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Faculdade de Letras e Ciências Sociais

Departamento de Sociologia
Mestrado em Sociologia do Desenvolvimento
Módulo de Sociologia Urbana

Resumo do texto de Loic Wacquant:

Ressituando a Gentrificação: a classe popular, a ciência e o Estado na pesquisa urbana


recente

Docente:
Dr. Peter R. Beck

Discente:
Ruby Muinde

Maputo,
Outubro, 2019

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Índice

1. Introdução ................................................................................................................................... 3

2. Conceituando o termo “Gentrificação” ....................................................................................... 4

2.1. Características da Gentrificação .............................................................................................. 4

2.2. Relação entre a Gentrifição com o Capitalismo ...................................................................... 6

2.3. Teorias sobre a gentrificação ................................................................................................... 7

2.3.1. Teoria humanista liberal ....................................................................................................... 7

2.3.2. Teoria marxista estruturalista ................................................................................................ 7

3. A Gentrificação no mundo .......................................................................................................... 8

3.1. Gentrificação America-latina e no Brasil ................................................................................ 8

3.2. Gentrificação em Moçambique ................................................................................................ 9

4. Ressituando a gentrificação: a classe popular, a ciência e o Estado na pesquisa urbana recente 9

4.2. Objectivo do texto .................................................................................................................... 9

4.3. Argumento do autor ............................................................................................................... 10

4.4. Contextualição ....................................................................................................................... 10

4.5. Linha de argumentação .......................................................................................................... 10

4.5.1. O silenciamento da classe operária na esfera pública e na pesquisa urbana ....................... 10

4.5.2. A submissão da pesquisa urbana à agendas obscuras ......................................................... 11

4.5.3. Papel das instituições públicas: o Estado como dono de casa e agência de purificação das
ruas ................................................................................................................................................ 12

5. Resumo ..................................................................................................................................... 13

6. Referência bibliográfica ............................................................................................................ 14

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RESSITUANDO A GENTRIFICAÇÃO: A CLASSE POPULAR, A CIÊNCIA E O
ESTADO NA PESQUISA URBANA RECENTE

Loïc Wacquant1

1. Introdução

A gentrificação neologismo foi criado de uma derivação do inglês gentry. Em inglês, o termo
refere tanto uma posição de classe quanto uma posição social de distinção com elevada condição
socioeconímica (SMITH, 1996; ATKINSON e BRIDGE, 2005 apud LEITE, 2014).

Na sociologia, foi justamente a socióloga britânica Ruth Glass (1963) quem usou o termo
gentrification pela primeira vez para designar o processo de reocupação e elitização de antigos
bairros do centro de Londres. Contudo, o termo passou a ser usado sobretudo após certas os
“distúrbios” sociais pós-68 e da contracultura urbana nova-iorquina (Smith, 1996).

Neste trabalho, com base em pesquisa bibliográfica, resumem-se as principais ideias do artigo de
Loïc Wacquant intitulado ressituando a gentrificação: a classe popular, a ciência e o estado na
pesquisa urbana recente, traduzido por Renato Aguiar (2010).

Contudo, antes do resumo, debruça-se sobre o conceito de gentrificação, suas caracteríticas asim
como as teorias explicativas deste fenómeno social.

1
PhD em Sociologia pela Universidade de Chicago. Professor de Sociologia da University of Califórnia-Berkeley e pesquisador
associado do Centre de Sociologie. Department of Sociology, 410 Barrow Hall - University of California, Berkeley, CA 94720,
USA. loic@berkeley.edu

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2. Conceituando o termo “Gentrificação”

De acordo com a literarura, o termo gentrificação surge pela primeira vez no século XX, na obra
de Ruth Glass, em referência às mudanças ocorridas na cidade de Londres, especialmente nas
regiões habitadas pela classe operária, conforme refere Ribeiro (2018), a palavra gentrification,
incorporada em nosso vocabulário como gentrificação, surge de uma observação feita por Glass
do processo de renovação de certas áreas da capital britânica na década de 60 do século XX, com
a substituição de moradores mais pobres por outros integrantes de classes mais altas. Em suas
palavras:

"One by one, many of the working class quarters have been invaded by the
middle class - upper and lower ... Once this process of 'gentrification'
starts in a district it goes on rapidly until all or most of the working class
occupiers are displaced and the whole social social character of the district
is changed" (GLASS, 1964, p.27 apud RIBEIRO, 2018).

Por gentrification se designa um tipo de intervenção urbana em sítios históricos ou não,


nomeadamente aquelas que ocorrem em zonas das cidades depauperados, mas que em geral
retêm valor patrimonial, e que modificam a paisagem urbana com transformações arquitetônicas
com forte apelo visual, atendendo às demandas de valorização imobiliária, segurança,
ordenamento e higienização social do espaço urbano. (LEITE, 2014)

Análisando estas definições propostas por Glass (1964) e por Leite (2014) para a gentrificação,
compreende-se que, na primeira, o processo de gentrificação pressupoe um desalojamento de
residentes pertencentes ao proletariado, substituídos por grupos oriundos de classes sociais mais
altas e um processo de reabilitação física destas áreas. E na segunda, pressupoe uma modificação
ou transformação do espaço urbano, em que áreas emboprecidas são reabilitadas ou restruturação
e transformadas em espaços nobres ou comerciais, assim como mudança do tecido social, em que
saem os moradores de baixa rende e entram os de média e alta renda.

2.1. Características da Gentrificação

Ribeiro (2014) destaca três características estéticas e funcionais predominantes nos processos de
gentrificação, a saber:

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a) Higienização social do espaço urbano (substituição de usuários e/ou moradores): Geralmente
são espaços importantes para a história socialmente compartilhada da cidade, podendo ser muitas
vezes sítios de alto valor patrimonial. Contudo, dada a deterioração de sua “vitalidade
“funcional”, apresenta perda de centralidade politica e simbólica e, quase via de regra, é ocupado
por residentes de baixa renda e em situação de alta vulnerabilidade social. Mediante diversos
mecanismos, dentre deles o rent gap (SMITH, 1996 apud RIBEIRO, 2014), resulta na migração
e/ou expulsão dos moradores e usuários costumeiros do sitio.

b) Espetacularização da arquitetura, da cultura e da história (monumentalidade e paisagens


cenográficas): as intervenções arquitetônicas e urbanísticas têm alto impacto visual através da
renovação pragmática da estética e funcionalidade do sítio. Portanto, reinterpretações da
histórica/cultura costumam também estar presente nas narrativas que acompanham as
justificativas dos processos de gentrification, para ajustar interesses econômicos às ações de
reordenação dos significados atribuídos aos lugares.

c) Forte inflexão à prática do consumo (perspectiva mercadológica): o tipo de intervenção


urbana expressa a visão paradigmática do chamado city marketing ou urbanismo empreendedor.
Inserida claramente numa perspectiva de negócios, os processos de gentrification transformam o
patrimônio histórico e os espaços urbanos em mercadoria e são forçosamente encaixados à lógica
do mercado, abrindo-se para ações da iniciativa privada.

Analisando estas características aqui apresentadas, depreende-se que o processo gentrificação


implica o reconhecimento de formas de interação baseadas no consumo e pressupõe uma
operacionalização das formas de preservação a partir das necessidades do mercado. Pelo
consumo, o espaço ganha a materialidade necessária para a cena cotidiana consagrada das
relações de poder mais contundentes da sociedade. Portanto, processos de gentrification
potencializam nos espaços urbanos as relações de poder existentes mediante a redução dos
chamados entraves que venham a promover tensões negativas ao processo. (RIBEIRO, 2014,
p.33)

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2.2. Relação entre a Gentrifição com o Capitalismo

Conforme nos refirimos atrás de que a gentrifição era marcada pela modificação das
características dos indivíduos de um dados espaços, que deixam de morar familias de baixa
renda. Geralmente, a valorização desses espaços é seguida por uma restauração dos imóveis,
decorrente da instalação de familias com maior poder de compra.

Assim, seria imprudente não reconhecer que a gentrifição, enquanto fenómeno urbano, tem uma
relação íntima com o capitalismo, pois as dinâmicas territoriais e populacionais narrados a partir
da década de 60 do século XX, têm relação íntima com as necessidades do capital nas mais
diversas regiões do mundo. E as cidades de hoje são um exemplo vivo dessa dinâmica
capitalista, estabelecida com maior destaque desde a revolução industrial.

Ribeiro (2018) analisa esta relação da gentrifição com o capitalismo, e faz-na com base na teoria
marxista em duas perspectiva: envolvendo os excedentes de capital, a nova divisão social do
trabalho entre as cidades e a urbanização, que se mostram como ponto central para a
compreensão da gentrificação.

O capitalismo fundamenta-se na eterna busca de mais-valia que, por sua


vez, para ser produzida depende da obtenção de excedentes de produção.
Estes excedentes, pela lógica da concorrência capitalista, tendem a se
expandir cada vez mais gerando, de tempos em tempos, a necessidade de
busca de esferas rentáveis para a absorção deste “excedente excessivo” de
capital. (RIBEIRO 2018)

Assim, o vínculo entre o capitalismo e a gentrificação é notória exactamente nas restaurações


criativas das cidades e no incremento de infraestruturas como fontes de absorção de excedente de
capital. É uma concentração do capital por meio do redesenvolvimento urbano.

Outra relação, de cunho menos economicista, que se estabelece entre capital e espaço urbano é a
nova divisão social do trabalho em que a reestruturação da hierarquia urbana promovida por esta
nova divisão social gerou a necessidade de uma reestruturação interna nas cidades, de modo a se
alocarem nesta nova hierarquia, sempre visando às melhores posições Este novo cenário não se
dá apenas no aspecto físico das cidades, mas também passa por uma reestruturação das classes
sociais, da produção e do consumo nos centros urbanos (RIBEIRO 2018), surgindo uma “nova

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classe social”, constituída por profissionais pertencentes a novos ramos profissionais ligados
diretamente às atividades altamente especializadas desenvolvidas nas cidades centrais. Estes
indivíduos tendem a preferir os centros para fixar sua moradia, pois estas regiões passam a
concentrar capitais simbólicos e intelectuais próprios, além das atividades profissionais deste
grupo. (LEY, 1986, p. 129)

2.3. Teorias sobre a gentrificação

Quando se pretende compreender o fenómeno da gentrificação, há duas teorias notáveis,


nomeadamente: a dos humanistas liberais, que destacam o papel da escolha individual, da
cultura e do consumo, e a dos marxistas estruturalistas, que destacam o papel do capital, das
classes sociais, da produção e da demanda (HAMNETT, 1991, p.175 apud RIBEIRO, 2018).

2.3.1. Teoria humanista liberal

Segundo Ley (1981, p. 127) citado por (Ribeiro, 2018), o estudo da gentrificação deve passar
pela compreensão de três aspectos fundamentais do contexto sócio-econômico no século XX:

(i) o declínio do uso maciço de mão de obra na produção industrial e o desenvolvimento e


importância da tecnologia;

(ii) o papel ativo dos governos característico das sociedades pós-industriais;

(iii) a emergência de uma nova classe social, como resultado das transformações sociais,
econômicas e da divisão social do trabalho, com gostos e padrões de consumo peculiares a serem
atendidos.

2.3.2. Teoria marxista estruturalista

Smith, em oposição à teoria de Ley, adopta como ponto de partida e de ênfase de sua teoria ao
movimento do capital no espaço urbano, mais especificamente no aspecto da produção de
moradia capitalista que, em sua visão, daria ensejo ao processo de gentrificação (RIBEIRO,
2018).

A partir da ênfase dada à produção, Smith desenvolve sua teoria de “rent-gap” como principal
fonte de explicação para o fenômeno da gentrificação.

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Esta teoria, em apertada síntese, consiste na explicação da gentrificação por uma dinâmica de
investimento e desinvestimento urbano relacionada à variação do preço da terra em diferentes
áreas da cidade.

Analisando as duas teorias, nota-se que há relação entre elas, na medida em que , ambas
consideram que a gentrificação envolve uma mudança na composição social do espaço e seus
moradores, assimo como uma mudança na natureza do imobiliário existente.

3. A Gentrificação no mundo

3.1. Gentrificação America-latina e no Brasil

De acordo com Ribeiro (2018) na América Latina os processos de gentrificação, via de regra,
apresentam relação direta com a exploração do patrimônio histórico das cidades em que se
instalam, sendo consequência, muitas vezes, de projetos de “revitalização” destas áreas.

Há três tendências principais assumidas pela gentrificação latinoamericana: (i) transformações


sociais na imagem urbana – com o objetivo de atrair investimentos e pessoas pertencentes a
grupos sociais com maior poderio econômico, os governos investem altas somas de dinheiro na
expulsão de comerciantes e moradores de baixa renda a fim de embelezar as áreas centrais da
cidade; (ii) intervenções no patrimônio histórico – projetos de recuperação ou resgate do
patrimônio histórico que, na verdade, encobrem e alimentam medidas de marketing urbano; e
(iii) intervenções privadas nos centros históricos – as intervenções governamentais nas regiões
históricas das cidades latino-americanas, bem como eventuais vantagens tributárias e
urbanísticas fornecidas pelos governos, incentivam a entrada do capital privado nestas regiões
por meio de investimentos em novas construções. (HARVEY, 2014 apud RIBEIRO, 2018)

Os processos de gentrificação no Brasil seguem as características latino-americanas acima


apresentadas, como o forte apelo ao patrimônio cultural das cidades, a dependência de
investimento (principalmente inicial) e de engajamento estatal, e o menor impacto dos processos
gentrificadores pelos factores.

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3.2. Gentrificação em Moçambique

Na perspectiva de Sambo (2016), a gentrificação no contexto de Maputo alinha-se à definição de


R. Glass (1964, apud Smith, 2002: 438), que refere a ocupação e transformação paulatina dos
bairros pobres de classes trabalhadoras por pessoas de classe média alta, que os transformam em
bairros e residências modernos e caros.

Essa gentrificação caracteriza-se principalmente pela emergência de novos e


modernos edifícios nas zonas centrais e adjacentes à cidade. Mesmo assim, a
cidade ainda mantém a sua estrutura dual, que data do período colonial. A
caracterização dual da capital reside no facto de no seu centro existirem edifícios
relativamente modernos com prédios altos e luxuosos, e à volta bairros e
subúrbios de construções precárias, com altos níveis de informalidade, falta ou
elevada ineficiência na provisão dos serviços básicos. (SAMBO, 2016)

O autor ainda acrescenta que esta dualidade permeia uma série de novas construções, dando
lugar a modernos edifícios nas regiões centrais da cidade e a uma gradual transformação de
alguns bairros outrora pobres, dos arredores, em novos e luxuosos bairros. A título de exemplo,
os bairros do Triunfo e Sommershield 2 ilustram essas transformações, que se designam
«gentrificação». (SAMBO, 2016)

4. Ressituando a gentrificação: a classe popular, a ciência e o Estado na pesquisa urbana


recente2

Loïc Wacquant3

4.1. Objecto de estudo

- A gentrificação na actualidade

4.2. Objectivo do texto

- Ressituar a gentrificação numa perspectiva mais ampla de análise.

2
De referir que este é o texto principal que é objecto de avaliação na cadeira de Sociologia Urbana.

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4.3. Argumento do autor

O autor do texto defende que há uma necessidade de ressituar a gentrificação numa perspectiva
mais ampla, revisando a análise de classe para capturar a (de)formação do proletariado pós-
industrial, resistindo às seduções das problemáticas pré-fabricadas das ações políticas e dando
destaque ao Estado como produtor da desigualdade socioespacial.

“temos de resgatarmos o termo daqueles que edulcoraram o que há nem tanto


tempo era ‘um mundo desinteressante, caso contrio corremos o risco de não
sermos suficientes para com os nossos objetivos tanto na frente científica como na
política.’” (SLATER, 2006, p. 737 apud WACQUANT)

4.4. Contextualição

O texto de Wacquant alarga o diagnóstico de Tom Slater4 sobre as causas da gentrificação da


pesquisa recente sobre gentrificação, no seu artigo cuja tradução do título é: A recuperação de
perspectivas críticas na pesquisa em gentrificação. Trata-se de é uma advertência oportuna para
os estudiosos de classe, espaço e ação política na cidade.

4.5. Linha de argumentação

O autor considera que as pesquisa recentes sobre a gentrificação têm uma lógica argumentativa
que fazem eco da retórica empresarial e governamental reinante (neoliberalismo), que encara o
processo de gentrificação como um paraíso social de diversidade, energia e oportunidade.

Portanto, o autor discute três questões da gentrificação, nomeadamente o silenciamento da classe


operária, a submissão da pesquisa urbana à agendas obscuras e o papel das instituições públicas.

4.5.1. O silenciamento da classe operária na esfera pública e na pesquisa urbana

4É Sou geógrafo urbano inlgês, cujos interesses são gentrificação e deslocamento, com foco nos fluxos de capital e aluguel /
apropriação de terras; desigualdade urbana e marginalidade em perspectiva comparativa, com foco particular na
estigmatização territorial; reforma da pobreza, classe social e bem-estar, etc.

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O autor apoiando-se em Slater relata que os deslocamentos sociais e espaciais causados pelo
melhoramento de bairros virtualmente desapareceram da pesquisa recente, e ele argumenta que

“a razão por que o deslocamento foi deslocado ‘é essencialmente metodológica’


(Slater, 2006, p. 748). Mas a ausência física daqueles desalojados do bairro não
chega a explicar por que os pesquisadores não alargam o escopo de sua
observação a fim de capturar sua peregrinação pelo espaço urbano, ou não
recorrem a metodologias diferentes para documentar a turbulência habitacional
que fermenta a base da estrutura urbana.

Enfim, quando os pesquisadores da gentrificação ignoram as tribulações de residentes de classe


operária deslocados por aluguéis cada vez mais caros, opções residenciais minguantes e políticas
de Estado que apoiam o desenvolvimento empresarial e o assentamento da classe média, eles
estão seguindo o modelo geral de cegueira de classe dos pesquisadores urbanos, exatamente
quando as desigualdades de classe se agudizam diante dos seus olhos.

4.5.2. A submissão da pesquisa urbana à agendas obscuras

A segunda questão que Wacquant problematiza é a dependência crescente que a pesquisa urbana
tem aos interesses , categorias e disposições dos fazedores de políticas e de opinião.

Segundo o autor, se há vinte anos, as investigações sobre classe e cultura na cidade eram
marcadas por batalhas das escolas teóricas que disputavam o domínio intelectual: ecologia
humana, marxismo, política econômica weberiana e uma corrente culturalista insurgente,
alimentada por teorias de identidade, feminismo e pós-modernismo (LOGAN, MOLOTCH,
1987; HAYDEN, 1986; WALTON, 1990). Hoje, num novo clima de desencanto político e de
retirada do Estado, frutos do colapso concorrente da União Soviética e pela hegemonia
ascendente do neoliberalismo, o radicalismo intelectual retrocedeu e depois se separou da
realidade.

Quando pesquisadores da gentrificação apresentam relatos cor-de-rosa sobre a “renovação” do


bairro como uma “solução urbana” para os males da decadência socioespacial, em fileira cerrada
com as opiniões das elites governantes e empresariais, eles estão em boa companhia.

Portanto, hoje em dia, a pesquisa urbana é orientada principalmente pelas prioridades dos
gestores do Estado e pelas preocupações da mídia dominante.

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4.5.3. Papel das instituições públicas: o Estado como dono de casa e agência de purificação
das ruas

Wacquant defende que é mais que tempo de os estudiosos da gentrificação reconhecerem que o
principal motor por trás da (re)alocação de pessoas, recursos e instituições na cidade é o Estado,
como mostrou Pierre Bourdieu (2005, p. 30-1), em As estruturas sociais da economia, que a
habitação é “o produto de uma dupla construção social, para a qual o Estado contribui
crucialmente”, modelando o universo de construtores e vendedores mediante políticas fiscais,
bancárias e regulatórias, no lado econômico, e moldando as disposições e capacidades dos
compradores de casa, no lado social. (WACQUANT)

O peso do Estado central e local é ainda mais decisivo nos bairros de classe mais baixa, na
medida em que os trabalhadores e os pobres são mais dependentes de provisão pública para ter
acesso à habitação alugada (Harloe, 1995); não só na construção e distribuição de habitações ou
na conformação do conjunto de compradores de casas: ele se estende à gama de políticas que
impactam a vida urbana, desde a manutenção de infraestrutura de escola e transporte até a
provisão de amenidades culturais e policiamento.

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5. Resumo

O objetivo principal deste trabalho foi resumir o texto Loïc Wacquant sobre a gentrificação, no
qaul o autor discute a questão da classe popular, a ciência e o estado na pesquisa urbana recente
no contexto da gentrificação.

Em linhas gerais, o autor refere que, para construir modelos melhores do nexo em transformação
entre classe e espaço na cidade, mais do que renovar o espírito crítico, nós precisamos ressituar a
gentrificação numa perspectiva analítica mais ampla e mais resoluta, isto é:

- restabelecer e revisar a análise de classe para capturar a (de)formação do proletariado pós-


industrial e inscrever a evolução das “áreas revitalizadas” no seio das estruturas totais do espaço
social e urbano e suas renovações;

- resistir melhor às seduções das problemáticas pré-fabricadas de agendas de planos de ação e de


pesquisa avançada, ostentando uma separação maior dos imperativos dos governantes das
cidades e trazendo conosco uma carga teórica mais elevada.

- dar lugar de destaque ao Estado como gerador de desigualdade socioespacial na metrópole


dual.

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6. Referência bibliográfica

Gonçalves, E. D. (2017). Paris sem o povo: a gentrificação da capital: resenha da obra de


CLERVAL, Anne, 2013.

Leite R. P. (2014). Espaço e poder: os procesos de Gentrification. In Carlos Fortuna (coord.)


Paisagens Socioculturais Contemporâneas. CES, Universidade de Coimbra, ISSN 2192-908X

LEY, D. (1981). Inner city revitalization in Canada: a Vancouver case study. Canadian
Geography, n. 25. Vancouver,

Sambo, M. G. (2016). O desafio da gentrificação na cidade de maputo reflexões sobre o


sistema habitacional, a política social de habitação e a exclusão social.

Ribeiro, T. F. (2018). Gentrificação: aspectos conceituais e práticos de sua verificação no


Brasil. Revista de Direito da Cidade, vol. 10, nº 3. ISSN 2317-7721 DOI:
10.12957/rdc.2018.3132

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