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A PAISAGEM DA PESQUISA NARRATIVA

Maria do Carmo Galiazzi


Dilma M.Mello

A vida não é a que um viveu, senão a que


um recorda e como a recorda para contarla.

Gabriel Garcia Márquez (Vivir para contarla, 2002)

Este texto surge de um encontro comum nos dias de hoje. O encantamento pelas
idéias da pesquisa narrativa e a dificuldade de trabalhar com os escritos sobre ela com
alunos do Programa de Pós-graduação em Educação Ambiental, da FURG, em razão da
dificuldade da compreensão da língua inglesa enquanto professora de Metodologia de
Pesquisa Qualitativa, fez com que eu pensasse na possibilidade de traduzir o livro seminal
de Pesquisa Narrativa de Clandinin e Connelly ou dele fazer uma síntese para discutir esta
abordagem de pesquisa em sala de aula. Mas traduzir significa ter autorização para, entrar,
de certa forma, no pensamento do autor e daí o primeiro encontro com a Dra. Clandinin que
prontamente respondeu da satisfação de poder contribuir para a compreensão da pesquisa
narrativa. Disso resultou a sugestão de um trabalho conjunto com Dilma, que já tinha
desenvolvido junto à professora algumas pesquisas nesta perspectiva. E assim o texto foi se
delineando e agora se apresenta como síntese do pensamento expresso especialmente na
obra Narrative Inquiry de Jean Clandinin e Michel Connelly.
Fiquei contente quando a Maria do Carmo entrou em contato comigo. Assim, como
ela, meu encantamento pela pesquisa narrativa também criava espaço e vontade de
construir algo a partir do texto de Clandinin e Connelly. Além disso, nossos trabalho em
parceria parecia uma proposta interessante já que eu poderia colaborar com a dificuldade
dela em relação à língua Inglesa, já que sou professora de Inglês e gosto de traduzir, sem
contar que havia vivido uma experiência muito interessante com a profa. Jean Clandinin, na
Universidade de Alberta e estava ansiosa para construir passos mais sólidos no caminho da
pesquisa narrativa. Também me encantava a oportunidade de trabalhar com uma professora
da área de Metodologia de Pesquisa, principalmente tendo em vista que sua atuação volta-
se para a área de Educação Ambiental, com a qual eu não tinha nenhuma familiaridade. O
desconhecido acenava e após trocarmos mensagens de e-mail, decidimos levar nossa
parceria adiante. Quando começamos a trabalhar juntas na construção deste texto, Maria do
Carmo já tinha trilhado um longo caminho, fazendo uma seleção de partes do livro de
Clandinin e Connelly a serem traduzidas e também tinha se aventurado no início de uma
primeira versão de tradução. Desse ponto em diante, iniciamos nosso trabalho juntas,
pensando e repensando a melhor forma de conduzi-lo.
Uma de nossas decisões foi não nos prendermos a uma tradução que apenas
buscasse expor em nossa língua as idéias sobre pesquisa narrativa desenvolvidas por
Clandinin e Connelly. Considerando que estávamos “traduzindo” ou fazendo uma releitura
de seu livro, com base em outras leituras sobre esses autores, decidimos que o texto a ser
construído não seria exatamente uma tradução, uma síntese ou tradução sintetizada, mas
talvez nossa leitura da obra.
E por que nossa intenção em fazer isso? Porque temos percebido na pesquisa
qualitativa a importância da reflexão por parte do pesquisador em relação à sua constituição
enquanto tal. Como veremos, na perspectiva desses autores, a pesquisa narrativa é uma
ferramenta poderosa como provocadora de reflexão. E porque esses e não outros autores
para falar sobre narrativa? Bem, a narrativa é um tema discutido teoricamente com muita
intensidade há muito tempo. Como afirma Hart (2003), narrativa é algo tão antigo quanto as
montanhas. Como veremos, as influências para os autores, cujos princípios serão discutidos
neste texto, vêm principalmente dos pressupostos sobre educação estabelecidos por Dewey
e nossa opção por sua abordagem deriva da importância que Clandinin e Connelly dão às
pesquisas na área de formação de professores. Nossa identificação com esse tipo de
pesquisa se dá porque somos professoras e assim nos motiva estudar a paisagem da sala de
aula, o que como pesquisadoras nos parece importante, imprescindível e também
encantador.
Inicialmente apresentamos as razões dos autores para optar por essa forma de fazer
pesquisa, situamos a pesquisa narrativa fazendo limites com a forma hegemônica de fazer
pesquisa, que eles denominam de narrativa de base tradicional (grand narrativa), e a seguir
procuramos responder a questão que os próprios autores fazem em forma de uma síntese
questionadora: O que o pesquisador narrativo faz?
Por que a narrativa?
Clandinin e Connelly trabalham com a pesquisa narrativa em diversas áreas de
conhecimento, tais como Ciências Sociais e Ciências da Saúde, entre outras, porém a
essência de seus estudos está na área da Educação, em cujo foco está o processo pelo qual
as pessoas ensinam e aprendem, visto a partir, por exemplo, de como questões sobre
temporalidade se relacionam com transformação e aprendizagem e como as instituições
influenciam as vidas de professores.
A opção pela pesquisa narrativa tem sua origem na forma como estes autores
entendem o mundo: o mundo pode ser entendido de forma narrativa e nessa perspectiva faz
sentido também estudar esse mundo de forma narrativa. A vida, segundo eles, é constituída
de fragmentos narrativos, encenados em momentos historiados no tempo e no espaço, que
podem ser entendidos em termos de unidades narrativas. Dentro dessa visão, a experiência
das pessoas se torna o ponto chave no desenvolvimento de estudo na pesquisa narrativa.
Com a compreensão de que a Educação e estudos nessa área são uma forma de experiência,
entendem a narrativa como a melhor forma para representá-la e compreendê-la. Ou seja, os
autores estabelecem que seu objeto de estudo é a experiência, estudada de forma narrativa
porque o pensamento narrativo é uma forma fundamental de experiência e também de
escrever e refletir sobre ela. Assim, a narrativa é considerada como um fenômeno das
Ciências Sociais e também o método pelo qual esse fenômeno é estudado.
Além da experiência, outro ponto central da pesquisa narrativa é a temporalidade.
Essa temporalidade não está apenas relacionada com o fato de que uma experiência ocorre
em um determinado tempo e espaço, mas também tendo em vista que a vida é vivida em
um contínuo. Ou seja, o que se pode dizer sobre a experiência de um indivíduo precisa estar
relacionado com o contexto mais amplo em que esse indivíduo vive e também considerar
que o significado dessa experiência pode mudar com o tempo.
Como se pode notar, essa visão de experiência aponta o autor que mais
influenciou/influencia os estudos de Clandinin e Connely, Jonh Dewey. Porém, na obra que
estamos usando como referência para elaborar a síntese do pensamento de Jean Clandinin e
Michel Connelly, os mesmos apontam como fundamentais para o desenvolvimento da
pesquisa narrativa como eles a formularam as colaborações advindas dos estudos de
Jonhson e Lakoff e MacIntyre, Geertz, Bateson, Polkinghorne, Coles e Czarniawska.
Em relação a Jonh Dewey destacam que a pesquisa narrativa tem como base os
conceitos de experiência, tanto social quanto individual, e é o critério de continuidade que a
define. Assim, ao considerar uma história, entendem que essa ocorre em um contínuo,
sempre sendo transformada e transformando e, portanto, é necessário olhá-la em termos de
passado (movimento para trás) e futuro (movimento para frente), além de compor
significados em termos pessoais (movimento para dentro) e sociais (movimento para fora)
pensando simultaneamente sobre o passado, o presente e o futuro.
De Mark Jonhson trazem a idéia da metáfora e de Alasdair MacIntyre a idéia da
unidade narrativa, considerando a narrativa tanto como fenômeno quanto como método de
estudo. O conhecimento de professores e as formas de ensinar são vistos como expressões
de histórias individuais e sociais incorporadas. Quando em pesquisas com professores é
narrativamente que se relacionam com eles e assim criam textos de campo e escrevem
relatos de vidas educacionais.
A idéia de transformação trazem de Clifford Geertz. Mudança no mundo, mudança
na pesquisa, mudança no pesquisador, mudança de pontos de vista. Desse autor assumem a
idéia de que o necessário e importante para fazer pesquisa narrativa não são os fatos obtidos
por meio de coleta de dados de campo, nos quais não se considera a influência interferência
das visões pessoais do pesquisador que tenta se por de forma mais objetiva possível. Em
sentido contrário, pensam que é fundamental que o pesquisador, como um narrador, esteja
incluído como participante nas histórias relatadas e interpretadas. A produção de
significados na pesquisa pode vir tanto de dados formais, como também (e talvez
preferencialmente) daqueles advindos de conversas informais, histórias e relatos ou mesmo
parábolas e fábulas utilizadas pelos participantes para relatarem suas experiências de vida.
Mary Catherine Bateson contribui a partir da idéia de aprendizagem, improvisação e
continuidade. Improvisação como respostas às incertezas da vida e continuidade porque
aprender é um empreendimento humano. No pensamento de Bateson, mudança e
continuidade estão sempre juntas e a improvisação e a adaptação à mudança permitem que
o passado seja considerado, assim como sua relação de continuidade com o futuro. Para
Bateson e Geertz, a ênfase está na transformação, no entanto, Geertz se atém às
transformações em termos do fenômeno estudado enquanto que Bateson tem como foco a
forma como as pessoas compreendem as transformações do mundo à sua volta. Com base
nesse pensamento de Bateson, Clandinin e Connelly incorporaram aos estudos na pesquisa
narrativa a importância da atitude do pesquisador para com os participantes, uma atitude
que busca promover a aprendizagem sobre o fenômeno estudado. Bateson também ofereceu
uma perspectiva sobre como podem ser os escritos de pesquisadores narrativos. O que nós
escrevemos em uma pesquisa narrativa é sempre uma tentativa, um trabalho em
desenvolvimento, sempre aberto a revisões e modificações. Uma outra contribuição em
relação ao trabalho de Bateson é o cuidado e o desafio que significa ouvir o outro e as
histórias que contam.
Geertz ofereceu a metáfora de uma parada/desfile e seu modo de capturar a
mudança ao longo do tempo. Para este autor é preciso prestar atenção ao modo como cada
indivíduo está posicionado nesta parada/desfile. Nós sabemos o que sabemos em razão do
lugar que ocupamos nesta parada/desfile, sem deixar de considerar que ele muda
continuamente e assim, nossas posições relativas também mudam.
Outra autora cujo estudo colaborou para a construção dos pressupostos da pesquisa
narrativa é Bárbara Czarniawska. Em sua forma de entender, a narrativa está em um plano
heurístico, é uma metáfora útil para compreender as organizações. Nessa perspectiva, o
pesquisador é como um crítico literário, prestando atenção à realidade, neste caso, a
realidade da vida nas organizações, onde o romancista está livre de seus limites. Para esta
autora não há diferença clara entre fato e ficção.
Donald Polkinghorne contribui trazendo para a pesquisa narrativa outros campos
teóricos, especialmente a história, teoria literária e algumas perspectivas da psicologia. Sua
teoria está baseada no que os práticos fazem. Para este autor a narrativa pode ser de dois
tipos: descritiva e explanatória. Na narrativa descritiva a idéia está em descrever
detalhadamente os relatos que indivíduos e grupos usam para fazer seqüências de eventos
em suas vidas ou organizações que tenham sentido. Na narrativa exploratória, o interesse
está em contar as conexões entre eventos em um sentido causal.
Assim, Czarniawska e Polkinghorne oferecem a possibilidade de trazer as teorias e
as metáforas de outros campos teóricos para dentro da narrativa enquanto Robert Coles, um
psiquiatra, tem seu trabalho como fonte de inspiração tanto pelo enfoque nas experiências
pessoais quanto pela importância em ouvir seus pacientes.
Em síntese, algumas características para delinear uma espécie de conceito de
trabalho são: a pesquisa narrativa é um modo de compreender a experiência. Ela é uma
colaboração entre pesquisadores e participantes, ao longo de um período, em um lugar ou
em uma série de lugares, em uma interação social considerando o contexto à sua volta. Um
pesquisador entra nesta matriz se pondo no meio/no limiar desses caminhos e progride com
o mesmo espírito, concluindo a pesquisa ainda como no meio desse viver, contar, reviver e
recontar, as histórias das experiências que dão sentido à vida de pessoas e instituições. A
pesquisa narrativa é histórias vividas e contadas.
Pensar narrativamente
Para tentar delinear as fronteiras da pesquisa narrativa, os autores tomam dois
critérios de experiência vindos de Dewey: continuidade e interação. Esses critérios são
identificados a partir de suas experiências em se constituírem pesquisadores tendo como
ponto de referência também os pressupostos estabelecidos pelos paradigmas de pesquisa
tradicionais, que denominam Grand narrativa.. Nesse sentido eles entendem que algumas
tensões podem ocorrer em termos do critério de continuidade, seriam elas relacionadas com
os seguintes aspectos: a temporalidade, as pessoas, as ações e a certeza. As tensões no
campo das interações estão no contexto, nas pessoas, nas ações e na certeza.

Temporalidade: Para o pensamento narrativo, a temporalidade é uma


característica essencial. Localizar os fatos e coisas no tempo é o modo de pensar sobre elas.
Quando se vê um evento, se pensa nele, não como uma coisa acontecendo naquele
momento, mas como expressão de alguma coisa acontecendo em um período de tempo
situado, considerando que todo evento tem um passado, um presente e implica em um
futuro.

Pessoas: Os autores consideram que as pessoas, a qualquer momento, estão em


processo de mudança e que do ponto de vista educacional é importante narrar a pessoa em
termos desse processo. Saber as histórias sobre como as pessoas se movem a partir do que
foram, do que são e do que serão no futuro é essencial para o pensamento narrativo
educacional. Ao contrário da postura observada nos paradigmas de pesquisa tradicionais, na
pesquisa narrativa é fundamentalmente relevante considerar as pessoas e as histórias que
elas trazem sobre as experiências de sua vida.

Ações: No pensamento narrativo, uma ação é entendida como um sinal. Assim, as


ações curriculares podem ser interpretadas como expressões na sala de aula das histórias
relatadas de professores e alunos. É preciso interpretar narrativamente aquele sinal antes de
dar sentido a ele. Sem saber a história, o significado ou sentido da ação, o sinal permanece
desconhecido.

Certeza: No pensamento narrativo as interpretações sempre podem ser diferentes.


Há sempre uma postura de tentativa, geralmente expressa como uma espécie de incerteza,
sobre as possibilidades de construção de significados dos eventos estudados. O pesquisador
na narrativa tem consciência sobre possíveis diferentes instâncias sob as quais uma
experiência pode ser estudada e considera seu trabalho como um caminho possível entre
tantos outros existentes. É nesse sentido que não estabelece verdades, ao contrário, cria
espaço para que possam ser construídos outros significados de uma mesma experiência
estudada.

Contexto: O contexto está sempre presente no pensamento narrativo. Ele inclui


noções de temporalidade, espacialidade e intersubjetividade. Ou seja, o contexto é
necessário para dar sentido às coisas, às pessoas e aos eventos.

Comparando as fronteiras da pesquisa narrativa, algumas tensões precisam ser


consideradas, comparando-a com o modo de pensamento na pesquisa de perspectiva
formalista e reducionista. Essas tensões levam a discussão sobre o lugar da teoria, a
quantidade de teoria suficiente para embasar um trabalho acadêmico, o lugar das pessoas e
o do pesquisador no desenvolvimento de uma pesquisa. O paradigma de pesquisa
formalista, que os autores, por sua visão narrativa do mundo, denominam de grand
narrativa, é vista como passível de levar os pesquisadores ao reducionismo e ao
formalismo. Assim, na pesquisa narrativa, preocupam-se com o formalismo, já que está
presente na pesquisa qualitativa e também pode se fazer presente na pesquisa narrativa.
Acreditam que como o reducionismo faz do todo algo menor, a análise sociológica e
política pode fazer o todo menor pelo uso da abstração e formalismo. Entendem que há uma
disputa entre os pesquisadores que advogam pela necessidade de linhas formais de
pesquisa, os pesquisadores no paradigma tradicional de pesquisa e os pesquisadores de
narrativa. Nesse sentido, a experiência e narrativa são consideradas com certo descrédito
por parte dos formalistas e dos tradicionais ou pesquisadores mais ortodoxos. .
Com base nos estudos de Bernstein (1987), Booth (1986) e Dewey, os autores que
focalizamos neste texto criticam a existência de uma “moda” de falar sobre a atualidade
como a era da pos-modernidade, do posestruturalismo, posempiricismo, posocidental e até
da posfilosofia. Consideram também que esta idéia de pluralismo é uma outra forma para
nomear o relativismo discutido por Both (1986) e identificado por Popper como o mito da
forma (framework). Dewey alertava que, em conseqüência dessa perspectiva formal, somos
transformados em prisioneiros das formas, das teorias, de nossas expectativas, experiências
passadas e de nossa linguagem. O mito da forma (framework) seria a visão formalista; a
visão de que as coisas nunca são o que são, mas, sim, o que o paradigma ou ponto de vista
ou perspectiva fazem delas. Além disso, porque nada é o que parece, o que fica evidenciado
na verdade são os termos utilizados, as estruturas formais pelas quais coisas são percebidas.
Na visão dos formalistas, os fatos ou experiência que uma pessoa diz ter vivido, ou dados
coletados por pesquisadores empíricos, têm pouco a contribuir, já que as pessoas nunca
podem ser vistas pelo que elas são, pois são sempre algo mais do que aquilo que dizem ser.
Especificamente, as pessoas são o estabelecido por uma estrutura social, ideológica ou
teórica que terminam por ser o objeto de estudo de pesquisa. Por outro lado, a pesquisa
narrativa propõe a reconstrução da experiência de uma pessoa em relação a outras e a um
contexto social, e é exatamente por isso que é vista com suspeitas por parte daqueles que
defendem os paradigmas formalista e tradicional de pesquisa, que vêem, na pesquisa
narrativa, uma falta de representação do real, da verdade e também de uma inabilidade para
situar apropriadamente uma Pos-era como indicado pelos formalistas. Assim a experiência
pessoal empírica é vista, pelos pesquisadores que se inserem no arcabouço de pesquisa
tradicional e ortodoxa, como uma mancha negra a ser apagada, ignorada pelos que se
inserem no paradigma formalista, já que privilegiam a forma e assumem que as pessoas
apenas agem em conformidade com as hegemonias políticas, culturais, entre outras.

O lugar da teoria: Enquanto os pesquisadores formalistas começam a pesquisa pela


teoria, os pesquisadores narrativos começam pela experiência. A pesquisa formalista
começa com abordagens teóricas de autores reconhecidos como, por exemplo, Derrida,
Foucault, Gadamer, Habermas, etc... A pesquisa narrativa começa com relato de histórias
de experiências vividas pelo pesquisador de forma a orientar ou expor narrativamente o
foco do problema ou questão de pesquisa. Os pesquisadores formalistas geralmente querem
que apareça um capítulo em separado, um capítulo sobre a estrutura da pesquisa, que
identifique passos na literatura, que delineie principais linhas teóricas de pensamento e gere
possibilidades potenciais de pesquisa. Os pesquisadores narrativos escrevem dissertações
sem um capítulo de revisão de literatura específica. Eles articulam do início ao final uma
tentativa de criar ligações entre a teoria e a prática, a experiência incorporada na pesquisa.
Outra tensão aparece em relação aos objetivos da pesquisa. Na pesquisa formalista,
o objetivo é contribuir para o desenvolvimento do paradigma teórico e da literatura
associada. Um segundo objetivo pode ser replicar e aplicar a teoria do problema. Embora o
primeiro objetivo possa também aparecer na pesquisa narrativa, o segundo raramente é
contemplado. Dessa forma, os objetivos da pesquisa narrativa parecem criar mais espaço
para construção de novos sentidos e significados com relação ao que está sendo pesquisado.
Além disso, cabe ressaltar que na pesquisa narrativa a linguagem utilizada precisa ser
desenvolvida de forma coerente com essa visão de pesquisa. Uma dissertação em forma de
texto literário, por exemplo, pode colaborar, se bem desenvolvida, não somente pelo
conhecimento que constrói como também pela forma como esse conhecimento é construído
e pelo espaço que cria para que o leitor imagine seus próprios significados, usos e
aplicações. A linguagem utilizada por um pesquisador narrativo faz parte de uma agenda
em sua programação ou planejamento de pesquisa.

O balanço da teoria: Uma tensão relacionada com a teoria é capturada na máxima


que diz que a pesquisa narrativa não é suficientemente teórica. Para os pesquisadores
formalistas as experiências de vida devem ser um conjunto à parte da teoria. No entanto,
Clandinin e Connelly entendem que toda forma de fazer pesquisa aponta para uma
perspectiva de pensamento e visão de mundo, porém como em cada paradigma de pesquisa
essas maneiras de pensar o mundo são diferentes, é também diferente a maneira como a
teoria é tratada em cada um deles. Fazendo uma analogia, enquanto a pesquisa formalista e
tradicional parece estudar os fatos com os óculos da teoria, e por isso ela merece destaque
no texto acadêmico, na pesquisa narrativa, olha-se a teoria com os óculos da experiência,
que vem em primeiro plano e em um entrelaçar sutil com a teoria, de modo a não sobrepô-
la em relação à experiência estudada.

Pessoas: Outra das tensões está em entender qual o lugar das pessoas em uma
pesquisa. Na pesquisa formalista, as pessoas, quando identificadas, são consideradas
sujeitos de pesquisa, como se fossem um exemplar de uma forma, uma teoria, uma
categoria social. Na pesquisa narrativa as pessoas são vistas de forma holística como
constituidores de histórias vividas pelas quais também se constituem. O pesquisador
narrativo reconhece que seus participantes de pesquisa são pessoas que pertencem a uma
raça, uma classe ou um gênero, porém têm como foco de pesquisa a pessoa e sua
experiência pessoal ao invés de considerá-la como representante de uma categoria.

O lugar do pesquisador: Na pesquisa narrativa o pesquisador precisa ter


consciência sobre o entrelaçamento e influência de suas histórias pessoais no trabalho que
estão desenvolvendo.. Em geral, um pesquisador iniciante nesse paradigma de pesquisa
tende a trazer visões, atitudes e modos de pensar sobre pesquisa herdadas das perspectivas
formalistas e reducionistas. Porém, pesquisadores narrativos precisam reconstruir as
próprias narrativas de suas histórias de pesquisa e estarem alertas às possíveis tensões,
conflitos entre essas histórias narrativas e a pesquisa narrativa que estão desenvolvendo.

O que o pesquisador narrativo faz


Tendo como base a postura de Schwab (1960), Clandinin e Connely escrevem uma
seção do livro Pesquisa Narrativa, para explicar o que os pesquisadores de narrativa fazem,
ressaltando que, ao fazê-lo não estão definindo ou delineando o que é a pesquisa narrativa.
Os autores discutem, também, os termos que escolheram usar em suas pesquisas,
considerando a perspectiva de Dewey sobre a experiência (particularmente situação,
continuidade e interação). Abordam, ainda, o que denominam espaço tridimensional de
pesquisa narrativa e as direções ou movimentos por quais essa estrutura permite que os
pesquisadores viajem – para dentro, para fora, para trás e para frente, situadas em um
determinado lugar/contexto. É uma síntese destas idéias que discutiremos neste item.
Como já enfatizado, a pesquisa narrativa desenvolvida por Clandinin e Connelly
tem base nos fundamentos de Dewey, mais especificamente de sua teoria da experiência,
assim, os termos freqüentes são pessoal e social (interação); passado, presente e futuro
(continuidade), combinados com a noção de lugar. Esse conjunto de termos cria um espaço
metafórico tridimensional, com a temporalidade ao longo de uma das dimensões, o pessoal
e o social ao longo da segunda e o lugar ao longo da terceira dimensão. Por direção ou
movimento para dentro os autores entendem as condições internas tais como sentimentos,
esperanças, reações estéticas e disposições morais. Por movimento para fora, os autores
entendem as condições existenciais, isto é, o ambiente no qual as pessoas vivem suas
experiências. Com os movimento para atrás e para frente, os autores se referem à
temporalidade – passado, presente e futuro. Vivenciar/experienciar uma experiência - isto é,
pesquisar uma experiência – é experiênciá-la a partir desses quatro movimentos.
Traçando um contra-ponto com o paradigma de pesquisa tradicional (Grand
narrativa), Clandinin e Connelly enfatizam que esse espaço tridimensional, na pesquisa
narrativa, não é entendido como um caminho para redução das experiências que se
tornariam histórias para um determinado conjunto de interpretações, como pode ocorrer nos
moldes de pesquisa tradicional. Ao contrário, na pesquisa narrativa, esse espaço
tridimensional pode colaborar para uma ampliação das perspectivas pelas quais uma
experiência pode ser estudada, suscitando questões, conflitos e problemas a serem
desvelados e compreendidos, assim como apontar caminhos para se lidar com o trabalho de
campo, os textos de campo que sejam apropriados a diferentes aspectos da pesquisa. .
Considerando os movimentos na pesquisa narrativa e o espaço tridimensional
comentado, os autores estabelecem que o pesquisador narrativo, ao estudar as experiências
de seus participantes de pesquisa da perspectiva desses movimentos, utiliza-se dos mesmos
para refletir sobre suas experiências passadas, presentes e prospectivas, em um olhar sobre
sua própria prática como profissional e como pessoa (movimento para dentro), tendo em
vista sua interação com seu contexto social (movimento para fora). O pesquisador na
narrativa não trabalha somente com seus participantes, mas também consigo mesmo. Esse
procedimento traz conflitos para o pesquisador, que ao se confrontar com suas próprias
experiências, pode sentir-se vulnerável por ter que torná-las públicas. No entanto, esse é um
passo imprescindível na pesquisa narrativa. Além disso, o pesquisador precisa compartilhar
os significados compostos sobre a experiência estudada, oferecendo seus escritos para que
tenha uma resposta da(s) comunidade(s) ou de amigos que possam trazer novas
possibilidades de re-contar e compor novos ou diferentes significados para seu estudo. Esse
compartilhar é também importante porque pode ajudar o pesquisador a decidir-se sobre a
linguagem a ser utilizada em seu texto de pesquisa, tendo em vista que na pesquisa
narrativa a linguagem utilizada é também considerada um instrumento para contar, re-
contar e compor significados da experiência estudada.
O Pesquisador em campo: caminhando na névoa que envolve as
histórias
Neste item são examinadas as negociações que os pesquisadores narrativos
precisam fazer antes de começar a trabalhar com seus participantes de pesquisa,
principalmente aquelas negociações que envolvem relacionamento pesquisador-
participantes, os objetivos de pesquisa, transições passiveis de ocorrer no decorrer e ao final
do estudo, maneiras de ser útil, de colaborar com o trabalho realizado pelos participantes..
Essas negociações são importantes porque o pesquisador precisa considerar que
seus participantes de pesquisa têm uma história vivida no momento presente do contexto
estudado, que continuará sendo construída no futuro, quando o pesquisador já não mais
estiver em contato com esses participantes. Em respeito, portanto, há que se negociar todos
esses aspectos, de forma que os participantes não sejam tratados como sujeitos de pesquisa,
e logo esquecidos quando o estudo é terminado. É por essa razão também, que o
pesquisador precisa expor suas próprias experiências aos participantes, ao invés de ficar
apenas “coletando” dados sobre as experiências do outro. .
Quando os pesquisadores entram no campo de pesquisa, eles experimentam
mudanças e constantemente estão negociando, reavaliando, e mantendo a flexibilidade e
abertura para uma paisagem em constante transformação. As relações entre os participantes
são negociadas durante toda a pesquisa e um bom relacionamento construído durante o
trabalho na pesquisa narrativa faz com que nasça um sentimento de tristeza e até melancolia
em relação ao aspecto temporário desse relacionamento, já que chegará o momento em que
o pesquisador deixará de fazer parte direta da experiência de seu participante e, de certa
forma, de sua oportunidade de refletir sobre sua própria experiência.. .
A negociação dos objetivos é outra coisa que o pesquisador narrativo faz. Parte
dessa negociação é continuamente questionar, explicar para si mesmo o que está sendo
feito. Uma aprendizagem importante para o pesquisador narrativo é encontrar, além de seus
participantes de pesquisa, muitos lugares ou diferentes grupos de estudo, comunidades de
aprendizagem para os quais e com os quais discute os objetivos de pesquisa, de forma que
ao explicar o que faz, torna mais claro o que está sendo feito. Os objetivos de uma pesquisa
narrativa, diferentemente de pesquisas que lidam com hipóteses de trabalho a serem
testadas, podem ser revistos e modificados ao longo da pesquisa.
No entanto, apesar do espírito da negociação estar sempre presente durante todo o
desenvolvimento de uma pesquisa narrativa, talvez a negociação mais dramática aconteça
em seu início ou no final. Esse momento é o que Clandinin e Connelly denominam
negociação de momentos de transição, que pode estar relacionada com a transição no
relacionamento entre pesquisador e participantes no início, no decorrer e no final da
pesquisa, e pode estar relacionada com a transição dos textos de campo para o texto de
pesquisa, sobre a qual os participantes também precisam ser ouvidos. Além disso, é crítico
para a integridade do trabalho que os pesquisadores não se afastem simplesmente quando
chegou o tempo do fim da pesquisa porque não são somente os participantes do campo
empírico que se sentem abandonados, o pesquisador também pode ter esse sentimento, já
que se deseja que o trabalho desenvolvido colaborativamente durante todo o estudo entre
pesquisador e participantes continue de alguma forma a ser realizado.
Uma outra negociação a ser considerada diz respeito à maneira como o pesquisador
busca exercer um papel que colabore com o trabalho de seus participantes, tornando-o útil
ao contexto no qual o estudo está sendo realizado, ao invés de se manter apenas como um
observador distanciado. Os críticos da pesquisa narrativa acusam os pesquisadores de
cooptar vozes e publicá-las como sua, já que e o que se ouve ao final é a voz do
pesquisador. No entanto, a experiência dos autores em campo mostra quase o contrário, que
o pesquisador pode ser até silenciado e sem voz sobre alguns tópicos sobre os quais os
participantes conhecem/sabem muito mais e como resultado, o pesquisador em respeito a
esse conhecimento, decide ter a voz de seus participantes presente em seu texto de pesquisa
exatamente como suas experiências foram relatadas e seus significados compostos, ao invés
de o pesquisador sozinho falar sobre a experiência estudada. Parece possível dizer que na
pesquisa narrativa o pesquisador escreve seu texto de pesquisa com o participante e não
sobre o participante, já que nesse texto a voz dos participantes ecoa e se faz presente. .
É necessário também que o pesquisador construa um senso de pertencer em relação
ao contexto ou comunidade na qual o estudo está sendo realizado. Ainda que o pesquisador
narrativo seja familiar à paisagem estudada, talvez até membro dessa paisagem, é preciso
considerar que há uma grande diferença em fazer o trabalho de pesquisa quando se busca
viver a rotina diária da paisagem estudada como sendo parte dela e não como um
observador distanciado. Caso esse sentimento de pertencer não seja construído, pode
ocorrer que o pesquisador sinta-se como um intruso já que não conhece o contexto no qual
está inserido e por isso não consegue entender e principalmente participar dessa paisagem.
Para se tornar parte da paisagem, o pesquisador precisa não apenas estar no campo, mas
viver no campo, de forma que consiga ter sensibilidade para ler as situações vividas e
questioná-las para entender os múltiplos eventos e histórias vividas, além da maneira como
esses eventos e histórias se complementam e se entrelaçam.
O termo narrativa é tão identificado como sinônimo de histórias que o pesquisador
na pesquisa narrativa é freqüentemente associado apenas com o coletar, o ouvir histórias, o
que faz com que alguns críticos entendam a pesquisa narrativa como uma pesquisa apenas
de base lingüística. Mas os pesquisadores narrativos fazem muito mais que procurar e ouvir
histórias. O pesquisador vive as experiências contadas e re-contadas por seus participantes
de pesquisa, de forma que possam juntos refletir e construir significados sobre as histórias
contadas para compreender suas práticas em uma outra perspectiva e então vislumbrar
novos ou diferentes caminhos a trilhar no futuro.
A pesquisa narrativa é uma forma de viver a experiência sobre a qual se estuda em
uma perspectiva historiada de ver a vida, o mundo. Anotar ou ouvir histórias é apenas um
dos caminhos a ser trilhado pelo pesquisador narrativo, que precisa, também, registrar as
ações, fazeres e acontecimentos referentes ao contexto estudado porque essas também
fazem parte do todo que o pesquisador estuda em sua perspectiva holística e historiada de
compreensão do mundo. Importante na pesquisa narrativa não é ter textos a serem
analisados, mas histórias que permitam a ele entender a experiência vivida
Do campo para os textos de campo: o pesquisador no local das
histórias
Neste item serão discutidos os principais desafios que o pesquisador narrativo
encontra no campo. Os textos de campo permitem ao pesquisador mover-se
retrospectivamente e prospectivamente em relação ao seu envolvimento intenso e
distanciamento com seus participantes. É explorado aqui como os textos de campo ajudam
a memória do pesquisador para que possa preencher de riqueza e nuances as histórias
vividas e a paisagem estudada. É discutido o papel dos textos de campo ao se lidar com o
relativismo e também como forma de auxiliar o pesquisador a perceber o lado social e o
pessoal da experiência estudada. Finalizando esta seção, discutimos a complexidade para se
compor textos de campo, considerando o espaço de pesquisa tridimensional.
Quando os pesquisadores narrativos estão no campo, eles nunca são como
gravadores desinteressados da experiência de um alguém qualquer, de um sujeito de
pesquisa. Eles também estão tendo uma experiência, a experiência da pesquisa que envolve
a experiência que eles estão querendo estudar. E há um conjunto de dilemas em querer
estudar a parada/desfile da qual eles próprios são parte. Alguns pesquisadores, por
exemplo, entendem que se não houver envolvimento intenso por parte do pesquisador na
experiência estudada, não será possível entender as vidas estudadas, outros pesquisadores,
no entanto, consideram que esse envolvimento faz com que a objetividade seja perdida.
Na pesquisa narrativa, essas tensões/conflitos relacionadas com a maneira como um
pesquisador vivencia/experencia a experiência estudada se fazem sempre presente.
Clandinin e Connelly acreditam que, ao contrário de outros paradigmas de pesquisa nos
quais o pesquisador deve manter distância em relação ao objeto estudado como forma de
garantir a objetividade, na pesquisa narrativa é preciso ficar completamente envolvido,
“apaixonado” pelo trabalho com os participantes e manter-se atento às próprias histórias
durante o desenrolar da pesquisa, as histórias dos participantes, assim como a paisagem
mais ampla em que todos vivem a experiência estudada. Os autores, porém, enfatizam que
mais importante que descrever e nomear as tensões/conflitos existentes, é a maneira como o
pesquisador lida com isso. Assim, sugerem que o pesquisador deve manter um movimento
de proximidade e distanciamento contínuo de forma que consiga viver, até
apaixonadamente, a experiência estudada com seu participante e ao mesmo tempo, por
meio dos textos de campo se distanciar e ir construindo sua observação. E para isso é
importante tomar nota, nota do que o pesquisador fez, notas do que os participantes fizeram
com o pesquisador, notas sobre o contexto, notas de onde estavam todos, notas dos
sentimentos, notas sobre os eventos, notas das lembranças, de suas reflexões. Esses
registros são feitos descritivamente para gravar eventos, acontecimentos, atitudes e
sentimentos e, de certa forma, congelam momentos específicos do espaço da pesquisa
narrativa realizada.
Os textos de campo também são importantes para se lidar com uma outra
tensão/conflito a ser enfrentado pelo pesquisador, na pesquisa narrativa, que é a memória.
A memória tende a esmorecer os detalhes, deixando apenas delineada uma espécie de
estrutura da paisagem. Os textos de campo são importantes porque possibilitam preencher
de riqueza, nuances e complexidade essa paisagem apenas delineada na memória. Parece
importante, no entanto, perceber que na pesquisa narrativa os textos de campo são sempre
um interpretar, um compor realizado pelo olhar, pela perspectiva do pesquisador situado em
um tempo determinado. É importante considerar, ainda, que não se busca uma verdade ou a
verdade da experiência estudada, mas, sim, um entendimento narrativo da história, tendo
em vista uma agenda de pesquisa construída.
Vverdade é um outro ponto de tensão/conflito na pesquisa narrativa. Tendo em vista
que na pesquisa narrativa não se considera o estudo da experiência como uma busca por
verdades pré-existentes, mas, sim, possíveis interpretações e composições, adotando-se
uma postura de relativismo, já que se tem a noção de que cada pessoa pode ter sua própria
interpretação de um mesmo evento e de que todas interpretações podem ser igualmente
válidas, é possível cair em um relativismo exagerado que pode levar o pesquisador à
interpretações empobrecidas da experiência estudada, quando não são considerados
apropriadamente os textos de campo. Há, portanto, que se considerar cuidadosamente a
intermediação entre o momento no campo e a composição dos textos de campo, que são
sempre registros interpretativos do que foi vivenciado, mesmo quando os textos de campo
são sobre experiências, sentimentos, dúvidas, incertezas, reações, recordações de histórias,
do próprio pesquisador. Considerando a relevância da maneira como os textos de campo
são compostos, Clandinin e Connelly apontam como sugestão a construção de um texto de
campo que se caracterize como dual, por conter observações ou descrição do contexto
estudado e, também, observações sobre o como o pesquisador está vivendo a experiência de
observação. Como já dito anteriormente, na pesquisa narrativa há sempre o movimento de
olhar para fora, para o social à volta, e para dentro, para as reflexões sobre o movimento
para fora. O texto de campo pode servir, portanto, como espaço para registrar a
interpretação do pesquisador sobre esses dois movimentos ou essas duas perspectivas de
observação, olhar para fora olhando também para si mesmo.
Os autores enfatizam, também, a importância de o pesquisador estar alerta para a
dualidade dos participantes, pois da mesma forma que o pesquisador entra na experiência,
os participantes entram na pesquisa. Assim, compor textos de campo significa estar alerta,
também, ao que os participantes fazem e dizem como parte de sua experiência, e isso
significa registrar como eles estão experimentando/vivenciando a experiência estudada e a
experiência de serem pesquisadores, pois eles também têm sentimentos e pensamentos
sobre a pesquisa a considerar.
Fazer pesquisa narrativa é uma forma de viver e a vida é uma infinitude de
possibilidades. Ao fazer pesquisa narrativa busca-se, tanto quanto possível, capturar a
amplitude da experiência em sua infinitude de possibilidades e perspectivas. Clandinin e
Connelly esperam que a idéia do espaço tridimensional (lugar, tempo e relação
pesquisador-participantes) possa criar possibilidades de percepção e entendimento de
algumas dessas possibilidades de se viver uma experiência. Os pesquisadores narrativos,
portanto, precisam estar abertos às possibilidades imaginativas de compor textos de campo
e também de trabalhar sobre a idéia do espaço tridimensional.
Compondo textos de campo
Neste item são apresentados os modos pelos quais os pesquisadores, ao se
relacionarem com as histórias de seus participantes, constroem os textos de campo,
considerando que essa construção ocorre dentro do espaço tridimensional de pesquisa
narrativa.
São vários os tipos de texto de campo que podem ser usados pelos pesquisadores:
escritos autobiográficos, anotações de campo; diários do pesquisador; cartas; diálogos,
entrevistas; histórias familiares; documentos; fotografias, “caixas de memórias”/baús de
recordações, relatos e outros artefatos pessoais ou sociais e experiência de vida.
Os textos de campo são essencialmente interpretativos. Para entender o que os
pesquisadores narrativos fazem quando eles escrevem os textos de campo, é importante
compreender não somente a seletividade que ocorre a partir dos textos de campo, mas
também perceber que um ou outro aspecto focalizado pode fazer outros aspectos menos
visíveis ou até invisíveis, apagados da experiência estudada. Os textos de campo podem
falar sobre o que é dito e observado, mas podem também dizer muito sobre o que não é dito
e não é notado.
O pesquisador é incapaz de perceber tudo que está ocorrendo, apesar de poder estar
com as melhores das intenções. Além disso, embora algumas vezes o pesquisador
conscientemente escolha o que coletar, outras vezes ele não se dá conta de que está fazendo
escolhas que apontam para possíveis significados/interpretações sobre sua história, sua
perspectiva de entender o mundo e conseqüentemente sobre a instância pela qual verá o
fenômeno estudado. Assim, refletir sobre as escolhas feitas no decorrer do processo de
pesquisa, seja nas decisões sobre o texto de campo a ser utilizado a ser composto, as opções
dos participantes durante todo processo etc, pode colaborar para que o pesquisador possa
perceber e entender um pouco mais do todo que, embora bem intencionado, não consegue
ver completamente. Em uma entrevista, por exemplo, o entrevistador conduz algumas das
respostas ou deixa que o entrevistado perceba o que quer de algumas formas: pelo sorriso,
pedindo para esclarecer algum aspecto, perguntando por maiores detalhes em algumas
situações. Quando o pesquisador pede para que um aspecto seja esclarecido, como o tempo
é um limitante da entrevista, outros aspectos poderão ser deixados de lado, está, então,
ocorrendo uma escolha, consciente ou não, que pode apontar para aspectos da experiência
estudados ou para a perspectiva sob a qual o pesquisador viu essa experiência. O texto de
campo é, portanto, moldado na relação entre o pesquisador e, no caso aqui exemplificado, o
entrevistado. O que pode aparecer como um texto estruturado é já um texto contextualizado
e interpretativo: é interpretativo porque é construído no processo de relacionamento que se
estabelece entre o pesquisador e o entrevistado, e é contextualizado por causa das
circunstâncias de como ocorre a entrevista.
Um aspecto central na criação dos textos de campo é a relação entre o pesquisador e
o entrevistado. Os textos de campo podem ser construídos com mais ou menos colaboração,
podem ser mais ou menos interpretativos, podem ser mais ou menos influenciados pelo
pesquisador e é por essa razão que os pesquisadores precisam estar atentos e precisam
escrever observações em seu diário de campo (que também é um texto de campo) sobre as
circunstâncias da situação representada naquele texto de campo também em termos de
relacionamento com os participantes.
Fazendo uma síntese sobre a importância dos textos de campo, podemos afirmar
que: a) são importantes para auxiliar o pesquisador a se movimentar entre a
intimidade/proximidade com seu participante de pesquisa e ao mesmo tempo refletir sobre
a experiência estudada e a sua própria ação no campo de pesquisa; b) precisam ser
rigorosamente desenvolvidos e ricamente detalhados; c) são necessários para
preencher/construir o espaço criado entre a experiência vivida e a memória que se tem dela;
c) possibilita um recontar da história vivida criando espaço para reflexão e
mudança/transformação; d) permitem crescimento e transformação contínuos ao invés de
buscarem estabelecer relações entre os fatos/verdades e idéias; e) precisam ser
complementados por outros textos de campo, tal como o diário, entre outros. Além desses
pontos, é importante lembrar da importância do papel do pesquisador, que precisa estar
atento às condições existenciais e respostas internas de cada pessoa, quando estão
compondo os textos de campo. E, por último, pontuamos a questão da ambigüidade surgida
com o trabalho em um espaço de pesquisa tridimensional que é amplo, aberto e sem limites
definidos, o que faz com que ao compor seus textos de campo, o pesquisador e tenha em
mente que ele e seus participantes estão situados em um momento particular –
temporalidade, espacialidade em termos da perspectiva pessoal e social.
Não será feita aqui a apresentação detalhada de todos os tipos de texto de campo
que podem ser elaborados em uma pesquisa narrativa, conforme sugerido por Clandinin e
Connelly, mas, é bom lembrar que uma das primeiras coisas que o pesquisador narrativo
faz é se situar também como participante da pesquisa. Uma forma de fazer isso é contando
as próprias histórias de experiências e muitas vezes essas histórias podem ser
autobiográficas. Escrever sobre a própria experiência é de certa forma um modo de refletir
sobre si mesmo e sobre os próprios objetivos de pesquisa em relação ao tema que se
escolhe estudar, de forma a se ter consciente a razão da escolha feita e sua relevância para
nossa própria experiência como pesquisador e também em nossa vida pessoal. É importante
também ter em mente que o que se constrói é sempre uma história recontada, é uma
reconstrução individual, uma perspectiva, sem deixar de considerar a possibilidade de
reconstruções diversas, diferentes.
Pensando nos pesquisadores iniciantes, a sugestão é de um diário de pesquisa, de
forma a conseguir prestar atenção a algum sentimento que passaria desapercebido sem sua
elaboração, já que o diário permite um buscar daquilo que vai sendo vivido internamente
pelo pesquisador. Os detalhes que ocasionalmente podem parecer sem importância, podem
vir a ter um significado passível de ser relacionado ao assunto pesquisado e colaborar como
um todo na elaboração dos textos de pesquisa.
Dos textos de campo para os textos de pesquisa
O movimento dos textos de campo para os textos de pesquisa é uma outra transição
difícil e complexa. Para pensar nisso é preciso lembrar que a pesquisa narrativa é um
processo de aprender a pensar narrativamente e a considerar as vidas como vividas
narrativamente, e a posicionar as pesquisas dentro do espaço metafórico tridimensional. Os
aspectos que serão discutidos nesta seção não se limitam apenas à complexidade vivida
quando o pesquisador está no momento de transição entre os textos de campo para os textos
de pesquisa. Desde o início de um estudo de pesquisa é possível e pertinente pensar em
todos os aspectos que serão aqui discutidos, como o planejamento inicial da proposta de
estudo, quando os pesquisadores negociam sua atuação no campo de pesquisa, quando
compõem múltiplos textos de campo e quando preparam textos de pesquisa para serem
divulgados.
O que os pesquisadores narrativos fazem?
O que os pesquisadores narrativos fazem para passar dos textos de campo para os
textos narrativos? Um modo de começar é pensar sobre a justificativa da pesquisa.
Justificativa (Por quê?)
Clandinin e Connelly vêem os pesquisadores narrativos como fortemente
autobiográficos. A partir de suas próprias experiências nesse paradigma de pesquisa, esses
autores perceberam a importância de se buscar elaborar justificativas de pesquisa que
considerassem questões pessoais e sociais. Em sua visão, é crucial, para os pesquisadores
da narrativa, articular a relação entre interesse pessoal de alguém e o significado da
realização de seu estudo para os contextos social, profissional e pessoal.
Começando pela justificativa pessoal, poderia parecer fácil pensar em um porquê
um determinado tema é importante para o pesquisador, mas, em geral, não é tão fácil assim.
As justificativas pessoais geralmente não são tão claras em relação aos interesses do
pesquisador e nem é tão claro saber como justificá-los. É por essa razão que, na pesquisa
narrativa, sugere-se que o pesquisador inicie escrevendo histórias sobre o fenômeno de seu
interesse. Espera-se que com esse procedimento, o pesquisador encontre as reais razões que
o leva a querer estudar o tema por qual optou.
Como na pesquisa narrativa encoraja-se a justificativa pessoal, ao contrário de
outros tipos de pesquisa, nos quais a justificativa que aparece é a social. Alguns estudiosos
tacham a pesquisa narrativa de narcisista. Porém, Clandinin e Connelly alertam que após
encontrar as razões pessoais para o desenvolvimento de um estudo de pesquisa, é preciso
também atentar para as relações das justificativas pessoais com possíveis justificativas
relacionadas com o contexto social no qual se está inserido. A justificativa pessoal está
sempre associada à decisões que estão situadas em um lugar, em um tempo e por isso são
também históricas, sociais e culturais. Na pesquisa narrativa, a justificativa pessoal,
portanto, está entrelaçada com a justificativa social, que a engloba e transcende.
Um outro aspecto a justificar em uma pesquisa narrativa é o porquê da opção pelo
desenvolvimento de uma pesquisa narrativa. Pensar sobre em que a pesquisa narrativa
ajuda a compreender o fenômeno pesquisado que outras teorias e métodos não possibilitam
pode ser importante para a maneira como a pesquisa será realizada.
O fenômeno (O quê?)
Geralmente na pesquisa qualitativa trabalha-se com questões de pesquisa ou
problemas de pesquisa. Essa linguagem, entretanto, não se aproxima da pesquisa narrativa
porque os problemas, segundo os autores, necessitam de um delineamento claro e a
expectativa de solução, mas a pesquisa narrativa tem mais o sentido de procura, de
pesquisa, de procurar novamente, enfim, de um trabalho sempre em progressão, em
desenvolvimento. Pesquisa narrativa tem mais o sentido de reformulação de uma pesquisa e
por isso os autores sugerem pensar em duas questões alternativas às colocadas
anteriormente: Sobre o que é a tua pesquisa narrativa? Qual é a experiência que te interessa
como pesquisador narrativo?
Embora possa parecer fácil, responder a essas duas questões não é tão simples, e por
isso ao longo da pesquisa é preciso fazer um esforço de explicitação dessas respostas para
que elas possam ir ao longo da pesquisa se tornando mais claras. Considerando que esse
processo pode ser complexo e difícil, Clandinin e Connelly sugerem aos pesquisadores
iniciantes falar sobre seu fenômeno de pesquisa com diversas e diferentes pessoas e em
diversos e diferentes lugares, tantos quantos possíveis. Segundo os autores, em geral, os
pesquisadores iniciantes confundem questões do fenômeno com questões de método.
Método (como?)
Há três aspectos a considerar nas questões de método na pesquisa narrativa:
considerações teóricas, considerações práticas relacionadas com os textos de campo e
considerações analítico-interpretativas.
Considerações teóricas
O lugar da teoria na pesquisa narrativa difere das outras metodologias de pesquisa
mais formalistas. Enquanto os pesquisadores formalistas iniciam a pesquisar pelas teorias,
os pesquisadores narrativos tendem a começar pela experiência como histórias vividas e
contadas. Essa diferença de postura pode ser notada em sessões ou encontros para
orientações. Se o orientador diz: ‘Vá a campo’, está mais próximo da pesquisa narrativa do
que se ele fala para fazer um estudo teórico para iniciar a pesquisa.
Considerações práticas orientadas a partir dos textos de campo
Quando se inicia a escrita dos textos de pesquisa a partir dos textos de campo,
emergem novamente as negociações de relações dos participantes, as propostas, os modos
de ser útil na pesquisa. A transição dos textos de campo para os textos de pesquisa pode ser
difícil, mas é imprescindível e importante. Como pesquisadores narrativos é preciso se
afastar do contato intenso com o fenômeno estudado, com as conversações diárias, os
encontros freqüentes e começar e ler e reler os textos de campo para compor os textos de
pesquisa. Isso não significa que a relação intensa com os participantes termine, mas sim que
a intensidade das histórias vividas passa a ser relatada em histórias recontadas nos textos de
pesquisa. Como pesquisadores, é preciso ir além dos textos de campo e o desafio da
pesquisa está em descobrir e dar significado para esses textos, já que precisam ser reescritos
como textos de pesquisa.
Considerações analítico-interpretativas
Em geral, na pesquisa narrativa os textos de campo são compostos e para começar a
pensar no texto de pesquisa é preciso saber o que está escrito nos textos de campo, além de
se ter cuidado na codificação desses textos observando datas, contexto, pessoas envolvidas
etc. Um pesquisador narrativo passa muitas horas lendo e relendo os textos de campo de
forma que possa construir um relato resumido sobre o que os textos de campo apontam.
Embora a análise inicial recaia sobre pontos aparentemente simples, como os
participantes, o lugar, a cena, o narrador, ou o contexto estudado, esses aspectos se tornam
mais complexos na medida que se intensifica a releitura sobre os textos de campo. É
preciso iniciar com uma codificação narrativa dos textos de campo, pela qual até lacunas,
momentos de silencio, tensões que emergem são possíveis códigos a serem buscados e
interpretados. Nessa busca, textos intermediários são escritos, mas não necessariamente se
tornam parte do texto final de pesquisa., pois esse processo deve ser repetido intensamente
até que se alcance uma forma razoável (no ponto de vista dos interlocutores) e que atenda
os propósitos do pesquisador.
Quando o texto de pesquisa está construído, há que se enfrentar um dos momentos
delicados da pesquisa narrativa que é o de compartilhar os textos de pesquisa com os
participantes. Nesse momento, há dúvida, nervosismo e até pânico por parte do pesquisador
e também dos participantes de pesquisa. É importante que o pesquisador não queira romper
com os participantes ou ser agressivo, mostrando sua autoridade de pesquisador ou membro
da academia que tem o direito de analisar e atribuir significados às experiências vividas,
contadas e compartilhadas com seus participantes. Por isso, parece interessante ter o
processo recursivo de escrita em movimento dos textos de campo para os textos de pesquisa
como um caminho que ajude a criar espaços para questões delicadas, tensões e conflitos
possam ser apresentados e discutidos sem impor uma determinada interpretação e também
sem ferir/magoar os participantes pelas interpretações construídas pelo pesquisador. Isto
porque na pesquisa narrativa há sempre um movimento de negociação em relação ao
relacionamento pesquisador-participantes.
Teoria e literatura
No movimento dos textos de campo para os textos de pesquisa, Clandinin e
Connelly sugerem um posicionamento em relação ao espaço de pesquisa tridimensional.
Outro fator relevante é a contextualização do trabalho realizado tanto em termos sociais
como teóricos, na qual o uso da metáfora pode ser uma ferramenta colaboradora. A
construção do texto de pesquisa deve também considerar com que tipo de comunidade se
quer conversar e se quer participar, para que se possa melhor situá-lo.
Em relação à construção dos textos de pesquisa, também são relevantes as
considerações relativas ao posicionamento do pesquisador em termos às implicações
ideológicas, até mesmo aquelas pertinentes ao programa de pesquisa no qual o pesquisador
está inserido. É importante traçar relações entre o estudo realizado e questões sociais
significantes, buscando e construindo teorias, de forma que o estudo tenha um significado
na sociedade e que possa contribuir efetivamente para discussão, entendimento e busca de
caminhos para as questões sociais relevantes.
A forma de representação dos textos de pesquisa é uma outra questão importante na
pesquisa narrativa. Como já apontado anteriormente, há uma variedade de maneiras de
representação, tais como, poesia, teatralização, relatórios, autobiografia, memorial, entre
outras. Clandinin e Connely sugerem que o estilo seja escolhido pelo pesquisador a partir
de suas preferências pessoais, observando e refletindo sobre o tipo de texto que mais gosta
de ler ou escrever, por exemplo.
Compondo textos de pesquisa
Neste item, discute-se como o processo de escrita trás de volta o pesquisador para as
fronteiras da pesquisa formalista e reducionista; explora-se o lugar da memória no
momento de compor os textos de pesquisa e o desafio em lidar com a incerteza. Alguns dos
aspectos que precisam ser considerados com cuidado são voz, autoria, forma narrativa e
audiência, também discutidos nesta seção.
Experimentando tensões como escritores iniciantes
O momento de começar a escrever um texto é permeado por tensões/conflitos.
Tensões associadas com deixar o campo empírico e com o que fazer com o conjunto
massivo de textos de campo; tensões relacionadas com decisões relativas à audiência do
texto e sobre como esse texto deve falar com os leitores, além das tensões internas e
pessoais ao pesquisador pensar sobre as vozes presentes no texto e sobre a possibilidade de
“captura” e representação das histórias compartilhadas com os participantes de pesquisa.
Há, ainda, as tensões externas ao pensar sobre a audiência, sobre o formato da narrativa e
também ao considerar como comunicar/publicar a pesquisa realizada.
Não se pode fixar muito no passado, pensando somente sobre os textos de campo,
sem considerar o futuro, isto é, o impacto que o trabalho desenvolvido pode causar na
audiência, na sociedade. Por outro lado, se os textos de pesquisa forem distanciados dos
textos de campo, a pesquisa produzida estará desconectada do campo empírico, desta forma
podendo servir ao pesquisador, mas não interessando e não contribuindo para os
participantes de pesquisa e para o contexto estudado. O foco da escrita não pode também
estar denso em relação à voz, sem considerar para quem está sendo escrito e o significado
que o texto de pesquisa pode ter para os interlocutores.
Com todos esses conflitos em mente, o pesquisador precisa encontrar uma maneira
de lidar com os diversos textos de campo, de forma que dê conta de articular e compor um
texto de pesquisa que espelhe o significados construídos, seguindo a noção de espaço
narrativo tridimensional, olhando para trás e para frente, para dentro de si e para fora,
situando as experiências relatadas em um lugar específico..
Escrevendo textos de pesquisa nas fronteiras da pesquisa narrativa
As tensões de pensar narrativamente nos limites do pensamento reducionista ou
formalista são esmorecidas enquanto o pesquisador está no campo empírico de pesquisa.
No entanto, na construção dos textos de pesquisa e nos diálogos associados, pretendidos e
desejados pelo pesquisador, novamente essas tensões emergem. Isso faz parte do mundo
acadêmico, intelectual no qual todo pesquisador está inserido.
Escrevendo textos no limite formalista
A construção de um texto de pesquisa nos moldes da pesquisa formalista tem sido
mais aceito e reconhecido na arena acadêmica. Mesmo considerando essa realidade, na
pesquisa narrativa opta-se por uma escrita diferente, que não considera os participantes de
pesquisa apenas sujeitos, objetos de estudo, deixando-os em segundo lugar e com sua voz
quase apagada do texto de pesquisa. A pesquisa narrativa não usa as experiências dos
participantes para generalizar ou fazê-los representantes de uma categoria como em geral
feito no texto de pesquisa formalista. Na pesquisa narrativa, a forma de representação
escolhida para construir o texto de pesquisa precisa considerar e expressar a voz dos
participantes, o contexto estudado, construindo uma coerência entre o tema estudado e a
maneira como o mesmo é apresentado.
Escrevendo textos nos limites da perspectiva reducionista
Ao se construir um texto de pesquisa narrativa, é preciso ficar atendo para lidar com
algumas das tensões existentes nos limites entre a pesquisa narrativa e a pesquisa
reducionista. A primeira delas é quando o pesquisador se depara com um conjunto de notas
de campo desorganizado, incompleto e apela para sua memória, não podendo referenciar as
notas de campo, ou mesmo se a pesquisa se refere a memórias contadas pelo entrevistado
ou textos autobiográficos sem relação com os textos de campo. Isso fragiliza a pesquisa
narrativa. Ao deixar de lado os textos de campo o pesquisador pode cair na redução factual.
O que é para ser uma possibilidade de interpretação passa a ser um fato, uma verdade. Esse
reducionismo pode ser observado em textos autobiográficos porque os entrevistados
tendem inicialmente a descrever um acontecimento, dando a ele um caráter de verdade ou
perspectiva única, sem considerar que a memória é seletiva, moldada e recontada na
experiência continuada de cada um. Outra forma reducionista de fazer pesquisa, que não se
coaduna com os moldes da pesquisa narrativa, é trabalhar com alguns participantes de
pesquisa e depois tematizar os dados de forma a se ter exemplares de categorias formais,
como se todas as experiências individuais fossem semelhantes.
Escrita, memória e textos de pesquisa
Um modo de pensar sobre os textos de campo é imaginá-los como registros da
memória do pesquisador, mas os textos de campo tanto são lembretes para memória sobre o
fenômeno vivido quanto são transformadores de memória. Isso porque os textos de campo
trazem partes de eventos vividos e ao escrever o texto de pesquisa o pesquisador pode dar
mais espaços para essas experiências registradas, deixando de lado outra infinidades de
aspectos sobre a mesma. Como discutido por Zinsser (1987), no processo de escrita, muitas
vezes o pesquisador canibaliza as lembranças verdadeiras e as substituí por outras.
Considerando a relevância de questões concernentes à memória, para a construção
dos textos de campo e de pesquisa, Clandinin e Connelly assumem que quando há um
volume denso de textos de campo, pensar em como guardar esses textos de campo é
imprescindível. Para os autores, atualmente com o uso do computador, é possível guardar
textos de campo sem perder a qualidade dada pela memória que se perderia, pois escrever
textos de campo manualmente exige muito tempo, disposição e o pesquisador aposta muitas
vezes em sua memória às vezes muito mais rápida, intensa e imensa do que a mão e a
caneta podem trabalhar. A rapidez que o computador oferece, proporciona que textos de
campo possam ser mais rapidamente registrados.
Escrevendo textos de pesquisa no limiar da incerteza
Antes de discutir o desenvolvimento da escrita do texto de pesquisa em relação aos
conflitos relativos à incerteza, parece necessário refletir um pouco sobre um dos termos
usados por Clandinin e Connelly, de forma que se possa melhor entendê-lo e traduzi-lo. Ao
discutirem o papel do pesquisador em campo e durante o processo de escrita do texto de
pesquisa, Clandinin e Connelly utilizam o termo “being in the midst”, mas o que desejam
ilustrar quando o utilizam? Uma tradução literal, levaria-nos à expressão “estar no meio do
caminho”, mas o que significa isso em relação aos conflitos e questões levantadas? Na
tentativa de buscar uma tradução para a língua portuguesa capaz de dar conta da imagem
que esses autores constroem ao utilizarem essa expressão, percorreremos o caminho das
experiências. A adolescência, talvez, possa servir de exemplo para esse entendimento.
Quando se é adolescente, não se sabe exatamente o que se é, pois para alguns ainda se é
criança e para outros ou em determinadas situações já se é considerado adulto. Mas na
verdade, a adolescência é um meio do caminho, nem se é uma coisa ou outra, é um
momento de passagem e por isso a sensação de insegurança ou indefinição. No caso da
pesquisa narrativa, quando o pesquisador está em campo, ele está no meio do caminho
porque apesar de ser também um participante de pesquisa, não é considerado assim por
seus participantes porque é visto como o pesquisador e mesmo que esteja “completamente”
inserido no grupo, sabe que precisa ter a responsabilidade de desempenhar o papel de
pesquisador, sim, pois afinal pesquisar é uma razão de estar ali participando. Como se pode
notar, é um momento de tensão porque nem se é totalmente e unicamente uma coisa e nem
outra, é um manter-se no meio do caminho, no limiar de uma paisagem e de outra. O
mesmo ocorre no momento de construção dos textos de pesquisa, quando o pesquisador
está no meio do caminho entre as experiências vividas e compartilhadas com seus
participantes, registradas nos textos de campo e a composição de seu texto de pesquisa. Os
textos de campo permitem ao pesquisador uma proximidade intensa com as experiências
vividas, mas ao mesmo tempo é preciso também se aproximar dos significados compostos e
da forma de apresentação desses significados. Novamente, é estar no meio do caminho.
Para Clandinin e Connelly, esse meio do caminho entre os textos de campo e o texto
de pesquisa é diferente do meio do caminho entre o campo e os textos de campo. Para eles,
em geral, o pesquisador fica menos à vontade e mais inseguro quando está elaborando os
textos de pesquisa do que os textos de campo. Isso porque ao se construir o texto de
pesquisa, é preciso pensar sobre o lugar da teoria, que muitas vezes assume o papel de
confundir ao invés de confirmar nossas “certezas”. Muitas vezes, as experiências
vivenciadas com certa clareza, se embaralham e se confundem à luz das teorias,
provocando insegurança e incertezas. Parte dessa incerteza vem do conhecimento e zelo
que se tem por algum participante especificamente. Isso porque quando há esse zelo, não se
deseja apenas classificá-lo ou enquadrá-lo em categorias previamente estipuladas com base
em pressupostos teóricos estudados. Esse zelo permite ao pesquisador consciência em
relação à complexidade de entendimento da experiência de cada indivíduo, pois cada
pessoa é uma pessoa que vive suas histórias inseridos e diante de uma paisagem de
histórias.
Parte da incerteza dos pesquisadores narrativos também vem do entendimento que
eles vão escrever sobre pessoas, lugares e coisas em processo.A dificuldade maior não está
em dizer que pessoas, lugares e coisas são desse ou daquele modo, mas que eles têm uma
história narrativa, uma vida historiada em movimento para a frente, para o futuro. O texto
de pesquisa narrativa é fundamentalmente um texto temporal sobre o que se tem sido, o que
se é agora e no que se está transformando. O pesquisador precisa, portanto, encontrar uma
maneira de escrever um texto situado, considerando que o local ou paisagem estudada
também precisa ser vista como em transformação, em movimento.
Outro ponto de confusão para o pesquisador ao iniciar os textos de pesquisa é a
relação das pessoas como lugar ou paisagem da qual fazem parte, considerando o contexto
atual, passado e futuro. O pesquisador precisa compor em sua mente os significados das
experiências estudadas e encontrar caminhos para melhor transformá-los em texto,
considerando suas interligações no espaço tridimensional da pesquisa narrativa. Não basta
apenas contar as histórias ou falar das pessoas, do contexto etc, é necessário também traçar
relações e construir significados, além de preocupar-se com questões tais como voz,
assinatura, forma narrativa e também a audiência com a qual o pesquisador quer conversar
sobre sua pesquisa.

Voz
Em um sentido amplo, voz pode ser pensada como pertencendo aos participantes, ao
pesquisador ou outros participantes ou pesquisadores de quem o texto fala. Um dos dilemas
em compor textos de campo pode ser ilustrado pela analogia “viver no fio da navalha”, ao
se tentar manter o equilíbrio entre dar voz aos participantes e a si mesmo (o pesquisador) e
ao mesmo tempo tentar criar um texto de pesquisa que fala para e reflete as vozes da
audiência. O pesquisador está sempre falando parcialmente despido e precisa estar
genuinamente aberto às críticas legítimas de seus participantes e de sua audiência.
Além dos aspectos levantados, um ponto chave é a multiplicidade de vozes de
ambos, participantes e pesquisadores. Não se pode encarar os participantes como univocais,
não moldados por uma estrutura teórica ou um modo de comportamento que os deixaria
como se fossem unidimensionais. Quando o pesquisador procura capturar essa
multiplicidade de vozes dos participantes e dele próprio, precisa considerar não só as vozes
ouvidas, mas também as vozes silenciadas. É preciso atentar para o fato de que ao optar por
uma forma de construção do texto de pesquisa pode estar obscurecendo ou silenciando
aspectos importantes da voz dos participantes.. Como pesquisador precisa lutar para ter as
múltiplas vozes expressas em seu texto de pesquisa. O silêncio, tanto o escolhido como
aquele sobre o qual ainda não tem consciência, também é considerado uma voz em seus
textos de pesquisa.
Autoria
Voz e autoria estão intimamente conectadas no processo de escrita ao transformar
textos de campo em texto de pesquisa. Estar presente de forma especial no texto
distingue/caracteriza cada pesquisador como escritor que constitui a autoria de sua própria
pesquisa. Há, no entanto um dilema a ser enfrentado: saber como deve ser essa assinatura
ou autoria. Ao se estar muito presente no texto, corre-se o risco de obscurecer a experiência
de campo e seus participantes; por outro lado, com muita sutileza ou discrição corre-se o
risco de parecer que o pesquisador fala somente do ponto de vista de seus participantes.
Os riscos da autoria muito marcada são bem conhecidos na literatura e são
entendidos como abuso de subjetividade. De outro lado, a ausência do autor também é
preocupante. Um exemplo disso é quando são as teorias e outros textos que assinam o texto
de pesquisa, ou quando são os participantes a fazê-lo. Essas duas formas de assinatura
precisam ser evitadas. Ao ganhar voz e autoria, o pesquisador coloca sua marca na pesquisa
e seu texto ganha um determinado ritmo, cadência e expressão, que caracterizam sua
autoria, permitindo identificá-lo como seu ou de um conjunto de colaboradores. Tudo isso
cria/expressa também a identidade do autor.
No entanto, é necessário também considerar a relevância da assinatura dos
participantes no texto de pesquisa. A autoria é comumente pensada como sendo do
pesquisador, mas pode também se referir aos participantes. Quando na pesquisa narrativa
retorna-se aos participantes para mostrar a eles o texto de pesquisa, isso não é feito apenas
para que eles digam se o que foi construído é certo ou errado, mas sim para que tenham a
oportunidade ver se os textos de pesquisa os retratam da forma como desejariam ser
retratados e mesmo para ver se conseguem se reconhecer no texto construído A isso os
autores chamam de autoria participante.
Audiência
A audiência é normalmente esquecida pelos pesquisadores enquanto em campo de
pesquisa, mas aparece fortemente no momento de começar a escrever os textos de pesquisa.
Escrever com um sentido de compartilhamento entre os significados atribuídos pelo
pesquisador e pelos participantes é importante, mas não suficiente. O compromisso com a
audiência precisa estar presente enquanto o pesquisador escreve seus textos de pesquisa. É
desculpável julgar mal uma audiência e por isso escrever um texto que não seja relevante
ou compreensível para a mesma, mas não há desculpas quando se conhece para quem se
escreve e o que é relevante para essa audiência.
Como se pode notar, considerar a audiência, cria uma outra tensão, um outro
conflito. Algumas vezes, para atender a forma desejada pela audiência, os pesquisadores
seguem caminhos que o fazem sentir-se como se estivessem quebrando a confiança de seus
participantes. Aspectos sobre momentos compartilhados e segredos e o desejo de colocá-los
no texto de pesquisa também criam situações delicadas. A luta vivida pelo pesquisador está
no tentar respeitar as relações de trabalho com os participantes, dar um lugar para suas
vozes e autoria, que pode levar a conflitos com a audiência.
Tensões entre voz, autoria e audiência
A primeira audiência quase sempre é os próprios participantes de pesquisa. Depois
disso, quase toda a audiência está sempre na imaginação do pesquisador e em aspectos
externos à pesquisa. Textos frios, despersonalizados, sem autoria e sem voz estão presentes
na pesquisa nas Ciências Sociais e, mesmo atualmente, são considerados como bons ou
mesmo ideais no espaço da academia. Em textos construídos dessa forma o pesquisador é
“o pesquisador” e não um “eu” e os participantes são os “sujeitos” sem voz e sem nome. O
outro extremo é, também, inapropriado, pois o texto é escrito de modo a mostrar uma
fraterna intimidade entre pesquisador e participantes, causando no leitor uma sensação de
embaraço e intromissão, o que não constitui um bom texto de pesquisa narrativa.
Infelizmente, essa caricatura dos textos de pesquisa narrativa tem sido freqüentemente
criticada. Uma carga de solipsismo tem sido atribuída ao trabalho narrativo, e em algumas
vezes a crítica tem sido justa. O pesquisador precisa balancear autoria, voz e audiência. Em
alguns capítulos pode sobressair um dos aspectos, em outra parte da pesquisa outra, mas o
pesquisador precisa estar atento a isso.
Outra tensão presente ao serem escritos os textos de pesquisa está em escolher uma
forma de escrevê-los e pode ser sugestão escrever na forma que o pesquisador gosta de ler,
mas isso não diminui a tensão sempre existente entre voz, autoria e audiência. Além disso,
há também a tensão entre o pessoal – o que parece estar adequado com a experiência vivida
pelo pesquisador e os participantes, e o social – o que parece estar adequado aos diálogos
estabelecidos na pesquisa.
O que foi até aqui relatado é ainda parte do problema. Não é possível esquecer
alguns aspectos da audiência, como por exemplo, para quê revista pode ser encaminhado
um artigo da pesquisa e nesse sentido, é preciso pensar se a linguagem está adequada para
aquela determinada revista. É ao negociar estas tensões que aparecem as questões de forma.
Formato da narrativa
O formato da narrativa precisa ser imaginado pelo pesquisador. Em algumas vezes é
possível imaginar um formato específico, como pode ser exemplo, um documento que
tenhas as marcas de um texto de ficção. Outras vezes, o pesquisador tem uma vaga noção
de qual vai ser o estilo de sua dissertação. É possível imaginar capítulos ou somente pensar
em algumas das partes da dissertação, mas pensar sobre a forma de apresentação do texto
de pesquisa é uma das questões centrais na pesquisa narrativa. No entanto, é também
importante perceber que os textos vão naturalmente ganhando forma na medida que vão
sendo escritos, e muitas vezes não ficam claramente definidos antes de seu final, pois
enquanto o trabalho avança, os textos vão sendo modificados/transformadoss. A escrita
também vai mudando do início ao texto final.
Encontrar o formato para os textos de pesquisa é um processo de tentativas, erros e
acertos, insatisfações, um momento experimental. Alguns gêneros, como a literatura,
poesia, drama ou outros modos de expressão podem ser tentados e essas formas já têm sido
aceitas na pesquisa científica como uma possibilidade de apresentação dos resultados de
pesquisa. Mas ao escrever os textos de pesquisa, é preciso estar atento às tensões de
escrever dentro do espaço tridimensional de pesquisa narrativa.
Embora na literatura haja muitas estruturas – por exemplo, narrativa, descrição e
argumentos ou descrição, análise e interpretação – nenhum reflete a experiência dos autores
do que está envolvido em encontrar um formato para o texto de pesquisa narrativa e, para
melhor explicar. Clandinin e Connely utilizam a metáfora da sopa, da qual diferentes e
infinitos ingredientes podem fazer parte. Assim como podem ser diferentes os ingredientes
de uma sopa, também podem ser as partes de um texto de pesquisa narrativa. Partes da
pesquisa podem conter densos textos descritivos dos lugares, das pessoas e coisas; outras
partes podem ser de argumentos construídos cuidadosamente para defender compreensões
de relações entre pessoas, lugares e coisas e outras partes ainda podem ser tecidas como
narrativas de pessoas, tempo, cenas em um determinado lugar. Em síntese, um texto
narrativo precisa conter descrição, narrativa e argumentos. Sem algum desses ingredientes
não é um texto de pesquisa narrativa.
A metáfora da sopa faz pensar, também, sobre o recipiente na qual a mesma é
colocada. Em termos de texto de pesquisa, é preciso atentar para a forma estabelecida em
alguns locais para os quais vai ser encaminhada a pesquisa para publicação. Uma
determinada universidade, uma determinada revista podem ter recipientes diferentes dos
textos de pesquisa construídos. Mas, ao imaginar que os limites da pesquisa narrativa estão
nos pesquisadores, não é possível pensar em um formato único. Sempre que se escreve e se
trabalha sobre um texto há a possibilidade de que ele se torne outro, pois um texto
inevitavelmente é sempre uma etapa, uma versão, um texto que pode resultar em outras
pesquisas e, também, em outros textos de campo.
Como exposto por Clandinin e Connelly, encontrar formas diversas, diferentes e
criativas de escrever o texto de pesquisa narrativa pode ser importante. Os autores sugerem
que se busquem essas formas a partir da leitura de outras dissertações narrativas, de livros e
também buscando imagens ou metáforas que ajudem a pensar sobre a organização do
trabalho. No entanto, os pesquisadores que optarem por usar metáforas precisam ter alguns
cuidados, pois apesar da certeza de que a metáfora promova um certo tipo de liberdade por
parte do pesquisador que abre caminhos para busca da forma desejada, há alguns riscos.
Algumas vezes o pesquisador pode selecionar uma metáfora e ficar tão preso a ela que os
textos parecem artificiais e quando isso acontece a dissertação perde em termos de
construção de significados. No entanto, apesar do risco, as metáforas podem auxiliar na
criação do formato narrativo. Outra forma de encontrar sugestões para o formato da
narrativa a ser escrita é procurar e prestar atenção ao tipo de leitura que agrada ao
pesquisador. Assim ficção, jornais, diálogos e cartas podem se transformar em material que
sugerem formas de compor o texto de pesquisa.
Há que se ressaltar, no entanto, que uma pesquisa não se torna pesquisa narrativa
apenas por sua forma. A pesquisa narrativa caracteriza-se por uma postura historiada de ver
e compreender o mundo e as pessoas e essa postura precisa estar presente desde o início do
planejamento da pesquisa, mesmo antes de ir a campo, todos os aspectos aqui discutidos
precisam estar presentes.
Referências
CLANDININ, J.D; CONNELLY, M. Narrative Inquiry. San Francisco: Jossey-Bass
Publishers, 2000.