Você está na página 1de 124

estudos históricos

EH63 História
Democracia
e Instituições

ISSN 2178-1494
Estudos Históricos, volume 31, número 63, jan.-abr. de 2018. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e
Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas, 1988
Quadrimestral
Resumos em português, inglês e espanhol
Editada e distribuída pela Editora Fundação Getulio Vargas
ISSN: 2178-1494.
1. História 2. Historiografia 3. Periódicos 4. Ciências Sociais 5. Economia e Sociedade.
I – : Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas
CDD 981.005
CDU 981(051)

E-mail: eh@fgv.brEndereço na internet: http://www.fgv.br/cpdoc/revista


Endereço postal: Fundação Getulio Vargas/CPDOC
Secretaria da Revista Estudos Históricos
Praia de Botafogo, 190, 14º andar, Rio de Janeiro 22.523-900 RJ
H estudos históricos 63|História Democracia e Instituições
Rio de Janeiro, vol. 31, no 63, p. 1-124, janeiro-abril 2018

Sumário

HISTÓRIA, DEMOCRACIA E INSTITUIÇÕES |4


HISTORY, DEMOCRACY AND INSTITUTIONS
HISTORIA, DEMOCRACIA E INSTITUCIONES
Angela Moreira Domingues da Silva, Marco Aurélio Vannucchi e Paulo Fontes

Artigos

UMA hISTÓRIA SOCIAL DO FEMINISMO: DIÁLOGOS DE UM CAMPO POLÍTICO BRASILEIRO (1917-1937) |7


A SOCIAL HISTORY OF FEMINISM: DISCUSSIONS WIThIN A BRAZILIAN POLITICAL FIELD (1917-1937)
UNA hISTORIA SOCIAL DEL FEMINISMO: DIÁLOGOS DE UN CAMPO POLÍTICO BRASILEÑO (1917-1937)
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

A DEMOCRACIA EM DEBATE: JURISTAS BAIANOS E A RESISTÊNCIA AO REGIME VARGUISTA (1930-1945) |27


DEBATING DEMOCRACY: JURISTS FROM ThE STATE OF BAhIA AND ThE OPPOSITION TO ThE VARGAS REGIME (1930-1945)
LA DEMOCRACIA EN DEBATE: JURISTAS DE BAhÍA Y LA OPOSICIÓN A GETÚLIO VARGAS (1930-1945)
Diego Rafael Ambrosini

BADERNEIROS, ARRUACEIROS, GUERRILhEIROS: UM ACONTECIMENTO NA TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA |49


RIOTERS, ROWDIES, GUERRILLA FIGhTERS: AN EVENT IN ThE DEMOCRATIC TRANSITION
AGITADORES, ALBOROTADORES, GUERRILLEROS: UN ACONTECIMIENTO EN LA TRANSICIÓN DEMOCRÁTICA
Daniel Barbosa Andrade de Faria

CIDADANIZAÇÃO E ETNOGÊNESES NO BRASIL: APONTAMENTOS A UMA REFLEXÃO SOBRE AS EMERGÊNCIAS POLÍTICAS E SOCIAIS
DOS POVOS INDÍGENAS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX |71
CITIZENIZATION AND EThNOGENESES IN BRAZIL: NOTES ON A REFLECTION ABOUT ThE POLITICAL AND SOCIAL EMERGENCIES OF INDIGENOUS PEOPLES IN ThE SECOND HALF OF ThE
TWENTIETh CENTURY
CIUDADANIZACIÓN Y ETNOGÉNESIS EN BRASIL: APUNTES A UNA REFLEXIÓN SOBRE LAS EMERGENCIAS POLÍTICAS Y SOCIALES DE LOS PUEBLOS INDÍGENAS EN LA SEGUNDA MITAD
DEL SIGLO XX

Fernando Roque Fernandes

ROTULAÇÃO E SELETIVIDADE POLICIAL: ÓBICES À INSTITUCIONALIZAÇÃO DA DEMOCRACIA NO BRASIL |89


ETIQUETAMIENTO Y SELECTIVIDAD POLICIAL: ÓBICES A LA INSTITUCIONALIZACIÓN DE LA DEMOCRACIA EN BRASIL
LABELING AND POLICE SELECTIVITY: OBSTACLES TO ThE INSTITUTIONALIZATION OF DEMOCRACY IN BRAZIL

Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

ENTREVISTA COM JOÃO ROBERTO MARTINS FILhO |109


INTERVIEW WITh JOÃO ROBERTO MARTINS FILhO
ENTREVISTA CON JOÃO ROBERTO MARTINS FILhO
Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva
Editorial

História, democracia e instituições


History, democracy and institutions
Título em espanhol: Historia, democracia e instituciones

Angela Moreira Domingues da Silva,


Marco Aurélio Vannucchi e Paulo Fontes

Editores

A s atuais discussões a respeito do funcionamento das instituições nacionais e da qua-


lidade da democracia brasileira motivaram a definição do presente tema da Revista
Estudos Históricos, que se dedica a reflexões sobre História, democracia e instituições. A
abrangência e importância do tema fez com que recebêssemos artigos refletindo sobre os
mais variados temas, a partir de perspectivas bem distintas. Assim, neste número, contamos
com textos sobre feminismo e participação das mulheres nas instituições, sobre distintas con-
cepções de democracia na primeira metade do século XX, a partir do ponto de vista de juristas,
sobre o processo de redemocratização brasileira na década de 1980 e as disputas em torno
da noção de democracia, além de texto sobre o funcionamento do sistema de Justiça criminal

http://dx.Doi.Org/10.1590/S2178-14942018000100001

Professores da Escola de CIências Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPDOC/FGV) e Editores da Revista
Estudos Históricos. E-mails: angelamoreirads@gmail.com; marco.vannucchi@fgv.br; paulo.fontes@fgv.br

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 5-6, janeiro-abril 2018 5
Angela Moreira Domingues da Silva, Marco Aurélio Vannucchi e Paulo Fontes

brasileiro. Dessa forma, publicamos artigos que cobrem diferentes épocas da histórica repu-
blicana brasileira.
O artigo que abre este número da Revista trata de uma Uma história social do feminis-
mo: diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937), no qual Glaucia Cristina Candian
Fraccaro contribui para reflexões sobre o feminismo – campo de disputas internacionais –,
a partir da ótica do mundo do trabalho. Ao longo do artigo, Fraccaro enfatiza a luta das
mulheres trabalhadoras por direitos e sua pouca representatividade nas instituições gover-
namentais. O segundo artigo, A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao
regime varguista (1930-1945), de Diego Rafael Ambrosini, busca analisar diferentes noções
em circulação a respeito da ideia de democracia nas décadas de 1930 e 1940, especialmente
a partir da perspectiva da produção intelectual de juristas que atuavam no Instituto dos Ad-
vogados da Bahia.
O texto que segue, de Daniel Barbosa Andrade de Faria, analisa o incidente acontecido
logo após a manifestação contra o Plano Cruzado II, conhecido como “badernaço”, refletindo
sobre as disputas em torno da noção de democracia, fundamentado na documentação do
acervo da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. Pesquisando sobre a mesma
época, Fernando Roque Fernandes analisa o debate parlamentar em torno da Constituição
de 1988, no que concerne à pauta da cidadania indígena, quando democracia, cidadania e
direitos humanos estavam na agenda de discussões para pensar a “nova democracia” bra-
sileira. Por fim, o artigo de Flávia Cristina Soares e Ludmila Ribeiro que oferece um balanço
bibliográfico sobre o funcionamento do sistema criminal brasileiro, registrando o descompasso
entre os ideais da democracia e o pragmatismo do funcionamento das instituições de Justiça.
Fechando o dossiê, o número apresenta a entrevista realizada com o cientista político
João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sobre
a história e a atuação política das Forças Armadas brasileiras. Além de narrar sua trajetória
acadêmica, com início na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Martins Filho regis-
tra o percurso de suas pesquisas sobre a instituição militar, tendo início na atuação política do
Exército durante o período ditatorial brasileiro.
Este número é dedicado a Dulce Pandolfi, Luciana Heymann, Monica Kornis e Verena
Alberti, acadêmicas fundamentais na história do CPDOC e da Revista Estudos Históricos.

6 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 6-6, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo:
diálogos de um campo político
brasileiro (1917-1937)
A Social History of Feminism: discussions within a Brazilian
political field (1917-1937)
Una historia social del feminismo: diálogos de un campo político
brasileño (1917-1937)

Glaucia Cristina Candian Fraccaro

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942018000100002

Possui graduação em História pela Universidade Estadual de Campinas (2001), mestrado (2008) e doutorado (2016) em
História Social do Trabalho pela Universidade Estadual de Campinas. Foi Coordenadora de Autonomia Econômica das
Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. (galufraccaro@gmail.com)

Artigo recebido em 29 de agosto de 2017 e aprovado para publicação em 15 de dezembro de 2017.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 7-26, janeiro-abril 2018 7
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

Resumo
Este artigo oferece uma reflexão sobre a história do feminismo brasileiro a partir da perspectiva do mundo do traba-
lho. As greves dos anos 1930, a atuação do Partido Comunista e as redes feministas internacionais anunciaram que
o feminismo era um campo político em disputa desde seus primeiros momentos. Sustento o argumento de que não
se tratava de casos excepcionais: a experiência das mulheres pode contribuir para uma interpretação que torne mais
complexa a história da luta feminina por direitos do trabalho no Brasil.

Palavras-chave: Feminismo; Trabalhadoras; Política.

Abstract
This article offers a reflection on the history of Brazilian feminism through the a perspective of the world of labor. The
1930s strikes, the role of the Communist Party and the international feminist networks announced that feminism
was a disputed political field since its earliest moments. I argue that these are not exceptional cases: the experience
of women can contribute to an interpretation that makes the history of the struggle for labor rights in Brazil more
complex.

Keywords: Feminism; Women Workers; Politics.

Resumen
Este artículo hace una reflexión sobre la historia del feminismo en Brasil desde la perspectiva del mundo del trabajo.
Las huelgas en los años 1930, la actuación del Partido Comunista y las redes feministas internacionales anuncian
que el feminismo há sido un campo político em disputa desde sus primeros momentos. Sostengo el argumento de
que esos casos no eran excepcionales: la experiencia de las mujeres puede contribuir para una interpretación que
haga de la lucha por los derechos laborales en Brasil más compleja.

Palabras clave: Feminismo; Trabajadoras; Política.

8 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 8-26, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937)

S e o enredo favorito da história fosse a descoberta da transformação, as mulheres esta-


riam, supostamente, excluídas das páginas por perturbar menos a ordem estabelecida.
Pensar a história das mulheres, conduz, portanto, a considerar as relações entre os sexos, de
modo a elucidar demasiadamente a perspectiva de “permanências e mudanças, das relações
do sujeito e do objeto, da cultura e da natureza, do público e do privado”. É Michelle Perrot
(2005: 26) quem se debruça, a partir dos anos 1970, sobre os silêncios das mulheres na his-
tória para afirmar que, no mundo do trabalho, a categoria “gênero” parece mais pertinente e
eficaz em todas as suas dimensões. A divisão de papéis e as funções sociais que emergem de
uma conformação biológica, “uma vagina para receber, um ventre para carregar e seios para
amamentar”, marcariam o destino delas: “nenhum lugar além do lar” (Perrot, 2005: 173).
Há algum tempo que a historiografia enfrenta o desafio de perceber que o sujeito histó-
rico não é universal, ao menos, desde Joan Scott (1988), ou ainda desde o artigo inovador de
Gayle Rubin (1992), que evidenciou a existência de um sistema de sexo e gênero pelo qual
um conjunto de arranjos da sociedade transforma a sexualidade biológica em produto de
atividade humana1. Assim, é preciso considerar que a investigação da experiência de mulheres
se justifica pelo fato de que a sexualidade, a maternidade e sua força de trabalho configuram
relações de controle ou dominação distintas e, portanto, requerem um olhar específico (Lobo,
1991: 186). É bem verdade que, desde o tempo em que a historiadora francesa deu suas
primeiras palestras sobre as mulheres e “os silêncios da história”, já foi possível reunir muitos
textos e pesquisas que romperam com esse quadro. No Brasil, os esforços para superar as au-
sências delas na história também envolveram a tentativa de compreender a vida das mulheres
no mundo do trabalho (Rago, 2014; Esteves, 1989; Soihet, 1989).
Assim, proponho que considerar a experiência das trabalhadoras pode alterar a narrativa
central sobre a História do Feminismo. As pesquisas em História e nas Ciências Sociais con-
tribuíram para perpetuar a noção de que a classe trabalhadora havia faltado na emergência
de um movimento feminista, exclusivo das elites letradas e das financeiras. Por consequência,
os marcos conhecidos e celebrados do movimento brasileiro são quase que exclusivamente
ações de mulheres de alta classe social. Um desses marcos é a fundação da Federação Bra-
sileira pelo Progresso Feminino (FBPF), em 1922. Muita atenção foi dedicada à atuação da
FBPF, organização liderada por Bertha Lutz, que seria a grande “orientadora do movimento
feminista nacional”2. Branca Moreira Alves (1980: 127) e Heleieth Saffioti (1969: 258) inau-
guraram pesquisas que colocaram na história, em definitivo, o feminismo no Brasil, a atuação
da federação e sua liderança.
Por outro lado, essa estratégia analítica redundou no que Mônica Schpun chamou de
“centralidade de Bertha Lutz” (Schpun, 2002: 83) – para Branca Moreira Alves, a atuação da

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 9-26, janeiro-abril 2018 9
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

FBPF era concentrada no sufragismo, e Heleieth Saffioti demarcou que as ideias feministas
eram estrangeiras e que ganharam força por meio da atuação de Lutz; de acordo com ela, “as
manifestações feministas têm início no Brasil em consequência da visita da Dra. Bertha Lutz
a Londres” (Saffioti, 1969: 257). Considerando a distância existente entre as mulheres que
atuavam na FBPF e aquelas que trabalhavam em fábricas ou em postos menos favorecidos, as
análises sobre esse período no Brasil tentaram responder justamente essa contradição.
A periodização sugerida por esses estudos demarca os diferentes momentos do feminis-
mo por meio de “ondas”, e a fundação da FBPF corresponderia à “primeira onda”, quando
a organização feminista se concentraria em conquistar o sufrágio das mulheres3. Até hoje, a
história contada sobre elas procura compreender como um movimento desse caráter preten-
dia lutar pelos direitos das mulheres sem alterar os direitos dos homens, atuando por den-
tro das instituições governamentais. A explicação encontrada varia entre tratá-las como um
“feminismo difuso”, ou ainda como um “feminismo tático”4. Essas qualificações denotavam
análises que esperavam, mas não encontraram, a plenitude da autonomia feminista nos seus
“primórdios”. De acordo com esse modelo, a “segunda onda” viria apenas nos anos 1960,
fruto da “efervescência política do período”, para problematizar os papéis públicos e privados
das mulheres. Até mesmo para a “terceira onda” – para questionar as identidades diversas
que compunham o feminismo, o elemento ausente seria a luta das mulheres no mundo do
trabalho. É claro que os conflitos das relações de trabalho compuseram os diversos momentos
do modelo, mas a separação por “ondas” costuma eleger marcos tidos como hegemônicos a
cada período. O questionamento sobre o uso da metáfora das ondas tem sido cada vez mais
frequente, por considerar que a periodização entrincheira a percepção do feminismo singular,
na qual gênero é a categoria predominante de análise, deixando subsumidos os conflitos de
raça e de classe (Laughlin e outras, 2010)5.
A classificação do movimento feminista também compôs os trabalhos que analisaram
a existência dos circuitos do patriarcado na história do Brasil, e as pesquisas feitas até agora
encontraram um sistema de gênero que excluía as mulheres e as mantinha confinadas nas
funções domésticas e familiares. Entretanto, a suposta passividade delas, por estarem, talvez,
ausentes das grandes greves, por serem excluídas de sindicatos e partidos, não é suficiente para
compreendermos também por que o mundo mudou tanto para as mulheres durante todo o sé-
culo XX. Não é possível afirmar categoricamente que a ausência numérica de mulheres nas ins-
tituições tenha desembocado numa total indiferença de gênero nas barganhas coletivas e polí-
ticas ou mantiveram intactas a ordem social e econômica. As greves dos anos 1930, a atuação
do Partido Comunista e as redes feministas internacionais, abordados neste artigo, anunciaram

10 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 10-26, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937)

que o feminismo era um campo político em disputa, desde os seus primeiros momentos. As
mobilizações grevistas, por sua vez, além de representarem um forte indício da participação da
classe trabalhadora no debate geral da legislação trabalhista, permitem entrever reivindicações
e controvérsias que envolvam a experiência das mulheres no mundo do trabalho.

Brás do Brasil, Brás de todo o mundo

N a cidade de São Paulo, depois da crise de 1929, mulheres e homens garantiam os


trabalhos nas fábricas, principalmente, nas tecelagens. O romance Parque Industrial,
assinado por Mara Lobo, é um dos tesouros possíveis por meio do qual podemos caminhar
pelas ruas do Brás. Mara Lobo é Patrícia Galvão, que escreveu o romance em 1933. Ela estava
afastada do Partido Comunista e, por esse motivo, fez uso de pseudônimo. Depois de uma
crise interna sobre a função dos intelectuais na organização política, a direção decidiu por
“deixá-la à margem”, que permanecesse apenas escrevendo. De acordo com Augusto de
Campos, o Partido a considerava “agitadora individual, sensacionalista e inexperiente” (Cam-
pos, 1982: 102). A jovem de 21 anos é autora dessas linhas que, embora ficcionais, contam
muito de como Patrícia Galvão enxergava o mundo do trabalho nos anos 1930. Ela descreve
São Paulo como o maior centro industrial da América do Sul. Conta:

“A italianinha matinal dá uma banana pro bonde. Defende a pátria:


– Mais custa! O maior é o Brás!” (Galvão, 2006).

Por meio de sua literatura, podemos acessar uma série de diálogos e interlocuções so-
ciais. Podemos nos esgueirar pelo Brás de Pagu, que além de retratar a opressão das operárias
e as péssimas relações de trabalho, de quebra, utilizou a literatura para alfinetar tanto o
Partido Comunista, sobre a participação política das mulheres, quanto a pequena burguesia
letrada, para ela, tão distante da realidade da classe trabalhadora. Esses, sim, alguns de seus
marcantes interesses.
Embora apareçam na obra de Patrícia Galvão, fome, exploração e violência policial não
eram mera ficção na vida da classe trabalhadora brasileira nos primeiros anos do século XX.
A maior parte estava submetida a jornadas extenuantes que, em São Paulo, poderia atingir
a marca de 16 horas diárias. Ausentes das fileiras sindicais, algumas dessas trabalhadoras

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 11-26, janeiro-abril 2018 11
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

não se fizeram ausentes das pressões por melhores relações de trabalho ou até mesmo das
organizações grevistas.
Os anos 1930 haviam sido inaugurados com o célebre episódio da tomada da Bastilha
do Cambuci, quando um motim tomou de saque a delegacia do Departamento de Ordem
Política e Social. Em parte, a revolta provinha do sistema de identificação individual de traba-
lhadores a serviço da polícia e dos donos de fábrica. O sistema de identificação não foi unifor-
me e era operado pelo DOPS, pelos donos de fábrica, por meio das circulares do Centro dos
Industriais de Fiação e Tecelagem e pelo Departamento Estadual do Trabalho, que pretendia
regular a vida profissional de cada pessoa. A origem desses prontuários guarda relação íntima
com as circulares elaboradas pelos industriais, atentos aos conflitos nas relações de trabalho
(Negro e Fontes, 2001).
As greves se espalharam por diversas fábricas. Essas mobilizações eclodiram face aos efei-
tos da Crise de 1929, que se agravara internacionalmente. Desemprego e redução dos salários
tornavam as condições de vida mais difíceis; os empresários repassavam os custos da crise em
forma de aumento da jornada de trabalho, que havia sido reduzida para conter estoques e pro-
dução de mercadoria, sem aumento dos salários. Esses eram os motivos que agitaram as greves
iniciadas logo após a posse do governo que havia operado a Revolução de 1930.
Com a chegada de Getúlio Vargas e da Aliança Liberal ao poder, foi estabelecido o pro-
jeto de governo corporativista e de conciliação de classes, que convocava as instituições a de-
sempenharem funções de colaboração, cujas primeiras ações foram a aprovação de decretos
para regular as relações de trabalho. O projeto de conciliação aliancista dava seus primeiros
passos ao nomear um tenentista como interventor do estado de São Paulo e ao trazer o Par-
tido Comunista do Brasil (PCB), que se organizava desde os anos 1920 e sofrera perseguição
de diversas naturezas para a legalidade (Araújo, 1998: 162).
As primeiras ações do governo de Vargas consistiram em fundar o Ministério do Tra-
balho, Indústria e Comércio e promulgar os decretos que instituíam juntas de conciliação
de julgamento, ampliar a seguridade social e estruturar um aparato de fiscalização para a
aplicação e o cumprimento das leis, além de regularem o trabalho de mulheres e crianças
(Silva e Corrêa, 2016: 12).
No começo dos anos 1930, as greves atingiram várias categorias e cidades do interior
do estado de São Paulo, e a condução do movimento ganhou novas disputas que envolviam
diversas correntes de esquerda (Araújo, 1998: 181). Trabalhadores do setor têxtil, organizados
na União dos Operários em Fábricas de Tecido (UOFT), mobilizaram mais de 15 mil pessoas, e
José Righetti, principal liderança da organização têxtil, ganhou notoriedade ao organizar um
grande comando de greve (Araújo, 1998: 177)6.

12 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 12-26, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937)

A UOFT começou suas atividades ainda em 1917 e se reorganizou no início dos anos
1930. Em agosto de 1931, depois de encampar uma grande greve têxtil que, de acordo com o
sindicato, mobilizou a paralisação de 68 mil pessoas em 14 dias, a UOFT enviou ao interventor
do estado de São Paulo um memorial de reivindicações que deveria chegar até o Ministério do
Trabalho – o que de fato aconteceu. O documento assinado por José Righetti circulou tanto
no Ministério quanto na Secretaria do Gabinete Civil de Vargas, onde foi encontrado. As ano-
tações nesses papéis indicavam que as autoridades haviam consultado os empresários sobre
o líder sindical – de acordo com eles, Riguetti fazia do sindicato sua renda e era “responsável
pela perturbação do trabalho paulista”. No documento, o sindicalista descrevia que a pro-
porção entre mulheres e homens na categoria têxtil chegava a 85% e que os patrões davam
preferência à contratação de mulheres, a ponto de afirmar:

“Tendo em conta ainda que nas seções de tecelagem só aceitam mulheres, contribuindo desta
forma para avolumar cada vez mais o número de homens desempregados, oferecendo, assim,
um espetáculo ao mesmo tempo ridículo, vergonhoso e revoltante: o de ver a mulher na fábrica
e o marido em casa, cuidando dos serviços domésticos e levar as crianças ao portão das fábricas
para serem amamentadas”7.

A avaliação sofrida de José Righetti lamentava o papel de cuidados que os maridos


das tecelãs tiveram de assumir. Para o sindicalista, os serviços domésticos e o trato com as
crianças eram tarefas exclusivas das mulheres, tanto quanto a troca dessas funções entre
homens e mulheres era concebida por ele como de menor valor, posto que não passava de
algo “ridículo”, “vergonhoso” e “revoltante”. A noção de que existe uma massa de trabalho
relegada tão somente às mulheres não era invisível a quem tivesse de lidar com o cotidiano
da classe trabalhadora, mas isso não é o mesmo que dizer que havia um reconhecimento do
peso que o desempenho do trabalho doméstico em cuidados e limpezas tinha na vida das
mulheres. Por meio das palavras do sindicalista é possível demonstrar como relações sociais
desiguais transformam diferenças biológicas em construções sociais (Kessler-Harris, 2007: 32).
O sindicalista tinha uma visão de classe baseada na dignidade masculina, que em nada se
apresentava como “universal”.
Essas eram as reivindicações da UOFT: que se aplicasse a licença-maternidade sem pre-
juízo dos vencimentos; que fosse promovida a proteção à infância e a à velhice, e “que os
lugares ocupados hoje por mulheres nas indústrias fossem, numa porcentagem crescente,
de mês a mês, ocupados por homens, até a extinção do total do elemento feminino nas in-
dústrias”8. Beirava o imponderável ignorar a presença das mulheres na força de trabalho, ao
ponto de que quase todo o longo documento em questão versava sobre a exploração vivida

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 13-26, janeiro-abril 2018 13
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

por elas; por outro lado, a solução encontrada pelo sindicalista José Righetti seria a de eliminar
a presença delas no mercado de trabalho formal. Os panfletos que tratavam dos motivos das
greves de 1931 e 1932 explicavam que o grau de exploração prejudicava os homens, o que
resultava em “um considerável número de chefes de família sem pão para seus filhos”9. Se
por um lado, essa direção sindical considerava limpeza e cuidados como tarefas exclusivas
das mulheres tecelãs, por outro, a mesma direção reforçava que o papel dos homens, como
provedores familiares, era o de garantir o sustento, de modo que, na visão de sua liderança,
preservar os postos e salários deles eram formas de penhorar o bem-estar do núcleo familiar.
Valiosa por ser numerosa e mobilizada, a disputa sindical pela base têxtil traria novos
elementos para a atuação da UOFT. Em 1931, Righetti teve de montar uma operação rígida
na porta do lugar onde estava acontecendo aa reunião da organização para impedir a parti-
cipação de dirigentes do PCB10. A presença de membros de outros sindicatos e da federação
operária nas reuniões da entidade denotava que a relativa independência política, que a UOFT
teria cultivado entre 1931 e 1932, configurava um atrativo para que outras correntes de
esquerda participassem da mobilização da entidade. Os comunistas consideraram que essas
entidades independentes, como a UOFT, configuravam um “gênero particular de base tradeu-
nista” (Araújo, 1998: 167). Seria uma tarefa difícil a de manter o PCB longe das reuniões da
organização, em meio a reorganização sindical da cidade.
É possível que a disputa sindical envolvesse a prática de infiltrar militantes na categoria
têxtil. Em 1933, a tecelã Rachel Pilar, de 21 anos, desceu de um trem que vinha de Sorocaba
para São Paulo em busca de um emprego na Fábrica de Tecidos Jafet. Ela vivia com parentes
no Ipiranga, e foi demitida do trabalho por faltar muito ao serviço. No seu encalço por mais
de um ano, por suspeita de pertencer ao PCB, o DOPS a deteve para identificação, sem muito
sucesso, pois até aquele momento não se sabia ao certo se ela se chamava Rachel Freitas,
Rachel Alves ou Maria Paiva. O cunhado da tecelã, interpelado pela polícia, afirmou que ela
“costumava se recolher tarde da noite”, e, que por ser ela comunista, a família decidiu colo-
cá-la para fora da casa11. Não é possível saber se o cunhado acobertava a tecelã de Sorocaba
ou se, de fato, ela agora contava com a própria sorte para viver na Cidade, mas é provável que
a tarefa da militante tenha sido a de se alistar na base da UOFT.
Ao mesmo tempo da chegada de “Rachel” na cidade de São Paulo, a UOFT passou
a convocar “camaradas” para a reunião da entidade que, ainda muito preocupada com a
situação dos homens “substituídos por mulheres e menores”, também passou a difundir a
exploração sofrida por elas e pelas crianças. Isso ao menos nos panfletos. O programa geral
incorporou a necessidade da luta revolucionária “independente da conquista de reivindica-

14 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 14-26, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937)

ções”, e inseriu no pleito: licença de um mês após o parto, com vencimentos, cumprimento
integral da lei de férias e da jornada de oito horas e “salário igual, para trabalho igual”12. Até
1932, a entidade havia se posicionado pouco sobre as diferenças entre homens e mulheres
nas relações de trabalho das fábricas, mas durante seus esforços para organizar uma tabela
unificada de preços para a manufatura de tecidos, recomendou que ela fosse confeccionada
de forma a pagar “igual preço para igual tecido”, porque a diferença de valores variava entre
20% e 50% na remuneração de homens e mulheres13.
“Rachel” tinha visitado o Uruguai, na companhia de Tarsila do Amaral, para uma reunião
do comitê contra a guerra. Com ela, trouxe panfletos e jornais do Paraguai e da URSS que
denunciavam a opressão vivida pelas mulheres, e sobre as jornadas de trabalho de mais de
12 horas exercidas pelas trabalhadoras domésticas de Montevidéu14. Porém, o partido que
Rachel e Tarsila conheceram e no qual militavam tinha alterado a direção sobre as mulheres
havia pouco tempo.
Em geral, as mulheres eram vistas como parte da luta de emancipação de toda a classe
trabalhadora, e no fim dos anos 1920 muitas instâncias do Partido já fomentavam comissões
femininas ou de mulheres cuja tarefa era de convidá-las a engrossar as fileiras da revolução15.
A orientação política estabelecida pela Internacional Comunista, em 1922, visava a “preparar
uma base orgânica política legal” e a propiciar a conquista do que chamavam de pequena
burguesia para o proletariado. A troca de cartas e o envio de orientações partidárias entre a
direção e os núcleos do PCB revelaram que, naqueles anos, o número de mulheres que inte-
graram as fileiras comunistas era muito baixo: entre 20 e 50. De acordo com os dirigentes,
“isso mal dá 3% de todo o Partido”16. As trabalhadoras domésticas figuraram como uma
preocupação para a organização da classe, ao menos desde a formação do Comitê das Mu-
lheres Trabalhadoras. “As mulheres que alugam seu braço nos palácios da burguesia, assala-
riadas, portanto”, ao que tudo indica. O debate sobre elas estaria em torno de construir uma
entidade de classe pela categoria ou reuni-las em um outro sindicato, cujo setor fosse similar,
como o da indústria de alimentos17.
Dessa forma, a partir de 1922, o Partido se esforçou para tributar o dia 8 de março como
uma jornada de lutas das mulheres. Algumas células se queixavam da falta de possibilidades
de cumprir a tarefa por haver poucas mulheres mobilizadas, mas viam nas fábricas um po-
tencial de atuação18. Menos que uma demanda proveniente dos quadros brasileiros, o debate
sobre a mulher trabalhadora provinha da alta direção, que orientava para uma organização
bem executada do 8 de março, capaz de alertar as trabalhadoras privadas dos direitos políti-
cos e da vida política do Brasil. Como sugestão, a direção afirmava que as palavras de ordem

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 15-26, janeiro-abril 2018 15
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

deveriam versar sobre a vida real das trabalhadoras, e assim elas deveriam ser anunciadas:
jornada de sete horas, proteção delas como mão de obra, proteção à maternidade, instalação
de creches e “trabalho igual, salário igual”19.
A incorporação das mulheres na luta geral da classe trabalhadora, do ponto de vista dos
comunistas, sofreu uma mudança em 1930. As mulheres, no Partido Comunista, vistas como
companheiras da revolução e de revolucionários, ao menos nos textos que chegavam e eram
publicados no Brasil, a partir de 1930 obtiveram um programa que tratava da igualdade e
dos direitos relativos às trabalhadoras20. Uma parte dos elementos que explicam a mudança
programática residia no debate internacional posto pelo feminismo. O texto que redirecionava
a questão das mulheres afirmou que, para eles, a burguesia havia realizado “um trabalho
particularmente enérgico entre as trabalhadoras, com o objetivo de alijá-las da luta de clas-
ses”, usando reivindicações “neutras” e criando associações femininas especiais; contra essas
iniciativas, os dirigentes se viram atuando de forma insuficiente, e acreditavam que a tarefa do
Partido deveria ser “desmascarar a tentativa, mostrando que unicamente a luta pela revolução
oferece a base para a emancipação da mulher trabalhadora”21.

Feminismo e o Mundo do Trabalho

Q uanto ao “trabalho enérgico”, elaborado pela burguesia, certamente os comunistas


se referiam ao fortalecimento das organizações feministas no mundo todo, durante o
período entreguerras. Muito mais conhecidas por levantarem a bandeira do voto feminino, na
verdade, desde o fim do século XIX, as feministas estabeleceram longas discussões sobre a
necessidade de elaboração de uma legislação trabalhista específica para as mulheres, porém a
divisão de opiniões nem sempre estava claramente separada em grupos definidos (Wikander,
2010). A partir da proposta de um tratado de direitos iguais, elaborada para a Liga das Na-
ções, em 1926, por integrantes da British Six Point Group e da National Woman´s Party, e dos
Estados Unidos, o Equal Rights Treaty, iniciaram-se discussões e esforços políticos que divi-
diam as mulheres e seus grupos a respeito da adoção de convenções e legislações internacio-
nais específicas para as mulheres (Miller, 1994: 220)22. Com grande visibilidade em Genebra,
sede da Organização Internacional do Trabalho (OIT)23, tais grupos geraram um impasse em
torno da imbricada fórmula política que deveria servir como base para a igualdade econômica
e civil, assim como para a proteção da maternidade.
A formação de organizações internacionais no entreguerras contou com uma forte
mobilização das mulheres de diferentes países que lutavam por mais participação e ainda
disputavam a elaboração de diretrizes para o trabalho. O debate internacional travado entre
as organizações estava dividido entre as que acreditavam que a regulamentação traria al-

16 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 16-26, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937)

gum ganho para toda a classe trabalhadora, como era o caso da OIT; entidades defensoras
do feminismo por direitos iguais que defendiam que a redução da regulamentação, ou ne-
nhum ordenamento, teria como efeito a redução da discriminação de gênero, e grupos que
defendiam a regulamentação para ambos os sexos e toleravam apenas os regulamentos
de gênero já existentes, como a proibição do trabalho noturno e a proteção à maternidade
(Zimmerman, 2014: 9).
O Brasil participou dessa articulação entre fronteiras por meio da atuação de Bertha
Lutz. O surgimento de uma organização feminista com proeminência nacional e reconhecida
internacionalmente não foi ignorado pela esquerda organizada. O programa levantado pela
International Alliance of Women, em 1927, entidade à qual a brasileira Bertha Lutz estava
vinculada, foi abordado por integrantes do Partido Comunista, que consideraram que debater
sufrágio universal, direitos civis, divórcio e a igualdade de condições era uma agenda “um
pouco assustadora e perigosa, pois não tocava nem nos privilégios dos grandes, nem na misé-
ria dos humildes”24. O direito de voto e o reconhecimento dos direitos civis da mulher, para o
comunismo brasileiro, não seria suficiente para garantir a liberdade, “enquanto pesarem sobre
ela, como sobre o conjunto da classe trabalhadora, a exploração do capital e o domínio da
burguesia”25. A tensão internacional entre os grupos que se organizavam a partir de Genebra
aparecia no repertório da imprensa de esquerda, na forma de traduções de artigo produzidos
fora do País e, no calor do debate internacional, também se veiculava a ideia de que o comu-
nismo “reclamava o direito de voto às mulheres”26.
Dentro da organização anarquista, durante os anos 1920, destacaram-se iniciativas para
a formação de grupos femininos que tratassem com especificidade a questão da trabalhadora.
Muitas dessas iniciativas contaram com Maria Lacerda de Moura (Schpun, 2004). A Federação
Internacional Feminina, que teve alguma atividade em 1922, e o Centro Feminino, a partir de
1924, proferiram palestras que abordavam o conformismo diante da dura realidade social e
a importância da rebeldia para o grupo que se organizava em torno das ligas de bairros e do
jornal A Plebe27. Consideravam a professora Leolinda Daltro e seus intentos eleitorais como
“sentimentos politiqueiros da velha feminista constitucional”28. Junto com Bertha Lutz, Moura
havia fundado a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que figurou como uma das
organizações que davam sustentação para a FBPF. Pouco anos depois, sem convicção na or-
ganização política que tinha vivido, Moura se afastou das trincheiras da disputa dizendo-se
“livre de igrejas” e “livre de muletas”, reforçando até mesmo o individualismo, quando se
acreditava livre, também, de contradições:

“Não sou do progresso feminino pró-voto da senhorita Bertha Lutz e nem do bando militariza-
do e catequista da Professora Daltro. Voto? – Nem secreto, nem masculino, nem feminino. [...]

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 17-26, janeiro-abril 2018 17
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

me sinto livre para respirar no campo aberto do meu individualismo, reivindicando o dever de
ser humana”29.

Após a adoção das bandeiras de igualdade, o Partido Comunista subiu o tom das críticas
à organização das mulheres, não só àquela desempenhada por Bertha Lutz, e, no campo de
batalha formado em torno das campanhas eleitorais e da instalação da legislação trabalhista
no Brasil, assumiu oposição às vozes que se propunham a emancipar as mulheres por meio da
conquista dos direitos civis. Iveta Ribeiro, uma das editoras da Revista Feminina, que se de-
dicava a tratar desses temas dentro da tradição católica, enfatizava a natureza conservadora
“do verdadeiro feminismo” e se sentia representada, em parte, pela bandeira da participação
política hasteada pela FBPF, era assim vista nas páginas do Jornal do Povo:

“Nós desejaríamos que essas cretinas que ainda dividem a humanidade em machos e fêmeas,
e não em explorados e exploradores, nós desejaríamos que elas nos dissessem o que é que as
mulheres – não as “damas” – têm lucrado com a atividade das Berthas Lutz”30.

Tratava-se de um questionamento virulento. Ideais de igualdade entre mulheres e ho-


mens estavam em formação desde o século XIX, embora tivessem ganhado fôlego e impacto,
no Brasil, depois das greves de 1917, na construção do movimento operário, no Partido Co-
munista e nas camadas médias da sociedade. Grupos diferentes de mulheres nutriam visões
distintas sobre a cidadania feminina: as trabalhadoras tinham de enfrentar o sindicalismo que
elaborava suas pautas a partir da experiência e da dignidade masculinas e inseriam demandas
de licença-maternidade e igualdade salarial nas negociações de classe; as comunistas, reuni-
das em pequenos comitês, mais ativos no Rio de Janeiro do que em São Paulo, organizavam
atos diminutos para o Dia da Mulher e se esforçavam para inserir a condição de trabalhadora
no programa geral do Partido; e ainda, os grupos feministas organizados, como a FBPF, que ti-
nham capilaridade nacional, atuando inclusive em assembleias estaduais de deputados, man-
tinham o diálogo com o governo e recebiam a pressão política das outras camadas sociais,
principalmente, do mundo do trabalho.
A noção de cidadania para as mulheres era debatida em termos de direitos civis, que
englobava o acesso ao voto e ao divórcio, da maternidade, da igualdade salarial e da proibição
do trabalho noturno às mulheres, e se misturavam com perspectivas de proteção e de conquis-
ta de direitos. O diálogo, na maior parte das vezes, travado em fortes tons de discordância,
entre diferentes grupos, estivera posto desde que se levantaram as primeiras resoluções e
projetos para as mulheres, especialmente aquelas que estavam no mercado de trabalho. E a
pergunta “o que é que as mulheres têm lucrado com as atividades das Berthas Lutz” orientou
boa parte das pesquisas realizadas sobre o tema.

18 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 18-26, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937)

A princípio, a FBPF havia se inserido no debate público, em 1922, a partir da campanha


pelo sufrágio das mulheres, por considerar que as reformas da legislação civil não seriam
“nem urgentes, nem oportunas”31. A organização liderada por Bertha Lutz afirmava que se
mantinha atenta as mulheres de todas as classes sociais, porém, foi apenas em 1931, que a
bandeira “salário igual, trabalho igual” passou a fazer parte, efetivamente, das reivindicações
da entidade, tendo recebido força de resolução no Segundo Congresso Internacional Femi-
nista32. Cinco anos mais tarde, movida pelo estudo proposto pela OIT sobre a situação das
mulheres em diversos países do mundo, a bióloga coordenou duas inovadoras proposições
legislativas: a criação de um departamento nacional da mulher e um estatuto das mulheres33.
Entre 1922 e 1936, há um grande fluxo de ideias e disputas, do Brasil e de fora do país, que
marcaria a formulação da legislação nacional.
Entre um episódio e outro, houve também disputas e debates travados na imprensa que
constantemente avaliavam o trabalho da FBPF e geravam pressões que explicam, ao menos
em parte, as mudanças de posição da entidade e de sua dirigente, em que pese a própria
existência e a atuação do movimento operário. A atuação de Lutz e da federação, considerada
elitista desde sua época, não o foi sem receber as críticas de quem impetrava esforços para se
organizar nas bases da sociedade.
Patrícia Galvão, ainda que pouco articulada com os comitês de mulheres do Partido Co-
munista e mais ligada ao que ela mais tarde chamaria de Comitê Fantasma, ao se referir à alta
direção e à clandestinidade dessa militância, dedicou análises severas à forma como se criava
o movimento feminista nacional e, por conseguinte, à FBPF. A amarga realidade da ficção de
Parque Industrial não deixava de cutucar esse movimento político e a burguesia letrada da
São Paulo dos anos 1930, o que pode nos levar a pensar que o romance não pretendia mesmo
ser apenas um “texto social” a denunciar opressões e abusos seguindo o bê-á-bá da cartilha
comunista. Estabelecia também um diálogo com outros grupos sociais de seu tempo – reve-
lando-lhes suas contradições. Em Parque Industrial, o personagem Alfredo, rico e conhecedor
de Karl Marx, aparece solitário num “bar prostituto” do centro da Cidade, bebendo uísque.
De acordo com o livro, ele acorda do porre com a chegada de “emancipadas, intelectuais e
feministas que a burguesia de São Paulo produz”:

– Acabo de sair do Gaston. Dedos maravilhoso!

– O maior coiffeur do mundo! Nem em Paris! [...]

– O Diário da Noite publicou uma entrevista na primeira página. Saí horrenda no clichê. Idiota
esses operários de jornal! A minha melhor frase apagada!

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 19-26, janeiro-abril 2018 19
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

– Hoje é a conferência. Mas acho melhor mudar a hora das reuniões. Para podermos vir aqui!
[...]
Uma matrona de gravata e grandes miçangas aparece espalhando papéis.
– Leiam. O recenseamento está pronto. Temos um grande número de mulheres que trabalham.
Os pais já deixam as filhas serem professoras. E trabalhar nas secretarias. Oh! Mas o Brasil é
detestável no calor. Ah! Mon Palais de Glace.
– Se a senhora tivesse vindo antes, podíamos visitar a cientista sueca.
– Ah! Minha criada me atrasou. Com desculpas de gravidez. Tonturas. Esfriou demais o meu
banho. Também já está na rua!34

Eu poderia arriscar uma referência: o diálogo entre as feministas do bar imaginado por
Pagu, ao cogitar a visita da “cientista sueca”, aludia à chegada da cientista Marie Curie ao
Brasil. A doutora francesa, na verdade, aportou no cais do Rio de Janeiro no dia 15 de julho de
1926, e passou os 45 dias no País em reuniões e palestras, em boa parte das ocasiões, esteve
com Bertha Lutz e Carlota Pereira de Queiroz35. Há de se considerar que a militante comunista,
a partir do bar e do testemunho de Alfredo, havia entoado um diálogo direto com as feminis-
tas da época, apontando a elas as contradições – desenhadas como ricas, frequentadoras de
salões de beleza a esnobar o trabalho de operários de jornal.
O feito, em alguma medida, foi apresentado no livro em oposição à própria atuação de
Galvão, que, por sua vez, realizava sua militância no alistamento em fábricas e células do partido;
onde também, nem sempre, conseguia dar vazão às suas opiniões sobre maternidade, abusos,
estupros ou discriminações. O diálogo do livro ainda deu relevo à vida das “criadas”, sem as
quais o feminismo de “gravata e miçangas” não conseguiria, definitivamente, participar de uma
reunião com Marie Curie. A crítica à atuação limitada das feministas da FBPF veio no próprio
tempo da entidade, e o movimento feminista brasileiro não se fez por um grupo só.
Patrícia Galvão aproveitava as oportunidades para fazer comentários sobre a formação
do feminismo brasileiro, e, certamente, esse embate todo promoveu mudanças e ajustes nas
atuações por todos os lados. Em um jornal de curta duração, no qual trabalhou ao lado de
Oswald de Andrade, ela escreveu algumas colunas de opinião – o texto abaixo é um excerto
de “Maltus Além”, uma ironia com o nome do economista Thomas Malthus que defendia,
grosso modo, o controle da natalidade como forma de regular a economia. O artigo foi pu-
blicado em 1932 na coluna “A Mulher do Povo”, que integrava o jornal O Homem do Povo:

“Excluída a grande maioria de pequenas burguesas cuja instrução é feita nos livrinhos de bele-
za, nas palavras estudadas dos meninos de baratinha, nos gestos de artistas de cinema mais em

20 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 20-26, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937)

voga ou no ambiente semi-familiar dos coquetéis modernos – temos a atrapalhar o movimento


revolucionário do Brasil uma elitezinha de João Pessoa que sustentada pelo nome de vanguar-
distas e feministas berra a favor da liberdade sexual”36.

No texto, a colunista desferiu golpes duros ao grupo que se organizava na FBPF – ironi-
zando as alianças feitas com deputados da Paraíba para a votação parlamentar do sufrágio,
e, de quebra, denunciava que a proposta de voto das mulheres não era sustentada por uma
visão popular de ampliação da participação eleitoral. Às voltas com a própria maternidade,
cerceada por companheiros do Partido que a aconselhavam a sublimar a culpa e a ternura que
o nascimento de Rudá havia provocado nela, Patrícia Galvão também atirava seus argumentos
(Galvão, 2005). A frágil saúde do seu filho nos primeiros anos de vida, e a de outras crianças
com quem ela conviveu em Santos, a colocava em alerta sobre a mortalidade infantil e as
altas ocorrências de morte de mulheres em decorrência do parto nas famílias mais pobres. As
frequentes críticas de Patrícia Galvão acionavam a circularidade de ideias sobre a igualdade
entre mulheres e homens e a condição da trabalhadora.
Dessa forma, a FBPF não era uma organização única a tratar de projetos sobre cidadania
feminina, em que pese o fato de ter recebido essas duras críticas durante sua atuação. Em
1935, as mulheres do Partido Comunista se organizaram na União Feminina do Brasil que,
por sua vez, recebeu reprovação de Bertha Lutz por aceitarem a colaboração dos homens na
condução do movimento. Em resposta, as militantes da entidade revelaram que a bióloga
já havia aceitado o apoio dos homens ao participar de um partido para sua candidatura à
Assembleia Nacional Constituinte de 1934, e que não admitiam a atuação eleitoral e restrita
que, consideravam, vinha produzindo a FBPF:

“Se há algum ponto de contato com o nosso e seu programa, é prova de que as necessidades
femininas são ainda as mesmas que antes da fundação de sua Federação, e, a prova de que
nada foi feito [...] é que as mulheres resolveram se unir, e elas mesmas lutar pela conquista de
seus direitos, sem esperar por associações inócuas”37.

As diversas opiniões e formulações que se empregaram sobre igualdade não só fizeram


parte do repertório feminista como agiram diretamente sobre a formulação da legislação tra-
balhista. É preciso notar que a FBPF não se empenhou apenas em obter o direito de voto para
as mulheres, nem esteve isolada das disputas que o campo da chamada emancipação femini-
na impunha. A distância entre as classes sociais, ainda que grande, somada às “discordâncias
aborrecidas”, revela uma “perversa operação de classe” (Kessler-Harris, 2001: 9).
Os efeitos obtidos pela organização de mulheres burguesas e provindas de países
euroamericanos, medidos apenas pela natureza dos movimentos, não explicam a circulação

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 21-26, janeiro-abril 2018 21
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

dos ideais de igualdade e as disputas travadas entre as classes sociais na conquista dos
direitos das mulheres (Rupp, 1997: 5-8). Havia mais no feminismo do que polêmicas (Sa-
varsy, 1992). Por esse motivo, a polarização narrativa, a separar e a escalonar os campos do
feminismo, não é uma estratégia capaz de produzir sínteses. As trajetórias de “Rachel”, de
Leolinda Daltro, de Bertha Lutz, de Patrícia Galvão, de Maria Lacerda de Moura, geralmen-
te entendidas como casos isolados, como excepcionalidades, são histórias que podem ser
compreendidas, a partir de suas disputas e no conjunto, de modo a revelar a história dos
direitos das mulheres no Brasil. O feminismo se constituiu, no País, como um campo político,
permeado por disputas e diferentes projetos de emancipação que compuseram o repertório
sobre direitos e justiça social.
A história das mulheres não precisa ser caracterizada por seus silêncios. O acúmulo de
pesquisas sobre elas, que considera a perspectiva de gênero e que remonta à história das tra-
balhadoras, entendido em seu conjunto, pode proporcionar a interpretação de que as noções
de justiça social e direitos, no Brasil, estiveram diretamente ligadas às lutas por licença-mater-
nidade e igualdade salarial. Por sua vez, as demandas das trabalhadoras criaram tensões no
movimento feminista que alterou seu decurso de modo a rever programas, tidos como restritos
desde seu surgimento. As narrativas que elegeram grupos hegemônicos como temas principais
da história, a estabelecer “ondas”, podem se tornar mais complexas ao serem consideradas
a trajetória das trabalhadoras e suas demandas. A circularidade das noções de cidadania
tampouco se restringia a São Paulo, a Genebra ou a Moscou, e é justamente a possibilidade
de traçar essas redes que fornece uma interpretação mais ampla sobre os conflitos que con-
formavam os projetos de emancipação e justiça.

Notas

1 No campo da história, a categoria gênero escancarou os limites de se estabelecer um perfil único das mu-
lheres ou ainda de uma “experiência feminina” (Samara, Soihet e Matos, 1997).

2 Gabinete Civil da Presidência da República. Série Correspondências. Carta a Lindolfo Collor – Ministro do
Trabalho, 29/04/1931. Bertha Lutz (1894-1976). Foi educada na Europa e graduou-se em biologia na Sor-
bonne, em 1918. A FBPF foi fundada com o apoio de Carrie Chapman Catt, dirigente da National Woman
Suffrage Association dos Estados Unidos.

3 Esse modelo é adotado por diversos estudos e pesquisas a partir de Celi Pinto (2007). Ver também: Marlise
Mattos (2010).

4 O feminismo difuso seria composto por mulheres de classe alta que atuavam na imprensa feminista alter-
nativa dos primeiros anos do século XX (Pinto, 2007: 10). O “feminismo tático” que era exercido pela FBPF,
que aproveitava ocasiões e possibilidades oferecidas pelas classes dominantes para garantir o exercício da

22 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 22-26, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937)

cidadania, está em Raquel Soihet (2006: 28).

5 Não há uma única proposta historiográfica para dar conta dessa questão. Nancy Hewitt considera que é
possível reformular o conceito de “ondas” de modo a reconhecer os elementos múltiplos e os conflitos que
compreendem os diferentes períodos do ativismo feminista. Para a autora, os momentos distintos do feminis-
mo questionaram, por eles mesmos, as fronteiras de classe e raça, assim denunciando os limites colocados por
mulheres brancas (Hewitt, 2012: 659, 661, 665); (Hewitt e outras, 2010).

6 Nascido em 1893, José Righetti foi tecelão na fábrica Votorantin, no Ipiranga. Foi delegado da UOFT no
3º Congresso Operário, no Rio de Janeiro, em 1920. Ainda nos anos 1920, foi membro do Centro Feminino
Jovens Idealistas. Em 1931, foi classificado como um “agitador de greves”, e os registros afirmam que ele
costumava atacar as iniciativas do Ministério do Trabalho. Ver: Prontuário de José Righetti no Departamento
de Trabalho Industrial, Comercial e Doméstico (1931). Secretaria do Gabinete Civil da Presidência da Repú-
blica, Série 17.10 Ministério do Trabalho, Lata 46. É possível encontrar atividade de Righetti desde as greves
de 1917, quando, preso por poucas horas, algumas operárias foram até a delegacia pedir sua soltura. O
Combate, de 11/09/1917.

7 Memorial de José Righetti (agosto de 1931). Secretaria do Gabinete Civil da Presidência da República, Série
17.10 Ministério do Trabalho, Lata 46.

8 Secretaria do Gabinete Civil da Presidência da República, Série 17.10 Ministério do Trabalho, Lata 46.

9 DEOPS. Prontuário UOFT 0124, v. 1.

10 Idem.

11 DEOPS. Prontuário 2496 Caixa 199, Rachel Alvez ou Rachel de Freitas ou Maria Paiva.

12 DEOPS. Manifesto da Comissão Executiva da UOFT (1933). Prontuário UOFT 0124, v. 1.

13 DEOPS. Panfleto da Comissão Executiva da UOFT (1932). Prontuário UOFT 0124, v. 1.

14 DEOPS. Prontuário 2496 Caixa 199.

15 “Las mujeres obreras frente al peligro guerrero”. AEL, documentos da Internacional Comunista (IC).

16 “Aos camaradas da Sessão Feminina da Internacional Comunista”, de 29/11/1929. AEL. Documentos da IC.

17 Idem.

18 A Nação, 19/09/1927.

19 “Au comitê central du Parti Communiste Brésilien”, de 27/01/1930. IC. A orientação foi repassada em
documento resumido e vertido para a língua portuguesa, em 10/02/1930. “Aos camaradas encarregados do
trabalho entre as mulheres”, de 10/02/1930. AEL, Documentos da IC.

20 A partir de 1930, Wendy Goldman verifica uma inversão na perspectiva sobre a família do ponto de vista
soviético oficial: “Depois de começar com o compromisso feroz e libertário com a liberdade individual e a
“extinção” da família, o período terminou com uma política baseada no fortalecimento repressivo da unidade
familiar”, referindo-se ao reforço da família e do papel da mulher como cuidadora e esteio da sociedade,
muito defendida por Stalin (Goldman, 2010: 389).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 23-26, janeiro-abril 2018 23
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

21 La Correspondência Sudamericana, de 15/02/1930.

22 A British Six Point Group foi uma campanha formada por mulheres britânicas, em 1921, que propunha
seis pontos de mudança legislativa para os direitos, que incluía a demanda por direitos iguais entre mulheres
e homens. Durante os anos 1920 foi ativa em pressionar a Liga das Nações para estabelecer um tratado inter-
nacional de equidade de direitos. A National Woman´s Party foi uma organização norte-americana, formada
em 1916, que, dentre outras coisas, lutou por uma emenda de direitos iguais na Constituição dos Estados
Unidos, e que tinha grande peso na articulação internacional das mulheres.

23 Foi um organismo criado pela Liga das Nações, em 1919, para estabelecer padrões internacionais de
trabalho, em nome da justiça social como forma de firmar a paz ao fim da violenta Primeira Guerra Mundial
(1914-1919). A OIT estabeleceu em suas primeiras convenções que os estados que faziam parte da Liga das
Nações deveriam proibir o trabalho noturno das mulheres e garantir licença-maternidade. Empregava um
modelo tripartite de negociação, que envolvia empregadores, trabalhadores e Governo.

24 A Nação, de 03/01/1927. A International Alliance of Women foi fundada, originalmente, como uma orga-
nização sufragista. (Rupp, 1997: 21).

25 A Nação, de 05/01/1927.

26 “As feministas e nós”, tradução de artigo do jornal Le Ouvriére (Paris), por A. Gillea. Publicado em A
Nação, de 22/04/1927.

27 A Plebe, de 10/11/1923.

28 A Plebe, de 02/10/1919. Leolinda Daltro havia se destacado com a campanha pelo alistamento eleitoral
de mulheres e, em 1910, fundou no Rio de Janeiro o Partido Republicano Feminino. Em 1919, se candidatou
à intendência do município.

29 A Manhã, de 09/12/1928.

30 Jornal do Povo, de 12/10/1934.

31 FBPF, Caixa 42, Pacote 1, vol. 30.

32 Resoluções do Segundo Congresso Internacional Feminista, 1931 (cópia enviada ao ministro do Trabalho).
Ministério do Trabalho 17.10, Lata 46.

33 Câmara dos Deputados. O Trabalho Feminino: A mulher na ordem econômica e social, Imprensa Nacional,
1937. p. 23. FBPF, Caixa 37, Pacote 1, Dossiê 2.

34 Idem, p. 76.

35 Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982),formada em medicina, organizou centenas de mulheres durante o


levante paulista de 1932 e foi a única mulher eleita deputada constituinte em 1933.

36 O Homem do Povo, de 27/03/1932.

37 A Manhã, de 30/05/1935.

24 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 24-26, janeiro-abril 2018
Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937)

Referências bibliográficas

ALVES, Branca Moreira. Ideologia e feminismo: a luta da mulher pelo voto no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980.

ARAÚJO, Ângela M. A construção do consentimento: corporativismo e trabalhadores no Brasil nos anos 30.
São Paulo: Scritta/Fapesp, 1998.

ESTEVES, Martha. Os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da Belle Époque. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1989.

GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936. São
Paulo: Boitempo/Iskra Edições, 2014.

HEWITT, Nancy A. Regenerating the wave metaphor. Feminist Studies, v. 38, n. 3, p. 658-680, 2012.

______ et al. No permanent waves: recasting histories of U.S. feminism. New Brunswick/New Jersey/Londres:
Rutgers University Press, 2010.

KESSLER-HARRIS, Alice. In pursuit of equity: women, men and the quest for economic citizenship in 20th-Cen-
tury America. Oxford University Press, 2001.

LAUGHLIN, Kathleen A.; GALLAGHER, Julie; COBBLE, Dorothy S.; BORIS, Eileen; NADASEN, Premilla; GILM-
ORE, Stephanie; ZARNOW, Leandra. Is it time to jump ship? Historians rethink the waves metaphor. Feminist
Formations, v. 22, n. 1, p. 76-135, 2010.

LOBO, Elisabeth S. A classe operária tem dois sexos: trabalho, dominação e resistência. São Paulo: Brasiliense,
1991. p. 186.

MATOS, Maria Izilda. Percursos e possibilidades na historiografia contemporânea. Cadernos Pagu, v. 1, n. 6,


1998.

MATTOS, Marlise. Movimento e teoria feminista: é possível reconstruir a teoria feminista a partir do Sul global?
Revista de Sociologia Política, v. 18, n. 36, p. 15-23, 2010.

MILLER, Carol. Geneva – the key for equality: inter-war feminists and the league of nations. Women’s History
Review, n. 2, p. 220-221, 1994.

NEGRO, Antônio L.; FONTES, Paulo. Trabalhadores em São Paulo: ainda um caso de polícia. O acervo do DEOPS
paulista e o movimento sindical. In: No coração das trevas: o DEOPS/SP visto por dentro. São Paulo: Arquivo
do Estado/Imprensa Oficial do Estado, 2001.

PINTO, Céli R. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2007.

RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

RUBIN, Gayle. Thinking sex: notes for a radical theory of the politics of sexuality. In: VANCE, Carole S. Pleasure
and dangersexuality exploring female sexuality. Londres: Pandora, 1992. p. 267-293.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 25-26, janeiro-abril 2018 25
Glaucia Cristina Candian Fraccaro

RUPP, Leila. Worlds of women: the making of an international women’s movement. Princeton University Press,
1997.

SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Petrópolis: Vozes, 1969.

SAMARA, Eni; SOIHET, Raquel; MATOS, Maria Izilda. Gênero em debate: trajetórias e perspectivas na histo-
riografia contemporânea. São Paulo: Educ, 1997.

SCHPUN, Mônica R. Carlota Pereira de Queiroz era antifeminista? (ou de como pensar os contornos do fem-
inismo). In: COSTA, Lima; SCHMIDT, Pereira (Org.). Poéticas e políticas feministas. Florianópolis: Mulheres,
2002.

SCOTT, Joan. Gender and politics of history. Columbia: University Press, 1988.

SILVA, Fernando T.; CORRÊA, Larissa R. The politics of justice: rethinking Brazil’s corporatist labor movement.
Labor: Studies in Working-Class History of the Americas, v. 13, n. 2, 2016.

SOIHET, Raquel. O feminismo tático de Bertha Lutz. Florianópolis: Edusc, 2006.

WIKANDER, Ulla. Demands on the ILO by International Organized Women in 1919. In: VAN DAEL et al. ILO
histories: essays on the international organization and its in the world during the twentieth century. Genebra:
Peter Lang, 2010. p. 67-89.

ZIMMERMAN, S. Night work for night women and bonded labour for womem of colour? In: KIMBLE, S. et al.
New perspectives on European women’s legal history. Nova York: Routledge, 2014.

26 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 26-26, janeiro-abril 2018
A democracia em debate:
juristas baianos e a resistência
ao regime varguista (1930-1945)
Debating Democracy: jurists from the state of Bahia and the
opposition to the Vargas regime (1930-1945)
La Democracia en debate: juristas de Bahía y la oposición a
Getúlio Vargas (1930-1945)

Diego Rafael Ambrosini

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942018000100003

É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal da
Bahia (1999), mestrado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2004) e doutorado em Ciência Política pela
Universidade de São Paulo (2011). (drambrosini@yahoo.com.br)

Artigo recebido em 06 de outubro de 2017 e aprovado para publicação em 15 de dezembro de 2017.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 27-48, janeiro-abril 2018 27
Diego Rafael Ambrosini

Resumo
Entre 1930 e 1945, e especialmente durante o Estado Novo, o pensamento político autoritário pareceu dominar
completamente o horizonte da política brasileira. Apesar disso, outras compreensões da política, de caráter mais
democrático, não estiveram de todo ausentes na época. O presente trabalho procura investigar e conhecer mais
a fundo as noções de democracia elaboradas por um grupo de juristas baianos do período, por meio da extensa
produção intelectual que eles deixaram registrada em duas revistas acadêmicas que circularam então: a Revista da
Faculdade de Direito da Bahia, e a Revista Fórum, editada pelo Instituto dos Advogados da Bahia.

Palavras-chave: Democracia; Anos 1930 e 1940; Juristas; Revistas acadêmicas.

Abstract
Between 1930 and 1945, especially during the Estado Novo regime, authoritarian political thought seemed to
completely dominate the horizon of Brazilian politics. Nevertheless, different understandings of political life, bearing
more democratic characteristics, were not totally absent during the period. The present paper aims to investigate and
to deepen the knowledge of the notions of democracy as they were devised by a group of jurists from the state of
Bahia, by exploring the extensive intellectual production left by them in two academic journals of the time: Revista
da Faculdade de Direito da Bahia, published by Bahia Law School, and Revista Fórum, published by Instituto dos
Advogados da Bahia, a local association of lawyers.

Keywords: Democracy; 1930s and 1940s; Jurists; Academic journals.

Resumen
Entre los años 1930 y 1945, en especial durante el régimen del Estado Novo, el pensamiento político autoritário
parecia dominar completamente el horizonte de la política brasileña. Sin embargo, distintas compreensiones de
la política, con un carácter más democrático, no estuvieron totalmente ausentes en el período. El presente trabajo
tiene por objetivo investiga y conocer más a fondo las nociones de democracia elaboradas por un grupo de
juristas del estado de Bahía, por medio de la extensa producción intelectual publicada por ellos en dos periódicos
académicos: la Revista da Faculdade de Direito da Bahia y la Revista Fórum, esta publicada por el Instituto de
Advogados da Bahia.

Palabras clave: Democracia; Años 1930 y 1940; Juristas; Periódicos académicos.

28 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 28-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

Introdução

A década e meia que vai de 1930 a 1945 certamente foi um dos momentos históricos
mais convulsionados do século XX do ponto de vista político, com os princípios da
democracia liberal sendo duramente criticados e questionados em quase todo o mundo oci-
dental, tanto à direita como à esquerda. No Brasil, após a derrubada do regime formalmente
liberal vigente ao longo da Primeira República, tais críticas ganharam arcabouço teórico pe-
las reflexões de intelectuais como Francisco Campos, Azevedo Amaral e Oliveira Vianna, que,
criticando o “espírito idealista” da Constituição de 1891 – baseado em uma amálgama de
democratismo francês, liberalismo inglês e federalismo norte-americano –, buscaram imaginar
novas maneiras de organizar o Estado brasileiro (defendendo maior centralização do poder), e
novas formas para a representação política (com a representação profissional e corporativa).
Já foi bem explorada pela literatura especializada (Lamounier, 1977; Santos, 1978) a
noção de Estado autoritário da época, mas ainda se sabe relativamente pouco sobre os “per-
dedores” do jogo político daqueles anos, que defendiam de algum modo, mais ou menos
enfaticamente, a democracia liberal como regime ou modelo de organização do Estado. Tho-
mas E. Skidmore, por exemplo, contenta-se em comentar que os “constitucionalistas liberais
emudeceram” após ser decretado o Estado Novo (Skidmore 2000: 53). A bem da verdade,
cumpre desde logo notar que a defesa da democracia é algo bastante incomum em nossa
literatura política, historicamente polarizada por vertentes de caráter “liberal-oligárquico” ou
“autoritário-modernizador”, ambas, em geral, mais preocupadas em estabelecer críticas e
controles à democracia como sistema político do que em aceitá-la e assumi-la em seus fun-
damentos primeiros.
Apesar de difícil, não é impossível encontrar discursos de teor democráticos na história
do pensamento político brasileiro. E sua raridade não deve implicar que eles permaneçam
pouco conhecidos ou estudados. Pelo contrário: uma das principais tarefas da pesquisa no
campo da história das ideias políticas consiste, justamente, em desvelar a existência de discur-
sos e projetos historicamente “perdedores”, pouco difundidos, em uma operação que ajude a
desnaturalizar interpretações históricas que muitas vezes assumimos como definitivas.
Durante a pesquisa que resultou em minha tese de doutorado, explorei os textos do
jurista e político baiano Nestor Duarte, autor de um livro muitas vezes incluído no cânone
dos “clássicos de interpretação do Brasil”, da década de 1930 (Duarte, 1966 [1939]), e pude
constatar o quanto esse intelectual elaborou uma noção de democracia representativa que,
fundada na garantia das liberdades individuais, fosse ainda capaz de exercer a função peda-
gógica nuclear na criação e expansão da esfera pública brasileira (Ambrosini, 2011).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 29-48, janeiro-abril 2018 29
Diego Rafael Ambrosini

Mas essa defesa da democracia liberal não era exclusividade de Duarte, em meio aos in-
telectuais baianos (especialmente juristas) que atuavam por essa época. Ao longo das décadas
de 1930 e 1940, quando o país se encontrava sob o regime político de exceção, o conceito de
democracia foi intensamente debatido por autores como o próprio Duarte, Orlando Gomes,
Nelson de Souza Sampaio, Jayme Junqueira Ayres, Aloísio de Carvalho Filho, Aliomar Baleeiro
e outros, quase sempre escorado no vocabulário dos direitos do cidadão, típico do liberalismo
clássico. Em que pese a edição de alguns poucos livros e discursos em separata, o grosso dessa
produção textual se encontra em dois periódicos acadêmicos então existentes em Salvador,
ambos com edições regulares e eventuais números extras: a Revista da Faculdade de Direito
da Bahia e a Revista Fórum, órgão vinculado ao Instituto dos Advogados da Bahia.
Os textos deixados pelos autores do passado são os dados empíricos, por excelência,
com que trabalha o historiador do pensamento político. Mas, para compreender devidamente
os textos políticos como sendo, ao mesmo tempo, ferramentas de reflexão e de ação, é neces-
sário transcendê-los e buscar reconstruir e descrever também os contextos histórico, social e
linguístico nos quais esses textos foram escritos (Skinner, 1969). Ao mesmo tempo, é preciso
ter em mente a observação de Reinhart Koselleck acerca de como os “conceitos sociais e
políticos [...] são sempre polissêmicos”, pois são “vocábulos nos quais se concentra uma mul-
tiplicidade de significados” (Koselleck, 2006: 108-109). Por fim, cabe ainda chamar atenção
para a sugestão de John Pocock (2003), que salienta a importância de percorrer as obras de
autores pouco conhecidos, escritores que estão muito longe de figurar em qualquer cânone
do pensamento político brasileiro (exceção feita, talvez, a Nestor Duarte), pois são esses os
intelectuais que, rotinizando o uso de determinados termos ou expressões, fazem circular es-
ses conceitos, transportando-os do pensamento sistematizado dos grandes “clássicos” para
o discurso mais prosaico do senso comum sociopolítico.
Nesse sentido, relacionando textos e contextos, a leitura em conjunto daquilo que foi
publicado pelo grupo de intelectuais baianos aqui estudado pode contribuir para adensar a
compreensão sobre os usos que o conceito de democracia assumiu em meio ao vocabulário
político corrente na conjuntura histórica e política de resistência à ditadura do Estado Novo.

Algum contexto: Bahia, décadas de 1930 e 1940

A Revolução de 1930 chegou à Bahia sem contar com apoio efetivo em meio às elites
locais, fosse entre os políticos profissionais da capital (“bacharéis”), fosse entre os
chefes territoriais do interior (“coronéis”)1. O grupo político que governava o Estado desde

30 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 30-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

1924 (que incluía nomes como os irmãos Calmon e o então ministro das Relações Exterio-
res, Otávio Mangabeira) estava firmemente comprometido com a presidência Washington
Luís – logrando, inclusive, indicar o nome de Vital Soares, governador do Estado desde
1928, para ser vice-presidente na chapa do paulista Júlio Prestes, que derrotara Getúlio
Vargas nas eleições presidenciais poucos meses antes – e, portanto, não tinha qualquer
interesse em apoiar um movimento revolucionário cujo objetivo era, exatamente, contestar
o resultado daquelas eleições. Por conta disso, a única liderança baiana importante a bus-
car aproximação da Aliança Liberal, naquele momento, foi o ex-governador José Joaquim
Seabra, que parecia ver no apoio ao movimento de 1930 uma forma de tentar retornar ao
poder estadual, do qual estava alijado já havia alguns anos.
Mas as esperanças de Seabra logo seriam frustradas, e ele acabaria se transformando em
um dos maiores adversários do novo regime nos anos seguintes (Seabra, 1933). A escolha de
Juracy Magalhães para o cargo de interventor federal no Estado, feita por Getúlio Vargas, em
1931, teve o efeito de aproximar os diferentes grupos em que se dividiam os políticos baianos
naquele momento, unificando-os em uma frente para combater o jovem tenente forasteiro.
Nesse sentido, o que ocorreu na Bahia foi um processo análogo ao que se passou em São
Paulo: primeiro, porque assim como no caso da Frente Única Paulista (FUP), tivemos ali uma
reunião de antigos adversários, juntando forças contra um rival em comum; e, em segundo
lugar, porque tanto a bandeira da autonomia regional frente ao intervencionismo do poder
central como a pregação do constitucionalismo como necessidade para pôr fim ao processo
revolucionário exerceram forte atração sobre esses setores que se organizavam nos dois es-
tados. Um episódio ilustrativo dessa proximidade aconteceu em agosto de 1932, quando um
comício de estudantes, políticos e professores, realizado na Faculdade de Medicina, em apoio
à chamada Revolução Constitucionalista, foi duramente reprimido pelas forças policiais do
interventor e resultou na prisão de mais de quinhentos manifestantes2.
Durante o período do governo constitucional de 1934-1937, Juracy Magalhães fundou
e organizou em torno de si o Partido Social Democrático (PSD), mesclando nomes novos na
política com gente saída da antiga ordem oligárquica. Mostrou-se, assim, capaz de construir
uma rede de apoios suficientemente fortes para enraizá-lo no comando do governo baiano,
costurando alianças tanto com “bacharéis” da capital como com chefes territoriais do interior
do Estado. Por conta dessas alianças, Eul-Soo Pang (1979: 229) afirma que “Juracy Magalhães
emergiu como o supercoronel, o chefe de uma nova oligarquia colegiada na Bahia”. Dentre
os professores da Faculdade de Direito da Bahia, aproximaram-se de Juracy nessa época: Cle-
mente Mariani, Marques dos Reis, Albérico Fraga e Aliomar Baleeiro entre outros.
Fazendo oposição a Juracy, em nível estadual, e a Getúlio, em âmbito nacional, formou-
se uma ampla frente que acomodou elementos das diversas claques em que se dividiam, até

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 31-48, janeiro-abril 2018 31
Diego Rafael Ambrosini

ali, as elites políticas baianas: seabristas, calmonistas e mangabeiristas. Inicialmente, esse


agrupamento recebeu o nome de Liga de Ação Social e Política (LASP), e esteve formado,
basicamente, por políticos ainda bastante jovens, carecendo de lideranças de maior peso, à
exceção de Seabra. Isso ocorreu, de um lado, por conta da morte dos principais chefes calmo-
nistas da década anterior (como os ex-governadores Góes Calmon e Vital Soares) e, do outro
lado, em virtude de se encontrarem no exílio os irmãos João e Otávio Mangabeira e também
Ernesto Simões Filho (proprietário do jornal A Tarde). Com o retorno desses últimos ao País,
em 1934, a LASP ganhou mais densidade e se transformou na “Concentração Autonomista da
Bahia”, nome que identificaria os adversários baianos de Vargas até o fim do Estado Novo. Na
Faculdade de Direito, fizeram parte do grupo autonomista desde o seu início: Nestor Duarte,
Jayme Junqueira Ayres e Aloísio de Carvalho Filho; a eles se juntaria, um pouco mais tarde,
Nelson de Sousa Sampaio.
De todo modo, com o advento do Estado Novo, em novembro de 1937, Juracy Maga-
lhães, que de tenente se transformara em político, coloca-se contra o golpe de Vargas e é
forçado a renunciar ao governo do Estado. Isso não significou, no entanto, o retorno ao poder
para os políticos “bacharéis”, pelo contrário: com a interdição da vida político-partidária, a
atuação política dos membros dessa geração precisou se voltar para outros espaços sociais,
fora do âmbito da política institucionalizada. E é nesse contexto que a Faculdade de Direito
baiana passa a se constituir como um desses espaços privilegiados de atuação política.
Fundada em março de 1891, a Faculdade Livre de Direito da Bahia (incorporada à UFBa
em 1946), ostenta a condição de primeira faculdade estabelecida no Brasil depois das duas
escolas do período imperial, São Paulo e Olinda/Recife (Calazans, 1984). Nas décadas se-
guintes, pelo menos até meados do século XX, ela se tornou uma das principais instituições
responsáveis pela formação e socialização intelectual e política das elites e dos setores médios
baianos, em muito substituindo o papel exercido pela velha Faculdade de Medicina no período
anterior (Sampaio, 1992; Silva, 2000).
Desde os seus primeiros anos, o “clima intelectual” ali predominante foi marcado pelas
correntes positivistas mais ou menos heterodoxas e pelo evolucionismo (Spencer e Haeckel)
característicos da passagem do século XIX para o XX, sob influência da chamada “Escola do
Recife”, de Tobias Barreto e Sílvio Romero (Chacon, 2008). Mais adiante, nas décadas de
1930 e 1940, de acordo com a análise de A. L. Machado Neto (1966), já vigorava ali certo
“sociologismo” aplicado ao estudo do Direito, com leituras de Durkheim, Duguit e mesmo
Marx marcando presença.
Boa parte do que essa geração de juristas baianos escreveu na época está registrada nos
periódicos de que nos ocupamos neste trabalho, a Revista da Faculdade de Direito da Bahia

32 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 32-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

e a Revista Fórum. Esse tipo de revista acadêmica, como se sabe, muitas vezes funciona como
um espaço de sociabilidade para uma determinada geração de autores e, por isso, permite ma-
pear a dinâmica de articulação dos grupos e redes de intelectuais, reunidos em um fórum por
eles legitimado para a discussão e a propagação de ideias e para as propostas de intervenção
na sociedade (Sirinelli, 1996; Gomes, 1999)3. Trata-se, portanto, de um espaço privilegiado
para flagrar a constituição de uma polêmica intelectual a respeito de algum conceito político
importante – como sem dúvida era, naquele momento, o de democracia, que questionava a
forma do Estado então vigente.
A Revista da Faculdade de Direito da Bahia teve seu primeiro número logo em 1892,
mas, de início, sofreu uma periodicidade irregular, lançando apenas oito edições durante as
quatro décadas seguintes. Em 1932, por iniciativa do então diretor da Faculdade, Bernardino
de Campos, a Revista passou a ser editada regularmente, em volumes anuais (e continuou
assim até a década de 1950). Nela, eram publicados artigos teóricos ou opinativos de profes-
sores e de alunos, discursos proferidos em determinadas ocasiões, como nas aulas inaugurais,
nas formaturas ou na solenidade de comemoração do Cinquentenário da Faculdade (1941),
notícias sobre concursos e sobre a administração da escola, memórias acadêmicas etc.
No tema que nos interessa aqui, cabe notar, desde já, a pluralidade de posições sobre o
conceito de democracia que vigera no periódico ao longo do tempo. É certo que os principais
nomes entre os autores que fizeram parte dessa geração mostravam-se partidários da de-
mocracia liberal ou representativa como modelo político, mas a revista abria sempre espaço
para leituras divergentes, mesmo que de alunos (por exemplo: Araújo, 1938, Tourinho, 1938
e Clemente, 1940). Por vezes, as contradições apareciam nas opiniões publicadas de um
mesmo autor, como no caso do professor Albérico Fraga, que oscilou entre declarar a demo-
cracia liberal “já reconhecidamente falida” (Fraga, 1933) e em afirmar, pouco depois, que “o
regime democrático ainda é o melhor dentre os melhores sistemas políticos” (Fraga, 1937).
As Constituições de 1934 e de 1937, como não poderia deixar de ser, foram dois as-
suntos de que muito se falou na Revista. Em 1934, nada menos do que seis professores da
Faculdade fizeram parte da Assembleia Constituinte, e, no ano seguinte, quatro seriam os
mestres da casa a participar da feitura da Constituição estadual4. Assim, podemos ler relatos
como o de Aloísio de Carvalho Filho (1936), senador da República, ou o discurso de Jayme
Junqueira Ayres (1934), professor de Direito Constitucional, afirmando que “o instrumento
eficiente para a realização da liberdade no Brasil e no mundo é o liberalismo democrático
ou a democracia liberal” e conclamando os ouvintes a não esquecerem “o clamor de todos
aqueles que, nas trincheiras paulistas, tombaram sem vida, para que se implantasse no Brasil
o regime da Lei”.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 33-48, janeiro-abril 2018 33
Diego Rafael Ambrosini

Já sobre a Carta de 1937, por outro lado, o que chama atenção é o esforço de J. J. Araújo
(1938) para tentar demonstrar que, apesar de tudo, as modificações políticas impostas pelo
Estado Novo “não afetaram [...] os alicerces básicos do regime democrático no Brasil”, desde
que se compreendesse a impossibilidade de “fazer repousar a democracia sobre a liberdade,
ideia desposada por Kelsen [...] e tantos outros, porque isto não passa de grave erro do
individualismo liberal [... e] impõe-se uma restrição na liberdade individual em benefício da li-
berdade coletiva”. Sintomaticamente, é com o advento do regime de exceção do Estado Novo
que a defesa mais decidida da democracia liberal, em seus aspectos político e jurídico, recobra
ânimo nas páginas da Revista, como veremos com mais detalhes adiante.
A Revista Fórum, vinculada ao Instituto dos Advogados da Bahia5, tinha uma feição me-
nos plural e estava mais decididamente ligada ao grupo de intelectuais antivarguistas, que du-
rante o Estado Novo já congregava as facções autonomista e juracisista. O Instituto da Bahia
existia desde 1897 e havia publicado seu periódico entre os anos de 1924 e 1930. Quando
Nestor Duarte assumiu a presidência da associação, em 1939, convidou Orlando Gomes e
Aliomar Baleeiro para coordenarem a reedição periódica (bimestral) da revista, que passou
a se chamar Fórum, e circulou mais ou menos regularmente, com vários números, até 1945.
Nessa meia década de existência, a Fórum abriu espaço para artigos de doutrina, pareceres,
resenhas de livros, crítica judiciária, arrazoados de advogados, professores e juízes da Bahia e
de outros lugares, entre outros textos.
Nos próximos tópicos, vamos acompanhar com mais detalhes os usos a que foi submeti-
do o conceito de democracia, em ambas as revistas, assim como também em um ou outro livro
redigido por alguns dos membros mais importantes dessa geração intelectual. Para efeitos de
clareza da exposição, o que se segue está dividido em blocos que contrapõem o conceito de
democracia a outros dois conceitos políticos centrais nesse debate: autoritarismo e liberalismo.
Depois disso, na seção final, veremos o que dizem nossos autores a respeito das possibilidades
de um modelo político democrático para o Brasil.

Democracia e autoritarismo

E m sua Oração de Paraninfo, proferida em dezembro de 1938, em plena vigência do Estado


Novo, Nestor Duarte diferencia dois tipos de Estado – o autoritário e o democrático –
conforme se busque ancorar a autoridade estatal sobre uma “disciplina por subordinação” ou
sobre uma “disciplina por coordenação”. Nesse discurso, direcionado aos bacharéis formandos
daquele ano, o autor, primeiramente, define a si mesmo como um “provocador de debates”, que
entende ser sua maior função, como professor, afastar seus alunos “daquele desgraçado espírito

34 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 34-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

de espionagem do pensamento, a olhar à direita e à esquerda, que é, antes de tudo, o horror à


própria inteligência”, e, desse modo, fazê-los “abandonar os ídolos de uma verdade comprome-
tida pela verdade desinteressada” (Duarte, 1939: 22-23, grifos do autor)6. O que se segue, de-
pois disso, é um verdadeiro libelo em defesa da democracia liberal como o único regime político
que “encerra a justificação fundamental da liberdade política”, por possibilitar a seus cidadãos
“ter a coragem de negar e admitir livremente”, conforme sua consciência (Duarte, 1939:29).
Na construção de seu argumento, Duarte lança mão dos dois conceitos de disciplina a
que já nos referimos. O primeiro deles, “disciplina por subordinação”, é próprio dos estados
autoritários, pois resume o conceito de disciplina a um “constrangimento”, a uma “conten-
ção”, ou a um “ato de punho fechado, a descer contra alguém, na energia que submete”.
Nesses regimes políticos, a autoridade do Estado se processa por meio de “uma relação de
violência correspondendo a um espírito de conformidade, que a legitima e justifica”, e, por
isso, nesses casos, “disciplina é subordinação, ordem é submissão”. E esse, continua Duarte, é
“o sentido essencial dos totalitarismos”, pois “se ordem é silêncio e conformidade, nenhuma
é mais perfeita do que a ordem gerada pela violência” (Duarte, 1939: 24).
Os seres humanos, porém, adverte nosso autor, são “animais nobremente imperfeitos
para a conformidade e os silêncios opressos”, animais feitos de “movimento, verbo e auto-
nomia” (Duarte, 1939: 25). Partindo desse pressuposto, assim como do entendimento de que
“nenhuma sociedade pode ser contra o homem, como nenhuma ordem pode ser estabelecida
contra a sua dignidade eminente”, Duarte advoga, então, pela necessidade de buscar uma
“disciplina por coordenação” para fundar efetivamente um Estado no sentido de uma demo-
cracia liberal. Diz ele:

“tanto mais legítima é uma ordem quanto menor for a relação de violência em que se estriba.
E só é menor a violência, se maior a extensão do princípio de coordenação. [...] é uma ordem,
mas uma ordem na liberdade. [...] uma ordem com um mínimo de choques e conflitos, [...] com
o mínimo de força [...] um mínimo de energia e de vigilância” (Duarte, 1939: 26)

Segundo o entendimento do autor, portanto, todo regime que se apoia em uma su-
pressão da liberdade precisa, para fazer valer a sua autoridade subordinadora, instituir “um
Estado-Polícia, que resume toda a atenção e toda a energia do Poder Público”. E assim, todo
Estado autoritário será, inevitavelmente, “um Estado de desesperada vigilância”, pois, dado
que “de si mesmo é fraco”, ele “sente a necessidade de ser violento” para justificar seu do-
mínio (Duarte, 1939: 26-27).
Orlando Gomes, no artigo intitulado Autoridade e Democracia, desenvolve uma argu-
mentação que guarda alguma proximidade com essas ideias de Duarte. Partindo da noção

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 35-48, janeiro-abril 2018 35
Diego Rafael Ambrosini

aristotélica do zoo politikon, Gomes invoca os teóricos do contrato social (ele cita Rousseau,
Hobbes e Locke) para afirmar que “duas condições são igualmente necessárias para a existên-
cia do homem, como ser social: a liberdade e a segurança”. Assim, as noções de “autoridade
e liberdade”, prossegue Gomes, têm vivido sempre em uma relação de determinações e limi-
tações recíprocas, desde que os homens abandonaram “voluntariamente” o “primitivo estado
de liberdade”, ao compreender que “era preciso sacrificar uma parte de sua independência
em benefício de sua segurança” (Gomes, 1942a: 321-323).
De acordo com o argumento de Gomes, a história política da humanidade tem sido de
tal modo retratada que “quando a autoridade se fortalece, a liberdade enfraquece. Quando a
liberdade se robustece, a autoridade se debilita”, e que “este tem sido o ritmo das relações
entre essas duas necessidades fundamentais” (Gomes, 1942a: 324). Assim, se nos quase 150
anos que se seguiram às revoluções do fim do século XVIII o predomínio fora do liberalismo,
Gomes enxergava, em sua época, um “renascimento surpreendente do autoritarismo”, pelo
qual “as ditaduras se consolidam por toda parte, como sobrevivências típicas da tirania [...]
naquilo que se convencionou chamar totalitarismo”. Infelizmente, continua ele, “a vocação
para escravo denuncia o homem totalitário”, pois “o conformismo é a lei da conduta” e “os
homens preferem pagar caro a arriscar a vida”. “O povo”, acrescenta com amargura o autor,
“prefere a tirania à desordem” (Gomes, 1942a: 331-332).
Apesar de tudo, Gomes crê na possibilidade de buscar uma “forma de organização polí-
tica” em que os dois princípios antagônicos – esses “dois termos igualmente necessários da
equação social” – possam se conciliar, de algum modo. E aqui entra a sua defesa da democra-
cia liberal, que igualmente reconheceria e contemplaria os “direitos do homem” e os “direitos
da sociedade”, a “soberania do Estado” e a “liberdade do indivíduo” (Gomes, 1942a: 333).
“A democracia”, afirma ele, “pressupõe [...] o respeito às liberdades e a obediência à autori-
dade”, desde que essa última esteja fundada no “consentimento” que a “legitima” e não se
trate da “forma corrupta” que a “transforma em dominação”, apoiada “na força das armas e
no servilismo das consciências” (Gomes, 1942a: 334-335).
Nelson de Souza Sampaio, escrevendo em 1941, também lamenta o fato de que “a
ditadura comece a ser exaltada como uma sábia invenção política, malgrado a sua velhice
histórica”, e de que o “Estado de Direito” encontre “o seu reverso no Estado Totalitário [...]
Estado acima do Direito” (Sampaio, 1941c: 69-70, grifos do autor).
Ao criticar essa concepção de Estado, Sampaio não poupa adjetivações negativas para
os regimes que nascem “dessa febre antidemocrática, à esquerda e à direita”. Dos primeiros,
afirma que ao querer “acabar com os credos organizados, e livrar o povo de toda espécie de
‘ópio’ metafísico, o socialismo científico transforma-se em dogma, e o ‘materialismo histórico’

36 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 36-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

converte-se em nova religião, com seus artigos de fé, seus ritos e seu índex”. Além disso, la-
menta que, tendo o objetivo de “libertar no futuro – com o advento da sociedade comunista”,
a doutrina marxista sustente que “o meio mais eficaz para chegar até lá [seja] habituar o povo
à escravidão política, à ditadura do proletariado, como se denomina a si própria ostensiva-
mente” (Sampaio, 1941c: 70, grifos do autor).
Quanto às “ditaduras da direita”, Sampaio começa por afirmar que elas “deveriam ser
gratíssimas ao comunismo”, pois a ele deviam o “seu sucesso e a própria razão de ser”, uma
vez que dele se valem “como o ‘bicho-papão’ com que conseguem a obediência infantil das
massas, ou como um inesgotável motivo de sua propaganda”. Mais adiante, além de denomi-
nar o fascismo como um “movimento de autodefesa da burguesia”, Sampaio procura respon-
sabilizá-lo por sua pletora de crimes, por seus “dogmas homicidas, [seus] orgulhos racistas, a
perseguição das minorias políticas e raciais, a técnica da violência, a opressão policial ferrenha,
a perversão da justiça, o prestígio da delação, os ‘campos de concentração’, as penas de este-
rilização, castração e morte, aplicados de modo sumário e em massa” (Sampaio, 1941c: 71).
Jayme Junqueira Ayres, por sua vez, em uma conferência também de 1941, pretendeu
examinar algumas das “censuras” que a democracia liberal sofria na época. Ayres exclui de
sua análise as “censuras” vindas da parte de fascistas e comunistas, preferindo concentrar-se
sobre as críticas originárias de “elementos ou correntes antidemocráticas que vivem dentro da
própria democracia” (Ayres, 1941: 105), mas, nem por isso deixa de propor algumas críticas
pesadas a certos cultores do autoritarismo político.
Aqui, cabe destacar os comentários que o autor faz a um grupo em especial, que ele
apoda de os “descrentes” da democracia. Trata-se das censuras feitas à democracia por aque-
les que dela “descreram por interesse”. Tal corrente antidemocrática – cujos partidários agem
sempre, de acordo com Ayres, “inspirado[s] pelo medo” – é formada por homens que “es-
tavam certos de que só a extrema-direita podia combater e vencer o comunismo, em cuja
barbaria eles só enxergam unilateralmente a ameaça a seus privilégios, [...] à propriedade, e
aos bens que desfrutam” (Ayres, 1941: 111).
Esses descrentes, continua Ayres, acusam a democracia “de não ser bastante forte, bas-
tante ágil ou, numa palavra mais sincera, bastante sanguinária, para lhes conservar suas prer-
rogativas”. No fim, o julgamento do autor sobre esse grupo é severo: “o férreo e vigilante
regime policial dos regimes totalitários os encanta profundamente” e apoiariam quaisquer
“governos fortes”, desde que “inspirados no interesse de suas classes” e incumbidos de man-
ter “a ordem, a preciosa ordem sem a qual não se podem receber dividendos de títulos ou
exercer profissões reverenciadas ou lucrativas” (Ayres, 1941: 112).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 37-48, janeiro-abril 2018 37
Diego Rafael Ambrosini

Democracia e liberalismo

A crítica ao autoritarismo proposta por esse grupo de intelectuais é bastante explícita.


Ela é feita de modo direto, sem subterfúgios. Menos claras, no entanto, são as possíveis
divergências que podem ser encontradas entre essa maneira de encarar os problemas políticos
e certas formulações típicas do pensamento liberal (e presentes, especificamente, no tipo de li-
beralismo-oligárquico que se difundiu em nosso País). De um modo geral, podemos simplificar
dizendo que, se os principais pressupostos do liberalismo político são acatados e festejados
por nossos autores, o mesmo não ocorre com as premissas do liberalismo econômico.
Nelson de Souza Sampaio publicou, em 1941, um pequeno livro chamado As ideias-for-
ça da democracia. Nessa obra, Sampaio revisa e reafirma a centralidade de alguns dos direitos
liberais clássicos para sua definição de democracia, afirmando que “sempre que a conduta
do Estado desrespeitar tais direitos, ela está sendo antidemocrática, ilegítima e condenável”
(Sampaio, 1941a: 190). Sampaio anota ainda sua “dificuldade em admitir democracia sem a
existência das liberdades individuais”, e aproveita para criticar certos usos da noção de demo-
cracia que ganhavam curso à época, como a ideia de democracia autoritária, propagada por
determinadas correntes do pensamento político de então: fazia-se necessário, afirma Sampaio,
“evitar uma exploração ou um emprego abusivo da expressão ‘democracia’” (Sampaio, 1941a:
191). No fim, o autor destaca quais devem ser as “posições capitais” a serem privilegiadas,
se quisermos elaborar uma “tábua de preferências democráticas”. São elas: “a prevalência da
razão sobre o arbítrio; da persuasão sobre a violência; da tolerância sobre o dogma; do Direito
sobre o Estado; da igualdade sobre o privilégio; da liberdade sobre o autoritarismo”.
É a partir dessa noção de que a democracia deve dar preferência à “igualdade sobre o
privilégio” que surgem as críticas ao liberalismo econômico, formuladas por essa geração de
autores. Tais críticas vêm, principalmente, da lavra de Orlando Gomes, em seus artigos sobre
os fundamentos do Direito Privado (Civil e Trabalhista).
Nesses escritos, encontramos a tese de que o Direito, enquanto poder de regulação da
vida social por intermédio do Estado, é capaz de minorar ao menos algumas das desigual-
dades existentes na sociedade. “O Direito igual para pessoas desiguais só pode legalizar a
injustiça”, afirma Gomes, e por isso ele critica o “igualitarismo puramente teórico”, que é um
“dogma” da “democracia liberal” e que fomenta a “opressão de uma minoria privilegiada
sobre a grande maioria do povo” (Gomes, 1937: 47).
É por conta dessa “nítida contradição entre a forma democrática de governo e o
conteúdo plutocrático das relações econômico-sociais”, que, de acordo com o autor, a de-
mocracia deve se libertar do liberalismo e “procura[r] uma forma nova para se exteriori-

38 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 38-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

zar” (Gomes, 1937: 48). Uma dessas “formas novas”, capaz de “corrigir, juridicamente,
as desigualdades sociais” poderia ser o campo, então relativamente recente, do Direito do
Trabalho. “O Direito do Trabalho”, diz Gomes, “não vê, somente, indivíduos; vê, também, os
grupos sociais” (Gomes, 1937: 51). Um dos exemplos apontados, então, pelo autor, é o da
“convenção coletiva de trabalho”, que introduz a “bilateralidade na formação do vínculo do
trabalho” ao favorecer e amparar “os interesses, outrora desprezados, dos trabalhadores”
(Gomes, 1937: 52). No fim do texto, Gomes conjectura: “a democratização jurídica bem
pode ser a válvula de escapamento das tendências democráticas, comprimidas em outros
setores” (Gomes, 1937: 55). A crítica a essa concepção extremamente individualista do
Direito e da política, tão cara à ideologia liberal, ainda foi retomada por Orlando Gomes
em, pelos menos, dois outros escritos de sua autoria: sua tese de concurso, O Estado e o
indivíduo (1933) e o artigo Elegia do Código de Napoleão (1940).
Mas, vinculada a esse ponto, há ainda uma outra formulação de Gomes a respeito da
questão da liberdade que vale a pena conhecer, no mínimo pela surpreendente escolha de
palavras, que remete ao modo como o tema veio a ser tratado pela teoria política nas décadas
posteriores7. No discurso feito em 1942, falando como paraninfo da turma de formandos
daquele ano, Gomes lamenta que “nossos antepassados” (referindo-se aos liberais da pas-
sagem do século XVIII para o XIX) tivessem possuído “uma visão unilateral da liberdade”,
superestimando o lado negativo desta: “impressionados com as restrições que peiavam a
expansão do indivíduo, tanto na esfera econômica como na ordem política, [...] pareceu-lhes
que a libertação do homem de todos esses freios deveria ser o objetivo único a alcançar, para
a felicidade do ser humano” (Gomes, 1942b: 453, grifo meu). E, mais adiante: “o liberalismo
político hipertrofiou o aspecto puramente negativo [da liberdade], consubstanciado na ausên-
cia de restrições”. O que se segue dessa crítica, continua Gomes, é que “o aspecto positivo
da liberdade deve preceder ao aspecto negativo” (Gomes, 1942b: 454, grifos meus), pois
“antes de tudo, é preciso assegurar a todo homem a possibilidade de ser livre, proporcionan-
do-lhe os elementos indispensáveis ao gozo desse bem maior da vida”, de forma a transpor
o abismo existente entre a “autorização formal para usufruir a liberdade e a oportunidade
real para desfrutá-la” (Gomes, 1942b: 454, grifos do autor). A importância desse movimento,
para Gomes, está na compreensão de que, ao permitir que “milhões de seres” – “as massas”
– vivam “em uma sociedade que proíbe de fato o que permite de direito” foi que se abriu o
espaço para que “as forças obscurantistas da história encontrassem o solene pretexto para
desencadear a vaga reacionária que hoje rebrame contra os promontórios inexpugnáveis da
democracia” (Gomes, 1942b: 455).
O mesmo tipo de argumento é lembrado também por Jayme Junqueira Ayres, no discurso
de paraninfia que ele fizera para os formandos de 1943. “Os mitos de liberdade e igualdade”,

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 39-48, janeiro-abril 2018 39
Diego Rafael Ambrosini

diz ele, “[são] dois mitos desajustados, porque a burguesia, que devia continuar o processo da
Revolução dos Direitos do Homem, uma vez que beneficiada por ela, pretendeu paralisar essa
Revolução, e se fez conservadora e reacionária”. Segundo seu entendimento, “[a burguesia]
temeu a igualdade e se acastelou no princípio ou mito da liberdade” porque isso a deixava
“como classe dominante, desenvolta e sem maiores restrições em suas iniciativas”, especial-
mente na “iniciativa de enfeixar sozinha o poder”. E completa, taxativo: “a burguesia traiu a
Revolução da qual se originou” (Ayres, 1944: 54).
Desse modo, o que podemos retirar da leitura conjunta desses autores a respeito da
relação liberalismo-democracia é que, ainda que os chamados direitos liberais clássicos sejam
vistos como elementos imprescindíveis para o advento de uma sociedade efetivamente demo-
crática, eles não são, no entanto, suficientes e devem ser complementados com institutos que
procurem diminuir as desigualdades sociais, com o objetivo de permitir que todos os cidadãos,
efetivamente, sejam capazes de usufruir da liberdade política.

Democracia e Brasil

T alvez a principal reflexão de um dos autores dessa geração acerca da possiblidade de


se instalar, no Brasil, um regime político democrático tenha sido a de Nestor Duarte,
em seu clássico ensaio de interpretação do Brasil, A Ordem Privada e a Organização Políti-
ca Nacional, publicado originalmente em 1939. Nesse livro, Duarte aferra-se à democracia
representativa como único regime político capaz de promover a superação do quadro de
predomínio do privatismo que seria característico da história brasileira.
O “Estado Democrático”, crê Duarte, embora minado por “todas as deformações e ne-
gações de nossa realidade política”, ainda seria, entre as “formas estatais, aquela de poder
educacional mais vivo e direto para interessar uma população, tão alheia e indiferente como
a nossa, nos acontecimentos políticos e problemas de uma nação”. E, complementando o
raciocínio, acrescenta ainda, pouco depois: “a democracia, entre nós, deveria ter sido buscada
e defendida para atender ao sentido moral de um regime que, ainda que não lograsse integral
aplicação imediata, valesse como processo ou sistema para chegar-se [...] à educação política
de nossa gente” (Duarte, 1966: 107).
Desse modo, temos que, para Duarte, a democracia deveria funcionar essencialmente
como um processo de pedagogia política, com vistas a superar as condicionantes negati-
vas impostas pela força e persistência da Ordem Privada na formação histórica da socieda-
de e do Estado brasileiros. Ademais, trata-se também de um processo estendido no tempo,

40 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 40-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

possivelmente demorado, como podemos depreender da seguinte passagem de seu ensaio:


“as instituições nascem de um longo processo histórico [...], são processos do tempo, sob a
regularidade de certos fenômenos sociais. Cada instituição tem uma história social e, tanto
como elas, as políticas são produtos históricos demorados” (Duarte, 1966: 116).
É interessante contrastar a decidida peroração democrática de Duarte com o tratamento
vacilante dedicado à democracia por um autor como Sérgio Buarque de Holanda, que, em
passagem célebre, declara que “a democracia, no Brasil, foi sempre um lamentável mal-enten-
dido” (Holanda, 1995: 160). Nesse ponto, cabe anotar que a releitura da primeira edição de
Raízes do Brasil, proposta por Leopoldo Waizbort (2011), relativiza o posto de um dos gran-
des avatares da democracia brasileira, há muito reservado para Sérgio Buarque, no cânone
de nosso pensamento político. Rogerio Schlegel, por sua vez, em outro trabalho recente que
compara as três primeiras edições de clássico de Buarque e mapeia as modificações introduzi-
das na obra pelo autor, observa que “a revisão de 1948 deixou o interlocutor [Nestor Duarte]
falando sozinho [...] uma vez que o trecho de Raízes do Brasil destacado em A Ordem Privada
e a Organização Política Nacional foi suprimido na segunda edição” (Schlegel, 2017: 31-32).
Mas não é apenas com relação a Sérgio Buarque que Duarte se coloca em contraposição
quando elabora sua defesa da democracia como método preferencial de organização política.
O antagonismo é muito maior, como não poderia deixar de ser, com o Estado “centralizado,
unitário, capaz de impor-se a todo o país pelo prestígio fascinante de uma grande missão
nacional”, tal como definido por Oliveira Vianna (1938: 365). Se o Estado pretendido por
Duarte possui a capacidade de “educar” o povo, não o faz por ser “forte”, nem “centralizado”
e muito menos por ser “autoritário”, mas apenas quando incorpora em seu funcionamento os
procedimentos democráticos e quando fomenta o florescimento de um “espírito” público que
possa vir a suplantar a organização privatista até então prevalecente no País.
Segundo o autor, desde que historicamente, no Brasil, quase não existiu Estado além do
governo, e uma vez que a tarefa de construir esse Estado quo “coisa pública”, ficou quase
sempre nas mãos do próprio governo, instaurando-se assim uma lógica perversa em que,
sendo quase sempre “fraco para tarefa tamanha, ele [o governo] pede, por isso mesmo, mais
força, mais centralização e mais autoridade, para alcançar por golpes o que será antes resulta-
do de lentos processos e da ação ininterrupta sob programas demorados” (Viana, 1938: 118).
Daí decorre que “a nossa concepção de governo forte” seja forçosamente “a própria noção
do governo de força, do governo pessoal”. E, assim, temos que “à falta de uma abstração
impessoal do que seja governo, acabamos por admitir como regular a anormalidade de um
Estado que é só o governante, de uma ação governamental que é só o poder pessoal do chefe
do governo” (Viana, 1938: 118-119).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 41-48, janeiro-abril 2018 41
Diego Rafael Ambrosini

Quando temos, portanto, “um Estado fraco a nutrir-se da violência dos governos cha-
mados fortes”, tal como no período de Vargas, fica transparente a nossa incapacidade de al-
cançar uma verdadeira “organização política nacional”. A “própria violência” desse governo,
acrescenta Duarte, “é um dos aspectos de sua falibilidade”, pois o “apelo à força ou a outros
recursos de ação direta e elementar denuncia a carência de um espírito público em que a
instituição política pudesse apoiar-se e ganhar, por sua vez, outra ascendência no sentimento,
no ideal coletivo” (Viana, 1938: 124). No fundo, o que se conclui de seu raciocínio é que um
Estado que se resuma a instalar um poder exacerbado nas mãos do chefe de Governo, como
defendiam os pensadores autoritários da época, mostra-se patentemente incapaz de superar
a organização “privatista” que a Ordem Privada impôs historicamente à sociedade brasileira
desde a colônia.
Para finalizar, vejamos a crítica severa a Oliveira Vianna que Aliomar Baleeiro, outro dos
autores dessa geração, proferiu durante a aula inaugural dos cursos da Faculdade de Direito
da Bahia, em março de 1943. Na segunda parte daquela palestra (com o título: “O Brasil
poderá ser democrático?”), com uma retórica plena de ironia, Baleeiro deplora a “caricatura
cruel e falsa do Brasil” perpetrada pelos “pseudorrealistas” seguidores de Oliveira Vianna,
que se apresentavam como “pragmático[s], nativista[s], único[s] que compreendeu [deram] as
chamadas ‘realidades brasileiras’”, e que afirmam que “só por pilhéria se poderá pretender
governo representativo, liberdade de pensamento, voto secreto e proporcional, representação
de minorias, orçamento controlado para esses mestiços com saudades das senzalas”, que
são os brasileiros (Baleeiro, 1943: 13). Para tais autores, continua Baleeiro, só haveria duas
questões de importância: “autoridade forte e unidade nacional” – ou, como ele define com
bílis logo depois, “autoridade forte, isto é, o arbítrio irresponsável, tendo como perna direita
a baixa ditadura policial e esquerda o Tesouro dadivoso para os que comungam da fé autori-
tarista” (Baleeiro, 1943: 14).
Em seguida, Baleeiro desdenha da leitura fantasiosa que Oliveira Vianna, a quem chama
de “prógono do derrotismo antidemocrático”, faz das democracias inglesa e norte-americana,
que não perceberia que os regimes desses países, historicamente, também foram “fruto de
longa e penosa conquista, com avanços e recuos, cortada por entreatos de autoritarismo e
corrupção”. Para Baleeiro, os regimes políticos de todos os países estão sujeitos aos “defei-
tos do egoísmo humano”, mas estes, “nos climas de liberdade, estão expostos ao cautério
profilático da opinião, à crítica parlamentar e à da imprensa, ao passo que, nas autocracias,
proliferam na fermentação escura e abafada do segredo oficial e da censura aos jornais”
(Baleeiro, 1943: 18).
Além disso, Baleeiro acredita pegar Oliveira Vianna em contradição: “o notável publicista
escreveu centenas de páginas increpando os estadistas brasileiros porque se teriam empolga-

42 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 42-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

do pelo sopro democrático [...] e afinal, depois de tudo isso vem sugerir a mais servil imitação
de fórmulas e ideias exóticas”, a noção de “democracia autoritária” importada “do nazis-
ta Goebbels” e “acolitada pela representação exclusivamente profissional”, que, para ele,
é “exatamente o único arranjo político que não encontra o mais mínimo comemorativo nas
tradições brasileiras” (Baleeiro, 1943: 22).
Ao concluir, Baleeiro afirma que “em política, o princípio pragmático mais certo é aquele
velho de que se deve fazer tudo quanto se pode, enquanto não se pode fazer tudo o que se
deve”. E, mais adiante, taxativo:

“Só há dois meios de aproximar realidade e ideal: ou rebaixar o ideal ao nível da realidade,
ou elevar, cada vez mais, a realidade à altura desse ideal. Nisso reside a diferença entre os
que se apegam às ditaduras e os que se batem pela democracia. [...] À medida que nos ele-
varmos na liberdade política, estendendo-a ao maior número, também nos aproximaremos,
sem comoções estruturais, da justiça social e econômica, o problema crucial de nossa gera-
ção” (Baleeiro, 1943: 23).

Com esse raciocínio, esse esforço para “aproximar realidade e ideal”, Baleeiro parece
tentar elaborar alguma resposta para o clássico dilema brasileiro entre, de um lado, a importa-
ção de modelos políticos consagrados em outros países e, de outro, a necessidade de adapta-
ção desses modelos à realidade efetiva do Brasil. Assim como seus companheiros de geração,
o que ele buscava era uma maneira de resolver esse impasse que fugisse à lógica autoritária
abraçada por Oliveira Vianna e outros, como Azevedo Amaral e Francisco Campos. Infelizmen-
te, sabemos hoje, esse contradiscurso democrático poucos frutos rendeu, e a própria trajetória
de Baleeiro nas décadas seguintes demonstra esses limites, uma vez que ele e outros liberais
da UDN (partido que acolheu a grande maioria dos membros dessa geração ao fim do Estado
Novo) acabaram desempenhando um papel nada desprezível no processo de esgotamento do
regime democrático de 1946-1964.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 43-48, janeiro-abril 2018 43
Diego Rafael Ambrosini

Nota

1 A opinião é unânime em toda a historiografia sobre a Bahia no período. Ver, especialmente, Sampaio (1992).
2 Um testemunho, embora parcial, desses acontecimentos está em Carneiro (1933). Para o ponto de vista
contrário, ver Mariani (1936).
3 Um exemplo flagrante de como funcionava a sociabilidade intelectual entre os membros do grupo analisado
nas páginas desses periódicos pode ser encontrado no grande número de resenhas escritas por alguns dos
autores, para criticar livros publicados por outros membros do grupo ou por outros intelectuais importantes do
período (Baleeiro, 1940 e 1941; Gomes, 1941; Lima, 1941 e 1942; Sampaio, 1941b e 1942b; Ferreira, 1943).
4 Na Constituinte nacional estiveram presentes os seguintes professores: Marques dos Reis, Prisco Paraíso,
Clemente Mariani, Edgar Sanches e Homero Pires (PSD) e Aloísio de Carvalho Filho (LASP). Da Constituinte
estadual participaram: Albérico Fraga e Aliomar Baleeiro (PSD), e Nestor Duarte e Jayme Junqueira Ayres
(Concentração Autonomista).
5 Os “Institutos de Advogados”, existentes nas principais capitais brasileiras desde o século XIX e muitas
vezes chamados de “Institutos da Ordem dos Advogados”, nada tinham a ver com a OAB, fundada somente
em 1930. Enquanto esta última era uma associação de classe, com caráter corporativo de representação
profissional, os “institutos” geralmente funcionavam como centros de estudos e de pesquisas a respeito das
disciplinas jurídicas. Nesse sentido, eram mais próximos dos diversos “institutos históricos e geográficos”
existentes na época, pois eram voltados para a “difusão do saber jurídico”. Sobre o Instituto dos Advogados
Brasileiros, fundado no Rio de Janeiro em 1843, ver Baeta (2003). A respeito do Instituto dos Advogados
de São Paulo, eu mesmo realizei uma extensa pesquisa há alguns anos (Ambrosini e Salinas, 2006). Sobre o
Instituto dos Advogados da Bahia, ainda não existem investigações mais aprofundadas publicadas em livro.
6 A parte principal desse discurso foi também publicada no primeiro número da Revista Seiva, de janeiro de
1939. A Revista Seiva foi um periódico editado pelo PCB na Bahia, entre 1939 e 1943.
7 Faço referência aqui ao clássico ensaio Dois conceitos de liberdade (Berlin, 2006).

Referências bibliográficas

AMBROSINI, Diego Rafael. O ensaísta: Nestor Duarte entre os intérpretes do Brasil. Cadernos CEDEC, São
Paulo, n. 100, 2011.
______; SALINAS, Natasha Schmitt Caccia. Memória do IASP e da advocacia: de 1874 aos nossos dias.
Campinas: Millenium, 2006.
ARAÚJO, J. J. Os princípios democráticos e a Constituição de 1937. Revista da Faculdade de Direito da Bahia,
v. 13, 1938.
AYRES, Jayme Junqueira. A festa da Constituição: discursos de Jayme Junqueira Ayres e Renato Bião de Cer-
queira e Souza sobre a Constituição de 1934. Revista da Faculdade de Direito da Bahia, v. 9, 1934.
______. Censuras ao pendor dos juristas para as instituições democráticas. Revista da Faculdade de Direito
da Bahia, v. 16, 1941.
______. Oração de Paraninfo de 1943. Revista da Faculdade de Direito da Bahia, v. 19, 1944.

44 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 44-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

BAETA, Hermann Assis (Org.). História da Ordem dos Advogados do Brasil: o IAB e os advogados no Império.
Brasília: Conselho Federal da OAB, 2003. v. I.

BALEEIRO, Aliomar. A democracia e as realidades brasileiras: oração inaugural dos cursos jurídicos. Revista da
Faculdade de Direito da Bahia, v. 18, 1943.
______. Resenha de A ordem privada e a organização política nacional, de Nestor Duarte. Revista Fórum,
Instituto da Ordem dos Advogados da Bahia, v. 12, fasc. 1, 1940.

______. Resenha de Força, cultura e liberdade: origens históricas e tendências atuais da evolução política do
Brasil, de Almir de Andrade. Revista Fórum, Instituto da Ordem dos Advogados da Bahia, v. 14, fasc. 9, 1941.
BERLIN, Isaiah. Dois conceitos de liberdade: o estudo da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

CALASANS, José. A Faculdade Livre de Direito da Bahia: subsídios para a sua história. Salvador: CEB/UFBA,
1984.

CARNEIRO, Nelson de Souza. XXII de agosto! O Movimento Constitucionalista na Bahia. São Paulo: Com-
panhia Editora Nacional, 1933.

CARVALHO FILHO, Aloísio de. A Constituição Federal de 1934. Revista da Faculdade de Direito da Bahia, v.
11, 1936.

______ et al. Anais do Cinquentenário da Faculdade de Direito da Bahia: 1891-1941. Bahia: Imprensa
Glória, 1945.

CLEMENTE, Álvaro. A nova concepção autoritária do processo e sua influência na melhor distribuição da
justiça. Revista da Faculdade de Direito da Bahia, v. 15, 1940.

CHACON, Vamireh. Presença da Escola do Recife nas primeiras faculdades de direito do Brasil. In: ______.
Formação das ciências sociais no Brasil: da Escola do Recife ao Código Civil. 2. ed. rev. e amp. Brasília: Para-
lelo 15/LGE; São Paulo: Unesp, 2008.

DUARTE, Nestor. A ordem privada e a organização política nacional: contribuição à sociologia política brasi-
leira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1966 [1939].

______. Oração de paraninfo: disciplina por subordinação e disciplina por coordenação. Revista da Faculdade
de Direito da Bahia, v. 14, 1939.

FERREIRA, Waldemar. Resenha de Sampaio Dória e Nelson de Souza Sampaio: dois livros sobre a democracia.
Revista Fórum, Instituto da Ordem dos Advogados da Bahia, v. 18, fasc. 20, 1943.
FRAGA, Albérico. A falência da democracia. Revista da Faculdade de Direito da Bahia, v. 8, 1933.

______. Democracia e constituição: oração inaugural dos cursos jurídicos. Revista da Faculdade de Direito
da Bahia, v. 12, 1937.
GOMES, Ângela de Castro. Essa gente do Rio: modernismo e nacionalismo. Rio de Janeiro: FGV, 1999.

GOMES, Orlando. Aspectos da democratização do direito. Revista da Faculdade de Direito da Bahia, v. 12, 1937.

______. Autoridade e democracia. Revista Fórum, Instituto da Ordem dos Advogados da Bahia, v. 16, fasc.
14, 1942a.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 45-48, janeiro-abril 2018 45
Diego Rafael Ambrosini

______. Elegia do Código de Napoleão. Revista Fórum, Instituto da Ordem dos Advogados da Bahia, v. 13,
fasc. 6, 1940.
______. O Estado e o indivíduo. Bahia: Gráfica Popular, 1933.
______. Oração de paraninfo à turma de 1942 da Faculdade de Direito da Bahia: ideal de liberdade e a rea-
ção fascista. Revista Fórum, Instituto da Ordem dos Advogados da Bahia, v. 17, fasc. 18, 1942b.
______. Resenha de “As ideias-força da democracia, de Nelson de Souza Sampaio”. Revista Fórum, Instituto
da Ordem dos Advogados da Bahia, v. 15, fasc. 11, 1941.
LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na Primeira República: uma interpre-
tação. In: FAUSTO, Boris. História geral da civilização brasileira: o Brasil republicano. Sociedade e instituições.
São Paulo: Difel, 1977. t. III, v. 2.
LIMA, Hermes. Resenha de As ideias-força da democracia, de Nelson de Souza Sampaio. Revista Fórum,
Instituto da Ordem dos Advogados da Bahia, v. 16, fasc. 13, 1942.

______. Resenha de Elegia do Código de Napoleão, de Orlando Gomes. Revista Fórum, Instituto da Ordem
dos Advogados da Bahia, v. 14, fasc. 7, 1941.
MACHADO NETO, Antônio Luiz. Contribuição baiana à filosofia jurídica e à sociologia do direito. Revista da
Faculdade de Direito da USP, ano LXI, fasc. 1, 1966.
MARIANI, Clemente. O governo da Bahia e a defesa da República contra as agitações extremistas. Rio de
Janeiro: Tipografia do Jornal do Commercio, 1936.
PANG, Eul-Soo. Coronelismo e oligarquias – 1889-1934: a Bahia na Primeira República brasileira. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
POCOCK, J. G. A. Linguagens do ideário político. São Paulo: Edusp, 2003.
SAMPAIO, Consuelo Novais. Poder & representação: o legislativo da Bahia na Segunda República – 1930-
1937. Salvador: Assembleia Legislativa, 1992.
SAMPAIO, Nelson de Souza. As ideias-força da democracia. Bahia: Imprensa Regina, 1941a.
______. Nosso mundo de contradições. Revista da Faculdade de Direito da Bahia, v. 16, 1941c.
______. Resenha de A ordem privada e a organização política nacional, de Nestor Duarte. Revista Fórum,
Instituto da Ordem dos Advogados da Bahia, v. 14, fasc. 8, 1941b.
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Paradigma e história: a ordem burguesa na imaginação social brasileira.
In: Ordem burguesa e liberalismo político. São Paulo: Duas Cidades, 1978.
SCHLEGEL, Rogerio. Raízes do Brasil, 1936: o estatismo orgânico como contribuição original. Revista Brasilei-
ra de Ciências Sociais, v. 32, n. 93, 2017.
SEABRA, José Joaquim. Humilhação e devastação da Bahia: análise documentada da administração do sr.
Juracy Magalhães, reunida e anotada por Nelson de Souza Carneiro. Salvador: Companhia e Editora Gráfica
da Bahia, 1933.
SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição: luta política, intelectuais e formação do discurso histórico na Bahia
(1930-1949). Salvador: EDUFBA, 2000.

46 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 46-48, janeiro-abril 2018
A democracia em debate: juristas baianos e a resistência ao regime varguista (1930-1945)

SIRINELLI, Jean François. Os intelectuais. In: Por uma história política. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996.
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio a Castelo (1930-1964). 12. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
SKINNER, Quentin. Meaning and understanding in the history of ideas. History and theory, v. 8, n. 1, 1969.
TOURINHO, Demétrio Ciríaco Ferreira. Direito livre – direito justo: oração inaugural dos cursos na Faculdade
de Direito da Bahia. Revista da Faculdade de Direito da Bahia, n. 13, 1938.
VIANNA, Francisco de Oliveira. Populações meridionais do Brasil: populações rurais do Centro-Sul. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1938 [1920]. v. I.
WAIZBORT, Leopoldo. O mal-entendido da democracia: Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 1936.
Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 26, n. 76, 2011.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 47-48, janeiro-abril 2018 47
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros:
um acontecimento na transição
democrática
Rioters, rowdies, guerrilla fighters: an event in the democratic
transition
Agitadores, alborotadores, guerrilleros: un acontecimiento en la
transición democrática

Daniel Barbosa Andrade de Faria

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942018000100004

Possui graduação em História pela Universidade de Brasília (1998), mestrado em História pela Universidade de Brasília
(2000) e doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2004). Concluiu o pós-doutorado pela mesma
universidade em 2008. Atualmente é professor Adjunto I do Departamento de História da Universidade de Brasília (krma-
zov@hotmail.com)

Artigo recebido em 02 de outubro de 2017 e aprovado para publicação em 15 de dezembro de 2017.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 49-70, janeiro-abril 2018 49
Daniel Barbosa Andrade de Faria

Resumo
Recentemente, o acervo da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal relativo à ditadura militar foi aberto
ao público. Um dossiê sobre o “badernaço” (tumulto acontecido depois da manifestação contra o Plano Cruzado II)
é parte desse acervo. Trata-se da documentação da Comissão de Sindicância instaurada para apurar denúncias de
que o “badernaço” ocorrera com conivência ou cooperação de setores do Governo, como a Secretaria de Segurança
Pública ou a chamada “comunidade de informações”. Este artigo faz uma análise desse dossiê, a partir dos temas
da “transição democrática” e das sobrevivências da ditadura militar (aqui entendidas, conceitualmente, nos termos
do fantasmagórico, espectral).
Palavras-chave: Transição democrática; Manifestações políticas; Ditadura militar.

Abstract
Recently, the archives of the Brazilian Federal District’s Department of Public Safety regarding the Military Dictator-
ship was open to the public. A dossier on the “badernaço” (a riot that happened after a demonstration of Plano
Cruzado II) is part of these archives. It is the documentation of the commission of inquiry that was established to
the allegations that the “badernaço” occurred with the collusion or cooperation of sectors of the government, such
as the Public Safety Department or the so-called “information community”. This article analyzes this dossier from
the perspective of the topics of the “democratic transition” and the survivals of the Military Dictatorship (which are
understood, conceptually, in terms of the ghostly, spectral).
Keywords: Democratic transition; Political demonstrations; Military dictatorship.

Resumen
Recientemente, el acervo de la Secretaría de Seguridad Pública del Distrito Federal relativo a la Dictadura Militar fue
abierto al público. Un dossier sobre el “badernaço” (tumulto ocurrido después de una manifestación contra el “Plano
Cruzado II”) es parte de ese acervo. Se trata de la documentación de la comisión de investigación instaurada para
averiguar denuncias de que el “badernaço” ocurrió con connivencia o cooperación de sectores del gobierno, como la
Secretaría de Seguridad Pública o la llamada “comunidad de informaciones”. Este artículo hace un análisis de ese dos-
sier, a partir de los temas de la “transición democrática” y de las supervivencias de la Dictadura Militar (aquí entendidas,
conceptualmente, en los términos de lo fantasmagórico, espectral).
Palabras-clave: Transición democrática; Manifestaciones políticas; Dictadura militar.

50 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 50-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

Ao cair da tarde, dois desconhecidos se encontram nos corredores escuros


de uma galeria de quadros. Com um leve calafrio, um deles diz:
– Este lugar é sinistro. Você acredita em fantasmas?
– Eu não, respondeu o outro. – E você?
– Eu, sim – disse o primeiro, e desapareceu.
George Loring Frost (Borges; Ocampo; Bioy Casares, 2013: 186).

R ecentemente, o acervo da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal relativo


ao período da ditadura militar foi aberto ao público. A publicização desse acervo remete
às relações entre justiça, direitos humanos e democracia, podendo ser pensada como mais um
momento no percurso da redemocratização – que inclui os aspectos do direito à informação e
à memória. Nesse acervo, em meio a informes e relatórios trocados entre órgãos de repressão
e espionagem política, há um extenso documento sobre o evento que ficou conhecido como
“badernaço”, ocorrido em Brasília, em novembro de 1986 – um tumulto que tomou conta da
Esplanada dos Ministérios depois de manifestação contra o Plano Cruzado II. No caso, trata-se
do relatório final, das atas e do material colhido para as apurações realizadas por Comissão de
Sindicância nomeada pelo então governador José Aparecido. A comissão foi criada porque, já
num primeiro momento, surgiram denúncias na imprensa e nos meios políticos de que as de-
predações e incêndios de viaturas policiais teriam sido feitas por infiltrados na manifestação,
talvez mesmo policiais ou agentes ligados à “comunidade de informações” – tudo isso, diante
de uma ação policial dividida em duas fases: num primeiro momento, repressão violenta con-
tra a manifestação; no momento dos tumultos, passividade e contemplação do espetáculo.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 51-70, janeiro-abril 2018 51
Daniel Barbosa Andrade de Faria

Inicialmente, podem ser destacados alguns aspectos que dão a essa documentação um
sentido enigmático – que, por sua vez, repercute os embaraços da assim chamada “transição
democrática”, tanto em sua relação aos fantasmas do passado ditatorial que não pararam de
assombrá-la quanto em relação ao seu futuro, de uma transição lentíssima, instável e incerta
para uma democracia que parece sempre sumir no horizonte.
Em primeiro lugar, o acervo só veio a público em 2017 – foi transferido para o Arquivo
Público do Distrito Federal em 1995. Nos diários de campo, referentes a essa transferência de
1995, lê-se que a documentação gerada pelas Forças Armadas, pela Polícia e pelo Corpo de
Bombeiros seria avaliada por comissões compostas por membros de cada órgão. Trata-se, evi-
dentemente, de documentação valiosa, mas desfalcada. As lacunas são óbvias – por exemplo,
os documentos do período mais violento da repressão, entre 1968 e 1974, são justamente
os ausentes. Além disso, como habitualmente ocorre com esse tipo de acervo, os documentos
fazem referências a outros documentos que não são encontrados.
A natureza dos informes e a circulação entre diferentes órgãos, como CENIMAR, CISAe
Polícia Federal, transmite uma ideia aproximada da intensidade e das atividades desse aparato,
no que se refere ao Distrito Federal. Contudo, quão distante é essa “proximidade”, conjecturada
a partir das lacunas, daquilo que efetivamente se deu na atuação da Secretaria de Segurança Pú-
blica durante a ditadura militar é questão em aberto. O fato de as próprias instâncias produtoras
desses documentos e, possivelmente, mesmo de agentes envolvidos em violações aos direitos
humanos e em crimes contra a sociedade serem os primeiros responsáveis pela avaliação de
seu valor histórico remete à estranheza e aos percalços da chamada “transição democrática”
no Brasil – seus limites incertos, e tão debatidos pela historiografia, entre abertura, transição,
redemocratização, conquista social, cidadania, tutela etc. (Castro; D’Araújo, 2001; Silva, 2007).
No que se refere ao dossiê sobre o “badernaço”, há uma nota escrita à mão: “esta
documentação estava localizada na sala climatizada, não podendo, contudo, atestar sua
procedência”1. A comissão de sindicância, designada pelo Decreto n. 9.971, de 1 de de-
zembro de 1986, tinha como objetivo apurar as responsabilidades dos tumultos ocorridos
em Brasília no dia 27 de novembro de 1986. Dela, faziam parte Humberto Gomes de Barros,
procurador geral do Governo do Distrito Federal; José Olavo de Castro, secretário de Se-
gurança Pública do Distrito Federal; Cristovam Buarque, reitor da Universidade de Brasília;
Carlos Marx Torres, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal; Sebastião
Rios Correa, presidente da Comissão de Justiça e Paz; José Neves, presidente da Federação
dos Comerciários do Distrito Federal; e Lindberg Aziz Cury, presidente da Associação Comer-
cial do Distrito Federal. Os efeitos concretos esperados dos resultados das apurações ainda

52 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 52-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

são nebulosos. Seria a comissão uma mera resposta protocolar do Governo a um clima de
suspeitas, espetáculo público previamente destinado ao fracasso, ou uma comissão com
poder efetivo para a apuração dos fatos?
A comissão de sindicância era uma mescla entre representantes da sociedade civil e dos
próprios agentes do Estado então sob suspeita, como o secretário de Segurança Pública. Aliás,
entre os órgãos convidados para colaborar com os trabalhos da comissão, estava o Serviço
Nacional de Informações, então presidido pelo general Ivan de Souza Mendes.2 Talvez se possa
pensar que não poderia ser diferente em 1986 – e parece ser assim mesmo. A constituição
vigente, vale lembrar o óbvio, ainda era a de 1967, portanto, o aparelho policial era uma das
sobrevivências da ditadura militar. Como seria possível uma investigação sem a participação
dessas instituições? O “não poderia ser diferente”, porém, não pode nos levar a não pen-
sar sobre o sinistro da situação – até porque ela tem ressonâncias com outros eventos que
marcaram a transição, como o atentado do Riocentro ou os percalços de familiares, ativistas
e comissões oficiais quando o assunto é investigar crimes de Estado (Green; Ward, 2004)
cometidos durante a ditadura militar.
O decreto de criação da comissão era carregado de ambivalências.3 As considerações
preliminares tratavam do “repúdio do Governo e da Sociedade, aos acontecimentos verifi-
cados em Brasília, no Dia Nacional de Ação de Graças”; remetiam ao “dever democrático de
apuração, no menor prazo possível, das ocorrências de extrema gravidade”; sugeriam que a
tarefa da comissão era sanar “dúvidas levantadas por instituições e pela imprensa, quanto
aos responsáveis pelos atos criminosos perpetrados na ocasião”. O decreto se referia ainda
ao fato de que as forças policiais eram imputadas de violência e que havia uma “obrigação
moral do Governo do Distrito Federal de esclarecer os fatos”. O Governo, então sob suspeita
de instigar o “badernaço”, seja pela ação de agentes infiltrados, seja pela complacência da
Polícia Militar, criava uma Comissão de Sindicância dotada de poderes indefinidos, com o
objetivo de dar uma resposta definitiva para (ou contra) a suspeita.
A questão da democracia, apontada como um dever cívico de apuração dos fatos, estava
no centro dessas ambivalências e tensões. Afinal, o tema da Nova Constituição pairava no ar,
bem como as discussões sobre o passado ditatorial, seus crimes não resolvidos e seus desa-
parecimentos forçados – e, ainda, a sobrevivência e destino de dispositivos estatais montados
durante a ditadura militar e durante a redemocratização (Joffily, 2004). Quem eram então os
“baderneiros” que irromperam na Esplanada dos Ministérios, depredando prédios e queiman-
do carros? Quem eram esses que punham em risco a própria existência de uma política de-
mocrática? Quem, afinal de contas, recusava a democracia? Como veremos, tanto no decreto
que institui quanto nas apurações e no relatório final da comissão de sindicância, essa seria a
questão central em torno do “badernaço”.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 53-70, janeiro-abril 2018 53
Daniel Barbosa Andrade de Faria

O “badernaço”: primeiras leituras

D e acordo com a matéria “Secretário admite erro na repressão ao grande badernaço”,4


Olavo de Castro, então na Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal – bem
como membro da comissão de sindicância criada pelo governador José Aparecido – reconhe-
ceu que houve falha na ação da Polícia Militar, diante dos tumultos que resultaram no incêndio
de quatro agências bancárias e 20 veículos militares – isso diante do contraste de que, no que
se referia aos incendiários, nenhum fora preso em flagrante. As 34 prisões que se deram na-
quele momento ocorreram durante a fase pacífica da manifestação. Por outro lado, fotografias
mostravam depredadores atuando diante da observação inerte de policiais.
O reconhecimento da falha passava, porém, pela justificativa de que os “agitadores”
eram de “alta categoria”. Mais ainda, agitadores que “demonstraram ser altamente capazes,
promovendo uma ação de manual de guerrilha urbana”. Os manifestantes “desapareciam e
apareciam num outo lugar”, de acordo com o secretário. Guerrilha urbana, ações clandestinas
de militantes espectrais dotados dos poderes da invisibilidade e do teletransporte, manuais

54 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 54-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

da guerra revolucionária – tudo isso sobrevivendo em 1986, numa mistura em que “fantas-
mas” do passado (a luta armada, a guerra revolucionária) embaralhavam-se a figuras do
horror científico da “década perdida” (o filme A mosca é de 1986), ao menos nas palavras
do secretário de Segurança. O que, no mínimo, sugere sobrevivências de tensões da ditadura
militar, interferindo nos debates políticos e no imaginário da povo naquele momento de re-
democratização.
Por outro lado, tomemos a avaliação do jornalista Villas-Bôas Corrêa, que havia décadas
era repórter e analista político. Em artigo intitulado “A transição fardou-se”,5 Villas-Bôas no-
tara que o lobby das Forças Armadas na Constituinte teria obtido sucesso em todas as suas
pretensões. Entre elas, uma central, e que sempre retorna sob o espectro da “intervenção
militar”: a questão da definição constitucional do papel das Forças Armadas. O jornalista
falara mesmo em “tutela da transição”. Ao menos no que se refere à interferência militar na
Assembleia Constituinte, com a consequente permanência de dispositivos derivados da dita-
dura, a leitura de Villas-Bôas não perdeu a atualidade (Zaverucha, 2010). A questão da tutela,
como já foi observado anteriormente, é tema de debate historiográfico. Por outro lado, ainda
no calor do momento, Villas-Bôas identificara o “badernaço” como o momento de virada na
redemocratização. Até então, segundo o jornalista, os militares teriam observado a “Nova
República” com certa distância. Então:

O badernaço de Brasília, assinalando o primeiro desmaio da autoridade civil e a estreia da


insubordinação social contra o governo, também registra a volta dos militares, o seu retorno
ao processo. Convocados, aplaudidos, mas presentes, respondendo à chamada. De lá para cá,
a qualquer pretexto e até sem pretexto algum, os militares foram se investindo na tutela da
transição.

A tese de Villas-Bôas, evidentemente, não pode simplesmente ser adotada como explica-
ção histórica, leitura não mediada de uma crônica política escrita com outra finalidade (menos
entender o “badernaço” do que criticar os aspectos militares do processo constituinte). Não se
trata de concluir que o “badernaço” fora o evento central da transição democrática, o momen-
to que definiu seus limites e as margens de sua instabilidade. Em primeiro lugar, porque não
se pode afirmar que antes de 1986 os militares assistiam passivamente aos acontecimentos
políticos. Em segundo lugar, porque, do ponto de vista teórico, uma explicação baseada numa
relação linear de causa e efeito tende a ser insatisfatória. De qualquer modo, é importante
observar a força do evento na percepção de um dos analistas políticos mais constantes da
História do Brasil ao longo do século XX. Além disso, retirada a ideia de causalidade entre
“badernaço” e “tutela militar”, resta a percepção de que um evento como o do “badernaço”
minara um dos aspectos centrais da “transição democrática” – justamente a que dizia respei-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 55-70, janeiro-abril 2018 55
Daniel Barbosa Andrade de Faria

to à passagem do poder das mãos dos militares para a sociedade civil. Ou seja: não se trata
aqui de se decidir o estatuto do “badernaço” como causa de outros eventos na História da
redemocratização, mas sim de pensar sobre o sentido simbólico do acontecimento que remeta
ao tema dos limites e das possibilidades da redemocratização no Brasil. Pensando o aconteci-
mento como “um pedaço de tempo e de ação posta em pedaços”, isto é, não um dado em si
mesmo, mas um evento que irrompe com a marca do heterogêneo, inseparável do modo como
ele é transmitido, comentado (Farge, 2011: 71).

“Hordas de bárbaros” na transição democrática

N ão se pretende, no âmbito deste artigo, discutir o contexto específico da manifesta-


ção que se tornou conhecida como “badernaço” (ou seja, o governo Sarney, o Plano
Cruzado e suas reviravoltas etc.). Antes, trata-se de pensar sobre alguns signos associados à
baderna política, aos tumultos e a sua repercussão na chamada “transição democrática”. O
que implica a postulação de algumas questões mais gerais. Note-se, por exemplo, que uma
cronologia quase consensual situa o início da dita transição no processo de “abertura” ini-
ciado em 1974, com Geisel. O marco final da ditadura militar oscila entre o fim do AI-5, em

56 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 56-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

1979, a eleição indireta de 1985 e a promulgação da Constituição de 1988 (Quadrat, 2014).


Cronologia que fica ainda mais complicada quando se pensa nas sobrevivências da ditadura
militar, em seus aspectos institucionais, em termos jurídicos relativos à apuração dos crimes de
Estado e à inacabada e presente “guerra das memórias” (Martins Filho, 2002).
Por outro lado, a questão não pode ser pensada em termos exclusivamente nacionais, é
preciso atentar para os significados da transição democrática, tendo em vista seus alcances in-
ternacionais e mesmo globais. Em obra interessantíssima para discutir a questão, o historiador
Nicolas Guilhot (2005) levanta inúmeras discussões relativas a esses temas nas décadas de
1980 e 1990, algumas das quais aqui destacaremos. Em primeiro lugar, é preciso estar atento
ao dado de que, entre o fim dos anos 1970 e 1980, os Direitos Humanos e a democracia se
tornaram uma linguagem da “governança global”. Com a institucionalização crescente de
redes de intelectuais, acadêmicos e organizações governamentais e não governamentais for-
ma-se uma profissionalização de supostos especialistas em democracia, assessores dedicados
ao assunto das reformas de Estados autoritários, financiados por fundações privadas e oficiais.
Nessa rede heterogênea de ativistas, acadêmicos e instituições governamentais, monta-
da em torno de um suposto consenso democrático internacional, era o significado mesmo de
conceitos como democracia e direitos humanos que estavam em pauta: quem são os represen-
tantes legítimos dos direitos humanos e da democracia? Os direitos limitam-se a civis e políti-
cos ou incluem direitos sociais? A democracia é uma questão de eleições livres e transparentes
ou uma forma pacífica de resolver conflitos?
O autor também apresenta questões interessantes sobre a América Latina e suas transi-
ções democráticas (Guilhot, 2005: 96-97). Muitos dos ativistas e intelectuais mais ativos nessa
rede global de democracia e direitos humanos tinham combatido ditaduras de direita apoia-
das pelos Estados Unidos – alguns, como Bolívar Lamounier, vinculados a institutos como o
National Endowment for Democracy, criado durante a administração Reagan. Houve, assim,
nos anos 1980, uma proliferação de encontros acadêmicos e publicações sobre a transição
democrática, nos quais podemos ver a constituição e as interações dessa rede internacional,
que inclui ainda intelectuais como Adam Przeworski, Guillermo O’Donnel e Fernando Henrique
Cardoso.
Daí, mesmo não se tratando de uma rede homogênea, tanto em termos políticos quanto
intelectuais, a construção de alguns lugares-comuns que marcam essa bibliografia específica,
a começar pelo próprio conceito articulador de “transição” (Guilhot, 2005: 146): uma transi-
ção, antes de tudo, nega as ideias de ruptura, de revolução. A transição democrática fora pen-
sada como algo a ser feito, mediante negociações, de dentro do próprio aparelho de Estado

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 57-70, janeiro-abril 2018 57
Daniel Barbosa Andrade de Faria

ditatorial, tratando-se, portanto, de uma espécie de concerto palaciano entre os agentes de


um regime autoritário propensos à abertura e os defensores da democracia avessos a propos-
tas consideradas radicais. Enfim, o que emerge nesse contexto é a ideia de uma democracia
de baixa intensidade (Guilhot, 2005: 152).
“Baixa intensidade”, ou, em conceito semelhante, defendido por Bolívar Lamounier, uma
“democracia mitigada”, em que, no exemplo dado pelo cientista político, mesmo com a proi-
bição da existência do Partido Comunista, houvesse um espaço para a livre discussão sobre
a possibilidade de sua legalização – o que, ainda de acordo com Lamounier, abriria um hori-
zonte de democratização progressiva com “absorção parcial de ressentimentos” (Lamounier
e Faria, 1981: 56-57).
As “hordas de bárbaros”, os radicais, os ressentidos com o passado e os renitentes da
linha dura seriam, assim, os maiores empecilhos para a consolidação da democracia dentro do
horizonte desse campo discursivo. Privilegiava-se as virtudes da moderação, as habilidades na
negociação entre representantes de uma paradoxal “aristocracia democrática” – o centro, tal-
vez mesmo o “centrão”, em detrimento dos radicalismos dos “dois lados”, esquerda e direita.
O consenso,6 note-se porém, fundava-se em torno de uma lógica, de uma forma de se pensar
a política. Não se estabelecia, de saída, quem seriam os atores qualificados para figurar nessa
função de moderação e de governança da transição democrática. Por isso, é nesses termos
de uma forma de se pensar, que encontramos aproximações (em outros aspectos, paradoxais)
entre os discursos da abertura lenta e gradual e da transição democrática.
Para Golbery do Couto e Silva, esse exercício da moderação centrava-se nos próprios
agentes estratégicos da ditadura militar. Num texto apresentado em conferência na Escola
Superior de Guerra que marcou época (Couto e Silva, 1981), Golbery comparou a abertura
política com os movimentos de sístole e diástole do coração, não só recobrindo a História
política sob uma metáfora naturalizada, remetendo-a a um processo orgânico, mas também
apontando para uma dimensão sensível e mesmo potencialmente mortal da gestão gover-
namental – afinal, o “coração do Estado” estava sujeito a “arritmias, isquemias e enfartes”
(Couto e Silva, 1981: 21). Daí a tese da necessidade de que os governantes imprimissem um
ritmo ordenado entre centralização e descentralização do Estado, tendo em vista a consolida-
ção democrática da sociedade brasileira.
Para o colapso civilizacional, os riscos residiriam nos excessos. No caso da ditadura mili-
tar, teríamos um momento de sístole no “coração do Estado”. Então, a centralização crescente
acabara gerando uma máquina estatal excessiva, complexa, que se retroalimentava, absor-
vendo as energias da sociedade, tornando-se, no “extremo final” que Golbery não nomeara

58 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 58-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

explicitamente (estaria se referindo ao DOI-CODI, ao SNI e à sua monstruosidade ou ao co-


lapso econômico daqueles anos?), semelhante aos “black holes detectados pela astronomia
moderna e dos quais nenhuma luz consegue escapar” (Couto e Silva, 1981: 24). Golbery
advertira ainda que uma leitura equivocada da oposição entre direita e esquerda poderia levar
a erros na condução da abertura. A leitura equivocada se basearia na imagem de uma linha
em que os extremos da esquerda e da direita tornam-se cada vez mais afastados. A imagem
correta, para Golbery, seria semelhante a uma ferradura, em que a extrema-esquerda e a
extrema-direita não se afastavam, aproximavam-se, criando mesmo uma espécie de “aliança
tática” (Couto e Silva, 1981: 26-27). Caberia, então, ao governante responsável pela abertura,
o trabalho de manobra política entre esses extremos, preservando o centro da ferradura como
eixo de articulação.

Transição democrática, tempo de espectros

J á no fim da década de 1980, uma daquelas várias publicações voltadas para o tema da
transição democrática publicadas dentro e fora do Brasil, fazia um balanço melancólico.
Adam Przeworski, cientista político e professor da Universidade de Chicago, abria seu artigo
com a ideia de que a transição brasileira parecia interrompida, entre um autoritarismo que
não mais existia e uma democracia não instalada (PRZEWORSKI, 1989: 19). A imagem por ele

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 59-70, janeiro-abril 2018 59
Daniel Barbosa Andrade de Faria

proposta, entre pueril e fantasmagórica, era a de uma bola de pinball paralisada, depois de
ter sido lançada – quando o esperado seria que a bola percorresse seu caminho naturalmente,
ao longo do jogo de fliperama, descendo pelo plano inclinado, aparecendo e desaparecendo.
Já vimos no texto de autoria de Golbery a imagem de um coração em trabalho constante
contra a morte. No livro aqui citado, são recorrentes as ideias e imagens relacionadas à ago-
nia, à incerteza, à instabilidade. Mais recentemente, e em espectro ideológico bem distinto,
um livro recebeu o título de “o que resta da ditadura” – a ideia de “resto” aqui deve ser
pensada não como uma sobra irrelevante, e, sim, como um resíduo, mesmo como um resíduo
radioativo, com sua capacidade de contaminar um ambiente por séculos, tendendo ao infinito
(1986 foi o ano do acidente de Chernobyl).
Não somente o fim da ditadura militar, mas o fim da Guerra Fria vem sendo assombrado
por esses aspectos fantasmagóricos de um passado que, paradoxalmente, ainda sobrevive – com
um potencial traumático para o futuro, pois esse passado sempre está prestes a retornar. Diante
disso e a partir do livro Espectros de Marx (Derrida, 1994), há, inclusive, uma proposta de uma
“virada espectral” nas ciências humanas – por comparação com a chamada “virada linguística”
(Blaco & Peeren, 2013). Exageros e pretensões programáticas à parte, os conceitos e imagens
em torno do espectral têm grande potencial interpretativo para a História que envolve a abertura,
lenta e gradual, e a transição democrática inacabada – ou mesmo o retorno do passado que
parecia passado (como no caso das defesas recentes de uma nova “intervenção militar”).
A ideia do espectral, do fantasmático, é interessante por sugerir que as relações entre
passado, presente e futuro não são simplesmente lineares. Aspectos do passado sobrevivem
no presente como resíduos ativos, apontando para uma dimensão da História que não se dá
como progresso e sim como trauma e repetição. Ela sugere, ainda, a ideia de uma presença
latente, imaterial e, ao mesmo tempo, real. Por fim, o espectral contemporâneo tem relação
com a dimensão midiática da realidade. Fotografias, vídeos e tantos outros aparatos fazem
com que o cotidiano seja povoado de imagens, compondo um espaço público demarcado pela
audiovisualidade (Mauad, 2016).
As imagens usadas neste artigo são todas do dossiê sobre o “badernaço”. Trata-se de
fotografias feitas por integrantes do Corpo de Bombeiros após o evento, voltadas para a pro-
dução de laudos técnicos sobre os incêndios ocorridos. As fotografias foram reproduzidas para
a Comissão de Sindicância (que, aparentemente, não as usou efetivamente em sua apuração).
Nos processos de reprodução das imagens, de realização de cópias sobre cópias, elas perde-
ram as cores dos originais e depois se reduziram aos contornos, às linhas, onde entrevemos a
Esplanada dos Ministérios, uniformes de policiais, silhuetas de transeuntes, entre outros. Elas

60 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 60-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

não estão cumprindo, neste artigo, uma função meramente ilustrativa. Mais do que quaisquer
palavras, é nessas imagens que percebemos o sentido espectral do “badernaço” e de eventos
semelhantes, que pesam como uma sombra na História da democracia.

Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros ou: quem não
quer a democracia?

Dia de Ação de Graças. Segundo matéria da revista Veja, datada de 3 de dezembro de


1986, incluída no dossiê da comissão de sindicância sobre o “badernaço”, um “vendaval
agita Brasília”.7 Cerca de cinco mil pessoas participavam do que seria, até então, a maior ma-
nifestação “dessa natureza” registrada na Esplanada dos Ministérios. Brasília teria se tornado
uma “praça de guerra” no “primeiro quebra-quebra do novo regime civil”. Na hora da mani-
festação, o presidente José Sarney estava na catedral de Brasília, tendo de ser escoltado pelo
Exército para percorrer o caminho que leva desta ao Palácio do Planalto. A catedral estava cer-
cada por um aparato policial-militar – a manifestação acontecia em outro lugar, em frente ao
Ministério da Fazenda. Estranhamente, dali, os manifestantes foram empurrados pela polícia,
com o uso de gás lacrimogêneo, em direção à estação rodoviária. Na rodoviária, finalmente,
alguns mascarados presentes na manifestação começaram os atos de depredação. Dezenas
de viaturas policiais e militares estavam paradas no estacionamento, sem proteção nenhuma.
Elas foram incendiadas ao longo de um tumulto que teria durado entre uma e duas horas.
Baderneiros, mascarados, guerrilheiros – ou policiais infiltrados, talvez agentes da cha-
mada “linha-dura” que vinha, desde os anos 1970, tentando sabotar a abertura e, depois, a
transição democrática. Quem, afinal de contas, não queria a democracia? E por que, de tempos
em tempos, a imagem da paralisia, do colapso, retornava e retorna sob as figuras de golpe, de
intervenção militar? Estamos aqui diante de um tempo que não se configura pelo movimento
implícito na própria ideia de transição de um estado a outro. Ao contrário, figuras associadas
a um passado delimitado no tempo retornam muitas vezes sentidas, como um anacronismo.
A criação da comissão de sindicância, em 1986, já vinha imersa em uma dinâmica de as-
sombrações e sobrevivências do passado ditatorial. O próprio secretário de Segurança trouxe
à tona os fantasmas da esquerda armada, da guerrilha urbana. Quanto aos crimes de Estado e
seus agentes, depois de casos como o do Riocentro e de outros atentados terroristas em meio
aos sucessos e fracassos da “transição”, em que medida se podia e se pode acreditar que o
“buraco negro”, na expressão de Golbery, do governo centralizado e monstruoso é, de fato,

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 61-70, janeiro-abril 2018 61
Daniel Barbosa Andrade de Faria

algo exterior à própria máquina estatal? Se mesmo da parte de próceres da abertura, como
Golbery, haveria a ideia de isolar a chamada “linha-dura”, por que, então, seus crimes con-
tinuam acobertados, depois de inúmeros governos, ao ponto mesmo de poderem sobreviver
impunes ao que pode vir a ser o ocaso da “Nova República”?
A comissão de sindicância de 1986 perguntou insistentemente aos depoentes (policiais,
sindicalistas e jornalistas): quem eram os baderneiros? Quem transformou uma manifestação
pacífica num festival de carros incendiados? Indícios fortes apontavam para a participação de
agentes provocadores – talvez mesmo da Polícia Militar de Goiás. As viaturas policiais foram
enfileiradas e simplesmente abandonadas na Esplanada, como uma espécie de isca para ma-
nifestantes revoltados ou para os provocadores poderem atuar. Os incendiários não foram re-
conhecidos individualmente. Pareciam jovens, fortes; não eram conhecidos militantes políticos
de Brasília. Durante o tumulto, policiais impediam jornalistas de fotografar o evento – alguns
tiveram suas câmeras tomadas e destruídas.

62 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 62-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

Em depoimento, o Major Túlio Cabral Moreira, subcomandante do Batalhão de Guardas da


Polícia Militar do Distrito Federal, registrava que:

Grande número dos manifestantes que depredaram e incendiaram as viaturas era composto
de elementos jovens, tendo como característica parte do rosto coberto com camiseta; que o
declarante não conseguiu identificar, com sua experiência de policial, os depredadores entre
pessoas que já tivessem passagem pelas delegacias onde serviu; que os depredadores , embora
na maioria jovens, não pareciam obedecer a um comando, mais parecendo que agiam cada um
por conta própria; que não havia, digo, o declarante não notou qualquer característica, quer na
indumentária, quer nos gestos, que diferenciasse os depredadores do comum das pessoas; que
não pode afirmar que os manifestantes já vinham com a decisão de queimar os veículos, mas
pela rapidez com que agiram até parece que era assim.8

Já o coronel Hugo Guimarães Costa teria iniciado suas declarações dizendo que, desde
1959, fazia parte da Polícia do Distrito Federal, e que, nessa condição, “acompanhou todos
os movimentos estudantis, operários e quaisquer reivindicações no Distrito Federal”.9 Mesmo
assim, dizia ter dificuldade de caracterizar se, no caso do “badernaço”, tratava-se de “bader-
neiros, arruaceiros, guerrilheiros” (no documento, os dois últimos termos estão sobrepostos).
Já no registro das declarações do jornalista Fernando Lemos, então editor executivo do
Correio Braziliense, constava que o mesmo não tinha avançado nas conclusões acerca da
identificação das pessoas envolvidas no “badernaço”. Um contraventor do jogo do bicho
teria dito que eram agentes da P2 (Setor de Informações do Estado-Maior) as pessoas que
comandaram o quebra-quebra. Segundo outra fonte, o núcleo do comando do quebra-quebra
pertenceria à “comunidade de informações” e teria vindo da região do Bico do Papagaio, o
que dificultaria sua identificação.
O mesmo jornalista, em depoimento prestado em 23 de dezembro de 1986, trouxe mais
indícios à comissão.10 Declarou que, depois da troca de informações com órgãos da imprensa,
concluiu que os grupos responsáveis pelas depredações e incêndios seriam compostos por
pessoas de fora de Brasília. Suas conclusões teriam resultado da observação do estilo de or-
ganização de que eram dotados os grupos, da frieza com que agiam e o nível de informações
reveladas no curso das depredações. Na opinião do jornalista, o roteiro seguido pelos depre-
dadores parecia previamente traçado, obedecendo a objetivos definidos. Perguntado sobre
qual seria a linha política dos “baderneiros”, de direita ou de esquerda, Fernando Lemos dizia
se tratar de questão complexa. Entretanto, segundo as informações que obtivera, as organi-
zações paramilitares de direita revelavam uma certa organização e se identificavam, às vezes,
pela roupa e pelo tipo de calçado (aqui, então, sugerindo uma possível linha de investigação).
De acordo com o registro do depoimento, o jornalista julgava, ainda, pouco provável que o

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 63-70, janeiro-abril 2018 63
Daniel Barbosa Andrade de Faria

próprio Governo estivesse envolvido nas depredações, uma vez que esse tipo de tumulto seria
potencialmente incontrolável, colocando em risco a estabilidade política.
Se o registro do depoimento for fiel às suas palavras, ele parecia pressupor que a estabilida-
de política é, de fato e sempre, a meta dos governos – isso, apesar de a conduta da polícia ter lhe
causado perplexidade, inclusive dando margem para a suposição de que o “badernaço” havia
sido projetado por agentes do Governo. Dizia ainda que, mesmo com algumas pichações com a
sigla MAR (Movimento Anarquista Revolucionário), acreditava não se tratar de militantes dessa
organização. Sugeria outras possibilidades: grupos vinculados à UDR (no documento não fica
claro se se tratava da “união ruralista”), à TFP (Tradição Família e Propriedade) e a uma incerta
“Seita Moon”. Dizia, também, que não conseguia entender o porquê da dedicação com que a
polícia quebrara as máquinas fotográficas dos repórteres presentes no evento.
O tom da fala dos sindicalistas foi um tanto mais aguerrido, sobretudo no intuito de
denunciar as violências policiais cometidas antes do tumulto e afastar qualquer possibilidade
das organizações de esquerda serem responsáveis pela manifestação, nas depredações e nos
incêndios. Assim, o dirigente da Central Geral dos Trabalhadores, CGT, Antenor Gentil Júnior,11
afirmou, entre outras coisas, não conhecer qualquer dirigente sindical com experiência de
práticas militares ou técnicas guerrilheiras (o que sugere, ao menos, que ele foi explicitamente
perguntado sobre o tema, embora não haja registro da pergunta e nem de seu autor). Ao
longo das manifestações, algumas pessoas lhe teriam parecido estranhas, apresentando as
seguintes características:

Jovens com menos de 30 anos, corpos atléticos, corte de cabelo bem feito, calças jeans, tênis,
camisas amarelas, pessoas que ficaram muito próximas à polícia e que proferiam palavras de
confronto com a polícia; que, no entanto, a polícia não molestava a qualquer desses manifes-
tantes. Que na opinião do depoente os atos de vandalismo foram praticados por grupos de
direita ou paramilitares, isto porque o depoente conhece todos os militantes de esquerda de
Brasília, digo, grande parte dos militantes, podendo afirmar que esses grupos se orientam pelo
caminho pacífico.12

Francisco Domingos dos Santos, então presidente da CUT, solicitou que fosse consignado
o seu protesto pela presença do secretário de Segurança Pública na comissão de sindicância.
Desejava ainda registrar a sua estranheza pelo fato de que a polícia, tão eficiente e brutal na
repressão aos manifestantes, não adotara conduta semelhante para cercar e proteger os esta-
belecimentos da estação rodoviária e do Setor Comercial Sul. Observava, além disso, a demora
do Corpo de Bombeiros para chegar aos locais onde ocorriam os incêndios.
Diante de tantas suspeitas e indicações de possíveis linhas de investigação, as teses da
comissão de sindicância soam um tanto decepcionantes.13 Em suas conclusões, endereçadas

64 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 64-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

ao governador do Distrito Federal, a comissão afirmava que o “badernaço” se restringia ao


segundo momento de uma manifestação incialmente pacífica. Destacava que a existência de
manifestações políticas fazia parte do processo democrático, o qual criara um clima favorável
à política, com a população “sem medo, depois de 21 anos de autoritarismo”. Do ponto de
vista da comissão, os líderes sindicais teriam agido de modo a moderar os momentos de
confronto quando a tensão crescia, contendo “os grupos mais radicais que, já no Congresso,
pareciam querer iniciar o processo de desordem”. Para a comissão, teria se dado a infiltração
de um grupo organizado, predisposto a provocar atos de violência. A comissão não identificou,
individualmente, nenhum dos depredadores.

(...) Que se tratavam de jovens usando camisas amarelas como marcas de distinção, de porte
atlético e atuando com grande mobilidade, dando a impressão de uma ação planejada e co-
mandada; além disto, e mais grave, o grupo dispunha de alguns tipos de artefatos menores,
inclusive um maçarico.

Por outro lado, em sua conclusão, a comissão destacava que, até um certo momento,
as ações e discursos haviam acontecido dentro “dos limites toleráveis de comportamento
democrático ordeiro” – o que incluía a ação repressiva enérgica por parte da polícia que
teria se dado, “na maior parte do tempo, dentro dos limites da legalidade, salvo graves fatos
específicos de brutalidade”. Quanto ao comportamento da polícia, quando as depredações se
iniciaram, a comissão registrara não ter encontrado uma explicação convincente, ainda mais
diante das denúncias de que, ao mesmo tempo em que depredadores e incendiários agiam
livremente, repórteres eram agredidos, tendo suas máquinas fotográficas tomadas e destruí-
das – não sendo possível, contudo, determinar se tais atos partiam ou não de uma ordem do
alto comando.
Mesmo não constando entre suas atribuições, a comissão de sindicância fazia algumas
recomendações a partir das conclusões a que não chegara (provavelmente por ser impossível,
diante dos propósitos da sua criação e do contexto político que a envolvia, que se chegasse
a qualquer conclusão mais concreta). As recomendações tinham como premissa a proposta
de que fatos como aqueles nunca mais se repetissem. A primeira se dirigia de modo abstrato
à “sociedade brasileira” e ao “Governo”, instando-os a não recaírem na “tentação de usar a
repressão” – tentação que seria exatamente o desejo daqueles (quem?) que tinham promo-
vido a “baderna”. Destaque-se que o termo é forte, carregado de afetividade, de tons morais
e mesmo religiosos: a “tentação” da violência antidemocrática. Apontando para o exemplo
das manifestações anteriores ao Plano Cruzado II – quando ocorriam atos favoráveis ao Go-
verno, promovidos pelos chamados “fiscais do Sarney”, alguns dos quais teriam recaído em

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 65-70, janeiro-abril 2018 65
Daniel Barbosa Andrade de Faria

“exageros”, como “saques e ameaças de linchamento”–, a comissão destacava que atos


políticos deviam ser considerados necessários, diante do objetivo de se governar com o apoio
da população. A segunda recomendação alertava para os riscos da convocação das Forças
Armadas para atuar na segurança pública. A terceira, expunha a sensação da fragilidade da
democracia no Brasil:

É preciso entender os limites do comportamento democrático. Qualquer gesto que vá além


disto, qualquer pedra jogada, qualquer propriedade atacada, qualquer violência física contra
indivíduos, significa uma ruptura com o processo democrático e a manifestação perde sua razão,
sua justificativa e sua liberdade. Nos próximos meses e anos o Brasil terá que realizar um cuida-
doso aprendizado de democracia e passa por ele a prática livre, séria e responsável do direito e
da necessidade de manifestação.

Esse aviso não deixa evidenciado, porém, a quem se dirigia essa exortação – que obvia-
mente não podia se limitar ao receptor imediato do relatório, o governador. Observe-se, ainda,
na passagem citada, que a defesa da democracia vinha acompanhada pela advertência de
que qualquer gesto excessivo (e quem arbitraria quais gestos seriam considerados excessivos?
O governo? A “nação”?) implicaria uma ruptura com o processo democrático, acarretando
mesmo a perda da liberdade! “Qualquer pedra jogada” tiraria a legitimidade de uma mani-
festação. Assim, por um lado, o Governo deveria respeitar o direito à manifestação; os mani-
festantes, por sua vez, deviam limitar suas ações, pautando-se pelo respeito à propriedade e
às pessoas; e, por fim, as forças policiais deveriam passar por uma “reciclagem”, um processo
de modernização democrática.
A questão que se coloca não é, exatamente, uma cobrança extemporânea no sentido de
que a comissão fizesse mais do que fez ou escrevesse as recomendações finais com outro tom.
O discurso vazio das conclusões do relatório interessa, historicamente, como uma espécie de
sintoma do mal-estar político do pós-ditadura, de sinal da paralisia e dos limites da chamada
“transição democrática”. Qualifica-se aqui as conclusões e recomendações vazias, uma vez
que elas se pautaram em ideias aprovadas por um vago consenso político e acadêmico, tais
como “diálogo”, “respeito” e mesmo “democracia”. Ideias que, caso separadas de uma práti-
ca política efetiva, tornam-se intangíveis no limite da salada de palavras, o que chamamos no
cotidiano de “conversa fiada”. Mais: palavras vazias dirigidas a interlocutores mal delineados,
como a “sociedade” que “precisa aprender a democracia”.
Se fortes indícios apontavam para uma atuação de agentes do Estado, acobertados
por alguns setores do Governo, como a própria Secretaria de Segurança Pública ou a então
moribunda “comunidade de informações”, a nulidade da apuração sugere algo mais grave:
a continuação da impunidade dos crimes de Estado na democracia. Impunidade, por sua
vez, que é um dos indícios mais fortes para o grau de participação do Estado em crimes

66 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 66-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

e violações aos direitos humanos, contrapondo-se, sob o selo do silenciamento forçado,


disfarçado de silêncio, à dimensão trágica do processo de anistia durante e após a ditadura
militar (Greco, 2009).
O consenso democrático, construído entre o fim dos anos 1970 e o começo dos anos
1980, tinha, entre suas tópicas, a ideia de que, para usar uma expressão de Denise Rollem-
berg, em texto que trata de tema correlato ao deste artigo, porém mais voltado para a
questão da memória das esquerdas, todos resistiram contra a ditadura – todos resistimos
(Rollemberg, 2006). O reencontro “da sociedade com a democracia criou um fosso entre
o passado e o futuro, como se para fazer este fosse preciso esquecer aquele”. Nesse fosso,
jaziam (jazem?) os espectros do autoritarismo que, com uma frequência considerável, ator-
mentam uma transição democrática com potencial interminável. Esses espectros, porém,
não são figuras isentas de realidade – não devemos confundir o seu estatuto impalpável
com o da inatividade, como se fossem meras fantasias ou traumas psíquicos. Ao contrário,
eles estão encarnados em dispositivos e aparelhos do Estado que sobreviveram à ditadura
militar – dos quais temos notícias por meio de silêncios e lacunas. Silêncios sobre os crimes
cometidos, silêncios em memórias marcadas pela confusão entre anistia e impunidade e
lacunas documentais fruto de um sequestro da História por agentes envolvidos em crimes
de Estado. A conclusão de que, no fim deste trabalho, não sabemos quem foram os atores
do “badernaço”– apenas contamos com indícios mais ou menos fortes (alguém pode se
perguntar: e se fosse mesmo um movimento de guerrilha urbana?) – não implica um beco
sem saída historiográfico, porque essa mesma falta de conclusão se torna objeto de refle-
xão. Por exemplo, se a pensarmos nos termos da espectralidade do passado ditatorial e de
suas sobrevivências.
Este texto acaba de ser escrito quando circulam falas de oficiais militares defendendo
uma nova “intervenção militar”, e analistas que até ontem consideravam impensável, hoje
jogam com a possibilidade (ainda que distante) de um novo golpe militar. Acontecendo ou
não esse golpe, uma coisa já se sabe, sem necessidade de conjecturas: sua possibilidade nos
assombra e, nem que seja como instrumento de chantagem política, essa possibilidade tem
efeitos no real.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 67-70, janeiro-abril 2018 67
Daniel Barbosa Andrade de Faria

Nota

1 Arquivo Público do Distrito Federal, Fundo Secretaria de Segurança Pública, Badernaço 001 (01), p. 1.
2 Idem (05), p. 41.
3 Ibidem p. 4.
4 Correio de Notícias, Curitiba, p. 5 dez. 1986.
5 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, Primeiro Caderno, p. 9., 27 jul. 1988.
6 Consenso não implica, obviamente, unanimidade. Para uma leitura divergente, realizada naqueles mesmos
anos, vale a pena consultar o livro Que tipo de república?, de Florestan Fernandes, no qual o cientista social
defende a tese da revolução democrática contra o uso propagandístico da etiqueta de “Nova República”,
ao mesmo tempo que observava que a “transição democrática” vinha se dando a partir de um acordo entre
“políticos profissionais” que tinham migrado para o PMDB, a vocação dos liberais aliados à ditadura que
tinham lhe dado um “superego civilizado” e a capacidade de manobra dos principais militares no lidar com a
“impotência da burguesia” (Fernandes, 1986: 34).
7 Arquivo Público do Distrito Federal, Fundo Secretaria de Segurança Pública, Badernaço 001.
8 Idem (02), p. 6.
9 Ibidem (05), p. 72.
10 Ibidem (02), p. 23.
11 Ibidem (05), p. 51.
12 Ibidem p. 53.
13 Ibidem (06), p. 119-129.

68 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 68-70, janeiro-abril 2018
Baderneiros, arruaceiros, guerrilheiros: um acontecimento na transição democrática

Referências bibliográficas

BLANCO, Maria Pilar del; PEEREN, Esther (Ed.). The spectralities reader: ghosts and haunting in contemporary
cultural theory. Nova York: Bloomsbury, 2013.

BORGES, Jorge Luís; BIOY CASARES, Adolfo; OCAMPO, Silvina. Antologia de literatura fantástica. São Paulo:
Cosac Naif, 2013.

CASTRO, Celso; D’Araújo, Maria Celina. Militares e política na Nova República. Rio de Janeiro: FGV, 2001.

COUTO E SILVA, Golbery do. Conjuntura política nacional: o Poder Executivo e geopolítica do Brasil. Brasília:
EdUnB, 1981.

DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx: o estado da dívida, o trabalho do luto e a Nova Internacional. Tradução
de Anamaria Skinner. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.

FARGE, Arlette. Lugares para a história. Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.

FERNANDES, Florestan. Que tipo de república. São Paulo: Brasiliense, 1986.

GRECO, Heloísa Amélia. Anistia anamnese vs anistia amnésia: a dimensão trágica da luta pela anistia. In:
SANTOS, Cecília Macdowell; TELES, Edson; TELES, Janaína de Almeida. Desarquivando a ditadura: memória e
justiça no Brasil. São Paulo: Aderaldo e Rothschild Editores, 2009. v. 2, p. 524-540.

GREEN, Penny; WARD, Tony. State crime: governments, violence and corruption. Londres: Pluto Press, 2004.

GUILHOT, Nicolas. The democracy makers: human rights and the politics of global order. Nova York: Columbia
Univeristy Press, 2005.

JOFFILY, Mariana. O aparato repressivo: da arquitetura ao desmantelamento. In: REIS, Daniel Aarão; RIDENTI
Marcelo, MOTA; Rodrigo Patto Sá (Org.). A ditadura que mudou o Brasil: 50 anos do golpe de 1964. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

LAMOUNIER, Bolívar; FARIA, José Eduardo. O futuro da abertura: um debate. São Paulo: Cortez/Idesp, 1981.

MARTINS FILHO, João Roberto. A guerra da memória: a ditadura militar nos depoimentos de militantes e
militares. Varia Historia, Belo Horizonte, n. 28, p. 178-201, dez. 2002.

MAUAD, Ana Maria. Por uma história fotográfica dos acontecimentos contemporâneos, Rio de Janeiro, 30 de
junho de 1987. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 8, n. 17, p. 90-133. jan./abr. 2016.

PRZEWORSKI, Adam. Como e onde se bloqueiam as transições para a democracia? In: MOISÉS, José Álvaro
Moisés; GUILHON, J. A. Dilemas da consolidação da democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. p. 19-47.

QUADRAT, Samantha Vaz (Org.). Não foi tempo perdido: os anos 80 em debate. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014.

ROLLEMBERG, Denise. Esquecimento das memórias. In: MARTINS FILHO, João Roberto (Org.). O golpe de
1964 e o regime militar. São Carlos: UFSCar, 2006. p. 81-91.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 69-70, janeiro-abril 2018 69
Daniel Barbosa Andrade de Faria

SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Crise da ditadura militar e o processo de abertura política no Brasil, 1974-
1985. In: DELGADO, Lucília de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (Org.). O tempo da ditadura militar: regime
militar e movimentos sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. v. 4, p. 243-281.
(Série O Brasil Republicano).

ZAVERUCHA, Jorge. Relações civil-militares: o legado autoritário da Constituição brasileira de 1988. In: TELES,
Edson; SAFATLE, Vladimir (Org.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010.
p. 41-76.

70 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 70-70, janeiro-abril 2018
Artigo

Cidadanização e etnogêneses no Brasil:


apontamentos a uma reflexão sobre as
emergências políticas e sociais dos povos
indígenas na segunda metade do século XX

Citizenization and Ethnogeneses in Brazil: notes on a reflection


about the Political and Social Emergencies of Indigenous Peoples
in the Second Half of the Twentieth Century
Ciudadanización y etnogénesis en Brasil: apuntes a una reflexión
sobre las emergencias políticas y sociales de los pueblos indígenas
en la segunda mitad del siglo XX

Fernando Roque Fernandes

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942018000100005

Graduação em licenciatura em História (UNINORTE). Mestrado em História Social (UFAM). Doutorando em História Social
(UFPA). (fernando_clio@hotmail.com).

Artigo recebido em 7 de julho de 2017 e aprovado para publicação em 15 de dezembro de 2017.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 71-88, janeiro-abril 2018 71
Fernando Roque Fernandes

Resumo
Historicamente os povos indígenas têm se articulado na luta por seus direitos frente à comunidade. Muitos grupos,
ao usarem estratégias específicas, desenvolveram processos de emergências políticas na luta pelo reconhecimento
de suas diferenças. A partir da Constituição de 1988 e devido a importantes fenômenos sociais, muitos grupos
passaram a ter seus direitos humanos reconhecidos juridicamente. Acreditamos que as associações e organizações
indígenas e pró-indígenas que emergiram a partir da segunda metade do século XX articularam estratégias particu-
lares que resultaram no reconhecimento das especificidades dos povos indígenas frente ao Estado brasileiro. A nosso
ver, fenômenos de etnogênese e etnicidade constituem a base do protagonismo indígena na história do Brasil.

Palavras-chave: Protagonismo indígena; Movimentos indígenas; Cidadanização; Século XX.

Abstract
Historically, indigenous peoples have been uniting in the fight for rights in relation to the surrounding community.
Many groups, using specific strategies, have developed processes of political emergencies in the struggle for the
recognition of their differences. Ever since the Constitution of 1988 and due to important social phenomena many
groups began to have their human rights legally recognized. We believe that the indigenous and pro-indigenous
associations and organizations that emerged from the second half of the twentieth century devised particular strate-
gies that resulted in the recognition of the specificities of the indigenous peoples vis-à-vis the Brazilian State. In our
view, ethnogenesis and ethnicity phenomena in Brazilian history.

Keywords: Indigenous prominence; Indigenous movements; Citizenization; Twentieth century.

Resumen
Históricamente, los pueblos indígenas se han articulado en la lucha por derechos frente a la comunidad circundante.
Muchos grupos, al utilizar estrategias específicas, desarrollaron procesos de emergencias políticas en la lucha por el
reconocimiento de sus diferencias. A partir de la Constitución de 1988 y debido a importantes fenómenos sociales
esos pueblos pasaron a tener sus derechos humanos reconocidos jurídicamente. Creemos que las asociaciones y
organizaciones indígenas y pro-indígenas que emergieron a partir de la segunda mitad del siglo XX, articularon
estrategias particulares que resultaron en el reconocimiento de las especificidades de los pueblos indígenas frente
al Estado brasileño. A nuestro ver, fenómenos de etnogénesis y etnicidad constituyen la base del protagonismo
indígena en la historia de Brasil.

Palabras clave: Protagonismo Indígena; Movimientos Indígenas; Ciudadanización; Siglo XX.

72 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 72-88, janeiro-abril 2018
Cidadanização e etnogêneses no Brasil: apontamentos a uma reflexão sobre as emergências
políticas e sociais dos povos indígenas na segunda metade do século XX

A constitucionalização dos direitos indígenas

A quele foi um dia formidável para a história do País! Era o ano de 1988, especifica-
mente, dia 22 de setembro. A sociedade brasileira já estava, havia tempos, antenada
nas discussões relacionadas à criação de uma Constituição que normatizasse os direitos e
fundamentos daquele “novo”, mas incipiente regime democrático.
Pelos bares, restaurantes, aeroportos, praças, salões de beleza, nas esquinas, campos, ou
como se diz em certas localidades: Pelos rincões do Brasil! Pelas aldeias e comunidades ribei-
rinhas, pelos sertões etc. Nos diferentes espaços, pessoas das mais distintas situações econô-
micas, políticas e sociais debatiam, conectadas por uma discussão indispensável aos rumos
políticos que iriam impactar na forma como os discursos sobre a ideia de Estado Nacional1 se
conformariam nos tempos vindouros.
Emblemático dia para os diferentes atores sociais, inesquecível para diferentes ti-
pos sociais. Se a Carta Magna seria ou não respeitada, conforme os ditames nela prescritos,
isso tem a ver com os processos históricos, fundamentados em conjunturas que não seriam
possíveis de mensurar naquele contexto. A Constituição apresentava o resultado de calorosos
debates ocorridos até aquele momento.
O texto constitucional, apesar das limitações conjunturais, refletia, em certo sentido, os
anseios de diferentes setores da sociedade civil, reconhecendo, pelo menos em caráter jurí-
dico, alguns dos direitos de diferentes grupos sociais e étnicos residentes no denominado
Território Nacional – ou, como se tem destacado em trabalhos recentes que tratam do mul-
ticulturalismo na América Latina, nos territórios do Estado Plurinacional (Lacerda, 2014: 8).2
De acordo com a afirmação do líder do Partido da Frente Liberal (PFL,1985-2007 – par-
tido de centro-direita), José Lourenço, “A nova Constituição [era], antes de tudo, um retrato
fiel do esforço e do embate das múltiplas forças e interesses [ali] representados” (Jornal do
Brasil, 23 set. 1988: 2). Apesar da emblemática aprovação do texto constitucional, nem todos
os presentes foram a favor da Carta. Foram 474 votos a favor, 15 contra e 6 abstenções. Acres-
centam-se a esses números os 64 constituintes que não estiveram presentes na votação, dos
quais 15 estariam na Bulgária, participando da Reunião Plenária da Interparlamentar Mundial.
O Partido dos Trabalhadores (PT, fundado em 1980 – partido de esquerda), liderado pelo então
deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva (SP), demonstrava insatisfação com os resultados
alcançados pela Constituinte. Em discurso proferido naquele dia, Lula destacava:

[...] Importante na política é que tenhamos espaço de liberdade para ser contra ou a favor. E o
Partido dos Trabalhadores, por entender que a democracia é algo importante – ela foi conquis-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 73-88, janeiro-abril 2018 73
Fernando Roque Fernandes

tada na rua, ela foi conquistada nas lutas travadas pela sociedade brasileira –, vem aqui dizer
que vai votar contra esse texto, exatamente porque entende que, mesmo havendo avanços na
Constituinte, a essência do poder, a essência da propriedade privada, a essência do poder dos
militares continua intacta nesta Constituinte. Ainda não foi desta vez que a classe trabalhadora
pôde ter uma Constituição efetivamente voltada para os seus interesses. Ainda não foi desta
vez que a sociedade brasileira, a maioria dos marginalizados, vai ter uma Constituição em seu
benefício [...] (DANC, 23 set. 1988: 14.313-14.314).

O Partido Democrático Social (PDS/1980-1992 – partido de centro-direita), transfiguração


do conhecido Aliança Renovadora Nacional (ARENA/1965-1980 – sustentáculo do regime civil
militar), por meio de seu presidente, senador Jarbas Passarinho, seguia os interesses da maioria
dos líderes de bancada, contrariando as “minorias” e chegando a enfatizar que “ninguém po-
derá arrogar-se o direito de insurgir-se contra ela” (Jornal do Brasil, 23 set. 1988: 2).
Foram 20 meses de trabalho, 912 votações em plenária e mais de 65 mil emendas
apreciadas. Presidente da Constituinte e do Partido do Movimento Democrático Brasileiro
(PMDB/Fundado em 1980 – principal opositor do regime civil militar), Ulysses Guimarães
arrogava: “Chegamos, nós chegamos. Graças a Deus, à sociedade, aos constituintes e ao
povo brasileiro, chegamos!” A nova Carta com 245 artigos no corpo permanente e 70 nas
disposições transitórias entraria em vigor no dia 5 de outubro daquele corrente ano. O
então senador e presidente do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB/Criado em
1988 – partido com ideologias centro-esquerdistas), Fernando Henrique Cardoso (FHC),
pronunciava na tribuna:

[...] Pela primeira vez na história do Brasil e talvez do mundo, se faz uma constituição
com a colaboração direta da cidadania. Recebemos milhões de assinaturas em emendas
populares e o povo sentiu de perto o que é consciência dos nossos direitos; entendeu rapi-
damente que, sem liberdade, não há avanço social. O Congresso foi durante a Constituinte
um grande ponto de encontro de empresários, sindicalistas, representantes de igrejas, de
nações indígenas, professores e estudantes. Foi uma amostra de todo o Brasil que, tocado
pela consciência de que era hora de mudar, veio e pressionou. Se mais não fizemos, foi
porque mais não pudemos. Mas esta Constituinte despertará o país para que se organize,
para que possamos avançar mais [...] (Jornal do Brasil, 23 set. 1988: 4) grifo do autor.

Observe que FHC, ao reconhecer a participação de diferentes agentes sociais, inclusive


indígenas, na construção da Carta de 1988, permite-nos refletir sobre a conjuntura social
do País naquele período. Os jornais da época publicaram centenas de matérias relacionadas
à precariedade em que se encontrava a população brasileira. Problemas na área da saúde,

74 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 74-88, janeiro-abril 2018
Cidadanização e etnogêneses no Brasil: apontamentos a uma reflexão sobre as emergências
políticas e sociais dos povos indígenas na segunda metade do século XX

saneamento básico e educação estiveram sempre entre os grandes problemas a serem resol-
vidos. Os diversos conflitos pela posse e usufruto da terra – historicamente parte da realidade
do País – estavam longe de uma solução pacífica.3
A questão é que a crescente circulação de ideias liberais de caráter internacional e o
desenvolvimento de partidos políticos, organizações e associações de caráter popular em
âmbito local, regional e nacional, bem como as diferentes notícias sobre a possibilidade de
abertura política que sangravam as rádios e jornais na década de 1980, parecem ter criado
uma espécie de conscientização que se materializava por meio das mobilizações sociais, vol-
tadas ao processo de cidadanização das camadas menos favorecidas na sociedade brasileira,
nas quais se incluíam, também, povos indígenas e comunidades quilombolas.4 Decorreram
também grandes conflitos por conta da implementação de políticas desenvolvimentistas de
caráter liberal-capitalista.
Tânia Guimarães Ribeiro (2010), ao analisar o conceito de desenvolvimento participativo
nas ações do Estado e suas propostas para a Amazônia, observou que conceitos como de-
senvolvimento socioeconômico e desenvolvimento participativo concorreram para a criação de
políticas públicas voltadas ao atendimento, ainda que quase imperceptível, das necessidades das
camadas menos favorecidas na região Norte do País. Ribeiro (2010) constatou que determinadas
políticas sociais só puderam se desenvolver com o amparo da sociedade civil. Apesar de a autora
não destacar o posicionamento dos povos indígenas frente às políticas desenvolvimentistas para
a Amazônia, é possível constatar que desses projetos resultaram sempre grandes conflitos com
estas comunidades, principalmente no que diz respeito às questões ligadas às terras indígenas e
aos projetos integracionistas, pensados para as pessoas e a região.
Para além dos movimentos sociais de caráter urbano, “minorias étnicas”, como os povos
indígenas, declaravam suas insatisfações pelo não reconhecimento de seus direitos políticos e
sociais relacionados às questões de terra, saúde, saneamento básico e educação. Poliene Soa-
res dos Santos Bicalho (2010), ao analisar os movimentos indígenas ocorridos no Brasil, entre
os anos de 1970 e 2009, observou que a luta pelo reconhecimento e a garantia dos direitos
indígenas tornou-se mais evidente durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte,
em 1987. A nosso ver, a conformação da nacionalidade brasileira resulta das intensas agita-
ções políticas e sociais características das relações de contato. Nesse sentido, a Constituinte de
1988 parece resultar de ambos os processos, iniciados no calor das incipientes “descobertas”.
A representação indígena, conforme apontado no discurso de FHC (1988) e na tese de
Bicalho (2010) se fez presente no processo de formulação do texto constitucional. Uma das
figuras mais emblemáticas em Brasília, na década de 1980, foi Mário Juruna, cacique da etnia

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 75-88, janeiro-abril 2018 75
Fernando Roque Fernandes

Xavante, da região do Mato Grosso. Esse líder indígena foi eleito deputado federal pelo Rio
de Janeiro, com 31 mil votos, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT/Fundado em 1979 –
partido de centro-esquerda). Juruna cumpriu o mandato entre 1983 e 1987 e, apesar de já
não atuar como deputado federal na época da aprovação da Carta Magna, ficou conhecido
por frequentar o Congresso Nacional, atuando como articulador nas questões relacionadas
aos direitos indígenas.
De acordo com o Portal de Notícias Gazeta de Beirute (ago. 2013), Mário Juruna já era
conhecido na década de 1970 por transitar pelos gabinetes da FUNAI, em Brasília, reivindi-
cando a demarcação de terras para os índios da etnia xavante. Entre suas atividades políticas,
Juruna é lembrado por raramente abrir mão de usar um gravador portátil que sempre carre-
gava consigo para registrar, como ele mesmo afirmava, “tudo o que o branco diz” (jornal O
Globo, 18 jul. 2002).
Mário Juruna afirmava que, na maioria das vezes, as autoridades políticas não cumpriam
com as promessas feitas. Em 1983, juntamente com Antônio Hohlfeldt e Assis Hoffmann, Má-
rio Juruna publicou o livro intitulado: O gravador do Juruna, uma espécie de biografia política,
no qual listava várias promessas feitas, muitas vezes, não cumpridas pelos dirigentes da FUNAI
e por políticos aos povos indígenas (Juruna; Hohlfeldt; Hoffmann, 1982).
Enquanto isso, alguns jornais da época publicavam matérias procurando ridicularizar a
atuação política de lideranças indígenas como Mário Juruna. O jornal Diário do Pará, na edi-
ção de 28 de novembro de 1988, de forma satírica, publicou uma anedota sobre as andanças
de Juruna pelo Congresso Nacional, da seguinte maneira:

O cacique Mário Juruna foi a Brasília há dias. No Congresso, foi à Secretaria e pediu “200
constituintes”. Ninguém entendeu nada e Juruna queria porque queria. Depois de muita con-
versa, descobriu-se que ele queria 200 exemplares da nova Constituição (Diário do Pará, 28
nov. 1988).

Apesar do tom de sarcasmo do colunista, o tema da anedota nos chama atenção. Se


o evento descrito pelo brincante ocorreu ou não, o que nos interessa neste momento é a
relação entre o objeto (a Constituição) e o sujeito (o cacique Mário Juruna). De acordo com
o Memorial da democracia (museu virtual produzido pelo Instituto Lula), “O maior legado
de Juruna no Legislativo foi a criação da Comissão Permanente do Índio – um dos embriões
da atual Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados” (Memorial
da democracia, 2017). Tal Comissão foi a base das discussões desenvolvidas no decorrer dos
processos que condicionaram as manifestações pela oficialização dos direitos indígenas no
texto constitucional de 1988.

76 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 76-88, janeiro-abril 2018
Cidadanização e etnogêneses no Brasil: apontamentos a uma reflexão sobre as emergências
políticas e sociais dos povos indígenas na segunda metade do século XX

A Comissão Permanente do Índio também representou o reconhecimento formal da ne-


cessidade de discutir e institucionalizar políticas sociais voltadas à manutenção dos direitos
das minorias étnicas e sociais, especialmente aquelas que diziam respeito aos povos indígenas
no Brasil. Ressalta-se, por aquela ocasião, que Mário Juruna refletia os anseios de grupos
étnicos que emergiram política e socialmente no contexto da segunda metade do século XX.
Nos anos 1980, democracia, cidadania e direitos humanos foram temas de primeira ordem
nas agendas dos movimentos sociais. Os movimentos indígenas, para além das especificida-
des étnicas, não estavam alheios às mudanças políticas e nem ao contexto social brasileiro.
Os projetos de falsa emancipação, empreendidos pelo Estado, nos anos 1970, também se
constituíram como uma tônica para as emergências políticas de diferentes povos indígenas.
Conforme observou Eduardo Viveiros de Castro (2006), a desajeitada política empreen-
dida no regime civil militar em direção à emancipação compulsória dos indígenas resultou na
evidenciação desses sujeitos no cenário político brasileiro. Se a intenção foi livrar o Estado da
responsabilidade pela defesa dos direitos indígenas, o que resultou das agitações jurídicas e
sociais dos anos 1970 foi uma reação de caráter social, epistemológico e político em direção
ao Estado, contradizendo suas ações no que dizia respeito ao lugar dos sujeitos indígenas na
comunidade brasileira.
Ainda conforme Castro (2006), pelo menos dois fenômenos resultaram desses processos.
O primeiro deles foi o surgimento de diversos projetos pró-indígenas em forma de associações e
organizações não estatais. Como por exemplo, as Comissões Pró-Índio, a Anaís (Associação Na-
cional de Ação Indigenista), o Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e o Projeto Povos Indígenas no
Brasil (PIB), que esteve na origem do Instituto Socioambiental (ISA). O segundo foi que, em rea-
ção às propostas emancipacionistas compulsórias que tomaram fôlego nos anos 1970 e 1980,
surgiram as chamadas etnias emergentes como resposta contrária às expectativas do Estado.
Observa-se que ao invés de os índios submergirem na aceleração do afastamento de
suas orientações étnicas, o que se desencadeou a partir dos anos 1970 foram centenas de
movimentos de emergências políticas de caráter étnico, empreendidos por comunidades indí-
genas, de vários lugares do Brasil, apoiadas por diferentes setores da sociedade civil. O caráter
político e social dessas emergências é, justamente, o elemento que caracteriza os processos
de etnogêneses5 empreendidos no país.
As organizações e associações pró-indígenas estabeleceram a possibilidade de amplia-
ção das redes de conexões entre comunidades constituídas em diferentes regiões. Confor-
me aponta Bicalho (2010), a partir da década de 1970, vários encontros denominados de
Assembleias indígenas passaram a acontecer em todo o País. A cada assembleia os povos

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 77-88, janeiro-abril 2018 77
Fernando Roque Fernandes

indígenas fortaleciam suas articulações durante o longo processo que condicionaria, de


modo significativo, os rumos que seriam tomados daqueles encontros em diante (Bicalho,
2010: 152-154). Primeiro em caráter local e regional, depois em caráter nacional e inter-
nacional, encontros foram articulados. Para tanto, um mecanismo de organização capaz de
potencializar os diálogos entre as lideranças indígenas parecia elementar. Nesse ponto, o
Conselho Indigenista Missionário (CIMI) surgiu como elemento facilitador ocasional, mas
não indispensável.
Aqui, a nosso ver, as organizações e associações pró-indígenas não devem ser ignoradas
no processo de articulação, assim como não devem ser supervalorizadas, apesar de terem sido
elementos importantes naquela conjuntura, auxiliando significativamente na organização dos
movimentos indígenas. Assim, sua importância não deve ser negada. Conforme aponta Bica-
lho (2010: 91-114), não se pode perder de vista o lugar que cada uma dessas organizações
ocupava e dos jogos de interesses maiores nos quais estavam inseridas. Por fim, o lugar dessas
associações e organizações pró-indígenas deve ser constantemente reavaliado à medida que
os povos indígenas vão adquirindo a predominância nos processos de luta por seus direitos.
Uma análise sobre as características mais gerais dos processos de conformação dos movimen-
tos indígenas poderá nos orientar na evidenciação de suas complexidades.

Questões sobre as agências históricas dos movimentos


indígenas

T emas como os movimentos dos povos indígenas no Brasil e suas interpretações, o olhar
do índio e o do homem branco foram questões que, a partir dos anos 1980, resulta-
ram em várias análises, que mesmo após esta narrativa, serão objeto de novas pesquisas e
interpretações por longos anos. Não é somente porque, como diria Marc Bloch (1996), cada
presente constrói a sua própria visão sobre o passado, mas, especialmente, porque ainda há
muito o que se analisar nas relações estabelecidas entre tais objetos. Novos roteiros parecem
surgir à medida que a sociedade e mesmo os historiadores passam a ter maior clareza da ne-
cessidade de se analisar as relações entre objetos aparentemente tão distintos como parecem
ser o Estado e os povos indígenas.
Se considerarmos a relação entre ambos como parte de um processo histórico conflituo-
so e mesmo de um recente projeto social de caráter plurinacional, tendo em vista questões
que movem relações sociais, redes de solidariedade e conexões entre direitos humanos, jurí-
dicos e políticos, observaremos que, na relação entre Estado e políticas sociais voltadas aos

78 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 78-88, janeiro-abril 2018
Cidadanização e etnogêneses no Brasil: apontamentos a uma reflexão sobre as emergências
políticas e sociais dos povos indígenas na segunda metade do século XX

indígenas, o contexto atual não é significativo ou de comemoração geral, apesar de alguns


ganhos e vitórias circunstanciais alcançadas com o texto constitucional de 1988.
Apesar disso, entre outros fenômenos de caráter político e social ocorridos na América no
decorrer do século XX, os movimentos indígenas podem ser caracterizados como estratégias
de transformação social de grande complexidade para estes sujeitos e suas comunidades.
Como resultado, polêmicas concernentes ao recrudescimento das políticas integracionistas
para comunidades indígenas concorreram para a efervescência política que se processou des-
de então.6 A partir daí, estratégias exemplares de agentes indígenas resultaram em conquistas
significativas relacionadas, inclusive, ao processo de cidadanização no Brasil, como veremos
mais adiante.
Nos anos 1970 e 1980, as alianças desenvolvidas entre movimentos indígenas e setores
da sociedade civil possibilitaram uma nova fase do protagonismo indígena por meio da cria-
ção de associações e organizações indígenas de caráter profundamente político, permitindo
certa emergência social de diferentes comunidades com os movimentos sociais de caráter
étnico (Fernandes; Coelho, 2017). Dessas articulações resultou uma série de conquistas que
até os dias de hoje são parte de uma luta social relacionada ao longo do processo histórico
do contato entre sociedades indígenas e não indígenas. A questão educacional, por exemplo,
a partir de então, foi considerada um mecanismo fortalecedor de uma série de estratégias de
luta que propunham conquistas e manutenção de direitos sobre territorialidades indígenas e
suas correlações com outras demandas básicas ligadas à saúde e autossustentabilidade.
Na sociedade brasileira atual, as conquistas resultantes das históricas lutas dos movi-
mentos sociais parecem carecer de nova investida contundente contra o Estado para que este
seja pressionado a implementar políticas sociais relacionadas aos direitos conquistados pelos
grupos em condições periféricas. As injustiças estão por todos os lados e constituem processos
de longa duração. Guerras de conquista, expulsão de comunidades inteiras de seus territórios,
genocídios e etnocídios resultantes de políticas assimilacionistas constituem a base histórica
dessas relações. Poderíamos dizer que, mesmo após longos anos de articulações políticas
empreendidas por plurais movimentos indígenas na América Latina, uma tempestuosa nuvem
de preconceito e negligência ainda paira no ar. Desconhecimento, omissão e desrespeito às
causas indígenas são características de parcelas significativas da sociedade, especialmente de
alguns grupos que direcionam o País com suas bancadas no Congresso Nacional.
Em certo sentido, tais reflexões se aproximam de tendências que analisam as relações
sociais a partir de uma perspectiva pessimista da história. Mas a narrativa que se propõe aqui
não se encaminha nessa direção. O objetivo deste artigo é evidenciar que, num contexto de

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 79-88, janeiro-abril 2018 79
Fernando Roque Fernandes

grandes crises políticas, econômicas e sociais, determinados sujeitos ou grupos (como atores,
protagonistas e agentes de seu próprio caminho) são capazes de se articular contra a opres-
são, as limitações e o preconceito, tumultuando a ordem dominante e fazendo-a operar em
benefício próprio. Nas palavras de Michel de Certeau (2014: 40), “usando inúmeras e infinite-
simais metamorfoses da lei, segundo seus interesses próprios e suas próprias regras”.
Para Gersem José dos Santos Luciano (2007: 127-128), índio baniwa do Alto Rio Negro
e conhecida liderança indígena no Brasil, a análise da dimensão da agência indígena que
reconhece a organização tradicional como a base de articulações mais amplas nos possibilita
perceber a essência dos movimentos indígenas. Longe de concordar com reflexões teóricas
tradicionais que consideram as gêneses dos movimentos sociais a partir de vanguardas inte-
lectuais, Luciano Baniwa aponta para uma direção na qual é possível observar que a gênese,
ou aquilo que poderíamos denominar de semente das articulações políticas indígenas, surgiu
no seio das próprias comunidades tradicionais, na base social dessas articulações, e não em
vanguardas intelectuais da sociedade brasileira. Pelo menos, não no sentido lato da questão.
Desse modo, a gênese dos movimentos indígenas deve ser pensada a partir do seio de
suas organizações tradicionais, a partir das aldeias e das comunidades indígenas. É a partir
delas que as demandas são projetadas para territórios políticos mais amplos. Tal pensamento
não é apenas uma constatação de processos históricos, mas parte das próprias estratégias das
representações que se intenciona projetar sobre esses movimentos. Considerar que a gênese
dos movimentos indígenas está nas próprias organizações tradicionais é reconhecer que as
agências indígenas em direção à manutenção de suas tradições não é de modo nenhum re-
sultado de iniciativas exógenas de associações e organizações pró-indígenas (apesar do papel
histórico que algumas delas desempenharam no financiamento de encontros indígenas de
caráter regional, nacional e internacional e da intermediação nas articulações entre movimen-
tos indígenas, comunidade civil e seus movimentos sociais). As articulações entre associações
e organizações indígenas e pró-indígenas parecem ter, na verdade, possibilitado a ampliação
das estratégias de apropriação de códigos da comunidade envolvente para ser usada em
benefício dos movimentos indígenas e de suas comunidades.
Libertad Borges Bittencourt (2000), ao analisar os movimentos indígenas na América
Latina e suas lutas para superar a exclusão política e social, observou que tais movimentos
receberam apoio significativo de associações e organizações pró-indígenas. Tal cenário possi-
bilitou a agregação de forças, tonificando as articulações políticas entre diversas comunidades
indígenas dispersas geograficamente. Por outro lado, e de modo mais evidente, muitas lideran-
ças indígenas se apropriaram de discursos relacionados às reivindicações sociais com base nas

80 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 80-88, janeiro-abril 2018
Cidadanização e etnogêneses no Brasil: apontamentos a uma reflexão sobre as emergências
políticas e sociais dos povos indígenas na segunda metade do século XX

ideias de plurietnicidade, justiça social, proteção do meio ambiente e dos direitos humanos.
Essa apropriação fez com que operassem em benefício de suas comunidades, a partir de suas
reelaborações com base em representações simbólicas distintas que, ao mesmo tempo, conec-
tavam diferentes movimentos indígenas através de demandas comuns.
Anderson Rocha de Almeida (2014: 84-109), ao analisar o papel desempenhado pelas
organizações indígenas dos ticuna (grupo étnico estabelecido no Alto Solimões, no Amazonas,
no território da Colômbia e do Peru) na construção do Museu Indígena Magüta, chegou a
conclusões semelhantes quando observou que o alto grau de envolvimento político com orga-
nizações nacionais e internacionais possibilitou ao movimento indígena ticuna maior clareza
quanto aos “meandros da cultura do homem branco”. Para o autor a intensidade das relações
políticas permitiu, em termos práticos, “a decodificação dos códigos da cultura do branco”.
Tal processo evidenciou e ampliou suas estratégias políticas frente à comunidade envolvente
na medida em que os levou a vislumbrar com maior clareza as diferenças sociais e culturais
existentes entre o povo ticuna e os não indígenas.
Para Daniel Munduruku (2012: 219-220), é possível pensar que houve um movimento
de mão dupla nas relações estabelecidas entre movimentos indígenas e sociedade envol-
vente por meio das associações e organizações indígenas e pró-indígenas. De acordo com o
autor, os povos indígenas aprenderam mediante à relação política com os não índios e estes
aprenderam, “talvez a contragosto em alguns casos”, que os indígenas poderiam se apropriar
de conceitos como etnia, cultura, autodeterminação, autonomia, entre outros e usá-los em
benefício próprio pelas negociações políticas com a comunidade envolvente, especialmente
com as autoridades representantes do Estado. Assim, a dupla postura tomada pelos agentes
indígenas no sentido de estabelecer uma crítica à sociedade brasileira, ao mesmo tempo em
que tentavam disseminar representações positivas sobre seus modos de vida, tanto em nível
nacional quanto internacional, permitiu-lhes apresentar-se à sociedade envolvente de modo
independente da tutela da Fundação Nacional do Índio (FUNAI).
Nos anos 1970 e 1980, o termo “índio” passou a ser apropriado por diferentes grupos
indígenas de modo particular, passando a operar em benefício das populações indígenas.
Roberto Cardoso de Oliveira (1988) observou que:

[...] A recuperação do termo “índio” se daria no bojo do Movimento Indígena, quando ele pas-
sou a ser usado para expressar uma nova categoria, forjada agora pela prática de uma política
indígena e não mais pelos alienígenas, fossem eles particulares (como as missões religiosas) ou
governamentais (como a Fundação Nacional do Índio – Funai) – políticas essas denominadas
de indigenistas. Em oposição às políticas indigenistas começavam a surgir esboços de políticas
indígenas com grandes possibilidades de, em algum momento, criarem objetivos e estratégias

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 81-88, janeiro-abril 2018 81
Fernando Roque Fernandes

comuns suscetíveis de estabelecerem uma única e globalizadora política indígena (Oliveira,


1988, apud Munduruku, 2012).

Diante das questões apresentadas até o momento, consideramos que há uma dimensão
histórica, a partir da qual, diferentes fatores levam diferentes povos indígenas a apresentarem
aspectos particulares que devem ser analisados a partir de suas características históricas,
sociais e culturais específicas. É inegável que os movimentos indígenas apresentam caracte-
rísticas heterogêneas, inclusive nas organizações de suas demandas perante a comunidade
envolvente. No entanto, nossa proposta não se caminha na direção de evidenciar os processos
históricos particulares de cada grupo étnico, mas evidenciar algumas relações que diferentes
grupos sociais estabelecem entre si, a partir da “comunhão” de caráter abrangente que ca-
racteriza a sociedade brasileira.
Nesse sentido, questões relacionadas à territorialidade, saúde, educação e autossus-
tentabilidade parecem conectar diferentes grupos indígenas e concorrem para articulações
políticas que se encaminham para procedimentos de autodeterminação em dimensões muito
além daquelas de aspecto local e mesmo étnico. Apesar dos encaminhamentos dados a cada
uma dessas demandas pelos diferentes grupos indígenas, acreditamos ser possível estabele-
cer uma conexão entre distintos movimentos indígenas na Amazônia, no Brasil e mesmo na
América Latina. Por fim, outra questão que pode ser tomada como característica similar entre
os diferentes movimentos indígenas é a conformação de suas associações e organizações. Em
perspectiva histórica, conforme já apontado, os processos que concorrem para a instituciona-
lização dessas relações têm sua gênese no seio das comunidades indígenas.
Isso significa dizer que procedimentos de apropriação de mecanismos da comunidade
envolvente, como instituições (representadas aqui como associações e organizações políticas)
e mesmo conceitos e termos (“índios”, por exemplo), se constituem como parte de uma base
estratégica mais ampla que legitima as demandas dos povos indígenas perante o Estado. Tais
fenômenos não são recentes, mas resultam de longos processos de evidenciação da neces-
sidade de empreender estratégias que dialoguem com as emergências políticas e sociais de
agentes indígenas.

Questões sobre movimentos sociais e movimentos


indígenas

A o analisar as principais características dos movimentos sociais, André Gunder Frank e


Marta Fuentes (1989) defenderam, em excelente ensaio, dez teses sobre tais fenôme-
nos. Dentre as teses apresentadas, a décima se refere à ideia de que os movimentos sociais

82 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 82-88, janeiro-abril 2018
Cidadanização e etnogêneses no Brasil: apontamentos a uma reflexão sobre as emergências
políticas e sociais dos povos indígenas na segunda metade do século XX

contemporâneos “servem para ampliar, aprofundar e até mesmo para redefinir a democracia
tradicional do Estado político e a democracia econômica para uma democracia civil numa
sociedade civil” (Frank; Fuentes, 1989: 20). Os autores observaram que tais processos decor-
rem da participação dos movimentos sociais na ampliação e na redefinição da democracia
participativa.
Em outros termos, Frank e Fuentes (1989), considerando que na tradição da prática
burguesa e mesmo socialista o aspecto primordial de suas atividades diz respeito à formação
do Estado e do poder, defenderam que só é possível desenvolver políticas democráticas se
houver forte pressão da comunidade civil perante o Estado. Porém, mesmo quando tal pres-
são é exercida, forças econômicas e políticas mundiais que estão fora do controle do Estado
debilitam-no a partir de fora e tendem a criar barreiras que dificultem o desenvolvimento de
políticas sociais voltadas ao atendimento das demandas dos cidadãos no interior do próprio
Estado (Frank; Fuentes, 1989: 46-47).
Outro problema característico da burocracia estatal, seria o trato inadequado das múlti-
plas preocupações sociais, culturais e individuais da sociedade civil e de seus cidadãos, já que
os detentores do poder político tendem a canalizar suas forças para a consolidação do Estado
e do poder. Tal problema, de acordo com Frank e Fuentes (1989: 47), torna-se mais evidente
em períodos de crises econômicas e políticas, levando à constatação de que as regras esta-
belecidas no jogo político refletem a ineficiência do Estado no trato com as questões sociais.
Foi nesse sentido que Wanderley Guilherme dos Santos (1987), ao desenvolver uma
análise relacionada às políticas sociais na sociedade brasileira, enfatizou as ideias de cidada-
nia e justiça que decorrem das lutas por criação de políticas sociais com base na análise de
determinadas conjunturas políticas. Considerando as observações do analista político Virgílio
Santa Rosa, Santos (1987) observou que:

[...] A desordem é criadora porque torna manifesto os problemas, as tensões e insatisfações


e outros ingredientes latentes do mundo social. Assim, uma situação de crise pode constituir
importante fonte de mudança nas decisões da elite, não obstante baixa taxa de renovação,
na medida em que estimula o surgimento de comportamentos inovadores, por um lado, e, por
outro, traz à luz aspectos insuspeitos do mundo exterior à própria elite (Santos, 1987: 55).

Considerando as observações do autor, no que concerne à força das organizações pela


pressão que exercem frente ao Estado e defendendo a ideia de que as demandas sociais apenas
se encaminham para a construção de políticas sociais quando existem organizações que pressio-
nam o Estado pela criação de tais políticas, podemos considerar que se houve reconhecimento
constitucional dos direitos indígenas, foi porque havia associações e organizações indígenas for-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 83-88, janeiro-abril 2018 83
Fernando Roque Fernandes

tes que pressionaram o Estado, reivindicando o reconhecimento de suas diferenças, a cidadania


plena e o desenvolvimento de políticas sociais voltadas para suas comunidades. O modo pelo
qual grupos indígenas lutaram pela cidadania, como forma de reivindicar a criação de políticas
sociais que considerassem suas especificidades, concorreu para uma mudança importante no
modo como a sociedade brasileira entendia as relações entre cidadania e políticas sociais.
Se até os anos 1970 as políticas sociais foram consideradas pelo próprio Estado e mes-
mo pensados pela sociedade como uma concessão para os cidadãos, o que ocorre a partir das
emergências políticas dos movimentos indígenas é uma modificação desse modo de lidar com
as demandas essenciais ao bem-estar social. A questão é que ao reivindicar o reconhecimento
da cidadania plena, os povos indígenas não queriam apenas ser considerados cidadãos brasi-
leiros, mas fundamentar suas reivindicações pela criação de políticas sociais que atendessem
às suas demandas (territorialidade, saúde e educação). Desse modo, os movimentos indígenas
foram elementos importantes para uma renovação do modo pelo qual a relação entre políticas
sociais e Estado foram, até então, pensadas. As agências indígenas, iniciadas nos anos 1970,
levaram a comunidade brasileira ao entendimento de que políticas sociais são um direito dos
cidadãos e uma responsabilidade do Estado, e não uma concessão deste último!
Tal processo contribuiu para uma transformação na mentalidade política de milhares de
brasileiros que, articulados em diferentes tipos e categorias de movimentos sociais, passaram
a reivindicar políticas sociais como parte do exercício de cidadania. Nesse sentido, a ideia de
cidadanização precisa ser pensada como um processo a partir do qual a relação entre Estado,
políticas sociais e cidadania passou a operar sob novas representações, indicando que tanto
o Estado quanto as políticas sociais implementadas pelos governos deveriam ser refletidas
como elementos a serviço da democracia, instaurando, no Brasil, a compreensão de que o
cidadão é o agente central de todo o processo estatal e da manutenção dos direitos e das
responsabilidades sociais.
No caso dos povos indígenas, a luta pela cidadanização foi importante para evidenciar
um agente social que exercia sua cidadania (por meio das agências políticas) sem o direito ao
usufruto das políticas sociais. O exercício de cidadania parece ter se estabelecido como uma
constante nos movimentos indígenas antes mesmo do reconhecimento constitucional de suas
diferenças e especificidades.
Apesar de nos últimos anos termos visto a instalação de uma crise política que evidencia
os limites e as possibilidades da democracia representativa, os processos que tomaram forma
nos anos 1980 concorreram para a criação das bases sociais que sustentam a concepção de
democracia no Brasil atual. Aqui, mais uma vez, as agências indígenas auxiliaram na forma-
ção do pensamento social e político brasileiro.

84 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 84-88, janeiro-abril 2018
Cidadanização e etnogêneses no Brasil: apontamentos a uma reflexão sobre as emergências
políticas e sociais dos povos indígenas na segunda metade do século XX

Considerações pontuais

D iante das considerações feitas até o presente, é importante pensar os movimentos


indígenas numa perspectiva anticolonialista. Ao reivindicar direitos sociais e o reco-
nhecimento da diversidade, em detrimento de projetos integracionistas, tais movimentos evi-
denciam suas naturezas profundamente decoloniais. Nelson Maldonado-Torres (2016: 88)
observou que uma atitude decolonial “encontra suas raízes nos projetos insurgentes que re-
sistem, questionam e buscam mudar padrões coloniais do ser, do saber e do poder”. No Brasil,
os movimentos indígenas atuam nessas três dimensões.

Notas

1 Para uma reflexão sobre o fenômeno do nacionalismo e a emergência dos Estados nacionais, assim como
sobre as ideias relacionadas com a consciência nacional e a nacionalidade, ver Anderson (1989; 1993) e
Curto, Jerónimo e Domingos (2002: 33-58).
2 Como exemplo de trabalho recente sobre o tema dos chamados Estados plurinacionais, tomamos a tese
de Rosane Freire Lacerda (2014).
3 Sobre a questão agrária no Brasil, é possível acessar o Banco de Teses e Dissertações da Biblioteca Digital
da Questão Agrária Brasileira. Nesse portal, há o acervo com pesquisas desenvolvidas desde 1985, além de
centenas de fontes sobre o assunto. O portal pode ser acessado no endereço: <http://www.reformaagra-
riaemdados.org.br/biblioteca>. Acesso em: 6 fev. 2017.
4 Para defender tal hipótese, permitimo-nos considerar a segunda tese apresentada por André Gunder Frank
e Marta Fuentes (1989: 28-48). A partir dela, os autores observam que “os movimentos sociais demonstram
muita variedade e mutabilidade, mas têm em comum a mobilização individual baseada num sentimento de
moralidade e (in)justiça e num poder social baseado na mobilização social contra as privações (exclusões) e
pela sobrevivência e identidade”.
5 Bartolomé (2006: 59) observa que o fenômeno das etnogêneses destaca “o dinamismo inerente às es-
truturas sociais, uma vez que tais estruturas não atuam sobre agentes passivos, mas sobre sujeitos ativos,
capazes de modificá-las de acordo com seus interesses contextuais”. Dessa forma, tais ideias têm relação
com os processos de emergência política e social dos povos indígenas nos contextos nacional e internacional.
Citando Jonathan Hill (1996), Bartolomé (2006: 39) destacou que “o conceito de etnogênese foi utilizado na
análise dos recorrentes processos de emergência social e política dos grupos tradicionalmente submetidos a
relações de dominação”.
6 Polêmicas relacionadas com questões como tutela e emancipação indígena, desenvolvidas nos anos 1970,
constituíram-se em base de uma discussão que possibilitou emergências políticas e sociais de determinados
movimentos indígenas e a ampliação da articulação de tais movimentos, como algumas organizações de ca-
ráter civil que desempenharam papel importante, mas não central, nos rumos que possibilitaram emergências
sociais de alguns grupos ainda no contexto do regime civil militar no Brasil (Fernandes; Coelho, 2017).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 85-88, janeiro-abril 2018 85
Fernando Roque Fernandes

Fontes utilizadas:

ATRIBUIÇÕES constitucionais e regimentais da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM). Disponível


em: <http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/conheca-a-
-comissao/oquee.html>. Acesso em: 6 fev. 2017.
BATALHA semanal. Jornal Diário do Pará, Belém, segunda-feira, ano VI, n. 1955, p. D-7, 28 nov. 1988. He-
meroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/
docreader.aspx?bib=644781&pasta=ano%20198&pesq=Segunda-Feira,%2028%20de%20Novembro%20
de%201988>. Acesso em: 5 dez. 2017.
CACIQUE Mário Juruna, deputado federal. Disponível em: <http://www.gazetadebeirute.com/2013/08/caci-
que-mario-juruna-deputadofederal.html# ixzz4XyANGL3b>. Acesso em: 6 fev. 2017.
DISCURSO do deputado federal de São Paulo Luiz Inácio Lula da Silva, proferido na sessão de 22 de setembro
de 1988, publicado no DANC de 23 de setembro de 1988, p. 14.313-14.314. Disponível em: <http://www2.ca-
mara.leg.br/atividade-legislativa/ plenario/discursos/escrevendohistoria/25-anos-da-constituicao-de-1988/cons-
tituinte19 871988/pdf/Luiz%20Inacio%20%20DISCURSO%20%20REVISADO.pdf>. Acesso em: 31 jan. 2017.
2 DE FEVEREIRO de 1983: Juruna, 1o deputado índio toma posse. Eleito pelo PDT do Rio, o líder Xavante criou
a Comissão do Índio na Câmara. Disponível em: <http://memorialdademocracia.com.br/card/juruna-1-depu-
tado-indio-toma-posse>. Acesso em: 31 jan. 2017.
DOS 64 ausentes, 15 foram para a Europa. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2. ed., sexta-feira, ano XCVIII, n.
168, p. 2, 23 set. 1988. Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: <http://
memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_10&pasta=ano%20198&pesq=Dos%2064%20
ausentes>. Acesso em: 5 dez. 2017.
JURUNA, um gravador na mão em defesa da causa indígena. Revista Época, n. 217, 18 jul. 2002. Disponí-
vel em: <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG49129-6014,00JURUNA+UM+GRAVADOR+-
NA+MAO+EM+DEFESA+DA+CAUSA+INDIGENA.html>. Acesso em: 6 fev. 2017.
LÍDERES vão à tribuna para comemorar avanço da nova Constituição. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2. ed.,
sexta-feira, ano XCVIII, n. 168, p. 4, 23 set. 1988. Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Na-
cional. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_10&pasta=ano%20
198&pesq=comemorar%20avan%C3%A7o%20da%20nova%20Constitui%C3%A7%C3%A3o>. Acesso
em: 5 dez. 2017.
NOVA Constituinte tem texto definitivo. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2. ed., sexta-feira, ano XCVIII, n.
168, p. 2, 23 set. 1988. Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: <http://
memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_10&pasta=ano%20198&pesq=Constituinte%20
tem%20texto%20definitivo>. Acesso em: 5 dez. 2017.
PDS e PFL juram respeito à Carta. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2. ed., sexta-feira, ano XCVIII, n. 168, p.
1, 23 set. 1988. Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: <http://memo-
ria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_10&pasta=ano%20198&pesq=PDS%20e%20PFL%20
juram%20respeito%20%C3%A0%20Carta>. Acesso em: 5 dez. 2017.

86 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 86-88, janeiro-abril 2018
Cidadanização e etnogêneses no Brasil: apontamentos a uma reflexão sobre as emergências
políticas e sociais dos povos indígenas na segunda metade do século XX

Referências bibliográficas:

ALMEIDA, Anderson Rocha de. Movimento indígena no Brasil: o papel das organizações ticuna nesse percurso
(Parte III – Museu Magüta: instrumento de afirmação de identidade étnica). Revista Zona de Impacto, ano 6,
p. 84-109, jan./jun. 2014. Disponível em: <http://www.revistazonadeimpacto.unir.br/Anderson%2016%201.
pdf>. Acesso em: 19 nov. 2017.
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexiones sobre el origen y la difusión del nacionalismo.
Tradução de Eduardo L. Suárez. México: Fondo de Cultura Económica, 1993. Disponível em: <http://www.
perio.unlp.edu.ar/catedras/ system/files/anderson_benedict_comunidades_imaginadas.pdf>. Acesso em: 6
fev. 2017.
______. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989. Disponível em: <https://pt.scribd.com/
doc/75948005/Nacao-e-Consciencia-Nacional-Atica-ANDERSON-B>. Acesso em: 5 dez. 2017.
BARTOLOMÉ, Miguel Alberto. As etnogêneses: velhos atores e novos papéis no cenário cultural e político.
Tradução de Sergio Paulo Benevides. Mana: Revista do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social,
Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, v. 12, 2006. Disponível em: <http://
www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132006000100002>. Acesso em: 5 dez. 2017.
BICALHO, Poliene Soares dos Santos. As assembleias indígenas: o advento do movimento indígena no
Brasil. Opsis, Catalão, v. 10, n. 1, p. 91-114, 2010. Disponível em: <https://revistas.ufg.br/Opsis/article/
view/9553/8474#.Wia28VWnF0w>. Acesso em: 5 dez. 2017.
______. Protagonismo indígena no Brasil: movimento, cidadania e direitos (1970-2009). Tese (Doutorado) –
Instituto de Ciências Humanas, Departamento de História, Universidade de Brasília, Brasília, 2010. Disponível
em: <http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/6959/1/2010_PolieneSoaresdosSantosBicalho.pdf>. Acesso
em: 5 dez. 2017.
BITTENCOURT, Libertad Borges. O movimento indígena organizado na América Latina: a luta para superar a
exclusão. Anais Eletrônicos do IV Encontro da ANPHLAC. Salvador, 2000. Disponível em: <http://anphlac.
fflch.usp.br/sites/anphlac.fflch.usp.br/files/libertad_bittencourt.pdf>. Acesso em: 18 nov. 2017.
BLOCH, Marc. Apología para la historia o el oficio de historiador. Tradução de María Jiménez e Danielle
Zaslavsky. México: Fondo de Cultura Económica, 1996. Disponível em: <https://s3.amazonaws.com/acade-
mia.edu.documents/35275045/BD001_Bloch01.pdf?AWSAccessKeyId=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A&Expi-
res=1511717931&Signature=TxfQzgpr1mFtnznml7U3LfMPUUs%3D&response-content-disposition=inli-
ne%3B%20filename%3DBD001_Bloch01.pdf>. Acesso em: 26 nov. 2017.
CASTRO, Eduardo Viveiros de. No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é. Povos indígenas no Bra-
sil (2001/2005). 2006. p. 41-49. Disponível em: <https://pib.socioambiental.org/files/file/PIB_institucional/
No_Brasil_todo_mundo_%C3%A9_%C3%ADndio.pdf>. Acesso em: 18 nov. 2017.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. 22. ed.
Petrópolis: Vozes, 2014.
CURTO, Diogo Ramada; JERÓNIMO, Miguel Bandeira; DOMINGOS, Nuno. Nações e nacionalismos (a teoria, a
história, a moral). Tradução de Otacílio Nunes. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, v. 24, n. 2, p. 33-
58, 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ts/v24n2/v24n2a03>. Acesso em: 6 fev. 2017.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 87-88, janeiro-abril 2018 87
Fernando Roque Fernandes

FERNANDES, Fernando Roque; COELHO, Mauro Cezar. Integração e emancipação: apontamentos para uma
reflexão sobre o protagonismo indígena nos anos 70 e 80. In: II SEMINÁRIO INTERNACIONAL DA AMÉRICA
LATINA: POLÍTICA E CONFLITOS CONTEMPORÂNEOS. Anais… Belém: Naea, 2017. v. 9, p. 4379-4392. Dis-
ponível em: <http://sialat2017.com/wp-content/uploads/2017/11/GT-09-COMPLETO-internet.pdf>. Acesso
em: 5 dez. 2017.
FRANK, André Gunder; FUENTES, Marta. Dez teses acerca dos movimentos sociais. Tradução de Suely Bastos.
Lua Nova, São Paulo, n. 17, p. 28-48, jun. 1989. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ln/n17/a03n17.
pdf>. Acesso em: 20 jan. 2017.
HILL, Jonathan (Ed.). History, power and identity. Iowa, USA: University of Iowa Press, 1996.
JURUNA, Mário; HOHLFELDT, Antônio; HOFFMANN, Assis. O gravador do Juruna. Mercado Aberto, 1982.
LACERDA, Rosane Freire. “Volveré, y Seré Millones”: contribuições descoloniais dos movimentos indíge-
nas latino-americanos para a superação do mito do Estado-Nação. Tese (Doutorado em Direito) – Programa
de Pós-graduação em Direito, Faculdade de Direito, Universidade de Brasília, Brasília, 2014. Disponível em:
<http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UNB_a115f51f61ea34b531b20a586bb43405>. Acesso em: 5 dez. 2017.
LUCIANO, Gersem José dos Santos. Movimentos e políticas indígenas no Brasil contemporâneo. Tellus: Es-
critos Indígenas, Campo Grande, ano 7, n. 12, p. 127-146, abr. 2007. Disponível em: <http://tellus.ucdb.br/
projetos/tellus/index.php/tellus/article/view/136/140>. Acesso em: 15 jul. 2017.
MALDONADO-TORRES, Nelson. Transdisciplinaridade e decolonialidade. Tradução de Joaze Bernandino-Costa.
Revista Sociedade e Estado, v. 31, n. 1, p. 75-97, 2017. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pi-
d=S0102-69922016000100075&script=sci_arttext&tlng=pt>. Acesso em: 5 dez. 2017.
MUNDURUKU, Daniel. O caráter educativo do movimento indígena brasileiro (1970-1990). São Paulo: Pau-
linas, 2012.
OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. A crise do indigenismo. Campinas: Unicamp, 1988.
RIBEIRO, Tânia Guimarães. O conceito de desenvolvimento participativo nas ações do Estado: uma proposta
para a Amazônia. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia, Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: <http://livros01.livrosgratis.com.br/cp147541.
pdf>. Acesso em: 5 dez. 2017.
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Cidadania e justiça: a política social na ordem brasileira. 2. ed. Rio de
Janeiro: Campos, 1987 [1979].

88 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 88-88, janeiro-abril 2018
Artigo

Rotulação e seletividade policial: óbices


à institucionalização da democracia no
Brasil
Etiquetamiento y Selectividad Policial: óbices a la
institucionalización de la democracia en Brasil
Labeling and Police Selectivity: obstacles to the
institutionalization of democracy in Brazil

Flávia Cristina Soares

Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942018000100006

Doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em Sociologia pela Universidade
Federal de Minas Gerais - UFMG (2013). Especialista em Gestão Social pela Escola de Governo da Fundação João Pinhei-
ro (2010). (flavia.c.soarez@gmail.com)
Possui doutorado em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro - IUPERJ (2009), com estágio
na University of Florida (2007/2008), mestrado em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro (2003), graduação
em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (2002) e graduação em Administração Pública pela Fundação João
Pinheiro (2001). (ludmila.ribeiro@gmail.com)
Artigo recebido em 29 de setembro de 2017 e aprovado para publicação em 15 de dezembro de 2017.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 89-108, janeiro-abril 2018 89
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

Resumo:
Este artigo apresenta uma revisão dos estudos produzidos no Brasil, a partir da teoria da rotulação, sobre o funcio-
namento do sistema da justiça criminal, com destaque para as ações policiais. O balanço da literatura indica que
os indivíduos jovens, negros e pobres são os mais suscetíveis ao rótulo de criminoso pelas polícias e pelo Poder
Judiciário, institucionalizando a cidadania disjuntiva. Os resultados permitiram concluir que há um descompasso
entre o ideal da democracia e a realidade construída por meio das instituições que são encarregadas da produção
da justiça no país, contribuindo para a reificação de desigualdades sociais, fato que bloqueia o desenvolvimento da
democracia.

Palavras-chave: Teoria da rotulação; Democracia; Instituições; Sistema de justiça criminal.

Resumen
Este artículo presenta una revisión de los estudios producidos en Brasil, a partir de la teoría del etiquetamiento, sobre
el funcionamiento del sistema de justicia criminal, con énfasis en las acciones policiales. El balance de la literatura
indica que los individuos jóvenes, negros y pobres son los más susceptibles etiquetamiento como criminales por
las policías y el poder judicial, institucionalizando la ciudadanía disyuntiva. Los resultados permitieron concluir que
hay un desequilibrio entre el ideal de la democracia y la realidad construida por medio de las instituciones que se
encargan de la producción de la justicia en el país, contribuyendo a la reificación de desigualdades sociales, hecho
que bloquea el desarrollo de la democracia en el país.

Palabras-clave: Teoría de la rotulación; Democracia; Instituciones; Sistema de justicia penal.

Abstract
Through the perspective of the labeling theory, this paper presents a review of the studies produced in Brazil, about
the functioning of the criminal justice system, with an emphasis on police actions. The literature review indicates that
young, black and poor individuals are the most susceptible to be labeled as criminals by the police and the judiciary,
institutionalizing the disjunctive citizenship. The results enabled us to conclude that there is a mismatch between
the ideal of democracy and the reality built through the institutions that are in charge of the production of justice in
the country, contributing to the reification of social inequalities, a fact that hinders the development of democracy
in the country.

Keywords: Labeling theory; Democracy; Institutions; Criminal justice system.

90 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 90-108, janeiro-abril 2018
Rotulação e seletividade policial: óbices à institucionalização da
democracia no Brasil

Introdução

E ste artigo tem como objetivo apresentar como as instituições do sistema de justiça cri-
minal produzem o crime e o criminoso de forma seletiva, fato que bloqueia a institucio-
nalização da democracia no Brasil contemporâneo. Para tanto, serão revisados os estudos
internacionais e nacionais que foram produzidos a partir da teoria da rotulação ou labeling
theory.1 Tal perspectiva obteve visibilidade nos Estados Unidos, nos anos 1960, sendo que
sua receptividade no Brasil se deu pelos estudos de Howard Becker (Werneck, 2014). Desde
então, essa teoria tem se tornado um artifício metodológico utilizado para o entendimento de
como as interações entre os profissionais do sistema de justiça criminal e determinadas classes
de cidadãos reificam as desigualdades sociais (Carvalho, 2008), ao contrário do que seria a
sua missão: tornar iguais, em termos de acesso a direitos, indivíduos que são economicamente
desiguais (Kant de Lima, 2001).
Na sociologia da administração da justiça, a perspectiva da rotulação se dissemina no
País, a partir da década de 1980, com os trabalhos de Campos Coelho e Paixão, interessados
na problemática da criminalidade urbana e na seletividade do funcionamento dos órgãos do
sistema de justiça criminal. A influência da labeling theory produziu uma inflexão no campo
dos estudos sobre o crime, sobretudo no que diz respeito ao uso dos dados produzidos pela
polícia e no entendimento sobre a correlação entre crime e pobreza. Por meio desses traba-
lhos, constituiu-se uma linha de pesquisa denominada sociologia da administração da justiça
(Azevedo, 2014), que procura compreender as causas e as consequências desse funcionamen-
to seletivo (Vargas, 2014; Sinhoretto, 2014).
Nas seções a seguir, a teoria da rotulação, na versão formulada por Becker, e suas in-
fluências sobre as pesquisas atuais no campo da sociologia da administração da justiça serão
apresentadas. Será destacado o funcionamento seletivo da porta de entrada do sistema, pelo
poder da polícia “em exercer uma vigilância mais cerrada sobre as pessoas de status mais baixo
e efetuar prisões baseadas em evidências mais fluidas do que ela pode” (Paixão, 1995: 6), o que
dá lugar à cristalização da cidadania disjuntiva, já que os requisitos formais, que qualificariam o
Brasil como País democrático, convivem com casos cotidianos de injustiça, violência e impunida-
de, em suma, de desrespeito aos direitos humanos (Holston; Caldeira, 1999: 692).

Notas sobre a democracia e o sistema de justiça


criminal

U m ponto de partida para se pensar a interseção entre história, democracia e justiça cri-
minal é o ensaio de T. H. Marshall, intitulado “Cidadania, classe social e status”, no qual

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 91-108, janeiro-abril 2018 91
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

ele procura desvelar em que medida a desigualdade de ocupação (desigualdade econômica)


pode não significar desigualdade de inserção social (desigualdade de cidadania), a partir do
funcionamento de uma série de instituições estatais.
Para explicar como a desigualdade de renda seria compensada por uma igualdade ju-
rídica, Marshall (1967) estrutura o conceito de cidadania a partir de três elementos, que en-
contram ressonância em instituições distintas, essenciais para a formação de uma sociedade
democrática. O elemento civil diz respeito às liberdades individuais, tendo como correlato o di-
reito de se defender e afirmar seus direitos perante os tribunais de justiça. O elemento político,
que significa a possibilidade de participar das mais diversas organizações e eleger os respon-
sáveis pelo governo da sociedade, teria nos parlamentos e no Governo local suas instituições
de destaque. Por fim, o elemento social, refere-se ao bem-estar do indivíduo na sociedade e
tem como instituições correspondentes o sistema educacional e os serviços sociais. Na análise
desenvolvida pelo autor, é impossível conceber uma sociedade como democrática quando a
cidadania ainda não se encontra consolidada em suas dimensões civil, política e social. Afinal,
“a cidadania é um status concedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade.
Todos aqueles que possuem o status são iguais com respeito aos direitos e obrigações perti-
nentes ao status“ (Marshall, 1967: 76).
Interessante notar o papel do sistema de justiça nessa equação. A inovação apresentada
pelas instituições de justiça, já no fim do século XVIII, era o reconhecimento do direito como
algo que se sobrepunha aos interesses de determinados grupos sociais. Marshall descreve
como, no contexto inglês, os tribunais de justiça vão progressivamente interpretando as legis-
lações escritas de forma a tornar os homens menos dependentes do status dado pelo nasci-
mento, quando da celebração de diversos contratos, inclusive o de trabalho, o que progressi-
vamente os tornaria mais igualitários e livres das amarras decorrentes de seu sangue. Ainda
que a lei seja desigual em sua origem, a forma como os operadores a interpretam e deliberam
os casos fazem com que esses dispositivos se transformem em instrumentos de produção de
igualdade jurídica.
Na análise realizada por Marshall (1967), só existe uma sociedade democrática se existir
cidadania, sendo que esta será viável se as instituições de justiça forem capazes de operar de
forma a tornar indivíduos economicamente desiguais em indivíduos juridicamente igualitários.
No Brasil, há uma reversão dos princípios que orientam a dimensão civil da cidadania. Em
vez de as instituições do sistema de justiça servirem para equalizar problemas decorrentes
do status socioeconômico dos indivíduos, como a instância que corrige as desigualdades da-
das pelo nascimento, elas têm uma operação reversa. As instituições de justiça reificam as

92 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 92-108, janeiro-abril 2018
Rotulação e seletividade policial: óbices à institucionalização da
democracia no Brasil

desigualdades de classe quando não são responsáveis por sua produção, fazendo do Brasil um
exemplo visível de “distribuição da desigualdade e da injustiça” (Holston, 2013: 56). É certo que,
em algumas circunstâncias esse sistema opera tal como teoricamente se espera, mas esses casos
são tão raros que podem ser identificados pontualmente (Azevedo, 2014).
Em terras tupiniquins, as leis são escritas por notáveis e depois interpretadas por esses mes-
mos indivíduos, o que permite uma enorme diferenciação de como um mesmo dispositivo será
compreendido, dependendo de quem o aciona (Kant de Lima, 2001). Ao contrário da presunção
de Marshall, de que o sistema de justiça serviria para atenuar as desigualdades dadas pelo nas-
cimento, no Brasil, a justiça tem enorme maleabilidade, de forma a garantir que indivíduos dis-
tintos, quando pleiteando o mesmo direito, recebam decisões diferenciadas. Por isso, diz-se que,
aqui entre nós, “a lei está para ser usada seletivamente: para nossos amigos, a amizade; para
nossos inimigos, a lei” (Shirley, 1987: 89), denotando a enorme lacuna entre o direito formal e o
aplicado, sendo que a consequência mais nefasta é o fato de que “os brasileiros simplesmente
não acreditam na lei” como uma forma de mediação de seus problemas (Shirley, 1987: 89).
Várias são as análises existentes sobre os efeitos que a administração seletiva da justiça
têm sobre a qualidade da cidadania, bloqueando a institucionalização da democracia em nos-
so País. Holston e Caldeira (1999) entendem que a cidadania cristalizada no Brasil pode ser
qualificada como disjuntiva, dada a incapacidade de os tribunais transformarem as previsões
legais em realidade ou a enorme maleabilidade interpretativa dessas instâncias, produzindo
desigualdade e injustiça. Holston (2013) sublinha como a apreciação da qualidade da cida-
dania no Brasil deve se orientar pelo pressuposto de que a administração da justiça muitas
vezes segue interesses econômicos ou interesses relacionados aos status dos indivíduos, o que
termina por subverter a promessa de igualdade.
Para Kant de Lima (2001), o sistema de justiça brasileiro existe para ser um mecanismo
de controle de uma determinada camada da população, aquela que precisa acessar o Estado.
É a partir desse modelo de operação que esse sistema produz cidadanias de densidades tão
diferenciadas que podem ser acomodadas em uma estrutura piramidal. Os indivíduos que
estão no topo podem orientar a ação do Estado em direção ao controle da base, fazendo com
que o status econômico não seja radicalmente alterado, com o passar dos anos, pela ação dos
tribunais (Kant de Lima, 2001). Ao se estruturar dessa maneira, esse sistema faz com que “a
igualdade absoluta constitucionalmente garantida a todos os cidadãos conviva com os siste-
mas classificatórios e discriminadores da ação estatal” (Paixão, 1988: 175).
Sinhoretto (2010) discorre sobre como essa forma de operação do sistema de justiça
garante a desigualdade pela análise dos “quatro níveis de intensidade” da qualidade das de-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 93-108, janeiro-abril 2018 93
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

cisões. O ponto de partida de seu exame é o dilema vivenciado pela sociedade brasileira, que
combina uma série de “práticas sociais hierárquicas – em que cada um tem o seu lugar, com
direitos e deveres particulares – e uma representação das relações jurídicas como igualitárias
incorporadas ao direito constitucional de pretensão universalista” (Sinhoreto, 2010: 109). Se-
ria como dizer que todos são iguais, desde que sejam tratados de forma absolutamente dife-
renciada. Justamente por isso, os procedimentos acionados pelos operadores situados dentro
das instituições de justiça são permeados e, por que não dizer, orientados por “clivagens
sociais, raciais, de gênero, culturais e religiosas e reservam tratamento diferenciado para tipos
de conflitos e para indivíduos, conforme a posição que ocupam numa hierarquia de valores,
pessoas, coisas e lugares” (Sinhoreto, 2010: 112).
Seguindo essa lógica, a escala mais elevada da justiça administraria os conflitos “prota-
gonizados por pessoas de alto prestígio social” (Sinhoreto, 2010: 110), que lançam mão dos
recursos disponíveis para proteger determinados direitos, garantir privilégios e, ainda, escapar
de processos ou de formas de punição mais gravosas, como a privação da liberdade. Os casos
de delação premiada de empresários – Odebrecht e JBS – seriam uma boa amostra desse
argumento (Kant de Lima; Mouzinho, 2017).
Contudo, o problema que nos interessa diz respeito ao último nível da escala de inten-
sidade de justiça. Como os operadores se orientam por características socioeconômicas para
a construção social do crime e para a rotulação de alguém como criminoso, uma parcela da
população vive amedrontada diante da possível ação policial e judicial que, longe de garantir
determinados direitos, pode privá-la da liberdade, ou até mesmo da vida, como acontece nos
constantes episódios de violência policial (Misse, 2010). Para esses sujeitos, o sistema de
justiça nega, desde o princípio de sua atuação, o fundamento que orienta sua existência: a
garantia de igualdade para além do status econômico (Marshall, 1967).
Neste artigo, argumentamos que essa ação seletiva desse sistema, excessivamente cen-
trada sobre os pobres, pode ser analisada a partir da teoria dos rótulos, que problematiza
como o crime é produzido pela interação entre aquele que tem legitimidade para acusar ou-
trem como desviante (Velho, 2002) e o que não possui recursos institucionais para se proteger
de tal acusação (Werneck, 2004). A acusação se dá por parte de um agente estatal, aquele
que “detém não só o conhecimento, mas principalmente a competência para a interpretação
correta da aplicação particularizada das prescrições gerais” (Kant de Lima, 2001: 109), sendo
reificada por outros agentes, que produzem a incriminação e, por conseguinte, a punição de
alguém por um delito que, muitas vezes, não se sabe ao certo como foi cometido (Misse,
2011). O acusado é aquele que possui algum tipo de marcação social que o inferioriza, sendo

94 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 94-108, janeiro-abril 2018
Rotulação e seletividade policial: óbices à institucionalização da
democracia no Brasil

tradicionalmente visto como um cidadão de terceira classe (Carvalho, 2008) ou como um


bandido que pode ser morto (Misse, 2010). Mais do que entender quais mecanismos são acio-
nados na produção dessa justiça, interessa-nos apresentar uma crescente literatura nacional
que problematiza o último nível de intensidade da justiça a que Sinhoretto (2010) se refere.

Funcionamento do sistema de justiça criminal: a


rotulação como ponto de partida

O s estudos sobre a sociologia do desvio realizados por Becker constituem um dos mar-
cos para a consolidação da teoria da rotulação como uma ferramenta para melhor
compreensão dos processos que levam à conformação do crime e do criminoso (Werneck,
2014). O autor se concentrou em elucidar o processo de interação que leva a produção e
aplicação de rótulos àqueles indivíduos considerados desviantes, procurando compreender por
que nem todos os indivíduos que violam a lei são considerados criminosos, já que para ser um
criminoso não basta cometer um crime, é necessário que a sociedade reaja de maneira nega-
tiva em relação ao indivíduo. Para essa abordagem, o desvio é socialmente construído, assim
como o desviante é aquela pessoa a quem o rótulo foi aplicado com sucesso (Becker, 2008).
Se o criminoso, muitas vezes, se constrói em um processo de interação, no qual alguém
aplica o rótulo de delinquente a outrem, é preciso entender como são construídas as definições
jurídicas de crime, que servem para nortear a ação dos acusadores em relação aos acusados
(Velho, 2002). Para Becker, nesse ponto, é necessário entender o papel desempenhado pelos
empreendedores morais como agentes capazes de legitimar quais comportamentos serão con-
siderados como desviantes, ressaltando duas categorias: reformadores cruzados e impositores
de regras. Os reformadores cruzados constroem normas sociais por meio da lei jurídica, prin-
cipalmente após a comoção da sociedade em relação a uma determinada ocorrência. Caso os
reformadores cruzados obtenham sucesso ao instituir essa lei jurídica, cabe aos impositores de
regras transformarem a letra morta da lei em uma realidade social e, consequentemente, lícita.
É a partir desse cheque em branco que a norma jurídica atribui às instituições respon-
sáveis pelo controle social formal – isto é, policiais, promotores, defensores e juízes – que
esses operadores passam a gozar de autonomia para agir diante de uma determinada situa-
ção, dizendo que a conduta prevista na norma, ocorreu enquadrando seu ator no rótulo de
delinquente (Becker, 2008). Logo, a rotulação do indivíduo como desviante se torna conse-
quência do empreendedorismo moral e de sua interação com um impositor de regras, que irá
julgar determinado fato como crime e o sujeito como criminoso.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 95-108, janeiro-abril 2018 95
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

Os estudos que usam a teoria da rotulação procuram entender como se dá a definição de


uma regra penal (empreendedores morais), a identificação desta regra abstrata na realidade
(impositores de regras), a classificação de alguém como criminoso e, depois, os efeitos desta
marcação que inferioriza, o que resulta em segregação (prisão) e, até mesmo, a instituciona-
lização de uma carreira desviante por parte daquele que foi rotulado como bandido. Logo, ao
adotar a perspectiva da rotulação, a sociologia da administração da justiça passa a ser crítica
do processo de estigmatização, por parte dos grupos dominantes, em relação àqueles com
menor poder dentro da hierarquia social, que serão mais suscetíveis ao rótulo de criminoso.
Desde a década de 1980, usando essa abordagem, os estudos brasileiros apontam como a
raça, o sexo, a idade e a classe social são atributos para definir os indivíduos como criminosos,
orientando a prática dos agentes policiais e do Poder Judiciário (Sinhoretto, 2014; Vargas,
2014; Azevedo, 2014).
Campos Coelho (1980), por exemplo, desmistificou a associação entre o crime e a po-
breza, demonstrando que o Estado, por meio de mecanismos de poder e coerção, apreende
os indivíduos pobres, colocando-os como mais propensos ao crime. Para ele, as classes estig-
matizadas possuem maiores chances de serem rotuladas pelos policiais em suas operações
rotineiras de vigilância, o que explicaria a sobrerrepresentação desses indivíduos nas esta-
tísticas policiais. O autor demonstrou, ainda, como os crimes contra o patrimônio praticados
por indivíduos pertencentes às classes baixas são tratados com maior rigidez pelo sistema de
justiça criminal. Em contrapartida, o estelionato realizado por pessoas que possuem maior
capital social, aqueles pertencentes às classes médias ou altas do estrato social, permanecem
imunes ao Poder Judiciário.
Outro exemplo muito interessante para demonstrar a aplicabilidade da rotulação ao caso
brasileiro é o que chamamos de crimes de “colarinho branco”, praticados por pessoas que
não condizem com o estereótipo do criminoso construído pela sociedade (Kant de Lima; Mou-
zinho, 2017). Assim sendo, suas práticas não são muitas vezes rotuladas como crimes e, por
conseguinte, esses criminosos não são apreendidos pelos agentes da segurança pública. Isso
faz com que a submissão desses indivíduos a processos criminais esteja mais condicionada
à negociação com os poderes públicos, como demonstram os episódios recentes de delação
premiada. Afinal, esses “criminosos” são indivíduos com status econômico elevado e ocupam
cargos de prestígio, o que os imuniza ao estigma de bandidos, uma vez que estão protegidos
dos mecanismos de coerção do sistema de justiça (Campos Coelho, 1978: 156).
Os estudos de Campos Coelho destacam a distinção existente no tratamento das pes-
soas envolvidas com o estelionato e com os crimes de “colarinho branco” em comparação

96 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 96-108, janeiro-abril 2018
Rotulação e seletividade policial: óbices à institucionalização da
democracia no Brasil

aos crimes praticados por indivíduos das classes subalternas. Essa distinção é justificada
pela capacidade operacional das organizações policiais em construir o perfil do criminoso
atrelando a pobreza ao crime. Nesse raciocínio, o pobre se torna o estereótipo de alguém
que comete crimes e, portanto, será alvo das intervenções policiais, enquanto o rico, sujeito
ativo dos crimes contra o sistema financeiro e a administração pública, consegue passar
despercebido pelos policiais que investigam a sua ação. Daí porque “as estatísticas oficiais
constituem a definição cultural do que seja crime: esta definição é utilizada para diferenciar
o criminoso oficial de tantos outros que violam a lei sem se tornarem legalmente crimi-
nosos, embora o comportamento de ambos seja o mesmo” (Campos Coelho, 1978: 154).
A persistência ou a sobrevivência desses indivíduos, no que diz respeito ao processo de
administração da justiça, e o consequente julgamento com mais severidade em relação ao
estereótipo do criminoso são denominado pelo autor de “criminalização da marginalidade”
(Campos Coelho, 1978: 158).
Se a Polícia Militar (ostensiva) produz dados sobre a criminalidade que não condizem com
a realidade brasileira, posto que a ação policial busca prender pessoas de perfil estigmatizado
com o propósito de incriminá-los para a resolução dos delitos, a Polícia Civil (investigativa)
opera por meio da distribuição de “justiça por amostragem” (Paixão, 1982: 82). Paixão mostrou
como os policiais se valem do poder do inquérito policial com a finalidade de obter informações
e domesticar as classes com baixo status socioeconômico. Por isso, ao percorrerem a Cidade, os
policiais procuram pessoas que correspondam ao perfil estigmatizado para fazer prevalecer a
lei. De um lado, a distribuição de “justiça por amostragem” tem como objetivo captar clientes
para o bem coletivo, retirando de circulação sujeitos que podem ser liberados mediante paga-
mento de propinas. De outro, a cultura organizacional indica como os policiais já possuem uma
ideia formulada de quem são os culpados por crimes que ainda não foram registrados. Tais
práticas policiais demonstram a conversão de pessoas nos artigos criminais, correlacionando os
“indivíduos como suspeitos e suspeitos como indiciados” (Paixão, 1983: 42).
O trabalho de Paixão (1982) reifica que as estatísticas oficiais retratam uma concepção
construída pela própria polícia sobre quem são os criminosos, percepção esta que termina
por atrelar categorias de suspeitos a crimes reportados nas delegacias, fazendo com que os
policiais ocupem seu tempo negociando com sua clientela quem será preso em cada situação.
Além disso, o ritmo acelerado de apreensões de suspeitos pelas polícias não é o mesmo de
resolução de casos pelo Poder Judiciário (Campos Coelho, 1986), sendo que o trabalho policial
leva ao aumento de pessoas encarceradas provisoriamente e à superlotação das penitenciá-
rias de sujeitos com o mesmo perfil: homens pretos e pobres (Sinhoretto, 2014).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 97-108, janeiro-abril 2018 97
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

Soma-se a isso a indicação de Campos Coelho (1986), de que a forma de operação das
polícias faz com que uma quantidade expressiva de processos seja instaurada com a cons-
ciência de que um número reduzido de pessoas será condenado, apontando para algo que
verificamos na atualidade: o processo como pena. Trata-se de uma estratégia que visa a evitar
a expressão “a polícia prende e a justiça solta”, vista pelos operadores como um princípio fun-
damental de operacionalização do sistema de justiça criminal, uma validação da “disjunção
entre o aparelho policial e a administração da justiça” (Campos Coelho, 1986: 333), o que
leva à ratificação desse sistema como composto por “subsistemas frouxamente integrados”.
A expressão significa que as diversas organizações que compõem o sistema de justiça
criminal (polícias, Ministério Público, Defensoria Pública, Judiciário) obedecem a fundamentos
distintos em relação às atividades por elas desenvolvidas, com destaque para os diferentes
sistemas de verdades que orientam de forma dissonante a ação da polícia (inquisitorial) e
do Judiciário (acusatorial) (Kant de Lima, 2004). Para evitar essa disjunção, a estratégia en-
contrada consiste em atrelar o crime à pobreza, viabilizada pela “justiça por amostragem”,
operada a partir dos estereótipos constituídos de que o criminoso é aquele indivíduo com
baixo status socioeconômico e negro, sendo este o preferencialmente morto nas abordagens
policiais, preso provisoriamente ou condenado à privação da liberdade. Diante disso, o sistema
que funciona de forma altamente articulada, em uma espécie de linha de montagem (Sapori,
1995) acarreta profundas implicações sobre a institucionalização da democracia brasileira
(Paixão, 1988), reforçando a cidadania disjuntiva (Holston; Caldeira, 1999).
Na linha de um sistema frouxamente articulado (Campos Coelho, 1986), mas que pro-
cessa com extrema eficiência aqueles que merecem justiça de baixa intensidade (Sinhoretto,
2010), Adorno (1995) demonstrou como a seletividade policial é reforçada pela prestação
jurisdicional desigual oferecida a réus de cor de pele distinta. O autor argumentou que os réus
negros necessitam, com maior frequência, da assistência judiciária gratuita e como os defen-
sores públicos possuem uma atuação limitada à “letra fria da lei”, pois não se empenham em
elaborar defesas contundentes por meio de provas documentais, periciais e testemunhais. Eles
não são traquejados o suficiente para lograr a absolvição do réu ou para atenuar a pena, fato
que acarreta em uma maior probabilidade de condenação dos réus negros. Em contrapartida,
os réus brancos possuem maiores vantagens e privilégios, pois contratam advogados particu-
lares que possuem vasta experiência, logrando a isenção da responsabilização penal. Adorno
concluiu que o direito à ampla defesa não está garantido para os réus negros, visto que eles
possuem dificuldades para acessar os seus direitos por meio de defesa qualificada, bem como
são mais vulneráveis à violência policial e à arbitrariedade do sistema de justiça.

98 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 98-108, janeiro-abril 2018
Rotulação e seletividade policial: óbices à institucionalização da
democracia no Brasil

As desigualdades socioeconômicas distribuídas nas mais diversas hierarquias de poder e


a atuação policial centrada em uma clientela específica na busca de “criminosos” provoca a
vulnerabilidade das classes mais pobres e maior vigilância por parte dos órgãos responsáveis
pelo controle social, o que tem implicações imediatas na composição da população prisional,
em termos de sexo, idade e grau de escolaridade (Sinhoretto; Lima; Bueno, 2015). Se, de um
lado, a Constituição prevê princípios de garantia de cidadania, por outro, o sistema de justiça
criminal classifica e discrimina os indivíduos que possuem menor poder aquisitivo, reservando
a eles a escala mais baixa de intensidade de justiça (Sinhoretto, 2010). É por intermédio da
atuação desse sistema que os cidadãos brasileiros podem ser divididos em duas categorias:
os civilizados e os marginais. Aos agentes da segurança pública cabe a tarefa de selecionar os
indivíduos que são considerados marginais mesmo que eles estejam em acordo com as regras
jurídicas estabelecidas em nosso País.
Diante desses estudos, constata-se que o poder da polícia em atuar como impositora
de regras faz com que, preferencialmente os indivíduos carentes de imunidades institucionais
sejam rotulados como criminosos, o que torna a população apresentada pela polícia à justiça
composta, majoritariamente, por homens jovens, pobres, pretos e pardos. Ocorre que, uma
vez “nas malhas da justiça”, esse grupo vai progressivamente se tornando ainda mais homo-
gêneo, já que os padrões de seleção terminam por diferenciar os indivíduos apresentados ao
Judiciário em razão de sua origem social, fazendo com que este perfil receba um serviço de
pior qualidade que, inevitavelmente, levará à prisão.
Um leitor mais atento poderia destacar que as análises apresentadas nesta seção fo-
ram realizadas no período ditatorial. Com a transição daquele regime para o democrático,
esperava-se que as arbitrariedades cometidas pelos policiais durante a ditadura diminuíssem,
tornando os serviços da justiça mais acessíveis aos desfavorecidos economicamente e, dessa
maneira, a violência como mecanismo de solução de conflitos nas ruas se tornaria algo do
passado. No entanto, a promessa democrática não foi capaz de criar raízes nessa área: no
transcorrer da década de 1990, o País se modernizou, a democracia procedimental se institu-
cionalizou e a violência encontrou terreno fértil para sua multiplicação, impondo desafios ao
sistema de justiça criminal.

A retomada da teoria da rotulação: o efeito acumulado


do estereótipo no fluxo do sistema de justiça

A tualmente, a teoria da rotulação é uma das abordagens mais mobilizadas para o en-
tendimento de como opera o sistema de justiça criminal (Paes; Ribeiro, 2015), apesar

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 99-108, janeiro-abril 2018 99
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

de ter sido uma perspectiva bastante criticada nos anos 1980, nos Estados Unidos, uma vez
que ela não consegue explicar a vitimização diferencial de pretos e pardos por crimes dolosos
contra a vida, situações nas quais o delito não se constrói a partir de uma interação entre os
impositores de regra e o suposto criminoso. Naquele momento, várias cidades americanas
apresentavam uma explosão de delitos violentos e, para alguns autores, parecia temerário
atribuir à interação social a responsabilidade sob a produção das elevadas taxas delitivas
(Akers, 1968).
Por outro lado, a perspectiva da rotulação foi vista como importante para se entender
as carreiras desviantes de delitos de menor potencial ofensivo, teoricamente praticados por
qualquer indivíduo (furto e sonegação fiscal), conclusões essas ancoradas nas surveys de
autorreportagem (Akers, 2011). Esses estudos demonstram que apenas indivíduos com um
determinado perfil caíam nas malhas da justiça, sendo que os demais permaneciam como
desviantes ocultos aos olhos das agências de controle. Nessa dimensão estão os autores que
compreendiam a carreira criminosa como efeito de rotulagem, isto é, ao ser rotulado como
criminoso, o indivíduo teria menos oportunidades no mercado de trabalho, o que poderia
aumentar o comportamento antissocial por parte dos sujeitos assim marcados (Liberman;
Kirk, 2014).
É nesse debate sobre a aplicabilidade ou não da teoria da rotulação para o entendimento
dos processos que levam à constituição do crime e do criminoso que essa perspectiva começa
a ser redescoberta no Brasil. As concepções reinantes sobre o crime no País foram intensamen-
te influenciadas pela falácia da associação entre crime e pobreza, que partiam do pressuposto
que a solução para o problema da delinquência perpassava por melhoria de políticas públicas
e redistribuição de renda (Zaluar, 1999). O ingresso da labeling approach inaugurou uma área
de estudos sobre o sistema de justiça criminal brasileiro que, ainda hoje, termina por reforçar,
a partir de evidências empíricas, as predições de tal perspectiva teórica.
A partir da década de 1990, a discussão sobre como a perspectiva de Becker contribuiria
para uma melhor compreensão das injustiças dentro da área criminal se concentrava na apli-
cação das leis de forma discriminatória em estereótipos construídos pelos operadores daquele
sistema (Vargas, 2014). Esse é um momento no qual a criminalidade violenta assume uma
nova configuração, por meio do comércio ilegal de drogas e, por conseguinte, da disputa tra-
vada entre o Estado e os “traficantes”. Nesse mercado, agentes do Estado e comerciantes de
substâncias ilegais se organizam a partir de uma rede de troca de favores e de mecanismos de
vingança, o que, muitas vezes, termina por transbordar para todos os que residem nas áreas
periféricas nas quais ocorre essa negociação/disputa, com a finalidade de fazer prevalecer

100 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 100-108, janeiro-abril 2018
Rotulação e seletividade policial: óbices à institucionalização da
democracia no Brasil

valores e normas instituídos pelos grupos criminosos, terminando por conformar um novo
tipo de sociabilidade, a violenta (Machado da Silva, 2004). Essa conjuntura e a discriminação
por parte do sistema de justiça criminal em relação às classes subalternas produzem efeitos
perversos no que diz respeito à vigilância cerrada de determinados segmentos populacionais,
reforçando as barreiras que dificultam o acesso à justiça e potencializam penalização das
camadas de baixo status socioeconômico (Zaluar, 1999).
Para entendimento de como essa acumulação social da violência passa a ser adminis-
trada pelas agências do sistema de justiça criminal, Misse (2008) constrói alguns operadores
analíticos que ressaltam como se dá a construção social do crime, explicando os motivos pelos
quais os indivíduos das classes subalternas possuem maior probabilidade de serem acusados
de criminosos. O primeiro operador analítico proposto pelo autor consiste na construção do
fato criminoso ou na reação moral da sociedade que define os critérios para que um ato seja
considerado como crime, sendo este marcador denominado de criminalização, retomando o
empreendedorismo moral formulado por Becker. O segundo operador construído pelo autor é
a criminação, que diz respeito às formas e técnicas a partir das quais os impositores de regras
acoplam a lei a uma determinada conduta, isto é, trata-se do momento em que uma autorida-
de afirma que o cidadão realizou uma conduta prevista no Código Penal.
Após a criminação, tem início a incriminação do suspeito pelas informações coletadas
para subsidiar o registro policial e, depois, a abertura do inquérito policial, que procurará,
por meio das testemunhas e de evidências intersubjetivas, afirmar quem é o criminoso, indi-
ciando-o (Misse, 2008). Essa fase policial é inquisitorial, sem contraditório, posto que não há
acusação: é muito comum que a polícia tire alguma vantagem do suspeito com o propósito de
“armar o processo” com algumas práticas institucionalizadas, como a legitimidade da violên-
cia, a autorização da presença dos advogados particulares para acompanhar os inquéritos e o
arquivamento ou prosseguimento das investigações, de acordo com a posição do indivíduo na
hierarquia social (Kant de Lima, 1997: 175).
Kant de Lima (2004) procura entender o fluxo do sistema de justiça penal a partir de
modelos inquisitoriais e acusatoriais que, longe de promover os direitos civis entre os cidadãos
brasileiros, termina por negá-los. Para ele, os padrões de seleção e filtragem são operados a
partir da articulação de diferentes “sistemas da verdade” que são orientados pelos princípios
constitucionais de presunção da inocência, o direito à defesa e o direito ao silêncio, os quais,
por sua vez, têm interpretações diferenciadas, dependendo de quem são os criminosos (Kant
de Lima, 1997: 173). Trata-se, então, de uma abordagem que reforçaria o pressuposto da teo-
ria da rotulação (indivíduos diferentes são etiquetados de forma distinta), mas também se dis-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 101-108, janeiro-abril 2018 101
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

tanciaria dela, posto que não é o rótulo que leva à segregação, mas a ausência de inserção social
que ocasiona a classificação estigmatizante, produzindo uma marcação que inferioriza o sujeito.
A denúncia do promotor marca o início do processo judicial, da fase acusatorial, na qual
alguém se torna formalmente acusado pela prática de um crime, já que a polícia tem poder
apenas para indiciar o suspeito. A incriminação pela denúncia retoma a “letra da lei”, ofere-
cendo legitimidade à continuação da acusação no âmbito do processo criminal por meio de
provas periciais, documentais e testemunhais, que permitem construir a “verdade” da acusa-
ção (Kant de Lima, 2004). Nesse diapasão, o processo penal pode ser visto como a acumula-
ção da incriminação iniciada na polícia, mas sem a perspectiva de (des)incriminar determinada
parcela de indivíduos levados à justiça: se o pobre cai nas malhas da justiça, condenado ele
está (Sinhoretto, 2014). Por isso, logo no início da instrução, o juiz adverte “o acusado de que
‘seu silêncio poderá resultar em prejuízo de sua própria defesa’, algo que parece colocar-se
nitidamente em contradição com o direito ao silêncio do dispositivo constitucional” (Kant de
Lima, 1997: 175).
Ao reconstituir o fluxo de procedimentos que orienta o funcionamento do sistema de
justiça criminal, Kant de Lima (1987) afirma que a construção judicial do crime se funda em
um “mosaico de verdades”, conformado a partir de procedimentos diferenciados de produção
da verdade, determinados pelos policiais e pelos operadores do direito a partir de uma série
de depoimentos que reforçam, progressivamente, a rotulação inicial de alguém pela prática
do delito. Por isso, ele afirma que, no Brasil, não há uma saída para a resolução dos conflitos
a partir do consenso entre as três instâncias, pois as verdades são produzidas por critérios di-
ferenciados, sem qualquer comunicação entre eles. A verdade produzida pela polícia (crimina-
ção) é a responsável por transformar o crime em uma realidade, pois, a partir da incriminação
de alguém como suposto criminoso, ela se torna mais viável.
Para Misse (2008), a questão é um pouco mais complexa, dado que o sistema de justiça
criminal brasileiro não opera a partir da criminalização, para depois seguir com a crimina-
ção, culminando com a incriminação. Pelo contrário: o sistema funciona a partir da sujeição
criminal que se qualifica pela seleção dos indivíduos que compõem o tipo social propenso a
cometer crimes. Assim, o sistema primeiro escolhe o indivíduo e depois investiga quais foram
os crimes que ele cometeu. Nessa dimensão, o autor reforça a teoria da rotulação, destacando
que a acusação é um processo de interação social, cujo resultado está relacionado à forma de
imposição do poder de um indivíduo sobre outro.
Ocorre que essa escolha de potenciais indivíduos delinquentes não é ampla, sendo bas-
tante concentrada entre aqueles que compartilham o estereótipo de bandido (Misse, 2010).

102 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 102-108, janeiro-abril 2018
Rotulação e seletividade policial: óbices à institucionalização da
democracia no Brasil

Como a acusação é um processo de interação social entre os indivíduos, ela termina por ser
estruturada como algo anterior ao fato criminoso. Essa é a chave para o entendimento das dis-
sonâncias existentes entre a abordagem de Misse (2008) e a proposta da teoria da rotulação
na versão reformulada de Becker. Nas palavras do autor:

De um ponto de vista formal, a sujeição criminal refere-se a um processo social pelo qual se
dissemina uma expectativa negativa sobre indivíduos e grupos, fazendo-os crer que essa ex-
pectativa não só é verdadeira como constitui parte integrante de sua subjetividade. O conteúdo
de sentido dessa expectativa não é apenas um atributo desacreditador, como no estigma, nem
decorre apenas de um processo de rotulação de um comportamento desviante de primeiro
grau (como no desvio primário), antes parece ser determinante desses ou, ao menos, enlaçado
a esses. Refere-se a um set institucionalizado denominado “Código Penal”, historicamente
construído e administrado monopolicamente pelo Estado, que se confunde inteiramente com o
moderno processo de criminalização. (...) Na sujeição criminal, o crime é reificado no suposto
sujeito autor de crimes (Misse, 2014: 170).

A partir dos operadores analíticos (criminalização, criminação, incriminação e sujeição


criminal), Michel Misse se torna uma figura-chave para entendermos a aplicação da teoria
da rotulação no funcionamento do sistema de justiça criminal brasileiro nos últimos anos,
pois ele sublinha como o crime é um acontecimento social que se constrói a partir da inte-
ração entre o acusado (rotulado) e acusador (policiais e operadores do direito). A suspeição
constante, aplicada a certos indivíduos, aciona uma série de engrenagens como forma de
garantir a incriminação sucessiva do sujeito cujas características se enquadram no estereótipo
do “bandido”, culminando em sua condenação à pena privativa de liberdade ou à execução
extrajudicial pelas mãos das polícias (Misse, 2010). Ao mesmo tempo, essa perspectiva se
distancia da abordagem de Becker, porque “o rótulo e o estigma, nesses casos, são efeitos, ou
se articulam à sujeição criminal, mas não lhe são causas, não lhe são logicamente anteriores”
(Misse., 2014: 170). Afinal, é a sujeição criminal que leva à incriminação preferencial de uma
classe de indivíduos como delinquentes, bloqueando-lhes o acesso às instituições de justiça, o
que deterioraria a identidade de cidadãos entre tais sujeitos.
Em síntese, a rotulação de um indivíduo como criminoso está intrinsecamente relaciona-
da ao processo de sujeição criminal ̶ o indivíduo possui o estereótipo de bandido procurado
pelos policiais para fechar os inquéritos, definindo um culpado (MIsse, 2011). Nesse contexto,
a sujeição criminal explica a problemática da desconfiança do trabalho policial pelas comuni-
dades de baixa renda, visto que a suspeição dos moradores de periferia antecede, inclusive,
o fato criminoso. Mais uma vez, destaca-se que o controle social realizado pelos policiais
não pressupõe a igualdade de direitos e discrimina indivíduos pobres e negros. Assim, apesar

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 103-108, janeiro-abril 2018 103
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

das organizações policiais internalizarem um discurso democrático, galgado na gramática do


policiamento comunitário, suas práticas discricionárias e inquisitoriais irão oferecer poder para
que seus funcionários possam construir e reificar o estereótipo do criminoso, resultando na
incriminação preferencial dos suspeitos que possuem baixo status socioeconômico e a cor da
pele escura (Paes; Ribeiro, 2015).
As pesquisas empíricas sobre o tema parecem validar a ideia de que o sistema de justiça
criminal opera a partir da sujeição criminal (Vargas, 2014). Os resultados obtidos pela revisão
de Sinhoretto (2014) mostram que os indivíduos abordados pela polícia são, preferencialmente,
do sexo masculino, pretos e pardos, jovens e com pouca instrução, sujeitos estes que possuem
elevadas chances de serem processados e condenados. Ou seja, são os que compartilham os
estereótipos típicos da sujeição criminal que possuem mais chances de indiciamento, acusação
e condenação, “sobrevivendo” a todas as fases do fluxo de processamento (Vargas, 2014).
O caleidoscópio operado a partir da labeling theory mostra que a administração da
justiça no Brasil é, em verdade, a institucionalização de práticas desiguais (Azevedo, 2014),
organizadas de acordo com a classe do cidadão (Carvalho, 2008), distanciando-se do pro-
cesso e julgamento do fato ocorrido (Vargas, 2014). Essa perspectiva, com destaque para
os conceitos desenvolvidos por Misse (2014), tem sido utilizada para subsidiar uma série de
estudos sobre o funcionamento da justiça criminal brasileira, no que tange às práticas das
organizações policiais e à desarticulação entre os princípios democráticos que orientam a sua
constituição e o seu real funcionamento do sistema de justiça (Paes; Ribeiro, 2015), algo que
vai na contramão dos pressupostos do Estado Democrático de Direito (Kant de Lima, 2004).
Ademais, os estudos atuais contribuem para uma maior reflexão sobre a democratização da
sociedade brasileira, ao demonstrar como a justiça opera de forma diferente dependendo de
quem é colocado diante das instituições desse Estado (Sinhoretto, 2010). A criminação pode
ser a mesma, mas a incriminação será essencialmente diversa em razão do sexo, da idade, da
cor da pele e, especialmente, do local de moradia, já que essa última categoria é extremamen-
te importante no acionamento da sujeição criminal (Misse, 2011).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

D esde a década de 1980, uma série de estudos em relação ao funcionamento seletivo


do sistema de justiça criminal brasileiro têm sido realizados a partir da perspectiva
formulada por Becker, resultante do processo de interação entre aqueles que desejam impor
determinadas regras e aqueles que praticam a ação descrita de um delito. Ele dissertou so-
bre o processo de criação de regras e sua imposição, destacando as possíveis desigualdades

104 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 104-108, janeiro-abril 2018
Rotulação e seletividade policial: óbices à institucionalização da
democracia no Brasil

associadas a essa dinâmica e afirmando que nem todos os indivíduos possuem a mesma
chance de se conformarem em uma regra Jurídica proibitiva, inscrita no Código Penal. Para
isso, é necessário que um empreendedor moral esteja disposto a levantar a bandeira da crimi-
nalização de um comportamento, direcionando a demanda ao Legislativo e inscrevendo essa
conduta social no rol das leis penais. Assim sendo, a lei deve se encaixar a um determinado
comportamento desviante para que a sociedade reconheça a existência do delito. Não basta
que um dado indivíduo infrinja a regra. É preciso que alguém com autoridade reconhecida
diga publicamente que aquela ação é um desvio, rotulando-a como crime e o responsável por
sua prática como criminoso.
O presente artigo procurou indicar como a labeling theory tem contribuído para a cons-
tituição de diversas análises empíricas sobre os padrões de seleção que marcam a operação
do sistema de justiça criminal no País, reforçando a estigmatização de negros, pobres e mora-
dores de vilas e favelas como criminosos. A partir dos anos 1990, Misse inova na forma como
a rotulação poderia ser percebida de maneira diferenciada no caso brasileiro. Com base na
aplicação da sujeição criminal, o autor constata por que os homens jovens, pobres e de cor es-
cura são os que apresentam as maiores probabilidades de serem autuados pela Polícia Militar,
investigados pela Polícia Civil, acusados pelo Ministério Público e sentenciados pelo Judiciário.
Nesse ínterim, a sobrevivência do criminoso significa não escapar em quaisquer dessas fases
de processamento, sendo sentenciado e condenado na fase final. O trabalho de Misse passa
a ser o ponto de partida de uma diversa produção sobre o sistema de justiça criminal ao re-
forçar que a única forma de se compreender como a justiça é interpretada pelas agências que
operam as ações de prevenção e repressão à criminalidade é a partir do entendimento das
práticas de seus operadores.
A revisão de estudos apresentada no artigo ressaltou como a operação do sistema de
justiça criminal é seletiva, possibilitando entender os motivos pelos quais a população prisional
brasileira é composta, majoritariamente, por homens jovens, de cor preta ou parda e de baixa
escolaridade, bloqueando a promoção da cidadania civil (Marshall, 1967) ao longo do fluxo de
processamento. Em especial, os estudos sobre o funcionamento desse sistema, realizados após
a última transição democrática, apontam que a justiça é de baixa intensidade para uma ampla
parcela da população e de alta intensidade para uma pequena elite (Sinhoretto, 2010).
Com isso, os conflitos dos pobres são tratados de forma mais severa e letal, verifica-
do pelo descompasso entre o ideal de democracia e a realidade construída por instituições
que deveriam ser encarregadas da produção de justiça na sociedade brasileira. Isso posto,
assistimos à consolidação da cidadania disjuntiva (Holston; Caldeira, 1999), dado que há

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 105-108, janeiro-abril 2018 105
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

um enorme descompasso entre as disposições legais e a realidade institucionalizada pelas


organizações policiais, responsáveis por decidir quem cairá nas malhas da justiça, a partir da
sujeição criminal.

NOTA

1 Neste artigo, não serão apresentados dados empíricos sobre o funcionamento seletivo do sistema de justiça
criminal, posto que esta abordagem foi longamente revista por Vargas (2014) com a apresentação de resulta-
dos bastante palpáveis sobre como ocorre a seletividade. Será descrito, assim, um estado da arte sobre as pes-
quisas que se utilizam da labeling theory para entender o padrão de operação do sistema de justiça criminal.

Referências bibliográficas

ADORNO, Sérgio. Discriminação racial e justiça criminal em São Paulo. Novos Estudos, São Paulo, n. 43, 1995.
AKERS, Ronald L. Problems in the sociology of deviance: social definitions and behavior. Social Forces, v. 46,
n. 4, 1968.
______. Social learning and social structure: a general theory of crime and deviance. Nova Jersey: Transac-
tion Publishers, 2011.
AZEVEDO, Rodrigo. Sociologia da administração da Justiça. In: LIMA, Renato Sérgio de; RATTON, José Luiz;
AZEVEDO, Rodrigo Ghiringhelli (Org.). Crime, segurança e justiça no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014.
BECKER, Howard Soul. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008 [1963].
CALDEIRA, Teresa P. R.; HOLSTON, James. Democracy and violence in Brazil. Comparative studies in society
and history. Society and History, v. 41, n. 4, 1999.
CAMPOS COELHO, Edmundo. A criminalização da marginalidade e a marginalização da criminalidade. Revista
de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, 1978.
______. A administração da justiça criminal no Rio de Janeiro: 1942-1967. Dados, Rio de Janeiro, v. 29, n. 1, 1986.
______. Sobre sociólogos, pobreza e crimes. Dados, Rio de Janeiro, v. 23, n. 3, 1980.
CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
HOLSTON, James. Cidadania insurgente: disjunções da democracia e da modernidade no Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras, 2013.
KANT DE LIMA, Roberto. Polícia e exclusão na cultura judiciária. Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v.
9, n. 1, 1997b.
______. Carnavais, malandros e heróis: o dilema brasileiro do espaço público. In: GOMES, Laura Graziela;
BARBOSA, Lívia; DRUMMOND, Augusto (Org.). O Brasil não é para principiantes. Rio de Janeiro: FGV, 2001.
______. Direitos civis e direitos humanos: uma tradição judiciária pré-republicana? São Paulo em Perspec-
tiva, v. 18, n. 1, 2004.

106 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 106-108, janeiro-abril 2018
Rotulação e seletividade policial: óbices à institucionalização da
democracia no Brasil

______; MOUZINHO, Glaucia Maria Pontes. Produção e reprodução da tradição inquisitorial no Brasil: entre
delações e confissões premiadas. Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, v. 9, n. 3, 2017.

LIBERMAN, Akiva M.; KIRK, David S.; KIM, Kideuk. Labeling effects of first juvenile arrests: secondary deviance
and secondary sanctioning. Criminology, v. 52, n. 3, 2014.

LIMA, Renato Sérgio de; SINHORETTO, Jacqueline; BUENO, Samira. A gestão da vida e da segurança pública
no Brasil. Sociedade e Estado, Brasília, v. 30, n. 1, 2015.

MACHADO DA SILVA, Luiz Antonio. Sociabilidade violenta: por uma interpretação da criminalidade contempo-
rânea no Brasil urbano. Sociedade e Estado, Brasília, v. 19, n. 1, 2004.

MARSHALL, Thomas Humphrey. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

MISSE, Michel. Crime, sujeito e sujeição criminal: aspectos de uma contribuição analítica sobre a categoria
“bandido”. Lua Nova, São Paulo, v. 79, 2010.

______. Sobre a construção social do crime no Brasil: esboços de uma interpretação. In: ______ (Org.).
Acusados e acusadores: estudos sobre ofensas, acusações e incriminações. Rio de Janeiro: Revan, 2008.

______. O papel do inquérito policial no processo de incriminação no Brasil: algumas reflexões a partir de
uma pesquisa. Sociedade e Estado, Brasília, v. 26, n. 1, 2011.

______. Sujeição criminal. In: LIMA, Renato Sérgio de; RATTON, José Luiz; AZEVEDO, Rodrigo Guiringhelli
(Org.). Crime, segurança e justiça no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014.

PAES, Vívian Gilbert Ferreira; RIBEIRO, Ludmila Mendonça Lopes. Produção acadêmica sobre práticas de se-
gurança pública e justiça criminal: estudos empíricos sobre instituições, interesses, decisões e relações dos
operadores com o público. Confluências, Niterói, v. 16, n. 3, 2015.

PAIXÃO, Antônio Luiz. A organização policial numa área metropolitana. Revista de Ciências Sociais, Rio de
Janeiro, v. 25, n. 1, 1982.

______. Crime, controle social e consolidação da democracia: as metáforas da cidadania. In: REIS, F.; O’DON-
NEL, G. (Ed.). A democracia no Brasil. São Paulo: Vértice, 1988.

______. O problema da polícia. In: IUPERJ. Violência e participação política no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
1995. n. 91. (Série Estudos).

SAPORI, Luís Flávio. A administração da justiça criminal numa área metropolitana. Revista Brasileira de Ciên-
cias Sociais, v. 10, n. 29, 1995.

SHIRLEY, Robert Weaver. Antropologia jurídica. São Paulo: Saraiva, 1987.

SINHORETTO, Jacqueline. Campo estatal de administração de conflitos: múltiplas intensidades da justiça.


Anuário Antropológico, Brasília, v. II, n. 2009, 2010.

______. Seletividade penal e acesso à justiça. In: LIMA, Renato Sérgio de; RATTON, José Luiz; AZEVEDO,
Rodrigo Ghiringhelli (Org.). Crime, segurança e justiça no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014.

VARGAS, Joana Domingues. Fluxo do sistema de justiça criminal. In: LIMA, Renato Sérgio de; RATTON, José
Luiz; AZEVEDO, Rodrigo Guiringhelli (Org.). Crime, segurança e justiça no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 107-108, janeiro-abril 2018 107
Flávia Cristina Soares e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro

VELHO, Gilberto. Becker, Goffman e a antropologia no Brasil. Ilha: Revista de Antropologia, Florianópolis, v.
4, n. 1, 2002.

WERNECK, Alexandre. Teoria da rotulação. In: LIMA, Renato Sérgio de; RATTON, José Luiz; AZEVEDO, Rodrigo
Ghiringhelli (Org.). Crime, segurança e justiça no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014.
ZALUAR, Alba. Violência e crime. In: MICELI, Sérgio (Org.). O que ler na ciência social brasileira (1970-1995):
antropologia. Sumaré: Anpocs; Brasília: Capes, 1999. v. 1, p. 13-107.

108 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 108-108, janeiro-abril 2018
entrevista

Entrevista com João Roberto Martins Filho


Interview with João Roberto Martins Filho
Entrevista con João Roberto Martins Filho

Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942018000100007

Angela Moreira Domingues da Silva é professora adjunta da Escola de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação
em História, Política e Bens Culturais da Fundação Getulio Vargas.

Entrevista concedida Via Skype, em 4 de janeiro de 2018.


Transcrição de Ayssa Yamaguti Norek.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 109-124, janeiro-abril 2018 109
Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva

João, gostaria de agradecer sua disponibilidade em conversar comigo para publicar


a entrevista na revista Estudos Históricos, cujo tema é “História, democracia e insti-
tuições”. Para começar, gostaria que você contasse um pouco como foi sua gradua-
ção na Unicamp. Por que você escolheu fazer Ciências Sociais?

Na verdade, comecei fazendo o curso de Direito, logo depois vi que não era aquilo que
eu gostava. Um mês depois tentei passar para o curso de História na Universidade de São
Paulo (USP). Eu morava em Campinas, mas estava fazendo o curso na USP e meu pai era juiz.
Naquela época ele era juiz no Tribunal de Alçada, trabalhava em São Paulo. Não consegui
passar para o curso de História. Durante o ano de 1972, enquanto frequentava o curso notur-
no de Cinema, comecei a perceber que queria mesmo fazer Ciências Sociais. Então, fiz outro
vestibular e passei para Ciências Sociais na Unicamp. Fiquei na Unicamp de 1973 até 1976.
Comecei a lecionar em 1975. Nos primeiros dois anos, então, fiquei sem trabalhar, mas depois
comecei a dar aula.

Aula de quê? 

Comecei a dar aula de História, em cursos supletivos. Alunos adultos, todos eles maiores
de 18 anos, das mais diferentes profissões, logo passei a ter classes grandes. No começo eram
classes de 60, depois foram classes de mais de 100 alunos. E, em dois anos de trabalho, já
estava ambientado com a sala de aula. Foi uma tremenda escola para mim, porque eu tinha de
traduzir aquela linguagem que havia aprendido na Unicamp numa linguagem que os alunos –
um garçom, um policial, uma enfermeira, um metalúrgico, tinha muitos operários – pudessem
entender. Logo descobri certa facilidade pessoal para traduzir coisas complicadas em uma lin-
guagem bem-humorada, que eles entendessem. Tinha de manter os alunos acordados, porque
durante esses primeiros anos foram alunos do curso noturno, e eles trabalhavam durante o
dia. Enquanto isso, eu realmente levei muito a sério o curso na Unicamp, quase nunca faltei,
durante os quatro anos. Eu morava em Campinas mesmo, não precisei nem sair de casa para
fazer o curso de Graduação. Naquele período, por volta de 1974, o movimento estudantil
começou a se rearticular em novas formas, agora havia o que se chamava de tendências
nacionais. Antes você tinha muitas organizações regionais, como a Dissidência Estudantil da
Guanabara, por exemplo. Havia em São Paulo o grupo da Aliança Libertadora Nacional (ALN),
no Rio Grande do Sul, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), em Minas Gerais
a corrente trotskista de onde saiu o Colina. Até 1968, esses grupos, ou trotskistas ou dissiden-
tes do Partido Comunista, eram regionais e tinham certas afinidades entre si. O de São Paulo
tinha laços com o do Rio Grande do Sul, que, por sua vez, também tinha afinidade com o de
Minas, por serem trotskistas. Depois de 1974, o movimento estudantil foi se reagrupando, fa-
zendo encontros por área e encontros regionais, e pouco a pouco ele começou a se rearticular.
Eu passei a participar da política estudantil, mas não pertencia a nenhum grupo. Como a Uni-
camp tinha um reitor muito ciente de seu espaço e que tinha vindo da Universidade de Brasília

110 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 110-124, janeiro-abril 2018
Entrevista com João Roberto Martins Filho

(UnB), onde havia sido reitor também, então não havia repressão na universidade, como havia
na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na USP, por exemplo. A Unicamp tinha um
espaço mais ou menos preservado, mais ou menos isolado também. A universidade era nova,
mas havia bastante movimentação e algumas atividades culturais. Comecei a me envolver e a
organizar noites de música latino-americana, depois passamos a organizar noites de cinema,
entre outras coisas.

Qual era a pauta política do movimento estudantil naquela época? Tinha uma cone-
xão com a política nacional?

Naquela época, era basicamente uma questão de renascimento do movimento estudan-


til, com muita cautela. Mas, ao mesmo tempo, quando entrei na universidade em março de
1973, houve o assassinato de Alexandre Vannucchi Leme, e fui para São Paulo, na missa da
Sé; lá encontrei vários amigos da Unicamp. O grupo da esquerda da Unicamp se conhecia.
Tinha pouca gente na Unicamp, todos os alunos, de todos os cursos, se conheciam, desde
Medicina, passando pelas Exatas e Humanas. No Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,
os alunos frequentavam o curso básico, onde tinha Linguística, Economia e também Ciências
Sociais, e fazíamos o primeiro ano juntos. Classes grandes, turmas de cem alunos. Mas era bem
pequena perto das outras universidades. Em termos do conteúdo mesmo do curso, havia vários
professores jovens, altamente motivados, alguns moravam aqui em Campinas e outros em São
Paulo. Paulo Sérgio Pinheiro, por exemplo, Décio Saes, que foi meu orientador de Doutorado,
Evelina Dagnino, que tinha acabado de voltar de Stanford. Décio e Paulo Sérgio tinham voltado
da Sorbonne. Havia André Villa Lobos e os antropólogos, eles eram notáveis, pois vieram para
fundar esse curso na Unicamp com o apoio do diretor do IFCH, Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, Fausto Castilho, que faleceu há pouco tempo, mas ele logo foi demitido. Foi ele quem
recrutou esse grupo de antropólogos: Peter Fry, Verena Stolcke, Mariza Correa – que faleceu
recentemente também –,Suely Kofes, Antonio Augusto Arantes. O grupo que tinha mais carisma
era o da Antropologia. Antropologia europeia. Eles chegaram aqui em pleno apogeu da questão
do chamado massacre das populações indígenas no Brasil. No primeiro ano eles nos fizeram
realizar uma longa pesquisa em jornais, para tomar consciência da questão indígena. O jornal
O Estado de S. Paulo, embora houvesse uma ditadura, e estivesse censurado, tinha uma boa
cobertura dessa questão, então era uma situação um tanto híbrida. Um professor, por exemplo,
Roberto Gambini, que era também diretor teatral, foi chamado ao Departamento de Ordem
Política e Social (Dops) e advertido. De repente, suas aulas mudaram. Em um debate conosco,
acabou contando. Não tinha laços com organização nenhuma. Então, vivíamos essa situação:
a repressão estava ali o tempo todo, mas ao mesmo tempo havia uma liberdade de expressão
muito maior do que no Chile, cujo golpe ocorreu em 1973. A queda e a morte de Allende foi um
marco na minha vida de estudante. Uma grande tristeza. Mas no meu segundo ano de faculdade,
em 1974, já havia começado o governo Geisel e teve uma mudança. 

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 111-124, janeiro-abril 2018 111
Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva

Essa mudança foi perceptível na sala de aula e nos corredores da Universidade?

Os professores eram todos muito cautelosos porque havia o risco de prisão, de ser chama-
do para depor etc. Mas eram, em geral, professores de esquerda, o marxismo teve uma grande
presença naquela época, o estruturalista ou o gramsciano; era uma questão de qual marxismo. E,
basicamente, o que vigorava era uma crítica ao nacional desenvolvimentismo. Uma crítica àquela
crença na burguesia nacional, na questão do populismo. As teorias do Francisco Weffort eram muito
presentes. Nós tínhamos professores muito bons, e havia um grupo da minha classe que realmente
levava tudo muito a sério. Era uma geração que lia muito, nós trocávamos livros e líamos muita
literatura latino-americana. Eram pessoas que gostavam mesmo de ler, gostavam de arte, de lite-
ratura, de teatro. Mas era uma universidade do interior. Tinha recursos, e a biblioteca foi crescendo
também, mas ela estava longe do centro político do País. Isso se preservou até que aconteceu um
grande evento na Unicamp, em 1975, organizado por Paulo Sérgio Pinheiro, com a presença de Eric
Hobsbawm, além de grandes nomes das Ciências Sociais na época. Mino Carta tinha contato com
Paulo Sérgio e, então, saiu uma capa da revista Veja, com o título mais ou menos assim: O reduto
da inteligência brasileira. Os professores eram jovens, de um modo geral muito bem preparados,
e alguns ficaram muito conhecidos. Mas ao mesmo tempo havia uma vontade de criticar algumas
teorias vigentes na esquerda, principalmente no Rio de Janeiro, que nos deixou um pouco mal
preparados para entender a realidade do Brasil. Por exemplo, nós não tínhamos o menor preparo
para imaginar que um dia aqueles líderes chamados “populistas”, coisas de museu, voltariam a
ter peso na política nacional. Houve um episódio que me marcou muito, lembro que foi um choque
tremendo: a morte do Juscelino Kubitschek. Ouvi na rádio Jornal do Brasil, às dez horas da noite,
o radialista Eliakin Araujo noticiar: “Acaba de falecer, em um acidente de automóvel na via Dutra,
o ex-presidente Juscelino Kubitschek”. E o que aconteceu nos dias seguintes foi absolutamente
surpreendente. Houve grande comoção popular, e o governo militar nem ousou impedir as manifes-
tações em Brasília. A Cidade parou para receber o corpo de Juscelino. Tinham enterrado o “popu-
lismo” no Curso de Ciências Sociais da Unicamp e, de repente, nos defrontávamos com a memória
fortíssima do populismo. Então, isso mostrou que o nosso curso era muito bom, mas tinha algum
problema de conexão com a realidade. E, depois, Jânio foi eleito prefeito de São Paulo, Brizola foi
eleito governador do Rio de Janeiro, Miguel Arraes voltou a governar Pernambuco e, talvez, Jusceli-
no tivesse sido presidente da República, se não tivesse morrido naquele acidente. 

A que vocês atribuem esse problema de formação para analisar as questões da rea-
lidade política brasileira naquela época?

Parece que havia certo “teoricismo”, uma postura muito intelectualista, um certo des-
prezo por intelectuais como Darcy Ribeiro e Paulo Freire, por exemplo. No Rio de Janeiro
havia uma tradição muito maior de conexão entre a universidade e a realidade política. E na

112 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 112-124, janeiro-abril 2018
Entrevista com João Roberto Martins Filho

Unicamp nós herdamos um pouco da tradição da USP. Mas com a volta dos exilados, a uni-
versidade mudou. José Serra e Luciano Martins voltaram e foram dar aula na Unicamp. Maria
Hermínia Tavares de Almeida começou a dar aula para nós no fim do curso. A partir daí, passou
a ser outro curso. Campinas tinha entre 300 e 350 mil habitantes, no começo dos anos 1970,
embora a universidade tivesse poucos laços com a Cidade. Quando cursei o Mestrado (1978-
1986), a Universidade já era outra.

Seu engajamento no movimento estudantil se deu a partir de 1974/1975, correto? Foi


importante para a decisão do seu tema de conclusão de curso e do seu mestrado?2

Desde 1974 a gente já percebia uma movimentação e não sabia muito bem quem era
quem. Houve, também, a repressão ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), no Araguaia. Nós
tivemos vários colegas em sala de aula que já tinham sido presos por participação na luta arma-
da, que foram barbaramente torturados e depois soltos, pois já tinham cumprido a pena. Com
certeza esse engajamento foi importante, porque a primeira vez que liguei o rádio do carro, um
pouquinho antes das duas horas da tarde, e ouvi que tinha saído uma passeata do campus da
Universidade de São Paulo em direção ao Largo da Batata, em Pinheiros, no começo de 1977, eu
senti uma sensação de “puxa vida, pela primeira vez, depois que saí da universidade, vejo que
voltou a existir o movimento estudantil de rua”. Na época, já não era mais aluno de Graduação,
tinha entrado no Mestrado e continuava a ser professor de cursinhos para adultos. Minha parti-
cipação começou a ser muito intensa no movimento de oposição sindical, como se chamava na
época, dos professores. Aí me envolvi muito com o movimento sindical.

Quando você desenvolveu sua dissertação de Mestrado havia pouca bibliografia


sobre o movimento estudantil para dialogar. Como você estruturou seu trabalho?

Havia o trabalho de Marialice Foracchi, que morreu muito cedo e publicou vários li-
vros, um deles se chama O estudante e a transformação da sociedade brasileira3 e outro
A juventude e a sociedade moderna.4 Então eu tinha essa referência, uma análise mais de
cunho, vamos dizer, marxista, sociológica. Eu li bastante coisa sobre o movimento estudantil
francês. Eu tendia mais para o althusserianismo, no caso da Itália, do II Manifesto, Rossana
Rossanda, o pessoal crítico dos partidos comunistas, mas que eram oriundos dos mesmos
partidos comunistas. E, aqui, no caso do Brasil, Décio Saes. Meu orientador era Caio Na-
varro de Toledo, que havia escrito sobre o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB),
mas Décio Saes tinha feito um trabalho de peso sobre a classe média brasileira. Então eu
inseri o movimento estudantil nesse quadro do Décio. Sobre o movimento estudantil, mais
especificamente, José Luis Sanfelice estava realizando uma pesquisa na área de educação,5
mas eu não sabia do trabalho dele, além de Marcelo Ridenti, que estava desenvolvendo seu

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 113-124, janeiro-abril 2018 113
Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva

trabalho na USP, sobre o qual eu também não tinha conhecimento. Ridenti passou do Mes-
trado direto para o Doutorado e, alguns anos depois, publicou sua tese.6 Tanto eu quanto
Marcelo tivemos de reconstruir toda a trajetória da esquerda brasileira sozinhos. Quando
nós estávamos terminando a Pós-Graduação, saiu o livro de Jacob Gorender.7 Nosso traba-
lho teria sido muito mais fácil. De qualquer modo, fiquei muito tempo estudando a história
da esquerda brasileira, conheci relativamente bem a trajetória da esquerda brasileira. Mas
havia pouca coisa. Como estava dando aula, fiquei sete anos no Mestrado, e quando saiu
o meu livro sobre a dissertação, em fevereiro de 1987,8 foi um sucesso, porque saiu nas
principais revistas: na IstoÉ, como livro recomendado, três páginas na Revista Senhor e no
jornal Leia. É algo que você não pode imaginar hoje. Eu tinha 34 anos, e o livro esgotou
rapidamente. Todas as livrarias tinham o livro. Foi uma tiragem de 2 mil exemplares, e a
editora não quis reeditar, mas era um tema ainda novo. 

Como foi a relação com Caio Navarro de Toledo, que é um nome muito forte nas
Ciências Sociais brasileiras?

O tema de pesquisa de Caio era mais o período final do “populismo”, e ele era muito
crítico com o nacionalismo da esquerda, basicamente, considerando uma ideologia dentro da
esquerda, aquele nacionalismo do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Depois ele
escreveu um livro sobre o governo João Goulart.9 Não havia nenhum debate como vemos ago-
ra Jorge Ferreira recuperando a história do trabalhismo, trabalhos como o de Lira Neto sobre
Getúlio Vargas, de Angela de Castro Gomes, que foi a pioneira no campo. Naquela época, você
fazia o trabalho de pesquisa praticamente sozinho. Já no Mestrado, os alunos tinham auto-
nomia intelectual. Eram alunos que liam muito, que tinham independência, que rapidamente
pegavam o esquema de citações e de como se fazia um trabalho acadêmico. Assim, tínhamos
conversas importantes com os orientadores, mas não era uma orientação. Havia uma relação
de amizade muito forte, porque os alunos também já eram mais maduros, mas ao mesmo
tempo você incomodava muito pouco seu orientador.

Como foi a mudança de tema e de orientador, do Mestrado para o Doutorado?

Comecei o Doutorado em Ciências Sociais na Unicamp, em agosto de 1987, quando o


livro sobre o Mestrado foi publicado. Conversando com Décio, que seria meu orientador natu-
ral, eu propus dois temas: um era estudar as tensões internas das Forças Armadas, outra era
estudar o Poder Judiciário e sua relação com a ditadura. Ele falou que eu iria fazer um bom
trabalho estudando qualquer um dos dois temas e que, portanto, eu deveria escolher. Escolhi

114 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 114-124, janeiro-abril 2018
Entrevista com João Roberto Martins Filho

as tensões militares. O Mestrado havia sido em Ciência Política, mas o Doutorado era na área
de Ciências Humanas, e nós sentávamos ao lado de colegas da Antropologia, da Sociologia
e da Ciência Política. Então, nós saíamos do Doutorado de Ciências Humanas com um bom
repertório teórico. Novamente, foi uma fase de muita leitura. Comecei como professor univer-
sitário na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em 1988. Meu sonho era poder fazer
pesquisa fora do País, e consegui uma bolsa da Fullbright/CNPq, para estudar nos Estados
Unidos. Fui com a minha família. Tânia, minha esposa, foi com bolsa também do CNPq. Nós
ficamos14 meses e foi um período muito bom, porque nos entrosamos muito com o grupo da
revista Latin american perspectives. Meu supervisor foi Ronald Chilcote, que tinha um livro
sobre o PCB. Conheci e fiquei amigo de James Green, que ainda era estudante de Mestrado
naquela época. Tinha também Timothy Harding, ou seja, um grupo muito bom que nos aco-
lheu muito bem. A Universidade de California, Riverside, tinha uma biblioteca muito boa, com
cerca de 30 mil livros sobre o Brasil, onde fiz boa parte de minha pesquisa para a reconstrução
do período abordado na tese, de 1964 a 1969. Embora eu tivesse passado pela experiência
estruturalista, havia muito peso da História na minha formação, então eu privilegiava muito a
dinâmica política. Com o desenrolar da pesquisa, construí a hipótese de que o campo militar
do pós-golpe não se resumia ao conflito entre “duros” que se opunham à moderação dos
“liberais”, que era o grupo de Castelo Branco. Fui percebendo que a dinâmica era muito mais
complexa do que isso.

Hoje, já encontramos muitos trabalhos que aprofundaram a análise sobre as dispu-


tas políticas no âmbito da “caserna” e como elas se refletiam no “palácio”, durante
a ditadura. Seu trabalho é um dos primeiros que analisa, academicamente, a relação
entre essas duas categorias, “duros” e “moderados” (ou o “grupo da Sorbonne”).
Foi difícil pesquisar sobre essas dinâmicas, na época? Havia fonte suficiente?

Ao contrário do trabalho sobre o movimento estudantil, em que eu dialoguei com meia


dúzia de líderes estudantis, durante o Doutorado eu não tinha com quem dialogar. Para o Mes-
trado, conversei com José Dirceu, José Genoíno, David Capistrano Filho, que já faleceu, Jorge
Baptista, que era do grupo da Dilma Rousseff e morreu num acidente de automóvel, Bernardino
Figueiredo, que, se não me engano, era da Ala Vermelha e cursava Geologia na USP. Fui à casa
dessas pessoas entrevistá-las. Para o Doutorado, eu não tinha a menor noção de como conversar
com militares naquela época, nem, tampouco, vontade. Basicamente, reconstruí esse período a
partir da imprensa e dos trabalhos que já existiam, fossem eles trabalhos jornalísticos, crônicas
políticas ou relatos memorialísticos. Como o governo Castelo Branco teve muitos intelectuais,
todos escreveram memórias: Luís Vianna Filho, Mem de Sá, Afonso Arinos. Todo esse grupo de
pessoas deixou memórias, publicadas no fim dos anos 1970, e eu trabalhei com essas narrativas.
Não tinha nenhum preconceito em trabalhar com essas fontes. E outra fonte importante para
mim foi o livro muito mal escrito, mas enorme, do Jayme Portella de Mello,10 que era o chefe do

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 115-124, janeiro-abril 2018 115
Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva

gabinete militar de Costa e Silva e tinha uma visão de como havia sido o golpe militar nos quar-
téis. O grupo de Costa e Silva era mais militar mesmo, no sentido de que tinha menos contato
com a elite política e intelectual do País. Então, Jayme Portella registrou quais eram os bastidores.
Havia temas esperando para serem enfrentados. Por exemplo, um assunto que ficou oculto por
muito tempo foi a influência da doutrina francesa da Guerra Revolucionária, maior até do que da
Doutrina de Segurança Nacional, que deveria ser chamada de Ideologia da Segurança Nacional.
A informação estava lá nos periódicos militares, mas por que não a enxergávamos? Porque havia
a crença de que os Estados Unidos eram os responsáveis pelo golpe, então, por que procurar
outras influências?

Quando você começou a discutir as cisões internas nas Forças Armadas e como elas
refletiram nos governos dos presidentes militares, acabou entrando em uma discus-
são que aparecia muito nos jornais, mas não tinha sido analisada à luz das Ciências
Sociais. Como você acha que seu trabalho foi recebido pela academia brasileira?

O trabalho teve muito menor repercussão do que meu livro sobre o movimento estudan-
til, que esgotou em dois anos. Foi publicado por uma editora média aqui de Campinas, mas
teve uma ampla divulgação e foi muito bem distribuído, mas naquela época saíam poucos
livros por ano, comparado a hoje. Meu segundo livro11 foi publicado em duas tiragens de
trezentos exemplares e ficou anos assim. Praticamente, quem leu e divulgou foi um grupo de
pessoas que trabalhava com uma perspectiva parecida, principalmente o grupo da Revista
de Sociologia e Política do Paraná. Quando o golpe de 1964 completou 40 anos, em 2004,
portanto, nove anos depois da publicação do livro, dei uma palestra na UFRJ, no Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais, e brinquei, dizendo que tinha uma obra completamente clandes-
tina, que ninguém havia lido. Então, durante mais ou menos nove anos, não houve nenhuma
recepção a ele. Depois mudou. Houve um momento em que essa revisão que eu fazia encon-
trou respaldo, principalmente, de pessoas estrangeiras ou que estavam estudando fora, como
Maud Chirio e Rodrigo Nabuco de Araújo, até chegar um momento em que eu comecei, mais
recentemente, a ver até nas histórias escritas por jornalistas. Mas foi um livro que demorou
muito para ter aceitação. Veja, ele foi publicado em 1995 e passou a ter uma aceitação maior,
10, 15 anos depois.

Curioso, porque, hoje sua obra é considerada muito importante para entender o pro-
cesso de consolidação do regime militar. É interessante você falar sobre esse perío-
do em que a obra não teve tanta ressonância, até para pensarmos sobre as leituras
acerca do período ditatorial.

Posso garantir que até 2006, 2007, não havia quase repercussão, depois teve, graças ao
trabalho de alguns professores que gostaram do livro; alguns ficaram meus amigos, outros

116 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 116-124, janeiro-abril 2018
Entrevista com João Roberto Martins Filho

eu não cheguei a conhecer. Era dificílimo conseguir o livro, não tinha essa facilidade de hoje.
Houve uma divulgação do livro na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), graças
a Paulo Vizentini, que tinha uma série de orientandos que estudava a política externa de todos
os governos militares e todos eles usaram meu livro. Teve, também, uma divulgação no âmbito
da UFRJ, com Renato Lemos. Havia o grupo de Curitiba, com Adriano Codato, principalmente.
Havia Marcos Del Roio, na UNESP de Marília. Foram essas pessoas que adotaram o livro em
sala de aula e não deixaram o livro morrer, por incrível que pareça. Com isso, de repente, o
livro chegou à sua geração e hoje é o meu segundo trabalho mais citado. O primeiro ainda é
o do movimento estudantil.

João, você mencionou que, na passagem do Mestrado para o Doutorado, não sabia
se estudaria o Poder Judiciário durante a ditadura ou as tensões militares no âmbito
das Forças Armadas, optando pelo segundo tema. O que especificamente você gos-
taria de estudar sobre o Poder Judiciário? Trabalharia com quais fontes?

Bom, meu pai era juiz; na época, já era desembargador. Eu sempre acreditei que, inde-
pendente do grupo social que se escolheu pesquisar, você tem de procurar as nuances intrín-
secas a esse grupamento. O trabalho é bom na medida em que ele tem uma tese clara, mas
que não simplifique as coisas. Então, achava na época que tinha havido, vamos dizer assim,
uns bolsões de resistência à ditadura no âmbito do Poder Judiciário. Depois, em qualquer outro
trabalho que desenvolvi procurei dar muita importância para essas evidências, de que havia
uma análise fina a ser realizada e que não fosse uma análise já com parti pris, sem enxergar
as nuances. Com relação às fontes, eu usaria pouco as entrevistas, acho que me basearia nas
notícias de jornal e nas memórias. Mas não foi isso que fiz. Lembro que tinha um trabalho, um
dos primeiros trabalhos, de uma coleção de livros pequenininhos.

É de Miranda Rosa,12 uma referência importante para quem estuda a atuação do


Poder Judiciário durante a ditadura militar. Você optou, no Doutorado, por estudar
as Forças Armadas por dentro, e esse tema acabou, de certa forma, sendo central
nos seus estudos e na sua trajetória como cientista político. Você encontrou alguma
resistência por parte dos militares?

Bem, até o fim da minha tese de Doutorado, não havia feito contato com nenhum
militar. Depois, começaram a acontecer esses encontros de estudos estratégicos, e, a partir
de então, os militares passaram a frequentar as salas de aula das universidades. Nesse
momento, já estudava as posições das Forças Armadas brasileiras depois do fim da Guerra
Fria.13 Eu comecei a frequentar os grupos de estudos estratégicos da Unicamp e a conhecer

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 117-124, janeiro-abril 2018 117
Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva

aquilo que pessoas como Eliezer Rizzo de Oliveira, Dreifuss, Eurico de Lima Figueiredo, Ma-
noel Domingos Neto já conheciam e, inclusive, já mantinham contato com militares havia
bastante tempo. Conheci o almirante Flores e o almirante Vidigal nesses encontros, quando
eu tinha acabado de publicar o meu livro. Depois disso, por meio do grupo da Unicamp,
continuei a conhecer e a conversar com essas pessoas, mas a grande mudança foi quando
se fundou a Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED), em 2006, que nos deu
projeção e status muito grandes junto às Forças Armadas. A partir de então, passou a ser
muito fácil para mim entrevistar quem eu quisesse. Na pesquisa sobre a Marinha e sobre o
submarino nuclear,14 entrevistei todos os almirantes mais importantes, e já havia cultivado
outros contatos. A partir de então, passamos a viver outra época. A época da desconfiança
completa, que coincidiu com o momento em que terminei meu trabalho; em 1995 havia
terminado. Depois, foi a época dos encontros, em que surgiu uma corrente de estudos mi-
litares que era muito próxima do problema concreto: Eliezer, Eurico, Maria Celina D’Araújo,
Ernesto López e Luiz Tibiletti, na Argentina. O grupo que hoje é sênior, era um pouco baixo
clero, meus amigos eram Héctor Saint-Pierre, Samuel Alves Soares e Suzeley Kalil Mathias.
Em seguida, temos a terceira fase, quando as Forças Armadas passaram a ter interesse no
contato com os especialistas da área de defesa. Essa já é a fase de uma área consolidada
na universidade e são os acadêmicos que têm a hegemonia. Os militares são muito ativos,
mas com hegemonia civil. Tem a ver com a criação do Ministério da Defesa, em 1999. Então,
a geração mais antiga, principalmente Eurico de Lima Figueiredo, atuou conosco, formando
duas gerações de pesquisa que passaram a atuar juntas na ABED.

Gostaria que você falasse sobre suas pesquisas acerca da Marinha.

Estudei a Marinha brasileira no período da grande relação desta força com a Marinha
inglesa, quando foi feita a compra dos encouraçados. Foi o período em que estive como pes-
quisador visitante no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, entre outubro
de 2006 e março de 2007. Eu voltei a ser um historiador em certo sentido, passei a estudar
o começo do século XX. Dediquei-me somente a esse tema e ao período durante um bom
tempo, por cinco, seis anos. Depois, percebi que gostaria de voltar a estudar o regime militar.
Em 2013, quando terminei a pesquisa sobre a Marinha nos anos 1950, surgiu a ideia de pes-
quisar a relação do Brasil com a Inglaterra. A iniciativa só deu certo porque surgiu a chance da
cátedra Rio Branco, no King´s College, em Londres, patrocinada pela Capes e pelo Itamaraty,
no primeiro semestre de 2014.

Em geral, as pesquisas, no Brasil, sobre militares concentram-se na atuação do Exér-


cito. Você teve de mudar sua estratégia de pesquisa para estudar a Marinha?

118 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 118-124, janeiro-abril 2018
Entrevista com João Roberto Martins Filho

Devo ter ficado dez anos estudando a Marinha, e, claro, meu trabalho mudou comple-
tamente, porque precisei me defrontar com a questão da tecnologia, da história e da teoria
estratégica naval. Inclusive, lá na UFSCar eu tinha muita liberdade. Eu dava um curso de
guerra e política, no qual eu ensinava os principais teóricos da Estratégia. Tive de conhecer
bem esses três aspectos dos estudos da Marinha, que sempre são minoritários no âmbito
dos estudos militares, mas é muito difícil porque você tem de aprender o nome dos navios,
a questão da propulsão, a da tonelagem e a da estratégia naval, da história das batalhas,
dediquei-me a tudo isso.

E quando você estuda a Marinha, trabalhos clássicos sobre militares, como os de


Edmundo Campos Coelho e José Murilo de Carvalho, por exemplo, auxiliaram na sua
compreensão do objeto ou foi necessário buscar outras referências bibliografias,
mais específicas, para pensar a atuação da força naval?

Eu li essas obras para fazer a tese do Doutorado. No Brasil, havia alguma coisa escrita
por Domício Proença, principalmente escrita por Salvador Razza, que tinha sido oficial da Ma-
rinha e chegou até a comandar as fragatas, mas ele saiu muito cedo, com 45 anos. Se você não
passa para oficial-general, sai da força, então ele acabou indo para o meio acadêmico. Para
conhecer a área de engenharia, no Mestrado Estratégico, a obra de Domício era importante,
juntamente com a de Eugênio Diniz. Basicamente, segui um pouco esses estudiosos, que já
tinham aberto esse caminho. A Escola Anglo-saxônica é uma referência para estudos nessa
área, para todo o grupo de estudiosos estratégicos que tinha surgido no começo dos anos
1960, na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Como mencionado, depois dos estudos sobre a Marinha, você começou a ter no-
vamente interesse por estudar o regime militar brasileiro, em uma conexão com a
política externa, mais especificamente nas relações do Brasil com a Inglaterra. Como
foi o início dessa pesquisa? Você se deparou com algum arquivo específico?

Sim, nos National Archives, em Kew. Fui lá dez vezes para fazer uma pesquisa sobre o pe-
ríodo de 1895 a 1910. Depois, estava estudando a política naval nas décadas de 1950, 1960 e
1970, comecei a pesquisar os relatórios dos embaixadores e a ver que, durante os anos 1970,
eles tentavam diminuir a importância da tortura no Brasil, dado o interesse que eles tinham,
naquela época, em manter uma boa relação comercial com o Brasil. Pensei que estava aí um
bom tema. Até porque os temas que estudei nunca me abandonaram e me sentia muito mais
à vontade no meio dos professores universitários, do que no meio dos oficiais militares. Não
tinha muita vocação, tive de conversar com ministros na época da ABED, mas não era a minha

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 119-124, janeiro-abril 2018 119
Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva

seara. Estava muito mais à vontade no Congresso da Associação Nacional de História (ANPUH),
por exemplo. Senti vontade de não precisar fazer os contatos formais, voltar à minha origem. Bem,
estava com essa perspectiva, quando apareceu uma chance de conseguir a cátedra Rio Branco,
isso já em 2013. Havia estado na Inglaterra por 45 dias, entre janeiro e fevereiro, para terminar
a pesquisa da Fapesp sobre a Marinha brasileira, em suas três fases: a fase dos encouraçados,
a das fragatas e a do submarino nuclear. Então, como já estava terminando a pesquisa sobre o
submarino nuclear – o primeiro artigo foi publicado em 2010 –, resolvi apresentar-me ao King’s
College. Por ser uma cátedra em Relações Internacionais, a relação da ditadura militar brasileira
com as democracias europeias, no caso a Inglaterra, tinha a ver. Essa pesquisa se transformou no
estudo que recebeu o nome de Segredos do Estado: o governo britânico e a tortura no Brasil entre
1969-1976, e isso aconteceu por acaso.

Seu mais recente livro publicado.15

Sim. Quando cheguei à Inglaterra, ainda nos primeiros dias, a BBC estava fazendo uma
matéria sobre o uso das técnicas de tortura inglesas no Rio de Janeiro. Então, eles me convida-
ram para conversar, para testar se estavam no caminho certo e me mostraram um documento
do governo de Ernesto Geisel (1974-1979), em que um general falava para um diplomata: “nós
estamos usando o método inglês, nós estamos nos guiando pelo manual inglês’”. Eu disse de
início que parecia estranho, porque o governo Geisel estava preocupado em desestruturar esses
grupos e não em ativá-los ou criar alguma coisa paralela. Mas de qualquer modo, disse que iria
pesquisar documento por documento e voltaria para conversar com eles. De repente, encontrei
um despacho, o único documento encontrado até hoje, uma folhinha, uma carta anexada a um
relatório. Todos esses relatórios anuais de embaixadores tinham sido pesquisados pelo jornalista
Geraldo Cantarino, que publicara dois livros sobre a relação da Inglaterra com o Brasil,16 um
deles na mesma época em que eu estava começando minha pesquisa, mas ele não tinha visto
essa carta anexada a um relatório sobre a tortura no Brasil. Ele havia lido o relatório e não a car-
ta. E na carta, o embaixador diz: “Como vocês sabem aí em Londres, quando os brasileiros nos
procuraram, nós demos assessoria, mas não fazemos mais isso desde o início do ano passado.” A
carta é de agosto de 1972. Com isso, eu mandei cópia do documento para a BBC, que o publicou
na matéria e mostrou na televisão.

Seu livro é importante para pensar a questão da tortura e o conhecimento dos


militares sobre a prática durante a ditadura brasileira. Como você avalia a contri-
buição da sua obra?

Uma das minhas linhas de pesquisa havia sido as influências dos influxos externos na
política brasileira. Eu pesquisei as relações entre Brasil e Estados Unidos em 1997, fui para a
Universidade da Califórnia, em Los Angeles, onde fiquei por três meses com bolsa da Fapesp.

120 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 120-124, janeiro-abril 2018
Entrevista com João Roberto Martins Filho

Depois, pesquisei, aqui no Brasil, a influência da doutrina francesa nas Forças Armadas bra-
sileiras e, mais recentemente, a questão da influência inglesa. Só que, originalmente, o tema
não era esse, meu objetivo era estudar questões de política internacional: como o governo
inglês conciliava seus interesses comerciais no Brasil com a pressão da opinião pública in-
glesa, principalmente da Anistia Internacional, contra a tortura e o genocídio de índios no
Brasil. Esse foi o meu projeto, mas lógico que passava pela questão da tortura e pela atuação
da Anistia Internacional, que lutava contra a violação dos direitos humanos no Brasil. Basi-
camente, desenvolvi um trabalho que falava muito da Anistia Internacional, mas ao mesmo
tempo lançava essa questão de como se usou o que se chamava de técnicas irlandesas aqui
no Brasil, mostrando, inclusive, que no Brasil essas técnicas foram aplicadas antes mesmo de
serem usadas na Irlanda.

Em 2010, você publicou o artigo Tensões militares no governo Lula, de 2003 a 2009:
a pré-história do acordo com a França.17 Você se propôs a analisar a atuação política
das Forças Armadas a partir de quatro situações específicas: a queda do ministro da
Defesa, José Viegas, a ascensão de Nelson Jobim ao cargo, a entrega de três jovens
moradores do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, a traficantes, por integrantes
das Forças Armadas que estavam em ação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), e,
por fim, a crise em torno do reconhecimento da Reserva Indígena Raposa Serra do
Sol. Você ressalta que, naquele momento, vivíamos um período de relações civis
militares consolidadas, além de outras questões importantes do primeiro governo
Lula, no que diz respeito à atuação das Forças Armadas: a Missão de Paz no Haiti, a
cooperação militar com a França, a iniciativa de criação do Conselho Sul-americano
de Defesa, entre outras. Como você avalia, de 2015 para cá, a questão das relações
civis militares no Brasil e como isso afeta a democracia brasileira?

Penso que desde o começo dos anos 1990, desde o fim do governo José Sarney (1985-
1990), portanto o governo Fernando Collor/Itamar Franco (1990-1994), Fernando Henrique
Cardoso (1995-2002), Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), estava havendo um progresso
lento para o controle civil e democrático das Forças Armadas, que se adaptaram inclusive a
isto, mas era tudo muito lento se você comparar com o que acontecia na Argentina. Mas, ao
contrário do que dizia Jorge Zaverucha, acho que esse processo não estava parado, acho que
havia uma lenta movimentação no sentido de democratização. Isso é um ponto. Outro ponto
é que tanto Fernando Henrique quanto Lula e, depois, Dilma Rousseff (2011-2016), tiveram
sempre muito  escrúpulo  de comandar as Forças Armadas e ter uma política de defesa. As
Forças Armadas, quando terminou o governo Fernando Henrique, estavam muito insatisfeitas
com a política do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que era uma política de con-
tenção de gastos e sem ênfase em questões de defesa nacional. Lula assumiu, inclusive com

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 121-124, janeiro-abril 2018 121
Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva

o conhecimento que José Genoíno – um dos quadros centrais do Governo – tinha do assunto,
apresentando uma perspectiva de mudar a área, definindo uma política mais sul-america-
na e, ao mesmo tempo, uma política mais autônoma, com Forças Armadas mais modernas.
No começo do governo, Lula nomeou um bom ministro da Defesa, José Viegas, mas o dei-
xou completamente sem diretriz, e com o escândalo do “mensalão”, o Governo se deslocou
completamente para o mandato, e as políticas de defesa ficaram sem atenção. Não fosse o
acidente aéreo que provocou a nomeação do ministro Nelson Jobim, com carta branca, não
haveria uma política de defesa até então, que pudesse ser chamada por esse nome. Havia uma
lenta evolução da questão depois da criação do Ministério da Defesa, mas tinha sido criado
ainda no governo Fernando Henrique. A condução do ministro Jobim foi algo próximo de um
comando civil dos militares, e, em seu segundo governo, Lula retomou o projeto do submarino
nuclear, um tema importantíssimo que sobreviveu, inclusive, à crise atual. Nós estávamos
nessa situação quando estourou a crise política: a campanha de 2013 e o governo de 2014.
O governo Dilma já começou mal, com um ministério muito ruim, com uma tentativa de fazer
uma política conservadora, que também não funcionou, e, depois disso, abriu-se a crise do im-
peachment. O mundo civil estava totalmente destruído – e isso, inclusive, era uma das metas
dessa nova judicialização da política, ou seja, deslegitimar o sistema político para poder punir
os corruptos. Então, quando os políticos são transformados metódica e estrategicamente em
bandidos, como eles vão poder comandar as Forças Armadas? Não há legitimidade. As Forças
Armadas tomaram uma atitude de não ingerência, o que foi muito bom, mesmo porque as
elites brasileiras não queriam que elas interferissem, mas queriam tê-las ali como uma espécie
de aliado estratégico, se fosse necessário, como reserva. Mas acho que as Forças Armadas
e seus oficiais embarcaram na onda reacionária que tomou conta do Brasil, e eles estavam
muito preocupados com a mobilização social, que, no fim, acabou não acontecendo em larga
escala. O Governo não provocou uma rebelião social, mas os militares com certeza estavam
muito preocupados com isto. E daí para a frente acho que os militares encararam as ações do
governo de Michel Temer como algo bom. No entanto, com tudo que aconteceu depois disso,
eles devem estar começando a rever o preço que tiveram de pagar para derrubar o governo
Dilma – que eles não interferiram ou participaram diretamente, mas viram até com simpatia,
como o resto da classe média – em termos, por exemplo, de ver a revogação da Reserva
Nacional de Cobre e Associados (RENCA), na Amazônia, que foi criada no último governo
militar. Depois, a questão da negociação entre a Embraer e a Boeing. Todas essas medidas,
claramente antinacionais, devem estar gerando certa revisão dos militares quanto ao apoio ao
governo Temer. Ao mesmo tempo, acho que houve um avanço das forças conservadoras dentro
das Forças Armadas. O comandante do Exército, por exemplo, que é um moderado, sofreu uma
grande pressão desses grupos mais ativistas. Então, acho que foi um estrago tremendo nas
relações civis militares, em uma democracia destroçada.

122 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 122-124, janeiro-abril 2018
Entrevista com João Roberto Martins Filho

Você mencionou que sempre buscou ter uma visão das nuances dos grupos sociais
que compõem uma instituição e, no seu caso de pesquisa, das Forças Armadas. Você
acha que há novas nuances no âmbito do Exército, especificamente, que há novos
grupos gerando uma cizânia ou não é algo tão radical como no período ditatorial? 

Veja, eu não tenho informação em primeira mão, mas há profissionais que ficam pensando,
a longo prazo, o que vai ser das Forças Armadas e querem manter o programa de modernização
da Aeronáutica e da Marinha, mas não querem envolver o Exército no crime organizado, porque
isso não vai dar certo. Mas acho que houve um avanço de grupos neoliberais que pensam que
é hora de começar a abandonar a ideia de desconfiança face aos Estados Unidos. O Brasil deve
fazer aliança com os Estados Unidos quando for necessário. Diante do clima político que o Brasil
está vivendo, seria impossível que isso não tivesse impacto nas Forças Armadas. Mas isso são
suposições, não tenho informações em primeira mão sobre o assunto. 

Algumas ações mencionadas por você acabam nos levando a conversar sobre o
dispositivo da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) que é, de certa forma, polêmico,
porque está sendo acionado muitas vezes para falar em intervenções militares. Esse
é um dispositivo que começou com o governo Fernando Henrique Cardoso, com a
edição de algumas leis complementares, e que depois foram se modificando nos
governos dos presidentes Lula e Dilma. Como você vê, para a qualidade da demo-
cracia, pensando inclusive no plano constitucional, a existência desse dispositivo e
das possíveis ações da GLO no Brasil?

Não há dúvida nenhuma, houve um excesso, principalmente por causa dos eventos es-
portivos mundiais, em que o Governo teve de colocar as Forças Armadas para impedir o fra-
casso e a vergonha do Brasil internacionalmente, e a aprovação da lei antiterrorismo, tudo isso
foi feito pela Dilma, e houve um recuo nesse ponto. Acho que, de certa maneira, os governos
do Partido dos Trabalhadores (PT) evitaram, evidentemente, jogar tropas militares contra movi-
mentos sociais e acredito que haja uma diferença em relação ao governo Fernando Henrique.
Acho que o Exército sempre se deixou seduzir pela ideia da popularidade desse tipo de ação
da GLO, mas acho que agora o Exército está cada vez mais preocupado em colaborar nesse
aspecto com um Governo tão absolutamente ilegítimo quanto o de Temer, e queimar a insti-
tuição. Apesar de o entusiasta dessas ações ser o atual ministro da Defesa, Raul Jungmann, ele
mesmo disse, recentemente, que não se deve usar as Forças Armadas em ações de segurança
pública. Mas, ao mesmo tempo, prorrogou a intervenção dos militares no Rio de Janeiro até
o fim de 2018.

João, muito obrigada por sua entrevista.

O prazer foi meu.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 123-124, janeiro-abril 2018 123
Concedida a Angela Moreira Domingues da Silva

Notas

1 Angela Moreira Domingues da Silva é professora adjunta da Escola de Ciências Sociais e do Programa de
Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais da Fundação Getulio Vargas (angela.moreira@fgv.br).
2 MARTINS FILHO, João Roberto. Movimento estudantil e militarização do Estado no Brasil, 1964-1968.
Dissertação de Mestrado em Ciência Política, Unicamp, Campinas, 1986.
3 FORACCHI, M. M. O estudante na transformação da sociedade brasileira. São Paulo: Cia. Editora Nacional,
1965.
4 FORACCHI, M. M. A juventude e a sociedade moderna. São Paulo: Pioneira, 1972.
5 SANFELICE, J. L. Movimento Estudantil: a UNE na resistência ao Golpe de 64. Tese de Doutorado em
Educação, PUC, São Paulo, 1985.
6 RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira: raízes sociais das esquerdas armadas, 1964-1974.
Tese de Doutorado em Sociologia, USP, São Paulo, 1989. A primeira edição do livro foi publicada em 1993
pela editora UNESP/FAPESP, São Paulo.
7 GORENDER, Jacob. Combate nas trevas: a esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. 1. ed.,
São Paulo: Editora Ática, 1987.
8 MARTINS FILHO, João Roberto. Movimento estudantil e ditadura militar, 1964-68. 1. ed. Campinas: Papi-
rus, 1987.
9 TOLEDO, Caio Navarro de. O governo Goulart e o golpe de 1964. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1982.
10 MELLO, Jayme Portella de. A revolução e o governo Costa e Silva. Rio de Janeiro: Ed. Guavira, 1979.
11 MARTINS FILHO, João Roberto. O palácio e a caserna: a dinâmica militar das crises políticas na ditadura.
1. ed. São Carlos, SP: Edufscar, 1995. 
12 ROSA, Fellipe Augusto de Miranda. Justiça e autoritarismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
13 Refere-se ao projeto “Forças Armadas e política no Brasil do pós-Guerra Fria: um novo código opera-
cional?”, desenvolvido entre 2005 e 2008, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq).
14 Refere-se aos projetos “Forças Armadas, tecnologia e sociedade: a Marinha brasileira (1904-2004)”, de-
senvolvido entre 2006 e 2008, e “De fragatas e submarinos: os dilemas da modernização da Marinha brasi-
leira (1970-2010)”, desenvolvido entre 2011 e 2013, ambos com financiamento da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
15 MARTINS FILHO, João Roberto. Segredos de Estado: o governo britânico e a tortura no Brasil (1969-
1976). Curitiba: Ed. Prismas, 2017.
16 CANTARINO, Geraldo. 1964: a Revolução para inglês ver. Rio de Janeiro: Ed. Mauad, 1999; e A ditadura
que o inglês viu, Rio de Janeiro: Ed. Mauad, 2014.
17 Publicado na Revista brasileira de Ciência Política, v. 4, p. 283-306, 2010.

124 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 31, nº 63, p. 124-124, janeiro-abril 2018

Você também pode gostar