bom livro, mas não precisa comprar. Posso arranjar-lhe um


exemplar — ouvi, logo a meu lado, e voltei-me para ver Dane ali, em carne e
osso, parecendo mais lindo do que nunca.

— Oh, olá!

— Eu estava subindo para o café. Quer me acompanhar? Bem, eu


estava morando numa cobertura, acabara de enviar

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O céu é o limite Alison Nöel
meu livro para várias editoras e dois homens maravilhosos tinham
aparecido em minha vida novamente, no mesmo dia. Pelo visto, eu estava
melhorando minha posição neste mundo, com certeza!

Enquanto esperava, na mesa pequena, que ele fizesse o pedido, ficava


imaginando como era estranho estarmos sempre nos encontrando assim. Mas
Nova York era, mesmo, uma cidade estranha. Podia se ter a mesma colega de
quarto por cinco anos e quase nunca cruzar com ela, e ir a um parque
diferente a cada semana e encontrar as mesmas pessoas.

Dane voltou trazendo-me um capuccino e alguns biscoitos de leite.

— Costuma vir tomar café por aqui? Não é um tanto distante de seu
serviço? — comentei.

— Moro por aqui.

— Ah, isso explica termos nos visto tanto ultimamente.

— É, mas não a tenho visto no Starbucks. Terminou seu livro?

— Sim. Acabei de mandar seis cópias.

— Não tem um agente?

— Não... — Eu nem mesmo pensara nisso...

— Seguiu as normas que os editores pedem? Porque podem nem ler


seu manuscrito se não as seguir.

Senti como se um balde de água fria tivesse sido derramado sobre


minha cabeça.

— E Harrison? — A pergunta tirou-me de minhas divagações sombrias


sobre o destino de meu livro.

— Bem — menti. — Ele é um sujeito muito legal.

— Mesmo?

— Mesmo...

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O céu é o limite Alison Nöel
— Bem, vou ter que voltar ao escritório, mas... estava pensando... está
livre este fim de semana?

Eu estava me sentindo no fundo do poço. Muito bem, ele estava


namorando uma escritora de sucesso, mas isso não o tornava um escritor
também, e aquela história sobre nem lerem meu manuscrito acabara comigo.
Não via a hora de poder sair dali e me livrar da pressão que minha própria
pressa e inexperiência estavam colocando em mim.

— Vou passar o fim de semana em Paris — disse.

— Oh, que sorte a sua!

Por que eu continuava tendo a impressão de que havia algo a mais no


olhar dele? Fosse por que fosse, despedimo-nos sem mais palavras e
seguimos nossos caminhos.

Voar para Paris sem Clay não foi divertido. A tripulação me pareceu
fria e distante. E, como eu tinha sido colocada no vôo às pressas, deram-me
todas as tarefas que ninguém mais queria fazer. Criei, então, um mantra
para mim mesma:

Você vai para Paris, ver Max e beijá-lo.

Ao desembarcarmos, o piloto e o co-piloto, antigos amigos de Michael,


vieram falar comigo, e até me ofereceram um jantar com a tripulação, mas
fiz questão de dizer que tinha um encontro com um verdadeiro cavalheiro.
Se isso ia chegar aos ouvidos de Michael, não sei, e nem me importei em
saber.

Antes de deixar o aeroporto, tentei ligar para Max, mas ninguém


atendeu. Assim, deixei um recado e, ao entrar no Grand Hotel, achei que ele
já teria confirmado nosso encontro ou, quem sabe até, me enviado outro
buquê de flores. Mas nada havia para mim na recepção. Um tanto
desapontada, subi para tomar um banho e, quem sabe, dormir um pouco
antes de sair para dar uma volta.

Quando saí do chuveiro, o celular já tinha uma mensagem:

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O céu é o limite Alison Nöel
Hailey, sei que já chegou. Se estiver bem para você, pego-a às sete.
Se não, deixe um recado no Ritz.

Ouvi a mensagem mais de dez vezes. Meu coração batia como um


louco. Acertei o despertador para dali a duas horas e dormi o mais feliz dos
sonos.

Nós nos encontramos exatamente às sete. Ele, barbeado, perfumado,


maravilhoso, cumprimentou-me com um delicado beijo no rosto e levou-me
para a Mercedes, à qual eu estava começando a me acostumar depressa
demais.

— Já esteve no Quartier Latin?

— Ah, sim, é minha parte favorita da cidade!

— Há um restaurante lá, relativamente novo, ao qual nunca fui, mas


que podemos experimentar. Não sei ao certo onde fica, mas

Jean Claude pode nos deixar em algum lugar para explorarmos as ruas
por nossa conta. O que me diz?

— Perfeito!

Não foi difícil encontrar o lugar; era pequeno, discreto, e com o velho
e elegante charme parisiense que todos adoram. E a comida não poderia ser
mais deliciosa. Acho que comemos tanto que apenas uma caminhada poderia
nos aliviar. Saímos a pé, de mãos dadas, prestando atenção aos inúmeros
detalhes de cada loja, cada casa, cada esquina.

— Adoro Paris! — comentei. — Você tem sorte por poder passar


tanto tempo aqui.

— Tenho, mesmo.

Andamos muito, petiscamos pelas ruas, apesar de já termos -


jantado, e depois nos sentamos numa praça. Lá, Max beijou-me novamente e,
como da outra vez, senti que o mundo desaparecia a meu redor. Senti que

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O céu é o limite Alison Nöel
jamais experimentara aquela paixão ardente, quase escandalosa, nem mesmo
com Michael.

— Venha para o Ritz comigo — ele sussurrou em meu ouvido, entre


nossos beijos.

— Não posso...

— Por que não?.

— Porque tenho de voar logo cedo...

— Mas quando poderei vê-la novamente?

— Não sei.

— Por que não volta para Paris amanhã à noite.

— O quê? — Afastei-me de seus lábios, encarando-o.

— Você disse, no jantar, que tem esta semana de folga. Então, se voa
gratuitamente...

— Sim, mas...

— Então, é perfeito! Vou mandar Jean Claude pegá-la no aeroporto e


passaremos a semana juntos!

— Mas e minhas roupas? Para voltar, nem terei tempo de ir para casa
e fazer outra mala.

— Minha querida, estaremos em Paris! Faremos compras! Eu jamais


vivera uma situação assim. Jamais me permitira uma

loucura desse quilate. No entanto, movida por uma força que nem eu
mesma sei explicar, cerrei os olhos e aceitei, feliz. Afinal, a vida é tão
curta! E sempre ouvi dizer que é melhor arrepender-se de ter feito algo do
que de não ter feito.

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O céu é o limite Alison Nöel
Assim que pousamos, apressei-me em mudar de roupas e me preparar
para o vôo de volta. Encontrei Clay no caminho e nem parei para falarmos,
por isso ele foi me seguindo pelos corredores do aeroporto.

— Vou passar alguns dias em Paris — informei, alegre.

— Mas achei que tinha acabado de chegar!

— Sim, mas é uma longa história e não tenho tempo para contar-lhe
agora.

— Onde vai ficar?

— No Ritz.

— Opa! Por quanto tempo? Estarei em Amsterdã dentro de alguns


dias; talvez queira voltar comigo.

— Pode ser.

— Ligo para você no Ritz, então. Que quarto devo chamar, o seu ou o
dele?

Sorri diante da brincadeira e, apressando o passo, dei-lhe um abraço


e respondi:

— Peça para falar com Maxwell Dunne

Viajar assim, sem parar, poderia ter me deixado exausta, mas a


ansiedade de estar com Max mantinha-me alimentado de energia e
felicidade. E mais feliz ainda fiquei quando fui levada ao apartamento que
ele ocupava no Ritz, luxuoso, elegante, cheio das mordomias que somente
muito, muito dinheiro, pode comprar.

Segui direto para o banheiro revestido de mármore e preparei um


banho na imensa banheira branca.

Saí do hotel com a intenção de dar umas voltas e comprar algumas


coisas. O dia estava claro, nem quente, nem frio, e as ruas estavam cheias

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O céu é o limite Alison Nöel
de gente indo e vindo, moradores de uma cidade que o resto do mundo
babava por conhecer. Felizardos.

Parecia incrível, mas eu saltara de um verdadeiro inferno para uma


vida onde a felicidade era traço primordial. Max era perfeito! Tinha tudo o
que queria da vida e o fato de não ser casado era bom demais para ser
verdade. Aliás, essa foi uma das primeiras coisas que eu quis deixar bem
claras, pois poderia me apaixonar, sim, e perdidamente, por ele.

Por isso, em nosso primeiro jantar, tinha perguntado:

— Max, você não é casado, é?

Ele negou com a cabeça, o que não me satisfez por completo.

— Quero dizer... nada de esposa e cinco filhos esperando an-


siosamente por seu regresso?

— Não. Claro que quero me casar um dia, mas a parte dos filhos ainda
não tenho bem certeza.

Isso era bom para mim, porque também nunca tinha pensado com
seriedade sobre ter filhos...

Entrei numa loja de lingerie, tentada a comprar algo sensual para


qualquer eventualidade. E encontrei um conjunto que me encantou, tanto na
beleza quanto no preço. Afinal, Max era perfeito e merecia algo perfeito,
também.

Marquei nosso encontro num bar chamado Hemingway, cheio de fotos


do grande escritor, e muito aconchegante. Usava tudo novo: sandálias,
vestido e lingerie. E estava super ansiosa.

Quando o vi chegar, num terno magnífico, quase derreti. Ele veio,


deu-me um beijo suave e comentou:

— Você está linda. Fez compras?

— Sim. Fui dar uma volta pelo lado esquerdo do Sena.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Mas foi a pé. Podia ter usado o carro. Jean Claude está a seu
dispor.

— Eu sei, mas preferi andar. O dia estava lindo.

— Como foi seu vôo?

— Bom. Dormi a maior parte do tempo.

Jantar com Max era sempre uma aula de refinada culinária. Ele
conhecia todos os pratos, e me fez apreciar cada um dos que pedimos.
Depois decidimos pular a sobremesa e ir direto a um licor de chocolate que
parecia ter sido feito no paraíso.

De volta ao hotel, eu estava tensa. Max nos preparou dois drinques e


eu segui direto para o banheiro, para escovar os dentes, arranjar a
maquiagem e me convencer de que estaria à altura dele.

Quando voltei à sala, ele me esperava com dois copos nas mãos,
sentado diante da lareira acesa. Oh, era tudo o que eu poderia desejar!
Assim que me sentei, ele me entregou o copo. Mas nenhum de nós se
importou em beber. Estávamos logo um nos braços do outro, beijando-nos
como loucos, envolvidos num desejo arrebatador.

No minuto seguinte, ele me levou para a cama e, sem uma palavra,


fizemos amor desesperadamente. Eu nunca tinha vivido algo assim. No
entanto, alguma coisa ficou faltando. E, ainda envolvida pela aura da paixão,
eu não soube exatamente o que poderia ser.

O que havia de errado comigo? Estava com um homem inteligente,


simpático, bonito, rico, generoso, sofisticado. No entanto, faltava alguma
coisa. Por que tudo tinha de ser sempre complicado para mim? Por que não
tinha percebido que Max era perfeito demais para ser verdade?

— Não sei o que fazer — queixei-me para Clay, na manhã seguinte,


depois que Max saiu para o trabalho. Ele deixara um bilhete, dizendo que
faria tudo para conseguir sair mais cedo, para que pudéssemos passar mais

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O céu é o limite Alison Nöel
tempo juntos, mas eu me sentia como uma Cinderela cujo conto de fadas
tinha sido um fracasso.

— Acho que você tem que sair daí quanto antes — foi o conselho de
meu amigo.

— O quê? Como? Quero dizer... ele é completamente perfeito em


tudo... Que desculpa vou dar?

— Que não gostou dele na cama. E ponto final. Ou acha que pode
enganar a si mesma por muito mais tempo? Porque está fantasiando se acha
que foi tudo uma maravilha. Se tivesse sido, você estaria feliz e ansiosa por
mais, minha cara.

— Mas, Clay, ele é um homem em um milhão!

— Ótimo. Case-se com ele, então. E passe o resto de suas manhãs


pensando que a noite anterior poderia ter sido melhor. Não se engane mais,
Hailey. O cara é perfeito, mas não funcionou. Não viu estrelas. Estarei em
Amsterdã em alguns dias. Se quiser me encontrar por lá...

— Vou pensar e depois ligo, certo?

A semana se seguiu diferente de como eu previra. Durante o dia, tudo


era muito bom. Perfeito, para usar a palavra que eu definira como sendo a
melhor descrição para Max e seu estilo de vida. Mas, à noite, quando
tínhamos de ficar sozinhos, quando íamos para a cama, eu simplesmente
fechava os olhos e deixava tudo acontecer. Não, aquelas não eram as noites
de meus sonhos, mas também não eram as piores. Continuamente tentava me
convencer de que era exigente demais, que queria mais do que qualquer
mulher poderia desejar, mas o fato era que, naquele ponto específico, eu
não estava feliz...

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O céu é o limite Alison Nöel
Não eram suficientes os sorrisos, os passeios, os beijos, os carinhos.
Nem mesmo toda a animação que Max demonstrava quando estava a meu
lado. Definitivamente, havia algo de muito errado comigo.

Estranhei aquele passeio que ele sugeriu ao metrô. Mas Max explicou
que estávamos em Pigalle e que aquele era um bairro boêmio, que grandes
artistas, como Picasso, costumavam se reunir ali, e isso me convenceu de que
era um lugar interessante. Mal sabia eu que estava começando a entrar num
pesadelo...

Seguimos por uma rua escura, que, obviamente, ainda era freqüentada
por gente não muito respeitável. Chegamos a um clube noturno, desses que
estão sempre tão envoltos na escuridão, que mal se consegue ver a pessoa
que nos acompanha. Havia um palco mal iluminado logo à frente e Max foi
recebido ali com a mesma deferência e a mesma cortesia com que o
encaminhavam às melhores mesas dos restaurantes mais finos de Paris. Pelo
visto, também dali era um freqüentador assíduo e isso começou a me inco-
modar. Tomamos um drinque e, pouco depois, o espetáculo começava. No
palco, um casal bizarro, vestido com roupas justas de couro, começou uma
encenação de um relacionamento sado masoquista. Meu estômago começou a
virar. Eu nunca estivera num lugar assim e ver aquelas cenas grotescas a
poucos metros de distância era o fim.

— Max, vamos embora daqui.

— Ora, por quê? Vai se acostumar e logo, logo, vai gostar. Não, eu não
queria me acostumar. Queria sair dali. Pelo visto,

ele estava me mostrando um lado de sua personalidade que eu nunca


poderia ter imaginado.

— Max, quero ir embora agora!

— Não, Hailey. O que está havendo com você, afinal?

— Não gosto deste tipo de coisas, mas para você, parece ser algo
bastante interessante. Já percebi que é um freqüentador da casa.

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O céu é o limite Alison Nöel
— E se for? Não vejo mal nisso.

— Mas eu vejo. Desculpe-me, mas estou saindo.

— E para onde vai?

— Para o Ritz, pegar minhas malas e sumir de Paris e de sua vida.

Não esperei por mais nada. Max chegou a me chamar, mas não me
seguiu. Ali terminava nosso relacionamento. Pelo visto, eu encontrara algo
que não era tão perfeito. Um bom motivo para deixar de apenas suportar
ficar a seu lado e partilhar de bons momentos. Não me senti nem um pouco
culpada quando deixei o hotel, após ter ligado para Clay e lhe contado tudo,
marcando um encontro em Amsterdã.

— Talvez ele tenha percebido que você não estava gostando de seu
relacionamento na cama e quis apimentar um pouco a relação — Clay tentou
justificar, quando nos encontramos, no dia seguinte.

Tentei aceitar tal teoria, mas a única coisa que queria, de fato, era
esquecer que, um dia, me envolvera com um adorável sujeito chamado Max
que tinha maus hábitos noturnos...

Quando voltei a Nova York, havia uma pilha de correspondência na


cobertura. Senti uma ponta de preocupação, lembrando-me dos gatos, mas
logo ela se foi, envolta em alívio quando me lembrei de que, antes de viajar,
embarcara os bichanos para a Grécia, como minha amiga havia recomendado.
Jonathan sempre conseguia sobreviver bem com o que havia em seu aquário,
mesmo que fossem aquelas algas verdes que começavam a se formar nas
paredes quando eu esquecia de trocar a água.

Assim, alimentei-o, segui para o banheiro e, depois de uma boa


chuveirada, sentei-me com uma caneca de café nas mãos para ler tudo que
estava endereçado a mim. A primeira carta que abri era de uma editora. E
dizia:

Prezada srta. Lane, agradecemos por nos ter enviado seu original.
Gostei da leitura e também da maneira como abordou a visão de uma

59
O céu é o limite Alison Nöel
adolescente diante do mundo. No entanto, preocupei-me com a traição de
sua amiga e a ausência contínua de seus pais. E, mesmo tendo um final
relativamente feliz, seu livro poderia ter dado um foco mais humano às
aventuras da protagonista. Se estiver interessada em reescrever a história,
com pelo menos um pai ou uma mãe mais presente, amigos mais decentes e
um final mais feliz, estarei interessada em ler seu trabalho novamente.
Martina Rasmussen

Acabei de ler e fiquei olhando para a parede sem saber o que pensar.
Eu não queria que destruíssem minha história; apenas que a lessem,
publicassem, ou não.

Eu acabava de me aprontar para o baile anual das Damas de Honra,


que sempre se realizava no East Village. Era um evento alegre, irreverente,
cuja entrada era uma doação para qualquer boa causa do ano e que exigia
apenas que se participasse usando o vestido mais cafona que pudesse
encontrar nos brechós da cidade.

Verifiquei mais uma vez o enorme laço de tafetá na parte de trás de


meu vestido cor-de-rosa e achei que estava ridícula o suficiente para
agradar.

Segui para o elevador e, para meu azar, este estava quase cheio, o
que quase não me deu espaço para entrar. No entanto, estava atrasada e
sabia que não poderia ficar esperando até que ele retornasse à cobertura.
Entrei, baixei a cabeça, sabendo que todos ali estavam me olhando e
estranhando minha roupa, mas persisti em minha fortaleza de espírito. Foi
quando uma voz familiar me chamou:

— Hailey? — O tom de estranheza era evidente.

Eu a reconhecia, mas não queria acreditar. Não queria e não podia,


porque, se o dono daquela voz fosse, de fato, quem eu pensava que era,
estaria perdida por ele me ver assim, totalmente, absurdamente,
esfericamente ridícula.

— Hailey! — ele insistiu e tive de erguer os olhos. — O que faz aqui?

60
O céu é o limite Alison Nöel
— Eu moro aqui.

— Mora aqui?!

Puxa, isso era tão difícil assim de acreditar?

— Sim. Na cobertura.

— Mas... também moro aqui! Mas não na cobertura. Talvez deva mudar
de profissão...

— Como assim?

— Ser comissário...

Dane Richards estava zombando de mim. Definitivamente. E isso doía.


Muito. Afinal, como ele ousava mostrar-se surpreso por eu morar ali? Por
que seria impossível para mim alcançar tal conforto? Esnobe, isso era o que
ele era! Estava começando a achar que toda a atração que sentira por ele
antes se transformava em desprezo.

Foi só então que percebi a presença dela. Cadence, bem ali, a meu
lado. E eu que estava tão preocupada em não olhar para parte alguma só
porque estava ridícula.

O elevador parou, todos saíram, mas nós três, não.

— Vamos, o carro está esperando! — ela instigou, enchendo-me de


raiva. Oh, eu não gostava daquela mulher! Não gostava mesmo!

Saímos, ou acabaríamos subindo novamente.

— Para onde está indo? — Dane quis saber.

— Para o centro.

— Nós também. Podemos dar-lhe uma carona.

Já tínhamos chegado à calçada e o motorista do táxi que os esperava


me olhou como se eu fosse uma aberração.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Não, não, obrigada. Não quero incomodar.

— Não é incômodo algum. Venha! — ele insistia. Cadence, sem uma


palavra, entrou no banco de trás. Dane a

seguiu, puxando-me por um braço e, segundos depois, estávamos


todos seguindo para o centro de Nova York.

— Então, do que se trata? — ele quis saber, apontando vagamente


para a peruca cor-de-rosa, os ladinhos, os tules bordados que faziam parte
de meu traje. — Festa de quinze anos?

— Na verdade, não. — Fechei-me em copas. Não queria conversa.


Estava com raiva e ponto final.

Cadence agora falava ao celular e seguiu por todo o caminho assim.


Dane continuava me olhando, interessado, sorrindo de leve, como se quisesse
ainda uma explicação para minhas roupas. Aquele rosto bonito, os cabelos
macios, o jeito elegante... tudo me enervava ainda mais.

— Vou a uma festa — resolvi explicar. — É conhecida como Baile das


Damas de Honra e as mulheres devem ir da forma mais ridícula possível.
Fora isso, é uma festa ótima, com gente legal, boa música, comida e bebida.
E há um concurso, no fim, para eleger quem está usando a roupa mais
deselegante.

— Interessante. E qual é o prêmio?

— Um buquê.

—Olhe, não leve a mal, mas acho que você tem grandes chances de
vencer. É um baile anual?

— É, mas não tenho ido há muitos anos.

— Por que não?

— Porque as mulheres têm de ser solteiras para irem.

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O céu é o limite Alison Nöel
— E, nos últimos anos, você não era? — Ele se inclinou para mim,
deixando-me, súbita e estranhamente, sem fôlego.

Olhei pela janela, tentando desviar minha atenção.

— Há homens nessa festa?

— Na verdade, não. Apenas mulheres e gays.

— Interessante.

Eu estava começando a ficar enjoada de tudo que ele achava


interessante.

— E então, teve resposta de algum dos editores?

A pergunta me surpreendeu e me desagradou. Ele queria, então, me


humilhar diante da brilhante escritora?

Aproveitei quando o carro parou em um semáforo e, sem saber por


quê, atirei uma nota de dez dólares no colo de Dane e saí correndo,
agradecendo, sem olhar para trás, Tinha começado a chover e tive de
colocar a bolsa sobre a cabeça para não estragar minha peruca.

— Mas ainda nem chegamos ao centro! — pude ouvi-lo gritar. Voltei-


me e vi "aquele estranho olhar novamente. Firme, mas,

de certa forma, triste. Era, então, isso que me impressionava nele? O


olhar? O sinal abriu e o táxi se foi. Olhei para cima, para a chuva que me
molhava, e me senti, repentinamente, muito triste.

Capítulo VI

Depois de tantos anos voando, eu tinha aprendido a lidar com meus


horários e podia, assim, trabalhar mais ou menos quando e quanto quisesse.

63
O céu é o limite Alison Nöel
A princípio, morar no apartamento de Kat, sem pagar, me parecera a grande
oportunidade de trabalhar menos, mas agora, com aquela sombra de
demissão em massa que pairava na Atlas, decidi ganhar tanto dinheiro
quanto possível, para o caso de ter de passar algum tempo desempregada à
procura de outra empresa. E ainda esperava uma resposta dos outros
editores a quem enviara meu original, pois a opinião daquela louca que se
dignara a me responder não contava.

Os vôos eram muitos e, quase sempre, bastante cansativos. Mas eu


não me importava. Tudo o que queria era trabalhar e ganhar dinheiro. E, num
retorno de uma dessas viagens exaustivas, entrei no apartamento de Kat,
onde eu já recebia toda a minha correspondência, e, pegando os envelopes
que tinham sido deixados na portaria, dei uma olhada rápida. O último era da
Atlas! Alguma coisa no envelope azul-claro fez meu estômago apertar. Mas,
da mesma forma que se arranca um esparadrapo de um ferimento, eu sabia
que, apesar do medo e da dor, teria de fazê-lo, mais cedo ou mais tarde.
Portanto, rasguei a ponta do envelope e abri a folha única.

Entramos numa nova fase de desafios que resultaram em algo


também absolutamente novo para a companhia. Assim, não nos restou
alternativa, a não ser embarcar numa transformação radical que,
infelizmente, resultará na perda de emprego de novecentos funcionários
etc, etc, etc...

Mas quem escrevia as comunicações internas e externas da Atlas?


Essa pessoa tinha alguma noção de redação? E de sentimentos? Não,
nenhuma, com certeza. Continuei lendo, mesmo assim. E, na última linha,
estava escrito:

Estejam, portanto, cientes de que os comissários sêniores de


números 13.400 acima poderão ser afetados por estas novas medidas.

Muito bem, meu número era 13.802...

Acordei com o telefone de cabeceira, naquela madrugada.

— Hailey?

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O céu é o limite Alison Nöel
— Oh... Olá, Kat...

— Não a acordei, espero.

— Não, claro que não... Estava aqui sentada, lendo o jornal... — Revirei
os olhos, observando o céu muito azul, que era a única coisa possível de se
ver na altura daquela cobertura. — Como vai? Está em Atenas?

— Ah, estou relaxando muito! Tudo está uma maravilha por aqui.
Afinal, esta é a Grécia. Estivemos em Atenas até ontem, mas então
decidimos visitar a vila de Yanni em Mikonos. É tão linda! Tudo pintado de
branco! Uma beleza, mesmo! E você? Como vão as coisas? O que anda
fazendo mais? Escrevendo ou voando?

— Bem, mandei o livro às editoras, como você sabe, mas ainda não
recebi uma boa resposta. Quanto à Atlas, recebi uma carta ontem, dizendo
que posso estar na lista de futuros desempregados.

—Não diga! Mas a que ponto chegou essa companhia! Escute... por que
não vem para cá?

— Não, não. Não posso. Preciso ficar por aqui e me preparar para o
caso de ter de procurar um novo emprego. Talvez, até, comece a escrever
outro livro.

— Entendo. Mas se vier apenas por alguns dias, quando voltar, ainda
poderá fazer tudo isso, não acha? Deixe que eu e Yanni cuidemos de você.
Use seus passes grátis! Faça algo maravilhoso pelo menos uma vez na vida,
menina!

Muito bem, nesse mesmo dia liguei para Clay para avisá-lo de que
ficaria encarregado da vida de Jonathan. Expliquei detalhadamente que meu
peixinho comia apenas uma vez por dia, uma quantidade mínima, e o vi
franzir a testa, sentado diante de mim, num bar de esquina,

— Pelo amor de Deus, Hailey, eu já entendi que ele não é nenhum


tubarão!

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O céu é o limite Alison Nöel
— Ah, mais uma coisa. Depois que tiver alimentado Jonathan, Kat
disse que, se quiser ficar no apartamento, pode aproveitar que vai ficar
vazio. Ela até permitiu que leve alguém, de vez em quando... — Sorri e vi o
rosto dele se animar, embora a resposta fosse contrária:

— Não, não. Escute, quanto tempo vai ficar na Grécia?

Eu ia partir no dia seguinte, mas meus planos terminavam aí.

— Não sei ainda. Tenho dez dias de folga, mas acho que vou ficar bem
menos do que isso. Na verdade, ando muito preocupada quanto às possíveis
demissões. Você não tem medo do que possa acontecer se for um dos
eleitos?

— Já andei pensando nisso e acho que, se acontecer, vou voltar a


estudar, terminar meu mestrado. Já pensou em voltar a estudar, Hailey?

— Acho que agora, sim. Mas, em meu caso, seria para terminar minha
pós-graduação. Cheguei à terrível conclusão de que temos vivido numa
espécie de... bolha, sabe? Eu costumava achar que meu emprego era
excelente e que o pagamento, embora não fosse tão bom, compensava
porque era tudo muito divertido, havia as viagens... No entanto, seis anos
disso me mostraram como é triste trabalhar para a Atlas. Cada vôo é, na
realidade, um pesadelo, extremamente cansativo e estressante. E tudo o
que tenho é um passaporte cheio de carimbos, uma coleção de cartões
plásticos dos hotéis mais baratos da América, e mais nada.

— Parece que estamos de volta ao começo, não?

— Exatamente. E eu, ainda por cima, solteira, sem perspectivas para o


futuro. Depois de tudo o que houve com Michael, tentei me convencer de
que seria o recomeço de minha vida, que tinha vastos horizontes pela
frente, que minha segunda chance estava batendo a minha porta, mas
agora percebo que estava enganada. E minha vida não andou para a frente
desde então.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Não diga isso...

— Mas é verdade! E agora, para completar, a Atlas vai me dar o


bilhete azul, tenho certeza. E estarei nas ruas, desempregada e sem futuro
novamente.

— Não vai, não. Tudo vai dar certo, você vai ver. E seu livro? Não
espera nada dos editores? Pode ser um grande sucesso, sabia?

Apenas ergui os ombros. Até mesmo falar no assunto me incomodava


porque estava começando a imaginar que nem uma resposta receberia, tão
ruim deviam ter achado meu texto. Vendo que eu estava ainda frustrada,
Clay sugeriu:

— Escute, por que não volta a procurar aquele escritor, o tal Mann?
Ou, então, por que não reescreve sua história, como a editora maluca
sugeriu?

— Clay, não quero fazer nenhuma das duas coisas!

— E que, às vezes, na vida, não temos chance de escolher, querida.

— O que quer dizer com isso?

— Somente você mesma pode decidir sobre sua atual situação.


Somente você sabe como se sente de verdade e até onde poderia ir para
resolver tudo isso. Explore suas opções e mantenha a mente aberta!
Conselho de amigo!

Eu devia me sentir feliz. Ia viajar para a Grécia, para visitar um lugar


que era o sonho de milhares de pessoas. Mas, enquanto caminhava pela
Madison Avenue, olhando para as vitrines cheias de roupas maravilhosas que
jamais conseguiria comprar, comecei a entrar em pânico. Recentemente,
havia lido uma estatística que dizia que setenta por cento das mulheres já
estão casadas ao atingirem seu trigésimo sétimo aniversário. Não que isso
me incomodasse diretamente, ou que eu estivesse louca para me casar e ter
filhos, muito menos para ter filhos, na verdade. Mas alguma coisa, nesses
números, me fazia sentir sozinha e isolada, como se tivesse sido deixada

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O céu é o limite Alison Nöel
num canto porque não conseguia ser uma boa companhia para ninguém, muito
menos para um suposto marido.

Não entendia como certas mulheres encontravam seu parceiro ideal


com tanta rapidez e facilidade!

Era verdade que a maioria de minhas amigas estava casada e parecia,


até, bem feliz. E, mesmo com maridos encantadores, e sem problemas
maiores de adaptação à vida matrimonial, devo admitir que não via nada
nesses homens que os tornassem tão especiais. Apesar de até, bem pouco
tempo, querer me casar e levar uma vida como a delas, agora que conseguira
escapar disso, achava que não seria o bastante encontrar um marido que
fosse, apenas encantador. Eu queria mais. Afinal, viveria com ele pelo resto
de meus dias.

E ali, caminhando, eu me sentia uma estranha; como se fosse a única a


pensar assim, a que queria mais, e a que ficaria sem nada. Porque, afinal,
esse "tesouro" de marido poderia simplesmente não existir.

Meus pensamentos estavam ficando mais e mais sombrios e já não


sabia aonde poderiam me levar. Assim, decidi dar uma volta pelo parque;
passei por meu prédio e encostei-me à parede, vendo toda aquela gente
passar. Adoro viver em Nova York. Mesmo parecendo rude e abrasiva na
superfície, é uma cidade cheia de gente disposta a sorrir, como o atendente
da lanchonete que, de fato, sorri para você, ou o motorista de táxi que
espera até que você entre em segurança em seu prédio, para só depois ir
embora. No entanto, se perdesse meu emprego na Atlas, não sabia se con-
seguiria continuar vivendo ali. Nova York não seria mais um lugar para mim,
já que é uma cidade repleta de pessoas cultas, superqualificadas, e muito
profissionais.

— Hailey?

Atendi ao chamado, vendo Dane logo a meu lado. Junto dele estavam
Cadence e uma loira que eu nunca tinha visto antes. Ele trazia um labrador

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O céu é o limite Alison Nöel
por uma correia de couro e quase de imediato curvei-me para acariciar a
cabeça do animal.

— Olá! Como vai?

—Esse é Jake—ele apontou o cão.—Cadence você já conhece e essa é


Evie, uma amiga dela.

Sorri para as duas belas mulheres, depois voltei minha atenção para o
cachorro novamente, acariciando-o com mais vigor ainda.

— Que inveja! Adoro cachorros, sabia? E este é lindo!

Seria impressão minha ou Cadence estava me fitando de uma forma


diferente?

— Como foi, mesmo, que vocês dois se conheceram? — perguntou ela.

— É uma longa história — falei logo, sem disposição para conversas.


Além do mais, eu e Dane não éramos amigos; eu mal o suportava. A meu ver,
a única coisa boa nele era possuir aquele cachorro tão lindo e carinhoso.

— Cheguei atrasado para um vôo e acabei tirando Hailey de seu lugar


— Dane explicou. — E ela saiu com tanta pressa que esqueceu seus originais.

— Oh... é escritora? — Mas Cadence ainda não sabia disso?!

Bem, de acordo com Martina, a editora louca que me respondera, eu


não era nada além de alguém, tentando escrever, e muito mal.

— Na verdade, não sou profissional, mas estou tentando. Acho que


acabo escrevendo para satisfazer uma vontade pessoal.

— Não acham que devíamos ir para não perdermos a hora? — Evie


sugeriu.

As duas se despediram de Dane e, quando se foram, ele me encarou e


sorriu. Droga, eu o detestava, mas aquele sorriso era de derrubar qualquer
muralha!

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O céu é o limite Alison Nöel
— Importa-se se ficarmos com você? — Referia-se ao cão e a si
mesmo. E, vendo que o bichinho deitava-se a meus pés, comentou: — Mas
veja só! Jake não sabe mesmo ser leal. Cuido dele há anos e, assim que vê
uma garota bonita, é como se eu nem existisse!

Baixei os olhos para o cão, e fiquei avaliando como Dane podia


começar a flertar assim comigo um segundo depois de sua namorada se
afastar.

— Não tem animais de estimação? — ele quis saber.

— Bem, cuidei de três gatos para minha amiga e tenho um peixinho.


Mas acho que ele mais me ignora do que me nota. Só me vê quando me
aproximo do aquário com sua comida.

— E ele tem nome?

— Jonathan.

— Dei o nome de Jake a meu cachorro por causa de um personagem


do filme Chinatown.

— Oh, adoro esse filme!

— E então, pegou o buquê?

Encarei-o, surpresa com a pergunta. Afinal, eu estivera pensando em


casamento até .alguns minutos antes de nos encontrarmos...

— O baile a que você ia no outro dia, lembra? — Dane esclareceu.

— Ah, isso... Não, não. Acredite ou não, havia muitas outras mulheres
com vestidos mais cafonas do que o meu.

— Está brincando!

— Verdade!

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O céu é o limite Alison Nöel
— Escute, sei que está um tanto... em cima da hora, mas... está livre
no fim de semana? Há outra festa a que acho que gostaria de ir. Sei que
deveria convidá-la antes, mas, na verdade, acabei de saber também.

— Obrigada, mas não posso. Estou partindo para a Grécia amanhã.

Ele me encarou por longos segundos, mais sério.

— Puxa! Você aparece com as desculpas mais exóticas que já ouvi.

— Sou comissária de bordo, esqueceu? Mas vou ficar apenas -alguns


dias, visitando uma amiga.

— Entendo. E que tal agora?

— Como assim, agora?

— Bem, ainda está em Manhattan e não está com mala alguma. O que
diz? Janta comigo?

O convite me deixou sem palavras. Por fim, murmurei:

— Ainda preciso subir e fazer as malas.

— Claro, mas vai precisar comer também. E prometo trazê-la para


casa cedo. Vamos! — Oh, aquele sorriso novamente!

— Mas... e Cadence?

— Vai fazer uma noite de autógrafos na livraria Border. Assenti,


encarando-o. Os homens eram todos iguais, mesmo, exceto os gays. Mas eu
estava com fome, sim, não podia negar, e minha geladeira estava vazia.

— Só se prometer que não vamos falar em livros. — aceitei. —Como


quiser. Importa-se se eu levar Jake para casa primeiro? Eu teria de seguir
com ele até seu apartamento?! Bem, mas não

podíamos deixar o pobre cachorro na rua enquanto comíamos, não é?


Assim, segui-os para dentro do prédio.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Oh, então é aqui que Jake mora... — comentei, sem graça, ao
entrarmos.

— Sim. Mas tenho sorte por ele me deixar dividir seu espaço — Dane
brincou. Devia estar tentando me deixar à vontade. — Importa-se de
esperar alguns minutos? Vou deixar Jake na lavanderia e trocar de camisa.

Passei os olhos ao redor. Era um lugar agradável, com mobília quase


rústica, mas muito aconchegante. Aproximei-me de uma porta lateral, que
dava para uma sala íntima. Ali havia um sofá confortável, uma tevê e uma
mesinha, sobre a qual estava um exemplar do livro de Cadence. Não resisti à
tentação. Olhei para trás, para ter certeza de que Dane não estava por
perto e peguei o livro, abrindo nas primeiras páginas, em busca de uma
dedicatória. Por que eu estava fazendo isso? Não saberia dizer no momento.

Assim que virei a terceira página, vi a inscrição em perfeita


caligrafia:

Dane, obrigada por tudo! Não teria conseguido sem você! Beijos,

Cadence

Bem, a palavra tudo estava grifada. Fiquei ali, parada, olhando para as
letras bem desenhadas; não havia sinais claros de intimidade, mas era como
uma pintura de Da Vinci. Se você olhasse bem de perto, com extrema
atenção, podia ficar descobrindo centenas de "dicas" naquela mensagem...

Beijos. E ela não teria conseguido sem ele. A palavra tudo su-
blinhada... Tudo significava exatamente isso... Tudo.

Mas o que eu ainda estava fazendo ali? Como podia aceitar um convite
para jantar de um sujeito que era, com certeza, apenas um grande
predador, com todo aquele charme, aquela gentileza, aquele sorriso?!

—Hailey ?—ouvi-o chamar e tentei deixar o livro como estava.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Ah, eu estava dando uma olhada nesse seu cantinho... — O que
estava havendo com minhas mãos? Elas ainda seguravam o livro? Larguei-o,
deixando-o cair. Mas que droga!

— Gosta de comida italiana? Há um restaurante italiano perto daqui


que tem massas deliciosas.

— Ah... Quanto ao jantar... Dane, acho que tenho ainda muitas coisas a
fazer para a viagem e vou ter mesmo que recusar seu convite.

Ele me encarou completamente decepcionado.

— Tem... Certeza? Porque podemos pedir algo aqui mesmo e...

— Não. Eu realmente tenho que ir.—passei por ele, em direção à


porta.

— Certo. Então, quem sabe, quando voltar...

Olhei para ele, e, com meu sorriso aprendido nas intermináveis horas
de treinamento da Atlas, despedi-me:

— Até uma outra vez!

Segui para o elevador, sabendo muito bem que não haveria uma outra
vez.

Eu tinha viajado por mais de dezoito horas sem parar. Agora, a balsa
chegava ao porto e eu, estranhamente, não me sentia cansada. Peguei minhas
malas, segui para as docas e passei os olhos ao redor para ver se encontrava
Kat e seu namorado Yanni, que eu estava ansiosa por conhecer.

Pouco depois a vi e nos abraçamos e beijamos efusivamente. Ela me


levou ao jipe branco que estava do outro lado da rua, querendo saber sobre
meu vôo. Deixei as malas na parte de trás do veículo e subi para o banco do
carona, perguntando:

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O céu é o limite Alison Nöel
— Mas onde está esse Yanni que estou morrendo de vontade de
conhecer?

— Ah, foi mergulhar para pegar polvos. Vamos seguir diretamente à


vila.

— Ele está caçando polvos?! É um hobbie ou coisa assim? — Olhei para


minha amiga, achando-a feliz, bonita, saudável. A Grécia lhe fazia muito
bem.

Seguimos conversando sobre coisas triviais enquanto passávamos


pelas paisagens mais lindas que eu já tinha visto na vida.

A vila era espetacular. Não conseguiria descrevê-la, nem que


quisesse; era um verdadeiro paraíso na terra. Paredes brancas, jardins, sol,
muito céu azul, flores, um mar aberto logo adiante.

A suíte que tinha sido reservada para mim era enorme, confortável.
Kat deixou-me à vontade para tomar meu primeiro banho na Grécia e
começar a apreciar aquela viagem de sonhos. Depois eu poderia dormir um
pouquinho e então nos encontraríamos mais tarde.

Quando acordei, mal pude acreditar onde estava. Já eram quase oito
da noite. Pulei da cama e corri para o banheiro, lavando o rosto e penteando
os cabelos. Depois vesti algo casual e corri pelo corredor, esperando não
estar atrasando o jantar.

Mas quando pisei no pátio interno da vila, vi Kat e um grego muito


atraente sentados numa balança romântica, saboreando um drinque.

— Sinto por ter dormido demais — desculpei-me logo. Mas o grego


apenas sorriu e apontou um lugar para que eu me sentasse.

—Jantamos tarde aqui. Meu nome é Yanni. Aceita uma bebida? — E


deu-me um aperto de mão vigoroso.

— Bem... o que estão bebendo?

— Ouzo — Kat respondeu. — Com um pouco de água e gelo.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Não é forte?

— Um pouco. Mas temos Retsina, se preferir. É uma espécie de vinho


— Yanni ofereceu.

Aceitei e ele indagou, enquanto me servia:

— É sua primeira visita a Mikonos?

— Sim.

— Pois saiba que, mesmo pequena, esta ilha é a mais bela de todas.

Eu os observava. Pareciam felizes juntos. E Yanni, mesmo sendo um


homem poderoso no lugar, mostrava-se simples, com sua calça branca,
camisa folgada e pés descalços. Ergueu seu copo e indicou o brinde:

— Bem, que sua estada em Mikonos seja intensa; que encontre novos
amigos e muita aventura!

Tilintamos nossos copos, sorrindo, naquela tarde deliciosa, des-


frutando aquele paraíso.

Mais tarde, ao jantar, outros convidados chegaram. Eu mal podia me


lembrar de todos os nomes diferentes, mas sorria para todos, tentando ser
simpática. Kat colocou-me sentada ao lado de um homem alto, simpático,
muito bronzeado, chamado Adonis. Ele me cumprimentou e pude ver que
tinha dentes maravilhosos. Sentei-me, e me apresentei:

— Sou Hailey.

— Eu sei. Você é o motivo de minha presença aqui.

— Como?!

— Na verdade, todos fomos convidados para dar-lhe as boas-vindas.

— Ah...

— O que está achando da ilha?

75
O céu é o limite Alison Nöel
— Pelo que já vi, é um verdadeiro paraíso.

— Já foi à cidade?

— Não, mas pretendo ir amanhã. Sabe, seu inglês é muito bom. —


Obrigado. Acho que a maior parte aprendi da televisão, como

todos aqui. Mas também estudei em Londres.

Nesse momento, Yanni e Kat apareceram com os pratos do jantar e


todos começaram a comer, saudando-se no que eu imaginava ser bom
apetite: Kali oreksi!

Acho que jamais comi tanto ou tão bem em toda minha vida. E nunca
achei que frutos do mar podiam ser tão saborosos quanto na Grécia. Quando
achei que toda aquela fartura tinha terminado, porém, as frutas começaram
a aparecer, vindas da cozinha em belíssimos arranjos, e aprendi que elas
também podiam ser outro tesouro daquelas ilhas maravilhosas e abençoadas
por Deus.

— Bem, quais são seus planos? — Adonis me perguntou quando


terminamos o jantar e nos dirigimos para o pátio.

Vi que uma mulher pequena, mas muito séria, estava ao lado dele,
interessada em minha resposta tanto quanto ele próprio.

— Bem, na verdade, não tenho planos... Vim apenas para relaxar, ficar
com Kat e Yanni, ir à praia, explorar a cidade.

— Ótimo! Vai precisar de um guia! — Os olhos muito verdes de Adonis


pareceram brilhar ainda mais.

— Ela já tem Kat e Yanni para isso — comentou a mulher. Seu nome
era Stavroula e me olhava com uma atenção que começava a me deixar pouco
à vontade.—Quanto tempo vai ficar em Mikonos?

— Alguns dias apenas.

— Não vai visitar as outras ilhas?

76
O céu é o limite Alison Nöel
— Para quê, se esta é a melhor? — Adonis interferiu, rindo.
Stavroula, então, simplesmente se levantou e se afastou, deixando-me sem
saber se tinha feito algo de errado. Mas Adonis voltou a sorrir, e tudo me
pareceu em ordem novamente.

Na manhã seguinte, depois de um delicioso desjejum, segui com Yanni


e Kat, no jipe, até Ágios Sostis. Era uma das mais remotas e tranqüilas
praias da ilha e só podia ser alcançada por barco ou carro. Era um dos locais
favoritos de Yanni e Kat também. E, feliz por minha amiga, comentei, quando
nós duas estávamos sozinhas na praia, pois Yanni já tinha mergulhado:

— Estou impressionada, sabia? Yanni é maravilhoso, Mikonos é linda, a


vila é deslumbrante e a comida é do outro mundo!

— Bem, os filhos dele não são, exatamente, loucos por mim. Mas,
como têm as próprias famílias, não nos vemos muito, o que ameniza as coisas.
E, às vezes, nossas diferenças culturais acabam sendo um problema, mas...
bem, sempre há algo para destemperar um relacionamento, você sabe. A
solução é saber se vale a pena ou não. Em meu caso, acho que sim.

— Pretendem se casar?

Kat apenas riu. Pensou um pouco, então, e respondeu:

— Para quê? As coisas estão tão bem do jeito que estão...

E ela tinha razão. Sorri, então, e nós duas nos deitamos em nossas
toalhas, aproveitando o sol.

Já de tarde, Yanni e Kat queriam tirar uma soneca. Mas, como eu só


tinha mais alguns dias na ilha, preferi deixar isso para a noite. Assim,
voltamos para a vila, comemos e tomamos um bom banho. Eles foram dormir
e eu saí pelas ruas da cidade. Sentei-me diante de um café bem típico da
região e pedi um frappé enquanto apreciava o movimento das pessoas indo e
vindo pela rua.

Não demorou muito para perceber que Mikonos era uma ilha de
contrastes. Gente nova, gente velha, carretas e motos, roupas tradicionais e

77
O céu é o limite Alison Nöel
biquínis ousados. Depois de meu frappé, saí para caminhar e, de lojinha
interessante em lojinha interessante, cheguei a um ponto em que já não
sabia mais onde me encontrava. Mas, confiante em minhas habilidades para
encontrar o fim do labirinto, comecei a caminhar pelas ruas tortas,
estreitas, sempre com a atenção nas lojas e na arquitetura do lugar. E
acabei mais perdida ainda.

Bem, já não importava. Podia ligar para Kat mais tarde e dizer-lhe
onde me encontrava descrevendo o que via a meu redor. Assim, não pude
resistir à tentação de mais uma lojinha. Desta vez, encantei-me com um belo
par de brincos de ouro que, com certeza, não conseguiria comprar e estava
experimentando-os, em frente a um espelho, quando ouvi unia voz familiar
logo atrás:

— Devia comprá-los. Ficam lindos em você. Era Adonis.

— Oh, olá!

— E então, gostou de Ágios Sostis?

— Como sabe que fomos lá?

— Porque a ilha é pequena e todos sabem tudo sobre todos. — Ele


mostrava aqueles dentes lindos novamente. — Quer comer alguma coisa?

Por que sempre havia comida quando um relacionamento começava? —


avaliei. Mas estaria começando alguma coisa, de fato?

— Não, obrigada. Estou indo para Paraportiani. — Claro que eu não


sabia como chegar à famosa igreja, mas ele não precisava saber disso.

— Posso mostrar-lhe o caminho.

— Não, obrigada. Tenho um mapa da cidade. — E me afastei, sem


saber ao certo se conseguiria chegar lá. Bem, usei o mapa direitinho e
cheguei a Paraportiani. Tirei inúmeras fotos, comprei mais quinquilharias e
tive um encontro com Petros, o Pelicano, um mascote da ilha. Depois me
dirigi a uma colina cheia de casinhas brancas.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Este é o melhor lugar da ilha para se observar o pôr-do-sol — ouvi
e voltei-me. Um casal de turistas sorria para mim.

Devolvi o sorriso e sentei-me em um barzinho aberto, pedindo um


vinho e esperando pelo espetáculo. Uma garota loira apareceu, pouco depois,
pedindo se podia ficar com a cadeira logo a meu lado. Eu a cedi e
acompanhei-a com os olhos, vendo-a sentar-se junto de Adonis! Bem, ele não
perdia tempo... senti-me aliviada por não ter caído em seu charme.

Pouco depois, quando o sol já estava atrás de nuvens próximas do


horizonte, peguei minhas coisas e decidi voltar para casa. Kat poderia ficar
preocupada se eu demorasse.

Percebi como a cidade se transformara. As ruas antes tranqüilas


agora estavam repletas de gente, que iria aproveitar a esfuziante vida
noturna da cidade. E eu precisava voltar sozinha, usando toda minha
esperteza naquele labirinto de ruas. Bem, seria uma aventura e tanto!

— Quer carona?

Adonis estava em seu jipe e sorria para mim.

— Olá, de novo. Não, obrigada.

— Como foi a visita a Paraportiani?

— Ótima. Tirei muitas fotos.

— Foi ver o pôr-do-sol no bar Caprice? Todos os turistas vão.

— Sim, fui. Adorei. E você? O encontro com a garota não deu certo?

— Oh, então nos viu. Coisas sem importância, você sabe. Posso pagar-
lhe uma bebida?

— Adonis, eu... — Vi que a garota que antes estava com ele, agora
vinha abraçada a outro rapaz e parei.

— Vamos ao Nove Musas — disse ó novo acompanhante da loirinha. —


Querem nos acompanhar?

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O céu é o limite Alison Nöel
— Não sei — Adonis me olhou. — Queremos?

Eu poderia negar mais uma vez; mas, pelo amor de Deus, estava na
Grécia, a noite prometia, e um verdadeiro deus grego me chamava para sair.
Por que não?

— Preciso avisar Kat — disse, sorrindo e pegando o celular.

— Não, não precisa — ele rebateu, com um daqueles sorrisos


devastadores. — Como acha que encontrei você?

Capítulo VII

Vai sair com Adonis novamente? — Kat olhava-me, séria.

— Sim.

Tínhamos acabado de jantar e eu estava esperando por ele. Na


verdade, tinha de admitir que estava ansiosa como uma adolescente. Seria
mais uma adorável noitada na cidade e ele era simplesmente adorável.

Minha estada na Grécia estava se alongando mais do que tinha


planejado. Mas estava até pensando em ligar para Clay e ver o que ele podia
fazer com meus vôos seguintes, para que pudesse permanecer em Mikonos
por mais algum tempo. Kat e Yanni nem teriam de me hospedar por mais
tempo, pois já planejava ficar num hotelzinho da cidade para não incomodá-
los.

— Vejo que a situação está ficando séria — Kat comentou,


continuando a colocar os pratos na lavadora. — Já conheceu a família dele?

— Kat, nós nos conhecemos há dias! Ele nem tentou me beijar ainda!

— Bem, então é sério, mesmo. Conhecer sua família será o próximo


passo, acredite. Na Grécia, os relacionamentos andam bem depressa.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Para ser franca, não sei se quero conhecê-los. A mãe dele me
parece séria demais.

No tempo passado com Adonis, vim a saber que aquela mulher que
estava no primeiro jantar que tive na ilha era mãe de Adonis.

Por isso, talvez, ela se mostrara tão rígida ao me olhar. Os costumes


pareciam bem diferentes ali.

— Todas as mães gregas são assim. Eu diria, até, que são as-
sustadoras.

Encarei Kat, preocupada.

— Você teve problemas com a mãe de Yanni?

— Hailey, ele tem sessenta anos! Sua mãe morreu há mais de cinco. E,
pelo que tenho observado por aqui, ela até seria uma boa sogra.

Aquilo era um aviso?

Estávamos no bar Caprice, nosso ponto de encontro favorito. Logo,


muitos amigos de Adonis chegariam e seguiríamos para algum lugar
divertido. Eu estava me acostumando e gostando da rotina. Eu já sabia quase
tudo a respeito dele: que nascera em Atenas, estudara em Londres,
formara-se em economia e que se preparava para assumir os negócios do pai,
que andava muito doente. Sabia também que ele passava os verões em
Mikonos e os invernos em Atenas, onde o pai se tratava. Mas eu ainda queria
saber mais, como por que ele, aos trinta anos, ainda era solteiro, em um
lugar onde as pessoas sempre se casavam antes dos vinte e cinco.

— Que tal jantarmos juntos amanhã? —' o convite saiu num sorriso,
como quase tudo o que ele dizia.

— Claro!

— Quero dizer, em minha casa, com minha família. Senti um nó no


estômago.

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— Bem... claro...

Então, ele se inclinou e me beijou pela primeira vez. E, sem saber ao


certo por quê, indaguei, logo em seguida:

— Por que demorou tanto para me beijar?

—- Porque queria que desejasse nosso beijo tanto quanto eu.

— Preciso saber tudo sobre ela! — disse eu, nervosa, para minha
amiga, no dia seguinte, quando conversávamos em meu quarto.

— Mas nunca conversei com ela!

— Deve ter ouvido alguma coisa! Tenho de saber aonde vou me meter,
Kat!

— Bem, pelo que sei, a família é muito rica e eu a acho bastante...


Tradicional.

— Como assim?

— E a matriarca da família. Quem dá as cartas, sabe? Deixei-me cair


na cama.

— Oh, isso não me parece nada bom...

— Hailey, não sou perita em cultura grega, mas... olhe, tenho


cinqüenta e cinco anos e ninguém, claro, poderia me pressionar em meu
relacionamento com Yanni. Acho que não fariam isso com você também,
porque não é nenhuma menininha tola, em busca de fortuna... E depois,
Adonis é maravilhoso. E é adulto; sua opinião deve ser respeitada na família.

Olhei-me no espelho, verificando minhas roupas, minha maquiagem.


Queria estar bem para o jantar. Kat também me olhava e, embora sorrisse,
sei que estava preocupada comigo.

— Pedi a Clay para adiar meus vôos porque pretendo ficar mais tempo
em Mikonos — anunciei. — Mas vou me mudar para um quarto de hotel,
porque não quero abusar de sua hospitalidade.

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—De forma alguma! Yanni jamais permitirá isso! Temos muito espaço
aqui e é um prazer recebê-la. Fique quanto tempo quiser.

Eu ia rebater, mas vi o carro de Adonis entrando, lá embaixo, na vila.

— Divirta-se — desejou minha amiga, dando-me um beijo. — E não se


preocupe. Tudo vai dar certo.

Adonis seguiu por uma estrada tortuosa que levava a uma parte da
ilha que eu não conhecia ainda. Na entrada do que parecia ser uma
propriedade enorme, avistei a casa. Um verdadeiro castelo.

— Mas... é aqui que você mora?!

— É, eu sei que é um tanto grande. — Paramos diante da entrada, e


ele explicou enquanto desligava o motor do jipe: — Na verdade, são três
casas. Minha irmã, o marido e seus meninos gêmeos moram em uma, minha
avó, na outra, e o resto da família fica na casa principal.

— E você não tem sua própria casa?

— Ainda não. Não sou casado, então moro com meus pais. Sei que pode
parecer estranho para uma americana, mas as coisas são assim por aqui. Mas
não se preocupe. Tenho um apartamento em Atenas; não sou um filhinho
mimado. Além do mais, ninguém fica por aqui o ano inteiro. Portanto, na
maior parte do tempo, tenho a casa só para mim. Ah, a propósito, algumas
outras pessoas virão também para o jantar.

Engoli em seco. Seria um jantar formal?

— Quantas pessoas vão vir? — perguntei, quase sem voz.

— Uns vinte parentes mais próximos. Ah, mais uma coisa. Eu ainda não
me recuperara e ele ainda tinha mais?!

— Comprei uma coisa para você — e abriu a mão, mostrando-me uma


caixinha de cor cinza.

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Não, as coisas não podiam ser assim tão rápidas na Grécia, tentava me
convencer enquanto abria a caixinha com dedos trêmulos. Ali dentro havia o
mais belo par de brincos de ouro que eu já vira. Muito mais bonitos do que
aqueles que eu experimentara, sem poder comprar, na lojinha, em meu
passeio pela cidade.

— Oh, são lindos! Mas não posso aceitá-los. — Devolvi a caixinha,


decidida.

— Mas tem que aceitá-los! Em nossa cultura, é uma grande ofensa


devolver um presente!

— Não acredito...

— Muito bem, vamos fazer uma coisa: você os coloca e, se ficarem


horríveis, devolve-os e não falamos mais no assunto. O que me diz?

— E se ficarem bonitos em mim?

— Vai ter que usá-los no jantar.

Tirei meus brincos e coloquei os que ele me deu. E, ao me olhar no


retrovisor, não havia como negar que eram magníficos.

— Vai ficar com eles? — Adonis perguntou.

— Bem, não são exatamente horríveis.

Ele se inclinou e me beijou. E, durante o beijo, pensei que poderíamos


esquecer o tal jantar e simplesmente seguir para algum lugar encantador
entre os milhares que havia em Mikonos. Mas então ele se afastou, sorriu
mais uma vez e indagou:

— E então? Pronta para conhecer minha família?

A mãe de Adonis me recebeu muito bem, mas eu soube de imediato


que Kat tinha razão: ela conduzia a família com mãos-de-ferro e seus olhos
perspicazes, não perdiam nada. E, infelizmente, mantiveram-se focalizados
em mim o tempo todo.

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Durante uma conversa que deveria ser supostamente informal, na sala
de estar, ela perguntou à queima-roupa:

— Sabe cozinhar, Hailey?

— Bem, não muito... na verdade, estou sempre voando...

— Entendo.

Não, ela não entendia nada! Ou entendia demais. E isso ficou patente
quando concluiu:

— Adonis me disse que é comissária de bordo e imagino que seja


muito divertido para vocês dois durante um, talvez dois anos, mas... Bem, há
quanto tempo voa?

— Seis anos.

— Não pretende continuar trabalhando, se quer, de fato, uma família.

Apenas sorri. Pois se nem tinha certeza de que, um dia, teria, de fato,
uma família.

Pouco depois, a irmã de Adonis, Anna, apontou para meus brincos e


disse:

— São lindos! Comprou-os aqui?

Eu tinha certeza de que estava sorrindo apenas para amenizar a


tensão que ficara no ar. Mas eu sabia que seria melhor não mencionar que
tinham sido um presente do filho mais querido de sua mãe.

— É, comprei-os há alguns dias — murmurei, sentindo a mentira


rasgar minha garganta.

— Mesmo? Onde?

— Hum, não me lembro exatamente do nome da loja... Mas foi bem no


centro, sabe?

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— Ela os comprou na Lalounis — Adonis me salvou. — Nós nos
encontramos quando Hailey já estava deixando a loja.

Lalounis! Eu conhecia o nome! Era a joalheria mais famosa e cara de


toda a Grécia! Olhei para ele e sorri, aliviada e feliz.

— É, foi lá realmente — confirmei.

Os três beijos de despedida que a mãe de Adonis me deu poderiam,


muito bem, ter sido mordidas. E, assim que entramos no jipe, observei,
sentindo-me a última das mulheres:

— Sua mãe me detesta.

— Não, não...

— É verdade! Ela me despreza!

— Confie em mim, Hailey. Conheço minha mãe. Tudo correu muito


bem.

Ergui as sobrancelhas, sem querer parecer insistente.

— Vamos esticar a noite na cidade? — ele convidou, num sorriso.

— Acho melhor me levar para a vila.

— Hailey, olhe para mim. Acredite: tudo correu bem. Pode parecer
estranho para você, mas minha mãe vai respeitá-la por ter se mostrado
atenciosa e educada. E depois, eu gosto de você. E, se gostar de mim
também, nada mais importará, certo?

A verdade era que eu gostava dele, sim. Portanto, se Adonis estava


tão certo de que tudo correra bem, só me restava acreditar e confiar em
seu conhecimento da família.

Era o quinto dia em que eu alegava para a companhia que estava


doente e não podia viajar. Kat já estava preocupada.

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. — Adoro sua companhia e não quero que vá embora, mas acho que
isso poderá prejudicá-la — avisou-me.

— Eu sei, mas não consegui passar meus vôos para outras pessoas.
Sabe, adoro este lugar! Não quero ir embora!

— E adora Adonis também? Baixei a cabeça, confusa.

— Gosto dele. De verdade. Mas... amor... Acho que eu nunca estive


apaixonada de fato, acredita? Nem mesmo por Michael.

— Você é quem sabe. Se quiser ficar, fique. Vai me fazer feliz. Mas é
sempre melhor pedir as contas a ser demitida.

Era verdade. Mas eu queria apenas ficar mais alguns dias... E, ao ouvir
o jipe de Adonis entrando na vila, animei-me de imediato.

Estávamos andando pela cidade, de mãos dadas, olhando vitrines.

— Preciso perguntar-lhe uma coisa — disse ele, sem sorrir, o que me


chamou a atenção. — Sabe que vou ter que ficar mais algum tempo aqui,
porque estou inspecionando os negócios de meu pai na ilha, não? Pois bem,
queria que ficasse comigo durante esse tempo.

— Bem, eu...

— Não precisa responder agora. Mas pense com carinho, está bem?

— Eu adoraria, mas tenho meu emprego e as coisas estão ficando


complicadas. Preciso voltar a Nova York e retomar meus vôos antes que a
companhia se aborreça comigo.

— Não pense nisso. Posso cuidar de você.

O que tais palavras poderiam significar? Que ele queria se casar


comigo? Ou seria eu quem queria ficar demais e não estava enxergando mais
nada com muita clareza? E por que queria tanto ficar, afinal? A ilha era um
encanto, a comida, deliciosa, a companhia, agradável.

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Percebi que ele se aproximava e permiti que me beijasse. E, logo
depois, beijando-me o ouvido, sussurrou:

— Amo você, Hailey.

Eu estava envolvida por seus braços, sentindo o calor de seu corpo,


sem conseguir acreditar no que acabara de ouvir. E calada, pois não podia
dizer a mesma coisa, fosse lá pelo motivo que fosse.

Nossa rotina de nos encontrarmos com muitos outros casais no bar


Caprice continuou sempre alegre e divertida. Passei a conhecer os amigos de
Adonis como se fossem meus e como se tivéssemos nossa amizade há anos. E
dava-me muito bem com as namoradas de seus amigos também.

— Ouvi dizer que conheceu a mãe dele — observou Chloe, uma garota
que estava vivendo com Stavros, um dos amigos de Adonis, há três anos.

— E verdade.

— E...? Ela a fez sentir-se mal? Foi grosseira?

— Não.

— Ora, vamos! Todas são iguais. Sabia que a mãe de Stavros não me
chama pelo nome até hoje? O fato é que a maioria das mães escolhe suas
noras desde a infância e quando seus queridos filhinhos as decepcionam,
escolhendo outra, elas se vingam de uma forma ou de outra. Adonis devia se
casar com uma garota de uma família amiga, sabia? As famílias muito ricas
casam seus filhos entre si para poderem continuar sendo donas de todo o
dinheiro.

Eu estava pasma. Tinha me envolvido no enredo de algum dramalhão


grego? Pelo visto, sim.

— Mas eu sou teimosa! — Chloe continuou, assentindo, como para si


mesma. — Não vou largar Stavros nem morta! Olhe ao redor! Esta terra é
um paraíso. Não vou perder esta vida de jeito nenhum!

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Assenti, apoiando-a em sua decisão. Mas me sentia perdida, confusa.
Aquela não era minha terra, ali não morava minha gente e eu estava
começando a achar que estava sobrando.

— Achei que nunca mais fosse ligar, que tivesse sido levada para uma
dessas misteriosas cidades gregas, oculta em alguma montanha mágica, onde
oráculos ainda fazem previsões... — reclamou Clay, quando liguei, na manhã
seguinte.

Tive de rir antes de perguntar:

— E então, como vai meu peixe?

— Ótimo. Aliás, ontem, ele me disse que prefere muito mais que eu
jogue aquele pozinho nojento em seu aquário. Acho que Jonathan,
definitivamente, não gosta de você, Hailey. Sinto muito.

Continuei rindo, cheia de saudade de meu grande amigo.

—- Ah, a propósito, há centenas de cartas para você e um tal de Dane


deixou um bilhete embaixo da porta. E aquele sujeito do avião, não? O que vi
na lanchonete?

— Exatamente. Mas me fale da correspondência? Do que se trata?


Contas? Uma carta de demissão?

— Não, nada da Atlas. Mas há três envelopes brancos, grandes, sem


endereço do remetente.

— Poderia abri-los para mim, sim?

— Como quiser.

Ouvi ruídos de papel sendo rasgado e, logo em seguida, Clay voltou a


falar:

— O primeiro é de uma editora.

— Fale logo!

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— Sinto muito, mas a notícia não é boa...

— Então, passe para outro.

— Certo. Vamos ver... Não, não. Nada positivo. E o terceiro... também


nada de bom para você. Parece que não estão interessados em seu livro, pelo
menos até agora.

— Ah, que ótimo! E a situação na Atlas?

— Ninguém foi demitido ainda, mas o clima está péssimo. Mas e você?
Quando volta? Estou com saudade!

— Eu também, querido. Voltarei em breve, não se preocupe.

No sábado à noite, fiz o jantar para Adonis. Nunca tinha cozinhado de


fato antes e, claro, a comida não ficou tão boa assim, mas pudemos engoli-la
sem maior esforço. Eu estava em Mikonos há três semanas, nas quais
escrevia anotações sobre tudo o que via e vivia, mandava e-mails para Clay, e
já dizia "eu te amo" em grego, o que não era tão difícil assim porque é
sempre mais fácil dizer sem sentir quando se fala algo em uma língua
estrangeira.

Era estranho, mas, estando num país tão maravilhoso, sentia como se
todos os problemas estivessem resolvidos fora dali, inclusive minha ausência
da Atlas e meus constantes pedidos de mudança para outros comissários, o
que me deixava livre de voar por um tempo quase absurdo. Bem, eu não
voava, mas também não ganhava e isso de fato era um problema.

Aliás, problema eu estava a ponto de enfrentar e nem sabia. Depois


do jantar, estávamos sentados no sofá da sala de estar, eu e Adonis,
abraçados, trocando carícias até aquele ponto pudicas. Mas o vinho que
estávamos tomando já surtia efeitos e começamos a nos engalfinhar,
tomados de um desejo repentino e sem controle. Quando percebi, já estava
deitada no tapete felpudo, tentando abrir a camisa de Adonis enquanto ele
se ocupava de minha blusa. De repente, como se vinda do nada, uma voz
aguda gritou:— Vadia!

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Olhei para ver Stavroula Vrissi de olhos arregalados, mãos na cintura
e uma expressão que, sozinha, poderia matar duzentas pessoas.

— Methra! — Adonis gritou, levantando-se e ajeitando a camisa.

— O que significa isto?! — ela perguntou, retoricamente, claro, pois


era óbvio que, se não chegasse, acabaríamos fazendo amor ali no chão,
mesmo. — Está aqui para seduzir meu filho?! Em minha própria casa?! E o
que fez em minha cozinha! Que bagunça é aquela?!

— Mãe, por favor — Adonis tentava acalmá-la. — Não pode falar


assim com ela.

— Posso e vou! E não estou falando com você, Adonis!

— Mãe, isto é ridículo! Sou um homem adulto e, se quiser me casar


com Hailey, vou fazê-lo!

Casar?! Ele disse casar?! Minha cabeça dava voltas e eu quase não
podia manter o equilíbrio. Será que alguns momentos de paixão significavam
algo tão sério assim naquela ilha?

— Isso é verdade? — ela me indagou, com olhos fuzilantes.

— Ainda não a pedi formalmente — Adonis respondeu por mim. —


Mas se ela aceitar, vamos nos casar, sim!

Stavroula levou a mão ao peito e pareceu ter um ataque. Mas eu


conhecia muito bem um ataque cardíaco falso e sabia que ela estava
fingindo. E, enquanto Adonis a segurava, pedindo aos deuses que poupassem
a vida de sua mãe, ela mantinha os olhos abertos em minha direção, como se
me desafiasse.

— Diga para ela ir embora, filho — pediu, com voz fraca. — Estou tão
mal que mal posso respirar.

E eu fiquei ali, parada, incrédula, vendo a cena de tragédia grega sem


poder fazer nada. Adonis a carregou nos braços escada acima e tive de

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revirar os olhos e respirar fundo para não dizer um amontoado de besteiras
àquela senhora falsa e dissimulada.

Fui para a cozinha, arrumei panelas e pratos dentro da lavadora,


sabendo que Adonis logo iria descer e educadamente despedir-se de mim. E,
de fato, pouco depois, ele reapareceu, cabisbaixo.

— Sinto muito — murmurou. — Por favor, Hailey, compreenda. Pode


levar o carro, amanhã mando buscá-lo.— Mas...

— Você não entende. Minha mãe está velha e fraca. Meu pai está
muito doente e sou tudo o que ela ainda tem no mundo.

— Sei... — Bem, ele estava me dispensando por causa da mãe.


Maravilha. Sabia que qualquer coisa que dissesse não adiantaria nada. Um
filho assim, ligado à mãe, sempre o seria.

Dei de ombros, aproximei-me dele e beijei-o com suavidade no rosto


e depois fui embora. Minha aventura na Grécia estava começando a
terminar.

Capítulo VIII

Vou sentir sua falta — Kat choramingou, me abraçando.

— Eu também.

A Grécia ficava para trás, bem como os deliciosos dias de nada ter
que fazer ou pensar. Também Adonis ficava para trás e, estranhamente,
esse não era meu maior pesar. O que estava de acordo com meus
sentimentos e demonstrando que realmente não o amava.

Kat me avisou de que estaria em Nova York com Yanni no mês


seguinte, mas disse que eu poderia ainda ficar em seu apartamento quanto

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quisesse, pois era grande o suficiente para nós três e os gatos, que ela ia
trazer de volta. Mesmo assim, eu sabia que já estava na hora de sair
procurando outro lugar para morar. Não podia mais viver essa vida de
mentirinha, na casa de outra pessoa, fazendo de conta que tudo era um mar
de rosas.

No vôo, minha comissária foi minha ex-colega de míni apartamento,


Lisette. Ela me cumprimentou sorrindo e logo me ofereceu a vaga do sofá
novamente, pois tinha desfeito seu romance com o piloto e estava
precisando de dinheiro para poder pagar o aluguel. Ah, que satisfação em
dizer-lhe um sonoro e redondo "não", mesmo sabendo que logo precisaria
procurar um lugar para morar. Estranhamente, ela me tratou bem mesmo
depois de meu "não". Deu-me até um jornal, para que eu me distraísse
durante o vôo! E, sem saber, colocou em minhas mãos uma notícia que acabou
mudando o rumo de minha vida.

Bem no canto da terceira página, havia uma foto que logo mechamou a
atenção. Era de Cadence, com aquela loirinha que eu tinha visto na rua,
diante de meu prédio, quero dizer, do prédio de Kat. E a nota dizia que as
duas tinham feito sucesso numa noite de autógrafos. Mas o mais
importante, o que de fato me chamou a atenção, foi a forma como a notícia
estava sendo dada. Cadence e Evie eram apresentadas ali como se tivessem
um envolvimento amoroso. Deus! Cadence e Evie! Então, ela não era
namorada de Dane!

Por que meu coração estava batendo assim, descompassado? Por que
aquele sentimento de alívio e de euforia me tomava? Afinal, Dane não
passava de um esnobe... Claro que era um esnobe com um sorriso com o qual
eu quase sempre sonhava, embora não quisesse admitir, mas... Deus! Ele não
estava comprometido! Pelo menos, não com ela.

Como uma notícia boa deve, obrigatoriamente, ser seguida por uma
ruim, já aprendi, assim que desci no aeroporto JFK, um O.O. veio logo ao
meu encontro para dar-me a maravilhosa novidade de que, agora, a Atlas

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O céu é o limite Alison Nöel
exigia que se apresentasse um atestado médico para cada licença por
problemas de saúde. Eu devia ter uns dez para apresentar.

Maravilha. Novidades da Atlas. Puxa! E essa companhia reinventava


tanto que eu já me sentia trabalhando para a própria Madonna! Só que eu
não sabia qual era o prazo para ter que apresentar os atestados. Decidi
deixar tudo para depois e me enfiar de cabeça no trabalho. Assim, com vôos
sucessivos, passaram-se duas semanas sem que eu, ao menos, tivesse tempo
para ver Clay. Por fim, com uma licença de mesmos dias, conseguimos marcar
um encontro no Museu Metropolitano de Arte. Colocamos nossas novidades
em dia, mostrei-lhe as fotos que tinha trazido da Grécia e contei-lhe tudo
sobre Adonis.

— Oh, minha amiga... Você e esse seu desespero por encontrar amor e
segurança...

— Não estou procurando amor e segurança! — protestei. Mas bastou


um daqueles olhares sérios dele para me convencer de que, mais uma vez,
tinha razão.

Continuamos a conversar, olhando uma peça de arte aqui, outra ali

— Por que não tenta se entender com o bonitão do prédio?

— O quê? De quem está falando? — estranhei.

— Dane Richards, claro.

— Oh, pelo amor de Deus, Clay. Detesto o homem! Ele é um arrogante,


pensa que sabe tudo, e está sempre... sempre...

Clay me olhava com as sobrancelhas erguidas novamente.

— Pare de me olhar assim.

Ele desviou os olhos para o quadro à nossa frente e disse, tranqüilo:

— Como queira. Preciso contar-lhe uma novidade e sei que não vai
gostar.

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O céu é o limite Alison Nöel
Senti um aperto no estômago. Dane ia se mudar? Nunca mais o veria?
Clay o tinha visto com outra mulher charmosa? Mas quanta bobagem! Eu nem
me importava com o sujeito.

—Diga logo antes que eu morra de ansiedade.

— Vou me mudar para a Califórnia. Fui transferido.

— O quê?! Como vou suportar viver longe de você?!

— Não sei. Também não pensei nisso ainda. Mas recebi uma oferta de
emprego, Hailey. Em outra companhia, e vou poder estudar na UCLA e
terminar meu mestrado em psicologia.

— Oh, Clay... Sinto muito por meu egoísmo, mas é que... você é tão
importante para mim! Claro que quero que você vá, que estude, que seja
feliz! Parabéns pelo emprego novo. Quando você vai?

— Vou para lá na semana que vem para procurar alojamento, e depois


me mudo logo em seguida. Vou deixar o apartamento com tudo dentro e
imaginei que você, talvez, se interessasse em ficar com ele, já que está
procurando um lugar para alugar.

— Oh, claro, claro. Seria muito bom. Mas ainda estou chocada com a
notícia.

Clay me abraçou e senti as lágrimas rolarem por meu rosto. Estava


dividida, querendo o melhor para ele, mas sofrendo por nossa separação.

Dois dias depois disso, eu estava saindo de casa para um jantar de


despedida com Clay quando cruzei com Dane e Jake no saguão do prédio.
Acariciei o cachorro, mas evitei olhar para o dono, já que tinha encontrado
outro bilhete seu, no dia anterior, sob minha porta, mas não me tinha dado
ao trabalho de lê-lo.

— Como tem andado? — ele perguntou, um tanto frio.

— Bem. Ocupada, na verdade. Muito.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Está de saída?

— Sim. Vou jantar com um amigo que está se mudando para a


Califórnia. Vamos ao Mark's.

— Que coincidência! Vou passar por lá. Podemos acompanhá-la, eu e


Jake?

Como dizer não, quando Jake me olhava com aquele jeitinho canino
adorável?

Seguimos para o outro lado da rua e, sem querer, nossas mãos


esbarraram uma na outra. Enfiei a minha imediatamente no bolso para evitar
novo contato e tentei manter-me casual.

— E então, como foi tudo na Grécia?

—: Maravilhoso. Na verdade, fiquei por lá mais tempo do que


pretendia.

— Ouvi dizer que a Atlas está para falir.. Isso vai afetá-la de alguma
forma?

— Vamos receber uma oferta de demissão voluntária, pelo que eu


soube esta semana. Vamos ver que tipo de oferta vão me fazer. Meu amigo
Clay aceitou a dele e está de mudança, como eu já disse.

— E seu livro? Alguma resposta?

Pronto, ele chegara ao assunto que eu não gostava de tocar quando


estávamos conversando!

— Cinco rejeições — respondi, com franqueza. Afinal, de que


adiantaria esconder alguma coisa? — Mas ainda resta uma editora para
mandar a resposta e a esperança é a última que morre, certo? Bem, vou
ficar por aqui. Até mais. — despedi-me depressa e entrei no restaurante;
não queria que Clay nos visse juntos, pois ficaria falando disso a noite
inteira.

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O céu é o limite Alison Nöel
Aceitei a oferta de meu grande amigo e me mudei, com Jonathan,
para Chelsea, no apartamento em que ele vivia antes de se mudar. Na
iminência de não ter como me sustentar se fosse realmente demitida, fiz
uma breve revisão no manuscrito que tinha enviado a

Martina, a editora louca, e tomei a enviá-lo. Foi quase uma brin-


cadeira, pois praticamente não alterei grande coisa. Só queria ver até que
ponto ela, de fato, havia lido com atenção minha obra.

Uma semana se passou e os cortes na Atlas terminaram. O número


cortado estava apenas três acima do meu, o que significava que eu manteria
meu emprego, não receberia uma proposta de demissão voluntária, mas teria
muitas mordomias cortadas, pois me encontrava agora numa posição
bastante inferior na hierarquia dos comissários. Pelo menos, ficara com o
emprego.

Isso quase mudou quando, dias depois, eu estava numa loja, tentando
comprar um cachecol, quando meu celular tocou. Era Lawrence, o tal
supervisor que sempre procurava defeitos em mim para ter o prazer de me
repreender. E, para não mudar de tática, ele o estava fazendo novamente.
Ouvi sua voz esbravejar em meu ouvido por mais de dois minutos, dizendo
que eu estava escalada para um vôo, que não atendi ao telefone e que, por
isso, deveria estar em seu escritório, no dia seguinte, para receber uma
admoes-tação verbal.

— Sei. E se eu não for? — respondi, cansada de ser maltratada pelo


sujeito.

— Receberá uma admoestação por escrito e, se insistir em ser


arrogante comigo como sempre foi, receberá o bilhete azul logo em seguida.
Fui claro? Portanto, se pretende manter seu emprego, apresente-se a mim
amanhã sem falta!

Desliguei o celular e respirei fundo. Por que minha vida estava


começando a andar para trás novamente? Por que éu não estava na Grécia,

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O céu é o limite Alison Nöel
ao sol, comendo bem, vivendo bem, esquecendo-me dos problemas da vida
real?

Cheguei tarde em casa, pois passei pelo Starbucks para tomar um


café bem quente. O tempo estava começando a esfriar com a aproximação
do inverno e a coisa mais gostosa a se fazer num dia assim, depois de
receber um telefonema como o que eu havia recebido, era dar-se o prazer
de uma boa bebida quente.

Logo que abri a porta, larguei minhas compras e dediquei-me aos


envelopes que tinha recebido. Estava desanimada. O dia seguinte seria
terrível. Enfrentar a cara de deboche e de superioridade de Lawrence seria
o fim.

O envelope maior foi o primeiro que abri. Não havia endereço de


remetente, e lembrei-me de que Clay tinha aberto envelopes parecidos
quando eu estava na Grécia, todos eles de editoras. Poderia ser a resposta
da última que faltava.

E era:

Cara srta. Lane,

Apreciamos a oportunidade de ler seu original e devemos esclarecer


que, embora sua redação seja agradável e o texto-muito bom, o enredo não
se desenvolve com afluidez necessária, o que não funciona em nossa linha de
publicações. Desejamos toda a sorte do mundo em possíveis outros con-
tatos.

Martina Rasmussen

— Mas que droga! Essa mulher é insuportável! Execrável! Oh, que


ódio, que ódio!

Depois do primeiro momento de fúria titânica, sentei-me com a carta


nas mãos e chorei. Onde estavam meus sonhos de ser escritora? Onde
estavam os bons velhos tempos em que eu podia voar mais e melhor apesar

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O céu é o limite Alison Nöel
de trabalhar numa companhia que, como Martina, era, também, execrável?
Onde estava minha vida, afinal?!

Irritada, apertei o botão do elevador, na manhã seguinte, esperando


não encontrar Dane e Jake. Eu devia estar com um aspecto terrível e não
queria ser vista assim. Ele faria perguntas e eu não queria explicar nada.
Nada! Nem a mim mesma.

O celular tocou, porém, deixando-me ainda pior.

— Alô! — quase gritei.

— Hailey? Estou ligando num mau momento, filha?

— Oh, olá, mãe. — Por que tudo tem de vir ao mesmo tempo?!

— Sabe, só estou ligando para lhe contar a novidade.

— Qual novidade?

— Alan veio aqui ontem à noite, me trouxe flores e pediu des--culpas.

— E...?

— Puxa, não seja azeda! Ele disse que cometeu um grande erro e quer
que voltemos a viver juntos. Pobrezinho, parecia tão deprimido.

Revirei os olhos, saindo do prédio.

— Olhe, mãe, vou entrar no metrô e a ligação será coitada. Portanto,


diga logo: ele pediu desculpas, você amoleceu e voltaram, certo?

— Na verdade, não, querida.

— Não?!

— Eu disse a ele que estava deixando o país e lhe desejei sorte,


depois me despedi.

— Vai sair do país? Para onde?!

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O céu é o limite Alison Nöel
— Vendi a casa e estou me mudando para a China.

Tive de me apoiar ao corrimão da escada do metrô. Ela continuava,


como se dissesse a coisa mais natural do mundo:

— Vou lecionar inglês por algum tempo e depois vou viajar pelo mundo,
fazendo trabalhos voluntários aqui e ali.

— Puxa!

— E tudo por causa de você, querida. Você foi minha grande


inspiração. Sabe, a forma como leva sua vida, abraçando as mudanças,
procurando aventuras. Você não tem medo de nada! Tenho tanto orgulho de
ser sua mãe!

— Mamãe... tem certeza disso? Sabe, fiz tantas bobagens nos últimos
tempos... Tomei tantas decisões erradas...

— Nada disso importa, minha filha. A vida foi feita para ser vivida.
Não podemos ficar de fora, só vendo tudo passar. Você é quem sabe viver,
meu amor!

Eu estava chocada.

— Posso vê-la antes de partir?

— Claro. Torno a ligar para dizer onde e quando, está bem? Até mais!

Desliguei e sequei meu rosto, no qual lágrimas involuntárias insistiam


em escorrer. Minha mãe tinha orgulho de mim. Quem diria...

Lá estava eu, diante da porta do escritório de Lawrènce, esperando


para ser atendida. O infeliz já tinha adiado nossa conversa por três vezes,
alegando qualquer tipo de bobagem. Estava me cozinhando devagar, isso sim.
E, para não deixar que o ódio tomasse conta de minha mente, tirei o celular
da bolsa e verifiquei minhas mensagens. Uma delas chamou-me a atenção:
Meu nome é Hope Schine e sou editora na Fênix Publicações.

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O céu é o limite Alison Nöel
Meu coração disparou. A Fênix era a última das seis editoras para as
quais eu enviara meu livro. Continuei lendo, atônita, sentindo a alegria
crescer em meu peito: Todos aqui gostaram de seu texto, que realmente
consegue captara voz interior de uma adolescente, mostrando suas lutas,
suas dúvidas, alegrias e tristezas. Portanto, se puder entrar em contato o
quanto antes, meu número é...

Ali estava minha chance de ouro! Queriam publicar meu livro!

Meu encontro com Lawrence foi uma das melhores coisas que
aconteceram em minha vida. Entrei, sentei-me diante dele, deixei que
destilasse todo seu veneno, toda sua empáfia, que me mostrasse o quanto
me achava inferior, irresponsável, sem talento para coisa alguma, e depois
me sentei bem aprumada e disse-lhe tudo o que sempre quisera dizer: o
quanto o detestava por ver como ele pisava nas pessoas, o quanto o via como
uma pessoa invejosa e prepotente que jamais chegaria a lugar algum porque
não é pisando nos outros que se trilha o caminho para o sucesso. Enfim,
disse-lhe tudo que achei que ele merecia escutar.

— Posso demiti-la por isso, sabia?

—7- Sei que pode. Mas também pode ter certeza de uma coisa: se
fizer isso, vou à Justiça e tenho provas do quanto me humilhou, sabia?
Tenho testemunhas. Gente que agora já foi demitida da Atlas e que não se
importaria em tirar da companhia pessoas mesquinhas como você que
tornaram cada minuto de seu trabalho aqui dentro um verdadeiro inferno!
Você é mesquinho, Lawrence. Mesquinho, egoísta e sem escrúpulos. Se quer
me demitir, vá em frente. Mas não se esqueça de que vou revidar, na
Justiça. Mas, se preferir aceitar minha demissão, eu a ofereço aqui e agora.
E aceito todos os benefícios que a Atlas colocou à disposição daqueles que
queriam deixar a companhia e não ser mais um peso para os fundos
estourados a que ela chegou.

Levantei-me e saí dali com passos calmos, sabendo, por antecipação,


que ele aceitaria minha demissão, o que, de fato, aconteceu, num comunicado
que recebi via e-mail, dois dias depois.

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O céu é o limite Alison Nöel
No meio do caminho, uma reação tardia de adrenalina quase me fez
vomitar no táxi. Eu jogara meu emprego pela janela porque tivera a
oportunidade de me tornar escritora. Bem, restava continuar adiante e ver
no que tudo isso ia dar. Agora, não podia mais voltar atrás. Fizera algo que,
pelo que tinha sabido no telefonema de minha mãe, a deixaria ainda mais
orgulhosa.

Cheguei ao apartamento quando já tinha anoitecido e me servi de uma


taça de vinho. Fiquei sentada no sofá lendo a mensagem da editora vezes
seguidas, e olhando para Jonathan, que dava reviravoltas em seu aquário,
como se dançasse bale. Depois liguei para Clay, Kat e para minha mãe para
dar a notícia.

Com outra taça de vinho nas mãos, voltei ao sofá, feliz, tranqüila, e
quase caí dele para pegar o celular que tinha deixado sobre a mesa de
centro e que acabava de tocar.

— Parabéns!

— Obrigada! Quem é?

— Dane.

— Ah... olá. — Por que ele estaria ligando e pelo que me congratulava?
Afinal, não podia saber sobre meu livro. — A que devo os parabéns?

— Ao livro que vai ser publicado, claro.

— Oh...

— Não me parece muito contente.

— Estou... E que... estou imaginando como pode saber.

— Li no Editores Especial.

Como eu não sabia do que se tratava e nem por que ele estaria lendo,
nada disse.

— Muito bem, quem vai ser seu agente na negociação dos direitos?

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O céu é o limite Alison Nöel
— Ah... Eu mesma. — Droga, por que ele sempre me fazia sentir como
se eu não tivesse a menor idéia do que estava fazendo?!

— Não há ninguém que possa ler o contrato para você?

— Não...

— Porque é algo que deve considerar, sabia? Esses contratos podem


ser bem complicados de se entender. Eu ficaria feliz se pudesse ajudar.

— Claro...

— Bem, já tem planos para comemorar?

— Meus amigos vão chegar da Grécia esta semana e acho que vamos
jantar ou algo parecido. E minha mãe também está vindo para me ver.

— Sei. E quanto a esta noite? Vai voar para algum lugar exótico?

— Não.

Ele se manteve calado por alguns segundos e então convidou:

— Que tal jantarmos esta noite? Posso levá-la a qualquer lugar que
aceite uma reserva de última hora.

Engoli em seco, olhando para Jonathan e seus pulinhos na água. Bem,


pelo menos, havia alguém querendo comemorar comigo. E, mesmo Dane
conseguindo mexer com meus nervos, ainda assim, era uma opção tentadora.
Além do mais, tratava-se apenas de uma refeição, nada mais. Que mal podia
haver nisso?

Reconheci o cheiro assim que entrei no apartamento.

— Bem-vinda a minha casa — Dane sorriu. Vestia um avental sobre o


jeans surrado que, estranhamente, o deixava muito sexy. — Lembra-se de
Jake? — E apontou para o cachorro que me recebia com seu olhar gentil e
um abanar de rabo muito simpático.

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O céu é o limite Alison Nöel
Curvei-me para acariciada cabeça do labrador, enquanto Dane
fechava a porta e oferecia:

— Champanhe?

Assenti e ele se dirigiu ao bar, onde uma garrafa já esperava, no gelo.


Serviu duas taças e me entregou uma, fazendo o brinde:

— A Hailey Lane, a mais nova sensação literária da cidade!

— Bem, não sejamos precipitados... — tentei parecer modesta.

— Vamos, não se subestime! Conseguiu uma grande coisa! Sabe o


quanto é difícil conseguir um contrato com uma boa editora?

— É. Acho que tive sorte. Mas ainda me parece incrível. Na verdade,


todo o meu dia de hoje foi um tanto irreal... — E agora estou fechando-o
com chave de ouro, neste jantar com você, eu poderia ter acrescentado,
mas preferi me conter. — Sinto-me livre agora que pedi demissão.

— Deixou a companhia?!

— Sim. Não sei ainda se fiz bem, mas... fiz. Ele sorriu, mas havia
seriedade em seu olhar.

— Hailey, quero muito ajudá-la, se me permitir.

Tomei alguns goles de meu champanhe antes de responder:

— Olhe, não me leve a mal, mas... o que o faz pensar que sabe mais do
que eu? Quero dizer... você nem é escritor, é?

Ele tornou a sorrir. E continuei:

— Sabe, acho que não haverá grandes problemas com meu contrato e,
se tiver alguma dúvida quanto a ele, sei onde procurá-lo.

— Como quiser. Estarei sempre às ordens. Minha empresa tem uma


concessão com a Fênix.

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O céu é o limite Alison Nöel
Senti-me imediatamente culpada, achando que usara um tom
descortês demais. E, enquanto o via checar a comida nas panelas que
mantinha no fogão, uma luz acendeu-se em minha mente.

— Espere! Por que tem uma concessão com a Fênix?

— Porque é esse meu ramo de negócios. Nunca ouviu falar de nós?


Mackenzie e Thurston. Somos uma empresa muito antiga no ramo literário.
Esteve em meu escritório e imaginei que soubesse. Eu mesmo cuidei do
contrato de Cadence como de todos os livros de Harrison Mann.

Eu estava boquiaberta, pasma.

— E agora está se oferecendo para cuidar de meu livro... Não poderia


estar mais sem graça. Tantos meses e eu sempre

achando que ele era arrogante, que se dava ares de superioridade,


quando, na verdade, era um perito no assunto!

— Você é quem sabe se vai aceitar meus préstimos, ou não.

— Ora, se é bom o suficiente para Harrison Mann, quem sou eu para


dizer não? Mas... devo me desculpar com você, sabe? Este tempo todo fui
tão... distante... Acho que queria fazer tudo sozinha e... agora que meu livro
foi aceito, sinto como se tivesse acabado de ser aceita num clube muito
especial e privativo, do qual não conheço as regras ainda.

— Por isso precisa de mim.

— Claro... Quer ajuda no fogão?

— Não, não. Está quase tudo pronto. Mas pode colocar uma música, se
quiser.

Ele apontou para a sala, onde o aparelho de som ficava. Fui até lá e
escolhi entre os inúmeros CDs. Estava surpresa por ver que tínhamos o
mesmo gosto musical. Escolhi um CD e depois olhei com mais atenção a
coleção de peças de artesanato mexicano que ele tinha na estante.

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O céu é o limite Alison Nöel
— Onde comprou estes objetos? — indaguei.

— Viajei para o México por três meses no intervalo entre o termino


da faculdade e o mestrado.

Dane aproximou-se, pegando uma peça que representava uma sala de


aula em que os alunos estavam todos com chifrinhos na cabeça e a
professora mostrava-lhes a língua.

— Este é meu preferido — disse. Tive de rir.

—Faz-me lembrar dos tempos do segundo grau. E quais lugares visitou


no México?

— Tudo que é considerado turístico. Já esteve por lá, imagino.

— Algumas vezes, mas foram paradas muito breves.

O assunto terminou de repente e um desses silêncios estranhos e


incômodos caiu entre nós. Tive a impressão exata de que Dane iria me
beijar, mas meu celular tocou, quebrando o encanto do momento.

— Aqui é Shannon Atkins, do Serviço Interno da Companhia Aérea


Atlas. Gostaria de falar com Hailey Lane, por favor.

— Sou eu...

— Ah, que bom encontrá-la. Acho que ainda não percebeu, mas perdeu
seu crachá.

— Eu?!

— Sim. Estou com ela aqui, sobre minha escrivaninha. Talvez tenha
caído de seu pescoço e nem tenha percebido. Lawrence a encontrou no chão,
do lado de fora de seu escritório e a trouxe imediatamente. Quando pode
passar aqui para pegá-la?

— Não sei... — Ela estava, realmente, alheia a tudo que acontecera?


Não sabia que eu me demitira? Ou Lawrence teria voltado atrás por algum
motivo que eu desconhecia?

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O céu é o limite Alison Nöel
— Bem, vou deixá-la em uma de minhas gavetas. Ligue quando vier
buscá-la, está bem? Bom fim de semana, Hailey!

— Para você também. — Desliguei sem saber o que pensar ou fazer.

— Está tudo bem? — Dane estranhou. Olhei para ele e sorri.

— Não vai acreditar quando eu lhe contar.

— Este restaurante* é, de fato, um dos melhores da cidade —


brinquei, recostando-me na cadeira. Estava feliz, e nem sabia direito por
quê. — Como pode cozinhar tão bem?

— É meu hobbie.

— E aposto que Jake adora as sobras. — Olhei para o cachorro, que


estava deitado num dos tapetes da cozinha e que moveu as orelhas assim
que seu nome foi pronunciado, embora não reagisse mais do que isso.

— Bem, quando vou poder ler seu livro?

—- Acho que quando ele for revisado, editado, colocado nas melhores
livrarias da cidade...

— Ah, então vai me fazer esperar até o fim.

— Bem, você não me pareceu assim tão interessado antes de ele


ser^aceito pela editora.

— Pois se nunca me deixou entrar em sua vida o suficiente para


falarmos abertamente sobre ele...

— É verdade. Tem razão. E sinto muito por isso.

— Não sinta. Tudo está resolvido agora. E então? Vai ficar para que
possamos ver um bom filme?

Encarei-o, descobrindo, de repente, que estava vivendo os melhores


momentos que já tinha experimentado na vida. Não queria sair dali,
enfrentar a noite fria, voltar para casa...

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O céu é o limite Alison Nöel
— Que filmes tem aí?

— Uma boa seleção, posso garantir. Por que não escolhe um enquanto
coloco a louça na máquina?

— Não quer que eu ajude?

— Não, obrigado. Os filmes estão no armário da sala íntima. Encontro


você lá em cinco minutos.

Entrei na sala e me lembrei de imediato de quando deixara o livro de


Cadence cair. O armário tinha uma infinidade de filmes, e, embora
reconhecesse muitos títulos de alguns que eu adorava, logo vi que demoraria
a escolher. Passei os olhos rapidamente pela fileira de cima. Tirei dois
filmes e voltei os olhos para a mesinha onde o livro de Cadence tinha estado
da outra vez. Era estranho como ainda me incomodava o fato de ela estar
presente na vida , de Dane. Pela primeira vez, tive consciência do enorme
ciúme que sentia. E ciúme era algo que só poderia sentir se houvesse algum
tipo de sentimento mais sério de minha parte em relação a Dane. Havia?
Havia. Tudo ficou muito claro para mim, então. Tola! Como tinha sido tola,
completamente idiota, aliás, por ter mascarado o que sentia com a
impressão de que o detestava, o achava esnobe.

Então, toda a antipatia que pensava que sentia era apenas um disfarce
para um sentimento mais profundo, um interesse verdadeiro? Sim, era!
Deus, como sou confusa! — avaliei. Confusa e tola.

Meus olhos não deixavam a mesinha enquanto eu pensava. E devia


estar com uma expressão muito eloqüente, pois nem percebi Dane
aproximar-se para perguntar:

— Está pensando onde isto foi parar?

Voltei-me, vendo-o com o livro nas mãos. Sabia que tinha três opções
no momento: ficar parada, calada, absolutamente imóvel e ver o que
acontecia fingir que estava procurando por alguma coisa, ou encarar a
situação de frente.

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O céu é o limite Alison Nöel
Escolhi a primeira.

— Hailey, você está bem?

— Ah... Sim. Achei que... Tinha deixado meu... Copo na mesinha...

— Tem certeza de que não estava imaginando onde este livro poderia
estar?

Pronto! Ele insistia no assunto. O que fazer agora? Fugir da situação?


Talvez.

— Não sei se... vou ficar para o filme... está ficando tarde.

— Hailey...

Cerrei os olhos. Onde minha covardia iria me levar afinal? Não


bastava fazer de conta? Por que não encarar a situação, abrir o jogo,
mostrar a ele que tinha algum interesse? Esse poderia ser meu caminho para
a felicidade!

— Dane, eu... sei que pode parecer estranho, mas... tenho algo a lhe
dizer... Sabe, da outra vez em que estive aqui, eu... vi esse livro na mesinha
e... bem, sei que não era da minha conta, mas peguei-o e li a dedicatória. —
pronto. Estava tudo confessado e nem doera.

Aquele silêncio horrível caiu entre nós outra vez. Mas Dane sorriu e
murmurou:

— Hailey, não estou saindo com Cadence. Nunca estive, aliás. — E


aproximou-se perigosamente, provocando um arrepio por todo meu corpo.
Deus, eu nunca me sentira assim perto de um homem antes!

— Eu... eu sei... Quero dizer... que bom. Não, não é isso que quero
dizer. Bem seja como for, eu não deveria ter sequer aberto o livro, muito
menos ter lido. o que ela lhe escreveu.

—Leu e interpretou de forma errada, pelo que parece. Imaginou que


havia algum tipo de relacionamento amoroso entre mim e Cadence e passou a

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me evitar de forma ostensiva, inclusive viajando para a Grécia e mudando-se
do prédio. Não acha que foi exagero demais?

— Na verdade, não sei se fiz tudo isso só para ficar longe de você,
quando...

— Quando?

— Quando queria ficar perto...

— Hailey, posso perguntar-lhe uma coisa? Diga-me que vai responder


com sinceridade.

— Mas... claro.

— Por que veio aqui esta noite?

— Ah... bem... você se ofereceu para comemorarmos a edição de meu


livro e... como era a terceira pessoa com quem eu gostaria de comemorar...

— Quem são as outras duas?

— Minha mãe e um amigo de muitos anos. Ah, e minha amiga da Grécia.


Assim, acho que você era, realmente, a quarta pessoa...

Eu estava sorrindo, completamente embaraçada. Foi então que ele me


beijou. Sabe tudo que eu disse antes sobre os beijos de outros homens que
eu achava sensacionais? Não eram nada. Absolutamente nada quando
comparados com o beijo de Dane. O que senti me tirou do chão. Mas, como
eu tinha passado os últimos seis anos de minha vida praticamente fora do
chão, viajando pelo mundo, a sensação não foi estranha. Mas foi
simplesmente a melhor coisa que eu já tinha experimentado em toda minha
vida.

Fim

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