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DIREITO PROCESSUAL CIVIL IV Profª: Évelyn Cintra Araújo

- Causa de Pedir (fatos e fundamentos jurídicos):


No caso da manutenção e reintegração de posse, segundo o art. 561, o autor dever
provar:
 a posse anterior (e não o domínio 1. Exemplos de documentos que demonstram a posse:
contas de luz, correspondências, fotografias e outros);
 a ofensa ou o ato espoliativo, ou seja, turbação ou o esbulho;
 a data da turbação ou do esbulho (define o rito) – difícil de ser provada por prova
documental, o que poderá ensejar a concessão da liminar por meio de audiência de
justificação prévia (coleta de prova oral);
 a continuação ou a perda da posse (se manutenção ou reintegração, respectivamente).
Já no caso do interdito proibitório, conforme o art. 567, além da posse anterior, basta
provar a iminência da turbação ou do esbulho, ou seja, a fundada e grave ameaça de tais atos
consumarem (se ameaça for consumada, é caso de manutenção ou reintegração de posse).

- Pedido => expedição do competente mandado (de manutenção, de reintegração ou de


proibição do esbulho ou turbação).
Além do pedido principal, o art. 555 do NCPC permite a cumulação de outros
pedidos sem prejuízo do rito especial, desde que tenham por fundamento a turbação ou o
esbulho, como a cumulação com o pedido de condenação em perdas e danos e indenização
dos frutos. Ademais, para efetivar a tutela relativa à posse, prevê o parágrafo único do art. 555
que o autor poderá requerer também a imposição de medida necessária e adequada para evitar
nova turbação ou esbulho e para cumprir tutela provisória ou final.
Se o autor cumular outros pedidos, além dos previstos no art. 555, aí o rito será o
ordinário.
O pedido de concessão da liminar é possível, como já visto, se tratar de ação de força
nova (art. 558 c/c art. 562, CPC), afastando, nesse caso, a aplicação da antecipação dos efeitos
da tutela genericamente prevista no art. 300, NCPC, pertinente apenas se a ação de força
velha (art. 558, parágrafo único).

- Valor da causa => aplicação por analogia do art. 292, IV, NCPC (o valor de avaliação da
área ou do bem objeto do pedido).
- Provas => todos os meios de prova hábeis a demonstrar a posse (no caso de manutenção de
posse e do interdito proibitório, a atualidade da posse), a ofensa e o tempo de sua ocorrência.

- Requerimento de citação do réu => se o local for inacessível, não permitindo a aproximação
do oficial de justiça, a citação será por edital. Lembrando que o art. 554, §1º, do NCPC,

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Por essa razão que o promitente comprador não tem interesse processual para intentar ação de reintegração de
posse, mas sim imissão na posse, pois pleiteara a posse com fundamento no título de propriedade.
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prevê, na ação em que figure no pólo passivo grande número de pessoas, a citação será
pessoal dos ocupantes que forem encontrados no local e dos demais, por edital.

- Documentos indispensáveis à propositura da ação (art. 283, CPC).

 Apreciação da liminar antecipatória (arts. 561 a 564 – reintegração e manutenção na posse


e 567 – interdito proibitório):
Provado o esbulho ou a turbação em menos de ano e dia, o mandado de reintegração
ou de manutenção é deferido liminarmente (sem ouvir o réu), conforme o art. 562, ou em
audiência de justificação prévia, consoante o art. 563. No caso do interdito proibitório, o juiz
determinará ao réu uma obrigação de não fazer, proibindo-o de molestar a posse do autor, sob
pena de incorrer em multa pecuniária.
Mas se o ato espoliativo for mais de ano e dia (apenas se turbação ou esbulho, pois
que, como visto, a ameaça é sempre nova), então, a liminar só será deferida se os requisitos do
art. 300 (tutela de urgência antecipada genérica) estiverem satisfeitos.
Sendo o réu for ente público, não é cabível liminar inaudita altera pars, ou seja,
depende da oitiva dos seus representantes legais (art. 562, parágrafo único).
A liminar na ação possessória tem natureza antecipatória posto que satisfativa, em
nada se assemelhando com a cautelar, vez que não objetiva assegurar processo, mas
restabelecer o mais rápido possível o status quo ante alterado pela ofensa à posse.
Todavia, poderá ser deferida com ou sem audiência de justificação prévia, a depender
se os seus requisitos (posse anterior e o tempo da ofensa há menos de ano e dia) forem
comprovados por documentos ou por provas orais.
O réu é citado para a audiência de justificação (art. 562, in fine), mas não pode
produzir provas, apenas contraditar e reperguntar as testemunhas do autor. Isso porque, para o
STJ, tal citação não é para defesa, mas apenas para o réu comparecer e participar da
audiência, não ensejando em nulidade processual a sua ausência.
O juiz pode condicionar a manutenção da liminar à prestação de caução real ou
fidejussória pelo autor, se réu provar que o autor carece de idoneidade financeira para
responder eventuais perdas e danos caso venha a sucumbir na ação, dispensada se tratar de
parte economicamente hipossuficiente (art. 559).
Da decisão judicial que concede ou não a liminar é cabível agravo de instrumento.

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 Respostas do réu: concedido ou não o mandado liminar, o autor promoverá, nos 5 dias
subseqüentes, a citação do réu para, querendo, contestar a ação no prazo de 15 dias (art. 564).
Obviamente que se houve audiência de justificação prévia, o prazo será contado da intimação
(e não citação) da decisão que deferir ou não a liminar (parágrafo único do art. 564).
Se o réu quedar-se inerte e não apresentar resposta, ser-lhe-á decretada a revelia,
seguindo o processo o rito comum, nos termos do art. 566.
Todavia, apresentando resposta, o réu poderá oferecer:
a) contestação: o réu pode arguir quaisquer das preliminares do art. 337, CPC (inclusive,
incompetência absoluta caso a regra do art. 47, §2º, aplicada às possessórias imobiliárias, não
for observada, ou incompetência relativa se a regra do art. 46, aplicada às possessórias de
bens móveis, não for observada); e, no mérito, pode alegar a ausência dos requisitos do art.
561; opor, como fato extintivo ao direito do autor, o usucapião (Sum. 237, STF – não se trata
de defesa petitória, porque a discussão sobre prescrição aquisitiva se assenta na posse;
ademais, o objetivo na possessória não é uma sentença declaratória do domínio); e a
indenização por benfeitorias feitas na coisa.
Por fim, insta registrar que as ações possessórias tem caráter dúplice2, o que autoriza o
réu também pleitear, mediante pedido contraposto, proteção possessória e perdas e danos
pelos prejuízos decorrentes da suposta ofensa praticada pelo autor (art. 556, NCPC).

b) Reconvenção ou pedido contraposto3: em razão do art. 556 prever a possibilidade de o réu


formular pedido contraposto na própria contestação (por se tratar de ação dúplice), sustentou-
se por muito tempo a impossibilidade de manejo da reconvenção nas possessórias por falta de
interesse de agir. Porém, a jurisprudência afastou tal entendimento sob o argumento de que o
pedido contraposto cinge-se às hipóteses tipificadas no art. 556 do CPC, sendo cabível a
reconvenção para outras hipóteses.

 Após o prazo da resposta: todas as ações possessórias seguem o procedimento ordinário


(art. 566), o qual culmina na sentença.

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Ações dúplices ou ambivalentes são aquelas onde autor e réu podem formular pretensões, e o deferimento do
pedido de um implicará necessariamente no indeferimento do pedido do outro.
3
Na verdade, reconvenção e pedido contraposto são demandas do réu contra o autor no mesmo processo,
formuladas na mesma peça em que se apresenta a contestação, distinguindo-se, apenas, pela amplitude: no
primeiro pode ser formulado qualquer pedido, desde que conexo com a ação principal ou com os fundamentos da
defesa (art. 343); já o segundo limita-se ou a causa de pedir remota ou o pedido para algo tipificado. O pedido de
proteção possessória, por exemplo, deve ser considerado como pedido contraposto porque o art. 556 limita-o ao
pleito indenizatório.
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A sentença possessória é objetivamente complexa, uma vez que pode conter, a par do
mandado possessório, o pleito cominatório e até condenatório de indenização. Desta feita, ao
julgar procedente o pedido principal e os cumulados, a sentença faz nascer obrigação de
entregar coisa bem como de dar quantia.
No primeiro caso, a execução dar-se-á segundo a disciplina das tutelas específicas das
obrigações de entrega de coisa, prevista no art. 498 (antigo art. 461-A), onde o juiz fixará
prazo para a entrega da coisa, que, se desobedecido, ensejará a expedição de mandado de
busca e apreensão, se coisa móvel, ou de manutenção ou reintegração na posse, se coisa
imóvel.
Por outro lado, no que tange ao capítulo da sentença que condenou na obrigação de dar
quantia (indenização, p.ex.), transitada esta em julgado e não cumprida voluntariamente pelo
réu, o credor elaborará memória de cálculo atualizada e requererá a intimação do devedor para
efetuar o pagamento no prazo de 15 dias, sob pena de multa de 10% sobre a dívida e
expedição de mandado de penhora (art. 523; a que correspondia no CPC de 73 o art. 475-J).
Transcorrido o mesmo prazo, ao invés de pagar, poderá o devedor apresentar
impugnação ao cumprimento da sentença, ocasião em que o feito prosseguirá perpassando
pela fase expropriatória até a satisfação do credor.
Vale lembrar que, havendo pedido de desfazimento de construção, a sentença de
procedência será cumprida obedecendo ao disposto no art. 497 (a que correspondia o art.
461), que estabelece a tutela específica das obrigações de fazer.
Por fim, salienta-se que da sentença das ações possessórias caberá apelação em ambos
efeitos se for de improcedência, pois que, se de procedência, confirmando a liminar,
obviamente se aplica a exceção do art. 1.012, V, segundo a qual a apelação será recebida
apenas no efeito devolutivo se a sentença confirmar a tutela antecipada.

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