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Ir a banhos na Foz

MANUEL DE SOUSA

A praia como local de lazer foi uma das pre foram as da Foz do Douro. Mas a histó-
primeiras manifestações do turismo, hoje ria da Foz é bem mais antiga. Em 1145, D.
em dia considerado uma indústria global. Afonso Henriques faz a doação de uma er-
Scarborough é considerada a primeira mida em São João da Foz que, no século se-
estância de veraneio. Na década de 1720, guinte, passaria para o mosteiro beneditino
esta cidade inglesa do Mar do Norte, de Santo Tirso. O Couto da Foz confinava
começou a ser procurada pela aristocracia com o concelho de Bouças (Matosinhos), a
de Yorkshire que, para além das termas, foi norte, e com o do Porto, a nascente.
dando preferência aos locais à beira-mar Ainda antes de acordar como estância de
por motivos de saúde e lazer. veraneio, a Foz do Douro iria viver um perí-
odo áureo, graças à ação
EMÍLIO BIEL, c.1900

do primeiro mecenas de
tipo renascentista em Por-
tugal, D. Miguel da Silva.
Nobre, embaixador em
Roma, cardeal da Igreja
Católica Romana, bispo de
Viseu e abade de Santo
Tirso, na primeira metade
do século XVI, D. Miguel
pretendeu monumentali-
zar a Foz do Douro como
local emblemático e de au-
xílio à navegação. Através
do arquiteto italiano Fran-
Alguns anos mais tarde, Brighton, a sul cesco de Cremona, mandou construir o farol
de Londres, passa a ser a estância balnear de São Miguel-o-Anjo – considerado o farol
de referência. Muito devido ao patrocínio mais antigo da Europa que chegou até nós
do rei Jorge IV e graças à rápida ligação com a sua estrutura intacta – e uma grande
ferroviária à capital britânica, a ida a banhos igreja renascentista – considerada a pri-
vai-se popularizando acompanhada da meira manifestação de arquitetura renas-
abertura dos primeiros hotéis. centista no Norte de Portugal.
Do Reino Unido, a moda estende-se à A Guerra da Restauração (1640-1668),
Europa continental. As águas tépidas do no entanto, impos o sacrifício deste templo
Mediterrâneo, nomeadamente as da em favor de uma fortaleza para defesa da
chamada Riviera Francesa, atraem as casas barra do Douro – a fortaleza de São João da
reais e a grande aristocracia europeias. E, Foz –, com a antiga nave da igreja a dar lugar
atrás delas, as massas populares. à praça de armas do aquartelamento
Em 1834, as ordens religiosas são extin-
A praia do Porto tas em Portugal. É criado um concelho da
Foz do Douro, com freguesia única, e paços
É conhecida a secular preponderância da do concelho no largo fronteiro à capela de
comunidade britânica na vida da cidade do Santa Anastácia. De vida curta, já que, 18
Porto, mormente devido ao comércio do vi- meses passados, o concelho da Foz seria in-
nho. No Porto, as praias mais próximas sem- tegrado no do Porto.
A moda dos banhos anos depois havia já dois restaurantes, três
teatros, cinco cafés, sete hotéis e 35 banhei-
De pacata aldeia de pescadores e antigo ros responsáveis por aplicarem os banhos.
couto do mosteiro de Santo Tirso, São João
da Foz ganhou importância acrescida a par- O dia do banhista
tir de meados do século XIX, quando ir a ba-
nhos começou a ser moda também entre Pelos relatos de Ramalho Ortigão e de
nós. Alberto Pimentel, podemos reconstituir
Do centro do Porto, viajava-se para a Foz como seria um dia de praia nos finais do sé-
de carroça ou de burro. Em 1870, o barão de culo XIX. O dia era, quase ritualmente, com-
Trovisqueira consegue autorização para partimentado em três períodos fundamen-
«estabelecer à sua custa, na estrada pública tais: o do banho, o do passeio e o dos con-
entre o Porto e a povoação da Foz, um ca- tactos sociais.
minho de ferro para trans-

ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA, c.1910


porte de passageiros e
mercadorias, servido por
cavalos». Dois anos depois,
surge o americano que,
pela marginal do rio, fazia
uma viagem do Infante à
Foz em apenas 25 minutos.
Mais dois anos depois, cria-
se uma nova ligação à Foz,
entre a praça de Carlos Al-
berto e o largo de Cadou-
ços, via rotunda da Boa-
vista. Esta recorria, para
além do americano, tam-
bém à máquina, um veículo a vapor que cir- O banhista punha-se de pé muito cedo,
culava pela via pública. ao romper da aurora. Com a família, ia em
A atração pela praia vai ser responsável cortejo até à praia. Era o período do banho.
pela criação de novas vias de acesso e pelo Recorria a uma barraca – normalmente de
desenvolvimento dos transportes públicos lona branca – para proceder à muda de
para a zona ocidental da cidade do Porto. roupa: «vestido de cauda para as senhoras,
Mas, rapidamente, membros da comuni- camisolas e calças para os homens». Nos
dade britânica e algumas famílias mais abas- braços experimentados do banheiro, o ba-
tadas do burgo começaram a construir ca- nhista era mergulhado nas águas frias do
sas de férias na Foz, com a época balnear a Atlântico uma, duas ou três vezes, conforme
prolongar-se entre agosto e outubro. a vontade e a coragem de cada um. Em al-
A 21 de novembro de 1862, Ramalho Or- ternativa, havia o banho de choque: dois ba-
tigão escreve «graças a Deus, os últimos ba- nheiros transportavam o banhista numa ca-
nhistas regressam à cidade que suspirava deirinha e, de forma concertada, mergulha-
por eles. As meninas vêm nutridas, acres- vam-no sem este esperar, devolvendo-o ra-
centadas de boa cor e notavelmente satis- pidamente ao areal. Os menos afoitos pre-
feitas, o que denota por certo mais saúde, feriam a gamela que lhes era despejada
mas produz também muito menos interesse pela cabeça. Completava-se o episódio do
poético do que a melancólica palidez com banho.
que nos deixaram». Mas alguns resistem até Seguia-se a primeira refeição do dia: o al-
tarde, prolongando os prazeres do verão moço (a que nós hoje chamamos pequeno-
pelo outono dentro. almoço). Café com leite e pão com manteiga
A Foz cresce. Em 1840 havia apenas duas fresca.
hospedarias, um café e um clube. Quarenta
Depois era apanhar sol, deitados sobre Decorriam assim os dias nesta Foz dos fi-
cobertores estendidos na areia ou sentados nais do século XIX, numa fase em que os ba-
em pequenas cadeiras. Toda a família es- nhos de mar deixaram de ter uma finalidade
tava aí reunida: avós, pais, filhos, tios, pri- exclusivamente terapêutica com a compo-
mos. Conversava-se, observava-se os outros nente social a ganhar importância cres-
banhistas e ouvia-se tocar o ceguinho, en- cente.
quanto jovens galãs faziam olhinhos a don- Apesar de pertencer ao Porto, a Foz do
zelas casadoiras. E assim passava a manhã. Douro mantém, ainda hoje, um certo cariz
Regressava-se a casa para o jantar (o al- próprio. Helder Pacheco, em 1984, escrevia
moço de hoje). De tarde, cumpriam-se tare- que a Foz «apesar de pertencer à cidade
fas do lar e dormia-se a sesta. desde 1836, continua a ser uma localidade
Mais para o fim da tarde, iniciava-se o estranha aos costumes e à paisagem que os
período do passeio. Observa-se os pescado- tripeiros consideram como Porto. Os natu-
res a comporem as redes, passeava-se pelo rais da Foz, os mais velhos, sempre dizem –
Passeio Alegre (ajardinado em 1888), con- quando se deslocam ao centro – vou ao
templava-se o pôr do sol. Às vezes, recor- Porto».
rendo ao aluguer de burros, empreendiam-
se excursões até Leça ou até um pinhal pró-
ximo para um piquenique. Outros, especial-
mente os membros da comunidade britâ- Bibliografia
nica, dedicavam-se às atividades físicas. O
BASTO, A. (1939). A Foz há 70 anos. Porto: Colégio
foot-ball ou o lawn-tennis eram alguns dos Brotero
desportos praticados. Outras vezes, a tarde FERNANDES, J. (1987). “A Foz”. Revista da Faculdade
era ocupada com reuniões na assembleia, de Letras - Geografia. Porto, I série, vol. III, pp. 13-56
no clube ou nos cafés para conversar, jogar MARTINS, L. (1989). “Banhistas de mar no século XIX:
um olhar sobre uma época”. Revista da Faculdade de
bilhar ou às cartas, ouvir declamar ou tocar Letras - Geografia. Porto, I série, vol. V, pp. 45-49
piano. MOURA, N. (2009). A Foz do Douro: evolução urbana.
Depois da ceia (a que hoje chamamos Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto
jantar) entrava-se plenamente no período ORTIGÃO, R. (1876). As praias de Portugal. Porto: Li-
dos contactos sociais, com o banhista a as- vraria Universal
ORTIGÃO, R. (1944). Crónicas portuenses. Lisboa: Li-
sistir às soirées musicais, poéticas ou dan- vraria Clássica
çantes ou ao jogo. A roleta era a grande fe- PACHECO, H. (1984). Porto. Lisboa: Editorial Presença
bre de época dos banhos. Apesar de proi- PIMENTEL, A. (1893). O Porto há trinta anos. Porto:
bida, todos os cafés e clubes tinham entra- Livraria Universal
SOUSA, M. (2017). Porto d’Honra. Lisboa: A Esfera dos
das misteriosas para salas de jogo repletas
Livros
de fumo.

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um
mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação
e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página Porto Desa-
parecido no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal
do Porto. Em 2017, publicou o livro Porto d’Honra, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos
da cidade do Porto.