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ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009.

O “rufado” dos tambores na cidade do santo: mapeamento histórico das


religiões afro-amazônicas na cidade de Belém (1900-1939)

Juliana da Mata Cunha* 1

Resumo: O trabalho analisa a organização sócio-espacial das religiões de matriz africana na


cidade de Belém (PA) nas três primeiras décadas do século XX, realizando uma análise
comparativa em relação à distribuição dos terreiros em Belém na atualidade. A partir de
colunas literárias e notícias sobre repressão a “pajelanças”, “batuques” e “feitiçarias” buscou-
se mapear tais práticas para se compreender como as mudanças e transformações decorrentes
do desenvolvimento urbano neste período interferiram na organização e utilização dos
diversos espaços da cidade pelos praticantes das religiões afro-amazônicas. Assim, buscou-se
identificar os elementos e os espaços referenciais destas práticas religiosas no presente, de
modo a fornecer subsídios às ações da SR-IPHAN/PA e AP para o reconhecimento das
religiões afro-amazônicas enquanto significativas referências culturais para a sociedade.

Palavras-chave: Terreiros – Batuques – Pajelança

Abstract: The work analyses the social and spatial organization of the African religions in the
city of Belem (PA) in the three firsts decades in the twentieth century, realizing one
comparative analyze of the distribution of terreiros in Belem in the present time. Using
literature columns and news about repression to “pajelanças”, “batuques” and “feitiçarias”,
searches to delineate such practices for the comprehension how the changes and
transformations of the urban development in this period interfere in the organization and
utilization of the several city spaces by the afro-amazônicas religions practitioners.
Consequently, searches to delineate the elements and the spaces in these practices in the
present situation, furnishing elements for the actions of SR-IPHAN/PA and AP for the
recognition of the afro-amazônicas religions while meaningful cultural references for the
society.

Key words: Terreiros – Batuques – Pajelança

Buscando situar o objeto de estudo dentro das atuais questões relacionadas às recentes
demandas da Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (IPHAN) no Pará, o presente trabalho se propôs a realizar um mapeamento histórico
das religiões de matriz africana nas três primeiras décadas do século XX, buscando perceber
as relações mantidas com o espaço urbano e com a própria sociedade. A escolha do tema
partiu do interesse da unidade em atender a uma solicitação informal dos praticantes dos
cultos de matriz africana de Belém, os quais desejavam ser contemplados pelas políticas de
valorização e reconhecimento cultural pelo IPHAN.

* O presente trabalho foi produzido no âmbito do Programa de Especialização em Patrimônio do Instituto do


Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, com auxílio das instituições Fundação Universitária José
Bonifácio e Fundação Darcy Ribeiro.

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Havendo uma grande necessidade de se conhecer melhor estas religiões e de


compreender sua organização e disposição na cidade, optou-se pelo mapeamento histórico e
estudo da própria organização destas práticas culturais na cidade. Neste sentido, buscou-se
compreender como as mudanças e transformações decorrentes do desenvolvimento urbano no
início do século interferiram na organização e utilização dos diversos espaços da cidade de
Belém pelos praticantes das religiões de matriz africana. O recorte temporal foi definido com
base em momentos referenciais da trajetória histórica das religiões de matriz africana em
Belém, neste caso, mais especificamente o período dado como o de sua origem e organização
nesta cidade.
Partindo da perspectiva da História Cultural, analisamos notas policiais e contos
folhetinescos de jornais da cidade com o objetivo de buscar informações sobre a organização
das religiões de matriz africana em Belém, procurando apreender as representações feitas
pelos intelectuais e grupos dominantes em relação a estas práticas religiosas e compreender
como influenciaram na relação dos praticantes de tais cultos com a cidade e com a sociedade.
Deste modo, utilizamos o conceito de “representação” empregado por Roger Chartier, que
define o termo como “o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada
realidade social á construída, pensada, dada a ler” (CHARTIER, 1987, p. 17).
Por outro lado, também se fez uso da metodologia da História Oral para se tentar
perceber os diferentes usos e apropriações dos espaços da cidade de Belém pelos membros
das religiões de matriz africana na contemporaneidade, procurando compreender a forma
como os afro-religiosos representam e valorizam lugares que foram historicamente
apropriados como significativos referenciais de memória e identidade dos diversos grupos
praticantes das religiões de matriz africana.
Tomando como referência a memória que o “povo do santo” tem da origem das
religiões de matriz africana na cidade de Belém; assim como o momento das grandes
transformações urbanas implantadas na mesma, resolveu-se tomar como ponto de partida o
início do século XX. Afinal, neste momento as mudanças e transformações no espaço urbano
já ocorriam de forma acelerada, interferindo diretamente na organização e utilização do
espaço urbano pelos praticantes das religiões afro-amazônicas.
Sendo religiões fundamentalmente de tradição oral, logo de pouca ou nenhuma
produção escrita sobre sua história, resolveu-se partir para pesquisas em jornais da época,
buscando em páginas policiais e em outras colunas qualquer informação sobre estas práticas
religiosas no espaço urbano. A pesquisa demonstrou-se bastante profícua, fornecendo dados
importantes sobre a relação e a interação entre os diversos sujeitos históricos que contribuíram

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para a constituição das religiões de matriz africana, bem como sobre a organização destes
cultos pela cidade, entendendo este processo de organização, como distribuição, interação e
exclusão destes sujeitos no espaço urbano, que também foi ressignificado a partir dos novos
paradigmas da modernidade.
A reforma urbanística da cidade de Belém foi realizada sob os auspícios da rica
produção gomífera na Amazônia na transição do século XIX para o XX; sendo vivenciada
com maior intensidade nas primeiras décadas do século XX a partir de uma série de
regulamentações impostas à cidade e à vida social da população. Regulamentações que
tinham como desígnio transformar a cidade em um modelo de desenvolvimento, progresso e
“civilização”. Assim, o desígnio de transformar Belém em uma “Paris nos Trópicos” previa
não só o embelezamento da cidade como diversas regulamentações dispostas a manter a
ordem e a disciplina na urbe. Foram elaborados Códigos de Postura, Reformas Sanitárias,
Políticas Higienistas, além de outras várias leis que buscaram expurgar a população pobre do
centro da cidade. Tudo isto, por sua vez, implicava não só no embelezamento da cidade como
também na criação de toda uma estrutura urbana de pavimentação das ruas, habitação,
transporte e saneamento, fazendo-se imperativo a exclusão de indivíduos indesejáveis e de
suas moradias das áreas mais privilegiadas da urbe (SARGES, 2000).
Assim foi que os diversos sujeitos históricos que contribuíram para a constituição das
religiões afro-amazônicas também tiveram suas atividades completamente marginalizadas,
tornando-se alvos privilegiados das políticas públicas que passaram a enfatizar a salubridade
urbana e privilegiar a medicina oficial em detrimento das suas práticas “mágico-religiosas”.
Contudo, embora fossem constantes as perseguições policiais aos pajés e às “casas de
feitiçaria”, estes continuavam a disputar áreas centrais da cidade de Belém com nobres
residências e estabelecimentos comerciais (FIGUEIREDO, 2003). Isto porque as opiniões
sobre estes sujeitos e suas práticas eram as mais variadas. E não só entre a população como
também entre a intelectualidade, que em alguns momentos clamava em favor da civilização e
da racionalização dos costumes do povo repletos de superstições e em outros tomava a defesa
das suas crenças tradicionais sob o discurso do folclore e da preservação da cultura popular.
Estas idéias vão influenciar diretamente na forma como os cultos de matriz africana
vão ser representados nos jornais e, por conseguinte, na forma como vão ser tratados pelos
grupos dominantes que estão à frente das reformas urbanísticas e que estão buscando o ideal
de civilização e modernidade. A partir das notícias de repressão policial, percebeu-se que o
que era comumente chamado e repreendido como pajelança, incluía algumas vezes, práticas e
elementos de tradições religiosas africanas. Embora a pajelança não fosse aceita e comumente

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fosse coagida como uma prática ilegal e supersticiosa que contrastava com a racionalidade e
modernidade almejada por aqueles grupos do poder que buscavam um padrão de civilização
europeu, pior seria assumir a existência de religiões africanas na cidade.
Vivendo a tensão entre a valorização das diferentes feições e elementos que
compunham o povo brasileiro e o desígnio de se fazer estabelecer uma sociedade branca
conforme os padrões europeus, os intelectuais do início do século estavam empenhados em
desvendar as bases da identidade regional da Amazônia a partir da valorização da cultura
indígena. Construiu-se, deste modo, um tipo racial ideal para o homem amazônico a partir de
suas feições indígenas, rejeitando, por outro lado, a figura do negro como um dos
componentes étnicos da população local. Neste sentido, os intelectuais paraenses procuraram
ressaltar apenas a genuína herança cultural indígena em detrimento da influência das práticas
culturais africanas e da própria presença do negro, compreendida como irrelevante perante a
predominância histórica, cultural e social do índio na Amazônia (FIGUEIREDO, 1996).
De tal modo, quando eram evidenciados aspectos da herança cultural africana na
pajelança, havia todo um discurso para justificar estes elementos, sendo o principal o da
degeneração da pura pajelança amazônica pelos imigrantes nordestinos que vieram para
Belém à época da exploração da borracha e que traziam reminiscências de tradições culturais
alheios, como as heranças africanas dos escravos negros por exemplo (FIGUEIREDO,
1996). 2
As práticas religiosas que diferiam do tradicional catolicismo e que eram também
entendidas como práticas de feitiçaria, pajelança, de cura etc. enfrentavam neste período,
grande perseguição por parte das autoridades, mas apesar de todas as políticas de perseguição
instituídas pelo poder, continuavam a ocupar o centro da cidade, disputando lugares nobres da
cidade com consultórios médicos, hospitais, casarões e prédios públicos. Fazendo-se
firmemente presente na cidade, a repressão aumentava cada vez mais. No entanto, é
importante destacar que tal resistência só era possível porque também contava com o apoio de
pessoas influentes na cidade, por isso alguns dificilmente eram presos, o que também não
deixou de causar a indignação de outros indivíduos, especialmente aqueles que estavam
preocupados com a imagem de atraso da cidade perante outras cidades, ou seja, àqueles que
estavam muito mais próximos dos ideais de civilização propostos pelos grupos que ocupavam
o poder.

2
Durante o I Ciclo da Borracha (1870-1912), a idéia do fausto vivenciado pelas capitais amazônicas a partir das
riquezas geradas pela exportação da borracha trouxe uma grande leva de imigrantes nordestinos, que fugindo
da seca eram atraídos pela oferta de trabalho e enriquecimento rápido.

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Todavia, na década de 1920 isto parece se modificar um pouco, pois já é possível


perceber uma mudança de postura de alguns literatos em relação à herança cultural africana.
Já sendo possível perceber em algumas notas literárias, práticas culturais reconhecidamente
tradicionais da “religiosidade negra” que tratam do Candomblé, dos batuques e da cultura
africana como algo digno de valor, embora relegados a um passado longínquo ou restritos
apenas à apenas alguns lugares da cidade onde a modernização e estrutura urbana civilizada
ainda não se fazem muito presente. Como uma ação valorativa que se constitui muito mais
numa tentativa de relegar à morte, ao distante e ao passado aquilo que ainda resiste com toda
a força no presente.
Aqui é interessante perceber como aos poucos as tradições culturais africanas, antes
percebidas como algo externo, vindo de outra região, de outros estados, vai aos poucos sendo
representada dentro dos espaços da cidade. No momento assinalado acima, estas práticas
ainda aparecem como distante, no entanto, já são percebidas como algo bastante presente nas
periferias da cidade. São representações influenciando uma realidade que também faz parte
destas representações à medida que ajuda a construí-las.
Em 1927, há outro momento interessante, que é o da visita de Mário de Andrade à
Belém, pois quando este resolve ir à casa de um famoso pajé da cidade, chamado Satyro de
Barros, percebe nos rituais praticados por este, elementos da “feitiçaria africana”, típicos do
Candomblé. Não obstante, é somente com a vinda da Missão de Pesquisas Folclóricas, em
3
1938, que foi possível se registrar uma mudança significativa na análise das religiões
amazônicas. Primeiro, porque o ritual registrado e analisado pela Missão apresentava muito
pouco do que era descrito como pajelança pelos intelectuais do século XIX, figurando mais
como um “candomblé amazônico” do que um ritual puramente indígena; depois, porque a
própria equipe buscou discutir em seu trabalho o “modelo” de culto africano encontrado na
região. Assim, de acordo com o material divulgado sobre a pesquisa da Missão no Pará, a casa
do pajé visitado por Mário de Andrade em 1927 e novamente analisado pela equipe de
pesquisas folclóricas era, na realidade, um terreiro onde se praticava um diferente modelo de
culto, o “Babassuê”, ou batuque de louvação a Santa Bárbara, sendo denominado pelo chefe
do terreiro, Sátiro Ferreira de Barros, como batuque ou tambor de mina (FIGUEIREDO,
1996).

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Financiada pelo Departamento de Cultura de São Paulo, a Missão de Pesquisas Folclóricas foi idealizada e
orientada por Mário de Andrade. A equipe era formada por Luís Saia, Martin Braunwieser, Benedicto
Pacheco e Antônio Ladeira. Deixou São Paulo em fevereiro de 1938 rumo ao Ceará, Pernambuco, Paraíba,
Piauí, Maranhão e Pará.

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É conveniente destacar que o trabalho da Missão de Pesquisas Folclóricas sobre o


“Babassuê” no Pará também foi um importante marco para a constituição de uma linha de
estudos sobre as religiões afro-amazônicas (FIGUEIREDO, 1996). Sendo fundamental para a
compreensão de como as pesquisas dos folcloristas ligados ao movimento modernista
proporcionaram novos enfoques interpretativos sobre as religiões e sobre a cultura amazônica,
que até então tinha como símbolo somente a figura do índio, do mestiço e do pajé.
Neste mesmo contexto da década de 30, os intelectuais paraenses se voltam para a
discussão sobre a presença de elementos de matrizes culturais africanas na cultura e
religiosidade amazônica. Dentre os intelectuais paraenses modernistas que reconheceram e
passaram a estudar a influência da cultura negra no Pará, Bruno de Menezes é o que mais se
destaca. Assíduo freqüentador de terreiros tornou-se muito conhecido pela publicação da obra
“Batuque” em 1931, escrevendo ainda outras obras sobre as crenças religiosas e práticas
culturais dos negros no Pará.
Porém, apesar do empenho dos modernistas paraenses em divulgar a contribuição do
negro à cultura regional a postura contrária em relação à cultura de matriz africana
permaneceu; principalmente no que diz respeito à religiosidade. De tal modo, é que no final
da década de 30, a repressão sobre os cultos praticados nos terreiros aumenta. Em 1938 os
intelectuais da cidade entregam um memorial ao Interventor José Malcher solicitando o
reconhecimento e a liberdade de culto para as manifestações religiosas afro-brasileiras da
cidade de Belém (SALES, 2004), todavia, membros dos cultos são presos e uma grande
polêmica é gerada.
Nesse contexto dos anos 30, a promoção de determinados aspectos da herança cultural
africana apresentava significativas similaridades com a exaltação mítica do índio no final do
século XIX, pois embora estes fossem idealizados como componentes simbólicos
característicos da cultura nacional, a evidência nas formas simbólicas de integração não lhes
conferia condições de igualdade na sociedade brasileira. 4
A partir das informações obtidas na análise das notas policiais e literárias dos jornais
pôde-se compreender como as diferentes representações construídas sobre as religiões afro-
amazônicas influenciaram na organização destas práticas na cidade, especificamente na luta
por representações, em que ora estas práticas apareciam sob perspectivas literárias do folclore,

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Alicerçado no ideário romântico europeu, o romantismo brasileiro buscou delinear um caráter nacional para o
Brasil através da valorização da imagem heroicizada do índio, tomado como símbolo da origem do povo
brasileiro e, por conseguinte, elemento fundador da nacionalidade. No entanto, embora o índio figurasse como
símbolo da nacionalidade brasileira, essa imagem romantizada não foi desenvolvida no sentido de integrá-lo a
sociedade, servindo muito mais aos interesses de uma elite intelectual e política que procurava um traço de
originalidade que distinguisse o Brasil de outras nações.

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ora sob a perspectiva do desenvolvimento urbano pautado nos novos paradigmas da


modernidade, ora sob os discursos racionalistas e médico-cientificistas que buscavam afirmar-
se e romper com práticas “supersticiosas” e em outros momentos sob a perspectiva dos
cronistas que escreviam as notícias de perseguições policiais nos jornais. Óbvio que é mais
difícil chegar ao outro lado do discurso, em que os próprios “pajés”, “erveiros”, “curadores”
ou “feiticeiros” se auto-representam ou se defendem das acusações, contudo é interessante
notar como resistiram às ações persecutórias e inclusive, ao desenvolvimento urbano.
Daí se parte para a análise comparativa com a organização dos terreiros ou casas de
culto das religiões de matriz africana na cidade de Belém contemporânea, notando-se que
assim como os bairros onde se concentravam a maior parte dos cultos identificados com as
religiões de matriz africana nas três primeiras décadas do século XX eram os bairros do
Guamá e da Pedreira, ainda hoje estes são referências no que diz respeito à localização e à
história dos terreiros em Belém.
A partir das entrevistas com membros dos cultos afros e da comparação com
cartografias e mapeamentos recentes de terreiros em Belém, percebeu-se que os mesmos
bairros referenciados nos jornais das primeiras décadas do século XX como bairros que
concentravam práticas de feitiçaria e outras práticas mágico-religiosas continuam no presente
a ser referidos pelos membros afro-religiosos e pelo resto da sociedade enquanto tal. Quanto
ao centro da cidade, os conflitos enfrentados por estes grupos das religiões afro na cidade
atual são outros, no caso do espaço urbano, especificamente o da escassez de lugares para
realização de rituais sagrados que carecem de paisagens e de elementos naturais.
Todavia, continuando a resistir e manifestar-se firmemente diante dos problemas
impostos por outras propostas de desenvolvimento urbano na contemporaneidade, hoje os
membros e praticantes das religiões afro em Belém constituíram e organizaram em
movimentos e associações que hoje reivindicam espaços próprios e destinados a diferentes
praticas realizadas por eles, como lugares para realização de oferendas e diferentes ritos e
cerimônias, espaços para abrigar suas associações e para realizarem reuniões etc.
Por fim, o mais interessante de se analisar é a forma como estes vão se apropriando
dos espaços da cidade, transformando-os em lugares referenciais de memória e identidade,
principalmente se levarmos em conta como as representações feitas sobre eles interferem na
sua organização e formação de vínculo com determinados lugares no espaço urbano.
Atualmente, os novos e significativos esforços dos afro-religiosos no sentido de se
apropriarem dos métodos de pesquisa para reescrever suas próprias histórias e interpretações,
demonstram a importância dos seus empenhos em se auto-representarem e valorizarem

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práticas, tradições, línguas e, sobretudo, lugares como elementos fundamentais na


constituição de referências culturais e de importantes marcos de identidade.

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