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Marginalidades na demarcação de contextos curatoriais:

apontamentos

Victor Costa, mestrando no programa Artes da Cena, IA-UNICAMP

1. O tema desta comunicação vem da escuta de profissionais da curadoria: a defesa do


ofício como espaço de criação. Criação de contextos. Verifico que a curadoria,
especialmente nas artes da cena, visa curar um contexto vivo (sobretudo mostras e
festivais). Criar um cenário no qual as peças não estão totalmente dispostas. A curadoria
está sempre implicada em um contexto (por meio do qual é atravessada, e mais
notadamente naquele que cria – onde novos atravessamentos podem ser estimulados).
Essa perspectiva nos leva a Foucault. No nível da microfísica das relações, tudo é poder.
Surge então nosso problema-chave: quais contextos as preocupações curatoriais
atualmente estão atendendo? E mais: como descentrar a discussão do poder que envolve
o trabalho curatorial, e centrar justamente o potencial criador da curadoria?

2. A curadoria em artes da cena recorta contextos vivos e acentua neles novos, visíveis e
efêmeros micro-contextos – que não fosse pela demarcação talvez não emergiriam no
sistema da arte contemporânea. O problema (foucaultianamente) é que as demarcações
curatoriais legitimam o que entra no recorte e deslegitimam o que fica de fora. Esse é,
senão o epicentro, o núcleo de maior tensão do fazer curatorial. O que pensar sobre o
lugar da margem de fora da demarcação? Seria possível uma mediação com as forças do
dissenso e do consenso, oferecendo caminhos, condições e brechas para uma prática que
ao legitimar contextos específicos evidencie também a sua contingência marginal?

3. A pesquisadora e curadora Nirvana Marinho, em recente mesa de debate sobre


curadoria em artes da cena (dezembro de 2018, Sesc Campinas), enfatiza que <<a
produção artística não é feita apenas a partir daquilo que se apresenta>>. Daquilo que
está dentro da demarcação. Existem <<táticas de dissimulação>> entre os <<planos de
frente e de fundo>> da demarcação curatorial. Estar à margem não significa obviamente
estar fora do contexto demarcado. Estar à margem é condição de borda. De contorno,
onde ocorrem os agenciamentos dos nexos entre o dentro e o fora da demarcação.
Nirvana chama as táticas de dissimulação entre legitimado e não legitimado de
<<estratégias de guerrilha>>: atividades formativas, residências e coproduções (em que
as mostras e festivais são co-criadores junto a artistas). São modos de produção que
tornam bem mais complexa a legitimidade da demarcação curatorial. São, ainda na voz
de Marinho, <<estratégias de fundo>>. Estratégias que iluminam os processos de
criação nas artes da cena e reafirmam o estado de conflito no qual a curadoria se instala,
movida, quem sabe, pela curiosidade em um espaço a princípio desconhecido.

Palavras-chave: curadoria; contexto; legitimidade; poder.