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/O Estudo Analítico do Poema – Antonio Candido

“[...]Poesia, a forma suprema de atividade criadora da palavra, devida a intuições


profundas e dando acesso a um mundo de excepcional eficácia expressiva. Por isso a atividade
poética é revestida de um caráter superior dentro da literatura, e a poesia é como a pedra de
toque para avaliarmos a importância e a capacidade criadora desta.” p. 19.

Estudar a poesia como se manifesta no poema, em versos metrificados ou livres. Em


seguida, seremos levados a estudar o que o poema transmite, o que tradicionalmente se chama
o seu conteúdo.

A interpretação de um texto decorre da análise.

Os fundamentos do poema
Sonoridade
-Todo poema é basicamente uma estrutura sonora (substrato fônico)
- “O poeta pode, explorá-la sistematicamente e tentar obter efeitos especiais, que
utilizem a sonoridade das palavras e dos fonemas” p. 38
- “o poeta que pode atribuir um dado valor expressivo ao som.” p. 39.
- recorrência de letras ou sons, palavras, frases
- “quando se fala em estrutura sonora, fala-se da sonoridade de qualquer poema, pois
todo poema tem a sua individualidade sonora própria” p. 43.
- o efeito expressivo, mesma de caráter sensorial, pode ser obtido por outros recursos,
ou com a predominância de outros recursos, e principalmente pelo valor semântico das
palavras” p. 43.

A teoria de Grammont

“Teoria que afirma a existência de correspondência entre a sonoridade e o sentimento”


p. 49.
“É uma tradução auditiva de impressões dos outros sentidos, dada pela linguagem
corrente e explorada sistematicamente pelos poetas.” p. 49.
“Todo verso tem assonâncias e aliterações que constituem a base da sua sonoridade, e
que contribuem poderosamente para o seu efeito.” p. 50.
“as palavras que exprimem um rangido, um barulho irritante contem todas um R e uma
vogal clara ou aguda” p. 50.
“O som por si só não produz efeitos se não estiver ligado ao sentido” p. 50.
1 – Repetição de fonemas:
De sílaba, de vogal, de consoante

Tipos de repetição
1-Palavra ou palavras –
2-Fonemas isolados à busca dos mais variados efeitos (movimento regular ou
movimento ou ruído repetido indefinidamente sem ideia de regularidade expressa.)
3- Duas ações paralelas, das quais a segunda segue regularmente a primeira, sendo
eventualmente sua consequência.
4- Uma série de acontecimentos em sequência rápida, dependendo um do outro, ou
paralelos.
5- Insistência, repetição de fonemas essenciais e marcantes.

2 – Vogais
1-agudas: (i,u) dor, desespero, alegria, cólera, ironia, desprezo ácido, troça
2- claras: (i, u, é, è, èn, o)leveza, doçura
3- brilhantes: (a, ò,e, a(n), e(n)barulhos rumorosos
4-sombrias: (u, ó, o(n)barulhos surdos, raiva, peso, gravidade, ideais sombrias
5-nasais: repetem os efeitos das básicas, modificando-as

3- Consoantes
1 – Momentâneas – São as explosivas, próprias a qualquer ideia de choque: oclusivas
surdas e sonoras. As primeiras, mais fortes, produzem mais efeito (T, C, P) que as segundas (D,
G, B). Exprimem ou ajudam a sugerir um ruído seco, repetido.
Ruido mais brando, embora sempre sacudido
Sob o aspecto moral: ironia, cólera, hesitação.

2 – Contínuas: nasais m, n; líquidas l, r; espirantes (sibilantes s, z, f, v, chiantes j, ch)


Nasais: lentidão, brandura, langor, timidez
Líquidas: l, propriamente, só é liquida. Fluidez, escorregamento.
R – efeito variável conforme o apoio vocálico: rachadura, rangido, rugido surdo, grito
abafado.
Espirantes (sibilantes, e chiantes): sopro, sussurro, sibilo, deslizamento, frêmito,
angústia, ciúme, cólera.

3 – Reunião de consoantes diversas


“o mesmo fonema pode servir à expressão de mais de uma sensação ou sentimento, e o
mesmo verso pode servir para exemplificar efeitos diferentes, conforme o tomemos do ângulo
as vogais ou das consoantes”. p. 57.
(labiais e as labiodentais p, b, m, f, v – exprimir desprezo e o asco) – se der esse sentido
(liquida l com as fricativas acrescentara as diferentes nuanças de sopro ou de rumorejo
a ideia de fluidez)

Rima é, segundo Manuel Bandeira, é a igualdade ou a semelhança de sons na terminação


das palavras.
Metro: duração/ acento

Rima
-“[...] obter certos efeitos especiais de sonoridade do verso [...]” p. 61.
métrica rítmica – sucessão das sílabas, com acentos tônicos distribuídos em algumas
delas – p. 61
“No Modernismo, a rima nunca foi abandonada. Mas os poetas adquiriram grande
liberdade no seu tratamento. O uso do verso livre, com ritmo muitos mais pessoais, podendo
esposar todas as inflexões do poeta, permitiu deixa-la de lado.” p. 62.
“De modo geral, a poesia moderna se apoia mais no ritmo do que na rima, e esta aparece
como vassala daquele.” p. 62.
“A função principal da rima é criar a recorrência do som marcante, estabelecendo uma
sonoridade contínua e nitidamente perceptível no poema. Frequentemente a nossa sensibilidade
busca no verso o apoio da homofonia final; e do sistema de homofonias de um poema extrai
um tipo próprio de percepção poética, por vezes independente dos valores semânticos.

Os Fundamentos do Poema

O Ritmo
Os elementos sonoros estão subordinados ao ritmo, que é justamente uma forma de
combinar as sonoridades, não dos fonemas, mas das combinações de fonemas que são as sílabas
e os pés. p. 67.

Cada verso é feito de uma alternância de sílabas mais acentuadas e de sílabas menos
acentuadas.
Ritmo é, pois, uma alternância de sonoridades mais fracas e mais fortes, formando uma
unidade configurada.
O movimento rítmico preexiste a qualquer sistematização feita pelo homem, e que os
movimentos orgânicos se fazem ritmicamente, por sua própria natureza.
O que podemos concluir é que o homem que faz poesia conhece o ritmo na natureza e
pode tê-lo observado e imitado; e que a associação humana cria tipos de atividades ritmadas
que incrementam este conhecimento do ritmo.

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