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Narração e descrição

Para contar urna história, o autor utiliza dois processos de composição: narração e descrição. Vamos
conhecê-los.
No texto abaixo estão presentes esses dois processos de composição. Leia-o atentamente.

Texto: A luta
Quando o marido da Piedade disse um meneando os braços, como preparado para
segundo cochicho à Rita, Firmo precisou agarrá-lo.
empregar grande esforço para não ir logo às do Jerônimo, esbravecido pelo insulto, cresceu
cabo. para o adversário com um soco armado; o
Mas, lá pelo meio do pagode, a baiana caíra na cabra, porém, deixou-se cair de costas, a perna
imprudência de derrear-se toda sobre o direita levantada; e o soco passou por cima,
português e soprar-lhe um segredo, varando o espaço, enquanto o português
requebrando os olhos. Firmo, de um salto, apanhava no ventre um pontapé desesperado.
aprumou-se então defronte dele, medindo-o — Canalha! — berrou possesso; e ia precipitar-
de alto a baixo com um olhar provocador e se em cheio sobre o mulato, quando uma
atrevido. Jerónimo, também posto de pé, cabeçada o atirou no chão.
respondeu altivo com um gesto igual. Os
instrumentos calaram-se logo. Fez-se um — Levanta-se, que não dou em defuntos! —
profundo silêncio. Ninguém se mexeu do lugar exclamou o Firmo, de pé, repetindo a sua
em que estava. E, no meio da grande roda, dança de todo o corpo.
iluminados amplamente pelo capitoso luar de O outro erguera-se logo e, mal se tinha
abril, os dois homens, perfilados defronte um equilibrado, já uma rasteira o tombava para a
do outro, olhavam-se em desafio. direita, enquanto da esquerda ele recebia uma
Jerônimo era alto, espadaúdo, construção de tapona na orelha. Furioso, desferiu novo soco,
touro, pescoço de Hércules, punho de quebrar mas o capoeira deu para trás um salto de gato
um coco com um murro: era a força tranquila, e o português sentiu um pontapé nos queixos.
o pulso de chumbo. O outro, franzino, um Espirrou-lhe sangue da boca e das ventas.
palmo mais baixo que o português, pernas e Então fez-se um clamor medonho. As mulheres
braços secos, agilidade de maracajá: era a quiseram meter-se de permeio, porém, o
força nervosa; era o arrebatamento que tudo cabra as emborcava com rasteiras rápidas, cujo
desbarata no sobressalto do primeiro instante. movimento de pernas apenas se percebia. Um
Um, sólido e resistente; o outro ligeiro e horrível sarilho se formava. João Romão
destemido; mas ambos corajosos. fechou às pressas as portas da venda e trancou
— Senta! Senta! o portão da estalagem, correndo depois para o
lugar da briga. O Bruno, os mascates, os
— Nada de rolo! trabalhadores da pedreira, e todos os outros
— Segue a dança! — gritaram em volta. que tentaram segurar o mulato, tinham rolado
em torno dele, formando-se uma roda limpa,
Piedade erguera-se para arredar o seu homem
no meio da qual o terrível capoeira, fora de si,
dali.
doido, reinava, saltando a um tempo para
O cavouqueiro afastou-a com um empurrão, todos os lados, sem consentir que ninguém se
sem tirar a vista de cima do mulato. aproximasse. O terror arrancava gritos agudos.
— Deixa-me ver o que quer de mim este Estavam já todos assustados, menos a Rita
cabra... — rosnou ele. que, a certa distância, via, de braços cruzados,
aqueles dois homens se baterem por causa
— Dar-te um banho de fumaça, galego dela; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os
ordinário! — respondeu Firmo, frente a frente; lábios. A lua escondera-se; mudara o tempo: o
agora avançando e recuando, sempre com um céu, de limpo que estava, fizera-se cor de
dos pés no ar, e bamboleando todo o corpo e lousa; sentia-se um vento úmido de chuva.
Piedade berrava, reclamando polícia; tinha Miranda acumulavam-se de gente. Ouviam-se
levado um troca-queixos do marido, porque apitos, soprados com desespero.
insistia em tirá-lo da luta. As janelas do Azevedo, Aluísio. O cortiço. Rio de Janeiro, Martins
Editora, 1965

Roteiro de leitura
1. Explique o significado da expressão destacada:
Firmo precisou empregar grande esforço para não ir logo às do cabo.
2. Faça uma relação das personagens que aparecem no texto.
3. Em algumas passagens do texto, o autor substitui o nome da personagem por um de seus
atributos. Informe a que personagem se refere cada atributo abaixo:
a) mulato d) d) português
b) baiana e) e) marido de Piedade
c) cavouqueiro f) f) capoeira
4. Qual fato provoca a briga entre Jerônimo e Firmo?
5. Dos dois personagens envolvidos na luta, qual foi o desafiante?
6. Para indicar a fala de Jerônimo, o narrador utiliza o verbo ‘rosnar’. Comente o valor expressivo
desse verbo no texto.
7. “Firmo lutava capoeira”. Pesquise e responda:
a) O que é capoeira?
b) Onde e quando surgiu?
8. ‘Rita baiana assistia passiva e ironicamente a briga’. Que frase do texto descreve a atitude da
personagem?
9. Ao descrever os personagens, o narrador seleciona alguns aspectos suficientes para sugerir ao
leitor uma impressão básica deles. Qual a impressão básica presente na descrição de Jerónimo e de
Firmo?
10. Além dos personagens, o autor descreve o ambiente. Copie duas frases do texto em que isso
ocorre.

Descrição e narração
Para você analisar a diferença entre narração e descrição, vamos destacar dois momentos do texto:
Texto A
Jerônimo, esbravecido pelo insulto, cresceu para o adversário com um soco armado; o cabra, porém,
deixou-se cair de costas, a perna direita levantada; e o soco passou por cima, varando o espaço,
enquanto o português apanhava no ventre um pontapé desesperado.
Texto B
Os instrumentos calaram-se logo. Fez-se um profundo silêncio. Ninguém se mexeu do lugar em que
estava. E, no meio da grande roda, iluminados amplamente pelo capitoso luar de abril, os dois
homens, perfilados defronte um do outro, olhavam-se em desafio.

Nesses dois trechos, o narrador transmite aspectos da realidade. Há, porém, uma diferença na
maneira como esses aspectos são captados.
No texto A, o autor captou determinados aspectos da realidade em seu dinamismo, transmitindo
ao leitor a progressão dos fatos em seu desenvolvimento temporal. Essa forma de apresentar a
realidade denomina-se narração.
1. Jerónimo, esbravecido pelo insulto, cresceu para o adversário com um soco armado;
2. o cabra, porém, deixou-se cair de costas, a perna direita levantada;
3. e o soco passou por cima, varando o espaço,
4. o português apanhou no ventre um pontapé desesperado.
Narração constitui o relato de uma progressão de fatos, dispostos em sequência temporal.

No texto B, os aspectos da realidade captados pelo narrador acontecem ao mesmo tempo, são
simultâneos. Não há entre eles qualquer marca temporal que indique progressão. Essa forma de
apresentar a realidade denomina-se descrição.
1 Os instrumentos calaram-se logo.
2 Fez-se um profundo silêncio.
3 Ninguém se mexeu do lugar em que estava.
4 Os dois homens, perfilados defronte um do outro, olhavam-se em desafio.
Descrição capta a simultaneidade dos fatos e aspectos que compõem a realidade.

Atividades
1. Informe, nos trechos seguintes, o processo utilizado pelo narrador: narração ou descrição.
a) O outro erguera-se logo e, mal se tinha equilibrado, já uma rasteira o tombava para a direita,
enquanto da esquerda ele recebia uma tapona na orelha. Furioso, desferiu novo soco, mas o
capoeira deu para trás um salto de gato e o português sentiu um pontapé nos queixos.
b) Jerônimo era alto, espadaúdo, construção de touro, pescoço de. Hércules, punho de quebrar
um coco com um murro: era a força tranquila, o pulso de chumbo. O outro, franzino, um palmo mais
baixo que o português, pernas e braços secos, agilidade de maracajá, era a força nervosa: era o
arrebatamento que tudo desbarata no sobressalto do primeiro instante. Um, sólido e resistente; o
outro, ligeiro e destemido; mas ambos corajosos.
c) Piedade berrava, reclamando polícia; tinha levado um troca-queixos do marido, porque insistia
em tirá-lo da luta. As janelas do Miranda acumulavam-se de gente. Ouviam-se apitos, soprados com
desespero.
d) Mas, lá pelo meio do pagode, a baiana caíra na imprudência de derrear-se toda sobre o
português e soprar-lhe um segredo, requebrando os olhos. Firmo, de um safio, aprumou-se então
defronte dele, medindo-o de alto a baixo com um olhar provocador e atrevido.
2. Numa descrição, a ordenação dos fatos não é um fator determinante, por não haver entre eles
progressividade. Você encontrará em cada item a seguir um conjunto de aspectos.
Ordene-os na sequência que julgar adequada e componha um texto descritivo.
a) Os olhos do gato riscam no escuro, verdes, demoníacos.
b) A ladeira faz uma curva.
c) As casas, velhas, tortas, desalinhadas, dormem.
d) Os passos ecoam, sinistros, secos, vagarosos.
e) Nenhuma janela acesa, nenhuma luz pelas frinchas„
f) Os lampiões silvam.

3. O texto A é narrativo: os fatos acontecem um depois do outro. O texto B é descritivo: os fatos


acontecem ao mesmo tempo, são simultâneos.
Texto A — Narração: fatos progressivos
Marcelo aproxima-se do mar com uma pipa na mão
De repente, Marcelo ouve um barulho atrás de si. Vira-se e depara com uma menina saindo do mar.
O menino joga a pipa no chão e olha, extasiado, para a menina.
— Uma "hippie" do mar — exclama, encantado.
A menina dirige-se para Marcelo e toma-lhe a mão. Para espanto do menino, diz para ele apenas
uma palavra: AMOR
Texto B — Descrição: fatos simultâneos
A praia está deserta
O Sol vem rompendo devagarinho.
Uma menina bela, mas estranha,
Ela traz na cabeça uma estrela de prata e o vestido é um espetáculo de cores: verde, azul, vermelho
e amarelo.
Sobre o vestido, uma infinidade de colares feitos de conchas.
O seu rosto brilha tanto quanto a estrela de prata que traz sobre a cabeça.
Acrescente ao texto A as frases do texto B nos lugares que você julgar adequados. Invente um título
para o texto que você organizou.