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Transformando o Sofrimento e a

Felicidade em caminho espiritual


por Dodrupchen Jigme Tenpe Nima

Homenagem

Ó, nobre Avalokitesvara
Quem sempre se regojiza com a felicidade dos outros
Quem é profundamente compadecido com o sofrimento dos outros
Quem possui perfeitamente a realização das qualidades da grande compaixão
E que está liberado de sua própria alegria e tristeza.

Eu me curvo a você recordando de suas virtudes; e passo a explicar, em parte, o


ensinamento quintessencial da transformação de felicidade e adversidade em caminho espiritual,
sendo uma ferramenta indispensável de seres espiritualmente realizados, que é inestimável no
mundo.

1. Como transformar o sofrimento em caminho espiritual por meio da verdade relativa

Cada vez que somos feridos por seres sencientes ou por qualquer outra coisa, se nos
habituarmos a perceber unicamente o sofrimento, mesmo o menor problema, isso causará uma
enorme angústia em nossa mente. Isto porque a natureza de qualquer percepção ou ideia, seja de
felicidade ou de tristeza, está crescendo e crescendo cada vez mais forte quanto mais nos
acostumarmos com isso. Assim, como o poder deste hábito aumenta gradualmente em um curto
espaço de tempo, quase tudo o que percebemos se torna a causa para realmente atrair
infelicidade para nós, e não haverá possibilidade de alegria.

Se não entender que tudo depende de como sua mente desenvolve o hábito e, em vez
colocar a culpa apenas em objetos externos e situações, as chamas do sofrimento, carma
negativo, agressão e muitas outras coisas, irão se espalhar como um incêndio voraz. Isto é o que
se chama: "as aparências que surgem como inimigos”.

Devemos chegar a uma compreensão muito clara de que a razão pela qual os seres desta
época degenerada estão cheios de tanto sofrimento é porque eles têm fracos poderes de
discernimento.

Portanto, não se machucar com os obstáculos criados por inimigos, doenças ou


influências nocivas, não quer dizer que coisas como a doença pode ser extinguida e nunca
ocorrerá novamente. Pelo contrário, isso simplesmente significa que essas coisas não podem nos
impedir de sermos capazes de percorrerr o caminho.

Para que isso aconteça, precisamos: primeiro, ter a atitude de estar completamente
dispostos a enfrentar qualquer sofrimento e, por segundo, cultivar verdadeiramente a atitude de
alegria quando o sofrimento surgir.
Abandonar a atitude de ficar negando o sofrimento

Pense em toda a depressão, ansiedade e irritação por sempre ver o pior sofrimento como
algo a ser evitado a todo custo. Agora, pense em duas coisas: quão inútil é, e quantos problemas
isso causa. Continue a refletir sobre isso várias vezes, até que você esteja absolutamente
convencido. Então diga para si mesmo: "A partir de agora, qualquer sofrimento que enfrente, eu
não ficarei ansioso ou irritado". Contemple em sua mente vez após vez e evoque toda a sua
coragem e determinação.

Primeiro, observe como é inútil esta atitude. Se pudermos fazer alguma coisa para
resolver um problema, então não há necessidade de se preocupar ou ficar infeliz com isso. Se
não podemos fazer algo, então não adianta se preocupar ou ficar infeliz. Veja a enorme
quantidade de problemas que isso envolve.

Enquanto não estivermos ansiosos e irritados, a nossa força mental vai nos permitir
facilmente suportar os sofrimentos mais profundos; iremos os ver como inconsistentes,
semelhantes a lã de algodão. Mas enquanto somos dominados pela ansiedade, mesmo o mais
pequeno problema torna-se extremamente difícil de suportar, porque temos o fardo adicional de
miséria e desconforto mental.

Imagine, por exemplo, tentar se livrar do desejo e apego por alguém que achamos
atraente, continuando a se apegar as suas qualidades atraentes. Todo esse esforço seria em vão.
Da mesma forma, se nos concentrarmos apenas na dor do sofrimento, nunca poderemos
desenvolver resistência ou capacidade de suportá-lo. Assim, como indicado nas instruções
chamadas “Selando as Portas dos Sentidos”, não se feche em todos os tipos de conceitos
produzidos pela mente sobre o seu sofrimento. Em vez disso, aprenda a deixar a mente tranquila
em seu estado natural, trazendo ela para casa descansando lá e deixe-a encontrar a sua própria
base.

Desenvolver a atitude de não desanimar quando o sofrimento surgir

Vendo o sofrimento como um aliado para nos ajudar ao longo do caminho, temos de
aprender a desenvolver um sentimento de alegria quando ele surgir. No entanto, cada vez que o
sofrimento nos atinge, a menos que tenhamos algum tipo de prática espiritual que lhe é
aplicável, uma prática que combina a capacidade de nossa mente, não importa quantas vezes
dizemos a nós mesmos: “Bom, enquanto aprendo o método correto, em geral, vou ser capaz de
usar o sofrimento como um benefício”, é improvável que iremos conseguir. Nós estamos tão
longe do nosso objetivo, como diz o ditado, como a terra é do céu.

Utilizando o sofrimento como caminho da renúncia

Algumas vezes, então, utilizamos o sofrimento a fim de treinar a mente de renúncia.


Diga a si mesmo: “Enquanto vagar no samsara, desamparado e sem qualquer liberdade, esse
tipo de sofrimento não é injusto ou não merecido. É simplesmente a natureza do samsara". Às
vezes, desenvolvemos um profundo pensamento com sentimento de renúncia: "Se isso é tão
difícil de suportar que pode ser até mesmo o sofrimento e a dor dos reinos superiores, então o
que dizer do sofrimento dos reinos inferiores”? O samsara é na verdade um oceano de
sofrimeneto, insondável e sem fim. Logo, direcione sua mente para alcançar a liberação, a
iluminação.

Utilizar o sofrimento para treinar a tomada de refúgio

Diga a você mesmo: “Uma vida após outra, uma e outra vez, estamos continuamente
atormentados por esses tipos de medos, e a única proteção que nunca pode falhar é o guia
precioso, o Buda, o caminho perfeito, o Darma, e os belos companheiros de viagem, a Sangha:
as três jóias. Então, é sobre eles que eu confio completamente. Aconteça o que acontecer, nunca
desista deles”. Torne esta convicção firme, e treine na prática de tomar refúgio.

Como utilizar o sofrimento para vencer a arrogância

Como expliquei acima, [enquanto estamos no samsara] nunca temos independência, ou


verdadeiramente liberdade ou controle de nossas vidas. Pelo contrário, sempre estamos
suscetíveis ao sofrimento, e nós estamos à mercê dele. Portanto, temos de eliminar "o inimigo
que destrói tudo o que é positivo e bom”, que é a arrogância e orgulho, e temos de abandonar a
atitude depreciante com relação aos outros e tratá-los como inferiores.

Utilizando o sofrimento para purificar nossas ações negativas

Lembre-se e compreenda o seguinte: "Todo esse sofrimento que eu experimentei, e do


sofrimento que pode ser ainda maior — todo o sofrimento sem fim que existe — tudo vem nada
menos do que as ações nocivas e negativas".

Reflita com cuidado e exaustivamente da seguinte maneira:

1. O carma é verdadeiro — A infabilidade da lei de causa e efeito.


2. O carma se multiplica enormemente
3. Nunca enfrentarei efeitos de algo que não tenha realizado
4. Qualquer coisa que tenha feito nunca será desperdiçada

Então, diga a si mesmo: “Se realmente não quero sofrer mais, então tenho que abandonar a
causa do sofrimento, que é a negatividade". Com a ajuda de "Os Quatro Poderes", faça um
esforço para reconhecer e purificar todas as ações negativas que se acumularam no passado, e
então decida firmemente evitá-las no futuro.

Utilizando o sofrimento para encontrar alegria na ação positiva

Diga a si mesmo: "Se eu realmente quero encontrar a felicidade, que é o oposto do


sofrimento, então eu tenho que fazer um esforço para praticar a sua causa, que é a ação
positiva." Pense sobre isso em detalhes e de todas as formas, e pense sobre as implicações.
Então, em todos os sentidos, faça tudo o que puder para aumentar suas ações positivas e
benéficas.

Utilizando o sofrimento para treinar em compaixão

Diga a si mesmo: "Assim como eu, outros também são atormentados por sofrimento
semelhante, ou ainda pior...". Treine-se a pensar: "Se eu pudesse me livrar de todo esse
sofrimento! Como seria maravilhoso!” Isso também irá ajudar você a entender como praticar a
bondade amorosa, aonde o centro da prática são aqueles que não tem nenhuma felicidade.

Utilizar o sofrimento para ter mais interesse pelas pessoas do que si mesmo

Treine-se a pensar: “O motivo real de eu não ser livre do sofrimento que estou tendo,
desde tempos imemoriais, é pelo fato de só se preocupar comigo”. Agora, a partir deste
momento, eu terei preocupação só com os outros, uma vez que esta é a fonte de toda felicidade e
de todo o bem.
É extremamente difícil usar o sofrimento como caminho quando ele nos golpeia e
olhamos diretamente para ele. Por esta razão, é fundamental se familiarizar com antecedência
com as práticas específicas a serem utilizadas quando a desgraça e dificuldades cairem sobre
nós. Também é particularmente útil, e realmente importante, usarmos a prática que conhecemos
melhor e que temos uma experiência clara e pessoal.
Com isso, o sofrimento e as dificuldades podem ser uma ajuda para a nossa prática
espiritual, mas isso por si só não é suficiente. Precisamos desenvolver uma sensação de
verdadeira alegria e entusiasmo, inspirados por uma apreciação plena da nossa realização, e
depois a fortalecer e torná-la estável e contínua.

Assim, usando cada uma das práticas descritas acima, diga a si mesmo: "Este
sofrimento tem sido extremamente útil; ajuda-me a alcançar os muitos tipos maravilhosos de
felicidade e alegria que são experiencias dos reinos mais elevados e da liberação do samsara, e
são difíceis de encontrar. A partir de agora, também sei que qualquer sofrimento que me espera
tenha o mesmo efeito. Então, não importa o quão desagradável, quão difícil possa ser meu
sofrimento, sempre me traz a maior alegria e felicidade". Mantenha esta linha de pensamento de
novo e de novo, exaustivamente, até se acostumar com o estado feliz de mente que ela traz. Ao
pensar desta forma, nossa mente estará tão repleta de felicidade que o sofrimento que
experimentarmos através dos sentidos vai se tornar quase invisível e incapaz de perturbar a
nossa mente. Este é o ponto em que a doença pode ser superada através da paciência. É
interessante notar que isso é também uma indicação se as dificuldades são causadas por
inimigos, espíritos malignos e se podem ser superadas ou não.

Como vemos, inverter a atitude de não querer sofrer é toda a base para transformar o
sofrimento em nosso caminho espiritual. Isso se deve especialmente porque não podemos
transformar o sofrimento no caminho enquanto a ansiedade e irritação continuarem a roerem a
nossa confiança e perturbar nossa mente.

Quanto mais conseguirmos realmente transformar o sofrimento no caminho, mais


melhoraremos e reforçaremos a nossa prática. Isto porque a nossa coragem e bom humor irão
crescer mais, uma vez que podemos ver em nossa própria experiência de como o sofrimento faz
florescer nossas qualidades e prática espiritual.

Diz-se que devemos treinar gradualmente a partir de sofrimentos menores, passo a


passo, em etapas fáceis, então, no final, seremos capazes de lidar com grandes dificuldades e
sofrimentos. Devemos entender isso também, porque é extremamente difícil ter uma experiência
de algo que está além de nosso nível ou habilidade.

Nos intervalos entre as sessões, reze para as três jóias e o Lama e de ser capaz de incluir
o sofrimento em seu caminho. Quando sua mente estiver mais fortalecida, em seguida, faça
oferendas as Três Jóias e forças negativas, e peça: "Por favor, envie-me o infortúnio e os
obstáculos, para que eu possa praticar e desenvolver a força da minha prática!" Ao mesmo
tempo, sempre, sempre se mantenha confiante, alegre e feliz.

Na primeira etapa de sua preparação, é de vital importância se distanciar de atividades


sociais ordinárias. Caso contrário, preso nas preocupações diárias e tarefas, você vai ser
influenciado por todos os seus amigos insensatos, que te fazem perguntas como: "Como você
pode suportar tanto sofrimento... tanta humilhação...?”.

Além disso, a interminável preocupação com os inimigos, parentes e bens ofuscam a


nossa consciência, e perturbam a nossa mente descontroladamente, de modo que,
inevitavelmente, nos perdemos, caindo em maus hábitos. Então, a partir disso, vamos ser
arrastados por todos os tipos de situações e objetos que possam nos distrair. Mas na solidão de
um ambiente de retiro, como nenhum destes elementos estão presentes, a sua consciência é
muito lúcida e clara, e por isso é fácil de fazer que a mente faça o que você quer fazer.

É por esta razão que, quando os praticantes de Chöd são treinados na prática de
"atravessar o sofrimento”', inicialmente não utilizam esses aspectos, para depois da realização
da prática utilizar os danos causados por seres humanos e distrações, mas sim, há mais ênfase
em praticar com as manifestações ilusórias de deuses e demônios, em cemitérios e outros
lugares desolados e poderosos.

Em resumo, para que a sua mente não seja afetada pela desgraça e sofrimento, mas
também para extrair felicidade e paz mental dessas coisas em si, temos que fazer isso: não ver
problemas internos como doença, ou problemas externos, como inimigos, espíritos ou fofocas
escandalosas, como indesejáveis e desagradáveis, mas sim, apenas se acostumar a vê-los como
algo agradável e divertido.

Para conseguir isso, temos que parar de considerar situações prejudiciais como
problemas e fazer todos os esforços para vê-los como algo benéfico. Afinal, algo que é
agradável ou desagradável se resume a como é percebido pela mente.

Vejamos um exemplo: se alguém pensa na futilidade dos prazeres mundanos e


distrações, não importa o quanto de riqueza ou aumento do número de pessoas ao seu redor,
tudo que você recebe ira te deixar cansado e entediado. Por outro lado, alguém que vê as coisas
mundanas como algo significativo e benéfico para aumentar o seu poder e influência, pode até
mesmo orar para conseguir.

Com este tipo de treinamento, então:

• A nossa mente e caráter vão se tornar mais pacíficos e mais suaves;


• Nós nos tornamos mais abertos (e mais flexíveis);
• Será mais fácil para os outros se relacionarem com nós;
• Vamos ser corajosos e confiantes;
• Nós nos tornamos livres dos obstáculos à nossa prática do Darma;
• Seremos capazes de tirar proveito de todas as circunstâncias negativas, encontraremos êxito,
boa fortuna e auspiciosidade;
• E a nossa mente estará sempre feliz com a felicidade que nasce da paz interior.

Para seguir um caminho espiritual nesta era degenerada, não podemos fazer sem esse
tipo de proteção. Porque se nós não formos atormentados pelo sofrimento da ansiedade e
irritação, não só irão desaparecer todos os outros tipos de sofrimento, como soldados que
perderam suas armas, mas infortúnios como doença, certamente desaparecerão por si.

Os mestres do passado poderiam dizer:

Se nada te deixa infeliz ou descontente, então sua mente não será perturbada. Como
sua mente não é perturbada, a energia sutil (tib. lung) não será perturbada. Isto
significa que os outros elementos do corpo não serão tampouco perturbados. Como
resultado, sua mente não vai ser perturbada, e assim por diante, como se uma roda de
felicidade estivesse constantemente girando.

Igualmente:

Cavalos e burros com feridas nas costas


Eles são presas fáceis para os abutres.
As pessoas que são propensas ao medo,
Elas são vítimas fáceis de espíritos negativos.
Mas não aqueles cuja natureza é estável e forte.

Assim, aqueles que são sábios, ao ver que toda a felicidade e sofrimento dependem da
mente, buscarão a sua felicidade e bem-estar dentro da mente. Como as causas da felicidade
estão completamente dentro de nós mesmos, não depende de qualquer coisa externa, o que
significa que nada absolutamente, sejam seres sencientes ou qualquer outra coisa, pode provocar
qualquer dano. E mesmo quando eles morrem, esta atitude mental vai seguir, de modo que
sempre, sempre serão livres e terão controle sobre si mesmo.

Esta é a foma que os bodhisattvas alcançam a absorção meditativa (samadhi) chamada


de "dominando todos os fenômenos”. Mas as pessoas tolas vão à caça de circunstâncias e
objetos externos, na esperança de encontrar a felicidade. Mas qualquer que seja a felicidade que
eles tenham, grandes ou pequenas, é dito que:

Você não está no controle, e se encontra nas mãos de outros.


Como se o seu cabelo estivesse amarrado em uma árvore.

O que você espera nunca se torna realidade, as coisas nunca estão bem, e ainda, faz
julgamentos errados, e ocorre um fracasso após o outro. Os inimigos e os ladrões não têm
nenhum problema em causar danos, e até mesmo a menor acusação falsa partirá a sua
felicidade. Não importa o quanto um corvo cuide de um filhote de pardal, ela nunca se tornará
um filhote de pardal. Da mesma forma, se todos os seus esforços são equivocados e baseados
em algo incerto, não produzirão senão cansaso para os deuses, os espíritos, emoções negativas e
sofrimento para si mesmo.

Este “conselho de coração” unifica cem diferentes instruções essenciais sobre um ponto
crucial. Existem muitas outras instruções essenciais sobre aceitar o sofrimento e as dificuldades
como a prática do caminho, e em transformar as doenças e as forças destrutivas no caminho, tal
como ensinado, por exemplo, em ensinamentos sobre compaixão. Mas aqui, de uma forma que
é fácil de entender, eu dei uma visão geral sobre como aceitar o sofrimento, com base nos
escritos do nobre Shantideva e seus seguidores sábios e eruditos.

Como transformar o sofrimento em caminho espiritual por meio da verdade absoluta

Pelo raciocínio através da “refutação da produção em relação aos quatro extremos”, a


mente é conduzida para o vazio, a condição natural das coisas, um estado de suprema paz, e ali
repousa. Neste estado, não é preciso falar sobre as circunstâncias prejudiciais ou sofrimento,
nem mesmo seus nomes podem ser encontrados. Mesmo quando você sair deste estado, não será
como antes, quando o sofrimento surgia em sua mente e você reagia com medo e falta de
confiança. Agora você pode ver como algo irreal e nada menos do que uma categorização.

2. Como Transformar a Felicidade em Camino Espiritual

Através da Verdade Relativa

Cada vez que a felicidade e as diversas coisas que são causas da felicidade aparecem, se
caírmos sob seu domínio, então nós ficaremos mais apegados, arrogantes e pretenciosos, o que
obstruirá nosso caminho e progresso espiritual.

De fato, é dificil não deixar nos arrastar pela felicidade, tal como nos ensinou Padampa Sangye:

Nós seres humanos podermos suportar uma grande quantidade de sofrimento,


Mas muito pouca quantidade de felicidade.

Esta é a razão pela qual necessitamos abrir nossos olhos, já que a felicidade e as coisas
que são causas da felicidade são todas verdadeiramente impermanentes e por natureza, são
sofrimento.
Assm faça seu melhor esforço para despertar um profundo sentido de desilusão, e faça
com que tua mente não se deixe entregar a apatia e negligencia habituais.

Diga a si mesmo: Agora, toda a felicidade e a riqueza material deste mundo são
mínimas e insignificantes, e trazem com elas todo tipo de problemas e dificuldades. Assim, em
certo sentido, tem efetivamente seu lado bom. O Buda disse que alguém cuja liberdade esta
afetada pelo sofrimento tende a ter grande dificuldade em alcançar a iluminação, no entanto
para alguém que está feliz, é mais fácil de alcançar.

Que boa fortuna é então poder praticar o Darma em um estado de felicidade como esse.
Assim, de agora em diante, de qualquer forma que eu possa, devo transformar essa felicidade
em Darma, e então, a partir do Darma, a felicidade e bem estar surgirão continuamente. Assim é
como posso fazer com que o Darma e a felicidade se apoiem um no outro. De outra maneira,
sempre terminará aonde começou — é como tratar de servir água em uma caçarola de madeira.

O ponto principal para entender aqui é que qualquer felicidade, qualquer bem estar que
chegue a gente, devemos uni-lo com a prática do Darma. Essa é toda a visão por de trás de A
Guirlanda de Joias, de Nagarjuna.

Agora, quando podemos ser felizes, se não o reconhecermos, nunca seremos capazes de
fazer uso dessa felicidade como uma oportunidade de praticar o Darma. Sem entender isso,
sempre estaremos esperando alguma felicidade externa que venha dos outros, e desperdiçaremos
a nossa vida em incontáveis planos e ações. O antídoto para isso é aplicar a prática cada vez que
for apropriado, e acima de tudo, saborear o néctar do contentamento.

Existem outras formas de transformar a felicidade em caminho espiritual, especialmente


baseada em recordar da bondade do Buda, Darma e Sanga, e as instruções para engajar-se na
bodichita, mas isso é suficiente por agora. Para utilizar o sofrimento como caminho, do mesmo
modo como a felicidade, necessita digiri-se a um retiro solitário e combinar isso com as práticas
de purificação e acumulação de mérito e sabedoria.

A Dimensão Absoluta
Isso é igual para transformar o sofrimento em caminho espiritual.

O que este treinamento produz

Se somos capazes de praticar quando estamos sofrendo devido a toda ansiedade que
passamos, e não podemos praticar quando estamos felizes devido a nosso apego a felicidade,
então, isso descarta qualquer oportunidade de praticarmos o Darma em absoluto. Essa é a razão
pela qual não existe nada mais crucial para um praticante que esse treinamento de transformar a
felicidade e sofrimento em caminho espiritual.

E se tens esse treinamento, não importa aonde vivas, em um lugar solitário e em meio a
uma cidade; não importa como são as pessoas ao teu redor, boas ou más; seja ricou ou pobre;
feliz ou angustiado; qualquer coisa que tenhas que escutar, elogios ou ofensas, boas ou más
palavras; jamais sentirás o ligeiro medo que poderia fazer te derrubar de alguma maneira. Por
esta razão este treinamento se chama “Yoga que é como um Leão”.

Seja o que fizer, sua mente vai ser alegre e espaçosa, e sua conduta será pura e
benevolente. Mesmo que o seu corpo habiteuma terra impura, sua mente vai divertir-se no
esplendor da alegria inimaginável, como um bodhisattva em um reino puro.

Será de tal como dizem os precisos mestres Kadampa:

Mantenha a felicidade sob controle


Ponha fim ao sofrimento.
Com a felicidade sob controle
O sofrimento chega ao seu fim:
Quando estás completamente sozinho,
Este treinamento será teu verdadeiro amigo;
Quando estiver doente
Será teu remédio.

Por exemplo, um garimpeiro purifica o ouro pelo derretimento dele em fogo e o torna
maleável, enxaguando-o de novo e de novo na água. Da mesma forma, trazendo a felicidade
para o caminho, sua mente irá ser subjugada, e trazendo a adversidade para o caminho, ela se
tornará intocada. Quando isso acontece, você pode facilmente atingir estados extraordinários de
samadhi em que seu corpo e mente será perfeitamente apto para as tarefas que você se propuser
a fazer. Eu sinto que esta é a mais profunda das instruções para aperfeiçoar a disciplina moral,
que é a raiz de tudo o que é bom. Por não estar ligado a felicidade, você estabelece a base para a
disciplina moral especial de um renunciante; e, por não ter medo da adversidade, você purifica
totalmente a moralidade. Isso está implícito ao dizer que a generosidade é a base da disciplina
moral, e a paciência é o purificador da moralidade.

Tal como se diz:

A generosidade forma a base para a disciplina;


E a paciência é aquilo que a purifica.

Treinando nessa prática agora, então quando alcanças a estapas superiores do caminho,
se parecerá com isso:

Compreenderás que todos os fenômenos são como uma iusão, e


E com compaixão realiza que o nascimento é justamente como entrar em jardim
maravilhoso.
Mesmo que encares prosperidade ou ruína,
Não terás medo das emoções negativas ou adversidades.

Para relacionar isto com a vida do Buda, antes de ele atingir a iluminação, ele rejeitou o
trono de um governante do mundo como se fosse de palha, e ele viveu pelo rio Nairanjana,
despreocupadamente aplicando-se a austeridades severas. Isso demonstra que a experimentar a
ambrosia do significado de sua própria existência, você deve considerar a adversidade e
felicidade como sendo de só sabor.

Após a sua iluminação, os governantes dos seres humanos e deuses foram até o céu de
Akanishta e colocaram os pés em cima de suas cabeças e honrou-o com todas as coisas boas. O
brâmane Bharadhvaja abusou dele uma centena de vezes; a filha de um brâmane arrogante
acusou de má conduta sexual; e na terra do Rei Agnidatta viveu por três meses, as forragens
cavalo podre. Em todas essas ocasiões, ele permaneceu com uma mente estável, como o Monte
Meru permanecendo indiferente ao vento. Isso demonstra que para servir as necessidades dos
seres sencientes, você deve considerar a adversidade e felicidade como sendo de um só sabor.

Epílogo

Um ensinamento como este deve realmente ser ensinado por professores Kadampa,
cujas vidas eram a prova de sua afirmação: “Quando angustiado, eles não se queixam. Quando
feliz, eles estão desiludidos”. Quando é ensinado por alguém como eu, sinto como se minha
própria língua ficasse envergonhada. No entanto, a fim de acostumar-me a respeito das oito
preocupações mundanas como sendo de um só sabor, eu, o velho mendigo Tenpe Nyima,
compus isto na Floresta de Muitos Pássaros.

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