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ALCOOLISMO

A DOENÇA QUE MUITOS


ESCONDEM!
Antonio Carlos Costa

Alcoolismo
A doença que muitos
escondem!
1ª edição -2007

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Copyright © 2007 by Antonio Carlos Costa

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Capa, diagramação e revisão


Antonio Carlos Costa

Execução
Equipe Corifeu

1ª edição – Outubro 2007


Impresso por Sirspeedy

A reprodução parcial ou total desta obra, por qualquer meio, somente será
permitida com a autorização por escrito do autor. (Lei 9.610, de 19.2.1998)

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

Costa, Antonio Carlos


Alcoolismo – A doença que muitos escondem!/Antonio
Carlos Costa
1ª edição - Rio de Janeiro – Corifeu – 2007 – 86 páginas

ISBN 978-85-7794-033-2

1. Alcoolismo. I. Título.
Sumário

(última coisa a ser feita)

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Agradecimentos
Quero agradecer a minha família, em especial a
Sandra, minha esposa, e aos meus filhos, Carlos Eduardo
e Marcello, além de todos os meus companheiros de AA,
ao Poder Superior, aos amigos e aqueles que direta ou
indiretamente colaboraram para que este livro fosse pu-
blicado.
Agradeço, também, todo o apoio que obtive na re-
cuperação do meu alcoolismo, a força, o incentivo e a aju-
da que me deram para que eu pudesse pesquisar os te-
mas, e os assuntos controversos e relevantes sobre o alco-
olismo, descritos neste livro.
Ficarei muito feliz se a minha mensagem conseguir
despertar nem que seja um único doente do alcoolismo.
Certamente será uma vida salva e uma família agregada e
feliz. Rogando ao Poder Superior para que possa sempre
estender as mãos a todos àqueles que estejam nas garras
do alcoolismo e necessitam de ajuda.
Apresentação
Este livro foi escrito despretensiosamente, no qual é
retratado a biografia de um homem comum, nascido no
subúrbio do Rio de Janeiro, no seio de uma família de
classe média baixa, mas muito amado pelos seus pais.
Uma pessoa que começou a se envolver naturalmente
com a bebida alcoólica, como acontece com a maioria das
pessoas.
Conseguiu concluir a Faculdade de Direito, consti-
tuir uma família, que quase foi dilacerada por sua majes-
tade, o álcool.
Exponho minha vida e minha trajetória no alcoolis-
mo com o propósito de alertar a sociedade e, principal-
mente, aos jovens. Estes são, na sua maioria, facilmente
influenciáveis pela mídia, veículo de comunicação pode-
roso e massificante. A televisão reproduz comerciais de
bebidas alcoólicas muito bem elaborados e sedutores,
mostrando homens, mulheres, artistas, pessoas públicas,
saudáveis, lindos e bem-sucedidos. Tais imagens transmi-
tem uma idéia tendenciosa, pois não retrata a realidade
dos hospitais que tem uma grande parte dos seus leitos
ocupados por vitimas diretas ou indiretas do alcoolismo.
Esta é uma doença que está entre as que mais pro-
duz óbitos no mundo, em todas as classes sociais. Segun-
do pesquisas estatísticas no Brasil há cerca de 12 milhões
de alcoólicos, o que representa aproximadamente 10% da
população adulta na fase produtiva. 60% dos acidentes
de trânsito e 51% dos casos de agressões doméstica são
causados pelo uso do álcool.
Desde 1956, a Organização Mundial de Saúde, clas-
sificou o alcoolismo como doença. Esta atinge homens e
mulheres, em todo o planeta, sem qualquer distinção so-

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cial ou econômica. Pois, como já foi mencionando, a do-
ença do alcoolismo não escolhe as suas vítimas.
Você que bebe “socialmente”, observe com honesti-
dade e atenção a sua forma de beber. Ninguém começou
ingerindo tonéis de cerveja, vinho ou aguardente. A mai-
oria dos alcoólatras começou bebendo aos poucos, muitos
apenas nos finais de semana, sem qualquer dano aparen-
te, apenas para curtir uma balada, se desinibir, comemo-
rar um novo emprego ou um novo namoro, a aprovação
para uma faculdade, e muitos outros motivos. No início, a
bebida descontrai, deixa suas vítimas mais alegres, parti-
cipativas, falantes, galanteadoras etc. Mas tudo tem um
preço, que não é barato; muitos alcoólatras pagam com a
própria vida.
Apenas para exemplificar alguns dos comportamen-
tos alcoólicos. Você chega a um bar com amigos, após um
dia de trabalho, e depois de algumas cervejas, a maioria
deles vai embora e você continua bebendo... “Atenção”, se
após a ingestão de qualquer bebida alcoólica seu humor
fica alterado, se você perde compromissos ou adia res-
ponsabilidades, você deve analisar a possibilidade de
estar se tornando um alcoólatra. Se a alguns anos você só
bebia em ocasiões especiais e nos finais de semana, e hoje
bebe em qualquer ocasião e também durante a semana é
possível que você seja um candidato em potencial para
desenvolver a doença do alcoolismo.
Lembre-se de que a doença não está na garrafa, está
dentro de nós. Ela é ativada com a ingestão aparentemen-
te inócua do primeiro gole de álcool. Na dúvida, dê-se uma
oportunidade, afaste-se da bebida enquanto é tempo.
VIVER sem a bebida alcoólica é realmente VIVER.
Biografia
1 – Minha Família
Meu nome é Antonio Carlos, nascido aos onze dias
do mês de agosto de 1954, no hospital Getúlio Vargas, no
Bairro da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. Filho de Ce-
lestiel e da segunda união matrimonial de Albertina.
Fui uma criança normal, alegre, proveniente de um
lar humilde, mas dotado de muito amor e harmonia. A
bebida era consumida esporadicamente, em ocasiões es-
peciais e nos momentos de convívio social. Nossa família
tinha o hábito de todos os domingos, dia de descanso do
meu querido pai, sentarmos à mesa e degustar macarro-
nada com frango. Nesta ocasião, meus pais apreciavam a
cerveja Malzebier, chamada de barriguda, cognome dado
a um tipo de cerveja preta, adocicada, que nem sei se ain-
da existe. Era comum a garrafa ser guardada na geladeira
ainda pela metade. A ingestão não passava de dois ou três
copos, e mesmo assim apenas aos domingos. Durante a
semana não havia o costume de se beber nada alcoólico.
Minha mãe era pensionista da antiga Policia Militar
do Distrito Federal. Recebia pensão do meu falecido ir-
mão mais velho, filho do seu primeiro matrimônio, que
fora soldado da Polícia Militar do antigo Distrito Federal.
Não cheguei a conhecê-lo, pois falecera em acidente de
moto em dezembro de 1953, portanto antes do meu nas-
cimento.
Morávamos nos três, meu pai, minha mãe e eu nu-
ma casa simples, mas arrumada e limpa, com os eletro-
domésticos básicos para o bom funcionamento de um lar.
Entretanto, não tínhamos televisão ainda, naquela época.

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Nossa residência ficava nos fundos da casa da minha avó
materna.
Meu pai, motorista, ganhava pouco mais de um sa-
lário mínimo. Lembro-me bem que ele saía muito cedo
para o trabalho, e era uma festa quando vinha almoçar em
casa, dirigindo uma Kombi ano 1963, já que isto acontecia
raramente. Meu pai contribuía basicamente com a alimen-
tação e, com a pensão que minha mãe recebia, ela pagava
o restante das despesas familiares, já que a pensão era
superior aos vencimentos do meu querido e honrado pai.
O melhor presente material que eu ganhei do meu
pai foi uma bicicleta, do tipo monareta, que ele ganhara
da empresa na qual trabalhava, no Natal de 67. Não me
lembro de qualquer outro presente significativo, mas o
melhor regalo que meu pai me deu foi a moral e a digni-
dade que, durante muito tempo, ficou nas mãos de sua
excelência, o álcool. Consegui, todavia, resgatá-las e as
preservo com carinho até hoje, e espero transferi-las aos
meus filhos. Neste ponto, meu pai era um homem ímpar.

2 – Minha Infância
Aos seis anos, fui estudar com uma professora cha-
mada Neuza. Mulher rígida, solteirona, disciplinadora,
que ministrava as aulas na varanda dos fundos de sua
casa. Permaneci com ela até completar sete anos, idade
mínima para se freqüentar a escola pública.
Fui, então, matriculado na 1ª série da Escola N. S. de
Fátima, que tinha como diretores um casal de professores
chamados Nélio e Marlene. Ambos eram super-
disciplinadores, sendo que ela era mais do que ele. Não
me recordo o turno; lembro-me apenas da merenda que a
minha mãe preparava: pão com goiabada. O refresco era
acondicionado em uma pequena garrafa plástica e, jun-
tamente com o pão, eram colocados em uma merendeira
plástica. Na hora do recreio era uma farra só. Quando
tinha dinheiro comprava guloseimas na cantina da escola.
Sempre fui uma criança extrovertida e fazia amiza-
des facilmente. Logo me aproximei de um colega chama-
do Manuel, de nacionalidade portuguesa. Seu pai tinha
uma loja de material de construção, ou seja, ele era o ri-
quinho da turma. Ele levava deliciosas merendas e anda-
va quase sempre com dinheiro. Bom camarada, mas como
era o bobinho da turma, eu sempre o protegia. Os outros
garotos, talvez por inveja, sempre o humilhavam e zom-
bavam dele, pelo fato de falar com sotaque. Afinal, era
português. Há uns vinte anos que não o vejo.
Na época, eu adorava participar das festinhas e das
brincadeiras na escola, principalmente as festas juninas
cujas lembranças não me abandonam.

3 – Meus Primeiros Namoricos


Na minha turma havia uma menina chamada Sônia,
uma loirinha de olhos azuis, cabelos claros caídos sobre
os ombros. Eu era apaixonado por ela, mas ela não me
dava muita bola. Até que um dia eu consegui sentar-me
ao seu lado. Aquilo foi o máximo! Creio que a essa altura
já estava na 3ª série primária, com meus 10 anos. Vez ou
outra, sem que a professora visse, eu alisava carinhosa-
mente as suas lindas pernas. Já era meio safadinho naque-
la época, mas nunca lhe dei um beijo.
Nosso namorico se resumia apenas na sala de aula;
naquela época, não tínhamos telefone, internet, orkut, e-
mail etc. Eu ficava ansioso nos finais de semanas para que
passasse rápido para poder vê-la na segunda feira. Toda-
via, nosso caso de amor durou apenas algumas semanas,

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e, no final daquele ano, ela saiu da escola e nunca mais
tive notícias dela.
Nesse período ainda não consumia qualquer bebida
alcoólica ou outra droga; era apenas um apaixonado por
carros. Na rua onde morava, havia um mecânico chama-
do Belizário, um negro muito competente, que tinha uma
pequena oficina mecânica e, quase sempre, eu estava por
lá todo sujo de graxa, por debaixo dos carros. Sentia-me
importante quando me pedia para ligar o carro, acelerar,
acionar o freio, dar uma sangria nos freios e regulá-los e
outros pequenos serviços. A maioria dos carros daquela
época eram os velhos carros americanos, os conhecidos
Chevrolet, Dodge, Plymouth, Buick, Cadilac. Havia pou-
cos carros nacionais, só o fusquinha e, mais tarde, apare-
ceram o Gordine, o Dauphine, o DKW, que eram fabrica-
dos no Brasil. Era muito legal e, no final da semana, Beli-
zário me dava uns trocados.
Terminei o primário na Escola N.S. de Fátima. Na
década de 60, o primário tinha cinco séries e, para se en-
trar no ginásio, éramos obrigados a fazer um preparató-
rio, idêntico ao vestibular, denominado pré-admissão,
que era uma sexta série preparatória ao ginásio.
Fiz o Admissão no Colégio Meira Lima e depois por
falta de condições financeiras, fui obrigado a sair. Matri-
cularam-me no Colégio N. S. do Brasil, que tinha como
diretor, o Prof. Rossini Lopes da Fonte, um político na
região, e consegui uma bolsa parcial de estudo.

4 – Pré-adolescência e as primeiras goladas


Com os meus 13 anos, já começava a freqüentar
pontos de jogo de bicho. Comecei a jogar em corridas de
cavalos, e a dar as minhas primeiras goladas de bebidas e
os primeiros tragos em cigarros, escondidos dos meus
pais, é claro. Caso eles descobrissem que eu bebia e fuma-
va, com certeza, além da decepção, eu ganharia uma bela
surra, apesar de nunca ter apanhado do meu pai.
Estudei nesse colégio a 1ª e a 2ª série do ginásio,
tendo sido reprovado nessa última. Como meu pai não
tinha condições de pagar as mensalidades, mesmo com a
bolsa parcial, fui obrigado a sair deste educandário. Ma-
tricularam-me na 2ª série do ginásio no Colégio Cristo
Rei, que ficava em Vaz Lobo, próximo a Madureira, dis-
tante da minha casa, onde terminei o Ginásio e o Cientifi-
co.
Só eu e Deus sabíamos como já estava bem envolvi-
do com a bebida. Dentre as bebidas, eu tinha a preferência
pela Jurupiga e quando tinha um dinheirinho a mais, be-
bia Samba em Berlim (Coca Cola com cachaça) ou Cinzano.
Tudo dependia do que eu tinha no bolso. Já bebia, naque-
la ocasião, pelo efeito produzido pelo álcool. Hoje percebo
que sempre fui mais maduro para idade do que tinha,
pois gostava de andar com pessoas mais velhas, viciadas,
que nada me acrescentaram. Talvez por insegurança ou
complexo de inferioridade, percebia que era diferente dos
garotos da minha idade; acreditava ser mais esperto e
malandro.
Já fumava cigarros e usava algumas drogas leves,
tipo Mandrix, Optalidon, Romilar, além de outras consi-
deradas fracas. A maioria dos dependentes químicos co-
meçou com essas drogas tidas como inocentes e leves,
mas não menos danosas. Porém não eram as minhas pre-
feridas: meu negócio era o álcool.
Era a época dos bailes com The Fevers, Lafayette,
Johnny Mazza, Devaneios, ensaios de escolas de samba
no Portelão, no Império Serrano, Tia Lea, dentre outros
lugares de baixa espiritualidade. Em suma, as pessoas dos
anos 70 e 80, com certeza, ouviram falar dessas drogas. A

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maconha era encontrada com facilidade, mas eu não tole-
rava o cheiro. Na época, quem usava essa droga era tido
como marginal, diferente dos dias de hoje cujo uso está
banalizado.
Cocaína era coisa rara. Somente os endinheirados e
intelectuais tinham acesso e não era encontrada com tanta
facilidade como hoje. Aquilo não era para o meu bico,
graças a Deus; meu negócio era bebida alcoólica, princi-
palmente as destiladas. Gastava pouco dinheiro e o efeito
era mais rápido do que a cerveja, que é considerada uma
bebida leve, mas igualmente danosa tanto quanto a mais
sórdida aguardente, pois tanto os destilados, quanto a
cerveja, embriagam e, para nós, alcoólicos, é puro veneno.

5 – Minha Adolescência e o Trabalho


No final da década de 60 e inicio dos 70, eu, na faixa
dos meus dezesseis anos, comecei a trabalhar na feira,
com uma pessoa a quem prezo muitíssimo, o Salvador,
que também gostava de umas bebidinhas, como eu. De-
pois veio a ser o meu padrinho de casamento. No final
das feiras, ele e eu íamos aos bares vizinhos, e bebíamos
todas. Não esperávamos sequer pelo final do trabalho
para beber, pois, muitas vezes, começávamos pela manhã.
Lembro-me que quase sempre trabalhávamos alcooliza-
dos.
Naquela época, a barraca do Salvador tinha uma
freguesia enorme. Vendíamos frutas estrangeiras, tais
como maçãs, pêras, uvas etc. Em determinadas épocas,
dependendo do período, trabalhavam três ou mais em-
pregados na barraca. Quantas vezes a barraca ficou na
mão desses funcionários, com dinheiro espalhado, que
não era pouco, pois aquelas frutas eram, na sua maioria,
importadas de preço elevado. Enquanto isto, nós nos em-
briagávamos nos bares. Esse trabalho perdurou por mui-
tos anos e a nossa amizade perdura até hoje.
Em um dia de folga da feira, numa tarde qualquer,
eu estava à toa no parque Ary Barroso, na Penha, local
que costumava freqüentar a fim de paquerar as garoti-
nhas e ficar escondido, vendo os casais namorar e, às ve-
zes, até mesmo transar. Foi durante uma partida de vôlei,
esporte que eu não tenho a menor intimidade, que conhe-
ci uma pessoa muito especial, que mais tarde veio a ser a
minha esposa. Aquela fora provavelmente a primeira e
única vez que “joguei”, e por isso endosso o ditado popu-
lar “o acaso não existe”.
Aos meus 17 anos, fui servir a pátria, tendo me alis-
tado no Exercito Brasileiro, onde fui recrutado para pres-
tar o serviço militar no 1º Batalhão de Polícia do Exercito,
na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, tendo permanecido
por onze meses, período obrigatório. Em 1973, fui dispen-
sado das fileiras do exército.

6 – Minha fase adulta e o fundo de poço


Aos 18 anos, já estava profundamente envolvido
com o alcoolismo. Contudo, quando somos jovens temos
uma recuperação física muito rápida. Mesmo após porres
homéricos, no dia seguinte, estava de pé, aparentemente
sem qualquer problema físico ou dano à minha imagem.
Isto até o próximo gole, quando tudo se reiniciava, pois as
outras drogas não mais me interessavam. Tinha medo de
que meus pais soubessem que eu usava aqueles entorpe-
centes, como eram chamados. Então me envolvi com a
droga lícita, o álcool, que foi meu parceiro por mais de
vinte anos. No início, trouxe-me alguns “momentos de
alegria”, de descontração, porém, posteriormente, condu-
ziu-me a inúmeros episódios de angústia, de mentiras, de

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desesperos e de infelicidades. Paguei um preço muito alto
por esse envolvimento e, por pouco, não paguei com a
vida.
Depois de ter feito dois concursos públicos para
soldado da Polícia Militar, fui aprovado. Nesse segundo
concurso realizado em 1974, acabei sendo sido incorpora-
do em 17 de outubro, e fui fazer o Curso de Formação de
Soldados, no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de
Praças (CEFAP), no Bairro da Sulacap, no Rio de Janeiro.
Neste mesmo ano meu pai faleceu, mas teve a opor-
tunidade de me chamar ao seu leito nos últimos dias de
vida. Com extrema dificuldade, pois o câncer já estava
bastante avançado, parabenizou-me pela conquista do
emprego público. Para a época, aquilo era excelente, ain-
da mais para um filho de operário, pois como soldado
PM, ganhava aproximadamente oito salários mínimos.
Então me pediu que olhasse com carinho para a Alberti-
na, sua esposa e minha mãe, o que, confesso, não fiz a
contento. Deixei muito a desejar, atitude pela qual hoje
me arrependo; poderia ter feito mais pela minha mãe.
Alguns dias depois desta conversa, ele veio a falecer.
Mesmo nas garras cruéis do alcoolismo, sempre
procurei estudar. Mesmo que alcoólatra não tem concen-
tração para o estudo, eu me esforçava e comparecia à es-
cola e depois à faculdade. Nessa ultima, fui aprovado em
um vestibular para a Universidade Gama Filho, faculdade
da elite carioca. Nos anos 70, havia poucas faculdades
particulares que ministravam o curso superior de Direito.
No Rio de Janeiro, não chegavam a seis instituições, bem
diferente da atualidade na qual existe uma faculdade de
direito em qualquer esquina. Isto sem mencionar as fa-
culdades à distância.
Havia um bar na Rua da Capela, próxima a minha
universidade, o qual freqüentei assiduamente durante a
maior parte do horário das aulas e do meu curso de Direi-
to. Que imbecilidade e desperdício de dinheiro! Não raro
às sextas feiras, juntávamos um grupo e partíamos para a
já famosa Ilha dos Pescadores, na Barra da Tijuca.
Aos vinte anos, policial militar, servindo no 3ºBPM,
universitário, cursando o primeiro ano de Direito, com o
meu primeiro carro, um fusquinha 63, que comprei em 74,
um revolver na cintura, pulseira e cordões de ouro pelo
corpo, com dinheiro sobrando, eu me sentia o cara.
No auge da minha prepotência, sempre ligado aos
lugares onde tudo podia faltar menos bebidas e mulheres,
freqüentava de tudo: prostíbulos, cabarés, zona do baixo
meretrício (famosa Pinto de Azevedo), boates, tais como
as conhecidas Dominó, na Lapa, Cowboy e Florida na
Praça Mauá, Bambú na Praia de Ramos, e assim por dian-
te.
Nessa época, a bebida já começava a atrapalhar
muito meu comportamento, pois na Polícia Militar, du-
rante a minha estada, a maior parte do tempo, trabalhei
no policiamento de trânsito, normalmente de segunda a
sexta feira das seis da manhã ao meio-dia. Eu ficava no
posto até a passagem da supervisão, que assinava a mi-
nha caderneta. Depois disto, quem quisesse me encontrar,
era só me procurar em algum bar da vizinhança, pois os
meus superiores não cobravam muito do pessoal de trân-
sito, já que os “bonés brancos” eram considerados a elite
do batalhão.
O álcool contribuiu para que me tornasse arruacei-
ro, arrogante, valentão, um grande babaca. Ainda mais
polícia e armado, naquela época, como soldado PM, era
muito respeitado, em razão da influência da ditadura mi-
litar. Quantas arbitrariedades e maldades eu fui o prota-
gonista. Hoje vejo que perigo eu representava para a soci-
edade.

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Mesmo com todos esses envolvimentos e irrespon-
sabilidades, consegui concluir o curso de Direito, no final
do ano de 1979. Com vinte e cinco anos e apesar de ser
um bêbado, era uma pessoa bem aceita no meu convívio
universitário. Pois a maioria dos bebuns é considerado
“gente boa”, principalmente nas ruas e nos bares.
Naquela época, o curso de Direito tinha a duração
de quatro anos ou oito semestres. Nesse mesmo ano de
79, no mês de julho, dei baixa voluntariamente da Policia
Militar. Mesmo sendo um bêbado, nos meus momentos
de lucidez, vislumbrava algo melhor do que a carreira de
praça. Apesar de agradecer muito o aprendizado que ob-
tive na PMERJ, pois se não fosse essa instituição, dificil-
mente teria concluído um curso de nível superior.
Conquistei boas amizades, algumas as quais ainda
preservo até os dias de hoje. Para mim, a PMERJ foi uma
escola de vida cujos ensinamentos guardarei para o resto
da vida. Foi muito importante para a formação do homem
que sou hoje, apesar dos pesares. Naquela época, era uma
outra polícia, mais respeitada e formada por homens com
ideais diferentes do contingente dos dias atuais, guardan-
do as devidas proporções.
Somente para ilustrar minha afirmação, relato que
durante os quase cinco anos que pertenci à corporação,
não houve mais de dez mortes de policiais em confrontos.
Com relação à exclusão de pessoal da corporação por mo-
tivos diversos, como desvio de conduta e outros, afirmo
sem medo de errar que durante o período que lá estive
não chegaram a vinte. Isso mesmo, vinte policiais excluí-
dos! Era uma outra época e outra polícia.
Contudo, havia alguns desvios graves, pois muitos
colegas entravam como soldados e se reformavam após
trinta anos de serviço na mesma patente. As provas para
o concurso interno de cabos e sargentos eram feitas pela
própria corporação, e havia um grande tráfico de influên-
cia, de fraudes, de venda de gabaritos e outras falcatruas.
Caso não se participasse desse conluio, entrava-se na cor-
poração e acaba-se reformando na mesma patente inicial.
Quando dei baixa, alguns colegas me chamaram de
maluco, pois tinha uma carreira pela frente e com apenas
vinte e quatro para vinte e cinco anos, iria deixar a PM.
De qualquer modo, decidi-me pela baixa, como era cha-
mado o licenciamento, pois não admitia que sargentos
semi-alfabetizado me chamassem a atenção, só porque
eram meus superiores hierárquicos. Não aceitava que
alguns oficiais, os Qoas, e até mesmo os de escola, princi-
palmente os aspirantes e segundos-tenentes humilhassem
os soldados e os cabos, às vezes, com ordens e procedi-
mentos absurdos. Quando eles sabiam que soldados, co-
mo eu, eram universitários ou de nível superior, aprovei-
tavam para tripudiar com comandos descabidos.
Esses oficiais vinham cheios de ideais da escola de
formação de oficiais, todavia não lhes fora passado, que
nos batalhões operacionais, o trabalho, por ser eminente-
mente prático, era diferente do que fora ensinado na teo-
ria. Todos são profissionais, do soldado ao coronel, pois
em inúmeras situações estarão juntos em confrontos, e
balas não escolhem entre praças e oficiais.
Faziam de tudo para atrapalhar, não permitiam ou
criavam dificuldades para dispensa ou troca do serviço
para provas nas escolas ou faculdades. Pude perceber que
alguns oficiais tinham realmente inveja e não aceitavam
que um soldado estivesse prestes a concluir uma faculda-
de. Comecei a entrar em conflito. Não me conformava que
quisessem me punir ou chamar minha atenção porque
estava com o cabelo fora do padrão ou com o coturno
sujo. Usando do bom-senso, isto é motivo de punição?
Além de dinheiro que éramos quase que forçados a “coo-

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perar”, com os sargentos e a companhia. Era, na realida-
de, uma forma de propina que se pagava a eles a fim de
conseguir um bom posto de trabalho, não sofrer persegui-
ções, participar de uma blitz de trânsito, folgar num sá-
bado e domingo, trabalhar apenas um dia no carnaval e
outras benesses. E, naturalmente, os colegas de menor
posse ficavam com os piores serviços do batalhão.
Só para ilustrar, no batalhão, havia um capitão que
postergou a sua promoção a major. Ele, como capitão,
comandava a companhia de trânsito a qual eu pertencia e
como estava na fase final da construção de sua casa, pre-
cisava do dinheiro conseguido mediante extorsão nas
batidas policiais. Grande parte de sua casa foi construída
com o apoio e financiamento do pessoal do trânsito.
Quando não pôde mais embaraçar sua promoção, galgou
ao posto de major. Deve ter sido um “castigo” para ele e
não, uma promoção.
Sempre adotei a tese de que onde há corrupção, não
existe hierarquia; então pude observar e entender que
aquele convívio de hipocrisia, subserviência e falsidade
não eram para mim; almejava algo melhor.
Apesar de todo esse contexto, tenho uma grande es-
tima pela corporação. Acredito e tenho certeza de que a
instituição é formada, na sua maioria, de homens probos,
de bons costumes e de caráter impoluto, que pautam pela
honestidade e a prestação de um bom serviço público à
sociedade. Tanto é que não me arrependo de um só ins-
tante dos momentos a que pertenci à gloriosa PMERJ.
Hoje, tenho consciência de que a corporação é composta
por homens vindos das diversas camadas sociais, com
todos os vícios e costumes próprios da sociedade.
Mas, naquela ocasião, havia mais ofertas de empre-
gos e oportunidades profissionais do que nos dias de ho-
je. Atualmente quem é possuidor de diploma de nível
superior não tem a garantia de emprego, mas naquela
época, havia um mercado de trabalho promissor para os
profissionais de nível superior. Bem diferente dos dias
atuais nos quais graduados de diferentes profissões vi-
vem na informalidade, pois o nível de ensino e das insti-
tuições caiu muito. Isto sem mencionar a notória falta de
oportunidades e o crescente desemprego que assola nosso
país. Na minha ótica, percebo a falta de vontade política
para dirimir tal situação.

6 – O advogado alcoólatra
Em 1980, comecei a advogar em Nova Iguaçu, cida-
de do estado do Rio de Janeiro, a convite de um contador,
que também estava começando na profissão. A bebida já
tinha tomado conta de minha vida, mas ainda havia um
“certo controle”. Já andava faltando aos compromissos,
deixava o escritório com a secretária e partia para o bar,
onde permanecia por longas horas. Ao retornar ao escri-
tório, quase sempre alcoolizado e impaciente, suarento,
produzia muito pouco.
O dinheiro ganho com a advocacia mal dava para a
minha manutenção. Já era noivo daquela menina linda
que conhecera no parque Ary Barroso. Até hoje me per-
gunto como ela suportou tanta infelicidade e as minhas
cachaçadas, as minhas grosserias, além de minha prepo-
tência e arrogância.
Resolvemos nos casar. Ela, formada em Serviço So-
cial e trabalhando na área administrativa da empresa Cas-
trol do Brasil, na qual percebia um salário razoável, e eu,
vivendo de migalhas da advocacia. Nos finais de semana,
o doutor aqui fazia bico na feira, com o amigo Salvador,
pois o pouco dinheiro que ganhava, gastava tudo ou a
maior parte com a bebida, o jogo, as mulheres e a farra. A

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minha noiva comprou a maior parte dos enxovais para o
casamento, enquanto que eu era um inútil. Em outras
palavras, aquela menina linda, uma enviada de Deus,
chegou em minha vida com a missão de me salvar – creio
eu –, porque se não fosse por esta mulher de garra, eu já
teria morrido há muito tempo.
Estava caminhando a passos largos para a loucura
ou a morte, além de total descrédito profissional, que fa-
talmente seria o primeiro passo para a morte moral e es-
piritual, e, rapidamente, chegaria à morte física.

7 – Meu casamento
No final de dezembro de 1980, precisamente no dia
20, bêbado, conduzi aquela perola ao altar. O enlace se
consumou na igreja do Bom Jesus da Penha.
Como todo bom cachaceiro era um presepeiro. Não
sei como consegui montar uma casa com os utensílios
básicos. A maioria dos bens foi adquirida com o dinheiro
da minha noiva. A roupa do casamento foi presenteada
pelo seu pai, um excelente alfaiate. Um terno branco, mui-
to lindo, e ele também nos deu uma geladeira. Realizamos
o matrimônio e tivemos uma festa de casamento. E como
ela tinha direito ao SESC, reservamos para a nossa lua de
mel um apartamento no hotel dessa empresa em Santa
Cruz, Vitória do Espírito Santo.
Como sempre eu estava duro como um coco. Para a
nossa felicidade, meu amigo e padrinho de casamento
Salvador, aquele mesmo da feira, me presenteou com
uma quantia de uns 1000 dólares, o que era muito dinhei-
ro.
Curtimos a lua de mel. Fui de avião, aluguei um
carro, passeamos por Vitória, Guarapari e toda aquela
linda região. Curtimos as belas praias e tomei todas.
Mesmo assim ainda sobrou um bom dinheiro. Regressa-
mos no inicio de janeiro de 1981 à cidade maravilhosa, ao
nosso lar, uma pequena casa alugada de fundos no bairro
de Bonsucesso.

8 – Assessor no Acre
Recebi um convite irrecusável para ser assessor de
um prefeito na cidade de Brasiléia, Acre. Mandaram-me a
passagem de avião e fui sozinho ao Acre. Poderia ter le-
vado a minha esposa, mas, na realidade, o que eu queria
mesmo era farra. Deixando em casa sozinha aquela prin-
cesa recém-casada, mas acreditando em sua honestidade,
fui sem medo.
Brasiléia é localizada na divisa com a Bolívia, a cin-
co horas de viagem de Rio Branco, capital do Acre. Lá
chegando, fui recebido pelo prefeito, o Sr. Laudemiro, que
me conduziu até uma casa tipo pousada na qual iria resi-
dir enquanto estivesse na cidade. Nos primeiros dias fo-
ram dedicados ao reconhecimento da cidade e as apresen-
tações às autoridades locais: juízes, promotores, delega-
dos, políticos e outros. Tudo era motivo para confraterni-
zações e o prefeito também gostava de bebida e da farra.
Ele tinha sérios problemas com o alcoolismo, mas como é
a doença que a maioria esconde, ele não aceitava sua
condição de alcoólico.
Corria na cidade o comentário de que ele fora muito
rico com a exploração de seringais e balsas para extração
de ouro, mas perdera tudo em bebidas, farras e mulheres.
Em certa oportunidade, conheci sua esposa que vendia
pasteis de porta em porta para sobreviver, pois o dinheiro
dele, segundo comentários, não chegava em casa; ficava
todo pelo caminho. Às vezes, bebia em excesso e desapa-

24
recia por dias sem aparecer na prefeitura, curando a mal-
dita ressaca.
Então, juntou a fome com a vontade de comer, pois
lá eu tinha tudo que um alcoólatra podia querer: prestí-
gio, farras, bebidas e irresponsabilidades. Quase toda se-
mana, o prefeito e eu íamos à Bolívia. Era só atravessar o
rio numa pequena embarcação e chegávamos a Cobichas,
cidade boliviana. Lá bebíamos todas, desde a mais sórdi-
da cachaça ao melhor uísque, sempre por conta do prefei-
to. Nos finais das tardes quando estava em Brasiléia, o
delegado, um cachaceiro igual a mim, me procurava e
íamos às tabernas da cidade, que nada nos cobravam pelo
nosso consumo alcoólico.
O importante era beber e continuar bebendo. Co-
mer, só petiscos e tira-gostos. E assim foi a minha vida
nessa nova experiência, na qual joguei fora uma excelente
oportunidade de carreira profissional. O nível intelectual
das pessoas da localidade era deficiente, e naquela época
qualquer profissional oriundo do Rio de Janeiro e São
Paulo eram vistos como intelectuais, pois havia falta de
juizes, promotores, delegados e outras funções públicas.
Na Ordem dos Advogados do Estado do Acre (O-
AB), salvo engano, haviam apenas dezesseis advogados
inscritos, pois no estado não havia faculdade de direito.
Em 1981, era um estado recém-saído da condição de terri-
tório federal.
Permaneci na condição de assessor e procurador
municipal por uns quatro meses. Foram cento e vinte dias
de pura orgia e desmandos com o dinheiro público. Já no
final da minha estada no Acre, fui convidado a represen-
tar o Estado, na comemoração da independência do Peru,
realizada na Cidade de Inãpari, vilarejo peruano encrava-
do na Amazônia Peruana, próximo a Cuzco.
O presidente da Câmara Municipal de Brasiléia e eu
participamos com as autoridades locais dos festejos. Para
mim foi a primeira vez que vivenciei uma situação de
prestigio, junto a um país vizinho. Mas, para o vereador,
não. Ele já estivera em outras ocasiões nessas comemora-
ções, tanto que levou na sua mala pacotes de café para
vender na cidade peruana, no lugar de roupas. Estava, na
maior parte do tempo, preocupado com seu negócio co-
mercial, deixando de lado a sua atribuição representativa.
Numa noite, bebi exageradamente, como de costu-
me, um tipo de cerveja que é servida no seu estado natu-
ral, sem gelo. Foi um porre daqueles que, no outro dia,
não conseguia levantar a cabeça do travesseiro de tanta
indisposição.
Recordo-me que consegui sair da cama na parte da
tarde, mas tal pesadelo durou até o próximo gole, quando
recomecei a beber. Ficamos na cidade num final de sema-
na, de sexta a domingo, e retornamos na segunda feira
seguinte, na mesma caminhonete S-10, que nos trouxera,
numa viagem de aproximadamente 12 horas por atalhos
da selva amazônica. Havia certa preocupação com os
membros do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso que, vez
por outra, atacava e roubava veículos e passageiros. Gra-
ças a Deus, não tivemos problemas na viagem. Infeliz-
mente, nada pude perceber da exuberância da selva peru-
ana e brasileira, pois, como de costume, estava alcooliza-
do. Finalmente, chegamos a Brasiléia.
Dias depois dessa viagem, entreguei meu pedido de
exoneração do cargo comissionado que exerci por quatro
meses aproximadamente. Regressei ao Rio de Janeiro,
pois além da saudade que sentia de minha esposa, naque-
le momento político, não havia mais perspectiva para
mim. Meu grupo político era ligado ao PDS e quem ven-

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cera as eleições fora o PMDB, ferrenhos inimigos políticos
do meu grupo.

9 – Minha Passagem como Professor do Se-


nac e o ingresso no Tribunal de Justiça
Tomei conhecimento de que o Senac, na diretoria
regional na Rua Pompeu Loureiro, em Copacabana, esta-
va selecionando professores mediante concurso. Fiz a
minha inscrição, prestei o exame, fui habilitado e direcio-
nado a lecionar no Senac, em um núcleo denominado
CFP4, localizado à Rua Marechal Floriano, no centro da
cidade.
Ministrei a disciplina de Direito e Legislação para o
primeiro curso de Técnico de Transações Imobiliárias (an-
tigo curso para corretores de imóveis), que o Senac estava
promovendo no turno da noite, isso em meados de 1981,
tendo permanecido até o final daquele segundo semestre.
Nos intervalos das aulas, solitariamente, me dirigia
ao conhecido Bar da Sardinha na Rua do Acre, e ingeria
uma bebida destilada conhecida como quente ou quebra
gelo. Depois disto, vinha o chopp e as sardinhas para que
se alguém me visse, eu estaria apenas lanchando. Mas, na
realidade, eu queria mesmo era beber. Depois regressava
à sala de aula.
Podem imaginar que tipo de aula eu ministrava na-
quela ocasião. Ficava a todo instante olhando para o reló-
gio e uns quinze minutos antes do tempo, encerrava as
aulas e retornava correndo ao bar, agora mais tranqüilo,
pois não tinha mais obrigações. Bebia até altas horas e
depois me dirigia para casa totalmente embriagado. Ain-
da consegui ficar no Senac uns meses quando fui demiti-
do.
No segundo semestre desse mesmo ano, tomei co-
nhecimento que haviam aberto inscrições para o primeiro
concurso de nível superior para o cargo de Técnico Judi-
ciário Juramentado de Entrância Especial do Tribunal de
Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Fiz a minha inscrição,
sem grandes pretensões, pois estudava muito pouco. O
concurso não era muito concorrido e foi pouco divulgado,
bem diferente dos dias atuais.
No mês de agosto de 1982, num domingo, acordei
ressaqueado do dia anterior e fui fazer a prova. Para mi-
nha sorte, naquela ocasião, esse concurso não era muito
atrativo, pois o salário era muito baixo. Na carreira inicial,
o salário girava em torno de dois mínimos. Haviam se
inscritos uns 1500 candidatos; hoje, qualquer concurso
público, principalmente na área jurídica, as inscrições
ultrapassam a casa dos sessenta mil candidatos de alto
nível cultural.
Por obra do Divino, o fiscal da prova passou mal e
precisou ir urgentemente ao banheiro. Ele pediu que a
turma se comportasse e evitasse se levantar ou colar, pois
não havia ninguém para substituí-lo enquanto iria ao sa-
nitário. Foi a minha salvação. Não tinha concluído nem a
metade das questões da prova, olhei ao meu redor, escalei
um candidato, aquele com aparência de “CDF”, sentei-me
ao seu lado e sanei todas as minhas dúvidas das questões
que ainda estavam em branco. Resumindo, consegui a-
provação na prova escrita.
A etapa seguinte seria a prova classificatória de da-
tilografia. Nessa tive uma classificação mediana e a nota
final totalizou sessenta e três pontos, o que me classificou
em 73º no concurso. Fui nomeado em 01 de outubro de
1982 como Técnico Judiciário Juramentado de Entrância
Especial.

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Fui designado para trabalhar na Vara Regional de
Campo Grande. Era a única vara cível daquela região,
pois só havia uma vara para feitos cíveis e família, e outra
para feitos criminais. Lá chegando, fiz poucos amigos e
muitos colegas, principalmente, os que rezavam na minha
cartilha, a da bebida. Todos os santos dias, eu bebia, mas
durante o expediente ainda me segurava. Bebia pouco,
mas ficava ansioso para chegar ao termino de expediente.
Deste modo, quando o relógio apontava para o final do
expediente às 17:30 hs, eu saía voando para o bar, igual a
uma pessoa que tem uma sede incontrolável. Tomava
todas e mais algumas. Quanta irresponsabilidade, pois já
tinha um filho, que nascera em dezembro de 1981 e estava
para completar um ano.
Pouco me importava em curtir meu filho juntamen-
te com a minha esposa. Meu desejo era ficar até altas ho-
ras da madrugada, bebendo e farreando, sempre inven-
tando mentiras e desculpas esdrúxulas. Permaneci nessa
regional até 1985, quando consegui uma remoção para o
fórum da capital, sendo designado para trabalhar na 13ª
Vara Cível.

10 – A doença do Alcoolismo chegando ao topo


O ápice do meu alcoolismo. Eu pegava no trabalho
as 11:00 hs, chegava nervoso, impaciente e logo arranjava
uma desculpa ou para comprar cigarros ou tirar xeroxs.
Dirigia-me ao bar, antes do almoço, o chamado “pé sujo”,
um local com uma única porta que existe até hoje em fren-
te a lateral da câmara dos deputados, ao lado da igreja de
São Jose, situado na rua do mesmo nome.
Então tomava uma talagada, disfarçava, jogava uma
conversa fora, do tipo “hoje o tempo está quente”, “o fla-
mengo ganhou” e um montão de “blá, blá, blá”. Em me-
nos de dez minutos, bebia duas ou três doses. Deste mo-
do, eu conseguia melhorar a minha ansiedade e voltava
ao cartório. Todos os meus colegas estavam arrumados,
de banho tomado com ar de frescor, e eu, sempre suaren-
to e impaciente. Por volta das 13:00 hs, saía com a descul-
pa de almoçar, quase sempre no restaurante Chamego do
Papai, ou, vez por outra, no Xodó do Paço, que ficava por
detrás desse. Outras vezes ficava perambulando pelas
ruas sem local certo para fazer a minha refeição.
O que desejava mesmo era beber, e regressava ao
cartório embriagado duas ou três horas depois. As pesso-
as me olhavam, me censuravam, comentavam de minha
demora e perguntavam aonde fora almoçar. Diziam com
ar de deboche; “foi comer peixe”. Às vezes me repreendi-
am, mas eu não ligava. Quando alguém me importunava
sobre meu avançado estado etílico, sobre meu comporta-
mento irresponsável ou do modo como eu me embriaga-
va, eu respondia em alto em bom som:
– Bebo com o meu dinheiro. Paro quando quiser,
ninguém tem nada com a minha vida. Sou concursado,
não entrei pela janela como a maioria de vocês.
Vociferava isto com extrema empáfia, pois, naquela
oportunidade, haviam poucos serventuários da justiça
concursados e ainda por cima, eu tinha nível superior
enquanto a maioria, não. Quanta arrogância e prepotên-
cia! “Trabalhava”(só Deus sabe como), e na minha mente
doentia, pensava: “sou funcionário público; não devo sa-
tisfação a ninguém”, e, portanto, teriam que me aturar.
Comportamento este atualmente não tolerado pelo Tri-
bunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, que é um
dos primeiros do Brasil em modelo de gestão administra-
tiva, servindo de parâmetro para outros tribunais. Certa-
mente hoje, com este comportamento, não estaria mais
nos quadros do TJ ou teria respondido a um inquérito

30
administrativo com a conseqüente demissão, ou, na me-
lhor das hipóteses, estaria aposentado por problemas psi-
quiátricos. Isto posto, se ainda estivesse vivo, bem enten-
dido, e tudo em função de sua majestade, o álcool.
Ainda não sabia que era um doente e que precisava
de tratamento. A tomada de consciência é muito difícil,
pois pensava que alcoólatra é aquele que vive sob as mar-
quises, maltrapilho, sem família e sem emprego. Hoje
tenho plena consciência de que muitos desses que vivem
ao léu nem sequer bebem e são vítimas do nosso modelo
econômico e social. Os que efetivamente bebem já tive-
ram, como eu, emprego e família e isto lhes foi tirado pelo
álcool. Quantas vezes pedia ao meu chefe para sair mais
cedo com o pretexto de levar meu filho ou minha esposa
ao médico, apenas para ficar nos bares da vida, bebendo.
E no outro dia, ligava dizendo que estava me sentindo
mal, que não poderia comparecer ao trabalho. Será que eu
enganava as pessoas ou a mim mesmo?
Permaneci no cartório da 13ª Vara Cível da Capital
por alguns anos. Depois com o desmembramento, passei
para a 35ª Vara Cível, que funcionava nas mesmas de-
pendências da 13ª Vara Cível; somente os juízos que eram
distintos. Ainda nos idos dos anos de 86/88, eu fazia vá-
rias inscrições em concursos públicos, sendo a maioria
deles fora do Estado do Rio de Janeiro. Os estados de mi-
nha preferência eram Minas Gerais e São Paulo.
Hoje tenho consciência de que essas inscrições nada
mais eram do que uma fuga geográfica, pois longe de
todos, poderia beber mais à vontade, sem regras ou es-
crúpulos. Numa dessas fugas, fiz uma inscrição para um
concurso para a Magistratura no Estado de São Paulo,
sem estudar, sem estar preparado para um concurso des-
sa envergadura.
Comprei uma passagem no famoso trem de aço com
cabine marcada e partida prevista para sexta feira, que
partia da Central do Brasil às 23:55 hs, com destino a Es-
tação da Luz em São Paulo, que chegava pontualmente as
08:00 hs. Então lá fui eu, conhecer a minha cabine e aco-
modar minha bagagem, pois esse trem tinha cabine-
dormitório, poltronas e carro-restaurante. Minha cabine
era muito confortável com ar condicionado e banheiro
interno. Mas adivinhem para onde fui? Logicamente ao
carro restaurante. Bebi até altas horas da madrugada e
depois me dirigi a cabine. Não lembro se dormi ou se
desmaiei.
Cheguei sábado pela manhã na famosa e antiga Es-
tação da Luz, peguei minha bagagem e me hospedei em
um hotel próximo, na Praça da República, onde havia
bons restaurantes e teatros famosos por exibir, a preços
populares, sexo explícito em seus palcos. Todavia, não fui
a esses teatros, observei os cartazes que convidavam os
transeuntes a assistir a sessão que iria começar. Fiquei por
ali, tomando umas e outras, retornei ao hotel e, à noite, fui
conhecer a cidade.
Observem o grau de irresponsabilidade, pois tinha
prova para a magistratura no domingo. Ao visitar alguns
pontos da cidade, parava, tomava um gole e depois conti-
nuava a caminhada. E assim fui bebendo pela cidade. A
tarde ia chegando ao fim, já no começo da noite e eu, soli-
tariamente, perambulando por vários locais.
Até que por volta das nove da noite, notei numa ga-
leria, uma boate, tipo piano bar, de nome “Padoke”. Eu
estava vestido socialmente; por cima da camisa, um bla-
zer. Entrei na boate, sentei-me à mesa, pedi algumas be-
bidas, ouvindo músicas, coisa e tal..., e por lá fiquei até as
duas da madrugada. Depois de muito beber, embriagado,
paguei a conta e voltei ao hotel, que era próximo.

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Quando me deparei, estava na famosa esquina da
Rua Ipiranga com Avenida São João. Agarrei-me a placa e
lembrei-me da musica “Sampa”, cantada por Caetano
Veloso. Relembrando a música e, muito emocionado, com
lágrimas nos olhos, fiquei alguns minutos no local. Um
alcoólico como eu, facilmente, se emociona. Cheguei ao
hotel, pedi na recepção que me acordassem as seis, pois a
prova estava marcada para as oito da manhã.
Fui ao meu quarto e mais uma vez desmaiei de rou-
pa e tudo. Fui despertado pelo toque insistente do telefo-
ne. O recepcionista relembrava-me do meu compromisso.
Precisava me levantar. Cambaleando, fui em direção ao
banheiro. Com os olhos injetados de sangue, acometida
de um mal-estar profundo, uma ressaca que me alucina-
va, um completo desconforto, consegui lavar o rosto, pe-
gar minha pasta e ir ao local da prova.
Podem imaginar que prova eu fiz. Como era de se
esperar, fui péssimo. Não respondi a todas as questões,
não aguardei o final do certame e me retirei. Entrei logo
no primeiro bar e comecei a beber para esquecer toda a-
quela situação. À tarde, dirigi-me à rodoviária, peguei o
ônibus e regressei ao Rio de Janeiro.
Já não estava mais suportando a vida que levava.
Quando sóbrio, prometia a mim mesmo que nunca mais
iria me comportar daquela maneira, que não mais beberia
tanto, mas era tudo passageiro. Logo estava envolvido
novamente e preso nas garras do alcoolismo. Não sabia
que era um doente, achava que era um sem-vergonha sem
a necessária força de vontade para abandonar a bebida.

11 – Meu desespero e a chegada aos AA


Minha chegada aos Alcoólicos Anônimos.
Já não suportava mais aquela vida de desgraça e
descaminhos que estava levando com a minha mulher e
agora com os meus dois filhos, um com sete anos e o ou-
tro com dois anos, aproximadamente. Teria que decidir,
ou parava de beber para poder ajudar a minha mulher a
criar os meus filhos com dignidade ou me separaria e con-
tinuava na vida de alcoolismo. O que não poderia era
carregar comigo três pessoas maravilhosas e inocentes,
que não tinham culpa de meus atos irresponsáveis.
Foi quando, num lampejo de serenidade, no mês de
janeiro de 89, decidi conhecer os AA (irmandade de alcoó-
licos anônimos) e dar um basta na minha bebedeira. Até
no natal e na passagem do ano novo, fizera inúmeras lou-
curas, dirigindo embriagado, dando tiros a esmo, levando
a minha família a um total desespero. Além de estar mui-
to doente, eu estava adoecendo as pessoas que mais ama-
va e que desejavam minha felicidade.
Nessa oportunidade, já estava com um bom salário,
mas ainda morava de aluguel; não tinha recursos para
adquirir uma casa própria já que meu dinheiro era canali-
zado para a bebida, carro e vaidades pessoais. Eu ainda
dizia que bebia com meu dinheiro, pararia quando qui-
sesse e que na minha casa não faltava nada. Uma desla-
vada mentira, pois faltava tudo, principalmente, a presen-
ça atuante de um pai, de um marido e de um companhei-
ro. Eu literalmente roubava a minha família quando re-
duzia as compras do mês para sobrar mais dinheiro para
farras e bebidas. Minha mulher pedia dinheiro para com-
prar roupas, sapatos e, até mesmo, alimentos melhores,
para ela e nossos filhos, e eu sempre negava. E ainda por
cima, alegava que não tinha, e ela se conformava, pois já
não trabalhava mais. Apesar de ser assistente social, opta-
ra em criar nossos filhos e se dedicar à família, vivendo,
portanto, sob minha total dependência econômica.

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Com certeza, seu coração se confrangia. Nossa casa
não oferecia conforto, não tinha paz, tudo era racionado,
por minha exclusiva culpa. Como todo alcoólico, bebedor-
problema, alcoólatra inveterado, ou seja lá qual denomi-
nação queiramos dar, é uma pessoa egoísta que só pensa
em si e no seu bem-estar, tendo a bebida alcoólica como
bem supremo.
Quantos alcoólicos deixam seus suados salários nos
balcões dos bares e chegam em casa dizendo para sua
sofrida família que foi roubado, que o patrão não lhe pa-
gou e muitas outras mentiras. Nos bares, tudo é perfeito;
o alcoólatra é uma pessoa distinta, que paga bebida para
todos, arranja empregos, escala times de futebol, resolve o
problema econômico do mundo e é um verdadeiro sábio,
diplomata e cavalheiro. Contudo, quando o bar estar para
fechar, a lata de lixo tem mais importância do que o bêba-
do, que a essa altura está solitário, pois ninguém o atura
por muito tempo. Sem dinheiro e sem ninguém para escu-
tá-lo, o dono do estabelecimento coloca o bêbado para
fora e guarda a lata de lixo. Então, trôpego, ele se dirige
para casa, quando esta ainda existe, pois naquele mundo
fantasioso, tudo ficou para trás.
Agora vai começar mais um capítulo de sofrimento,
desamor, solidão, tristeza, inverdades e incertezas, que é
quando o alcoólico adentra seu lar e se depara com sua
família, triste e ansiosa à espera do que poderá acontecer.
Então, muitas vezes, começam discussões, agressões, falta
de respeito e temor para os familiares, principalmente, os
filhos, que vêem no pai seu ídolo. Ao se levantar no dia
seguinte, inseguro, cabisbaixo, se perguntando como che-
gou em casa, o que fez, o canhoto do cheque sem anota-
ção e faltando folhas, o que pagou, aonde e a quem, jura
para todos, em lágrimas sinceras, que não mais repetirá
tais insanidades.
O alcoólico tem esse propósito até o primeiro bar,
quando algo mais forte do que ele, sopra aos seus ouvi-
dos: “só uma dose, aquilo que aconteceu ontem foi por-
que você bebeu todas, mas hoje não, apenas uma. Você é
homem, forte, inteligente. Somente uma para descontrair,
abrir o apetite, parar com essa ansiedade.”
Então, o portador da doença do alcoolismo cede e
tudo se repete, pois, para o alcoólico, o que embriaga é a
primeira dose de qualquer bebida que contenha álcool.
Isto acontece, pois ocorre um processo de obsessão ligado
a compulsão. Para o alcoólatra uma dose é pouco e mil,
insuficientes. Não foi a toa que a OMS (Organização
Mundial de Saúde) catalogou o alcoolismo como doença,
progressiva, incurável e de terminação fatal. Mais adiante,
abordaremos detalhadamente este tema. Mas há uma so-
lução. Basta um pouco de boa-vontade e determinação. Se
funcionou para mim, que não sou diferente de ninguém, o
mesmo se dará com qualquer alcoólatra.
Caso seja portador da doença do alcoolismo, saiba
que ela é diferente das demais, pois estigmatiza, se escon-
de, se protege e manipula suas vitimas. Hoje, digo de pei-
to aberto: sou alcoólatra. Por isso, não bebo bebida alcoó-
lica. Antigamente, não admitia que alguém tivesse a au-
dácia de pensar ou dizer que eu era um alcoólatra, porém
só vivia embriagado!

12 – Entendendo os Alcoólicos Anônimos


Vamos dar continuidade a minha chegada aos Al-
coólicos Anônimos. Trata-se de uma irmandade de ho-
mens e mulheres, que compartilham suas forças e espe-
ranças a fim de atingir o propósito primordial: abandonar
a bebida. A chave do sucesso de AA é a permanência só-
bria, porque parar de beber muitos conseguem diversas

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vezes, mas permanecer sozinho sem retornar à bebida,
para alguns foi impossível.
Precisamente no dia 08 de janeiro de 1989, embria-
gado, prepotente, cheguei dirigindo meu automóvel rela-
tivamente novo, com roupas elegantes e de grife, sapatos
de boa qualidade, jóias, algum dinheiro no bolso, bem
empregado, querendo conhecer aquela irmandade, ape-
nas para dar um tempo na bebida ou aprender a beber sem
grandes problemas, com responsabilidade. Na época, o
AA era pouco difundido, então por volta das 19:00 hs, de
uma quarta feira, me dirigi a igreja do Bom Jesus da Pe-
nha, onde havia um grupo de Alcoólicos Anônimos, de-
nominado Grupo Vila Cruzeiro de Alcoólicos Anônimos.
Logo na porta, fui recebido por pessoas simples, vestidas
decentemente, que me convidaram a entrar e assistir a
reunião. A sala estava cheia: umas trinta pessoas, aproxi-
madamente.
Na frente, uma mesa com dois quadros de fotogra-
fias que, mais tarde, soube ser de um dos co-fundadores
de AA. Tudo muito simples, mas limpo e arrumado, bem
diferente dos locais sórdidos e imundos que costumava
freqüentar. Começou, então, a reunião pontualmente as
19:30 hs. Sentei-me na primeira fileira, apesar de alcooli-
zado, fiquei bastante atento às mensagens de cada pales-
trante.
Quanto sofrimento! Muitos haviam sido presos,
perderam famílias, empregos, mas estavam felizes porque
não tinham ingerido bebida alcoólica naquele dia. Eu,
então, me questionava: essas pessoas bebem porque não
tem emprego, são pobres, analfabetos, alguns idosos, e se
diziam alcoólatras e felizes, apesar das dificuldades. Isso
me intrigou, mas eu, prepotente, com os meus trinta e
poucos anos, nível superior, etc. fiquei ressabiado com
aquele ambiente. Então, por volta das 20:30 hs, fizeram
uma pausa para o café. Conversei com algumas pessoas,
todos muito atenciosos comigo, querendo me estender a
mão, me tirar daquele atoleiro moral e espiritual que me
encontrava.
Continuamos conversando, aceitei um café com bis-
coitos até que uma sineta tocou e começou a segunda par-
te da reunião. As mensagens daquelas pessoas (hoje mui-
tos são meus companheiros de AA) foram me emocio-
nando, me tocando como se houvesse a mão de Deus na-
quela reunião, pois cada mensagem falava um pouco de
mim e nem sequer me conheciam. Mesmo assim, continu-
ava observando e questionando se era ou não um alcoóli-
co, mas tudo o que falavam tinha um pedacinho de mim,
da minha vida.
Atualmente costumo dizer que, na carreira de alcoó-
latra, só mudam os personagens, mas as desgraças são as
mesmas. Uns tomam porre de uísque vinte anos, outros
da mais vulgar cachaça, mas, no final, todos se embria-
gam, porque bebem para obter o mesmo efeito.
A certa altura da apresentação, um companheiro
muito humilde, mas de grande sabedoria, dirigiu-se a
mim, dizendo:
– Você que está nos visitando, dê-se uma oportuni-
dade. Evite uma vida de desgraça como foi a minha, por-
que se ainda não aconteceu, irá acontecer. Você não é di-
ferente, nem melhor ou pior do que nós, e se deu certo
para nós, há de dar para você.
Aquela frase me tocou profundamente e, no final,
quando me perguntaram se queria fazer parte daquela
irmandade, respondi que sim e todos bateram palmas,
não para mim, mas pela minha decisão.
Voltei na quarta feira seguinte. Dessa vez, cheguei
sóbrio, não bebera nada, mas vinha ansioso, inquieto,
observador, mas feliz e de mente aberta. Aquelas pessoas,

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carinhosamente, me perguntaram como foram os meus
dias. Se eu sentira alguma dificuldade em ficar sem beber
durante a semana. Se havia gostado da reunião, além de
uma série de perguntas. Percebi como eles ficaram felizes
com meu retorno.
Fui aprendendo que a programação de AA é um dia
de cada vez. Só por hoje. Evitar qualquer bebida que con-
tenha álcool, seja qual for o motivo. Essas frases foram se
amalgamando em minha mente, que a cada dia se tornava
mais clara. Entendia melhor o propósito daquele progra-
ma simples de recuperação, no qual se reúnem pessoas
portadoras da mesma doença.
Conheço muitos que estiveram na irmandade e não
acreditaram na necessidade de parar. Pensaram que ainda
tinham lenha para queimar e poderiam prosseguir bebendo.
Poucos retornaram, pois, infelizmente, muitos ficaram
pelo caminho. Não houve tempo de recuperação para
eles. Não acreditaram, assim como também duvidei nos
primeiros dias. Fiquei me questionando se este programa
aparentemente tão simples podia trazer os resultados ale-
gados. Eu me via como alguém superior aos demais, pois,
afinal, eu era um homem de formação acadêmica, com
um bom emprego, bem remunerado enquanto que aque-
las pessoas eram, em sua maioria, simples e iletrados.
Muitos dos participantes eram desempregados, sem famí-
lia, e afirmavam serem felizes.
Então, voltei-me para dentro e percebi que para o
programa de AA pudesse dar certo, teria que descer do
meu pedestal imaginário, abdicar da minha empáfia, in-
gerir doses maciças de humildade e caminhar com os
meus semelhantes na direção de um Poder Superior ao
qual me fizeram acreditar.
Em Alcoólicos Anônimos, ao iniciar e terminar as
reuniões é feita uma oração, sem conotação religiosa, pois
o AA não está ligado a nenhuma seita, religião ou partido
político. É auto-suficiente, graças às contribuições dos
companheiros. Não apóia, nem combate qualquer causa e
não entra em controvérsias. O propósito primordial da
irmandade é levar uma mensagem de esperança ao alcoó-
latra que ainda sofre.
Tudo isso fui aprendendo com os companheiros
mais experientes no decorrer das reuniões. Também apre-
endi que a irmandade de Alcoólicos Anônimos é muito
mais do que parar de beber. Atrás do “Evite o Primeiro
Gole”, frase esta que é encontrada em todas as salas de
reuniões de alcoólicos anônimos pelo mundo afora, reside
um pré-requisito básico: o sincero desejo de abandonar a
bebida. Isto posto, porque parar de beber pode ser reali-
zado inúmeras vezes, mas o segredo está em permanecer
sóbrio.

13 – O carnaval
Quando ingressei no AA, em Janeiro de 89, havia
uma dúvida que pairava no meu pensamento: como con-
seguiria passar o carnaval sem beber? Para mim, quando
estava na ativa do alcoolismo, não teria sentido participar
daquela festa de “careta” sem bebida, mas não é que che-
gou o carnaval e, para minha surpresa, passei os quatro
dias da festa, sem bebida.
Fui ao centro do Rio de Janeiro, na Avenida Rio
Branco, com a minha mulher e meus filhos para, pela
primeira vez, ver de fato a festa, apreciar os carros alegó-
ricos, as fantasias, os blocos de sujo, e tudo isto sem um
pingo de álcool. Uma mudança e tanto, pois antes de en-
trar para o AA, para mim, viver era sinônimo de beber.
Não conseguia entender como as pessoas viviam e brin-
cavam sem beber. Foi uma experiência memorável que

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pude vivenciar sóbrio. A minha mente já estava bem mais
aberta, mas ainda me lembrava da bebida. Contudo,
quando isto acontecia, eu me recordava das desgraças e
das mazelas que ela, a bebida, fizera comigo; então, da
mesma maneira que me lembrava, eu encontrava forças
para dissipar esse desejo.
Passou o carnaval, brinquei, descansei, fiquei com a
minha família. Foi um tempo excelente. Depois do carna-
val, na primeira quarta feira, lá eu estava na reunião dos
AA. Na cabeceira da mesa, na hora do meu depoimento,
contei aos companheiros a experiência de ter passado o
carnaval sem bebida. Para eles, podia ser normal, mas
para mim foi o máximo. Antes, não conseguia ficar vinte e
quatro horas sem beber e agora permanecera todo o perí-
odo do carnaval sem consumir uma gota de álcool. Estava
radiante e queria divulgar esta mensagem, convencendo
as pessoas do tempo maravilhoso que estava vivendo.
Queria que todos compartilhassem comigo a nova vida,
que era pura alegria. Apesar dos problemas normais que
todos temos, aprendi que bebida é bebida, e problema é
problema.

14 – Semana Santa
Chegou a Semana Santa. Passara bem o carnaval, fe-
liz com a minha família. Curtimos bastante, até porque foi
a primeira vez que participei da festa momesca sóbrio.
Mas agora viria a Semana Santa. Outro desafio, pois
quando estava envolvido com o alcoolismo, nesse período
encontrava justificativa plena para, em minha ilusão, be-
ber. Afinal de contas, um “vinhozinho” não faz a mal a
ninguém. Eu me justificava, afirmando ser o sangue de
Cristo, em razão da minha aparente indignação por nosso
Salvador ter morrido crucificado pela nossa salvação. En-
tão, por um sentimento irracional de piedade cristã, bebia
além da minha cota normal durante a semana e fechava a
minha Via Crucis alcoólica no domingo de Páscoa. Não
faltava vinho, cerveja, bacalhau ou peixe, alimentos com-
prados, muitas vezes, no próprio domingo. A bebida, to-
davia, era comprada com antecedência, pois essa jamais
podia faltar. Fazia tudo sem qualquer planejamento, dife-
rente das pessoas normais.
A maioria das famílias cristãs comemora a semana
da Páscoa com respeito e aproveitam o domingo para, no
almoço, distribuir os ovinhos de chocolate, a alegria das
crianças. Quando ainda bebia desbragadamente, compra-
va os ovos mais baratos, de qualidade duvidosa, de forma
a sobrar mais dinheiro para a bebida. No íntimo, achava
que como pai fizera minha parte.
Desta vez seria o primeiro ano sóbrio que passaria
com a minha família. Passei toda a Semana Santa sem
ingerir uma gota de álcool, e fechei prazerosamente no
domingo de Páscoa, com um almoço em família regado a
muito refrigerante, paz e harmonia. Senti como era bom
ficar sem beber, pois para um bêbado como eu, que rara-
mente ficava vinte e quatro horas sem a ingestão de álco-
ol, já estava completando os meus cento e vinte dias como
abstêmio. Isto tudo estava acontecendo porque fui obedi-
ente aos ensinamentos que a irmandade de AA, através
dos seus membros e meus companheiros, me transmitia a
cada reunião.
Era como se fosse uma bateria; precisava estar na
sala dos AA para recarregá-la e poder enfrentar a vida
sem o álcool. No inicio da minha programação, enfrentei
certa dificuldade. Contudo, com o passar dos dias, com a
religiosa freqüência às reuniões, evitando os locais no
qual a bebida era farta e mantendo-me sempre bem ali-
mentado, a minha caminhada em direção a recuperação

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foi se tornando mais leve. Coloquei em minha mente que
todos poderiam ingerir bebidas alcoólicas, e eu também
podia, mas não deveria. Em respeito a mim, a irmandade,
aos meus companheiros, pois apesar de doente do alcoo-
lismo, a minha doença só era ativada com a ingestão do
primeiro gole de álcool.
Passei pela Semana Santa com uma felicidade in-
descritível. Consegui participar realmente da festa cristã.
Estava ansioso para chegar o dia da reunião e relatar ao
meu grupo a minha felicidade de não ter bebido.
Chegou a quarta feira na qual revi meus compa-
nheiros e transmiti minha alegria, então alguém me disse:
– Viu como dá certo, pois conforme consta na nossa
literatura, “raramente temos visto fracassar aqueles que
cuidadosamente seguem os nossos passos”. Realmente se
houver cuidado, atenção, perseverança, humildade e fé,
qualquer um consegue, por mais doente que esteja.
E eu estava conseguindo e não era diferente de
qualquer outro alcoólatra.

15 – As Festas Juninas Sem bebida Alcoólica


Conseguira passar pela Páscoa. Sentira o prazer de
conviver e participar do festejo sem beber, mas como seri-
am as festas juninas? Para mim, é a melhor festa que te-
mos depois do Carnaval. Concordo que todas as datas e
festas são importantes, mas para um alcoólico como eu,
festas juninas, julinas e agostinas eram sinônimos de
quentão, canelinha, batida de coco, batida de amendoim e
outras tantas bebidas até porque em razão do período de
inverno, o frio era mais uma justificativa para beber. “Está
frio, vou tomar uma para esquentar”. Ah, se fosse apenas
uma!
A festa em si passava em brancas nuvens, aliás, co-
mo tantas outras, sem que eu percebesse a beleza da dan-
ça de quadrilha, as caipiras, a degustação de um cuscuz,
de um pé de moleque ou de uma canjica. Para um alcoóli-
co como eu, quando vinham me oferecer um desses do-
ces, respondia ironicamente que era da turma do salgado;
doce não era comigo. Quantas delícias deixei de saborear
por pura ignorância, apenas para prestigiar a bebida alco-
ólica, simplesmente porque doce com álcool não combina
e o açúcar inibe o bebedor de continuar ingerido bebidas
alcoólicas.
Chegou Santo Antonio, a primeira festa desse perí-
odo. Fui à quermesse que havia na igreja próxima de on-
de morava. Brinquei de pescaria, de acertar a lata e tantas
outras brincadeiras, comi churrascos e doces. Foi uma
alegria inigualável e pude perceber que a maioria das
pessoas não ingere bebidas alcoólicas, e se diverte sem
qualquer problema.
Mas, para mim quando na ativa, terminologia esta a
que nos referimos quando estávamos nas garras do alcoo-
lismo; “festa sem bebida não era festa”. Quanta ignorân-
cia!
Veio o São João. Que linda festa! O céu estava lim-
po, repleto de balões, muitos fogos, fogueiras. Assei bata-
ta doce na fogueirinha que fiz em frente ao portão da mi-
nha casa. Naquela época ainda era possível ficar no por-
tão contemplando o céu, jogando conversa fora com os
vizinhos. Comprei fogos. Meus filhos e eu soltamos bom-
binhas, estalinhos, chuveirinhos, balões japonês. Eu me
via como uma verdadeira criança, talvez fazendo tudo
que não pude fazer na minha infância, adolescência e, até
mesmo, na fase adulta.
Hoje vejo como é bom se tornar criança novamente.
Libertar aquela infantilidade natural que existe dentro de

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cada um de nós e tudo isto sem bebida. Era só alegria.
Minha esposa colocava as crianças para dormir, depois
que elas estavam exaustas e felizes, ficávamos até altas
horas na rua. A violência ainda era tolerável.
Escrevo essa passagem de minha vida com os olhos
mareados. Que saudades dos meus filhos quando tinham
seis e dois anos. Era um tempo que ainda podia rolar no
chão com eles, jogar uma bolinha inocente, sair correndo
atrás deles, brincar de esconder. Quanta saudade! Agora
torço pela chegada dos netos para que eu possa voltar a
fazer tudo isto novamente. Espero que Deus me conceda
essa felicidade.
Chegou São Pedro, a última festa do mês de junho.
Repetimos a mesma fogueirinha, soltamos os nossos ba-
lões japonês, nossas bombinhas, bebemos bastante refri-
gerante e foi tudo muito prazeroso. Consegui romper
mais uma etapa de minha caminhada, sem a ingestão de
bebida alcoólica. E não foi tão difícil quanto imaginara.

16 – As Férias Escolares de Julho


No meu trabalho, procurava coincidir minhas férias
com o calendário escolar dos meus filhos, para que pu-
déssemos viajar juntos. Mesmo na época mais pronuncia-
da do meu alcoolismo, nós viajamos muito por esse Brasil.
Mesmo tendo sido um bêbado, eu sempre fui muito ape-
gado à minha mulher e aos meus filhos. Eles são a razão
do meu viver e foram os propulsores para, juntamente
com um pouco de boa-vontade, eu me afastasse do álcool.
A minha família tem uma importância ímpar na minha
recuperação à sobriedade e na minha vida.
Viajamos nessas férias. Seria a primeira na minha
vida adulta que iria curtir sem a presença de sua majesta-
de, o álcool. Partimos e foi uma felicidade. Coloquei a
pequena bicicleta amarrada no carro que, naquela época,
era um chevette preto e partimos para Itatiaia, Penedo e
região. Essa seria uma viagem diferente daquelas da épo-
ca do meu alcoolismo. Quando estava na ativa, a cada
uma ou duas horas de viagem, parava com a desculpa de
comprar cigarros ou de descansar ou de ir ao sanitário, e
aproveitava para tomar uns tragos. E assim era a minha
viagem. Antes de chegar ao destino já estava embriagado.
Quanta irresponsabilidade e como a mão de Deus funcio-
nou para nos proteger!
Contudo, desta vez, tratava-se de uma viagem com
responsabilidade, plena de cuidados e prazerosa. Afinal,
estava junto das pessoas que mais amo na vida. Chega-
mos ao destino. Arranjei emprestado uma filmadora Pa-
nasonic, uma daquelas enormes semi-profissional e tudo
passou a ser motivo para filmar. Que alegria!
Num determinado momento, saímos do hotel, fo-
mos a uma pracinha e o meu filho mais velho ficou preso
no balanço. Que desespero, mas tudo teve um final feliz.
Andamos de bicicleta, curtimos a piscina e foi tudo perfei-
to. Foram, verdadeiramente, férias as quais nunca usufru-
íra em minha vida. Foram as primeiras férias sem a pre-
sença do álcool. Tudo era motivo de regozijo. Passamos
alguns dias inesquecíveis e retornamos ao Rio de Janeiro,
juntos e felizes.
Como costumeiramente, queria compartilhar as mi-
nhas férias com as pessoas do meu grupo dos AA. Ansio-
so, aguardei a próxima quarta feira, dia da nossa reunião
e, na minha mensagem, deixei transbordar toda a felici-
dade de ter realmente gozado as férias juntamente com a
minha família.

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17 – Meu Aniversário
Agosto – Dia dos Pais e meu aniversário. Seria uma
experiência nova, pois eram duas datas em que o álcool
reinava soberano, e não eram raros os aborrecimentos que
eu causava tanto à minha querida mãe e à minha amada
esposa. Ela, inúmeras vezes, preparava um prato especial
para que, juntos à mesa, pudéssemos comemorar essas
datas. Nesses dias, costumava chegar fora do meu horário
habitual, já completamente embriagado. Afinal de contas,
achava que tinha todos os motivos para isto, principal-
mente, no dia do meu aniversário.
Comentava no auge da minha embriagues:
“Não se faz aniversário todos os dias. Bebi com os
amigos. Eles insistiram em comemorar essa data”.
Quando minha esposa reclamava, eu retrucava:
“Você não quer me ver alegre? Será que não tenho
esse direito? Tomei só umas cervejinhas, hoje é um dia
especial. Vamos comemorar”.
Às vezes, já intoxicado pelo álcool, às altas horas da
noite, colocava a minha mulher e meus filhos no carro e
partíamos sem destino para algum bar, com o intuito de
comemorar meu aniversário. Que bela desculpa! O que
desejava mesmo era continuar bebendo, pouco me impor-
tando se era isso que a minha esposa desejava naquele
momento. Para o alcoólico, o importante é a bebida e o
seu “bem-estar”.
Nesse aniversário foi diferente. Por ser o primeiro
aniversário de minha fase adulta que eu comemorei sem o
uso do álcool, – companheiros – posso afiançar que foi o
melhor presente da minha vida. Aniversariei com minha
esposa, meus filhos, minha mãe e outros parentes e ami-
gos. Naquele dia, preparei um suculento estrogonofe re-
gado a refrigerante com direito a sobremesa. Vejam só,
logo eu que era da turma do salgado, passei para o grupo
do doce, e disto não me arrependo. Atualmente como
salgados e doces, quando antes não tinha o direito de es-
colha; era fadado a comer somente salgados. Como já foi
mencionado, o doce inibe o desejo de beber, enquanto o
salgado o estimula. Escolhas também que não ocorriam
com a bebida, pois sede para o alcoólatra é sinônimo de
cerveja. Afirmo sem medo de errar que ingeria pouca á-
gua. Só me lembrava dela quando estava acometido de
terrível ressaca. Neste instante, acordava de madrugada,
abria a geladeira, pegava uma garrafa e bebia direto do
gargalo, e me empanturrava de água.
Hoje sou um liberto. Tenho a livre escolha de beber
tudo o que desejar, da água ao mais sofisticado dos sucos.
Liberdade essa que só pude gozar quando me afastei do
álcool. Percebo o quanto a água é realmente gostosa e
satisfatória quando temos sede, ou qualquer suco ou re-
frigerante. Bebida alcoólica, se analisarmos verdadeira-
mente, queimam, são amargas, e os seus sabores não são
agradáveis. Todavia, os alcoólicos bebem pela sensação
do torpor que a bebida oferece. Para isto, criamos uma
série de desculpas, do tipo “só bebo cervejinha, porque é
diurético. Só bebo catuaba que é bom para o sangue. Só
bebo anis que é bom para o intestino...”
Comemorei meu aniversário, assim como o Dia dos
Pais como um verdadeiro pai, participante, presente, a-
migo, zeloso. Nem sequer me lembrei que existiam bebi-
das alcoólicas. Tudo isto é notável pelo fato de ter sido o
primeiro aniversário da minha vida adulta que passaria
sóbrio. Hoje conheço a verdadeira felicidade e você tam-
bém pode conhecê-la.
Mais uma vez uma imensa alegria invadiu meu co-
ração. Queria correr pelas ruas gritando aos quatro cantos
como é bom viver sóbrio, mas tinha que aguardar a pró-

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xima reunião para contar ao grupo essa nova experiência.
Que eternidade, do domingo a quarta feira, mas felizmen-
te chegou. Quando me foi dado a palavra, entusiastica-
mente, confessei o momento de felicidade, de alegria, de
bem-estar que há muito tempo não sentia.
Tudo era fruto daquelas mensagens simples, hones-
tas, de pessoas que tinham o mesmo propósito que eu:
nos mantermos sóbrios, afastado do álcool a qualquer
custo, por qualquer motivo ou situação que estivéssemos
envolvidos. Também sempre ouvia que dias melhores
estavam por vir, e vieram mais rápido do que imaginara.
Agora, após oito meses de sobriedade, aprendi na irman-
dade, que não se conta o tempo. É só por hoje
Estava ficando antigo na irmandade, mas ainda me
mantinha curioso, observador das mensagens e do pro-
grama dos doze passos: um programa de ação física e
espiritual, no qual podemos nos dar a oportunidade do
aprimoramento como seres humanos.
Com a aproximação de nosso Poder Superior, pude
perceber o banquete proporcionado pelos Alcoólicos A-
nônimos. Comecei a participar também das reuniões de
passos, pois urgia me aperfeiçoar, mesmo que permaneci
profundamente identificado com as reuniões de depoi-
mentos. Foram essas reuniões que mantiveram vivo den-
tro de mim as lembranças das mazelas que o alcoolismo
faz com as suas vitimas, que é algo que não se deve es-
quecer nunca. É a garantia da sobriedade, pois o álcool é
sutil e traiçoeiro. É imperativo estar sempre vigilantes e
cuidadosos com a nossa programação, pois já presenciei
companheiros que, infelizmente, desprezaram a Irman-
dade, se afastaram e retornaram ao alcoolismo com con-
seqüências funestas.
Nosso programa é baseado na sugestão. Não há
qualquer imposição, do tipo “tem que”; isto não existe em
Alcoólicos Anônimos.
Comecei a me aprofundar no que a irmandade tinha
mais a me oferecer; necessitava sugar todos aqueles mara-
vilhosos conhecimentos, desde sua criação, as suas obras,
os seus fundadores, as suas histórias. Passei a freqüentar
outros grupos, conhecer outros companheiros, a partici-
par de encontros de área, regional e até de eventos nacio-
nais, que foram realizados no Rio de Janeiro. Participei de
reuniões com profissionais de saúde envolvidos e conhe-
cedores da doença do alcoolismo. Descobri várias pesso-
as, dos mais diferentes níveis sociais e profissionais, que
também haviam se envolvido com o alcoolismo.
Em uma dessas andanças, fui a uma reunião institu-
cional, na qual conheci, em 89, um interno formado em
direito. Havia sido deputado federal, eleito pelo Estado
da Bahia, no pleito de 1982 e decaiu para a mendicância
em razão do alcoolismo, e estava morando num abrigo
para população de rua. Tomei conhecimento também que
havia um ex-padre naquela instituição em em recupera-
ção da doença do alcoolismo. Conheci, também, médicos
e outros profissionais de saúde que eram alcoólatras.
Foi mais uma prova de que a doença não escolhia
suas vitimas. Hoje percebo que na caminhada do alcoóli-
co, só mudam os personagens, pois quase sempre as des-
graças são as mesmas: todos se embriagam, vomitam e
sofrem.

18 – Chegada do Natal e Ano Novo


Dezembro estava próximo. Seria também mais uma
nova experiência na trilha da minha programação. Não
conseguia me recordar de um Natal sem a ingestão de

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bebida alcoólica. É muito comum durante o mês natalino,
com festas e comemorações por todos os lados, que até as
pessoas que bebem eventualmente se misturam aos bebe-
dores costumeiros, aos alcoólicos e a todos os tipos de
bebedores. Mas aprendi na Irmandade que não há como
fugir do convívio das pessoas durante as festas. Assim
como entrava num bar para comprar cigarros – ainda fu-
mava na época – também tenho que estar presente em
locais onde se ingeria bebidas alcoólicas. Caberia a mim
dizer não às ofertas de bebida, pois ninguém iria me em-
purrar um copo goela abaixo.
Não poderia temer o final do ano, me isolar, me en-
clausurar, me esconder. Teria que viver e encarar a reali-
dade. Para isso, eu precisava estar, a maior parte do tem-
po possível, dentro de uma sala de reuniões de alcoólicos
anônimos para manter a carga da bateria da minha sobri-
edade em nível elevado. Era uma mudança e tanto, já que
quando estava na ativa, passava a maior parte de minha
existência com os cotovelos nos balcões dos bares.
Morava na Penha, bairro da zona norte do Rio de
Janeiro, trabalhava no Centro da cidade e já fui encontra-
do bêbado em Caxias, que fica na Baixada Fluminense,
em Petrópolis – a sessenta quilômetros na região serrana –
em Niterói, do outro lado da baía da Guanabara. Então
por que não poderia despender duas horas, tempo de
duração das reuniões de Alcoólicos Anônimos? Especial-
mente que era um local no qual necessito tanto quanto o
ar que respiro. Deste modo, fortificado com a sabedoria
dos companheiros mais antigos, mais experientes, e com a
força do Poder Superior, eterno vigilante de minha pro-
gramação, não teria o que temer com a proximidade do
Natal e do final do ano.
Chegou o Natal, e pude me lembrar, pela primeira
vez, do divino aniversariante, que é o grande esquecido
nessa época do ano. O verdadeiro sentido do Natal, da
confraternização universal pode ser feito com um gesto
de amor, de carinho, não precisa nem de um copo, quanto
mais bebida.
Mas tudo isso só foi possível enxergar agora, pois
nos natais anteriores, eu aproveitava o evento como mais
um motivo para beber desde o inicio do mês. Aliás, tudo
era motivo, pois bebia todos os dias ininterruptamente.
Sempre chegando em casa às altas horas, embriagado,
sempre prometendo e jurando que estava naquelas deplo-
ráveis condições porque fora a uma confraternização.
Prometia que isto iria mudar e o tempo de duração da
promessa era até o dia seguinte, até o primeiro gole. Não
sabia que a primeira ingestão é que embriaga e acreditava
que era a saideira. Nos lampejos de sanidade, ficava mal e
deprimido. Não desejava a continuidade daquele tipo de
existência, mas não sabia como evitar, como sair daquelas
deploráveis condições.
Só fui conhecer o verdadeiro Natal após ingressar
na Irmandade. Logo a seguir veio o famoso 31 de dezem-
bro, o final do ano, que quando estava na ativa, em plena
passagem do ano, enquanto os demais comemoravam, se
abraçavam, faziam seus pedidos, praticavam seus rituais
místicos, eu estava embriagado, seja perturbando os de-
mais ou dormindo. Era acordado para a ceia, beliscava
alguma coisa e voltava a beber novamente. Logo em se-
guida passava mal, vomitava, um mal-estar e um desâ-
nimo acachapante me dominavam. Tudo se tornava triste
e horrível, mas nada me demovia, pois o desejo de beber
era soberano.
O que era para ser festa, alegria, desprendimentos,
transformava-se em tristeza, desilusão. Quase sempre
brigas aconteciam, seja comigo ou com pessoas da família,
em razão do meu excesso de bebida alcoólica. No fim da

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noite, todos, entristecidos, se recolhiam aos seus leitos e
tudo recomeçava no primeiro dia do ano.
Nesse final de ano de 1989, nada disso aconteceu.
Foi só alegria, momentos felizes da minha parte princi-
palmente, pois pude observar a beleza dos fogos, sentir o
abraço fraterno e os beijos sinceros da minha esposa e dos
meus filhos. Muitos natais se passaram e muitos outros
vieram, e tenho certeza de que, a cada ano, renovarei essa
felicidade.
Aproveitando as ferramentas de Alcoólicos Anôni-
mos, no dia 07 de setembro de 2000, também abandonei a
dependência ao cigarro. Antigamente nos dias de ativa,
bebia por qualquer motivo, hoje não tem motivo algum
que me faça beber.

SÓ POR HOJE!
Depoimentos
O Autor
Depois do meu ingresso em Alcoólicos Anônimos,
ao fazer um inventário pessoal, detectei o seguinte:
Comecei a sentir o despertar e o prazer, que a bebi-
da alcoólica me proporcionava, por volta dos meus sete a
oito anos de idade, quando a minha mãe me oferecia, an-
tes das refeições, uma colher do conhecido vinho estimu-
lante do apetite chamado Biotônico Fontoura.
Hoje me recordo que quando ela se descuidava, eu
apanhava o vidro do mencionado estimulante e bebia
algumas goladas. Aquela sensação era muito “legal”, o
que demonstra que desde aquele época já adorava o álco-
ol. Por isso que sou um alcoólatra. A diferença é que por
adorá-lo, não devo ingeri-lo, por mais inocente e suave
que seja a bebida.
Foi com meus treze anos, que, de fato, comecei a
fumar e, concomitantemente, a beber. Contudo, bebia
apenas nos finais de semana, quando participava de festas
do tipo americanas. Bebia para descontrair e até mesmo
para me desinibir, pelo menos assim eu pensava, porém
analisando o fato vejo que nunca fui inibido. Gostava de
andar com pessoas mais velhas e não dava muita impor-
tância aos garotos da minha idade. As pessoas mais ve-
lhas, normalmente, bebiam, iam a lugares e participavam
de festas, as quais garotos da minha idade não participa-
vam e estar com eles me proporcionava a oportunidade
de ir aonde eles iam.
Naquela época, por ser uma bebida acessível, eu
tomava muito a tal da Jurupiga, um tipo de vinho de sa-

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bor adocicado, forte e que me deixava alcoolizado bem
mais rápido do que a cerveja. Percebia que a minha forma
de beber era bastante diferente da minha rapaziada; bebia
muito e ficava inteiro, não criava problemas. Os meus
colegas e os poucos amigos me viam como um bom bebe-
dor.
O tempo foi passando e os intervalos entre as bebi-
das foram se encurtando. Bebia quantidades menores e
me embriagava mais rápido, pois antes bebia somente vez
por outra nos finais de semana e agora já bebia todos os
finais de semana e, também, durante a semana. Mas como
era jovem, a sociedade me aceitava. Eu até fazia fisicultu-
rismo, chamado de halterofilismo. Tinha um físico bastan-
te atraente e a bebida ainda não me prejudicava. Novo é
novo, só que o tempo passa e nós não ficamos jovens para
a vida inteira. Então, aquela mesma sociedade que me
apoiava quando tinha meus quinze a dezoito anos, come-
çou a me observar e me questionar. “Aquele rapazinho,
filho da dona Albertina, está se embriagando todo final de
semana. Como ele está diferente”. Vejam como a bebida
estigmatiza suas vitimas.
Quando cheguei aos meus vinte e poucos anos, be-
bia todos os dias, pois o meu estado normal era estar al-
coolizado. Tudo que precisava desempenhar necessitava
beber previamente, pois sem bebida a vida não tinha
qualquer sentido. E assim progredi na carreira alcoólica e
sempre que bebia além da conta, tinha que fazer sexo. Foi
neste ponto que me envolvi com prostíbulos, zona do
baixo meretrício e outros locais sórdidos. Quando era
convidado a alguma festividade, a minha pergunta era a
seguinte: quantos litros de chopp vai ter por lá? Se fosse
um local evangélico, nem pensar: tô fora. Chegava à festa,
me acomodava no corredor por onde passava o garçom
ou próximo do chopp. Antigamente era comum se colocar
jarras plásticas com bebida nas mesas. Pouco me impor-
tava com o motivo do festejo, pois o que desejava mesmo
era beber. Quando o garçom demorava a servir, inventava
uma desculpa qualquer para me ausentar. Dizia que ia
comprar cigarros, fósforos ou qualquer outra, e tomava
uns goles no primeiro bar e desandava a criticar a festa.
Achava que as pessoas eram miseráveis por não distribuir
a bebida.
Era um dos primeiros a chegar e um dos últimos a
sair. Minha namorada e quase noiva, reclamava: “vamos
embora, já não tem mais ninguém”. Naquela oportunida-
de havia apenas algumas pessoas íntimas e parentes do
festejado. “Estão arrumando a casa,” ela dizia e eu retru-
cava, “só mais uns minutinhos, já vamos”. Normalmente
só me retirava do evento quando acabava a bebida. Este é
tipicamente um comportamento do alcoólico. Já no final
do meu alcoolismo, poucas pessoas ou quase ninguém me
convidava para alguma festividade.
Morava com a minha mãe – meu pai já falecera – e
ela vez por outra me alertava: “menino, você está beben-
do demais”. Pouca importância dava às suas palavras.
Passei a beber todos os dias: antes, durante e depois do
trabalho. Quando acordava com ressaca, pedia a minha
mãe para ligar ao meu chefe e lhe informar que estava
passando mal e não iria trabalhar. Isso sem falar naquelas
permanentes dores de cabeça e diarréias. Às vezes não
queria beber, mas essa determinação terminava no pri-
meiro bar. Quando lá chegava, encontrava sempre aque-
les “médicos” de plantão, que me cumprimentavam e
perguntavam: “vamos tomar uma”. Respondia que não
devia beber porque estava com diarréia. Logo eles vi-
nham com remédios: “toma uma genebra com anis, que
você fica legal rapidinho”, e eu acabava cedendo e bebia.
Realmente, aquela mistura aliviava momentaneamente o

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desconforto, mas logo depois estava ainda pior. E assim
era a minha caminhada.
Quando bebia e aprontava, principalmente, no por-
re de vinho, dizia que nunca mais ia beber. Ficava no ou-
tro dia profundamente deprimido, sentindo-me o último
dos homens, então o remédio era o primeiro gole, que
aliviava aqueles sintomas. Todavia, não era possível parar
apenas naquele primeiro gole! Alcoólicos como eu não
conseguem ficar apenas no primeiro drink. Tomava o
primeiro, depois mais um, mais um, mais um... E logo
estava bêbado de novo.
Dentro de mim e creio que na maioria dos alcoóli-
cos, quando cedemos ao primeiro gole da mais inocente
bebida (cedemos à obsessão), imediatamente vem a com-
pulsão, uma vontade voraz de beber e não sabemos con-
trolar mais nada, muito menos a hora de parar. E assim
foi a minha vida.
Quantas vezes me acordavam, sentado na calçada,
onde certamente tinha cochilado ou dormido. Certa feita,
dirigia embriagado e não consegui mais conduzir o carro.
Logo após descer um viaduto, estacionei na calçada e jo-
guei meu corpo no banco do carona onde desmaiei. Cha-
ve na ignição, fardamento, revolver etc. Uma pessoa bon-
dosa passou e me acudiu, dizendo: “senhor, passei aqui
por volta das quatro da tarde e o senhor estava deitado.
Voltei agora e já são mais de oito horas, e o senhor conti-
nua do mesmo jeito. Está passando mal?” Não me lembro
o que respondi. Sentei-me, me arrumei, liguei o carro e fui
para casa. Que tristeza, que infelicidade!
Lembro-me também do caso do chuveiro da minha
casa. Minha mãe já era uma pessoa idosa e me pedia que
consertasse o chuveiro. Ele estava entupido e saía um
fiapo de água. Respondia que consertaria no domingo,
mas para fazer qualquer coisa precisava beber antes. Le-
vantava, dizia que ia lá fora por um instante e só retorna-
va alcoolizado. O chuveiro ficava para outro dia. O mes-
mo acontecia com o fogão que, dos quatro queimadores,
apenas dois funcionavam, enquanto os demais estavam
entupidos. Nunca havia dinheiro para o conserto ou para
desentupi-los. Hoje me recordo como fiz minha mãe so-
frer. Sorte minha que ela era uma pessoa muito espiritua-
lizada e que não se estressava por nada, tanto que faleceu
aos noventa anos de idade.
Esse meu modo de beber foi crescendo a passos lar-
gos, durante quase vinte anos. Caso não tivesse detido
essa marcha, aos meus trinta e poucos anos de idade,
quando percebi que família e bebida alcoólica não combi-
navam, fatalmente estaria junto com a população de rua,
louco ou morto. As minhas experiências na caminhada
alcoólica são muitas e gastaria inúmeras paginas para
retratar as desgraças e mazelas que cometi quando estava
nas garras do alcoolismo. Hoje sei que não sou um sem-
vergonha que não tinha força de vontade; sou apenas um
portador da doença do alcoolismo, moléstia essa progres-
siva, incurável e de terminação fatal, mas que antes de
matar desmoraliza suas vitimas.
Por que Progressiva? No meu depoimento, pôde-se
observar que comecei bebendo pequenas quantidades
somente nos finais de semana e a quantidade ingerida
cresceu exponencialmente, de forma progressiva, até que
eu precisasse beber para viver. Incurável, até os dias de
hoje ainda não foi descoberto uma cura definitiva, mas é
uma doença que somente é ativada pelo primeiro gole de
qualquer bebida alcoólica. Terminação Fatal, primeiro
desmoraliza e depois mata, literalmente, as suas vitimas.
Este homem, que se encontrava a beira da loucura
ou da morte, que, no trabalho e no convívio social, era
apenas tolerado, hoje, chegou ao topo de sua carreira pro-

58
fissional. Fiz pós-graduação e estou aguardando o mo-
mento da aposentadoria. No convívio social, percebo que
as pessoas sentem prazer com minha presença. Aquela
família, que estava despedaçada no final dos anos 80,
quando a minha doença do alcoolismo chegou ao ápice,
hoje, demonstra satisfação e orgulho em minha pessoa.
Comemoramos nossos vinte e cinco anos de casados em
dezembro de 2005, com uma festa inesquecível.
Meus filhos estão encaminhados na vida. O mais ve-
lho, atualmente em 2007, com vinte e cinco anos, é oficial
da Polícia Militar e o mais novo, com 21 anos é estudante
de Educação Física e árbitro de Futebol da Federação do
Estado do Rio de Janeiro. Meus pais faleceram, mas foram
substituídos por essa maravilhosa família que, com a aju-
da da minha mulher, pudemos construir uma vida feliz e
alegre. Aprendi na Irmandade que o exemplo não é a me-
lhor maneira de transformar alguém: é a única. Deste
modo, procuro a cada dia levar a minha vida com acerto,
retidão e rogar ao Poder Superior, para que eu nunca ve-
nha a esquecer do álcool, para que possa estar sempre
vivo em minha memória o estrago que o alcoolismo fez
comigo e com a minha família.
Apesar de nos Alcoólicos Anônimos não se contar o
tempo de permanência na Irmandade, pois a programa-
ção é só por hoje, acumulando e conquistando a cada vinte
e quatro horas de sobriedade, este ano de 2007 completei
dezoito anos afastado do álcool. Consegui esta proeza
apenas com boa-vontade, e a ajuda dos meus companhei-
ros, do meu grupo e do Poder Superior. Entretanto todo
esse tempo foi construído um dia de cada vez, mas nem
por isso sou melhor do que aquele que acaba de ingressar
nos AA, apenas cheguei antes.
Companheiro Theo
Não vim para os Alcoólicos Anônimos para deixar
de beber. Ao contrário, por minha vontade, estaria be-
bendo até hoje, pois bebia e parava quando queria; conse-
guia ficar até setenta e duas horas sem beber após uma
ressaca braba.
Certa vez, fiquei cinco meses sem beber, todavia, es-
ta foi a única vez em quarenta anos de envolvimento com
a bebida alcoólica. Na época, tinha uns dezesseis anos,
meu primo estivera, pela primeira vez, a uma reunião de
AA. Na quinta feira, quando chegou ao meu escritório –
nós trabalhávamos juntos – todo entusiasmado, foi logo
dizendo:
– Theo, ontem, eu fui ao grupo de AA e gostei. Ve-
nha comigo, você vai gostar.
– Pode parar – cortei logo –, se você tem problema
com bebida, o problema é seu. Para você deve funcionar.
Você está parecendo esses evangélicos que querem con-
verter todo mundo. Para encurtar o assunto, eu não tenho
problema com o álcool, não sou alcoólico, nunca cai na
rua, não perdi a minha família, a bebida para mim nunca
foi problema. AA não é para mim.
No dia 23 de dezembro, viajei para Piraí, no Estado
do Rio de Janeiro, a fim de passar o Natal com a minha
sogra, e como era normal, ao lá chegar, fui logo abrindo a
geladeira e pegando uma latinha de cerveja. Bebi, fiquei
satisfeito, sem qualquer problema.
No dia 24, véspera do Natal, resolvi lavar e polir o
carro. Peguei um copo de vinho na geladeira. Não sei
quantos copos tomei, só sei que acordei por volta das dez
da noite, morrendo de sede.
– Viu o que você fez no banco do carro – comentou
minha esposa.

60
– O que fiz? – questionei de imediato.
– Você sentou no banco do motorista e colocou o
copo de vinho no banco do carona. O copo virou e man-
chou todo o estofamento.
Fui correndo em direção ao carro, mas para minha
surpresa, minha mulher tinha lavado o banco.
Entreguei o copo a ela e jurei nunca mais beber. Não
bebi no dia de Natal, me contive apesar da imensa vonta-
de.
No dia 26 de dezembro, retornei à minha residência
e, no dia seguinte, fui ao escritório e falei com o meu pri-
mo que iria com ele na reunião do AA apenas para lhe
fazer companhia e dar-lhe apoio moral. Antes de chegar
ao grupo fui pensando, “acho que vou voltar para casa.
Vou encontrar por lá um montão de pessoas sujas, pés
inchados, mendigos, mas já que estou por aqui, vou co-
nhecer essa Irmandade”.
Chegamos, fomos recebidos por pessoas limpas, ca-
rinhosas, amigas, que me surpreenderam. Meu queixo
caiu. Começou a reunião. Após uns quinze minutos, eu já
queria me levantar e falar, tamanho meu entusiasmo. To-
davia, tive que aguardar minha vez e somente no final me
deixaram falar. Perguntaram-me se queria fazer parte da
Irmandade. Respondi que sim.
No dia seguinte, na hora do almoço, como de cos-
tume, fui ao bar com a intenção de tomar uma pinga. Na-
quele instante, pensei naqueles companheiros, e disse
para mim mesmo:
– Mas que mau caráter eu sou. Ingressei ontem e já
vou beber hoje.
Não bebi, graças ao Poder Superior, e desde então
não tive nenhuma recaída. Parei de fumar e melhorei
muito como ser humano. Hoje me orgulho de pertencer
ao AA.
(Theo – Niteroi - RJ)

Companheira Paula
Estou muito nova para sofrer tanto. Meu nome é
Paula. Comecei bebendo aos treze anos. Nunca gostei do
gosto da bebida, por isso misturava a bebida com doces,
tortas e sorvetes. Aos dezesseis anos, tive meu primeiro
coma alcoólico.
A bebida me proporcionava a falsa sensação de fa-
zer parte da galera, da vida e o álcool me tirava o comple-
xo de inferioridade. Sentia-me extrovertida, bonita e par-
ticipativa. Mas isso durou pouco tempo, porque, após
certo tempo, bebia todos os dias e tudo aquilo que pensa-
va que a bebida me proporcionava era pura ilusão.
Passei a me comportar como uma pessoa totalmente
diferente daquela Paula de antes. Tornei-me pouco assea-
da, promíscua, sem qualquer interesse pela vida. O im-
portante era beber, totalmente desprovida de sensibilida-
de a respeito dos meus problemas e das pessoas que me
rodeavam, afastando-me de tudo e de todos.
Dentro do meu mundo fantasioso, a minha idéia era
largar tudo e viajar para outro estado ou país, pois so-
mente assim poderia beber em paz, sem a cobrança de
ninguém. Planos estes que jamais aconteceram, pois, na
minha caminhada alcoólica, nunca guardei dinheiro se-
quer para viajar para outra cidade, quanto mais para ou-
tro estado ou país.
Nesse mundo louco do alcoolismo, deparei-me com
a confusão mental em que estava mergulhada, sem pers-
pectiva alguma, mentirosa, emocionalmente aos franga-
lhos, totalmente desacreditada. Foi dessa maneira, que
esta insana chegou ao AA, com dezoito anos de idade, em
uma reunião que funcionava na periferia de Brasília.

62
Mesmo freqüentando o grupo, tive muitas dificul-
dades na primeira semana; não consegui ficar sem beber.
Acordava trêmula, ansiosa e muito mal, porém isto durou
apenas alguns dias. Na semana seguinte, voltei a reunião
sem beber e de lá até os dias de hoje, não ingeri qualquer
tipo de bebida alcoólica.
Foi quando realmente ingressei em Alcoólicos Anô-
nimos, pois tinha a esperança de que iria fazer parte da-
quela bela Irmandade. Apesar de mulher, jovem e relati-
vamente atraente, sempre fui muito respeitada por todos.
Por ser o membro mais novo daquela irmandade, ainda
relutava em aceitar a condição de alcoólica. Era muito
jovem, bebia somente cerveja, não bebia de manhã e nada
tinha perdido (também nada tinha construído).
Passei a participar ativamente do grupo. Adquiri
logo que pude algumas literaturas de AA, os mais indica-
dos, “Viver Sóbrio e o Livro Azul”. Percebi para que a
programação pudesse dar certo na vida da Paula, teria
que aceitar a minha impotência perante o álcool, caso con-
trário, possivelmente, Alcoólicos Anônimos não funciona-
ria para mim.
Apesar do número crescente de jovens e mulheres
envolvidas com o alcoolismo, ainda somos minoria na
irmandade. Mesmo sendo mulher e jovem, ainda não ti-
nha passado por muitas situações que aqueles compa-
nheiros tinham vivenciado. Hoje percebo que não importa
qual a bebida ingerida, se é somente nos finais de semana
ou todos os dias, o que se deve levar em consideração é o
grau de dependência do álcool. Em AA, ganhei uma nova
e carinhosa família, pois todos os homens e mulheres me
paparicavam, com o único objetivo de me ajudar.
Hoje estou totalmente engajada na obra de AA. Gri-
to aos quatro cantos que sou feliz por não beber. Descu-
bro-me a cada vinte e quatro horas. Estou crescendo como
mulher e ser humano. Tenho plena consciência de que é
maravilhoso acordar pela manhã, sabendo o que fiz no
dia anterior e planejar os meus dias futuros, sem aquela
confusão mental de quando bebia.
Este é o meu depoimento. Espero que possa contri-
buir para alguém que esteja envolvido com o alcoolismo,
assim como já estive envolvida. Caso haja alguma coinci-
dência ou identidade com meu depoimento, não é apenas
pura coincidência; é a doença se manifestando. Interrom-
pa essa progressão enquanto há tempo.
(Paula – Brasília – DF)

Companheiro Carlos
Sou membro de Alcoólicos Anônimos há mais de
dezenove anos, apesar da Irmandade não contar tempo.
Só por hoje. Estou limpo todo esse tempo. Sou médico e
professor universitário e, mesmo assim, tive que recorrer
à irmandade dos AA para soerguer-me. O irônico é que
eu, em função do meu ofício, já havia encaminhado ou
sugerido inúmeros pacientes alcoólicos a procurarem a
irmandade de AA para a recuperação, como auxilio ao
tratamento médico.
Apesar de nunca de ter agredido fisicamente qual-
quer pessoa da minha família quando estava em estado
etílico, era costumeiro agredi-los com palavras e acusa-
ções inoportunas e inverídicas. Aceitei a minha impotên-
cia perante o álcool, sem muito esforço. Todavia, aceitar a
perda do domínio sobre minha própria vida, conforme
sugere a segunda parte do primeiro passo da literatura do
AA, foi muito difícil. Não havia perdido o emprego, nun-
ca estive em estado de coma alcoólico, não havia perdido
a família, não fora preso e bebia com meu dinheiro sem

64
pedir nada a ninguém. Tinha, portanto, total controle das
minhas finanças.
Tive um grave acidente de carro quando estava to-
talmente embriagado. O veículo se destruiu completa-
mente. Ganhei algumas fraturas e acordei no hospital,
mas sempre achava que meu alcoolismo não era o pro-
blema. Meu emocional, por outro lado, é que sempre fora
descontrolado. Como profissional de saúde, sabia que o
álcool age sobre o sistema nervoso central, mas não queria
aceitar esse fato. Achava que as coisas aconteciam comigo
por simples fatalidade e jamais aceitava que as situações
ocorriam em razão das minhas bebedeiras. Hoje vejo que
o álcool nunca me foi benéfico; trouxe-me apenas prejuí-
zos. Deixei de conseguir melhores empregos, bens mate-
riais e até um aprimoramento maior no campo intelectual
por não aceitar o fato de que era um alcoólatra.
Atualmente vivo uma vida feliz, graças ao Poder
Superior, além de um pouco de boa-vontade e a partici-
pação nas reuniões de Alcoólicos Anônimos. Hoje, procu-
ro errar menos, não tomar decisões precipitadas, usar o
racional em vez do emocional, ouvir mais e falar menos,
aprendendo a respeitar mais meu semelhante e não julgá-
lo.
Para que a minha programação funcione, tenho que
manter vivo, em minha memória, que a doença do alcoo-
lismo é incurável, porém o físico e o emocional são recu-
peráveis. Atualmente sou bastante consciente de que os
Alcoólicos Anônimos é para toda a vida, apesar do lema
“Só Por Hoje”. Tenho plena consciência de que evitando o
primeiro gole a cada vinte e quatro horas e renovando
essa proposta todos os dias, poderei cumprir este lema.
Espero continuar nessa caminhada de felicidade e alegria,
juntamente com os meus companheiros, até o dia que o
Poder Superior, Deus na forma que O concebo, queira que
eu permaneça por aqui.
(Carlos – BH).

Companheiro Mário
Ingressei em Alcoólicos Anônimos em 17 de outu-
bro de 1988. Fui convidado por um vizinho e amigo, que
participava da irmandade há uns três anos aproximada-
mente. Por uma questão de gentileza para com ele, fui
conhecer o tão comentado AA. Pensei em encontrar bêba-
dos, pessoas sujas e mendigos. Meu Deus, como eu era
preconceituoso!
Ao chegar, vi uma sala organizada, limpa, com pes-
soas arrumadas e de banho tomado, bem diferente de
mim que, quando estava na ativa, só andava sujo pela
rua, de chinelos tipo havaiana cujas tiras, muitas vezes,
estavam amarradas com barbantes. Banho, quando toma-
va, era às altas horas da noite. Apesar de ser um profes-
sor, após minha aposentadoria, a doença do alcoolismo
progrediu muito rápido. Quando trabalhava, tentava es-
conder minha doença. Depois que me aposentei tinha
todo tempo do mundo para beber. Foi a minha desgraça
até conhecer por intermédio de um amigo a irmandade
maravilhosa de Alcoólicos Anônimos.
Estou sóbrio desde aquele dia, e de vinte e quatro
em vinte e quatro horas, lá se vão quase vinte anos de
sobriedade. Na época, cheguei com a saúde bastante debi-
litada e a minha mulher já estava de malas prontas para ir
embora, levando consigo minha única filha, que tinha seis
anos de idade. Atualmente, graças a Deus, faço as minhas
caminhadas diárias. Nos finais de semana, participo de
bailes na minha localidade, pois, além de professor, sou

66
músico e adoro tocar instrumentos de cordas, principal-
mente cavaquinho.
Muitas pessoas bebem. Tenho consciência de que
todos podem beber o que quiserem, mas, para mim, bebi-
da alcoólica é um veneno mortal. Por isto, bebo muita
água mineral, me distraio e ganho meu dinheiro hones-
tamente. Durante a semana, vou ao meu grupo, quase
todos os dias, pois lá temos duas reuniões que acontecem
às segundas e sextas feiras à tarde e à noite. Participo dos
serviços de AA, dos encontros regionais e nacionais, no
qual conheci verdadeiros amigos. Em dezembro, ganhei
de presente da minha filha e do Poder Superior, uma ne-
ta, que muito alegra a nossa família, aquela mesma famí-
lia que um dia estava de malas prontas para ir embora.
Obrigado, Alcoólicos Anônimos.
(Mário – Juiz de Fora – MG )

Tânia
Meu nome é Tânia, tenho 22 anos, sou universitária
e dependente de químicos, tais como o álcool e a cocaína,
só que não faço mais uso destas drogas. Estou limpa há
dois anos.
Duas amigas inseparáveis e eu, éramos freqüenta-
doras assíduas de festas raves. Além dessas, íamos muito
ao píer da Praça Mauá, na Lapa, no Circo Voador, locais
situados no centro do Rio, onde se concentram grande
massa de pessoas de todas as faixas de idade e, princi-
palmente, jovens. Rara as vezes que eu participava de
festas que não consumia algum tipo de drogas. No início,
com os meus quinze para dezesseis anos, comecei com
pequenas doses de “ice”, vodka com limão. Ficava de
pilequinho. Era muito “legal”, mas foi por pouco tempo.
Um belo dia no Píer da Praça Mauá, bebi excessi-
vamente. No início, ingeri ice, depois, o que viesse. Entrei
em coma. Enquanto que as minhas inseparáveis amigas
bebiam dois ou três chopps e paravam, eu não conseguia
parar. Fui levada a um posto médico, onde me aplicaram
glicose na veia e, para mim, a festa acabou. Que vergo-
nha!
Em pouco tempo, a bebida alcoólica já tinha tomado
conta da minha vida, mas eu não aceitava o fato de ser
uma alcoólica. O pior dessa história é que comecei tam-
bém a usar cocaína. Inúmeras vezes, já bastante alcooliza-
da, subia morros, tais como a Rocinha e o Vidigal, para
comprar a maldita cocaína. Em certas ocasiões, era escula-
chada pela Polícia ou pelos bandidos, que ficavam me mo-
lestando, isto quando não roubavam meu dinheiro, meu
relógio e outros objetos, além de tomar uns tapas na cara.
Presenciei várias incursões de policiais no morro. Escon-
dia-me e a bala comendo. Que vida infeliz, mas mesmo as-
sim ainda não aceitava a condição de dependente. Fiz
minha mãe, pai e irmãos sofrerem muito.
Levei essa vida maldita por uns dois anos. As ami-
gas inseparáveis já não mais me acompanhavam, e, por
fim, fiquei sozinha nas minhas andanças.
Com dezoito anos, passei no vestibular para Odonto
em uma faculdade federal. Foi minha perdição. Não saía
das chopadas e das festas promovidas pelos colegas da
turma ou da faculdade. Quando meus pais vinham me
cobrar responsabilidade, eu, no auge da minha prepotên-
cia, respondia que era universitária na área médica de
uma conceituada universidade federal. Afirmava que era
inteligente e conhecia minhas limitações.
– Paro de beber quando quiser!
Eles não sabiam que eu usava outras drogas. Apesar
de toda essa doideira, ainda tirava boas notas na faculda-

68
de. Tinha plena consciência de que era uma boa aluna,
mas tudo isso durou pouco tempo. No terceiro período,
as minhas cachaçadas aumentaram e as minhas notas
despencaram. Graças a Deus, nesse período já não con-
sumia outras drogas além do álcool.
Num lampejo de sobriedade, aos vinte anos, já
transtornada e com muita vontade de morrer, reagi. Eu,
que jamais acreditara que pudesse me tornar em um far-
rapo humano, tinha me tornado em um. Neste ponto a-
gudo de minha existência, procurei um grupo de AA, que
funcionava na Igreja N. S. da Paz em Ipanema.
Cheguei em completo desespero, mas determinada
em dar um basta naquela situação. Já não tinha mais ami-
gos. Meus pais pouco falavam comigo. Estava caminhan-
do a passos largos para uma possível depressão ou morte.
Nesse grupo, fui recebida com carinho e muita
compreensão. Disseram-me que eu era a pessoa mais im-
portante naquela noite; frase esta que jamais tinha ouvido
em minha vida. No final da reunião, me perguntaram se
queria fazer parte da irmandade. Aceitei na hora, sem
titubear, e me disseram para voltar outras vezes. Aceitei
as sugestões. Nos primeiros dez dias ainda pensava muito
na bebida, mas o desejo foi se dissipando gradualmente.
Atualmente, graças ao meu Poder Superior, só penso e
falo em álcool dentro de uma sala de Alcoólicos Anôni-
mos (AA).
Minha vida se normalizou. Meus pais hoje sentem
orgulho de mim e jamais imagino em decepcioná-los no-
vamente. Retomei os estudos com afinco. Recuperei mi-
nhas notas na faculdade. Participo das festas com plena
consciência, e hoje a maioria dos meus amigos e colegas
sabe da minha doença do alcoolismo. Eles me dão a maior
força, pois não posso fugir da vida. Preciso viver.
Hoje sou uma pessoa feliz, apenas pelo fato de não
beber. Gostaria que todos os jovens iguais a mim, que
estejam trilhando essa caminhada a qual conheço muito
bem, saíam desse percurso enquanto há tempo. Muitas
vinte e quatro horas de Paz e Sobriedade para todos.
Tânia – Rio de Janeiro.

Vera – Salvador – BA
Meu nome é Vera. Sou de Salvador, Bahia. Meu so-
frimento começou por volta dos meus nove anos de ida-
de. Já nessa idade, presenciei diversas brigas violentas do
meu pai com a minha mãe. Assistia impotente, já que era
apenas uma criança.
Houve casos em que, em desespero, pedi ajuda aos
vizinhos, mas ninguém se interessava pelo meu sofrimen-
to. Respondiam que em briga de marido e mulher, nin-
guém põe a colher. Por volta dos onze anos, comecei a
experimentar as minhas primeiras e malditas doses de
bebidas alcoólicas. Hoje percebo que bebia para fugir da
realidade e sofrimento em que estava mergulhada.
Aos treze anos, senti-me independente e livre para
enfrentar os bares, achando muito bonito estar com um
copo na mão e um cigarro no bico. Aos quatorze anos,
encontrei um homem muito mais velho do que eu. Ele
tinha trinta anos e fomos morar juntos. Ele também gos-
tava de beber, o que foi a minha desgraça.
Aos quinze anos, já bastante envolvida com o alcoo-
lismo, sofri dois atropelamentos que deixaram sérias se-
qüelas no meu corpo. As brigas e agressões tornaram-se
diárias entre meu companheiro e eu.
Aos dezesseis anos, engravidei e tive um lindo me-
nino. Meu companheiro sumiu logo após o nascimento do
meu filho e nunca mais tive notícias dele. Foi quando bas-

70
tante debilitada pelo álcool e agora com uma criança ino-
cente nos braços, fui pedir ajuda a uma tia que morava no
interior da Bahia. Para minha surpresa, ela nos acolheu,
mas me impôs a condição de parar de beber. Na casa dela
não entrava cachaceiros, até porque a sua religião não
permitia tais atitudes. Fiz uma promessa à minha tia de
que não beberia mais.
Nesse período, estava com dezessete para dezoito
anos de idade e um filho pequeno para criar. Ela me ar-
rumou um trabalho em um supermercado próximo a sua
casa como faxineira. Durante o dia, ela tomava conta do
meu filho. Ainda bebi algumas vezes escondida e ficava
mal com a minha consciência, pois estava traindo a confi-
ança de quem queria me ajudar.
Então tomei conhecimento de que, na igreja da mi-
nha cidade, havia um local que fazia as pessoas parar de
beber. Nunca ouvira falar em Alcoólicos Anônimos. Fui a
uma reunião num domingo, meu dia de folga.
Fui recepcionada na porta pelo companheiro de
nome Lúcio, que me apresentou a algumas pessoas pre-
sentes. Por volta das dez horas, começou a reunião. Cada
companheiro que falava, eu chorava copiosamente, pois
falavam um pouquinho de minha vida, sem me conhecer.
No final da reunião me disseram para manter o estomago
sempre cheio e beber bebida adocicada, caso não tivesse
problema com açúcar, pois isto inibia a vontade de beber.
Pediram que voltasse no dia seguinte, pois havia reuniões
de domingo a domingo. Fui para casa radiante e falei com
a minha tia que ficou ainda mais feliz do que eu.
Na segunda feira, cheguei do trabalho por volta das
20:00 hs, tomei um banho rápido e ainda consegui assistir
o segundo tempo da reunião. Continuei freqüentando as
reuniões sempre que podia. Atualmente, estou com vinte
e seis anos, sou gerente do supermercado, o que não deixa
de ser uma façanha, pois para quem era analfabeta, che-
guei ao topo. Todavia, quero e posso ir além. Consegui
estudar e concluir o segundo grau e, no final de 2006,
prestei vestibular e fui aprovada para a faculdade de pe-
dagogia de uma universidade pública do estado da Bahia.
Meu filho está com nove anos de idade. Continuo moran-
do com minha tia que não quer que eu saia de perto dela,
de jeito nenhum. Todos os sábados e domingos vou a mi-
nha sagrada reunião de Alcoólicos Anônimos, na qual
encontrei meus verdadeiros amigos. Hoje, existem três
coisas muito importantes na minha vida. A primeira é
Alcoólicos Anônimos; a segunda, meu filho; e a terceira,
minha querida e amada tia. Por que AA em primeiro lu-
gar? Pois sem ele não teria condições de dar amor, cari-
nho e criar meu filho.
Vera – Salvador – Bahia.

Paulo
Meu nome é Paulo, conhecido carinhosamente co-
mo Paulinho. Estou completando vinte e sete anos sem a
ingestão de bebida alcoólica. Isto poderia ter acontecido
há mais tempo, porque em 1968 conheci uma irmandade
e, por infelicidade, não acreditei em seus propósitos.
Eu não estava querendo parar de beber nem de so-
frer, naquela ocasião. Pensava que, com trinta e três anos,
ainda tinha muita lenha para queimar. Afinal de contas, eu
era bem sucedido profissionalmente, advogado conceitu-
ado na minha região, mas também não percebia que mi-
nha forma de beber descontroladamente estava me tiran-
do a credibilidade.
Na Irmandade, havia reuniões todos os dias de se-
gunda a sábado, mas eu comparecia apenas nas terças
feiras, e mesmo assim com tremenda má vontade. Algu-

72
mas pessoas percebiam que eu tinha bebido e estava lá
apenas fisicamente, mas com o pensamento ainda nos
bares. Fiquei uns trinta dias bebendo e freqüentando as
reuniões. Finalmente, abandonei a Irmandade e fiquei uns
três anos ainda bebendo, e acabando com a minha saúde e
minha moral.
Morava minha mãe e eu numa confortável casa de
dois pavimentos. Certa vez, quase matei a minha mãe. Fui
dormir embriagado e o cigarro caiu de minha mão sobre o
colchão que logo pegou fogo. Fui acordado pelos bombei-
ros, arrombando a porta do meu quarto e me tirando de
lá, enquanto o incêndio se alastrava para o quarto da mi-
nha mãe que ficava ao lado do meu.
No dia 13 de junho de 1970, comecei a beber pela
manhã. Nessa ocasião já estava com muito pouco trabalho
e descrédito total perante os meus clientes. Fui acordado
bêbado na porta da Igreja de Santo Antonio, o qual passei
a ser devoto, e fui carregado para casa ainda de terno e a
minha pasta de documentos, sem qualquer dinheiro e
documentos nos bolsos, que até hoje não me lembro onde
foram parar. Não me recordo se os perdi ou se fui rouba-
do.
No dia seguinte, aos prantos, convidei minha mãe a
voltar comigo àquela Irmandade que conhecera há dois
anos. Queria e precisava dar um basta naquelas bebedei-
ras. Ela me disse que iria, pois tinha esperanças que eu
não iria morrer bebendo ou matando-a com a minha be-
bida.
Foi a melhor decisão da minha vida. Cheguei à ir-
mandade convicto a abandonar em definitivo aquele so-
frimento e a bebida alcoólica. Mesmo assim, escutei al-
guém falando baixinho:
– Duvido que esse aí fique com a gente. Ele já esteve
por aqui algum tempo atrás e voltou a beber.
Aquilo me machucou profundamente. Eu me de-
terminei a mostrar àquele sujeito que sou um homem de-
cidido que jamais voltará a beber.
Agora, entendendo melhor as mensagens, passei a
freqüentar as reuniões diariamente por um ano, sem faltar
um dia sequer. Obrigava-me a comparecer como se aquilo
fosse para mim um remédio que necessitava ser ministra-
do todos os dias e uma única falta poderia me levar à
morte.
Imediatamente Deus me devolveu a sanidade e os
clientes começaram a voltar. Contratei mais dois colegas
advogados para tocarmos o escritório, pois sozinho já não
dava conta da grande demanda processual. Permaneci
quinze anos advogando, me elegi vereador, fui vice-
prefeito na minha cidade do interior de Minas Gerais.
Mas nunca abandonei aquela bendita e maravilhosa Ir-
mandade e meus companheiros, que, para mim, são mais
do que irmãos.
Com dois anos de irmandade, casei-me. Constituí
uma bela família. Infelizmente, minha querida mãe fale-
ceu em 1973, mas me viu sóbrio e me dava inexcedível
apoio para que eu continuasse naquela caminhada e que
não deixasse nada me abater, pois o mais difícil eu já con-
seguira, que era abandonar a bebida.
Hoje, tenho dois filhos, que também são advogados
e deram continuidade ao meu escritório, lá em Minas Ge-
rais. No ano de 1985, retomei os estudos, mesmo envolvi-
do em política e com o escritório. Prestei um concurso
público para Procurador da República, tendo me classifi-
cado em vigésimo-quinto lugar no certame. Fui trabalhar
em uma procuradoria próxima a minha cidade, na qual
permaneci até 2003, quando me aposentei como subpro-
curador geral da república.

74
Mudei para o Rio de Janeiro e mantenho na minha
cidade natal uma pequena propriedade, onde moram
meus filhos. É meu refugio de todos os finais de meses.
Confesso nesta oportunidade que todos os méritos
são de Deus e dos meus companheiros, que nunca me
abandonaram; para eles, não sou o Dr. Paulo e sim, o Pau-
linho.
Espero que este meu depoimento possa contribuir
para essa brilhante obra do meu querido e inestimável
irmão Antonio Carlos. Que sirva também de alerta para
toda a sociedade, pois por mais ingênua que seja a bebida
alcoólica é um químico e poderá provocar dependência.
Paulinho ( Barra da Tijuca – RJ)

Esposa do Autor
Antônio Carlos eu morávamos no bairro da Penha,
subúrbio do Rio de Janeiro. Estava ansiosa pela sua de-
mora. Eis que a campainha tocou. Abri a porta da sala, ele
adentrou falando esquisito e caiu em cima da mesa de
centro, que tinha um arranjo de flores novo que minha
mamãe comprara para adorno de Natal. Este arranjo esta-
va repleto de pequenas pedras brancas. O arranjo virou
com o impacto do seu corpo. Todas as pedras, centenas
delas, caíram na mesa e se espalharam pelo tapete. Tive
um trabalho enorme em catá-las, limpar e arrumar a sala.
Antonio Carlos acabou desmaiando. Acabara meu Natal.
Depois disto, sucederam-se uma série de fatos de-
sagradáveis. Todavia, quando amamos, vivemos unica-
mente para este amor na esperança de que tudo melhore e
se transforme. Assim, toleramos tudo por sermos jovem e
intensamente românticos.
Na verdade, a nossa vida junto, no início do nosso
casamento há vinte e sete anos, já tinha virando um tor-
mento. Aguardar sua chegada era um desses momentos
de profunda ansiedade. Toda mulher teme que seu mari-
do se atrase, já que não sabe o que aconteceu. Ela fica a
olhar os ponteiros do relógio seguir seu ritmo inexorável
enquanto se imagina os piores cenários possíveis. Final-
mente, o marido chega com um “bafo” insuportável de
álcool. Com uma voz enrolada, afirma que encontrara
alguém e que passara o tempo discutindo a possibilidade
de um grande negócio. Por mais que se tenha paciência e
amor, sabe-se que é mais uma desculpa apenas para dis-
farçar o tempo passado num bar.
Ele jantava e reclamava da comida. Discussões e
brigas eram suas sobremesas. Depois, passava mal, vomi-
tava e a culpa era do que havia comido em casa. Nunca
punha a culpa no álcool, que diariamente destruía seu
fígado e seus neurônios que morriam em seu cérebro.
Como todo bebedor compulsivo, não enxergava o mal
que fazia à própria saúde. Ele estava escravizado por este
vilão causador de tantas discórdias, tantos afastamentos,
desempregos, falta de confiança, vergonha, desmoraliza-
ção. Não tinha consciência do fato de que estava num
processo de autodestruição e, além disto, exterminando
sua família.
Claro que, após as brigas, o que acontecia? Caro a-
migo, cara amiga, a resposta é que desmaiava, dormia e
roncava vigorosamente. O som que emitia era escutado a
distância e eu chorava. Mais uma noite igualzinha a tan-
tas que ainda viriam pela frente.
Sábados e domingos eram insuportáveis. Ele acor-
dava tarde, ia ao barzinho na mesma rua, o “botequim”
como falávamos, e ali permanecia até quase duas horas da
tarde, numa “conversa fiada” com homens que estavam
no mesmo diapasão. Mulheres? Raras naquele ambiente,
pois elas, quando são alcoólatras, preferem beber em casa.

76
Sentem ainda mais vergonha do que os homens e a nossa
sociedade as rejeita com muito mais intensidade do que
aos homens.
Retornando ao assunto, ao chegar do bar, brigáva-
mos. Eu gritava e ele, muitas vezes, me chamava de puta,
que eu andava com outros homens. Eu o chamava de bê-
bado e procurava atingir com palavras a família dele. Fa-
zia isto de modo equivocado, hoje eu sei, mas era apenas
para irritá-lo. Em suma, ocorria troca de ofensas. Desta
forma, nossas vidas seguia o rumo: ele, nosso filho Carlos
Eduardo, eu e o álcool. Marcello, meu filho mais novo
ainda não nascera. Por que incluí o álcool? O álcool estava
fazendo parte da nossa família.
Vida vazia, infeliz, trabalhava em casa, cuidava do
filho, dinheiro não tinha, tempo não existia. Apaixona-
damente, aguardava o momento de encontrar-me com
meu amor, a paixão da minha vida. Todavia, tudo era em
vão, pois tudo se repetia da mesma maneira: mentiras,
brigas, ofensas... Desculpem o desabafo: Maldito álcool!
Insuportável a nossa convivência. Lembro-me de certa
vez, quando nosso filho, ainda um baby, deitado num col-
chonete pequeno no chão, quando meu marido, que já havia
ingerido cerveja, pegou sua arma e atirou para o chão. Ima-
ginem o barulho que fez. Foi ensurdecedor.
Era normal quando saíamos que ele parasse em vá-
rios bares para abastecer seu organismo com um gole de
álcool, e, obviamente, almoçar o mais tarde possível. Diri-
gia em alta velocidade, arriscando nossas vidas e a de
terceiros. As pesquisas demonstram que os acidentes de
trânsito causados pelo álcool estão entre os primeiros lu-
gares. Quanto risco corremos!
Nas poucas festas que éramos convidados, o interesse
dele era em se instalar o mais próximo possível da bebida.
Se esta acabasse, era hora de partir. Se fosse uma reunião
festiva ou uma reunião sem bebida alcoólica, não íamos.
Confesso, meus caros(as), sentia vergonha dele. Assim
como sei que muitas moças sentem vergonha de ter um pai
alcoólatra. Algumas pessoas se dizem bebedores sociais,
mas depois do primeiro gole não conseguem parar de beber
até que “desmaiam” ou que acabe toda a bebida. Pensam
que só é alcoólatra aquele que cai no chão “bêbado”.
Para Antonio Carlos era normal o estado em que ele
ficava. Não conseguia perceber a diferença: olhos e maxi-
lares vermelhos, rosto inchado, falando enrolado e rápido,
passos incertos, coordenação diminuída, odor de bebida,
falando repetidamente o mesmo assunto. Podia ser “en-
graçadinho” no início, mas logo se tornava irritante, um
chato, além de agressivo. Para uma pessoa que não ingere
bebida alcoólica, torna-se fácil perceber a diferença. Eu
isolava-me das pessoas, tinha vergonha que as pessoas
soubessem de nossas brigas. Estava me tornando doente e
não sabia que estava adoecendo também. Somente quan-
do ele quis ir espontaneamente a um grupo que tratava
do alcoolismo, é que eu o acompanhei com uma esperan-
ça tão imensa quanto o céu. Podem ter certeza, a partir
daquele momento, tive fé e confiança em sua plena recu-
peração. Senti uma grande felicidade interior.
Neste grupo, as pessoas nos comoviam com seus
depoimentos sinceros, falando coisas que vêm do coração,
sem palavras bonitas, mas numa descrição fiel dos males
que o álcool trouxe às suas vidas. Também fiquei sabendo
que o alcoolismo é uma doença incurável, que pode atin-
gir qualquer pessoa em qualquer nível social e econômico,
qualquer idade, independentemente de religião e raça.
Soube que o alcoolismo pode adoecer também um ou
mais membros da família do alcoólatra.

78
Ah! Então era isso. Descobri que eu também estava
doente, pois não queria me aproximar de ninguém. Den-
tro de mim, havia se desenvolvido a ira, o rancor, o ciú-
me, o medo, a angústia e o egoísmo. Estava sofrida, can-
sada das inverdades e falsas promessas do meu marido,
suas bebedeiras. Estava exausta da infelicidade que o al-
coolismo acarretava em nossas vidas.
Antonio Carlos, todavia, acordara para a realidade.
Não se sentia satisfeito, tanto que fora procurar aquele gru-
po. Foi perfeito, freqüentou semanalmente as reuniões e não
ingeria mais álcool. Passando aos demais companheiros do
grupo de Alcoólicos Anônimos seu depoimento, sua vitória,
sua valentia em ter combatido esta doença e de ter vencido,
nossas vidas tomaram um rumo diferente.
Hoje não existem mentiras. Ele já não encontra ami-
gos e nem perde tempo inutilmente em bares com conver-
sas que não conduzem a lugar nenhum. Brincamos muito,
damos boas risadas e, com a graça de Deus, não precisa-
mos da bebida para nos alegrar. Nossas discussões, nos-
sos defeitos de caráter estão dentro de nós, mas sem ne-
nhuma relação com o álcool.
Hoje, meu marido é amoroso, um pai excelente, de
bons costumes, dedicado, participativo, cumpridor dos
compromissos e horários, honesto, impulsiona os filhos
aos estudos e ao bom comportamento; enfim, um homem
maravilhoso!
Posso gritar para o mundo: não perca a esperança,
se você tem na família alguém adoecido pelo álcool, tenha
fé, indique a esta pessoa o caminho do soerguimento. Se
ela desejar e se esforçar, libertar-se-á desta doença.
Obrigada, meu Deus, por esta felicidade!
Amor, você é um homem vitorioso! Orgulho-me
muito de você! Beijos carinhosos. Sandra.
Como saber se alguém é alcoólico
ou tenha pré-disposição à doença”
1 – Já tentou parar de beber por uma
semana ou mais, sem conseguir atingir
seus objetivos? Sim( ) Não( )
2 – Ressente-se com os conselhos de
outros que tentam fazê-lo(a) parar de
beber? Sim( ) Não( )
3 – Já tentou controlar a tendência de
beber demais trocando uma bebida alco-
ólica por outra? Sim( ) Não( )
4 – Tomou algum trago pela manhã nos
últimos doze meses? Sim( ) Não( )
5 – Inveja pessoas que podem beber sem
criar problemas? Sim( ) Não( )
6 – Seu problema de bebida vem se tor-
nado cada vez mais sério nos últimos
doze meses? Sim( ) Não( )
7 – A bebida já criou problema no seu
lar? Sim( ) Não( )
8 – Nas reuniões sociais nas quais as
bebidas são limitadas, você tenta conse-
guir doses extras? Sim( ) Não( )
9 – Apesar de prova em contrário, você
continua afirmando que bebe quando
quer e pára quando quer? Sim( ) Não( )
10 – Faltou ao serviço durante os últimos
doze meses por causa da bebida? Sim( ) Não( )
11 – Já experimentou alguma vez um
“apagamento” durante uma bebedeira? Sim( ) Não( )
12 – Já pensou alguma vez que poderia
aproveitar muita mais a vida se não be-
besse? Sim( ) Não( )
Se houver mais do que quatro respostas afirmativas, há claras
indicações de alcoolismo, considerando que o questionário foi
respondido com honestidade.

80
Características do alcoolismo
Fique atento aos "sinais de alerta" para a doença:
– Beber de manhã.
– Ficar de "pileque" em toda festa que vai.
– Colocar o álcool como prioridade em seus in-
teresses.
– A percepção dos outros para os excessos
(quando começam a implicar com seus "go-
les").
O que nos ajuda a detectar o alcoolismo é a perda
da liberdade para o ato de beber. O indivíduo começa
com a intenção de beber duas ou três doses e depois não
consegue se controlar

Informando
O Brasil detém o 1° lugar do mundo no consumo de
destilados (cachaça).
0s jovens estão começando a beber cada vez mais
cedo.
0 álcool interfere no processo de concentração no
trabalho e os alcoólatras estão justamente na faixa de
maior produtividade do individuo - entre 25 e 45 anos.
0 alcoolismo é uma doença crônica, incurável e pro-
gressiva, que mina o organismo, atacando todos os ór-
gãos. Mas o que também é importante: é controlável.
0 álcool é responsável pela maioria dos acidentes de
trânsito, porque altera a percepção do espaço, do tempo e
a capacidade de enxergar bem.
0 índice de câncer entre os bebedores é alarmante,
quer por ação tópica do próprio álcool sobre as mucosas,
quer por conta dos aditivos químicos de ação cancerígena,
que entram no processo de fabricação das bebidas.

"A sua vontade de parar é o primeiro passo para o trata-


mento"
Álcool versus Mulher, uma parceria que não dá certo.
O álcool causa danos ao cérebro das mulheres mais
rapidamente do que ao dos homens, de acordo com um
estudo realizado na Rússia e cujos resultados foram pu-
blicados nos Estados Unidos.
Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que o
álcool prejudica mais rapidamente o fígado e o coração
das mulheres do que a dos homens.
Para comparar os efeitos da bebida, 102 alcoólatras
(78 homens e 24 mulheres) entre 18 e 40 anos foram sub-
metidos a uma bateria de exames para avaliar suas fun-
ções mentais. Um grupo de controle de 68 homens e mu-
lheres que não eram alcoólatras fez os mesmos testes.
Antes de começar o estudo, todas as pessoas de-
pendentes do álcool tiveram de ficar sem beber de três a
quatro semanas.
O rendimento das mulheres alcoólatras foi pior nos
exames de memória visual, de raciocínio e solução de
problemas.

Fonte: Folha online

82
O velho e conhecido golpe “ Boa Noite Cinderela”

Fique Alerta!

Não, infelizmente não é mais um lindo e romântico


contos de fadas com final feliz, mas trata-se de um golpe
que está virando rotina nas noitadas. Não faz parte dos
dados de criminalidade das grandes cidades, pois não
existe um numero significativo de registros, já que o si-
lencio das vitimas faz com que este crime fique fora da
mídia e das estatísticas oficiais.
Uma noite você está na balada, em um show ou em
uma festinha, bebendo, sorrindo. Eis que aparece um in-
dividuo bacana, bonito e conversa vai, conversa vem. Ele
lhe oferece uma bebida e... Puff... Quando você acorda
percebe que foi assaltada(o) ou violentada(o). Pode ser
que você tenha bebido demais, mas o mais provável é que
trata-se do famoso golpe Boa Noite Cinderela.
Ele funciona assim: o individuo coloca uma droga
na bebida, fazendo com que a pessoa perca a consciência
de seus atos, alterando sua consciência. Essas drogas são
conhecidas como “Rape Drugs” ou Drogas do Estrupo
que são as:
– GHB (ácido gama-hidroxibutiríco)
– Ketamina (Special K)
– Rohypnol (Flunitrazepam)
São drogas depressoras do sistema nervoso central
que misturadas ao álcool, vira um veneno muito perigoso.
Elas causam diminuição do nível de consciência, além de
depressão respiratória, entre outros sintomas, e pode o-
correr morte por desidratação ou intoxicação. A recupera-
ção pode levar até 3 dias.
No inicio, causa uma desinibição comportamental,
euforia, sensação de bem-estar, assim acontece com os
efeitos do álcool. Logo depois advém a sonolência, a difi-
culdade de reagir a ameaças físicas ou psicológicas, e e-
ventualmente idéias e comportamentos bizarros. A vitima
acaba fazendo tudo o que o bandido pede: tira dinheiro
do banco, leva-o para casa, e muitas outras situações.

Algumas dicas de como se prevenir do golpe:

Não julgue pela aparência. Moças e rapazes bonitos


podem esconder um delinqüente.
Não aceite cigarros, balas, chicletes e muito menos
bebidas de estranhos.
Fique sempre atento as conversas e as pessoas que
estejam perto ou que peçam algo.
Evite receber pessoas estranhas em casa. Se receber,
faça com que sejam vistos pelo zelador, porteiro ou vigia.
Anote o número da placa do carro do desconhecido ou
qualquer dado que possa identificá-lo futuramente.

84
Espero que este singelo livro corrobore com o leitor
no entendimento da doença do alcoolismo. Os depoimen-
tos, as citações e ilustrações foram cuidadosamente sele-
cionados para que os leitores possam ter uma visão ampla
desta terrível doença.
Deve ficar patente de que essa enfermidade não es-
colhe suas vitimas, seja homem ou mulher, rico ou pobre.
Se existe uma pré-disposição alcoólica, ficamos sujeitos a
desenvolver a doença do alcoolismo. Todo cuidado é
pouco: não pague para ver.
Espero que essa leitura possa ter contribuído para
seu despertar. Caso tenha havido alguma identificação,
não é mera coincidência; é verdadeiramente alcoolismo.
Porém, se desejar abandonar a bebida, temos muitas insti-
tuições, médicas, religiosas e de mútua ajuda que poderão
lhe ajudar. Além dessas entidades, os Alcoólicos Anôni-
mos também poderá ajudá-lo.

Endereços das Centrais de Alcoólicos Anôni-


mos no Estado do Rio de Janeiro e São Paulo.

Rio de Janeiro – Av. Rio Branco, 57 – salas 201 a 203


Telefones: (21) 2253-9283/ 2233-4813 (fax)

São Paulo – Av. Senador Queirós,101 – 2º andar –


Conj. 206 – Bairro da Luz
São Paulo – SP – Telefone (11) 33159333 (24 horas)

www.aabr-online.aabrasil.org.br
Chats e reuniões on line
Oração da Serenidade

“ CONCEDEI-ME, SENHOR, A SERENIDADE NE-


CESSARIA PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO
POSSO MODIFICAR, CORAGEM PARA MODIFICAR
AQUELAS QUE POSSO E SABEDORIA PARA DIS-
TINGUIR UMA DA OUTRA”
(Autor Desconhecido)

86

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