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Embriologia, Anatomia e Fisiologia da Mama
Cristos Pritsivelis Rafael Henrique Szymanski Machado

O estudo e conhecimento da formação, estrutura e função das mamas são imprescindíveis para ginecologistas, cirurgiões, mastologistas ou qualquer especialista que se proponha aos seus cuidados médicos. A mama tem como função primária a alimentação da prole no início da vida extra-uterina. Possui ainda papel na sexualidade, bem como importância estética no universo feminino. Entretanto, do ponto de vista morfológico ou do desenvolvimento, tem maior relação com o tegumento, correspondendo à glândula sudorípara modificada e especializada.

menta quatro vezes de tamanho, o complexo aréolo-papilar se pigmenta e se desenvolve (Tabela 4.1). A mama se mantém, então, em estado de repouso relativo até o início da puberdade, quando por ação dos estrogênios e da progesterona retoma a proliferação epitelial ductal com maior ramificação da árvore ductal mamária. O desenvolvimento e amadurecimento mamários só se completam com a gravidez e lactação, quando, por ação da prolactina associada ao cortisol, ao hormônio do crescimento, aos estrogênios, à progesterona, à insulina e à tiroxina, ocorre a diferenciação epitelial alveolar final em células produtoras e secretoras de leite.

EMBRIOLOGIA DA GLÂNDULA MAMÁRIA
O desenvolvimento da glândula mamária tem seu início durante a quinta semana de vida intra-uterina. Inicialmente, há um espessamento do ectoderma ventral que penetra o mesênquima subjacente e se estende, bilateralmente, da axila até a prega inguinal, em faixas conhecidas como linhas ou cristas lácteas (Fig. 4.1). Nos humanos, assim como nos outros primatas, há uma reabsorção destas cristas sendo mantida apenas a porção torácica, onde a glândula mamária completará seu desenvolvimento. Entre a sétima e oitava semanas de gestação, ocorre espessamento no primórdio primário da glândula mamária (denominado estágio de protuberância), seguido por invaginação do ectoderma para o mesênquima (estágio de disco). Nesse mesmo período ocorre crescimento tridimensional do primórdio mamário (estágio globular). Nas semanas seguintes ocorrem os estágios de cone, de brotamento, de ramificação e de canalização, descritos na Tabela 4.1. Finalmente, a diferenciação do parênquima mamário com a formação das unidades loboalveolares ocorre entre a 32a e a 40a semanas de gravidez (estágio vesicular final). Durante esse estágio, a glândula mamária au-

ONGÊNITAS M ALFORMAÇÕES CONGÊNITAS DA GLÂNDULA MAMÁRIA
As malformações mamárias podem dever-se à ausência ou ao subdesenvolvimento da glândula mamária na sua topografia habitual, ou à existência de tecido mamário fora da localização correta das mamas devido à não-regressão completa da crista láctea, o que ocorre em cerca de 2% a 6% das mulheres. A anormalidade mais comum é a politelia, que consiste na existência de mamilo acessório sem parênquima mamário subjacente (Fig. 4.2). Quando há tecido glandular ectópico presente, com ou sem mamilo associado, dá-se o nome de polimastia (Fig. 4.3). Esses achados podem estar presentes em qualquer ponto ao longo da linha láctea. Entretanto, pode ocorrer subdesenvolvimento da mama em sua topografia correta. Esta malformação denomina-se hipoplasia mamária, pode ser uni ou bilateral e se caracteriza por mau desenvolvimento do parênquima mamário. Há casos onde há desenvolvimento da glândula mamária, mas não do mamilo e da aréola. Essa situação caracteriza a atelia, que também pode ser uni ou bilateral. A anomalia mais grave é a amastia (ausência total dos componentes mamários), que é acompanhada de hipoplasia

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2 — Politelia. Fig. Fig. Tabela 4.3 — Polimastia.1 — Linha ou crista láctea. 4. Fig. 4.1 Estágios do Desenvolvimento Embrionário das Mamas Semana Quinta Sétima a oitava Estágios Linha mamária/crista mamária Protuberância/disco/globular Ocorrências Linha mamária/crista mamária/regressão da crista mamária Espessamento do primórdio mamário/invaginação de ectoderma para o mesênquima/crescimento tridimensional Achatamento da crista mamária Diferenciação de musculatura de mamilo e aréola/formação de botões epiteliais/ramificação dos botões em cordões Canalização dos cordões epiteliais Diferenciação de parênquima e formação das estruturas loboalveolares/pigmentação do conjunto mamilo-aréola Décima a 14a 12a a 16a Cone Brotamento e ramificação 20a a 32a 32a a 40a Canalização Vesicular final 32 © Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA . 4.GINECOLOGIA FUNDAMENTAL importante dos músculos peitorais e deformidade da parede torácica. Essa malformação é chamada de síndrome de Poland.

seus limites são: a. serrátil anterior. O complexo aréolo-papilar contém musculatura lisa que se apresenta em disposição radial e concêntrica. provoca diminuição do tamanho. na altura do quarto Fig. A aréola tem forma circular e tamanho variado. Superior: a segunda ou terceira costela. A extensão até a axila forma a cauda axilar ou de Spence. O lóbulo é a unidade morfofuncional da mama. c.4 — Relação da mama com as estruturas da parede torácica e vascularização da mama. É desprovido de pêlos e está localizado. Esses sistemas são envolvidos e entremeados por tecido adiposo e tecido conjuntivo de sustentação. de formato cilíndrico. A glândula mamária se localiza na parede anterior do tórax. Ao se contrair. ductos intralobulares. O sistema ductal é formado pelo ducto principal. b. O sistema lobular consiste de pequenas formações saculares. aproximadamente. formam o lóbulo mamário. Sua pele é semelhante à da aréola. 4. Todo esse conjunto compõe o parênquima mamário. formando o seio galactóforo ou lactífero. Esses ductos principais (galactóforos ou lactíferos) seguem em direção aos seus óstios na papila. São separados uns dos outros por projeções de tecido fibroso que envolve o parênquima mamário. Nessa região há grande quantidade de terminações nervosas sensitivas. Nela são encontradas glândulas sebáceas especializadas. Dependendo do seu tamanho e forma. propriamente dita. Fig. conhecidas como tubérculos de Montgomery. Do centro da aréola. A contração dessas fibras musculares provoca a compressão dos seios lactíferos (dilatações subareolares dos ductos lactíferos). é recoberta por pele que. Inferior: a sexta ou sétima costela. que durante a gestação se hipertrofiam. juntamente com o ducto terminal correspondente a cada ácino. d. 4. Esses são em número de dez a 20. Externamente. ao nível dos lóbulos. emerge a papila. © Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA 33 . linfáticos e nervos.5 — Ramificações do sistema ductal. mas não possui glândulas sebáceas. como os corpos de Ruffini e os corpúsculos de Krause. oblíquo externo e com a bainha do músculo reto-abdominal (Fig. 4. Cada lobo apresenta um ducto principal com suas ramificações. além de ser imprescindível na abordagem cirúrgica de doenças mamárias. Medial: a borda do osso esterno. São em número de dez a 100 que. Posteriormente. formando o complexo aréolo-papilar. denominadas alvéolos ou ácinos. indo formar ductos extralobulares. tem tamanho médio de 10 a 12 cm de diâmetro e sua espessura central é de 5 a 7 cm. é formado por dois sistemas: ductal e lobular. ela está em contato com a fáscia profunda dos músculos grande peitoral. por onde passam vasos sangüíneos. endurecimento e ereção da papila. até que. 4. Sob a aréola se dilatam. Tais ductos principais se ramificam por dicotomização.GINECOLOGIA FUNDAMENTAL NATOMIA ANATOMIA DA MAMA Morfologia O conhecimento da anatomia da mama e das estruturas vizinhas é de grande importância para entender a evolução e o comportamento das lesões mamárias. O corpo glandular ou glândula mamária.4). tenhamos os ductos terminais (Fig. Possui de dez a 20 óstios que correspondem à desembocadura dos ductos galactóforos ou lactíferos. o estroma mamário. Lateral: a linha axilar média ou borda anterior do músculo grande dorsal. em sua região central. apresenta-se como uma área de coloração mais escura. Esse é composto de duas estruturas: aréola e papila. que possui ramificações intra e extralobulares.5). arco costal. Os lóbulos se reúnem para formar os lobos mamários.

tem como principal referência o músculo peitoral menor (Fig. principalmente por cirurgiões que tratam o câncer de mama. em especial seu quadrante superior externo.7): • Nível I: linfonodos localizados lateralmente à borda externa do músculo peitoral menor. ramos intercostais da aorta. grupo é composto por um plexo na face profunda da mama que pode atingir também os linfonodos mamários internos (Fig. Suprimento Sangüíneo A vascularização arterial da mama é feita por ramos perfurantes da artéria mamária interna. Drenagem Linfática A linfa drenada da mama vai maciçamente para axila (de 97% a 99%). artéria subescapular e artéria toracodorsal (Fig. Sob esse tecido adiposo subcutâneo. acompanham a camada superficial da fáscia e drenam para a veia mamária interna. 2. veias superficiais do pescoço e jugular interna. principalmente as regiões medial e central. são irrigados pela artéria torácica lateral. Do folheto anterior partem feixes fibrosos que se comunicam com a derme e se projetam em direção ao parênquima mamário. 4. para seu suprimento: o ramo peitoral da artéria toracoacromial. os linfonodos interpeitorais.6 — Arquitetura da estrutura mamária. As veias superficiais Gordura Pré-mamária (fossetas de Duret) Tecido fibroso Ligamentos de Cooper Complexo aréolo-papilar Seio galactóforo Gordura superficial Sistema lobular Ducto maior Ductos menores Fig. grupo que consiste de canais do tecido glandular e da pele da parte central da mama formando o plexo subareolar (de Sappey). Também contribuem. Cerca de 60% da mama. Já 30% da mama. enquanto apenas uma pequena parte drenada vai para a cadeia mamária interna (de 1% a 3%). O folheto posterior da fáscia peitoral superficial reveste a porção posterior da mama e está separada da fáscia peitoral profunda pelo espaço retromamário.6 representa a arquitetura mamária. A drenagem profunda ocorre pelas veias mamária interna. 4. ramos da artéria torácica lateral e pelos ramos intercostais originários da aorta.4). A Fig. que os revestem internamente. também conhecida como torácica interna. 3. 4. preenchido por tecido adiposo que possibilita a movimentação da mama sobre o músculo peitoral maior. em menor grau. juntamente com os vasos linfáticos. ao longo do nervo peitoral lateral. conhecidos como linfonodos de Rotter. São conhecidos como ligamentos suspensores da mama ou ligamentos de Cooper. acompanham o suprimento arterial. • Nível II: linfonodos localizados sob e entre as bordas do músculo peitoral menor. A drenagem venosa ocorre por veias superficiais e profundas que. encontramos o folheto anterior da fáscia peitoral superficial. Sob a pele. Quando estes ligamentos estão comprometidos por lesão maligna pode haver retração de pele sobre o tumor. são nutridos por ramificações da artéria mamária interna. Grupo que se origina de canais que se encontram dentro da glândula. Existem. A mais usada. também. e uma camada externa de células mioepiteliais.7). 34 © Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA . axilar e ramos intercostais. localizados entre os músculos peitoral maior e peitoral menor. Classificação dos Linfonodos Axilares Existem várias classificações para os linfonodos axilares. nos espaços interlobulares e canais lactíferos. 4. Essa é contínua com a fáscia abdominal de Camper. A drenagem da linfa ocorre por três grupos interconectados de vasos linfáticos: 1. 4. a glândula mamária é envolvida por gordura que se projeta em direção do corpo glandular mamário. • Nível III: linfonodos localizados medialmente à borda interna do músculo peitoral menor.GINECOLOGIA FUNDAMENTAL Tanto o sistema ductal quanto o lobular contêm um sistema epitelial composto de células secretoras e absortivas.

com a queda dos níveis hormonais. O estímulo tátil local ativa os nervos sensoriais locais. pp. 1a ed. também ocorre a conversão das células alveolares terminais inativas em secretoras de leite. podendo ser observada grande quantidade de mitoses. Moore KL. Durante a fase proliferativa o tecido epitelial se desenvolve rapidamente. ONSULT BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 1. os ductos mamários se dilatam e as células epiteliais alveolares são diferenciadas em células secretoras que se dispõem. O estrogênio pode ter ação semelhante à da histamina. por volta de três dias antes da menstruação. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. mas a progesterona diminui a ligação prolactina-receptor e. 3. predominantemente. sob o efeito dos hormônios lúteos e placentários. principalmente. 1988. acarretando a liberação de ocitocina. pp. Com a ação dos hormônios mencionados. Franco JM. ao edema interlobular e à proliferação ducto-acinar. 4a ed. A sucção do complexo aréolo-papilar pelo recém-nascido é complementada por uma ejeção ativa. 1990. o que desencadeia um maior aumento dos níveis de prolactina. 1089-1092. Rio de Janeiro: Editora Atheneu. há um aumento do volume mamário devido ao aumento da circulação local. devido aos níveis crescentes de estrogênio que agem através de receptores intracelulares. que se contraem e ejetam o leite dos alvéolos. há um aumento no número de ductos intralobulares. Editora Guanabara. Gray H. após a suspensão da amamentação. 29a edição. Embriologia Clínica. Esta. 4. sendo conduzido pelas raízes dorsais da medula espinhal e posteriormente pelos tratos espinotalâmicos para o mesencéfalo e hipotálamo. diminui a atividade secretora do epitélio juntamente com o edema local.7 — Drenagem linfática da mama. prolactina e gonadrotrofina coriônica e também cortisol e insulina. são necessários sete dias para seus níveis serem normalizados. em uma única camada. Este aumenta de tamanho e sua pele torna-se mais espessa e pigmentada. Com o esvaziamento dos ductos há uma percepção da diminuição da pressão local. Durante a evolução da gravidez há um aumento progressivo da secreção de prolactina. lóbulos e alvéolos. 2. Glândula Mamária. permitindo a apojadura (início da secreção láctea).GINECOLOGIA FUNDAMENTAL Há também modificações no complexo aréolo-papilar. Pós-menopausa Com o fim da função ovariana e conseqüente queda dos níveis de estrogênio e progesterona. os estrogênios e progesterona são depurados. a rede venosa superficial se torna visível e passa a ser chamada de rede de Haller. Após a menstruação. como efeito do aumento das secreções de estrogênio e progesterona. Já a prolactina tem uma depuração mais lenta e. © Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA 35 . Com o aumento da vascularização. Esta induz a diferenciação das células pré-secretórias em secretórias. ductos e estroma. com o aumento da secreção de progesterona. 1988. Em três dias pós-parto. GH e tiroxina. Durante a sucção do mamilo. 29a ed. através da microcirculação. 1089-1092. F ISIOLOGIA DA MAMA Alterações Cíclicas da Mama A mama sofre uma série de mudanças durante todo o ciclo menstrual. a mama passa a ser uma glândula atrófica. por sua vez. Mastologia — Formação do Especialista. 332-333. de forma semelhante. atua nas células mioepiteliais. sendo substituídos por tecido conjuntivo hialinizado e tecido adiposo. Gestação Na gestação. há aumento agudo da prolactina. insulina. Na segunda fase do ciclo. Há também estímulo do núcleo paraventricular no hipotálamo. pp. fundamental para a produção de leite. Philadelphia. desta forma. Desta forma. Goss CM. In: Gray Anatomia. cessa o estímulo hormonal placentário e há um predomínio dos efeitos da prolactina. O estrogênio e a progesterona agem aumentando seus receptores. Desta forma. 2000. Fig. Anatomia. não ocorre a produção láctea antes do término da gestação. que podem ser observadas tanto no epitélio como no estroma. Durante o período pré-mestrual. hormônio lactogênio placentário (hPL). Seus efeitos são dependentes da presença de cortisol. 11-17. As glândulas areolares se desenvolvem e formam os tubérculos de Montgomery. pp. 3. Lactação Com o fim do período gestacional. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. há uma regressão nos lóbulos. é estimulada a produção das proteínas lácteas. Isto ocorre. ocasionando um aumento do fluxo sangüíneo.

Oliveira FAR. 2a edição. <orrow M 7 Osborne CK. Atlas of Human Anatomy. 6. 167-169. New Jersey: CibaGeigy Corporation. 1989. In: Tratado de Ginecologia da Febrasgo. 01-15. pp. 5. 2000. 2002. Osborne MP. 1999. Speroff L. In: Harris JR. pp.GINECOLOGIA FUNDAMENTAL 4. Netter FH. Embriologia e Fisiologia da Glândula Mamária. Clinical Gynecologic Endocrinology and Infertility. pp. 48-54. pp. Lippman ME. Rio de Janeiro: Medsi. Summit. Philadelphia: Lippincott Willams & Wilkins. 595-641. Rio de Janeiro: Revinter. 36 © Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA . 6a ed. Doenças da Mama. Anatomia e Desenvolvimento da Mama. Anatomia. 7.

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