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A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO PSDB*

ENTRE 1988 E 1999

Celso Roma

Há poucas análises sobre os partidos políticos gências de alguns parlamentares em relação à


brasileiros do atual período democrático. Ainda aliança que o PMDB cultivava com a direita – o
mais escassos são os trabalhos que os abordam PFL – e em relação ao casuísmo da prorrogação
como uma estrutura organizacional. Com relação do mandato presidencial para cinco anos, cujo be-
ao PSDB, partido cujo desempenho eleitoral o con- neficiário imediato seria o então presidente Sar-
duziu em pouco tempo ao preenchimento de vá- ney. O segundo consenso é de que a aliança que o
rios cargos eletivos em todo Brasil, além de serem PSDB selou com o PFL, a partir da eleição de 1994,
poucos os analistas que o tomaram como objeto de foi uma ação essencialmente pragmática, o que te-
investigação, isto foi feito apenas tangencialmente. ria descaracterizado sua orientação ideológica.
Apesar disso, há pelo menos dois consensos nessa Minha proposta neste artigo é oferecer uma
literatura. O primeiro é de que a criação do PSDB explicação alternativa tanto para o surgimento
ocorreu por motivos ideológicos, devido às diver- quanto para a evolução do PSDB, contrariando as
duas correntes até então aceitas e invertendo o
rumo das explicações que foram consolidadas
* Esta pesquisa foi financiada pela Fapesp, sob a pela literatura. Quanto ao surgimento do PSDB, se-
orientação de Fernando Limongi. Agradeço a Maria rão apresentadas evidências sobre a cisão do
D’Alva Kinzo e Raquel Meneguello, que contribuí- PMDB, que teria relação mais com objetivos prag-
ram com críticas ao texto original; a Paulo Peres,
mático-eleitorais do que com objetivos ideológicos.
que colaborou com a revisão; e aos pareceristas
anônimos pelas sugestões que contribuíram para a Quanto à sua evolução, ao contrário, procurarei
elaboração deste artigo. mostrar que a aliança com o PFL nas disputas elei-

RBCS Vol. 17 no 49 junho/2002


o
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torais e na arena legislativa pode ser explicada mais políticos retomou, nos últimos anos, a dimensão
por motivos ideológicos do que por motivos prag- organizacional como uma variável fundamental na
máticos. Finalmente, esta análise explora um ter- explicação do seu desempenho eleitoral e governa-
ceiro ponto, qual seja, a relação entre o tipo de mental nas democracias contemporâneas.
estrutura organizacional do PSDB e sua ação es- O foco analítico adotado neste trabalho parte
tratégica eleitoral bem-sucedida. Minha hipótese, dessa concepção e toma a organização partidária
neste caso, é a de que a facilidade que o partido como unidade de análise, considerando-a como
teve em estabelecer alianças com maior potencial variável de constrangimento à ação das lideranças
eleitoral e de governo com partidos de direita se do partido.1 A institucionalização do partido será
deve ao desenho institucional de sua organização, apreendida aqui a partir da análise de sua origem
que confere autonomia aos diretórios quando e de seu desenvolvimento, em que são focalizadas
ocorrem disputas locais e centraliza a coordenação duas dimensões relevantes: a ideologia dos mem-
estratégica nas disputas nacionais. bros do partido e a estrutura de tomada de decisão.
A premissa teórica a ser seguida é a de que Segundo Panebianco (1990), a institucionalização
o modelo de organização partidária tem peso fun- partidária inicia-se no momento de sua fundação,
damental no processo de tomada de decisão das percorre os procedimentos adotados nas eleições
lideranças e que, no caso do PSDB, muito de sua para mobilizar suporte aos seus candidatos e a sua
evolução pode ser entendido a partir da análise participação no governo, e encerra-se na recorrên-
cia dos padrões de comportamento.
de sua origem e de sua estrutura organizacional.
Conforme será demonstrado, o PSDB foi
criado por parlamentares em busca de espaço de
poder, portanto, a partir de uma ação estratégica
O partido como unidade de análise
pragmática. Sua criação como partido interno ao
sistema parlamentar propiciou uma estrutura orga-
Nos últimos vinte anos, a análise da trajetória
nizacional fraca, descentralizada, a inexistência de
dos partidos políticos tendeu a abordá-los quase
atividades extra-eleitoral e pequena participação
que exclusivamente a partir de sua atuação no sis-
dos filiados e a falta de instâncias democráticas de
tema partidário. Esse tipo de abordagem, todavia, é
veto às decisões das elites dirigentes. Essa estrutu-
apenas parcial, pois desconsidera que um partido,
ra, por sua vez, facilitou a aproximação entre o
antes de competir em eleições ou de participar de
partido e o PFL, principalmente porque o progra-
determinado governo, deve se constituir como or- ma de governo de ambos os partidos apresenta
ganização (Kirchheimer, 1966; Duverger, 1970; Mi- uma visão ideológica próxima do liberalismo.
chels, 1977). A modalidade de organização de um
partido estabelece o desenho da estrutura interna
de poder, delimita as regras de filiação e define o A origem do PSDB: ideologia ou
programa e as diretrizes políticas que orientarão a pragmatismo?
ação partidária (Lawson & Merkl, 1988; Lawson,
1994; Strom, 1990). Estes elementos, por sua vez, O PSDB surgiu em 1988 como resultado de
interferem tanto na competição interpartidária – uma cisão coletiva de parlamentares do PMDB que
como a formação de alianças na arena eleitoral e se autodenominavam a ala mais progressista e à es-
legislativa – quanto no desempenho dos partidos querda deste partido. Embora se intitulasse como
no governo – como a formação de coalizões (Mul- um partido social-democrata, diferentemente dos
ler & Strom, 1999). Dessa forma, fica evidente o partidos social-democratas clássicos europeus, que
quanto é importante explorar a dinâmica interna se originaram articulados às massas trabalhadoras e
do partido, uma vez que isto permite compreender aos sindicatos, o PSDB teve uma origem exclusiva-
como essa organização atua e como o poder é mente parlamentar, já tendo, portanto, em sua
exercido dentro e por meio dessa. Isso explica por- composição inicial, políticos bastante influentes no
que parte da literatura especializada em partidos cenário político nacional.2
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Segundo os estudos que analisaram a origem chegar ao poder federal e, mais ou menos oito
do PSDB, três fatores teriam motivado a criação do anos após sua fundação, conseguiu dobrar a dura-
partido. O primeiro seria relativo às distensões in- ção do mandato presidencial. Em outras palavras,
ternas na bancada parlamentar do PMDB durante as explicações para sua criação, centradas em
os trabalhos na Assembléia Nacional Constituinte questões ideológicas, argumentando haver oposi-
entre 1987 e 1988, principalmente nas questões so- ção do partido às alianças com a direita e ao casuís-
bre sistema de governo – presidencialismo versus mo da prorrogação do mandato presidencial, reve-
parlamentarismo – e da duração do mandato do laram-se, ao longo do tempo, inconsistentes, visto
presidente José Sarney – quatro ou cinco anos que o próprio PSDB adotou tais estratégias de ação
(Kinzo, 1993). O segundo fator seria o predomínio pouco tempo depois da sua fundação.
do grupo quercista em São Paulo que disputava Há três elementos importantes que influencia-
posições de poder no interior do PMDB. Orestes ram na decisão de fundar o PSDB e que ainda não
Quércia, que controlava a organização peemede- foram devidamente considerados. O primeiro é o
bista, venceu esses políticos influentes, deixando- pouquíssimo espaço político que o governo Sarney
os sem espaço de atuação no interior do partido concedeu aos políticos fundadores deste partido. O
(Melhen, 1998). Já o terceiro seria a apresentação segundo é a exclusão destes políticos do processo
da candidatura de João Leiva para a prefeitura de sucessório à presidência da República. Já o tercei-
São Paulo, articulada no interior do PMDB paulista ro elemento articula-se, de forma estratégica, com
a partir de uma aliança entre políticos conservado- os anteriores, pois consiste na abertura de um mer-
res do PFL e o prefeito de São Paulo, Jânio Qua- cado de eleitores de centro descontentes com o go-
dros. A composição dessa candidatura, aliás, foi verno federal.
considerada o motivo final que impulsionou a rup- Com relação ao primeiro elemento, é fácil
tura dos fundadores peessedebistas com o PMDB constatar, no governo Sarney, a ausência dos prin-
(Lamounier, 1989). cipais fundadores do PSDB. Alijados dos espaços
Essas interpretações valorizam em demasia o de poder do Executivo e dos recursos de governo,
aspecto ideológico como variável explicativa da estes políticos de longa experiência em cargos re-
fundação do PSDB. Acompanhando a evolução do presentativos, tanto no poder Executivo como no
partido, podemos observar que há evidências fac- Legislativo, viram-se com oportunidades reduzidas
tuais questionando a origem do partido como sen- de concorrer, dentro do partido, ao governo fede-
do resultado da simples discordância de suas lide- ral, especialmente com a postura favorável de Sar-
ranças em relação a alianças com partidos de direi- ney ao presidencialismo e à prorrogação do seu
ta e à prorrogação do mandato presidencial. Não mandato para cinco anos. A permanência desse
obstante pudesse parecer naquele momento que grupo fundador do PSDB no PMDB, significava
tais motivos levaram um grupo de parlamentares à pouca oportunidade de acesso às pastas ministe-
cisão do PMDB, o fato é que seis anos mais tarde, riais ou aos demais cargos governamentais. Em
quando o PSDB conquistou o governo federal, as- grande parte, só é possível entender o comporta-
sim o fez em coligação justamente com o PFL, que, mento estratégico da liderança do PSDB na arena
juntamente com o PMDB, compõe a coalizão legis- legislativa – com uma postura inicial de críticas di-
lativa de sustentação ao presidente Fernando Hen- rigidas ao PMDB e ao PFL em seu manifesto de
rique Cardoso já em dois mandatos consecutivos. fundação, em 1988 –, devido ao reduzido acesso
Além disso, ao longo do primeiro mandato, o aos postos de governo naquele contexto.
PSDB e sua coalizão partidária empenharam-se na Os outros dois elementos a serem considera-
aprovação da emenda da reeleição que, na prática, dos envolvem uma estratégia eleitoral para o jogo
possibilitou ao presidente Cardoso prorrogar seu político da eleição presidencial de 1989. Nesse
mandato de quatro para oito anos. caso, uma vez constatado que a única forma viá-
Portanto, seis anos após sua fundação, o vel de acesso ao governo federal seria por meio
PSDB construiu uma aliança de centro-direita para de outro partido que não o PMDB, a estratégia
o
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adotada para a fundação do PSDB levou em con- ziram rapidamente à conquista de vários cargos
sideração a abertura de um nicho de mercado eletivos, inclusive o governo federal.5 A explicação
eleitoral, aproveitando a massa de eleitores que se a ser apresentada baseia-se em dois argumentos
identificavam com o centro, mas que, àquela altu- fundamentais. O primeiro é que a estrutura orga-
ra, rejeitavam o governo Sarney. Assim, a insatis- nizacional do partido, por um lado, possui poucas
fação dos eleitores quanto à atuação do PMDB no instâncias de veto, concentrando poder de decisão
governo e no Congresso Nacional, agravada com nas lideranças, e, por outro, confere autonomia
a atitude do partido na aprovação do mandato de aos diretórios na tomada de decisão sobre ques-
cinco anos para o presidente Sarney, abria um tões locais. Com isto, as decisões nacionais podem
mercado eleitoral para a atuação de um novo par- ser coordenadas no centro, enquanto as instâncias
tido que, em contrapartida, congregasse a ala mais locais mantêm sua autonomia. O segundo é que a
progressista do PMDB, buscando preservar a posi- ambigüidade das expectativas de sua militância e
ção ideológica de centro, e que, estrategicamente, as ações concretas do partido reside na diferença
compartilhasse o descontentamento dos eleitores de visão ideológica a respeito das funções do Es-
em relação à atuação do governo. Embora excluí- tado entre militância e liderança. Os dados a se-
do do processo sucessório no interior do PMDB, guir mostram que a aliança com o PFL, neste caso,
um dos integrantes do grupo que iria fundar o foi favorecida por uma estrutura organizacional
PSDB, Mário Covas, aparecia entre os candidatos fraca, em que não havia instâncias institucionais
preferidos do eleitorado para ocupar o cargo de concretas para a militância exercer poder de veto,
presidente nas pesquisas de intenção de voto. Por- e, acima de tudo, por afinidades ideológicas entre
tanto, a disputa pelo cargo de presidente da Repú- as lideranças de ambos os partidos em torno de
blica levou a um rearranjo do quadro partidário teses vinculadas ao ideário liberal.
brasileiro, resultando numa disputa pelo espaço de
centro entre dois partidos: PMDB e PSDB.3 Ideologia partidária
Dessa forma, a origem do PSDB pode ser ex-
Freqüentemente afirma-se que o PSDB, a
plicada com maior consistência por sua orienta-
partir de 1994, deslocou-se ideologicamente de
ção mais pragmático-eleitoral do que ideológica.
uma posição de centro-esquerda para a de direita
Tratou-se da cisão de um grupo de deputados fe-
no espaço político. Esse deslocamento estaria ex-
derais e senadores que acreditavam somente ter
presso na redefinição de suas diretrizes políticas,
possibilidade de conquistar cargos no governo fe-
deral, principalmente a presidência da República, deixando de lado o ideário social-democrata para
aproveitando-se do capital político acumulado adotar um programa de governo rotulado como
pelo e no PMDB, mas por meio de outro partido. neoliberal. Esta guinada para a direita, com políti-
Nesse contexto, as lideranças peessedebistas apre- cas mais favoráveis ao mercado, teria sido, sobre-
sentaram-se, na sua origem, com um discurso de tudo, o custo que o partido teve de pagar para
centro-esquerda, diferenciando-se do governo chegar ao governo e para governar em aliança
José Sarney, do qual estavam excluídos, e da sua com o PFL. Entretanto, ao contrário do que se
base de sustentação formada por parlamentares convencionou acreditar, essa orientação progra-
de centro-direita, filiados ao PMDB e PFL.4 mática liberal já estava claramente estabelecida
desde a origem do partido.6
Em 1988, o PSDB publicou um manifesto no
Estrutura partidária: perfil ideológico qual anunciava os princípios ideológicos de sua
e instâncias de veto organização partidária. Embora, por este manifes-
to, o partido tenha procurado ocupar uma posição
Nesta seção, apresento evidências de que a de centro-esquerda no espaço político nacional,
evolução do PSDB, dada a sua estrutura organiza- apresentando preocupações (justiça social, distri-
cional, facilitou a adoção de uma estratégia de buição de renda, soberania nacional, emprego e
alianças eleitorais e governamentais que o condu- reforma agrária) que o aproximavam dos partidos
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situados à esquerda (e que, como vimos, cumpria qual a concebia, por exemplo, Hélio Jaguaribe, um
os objetivos de conquistar este nicho do mercado dos principais teóricos do partido:
eleitoral), seu programa apresentava outras carac-
terísticas. O programa de governo do PSDB, tam- A social-democracia é a síntese teórica e histórica
que superou as limitações do capitalismo do sé-
bém elaborado em 1988, orientou-se por uma
culo XIX e os aspectos inaceitáveis do socialismo
agenda política com teor claramente liberal – des-
estatizante. A essência do modelo social-democrá-
regulamentação da economia, abertura econômica tico consiste na preservação de uma economia de
ao capital estrangeiro e privatização das empresas mercado, com todo o dinamismo e a criatividade
estatais. Nesse programa, a intenção declarada era da iniciativa privada, submetendo-a, através de
a de romper com o caráter nacionalista e estatizan- um Estado democrático, a um controle social. É
te que caracterizava a feição do Estado brasileiro essa grande síntese, que reúne o legado positivo
desde o governo Vargas na década de 1930. As das experiências e idéias da economia de merca-
do com o da justiça social, que o PSDB se propõe
principais diretrizes definidas para nortear um
a realizar, nas condições brasileiras (Hélio Jagua-
futuro governo seriam a ênfase na estabilidade ribe, Social-Democracia Hoje, 1990).
monetária como condição antecedente para o
crescimento econômico e a alternativa do merca- Com relação aos problemas sociais – princi-
do para suplantar o modelo nacional desenvolvi- palmente desigualdade social e pobreza –, a supo-
mentista centrado no Estado. Esta formulação foi sição estabelecida pelo programa do partido é a
claramente exposta já em 1990, na declaração de de que estes seriam resolvidos em decorrência da
Fernando Henrique Cardoso: estabilidade monetária, da austeridade fiscal, da
descentralização da administração pública e do
É preciso reconhecer que a tradição social-demo- crescimento econômico sustentável. Isto funda-
crática de basear sua força na crítica das desigual- mentalmente porque suas lideranças consideravam
dades provocadas pelo mercado (isto é, pela livre
que esta seria a terapia mais adequada à resolução
exploração da força de trabalho e pela acumulação
dos dois maiores problemas estruturais do Estado
de capitais), que devem ser corrigidas por políticas
sociais e fiscais, esbarra com a vaga do liberalismo brasileiro: a crise fiscal e o patrimonialismo.
triunfante. [...] A social-democracia desloca, portan- Para os fundadores do partido, esse progra-
to, o eixo da opção entre estatal ou privado do pla- ma seria uma alternativa tanto ao estatismo de es-
no ideológico para um plano objetivo: importantes querda quanto ao populismo de direita, baseados,
são as condições que devem ser criadas para o ambos, num padrão de grande intervenção do Es-
funcionamento da economia. A gestão predadora, tado na economia e no descontrole fiscal. Segun-
patrimonialista, e a corrupção podem existir no do uma de suas lideranças, embora o programa
setor estatal ou privado. Ambas são condenáveis.
do partido fosse amplamente favorável ao merca-
O mercado competitivo é o antídoto para esses
do, seu conteúdo substancial tampouco seria fun-
males (Fernando Henrique Cardoso, Social-De-
mocracia Hoje, 1990).
damentado na defesa de um Estado mínimo e da
plena liberdade de funcionamento da economia.
No que se refere à forma de representação de Neste caso, conforme enfatizou Luiz Carlos Bres-
interesses, o programa peessedebista estabelecia ser Pereira, os peessedebistas também seriam uma
que as organizações da sociedade civil deveriam se alternativa ao neoliberalismo:
manifestar de forma autônoma, sem interferência Desde quando eliminar monopólios estatais, des-
do Estado. Quanto aos trabalhadores urbanos e ru- de quando eliminar privilégios na previdência e
rais, por exemplo, o PSDB se negava a conduzir recuperar seu equilíbrio financeiro, desde quando
suas negociações e intervir em suas reivindicações, reformar o aparelho de Estado e tornar a burocra-
cia mais responsável perante o governo e a nação,
incentivando a livre negociação entre patrões e em-
desde quando abrir o país de forma pragmática,
pregados e privilegiando a autonomia sindical. Esta desde quando lutar dia-a-dia pelo ajuste fiscal e a
seria uma iniciativa colocada pela social-democra- estabilidade da moeda é estar engajado em refor-
cia em busca de novas funções para o Estado, tal mas neoliberais? (Bresser Pereira, 1997, p. 68).
o
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A construção da identidade programática do direita e ascendeu ao governo federal, traduzindo,


PSDB revela um dilema ideológico entre se decla- assim, essa concepção em política concreta.
rar social-democrata, de um lado, e apresentar um A congruência entre as convicções políticas
programa de governo orientado por teses liberais, de suas lideranças, a aliança política e as medidas
de outro. Este dilema inicial, de certa forma, im- implementadas pelo governo Fernando Henrique
pôs uma diferenciação importante no que se refe- Cardoso pode ser verificada pela análise de dados
re à composição dos membros do partido. O dis- de uma pesquisa sobre a carreira, o comportamen-
curso ideológico social-democrata, explicitamente to e as atitudes dos representantes filiados ao
manifestado no conteúdo dos documentos parti- PSDB.7 Os dados, apresentados na tabela a seguir,
dários e nos cursos de formação política ministra- evidenciam o predomínio de uma concepção mais
dos pelo partido, foi fundamental no processo de liberal na visão ideológica dessas lideranças, o que
mobilização de filiados e militantes no interior do explica a composição de uma coligação de centro-
PSDB, o que conferiu um viés mais de esquerda direita para viabilizar a candidatura de Fernando
na sua origem. A tônica liberal, presente no seu Henrique em 1994 e, nos anos subseqüentes, a
programa de governo, por outro lado, predomi- formação de uma coalizão de governo que incluía
nou como concepção ideológica de seus mem- outros partidos mais à direita do espectro político,
bros dirigentes com cargos eletivos. A visão pro- entre eles, PTB e PPB. Essa adesão ao ideário libe-
gramática liberal também prevaleceu na determi- ral tornou inviável uma aliança eleitoral e legislati-
nação das estratégias de aliança adotadas pelo va com partidos de esquerda, especialmente em se
PSDB que, em 1994, coligou-se com partidos de tratando do PT e PDT.

TABELA 1
Distribuição dos Filiados Eleitos pelo PSDB, por Tipo de Função Exercida, Segundo a sua
Definição Ideológica e suas Convicções Políticas, 1997 (em porcentagem)

DEFINIÇÃO IDEOLÓGICA VEREADORES PREFEITOS E OUTROS


VICE-PREFEITOS
Esquerda 11 1 3
Centro-esquerda 36 54 68
Centro 19 25 24
Centro-direita 18 12 5
Direita 17 9 -
Total 100 (831) 100 (93) 100 (37)
Convicções políticas (2)
A propriedade privada é essencial ao progresso 87 89 92
econômico (827) (98) (37)
Fatores técnicos devem pesar mais que fatores políti- 78 79 53
cos na solução dos problemas brasileiros (833) (96) (36)
Sem interferência do Estado, o setor privado investiria 76 82 73
mais e seria mais produtivo (828) (98) (37)
As políticas de distribuição de renda prejudicam os 45 42 22
mais competentes (846) (97) (37)
Os conflitos políticos trazem prejuízos para a 85 84 46
sociedade (846) (97) (37)

Fonte: DATAUnB. PSDB – Instituto Teotônio Vilela.


(1) Os números entre parênteses correspondem à freqüência absoluta.
(2) Cada percentual corresponde à categoria “concorda”.
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Os dados da Tabela 1 mostram que, ao mes- declararam como sendo ou de centro-direita ou


mo tempo em que os políticos do PSDB se posi- de direita.
cionam, em sua maioria, ao centro, com maior in- Quanto às convicções políticas de suas lide-
clinação à esquerda do espectro ideológico, suas ranças e de sua proximidade com as propostas libe-
convicções políticas são convergentes com pro- rais, a análise pode ser mais bem detalhada com as
postas mais liberais. A defesa da propriedade pri- informações da Tabela 2, na qual são distribuídas as
vada como algo essencial ao desenvolvimento respostas sobre o tipo de mudança social e de re-
econômico é bastante elevada e bastante seme- forma do Estado que deveriam ser implementadas
lhante nas três categorias. As lideranças locais são no Brasil. Em relação à amplitude das mudanças
mais favoráveis à resolução técnica de questões políticas e sociais necessárias, há uma posição cla-
políticas e todas as categorias, ou seja, tanto as de ramente reformista, sendo que as lideranças na-
caráter local como as de caráter supralocal, são cionais e estaduais, mais diretamente responsáveis
adeptas à retirada do Estado da esfera econômica. por este tipo de medida, são ligeiramente mais re-
Podemos observar também que as lideranças lo- formistas do que as lideranças locais. No que se
cais apresentam um considerável grau de conser- refere à reforma do Estado, é possível verificar cla-
vadorismo, à medida que são extremamente con- ramente a adesão de uma expressiva maioria das
trárias a conflitos de natureza política, o que é lideranças aos tipos de propostas defendidas e im-
compatível com sua defesa de critérios técnicos plementadas pelo partido ao longo de seus dois
na resolução de problemas. Uma proporção ele- mandatos presidenciais. Tanto as lideranças locais
vada destas mesmas lideranças possui inclusive quanto as supralocais são amplamente favoráveis
uma visão negativa a respeito de políticas de dis- às privatizações e à reforma do funcionalismo se-
tribuição de renda. Outro ponto importante a ser gundo um modelo de racionalização administrati-
destacado é a porcentagem relativamente elevada va existente no mercado privado, incluindo-se o
de vereadores, vice-prefeitos e prefeitos que se sistema previdenciário.

TABELA 2
Distribuição dos Filiados Eleitos pelo PSDB, por Tipo de Função Exercida, Segundo o
Escopo da Mudança na Política e na Vida em Sociedade, 1997 (em porcentagem)

ESCOPO DA MUDANÇA NA POLÍTICA E NA SOCIEDADE VEREADORES PREFEITOS E VICE-PREFEITOS OUTROS

É preciso uma mudança revolucionária 30 27 22

Bastam algumas reformas 62 61 73


Não precisa mudar, basta somente esperar os resultados 8 12 5
Total 100 (818) 100 (95) 100 (37)
Medidas para Reforma do Estado
Privatização de empresas e serviços, fim da estabili-
dade e redução do número de funcionários públicos 70 84 69
Desburocratização, descentralização e reciclagem
dos funcionários públicos 88 95 90
Mudanças das regras da aposentadoria 67 69 81
Total 100 (818) 100 (95) 100 (37)

Fonte: DATAUnB. PSDB – Instituto Teotônio Vilela.


(1) Os números entre parênteses correspondem à freqüência absoluta.
(2) O percentual se refere à prioridade considerada alta.
o
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A postura ideológica e a visão programática lítico seguiu muito mais critérios de afinidades
predominante entre as lideranças políticas que programáticas do que critérios meramente prag-
possuem cargos eletivos ou cargos de direção no máticos. Prevaleceu a visão das lideranças nacio-
interior do PSDB são bastante semelhantes às con- nais do PSDB na adoção dessa estratégia eleitoral
cepções liberais. Do ponto de vista analítico, é e governamental. Contudo, isto foi possível devi-
possível argumentar que sua aliança com o PFL do ao tipo de estrutura organizacional existente
não representou, portanto, nenhuma ruptura com no partido, como discutirei na próxima seção.
seu programa original, nem mesmo uma descarac-
terização de sua essência ideológica. Na verdade,
é possível até mesmo perceber o contrário, ou Articulação interna e instâncias de veto
seja, a mudança de posicionamento do PFL no go-
A articulação geral de um partido diz respeito
verno Fernando Henrique em relação às funções
às regras de convivência entre as unidades (regio-
do Estado, principalmente no apoio do partido às
nais e locais) que o constituem. Essa articulação
medidas de redução da máquina pública que
envolve um problema importante para a organiza-
transferia recursos do Estado necessários à sobre-
ção partidária: as relações de poder entre os filia-
vivência de sua organização em certas localida- dos e os órgãos do partido e destes órgãos entre si.
des. Esse apoio do PFL garante a manutenção de No caso do PSDB, devido às circunstâncias de sua
sua influência no nível federal de governo, obser- origem e às estratégias adotadas ao longo de sua
vada na indicação de seus filiados para a compo- evolução histórica, formou-se uma estrutura orga-
sição do gabinete ministerial e na liberação de nizacional propícia a ações autônomas das lideran-
uma parcela expressiva das verbas do Orçamento ças. Essa autonomia decisória da liderança tornou-
pelo Executivo para seus deputados federais. se possível, devido, fundamentalmente, a duas ca-
Assim, a partir de 1994, a formação da coli- racterísticas de seu desenho institucional. A primei-
gação eleitoral e da coalizão de governo do PSDB ra é a ausência de instâncias internas de veto efeti-
com partidos localizados à direita no espectro po- vas para a ação da militância. A segunda é o mo-

TABELA 3
Distribuição dos Filiados Eleitos pelo PSDB, por Tipo de Função Exercida, Segundo a
Militância Política Anterior ao Ingresso do PSDB, 1997 (em porcentagem)
MILITÂNCIA POLÍTICA ANTERIOR AO
VEREADORES PREFEITOS E VICE-PREFEITOS OUTROS
INGRESSO NO PSDB
Sim 93 93 92
Não 7 7 8
Total 100 (855) 100 (98) 100 (37)
TIPO DE ATIVIDADE DE MILITÂNCIA

Movimentos sociais 40 30 28
Política estudantil 21 21 38
Movimentos religiosos 20 25 8
Representação de outros interesses 10 9 13
Militância partidária 3 9 8
Outros tipos de militância 7 7 5
Total 100 (855) 100 (95) 100 (36)

Fonte: DATAUnB. PSDB – Instituto Teotônio Vilela.


(1) Os números entre parênteses correspondem à freqüência absoluta.
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delo de tomada de decisão. Com relação a esta úl- 1. A divisão de poderes entre os escalões do par-
tima, há dois tipos de ação estratégica adotada no tido deveria ser hierárquica e centralizada, de
interior do partido: uma, de movimento centrífugo, modo que o curso da ação partidária seria
pela qual é dada autonomia de decisão às lideran- sempre informado às instâncias inferiores pe-
ças locais no caso de estratégias de políticas tam- las instâncias superiores.
bém locais; outra, de movimento centrípeto, pela
2. Deveria haver participação democrática de
qual a coordenação de estratégias nacionais é cen-
seus afiliados nos vários níveis, com aplicação
tralizada nas lideranças mais elevadas do partido.
institucional de poder de veto.
Essas características, no entanto, não podem
ser apreendidas pela simples análise de seu estatu- 3. Deveria haver alguma forma direta de punição
to, o qual determina, formalmente, uma organiza- dos parlamentares indisciplinados, ou seja, aos
ção forte com regras claras sobre a estrutura interna que votaram em desacordo com a orientação
de poder, a divisão dos órgãos e suas devidas com- das lideranças do partido.
petências; estipula uma ligação vertical e hierárqui- 4. Seus núcleos de base com atuação municipal
ca entre os órgãos do partido, nos níveis nacional, deveriam viabilizar os vínculos partidários
estadual e municipal. Seu estatuto8 estabelece tam- com a sociedade e os movimentos sociais or-
bém, como diretrizes básicas de funcionamento, ganizados, e seus membros deveriam ter al-
uma estrutura interna democrática e participativa e gum tipo de militância em sindicatos e repre-
uma ampla articulação do partido com as associa- sentações patronais.
ções e as organizações da sociedade civil. Quanto
à atuação dos representantes eleitos, o estatuto A organização interna efetiva do PSDB, no en-
impõe ainda a obrigatoriedade da disciplina parti- tanto, é radicalmente distinta daquela prevista em
dária e do cumprimento do programa, sob pena seu estatuto e, no plano empírico, não é possível
de advertência e, em último caso, de cancelamen- observar nenhum dos quatro pontos anteriormente
to da filiação ao partido. citados. No que se refere à relação entre suas uni-
Portanto, pelo que estipula o estatuto do dades e suas atividades internas, foi possível cons-
partido, deveríamos observar o seguinte: tatar que os diretórios municipais não enviaram

TABELA 4
Distribuição dos Filiados Eleitos pelo PSDB, por Tipo de Função Exercida, Segundo o
Número de Partidos ao qual foi Filiado, 1997 (em porcentagem)

NÚMERO DE PARTIDO AO QUAL FOI PREFEITOS E


VEREADORES OUTROS
FILIADO ANTES DO PSDB VICE-PREFEITOS
Nenhum 25 13 19
Um partido 41 38 24
Dois partidos 23 28 27
Três partidos 9 17 22
Quatro ou mais partidos 3 4 8
Total 100 (855) 100 (98) 100 (37)
ARENA 47 50 21
MDB 53 50 79
Total 100 (146) 100 (36) 100 (14)

Fonte: DATAUnB. PSDB – Instituto Teotônio Vilela.


(1) Os números entre parênteses correspondem à freqüência absoluta.
o
80 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 N 49

aos diretórios estaduais nem as atas de registro política anterior, os dados evidenciam a falta de
das decisões tomadas pela respectiva Comissão vinculação dos membros do PSDB com movimen-
Executiva, nem as listas de controle de entrada tos trabalhistas e sindicatos patronais. Como indica
dos políticos que se filiaram ao partido. Os diretó- a literatura especializada, é mais usual encontrar fi-
rios estaduais e municipais, por sua vez, também liados com experiências políticas anteriores em ins-
não se comunicaram com o diretório nacional, que tituições ligadas ao mundo do trabalho em partidos
é capaz de informar somente o nome e o endere- com estrutura organizacional mais rígida, o que
ço dos presidentes dos diretórios estaduais. E estas não é o caso do PSDB.
informações só estavam disponíveis porque aque- Na verdade, até mesmo o tipo de filiação ao
les diretórios estaduais que deixassem de enviá-la partido revela uma estrutura pragmática, na qual
não teriam acesso ao fundo partidário distribuído não há a preponderância de carreiras políticas inter-
pelo diretório nacional. nas, mas formas de atração de lideranças que já ten-
Quanto à participação democrática dos filia- ham algum cargo eletivo. A análise da trajetória
dos, também foi possível constatar sua inexistência, política de suas lideranças pode servir de evidência
uma vez que as reuniões e as demais atividades do com relação a este ponto. Neste caso, é possível,
PSDB se realizam apenas em períodos próximos às inclusive, avaliar a volubilidade da liderança políti-
eleições. O primeiro congresso em âmbito nacio- ca filiada ao partido (mensurada pelo número de
nal, com representação de todos os diretórios esta- partidos aos quais esta foi anteriormente filiada) e
duais, ocorreu somente em 1998. Além disso, a par- sua postura ideológica inicial (considerada de acor-
ticipação de militantes foi inexpressiva em todos do com seu partido de origem no quadro bipar-
esses eventos. Conseqüentemente, a tomada de de- tidário anterior à redemocratização).
cisão no interior do partido coube somente às suas Do total de filiados eleitos, cerca de 70% de-
lideranças, detentoras de cargos governamentais.9 clararam que foram filiados a um ou mais partidos
Com relação ao controle do comportamento do antes do ingresso no PSDB. Aproximadamente
parlamentar no plenário, não há nenhum registro 40% dos filiados eleitos já tiveram militância em
de punição dos deputados federais que, durante os pelo menos dois partidos. Dirigentes, deputados e
últimos dez anos, votaram em desacordo com a senadores representam o maior percentual entre
orientação do líder do partido no parlamento, con- aqueles que participaram de três, quatro ou mais
trariando, assim, o código de disciplina partidária. partidos, sendo, assim, a categoria com maior vo-
Na primeira gestão de Fernando Henrique, a taxa lubilidade na adesão partidária. Isto, em parte,
de indisciplina dos deputados federais do PSDB pode ser atribuído à recente formação do sistema
atingiu cerca de 8%, mesmo em votações com quo- multipartidário brasileiro e à existência do biparti-
rum qualificado em que tinha que contar com o darismo compulsório do período autoritário. A
apoio de todos os seus filiados. Essa taxa de in- própria criação do PSDB, em 1988, foi conseqüên-
disciplina, apesar de ser numericamente pequena, cia de uma ruptura de um grupo de parlamenta-
resultou em derrota para o governo em matérias res do PMDB. Contudo, a filiação a mais de dois
importantes, como destaque para a votação da re- partidos revela uma trajetória não-linear de ade-
forma da previdência social. são partidária. No caso de o filiado ter pertencido
Praticamente todos os filiados eleitos pelo ao MDB, depois, ao PMDB e, finalmente, ao
PSDB haviam se envolvido em militância política PSDB, percebe-se uma trajetória linear, portanto,
antes de ingressarem no partido. Os vereadores de maior coerência partidária. Já o fato de ter per-
diferenciam-se dos demais pela maior porcenta- tencido a um terceiro partido mostra alguma
gem de militância política nos movimentos so- volubilidade por parte do político. Este ponto pode
ciais, enquanto deputados federais e estaduais, se- ser ainda mais bem avaliado pela análise do parti-
nadores e dirigentes desenvolveram militância em do do qual a liderança se origina. Uma proporção
política estudantil, movimentos sociais e outros ti- bastante elevada de vereadores, de vice-prefeitos e
pos de representação de interesses. Contudo, ape- de prefeitos é originária da Arena. Há um número
sar da predominância de experiência de militância considerável de deputados, senadores e dirigentes
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO PSDB ENTRE 1988 E 1999 81

partidários que também pertenceram inicialmente ra partidária. Outro ponto importante a ser desta-
ao partido governista do período militar. cado é que as taxas mais expressivas de filiação de
O perfil das lideranças políticas do PSDB de- políticos detentores de cargos eletivos ocorreu em
lineia uma visão ou conservadora ou reformista 1995, ano em que não houve nenhuma eleição; ou
pró-liberalismo, com considerável adesão de parla- seja, o PSDB atraiu vários políticos eleitos por ou-
mentares com experiências partidárias anteriores, tros partidos logo no primeiro ano de seu manda-
em grande parte, originária de partidos de direita. to presidencial, evidenciando sua estratégia de
Este perfil enquadra-se em um tipo de estrutura adesão de filiados por imigração partidária. Conse-
partidária na qual não houve a preponderância de qüentemente, a entrada de filiados no partido está
carreiras políticas vinculadas a grupos trabalhistas. bastante associada à obtenção de vantagens obti-
Esse tipo de adesão é possível devido à estrutura das por pertencer ao partido que conquistou a
organizacional fraca do partido. Uma verificação presidência da República e o governo dos princi-
mais consistente deste argumento poderia ser feita pais Estados da federação. Como sabemos, os car-
a partir do teste empírico de duas deduções lógicas gos eletivos podem ser conquistados de duas for-
quanto ao seu sistema de filiação: uma é a de que mas: vencendo eleições ou atraindo políticos de
deveríamos observar uma pequena quantidade de outros partidos que já detenham algum cargo. A
tempo de filiação; outra é que deveríamos observar representação política do PSDB aumenta no perío-
um grau elevado de filiação por imigração partidá- do entre as eleições em função de um processo de
ria. Existem dados que confirmam estas deduções, migração. A entrada de políticos eleitos por outros
reforçando o argumento acerca das reais caracterís- partidos é maior do que a saída de peessedebistas.
ticas organizacionais do PSDB. De 1995 a 1997, migraram para o PSDB um gover-
De acordo com os dados da tabela acima, nador, três senadores, 34 deputados federais, 79
50% dos representantes eleitos pelo PSDB filiaram- deputados estaduais e 124 prefeitos. Em 1993, 109
se nos três anos anteriores ao levantamento. Este vereadores filiaram-se ao partido.
é um tempo bastante curto de filiação, revelando A partir da análise dos dados apresentados
uma trajetória política desvinculada de uma carrei- nesta seção, é possível inferir que o diretório nacio-
TABELA 5
Distribuição dos Filiados Eleitos pelo PSDB, por Tipo de Função Exercida,
Segundo o Ano de Filiação, 1997 (em porcentagem)

PREFEITOS E
ANO DE FILIAÇÃO VEREADORES OUTROS
VICE-PREFEITOS
1988 3 7 17
1989 5 10 11
1990 7 13 8
1991 7 7 –
1992 12 8 8
1993 7 5 6
1994 6 7 3
1995 32 26 31
1996 21 18 14
1997 1 – 3
Total 100 (796) 100 (92) 100 (36)

Fonte: DATAUnB. PSDB – Instituto Teotônio Vilela.


(1) Os números entre parênteses correspondem à freqüência absoluta.
o
82 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 N 49

nal concede autonomia aos diretórios estaduais e, aprovou um novo estatuto, que reforça os dois as-
estes, aos diretórios municipais. Não há controle do pectos centrais da organização partidária, sejam
partido sobre o número de filiados nem sobre os di- eles, a descentralização na estrutura interna de
retórios municipais; e também não há controle da poder e o pragmatismo na conduta partidária. Os
militância sobre as decisões tomadas pelas lideran- diretórios estaduais e municipais ganharam mais
ças. Há apenas duas instâncias de poder de veto, as autonomia no processo de tomada de decisão,
quais atuam num sistema hierárquico: a instância como a liberdade de definir seus próprios critérios
nacional, que pode vetar decisões estaduais ou mu- para a eleição da sua própria comissão executiva
nicipais; e a instância estadual, que pode vetar as e tomar decisões estratégicas tais como a compo-
decisões municipais. Apesar disso, apenas o nível sição de alianças eleitorais e a participação de
federal é articulado em momentos de campanhas coalizão de governo ou oposição. O partido dimi-
eleitorais presidenciais. No sentido centrípeto, não nuiu o prazo de filiação de um ano para seis me-
há instâncias de veto, assim como estas também são ses, habilitando o filiado para votar e ser votado
institucionalmente inexistentes em arenas internas nas convenções do partido. Em caso de falta de
não ligadas às lideranças. manifestação contrária de dirigentes, a aceitação
Por outro lado, o acesso ao poder político do novo filiado será automática – não dependerá
pode incentivar a liderança partidária à reforma de um processo de aprovação pelos demais filia-
da sua organização, tornando-a mais adequada à dos. Os obstáculos no processo de filiação ao
competição eleitoral e ao exercício do governo. A PSDB foram enfraquecidos para facilitar a entrada
reestruturação partidária evidencia-se na recente de novos políticos para seus quadros.11
alteração de sua estrutura interna de poder e re- Essa postura pragmática também é constatada
gras de convivência partidária.10 Em 1999, o PSDB no comportamento das lideranças do PSDB, tanto

TABELA 6
Evolução da Representação Política do Partido da Social Democracia Brasileira,
por Cargo Eletivo nas Esferas Executiva e Legislativa, 1988-2000

FUNDAÇÃO EM 1988 PRESIDENTE GOVERNADOR SENADOR DEPUTADO DEPUTADO PREFEITO VEREADOR


FEDERAL ESTADUAL
Fundação em 1988 8 40
Municipal 1988 8 40 18 214
Eleição 1989 1 10 60 30 19 222
Convenção 1989 1 10 50 30 18 222
Eleições 1990 1 9 38 67 18 222
Encontro 1991 1 9 41 65 134 1994
Municipal 1992 1 9 41 65 274 3274
Dezembro de 1993 1 9 45 71 290 3383
Eleições de 1994 1 6 11 63 97 290 3383
Agosto de 1995 1 6 13 80 129 387 –
Municipal de 1996 1 6 13 89 129 914 8366
Junho de 1997 1 7 14 97 176 924 8366
Eleições 1998 1 7 16 99 152 – –
Eleições 2000 1 7 16 99 152 988 8514

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) – Comissão Executiva
Nacional.
( 1 ) Número de ocupantes de mandatos eletivos eleitos pelo PSDB ou que se filiaram ao partido.
( – ) Dado não disponível.
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO PSDB ENTRE 1988 E 1999 83

na formalização de coligações eleitorais como na processo de nacionalização pode ser fundamenta-


composição de uma coalizão de governo majoritá- do em três aspectos. O primeiro é a diminuição da
ria. Trata-se de uma estratégia adotada pelas lide- dispersão de sua representação eleitoral nos Esta-
ranças peessedebistas em face dos desafios impos- dos; o segundo diz respeito ao avanço da repre-
tos pelas regras democráticas de acesso e controle sentação nas eleições proporcionais para Câmara
de instâncias de poder político no Brasil. As lide- dos Deputados e assembléias estaduais em prati-
ranças peessedebistas, com o objetivo de vencer as camente todos os Estados; o terceiro concerne ao
eleições, de conquistar cargos e/ou de consolidar padrão congruente do comportamento das lide-
um governo majoritário, foram incentivadas a for- ranças nacionais e subnacionais na consumação
mar alianças, uma vez que, no caso do Brasil, é ex- de alianças na competição eleitoral.12
tremamente difícil haver vitória ou governo bem- Na sua primeira participação em eleições,
sucedido de um único partido. Nessa perspectiva, em 1988, o PSDB alcançou oito prefeituras e 214
a aliança política será uma categoria analítica fun- cargos de vereadores. Em 1990, elegeu um gover-
damental para explicar o desempenho do PSDB nador e seus primeiros representantes eleitos jun-
nas disputas eleitorais e no governo. Como vere- to ao Senado, Câmara dos Deputados e Assem-
mos adiante, as lideranças peessedebistas adotaram bléias Legislativas. Em 1992, o partido aumentou
posturas distintas na arena governamental e na o número de prefeitos de dezoito para 274, e de
vereadores filiados, de 214 para 3274. Em 1994, o
competição eleitoral durante os últimos doze anos.
PSDB alcançou a presidência da República, seis
governos estaduais e conquistou o segundo maior
número de cadeiras no Congresso Nacional. Em
A evolução do PSDB: desempenho eleitoral
1996, o partido conquistou 914 prefeituras e fez
e comportamento governamental
8366 vereadores. Em 1998, reelegeu o presidente
da República, elegeu sete governadores e aumen-
O modelo organizacional do PSDB habilitou-o
tou substancialmente a sua bancada no legislativo.
a adotar estratégias de aliança com maior eficiência.
Se a reeleição for tomada como indicador de ca-
Esta eficiência refere-se tanto ao desempenho elei-
pacidade de manutenção de um partido no gover-
toral do partido quanto à governabilidade. Nesta se-
no, o desempenho do PSDB é alentador. Em 1998,
ção, procurarei demonstrar essas duas estratégias.
o presidente Fernando Henrique reelegeu-se; dos
Os dados permitirão verificar que há uma associa-
seis governadores, quatro se reelegeram. Na elei-
ção entre a mudança da estratégia eleitoral – com a
ção municipal de 2000, o PSDB é o partido com
formalização de alianças com partidos de direita – e
maior número de prefeitos reeleitos.13 Os dados
o crescimento da representatividade do PSDB.
da Tabela 6 ilustram esta evolução na representa-
Quanto ao desempenho governamental, serão
ção eleitoral do PSDB ao longo dos anos.
apresentadas evidências sobre a participação do
De fato, o partido já começou com uma ex-
partido no governo, comprovando um comporta-
pressão parlamentar considerável, com oito sena-
mento coeso no processo de votação e uma estra-
tégia bem-sucedida para se montar uma ampla base dores e quarenta deputados federais, o que evi-
de suporte ao presidente Fernando Henrique. dencia seu caráter de partido originário no interior
do parlamento, com a delimitação de um núcleo
organizacional concentrado no âmbito nacional
Desempenho eleitoral desde sua origem. O outro fato observável e de
extrema importância indica que, a partir de 1994,
Em doze anos de existência, o PSDB aumen- há um acréscimo exponencial no número de car-
tou expressivamente o número de votos conquis- gos eletivos conquistados pelo PSDB. O partido
tados nas sucessivas eleições nacionais, estaduais aumentou sua representação, mas, a partir desse
e municipais. Seu desempenho eleitoral confirma ano, há um salto substancial no número de cargos
uma tendência de nacionalização do partido, ob- eletivos conquistados. Entre 1993 e 1996, o partido
servada desde o momento de sua fundação. Esse praticamente triplicou o número de vereadores e
o
84 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 N 49

duplicou o número de prefeitos filiados. Na eleição Sendo assim, para chegar ao poder e imple-
de 1994, o PSDB aumentou em cinco vezes o nú- mentar esse programa com um mínimo de gover-
mero de governadores. Entre 1993 e 1997, o parti- nabilidade, a estratégia mais racional seria estabe-
do dobrou sua representação na Câmara Federal. lecer uma coligação eleitoral e uma coalizão de
Dois elementos são importantes na explica- governo com partidos de direita. Esta estratégia
ção do desempenho eleitoral do PSDB a partir de foi adotada em 1994, possibilitando ao PSDB
1994. Um deles diz respeito à conquista da presi- avançar sobre o eleitorado de direita, devido, em
dência da República, com a conseqüente obtenção grande parte, ao apoio do PFL e do PTB. Essa co-
de recursos de governo para atrair apoios partidá- ligação de centro-direita venceu as eleições presi-
rios e imigração parlamentar. O outro, mais rele- denciais no primeiro turno. Estes dois partidos,
vante, é a mudança de estratégia de coligação elei- por sua vez, objetivando a conquista de cargos no
toral. Suas candidaturas para a presidência e para governo e dividendos eleitorais posteriores, deslo-
os governos estaduais eram isoladas de outros par- caram-se um pouco para o centro – no caso do
tidos. A partir de 1994, elas passaram a se dar pre- PFL, por exemplo, fez-se necessário abrir mão de
dominantemente com partidos de direita.14 recursos patrimonialistas para apoiar reformas na
Uma análise mais detida desses dois elemen- administração pública. A mesma estratégia foi
tos permite o argumento de que as lideranças do adotada na reeleição de Fernando Henrique Car-
partido atingiram, nesse período, um nível consi- doso, em 1998. Novamente, uma coligação de
derável de racionalidade, à medida que adotavam centro-direita, integrada por PSDB, PFL, PTB e
uma decisão estratégica diante de dois objetivos PMDB, venceu no primeiro turno da eleição.
importantes para o partido: vencer a eleição e im- As lealdades políticas estabelecidas pelas li-
plementar um programa de reformas com contor- deranças peessedebistas no plano nacional, no
nos liberais. Naquele momento, coligar-se com a que diz respeito à formalização de coligações elei-
esquerda poderia trazer algum potencial eleitoral, torais, estão sendo, em grande parte, observadas
contudo, além de ter de se submeter à função de pelas respectivas lideranças locais. Esse alinha-
coadjuvante, ocupando, no máximo, a vice-presi- mento corresponde a um aspecto importante do
dência, o PSDB jamais poderia, em coalizão com processo de nacionalização do partido, porque os
o PT, implementar seu programa de governo. diretórios estaduais dispõem de autonomia para a

Tabela 7
Padrão de Coligação e Desempenho dos Candidatos do PSDB como Cabeça de
Chapa nas Eleições para Governador de Estado, 1990-1994-1998
RESULTADO
Resultado Candidaturas Isoladas
CANDIDATURAS ISOLADAS CANDIDATURAS
Candidaturas em EM
coligação com
COLIGAÇÃO partidos
COM PARTIDOS deDE Total
TOTAL
DA eleição
Da ELEIÇÃO EEsquerda
SQUERDA Ccentro
ENTRO D
direita
IREITA
1990
Vitória 1 1
Vitória CE
Derrota
derrota 6 4 AM, DF, 1 1 12
AC, MT, RJ, RR, SC, SP PA, PR MG RN
1994
vitória 3 3 6
Vitória MG, CE, SE SP, RJ, PA
Derrota
derrota 1 1 1 3
DF BA RR
1998
vitória 1 2 4 7
Vitória PA MT, SP ES, CE, GO, SE
Derrota
derrota 1 1 2 1 5
RJ PI DF,PE MG
Total 9 6 10 9 34
Fonte de dados brutos: Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO PSDB ENTRE 1988 E 1999 85

definição do curso de sua ação partidária. Na elei- dária, especialmente no nível da liderança, em re-
ção estadual de 1990, metade das candidaturas do lação à representação de setores organizados da
PSDB foi isolada e, quando houve coligação, os sociedade civil. A atuação do PSDB no governo
partidos de esquerda foram os aliados preferidos. foi fundamental para viabilizar a implantação de
Nas eleições subseqüentes, os candidatos a gover- seu programa partidário.15
nador buscaram fazer coligações, principalmente, Na dimensão governamental, a atuação do
com os partidos localizados à direita do espectro PSDB pode ser divida em dois períodos. O primei-
político. Esse comportamento das lideranças esta- ro, que se inicia com o momento de sua fundação,
duais revela um padrão coeso com a candidatura em 1988, e se encerra no impeachment do presi-
isolada na eleição presidencial de 1989 e com a dente Collor, em 1992, caracteriza-se pelo distan-
consumação das alianças em 1994 e 1998. ciamento do governo federal. Durante os governos
Essa política de coligação em torno das can- Sarney e Collor, o PSDB não apoiou o governo no
didaturas do PSDB explica, em parte, seu desem- Congresso Nacional, embora o partido tenha vota-
penho eleitoral. Nas eleições para governador de do com o governo em algumas matérias. O PSDB
Estado de 1990, o partido se coligara, preferencial-
opôs-se às indicações dos líderes dos governos
mente, com os partidos de centro-esquerda, ele-
Sarney e Collor, respectivamente, em 50,2% e
gendo apenas um governador. A partir de 1994, o
56,8% dos encaminhamentos. Os deputados fede-
partido busca aliados à sua direita no sistema par-
rais peessedebistas votaram mais próximos aos
tidário, principalmente em relação ao PFL, PTB e
partidos de esquerda, entre eles, o PT.
PPB. A fortuna eleitoral do partido altera-se em
O segundo período, que começa com a par-
função das alianças costuradas com partidos de
ticipação no governo Itamar Franco e percorre o
centro-direita. Nas eleições de 1994, o PSDB elegeu
mandato do presidente Fernando Henrique, marca
seis governadores, sendo quatro aliados com parti-
a ascensão do partido a posições de poder. Em
dos de direita e dois com partidos de centro. Em
1993, na gestão de Itamar Franco, os peessedebis-
1998, o partido manteve o padrão de coligações,
tas chegam ao Poder Executivo de maneira indire-
elegendo sete governadores. Os quatro governado-
res reeleitos mantiveram a mesma estratégia de ta, aumentando o seu grau de apoio ao governo
competição com partidos de centro-direita. Não se com a adesão dos seus parlamentares às indicações
reelegeram o governador do Rio de Janeiro, que do líder governista, tornando-se integrante dos ga-
perdeu o PFL como o principal parceiro da coliga- binetes ministeriais e capitalizando eleitoralmente o
ção vitoriosa de 1994, e o governador de Minas Ge- sucesso econômico do Plano Real. Com isso, o par-
rais, que deixou de se coligar com o PMDB. tido alternou sua postura no Congresso Nacional
de oposição à situação. Em outras palavras, o pro-
cesso de parlamentarização do partido iniciou-se
Desempenho governamental na primeira fase da gestão Itamar no qual o parti-
do aprovou 87,2% dos encaminhamentos do líder
O tipo de estrutura organizacional do PSDB do governo e indicou seis partidários para ocupa-
também favoreceu a adoção de coalizões parla- rem pastas ministeriais. A maior tendência gover-
mentares que possibilitaram uma considerável efi- nista dos parlamentares do PSDB é verificada no
ciência governamental. Ascender ao governo e governo Fernando Henrique em que o partido
traduzir seu programa em políticas públicas são as conta com o maior número de ministros indica-
principais motivações das lideranças do PSDB e, dos. Desde a sua fundação, o comportamento
por conseqüência, tornaram-se fundamentais para dos parlamentares do PSDB ocorreu de forma
a própria sobrevivência da organização partidária. coesa. Os votos dos deputados peessedebistas se-
O controle partidário do governo gera maior ca- guiram a indicação do líder do partido na maior
pacidade de compensação para seus filiados do parte das votações e, no governo Fernando Hen-
que a permanência na oposição, o que explica, rique, o grau de coesão é mais elevado se com-
em grande parte, o grau de auto-suficiência parti- parado a outras gestões.
o
86 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 N 49

Os dados da Tabela 8 mostram que a coali- pou o ministério do Planejamento e, posteriormen-


zão de sustentação legislativa ao presidente é a te, a pasta passou para Antonio Kandir. A manuten-
mais ampla desde a redemocratização brasileira, ção do Plano Real foi garantida por Pedro Malan,
em 1985, possibilitando-lhe a aprovação de medi- no Ministério da Fazenda, embora este ministro
das de seu interesse no Congresso Nacional e não esteja filiado ao PSDB. Além disso, o programa
grande estabilidade nas relações entre Executivo e do PSDB norteou claramente a conduta do gover-
Legislativo. As coligações estabelecidas tanto em no Fernando Henrique, exceto na área política em
1994 quanto em 1998 foram transpostas ao Con- que a adoção do parlamentarismo e a restrição do
gresso Nacional como uma coalizão de governo uso de medida provisória foram desconsideradas
amplamente majoritária, garantindo um elevado porque significariam a redução de recursos dispo-
grau de governabilidade. Na verdade, desde 1994, níveis ao presidente para garantir a governabilida-
o Brasil é governado por uma coalizão envolven- de na sua gestão. Nos programas apresentados
do grandes partidos (PSDB/PFL/PMDB/PPB/PTB), pelo PSDB, a estabilidade econômica aparece
cujo padrão de interação e de votação mantém-se como o principal objetivo a ser perseguido. Tanto
praticamente inalterado e com considerável grau que, a ênfase do governo é maior no controle da
de coesão. No governo, o PSDB acaba por reedi- moeda e na resolução do problema da inflação e
tar a coalizão legislativa com partidos de centro-di- da crise fiscal do que na justiça social e no cresci-
reita, PMDB e PFL, a qual supostamente motivou mento econômico. Um programa de privatizações
sua fundação. de empresas estatais e de abertura da economia ao
Na primeira gestão do governo Fernando mercado internacional foi implementado. A des-
Henrique, o PSDB ocupou os principais ministérios centralização administrativa e a busca de eficiência
necessários à implantação das propostas do seu nos gastos públicos marcaram a reforma do Estado.
programa partidário, mantendo, principalmente, o Portanto, a ação do PSDB no governo é extrema-
controle da política econômica desde a gestão de mente programática e com contornos ideológicos
Itamar Franco. Na área econômica, José Serra ocu- bem definidos em torno do liberalismo.

Tabela 8
Participação e Comportamento dos Representantes do PSDB no Governo Federal, 1988-1998

NÚMERO DE VOTOS DO
ÍNDICE DE SEMELHANÇA COESÃO DO COALIZÃO LEGISLATIVA
EQUIPESDE MINISTÉRIOS PSDB COM
DOS DEPUTADOS FEDERAIS DO PSDB DE SUPORTE AO
GOVERNO OCUPADOS O GOVERNO
PSDB EM RELAÇÃO AO (2) (3) PRESIDENTE (4)
PELO PSDB (1)
PT PFL Câmara Senado
José Sarney 0 49,8 65,5 56,4 87,7 66,7 64,0
(1988-1989)
Fernando Collor 0 41,0 65,1 47,0 88,3 36,5 29,5
(1990-1992)
Itamar Franco 6 87,2 52,3 73,3 87,3 54,0 71,7
(1993-1994)
Fernando Henrique 7 91,3 29,1 92,2 92,9 72,0 81,5
(1995-1998)

(1) Porcentagem de votos dos deputados federais do PSDB seguindo a indicação do líder do governo.
(2) Porcentagem de votos dos deputados federais do PSDB em relação à votação dos deputados do PT e PFL.
(3) Porcentagem de votos dos deputados federais do PSDB em acordo com a indicação do líder do partido.
(4) Porcentagem de deputados federais e senadores de todos os partidos integrantes da coalizão de apoio ao gover-
no federal.
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO PSDB ENTRE 1988 E 1999 87

Na democratização brasileira, a sobrevivên- O mecanismo da articulação desses três ele-


cia dos partidos de direita – PFL, PTB e PPB – de- mentos foi desenvolvido de forma a evidenciar que
pendeu da sua relação de proximidade com o Es- o pragmatismo que caracterizou a origem do PSDB
tado. Essa afirmação também se revela verdadeira redundou em um tipo de estrutura organizacional
para o PSDB, um partido político que, ao nascer, com pouca democracia interna e com concentra-
se apresentou ideologicamente como de centro- ção de poder de decisão em suas lideranças, va-
esquerda e distante dos recursos e cargos gover- riando hierarquicamente esta concentração de
namentais. Os resultados alcançados pelo PSDB acordo com o âmbito das questões em pauta – mu-
nas últimas eleições confirmam uma associação nicipal, estadual ou nacional. Um dos indicadores
entre participação no governo e desempenho elei- desta descentralização é a ausência de uma linha
toral. A participação do PSDB no governo federal partidária única para a política de coligações do
antecede a conquista da presidência da Repúbli- PSDB, o que permitiu às lideranças dos diretórios
ca, dos principais governos de Estado e da segun- estaduais a adoção de ações estratégicas sem cons-
da maior bancada no Congresso Nacional, tanto trangimento imposto pela instância nacional e, no
em 1994 como em 1998. sentido inverso, a adoção de estratégias pelas lide-
ranças nacionais sem constrangimento imposto pe-
las instâncias estaduais.
A análise das estratégias do partido mostrou
Considerações Finais
o deslocamento de suas alianças políticas no es-
pectro ideológico. Este deslocamento não encon-
Neste artigo, procurei desenvolver, analitica-
trou obstáculos internos. Embora parte de seus
mente, três pontos principais: a fundação do
membros tenha manifestado discordância, o que
PSDB, que se torna mais inteligível por motiva-
prevaleceu foi a orientação de suas lideranças,
ções pragmático-eleitorais do que por motivações
cuja visão em torno de um programa de governo
ideológicas; a aliança político-partidária com a di-
reita que, a partir de 1994, ao envolver coligações estava mais próxima dos partidos da direta do es-
eleitorais e coalizão de governo, pode ser mais pectro ideológico. Esta decisão tomada por suas
bem explicada por motivos ideológicos e progra- lideranças significou a adoção de uma estratégia
máticos do que por pragmatismo; finalmente, o que combinasse os objetivos de chegar ao poder
crescimento do PSDB, no que se refere à conquis- político e de implementar seu programa de gover-
ta de votos e cargos eletivos, está associado ao no. Desta forma, sua estratégia de alianças, traça-
seu tipo de estrutura organizacional e à visão da a partir de 1994 do topo de sua direção, repre-
ideológica de suas lideranças. Neste caso, a au- sentou um alto grau de racionalidade de suas li-
sência de instâncias internas de veto à disposição deranças nacionais, à medida que esta aliança
de seus filiados sem cargos eletivos ou de direção mostrou-se bem-sucedida, possibilitando ao PSDB
facilitou a consolidação da aliança política com a conquista de vários cargos eletivos e a implan-
partidos de direita, cuja motivação principal foi a tação de seu programa de reformas liberalizantes.
proximidade programática das lideranças do A conclusão possível de ser deduzida é a de
PSDB com aqueles partidos. Esta aliança trouxe que a fraca organização partidária do PSDB favo-
crescimento eleitoral aos peessedebistas e um receu a tomada racional de decisão de suas lide-
grau elevado de governabilidade ao seu presiden- ranças, produzindo maior eficiência eleitoral e
te da República. Com isto, os argumentos apre- maior capacidade governamental. Mantendo fra-
sentados neste artigo contestam as descrições da cos vínculos com a sociedade civil, demonstrada
literatura que abordou superficialmente o PSDB pela origem exclusivamente parlamentar e pela
até o atual momento, permitindo o deslocamento falta de articulação e organização dos interesses
do eixo normativo da discussão, geralmente pre- de associações representativas, suas lideranças
sente nos estudos partidários, e centrando o deba- podem atuar na arena governamental e na com-
te em torno de elementos factuais. petição eleitoral com maior autonomia decisória.
o
88 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 N 49

Tentei demonstrar, em primeiro lugar, a im- de alguma maneira, pudessem expressar como o
portância de ainda se analisar os partidos políticos partido político se organiza internamente, formali-
como estruturas organizacionais, ressaltando que za suas alianças eleitorais e compõe coalizões de
as condições de sua origem e de sua estruturação governo na atual democracia brasileira.
são variáveis relevantes na explicação de sua evo-
lução. Neste caso, acredito ter reforçado a utilida-
de do modelo de análise de Duverger (1970) e Mi- NOTAS
chels (1977) e de seu desdobramento teórico no
modelo de Panebianco (1990). Em segundo, por 1 Na teoria sobre partidos políticos, Duverger (1970) e
considerar esses modelos insuficientes para a aná- Michels (1977) foram pioneiros no tipo de abordagem
organizacional. Contrariando a maioria dos estudos
lise dos partidos atuais, em ambientes altamente
que, até a década de 1950, centrava suas análises ape-
competitivos, envolvendo interação interpartidá- nas nas doutrinas políticas, esses autores procuraram
ria, seja cooperativa (alianças), seja conflituosa destacar o funcionamento interno e o cotidiano dos
(competição eleitoral e parlamentar), adotei de partidos. Essa orientação metodológica parte da cons-
maneira complementar um outro modelo, no qual tatação de que a conduta dos partidos políticos se tor-
se considera a análise da estratégia de tomada de na mais inteligível pela natureza de sua organização.
decisão das lideranças partidárias. A contribuição Contudo, Panebianco (1990) aponta dois problemas
de ordem teórica e metodológica na abordagem de
de Strom (1990) e Strom & Muller (1999) ao tema ambos os autores. O primeiro é sociológico e consis-
foi tomada como modelo analítico. A premissa te em acreditar que os partido devem refletir as de-
deste tipo de abordagem é que a modalidade de mandas de determinados grupos sociais, desconside-
organização partidária não é neutra no que se re- rando as próprias necessidades do partido como tal,
fere ao resultado político, pois, de certa forma, como a estabilidade da sua organização. O segundo
antecipa o comportamento estratégico do partido é teleológico e consiste em atribuir previamente a um
partido a realização de determinadas ideologias, des-
em relação à conquista e à manutenção do poder.
considerando o fato concreto de que pode não haver
Portanto, o desenho organizacional do partido é consenso em torno de objetivos mesmo dentro do
tanto uma característica de sua evolução histórica próprio partido.
quanto fator de incentivo ou constrangimento a de- 2 Duverger (1970) mostra que os partidos se diferen-
terminados cursos de ação partidária. Assim, as li- ciam quanto a sua forma de origem e ao seu modo
deranças têm sempre de adotar determinados cur- de organização. Isto pode ser claramente percebido
sos de ação visando a determinados objetivos, mas na oposição, criada pelo autor, entre partido de
quadros, criado no interior do parlamento e nas dis-
sua decisão será em função da maximização de tais
putas eleitorais, e partido de massas, criado externa-
objetivos de forma articulada, tendo a organização mente a eles. Os partidos de quadros, como os libe-
partidária como fator de constrangimento. rais e conservadores, teriam uma estrutura interna
Por último, adotei uma abordagem metodo- mais descentralizada e seus membros seriam mais
lógica cuja premissa foi refutar explicações marca- indisciplinados, com maior influência dos parlamen-
das por um caráter normativo, nas quais há claros tares no partido. Ascender ao governo constituiria o
objetivo supremo de seus filiados. No partido de
valores acerca de qual seria o melhor tipo de par- massas, julgado como o tipo mais desenvolvido, a
tido ou qual tipo de partido seria o mais desenvol- democracia interna e o rígido comprometimento
vido. Neste contexto, a caracterização do PSDB ideológico produziriam uma socialização política e
como uma organização do tipo fraca não significou identificação destes com as massas, resultando em
ineficiência eleitoral e governamental. Na verdade, perfeita sintonia entre representantes e representa-
dos. Esse tipo de partido teria uma estrutura mais
esta análise mostrou que este tipo de organização,
centralizada, com maior coesão e disciplina entre
geralmente considerada como indicador de debili- seus filiados. Os partidos socialistas e comunistas
dade partidária, favoreceu ações estratégicas das seriam os exemplos desse tipo de partido.
lideranças peessedebistas que produziram resulta- 3 Essas informações baseiam-se em pesquisas realiza-
dos eleitorais e governamentais eficientes. A partir das pelo Instituto Data-Folha em 1987. O PMDB,
dessa perspectiva, minha proposta metodológica pelo seu papel desempenhado na democratização,
foi sustentar o foco analítico com informações que, era o partido com maior preferência partidária
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO PSDB ENTRE 1988 E 1999 89

(25,3%) entre os eleitores e, em segundo lugar, vi- 6 O PSDB não é um caso desviante de partido que
nha o PT, com 13,4% das preferências. Mas, a ava- se auto-intitula social-democrata e, ao mesmo tem-
liação do desempenho do PMDB no Congresso e po, apresenta um programa de governo de orien-
no governo federal era negativa. Aproximadamente tação liberal. Segundo Kitschelt (1994) e Wilson
43% do eleitorado consideravam a atuação do (1994), muitos dos partidos social-democratas que
PMDB no legislativo ruim ou péssima; 37,7%, como estão vencendo eleições e assumindo o governo
regular, em contraposição aos 13% que a avaliaram na Europa sofreram grandes transformações ideo-
como ótima ou boa. A opinião do eleitor sobre o lógicas nas décadas de 1970 e 1980. Com a mudan-
PMDB era mais negativa em relação à gestão Sar- ça da agenda política e a perda da influência da
ney. Do total de eleitores, 49% consideravam a linguagem social-democrata, seus programas parti-
atuação de Sarney ruim ou péssima. dários abandonaram os dogmas convencionais do
welfare-state e incorporaram em seu ideário teses
4 No modelo teórico proposto por Panebianco
vinculadas ao liberalismo, como austeridade fiscal,
(1990), as peculiaridades da fundação do partido e
privatização e desregulamentação da economia.
as decisões tomadas por seus fundadores permitem
classificar o modelo de origem de um partido se- 7 Trata-se da pesquisa “O Perfil do PSDB em 1997”,
gundo três critérios dicotômicos: (i) penetração ter- realizada sob a direção de Benício V. Schmidt, Maria
ritorial versus difusão territorial; (ii) presença versus das Graças Rua e Maria Silvia Todorov, num projeto
ausência de uma instituição externa que patrocine o conjunto DATAUnB, Instituto Teotônio Vilela e Co-
nascimento do partido; e (iii) caráter carismático de missão Executiva Nacional. Quanto aos procedimen-
uma liderança ou ausência dele na fundação parti- tos metodológicos, a pesquisa se baseou numa
do. No primeiro critério, a origem do PSDB pode amostra composta dos quadros eleitos e dirigentes
ser considerada como do tipo de difusão territorial do partido em todo território nacional, a partir dos
porque o centro não controlou nem dirigiu o in- dados fornecidos pelo TSE em relação às eleições de
gresso da periferia partidária, entendida como os 1994 e 1996. A taxa de retorno foi de aproximada-
agrupamentos locais e estaduais do partido. Em vez mente 10%. Como estratégia de análise, os investiga-
disso, as elites locais integraram-se à organização dos foram agrupados em três categorias segundo o
nacional sem o controle das instâncias superiores, tipo de função exercida e a viabilidade de se reunir
resultando em uma estrutura interna de poder des- um número razoável de integrantes numa categoria
centralizada que reúne diretórios estaduais e muni- específica. Na primeira categoria, os vereadores; na
cipais com autonomia de ação decisória. Quanto segunda, os prefeitos e vice-prefeitos; e, na terceira
ao segundo critério, nenhuma instituição externa é (outros), os deputados estaduais, deputados federais,
responsável pela fundação do PSDB. Desde a sua senadores e presidentes dos diretórios estaduais.
fundação, o partido recusou-se a manter vínculos
com outras organizações de representação de inte- 8 A nova lei orgânica dos partidos políticos, número
resses sociais, em especial, os sindicatos de trabalha- 9096, aprovada em 19 de setembro de 1995, leva o
dores e patronais. Em relação ao terceiro critério, o PSDB a rever o antigo estatuto partidário, em mar-
surgimento do PSDB não representou a emergência ço de 1996, sem, contudo, alterar as principais nor-
de nenhum líder carismático do cenário político bra- mas de funcionamento. Somente a partir de 1997 a
sileiro que fosse responsável pelas metas ideológicas liderança peessedebista perceberia a necessidade
do partido ou pela tomada de decisão estratégica. de mudança na sua organização partidária.

5 A estrutura interna de poder no partido influencia o 9 Michels (1977) foi pioneiro ao identificar estruturas
principal conteúdo das ações partidárias. Strom de poder autoritárias no interior de partidos políticos
(1990) e Muller e Strom (1999) já mostraram a intera- aparentemente democráticos. Nessa perspectiva,
ção entre estas duas variáveis e suas conseqüências toda a burocracia partidária contém intrinsecamente
práticas. Quanto mais os líderes estiverem no contro- um processo de profissionalização e de concentra-
le do partido, mais o partido adotaria ou uma estra- ção de poder de decisão, a denominada “lei de fer-
tégia de vote-seeking (busca maximizar a conquista ro de Michels”. Além disso, continua o autor, a de-
de votos nas eleições) ou uma de office-seeking mocracia partidária seria estrategicamente inviável
(prioriza a ocupação de postos no governo). Quanto para a competição interpartidária, o que justificaria
maior o poder exercido pelos membros da base, uma constituição fortemente centralizada e oligár-
mais radical e ideológica será a estratégia partidária – quica capaz de tomar as melhores estratégias na
policy-seeking (privilegia a implantação de políticas competição eleitoral. A massa apática de militantes
públicas de acordo com seu programa partidário). renunciaria voluntariamente aos seus direitos de
Portanto, partidos com uma estrutura organizacional participação, revelando a necessidade de serem diri-
bastante fluida e descentralizada são mais motivados gidas por uma oligarquia. A vida no interior dos par-
por conquista de votos e cargos no governo. tidos revelaria que poucos partidários se interessam
o
90 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 N 49

pelos assuntos públicos e tomam parte de suas ativi- dárias. PMDB, PSDB, PFL e PT atingem os maiores
dades. Conseqüentemente, o autor antecipou que índices de difusão territorial da sua representação
todo partido se estruturaria de fato como uma or- eleitoral e suas lideranças nacionais e estaduais
ganização de poder concentrado nas mãos de um apresentam um padrão coerente de comportamento
grupo de líderes. na formalização de coligações. De acordo com os
critérios estipulados, esses quatro partidos podem
10 Nesse novo estatuto, uma mudança fundamental foi
ser considerados organizações nacionais. Os demais
a criação do Conselho Político Nacional do PSDB,
partidos, por sua vez, sobrevivem somente em tor-
integrado pelo presidente do partido, presidente da
no de Estados específicos do país e costuram coli-
República e governadores, líderes no Congresso Na-
gações incoerentes do ponto de vista ideológico.
cional e mais cinco filiados escolhidos pela direção
nacional. A esse conselho caberá a decisão final no 13 Segundo Fleischer (2000), para a eleição municipal
partido. A partir deste estatuto, as direções partidá- de 2000, a taxa de reeleição dos prefeitos filiados ao
rias estão obrigadas a encaminhar regularmente à PSDB foi calculada em torno de 47,1%. Os demais
comissão executiva nacional a lista com os nomes partidos apresentam as seguintes porcentagens de
dos filiados, sob pena de não receberem o repasse prefeitos reeleitos: PFL (41,2%); PTB (38,2%); PMDB
do fundo partidário. (36,8%); PPB (35,6%); PL (35,0%); PSB (34,6%); PT
(27,3%); PDT (26,4%); e PPS (20,9%).
11 Segundo Panebianco (1988), as organizações parti-
dárias diferenciam-se pelo modo e pela intensidade 14 Existem evidências que confirmam a hipótese de
do seu processo de institucionalização que pode ser que o crescimento eleitoral do PSDB está associado
distinguido segundo duas escalas. A primeira – grau à consumação de coligações com partidos de centro-
de autonomia em relação ao seu ambiente – refere- direita. Dada a preferência dos eleitores brasileiros,
se à capacidade da organização partidária em obter o partido teria crescido eleitoralmente ao se adequar
recursos para manter seu funcionamento. Um grau à distribuição dos eleitores. O número de eleitores à
elevado de autonomia é conferido ao partido que direta é maior que à esquerda e estes são mais facil-
apenas sobrevivesse com recursos próprios, princi- mente conquistados que os da esquerda. Assim,
palmente aqueles provenientes da contribuição de quando mais à direita estiverem seus aliados, maior
seus filiados. Este não é o caso do PSDB, cujo finan- seria o número de votos alcançados pelo partido.
ciamento de sua organização provém da participa- Como o PSDB está localizado no centro de espectro
ção do Fundo Partidário e de doações de pessoas fí- político, seus candidatos estariam em condições de
sicas e jurídicas. Os seus militantes não contribuem estabelecer coligações com partidos de diferentes
regularmente com doação de dinheiro. Um grupo de matizes ideológicos. Sobre uma análise mais detalha-
profissionais remunerados desenvolve suas ativida- da da política de alianças e o desempenho eleitoral
des básicas como propaganda, levantamento de in- do PSDB, ver Roma (2000b).
formações, entre outras. Os líderes peessedebistas,
15 Recentemente, a literatura especializada em partidos
desde o momento da fundação do partido, mostram-
políticos vem destacando a atuação dos partidos na
se desinteressados em construir uma burocracia parti-
esfera governamental. Katz e Mair (1994) compro-
dária forte. A segunda escala – grau de sistematização
vam que, na maioria dos países europeus, os parti-
– diz respeito à coerência estrutural entre os órgãos e
dos passam a depender mais dos recursos prove-
as ações estratégicas tomadas no partido. Neste caso,
nientes do exercício do governo do que os obtidos
o centro (direção nacional) passa a controlar os sub-
junto a militantes. Cargos governamentais e influên-
sistemas internos (diretórios estaduais e municipais),
cia na formulação de políticas públicas permitem a
no que tange às ações partidárias. No PSDB, os dire-
sobrevivência das organizações partidárias. Portanto,
tórios possuem autonomia decisória em sua respecti-
a tendência atual é de uma ligação mais intensa e fe-
va instância de poder. Inexiste um controle do parti-
chada entre partidos e Estado do que entre partidos
do sobre o número de filiados e diretórios municipais.
e sociedade civil. Nessa linha de argumentação,
Portanto, segundo o modelo teórico de Panebianco
Blondel e Cotta (1996) preocupam-se com a influên-
(1988), a institucionalização da organização peessede-
cia mútua entre partidos e governo, principalmente
bista pode ser considerada fraca, porque seu grau de
nas atividades de sustentação legislativa ao governo
autonomia em relação ao ambiente político e seu
executivo e na nomeação de membros do partido
grau de sistematização interna são baixos.
em cargos governamentais. O governo distribui car-
12 Roma e Braga (2001) procuraram mensurar o nível gos e recursos com o objetivo de construir uma
de nacionalização/regionalização dos partidos polí- ampla coalizão de partidos para a aprovação de
ticos brasileiros ao longo dos últimos quinze anos. suas matérias de interesse, enquanto os partidos
Os resultados desta pesquisa apontam para a cres- participam do governo visando a ocupar pastas e
cente nacionalização de quatro grandes siglas parti- implantar seu programa partidário. No caso de um
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO PSDB ENTRE 1988 E 1999 91

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170 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 N 49

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO THE PSDB'S INSTITUTIONALI- L'INSTITUTIONNALISATION


PSDB ENTRE 1988 E 1999 ZATION BETWEEN 1988 AND DU PSDB ENTRE 1988 E 1999
1999

Celso Roma Celso Roma Celso Roma

Palvras-chave Keywords Mots-clés


Partido político; Organização; Political party; Organization; Ideo- Parti politique; Organisation; Idéolo-
Ideologia; Estratégia logy; Strategy gie; Stratégie

Este artigo analisa a estrutura orga- This paper analyzes the organizatio- Cet article analyse la structure orga-
nizacional do Partido da Social De- nal structure of the Brazilian Social nisationnelle du Parti de la Social
mocracia Brasileira (PSDB), desde a Democratic Party (PSDB), from its Démocratie Brésilienne (PSDB), de-
sua fundação, em 1988, até 1999. foundation in 1988 to 1999. From puis sa création, en 1988, jusqu'en
Para tanto, a discussão será dividida this perspective, the discussion is di- 1999. Pour cela, la discussion sera
em duas partes. Na primeira, serão vided in two parts. In the first one, divisée en deux parties. Dans la pre-
abordadas as seguintes dimensões the following dimensions of the mière, nous abordons les aspects
do partido: a origem, a estrutura in- PSDB are approached: its origin, in- suivants du parti: son origine, sa
terna de poder, a ideologia e as opi- ternal structure of power, ideology structure interne de pouvoir, son
niões e atitudes políticas dos repre- and opinions and attitudes of the idéologie et les opinions et attitudes
sentantes eleitos. Na segunda parte, elected representatives. In the se- politiques des représentants élus.
associa-se a modalidade de organi- cond part, this work discusses the Dans la seconde partie, nous asso-
zação adotada pelo partido e suas interaction between the model of cions la modalité de l'organisation
conseqüências para a definição das organization adopted by the party adoptée par le parti et ses consé-
suas estratégias de competição elei- and its consequences for the defini- quences pour la définition de ses
toral e de participação na esfera de tion of its strategies of electoral stratégies de compétition électorale
governo. Os resultados desta pes- competition and party’s participa- et de participation dans au sein du
quisa indicam que o PSDB sofreu tion in government. The results of gouvernement. Les résultats de cette
this research indicate that the PSDB recherche indiquent que le PSDB a
um processo de adaptação diante
souffert un processus d'adaptation
das exigências de sua sobrevivência has gone through a process of adap-
face aux exigences de sa survie dans
no ambiente político no que se refe- tation in response to the political en-
une ambiance politique qui se réfè-
re ao aumento da competitividade vironment in order to increase its
re à l'augmentation de la compétiti-
eleitoral e da governabilidade. Esse electoral competitiveness. This pro-
vité électorale et de la gouvernabili-
processo de adaptação pragmática, cess of pragmatic adaptation is re-
té. Ce processus d'adaptation prag-
por sua vez, revela-se como uma vealed as an important explanatory
matique se révèle, quant à lui, com-
importante variável explicativa do variable of the type of power's rela-
me une importante variable explica-
tipo de relação de poder entre as li- tionship between leaders and parti-
tive du genre de relation de pouvoir
deranças e os filiados e da ambigüi- sans, and of the ambiguity between
entre les dirigeants du parti et les af-
dade entre o programa de governo the government's program and its
filiés, et de l'ambiguïté entre le pro-
e a ideologia professada. As evidên- professed ideology. The empirical
gramme de gouvernement et l'idéo-
cias empíricas que atestam tal expli- evidences that attest such explana-
logie professée. Les évidences empi-
cação corroboram a perspectiva teó- tion corroborate the theoretical
riques qui attestent une telle expli-
rica adotada, que pressupõe que um perspective adopted in this article.
cation corroborent la perspective
partido político escolhe, entre os di- The party chooses from a set of pos- théorique adoptée, qui présuppose
versos caminhos possíveis que per- sible alternatives the one that will qu'un parti politique choisit, parmi
mitem alcançar seus objetivos, aque- promote articulation between its or- les divers chemins possibles qui
les que melhor articulem a estabili- ganizational stability and the capa- permettent d'atteindre ses objectifs,
dade da organização com o acesso city to gain political power. ceux qui mieux articulent la stabilité
ao poder político. de l'organisation avec l'accès au
pouvoir public.