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1

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS


ESCOLA DE VETERINÁRIA

Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal

TORÇÃO DE LOBO PULMONAR EM CÃO:


RELATO DE CASO

Escola de Veterinária da UFMG

Belo Horizonte

2011
2

JULIANA DEL GIÚDICE PANIAGO

TORÇÃO DE LOBO PULMONAR EM CÃO:


RELATO DE CASO

Monografia apresentada na Escola de


Veterinária da Universidade Federal de
Minas Gerais, como requisito parcial para
obtenção do título de Especialista em
Residência Médico-Veterinária II, na área
de Patologia Veterinária.

Preceptor: Renato de Lima Santos

Escola de Veterinária da UFMG

Belo Horizonte

2011
3

Paniago, Juliana Del Giúdice, 1985-


P192t Torção de lobo pulmonar em cão: relato de caso / Juliana Del Giúdice
Paniago. – 2011.
32 p. : il.

Preceptor: Renato de Lima Santos


Monografia apresentada na Escola de Veterinária da Universidade Federal de
Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em
Residência Médico-Veterinária II, na área de Patologia Veterinária.
Inclui bibliografia

1. Cão – Doenças. 2. Aparelho respiratório – Doenças. I. Santos, Renato de


Lima. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Veterinária.
III. Título.

CDD – 636.708 96
4
5

AGRADECIMENTOS

A Ana Luiza Sarkis Vieira por gentilmente ceder as fotos da necropsia do animal
relatado neste trabalho, e à Professora Tatiane Paixão por sua contribuição na
revisão do trabalho.
6
7

SUMÁRIO

Resumo................................................................................................... 10
Abstract.................................................................................................... 11
1 INTRODUÇÃO......................................................................................... 12
2 REVISÃO DE LITERATURA................................................................... 12
2.1 Morfogênese do Pulmão......................................................................... 12
2.2 Anatomia Pulmonar do Cão.................................................................... 14
2.3 Morfofisiologia do Trato Respiratório....................................................... 17
2.4 Mecanismos de Defesa do Trato Respiratório........................................ 20
2.5 Exame post mortem do Trato Respiratório............................................. 22
2.6 Torção de Lobo Pulmonar....................................................................... 24
2.6.1 Conceito................................................................................................... 24
2.6.2 Patofisiologia........................................................................................... 24
2.6.3 Manifestação Clínica............................................................................... 25
2.6.4 Diagnóstico Clínico.................................................................................. 25
2.6.5 Conduta Clínica....................................................................................... 27
3 RELATO DE CASO................................................................................. 28
4 DISCUSSÃO………………………………………………………………….. 30
5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................ 31
8

LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Representação esquemática da segmentação dos lobos pulmonares, da árvore 15


brônquica e dos linfonodos do cão.

Figura 2: Representação esquemática do pulmão esquerdo e de parte da aorta do cão. 16


Do lado direito, foram removidos brônquios e bronquíolos menores para melhor
visualização da arvore traqueobronquial principal

Figura 3: Diagrama da estrutura microscópica de um bronquíolo onde se observa epitélio 18


colunar pseudo-estratificado ciliado entremeado por células Clara secretoras.

Figura 4: Diagrama da estrutura microscópica da parede alveolar onde se observa 19


membrana basal (amarelo) e componentes celulares

Figura 5: Cão, Pulmões: torção do lobo médio do pulmão direito com intensa congestão 29
do lobo afetado. Foto: Ana Luiza Sarkis Vieira.

Figura 6 Cão, Pulmões: Detalhe da torção de 180° em torno do hilo do lobo médio 29
direito. Foto: Ana Luiza Sarkis Vieira.
9

RESUMO

A torção de lobo pulmonar (TLP) consiste na rotação do pulmão, ou de um de


seus lobos, ao longo de seu eixo, com conseqüente torção de brônquios e vasos
pulmonares na região do hilo. É considerada uma doença respiratória rara e
descrita em poucos animais, acometendo cães e gatos de grande e pequeno
porte. Qualquer mecanismo que aumente a mobilidade pulmonar pode predispor a
TLP, incluindo-se as efusões pleurais. Contudo, a TLP também pode ser idiopática
principalmente em cães de grande porte com cavidade torácica profunda, como
nas raças Afghan Hound e Whippet, embora já tenha sido relatado em cães das
raças Pug e Jack Russel Terrier. Este trabalho objetiva fazer uma sucinta revisão
de literatura sobre características relevantes do trato respiratório, principalmente
de cães, bem como descrever um relato de caso de TLP. Um cão fêmea de 10
anos de idade da raça Whippet foi encaminhado para necropsia no Setor de
Patologia da Escola de Veterinária da UFMG onde se constatou rotação de 180º
do lobo pulmonar médio direito. Apesar de ser considerada uma condição rara, a
TLP deve ser considerada no diagnóstico diferencial por clínicos veterinários ao
atender animais com sinais clínicos de dispneia.

Palavras-chave: torção de lobo pulmonar, doença respiratória, Whippet, cão.


10

ABSTRACT

A lung lobe torsion (LLT) consists of the rotation of the


lung, or one of its lobes along its axis, with consequent twist of the
bronchi and pulmonary vessels in the hilar region. It is
considered a rare respiratory disease and is described in few
animals including dogs and cats. Any mechanism that increases the mobility of the
lungs can predispose a LLT, including pleural effusions. However, the LLT can
also be idiopathic, especially in large dogs with deep chest cavity, like the Afghan
Hound and Whippet breeds (although it has already been reported in small breed
dogs such as Pug and Jack Russell Terrier). This work aims to
make a brief literature review of relevant characteristics of the respiratory tract,
especially in dogs, and to describe a case report of LLT. A 10-years-old female
Whippet was sent for necropsy at the Department of Pathology of the Veterinary
School of UFMG where it was diagnosed with a 180º rotation of the right
middle lobe. Although considered a rare condition, the TLP must be considered in
the differential diagnosis by veterinarians when facing animals with clinical
signs of dyspnea.

Key words: Lung Lobe Torsion, respiratory disease, Whippet, Dog.


11

1. INTRODUÇÃO

As afecções respiratórias são 2. REVISÃO DE LITERATURA


consideradas comuns na rotina da
Para a melhor compreensão das
clínica veterinária, já que muitas
alterações anatomopatológicas
vezes os sinais clínicos apresentados
discutidas neste trabalho, se faz
pelo animal são facilmente notados
necessária uma sucinta revisão da
pelo proprietário motivando-o a
anatomia e fisiologia do sistema
procurar um profissional.
respiratório, dando maior ênfase nos
Apesar de ser considerada uma pulmões.
condição rara, a torção de lobo
pulmonar (TLP) é de extrema
importância na medicina veterinária. 2.1. Morfogênese dos Pulmões
O paciente pode apresentar evolução
O crescimento e desenvolvimento
aguda que, se não abordada rápida e
fetal do pulmão são complexos e
corretamente, culmina com o óbito do
podem ser divididos em seis estágios
animal. Os sinais clínicos de TLP
de evolução denominados
consistem basicamente em
embrionário, pseudoglandular,
hemoptise, tosse, hematêmese,
canalicular, sacular, alveolar e
dispneia, febre e vômito e são
posteriores estágios de maturação
considerados, portanto, inespecíficos.
vascular. Na maioria dos mamíferos,
O objetivo deste trabalho consiste em etapas importantes de
fazer uma sucinta revisão de desenvolvimento ainda ocorrem na
literatura sobre características fase pós-natal e, nos humanos, estas
importantes do trato respiratório, fases estão bem estudadas e
principalmente canino, bem como diferenciadas. Em carnívoros,
descrever um relato de caso de TLP estudos sugerem que a fase
diangnosticado no Setor de Patologia pseudoglandular ocorre entre 35 e 46
Veterinária da Escola de Veterinária dias de gestação, com o inicio da
da UFMG. fase
12

canalicular no 48º dia da gestação, a de capilares no interstício permitindo


fase sacular a partir do 56º dia e o a formação da interface “sangue-
desenvolvimento alveolar se gás”. Também é nesta etapa que
completa apenas após o nascimento ocorre a diferenciação das células
durante o período neonatal (Miyoshi epiteliais em pneumócitos tipo I e tipo
& Guinsburg, 1998; Maxie, 2007). II juntamente com o surgimento de
alvéolos, sacos alveolares, ductos
Durante a fase embrionária, o pulmão
alveolares e bronquíolos respiratórios
se forma a partir de um divertículo no
(Miyoshi & Guinsburg, 1998; Maxie,
folheto endodérmico ventral e, a
2007). A função destas células será
traquéia primordial se origina
discutida a diante neste trabalho.
juntamente com os brônquios
principais (direito e esquerdo) que se O estágio seguinte, denominado
desenvolvem ao redor de células sacular, é caracterizado pelo intenso
mesenquimais. A formação das vias aumento no volume do pulmão e na
aéreas condutoras, de uma maneira superfície de troca gasosa, com
geral, ocorre no período posterior redução do tecido
pseudoglandular onde são revestidas mesenquimal intersticial, sendo de
por epitélio colunar alto, na porção grande importância para a
cranial, e epitélio cuboidal com sobrevivência fora do ambiente
células ciliadas, mucosas, basais e uterino. O surfactante começa a ser
cartilagem bronquial em porções mais produzido e ocorre uma maturação
caudal. Nesta etapa os vasos funcional do parênquima pulmonar:
sanguíneos são muito pequenos, com as paredes dos sacos alveolares se
pouco fluxo sanguíneo além de terem tornam capazes de realizar troca
localização distante do epitélio gasosa e as unidades respiratórias
respiratório, inviabilizando a adquirem uma relação de pressão e
respiração (Miyoshi & Guinsburg, volume pulmonar semelhante à de
1998; Maxie, 2007). um animal adulto (Miyoshi &
Guinsburg, 1998; Maxie, 2007).
Durante o período de canalização há
marcada proliferação e canalização
13

A formação dos primeiros alvéolos de considerados auxiliares ao trato


fato se dá na fase alveolar, quando respiratório apesar de possuírem
ocorre involução de septos importantes funções para outros
intersaculares e depósito de fibras sistemas como sensoriais, na
elásticas, porém a aquisição se uma cavidade nasal, funções digestivas,
interface entre sangue e o ar apenas como na faringe, além de seios
ocorre no último estágio de paranasais atuarem na fonação
desenvolvimento, o de maturação (Dyce et al., 1990; Konig & Liebich,
microvascular, após o nascimento 2004).
(Miyoshi & Guinsburg, 1998; Maxie,
O pulmão é constituído pelo
2007).
parênquima pulmonar, tecido
Movimentos fetais do líquido especializado na troca gasosa
pulmonar, coordenados por inervação formado pelos bronquíolos
colinérgica, se fazem de extrema respiratórios e alvéolos, e pelo tecido
importância para o desenvolvimento intersticial composto por tecido
normal do órgão já que em cada fase conjuntivo, muscular, fibras nervosas
pulmonar mediadores celulares são e vasos sanguíneos e linfáticos.
difundidos pelo fluido presente nas
Cada pulmão, direito e esquerdo, é
vias aéreas para coordenar a
revestido pela pleura visceral, de
organogênese (Maxie, 2007).
maneira independente, porém unidos
através do mediastino. A cavidade
torácica comporta uma discreta
2.2. Anatomia Pulmonar do Cão
quantidade de líquido seroso que
Os pulmões são considerados órgãos diminui o atrito, durante a respiração,
essenciais para a respiração já que entre a pleura visceral e a parietal
são responsáveis pelas trocas (Dyce et al, 1990; Konig & Liebich,
gasosas entre o ar inspirado e a 2004).
corrente sanguínea. Já os órgãos que
Distingue-se no pulmão a face costal
conduzem o ar inspirado para o
que é a superfície voltada para a
interior do parênquima pulmonar são
parede costal, face mediastinal
14

voltada para o mediastino e a face cavalo, o pulmão esquerdo é dividido


diafragmática adjacente ao em dois lobos (cranial e caudal) e o
diafragma. Descreve-se ainda a direito, em quatro lobos (cranial,
margem dorsal romba e, na face médio, caudal e acessório) como
oposta, a margem ventral aguda além ilustrado na Figura 1. Cada lobo
do ápice pulmonar, cranialmente, pulmonar ainda é subdividido em
estende-se à cúpula diafragmática lóbulos por septos de tecido
através da abertura da cavidade conjuntivo, que no cão são pouco
torácica cranial (Konig & Liebich, desenvolvidos e apresentam-se
2004). praticamente imperceptíveis (Maxie,
2007).
No cão, assim como nas demais
espécies domésticas com exceção do

Figura 1: Representação esquemática da segmentação dos lobos pulmonares, da árvore brônquica


e dos linfonodos do cão. Fonte: adaptado de Konig & Liebich, 2004.

A estática do órgão ocorre através ramos da artéria e veias pulmonares,


dos brônquios, grandes vasos como além da dobra da pleura que fixa os
15

pulmões ao diafragma formando o caracteriza um sistema de alto fluxo,


ligamento pulmonar. O hilo pulmonar porém com baixa pressão. Já a
é a denominação para a área de circulação da artéria bronquial (Figura
entrada dos brônquios principais 2), sendo parte da circulação
juntamente com nervos, ramo da sistêmica, possui baixo fluxo com alta
artéria pulmonar, artérias e veias pressão. As artérias pulmonares,
brônquicas além de veias pulmonares portanto, conduzem o sangue venoso
e vasos linfáticos. As estruturas até os alvéolos através de
aferentes e eferentes recebem o ramificações pela árvore brônquica
nome de pedículo pulmonar (Konig & onde culminam em capilares. Um
Liebich, 2004). único alvéolo recebe aporte
sanguíneo de, aproximadamente, 10
O suprimento vascular do pulmão é
capilares. As artérias bronquiais
duplo e, portanto, influencia na
podem ascender de diversas áreas
patogênese das doenças que o
como da aorta, artérias intercostais e
acomete. Todo o fluxo sanguíneo do
artérias subclávicas (Konig & Liebich,
ventrículo direito é direcionado para a
2004; Maxie, 2007).
circulação da artéria pulmonar que

Figura 2: Representação esquemática do pulmão esquerdo e de parte da aorta do cão. Do lado


direito, foram removidos brônquios e bronquíolos menores para melhor visualização da arvore
traqueobronquial principal. 1-Esôfago; 2-Traquéia; 3-Bifurcação da Traquéia; 4-Aorta; 5-Artéria
Bronquial; 6-Lobo Caudal do Pulmão Esquerdo. Fonte: adaptado de Konig & Liebich, 2004.
16

Também ocorre drenagem venosa respiratório superior que se estende


dupla já que as veias pulmonares das narinas à laringe e trato
drenam os capilares originados das respiratório inferior constituído por
artérias pulmonares e a veia traquéia, brônquios, bronquíolos e
zigomática, os das artérias pulmões (Jones, 2000; Maxie, 2007;
bronquiais. As veias pulmonares, Santos & Alessi, 2011). Existe ainda
portanto, conduzem o sangue arterial uma divisão funcional cuja
rico em oxigênio, para o átrio classificação se dá em sistema de
esquerdo (Konig & Liebich, 2004; condução que se estende da
Maxie, 2007). cavidade nasal aos brônquios,
sistema transicional constituído pelos
A inervação é do tipo autônoma e bronquíolos e sistema de troca de

abrange as glândulas mucosas, gases ou sistema alveolar (López,


músculos brônquicos e os vasos 2007; Santos & Alessi, 2011).

sanguíneos. As fibras simpáticas dos


gânglios cervicais médio e caudal A narina e laringe são revestidas por
compõem o gânglio cervicotorácico e epitélio estratificado pavimentoso não
estendem-se ao mediastino. Estas, queratinizado enquanto que o
então, se comunicam com a base do restante do trato respiratório superior
coração através de ramos possui epitélio pseudoestratificado
parassimpáticos do nervo vago e ciliado com células caliciformes. A
formam o plexo cardíaco que constitui medida que se progride para as vias
a origem das fibras nervosas para o aéreas mais caudais, reduz-se o
pulmão onde, por sua vez, formam o número de células ciliadas e
plexo pulmonar (Konig & Liebich, caliciformes enquanto há um
2004). aumento na proporção de células não
ciliadas (células Claras) no epitélio
2.3. Morfofisiologia do Trato
bronquiolar.
Respiratório

Convencionou-se, para fins didáticos, A célula Clara (Figura 3) é


fazer uma divisão estrutural em trato caracterizada por não ser secretora
17

de muco, não ser ciliada e ter a em célula ciliada ou não ciliada


função de célula progenitora já que é (Maxie, 2007).
capaz de se dividir e se diferenciar

Figura 3: Diagrama da estrutura microscópica de um bronquíolo onde se observa epitélio colunar


pseudo-estratificado ciliado entremeado por células Clara secretoras. Os cílios se movimentam
dentro de uma camada de muco em gel (azul). Fonte: adaptado de Kumar et al. 2005.

Posteriormente, os bronquíolos consideradas células epiteliais


respiratórios, sacos alveolares e escamosas que revestem
alvéolos são revestidos aproximadamente 93% da superfície
predominantemente por pneumócitos alveolar. Também são denominados
tipo I e, em menor proporção, pneumócitos membranosos e sua
pneumócitos tipo II cujas principais morfologia favorece a troca gasosa
funções são a produção de pela membrana plasmática
surfactante e reposição do epitélio (hematose). Estas células são muito
alveolar graças a sua capacidade diferenciadas e, portanto, não
proliferativa (Jones, 2000; López, possuem poder de regeneração e,
2007; Maxie, 2007; Santos & Alessi, além disso, é altamente suscetível a
2011). injúria que, quando irreversível,
culmina com a substituição deste pelo
Os pneumócitos tipo I (Figura 4) são
pneumócito tipo II (Jones, 2000;
células grandes e achatadas
18

López, 2007; Maxie, 2007; Santos & produção de surfactante, uma


Alessi, 2011). complexa mistura de fosfolipídios e
proteína que diminui a tensão
O pneumócito tipo II (Figura 4) é
superficial no espaço alveolar durante
também denominado pneumócito
a expiração prevenindo o colapso
secretório ou granular e é
alveolar durante a respiração,
caracterizado por ser uma célula
funcionar como célula progenitora
volumosa e cuboidal, muito menos
para a substituição do epitélio
numerosa do que o pneumócito tipo I.
alveolar além de metabolizar
Histologicamente é encontrada mais
xenobióticos (Jones, 2000; López,
comumente na intersecção de dois
2007; Maxie, 2007; Santos & Alessi,
septos alveolares. As funções
2011).
primordiais desta célula são a

Figura 4: Diagrama da estrutura microscópica da parede alveolar onde se observa membrana


basal (amarelo) e componentes celulares. Fonte: adaptado de Kumar et al. 2005.

Todas as porções do sistema microrganismos, partículas, gases e


respiratório apresentam vapores nocivos presentes no ar
vulnerabilidade à injúria uma vez que inspirado. As rotas de acesso a este
são direta e constantemente expostos sistema, além da via aerógena
a ampla variedade de considerada a mais comum,
19

consistem também na via respiratório como cavidade nasal,


hematógena e também por extensão faringe e laringe e algumas destas
direta como em feridas penetrantes, são consideradas patógenos
migração de parasitas, perfuração de responsáveis por importantes
diafragma e órgãos adjacentes. enfermidades respiratórias como a
febre dos transportes em bovinos
Apesar deste constante desafio, os
causada pela M. haemolytica (López,
pulmões devem permanecer estéreis
2007).
ou minimamente contaminados uma
vez que microrganismos induzem
resposta inflamatória que impede
2.4. Mecanismos de Defesa do
hematose adequada (Jones, 2000;
Trato Respiratório
López, 2007; Maxie, 2007; Santos &
Alessi, 2011). Para manter tais A constante troca de gases
condições, existem diversos necessariamente expõe diretamente
mecanismos de defesa que serão o pulmão ao ambiente. Tal condição
discutidos ainda a seguir. Entretanto, exige eficientes mecanismos de
o sistema respiratório apresenta uma defesa para manter sua esterilidade
flora própria considerada normal. diante dos constantes desafios
Qualquer animal saudável tem imunogênicos provenientes do ar das
microorganismos na região do seio vias respiratórias superiores.
nasal onde bactérias potencialmente
Como discutido anteriormente a
patogênicas, de acordo com a
necessidade de se manter o pulmão
espécie animal: Manheimia
estéril reside no fato de processos
(Pasteurella) haemolytica em
inflamatórios serem prejudiciais à
bovinos; Pasteurella multocida em
função pulmonar. Exsudatos
gatos, bovinos e suínos; além de
inflamatórios dificultam as trocas
Bordetella bronchisepta em cães e
gasosas, enzimas provenientes de
suínos. Estas bactérias são
células inflamatórias e radicais livres
consideradas da flora residente
causam injuria tecidual e, com
apenas quando restritas às porções
processo de reparo, pode haver
mais craniais ou rostrais do sistema
20

organização do exsudato alveolar e, partículas com 2 µm ou menores


em casos mais crônicos, fibrose dos podem alcançar a região
septos alveolares que bronquíoloalveolar (López, 2007;
permanentemente altera a barreira Maxie, 2007).
entre o gás e a corrente sanguínea
Além do tamanho, outras
(Maxie, 2007).
características como o formato, carga
A própria conformação anatômica da elétrica e umidade influenciam na
cavidade nasal e dos brônquios, deposição, retenção e até mesmo na
constituintes do sistema de patogenicidade da partícula inalada.
condução, desempenha importante Independente das suas
função na diminuição, e até mesmo peculiaridades, uma vez detidas na
na prevenção, de entrada de material mucosa bronquíoloalveolar é
nocivo ao parênquima pulmonar essencial que qualquer material
(López, 2007; Maxie, 2007). exógeno seja rapidamente removido
para minimizar injúrias ao sistema
Partículas maiores que 10 µm sofrem
respiratório. O alvéolo constitui a
deposição na mucosa nasal já que o
região mais sensível do parênquima
ar ao adentrar na cavidade nasal
pulmonar e os aerossóis que
sofre intenso turbilhonamento e tais
carreiam agentes infecciosos, como
partículas se chocam na superfície da
bactérias e vírus cujo tamanho varia
mucosa. Quando menores, entre 2 e
entre 0,01 a 2 µm, geralmente
10 µm, as partículas que conseguem
alcançam esta região (López, 2007;
transpor o início do percurso de
Maxie, 2007).
deparam com uma segunda barreira,
a bifurcação da traquéia e dos O muco que recobre a superfície da
brônquios principais. A rápida mucosa do trato respiratório aprisiona
mudança na direção do fluxo do ar as partículas e microrganismos
devido à inércia, que ocorre na aspirados. Este conjunto é eliminado
bifurcação de vias aéreas calibrosas, através de movimentos ciliares que
faz com que haja a colisão com a alcançam a faringe, onde são
superfície da mucosa. Entretanto deglutidos, ou são expelidos pela
21

tosse (López, 2007; Maxie, 2007). O populações distintas: macrófagos


lençol mucociliar constitui um dos alveolares, macrófagos intersticiais,
principais mecanismos de defesa já macrófagos pulmonares
que além de ser responsável pela intravascular, macrófagos pleurais e
remoção de partículas é essencial células dendríticas, que apesar de
para o transporte e difusão de fatores não serem macrófagos são fagócitos
de proteção como proteínas do profissionais (Maxie, 2007).
sistema imune como interferon,
Particularmente os macrófagos
lizozima, lactoferrina, defensinas
alveolares são de extrema
além de fatores do sistema
importância na manutenção da
complemento e anticorpos (López,
esterilidade do parênquima alveolar.
2007; Maxie, 2007; Santos & Alessi,
Além de fagocitar partículas
2011). A imunoglobulina A, IgA, é
depositadas, também desempenham
considerada o anticorpo mais
importante função na renovação e
abundante nas secreções da
reciclagem do surfactante além de
cavidade nasal e traquéia, sendo
ser fonte de interferon, um agente
responsável por prevenir a adesão e
antiviral importante (Maxie, 2007).
absorção de patógenos. Já a IgG, e
em menor proporção, IgE e IgM
promovem a destruição de patógenos
2.5. Exame Post Mortem do Trato
inalados através da fagocitose.
Respiratório
Destas imunoglobulinas, a IgG é mais
abundante na superfície alveolar O sistema respiratório, assim como
agindo como anticorpo na todos os outros, deve sempre ser
opsonização para macrófagos examinado durante uma necropsia,
alveolares e neutrófilos (López, por isso, é importante adotar uma
2007). técnica criteriosa e segui-la de
maneira sistemática. Antes de abrir a
Os macrófagos pulmonares são
cavidade torácica para examinar
constituintes celulares extremamente
traquéia, pulmões, pleura e demais
importantes para a defesa deste
constituintes deste sistema, deve-se
órgão. Cita-se a existência de cinco
22

verificar a presença de pressão corte, coloração, consistência,


negativa na mesma observando se o crepitação além de examinar
diafragma está tensionado linfonodos mediastínicos e bronquiais
cranialmente através da sua (Serakides, 1996).
visualização após a abertura inicial da
Outra ferramenta importante para
cavidade abdominal. Se o diafragma
avaliação do parênquima pulmonar,
estiver flácido e voltado caudalmente
consiste na colocação de um
para a cavidade abdominal, deve-se
fragmento do parênquima pulmonar
atentar para presença de conteúdo
em um recipiente com água: se este
anormal na cavidade torácica como
boiar indica que há ar nos alvéolos,
pneumotórax, hemotórax, hidrotórax,
situação normal e esperada mesmo
quilotórax ou piotórax (Serakides,
após o colabamento após a morte, e
1996; López, 2007; Santos & Alessi,
se afundar revela que o espaço
2011). Através da secção das
alveolar pode estar preenchido por
articulações costocondrais e retirada
exsudato inflamatório ou que há
do esterno, visualiza-se a cavidade
atelectasia do mesmo (Serakides,
torácica quanto à ocorrência de
1996).
distopias, aderências, líquidos ou
outras anormalidades (Serakides, Exame complementar como a
1996). histopatologia se faz de enorme valia
e deve ser utilizada sempre que
Após a retirada do conjunto língua-
possível já que alterações não
esôfago-traquéia-pulmão-coração da
perceptíveis a olho nu podem ser
cavidade torácica deve-se separar o
evidenciadas através da microscopia.
esôfago da traquéia dissecando-o
Além deste, pode-se citar outros
caudalmente, porém deixando-o fixo
testes diagnósticos para identificação
à região das cartilagens laríngeas. A
de possíveis agentes etiológicos
traquéia deve ser seccionada
como bacteriologia e a reação em
longitudinalmente até os brônquios. O
cadeia pela polimerase (PCR).
parênquima pulmonar deve ser
avaliado pormenorizadamente quanto
à superfície externa, superfície de
23

2.6. Torção de Lobo Pulmonar em animais de raças de pequeno


(TLP) porte, o relato de TLP geralmente
apresenta-se como secundário a
2.6.1. Conceito
causas pré-existentes citando-se
A torção de lobo pulmonar (TLP) como mais comuns as efusões
consiste na rotação do pulmão, ou de pleurais (Slatter, 1998; Fossum,
um de seus lobos, ao longo de seu 2005; Maxie, 2007, Terzo et al.,
eixo, com consequente torção de 2008). Cães de meia idade são mais
brônquios e vasos pulmonares na afetados, mas a TLP pode ocorrer em
região do hilo (Slatter, 1998; Fossum, qualquer idade e os lobos médio
2005). direito e o cranial esquerdo são os
mais comumente afetados (Slatter,
1998; White & Corzo-Menendez,
2.6.2- Patofisiologia 2000; Fossum, 2005; Maxie, 2007;
Terzo et al., 2008)
A TLP é considerada uma
enfermidade rara já que se encontra Qualquer mecanismo que aumente a
na literatura descrição de poucos mobilidade de um lobo pulmonar
casos afetando cães, em maior pode predispor a uma TLP. Dentre
frequência, e gatos de qualquer idade eles se pode citar colapso parcial do
(Slatter, 1998; Fossum, 2005; Maxie, órgão, devido a trauma ou
2007). enfermidade, que seja capaz de
alterar a relação espacial do órgão
De acordo com a literatura, cães de
em relação à parede torácica,
grande porte com tórax estreito e
mediastino e lobos adjacentes.
profundo seriam mais susceptíveis a
Efusões pleurais, pneumotórax,
TLP, especialmente Afghan Hounds e
neoplasias, displasia ou hipoplasia
Whippet (White & Corzo-Menendez,
congênita pulmonar e/ou da
2000). Contudo há relato de TLP em
cartilagem broquial, atelectasia,
cães de pequeno porte como Pugs
qualquer doença respiratória crônica
(Rooney et al., 2001) e Jack Russel
e cirurgia torácica e abdominal
Terrier (Terzo et al., 2008). Entretanto
prévias são fatores considerados
24

como causas predisponentes, mesmo e de torção parcial, a difuso exsudato


que apenas confirmadas em uma alveolar e áreas de infarto com
minoria de casos. Existem ainda necrose de coagulação no
casos considerados idiopáticos onde parênquima pulmonar (Maxie, 2007).
não se conseguiu estabelecer
nenhuma causa prévia (Slatter, 1998;
Rooney et al., 2001; Fossum, 2005; 2.6.3. Manifestação Clínica
Maxie, 2007; Terzo et al., 2008)
Os animais afetados geralmente
A maioria das torções se caracteriza apresentam algum grau de estresse
por obstrução venosa e de vias respiratório que pode estar associado
aéreas, entretanto, as artérias podem à hemoptise, tosse e hematêmese.
permanecer parcialmente patentes. Em casos mais crônicos os animais
Desta forma, há extravasamento de podem apresentar sinais clínicos
sangue e fluidos para o lúmen como anorexia, depressão, dispneia,
alveolar. O lobo afetado, portanto, se febre e vômito. À auscultação
torna gravemente congesto como torácica pode-se constatar estertor
coloração vermelho escuro e úmidos juntamente com ruídos
consolidado assemelhando-se a respiratórios e sons cardíacos
morfologia de um fígado (hepatização abafados. Embora considerados
pulmonar) (Slatter, 1998; Fossum, inespecíficos, estes sinais estão
2005; Maxie, 2007). relacionados aos efeitos locais e
sistêmicos do lobo pulmonar
Devido a continua congestão,
consolidado e ao acúmulo de liquido
geralmente ocorre acúmulo de efusão
pleural (Slatter, 1998; Fossum, 2005;
pleural que pode ser do tipo
López, 2007; Maxie, 2007).
transudativa, exsudativa, quilosa ou
sanguinolenta dependendo da
extensão e cronicidade da lesão
2.6.4-Diagnóstico Clínico
(Slatter, 1998; Fossum, 2005).
Além de um exame clínico detalhado,
As lesões histológicas variam de uma
exames complementares podem ser
simples congestão, em casos agudos
25

extremamente úteis ao concluir um neste trabalho, qualquer tipo de


diagnóstico. Radiografias e efusão pleural pode predispor uma
ultrassonografias torácicas podem TLP, podendo confundir a
apresentar alterações, porém a interpretação clínica. A presença de
intensidade e extensão das mesmas eritrócitos em líquido torácico que
variam amplamente. O volume de inicialmente era considerado não-
líquido pleural, presença de doença hemorrágico pode indicar a
predisponente e o intervalo desde o ocorrência de uma torção pulmonar
momento da torção são fatores que (Slatter, 1998; Fossum, 2005).
determinam a intensidade e extensão
A realização de uma broncoscopia
das alterações. No inicio do processo
permite a visualização da obstrução
pode-se observar, radiograficamente,
do brônquio acometido. É possível
broncogramas aéreos no lobo
que o orifício apresente mucosa
acometido, mas este ar é
enrugada e irregular com indício de
rapidamente absorvido e substituído
estenose. Em caso de broncografia
por líquido em 48 a 72 horas. O
com contraste positivo, o contraste
achado mais consistente é o de
radiopaco se acumula não sendo
líquido pleural associado à opacidade
drenado no brônquio acometido
na área do pulmão. Embora talvez
(Slatter, 1998; Fossum, 2005).
haja a necessidade de se drenar o
líquido intratorácico antes que a Como possíveis diagnósticos
consolidação pulmonar seja diferenciais deve-se cogitar
visualizada (Slatter, 1998; Fossum, pneumonias, tromboembolismo,
2005). neoplasia, atelectasia, hemotórax,
piotórax e hérnia diafragmática, que
A toracocentese, portanto, recupera
podem mimetizar as alterações
líquido pleural em grande quantidade.
radiográficas encontradas em TLP. O
Análise laboratorial desta efusão
uso de broncoscopia pode auxiliar no
pleural pode revelar estéril,
diagnóstico definitivo através da
inflamatória, quilosa ou ainda rica em
constatação da obstrução do lúmen
eritrócitos, quando
bronquial (Fossum, 2005).
serosanguinolenta. Como já descrito
26

2.6.5. Conduta Clínica Geralmente o lobo pulmonar torcido


apresenta-se congesto e friável,
A abordagem terapêutica do paciente
podendo estar necrótico. O pedículo
com TLP objetiva a sua estabilidade,
do mesmo deve ser pinçado com
sendo inicialmente apenas
pinças atraumáticas para evitar a
sintomática. A toracocentese deve
liberação de toxinas na corrente
ser realizada para remover o líquido
sanguínea antes de o lobo ser
intratorácico e aliviar a angústia
destorcido. A recidiva é observada
respiratória do animal que também
em casos onde a lobectomia não é
pode ser diminuída através de
realizada, portanto, o lobo deve ser
oxigenoterapia e do concomitante
removido mesmo se voltar a inflar
tratamento de possíveis causas
após a reposicionamente e solução
predisponentes, como pneumonia, se
da torção (Slatter, 1998; Fossum,
houver (Slatter, 1998; Fossum, 2005).
2005).
O uso de fluidoterapia intravenosa é
A abordagem cirúrgica se dá por
benéfica para manutenção ou
toracotomia lateral sobre a área
restabelecimento da hidratação do
pulmonar acometida e seu hilo com
paciente e assegura rápido acesso
incisão pelo espaço intercostal. Deve-
intravenoso (Slatter, 1998; Fossum,
se abordar em primeiro lugar a
2005).
irrigação do fluxo arterial para o
A resolução espontânea de TLP é controle do fluxo sanguíneo. A artéria
extremamente incomum devido ao pulmonar que irriga o lobo pulmonar
grande aumento de volume do lobo acometido se encontra dorsalmente
acometido e a formação de ao brônquio esquerdo e
aderências. O tratamento de escolha, ventrolateralmente ao brônquio direito
portanto, é cirúrgico com realização e deve ser dissecada para permitir
de lobectomia do lobo pulmonar sua ligadura (Slatter, 1998; Fossum,
afetado. Antes da intervenção 2005). Destorcer o lobo acometido
cirúrgica é recomendada a pode auxiliar a identificação das
antibioticoterapia profilática (Slatter, estruturas vasculares e do brônquio
1998; Fossum, 2005). facilitando a ligadura, entretanto, em
27

alguns casos, a presença de animal estava internado em uma


aderências pode impedir esta clínica particular, onde se constatou,
manobra (Fossum, 2005). na avaliação clínica, desidratação de
aproximadamente 8%, mucosas
A antibiótico-terapia profilática deve
hipercoradas, estertor pulmonar,
ser mantida por pelo menos cinco
vômito com sangue e diarréia
dias. Além disso, analgésicos,
esverdeada. Poucas horas após a
oxigenoterapia e o uso de tubos
internação o animal apresentou
intratorácicos para a remoção de
parada cárdio-respiratória e passou
líquido pleural constituem cuidados
por manobras emergenciais como
pós-operatórios necessários (Slatter,
ressucitação cárdio-pulmonar,
1998; Fossum, 2005).
administração de atropina, doxapran
O prognóstico de um animal com TLP e oxigenoterapia, porém o quadro
é considerado favorável quando a evoluiu para óbito.
lobectomia é realizada (Fossum,
À necropsia observou-se grande
2005). A recorrência desta patologia
quantidade de sangue na cavidade
é infrequente, mas Breton e
oral. O tecido subcutâneo e a
colaboradores (1986) descrevem um
musculatura estavam intensa e
caso em que animal apresentou
difusamente congestos. À abertura da
torção de lobo direito e quatro meses
cavidade torácica, constatou-se
após o procedimento cirúrgico para
aproximadamente 200 ml de sangue
correção o cão retornou com torção
(hemotórax) além de rotação de 180o
de lobo médio esquerdo.
do lobo médio do pulmão direito em
torno do seu eixo (hilo) que também
apresentava-se intensamente
3. RELATO DE CASO
aumentado de volume e firme
Uma cadela de 10 anos de idade da (Figuras 5 e 6). Na pleura parietal
raça Whippet foi encaminhada para havia petéquias e equimoses
necropsia no Setor de Patologia da multifocais acentuadas.
Escola de Veterinária da UFMG. O
28

Figura 5: Cão, Pulmões: torção do lobo médio do pulmão direito com intensa congestão do lobo
afetado. Foto: Ana Luiza Sarkis Vieira.

Foto 6: Cão, Pulmões: Detalhe da torção de 180° em torno do hilo do lobo médio direito. Foto: Ana
Luiza Sarkis Vieira.

O conteúdo estomacal era avermelhadas elevadas


caracterizado por líquido características de infarto esplênico. A
sanguinolento acentuado. O baço serosa intestinal apresentava
apresentava áreas multifocais petéquias multifocais em moderada
29

quantidade, a parede encontrava-se A experiência obtida através deste


espessada moderadamente e com relato de caso e também pela
conteúdo sanguinolento acentuado. literatura consultada favorece o
Os rins estavam moderadamente conceito que a TLP é uma afecção
congestos e uma área focalmente respiratória grave cujo estado de
extensa de hemorragia foi constatada saúde do paciente é considerado
no peritônio parietal da região crítico e instável.
retroperitoneal.
Deve-se agir rapidamente buscando
o diagnóstico definitivo já que uma
vez estabelecida uma torção
4. DISCUSSÃO
pulmonar o quadro pode evoluir
Apesar de existirem poucos relatos rapidamente para a morte, como
de casos semelhantes a este de TLP observado neste caso aqui descrito.
pode-se afirmar que os dados
Este trabalho nos permite
observados neste trabalho
recomendar a clínicos, cirurgiões e
corroboram com a literatura (Slatter,
patologistas veterinários que fiquem
1998; White & Corzo-Menendez,
alerta para este possível diagnóstico
2000; Rooney et al., 2001; Fossum,
diferencial ao lidar com animais que
2005; López, 2007; Maxie, 2007;
apresentarem um quadro de dispneia
Terzo et al., 2008; Santos & Alessi,
ou outros sinais clínicos compatíveis
2011) existente em que um cão da
com TLP.
raça Whippet apresentou rotação de
lobo pulmonar direito médio.
30

5. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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