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Balanço da Economia Brasileira

1940 - 1980

Wilson do Nascimento Barbosa

2006

1
Índice

Prefácio página 3

Balanço do Período 1940 – 1964 página 5

Balanço do Período 1964 – 1980 página 99

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Prefácio

O presente conjunto apresenta dois artigos do Professor Wilson do Nascimento


Barbosa, que serviram de base ao texto da sua tese de doutorado em História Econômica
na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Lund, Suécia, no ano de 1982.

Trata-se de uma exposição analítica de tipo estrutural em que os elementos


abordados são supostos constituírem o fundamento de crises periódicas, capazes de
afetar o padrão do desempenho econômico em desenvolvimento. Partindo dos
agregados macroeconômicos, são constituídas diferentes hipóteses de interpretação, por
via da análise das relações dos estatísticos, dentro das regras da linearidade.

Os modelos utilizados de tipo aberto levam a hipóteses interpretativas que servem


de premissa para as construções seqüentes, permitindo demonstrar as vangtagens da
abordagem empírica, sem prejuízo da obediência dos pressupostos teóricos que ficam a
cada passo indicados.

Os textos tem servido durante muitos anos à discussão formativa na área de pós-
graduação de História Econômica do Departamento de História da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Sua utilidade tem sido
comprovada por gerações de pós-graduandos, uma vez que são pouco comuns os textos
que utilizam métodos quantitativos na História Econômica brasileira corrente. Seu
caráter pedagógico pode, portanto, suprir uma lacuna como fonte de discussão dos
temas abordados e da polêmica quantitativista, sem prejuízo de prós ou contras.

Por essa razão, é leitura recomendável para todos os estudantes de graduação e


pós-graduação nas áreas de História e Economia.

São Paulo, fevereiro de 2006.

Luiz Eduardo Simões de Souza

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Apresentação

A importância da leitura dos coeficientes estruturais quanto a interrelacionar


descrições lineares do desempenho na construção de hipóteses explicativas para a
análise macroeconômica é ressaltada nesse ensaio sobre a economia brasileira no
período recente (1940 – 1980).
O autor faz desfilar diferentes possibilidades da evolução da estrutura, indicando
a potencialidade das crises conjunturais, informada pelas relações empíricas. Estudo
polêmico e profundo, que se insere na vertente robsoniana (Joan Robinson) de critica às
saídas reais do sistema, no plano histórico–econômico.
Lund, primavera, 1984.
M. Jãrnek
PhD em Ciências Matemáticas

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Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de História

BALANÇO DO PERÍODO 1940 – 1964 NA ECONOMIA BRASILEIRA: UMA

VISÃO DE LONGO PRAZO

Orientador : Professor Lennart Jorberg


Instituto de História Econômica
Faculdade de Ciências Sociais
Universidade de Lund
Suécia
1982

Wilson do Nascimento Barbosa


(traduzido do Inglês pelo autor)

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1. Introdução
A partir de 1930, o processo de industrialização no Brasil acelerou-se de modo
notável. Em geral consideramos três aspectos como elementos importantes para tal: (a)
a crise de 1929-33, com seus efeitos sobre a renda agrícola e a conseqüente viragem dos
investimentos para o setor secundário; (b) a mudança do governo - por via de rápida
guerra civil -, a partir da quebra da hegemonia que o café concedia ao eixo São Paulo -
Minas Gerais; e (c) uma nova visão do poder nacional, influenciada pela ideologia
positivista, que propunha um dever social ao estado, à base de classes e o crescimento
"em bases científicas".
O efeito combinado destes e de outros elementos permitiu à industrialização
empreender-se por via de uma combinação de: (a) ganhos das exportações e das
importações; e (b) substituição das importações, de acordo com um sistema cambial de
tarifas múltiplas. Assim, a industrialização se caracterizou por lados ascendentes de
ciclos definidos: (1) o de 1933 - 1938; (2) o de 1945 - 1952, e (3) o de 1956 - 1962.
Estes ciclos foram interrompidos por depressões temporárias, cujos efeitos foram mais
ou menos extensos, em dependência da qualidade das políticas econômicas de ajuste
aplicadas.
(1) O Ciclo de 1933 - 1938 - O lado do ciclo ascendente de 1933-1938
caracterizou-se pela expansão do setor secundário à sombra de alguns condicionantes
altamente favoráveis; (a) a queda parcial da renda agrícola, reduzindo temporariamente
a capacidade de importação, permitiu uma certa extensão de industrialização
substitutiva; (b) como a queda foi parcial, a renda agrícola manteve estruturado o setor
de serviços, que pôde assim virar-se para o processo de industrialização e urbanização;
por outro lado, a manutenção dos preços agrícolas permitiu manter a demanda interna -
industrial e alimentar - e satisfazer a demanda externa, quando esta se recuperou, a
partir de 1933.
(2) O Ascendente do Ciclo de 1945 - 1952 - Os efeitos expansivos da Segunda
Guerra Mundial foram verificados no Brasil pelas políticas econômicas do plano de
Guerra, com um reequipamento parcial de portos e ferrovias, estradas, a abertura de
aeroportos e projetos para industrialização acelerada (hidrelétricas, pólos industriais,
etc). A formação da Cia. Siderúrgica Nacional e da Cia. Nacional de Álcalis estavam
dentro desta política de implementação da indústria pesada, e tais atividades seguiram
se expandindo, apesar da crise de 1947-49, que no Brasil atingiu mais o comércio e a

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indústria leve, em função da restrição creditícia. A forte expansão siderúrgica permitiu
lançar a Fábrica Nacional de Vagões (em 1953) e o início da produção doméstica de
caminhões e automóveis na FNM (antiga Alfa Romeo, no Brasil). Devido a crise de
1953 e a reviravolta política de 1954, com a morte de Vargas, os adversários da
industrialização induzida por via pública e acelerada tiveram a oportunidade de abrir os
mercados expansivos ao capital estrangeiro e - em certa medida - iniciar a inviabilização
do modelo substitutivo de importações.
(3) O Ascendente do Ciclo de 1956 - 1962. - Este ciclo foi caracterizado por
uma expansão conjunta das indústrias pesadas e leves, com a criação do ramo da
química pesada (Petrobrás), expansão da capacidade hidrelétrica (CHESF, Furnas, Três
Marias) e renovação da construção naval. Aumentou também a integração dos ramos
agropecuários e alimentares, podendo-se então se referir a "um complexo agro -
alimentar" como núcleo da expansão urbana e da elevação do padrão de vida dos
trabalhadores industriais. Iniciou-se a produção de equipamentos domésticos vitais,
como geladeiras (1953), fogões a querosene e a gás (1952), liquidificadores (1952),
eletrolas, etc; bens cujas ofertas atingiram aceleração notável no período 1956 - 1962.
Em virtude da política incompetente do governo Quadros, com a eliminação do sistema
de tarifas múltiplas e de proteção cambial a ramos da indústria doméstica, precipitou-se
a crise do modelo de substituição de importações, agravada pela crise política (queda de
Quadros, a ameaça de guerra civil, golpe do parlamentarismo, o retorno do
presidencialismo e golpe militar de 1964).
É possível, contudo, estudar-se o processo de industrialização como um
processo único, sob a égide da substituição de importações, no período 1933 - 1964,
particularmente no período 1951 - 1964.
O processo de industrialização no período 1951 - 1964 acompanhou-se de uma
série de mudanças estruturais. As indústrias manufatureiras, especialmente os ramos
pesados, expandiram-se a taxas mais elevadas que nas décadas precedentes. Quando
medido por preços reais de 1949, o PIB cresceu à taxa de 6% ao ano no período, apesar
de oscilações na produção agrícola. A alta taxa de investimento no período é notável
também pela expansão generalizada da procura na economia, uma vez que a expansão
dos ramos leves e pesados correu paralela, em busca de recursos relativamente escassos
como mão-de-obra especializada, capital e tecnologia, particularmente do exterior, os
dois últimos itens. Uma parte considerável dessa massa de investimentos era de origem
pública ou induzida por créditos ou despesas públicas. Os recursos foram produzidos

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pelos mecanismos da emissão monetária, a aceleração do crédito, isto combinado com a
expansão do poder de compra no exterior, que só veio a ser prejudicada pela estagnação
comercial regional de 1958-1962.

Índice de Mudanças Estruturais


Índice do Produto Real por Setores
1965=100 1947 1957 1967
Designação
Agricultura 43,3 67,1 102,3
Ind. Manufatureira 26 58,6 115
Comércio 41,2 69,3 112,4
Transportes e Comunicações 25,4 58,7 114,9
Serviços 34,6 67,5 111,9
Produto Total 34 64,3 110,9
Fonte: F.I.B.G.E.

2. A Década de 1930.

Os surtos industriais de 1894 – 1913 e de 1917 – 1924, apesar dos contratempos


enfrentados de diferentes naturezas, permitiram ao setor secundário expandir-se, sob o
eventual benefício de tarifas que, de fato, protegiam as indústrias manufatureiras. Em
virtude dos preços favoráveis do café após a Primeira Guerra Mundial, que se
estenderam até 1927, foi possível acumular no país reservas de bens produtivos, de
efeito geral, mas particularmente propícios ao desenvolvimento industrial. Tal era o
caso, por exemplo, das capacidades ociosas nos ramos de energia elétrica, têxteis e
transportes rodoviários.

Gráfico 1: Pendente do Setor Secundário

3
2,5
2
1,5
1
0,5
0
-0,5
-1
-1,5
1930 1935 1940 1945 1950 1955 1960

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A crise econômica de 1929 – 1933, caracterizada por uma redução da procura e
uma queda de preços, significou também falências, diminuição da produção e do
emprego em escala sem precedentes. Nesse sentido, os seus efeitos sobre a divisão
internacional do trabalho (D.I.T.) foram bem diferentes, por exemplo, da crise clássica
de 1920, que se caracterizou pelos fenômenos das economias envolvidas no conflito
precedente. No caso da crise de 1929, ela atingiu os países periféricos em pleno,
transferindo-lhes forças descendentes de grande pressão, contornadas apenas no caso de
alguns países, que tiveram êxito em produzir políticas anticíclicas específicas.
A observação indica o Brasil como um dos países periféricos, ligado
praticamente à monocultura de café, mas que logrou escapar rapidamente ao mecanismo
depressor da crise, por via de: (a) políticas de proteção do preço do café (via destruição
e financiamento dos estoques); (b) por extensão, política de proteção dos preços
agrícolas em geral (com forte benefício para o algodão e o cacau); (c) políticas de
sustentação da renda interna – que decorreu obviamente dos dois primeiros itens,
aproveitando-se o espaço deixado pela queda das importações para a prática da
industrialização substitutiva; (d) políticas antidepressivas de crédito e investimento nos
setores secundário e terciário.
No gráfico 1 pode-se observar a pendente do produto do setor secundário no
período 1930 – 1964. O efeito da “decolagem” (take-off) é visível, havendo, pois,
sustentação no crescimento industrial. O país, que em 1929 tinha 70% das suas receitas
de exportação geradas pelo café, teve que adaptar-se às novas condições criadas pela
crise, e a aceleração do processo industrial foi uma resposta adequada. Fatores fortuitos,
sem dúvida, também contribuíram para o desempenho adaptativo: (a) o Brasil tinha uma
larga experiência de urbanização; (b) a industrialização havia-se dado por via de surtos,
desde o período colonial; (c) o Estado tinha forte experiência industrial; (d) o
empresariado industrial havia se tornado uma força independente, por efeito dos surtos
de 1894 – 1913 e 1917 – 1924, e da “Revolução de Outubro de 1930”. Pela combinação
de todas estas pré-condições favoráveis é que pode-se explicar a definitiva viragem para
a industrialização, ocorrida no período 1933 – 1938, e sustentada depois, nas condições
da Segunda Guerra Mundial.
O gráfico 2 apresenta em escala comparável as pendentes do setor terciário e do
setor secundário, no período 1930 – 1950. Vê-se a reciprocidade do crescimento de
ambos setores, em nítida associação de suas taxas de desenvolvimento. Isso demonstra a
hipótese interpretativa assumida, qual seja, a da convertibilidade e compatibilidade do

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setor terciário para a expansão do setor secundário no período. Um importante fator
dessa reciprocidade expansiva é o fato de que ambas as estruturas, a primário-
exportadora e a industrial-manufatureira, se basearam na produção alimentar, e estavam
sediados na mesma região do país, o Sudeste. Portanto, a indução de uma
industrialização substitutiva das importações estava implícita na mudança da posição do
setor primário e, conseqüentemente, do setor terciário, como frisou Furtado. A
industrialização substitutiva nasceu, pois, da própria lógica do recuo nas atividades
primárias exportadoras e sustentou-se, de fato, enquanto estas atividades primárias
desempenharam o papel de carreamento de grandes excedentes de moeda forte desde o
exterior. Foi tal influxo, por via das exportações, que permitiu expandir as importações
no período, e baratear os custos relativos da indústria doméstica, tornando-a viável.
Daí que a industrialização substitutiva tenha-se caracterizado na década de 1930
pelo avanço dos ramos têxtil e alimentar. Este crescimento era de natural
complementaridade com as mudanças que estavam ocorrendo na agricultura e que
demonstraram a forte descapitalização que a mesma possuía, fora dos setores de
atividade exportadora.

Gráfico 2: Pendentes do Setor Terciário e Secundário: 1930 - 1950

150 60

50
125
40

100
30 Secundário

20 Terciário
75

10
50
0

25 -10

30 32 34 36 38 40 42 44 46 48 50
19 19 19 19 19 19 19 19 19 19 19

3. A Década de 1940
As taxas de crescimento do consumo pessoal e da população podem ser vistos
em sua variabilidade recíproca para o período 1930 – 1950, no gráfico 3. É possível se
observar uma depressão-de-consumo, a chamada “crise de crescimento de consumo”, no
período até 1932, seguramente relacionada com a queda da renda referente à crise de
1929 – 1933.

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O consumo, no entanto, segue-se expandindo favoravelmente (por cima da taxa
de crescimento da população) até 1937, quando inicia-se outro período de instabilidade
até 1940. Seria de esperar-se, após 1932, o advento de uma “crise econômica”, que
geralmente sucede a uma estagnação do consumo, mas tal certamente foi evitado pelo
pacote de políticas anticíclicas aplicado pelo governo brasileiro, na proteção do café, da
renda interna, e, conseqüentemente, pelo efeito resultante da industrialização
substitutiva. A expansão do consumo mantém-se até 1947 em situação depressiva
relativa ao crescimento populacional, o que sem dúvida se explica pelo esgotamento da
capacidade ociosa na indústria em 1941 e a ausência de equipamentos para a expansão
secundária, durante a Segunda Guerra Mundial.
A partir de 1949, os efeitos da crise de adaptação das economias das metrópoles
(1947 – 1949) deixa de se verificar, iniciando-se a expansão do consumo motivada com
os fatores do conflito coreano e seu mercado.
Tem-se assim dois movimentos básicos da industrialização na década de 1940:
(a) um movimento associado com a Segunda Guerra Mundial; (b) outro movimento
associado com a crise de 1947 – 1949.
(a) Efeitos da Segunda Guerra Mundial – A industrialização que havia sido
retomada a partir de 1933, sofreu os efeitos da depressão norte-americana de 1938, que
afetou a demanda comercial pelos produtos agrícolas brasileiros de exportação. A
flutuação de 1938 – 1940 foi, contudo, contra-trabalhada pela Segunda Guerra Mundial,
e sua demanda por matérias-primas, couros e, até mesmo, produtos industrializados,
como os têxteis brasileiros. A exportação atingiu, neste período, consideráveis níveis,

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gerando forte movimento inflacionário pelo excedente do comércio exterior, uma vez
que o conflito deprimiu as ofertas importáveis no exterior e reduziu as fontes externas
de oferta.
As demandas criadas pelo governo - através de seu plano de preparação bélica -
permitiram canalizar os recursos disponíveis, por via de mecanismos compulsórios
(imposto de renda, obrigações de guerra, etc). O "plano especial de obras públicas e
aparelhamento da defesa nacional" teve por efeito iniciar a penetração do interior com
rodovias, em aparelhar portos e criar aeroportos, obras decisivas para a expansão
posterior da industrialização e da urbanização. Na verdade, este plano inseria-se nas
medidas de guerra dos EUA para barrar a expansão nazi-fascista na África e no
Mediterrâneo.
A expansão realizada, portanto, durante o período da Segunda Guerra Mundial,
tinha um caráter de tensionamento máximo dos recursos, com exportações maciças dos
itens produzidos no país, e uso até o limite da capacidade de produção industrial. O
resultado foi um saldo superior a 800 milhões de dólares norte-americanos no fim do
conflito e uma acrescentada experiência de industrialização substitutiva, em que
ressaltam a Companhia Siderúrgica Nacional e a Companhia de Álcalis.
(b) Expansão no Após Guerra - Evidentemente a expansão com base no uso
intensivo de equipamentos (era comum dois turnos de trabalho) formou uma mão-de-
obra numerosa no setor urbano e estimulou a migração das áreas rurais para as cidades,
em busca de empregos e rendimentos mais elevados. Por outro lado, o Plano Marshall
no exterior e a demanda por equipamentos nas metrópoles para se ressarcir das
destruições de guerra, elevou o preço dos bens industrializados. Isso não deixava outro
caminho para as autoridades públicas locais senão estabelecer um sistema de tarifas
múltiplas, e acelerar a industrialização substitutiva. Esta política não foi aplicada sem
conflitos e indecisões, do que resultou efeitos mais desastrosos do que seria de esperar,
seja da parte da crise de 1947-49, seja na crise posterior de 1953-54. No entanto, os
ganhos das exportações durante o conflito coreano, particularmente no ano de pico de
1952, permitiram atravessar estas oscilações, particularmente com ganhos para o setor
industrial em formação.
A depressão do consumo vista assim no período 1938-1947 (vide gráfico 3),
tem sua explicação na base insuficiente do setor secundário, e nos cortes de oferta desde
exterior, propiciadas pelo conflito mundial e suas conseqüências.

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O gráfico 4 expõe as pendentes dos produtos do setor primário e do setor
secundário em cruzeiros constantes de 1949, para o período 1930 - 1950. É visível o
tanto o crescimento sustentado do setor secundário durante todo o período, como sua
diferença de perfil com relação ao produto primário, em face da queda deste,
representada na crise norte-americana, a partir de 1938. O setor primário retoma sua
ascensão, porém num patamar inferior e com a pendente mais suave, refletindo as novas
forças em operação no comércio internacional, a partir da década de 1940 e seu conflito
mundial.

Gráfico 4 - Pendentes do Setor Primário e do Setor Secundário: 1930 - 1950

70 90
85
80
60
75
70
50 65
60
55
40 50
Pendente do Setor Secundário
45
40 Pendente do Setor Primário
30
35
30
20 25
20
15
10
10
5
0 0

30 32 34 36 38 40 42 44 46 48 50
19 19 19 19 19 19 19 19 19 19 19

4. O Período 1951 – 1964.


Como frisado, a economia neste período obteve uma taxa elevada de
crescimento, conquanto a mesma se fizesse acompanhar de eventuais flutuações. Estas
viram-se causadas tanto por situações internas como externas, exemplarmente nas
flutuações externas de preços dos bens brasileiros exportáveis e desequilíbrios
estruturais domésticos.
Os principais fatores para o alto crescimento obtido no período foram: (1) preços
favoráveis do café na década de 40 até 1953; (2) a política ativa de investimento nas
indústrias manufatureiras e a expansão de recursos de infraestrutura; (3) a relativa
abundância de emprego; (4) a relativamente alta taxa de poupança, desde que incluído o
investimento público direto e indireto e os mecanismos correlatos de poupança

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compulsória; (5) o equilíbrio na remuneração dos fatores produtivos, estimulando a
expansão física da produção; este mecanismo funcionou plenamente até 1958, apesar da
aceleração das taxas de inflação; (6) a progressiva ocupação dos numerosos mercados
primitivos existentes na economia.
(1) Preços favoráveis do café – Os efeitos antidepressivos da Segunda Guerra
Mundial e da Guerra da Coréia sobre os produtos tropicais em geral já foram
observados em diferentes estudos. Trata-se aqui de chamar à lembrança o efeito duplo
sobre os preços de (a) uma crescente demanda de guerra (1940 – 1945 e 1950 – 1953), e
(b) uma forte redução dos estoques e áreas plantadas com o café no Brasil.
Seguidamente, a melhoria do preço do produto levou à reversão das expectativas, e os
plantadores voltaram a incluir o aumento do número de pés de café – em ritmos
excessivos – na sua política de expansão agrícola. Uma vez que o governo brasileiro
sempre utilizou uma política de proteção aos preços e não de expansão de mercados, o
café brasileiro sofreu uma crescente concorrência de outros produtores tropicais
(Colômbia, Panamá, Equador, na América Latina) agravada pelos resultados práticos da
Convenção de Lomé.
(2) Investimentos em indústrias – Uma vez que o governo federal foi
praticamente obrigado a arcar sozinho com a expansão siderúrgica (C. S. N.) e dos
alcalinos (C. N. A.), verificaram as autoridades públicas as altas rentabilidades destes
investimentos que de forma alguma inviabilizavam novas arremetidas do investimento
público, para eliminar pontos de estrangulamento da capacidade produtiva. A planta
siderúrgica de Volta Redonda esgotou sua capacidade de 1957/8, iniciando-se
imediatamente as fases de expansão da mesma, já previstas desde a instalação. A
indústria química, iniciada durante a Segunda Guerra, recebia um impulso decisivo com
a Petrobrás: sob direção própria, a indústria petrolífera produziu em três anos tanto
como nos quinze anos anteriores do Conselho Nacional do Petróleo. A F.N.V. –
produtora de vagões e peças para a atividade ferroviária, expandiu-se rapidamente, para
ser bloqueada mais tarde, já no quadro das políticas pós-64. A F.N.M. – primeira
produtora nacional de caminhões (1944) e automóveis (1953), avançou seguidamente
no período, para ser desativada mais tarde, com base em critérios políticos. Ao mesmo
tempo em que se concluía a C.H.E.S.F. (1962), levava-se a cabo as importantes
expansões energéticas de Furnas e Três Marias (1958 – 1963), permitindo a Minas
Gerais romper o círculo vicioso da insuficiente oferta elétrica, no período.

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Por outro lado, a política de sustentação dos preços agrícolas, nas condições de
terra abundante e a preços reais negativos (na maioria das unidades da federação)
permitiam a expansão horizontal do sistema, através da reprodução simples do sistema
agrário. Com o êxodo rural, tal teve o efeito de acelerar o mecanismo de acumulações
também fora do setor agro-exportador, pois a redução da mão-de-obra exigiu mudança
tecnológica. Com a construção de Brasília no Brasil central e os 11.000 km de rodovias
conectadas com a criação da nova capital, enormes áreas da floresta e do cerrado
tornaram-se disponíveis para a ocupação acumuladora, o que veio a se refletir na
produção de arroz, feijão, carne de gado, madeiras e carvão, na década subseqüente
(1960 em diante). Grande parte desta expansão produtiva foi responsável pelo “milagre
brasileiro” dos anos setenta.
(3) Abundância relativa da mão-de-obra – A elevada oferta de mão-de-obra
característica da sociedade brasileira foi tornada mais disponível, nas condições da
industrialização do período 1930 – 1964, por uma série de elementos: (i) melhorias
infraestruturais; (ii) monetarização da economia; (iii) crescimento do emprego urbano;
(iv) aumento das disparidades regionais; (v) formação de nova dualidade pela
industrialização.
As melhorias infraestruturais foram caracterizadas por: (a) melhores estradas,
barcos e veículos; (b) melhores facilidades para o deslocamento humano, como
albergues, hotéis, pensões, etc; (c) redes de vendas de passagens e melhores
comunicações. Estes condicionamentos tornaram mais fáceis as migrações internas
intrarregionais no país e a entrada de imigrantes, em grande número, desde o exterior.
Por outro lado, tais expansões se refletiram no aumento populacional e no aumento
correlato da força-de-trabalho (população economicamente ativa).
A monetarização da economia avançou muito no período da Primeira República,
1889 – 1930, mas de modo algum atingiu os níveis posteriores a 1930. A facilidade do
crédito público para atividades urbanas e a circulação maciça de papel-moeda tornaram
a grande massa das atividades de trabalho assalariadas. Isso veio a favorecer o processo
de acumulação, por via da industrialização.
A monetarização refletiu-se também, via crédito, na expansão numérica das
empresas urbanas e no caráter capitalista de tais empreendimentos. A pequena
propriedade pode, assim, assumir – no quadro urbano – uma função acumuladora. Ela se
expandiu particularmente nos ramos de confecções, distribuição de tabaco, alimentos e
bebidas, papelarias, escolas, transportes urbanos, etc. É evidente que o emprego urbano

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cresceu de modo sustentado, por efeito da industrialização, e da economia de serviços
correlata a ela.
Outro aspecto importante foi o aumento das disparidades regionais, causado
pelas industrializações de 1894 – 1913; 1917 – 1924 e 1933 – 1964. Em virtude do
caráter rápido destas transformações, e de sua centragem nas áreas mais importantes em
recursos naturais, as disparidades já existentes se ampliaram. Tornaram-se regiões
periféricas ao desenvolvimento do Sudeste, estimuladas tais situações pelo surgimento
do mercado nacional e o desaparecimento dos mercados locais produtores.
A expansão industrial contribuiu, por fim, para a formação de nova dualidade,
pelo aumento dos diferenciais de salário, de rendimento entre as empresas de um
mesmo ramo e inter-ramos. Os dados estatísticos disponíveis indicam as diferenciações
dentro da força-de-trabalho, resultante do impacto das relações capitalistas em
expansão. A eliminação de determinados mercados primitivos preparou a formação de
outros, com gradual avanço das formas oligopolistas no mercado, ao bafejo das políticas
oficiais.
Tal contraposição entre os empresários individuais e os grupos capacitados à
produção em larga escala verificou-se primeiro, no fim do período, pelas facilidades
operativas estendidas aos grandes grupos, no que se refere à renovação das instalações e
associações institucionais no mercado. Posteriormente, os diferenciais de salários e
vencimentos refletiam as diferentes produtividades entre as grandes e as pequenas
empresas em cada ramo, o que a largo prazo contribuiu para a heterogeneidade da força-
de-trabalho urbana. Sem dúvida, esta situação preparou as medidas de deterioração do
salário real, perda das garantias para o trabalho em geral e mobilidade maximizada
horizontal da mão-de-obra, características das políticas pós-64.
(4) Poupança Elevada e Investimento Público – Costumeiramente atribui-se aos
países menos desenvolvidos dificuldades no nível da poupança e da captação da
poupança para convertê-la em investimentos. No caso brasileiro, a segunda condição é
verdadeira, mas verificou-se no período um nível satisfatório de retenção de recursos
líquidos nos bancos e nas caixas, considerando o nível da oferta monetária.
Evidentemente, o nível da poupança dos trabalhadores é insignificante, mas tal revela
apenas o nível ainda baixo de rendimento dos mesmos. O governo tradicionalmente
antecipou-se ao nível de poupança, pela criação dos recursos de investimento
necessários aos grandes empreendimentos, particularmente através dos mecanismos de
poupança compulsória. É claro que tal implicou uma sobrecarga fiscal invisível sobre o

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conjunto da população – particularmente os de menor renda – que por via da inflação
terminaram por financiar as atividades expansivas preferenciais das elites. Nas
condições, contudo, de fortes políticas públicas, o efeito redistributivo dos
investimentos públicos terminou por conceder um efeito multiplicador a fatores básicos
de aprimoramento da força-de-trabalho (moradia, saneamento básico, saúde e
educação). A eliminação dos gargalos da produção pelo investimento público também
contribuiu, no período, para a expansão do emprego urbano.
A oferta de poupança doméstica não pode, portanto, para o período, ser
considerada fora das antecipações em investimento do governo, que na prática
funcionavam como um fluxo de capital monetário dela derivada; uma vez que a política
pública buscava maximizar os efeitos de tais aplicações, os efeitos alocativos
contribuíam para elevar o nível de poupança doméstica. Um exemplo talvez torne a
questão mais compreensível. Por exemplo, a necessidade de garantia dos setores
possuidores contra os efeitos redistributivos da renda, associados com as mudanças
estruturais, estimulou no pós-guerra a “corrida imobiliária” nas grandes cidades,
particularmente litorâneas.
O governo, ao liberar recursos para as rede sindicais construírem blocos
residenciais para trabalhadores, estimulava a poupança de outros trabalhadores, que se
orientavam para construções residenciais em áreas adjacentes aos blocos referidos. Em
inúmeras atividades pode-se observar esta política indutora de poupança e até
canalizadora de poupança: a construção residencial, a equipagem da unidade doméstica,
a escolarização das crianças, a compra do carro próprio, etc, refletem estas políticas de
ocupação de mercados primitivos e de modernização da sociedade e da economia. O
desenvolvimento das cooperativas de produção e de mercadização, particularmente em
São Paulo, também revelou aspecto interessante da indução de poupança no período.
(5) Equilíbrio na Remuneração dos Fatores - Apesar do desenvolvimento dos
diferenciais de salários, vencimentos e ganhos mercadológicos no período, dentro de
cada ramo e em todos os ramos das indústrias manufatureiras, houve uma tendência
para certo equilíbrio na remuneração dos fatores, com repasses de produtividade
acrescidas de produtos adicionais, por via da redistribuição de ganhos reais. Pode-se
observar que o pico do poder-de-compra do salário mínimo foi atingido em 1958, não
sendo o mesmo jamais alcançado no período histórico subseqüente.
De fato, o exame dos salários pagos na indústria revela que à época a mão-de-
obra era visualizada como um setor participante na industrialização substitutiva, sendo

17
remunerada, portanto, como compradora potencial no setor para o qual trabalhava. Essa
ótica integradora desapareceu depois, nas políticas pós-64.
Salta, pois, à vista que - nas condições do pequeno mercado doméstico - esta
inclusão da massa trabalhadora no poder-de-compra disponível estimulava a expansão
física da produção, particularmente nos ramos da indústria leve, como tecidos,
confecções, alimentação, fármacos, etc. Mas havia também uma demanda adicional por
material de construção civil, lotes de terreno, água, esgoto, saneamento, estradas, meios
de transporte, etc, que estimulava a demanda em geral.
(6) Ocupação de Mercados Primitivos - No processo de formação do mercado
doméstico, o avanço da industrialização do tipo substitutivo havia-se feito lentamente,
desde o período imperial, através de surtos, sob a proteção de esquemas de tarifas sobre
as importações, deliberada ou ocasionalmente. O nível de consumo no país era, pois, em
termos de comparação com os países mais desenvolvidos, extremamente baixo, sendo
paradoxalmente assim pressionador do nível da renda líquida local. Isso é a própria
descrição do subdesenvolvimento, dos padrões de consumo em mudanças, e da
incapacidade do sistema produtivo local para acompanhá-los ou antecipá-los. Atingindo
setores das próprias classes dominantes nas áreas rurais, e abaixo da fronteira social
pequeno-burguesa na área urbana, encontrava-se, pois, a fronteira dos mercados
primitivos, onde a totalidade das trocas dispensava relações monetárias. Isso implica
dizer que o trabalho nas unidades familiares, nas propriedades familiares, na chácaras e
fazendas agrícolas e no setor de subsistência, no setor de serviços, etc, era fracamente
ou de nenhum modo monetarizado. As empregadas domésticas, por exemplo, eram no
Rio de Janeiro, em 1952, remuneradas em trabalho especializado como a função de
cozinheira, com salário médio de 150 cruzeiros mensais, 12,5% do salário mínimo (Cr$
1.200,00). Para compensar o baixíssimo nível de remuneração, as "patroas" concediam-
lhes periodicamente roupas e sapatos velhos, excedentes de alimentos, etc.
A indústria leve substitutiva permitia, assim, pela sua expansão, e reforçando
mesmo a estrutura dual dos mercados, suprir milhões de indivíduos com produtos
industrializados - mercadorias - penetrando ao mesmo tempo estes mercados com a
necessidade da relação monetária e o assalariamento.
O avanço dessas pequenas economias era também um avanço da divisão social
do trabalho, tornando a sociedade mais dinâmica, mais flexível e, portanto,
incrementando a mobilidade social.
4.1. Orçamento Público e Endividamento

18
Com vistas a assegurar uma taxa média de investimento que excedesse a 15% do
PIB, anualmente, o governo fez um uso amplo do financiamento inflacionário e de
orçamentos desequilibrados, em especial a partir de 1956. Pode-se assim considerar-se o
orçamento público no período como instrumento das políticas públicas para o
crescimento.
A escala de financiamento governamental das taxas de investimento aumentou
muito em vários países do mundo durante as décadas de 50 e 60. Isso decorreu da (a)
necessidade de crescimento mais rápido; (b) da necessidade de imitação do Plano
Marshall para introduzir novos padrões de consumo; e (c) da difusão das técnicas de
planejamento e indução econômicas, a partir do Keynesianismo, da experiência
soviética e do conhecimento acumulado nas Nações Unidas, desde as comissões
econômicas da época das Ligas das Nações. Vê-se que essa tendência era também
visível no Brasil. O papel e a função do Estado no Brasil mudou consideravelmente
durante os anos 50, uma vez que o governo ampliou muito o setor das empresas estatais,
em sua maioria pioneiras ou modelares nos respectivos ramos: empresas hidrelétricas e
de distribuição, construção e pavimentação rodoviárias, produção de ferro e aço, um
banco de investimentos, etc. O financiamento público incluía a técnica de contas
especiais e programas, cobrindo itens desde o pagamento dos serviços básicos
consumidos, itens de defesa e segurança, despesas diversas e investimentos públicos.
Não obstante a inclusão das despesas de investimento no orçamento, observa-se a
criação de um grupo especial de contas de institutos particulares no Banco do Brasil e
no Tesouro, cuja finalidade era expandir a capacidade doméstica de investimento.
Enquanto que a taxa da carga de impostos sobre o rendimento doméstico não
era muito alta, quando comparada com outros países no período, ela deve ser
considerada maior que a formalmente computável devido ao uso de: (a) financiamento
inflacionário, em especial a partir de 1954-1956, para cobrir déficits primeiro e, depois,
expansão de crédito. E (b), devido ao conflito cambial dos ganhos da exportação. Uma
vez que os dispêndios públicos com prestadores de serviços individuais era
relativamente baixo no período, ao lado de posição similar para os programas de bem-
estar social, o nível da carga fiscal pode ser interpretado como alto para as populações
ligadas à economia agro-exportadora, e um pouco mais leve, para o baixo nível ainda
característico da renda disponível no país. Como traço característico de um país com
baixo nível de rendimento, a estrutura das receitas públicas persistia inadequada como

19
fonte de fundos para investimento e descansava mais pesadamente sobre os impostos
indiretos e mecanismos compulsórios.

4.2. Endividamento Público


Dois aspectos parecem estar relacionados à crescente dívida pública, quando
encaramos do ponto de vista impositivo e financeiro: (a) as mudanças ocorridas na
estrutura das poupanças e dos investimentos, tais como influenciadas pelo processo de
industrialização; (b) a fraca estrutura das receitas públicas, que não foi tomada para
acompanhar a expansão de renda pelo processo de industrialização. A Tabela 1, com
fonte no Banco do Brasil, permite entender a fraqueza das receitas públicas. Ressalta daí
a posição dos impostos indiretos, com uma média de 59,5% (no período de três anos).
Trata-se de fenômeno característico da economia de baixa renda subdesenvolvida
(LDC). Neste caso, as receitas dos impostos indiretos - excluída a taxa de inflação -
mostrou uma taxa decrescente com relação à do PIB. Tal contradiz a política com gastos
crescentes de investimento do poder público, para sustentar as políticas gerais de
crescimento. Como resultado, as autoridades governamentais que operaram por via do
(a) confisco cambial; (b) emissão monetária; e (c) empréstimos no exterior, cujas
possíveis combinações tem efeitos perfeitamente esperáveis.
Tabela 1
Rendimento Federal (1954 – 1956) (Cr$ 1.000.000)
1954 1955 1956
Especificação Valor % sobre oValor % sobre oValor % sobre o
total total total
Imposto de renda 15.340 41.4 19.259 39.9 24.514 40.2
Imposto de consumo 14.528 39.3 17.429 36.0 22.988 37.7
Imposto do selo 4.840 13.1 6.445 13.3 8.187 13.4
Imposto de importações 2.281 6.2 2.249 4.6 1.979 3.3
Impostos sobre fundos
transferidos para o exterior ** ** 1.684 3.5 1.601 2.6
Imposto de energia elétrica ** ** 843 1.7 1.065 1.7
Outros 8 0 459 1.0 695 1.1
Total 37.011 100.0 48.368 100.0 61.034 100.0
** - faltante
Fonte: Banco do Brasil

Sabe-se que a parte mais considerável das despesas do governo não podia
produzir um fluxo imediato de receitas diretas, pois estava comprometida em objetivos
de expansão do longo prazo. A exceção era o rendimento - não muito grande - das
empresas estatais; não muito grande devido ao repasse dos ganhos para os consumidores
de seus produtos. Como se vê, os procedimentos correntes para amealhar recursos que

20
financiassem as contas públicas não eram do tipo que levantassem recursos efetivos.
Daí o papel da emissão de moeda, balanços equilibrados fictivamente, etc.
Sendo baixo o nível de renda do país, era igualmente baixa a massa de renda
auferida por lucro das empresas, embora sua taxa de lucro fosse alta. Portanto, a riqueza
oriunda da propriedade tornava-se considerável apenas quando entesourada,
transformada em patrimônio fixo ou colocada no exterior à disposição de "turn over"
mais intenso de capital. Tudo isso caracterizava o baixo nível do desenvolvimento
econômico, apesar das décadas desde o período da "descolagem". Uma vez que o
rendimento pessoal real era relativamente baixo, e a demanda por bens de consumo
crescia, os indivíduos não eram tolerantes com relação à elevação de impostos,
particularmente no item dos impostos diretos. Uma vez também que os pobres pagavam
a fatia maior, os limites para o governo aumentar os impostos eram visíveis. Se o
rendimento pessoal de poupadores potenciais é tão baixo que depende do volume de
impostos que "podem ser evitados", neste caso o governo tem que intervir na prática na
estrutura da poupança, e através de um mecanismo adequado criar algum tipo de
poupança forçada. Assim, quando o governo gastava mais do que recebia, ele estava
"despoupando". Esta "despoupança" tal como produzida pelo estado era de fato uma
poupança forçada em algum lugar da economia, pelo mecanismo compulsório de
transferência de rendimento. Evidenciava-se pela alteração dos preços do mercado,
dissimulava-se como inflação, pois o resultado em que a inflação é expressa é de
políticas grupais, ao nível do poder, realocativas das relações entre preço e produto.
Um mecanismo para operar despoupanças permanentemente da parte das
autoridades públicas tem uma contrapartida ao nível do comportamento dos produtores
de bens, que no momento seguinte buscam se ressarcir das perdas efetivas ou dos
ganhos previstos e não-realizados. Tal indica uma tendência estrutural da economia para
um nível baixo de poupança. Sob condições normais, o pagamento de impostos sobre
ganhos e rendimentos conduziria a investimentos em consumo adicionais e por esta via,
numa certa extensão, uma nova porção de rendimento seria adicionada à renda
disponível em operação na economia. Se a propensão a consumir cresce mais rápido que
os acréscimos da renda, alguém na economia deve "despoupar" para restabelecer o
equilíbrio. O mesmo tipo de observação é também válido no caso de investimentos em
excesso na economia. Quando despoupando, o governo deve - em termos teóricos -
tomar emprestado da sociedade ou do exterior um montante em proporção ao consumo
em excesso ou ao investimento em excesso ou, se for o caso, ao excesso de ambos.

21
Numa situação em que tinham-se acréscimos nas importações e flutuações nos ganhos
das exportações, as despoupanças públicas demandavam influxos de capital, e
conseqüentemente contribuíam para deteriorações no balanço de pagamentos.
De fato, a deterioração do balanço de pagamentos pode-se observar
especialmente a partir de 1957; uma deterioração que se fazia acompanhar de aumento
das transações de capital na conta de capitais. Tal era uma tendência normal, desde que
o país agora entrava num estágio mais complexo de industrialização, e tal implica
procurar mais mercadorias e serviços no exterior.
Enquanto melhorava a liberalização de capitais, a queda coetânea dos preços dos
bens exportáveis agrícolas brasileiros contribuía para reduzir o efeito do esforço
doméstico para expandir o poder de compra no exterior. A decrescente expansão do
poder de compra brasileiro no exterior submetia-se - particularmente após 1956 - a
fortes pressões, devido à opção de Kubitschek para uma aceleração nas taxas de
crescimento. Uma vez que as taxas de expansão da economia eram altas, uma proporção
cada vez maior de investimentos entrava a exigir um período de carência para
maturação também maior, isso significava reduzir os níveis de liquidez efetiva da
economia. Por uma multiplicidade de razões, a economia brasileira entrava em um
período em que devia pagar mais em serviços de capital do que afetava em efeito
expansivo o capital fresco entrado na economia, pelo lado do valor, conduzindo-se,
assim, as contas com o exterior a um gargalo. Pode-se portanto inferir que a um certo
ponto da evolução da conta de capitais, os defluxos prevaleceram de modo sustentado
sobre os influxos, revelando-se, por tal, uma crise da economia doméstica na
capacidade de pagamento no exterior, a qual vinha por fim se manifestar como custos
excessivos do capital.
Assim, deve ser reconhecido que a má posição adquirida no balanço de
pagamentos, que se expressava como endividamento crescente no exterior (e no
interior), não era uma criação particular das políticas de Estado, mas agrava-se por elas,
e, correspondia, nesse período, ao estágio alcançado no crescimento econômico. Os
efeitos de associação entre os movimentos desfavoráveis do comércio exterior e o
crescimento mais rápido adotado para a economia, contribuíam para amplificar os
desequilíbrios estruturais. A crescente dívida externa correspondia também a uma
crescente dívida interna, tanto pública quanto privada. Revela-se, pois, a dificuldade
para transformar a poupança interna em investimentos produtivos. As variações das
dívidas públicas eram produzidas ao nível geral do estado, isto é, federal, estadual e

22
municipal. Tal reflete, portanto, uma estrutura inadequada dos investimentos, uma
estrutura inapropriada do sistema fiscal e a compulsoridade externa alcançada já à época
pelo investimento público. As receitas federais na Tabela 1 podem ser comparadas com
as despesas federais na Tabela 2, como um exemplo ao nível federal, do estado parcial
da “Conta Geral”.
Qualquer que seja a interpretação que se faça do estado orçamentário público,
não se pode ignorar a responsabilidade final dos governos perante o Estado de
assumirem o equilíbrio formal das contas públicas. Embora aqui e ali governantes ou
políticos apontem a irresponsabilidade alheia de gestão como a causa dos desequilíbrios
financeiros, é evidente o caráter estrutural do desequilíbrio interno x externo. O fato
periódico, até cíclico, da queda do poder de compra no exterior, da determinação dos
termos-de-troca, etc., conduz aos desequilíbrios cambiais, com o desaparecimento da
receita dos ágios, a sustentação da elevação do nível geral dos preços, a desvalorização
da moeda local, etc. Isso não pode ser explicado em termos de gestão pessoal ou de
grupo, porque ocorre com todas as correntes de opinião, quaisquer que sejam suas
pessoas e grupos. Negar o caráter objetivo dos movimentos econômicos estruturais é,
sem dúvida, a maneira mais drástica de empobrecer a análise econômica.
No mesmo período, as despesas ao nível federal foram como se segue, para os
anos referidos na Tabela 2.
Tabela 2
Despesas Federais (1954 – 1956) (Cr$ 1.000.000)
1954 1955 1956
Valor % sobreValor % sobreValor %
Especificação
o total o total sobre
o total
Ministério de Segurança Nacional
Força Aérea 3303 7 4515 7 5697 5
Exército 5846 12 8300 13 13711 13
Marinha 3885 8 5038 8 6566 6
Total 13034 27 17843 28 25947 6
Ministérios Econômicos
Agricultura 2356 5 3159 5 3263 3
Trabalho, Indústria e Comércio. 1199 2 1492 2 2224 2
Viação e Obras Públicas 13525 21 14092 22 13838 13
Total 14080 28 18743 29 19325 18
Ministérios Sociais e Culturais
Educação 3057 6 3600 6 4080 4
Saúde 2237 5 2603 4 2976 3

23
Total 5294 11 6203 10 7056 7
Ministérios Administrativos
Gabinete da Presidência, Legislativo,
Judiciário, e Outros Organismos Federais. 4185 8 3025 5 7233 7
Outros
Tesouro 10210 21 14369 23 43846 41
Interior e Negócios Estrangeiros 2447 5 3104 5 3594 3
Total 12657 26 17473 28 47440 44
Total Geral 49250 100 63287 100 107028 100
Fonte: Banco do Brasil

Pode-se observar, por exemplo, quando se examina as despesas do governo, que


em 1954 o item “Viação e Obras Públicas” constituía 21% das receitas recolhidas.
Nestas circunstâncias – em que desequilíbrios comerciais externos geravam emissão
monetária – evidencia-se emissão monetária também para o financiamento das despesas
correntes do governo. Daí a necessidade de compreender o interesse menor do controle
efetivo da taxa de juros, posto que a oferta monetária se fazia independente das
mudanças nas taxas de descontos. As autoridades do governo federal estimulavam a
expansão do mercado através de uma (oferta e) demanda pública sustentada, seja ao
nível das obras de infra-estruturais, seja ao nível da expansão da indústria pesada e dos
serviços industriais. Isso implica que o efeito inflacionário dos desequilíbrios no
comércio exterior estava sendo usado para financiar o crescimento e, por esta via,
engendravam aumentos da renda disponível no país, bem como demandas por
importações, adicionais recursos cambiais e mais industrialização substitutiva.
Particularmente após 1955, o governo federal estava conhecedor da baixa
capacidade das poupanças domésticas correntes para alimentar despesas adicionais de
investimentos. Um considerável montante das poupanças domésticas estava sendo
consumido na expansão do mercado de imóveis interno. Devido ao perfil
necessariamente contracíclico dessas despesas de investimento seu comportamento
"subdesenvolvido" na fase expansiva gerava a escassez de recursos para investimentos
de corte acumulativo. Devido às evoluções desfavoráveis do comércio exterior
brasileiro, a crescente demanda por recursos cambiais só poderia ser saciada por uma
forte adoção de investimentos desde o exterior.
O poder público estava direta e indiretamente subsidiando os consumos
urbanos. Estes consumos compreendiam insumos industriais, compra de tecnologia do
exterior e também consumo pessoal corrente. O mecanismo era produzido por preços

24
artificiais de bens e matérias-primas importadas, às vezes além dos ganhos do efeito da
importação. Através de manipulações do sistema cambial, o poder público podia
produzir preços médios finais domésticos mais baixos do que aqueles indicados pelos
preços dos fatores domésticos ou por insumos similares domésticos. Quando
renunciando cobrar tarifas ou lançar impostos mais adiante, na cadeia de transformação
sobre o preço final de bens ou matérias-primas importadas a preços mais baixos, o
poder público gerava de fato uma espécie de subsídio indireto. Quando pagando
diretamente uma parte do custo final ao produtor ou importador, o poder público estava
usando uma política de subsidiação direta, embora a mesma não se refletisse nas contas
disponíveis.
Subsídios diretos ou indiretos refletiam-se como: primeiro, despesa pública;
segundo, receita não recolhida. Ambos reduziam o montante de recursos diretos
disponíveis às autoridades públicas para outras finalidades e alteravam, de fato, o custo
doméstico de realocação entre os setores (agrícola e industrial). Portanto, nas despesas
do governo se encontram dispêndios feitos para financiar o consumo doméstico,
especialmente nos itens alimentares importados; e, para vantagem da agricultura, alguns
insumos agrícolas. Quando, eventualmente, o governo intentava uma ação isolada ou
em linha para reduzir tais importações pró-agrícolas ou seu financiamento, tal se refletia
em crescentes preços domésticos agrícolas e, conseqüentemente, como (a) uma
deterioração do consumo básico da população urbana de baixa renda; (b) perdas de
exportabilidade e (c) pressão para desvalorização cambial, com sua coorte inflacionária.
Como resultado da pressão das políticas adotadas sobre os desequilíbrios
estruturais, a taxa de inflação contribuía em grande parte para o quadro de permanente
escassez de fundo das autoridades públicas, uma vez que as mudanças dos preços não
podiam ser previamente embutidas na elaboração orçamentária como “expectativa
inflacionária”. O governo constrangia-se a trabalhar com um orçamento de margens
reduzidas às inflações potenciais e tal implicava, após um breve período do exercício
orçamentário, a escassez de fundos e a necessidade das autoridades se apoiarem sobre
empréstimos, ou emissão. Isso, como se sabe, implicava em aspecto inflacionário,
devido às expectativas face aos papéis públicos e os efeitos desequilibradores no médio
prazo e da emissão desequilibradora no curto prazo.
Obrigava-se para o poder público a solução disponível no longo prazo, qual seja
(a) a redução das importações; ou (b) a expansão das exportações, combinadas em
algum nível. Uma vez que as oscilações ascendentes no lado das exportações tendiam a

25
ser, nas condições inflacionárias, acompanhadas por agressivas expansões das
importações, o movimento mais adequado estaria disponível se a opção pudesse feita
pela redução das importações, particularmente a partir de 1958 (vide gráfico 1).

Gráfico 5: Comércio Exterior Brasileiro

120
Preço da Tonelada Média (dólares de 1953 = 100)

100

80

exportação
60
importação

40

20

0
1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962

Paradoxalmente, esta era a solução menos provável devido ao processo de


aceleração do crescimento. Sendo difícil reduzir as importações, uma solução opcional
seria tentar elevar o influxo de capitais através da liberalização do seu mercado, uma
política que foi adotada tão precocemente desde 1954.
De fato, tornava-se difícil para as autoridades públicas reduzir as importações
sem diminuir as taxas de crescimento. No caso em que o governo optasse por controlar
a oferta monetária, -nas condições de expansão de crédito requeridas pelo crescimento-,
os investimentos e despesas públicas teriam que ser reduzidos, como, por exemplo,
pagamentos públicos e a serviços passados. Isso aumentaria a velocidade dos meios de
pagamentos e teria efeitos recessivos, mas ao tentar-se evitar estes, aumentaria a taxa de
inflação. Admitidas tais circunstâncias, o crescimento da dívida pública seria
acompanhado por oferta monetária recessiva (proporcional à queda da taxa de
crescimento), expansão de endividamento real, com uma taxa reduzida, até negativa, de
expansão do produto. Esta parece haver sido a razão pela qual o poder público, na
segunda parte do período em estudo tornou-se indiferente à expansão da oferta

26
monetária, adotando, pois, políticas de contas públicas totalmente desequilibradas (é
claro que existia o equilíbrio formal prévio das contas).
Como se menciona antes, o governo estava usando neste último período o
financiamento inflacionário do crédito e das despesas públicas. Esta política tinha uma
implicação de expansão contínua da oferta monetária. Tal apoio direto sobre os métodos
inflacionários tem sido interpretado por outros analistas e historiadores como expressão
do fim das possibilidades da substituição de importações, naquele período, na economia.
Outros, contrariamente, preferem argüir que a industrialização substitutiva das
importações não estava exaurida quando abandonada, devido ao potencial de suas
variações, e que seu abandono se deveu a mudanças políticas correspondentes a novos
grupos sociais no poder e à natureza diferente de seus interesses. Qualquer que seja a
interpretação, o financiamento inflacionário do crescimento econômico começou antes
da oscilação dos começos dos anos 60, e certamente era causado pelas diferentes
tendências ascendentes na economia doméstica e seu entrejogo com o movimento
descendente do comércio exterior brasileiro, depois da guerra da Coréia. Assim, a
aceleração do caráter substitutivo das importações deste surto, bem como a aceleração
da própria taxa deste, estavam em conexão íntima com o decréscimo do desempenho do
setor exportador, seus ganhos reduzidos, as variações correlatas na divisão internacional
do trabalho, e tudo isso insiste em demonstrar o elevado grau de industrialização
substitutiva alcançado pelo país como uma necessidade objetiva.
Deve-se insistir sobre o caráter espontâneo da política de substituição de
importações então adotada no Brasil e outros países da América Latina. Ela foi a defesa
possível de ser produzida nas condições das crises do entre-guerras. Observe-se que
Mussolini a adotou na Itália, ao fracassar a política liberal (1926). E nisso foi seguido
por inúmeros países em industrialização na Europa de leste. Hitler foi obrigado
igualmente a recorrer a políticas dela derivadas, para promover a expansão alemã dos
anos 30. Nesse contexto, sustentar o preço dos exportáveis era uma imposição para
evitar o colapso da economia local, no ambiente da queda dos preços do comércio
internacional.
Na verdade, foi apenas a segunda guerra mundial que eliminou o contexto das
crises e obviamente a maioria dos economistas não desejou debruçar-se novamente
sobre aquele obscuro período que se tem denominado depressão. No entanto, é fácil
compreender-se que os países em industrialização, em cujo território não se deu o

27
segundo conflito, deveriam permanecer favorecendo a expansão das suas exportações e
a substituição de suas importações.
Dar-se-ia assim somente no contexto posterior ao pós-guerra (1945-1962) o
problema de uma crescente oferta de bens industriais desde as antigas metrópoles,
associado a uma pressão do sistema financeiro, para que a periferia abandonasse suas
políticas particulares de industrialização. Para o Brasil, as criticas à industrialização
chegaram no governo Kubistchek, com o desestimulo do FMI ao uso da emissão
monetária para financiar a construção da nova capital, Brasília. Os desentendimentos
levaram então a uma ruptura entre o governo brasileiro e o FMI. Começou naquele
momento a reforçar-se em Washington a idéia de uma intervenção – no modelo da
Guatemala – para derrubar eventuais governos latino-americanos que discordassem das
propostas neocolonialistas no comércio exterior, apoiada pelo FMI. Esse ambiente pró
intervenção fortaleceu-se nos anos seguintes, devido à vitória de Fidel Castro com a
revolução cubana.

5 . Uma Interpretação
Nos começos dos anos 60, diferentes Administrações tentaram introduzir
mudanças no conjunto das políticas tradicionais disponíveis de substituição de
importações, ou até eliminar tal modelo – como o caso do governo Quadros. Não houve
muito sucesso nessas tentativas. Enquanto que as políticas econômicas pró-liberalização
de Quadros certamente induziram uma maior mobilidade dos fatores em 1961, a
implantação no curto prazo de políticas radicalmente diferentes do sistema não
acarretaria no longo prazo mudanças profundas deste. Mas, por outro lado, tal
administração estimulou a insegurança, a desconfiança social e mútua e,
conseqüentemente, a luta de classes, no médio prazo.
Por outro lado, um conjunto de condições parece ter sido característico do
mecanismo de substituição de importações; (1) Uma preferência por um cruzeiro
sobrevalorizado (às vezes chamado “câmbio alto”). – Quando historicamente a demanda
por bens primários brasileiros foi grandemente reduzida, (neste caso, considere-se o
período (1929-1936) e como efeito de tal a economia doméstica foi estimulada a se
expandir por suas próprias forças, um cruzeiro sobrevalorizado desempenhou então
papel como “solução natural” de barreira comercial a um comércio “irrealizável”.
Nestas condições, o comércio exterior tinha que manter-se reduzido à política de
prioridades, e um alto valor atribuído à moeda doméstica, transferia para os produtos

28
domésticos todas as vantagens de preço, importadas do exterior. Por este meio, os
preços relativos foram manipulados para tornar mais baratos os bens domésticos
substitutivos (sucedâneos, “ersatz”, para as importações). Como um exemplo, vê-se na
tabela 3, um bem hipotético “A”, que tem o seu preço determinado através da
composição decrescente de importações. Tais importações estavam caracterizadas por
preço original mais baixo. Deste modo, como observado no caso do bem hipotético “A”,
os ganhos da indústria doméstica similar em preços relativos têm um ciclo. Este ciclo é
determinado pela depreciação de custo do produto “A” e tal contribui, primeiro com
crescentes ganhos, e depois com decrescentes ganhos para a indústria doméstica
produzidora do bem substitutivo. Naturalmente, não apenas é relevante o efeito isolado
de um hipotético bem “A” como principalmente o conjunto heterogêneo de importações
para “sua” produção doméstica que lhe é similar, como determinado pelo entrejogo das
necessidades internas e a massa de recursos cambiais disponíveis.
(2) Mecanismos preferenciais nos sistemas de câmbio e de crédito, para apoio á
industrialização. – Durante a situação em que o monopólio ou um quase monopólio de
moeda estrangeira é atribuída a um ou poucos no mercado, a alocação preferencial de
recursos cambiais pode ser efetivada, ainda que um mercado livre seja permitido
funcionar, para o resto da economia.
A primeira vantagem do comércio exterior é, obviamente, o “comércio”.
Técnicas e produtos externos podem ser consumidos domesticamente a preços mais
baixos do que seriam, se obtidos pela distribuição doméstica. A segunda vantagem de
comércio exterior é o fato que ele induz a mudanças através da divisão do trabalho e,
conseqüentemente, leva a estágios mais elevados de acumulação, leva à
industrialização. Se uma situação em mudança do comércio exterior é associada com
políticas domésticas de industrialização, então o resultado pode ser uma fase de
substituição de importações, de maior ou menor extensão, em seus elementos
componentes. Nesse caso, a transferência de ganhos nos preços relativos pode se efetuar
como indicado na Tabela 3.
O outro lado do tratamento cambial preferencial é a disponibilidade de crédito
doméstico. A eficiência de ambos os mecanismos é aumentada pelas desvalorizações
periódicas, que não eliminam completamente a posição sobrevalorizada da moeda
doméstica. Estas desvalorizações são necessárias para conter a decrescente eficiência
dos ganhos domésticos em preços relativos (veja a coluna (6) na Tabela 3). Assim, de
acordo com a experiência brasileira, a substituição de importações é mais eficiente

29
quando também uma substituição da produção doméstica ineficiente é encorajada, com
o fez Vargas (1953) e, numa certa medida, Quadros (1961). É bem verdade que tal não
era o intento de Quadros, mas a falta de continuidade em sua política de liberalização,
resultou num efeito parcial imprevisto para a mesma. Paradoxalmente, tais
desvalorizações podem reajustar fatores e preços de mercado e, portanto,
implementarem novo impulso a mecanismos cambiais preferenciais. A condição para o
êxito parece ser que as políticas de desvalorização não sejam usadas em excesso, mas
sob a condição de estarem orientadas pela reativação e viragem estrutural no comércio
exterior. Num período de 16 anos, por exemplo, o cruzeiro foi cambialmente
desvalorizado cerca de 10 vezes. O objetivo era colocar as exportações em equilíbrio
com as importações e criar domesticamente as condições para elevar a eficiência e os
ganhos. Com tal objetivo em mente, diversas Administrações tentaram usar diferentes
estímulos para tomar parte mais ativa na corrente do comércio internacional, com vistas
a uma participação extensiva na divisão horizontal de trabalho. O nível de
industrialização, no entanto, ainda se mostrava insuficiente.
Enquanto que a redução das barreiras comerciais “em casa” era adequada e
gradual, o curso seguido pela liberalização de capital foi excessivo, uma vez que os
responsáveis pela política econômica se apoiavam num influxo continuamente crescente
de capital, para cobrir a extensão das importações e as deteriorações na capacidade
exportadora. Um efeito prático era o endividamento crescente, interno e externo, do
estado, e unia gradual perda do controle das autoridades sobre o movimento de capital e
sobre a taxa de inflação.
Vê-se, assim, a contradição básica dos elaboradores da política econômica
brasileira, que tem sido persistente com seu modo de ver por quase cem, anos: ou
fecham totalmente a economia, que vive de ganhos das importações e das exportações;
ou não sabem como liberalizar ou internacionalizar, praticando tais medidas em
excesso, sem o necessário compasso da estratégia do desenvolvimento próprio. Devido
a esse óbice- fruto de incompreensão teórica ou de incapacidade intuitiva – a economia
brasileira não tem se mostrado capaz de converter ganhos internos ou externos em
fatores permanentes de desenvolvimento.

30
Tabela 3
Mecanismo de ganhos em Preços Relativos para as Industrias Substitutivas - Bem "A"

(1) (2) (3) (4) (5) (6)


Ganhos da
Indústria
Porcentagem Composição Doméstica em
Índice dos Estrangeira Final do Preços
Índice de Preços de Preços do Mercado Preço Relativos
Ano Importação Domésticos Doméstico Doméstico (3) – (5)

0 100 100 50 100 0


1 108 112 45 110,2 1,8
2 115 119 42 117,3 1,7
3 122 131 37 127,7 3,3
4 128 140 28 136,6 3,4
5 134 157 23 151,7 5,3
6 141 163 20 158,6 4,4
7 148 172 18 167,7 4,3
Fonte: Dados Hipotéticos

(3) Uma forte Política Realocativa do Estado - Entre as estruturas e subestruturas da


economia, no caso brasileiro, evidenciou-se uma preocupação para crescente auto-
suficiência, no quadro das políticas substitutivas de importação. Neste sentido, uma
expansão mais rápida das indústrias manufatureiras domésticas estava sendo promovida
pelos mecanismos da industrialização substitutiva, com uma direção abrangente para a
auto-suficiência. Isto implicava um conjunto de políticas realocativas para setores e
ramos produtivos e de serviços. Dentro de esforço realocativo, as indústrias
manufatureiras e os serviços ganhavam tratamento preferencial, ante as atividades
agrícolas e as agro-indústrias; o consumo produtivo prevalecia sobre o consumo final; e
a produção substitutiva, prevalecia sobre a produção tradicional. É claro que o consumo
das viragens estruturais, quando comparado com uma economia desenvolvida, ver-se-ia
ainda de caráter tradicional. Mas este “tradicional” era novo e dinâmico, quando
comparado com a estrutura da economia de apenas dez ou vinte anos atrás. Esta ampla
realocação entre setores e subsetores estava sendo feita para maximizar a produção no
presente – um ponto interessante – e, por esta via, a existência de empresas que
operavam controladas pelo governo era importante para sobrepor-se às forças que
resistiam a tais mudanças econômicas. Como se vê, as políticas realocativas eram
decisivas para expandir o mercado doméstico.
(4) Uma Remuneração Proporcional Relativamente Constante aos Fatores
Econômicos – Enquanto que a oferta de trabalho foi abundante durante todo o processo
generalizado de industrialização substitutiva, o capital era um fator escasso, e diante

31
deste desequilíbrio estrutural, faziam-se necessárias políticas básicas. Estas, quando
seguidas, permitiam manter o nível real dos salários no longo prazo, independentemente
da oferta em excesso da mão-de-obra. Estas políticas desenhavam a institucionalidade
que permitia ao mercado crescer, por via da acumulação. Elas foram possíveis de
implementar porque a substituição de importações dependia do caráter favorável de dois
aspectos: (a) expansão generalizada das indústrias e dos serviços industriais; (b) a
expansão do mercado doméstico.
Uma vez que o mercado de trabalho se desenvolvia dentro destes marcos,
implicava isto que as indústrias domésticas entrassem nos anos 50 sob a égide do
crescente empréstimo de tecnologia para melhorar a sua eficiência, fenômeno que
contribuía para expandir o mercado doméstico e no longo prazo poderia elevar a
competitividade das exportações, dentro de uma orientação horizontal da divisão
internacional do trabalho. Isto era importante diante das políticas de liberalização.
(5) Apoio nas exportações tradicionais – Com vistas a obter um efeito máximo
do mecanismo cambial, as políticas de industrialização substitutiva foram orientadas
para um consumo produtivo de divisas, enquanto se ofertava um recurso menor relativo
das mesmas para a expansão das exportações. Esta política implicava de fato evitar-se
em divisas a promoção das exportações, pela utilização máxima das “vantagens
comparativas” já existentes. Implementava-se, efetivamente, o consumo dos ganhos das
exportações tradicionais, principalmente café, algodão e cacau. Por outro lado,
procurava-se substituir com insumos locais a oferta reduzida de bens importados para a
produção agrícola. A redução conseqüente do custo cambial das exportações permitiu à
industrialização substitutiva obter o efeito máximo dos mecanismos apontados na tabela
3.
Pode-se concluir que os pontos citados (3), (4) e (5) foram decisivos para as
viragens estruturais necessárias à formação do mercado nacional integrado e do
mercado doméstico de capitais. Ao mesmo tempo, o conjunto das condições
mencionadas de (1) a (5) da industrialização substitutiva seriam dificilmente ocorrentes
sem a veracidade das teses propostas como hipóteses na seção prévia D do capítulo 1
(outro texto). Relembre-se:
(a) que o estado seria o principal agente econômico no mercado;
(b) que o estado promoveria a industrialização com os ganhos cambiais do
comércio exterior;
(c) que o setor agrícola seria utilizado como um mercado primitivo;

32
(d) que o estado manipularia as mudanças nos preços relativos a favor das
políticas de industrialização.
Dadas as condições hipoteticamente citadas da industrialização substitutiva,
pode-se intentar explicar o processo de crescimento da economia brasileira no período
1933-1964 e, particularmente, no subperíodo 1951-1962, em termos das hipóteses (a) e
(d) relacionadas no parágrafo anterior. Sob as hipóteses (a), (b) e (d), parece razoável
aceitar a explicação de que a crescente dívida do Estado foi parte do esforço para
promover e conduzir a industrialização, no quadro tentativo de um desenvolvimento
econômico generalizado.
É importante ter presente que as políticas de desequilíbrio nas despesas públicas
e de déficit orçamental, – conquanto existissem nesse período - têm sido um
instrumento de intervenção estatal por um longo período histórico até a presente fase
(traço característico desde a administração portuguesa). Mas na última fase do período
em referências (1951-1964), numa fase iniciada em 1957 (segundo alguns autores em
1954), as autoridades públicas federais perderam aparentemente o controle sobre o
desenvolvimento da dívida, incluída a dívida externa. A dívida pública externa em
particular, até 1956, estava em posição de montantes decrescentes, e pode-se dizer que
estava sob controle, para as autoridades do poder público. Pode-se observar a referida
tendência decrescente na tabela 4, para um período de três anos. A tendência reverteu
em 1957. O movimento decrescente da dívida, visível na tabela 4, expressava a
orientação das autoridades para obter equilíbrio do fluxo das moedas estrangeiras. Tal
política de fato acumulou recurso para a mais rápida expansão de 1957-1962 e de certa
forma adiou os efeitos da estagnação do comércio exterior da região no período 1958-
1962 em pelo menos dois anos para o Brasil.
Com o efeito do mais rápido crescimento do débito nas condições de queda dos
preços das exportações brasileiras no período da estagnação do comércio exterior
regional, associado ao efeito da expansão acelerada no período, o endividamento
avançou muito. Medidas mais cautelosas faziam-se portanto necessárias, incluindo
medidas contra-cíclicas ao fim do período de expansão. Foram algumas
incondicionalmente tentadas durante os governos de Quadros e Goulart, sendo no
período deste mais consistente o “Plano Trienal” de Furtado, que não obteve contudo
consenso, com oposição das forças sindicais. A adoção em pleno de tais políticas de
ajuste implicaria contenção do crédito e redução do crescimento do PIB, mas seria por
certo menos custosa socialmente que as medidas recessivas do período 1965-1967. O

33
aperto das despesas públicas propostas nos pacotes de ajuste do período Goulart se
inseriam num plano mais amplo para recuperar as possibilidades de uma
industrialização substitutiva adicional, após a reativação do comércio exterior. Esta era
esperada a partir de 1964. Contudo, a mudança radical de políticas econômicas trazida
pelo golpe-de-estado de 1964 adiou até 1974 novas formas de industrialização
substitutiva e implicou a separação entre estas e a adoção de “mixes” para expandir as
exportações, a partir do esquema tradicional.
Recorde-se que eram dois os elementos componentes da transferência dos
desequilíbrios estruturais para a forma de inflação: (a) a deterioração dos preços da
tonelada exportada; e a correlata (b) manipulação cambial doméstica, capaz de
assegurar lucros crescentes para os grupos controladores dos exportáveis, apesar do
referido em (a). O radicalismo das políticas econômicas pós-64 não intentou contudo
mexer nesses dois componentes. Dessa forma, não se poderia esperar qualquer fato
novo, enquanto preços cadentes para os exportáveis locais continuasse a ser a política
no exterior.
Tabela 4
Dívida Pública Externa Consolidada - Brasil Posição no Fim do Ano (em milhares de unidades monetárias)

Especificação Moeda 1954 1955 1956


Federação US$ 15,739 12,562 9,641
US$ 64,132 57,717 51,124
Francos (papel) 32,976 32,976 32,976
Francos (ouro) 20,373 20,373 30,373

Estados US$ 13,342 12,149 11,337


US$ 39,348 35,654 31,989
Francos (papel) 67,576 67,576 67,756
Guineis 6,037 3,74 3,74

Municipalidades US$ 2,389 2,348 2,275


US$ 6,262 5,623 4,99
Francos (papel) 4,294 4,294 4,294

Totais US$ 31,74 27,059 23,254


US$ 109,742 98,994 88,103
Francos (papel) 104,846 104,846 104,846
Francos (ouro) 20,373 20,373 20,373
Guineis 6,037 3,74 3,74
Fonte: Banco do Brasil

(A) Ganhos da industrialização


Um balanço dos ganhos, ou resultados positivos da industrialização no período
1951-1964, corresponde também a um balanço dos efeitos principais da mudança no
período 1933-1950, porque o período final mais acelerado apenas maximizou as

34
transformações produzidas e acumuladas pelos surtos precedentes, de 1933-1938 e
1940-1946 (este com uso intensivo predominando sobre o investimento).

(B) Comércio Exterior Desfavorável?


O Brasil, diferentemente de outros países em desenvolvimento, tem coletado muitos
recursos do comércio exterior, devido a sua posição de possuidor de rendimentos
oriundos de cultura perene de exportação. Especialmente neste século, o café, o cacau e
o algodão continuamente obtiveram ganhos em divisas para o país, em anos “bons” e
“maus”. Considerando o período 1947-1964, o poder de compra brasileiro no exterior
cresceu cerca de 13 por cento em dólares norte-americanos de 1949 (reais). Esta
expansão não foi suficiente para cobrir os preços em expansão das importações e as
novas procuras domésticas. O uso do comércio exterior como “motor do crescimento”
foi demasiado, da parte das autoridades brasileiras, levando-se em conta os
investimentos feitos na estrutura do comércio.
Quando se mede os termos de troca (TT) pela relação exportação-importação via
índices de Laspeyres, observa-se que a posição do poder de compra aumentou muito no
período, mas pode-se discutir o fato do índice Laspeyres apresentar uma tendência para
forte correlação com o índice do valor real do dólar norte-americano. A posição
resultante da capacidade de importação não muda substancialmente com quaisquer dos
dois métodos (Laspeyres ou Paasche), fenômeno que parece indicar a forte influência,
sobre o poder de compra doméstico no exterior, dos movimentos de capitais.
Dentro de uma perspectiva histórica, o desenvolvimento dos termos-de-troca dos
anos 50 pode ser considerado menos favorável do que nos anos 40. De fato, o comércio
exterior nos anos 40, embora reduzido pelas condições da 2ª Guerra Mundial,
desenvolveu-se favoravelmente para o Brasil, com certa acumulação temporária de
reservas cambiais, e com a indução adicional de mecanismos de substituição de
importações. No final da década de 40, desapareceram as condições restritivas do
período da guerra, expandindo-se as capacidades de importação e exportação, apesar da
crise da libra. Contrariamente, nos anos 50, as variações seguiram as tendências
expansivas geradas no fim dos anos 40 para o começo dos anos 50 – com o efeito
positivo da guerra da Coréia - , mas logo tal posição favorável deteriorou-se, com a
crise comercial de 1958-1962, coincidindo com um forte surto expansivo na economia
brasileira. Assim, este desenvolvimento desfavorável a partir dos meados dos anos 50,
tornou-se um problema de magnitude, pois reforçou os desequilíbrios estruturais.

35
Pode-se levantar a questão de que os fatos do comércio exterior menos
favoráveis dos anos 50 devam-se considerar a fonte do aperto e movimento descendente
do ciclo econômico, nos anos 60. Crê-se que as oscilações dos valores do comércio é
uma das fontes, mas parte considerável dos problemas econômicos se explicam pelas
políticas internas, como as políticas para crescimento mais rápido, do período 1956-60.
É evidente que houve um esforço das autoridades para pospor políticas de ajuste,
reforçando do outro lado a aceleração da expansão. Por outro lado, a maioria das
políticas de Quadros visaram objetivos inversos, e do conjunto da situação resultou um
efeito desequilibrador adicional aos desequilíbrios estruturais. Tal fenômeno foi
percebido e caracterizado por diversos analistas, quando ainda em curso.
Na verdade,a capacidade doméstica de pagamentos no exterior até 1964 ainda
era bastante estável (veja-se a tabela 6, coluna (4)). Isto resultava de políticas de
liberalização de mercado de capitais, com um crescente influxo de capitais exteriores,
que estava em associação, naturalmente, com uma participação adicional de capital
estrangeiro no processo de industrialização. A aumentada ou estável capacidade total de
pagamentos no exterior era por si mesma uma condição favorável para o crescimento
mais rápido implementado no período.
Além disso, uma capacidade brasileira de pagamentos estável no exterior pode
ser considerada como uma fonte de investimentos mais intensos de capitais, o que
contribuiu para facilitar o processo de industrialização, num momento em que o país
entrava numa fase desfavorável de seu balanço de pagamentos. Tal era a situação no
começo da década de 60, com potencial para um ajuste adequado e não muito apertado
da conjuntura econômica.Como se sabe, a evolução política, com o golpe de 64, alterou
drasticamente outros cursos possíveis dos fatos. Quando se observa a capacidade de
importação do país em expressão real (veja Tabela 6 coluna (7)), apertos desta
capacidade não permitem resultar mudanças radicais na posição da mesma, no período.
O país desempenhava pois uma posição menor no desenvolvimento do comércio
internacional, conquanto que a posição de alguns bens primários favoráveis, assim
como a relativa estagnação do comércio, estivessem refletindo os efeitos dessa pequena
participação, nos ritmos crescentes do mercado mundial.
Por outro lado, há alguns aspectos específicos que contribuíram para a
diminuição do ritmo do comércio exterior brasileiro. Primeiro, deve-se referir ao
comércio desfavorável para os bens primários na década de 30, resultante das crises de
1929-32 e 1938-39, no quadro do excesso de oferta que caracterizou o Brasil. Segundo,

36
a prolongada deterioração da posição das exportações primárias deu origem a um
processo de mudança na demanda agrícola, com o avanço do algodão e a dominação
gradual da oferta de produção orientada para o mercado doméstico, em função do
crescimento do complexo produtivo agro-industrial. Terceiro, as políticas fortemente
industrializantes, que foram promovidas devido ao fracasso da posição econômica
tradicional foram, na prática, reservando para as exportações primárias, a continuidade
de uma função tradicional. Foram nisso restritivas às crescentes demandas por consumo
de cambiais do setor exportador. A combinação de todas essas condições contribuía e
expressava a redução da posição brasileira no comércio internacional.
A melhoria relativa do poder de compra das exportações, que ocorreu no período
1963-65 (veja Tabela 5, coluna (4)), podia ser uma base para expansão adicional e para
um movimento ascendente na conjuntura, devido ao seu caráter exógeno e favorável.
Como já se estudou em outros trabalhos, este movimento favorável da posição do
comércio exterior brasileiro coincidiu com uma forte recessão, adotada pela
administração Castelo Branco, dentro de um quadro mais amplo de pressupostos. Estes
serão analisados em capítulo específico. Uma vez que as autoridades públicas optaram
apenas em 1967 pela aplicação de políticas mais expansivas, um ano de circunstâncias
menos favoráveis no exterior (a crise de Suez), teve-se que as autoridades se apoiaram
mais em influxos de capital do que na melhoria do comércio (veja tabela 6, coluna (3)).
Portanto, as condições do comércio exterior, enquanto menos favoráveis nos anos
50 que nos 40, foram suficientemente boas para assegurar ganhos de importação e de
exportação; para promover influxos de capital; e estabilizar a capacidade brasileira de
pagamentos no exterior. Devido a um maior isolamento do mercado brasileiro de
capitais nos anos 50 e começo dos anos 60, o país demonstrou uma capacidade
decrescente de obter no exterior a amplitude de capitais necessários para promover uma
industrialização mais extensiva do que a substitutiva. Esta dificuldade era certamente
agravada pelo caráter necessário da industrialização substitutiva, que criou mercados
cativos para determinados grupos e produzia no caso brasileiro suspeitas no exterior
sobre o excessivo nacionalismo vigente. Para complementar tal dificuldade, o ciclo
econômico brasileiro pareceu pela primeira vez mover-se em tendência diferente do
mercado exterior brasileiro. Como resultado, a opção política por medidas inadequadas
de caráter recessivo reduziu o efeito potencialmente expansivo da finança doméstica e
dos influxos de capital, num momento em que voltava a se expandir o poder de compra
das exportações. Desse modo, uma técnica de manipulação inferior para utilizar os

37
movimentos favoráveis da posição do comércio exterior parece ser a explicação
plausível do efeito decrescente prolongado do ciclo na período 1964-1967.

C) O Desempenho das Indústrias no Setor Manufatureiro


O gráfico 7 mostra o desempenho favorável da produção industrial, característica
do período 1950-1962. Um desvio para cima é claramente visível a partir de 1957, como
expressão da mais rápida ascensão. A taxa média anual de expansão do produto
industrial foi acima de 9,5 por cento, em termos reais.
Gráfico 7

Brasil: Produção Industrial


350
300
250
200
150
100
50
0
1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962

Produção Industrial

Conquanto a taxa de emprego industrial tenha apresentado uma magnitude maior


do que a taxa demográfica no período, seu efeito expansivo se reduzia, quando
comparado com dados dos anos 40. A explicação para o desempenho menos notável do
emprego industrial pode encontrar-se no impacto das novas tecnologias importadas,
especialmente no caso das associações com empresas internacionais. Foi assim
promovido o uso de equipamentos poupadores de mão-de-obra no país. Particularmente
o uso da Instrução 113 da Sumoc, contribuiu para uma adoção gradual e generalizada
de equipamento mais intensivo em capital, o que pode explicar em parte a diminuição
da taxa de crescimento do emprego nas indústrias manufatureiras.
Parece adequado também interpretar esta viragem para equipamento intensivo
em capital como o resultado da elevada dependência brasileira de tecnologias
importadas. Tal situação limita as opções de crescimento doméstico, uma vez que as

38
tecnologias adotadas e aquelas que as vão substituir devem ser encontradas no leque de
ofertas disponíveis a preços mais baixos, no mercado internacional.
Durante o surto industrial de 1957-1962, as autoridades governamentais não
estavam plenamente satisfeitas com as taxas de crescimento obtidas na expansão, dentro
da suposição que possuíam de que muitos ramos poderiam ir mais rápido. No entanto,
quando se observam as pressões exercidas nas importações e o nível conhecido dos
estoques domésticos, tal opinião não pode ser mantida. O país estava de fato perto de
sua capacidade total de produção, à época.
Era natural a maior mobilidade dos fatores, nas condições do crescimento mais
rápido. A expansão dos transportes, particularmente de cargas, atuou para favorecer o
mercado nacional, em detrimento das atividades manufatureiras locais, nas diferentes
regiões. O poder público subestimava certamente, à época, o efeito negativo da rápida
concentração industrial e da formação, mesmo, de oligopólios em diversos ramos. Tais
aspectos negativos ficaram mais visíveis no final dos anos 60 e nos anos 70, mas a
estrutura oligopolista pode ser diagnosticada nas tendências do surto de 1957-1962.
Gráfico 8 – Preços Mundiais

Preços mundiais (Dol./T).

1600
1400

1200
1000
800
600
400
200
0
1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961

Café Cacau Algodão

Fonte: Banco do Brasil

De fato, durante a expansão referida, algumas regiões, como o Nordeste, ou


estados, como o Rio Grande do Sul, começaram a ficar para trás na industrialização,
quando comparados com a região Sudeste. Esta aceleração dos desequilíbrios regionais
expressava tanto as vantagens de recursos naturais de outras regiões ou estados, como

39
taxas mais elevadas de remuneração aos fatores produtivos. A taxa de crescimento
industrial também se acelerava nas regiões menos desenvolvidas, mas a mudança nos
preços relativos dos fatores e a orientação dos recursos de investimento do governo
eram desfavoráveis, às regiões de recursos menos notáveis.
Eventualmente, os órgãos do estado criaram mecanismos e instituições para
combater tal tendência dual. Possuíam, contudo, quantidades insuficientes de recursos,
pouco poder para alterar políticas locais e eram montados com lentidão. Neste período,
a SUDENE destacou-se como o órgão melhor capacitado para tais políticas regionais.
No período 1950-1960, a produção industrial cresceu em termos nominais cerca
de dez vezes em relação ao ano-base. A população trabalhadora nas indústrias
manufatureiras cresceu a uma taxa de 3,3 por cento ao ano, e São Paulo era o estado que
ocupava mais de 32% dos assalariados industriais. A expansão manufatureira no Paraná
levou este estado a deslocar Pernambuco como a 6ª base industrial no país, expressivo
este fato do desequilíbrio referido entre as áreas norte e sul do Brasil.
Os ramos de alimentação e bebidas eram responsáveis por 26 por cento do valor
total da produção industrial em 1960, e tinham, portanto, sua participação relativa
decrescente. Os ramos metalúrgicos moveram-se para a primeira posição na produção
industrial, se excluídos os de alimentação e bebidas, já referidos. Esta posição primeira
voltará em breve a ser de novo ocupada pelos ramos químicos e farmacêuticos, devido à
rápida expansão do processamento pesado e seus derivados (o que logo justificaria a
separação agregada da química pesada). Os ramos de material de comunicações, elétrico
e de transportes expandiram-se muito, particularmente após 1956. Desempenharam,
pois, papel importante na integração do mercado nacional.
Ao lado dessas mudanças, a industrialização chegara a um grau em que
manufaturas e oficinas de grande porte estavam sendo substituídas por fábricas
autênticas, com equipamento moderno, no que concerne à ponta de cada ramo, com
mão-de-obra concentrada, recursos de capital e aumentos de produtividade. A expansão
da frota de cabotagem e do ramo automotivo permitiu ampliar a capacidade de carga,
com o efeito de uma gradual diminuição da importância do sistema ferroviário, que não
se expandira para as novas frentes econômicas. Este fenômeno certamente influenciou o
adiamento de diversos projetos expansivos que estavam escalados para acontecer, de
acordo com o então chamado Plano Ferroviário Nacional. As autoridades públicas
tornaram-se mais sensíveis à complementaridade entre ferro e aço de um lado e
indústrias automotivas, do outro, ao contrário de Vargas, que preferiria a opção por

40
ferrovias, que ele chamava “democrática”. A viragem de opção neste item refletiria
mais tarde no processo de expansão dos “duráveis” e com efeitos concentracionários no
rendimento.
Tabela 5 - Poder de Compra Brasileiro das Exportações
Em dólares norte-americanos de 1949.

(1) (2) (3) (4) (5)


Termos
Valor FOB nominais de Poder de Variações nos
das Troca (TTn) Compra das termos de troca
Anos Exportações 1949 = 100 Exportações (4) – (2)

1947 1,221 96 1,172 -49


1948 1,534 106 1,626 -92
1949 1,096 100 1,096 0
1950 1,322 124 1,639 317
1951 1,716 90 1,544 -172
1952 1,290 73 1,161 -129
1953 1,354 118 1,598 244
1954 1,312 97 1,273 -39
1955 1,181 102 1,205 24
1956 1,200 121 1,452 252
1957 1,100 94 1,034 -66
1958 982 93 913 -69
1959 1,000 94 940 -60
1960 977 88 860 -117
1961 1,066 97 1,034 -32
1962 923 83 766 -157
1963 1,069 96 1,026 -43
1964 1,073 114 1,223 150
1965 1,180 147 1,735 555
1966 1,271 117 1,487 216
1967 1,191 100 1,191 0
1968 1,336 103 1,376 40
1969 1,618 97 1,569 -49
1970 1,843 79 1,456 -387

41
Gráfico 9

Tratores em Uso

70000

60000

50000

40000

30000

20000

10000

0
1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959

Tratores em Uso

A malha ferroviária insuficiente que existia até então no país havia sido
construída para os objetivos de conectar mercados agrícolas a centros de exportação, e
não era, portanto, adequada aos objetivos de um mercado doméstico em crescimento. A
rede ferroviária foi um pouco modernizada durante os períodos de Vargas, e a criação
da FNV fazia parte de um esquema do P.N.F., citado acima. Por ele, a rede seria toda
padronizada por tecnologia inglesa, progressivamente produzida no país. Fortes
investimentos faziam-se ainda necessários para equipar a FNV como o principal
fornecedor do mercado doméstico, e tais recursos, na prática, vindos dos cofres
públicos, seriam alternativos ao suporte infra-estrutural ou das rodovias e ou das
fábricas automotivas.
Como se sabe, a opção pelos ramos automotivos, a partir dos meados de 50,
representou o bloqueamento da expansão ferroviária, no estágio em que ambos os ramos
– e o país – se encontravam. As autoridades públicas consideraram aparentemente o tipo
de mudanças encadeadas pelo ciclo automobilístico (automóvel – arranha-céus –
estações de serviço – suburbanização da classe média) como mais interessante e mais
rápido para o processo de acumulação e, portanto, mais desejável. Desta forma, a
expansão adicional ferroviária – considerada proposta antiquada – foi deixada de lado.

42
Na literatura da área pública dos fins dos anos 50 e começos dos anos 60 ficou
registrado o debate, onde se nota a idéia em moda à época de que o ramo automotivo é
mais induzidor de capital – e, conseqüentemente, de mudanças estruturais – do que a
expansão ferroviária.

Tabela 6
Capacidade Brasileira para Importar - Em dólares norte americanos de 1949

(1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) (9)


Posição da
Capacidade Capacidade Capacidade
Doméstica Remessas de de
Poder de Influxo de Total de de Capital Importação Importação
Compra das Capitais Pagamentos Amortização ao (7) = (4) – Valor das (9) = (7) –
Anos exportações Externos no Exterior das Dívidas Exterior (5 + 6) Importações (8)

1947 1.172 47 1,219 54 189 876 1,148 -272


1948 1.626 20 1,646 63 281 1,302 1,155 147
1949 1.096 49 1,145 124 270 751 1,103 -352
1950 1.639 26 1,665 108 359 1,198 1,074 124
1951 1.544 30 1,574 27 473 1,074 1,927 -853
1952 1.161 35 1,196 28 288 880 1,804 -924
1953 1.598 48 1,646 41 318 1,287 1,161 126
1954 1.273 141 1,414 140 356 918 1,438 -520
1955 1.205 171 1,376 139 304 933 1,098 -165
1956 1.452 302 1,754 177 347 1,230 1,024 206
1957 1.034 405 1,439 220 326 893 1,206 -313
1958 913 458 1,371 308 293 770 1,069 -299
1959 940 565 1,505 377 373 755 1,085 -330
1960 860 458 1,318 438 502 378 1,140 -762
1961 1.034 518 1,552 162 575 815 1,124 -309
1962 766 333 1,099 143 595 361 1,121 -760
1963 1.026 116 1,142 107 660 375 1,130 -755
1964 1.223 151 1,374 74 737 563 947 -384
1965 1.735 142 1,877 98 810 969 800 169
1966 1.487 281 1,768 106 939 723 1,077 -354
1967 1.191 279 1,470 152 970 348 1,184 -836
1968 1.376 622 1,998 155 1,081 762 1,492 -730
1969 1.569 923 1,492 132 1,181 1.179 1,540 -361
1970 1.456 1.701 3,247 430 1,246 1.571 1,949 -378
Fonte: Banco Central e Centro de Contas Nacionais, FGV.
Anuário Estatístico; IBGE; Survey Of Current Business; USA; 1949

(6) Formação de Capitais, Depósitos, Consumo e Renda Disponível. Uma Interpretação


de Resultados Empíricos.
A) Produto Doméstico e Formação de Capital – Considerar-se-ão duas equações
regressionais produzidas com a formação bruta nominal de capital e os valores nominais

43
do produto doméstico bruto. Cada uma explicará a variável “produtividade total”, ou
seja, o PIB real dividido pela população economicamente ativa do país, 1949, ano base
igual a 100. Verifica-se assim a concordância das variações tendenciais entre a
formação de capital, por um lado, e a produção por força-de-trabalho, pelo outro. Outras
regressões são utilizadas a seguir para caracterizar o relacionamento entre alguns ramos
produtivos e o PIB. Vejam-se (dados da F.G.V.):

(1) Formação Nominal Bruta de Capital (1946-1966):


GIp = - 23.4085 + 6.606 CGFn (1)
t = 12.3360
R 2 = 0.8890

(2) Valores Nominais do PIB (1947-1966):


GIp = - 22.3808 + 6.7994 PIB (2)
t = 12.0410
R 2 = 0.90260

(3) O PIB em preços constantes de 1949 será “explicado” pelo ramo de calçados
(defasado 1 ano, isto é, FOT-1). (1944-1957, índice físico, FGV)
PIB = - 54.815 + 2.811 Fot  1 (3)
T = 7.70970
R 2 = 0.80310

(4) Têxteis (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = - 101.5063 + 3.21311 Tex  1 (4)
t = 7.7087
R 2 = 0.80310

(5) Indústria Farmacêutica (-1), Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = - 39.057 + 1.8817 Ph  1 (5)
t = 6.67050
R 2 = 0.80180

44
(6) Borracha (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):
PIB = 100.707 + 1.224 Rub  1 (6)
t = 11.0822
R 2 = 0.9178

(7) Construção Civil (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = 47.879 + 1.947 CC  1 (7)
t = 4.38290
R 2 = 0.6359

(8) Tabaco (Fumo) (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = 127.025 + 1.0089 To  1 (8)
t = 30.8860
R 2 = 0.9886

(9) Bebidas e Similares (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = 56.1478 + 1.697 D&B  1 (9)
t = 11.112
R2 = 0.9182

(10) Alimentos (-1) . Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = -27.806 + 2.466 Fot  1 (10)
t = 12.5385
R 2 = 0.93460

(11) Papel e Papelão (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = 44.210 + 1.8129 Pa  1 (11)
t = 13.0930
R 2 = 0.93970

(12) Ferro e Aço (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = 144.204 + 0.8644 I&S  1 (12)
t = 27.7330

45
R 2 = 0.98590

(13) Vidro & Cerâmica (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = 79.991 + 1.3853 G&C  1 (13)
t = 13.9360
R 2 = 0.94830

(14) Produção de Cimento (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = 141.316 + 0.8923 Ce  1 (14)
t = 13.56610
R 2 = 0.94360

(15) Extração Mineral (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = -15.148 + 2.504 Me  1 (15)
t = 9.02410
R 2 = 0.8810

(16) Bens de Consumo (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):


PIB = -0.5430 + 2.7116 CoG  1 (16)
t = 15.38740
R 2 = 0.95560

(17) Produto Total das Manufaturas (-1). Índice da Produção Física (1944-1957):
PIB = 5.321 + 2.1675 Mait  1 (17)
t = 22.06240
R 2 = 0.97790

Pode-se intentar a seguinte explicação do material processado por regressões:


(1) Comparando o modelo (1) com o (2), os valores nominais do PIB se ajustam
melhor (1.5% melhor) à explicação do índice de produtividade do que (1) a
formação nominal bruta de capital. Por outro lado, a pequena diferença dos
ajustes parece confirmada pelas pendentes de ambas as equações que nos
indicam: a) uma ascensão muito rápida da produção por trabalhador, da

46
formação de capitais e, conseqüentemente, dos valores nominais do PIB.
Confirma-se, portanto, a característica de crescimento muito rápido da produção
nas condições da industrialização substitutiva, fenômeno que quase sempre tem
sido silenciado.
(2) O conjunto das equações (3) a (17) indica o poder explicativo de diferentes
ramos da produção na variação dos valores nominais do PIB. É interessante
notar que as maiores aderências são para: (a) tabaco; (b) aço e ferro; (c) o
conjunto da produção industrial; (d) vidro & cerâmica; (e) bens de consumo; (f)
papel e papelão; (g) alimentos; (h) bebidas e similares; (i) borracha; etc. O
consumo do tabaco é amplamente difundido na sociedade, mantendo-se
praticamente independente do poder econômico dos diferentes grupos sociais.
Daí entender-se o seu excelente relacionamento com o PIB, dando, por isso, a
relevância da relação entre a indústria leve e o PIB. No entanto, segue-se à
equação do tabaco (8), a referente ao aço e ferro (12), que, expressando um
ramo da indústria pesada, não pode ser interpretada da mesma maneira. Resulta,
pois, a percepção da associação íntima entre o PIB e a indústria pesada,
confirmando-se a observação anterior do caráter generalizado da
industrialização substitutiva. A pequena diferença entre as duas pendentes, e a
elasticidade apenas um pouco menor do aço e ferro (14,3% menor) revelam a
natureza da expansão no período, avaliado empiricamente (ou seja, 1944-1957).
O desempenho explicativo do PIB pelo “tabaco” e pelo “aço e ferro” é seguido pela
equação (17) do conjunto da indústria manufatureira, que revela também uma
associação muito grande com o PIB. Isso certamente caracteriza o perfil cada vez mais
industrial do próprio PIB. O “conjunto dos bens de consumo” (16) explica apenas um
pouco menos (2%) o PIB, que o “conjunto da produção industrial” (17), confirmando-se
por esta via o caráter generalizado da industrialização. Segue-se o valor explicativo de
“vidro e cerâmica” (13), amplamente utilizado na construção civil para fins industriais e
residenciais, na recuperação de casas (reformas), na produção de vasilhames, etc. Vê-se
assim a importância paralela do consumo industrial e do consumo final no processo,
logo depois no poder explicativo de “vidro e cerâmica” (13); como se sabe, papel e seus
derivados são muito utilizados para embalagens nas indústrias e também no consumo
final, insistindo na hipótese explicativa. A importância dos “alimentos” (10) vem a
seguir, e chama a atenção para que a associação não é simplesmente do nível de
subsistência, pela forte pendente da equação, revelando a força expansiva do ramo.

47
Finalmente, “bebidas e similares” (9), um complemento da relação do complexo agro -
alimentar, segue-se a “alimentos” (10) e faz-se seguir de “borracha” (6), insumo
industrial de grande importância nos ramos “transportes, material elétrico”, etc.
Pode-se, assim, comentar a confirmação do caráter generalizado da
industrialização substitutiva, utilizando-se o poder expansivo dos ramos leves e pesados
para o crescimento acelerado. Pela natureza da associação de tais ramos com o PIB, vê-
se igualmente a relevância do mercado doméstico, único de fato capaz de absorver esta
produção industrial. Não deixa de chamar a atenção a “naturalidade” das relações entre
os ramos em processo de industrialização e o PIB, evidenciando-se, por esta forma, o
efeito substitutivo como resultado do colapso da economia agrária e de sua inserção na
divisão internacional do trabalho.
A expansão da economia doméstica prosseguiu, como referido no período,
apesar do pano-de-fundo da deterioração no balanço de pagamentos (pelo menos de
seus fluxos oriundos da balança comercial). Nesse sentido, a expansão industrial foi
visualizada pelas forças hostis à industrialização substitutiva como mais do que
esperada, ou em excesso. Tal decisão não faria sentido diante de uma expansão menos
significativa. A expansão dos investimentos em equipamentos e fábricas foi notável no
período. Isto é confirmado pela análise dos pendentes das equações (1) e (2).
O investimento fixo recuperou-se das flutuações no período 1953-1956 pela
iniciativa dos investimentos públicos, coroado pelas propostas expansivas do “Plano de
Metas”, em 1957. Desta maneira, o efeito do investimento público, coadjuvado pelo
monopólio cambial, na prática, do estado, induziu a direção expansiva da
industrialização, a partir de sua tendência histórica recente específica para cada ramo,
liderando os investimentos privados alocativamente.
O quadro das crescentes demandas arrastou consigo as indústrias não-
manufatureiras, com as atividades terciárias em enorme expansão. Esta atividade de
investimento de capital ignorou – de fato – o avanço da taxa de inflação e permitiu
rápida acumulação através dos ganhos reais. Ocorreu, assim, um cruzamento dos
investimentos em equipamentos e instalação da parte de todos os ramos, com as
características sem precedentes de formação de capital do período. Isto não seria
possível sem a política de crédito fácil adotada pelos poderes públicos na área
econômica. No entanto, no final do período, todas as indústrias ou ramos ainda
poderiam induzir a elevação de suas propensões para investir.

48
B) A Função Depósito.
Ajustaram-se diferentes séries temporais de depósitos nos bancos para o período
1930-1964, com diferentes subperiodizações. Preferiu-se a variável “depósitos em todos
os bancos”, 31 de dezembro, de caráter oficial, por ser a mais abrangente. Os
subperíodos 1940-1964 e 1947-1964 foram preferidos, por expressar uma
homogeneidade característica com o modelo histórico que aqui se estuda, a salvo de
influências precedentes. A subperiodização 1948-1956 por um lado, e 1957-1965,
mostrou-se significativa, embora não deva ser considerada fora das séries mais longas,
em virtude do número mínimo aceitável de 9 observações. Permite assim comparar as
variações no longo prazo com as variações no ciclo de até 9 anos.
Considere-se em primeiro lugar o “poder explicativo” que as variações da
população têm sobre “depósitos em todos os bancos”, para o período 1940-1964:

S
D = 27.014635 + 0.5548466 P (18)
R 2 = 0.539994
R 2 ajustado = 0.519993
F = 26.99931

O “valor explicativo” que a população e suas variações possui como


“previsibilidade” ou funcionalidade dos “depósitos em todos os bancos” é da ordem de
52 por cento. Pode-se considerar um “valor baixo”, quando comparado com o
desempenho de outros agregados, mas em termos estatísticos não chega a ser um valor
desprezível. Deixando de lado a teoria econômica por um momento, pode-se fazer a
pergunta: quais as alterações que se processaram, de modo que a população só explique
em “50 por cento” a função depósito? O desempenho preditivo da população pode ser
examinado no gráfico 10, abaixo:

49
Gráfico 10 – Depósitos em Todos os Bancos e similar computada a partir do
desempenho preditivo da população

45,00000
40,00000
35,00000
30,00000
25,00000
20,00000
15,00000
10,00000
5,00000
0,00000
-5,00000
-10,00000
1940
1941

1945
1946
1947

1951
1952
1953

1957
1958
1959

1963
1964
1942
1943
1944

1948
1949
1950

1954
1955
1956

1960
1961
1962
1 2 Série3

Vê-se até 1948 um afastamento entre a “capacidade produtiva” da “população” e


os valores historicamente observados da série de depósitos. A série estimada a partir da
“população” atravessa a série observada “da direita para a esquerda”, centrando-se em
1940-1948, o imediato após-guerra. É-se conduzido a interpretar os anos 1940-1947
como altamente favoráveis aos depósitos, por cima da expectativa do “ótimo
populacional”, tão caracteristicamente brasileiro. De fato, esta interpretação concorda
com a análise da maioria dos historiadores do período, que vêem no período da 2ª
Guerra Mundial fortes restrições à expansão do consumo, em função das importações
restringidas. Isto está de acordo também com o ponto de vista, já expresso, sobre este
assunto. Mas a população só não pode explicar as grandes variações subseqüentes entre
a massa de depósitos e suas possíveis variações induzidas pelo crescimento
demográfico. Apesar do “grande desempenho da inflação”, atua também um conjunto
de forças características que, de 1948 a 1962, ajustam “população” e “depósitos em
todos os bancos”. Estas forças residem, evidentemente, no universo da industrialização
substitutiva, como já argumentado.
A expressão linear, explicativa para a “renda bruta não-agrícola”
g
( Ynag )

tem o seguinte desempenho, para o período 1957-1965:

S
D = -76.986 + 3.861 Y G nag (19)

50
R 2 = 0.99060
t = 280.140

Vê-se neste modelo o forte “poder explicativo” da “renda não-agrícola”, quando


comparado com “população”, no modelo anterior, para explicar o índice de “depósitos
em todos os bancos” (F.G.V.). O desempenho de “renda agrícola”, para o mesmo
subperíodo (1957-1965) é ainda mais interessante:

S
D = -10.243 + 1.134 Y G nag (20)
R 2 = 0.9992
t = 3306.06

Esta persistente intimidade das variações da “renda agrícola” com os depósitos


nos bancos indica a possibilidade de que a industrialização substitutiva estava longe de
seu “esgotamento” no período. Uma hipótese explicativa pode ser que a renda agrícola
ainda desempenhava o papel dominante no cenário 1948-1964, a despeito da expansão
da renda não-agrícola e da maximização dos efeitos desta. Nesse sentido, o caráter
“objetivo”, imposto pelas necessidades do desenvolvimento agrícola, do modelo de
industrialização substitutiva, salta à vista, ao nível macro de observação.
O ajuste não-linear para a “renda não-agrícola” introduz algum benefício ao
modelo, no que se refere às elasticidades. Vejamos para todo o período 1940-1964:

D = 0.6080140 + 0.6114806 Y (21)


S G
nag

R 2 = 0.994245
R 2 Reajustado = 0.993995
F = 3973.465

O modelo indica a “demanda reprimida” a partir da estimativa da série


explicante, o que leva a verificar se tal ocorre, pelo cálculo em detalhe, como se vê no
gráfico 11:

51
Gráfico 11 – Poupança Doméstica e Similar Computada Desde a Renda Não-Agrícola –
1940/1964

45,000

40,000

35,000

30,000

25,000

20,000

15,000

10,000

5,000

0,000
1940
1941
1942
1943

1944
1945
1946
1947
1948
1949
1950
1951
1952
1953
1954
1955
1956
1957
1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964
-5,000

1 2 3

Gráfico 11

De fato, até 1947, os valores estimados se afastam da série observada com


grandes resíduos, levando à interpretação de que a “expectativa” da “renda não-
agrícola” era de um desempenho muito mais efetivo para os depósitos, no período 1940-
1946. Pode-se interpretar que a 2ª Guerra Mundial teria, pois, inibido a industrialização,
a urbanização e o volume de depósitos (por ilação, das poupanças e investimentos),
embora não houvesse inibido a industrialização substitutiva, em seu aspecto intensivo.
De fato, a constância da intervenção pública nas atividades produtivas a partir de
1933 nos revela uma clara intenção – como frisou a Cepal – de orientar o processo de
poupança para o investimento. Como tem-se explicado, o governo veio de preocupar-se
com grandes obras infraestruturais, visando fortalecer as bases para as práticas de
industrialização. Eram projetos de claro conteúdo nacional, que empurravam as
propostas dos estados da federação para um nível convergente – e macro – de interesses;
projetos submetidos à lógica da divisão internacional de trabalho, orientados para

52
ampliar (e, às vezes, maximizar) os ganhos das vantagens comparativas locais relativas
ao país e às demandas internacionais.
Nessas condições maximizantes de interferência pública, é possível entender os
ganhos diferenciais de lucro nas mudanças estruturais em ocorrência dos dois setores
(agrícola e não-agrícola) e as vantagens condicionais que oferece a função depósito para
tal análise.
O quê pode informar a variante do modelo para renda agrícola

(Y G ag ),

dentro da função depósito convencional (1940-1964)?


S
D = 0.4334016 + 0.06522470 Y G ag

R 2 = 0.994801
R 2 ajustado = 0.994575
F = 4400.856
O ajuste da “renda agrícola” revela-se uma fração algo melhor que o ajuste da
“renda não-agrícola”. No sentido, portanto, da nossa explicação para o modelo (20).
Também o setor da “renda agrícola” teve seu consumo e propensão para investir,
segundo o modelo, reprimidos nas condições da 2ª Guerra Mundial. Tem-se para o
período 1940-1964, o Gráfico 12:
Gráfico 12

Poupança Doméstica e Similar Computada desde a Renda Agrícola


1940/1964

45

40

35

30

25

20

15

10

0
1943
1944
1945
1946
1947
1948

1955
1956
1957
1958
1959
1960
1940
1941
1942

1949
1950
1951
1952
1953
1954

1961
1962
1963
1964

-5

Resíduos Observado Ajustado

53
Vê-se nitidamente o “poder explicativo” da renda ajustar-se aos valores
observados a partir de 1951, até 1964. A instabilidade, contudo, acelera-se a partir de
1957, quando a “renda agrícola”, certamente refletia as mudanças expansivas, mas não
o determinava em modo algum. Isso devido ao caráter industrial-manufatureiro e
urbanizador do crescimento acelerado, contrariando as indicações da crise agro-
exportadora de 1958-1962. Portanto, o desaparecimento dos resíduos negativos, a partir
de 1958, com gradual ajuste entre “renda agrícola” e “depósitos” pode ser interpretado
no sentido da integração da agricultura, expansivamente, com o mercado doméstico e,
por extensão, com a industrialização substitutiva. A política pública atuava, pode-se
inferir, no sentido inverso da estrutura de rendimento estabelecida, possuindo, portanto,
componentes cruciais de mudança estrutural.
Que o caráter industrial-manufatureiro da substituição de importações
contrariava a estrutura estabelecida de rendimento tem sido posto em dúvida por muitos
investigadores, no Brasil e no exterior (1964-1982). Esta observação, como indicada
acima, é no sentido de que contrariava, o que se pode inferir de um modelo onde os
“depósitos em todos os bancos” é explicado pela “renda disponível” (1940-1964):

S
D = -9.4068499 + 0.0536877 Y d (23)
R 2 = 0.680134
R 2 ajustado = 0.666226
F = 48.90504

A “renda disponível” explica uns 67% da função depósito, no período em


referência. O conjunto de forças que atua sobre a renda disponível não tem uma
explicação plena para o que se passa com a “função depósitos”. A pendente gerada pela
associação com a renda disponível, que abarca os resultados da expansão do “produto
bruto não-agrícola”, por exemplo, é bem mais pronunciada que a pendente gerada pela
“renda bruta agrícola” e visível no modelo (22). Contudo, apesar da indicação de que os
depósitos e a renda não-agrícola têm uma direção algo diferente da renda disponível,
não há um resposta cabal à hipótese apresentada, talvez pelo peso que os “depósitos
agrícolas” ainda tivessem na função depósitos em geral, conforme se evidenciou em
(20) e (22).

54
Outro interessante indicativo para a expansão da renda dos estratos urbanos em
detrimento dos estratos rurais; e da massa trabalhadora industrial em detrimento das
camadas médias, pode ser visto nos programas políticos que caracterizam as lutas
sociais, incluídas as crises de 1953-1954 e de 1963-1966. Há nitidamente uma
resistência de setor agro-exportador e das camadas médias ao processo de
industrialização e ao aumento da renda dos trabalhadores industriais.
Para o período 1948-1956, o acréscimo da renda nominal tem uma pendente
expansiva muito sensível, para o modelo linear da função depósito:

N
S
D = -25.629 + 1.00770 Yd (24)
R 2 = 0.91530
t = 29.8842
Contudo, o papel é menos pronunciado para o acréscimo da renda nominal
disponível no período do modelo (24), do que havia sido no período antecedente, de
1939-1947, fazendo também aqui interpretar-se um “comportamento independente” das
variáveis durante o 2º conflito mundial. Foi situação de muita tipicidade.
Qual o desempenho da “renda bruta não-agrícola”

(Y G nag )

e da “renda bruta agrícola”

(Y G ag ),
conjuntamente, para explicar a função depósitos? Ter-se-á para o período 1940-
1964:

G
S
D = 0.5021373 + 0.2517775 Y G nag + 0.3841821 Y ag (25)
R 2 = 0.995332
R 2 ajustado = 0.994907
estatístico F = 2345.320

A pendente, não sendo tão pronunciada como no período anterior, aponta para
um “relacionamento nominal” entre as variáveis, apesar do condicionamento inicial

55
durante a 2ª Grande Guerra. A maior importância da renda agrícola fica caracterizada,
apontando para a hipótese sobre a natureza da acumulação durante a industrialização
substitutiva. O “desempenho preditivo” pode ser apreciado no Gráfico 13:
Gráfico 13:

Poupança Doméstica e Similar Computada Desde as Rendas Não-


Agrícola e Agrícola - 1940/1964

45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
1940
1941
1942
1943
1944
1945

1946
1947
1948
1949
1950
1951
1952
1953
1954
1955
1956
1957

1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964
-5

Resíduos Observado Ajustado

A leitura das relações entre os valores observados e ajustados nos indica que as
duas variáveis explicativas fazem supor, pela evolução de seus valores, um nível de
depósitos superior, em quase todo o período, aquele que efetivamente se observou (com
exceção para 1958-1964). O que explicaria, portanto, a reversão a partir de 1958? Dito
em outras palavras, o que ocorreu a partir de 1958 que reduziu o potencial expansivo de
desempenho da renda não-agrícola e da renda agrícola em relação ao observado?
A explicação mais plausível é o recuo do desempenho da renda agrícola no
período 1958-1962, em função da crise, ao estagnar o comércio regional internacional,
no período. Tal recuo das variações expansivas agrícolas e de sua realização efetiva
(como produto) ter-se-iam refletido na crise cambial do período e na conseqüente crise
econômica de 1963. Contudo, sabe-se que houve uma rápida reativação em 1964-1965,
situação entretanto que não foi aproveitada a “nível nacional”, devido a adoção de um
pacote de medidas de política econômica já de natureza diferente, ao desenfocar da crise
de 1965-67.

56
Uma hipótese que imediatamente aflora é que, nas condições da estagnação do
comércio exterior no período 1958-1962, o acirramento da repartição da renda
disponível deve ter sido característico, e a variação dos rendimentos nominais deve ter-
se refletido como mecanismo impelidor no processo inflacionário (“cost-push inflation”,
a “inflação de custos”, de Rangel). Nesse caso, a variação de crescimento da renda
disponível pode ter no modelo da função depósito o poder compensatório explicativo
perdido pela renda não-agrícola e pela renda agrícola para o fim do período 1958-1964.
Veja-se o modelo com a adição da taxa de crescimento da renda disponível Y d 2 , para o
período 1940-1964:
S
D = 0.231927 + 0.1023862 Y G nag + 0.5473562 Y G nag + 4.22398 Y d 2 (26)

R 2 = 0.996646
R 2 ajustado = 0.996166
F = 2079.804
Como se pode observar no gráfico 14, os valores ajustados se aproximam
satisfatoriamente dos observados, para o período 1940-1964, confirmando as
características de luta pela repartição de renda, entre as forças sociais no período:
Gráfico 14

Poupança Doméstica e Similar Computada Desde a Renda -


1940/1964

45
40
35
30
25

20
15
10
5
0
1940
1941
1942
1943
1944
1945
1946
1947
1948
1949
1950
1951
1952
1953
1954
1955
1956
1957
1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964

-5

Resíduos Observado Ajustado

Vê-se que as rendas brutas não-agrícola e agrícola, coadjuvadas pelas taxas de


crescimento da renda disponível, explicam satisfatoriamente a função depósitos.

57
Caso se considere apenas o período 1957-1965, a função depósito linear obtida a
partir da renda não-agrícola não é discordante:

S
D = 1059.511 + 3.1079 Y G nag (27)

R 2 = 0.93760
t = 41.0558

Por outro lado, pode-se considerar para 1957-1965 somente a renda bruta
agrícola:
S
D = 215.195 + 0.89112 Y G ag (28)

R 2 = 0.95020
t = 51.7887

Comparando as funcionalidades (27 e (28) ressalta o desempenho “bem


comportado” da renda agrícola, evidenciada a maior lentidão de suas forças estruturais
e, conseqüentemente, colocando-se a hipótese explicativa de perdas para a renda não-
agrícola, por via dos termos-de-troca e da manipulação cambial. Em ambos os casos, as
amostras mostram-se adequadas para análise (não para projeções) e o “poder
explicativo” é elevado. Menos satisfatório no período 1957-1965 seria o desempenho do
incremento da renda disponível nominal, considerada isoladamente:

S
D = 586.667 + 1.65762 Y N d (29)

R 2 = 0.84470
t = 15.6581

Este resultado indica aparentemente, quando comparado com os dois modelos


anteriores, um papel decrescente para o incremento da renda disponível nominal, como
um fator explicativo do índice de depósitos em todos os bancos. A indicação implica:
(a) um desempenho decrescente dos acréscimos no rendimento disponível nominal na
expansão da poupança sob condições ou expectativas inflacionárias; e (b), que as
poupanças domésticas neste período talvez dependessem mais da expansão das
atividades produtivas (poupança induzida) do que da expansão dos rendimentos dos
indivíduos. Isto é coerente com vários elementos, como o nível de concentração de

58
renda, o mecanismo do crédito ao consumidor, o “aquecimento” do mercado de
créditos, etc.
Parece, pois, que no período final da industrialização substitutiva, os indivíduos
estivessem consumindo mais (ou até além) do acréscimo da renda líquida nominal do
que antes, e isso aponta na direção do decréscimo dos investimentos, uso intensivo da
capacidade instalada, etc.; aponta para forte expansão na produção de bens de consumo,
com oscilações, o que de fato ocorreu, como pode ser apreciado de outras análises
empíricas e teóricas. Ambas as interpretações são adequadas para a suposição de
elevadas poupanças públicas e empresariais, em conexão com o processo da expansão
industrial, sem alterar, contudo, o quadro de dificuldade de conversão da poupança em
investimento, no final do período, nas condições da chamada “inflação de custos” (cost-
push inflation).
Considerando o desempenho linearizado (para fins de uso gráfico) do
desempenho das rendas brutas agrícola e não-agrícola na função depósito, para o
período 1957-1965, tem-se:

G G
S
D = 40.18209 + 0.214996 Y nag + 0.174791 Y ag (30)

R 2 Y .12 = 0.823710

S y .12 = 187.04204
S y =2450.0600

Conquanto a contribuição da renda bruta não-agrícola seja maior do que a


agrícola, esta apresenta, contudo, uma posição relativa muito forte (apenas 23%
inferior). Isto vai no sentido da hipótese interpretativa de que o setor agrícola constitui-
se em todo período um verdadeiro “mercado primitivo” da industrialização. O fato de
que já se havia alcançado a industrialização sustentada e que, conseqüentemente,
amplos recursos eram coletados dentro do setor não-agrícola, não elimina a interessante
condição de uso das poupanças agrícolas para financiar a industrialização. Tal
característica da industrialização brasileira é importante, pois os recursos públicos
concedidos à expansão agrícola são subseqüentes drenados pela acumulação industrial.
A agricultura normalmente consome um grande montante de investimentos para uma
expansão balanceada e tal drenagem favorece periodicamente a queda do produto
agrícola.

59
Caso se inclua no modelo (30) a variação nominal da renda disponível, vem-se a
obter (1957-1965):

G G N
S
D = 130.670 + 0.61746522 Y nag + 0.1706274 Y ag + 0.126611 Y d (31)
R 2 Y.123 = 0.904701
SY.123 = 59.6240

Na presença da expansão da renda disponível nacional, as diferenças de


contribuição da renda não-agrícola e da renda agrícola se minimizam, implicando a
hipótese de um consumo menor da renda adicional pelos detentores agrícolas de renda,
do que dos detentores não-agrícolas. Reforça-se a observação do decréscimo do papel
do rendimento adicional disponível nominal, no período, como fator explicativo das
poupanças, interpretação que coincide com o momento da máxima expansão industrial,
pressão inflacionária, a inversão cíclica de 1958-1962, a crise cambial, a crise política
com troca do regime, etc. Vê-se a mais forte participação poupadora da renda agrícola,
podendo-se interpretar em parte, o abandono da industrialização substitutiva como fator
político-institucional ao nível da repartição da renda, e não necessariamente ao nível do
mecanismo poupador-acumulador.
O coeficiente parcial de determinação, R 2 Y1 é 0.937502, e o ganho explicativo
adicional é dado no coeficiente de determinação com cerca de 46% ou seja,
R 2 Y3.12 = 0.459403.
Pode-se também deduzir que este coeficiente parcial de determinação, expressa a
melhoria exclusiva que a inclusão da variável “acréscimos da renda disponível
nominal”, Y n d , introduz, quando incluída no modelo. Com relação ao período 1939-
1947, houve uma melhoria de 85% no poder explicativo, o que significa maior
estabilidade dos mecanismos e das forças em presença para o período 1939-1947, com
relação às variações consideradas na função depósito. Por outro lado, isto implica dizer
uma contribuição duas vezes maior das poupanças individuais no período 1939-1947,
paradoxalmente um período de semi-monopólio público dos investimentos, retração das
importações, produção industrial mais trabalho intensiva, etc. Trata-se de hipótese
explicativa interessante, que indica o desempenho decrescente do financiamento
expansivo por via inflacionária, e a relativa estagnação do poder de compra doméstico
internamente, depois do enorme esforço expansivo de 1958-1962.

60
C) Função de Consumo e Produção Tradicional
A equação da função de consumo tem sido mais correntemente escrita como:
Ct = a + bY t + cC t  1 + Et (1)
a qual é um detalhamento da hipótese de Keynes, que tem a forma linear:
C = a + bY (2)
Significando (2) que “o consumo é uma função do rendimento disponível” ou
simplesmente do rendimento. Aceitando-se a hipótese keynesiana, chega-se às
complexas relações da Contabilidade Nacional e Internacional, e seus sistemas de
modelos multiequacionais, preditivos, descritivos e para ajuste, que não se abordarão
aqui. O ponto é o tratamento de modelos simples, com uma única equação, que, no
entanto, se considerados na ótica de serem incluídos nos sistemas multiequacionais,
guardariam uma vida de relações com eles, pelas implicações em comum do sistema
subjacente da teoria econômica. Ignoradas, contudo, tais relações, pode-se tratar as
equações dos modelos que ir-se-ão referir dentro de uma visão empírica, onde se busca
o isolamento dos fatores causais no modelo em caso, dentro de um significado histórico-
econômico. Proceder-se-á à leitura das hipóteses por modo empírico indicativo.
Nesse sentido, assumam-se à partida as seguintes hipóteses do preceito
keynesiano:
(a) que: a “produção tradicional” brasileira para o consumo é igual ao consumo
tradicional (a parte não-dinâmica do consumo em mudança); sendo esta produção
tradicional totalmente consumida (considere-se, portanto, implicitamente, as
exportações marginais iguais às importações marginais):

Ot =Ct (3)

(b) que: se (a) é correta, então a “produção tradicional” é uma função da “renda
disponível”, isto é, usando-se o rendimento disponível como uma variável explicativa,
pode-se explicar praticamente as variações na produção tradicional ou no consumo
tradicional. Esta adaptação técnica corresponde às fortes restrições impostas no caso
brasileiro pela industrialização substitutiva:
O t = a + bY d ou C t = a + bY d (4)

61
Dadas as hipóteses acima, pode-se desenvolver condições adicionais:
(1) uma vez que se sabe ser a “produção tradicional” mais conectada com os estratos
urbanos de renda mais baixa, formulem-se as hipóteses;

(c) que: 80 por cento dos detentores de rendimentos, os que estão abaixo dos 20 por
cento mais elevado de renda, tem empiricamente maior poder explicativo sobre o
consumo tradicional que os 20 por cento;

(3) A fim de tornar esta hipótese quantificável, procedeu-se como segue:


- tomou-se a amostra disponível da apuração do imposto de renda no Brasil, de acordo
com a distribuição feita pela própria Receita Federal;
- deflacionaram-se os valores disponíveis dos pagadores de imposto sobre a renda, de
acordo com percentís, pelo deflator implícito líquido para renda agregada da
Contabilidade Nacional, Centro de Contas Nacionais, FGV, a preços de 1949;
- convertidos para distribuição normal, os valores foram distribuídos para a renda
disponível, temporalmente, por técnica polinomial; ao longo de suas tendências
históricas. Ignorou-se para o efeito que um grupo de detentores de renda (muito alto e
muito baixo) não pagam impostos sobre a renda.Os testes estatísticos para aleatoriedade
dos sinais revelou um pequeno viés para cima dos 40 por cento de rendimento mais
baixo, fato que considera-se como acidental, pois de fato trabalha contra as adotadas
hipóteses empíricas. Para uso estatístico, a posição estimada dos rendimentos mais
baixos está um pouco acima de onde deveria estar, mas é onde pode estar pelo nível dos
dados disponíveis, que não poderiam ser obtidos para a totalidade das amostras.

(4) Uma vez que se sabe que – nas condições da industrialização substitutiva – as
importações e seus efeitos de preços inferiores também são absorvidos pela “produção
tradicional”, deliberou-se incluir um “índice nominal das importações” como uma
variável explicativa no modelo. O objetivo é compreender a extensão em que tal índice
pode “descrever” o consumo ou a produção tradicionais. Pode-se ter mais uma hipótese:
(e) que: os “próximos 40% de detentores de rendimento”
Y dN 40 ,
São coadjuvantes explicativos úteis, a fortiori, da função de consumo
tradicional;

62
O t = produção tradicional
C t = consumo tradicional
(Empiricamente foi utilizado o índice industrial da produção física – processamento
alimentar; F.G.V.)
Y dL 40 = rendimento disponível dos 40 por cento da renda mais baixa;

I iN = índice nominal das importações (1953-100.0);

Y dN 40 = rendimento disponível dos próximos 40 por cento de detentores de renda;

Y dN 15 = rendimento disponível dos próximos 15 por cento de detentores de renda;

Y Td 5 = rendimento disponível dos 5 por cento do topo de detentores de renda.

Um modelo parcial destas relações é:


d N d
Ct = a + bY L 40 + GI i + dY N (5)
onde quaisquer variáveis explicativas podem ser substituídas ou acompanhadas das não-
incluídas, para efeitos empíricos. O xequeamento empírico da “função de consumo
tradicional” foi efetivado para todo o período (1940-1964) e para subperíodos diversos,
por interesses de análise econômica, sendo considerado aqui o período 1947-1964.
Considerando o rendimento disponível dos 40% com renda mais baixa para
esclarecer a função de consumo tradicional, tem-se (O t = C t , índice de produção
física das indústrias processadoras de alimentos, FGV):

C t = 12.431 + 0.1506 Y dL 40 (27)


R 2 = 0.82680 t = 21.0032
Observe-se um forte poder explicativo dos 40 por cento portadores do
rendimento disponível mais baixo, com relação à funcionalidade da produção alimentar
processada como consumo tradicional. Uma vez que praticamente toda esta produção é
consumida no país, podemos considerar a produção igual ao consumo. Qual o
desempenho nesta função para o índice nominal de importações?
C t = 99.57 + 0.704 I iN (28)
R 2 = 0.02460 t = 0.6430
Trata-se de resultado surpreendentemente baixo, pois era de se esperar uma
participação mais significativa do índice das importações nas mudanças do “consumo
tradicional”. Talvez a estabilidade da equação fosse maior caso se expelisse as
flutuações de médio prazo, tratamento que não seria adequado, a não ser que se o

63
praticasse para todos os modelos. Ignoradas, pois, as forças não-endógenas que atuam
em tais flutuações, pode-se interpretar o resultado das estatísticas inferenciais pela
hipótese de que uma pequena quantidade apenas de alimentos processados (cerca de
7%) para o consumo estavam sendo importadas no período, devido às condições da
industrialização substitutiva. Assim, tal hipótese explicativa parece indicar decrescentes
importações de alimentos processados, e confirmar esses traços gerais da expansão
generalizada das condições de industrialização substitutiva no período.
Visualize-se um outro relacionamento, em que a variável explicativa da função
será o “rendimento disponível dos próximos quarenta por cento”, no mesmo período
(1947-1964):

C t = 27.1220 + 0.51190 Y dN 40 (29)


R 2 = 0.855803 t = 25.66160

Vê-se que no modelo linear similar, os “próximos 40%” explicam um pouco


mais (3,5%) do que os “40% de rendimento mais baixo”, o que não seria compatível
num modelo de economia desenvolvida (MDC). Tal pode ser interpretado no sentido de
que os “40% mais baixo em rendimento” restringem mais seus consumos de alimentos
processados (no período) do que os “próximos 40%” são induzidos a fazê-lo. Tal é
compatível, devido ao “padrão de consumo avançado” do subdesenvolvimento, em que
os estratos sociais de rendimento mais baixo dispendem mais tempo na preparação dos
seus próprios alimentos. O custo adicional advindo pela compra é, assim substituído por
gasto de tempo. É claro que o diferencial monetário entre alimento processado
industrialmente e familiarmente, explica esta preferência pelo mercado primitivo. De
modo contrário, os estratos com rendimentos maiores podem optar sem a pressão
financeira do custo da compra.
A adoção desta hipótese explicativa, compatível com as teorias correntes do
consumidor, deixa evidente o nível geral baixo de rendimento disponível no país, como
já se mencionara previamente em outros estudos.
Adicione-se agora o desempenho do “índice nominal das importações” ao poder
explicativo dos “40% de rendimentos mais baixos”, para explicar linearmente a função
de “consumo tradicional” (1947-1964):
Ct = -36.24133 + 5.4577 Y dL 40 - 0.088431 I iN (30)

64
R Y2 .12 = 0.9558602 S Y2 = 1770.163
S Y .12 = 8.560
A dedução plausível é que os “40% de rendimentos mais baixos” são indivíduos
que têm as expansões de seu “consumo tradicional” relacionadas a decréscimos
marginais de importações, achado empírico compatível com as características da
industrialização substitutiva no período. O modelo também explica 95% da função de
“consumo tradicional”, ou da “produção tradicional”, como alimentos processados. O
resultado é satisfatório, e pode-se para efeito analítico ignorar a influência dos fatores
exógenos indicada nos resíduos.
Desenvolver-se-á agora o modelo completo, pela inclusão da variável que
expressa os indivíduos dos “próximos 40% de rendimento disponível”, para o mesmo
período:
C t = 171.884 – 41.12282 Y dL 40 - 0.31834 I iN + 14.00540 Y dL 40 (31)

R Y2 .123 = 0.953404 S Y .123 = 449.6870


Quando somente considerar-se o relacionamento da variável dependente e dos
“40% mais baixos em rendimento”, temos:
r Y2 2.1 = 0.986250
e pela inclusão das quatro variáveis, a “força associativa” entre a “dependente” e os
“próximos 40%” é:
r Y2 3.12 = 0.12560
As estatísticas resultantes indicam a força explicativa do modelo regressional
múltiplo e o valor coadjuvante do “índice nominal de importações”, dentro das
limitações de análise econômica do fato da industrialização substitutiva, em que se
constitui o modelo. Pode-se também deduzir que a função de “consumo tradicional”
confirma de modo satisfatório as suposições em geral sobre a substituição de
importações no período. A sustentação linear da pendente – em condições pois de
uniformidade para o modelo –, implicam regressos do consumo dos “40% de
rendimento mais baixo”, paralelo com o “índice de importações”; concomitantemente,
os “40% mais próximos (do topo)”, aumentariam o seu consumo tradicional, numa clara
competitividade pelo mesmo volume de “produção tradicional”.
É razoável ilação a insuficiência da produção doméstica tradicional, apesar de
suas fortes taxas de expansão, ante o crescimento relativo da renda disponível no
período. O recuo das importações – refletindo a crise cambial relacionada com o

65
decréscimo relativo das exportações – atua como estrangulamento das forças
expansivas, como gargalo, colocando-se em ação os condicionantes da “inflação de
custos” (cost-push inflation). A crise cambial associa-se, pois com a disputa pela
redistribuição da renda e com a luta de classes.
Após esta reflexão sobre o desempenho empírico da produção e do consumo
tradicionais, nas condições da industrialização substitutiva, examine-se para o período
1940-1964, a função de consumo convencional. Em cruzeiros reais de 1949, estuda-se a
variável “consumo pessoal”, a partir da renda disponível:
C i = 31.13782 + 0.743638 Y d (32)
R 2 = 0.957395
R 2 ajustado = 0.955542 estatístico F = 516.8369
As indicações da linha de regressão dão um desempenho de bom ajuste,
conforme esperado, para as duas variáveis. O grau de ajuste pode ser observado no
Gráfico 15.
Um aumento do rendimento dos trabalhadores em condições de crescente
concentração da renda se deu por duas formas: (a) elevação do ganho salarial
individual; e (b) aumento da massa salarial total, por aumento do número de
assalariados. Em resultado, a fricção se manifestou: (1) no nível do consumo, pela
insuficiência da oferta em várias subestruturas, com o trabalhador concorrendo com as
camadas médias na compra de certos produtos, o que se manifesta na elevação dos
preços; e (2) no nível do financiamento da produção. O interesse de compras das
camadas superiores de rendimento se dirige aos importáveis ou à produção doméstica
nova (exemplo: automóveis). Como os produtos tradicionais têm em geral um ciclo de
produção mais curto, a remuneração do investimento dá-se em prazo menor. Isso
tornava a expansão da produção tradicional de certa forma concorrente ao
financiamento da expansão da produção nova, que era o mercado desejado das camadas
de renda mais elevada.

66
Gráfico 15

Consumo Pessoal e Similar a Partir da Renda Disponível -


1940/1964

500

400

300

200

100

0
1940

1942

1946

1948

1951

1953

1955
1956

1958

1960

1963
1964
1941

1943
1944
1945

1947

1949
1950

1952

1954

1957

1959

1961
1962
-100

Resíduos Observado Ajustado

Pode-se observar a indicação de uma elevada tendência a poupar para o conjunto


da renda disponível, ou uma propensão a consumir bastante modesta no período (1940-
1964). Subentende-se como possível o não esgotamento das relações variativas pela
propensão a consumir, o que implicaria uma recuperação “automática” do modelo em
seus mecanismos de funcionamento, possivelmente com a retomada das exportações e
importações que resultariam do fim da estagnação comercial de 1958-1962.
A variável “rendimento do trabalho”
d
( Yw )
foi construída a partir de distribuição polinomial dos rendimentos médios pagos nas
empresas ao fator trabalho (FIBGE). Os valores foram distribuídos no tempo de acordo
com a pendente de suas tendências seculares. O uso desta variável, ao lado da outra de
construção similar “rendimento dos vencimentos e propriedades”
d
( YS & p )
é esclarecedor, quanto aos movimentos de consumo. Vejamos o desempenho da renda
do fator trabalho no consumo pessoal (1947-1964):

67
C i = -70.606529 + 4.2206815 Ywd (33)

R 2 = 0.932066
R 2 ajustado = 0.927820 F = 219.5217

Os valores resultantes do ajuste podem ser analisados no Gráfico 16:

Gráfico 16

Consumo Pessoal e Similar Computado Desde o Rendimento do


Trabalho nas Fábricas - 1940/1964

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

Vamos agora considerar o “rendimento disponível de rendimentos e


propriedades” como “variável explanatória” da “função consumo”. Trata-se do mesmo
período (1947-1964):
C i = -22.141460 + 1.5430015 YSd& p (34)

R 2 = 0.943716
R 2 ajustado = 0.940198 F = 268.2717

O Gráfico 17 nos oferece o ajuste para fins explicativos:

68
Gráfico 17

Consumo Pessoal e Similar Computada Desde o


Rendimento de Proprietários - 1947/1964

500

400

300

200

100

0
1948

1950

1952

1954

1956

1958

1960

1962

1964
1947

1949

1951

1953

1955

1957

1959

1961

1963
-100

Resíduos Observado Ajustado

O comportamento da “renda disponível oriunda dos vencimentos e


propriedades”, apreciado no modelo (34) revela uma pendente bastante íngreme, com
uma propensão a consumir 54% acima da unidade. Esta propensão a consumir, contudo,
ainda é 6% menor do que a propensão marginal encontrada para 1964-1980. O
mecanismo concentrador de renda pode ser descoberto empiricamente funcionando em
1947-1964, sem atingir, contudo, a expressão extrema no período do “crescimento pelas
exportações” (CPE).
Nos casos indicados nas tabelas referentes aos modelos (33) e (34), vê-se
nitidamente o ajuste a partir de 1950, indicando a estabilidade das forças da
“industrialização substitutiva”, que se refletem na tipificação dos modelos, também eles
de estrutura uniforme. Nesse caso, ambos são suficientemente uniformes para descrever
a fortiori as características que a análise econômica atribui à realidade.
Tem-se a possibilidade de ajustar a função de consumo, considerando o
desempenho coadjuvante das taxas de crescimento dos “rendimentos do trabalho”, para
o período 1947-1964:
C i = -71.21160 + 4.2293431 YWd - 0.3012295 W
d
2 (35)

R 2 = 0.933837

69
R 2 ajustado = 0.925015 F = 105.8558

A melhoria do ajuste não é significativa, como se pode observar no Gráfico 18:


Gráfico 18

Consumo Pessoal e Similar Computada Desde o


Rendimento do Trabalho - 1947/1964

500

400

300

200

100

0
1947
1948
1949
1950
1951
1952
1953
1954
1955
1956
1957
1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

Nos Gráficos 17 e 18, pode-se observar que não há diferença substancial nos
ajustes da função consumo a partir do “rendimento do trabalho” ou do “rendimento dos
vencimentos e das propriedades”. Isto é, os dois blocos de renda, opostos quanto ao
comando da produção, podem exercer a fortiori a capacidade explicativa da função
consumo. Isto implica dizer ambas as coisas: (a) um consumo generalizado, baseado em
produções que variam com base em necessidades do mercado doméstico; (b) uma ampla
intimidade das variações das três variáveis, encontradas que estavam num plano comum
de forças atuantes nas mudanças estruturais. Nesse caso, além do crescimento
econômico, pode-se também detectar mudanças estruturais de consumo, correlatas a
proprietários e trabalhadores.
Isto afirma de modo importante uma das características vitais do processo de
industrialização substitutiva, no período em questão.

70
Qual o poder explicativo a fortiori dos “40% de rendimentos mais baixos”,

( YLd40 ),

quando considerada a função de consumo em sua expressão linear no período (1947-


1964)?
C i = 13.7558 + 0.06912 Yl d40 (36)

R 2 = 0.93705
t = 15.433960

Há um valor significante de associação, oferecendo-nos os coeficientes à


propensão marginal a consumir de 6,9 centavos de cruzeiros constantes (de 1949), para
os “40% de mais baixo rendimento”, no caso do aumento de 1 cruzeiro real da
economia, em termos líquidos.
Com relação aos “próximos 40%”, será o resultado (1947-1964):
C i = 33.3545 + 0.220965 Y Nd40 (37)

R 2 = 0.937058
t = 13.337455

No caso desta função de consumo, os detentores de renda mais próximos dos


15% cerca do topo, ou seja, os “próximos 40% de detentores de rendimento”,
absorveram em seu consumo 22 centavos em cada cruzeiro real, criado na economia
doméstica. É um ganho em consumo quase 3,2 vezes maior do que os “40% de mais
baixo rendimento”, no mesmo período (vide modelo (36)).
Qual será, portanto, a hipótese de ganho relativo exclusivo para os “próximos 15
por cento” dos detentores de renda?
C i = 21.929633 + 0.184718 YNd15 (38)

R 2 = 0.9910268
t = 12.740049

Vê-se no caso da função de consumo dos “próximos 15% (perto do topo)”, ou


seja os “próximos 15% de detentores de rendimento disponível, que observaram 18,5
centavos de consumo, para cada cruzeiro real criado na economia no período. Tiveram

71
pois um crescimento de seu consumo 18,9% menor do que os “próximos 40%” no
modelo (37) e um crescimento 2,7 vezes maior de que os “40% de renda mais baixa”,
no modelo (36).
Qual será a posição de consumo no período dos “5% de mais alto rendimento”
ou seja, os “5% no topo do rendimento”? É o que nos indica o modelo (39), para o
mesmo período (1947-1964):

C i = 2.398587 + 0.253164 YTd5 (39)

R 2 = 0.913301
t = 12.982856

Além do valor significante da associação, os 5% do topo do rendimento formam


aqueles que abocanharam a maior fatia da renda líquida adicional criada no período:
para cada cruzeiro real, lograram consumir 25 centavos. Eles ganharam, em consumo
relativo, 35,1% mais consumo que os “próximos 15%”; ganharam 14,5% mais consumo
que os “próximos 40%”; e tiveram uma expansão de consumo quase 3,7 vezes maior do
que os “40% de renda mais baixa”. Vê-se, assim, o processo de concentração de renda
em marcha, graças ao desenvolvimento dos mercados duais na economia, apesar do
caráter generalizado da industrialização substitutiva.
Qual seria a posição de consumo dos portadores de “rendimento do trabalho”
( YWd ) no período?

C i = 20.883953 + 0.220833 YWd (40)

R 2 = 0.932066
t = 14.816277

Este grupo como um todo aproximar-se-ia nesta indicação empírica, dos


“próximos 40%” (modelo (37). Qual a posição de consumo dos portadores de
“rendimento de vencimentos e propriedades”

d
( YS & p ) no período?

C i = 23.765179 + 0.611575 YSd& p (41)

72
R 2 = 0.943716
t = 16.379194

No caso, os detentores de rendimento oriundos de “vencimentos e propriedades”


absorveram um consumo, hipoteticamente, 62 centavos de cada novo cruzeiro constante
criado na economia; um valor 2,8 vezes quase, maior do que o consumo correspondente
dos detentores de “rendimento do trabalho”. Estes desempenhos são muito interessantes,
para fins explicativos. Admitida a influência de fatores endógenos outros que aqueles
incluídos nas variáveis apreciadas, estes não poderiam atuar muito para além do erro
acumulado das equações. As indicações das linhas regressivas são, assim satisfatórias, e
permitem avaliar explicativamente a componência de cada associação entre as variáveis.
Qual o desempenho dos “5% do topo” do rendimento disponível e dos
“próximos 15%”

( YNd15 ) no período (1947-1964)?

C i = 875.86610 + 34.950131 YTd5 - 42.888732 YNd15 (42)

R 2 = 0.925771
R 2 reajustado = 0.915874 F = 93.53889

É indicado um decréscimo da posição dos “próximos 15%” em 23%


aproximadamente, no período, associado com a expansão do rendimento (e do
consumo) dos “5% portadores de renda no topo”. Vê-se, assim, uma disputa entre os
dois setores pelo consumo: os próximos 15%” crescem mais rápido, mas quando
associados com os “5%” do topo, sua situação é de decréscimo.

73
Gráfico 19

Rendimento dos "5% do Topo" e Similar Computada a Partir dos


"próximos 15%" - 1947/1964

600

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

Observe-se agora o ajuste da função de consumo para o rendimento dos “5% do

topo”, associados com os “próximos 40%” ( Y Nd40 ) (1947-1964):

C i = -64.135949 + 1.799876 YTd5 + 2.216211 Y Nd40 (43)

R 2 = 0.945368
R 2 reajustado = 0.938083 F = 129.7815

O modelo manifesta o rápido crescimento ocorrido no consumo, associado com


fortes flutuações, característica notável no período. Há uma ampla associação (94%)
entre as duas variáveis explicativas e a função consumo, com uma vantagem de apenas
23% para “os próximos 40%”, em relação dos “5% do topo”. Vê-se aqui efeitos daquilo
que F.H. Cardoso chamou o “caráter concentrador de renda da industrialização” (1967).
O aumento da propensão a consumir implica um consumo maior dos já maiores
detentores de rendimento. Como se vê no Gráfico 20, o ajuste possui uma pendente
mais inclinada (pressionando, portanto, para valores mais altos) que o desempenho
observado.

74
Gráfico 20

Rendimentos do "5% do topo" e Similar Computada a Partir dos


"próximos 40% " - 1947/1964

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

Os ganhos relativos aos três componentes do rendimento


YTd5 , YNd15 e Y Nd40

levam naturalmente a inquirir o papel relativo dos “40% de rendimento mais baixo”,
quando associado aos fins explicativos da função consumo, no período (1947-1964):

C i = -106.09040 + 1.592070 YTd5 + 8.113289 Y Nd40 (44)

R 2 = 0.963848
R 2 ajustado = 0.959027 F = 199.9652

A forte pendente do crescimento do consumo, quando examinada a partir destes


dois componentes, em sua função implica uma expressão muito favorável para os “40%
de rendimento mais baixo” no período. Isto está de acordo com a industrialização
generalizada que caracterizou a substituição de importação em exame, como o exame
anterior que se fez do “consumo tradicional”. No Gráfico 21 observa-se também uma
viés para cima do ajuste, embora não tão forte como aqueles produzidos pelos modelos
(42) e (43):

75
Gráfico 21

Consumo Pessoal e Similar Computada a Partir dos "5% do


topo" e dos "40% de Rendimento Mais Baixo" - 1947/1964

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

Veja-se agora o poder associativo dos “5% do topo”, dos “próximos 15%” e dos
“próximos 40%”, para explicar a função consumo no período (1947-1964):

C i = 1389.3116 + 55.001581 YTd5 - 73.676443 YNd15 + 3.001052 Y Nd40 (45)

R 2 = 0.978145
R 2 ajustado = 0.973462 F = 208.8652

As notáveis flutuações do período estão aqui manifestas, seja na pendente da


equação, seja nas estatísticas indicativas da estabilidade funcional. A propensão a
consumir dos “próximos 15%” torna-se negativa quando “pressionada” pelo
desempenho mútuo com os 5% do topo e os “próximos 40%”. No Gráfico 22 aprecia-se
a qualidade do ajuste:

76
Gráfico 22

Consumo Pessoal e Similar Computada a Partir dos "5% do Topo", "Próximos


15%" e "Próximos 40%" - 1947/1964

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

Qual será, portanto o efeito explicativo de um modelo que indica os “40% de


rendimento mais baixo” no lugar dos “próximos 40%, para o mesmo período (1947-
1964)?

C i = 479.78255 + 22.75033 YTd5 - 28.801186 YNd15 + 7.644729 YLd40 (46)

R 2 = 0.969303
R 2 ajustado = 0.962725 F = 147.3550

Observe-se um desempenho melhor dos “próximos 15%” diante dos “40% de


rendimento mais baixo”, quando comparado com o desempenho face os “próximos

40%” ( Y Nd40 ) do modelo (45). Alterou-se bastante a posição dos “5% do topo”, num
indicativo de consumo mais generalizado dos componentes, em consumo menos
concentrado. O ajuste visível no Gráfico 23 é satisfatório:

77
Gráfico 23

Consumo Pessoal e Similar Computada a Partir "dos 5% do Topo",


"Próximos 15% " e "os 40% de Baixo" - 1947/1964

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964

-100

Resíduos Observado Ajustado

Os “40% do rendimento mais baixo ( YLd40 ) no modelo (46) expandem-se noutro


nível de consumo dos “5% do topo”. Há, portanto, indicação de dualidade regressiva
face aos “5% do topo”. Há, vê-se, indicação de dualidade de mercados e de
concentração de renda, com um nível mais amplo de consumo, e a forte concorrência

entre YLd40 e YNd15 .


Qual será, por fim, o desempenho indicativo a fortiori do conjunto dos
integrantes aqui escolhidos da renda disponível, na explicação da função consumo
(1947-1964)?
C i = 1099.8749 + 44.951553 YTd5 - 60.019770 YNd15 + 2.1955024 Y Nd40 +

2.9263188 YLd40 (47)

R 2 = 0.980750
R 2 ajustado = 0.974827 F = 165.5838

O modelo confirma a instabilidade pelas flutuações, característica do período e


confirma o caráter de perda das “camadas médias de consumidores no conjunto do
consumo final”. A penalização dos “próximos 15%” é própria da natureza da

78
industrialização, onde os trabalhadores industriais, nova parcela em expansão do
mercado interno, acabam se beneficiando como consumidores finais. O ajuste
evidenciado no Gráfico 24 é satisfatório:

Gráfico 24

Consumo Pessoal e Similar Computada A Partir de Todos os Seguimentos de Renda


(pagadores do IR) - 1947/1964

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

D) Função do Rendimento Disponível


Como se aprende em análise do rendimento, há diferentes estatísticas e
formulações conceituais importantes entre os macro-agregados; particularmente é
interessante para esse estudo as diferenças entre PIB, PNB, rendimento disponível,
poupança e investimento. Vai-se evitar aqui qualquer aprofundamento ou debate da
Contabilidade Nacional e das suas relações com modelos da Econometria empírica.
Seguir-se-á a abordagem de tratar os modelos como equações isoladas, que se
estabelecem em relações puramente empíricas, embora – de fato – os mesmos possam
ser incluídos em sistemas de equações interdependentes, com resultados satisfatórios. A
razão para esse procedimento é a irrelevância para a história econômica das
matematizações de equilíbrio de sistemas; mas é relevante o xequeamento estatístico-
teórico de relações empíricas.
Dentro desta visão empírica, pode-se afirmar que a renda disponível é uma
função do pagamento de impostos, da renda retida pelos produtores na economia e de
pagamentos adicionais de rendimentos, desde que seja dado um certo nível de PNB.

79
Sabe-se também que a “renda líquida enviada ao exterior” (NYSA) é uma
variável que expressa um decréscimo no rendimento disponível real, apesar de
constituir-se de custos adquiridos no exterior para permitir uma antecedente expansão
da renda. Estas observações liberam para sucessivos exercícios empíricos, nas relações
de tais variáveis, como por exemplo: utilizar NYSA no lugar de pagamentos ou ganhos
adicionais de rendimentos, para apreciar as variações explicativas dos desempenhos. Se
um bom relacionamento pode ser obtido neste modelo de relação empírica, poder-se-á
neste caso aceitar como hipótese explicativa a que se segue abaixo:

(a) que influxos de capital e de serviços do exterior aumentariam a renda disponível,


durante uma situação em que aumentos nominais do rendimento disponível estivessem
reduzindo seu efeito expansivo marginal – via crise cambial – na renda disponível;

(1) Esta hipótese pode ser formulada com base nas características da industrialização
substitutiva como se relatou previamente; por exemplo, a restrição apresentada de
crescente escassez cambial.

(2) A verificação empírica desta hipótese conduziria automaticamente ao problema da


dívida externa, resultando por extensão uma funcionalidade entre o processo de
endividamento, a insuficiência dos saldos da balança comercial, a deterioração do
balanço de pagamentos e, consequentemente, o uso do fluxo de capitais exteriores para
suprir os defeitos do poder de compra doméstico no exterior. No caso de confirmar-se
na análise da dívida externa, o relacionamento empírico entre o crescimento da dívida e
o crescimento da renda disponível, importantes aspectos do funcionamento do processo
doméstico de crescimento e de sua vinculação com a divisão internacional de trabalho –
de tipo vertical – ficariam subjacentemente melhor entendidos. Uma outra hipótese
explicativa poderia ser respondida pelo ajuste eficiente dos modelos empíricos
referidos, qual seja:

(b) que a dívida externa é uma função do crescimento da renda disponível.

Um modelo básico para o estudo da renda disponível pode ser:

Y d = renda disponível (bruta)

Tp = pagamentos de impostos ao governo

80
Yr p = rendimento retido pelos produtores

N
YSA = renda líquida enviada ao exterior (NYSA)

Y d = a + bTp + cYr + dYSA


p N

Aplique-se agora este modelo e suas variantes ao período 1940-1970. Para fins de
resumo, apresentaremos apenas a periodização a partir de 1947, nesta tradução.Assim,
para o período 1947-1964, o “pagamento de impostos ao governo”, T p , explica na
variante linear como segue a “renda real disponível”:

= - 3.40 + 0.19531 T p
d
Y (48)

R 2 = 0.97360 t =149.36930

Vê-se que o “pagamento de impostos” apresenta um elevado poder explicativo


da “renda disponível”. Isto é óbvio, a partir da premissa teórica. Veja-se, portanto, o
mesmo modelo, na expressão não linear (1947-1964):

= 23.765726 + 5.0009071 T p
d
Y (49)

R 2 ajustado = 0,972061 F = 592.4624

As flutuações existentes não impedem um poder preditivo a fortiori bastante


adequado. O Gráfico 25 nos indica com clareza o ajuste possível.

A elevada aderência do pagamento de impostos à renda disponível dá-se tanto


(a) pela formação e expansão do imposto sobre a renda no período como pela (b)
manutenção alta de impostos indiretos na economia. Dessa maneira, todos os setores de
rendimento, mesmo aqueles que por sua baixa renda não se enquadravam como
pagadores do imposto de renda, pagavam ao governo consideráveis impostos. Dessa
forma, é licito entender-se a expansão dos investimentos públicos – inclusive um áreas
em que correntemente se acharia a empresa provada – baseava-se firmemente na
elevação dos rendimentos do conjunto da população. Tal elevação dos rendimentos deve
haver resultado da (1) sustentação dos preços domésticos e dos exportáveis; e (2)
expansão da industrialização substitutiva.

81
Gráfico 25

Rendimento Disponível e Similar Computada A Partir do Pagamento de


Impostos - 1947/1964

700

600

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

O desempenho preditivo dos modelos (48) e (49) leva a questionar qual seria o
poder explicativo da “população” na função de rendimento disponível, considerando o
caráter intensivo da economia local, (1947-1964):

Y d = -509.22393 + 13.147438 P (50)

R 2 = 0.891688

R 2 ajustado = 0.884918 F = 131.7211

O valor alcançado é satisfatório; ainda assim é inferior ao desempenho


explicativo de “pagamento de impostos ao governo”, na função da renda disponível. O
Gráfico 26 nos indica o ajuste obtido:

82
Gráfico 26

Renda Disponível e Similar Computada A Partir da População - 1947/1964

700

600

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

-200

Resíduos Observado Ajustado

Cabe agora avaliar o poder explicativo da “renda retida pelos produtores”, Yr p ,


no mesmo período (1947-1964):

p
Y d = 9.593 + 0.0588 Yr (51)

R 2 = 0.97140 t = 137.8818

Trata-se de adequado ajuste, tornando interessante a diferença das elasticidades


da propensão marginal a poupar dos impostos (modelo 48) e da “renda retida pelos
produtos”, menos de 6%, neste caso (modelo 52). A variante não-linear do modelo
oferece (1947-1964):

p
Y d = 151.63655 + 16.571142 Yr (52)

R 2 = 0.971965

R 2 ajustado = 0.970213 F = 554.7117

83
O ajuste obtido pode ser visto no Gráfico 27:

Gráfico 27

Rendimento Disponível e Similar Computada Pela Renda


Retida Pelos Produtos - 1947/1964

700,000

600,000

500,000

400,000

300,000

200,000

100,000

0,000
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100,000

Resíduos Observado Ajustado

Confirma-se para “pagamentos de impostos” e “renda retida pelos produtores” a


sua posição teórica, qual seja, são diferenças entre PNB e a renda disponível, estando
pois submetidas finalmente ao mesmo conjunto de forças, enquanto que mudam em
diferentes direções. Observe-se agora se o desempenho explicativo da “renda líquida
enviada ao exterior”, (NYSA), oferece resultado semelhante:

N
Y d = 0.72178 + 0.00571 YSA (53)

R 2 = 0.54450 t = 6.4799

A hipótese explicativa é que a “renda líquida enviada ao exterior” seja


conformada por forças diferentes daquelas que levam a cabo o comportamento da
“renda disponível”. Veja-se a outra variante, para o mesmo período (1947-1964):

N
Y 2 = 68.583723 + 95.820772 YSA (54)

R 2 = 0.546407

84
R 2 ajustado = 0.518058 F = 19.27394

Além de não apresentar uma aderência aos valores observados, a estimativa da


função baseada na “renda líquida enviada ao exterior” apresenta clara dissociação entre
1947-1950 e 1960-1964. Também em 1952-1954 a dissociação é bastante forte. Poder-
se-ia então caracterizar que os períodos recessivos ou de crise, onde se tornam críticas a
capacidade de investimentos e a capacidade de pagamento no exterior, são os que a
separação entre a “renda líquida enviada ao exterior” e a “renda líquida disponível” se
tornam agudas. O Gráfico 28 nos indica os valores de ajuste que possibilitam o
comentário, quanto ao caráter indicativo da renda enviada ao exterior.

Gráfico 28

Rendimento Disponível e Similar Computada a Partir da Renda


Líquida Enviada ao Exterior - 1947/1964

700

600

500
400

300

200

100
0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

-200

Resíduos Observado Ajustado

Adicione-se agora o desempenho da “renda retida pelos produtores” ao poder


explanatório de “pagamentos de impostos ao governo”, e avalie-se a função linear do
rendimento disponível resultante (1947-1964):

p
Y d = 320.284 + 0.434241 T p - 1.44190 Yr (55)

R 2 = 0.9920

S Y .12 = 11.870 S y2 = 17515.29

85
O resultado indica, com a crueza característica do ajuste linear,a compatibilidade
entre suposto efeito expansivo do “pagamento de impostos” na “renda disponível”.
Pode-se interpretar que as demandas públicas financiadas com os impostos e os
investimentos estatais são notáveis, e competem com os efeitos do “rendimento retido
pelos produtores” nos mesmos itens da expansão da “renda disponível”. Daí uma
componente importante da “inflação de custos”. O caráter expansivo das receitas do
governo dentro da economia fica bem caracterizada. Veja-se a outra variante do modelo,
para o mesmo período (1947-1964):

p
Y d = - 53.763486 + 208343781 T p + 7.2350080 Yr (56)

R 2 = 0.976232

R 2 ajustado = 0.973063 F = 308.0461

Os valores resultantes do ajuste acham-se no Gráfico 29.

Gráfico 29

Rendimento Disponível e Similar Computada a Partir de Impostos


Pagos ao Governo e Renda Retida Pelos Produtores - 1947/1964

700

600

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

86
Uma vez mais é indicada a forte flutuação econômica característica do pós 2ª
Grande Guerra, em que os movimentos de capital eram limitados pela demanda dos
países em reconstrução, particularmente na Europa. Este era um dos fatores favoráveis
para a industrialização substitutiva, e daí que as flutuações não devam ser vistas como
necessariamente um impeditivo para os resultados obtidos. O ajuste não-linear, mais
sofisticado, indica nitidamente o gradual predomínio do “rendimento retido pelos
produtores”, possivelmente, devido ao caráter institucional do modelo, obtido ao nível
não-econômico (administração Quadros, parlamentarismo, etc.).

Inclua-se agora no modelo da “função renda disponível”, a “renda líquida


enviada ao exterior”, em ambas as variantes, e aprecie-se o resultado para o período
(1947-1964):

p N
Y d = 251.957 + 0.489244 T p + 0.1469 Yr + 8.7257 YSA (57)

RY2.123 = 0.99831 S Y2.123 = 519.488

Ao considerar-se apenas o relacionamento da variável dependente e

“pagamentos de impostos ao governo”, obtém-se rY22.1 = 0.9735

Quando se considera a variável dependente e “rendimento retido pelos

produtores”, fixando-se “pagamento de impostos”, tem-se: rY22.1 = 0.6979.

Quando se incluem as 4 variáveis, o “poder associativo” entre a “dependente” e

“renda líquida enviada ao exterior” (NYSA) é: rY23.12 = 0.7875, um bom resultado para
a melhoria de ajuste do modelo.

A variante do modelo pode ser:

p N
Y d = - 52.599734 + 2.9356454 T p + 7.6968577 Yr - 7.9434222 YSA (58)

R 2 = 0.977742

R 2 ajustado = 0.972972 F = 204.9944

O ajuste resultante pode ser apreciado no Gráfico 30:

87
Gráfico 30

Renda Disponível e Similar Computada Desde os Impostos Pagos, a Renda


Retida Pelos Produtores e a Renda Líquida Enviada ao Exterior - 1947/1964

700

600

500

400

300

200

100

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100

Resíduos Observado Ajustado

O modelo indica novamente a “competição” entre o papel dos impostos no


crescimento de renda disponível e o papel específico da “renda retida pelos produtores”.
Por outro lado, o crescimento do rendimento disponível implica uma redução brutal da
renda líquida enviada ao exterior, como é próprio da industrialização substitutiva. A
conjugação das quatro variáveis implica uma pendente “exponencial” para o
crescimento da renda disponível, com altos níveis de acumulação.

O resultado pode ser interpretado a indicar tanto a força do modelo


multiequacional quanto o poder coadjuvante explicativo da renda líquida enviada ao
exterior, no caso do Brasil, período 1947-1964. Evidencia-se a importância do fluxo de
capitais no processo de crescimento e confirma a hipótese sobre a industrialização
substitutiva. O movimento dos capitais está em íntima relação com as mudanças na
renda real disponível, verificando-se tal intimidade mesmo no caso de países
subdesenvolvidos, bem atrás no tempo contemporâneo, como caracterizou este
exercício.

88
F) Função da Dívida Externa

A importância da “renda líquida enviada ao exterior” e seu relacionamento


“inverso” com a “renda disponível” leva a refletir sobre as relações empíricas da função
dívida externa.

Omitindo aqui o tratamento da construção de tal modelo, pode-se passar


diretamente à verificação empírica de suas hipóteses, que enquadram-se na mesma ótica
do consumo e do rendimento disponível. Por exemplo: qual o grau de explicação da
dívida externa (índice) FD t , pela renda disponível? Veja-se este desempenho para o
período 1947-1964:

FD t = - 28.013795 + 0.6228568 Y d (59)

R 2 = 0.940730

R 2 ajustado = 0.90730 F = 270.8227

Os valores referentes encontram-se no Gráfico 31:

Gráfico 31

Dívida Externa e Similar Computada Desde a Renda Disponível -


1947/1964

400

350

300

250

200

150

100

50

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-50

Resíduos Observado Ajustado

89
Vê-se que há grande associação entre as duas variáveis. Nos períodos de 1948-
1954 e 1961-1963, as variações na renda disponível tendem a superestimar o montante
(do índice) da dívida externa; por outro lado, no período 1956-1960, há uma tendência a
subestima-la. Como se explicam tais diferenças? Primeiramente, a dinâmica específica
do mecanismo da industrialização substitutiva beneficiou-se mais dos ganhos da
importação nos períodos 1948-1954 e 1961-1963, que no período 1956-1960. Além
disso, o período 1956-1960 conheceu um incremento dos influxos do capital certamente
para cobrir diferenças na capacidade importativa de bens de capital (vide instrução 113
da SUMOC), manifestando-se aí a flutuação em relação aos outros dois períodos.

O “consumo pessoal” é outro macro agregado geralmente indicado como


responsável direto pelo tamanho da dívida externa. Deve, portanto, apresentar um bom
poder explicativo para a mesma (1947-1964):

FDit = - 51.210967 + 0.8248074 C (60)

R 2 = 0.956762

R 2 ajustado = 0.954060 F = 354.0466

Pode-se apreciar a qualidade resultante do ajuste no Gráfico 32. Vê-se que, para
o consumo pessoal, a dívida externa deveria situar-se num nível mais alto à partida
(36% a mais) e encontrar-se, mesmo, a um nível ainda alto no fim do período 1957 e
1958; como1947-1949, são estes anos de notável discrepância. Vê-se, assim, que o
consumo pessoal efetivamente cresceu em discrepância da expansão direta da dívida
externa no período, e isto pode ser um indicativo de relativa separação entre os dois
conjuntos de forças que moldaram ambas as variáveis.

90
Gráfico 32

Divida Externa e Similar Computada Desde o Consumo Pessoal -


1947/1964

350,000

300,000
250,000

200,000

150,000
100,000

50,000
0,000
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-50,000

Resíduos Observado Ajustado

Quê capacidade explicativa ter-se-ia então para os “termos-de-troca”, TT, na


função do endividamento externo (1947-1964)?

FDit = 85.598642 + 0.7071761 TT (61)

R 2 = 0.015856

R 2 ajustado = 0.045653 F = 0.257782

Os termos-de-troca aparentemente não guardam uma aproximação com o perfil


da dívida externa, devendo-se buscar sua explicação em forças de outra natureza. De
fato, o Gráfico 33 nos demonstra que, para os termos-de-troca, o endividamento externo
deveria sempre flutuar em torno de um valor intermédio, aproximadamente os valores
de 1956-1957.

91
Gráfico 33

Divída Externa e Poder Explicativo dos Termos de Troca - 1947/1964

350
300
250
200
150
100
50
0
-501947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-100
-150

Resíduos Observado Ajustado

A consideração dos modelos (60) e (61) em seus resultados indicam


favoravelmente a análise da industrialização substitutiva. Os termos-de-troca são
“usados” como “guarda-chuva” para o crescimento do mercado interno, que se expande
cada vez mais à sua revelia, exceto o aspecto de maximizar os ganhos das importações.
O “consumo pessoal”, conseqüentemente, se beneficia desta ruptura comportamental,
tomando o caminho clássico (“desenvolvido”) de associação com a “renda disponível”.
Quê poder explicativo teria a produção de aço e duráveis (tomado aqui como um índice
ponderado da produção de aço e veículos) para explicar a função do endividamento
externo (1947-1964)?

FDit = - 19.016903 + 1.4250128 SVi (62)

R 2 = 0.970546

R 2 ajustado = 0.968705 F = 527.2223

A qualidade do ajuste torna-se maior a partir de 1950. Conforme se vê o Gráfico


34, os valores estão próximos, mas não se confundem. Os períodos 1947-1949; 1952-

92
1955; 1957 e 1963 mostram-se nitidamente distanciados da curva de ajuste. É evidente
que a produção de aço e duráveis (no caso, representado por veículos), uma força nova,
não se “encaixa” aos marcos da flutuação “normal” da economia do período. Mesmo
assim, a variável se mostra capaz de explicar a função do endividamento externo.

Gráfico 34

Dívida Externa e Similar Computada a Partir da Produção


de Aço e Duráveis - 1947/1964

350

300

250

200

150

100

50

0
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-50

Resíduos Observado Ajustado

Um raciocínio pode ser feito, qual seja, que o crescimento da produção de aço e
de duráveis, em virtude de seus ritmos acelerantes, aproxima-se das demandas de
internacionalização caracterizadas pelos nossos consumos e fluxos de capital.
Consequentemente, da dívida externa (que é um desses fluxos).

Qual seria o poder explicativo da “renda líquida enviada ao exterior” (NYSA),


para a função endividamento externo(1947-1964)?

FDit = - 2.4079048 + 66.629280 YSA


N
(63)

R 2 = 0.643017

R 2 ajustado = 0.620706

93
Vê-se poder explicativo superior a 60%, que é um bom resultado, mas que
implica dizer estarem a “renda líquida enviada ao exterior” e o “endividamento externo”
no período amplamente dissociados (40%); ou seja, cada qual conformada por um
conjunto de forças bastante diferentes.

Insere-se daí que o endividamento externo não foi uma função decisiva para
explicar o desempenho econômico no período da industrialização substitutiva. Isso se
torna visível mesmo que se amplie o período de avaliação. Por exemplo, de 1947 para
1970 (em vez de 1964). Como elemento comparativo, examine-se o poder explicativo
da renda disponível, (vide 59) para o período 1947-1970:

FDit = 5.5235867 + 0.4931262 Y d (64)

R 2 = 0.930275

R 2 ajustado = 0.927106 F = 293.5262

Há um decréscimo da elasticidade da renda disponível, mas pouca variação nas


estatísticas de análise de ajuste. Nesse caso, a renda disponível indicaria um nível mais
alto para o (índice) endividamento, à partida, com uma distribuição mais suave da
pendente. O desempenho pode ser apreciado no gráfico 35.

Se o crescimento da dívida externa leva a uma expansão da renda disponível,


então o impacto do multiplicador irá depender do ritmo de progressão da dívida externa.
Quando os estatísticos indicam uma maior associação entre o ritmo decrescente da
renda disponível e o ritmo decrescente da dívida, então faz-se evidente que as diferenças
das taxas – a crescer no futuro, ceteris paribus – expressa um efeito favorável da dívida
para o (1) crescimento no curto e no médio prazos e menos favorável (ou até
desfavorável) para (2) o crescimento da renda disponível no longo prazo. Ou seja, na
troca de ganhos futuros por ganhos presentes, o custo da troca tende – nesse caso
especifico – a aumentar de forma considerável no futuro. Tal indicação equacional,
sendo empírica, não poderia facilmente ser obtida como informação de outro modo.
Contudo, isso depende da persistência da política econômica atual (até 1970). Como se
sabe, a política econômica do endividamento externo foi mudada no fim do período
(1964 – 1970) e a diferença faz-se visível no gráfico.

94
Gráfico 35

Divída Externa e Similar Computada Desde a Renda Disponível -


1947/1970

500

400

300

200

100

0
1947

1948
1949

1950
1951

1952
1953

1954
1955

1956
1957

1958
1959

1960
1961

1962
1963

1964
1965

1966
1967

1968
1969

1970
-100

Resíduos Observado Ajustado

O processo de endividamento é motivado por razões de ordem cíclica e ao ser


aplicado como medida anticíclica gera por si mesmo novas flutuações. O capital se
torna escasso ou abundante de acordo com as pendentes industriais de ascensão ou
descensão e existe nelas uma diferença temporal entre o centro e a periferia. Dessa
amaneira, o capital que se torna ocioso no centro, pode ser aplicado na periferia para
sustentar-lhe a expansão, mas ele exigirá uma taxa de remuneração muito elevada para
não retornar ao centro, tão logo passe a flutuação. Nesse sentido, as taxas de juros
expressam médias mercadológicas da relação procura por capital no centro x procura
por capital na periferia e seu movimento – embora cíclico – obedece a forte tendência
ascensionista no longo prazo. Por isso que a sustentação prolongada de dividas externas,
em um contexto ausente da medida ouro das mercadorias, leva a uma política de
desvalorização unilateral na periferia do sistema e à ascensão dos preços industriais –
artificialmente – no centro. Daí as dificuldades periféricas para expandir a renda
disponível com base no endividamento externo.

95
O gráfico nº 36 indica o perfil do índice da dívida externa no período 1947-1970,
e a variável estimada para a mesma a partir da renda disponível:

Gráfico nº 36

Índice da Dívida Externa e Similar Computada a Partir da


Renda Disponível - 1947/1970

500

400

300

200

100

0
1948

1950

1952

1954

1957

1959

1961

1963

1965

1967

1969
1947

1949

1951

1953

1955
1956

1958

1960

1962

1964

1966

1968

1970
-100

Resíduos Observado Ajustado

(a variável estimada) está por cima dos valores observados no período 1947-1955,
colocando-se por baixo dos valores observados de 1956 a 1964. A posição se altera
novamente no ano de 1970, em que o valor estimado rebaixa o valor observado. Pode-se
supor, assim que, a partir da renda disponível, dadas suas variações de crescimento, o
nível do endividamento poderia ser mais alto no período 1947-1955. Não o foi,
certamente, devido à inadequada oferta do fluxo de capitais, canalizado para os países
em reconstrução, e o conseqüente caráter da industrialização substitutiva, responsável
em grande parte pela expansão do rendimento disponível. No período 1956-1964, fase
final da industrialização substitutiva, as oscilações da renda disponível tenderam a
subestimar o perfil do endividamento, acelerado este pelo período de liberalização
kubistchekiano e a política de associação com o capital externo. Tal caracterizou o
início da expansão automobilística.

96
Volte-se ao período 1947-1964. Caso se acrescente no modelo (46), que dá o
poder explicativo do índice de aço e duráveis, o poder específico da “renda líquida
enviada ao exterior, do modelo (47), advém:

FDit = - 18.883876 + 1.4278531 SVi - 0.2002432 YSA


N
(65)

R 2 = 0.970548

R 2 ajustado = 0.966621 F = 247.1524

Nesse período, ao efeito de aceleração da dívida corresponde a um crescimento


da produção de aço e duráveis, com pequena redução da renda líquida enviada ao
exterior. Estas características podem, portanto, indicar para políticas públicas de
endividamento externo, associadas com a expansão dos duráveis. Este caminho foi
efetivamente trilhado no pós-64. O Gráfico 37 oferece o ajuste resultante:

Gráfico 37

Dívida Externa e Similar Computada a Partir do Indíce de "Aço &


Duráveis" e da Renda Líquida Enviada ao Exterior- 1947/1964

350,00

300,00

250,00

200,00

150,00

100,00

50,00

0,00
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-50,00

Resíduos Observado Ajustado

Qual será, pois, o desempenho deste modelo, ao se incluir a renda disponível,


para o período 1947-1964?

97
FDit = - 28.930099 + 0.8609152 SVi + 3.158999 YSA
N
+ 0.2418666 Y d (65)

R 2 = 0.983494

R 2 ajustado = 0.979957 F = 278.0565

A qualidade do ajuste pode ser apreciada no gráfico 38.

Gráfico 38

Divida Externa e Similar Computada a Partir do Indíce de "Aço & Duráveis", da Renda
Líquida Enviada ao Exterior e da Renda Disponível - 1947/1964

350,00

300,00

250,00

200,00

150,00

100,00

50,00

0,00
1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964
-50,00

Resíduos Observado Ajustado

O crescimento da produção de “aço & duráveis” acompanha o crescimento da


renda líquida enviada ao exterior a da renda disponível; nestas condições pode ocorrer o
decréscimo da dívida externa, cuja pendente é, contudo, bastante acentuada. Pode-se
interpretar, portanto, do relacionamento das variáveis no modelo, o não-esgotamento da
capacidade expansiva da industrialização substitutiva, no período 1947-1964.

(Lund, Agosto-Setembro, 1982, outono).

98
Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de História

Balanço do período 1963-1980: o crescimento por via das exportações.

Orientador: Professor Lennart Jörberg

Por: Wilson do Nascimento Barbosa

Área de História Econômica

1982

Instituto de História Econômica


Faculdade de Ciências Sociais
Universidade de Lund - (Suécia)
(Traduzido do Inglês pelo Autor)

99
1. Introdução.

O período posterior à recuperação da crise de 1929 até o começo dos anos 60,
foi baseado em políticas para o crescimento econômico do tipo de industrialização
substitutiva. Depois dessa experiência, e devido à mudança do regime político ocorrida
em 1964, o país reorientou as suas políticas no sentido de estimular as exportações,
combinando-as com medidas para a concentração do rendimento. O objetivo último era
acelerar as taxas de crescimento econômico.

A nova visão do governo era agora orientada para promover um tipo mais
restrito de políticas expansivas, baseando-se nos ramos que expressavam as novas
forças da industrialização no exterior, no pós-guerra. Estas forças também
desempenharam um papel acumulador na industrialização brasileira, durante os anos 50.

As hipóteses fundamentais por detrás dessas novas políticas podem ser


enfeixadas como segue: (a) os problemas do processo de crescimento no Brasil não
eram resultado de traços estruturais profundos, mas simplesmente decorriam de uma
orientação inadequada da acumulação; (b) conseqüentemente, a escassez de capital, os
desequilíbrios comerciais, a baixa capacidade de compra no exterior e a industrialização
por via substitutiva eram fracassos associados, que podiam ser removidos pela aplicação
de uma política mais compreensiva; (c) a inadequada taxa de acumulação ou formação
de capitais resultava de mecanismos institucionais de natureza inflacionária, ao nível do
crédito e de salários excessivos aos trabalhadores.

Para recolocar os mecanismos de controle de política econômica nas mãos do


governo, providenciaram as novas autoridades um forte aperto econômico, através do
qual se supunha eliminar uma das mais típicas distorções da ordem econômica anterior:
a inflação.

De fato, o aperto econômico acelerado pela política das autoridades públicas


(1964-1966) reduziu as taxas de inflação mas também expandiu em muito a capacidade
ociosa da economia doméstica a níveis novos. A política do “pacote econômico”, que
promoveu o aperto era também considerada como capaz de reduzir o papel do Estado na
vida econômica; por este caminho, atrairia capital do exterior em quantidades
suficientes para retomar o nível adequado de investimento interno. Uma liberalização
extensiva dos mecanismos institucionais seria o elemento para tanto.

100
Na prática, o aperto econômico favoreceu a saída de capitais já tementes da
instabilidade interna e, por outro lado, começava a refletir os ritmos mais acelerados de
industrialização da Ásia. Em parte devido a esta saída de capitais, em parte devido às
políticas adotadas, a retomada do crescimento, a partir de 1967, se fez apoiada sobre a
capacidade ociosa da economia. Lentamente, foram retomados os empréstimos no
exterior, em parte para financiar o próprio relance do crescimento.

O novo surto foi, portanto, já de origem caracterizado por flutuações na taxa de


investimento. A estrutura dos investimentos em capital fixo revelou no período a
prevalência de uma forte política pública, mantendo os desequilíbrios entre os ramos e
orientando-se para taxas mais altas de crescimento do produto interno. Por outro lado,
os investimentos aprovados oscilavam pronunciadamente.

Permaneceu o desequilíbrio estrutural do comércio exterior brasileiro no período


da expansão internacional de 1963-1973, a despeito das expectativas do governo, no
sentido que a nova política de estímulo das exportações reverteria por completo a
posição desfavorável do poder de compra do país no resto do mundo. Em valor
constante em dólares, apenas 1969 mostrou um poder de compra positivo.

Assim, tanto o governo como o setor privado apoiaram-se gradualmente e cada


vez mais na importação de capitais de qualquer natureza para tentar ultrapassar os
recursos em cambiais, do que consideravam um resposta insuficiente do comércio
exterior. Os recursos amealhados, emitida a contraparte em moeda nacional, iam
engrossar a capacidade total doméstica de pagamentos ao exterior.

Isso produzia, de fato, um fluxo crescente de custos para o capital, enquanto a


posição internacional evoluiu no período 1971-1973, quanto à estrutura dos
financiamentos, criando-se mesmo uma conjuntura recessiva a partir de 1974. O
comércio exterior ampliava as variações de sua flutuação, com forte ônus dos preços
industriais, para fazer face à crescente demanda de bens do Terceiro Mundo e o
desdobramento da primeira crise do petróleo. O Brasil estava desconfortável à época,
como o primeiro importador de petróleo.

101
2. Orçamento Público e Crescimento

A economia brasileira expandiu-se notavelmente no período 1964-1980,


conquanto apresentando flutuações econômicas de ordem considerável, sempre a exigir
manipulações constantes da parte do poder público. Estas flutuações estavam
conectadas com as políticas que estimulavam um processo de crescimento mais rápido,
com grande variação de ênfase nos componentes do investimento. No entanto, tais
variações tornavam mais bruscas as viragens de efeito estrutural.

Neste período, o país entrou numa fase mais rápida de acumulação, ou de


formação de capitais, associada agora com a expansão dos ramos petroquímico,
metalúrgico e material elétrico e de transportes. Esta expansão generalizada dos ramos
mais pesados das indústrias estava a requerer das autoridades públicas créditos e
investimentos maciços, o que implicava também um esforço da melhoria da coleta de
impostos, para financiar os recursos demandados pelo crescimento.

Os principais componentes que explicam as taxas mais altas de expansão no


período, foram: (1) a expansão da capacidade para exportar; (2) um amplo montante de
entrada de capitais; (3) a expansão da capacidade de investimento e particularmente a
expansão das obras de infra-estrutura; (4) a importação em larga escala de tecnologia;
(5) o amplo montante da poupança interna induzida pelo mecanismo inflacionário;
coordenado pelo maciço fluxo de recursos gerado pelo governo.

A capacidade de exportação do país no período 1964-1980 cresceu a uma taxa


de 17 por cento ao ano, em valor de dólares nominais; considerando a mesma medida,
as importações cresceram a uma taxa anual de 19,4 por cento. O resultado do
crescimento das exportações é bastante notável, ainda que o desequilíbrio haja no
período permanecido.

Um aspecto importante é que os fundos levantados pelas exportações não eram


proporcionalmente tão favoráveis como aqueles obtidos havia 30 ou 40 anos atrás. A
elaboração dos preços relativos não favoreceu o comércio do Terceiro Mundo. Portanto,
a estagnação relativa do comércio exterior não podia ser explicada apenas – como na
voz oficial – pelas políticas domésticas adotadas. A persistência do desequilíbrio
comercial externo, associada com o esforço do poder público para financiar políticas de
crescimento acelerado, conduziu o país a adotar a política de contínua liberalização, sem

102
escolha da via ou do nível de internacionalização. Tal estimulava a entrada de recursos
desde o exterior. Conquanto o governo brasileiro intentasse no período a política de
balanceamento do orçamento público, esta política revelou-se uma formalidade pela
tática das autoridades de desglosamento do orçamento em cinco peças distintas, que
escamoteavam o verdadeiro quadro das aplicações.

Este sistema de contas paralelas era fomentado pelo caráter não-democrático dos
poderes instituídos. As manipulações escamoteavam as relações do orçamento
financeiro com o orçamento cambial, efeitos das desvalorizações, empréstimos, emissão
de moeda, velocidade de crédito, etc. Inexistia um balanço geral contábil da economia
nacional. Esta situação, obviamente, permitia acomodar muitos interesses. Nestes
termos, o chamado balanço do Tesouro não refletia no período o estado-de-contas da
Nação, mas apenas o movimento de caixa do guichê do Ministério da Fazenda. Tal
manobra permitiu escamotear o estado efetivo de desequilíbrio em cerca de 90%.

As políticas-chaves para o equilíbrio no curto prazo continuaram sendo: (a)


manipulação da taxa de redesconto ; (b) emissão monetária; (c) empréstimos internos e
externos. Cobriam-se assim as necessidades básicas de investimento e de procura
cambial, enquanto o discurso oficial caracterizava estas práticas como anteriores à
reforma de 1964. Mais tarde se acrescentaria forte expansão de títulos financeiros (anos
70).

De fato, os responsáveis pelas políticas oficiais pós-1964 estavam numa posição


ética menos confortável que os antigos formuladores das políticas de substituição de
importações. Enquanto o jogo mais democrático do período anterior permitia um
conhecimento das linhas públicas de ação, no período pós-64 tal conhecimento era
obscurecido por uma propaganda sistemática e talvez sem fundamento objetivo.

Deixando de lado os aspectos propagandísticos e ideológicos, a taxa de expansão


do estado na economia no período pós-1964 foi maior quando comparada com qualquer
outra no passado moderno do país. A multiplicação das empresas de propriedade ou de
controle do estado fez-se a partir de setores que exigiam investimentos e serviços muito
amplos, como a geração e distribuição elétrica, telecomunicações, transporte pesado,
produção de aço, etc. Daí penetrou em áreas de pesquisa e alta tecnologia, como
informática (máquinas), aviação, etc. Finalmente, através da rede bancária, chegou a

103
atingir hotéis, fazendas, pequenas fábricas, etc. Tal tipo de expansão não obedeceu,
evidentemente um plano ideológico, mas a conjunção entre demandas efetivas do
crescimento econômico e ineficiências decisionais, como é característico dos países em
desenvolvimento, sempre que são suprimidos os mecanismos de controle da ação direta
do poder público.

No caso brasileiro, pela inexistência de ordem democrática, impedia-se exercer


qualquer tipo de controle da autoridade pública. Isto contribuiu certamente para a
expansão excessiva e ineficiente do setor público. O resultado ver-se-ia por certo na
conta geral do país, se houvessem permitido existir tal conta.

Portanto, a inexistência dessa conta geral de balanço, impediu aos pesquisadores


do período penetrar nas relações de detalhe entre o excedente de moeda nacional e a
base monetária, o movimento efetivo das contas cambiais, a indução efetiva dos
investimentos públicos; a relação da dívida externa com as flutuações econômicas, a
abertura e o aperto do crédito interno, etc. Uma análise do relacionamento destes itens
um a um requer a publicação honesta de dados cruciais, permitindo avaliar assim, em
termos objetivos, a qualidade das políticas públicas no período.

No período em análise, a participação dos impostos diretos nos rendimentos


totais federais decresce 9,2 por cento. Contudo, um dos pontos fracos característicos da
arrecadação fazendária do período foi na coleta do imposto direto, prejudicada também
a sua ação por abusivas facilidades para investidores de altos rendimentos, tudo isso
coadjuvado por políticas fiscais deficientes, do ponto-de-vista do equilíbrio fiscal e do
financiamento do crescimento econômico. Somente a crise econômica de 1981-83 levou
o governo a políticas mais igualitárias no plano fiscal.

Sob a hipótese de que os impostos indiretos caem sobre consumidores e não


sobre poupadores, o governo insistia nas arrecadações de fonte indireta, agravando o
custo desigualmente distribuído resultante das políticas concentracionais para
crescimento mais rápido. No entanto, na crise referida, foi obrigado a pagar seus custos
com os recursos arrecadados, reduzindo as benesses para os proprietários e empresários.

104
3. Endividamento público

Enquanto que o rendimento dos 5 por cento da ponta de cima dos pagadores de
imposto de renda cresceu anualmente em termos reais no período a uma taxa média de
11,5 por cento, o pagamento que fizeram de imposto direto ao governo cresceu – no
mesmo período – a 9,3 por cento ao ano. O governo concedeu-lhes assim um ganho de
26,7 por cento sobre a taxa de crescimento. Ao mesmo tempo, os impostos indiretos
cresceram, em termos reais, a uma taxa anual de 6,2 por cento.

Persiste a impressão que as autoridades públicas evitaram expandir a posição


relativa dos impostos diretos, assumindo como baixo o nível geral do rendimento
disponível no país. Apesar disso, na adoção do caráter regressivo potencialmente
existente neste tipo de imposto (direto) poder-se-ia utiliza-lo mais extensivamente como
mecanismo de redistribuição de renda e de política anticíclica, ao fazê-lo progressivo.
Seria ferramenta adequada para reduzir a emissão monetária e o crédito não-
especificado, com especial referência para o período posterior a 1971.

Adotaram-se ainda internamente outros pontos de política que tornam os


impostos diretos menos relevantes para o controle dos parâmetros da política monetária.
Pode-se exemplificar com a relação existente quanto à política cambial, e o mecanismo
– monótono – da política de desvalorizações constantes. A desvalorização contínua
revela, ao menos, falta de imaginação. De fato, a política cambial devia estar
subordinada a uma direção estratégica de internacionalização. Ao ser usada como um
mecanismo de concentração de renda e estímulo inflacionário, ao lado de uma política
fiscal frouxa, revelou-se um estimulador à dolarização da economia, com a conseqüente
exportação de capitais nacionais.

Por outro lado, a política de desvalorização contínua da moeda nacional deprime


o valor agregado pelo trabalho, numa economia fundamentalmente intensiva em
trabalho. Há perda, portanto, de ganhos relativos implícitos na política de importação.

Acelerados os efeitos monetários da moeda nacional, ela tem que ceder sua
função financeira a outra moeda de troca, reduzindo-se a simples instrumento de crédito
para compra de trabalho. O barateamento decorrente do trabalho estacional para a
agricultura de exportação, com o aumento no ganho dos exportadores no curto prazo,
deprime o mercado nacional, pela redução do consumo básico.

105
Vê-se também aqui que o governo – ao implementar tais políticas – não estava
interessado autenticamente na redução da massa monetária no mercado, ou na geração
de crédito seletivo: as autoridades pretenderam talvez apenas controlar “ex-ante” as
taxas de inflação, com um certo equilíbrio no efeito redistributivo do rendimento.

Esta política foi nitidamente adotada durante a administração Médici, quando


fortes entradas de capital puderam exercer pressão desequilibradora via emissão
monetária. Na administração subseqüente, o governo Geisel, os recursos assim gerados
foram maciçamente empregados na expansão da capacidade produtiva. Portanto, neste
governo, a inflação controlada pela indexação já era um mecanismo explícito de
acumulação.

Vendo as coisas de outra perspectiva, o governo evoluira gradualmente para uma


posição difícil, através da “política sistemática de liberalização não-orientada”. Davam-
se contínuos déficits de poder de compra no exterior, com mecanismos que vinham-se
alimentando mutuamente desde a administração Costa e Silva. Como resultado dessas
pressões desequilibradoras, o poder público foi levado a uma situação em que, para
realizar os investimentos maciços necessários ao crescimento acelerado, teve que se
apoiar definitivamente no endividamento externo.

A posição de decréscimo relativo da dívida consolidada foi, como em outros


paises, uma tendência também do crescimento brasileiro, após a 2ª Guerra Mundial.
Quanto à dívida flutuante e à dívida externa, elas tenderam a se ampliar. Estas
mudanças formais na estrutura da dívida refletiram as transformações correspondentes
na estrutura dos mercados financeiros internacionais e a realocação das taxas de juros.

A dívida flutuante, compreendendo a parte notável do volume das letras do


Tesouro Nacional, reflete em parte a necessidade de variação dos movimentos das
contas cambiais especiais, expressivas do mecanismo exportador. Os desequilíbrios
continuados aumentaram em muito a importância da dívida externa pública, para
efetivar a capacidade de compra do estado, internamente, e da Nação, externamente. A
massa de títulos posta em circulação sob a orientação do Tesouro visava enxugar o meio
circulante, podendo desempenhar-se apenas parcialmente como elemento positivamente
antiinflacionário.

106
Devido, adicionalmente, à posição do Caixa do Tesouro nacional, o simulacro de
uma posição balanceada para a aprovação do orçamento financeiro público, ano após
ano, havia de requerer a expansão da dívida flutuante, como um componente doméstico.
A expansão das letras públicas e outros papéis permitia induzir a taxa de juros, evitar
medidas fiscais efetivas e reduzir as emissões monetárias. A manipulação das posições
do mercado aberto e sua diversificação foi utilizada como um mecanismo controlador
da demanda monetária, equalizador da demanda cambial e, portanto condicionador da
evolução de crédito.

A dívida externa, finalmente, em seus diferentes aspectos, evoluindo sempre


para aval público, tornou-se em fonte rápida de obtenção de recursos cambiais,
expandindo o crédito doméstico e a capacidade de pagamento no exterior.

Parte considerável dos recursos amealhados por mecanismo público foi


destinada a grandes projetos sob controle estatal, para expansão da capacidade de
produção. Nesse sentido, a indução da política de investimentos, a partir do
investimento público, definiu o dinamismo atribuído pelo estado aos diferentes ramos.

4. Uma Interpretação

A expansão persistente do setor de propriedade ou de controle do estado,


iniciada nos anos 30, continuou referida também a atividades produtivas e não apenas a
serviços convencionalmente públicos. A eliminação da presença econômica do estado
ficou apenas no discurso das autoridades pós-1964.

Um setor dessas forças considerava, é certo, a presença expansiva do estado o


resultado de políticas errôneas, portanto, fenômeno de ordem subjetiva. Podia-se
observar, contudo, que a expansão dos setores econômicos em mãos do estado realizou-
se na época pelo mundo todo, como demanda de novos desenvolvimentos
internacionais, de crescente entropia. Neste sentido, o Brasil poderia dificilmente
constituir-se uma exceção. Nos EUA, no Japão e na Europa, o estado se caracterizou
neste período histórico (1964-1980) por um envolvimento cada vez maior com a ação
econômica, pelas pressões geradas pela guerra do Sudeste asiático, as lutas sociais, as
necessidades do crescimento econômico e das economias do bem-estar, novas
demandas tecnológicas, etc. Na tarefa de intentar a regulação dos ciclos econômicos,

107
como um produtor de bens e serviços infraestruturais, etc, o estado expandiu-se nos
EUA, na Grã-Bretanha, França, Escandinávia, Alemanha, Coréia, etc.

Por outro lado, no que se refere ao encargo e ao peso dos grandes investimentos
estruturais dos países do Terceiro Mundo, tinha sempre cabido ao estado arcar com tais
decisões e responsabilidades.

Nas condições em que se procurava uma marcha mais acelerada de crescimento,


as flutuações econômicas vinham-se tornando mais extensivas, exigindo-se, pois, uma
presença constante das autoridades públicas, para alterar continuadamente os
mecanismos em jogo.

Isto originou uma situação peculiar, que tem sido interpretada em diferentes
pesquisas como um “mercado estatal”. As vezes, uma “burguesia do estado” ou
“empresários estatais” são também caracterizados. Qualquer que seja a interpretação, a
economia mista, as vezes dita o “tripé”, desenvolveu-se muito no Brasil, com grande
destaque para a presença do estado, sob o discurso paradoxal de se estar a criar um
mercado de curso mais livre e mais competitivo.

Apesar da forte crítica feita no período pós-1964 às opiniões teóricas dos


estruturalistas da CEPAL-ONU e do ISEB-MEC, que no passado haviam contribuído
para a formação teórica de equipes favoráveis à ação do estado para o crescimento
econômico, as escolas de cunho ortodoxo, que prevaleceram no período do governo
militar, tem-se revelado incapazes de criar instrumentos efetivos, pelos quais diminuísse
a ação do estado. Na verdade, durante o período em que tem prevalecido tais escolas
“ortodoxas” do pensamento econômico, a intervenção do estado – diretamente política –
atingiu um grau sem precedentes na economia brasileira. Tal situação levou alguns
teóricos da própria linha liberal a qualificá-los como “estruturalismo bizarro”.

Vê-se, pois, que basicamente o esforço de industrialização pelo Estado tomou o


caminho do financiamento através do endividamento. Inadequações institucionais entre
a poupança e o investimento ampliaram o endividamento interno. Insuficiências
cambiais crônicas aceleraram o endividamento externo. Crédito em excesso, emissão
monetária descontrolada, emissão desequilibrada de títulos, déficit no exterior, eis os
principais instrumentos do poder público para assegurar o fluxo de recursos. Por detrás
destas formas viciadas de ação, percebe-se o próprio recorte superestrutural da

108
mentalidade do subdesenvolvido. Afim de cobrir os déficits no exterior, o governo
implementou aceleradamente a expansão da dívida externa, produzindo assim um
custoso fluxo de capital externo.

Como referido, os impostos indiretos, embora expandindo-se a taxas menores


que no passado, continuavam a principal fonte de receitas, reforçando-se este traço pela
melhoria da máquina de arrecadação do governo. Um modelo subdesenvolvido de
sistema fiscal promovia assim recursos para o crescimento: pode-se admitir que as
autoridades declinavam conscientemente de uma política fiscal eficiente, e insistiam nas
políticas monetárias como seu substitutivo. Tal política não foi apenas ineficiente: ela
reforçou de modo direto a concentração de rendimentos.

A mesma linha de raciocínio pode ser feita com relação à divida pública,
instrumento de “socialização das perdas”, como pontualizou certa vez o historiador
Werneck Sodré.

Daí que seja importante considerar o poder explicativo da dívida pública num
resumo das condições características do mecanismo da “industrialização-via-
exportações”. Resumindo:

(1) um cruzeiro subvalorizado – (um baixo valor cambial do cruzeiro) – Sob a desculpa
da ciranda dos valores das importações, dos salários, dos preços por atacado e a varejo,
dos quais os teóricos do poder público militar não sabem qual causa a inflação (teoria da
inflação recorrente), elegeu-se uma opção pelo cruzeiro em constante subvalorização,
como “mecanismo estimulador das exportações”. Diferentes ministros da área
econômica, como Delfim Netto e Mario H. Simonsen, reconheceram tal característica
pelo menos conjunturalmente. Na verdade, o uso desta ferramenta é um sine qua non
para os elaboradores da política econômica, porque eles precisam satisfazer a crescente
exigência por lucros mais altos dos setores exportadores. Ao mesmo tempo, buscam
ocultar a ineficiência e o baixo nível de investimento em tecnologia da economia da
exportação. Um certo nível de competitividade no exterior só pode ser mantido por
subsídios e por um cruzeiro subvalorizado.

Esta relação cambial do cruzeiro funciona como compensação, oferecendo


produtos e serviços domésticos a baixo preço no exterior, enquanto, devido à baixa

109
produtividade interna, gasta-se mais em produto físico e recursos humanos do que as
cambiais assim obtidas.

Consagrado o cruzeiro subvalorizado como a anti-barreira por excelência ao


crescimento das exportações, obtém-se como resultado doméstico a aceleração das
dualidades na distribuição do rendimento, ampliadas diferenças sociais de classe e nova
formação de mercados primitivos, como bolsões internos à industrialização. O valor
decrescente do trabalho doméstico e, por extensão, do conjunto dos bens de trabalho
intensivo, caracterizou-se, assim, no período, como mecanismo indutor de encolhimento
do mercado interno e gerador de subdesenvolvimento.

Vê-se, assim, que pela imprevidência dos elaboradores da política econômica, tal
mecanismo operava na economia doméstica com um efeito “boomerang”, uma vez que
os exportadores intentavam elevar a composição de capital de suas mercadorias
exportáveis, via capitalização mais intensiva; enquanto se deprimiam os principais
fatores, gerados nesta capitalização, a saber, a força-de-trabalho e outros do mercado
interno.

A procura de uma composição mais elevada em capital também resultava da


expansão da produção exportável, onde se caracterizavam as demandas e exigências dos
consumidores do resto do mundo. Neste sentido, as racionalizações projetadas pelos
exportadores para a produção de suas mercadorias obedeciam à injunções do mercado
externo, e não qualquer consideração de mercado interno ou de estratégia nacional.

Sucessivas desvalorizações da moeda corrente nacional, enquanto em parte


desejáveis para ajustar o mercado doméstico aos mercados externos, são menos
desejáveis quando têm por objetivo financiar liberalização em excesso do mercado. Pois
trazem consigo: endividamento, escassez de valores cambiais, saída em excesso de
moeda de câmbio, especulações de curto prazo, etc. Quando se baixa, para tais
objetivos, a taxa cambial, o primeiro efeito continuará sendo um preço mais baixo dos
bens domésticos para a demanda do exterior, estimulando-se, em conseqüência, as
exportações. Contudo, apoiar-se permanentemente nesse “ovo de Colombo” da política
econômica, conduz à desmoralização do trabalho doméstico ao nível das operações
produtivas. Ampliar-se-ão em decorrência tanto a carência de recursos cambiais como
os choques de interesse na sociedade doméstica. Praticadas de modo sistemático para

110
substituir investimento e aumentos de produtividade, as desvalorizações não limitam
apenas importações potenciais a custos decrescentes mas, pelo contrário, aumentam a
demanda por mais importações, para substituir produção doméstica similar, bloqueada
pelo desenvolvimento da dualidade.

A fim de evitar o efeito mútuo favorável das desvalorizações para o exportador e


o importador, far-se-ia necessário dar prosseguimento às políticas de substituição de
importações. Tal política não esgotaria o problema por si só, pois consideráveis recursos
para apoiá-la deveriam ser aplicados em pesquisa e desenvolvimento.

Sabe-se que tal é muito difícil nas condições de um país em desenvolvimento,


devido ao fato que exportadores e importadores estão intimamente associados. Muitas
vezes se constituem empresas comuns. Os benefícios das exportações não são sempre
transferidos para os produtores dos bens exportados, particularmente no caso de
produtos agrícolas e extrativos. O estado, ou seus agentes econômicos, mantêm os
ganhos cambiais e fornecem moeda nacional como maior parte do pagamento para os
produtores das exportações, crédito, assistência técnica, etc. Assim, a opção para uma
taxa cambial subvalorizada, enquanto torna os bens estrangeiros mais caros para a
compra doméstica, não garante por si mesma que as importações tenderão a ser
restringidas por tais preços desfavoráveis. Ou que induzirão melhorias na capacidade
exportadora.

A moeda doméstica subvalorizada é, portanto, associada com trabalho não


qualificado excessivamente barato, resultando desta cooperação reforço à concentração
de rendimento. Em face disso, parece ser natural que as autoridades façam esforços para
reduzir a tendência à expansão das importações pela via da produção doméstica de bens
concorrenciais do tipo importável, preferentemente de alto valor cambial, como
duráveis e artigos de luxo. Esta substituição de importações suntuária (Furtado) é
relacionada com os mecanismos de mais rápida criação e concentração de rendimento e
não é certo que tal é levado a cabo através da procurada redução de importações.

Um mecanismo adicional está relacionado com o comportamento do importador,


no caso das políticas contínuas de desvalorização. Se o importador não representa uma
considerável parte social do comércio importador doméstico, como geralmente ocorre
nas condições onde há grandes casas comerciais, o mecanismo das desvalorizações pode

111
compelir tal importador a algum grau de substituição das importações, através da
produção local de bens procurados na importação. O desenvolvimento das dualidades
do mercado de industrialização, favorece tais políticas. Tal mecanismo é, não obstante,
menos utilizável, se a política doméstica não opera para tornar os insumos procurados
mais baratos para a industrialização substitutiva. Assim, o uso deste mecanismo
potencial requeriria políticas parciais de liberalização, assim como a diferenciação das
taxas cambiais, como no caso dos sistemas de taxas múltiplas.

Conquanto inúmeras atividades manufatureiras se beneficiem dos mecanismos


restritivos das importações, as mais extensivas restrições estão em uso para proteger as
grandes empresas que operam na produção de duráveis e bens suntuosos, e não no
sentido de substituição de importações generalizada.

(2) A política de suporte da expansão de bens duráveis por câmbio preferencial e


mecanismo de crédito. – A importância atribuída à expansão dos duráveis é geralmente
relacionada à necessidade de gradualmente introduzir o país no mercado internacional,
como um produtor de componentes de duráveis e, através desta política, cortar-se o
círculo vicioso do país ser apenas um produtor primário de comodidades para
exportação. A fim de elevar a capacidade doméstica para produzir bens manufaturados,
deve-se admitir subsídios, via um grau dado de favores oficiais. Tal favor, no caso
brasileiro, é dado sob a forma de incentivos, cortes em impostos, facilidades para
importar equipamento e tecnologia, etc. Importante condição é o crédito fácil que
beneficia os produtores de duráveis, assim como preço baixo dos insumos produzidos
localmente, como eletricidade, aço ou ferro, trabalho, etc.

Uma questão poder-se-ia colocar sobre o modo pelo qual um câmbio


preferencial é estabelecido nas condições de um mercado livre, sob continuas
desvalorizações. Há formas compensatórias internas ao sistema bancário que tornam
difícil a comprovação da prática. Nas condições de um cruzeiro subvalorizado, ou talvez
devido a estas condições, a procura por recursos cambiais tendia a crescer fortemente, e
o governo, como é sabido, solicitava grandes parte destes recursos através de projetos
sob proteção oficial. A vinculação, através de uma escala de prioridades, entre projetos
e montantes de recursos cambiais consiste na prática do uso de um câmbio preferencial,
sem a necessidade de se estabelecer um leilão público a preços diferenciados da oferta
cambial disponível.

112
Mecanismos bancários de subsidiação do crédito promovem um baixo custo para
efeitos cambiais, via as quotas reservadas para os projetos.

(3) Uma forte presença do Estado na economia. – Esta condição é muito importante
quando o Estado é proprietário de grande número de empresas produtivas. A corrente
desvinculação vigente no país entre especulação financeira e expansão das atividades
produtivas foi um dos elementos que contribuiu para uma grande presença do estado na
economia. Na verdade, o mercado da Bolsa compreende um volume não significativo de
recursos, pelo qual não se pode financiar grandes projetos. Daí a tradição do estado,
através da ação de diferentes governos, em produzir mecanismos que o capacitem a
financiar os investimentos. Empresas como a CSN, a Petrobrás, o BB, a Eletrobrás,
Vale do Rio Doce, Costeira, etc. foram soluções óbvias em face da escassez de recursos,
oferta de mão-de-obra e disponibilidade de recursos físicos. O desinteresse e, mesmo,
hostilidade do setor privado a tais iniciativas, foi gradualmente se convertendo em
tentativa de obter a cessão do controle. Por outro lado, a presença do Estado em
indústrias alimentares, de tabaco ou processadoras de madeira carece de justificativa de
origem outra que a execução judicial, a favor de bancos públicos.

A expansão do setor industrial obedeceu pois às características permitidas pelo


sistema legal do país, e não apenas aos contornos de uma alocação governamental para
o desenvolvimento econômico.

Dentro do quadro do período em análise, o desempenho econômico de tais


corporações aumentou sempre de importância. Chegaram a alcançar mais de 50% do
investimento público total anual em patrimônio fixo.

Além da presença direta do estado como produtor, ele permaneceu no período


como força decisiva nas alocações do mercado, influenciando o mercado da Bolsa e
determinando as taxas do mercado financeiro e comercial-bancário.

(4) Uma crescente diferenciação na política de retornos remunerativos aos fatores


econômicos (com tendência para o arrocho salarial). A política pública para o trabalho
como um fator econômico foi fazer decrescer, em termos relativos, os investimentos
com esse componente. Escolas, educação, saúde pública, etc., perderam suas
participações relativas históricas nos dispêndios públicos. Esta política foi
complementada pelo estímulo a uma maior mobilidade no mercado de trabalho. O

113
limite legal para os movimentos sindicalistas foi rebaixado ao mínimo.
Consequentemente, revelou-se no período uma tendência para um crescente diferencial
interno a cada ramo e entre os ramos ou setores da economia, nos ganhos do trabalho.
Ao mesmo tempo, ampliavam-se os diferenciais entre as margens históricas de
remuneração fatoral ao trabalho e ao capital, para a ordem respectiva, na função de
produção, de 30 e 70 por cento cada qual. Esta política de ampliação dos diferenciais
implementava o fortalecimento de um mercado suntuário nas condições de uma
economia subdesenvolvida.

(5) Promoção das exportações. – O modelo das políticas de industrialização por via do
crescimento das exportações baseia-se num grande esforço para promover as
exportações. De fato, tal resultado é o outro lado das condições expostas em (1), uma
vez que os produtores e exportadores se orientam gradualmente para satisfazer
prioritariamente as demandas fora do país.

Neste caso, enquanto a posição do comércio exterior brasileiro não melhorava


comparativamente, apesar da aumentada eficiência, o volume absoluto de ganho das
exportações cresceu consideravelmente. Este fenômeno contribuiu para promover uma
mais ampla entrada de capital no país. Devido a insuficiente controle, boa parte desta
capital consagrou-se a movimentos especulativos de curto prazo, reduzindo os recursos
cambiais disponíveis. As atividades especulativas de curto prazo tiravam proveito da
política sistemática de desvalorizações. Na ausência de um dispositivo governamental
para controlar estas entradas e saídas de curto prazo, um custo adicional para a
liberalização advinha, portanto, daí.

A expansão do quantum das exportações, acompanhada por uma drástica


redução do valor relativo das mesmas, acarretou apenas um ganho em termos absolutos,
expresso em moeda forte. Tal contribuiu, ao lado da entrada e a capacidade em geral de
pagamentos no exterior. Por esta via foi consolidado o modelo de industrialização
através das exportações, termo pelo qual se pode descrever o conjunto das políticas
econômicas pós-1964.

(6) Um forte endividamento para financiar as condições resumidas em (1), (2), (3) e (4)
– Como referido previamente, o processo da dívida nacional foi manipulado para
contornar as flutuações cíclicas e financiar investimentos, para acelerar o crescimento

114
econômico. De um lado, tem-se os desequilíbrios do comércio e do balanço de
pagamentos, que exigem medidas equilibristas para cobrir dividas no exterior. Tais
desdobramentos implicam por conseqüência desvalorização monetária e cambial e
muitas outras manipulações. A insuficiência da capacidade de pagamentos no exterior,
decorrente da natureza do comércio externo e da política de mercado interno,
demandava a entrada de moeda externa, sob diferentes títulos, para cobrir posições de
despesa. Conforme referido, a política de desvalorizações foi a arma principal utilizada
pelo governo no período pós-1964 para contrabalançar estes desequilíbrios. Insiste-se
que esta arma tem um efeito “boomerang”, pois “reduz” o custo doméstico das
exportações, aumenta o endividamento externo e não estimula a melhoria da
produtividade.

Dentro deste cardápio de opções, o governo, em suas diferentes administrações,


estava fazendo uso de uma expansão sistemática da dívida nacional para manter um
certo equilíbrio do balanço de pagamentos e para apresentar uma posição expansiva do
poder de compra do exterior.

Do outro lado, na condição de responsável pela maioria dos projetos expansivos


na economia doméstica, o governo, que mantinha ao mesmo tempo uma situação de
quase monopólio das moedas estrangeiras, estava aplicando uma política de usar a
dívida como um mecanismo de concentração do rendimento.

As políticas cambiais e monetárias aplicadas para ajustar os mercados interno e


externo do país, aliadas ao mecanismo de indexação dos patrimônios, faziam do
endividamento nacional um estimulante da inflação, que recaía obviamente sobre
aqueles setores incapazes de indexar os seus rendimentos. Portanto, estas políticas
reduziam o rendimento real dos setores mais pobres e expandiam o rendimento real dos
setores mais ricos da sociedade.

O papel reduzido da política fiscal para ajustar o mercado brasileiro foi uma
política inadequada, adotada pelas administrações pós-64 e veio contribuindo assim, ao
longo do período, para aumentar as disparidades de rendimento, entre indivíduos e entre
regiões.

Poder-se-ia pois concluir que as condições (3), (4), (5) e (6) foram de grande
importância para acelerar as mudanças na estrutura da procura relativa doméstica, e,

115
portanto, capazes de promover crescimento mais rápido. Este crescimento acelerado,
contudo, mostrou uma quantidade de flutuações maior que no passado pré-64, exigindo
um influxo enorme de recursos do exterior para evitar estagnação. Um fato cabal aqui
foi a aceleração da internacionalização, sem que a mesma obedecesse a uma política de
mercado interno. Tal aceleração encurtou o tempo cíclico necessário para ajustar a
economia doméstica, sem haver criado movimento mais rápidos de produtividade, e,
consequentemente, de amortização e formação de capitais.

Em face das montantes pressões de consumo e também das demandas por


investimentos, os governos reorientaram as políticas públicas para o crescimento
preferencial dos duráveis.

As políticas pós-64 fizeram uma opção por adicional concentração de renda e


expansão dos duráveis, uma vez que a opção por ampla distribuição de rendimento não
seria compatível com crescimento mais rápido.

Através de suas diferentes tentativas, as autoridades estavam de fato


respondendo à pergunta: como produzir uma política restritiva de tal natureza que
fizesse as taxas de juro subirem e melhorar a posição do mercado externo, enquanto
reduzisse os salários reais a o investimento interno a longo prazo?

O pacote adequado gerado pela política pública foi combinado: (1) redução do
consumo interno de itens tradicionais, para estimular as exportações; (2) capacidade
ociosa acumulada e até crescente; (3) dualidade no mercado de trabalho, subemprego e
desemprego extensivos; (4) desvalorizações continuas; (5) concentração de rendimento
adicional; (6) expansão dos duráveis e produção de luxo. Enquanto que as raízes de tais
decisões de política econômica podem ser remontadas ao processo mesmo de
industrialização, a aceleração deste processo e a eliminação de uma certa liberdade do
trabalhador no mercado de trabalho contribuíram, em grau particular, para o curso
definitivo das políticas pós-64.

A liberalização em excesso vinha reduzindo a capacidade da economia


doméstica para absorver o impacto de acontecimentos internacionais e contribuía para
custos elevados domésticos de capital e produção, com relação aos padrões
prevalecentes no exterior. O governo, no afã de implementar as políticas de padrão pós-
64, subestimou provavelmente o papel do estado como agente econômico direto, desde

116
o período anterior e intentou financiar – muitas vezes com o recurso da poupança
externa – um curso de desenvolvimento mais livre no mercado. Isto a partir do jogo das
empresas internacionais e do setor privado interno. Para tal fim, as empresas públicas
deveriam subsidiar um mercado favorável, ainda que trabalhando com saldos negativos.

Para financiar esta nova circunstância, um papel particular era agora atribuído a
crescentes exportações, as quais, não obstante grande expansão, revelaram-se incapazes,
seja de pagar as importações crescentes, seja os novos custos do movimento de capital.

A causa para este fracasso parece ser a liberalização em excesso, promovida sem
orientação estratégica, pelas autoridades brasileiras. A política de desvalorização
contínua, entre outras, excedeu a capacidade de absorção da economia doméstica, que
ficou assim impossibilitada de seguir as expansivas demandas de capital externo e seus
custos. Com relação a outros insumos, evoluções desfavoráveis como a crise do petróleo
aliaram-se às políticas erradas resultantes da liberalização em excesso.

5. Comércio Exterior Desfavorável?

Um balanço dos resultados positivos da industrialização no período 1964-1980


deve incluir uma visão de conjunto sobre os efeitos do comércio exterior no poder de
compra, evolução do rendimento e desempenho de ramos industriais, sob a ótica
analítica da teoria da distribuição. É sabido que desde o final dos anos 50 os preços dos
bens primários sofreram desenvolvimento negativos em termos relativos, causados em
parte pela oferta excessiva dos mesmos. E, de outra parte, como resultado das políticas
inadequadas dos países do Terceiro Mundo e da política de barreira comercial e
estímulo a competição, aplicadas pelos países industriais.

117
Tabela 1 – Poder de Compra Brasileiro das exportações Em Dólares Norte-Americanos
de 1972
Valor FOB das Termos Nominais de Poder de Compra Variações nos termos
Ano Exportações Troca 1956 = 100 das Exportações de troca (4) – (2)

(1) (2) (3) (4) (5)


1971 3,025 78 2,360 -665
1972 3,991 83 3,313 -678
1973 5,865 88 5,161 -704
1974 6,920 56 3,875 -3.045
1975 5,825 64 3,729 -2,098
1976 7,654 73 5,587 -2,067
1977 8,645 90 7,781 -864
1978 8,142 83 6,982 -1,430
1979 9,335 84 7,841 -1,494
Fonte: Banco Central e Banco do Brasil
Survey Of Economic Business, USA, ano 1972
FIBGE: Anúarios Estatísticos

Diante deste desenvolvimento da situação no exterior , as autoridades brasileiras


intentaram promover a expansão e a diversificação das exportações.

As autoridades brasileiras foram bem sucedidas no período com relação à


expansão das exportações. As exportações cresceram a uma taxa média de 15,1%
anualmente, no período 1971-1979. Esta expansão foi seguida por uma expansão do
poder de compra das exportações a uma taxa anual de 16,2% no mesmo período (em
dólares reais de 1972).

A despeito da grande vantagem desta expansão a longo termo, os termos


nominais de comércio no mesmo período indicam uma posição menos favorável. As
importações foram excessivas, quando considerado o poder de compra das exportações.

O desenvolvimento dos termos de troca pode ser considerado, numa perspectiva


histórica, pior na década de 70 do que nas décadas precedentes. Esta posição
desfavorável do comércio exterior tem sido uma importante fonte de estagnação, e de
endividamento expansivo, sob as premissas de crescimento econômico rápido. Uma
questão subjacente é se o desenvolvimento dos termos desfavoráveis de troca,
combinado com forte endividamento nos anos 70, não podem ser a fonte do aperto
econômico no inicio dos anos 80. A resposta tem que ser positiva, uma vez que
os influxos de capital tornaram-se muito mais dispendiosos, em face de ampla
concorrência dos tomadores de empréstimo. Assim, a recessão seria a via para
intentar situar o jogo econômico interno em novo arranjo.

118
Capacidad
Poder de e Total de Capacidad Déficit ou
Compra Pagamento e de Saldo da
das Influxo de no Exterior Remessas de Importar Capacidade
Importaçõ Capital (4) = (2) – Amortizaçã Capital ao (7) = (4) – Valor das de Importar
Ano es Externo (3) o da Dívida Exterior (5 + 6) Importações (9) = (7) – (8)

(1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) (9)


1971 2,360 1,427 3,787 885 2,631 271 3,861 -3,590
1972 3,313 3,799 7,112 1,202 2,637 3,273 4,789 -1,516
1973 5,161 4,110 9,271 1,582 2,568 5,121 6,622 -1,501
1974 3,875 5,318 9,193 1,671 2,100 5,422 12,238 -6,816
1975 3,729 3,715 7,444 1,460 2,501 3,483 9,112 -5,629
1976 5,587 5,383 10,970 2,258 2,499 6,213 10,297 -4,084
1977 7,781 4,974 12,755 2,896 2,468 7,391 9,527 -2,136
1978 6,982 8,316 15,298 3,539 2,612 9,147 10,018 -0,871
1979 7,841 6,507 14,348 3,908 2,547 7,893 10,999 -3,106
Fonte: Banco Central; Banco do Brasil
FIBGE: Anuários Estatísticos.
Survey Of Economic Business, USA, 1972

Tabela 2 – Capacidade Brasileira de Importar – Em dólares Norte-Americanos


Constantes (de 1972)

De fato, a capacidade de pagamentos doméstica corrente estava estabilizada


somente devido às continuas entradas de capital (veja colunas 3 e 4 da tabela
“Capacidade Brasileira de Importar”). Esta capacidade precária foi eliminada, quando o
país viu-se impossibilitado de efetuar pagamentos de acordo com as escalas, em face
das modificações do mercado cambial e dos fundos de empréstimos no exterior.

Enquanto o valor FOB de exportação em dólares constantes expandiu-se


consideravelmente no período, quando considerada a perspectiva histórica dos termos
de troca, tal expansão não foi suficiente para cobrir as variações de preços no exterior,
dentro do total demandado de importações. Isto foi causado pela continua queda no
preço de tonelada exportada (por exemplo, a tonelada média exportada em 1969 valia
20% da tonelada média exportada em 1964).

A despeito da evolução desfavorável, o país experimentou uma expansão em


termos reais do poder de compra das exportações no exterior, condição importante para
assegurar os fluxos de capital demandados. Esta posição não mostra vantagens quando
comparada com o pré-1964, no sentido de uma mudança radical. A posição brasileira no
comércio exterior considera-se ainda aquela determinada pela divisão internacional do
trabalho. Esta posição não confirma afirmações de caráter propagandístico ou

119
ideológico. O país mostrava a mesma posição em meados dos anos 70 que mostrara em
meados dos anos 50, no mercado mundial (menos de 1% na participação).

O principal elemento novo para uma melhoria radical da posição brasileira de


comércio exterior avançou pouco na década de 60 e melhorou sua posição nos anos 70:
tratava-se da exportação de produtos manufaturados. A composição destes produtos é
favorável ao Brasil, que se concentra nos itens intensivos em trabalho, mas está sendo
prejudicada, dentro e depois do período em consideração, por barreiras comerciais.

O colapso da capacidade de endividamento do país ao fim do período em


consideração, ocorreu aparentemente quando a difícil posição de renovação do
equipamento industrial nos anos 70 estava sendo concluída. Tem-se interpretado a
recusa do governo em produzir um aperto econômico em 1978-79 como uma
contribuição para tal colapso. O descontrole do balanço de pagamentos neste caso
decorreria da tentativa de seguir investindo, quando já não podia levantar os fundos
necessários para tal. À queda de entrada de capital, seguiu-se a perda de confiança do
exterior.

Esta recusa governamental de impor um ajuste econômico, revela também muito


da expectativa oficial de que o Brasil não está submetido aos ciclos econômicos. Este
ponto de vista não é evidentemente suportado por confirmação empírica. De fato, esta
suposição diminui a capacidade para tomar medidas adequadas anticíclicas, compatíveis
com os recursos disponíveis na economia doméstica.

Como se pode observar nas respectivas tabelas, as indústrias manufatureiras


progrediram muito durante todo o período. Os valores demonstram que os movimentos
cíclicos de curto e médio prazo não prejudicaram um desempenho nitidamente
expansionista em valores ajustados. Tais desempenhos, certamente cumprem um papel
na concepção oficial de subestimar os componentes cíclicos da economia.

A notável expansão das indústrias manufatureiras consumiu no período uma


grande quantidade de recursos de capital. As autoridades públicas, responsáveis pelo
desempenho do Estado como principal criador de crédito e empresário isolado,
favoreceram a preferência por métodos intensivos de capital nas empresas.

120
Entre os ramos que mais se expandiram, encontra-se o da indústria química,
como exemplo característico de industrialização substitutiva. Assegurada a indústria
petrolífera por uma posição de monopólio legal, financiada através de subscrições
públicas compulsórias na compra de combustíveis, este ramo cresceu
extraordinariamente nos trinta anos de sua existência. Beneficiou-se da ausência de
ampla oferta de outros energéticos, como o carvão. A opção para o crescimento do
sistema rodoviário, mesmo para o transporte a longa distância, privilegiou os derivados
de petróleo na área em pauta. As duas crises recentes de petróleo levaram à criação do
Proálcool, programa que utiliza a cana-de-açúcar para a produção de álcool-motor,
como substituto da gasolina. O amplo território do país e a área ainda relativamente
pequena ocupada pela agricultura permite tais soluções. É bem verdade que os preços
favoráveis do Proálcool vem, nas regiões mais populosas, fazendo a cana-de-açúcar
concorrer com a produção propriamente alimentícia. Neste sentido, é de se esperar nos
anos vindouros uma constante elevação dos preços nominais e relativos do setor
agropecuário, com tendência a nivelar-se pelo mercado mundial, em detrimento da
capacidade de exportação do país.

6. O Desempenho das Indústrias do Setor Manufatureiro.

Como se pode observar nas tabelas 3 e 4, as indústrias manufatureiras


progrediram notavelmente no longo prazo, mostrando – através dos valores ajustados –
que as variações cíclicas não impediram de modo significativo o crescimento
econômico e transformações estruturais correlatas. Supõe-se frequentemente que este
forte desempenho para o crescimento seja fator que estimula a ignorar os movimentos
cíclicos, em suas políticas de investimento. Seja como for, tal atitude dificulta a
maximização dos investimentos, por via de dificuldades de desequilíbrio entre
subestruturas que, doutro modo, poderiam ser evitadas.

A expansão enorme das indústrias manufatureiras tem consumido um amplo


montante de recursos de capital, particularmente externos, em virtude da escala – às
vezes discutível – dos projetos. Diante disso, as autoridades do crédito interno, vem
estimulando métodos intensivos de capital, sob a expectativa que os mesmos gerem, ao
nível das empresas, uma elevação de produtividade que compense a expansão das
situações duais.

121
Tabela 3 – 1950-1980 – Indústrias Manufatureiras de São Paulo Cr$ de 1949 (,) =
Bilhões
Total das Indústrias
Ano Manufatureiras Metalurgia Máquinas e Ferramentas Equip. de Transportes Química
(1) (2) (3) (4) (5) (6)
1950 44,6 3,88 3,08 4,89 3,38
1951 48,6 4,27 3,39 5,34 3,79
1952 52,9 4,68 3,73 5,83 4,23
1953 57,5 5,14 4,10 6,37 4,73
1954 62,6 5,65 4,50 6,95 5,29
1955 68,2 6,2 4,95 7,59 5,92
1956 74,3 6,81 5,44 8,29 6,62
1957 80,8 7,47 5,98 9,05 7,41
1958 88,0 8,21 6,58 9,88 8,29
1959 95,8 9,01 7,23 10,79 9,28
1960 104,3 9,89 7,95 11,78 10,38
1961 113,6 10,86 8,74 12,87 11,61
1962 123,6 11,93 9,61 14,05 12,99
1963 134,6 13,09 10,56 15,34 14,53
1964 146,5 14,38 11,61 16,75 16,26
1965 159,5 15,79 12,77 18,29 18,19
1966 173,7 17,33 14,03 19,97 20,4
1967 189,1 19,03 15,43 21,8 22,8
1968 205,8 20,9 16,96 23,8 25,5
1969 224,1 22,9 18,64 26,0 28,5
1970 244,0 25,2 20,5 28,4 31,9
1971 256,6 27,7 22,5 31,0 35,7
1972 298,2 30,4 24,8 33,9 39,9
1973 314,8 33,3 27,2 37,0 44,7
1974 342,7 36,6 29,9 40,4 50,0
1975 373,1 40,2 32,9 44,1 55,9
1976 406,2 44,1 36,2 48,1 62,5
1977 442,2 48,5 39,8 52,5 70,0
1978 481,4 53,2 43,7 57,4 78,3
1979 524,1 58,4 48,1 62,7 87,6
1980 570,6 64,2 52,8 68,4 98,0

Fonte: IBGE

Na tabela 3 observam-se os movimentos expansivos de diversas atividades


através de ajuste exponencial. Chama no caso a atenção a formidável expansão da
química pesada expressando os petroquímicos – a pobreza e insuficiência do carvão
nacional também contribuiu para a proteção oficial à expansão petroquímica. O preço
da gasolina – cada vez mais do álcool como seu substituto – tem sido desenhado para
incluir uma taxa de lucro vantajosa para as empresas produtoras e distribuidoras, com
vistas a assegurar futuras expansões de caráter realocativo na área energética. A dúvida
que subsiste é se o governo conseguirá no futuro assegurar esta margem de lucro
embutida atualmente nos combustíveis. A indução de reajustes contínuos via elevação

122
de preços tem manifestado um componente inflacionário, devido ao caráter de
monopólio de oferta que os hidrocarbonetos tem na área dos transportes.

Qualquer reajuste dos combustíveis suscita uma reação em cadeia de todos os


preços, sob a alegação dos novos custos dos transportes. A colusão existente entre os
ramos petroquímico, automotivo e os responsáveis pelos mecanismos de concentração
de renda deixa bastante claro o funcionamento das estruturas oligopolistas, montadas
pela ação permanente do poder público.

A “socialização dos prejuízos” se manifesta aqui pela elevação dos custos: de


transportes, do custo dos veículos e da manutenção das vias, sendo todos fonte de rápida
expansão econômica com concentração de renda, para os setores que controlam tais
atividades. Segue-se, em decorrência, a conglomeração, em busca de sustentar as
elevadas taxas de lucro, já obtidas.

A notável expansão do ramo de máquinas – ferramentas não tem sido suficiente


para reduzir a forte pressão pela importação deste tipo de bem; contudo, ao fim do
período, observou-se um desaquecimento desta demanda, em função da estagnação da
atividade produtiva. A vastidão potencial, contudo, do mercado interno e sul-americano
para máquinas-ferramentas requer uma estratégia mais sistemática para a ampliação
desta atividade. Uma industrialização mais barata é, evidentemente, melhor sustentada,
e isto implica um forte aumento da produção física, dependendo, pois, de grandes
ofertas de máquinas-ferramentas.

Um ponto de controvérsia entre os ramos metal-mecânicos domésticos e o poder


público tem sido a opção governamental por ofertas internacionais de custo mais baixo
para grandes projetos, particularmente energéticos. De fato, as propostas externas mais
baratas em termos macroeconômicos, se dão devido ao custo em divisas, o
endividamento externo decorrente e a não-criação interna do saber-fazer similar à
execução do projeto. O financiamento externo quase sempre implica um custo mais
elevado do projeto em divisas. Como a dívida externa ultrapassou a casa nominal dos
sessenta bilhões de dólares norte-americanos, faz sentido uma reflexão pela opção
microeconômica. No que tange ao programa termonuclear (11 fábricas programadas)
em cooperação com a Alemanha Federal, as críticas tem sido ainda mais radicais.

123
Elas apontam para a assimilação de uma tecnologia ultrapassada no ramo,
associada a um preço do equipamento, e a necessidade para preparar-se para a reparação
e manutenção das usinas que se instalarão. Nesse ponto, o avanço tecnológico tende a
impedir – de fato – a manutenção e reparação pelo fornecedor norte-americano, e tal
seria a causa do repasse alemão do contrato. Mesmo que as autoridades brasileiras
consigam vencer as complicações implícitas neste programa, fica evidente o propósito
de “super-potência” implicado na adoção do mesmo. Uma política pública, enfim, que
não decorre das necessidades reais da população do país.

Vê-se assim que a internacionalização da economia, através de direção errada,


foi concebida como fonte criadora de independência de decisões. Este paradoxal
entendimento deixa de lado a melhoria das condições de vida da grande maioria. Como
resultado, os meios acumulados permitiram o lançamento do país como “grande
potência”.

Inspecionando-se os valores reais ajustados na tabela 4, pode-se verificar a


viragem estrutural dos ramos para um período de 30 anos. Na tabela 3, optou-se pela
apresentação dos valores no período 1950-1980 devido à baixa representatividade dos
ramos de equipamentos de transportes e química, antes de 1950. A qualidade do
ajustamento seria inferior se incluídos os valores para o período 1940-1950. No caso da
tabela 4, optou-se pois por mantê-la comparável com a Tabela 3, apresentando dados
para o mesmo período.

O ramo alimentar representava 25 por cento de todo o setor manufatureiro no


ano base de 1950. No fim do período, sua participação relativa decresceu para 18,8 por
cento. A produção de papel e similares, que representava menos de 1,8 por cento do
setor à origem do período, avançou para 2,5 por cento no ano final. É importante
observar-se que no caso do país em vias de desenvolvimento ser um país de grandes
proporções – como é o caso do Brasil – o montante de recursos necessários às viragens
estruturais de ramos são sempre muito grandes. O subsetor do têxteis representava em
1950 algo cerca de 16,6 por cento do setor em termos reais. Esta posição virou para
cerca de 8,6 por cento no fim do período. Com referência à construção civil, muito
importante pelo grau de consumo de trabalho, a posição pouco se alterou: 5,4 por cento
(em 1950) para 5,2 por cento (em 1980). Este valor contudo continua significativo em
termos de mercado de trabalho.

124
O desenvolvimento industrial brasileiro também impressiona pela sua difusão
em todos os estados do país. Apesar das distorções estruturais e regionais, isto é muito
interessante. Por exemplo, e estado de São Paulo – área líder da industrialização –
apresentou uma expansão do setor manufatureiro de 27 vezes no período de referência
(1940-1980). O Pará, contudo, uma região menos industrializada que está no centro dos
futuros projetos, apresentou uma expansão do produto industrial de 11,6 vezes. O
Maranhão, outro estado de baixa produção e renda per capita, assistiu suas indústrias
manufatureiras se expandirem 16,3 vezes em termos reais no período. No caso do Rio
Grande do Sul, uma área tradicionalmente antiga em industrialização, a produção do
setor cresceu mais de 20 vezes no período. Essa difusão dos processos de
industrialização aponta no sentido dos países industrializados e não dos países
subdesenvolvidos.

De fato, as disparidades regionais continuam crescendo no período atual. Elas se


aprofundam devido à natureza da indução, do crescimento econômico, que estimula o
desenvolvimento de dualidades básicas: (a) de capital, (b) de tecnologia e de (c) mão-
de-obra.

Para que se obtenha a eliminação das disparidades regionais, há dois caminhos


possíveis: (a) o “objetivo” e o (b) “subjetivo”. Por caminho objetivo, aquele que parece
de fato adotado, o mercado dual é levado ás últimas conseqüências de maximização das
taxas de lucro e de crescimento, eliminando-se a disparidade por via da formação
sucessiva de capital. Quanto ao caminho subjetivo, consiste na assistência através de
políticas públicas às taxas de crescimento das regiões menos favorecidas. Por via de
investimento público induzido, tais áreas são estimuladas a crescer a taxas mais rápidas
do que as regiões mais avançadas. Dois problemas se antepõem ao “caminho subjetivo”.
Primeiro, a competição dos mercados reflete-se também ao nível financeiro, com
drenagem efetiva dos recursos alocados por via da política governamental. Cumpre
ressaltar a persistência dos custos mais elevados das regiões menos desenvolvidas
também ao nível de recursos naturais menos disponíveis e drenagem da força de
trabalho treinada (Furtado, 1953-1964). Segundo, os mecanismos da dualidade, como a
transumância da mão-de-obra, operam mais fortemente do que as políticas
governamentais, em condições de urbanização sem restrição ao movimento urbano.

125
Tabela 4 - 1950-1980: Brasil: Indústrias Manufatureiras Cr$ de 1949 (,) = bilhões
Ano Total indústrias Manufatureiras Ramos não -metálicos Papel e Similares Têxteis Alimento Construção Civil
1 2 3 4 5 6 7
1950 97,3 3,4 1,72 16,2 24,7 5,3
1951 105,4 3,7 1,88 17,1 26,4 5,7
1952 114,0 4,0 2,06 18,1 28,3 6,2
1953 123,4 4,4 2,25 19,2 30,3 6,7
1954 133,4 4,8 2,46 20,3 32,4 7,2
1955 144,3 5,2 2,70 21,5 34,7 7,8
1956 156,1 5,6 2,95 22,7 37,2 8,4
1957 168,9 6,1 3,23 24,1 39,8 9,1
1958 182,7 6,7 3,54 25,5 42,7 9,8
1959 197,6 7,2 3,87 26,9 45,7 10,6
1960 213,7 7,9 4,24 28,5 49,0 11,5
1961 231,2 8,6 4,64 30,2 52,4 12,4
1962 250,1 9,3 5,08 32,0 56,1 13,4
1963 270,5 10,1 5,56 33,8 60,1 14,5
1964 292,6 11,0 6,09 35,8 64,4 15,6
1965 316,5 12,0 6,66 37,9 69,0 16,9
1966 342,3 13,0 7,30 40,1 73,9 18,2
1967 370,3 14,1 7,99 42,5 79,1 19,7
1968 400,5 15,4 8,74 45,0 84,7 21,3
1969 433,2 16,7 9,57 47,6 90,7 23,0
1970 468,6 18,2 10,48 50,4 97,2 24,8
1971 506,9 19,8 11,47 53,3 104,1 26,8
1972 548,3 21,5 12,55 56,4 111,5 29,0
1973 593,2 23,3 13,74 59,7 119,4 31,3
1974 641,9 25,4 15,04 63,2 127,8 33,8
1975 694,3 27,6 16,47 66,9 136,9 36,6
1976 751,0 30,0 18,03 70,8 146,6 39,5
1977 813,0 32,6 19,73 75,0 157,1 42,7
1978 879,4 35,5 21,60 79,4 168,2 46,1
1979 950,8 38,5 23,60 84,0 180,1 49,8
1980 1.028,6 41,9 25,90 88,9 192,9 53,9
Fonte: FIBGE & FGV

Tabela ajustada exponencialmente

Por esta razão, é de se esperar que regiões como o “Polígono das Secas”, com
processo de desertização, ou outras desvantagens naturais ( má distribuição de renda e
de água) permanecerão se transformando a taxas inferiores e na dependência de recursos
públicos, exclusivamente para estabelecer uma função de complementaridade com as
regiões mais industrializadas. Nesse caso, sua transformação coloca-se apenas na pauta
do futuro mercado não-dual, como tem sido enfatizado na literatura (Shinohara,
1968;1970).

Uma das desvantagens extremas da atual política governamental, sob a visão


excessivamente centralista do governo federal, é que nenhuma compensação é dada às

126
regiões menos favorecidas, pelos recursos naturais que cedem, e que viabilizam o
exercício das políticas econômicas estimulantes da dualidade. Por exemplo, os minerais
nobres e radioativos fornecidos pela região Norte (Amapá, Pará, Amazonas, etc.); os
minerais nobres e ferriferos fornecidos por Goiás e Minas Gerais; o petróleo, fornecido
pela Bahia e o Rio de Janeiro, etc. Num sistema federativo, tais recursos obedeceriam às
demandas livres no mercado. Contudo, tais recursos tem sido drenados a preços fictícios
para o exterior ou para a área mais desenvolvida, sem qualquer compensação na matriz
de trocas interestaduais. A política oficial considera os empregos resultantes destas
atividades como compensação pela extração dessas riquezas locais a custos e preços
fora do mercado. Pode-se assim considerar a visão deformada pró-centralização como
uma fonte adicional de desigualdade e concentração do rendimento, porque de fato tais
efeitos não decorrem simplesmente de um caráter espontâneo da industrialização.

Referidos são agora os difíceis termos-de-troca entre os diferentes estados da


federação brasileiras. Já mencionou-se antes tratar-se apenas de uma federação no
nome. A inoportunidade das manipulações públicas na matriz dos termos-de-troca
interestaduais tem contribuído para uma posição desequilibrada geral da economia.
Conduz, portanto, à observação tantas vezes feita fora do país de que há dois Brasis,
quando se considera o rendimento per capita nas unidades políticas: um como a Bélgica,
outro como a Índia (Bacha, 1973). Causa de fato estranheza, particularmente, na
segunda fase do período em estudo (1964-1980), o desinteresse do poder público para
introduzir técnicas mais sofisticadas de planejamento econômico. São Paulo é único
estado que possui uma matriz das demandas energéticas futuras, e ainda assim não
considera a conservação de energia ou energias alternativas (Barbosa, 1977). Não há
balanço físico da economia nacional, ou das economias estaduais; não há modelo
centralizado de simulação para a evolução dessas grandezas; as verbas para o
detalhamento dos planos e da contabilidade social ao nível dos estados e dos municípios
é assaz insuficiente. Poder-se-ia argumentar que as insuficiências do planejamento
derivam de fé cega na economia de mercado. A verdade, porém, está em outro lugar. A
política sistemática das autoridades, ao longo de diferentes governos, foi reforçar a
formação de oligopólios. Esta característica pode ser seguida desde a famosa instrução
113 da Sumoc na década de 50 até os documentos atuais do BNDES (banco de
desenvolvimento) e do Banco Central. É-se obrigado a concluir pelo desejo de planejar
centralizadamente e a incapacidade técnica de fazê-lo de maneira maximizada.

127
Com base nos aspectos referidos, é importante considerar que o processo de
industrialização tem-se desenvolvido a um ritmo apreciável – dos mais rápidos do
mundo. Contudo, as políticas para obter crescimento mais rápido tem apresentado um
efeito negativo com referência à distribuição de renda. Este aspecto negativo, por outro
lado, não tem sido admitido publicamente como resultante da industrialização mal-
direcionada: trata-se de um custo crescente de tal processo.

Tabela 5 – 1940-1970: Brasil. Estimativas Médias Sobre a Força-De-Trabalho


em Alguns Ramos. Ajustado Exponencialmente (em milhares de trabalhadores)
Indúst. Construção Serviços
Ano Setor Secundário Manufat. Civil Transporte & Distribuição & Armazenagem Industriais
(1) (2) (3) (4) (5) (6)
1940 1,533 996 370 500 49
1941 1,609 1,044 393 517 52
1942 1,689 1,096 417 535 56
1943 1,773 1,150 443 553 59
1944 1,861 1,861 470 571 63
1945 1,954 1,265 499 590 67
1946 2,051 1,327 530 610 72
1947 2,153 1,393 562 631 77
1948 2,260 1,461 597 652 82
1949 2,372 1,533 634 674 87
1950 2,490 1,608 673 697 93
1951 2,548 1,644 693 729 95
1952 2,607 1,681 714 762 96
1953 2,667 1,719 735 797 98
1954 2,729 1,757 757 833 100
1955 2,792 1,796 780 871 102
1956 2,856 1,836 803 911 105
1957 2,922 1,878 827 953 107
1958 2,990 1,919 852 996 109
1959 3,059 1,962 877 1,041 111
1960 3,130 2,006 903 1,089 113
1961 3,299 2,105 963 1,104 117
1962 3,477 2,208 1,207 1,118 121
1963 3,665 2,317 1,096 1,133 125
1964 3,863 2,431 1,169 1,149 130
1965 4,071 2,551 1,246 1,164 134
1966 4,291 2,676 1,329 1,180 139
1967 4,522 2,808 1,418 1,195 143
1968 4,767 2,946 1,512 1,211 148
1969 5,024 3,091 1,613 1,228 153
1970 5,295 3,243 1,720 1,244 158
Fonte: F.I.B.G.E.

Quando se encara a informação da tabela 5, observam-se valores ajustados


exponencialmente para efeito da comparação de longo prazo: a expansão da força de
trabalho em alguns ramos do setor secundário. O crescimento da força de trabalho

128
empregada é satisfatório, mas esconde o potencial de ocupação possível em condições
da oferta ótima de mão-de-obra que caracteriza a economia brasileira. No período de
referência (1940-1970), o ramo da construção civil expandiu sua posição relativa no
emprego total do setor secundário de 24,1 por cento para cerca de 32,5 por cento. Tal
reflete duas coisas: (a) uma forte demanda por construção civil; (b) uma absorção
decrescente de mão-de-obra pelas outras atividades do setor secundário.

7. Rendimento Disponível, Consumo e Uma Interpretação de Resultado Empíricos.

Como já referido antes, há um relacionamento íntimo entre a divida nacional


brasileira e a progressão das importações. A dependência financeira externa impõe uma
oferta não necessariamente a melhor em todos os pontos, acarretando maiores fluxos de
importação, em conseqüência, dissociados da dinâmica histórica recente do processo
substitutivo.

Um teste empírico interessante pode ser oferecido pela construção de um modelo


que inclua um termo-de-erro, para a utilização da dívida brasileira como a variável
explanatória das importações totais de cereais, combustível mineral e maquinário (tudo
em dólares correntes), para o período 1967-1979. O resultado obtido é:

I = 0.61898 + 1.0175 + Ei (45)

2
RYX = 0.9531

t E = 2.524 t = 14.9515

O resultado do modelo aponta no sentido de já citada hipótese, qual seja, a da


previsibilidade de tais comportamentos. Pode-se daí deduzir que as relações entre ambas
as variáveis – evolução da dívida externa e evolução de importações cruciais – é ou (a)
de causa-e-efeito; ou (b) determinadas pelo mesmo conjunto de forças operativas. Uma
hipótese interpretativa similar pode ser levantada quando da inspeção dos dois gráficos
que mostram: (1) a posição dos fundos líquidos dos débitos públicos federais; e (2) a
posição no fim-do-ano do balanço de pagamentos. Os dois gráficos apresentam a
linearização das duas variáveis, para destacar-lhes o movimento tendencial. O vínculo

129
entre as duas variáveis nos leva à hipótese explicativa da associação entre os
desequilíbrios nos planos econômicos interno e externo.

Admitida a hipótese explicativa do modelo (45), pode-se utilizar um índice dos


valores de exportação (X) para explicar um índice dos valores de importação (I), no
período 1967-1979, gerando-se:

I index = 16.657 + 0.7296 X index (46)

R 2 = 0.9274

Trata-se de uma outra faceta – impressionantemente determinística como


hipótese – das relações indicadas no modelo (45). Pode-se construir, assim, com (46), a
hipótese explicativa de um reduzido desempenho das poupanças domésticas, com
relação aos recursos cambiais. As estatísticas disponíveis evidenciam o aspecto
comandatório das disponibilidades cambiais para a seleção das importações no período.
A forte subordinação das políticas de industrialização nos mecanismos de
internacionalização e liberalização da divisão internacional do trabalho explicam a
requerência de montantes crescentes de recursos cambiais. Observe-se, contudo, que a
perda de vantagens comparativas da economia doméstica no momento anterior fazia-se
de fato um impeditivo para produzir o montante novo demandado de recursos cambiais,
premissa da implementação de novas políticas.

A hipótese, portanto, da redução do desempenho das poupanças domésticas em


face do recuo da política substitutiva é assim conspícua, tornando-se para o caso
secundária a forma pela qual se efetivava a poupança doméstica no período, ou seu
desempenho fora do mecanismo do comércio exterior. No caso em que se aceite esta
função explicativa, fica reduzido o desempenho correntemente atribuído ao papel das
poupanças domésticas no financiamento do crescimento, no conjunto das políticas pós-
1964, uma vez que elas se tornariam “ex-post” aos processos de investimento (estes
sim, calçados nos recursos externos “ex-ante”). Faz-se por esta via interessante uma
observação empírica de função depósito.

130
A) A função depósito

Utilizando a variável “depósitos em todos os bancos, a 31 de dezembro”,


publicada pelo Banco do Brasil e, mais tarde, pelo Banco Central, produziu-se a função
depósito na presente seção. Antes de aplica-la na forma tradicional, intenta-se uma
simples relação associativa em que a variável a explicar “depósitos em todos os bancos”
é ajustada pelo valor da variável “população brasileira” (período 1964-1980).

S D = -27671.068 + 312.14879 P (47)

R 2 = 0.632809

R 2 ajustado = 0.60833

F = 2585068

Observa-se um valor explicativo da população e sua variação no tempo da ordem de


60% das variações e previsibilidade dos “depósitos em todos os bancos”. Isto implica
dizer uma “baixa possibilidade” de reproduzir satisfatoriamente a “variável
dependente”, ou seja, há uma dispersão notável das variabilidades ajustadas das duas
variáveis. De fato:

erro-padrão da regressão: 3446.848

estatístico Durbin-Watson: 0.361347

No entanto, a diferença das variações da série explicante” e da “série


explicadora” permite imaginar o que se segue: se a população e seu crescimento não
“explicam bem” os depósitos em todos os bancos, que explicará? Para ter-se uma idéia
do valor preditivo examine-se o Gráfico 39 abaixo. A explicação está na concentração
de rendimento.

131
Gráfico 39

1. Depósitos em Todos os Bancos e Similar Computada a Partir da


População - 1964/1980

25000

20000

15000

10000

5000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-5000

Resíduos Observado Ajustado

Vê-se pelos resíduos uma oscilação “da direita para a esquerda” dos valores, sem
uma razão aparente, que não a completa dissociação entre os conjuntos de forças que
atuam numa e noutra variável. Não se pode “conhecer” o montante dos depósitos a
partir da “população”. Que explicará, pois? Talvez a função depósito tradicional
(período: 1964-1980):

G
S D = -69.753872 + 0.7667027 Ynag (48)

R 2 = 0.997858

R 2 = 0.997716

F = 6988,890

Onde

S D = depósitos em todos os bancos

G
Ynag = renda bruta não-agrícola

132
Ou seja, há agora uma variação previsível da ordem de 99,8% da “variável
dependente” com relação à renda bruta não-agrícola”. O nosso erro na previsão dos
“depósitos” é, a partir da “renda bruta não-agrícola” apenas 0.2%.

A aderência do “poder preditivo” pode agora ser apreciada no gráfico 40 abaixo:

Gráfico 40

Depósitos em Todos os Bancos e Similar Computada Desde a Renda


Bruta Não-Agrícola - 1964/1980

25000

20000

15000

10000

5000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-5000

Resíduos Observado Ajustado

À exceção do primeiro valor ajustado, referente ao ano de 1964, não há uma


ruptura tão clara da série em dois “movimentos estruturais” distintos, como no caso do
gráfico 39. Aqui, no gráfico 40, a concordância se faz ao longo do ajuste, afastando-se
os valores) e, consequentemente, crescendo os resíduos) a partir de 1977. De qualquer
forma, indica variação na estrutura das forças em presença nas duas variáveis, mas não
chega a prejudicar o “valor explicativo”.

Ficam as seguintes reflexões:

133
(1) Por quê apenas a partir de 1968 há uma “concordância de plena
previsibilidade” da função depósito a partir da “renda bruta não-agrícola”? (até
1977...).

(2) Por quê esta “concordância” não continua após 1977?

(3) Por quê moveu-se diferentemente aqui e ali? Expressão de redirecionamentos


estruturais?

(1) “Concordância” das Séries – A observação do gráfico 40 oferece uma tensão


muito considerável para o ajuste, que pode ser compreendida pela expressão dos
resíduos. É, pois, razoável deduzir que a “renda bruta não-agrícola” era menos
associada aos “depósitos em todos os bancos” até 1969, isto porque refletia
outros direcionamentos, outras opções reais de política de mercado do quadro
anterior de periodização. Forças enfim do modelo substitutivo de importações.
Com esta idéia, pode-se concluir que, entre 1969 e 1977, há uma plena
aderência das duas séries refletindo o ajuste a “nova situação estrutural”.
Recondicionamentos diversos, porém, voltam a emergir forças dissociativas que
operariam então a partir de 1977.

(2) Quê houve de novo a partir de 1977? – Sabe-se que a hipótese explicativa
anterior é bastante plausível porque o auge do modelo do “crescimento por via
das exportações” atuou entre aquelas duas datas. Até 1973, foram poderosas as
forças de reativação da capacidade ociosa da economia. O movimento
cumulativo das atividades teria sofrido aqui um corte, pela necessidade de
absorção de novos equipamentos e criação de novos mercados, coadjuvado este
corte por dois elementos: (a) a “1ª crise do petróleo”; (b) ausência dos recursos
cambiais necessários à importação de bens de capital. A expansão do
investimento redirecionaria aí a poupança.

A política do governo enveredou então pela opção do endividamento maciço, o que


contraria frontalmente a experiência do modelo de “crescimento por via das
exportações” (CPE) como fato histórico. Em todos os casos onde o modelo tem
funcionado, não se optou na substituição dos ganhos de exportações por endividamento.
Neste ponto, a retórica brasileira rompia uma vez mais com a experiência histórica. De
qualquer forma, a opção pelo endividamento permitiu expandir a base de operação do

134
capital e propor o desempenho descendente do ciclo para mais adiante, efeito
hipoteticamente caracterizável aqui como perceptível a partir de 1977, no que se refere
ao desempenho de poupança da “renda bruta não-agrícola”. Imbrica-se daí a percepção
da continuidade do caráter “ex-post” da poupança doméstica no período. O verdadeiro
motor era a política do governo e as poupanças externas, pela via do endividamento e
das manobras cambiais de liberalização, produzindo-se seu impacto redirecionador.

(3) Redirecionamento Estruturais – sugere a análise dos interquartís a excelência da


distribuição das “caudas” da regressão. Nesse sentido, pode-se inferir redirecionamentos
estruturais na base da variação das forças em presença, sinteticamente, nas duas
variáveis. De fato, tem-se:

Erro-padrão da regressão: 263.2402

Estatístico D.W.: 1.421010

O relacionamento estabelecido pela “função depósito” com a “renda bruta não-


agrícola”, aqui designada renda urbana, pode ser considerado revelador sobre as
poupanças domésticas. A relevância do consumo interno parece haver decrescido com o
avanço do modelo exportador. Qual seria então o desempenho da “renda agrícola” como
“variável explanatória” da “função depósito” (1964-1980)?

G
S D = 12.449880 + 1.6275009 Yag (49)

R 2 = 0.998326

R 2 ajustado = 0.998214

F = 8946.059

Observe-se um valor explicativo ou “preditivo” da “renda bruta agrícola” da


ordem de 99.8% das variações dos depósitos em todos os bancos”. Isto implica dizer
que a renda agrícola adquiriu um valor explicativo similar ao da renda urbana no
modelo (48). No entanto, a análise do gráfico 41, referente ao modelo (49), oferece
elementos empíricos adicionais ao prévio entendimento.

135
Gráfico 41

Depósitos em Todos os Bancos e Similar Computada a Partir da


Renda Bruta Não-Agrícola - 1964/1980

25000

20000

15000

10000

5000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-5000

Resíduos Observado Ajustado

Como se vê, as duas séries não “caminham conjuntamente” até 1967; de 1968
até 1977, estão “perfeitamente” ajustadas; no entanto, embora os resíduos indiquem
diferença comportamental de novo tipo, elas se correspondem também no período 1978-
1980. Ficam as seguintes perguntas:

(1) Por quê os “valores ajustados” são tão superiores aos “observados” até 1967?

(2) Por quê há uma “concordância plena de previsibilidade” da função depósito a partir
da “renda bruta agrícola” até o fim do período?

(3) porque há uma diferença comportamental nos resíduos a partir de 1977?

Pode-se oferecer algumas interpretações, dentro do método analítico inferencial.


Abandonando-se os problemas técnicos que não cabem ser discutidos neste tipo de
texto, tem-se:

136
(1) “Concordância das Séries” – Dentro da mesma periodização – 1964-1980 –, a renda
agrícola ajustou-se à “variável dependente” antes da renda não-agrícola (1968 para a
renda não-agrícola, 1967 para a renda agrícola). Isto pode ser interpretado como um
parentesco maior da renda agrícola, com as novas políticas do modelo de “crescimento
por via das exportações”. No mesmo sentido podem ser interpretadas as expressões
empíricas do ajuste, por cima dos valores observados (com resíduos negativos), no
período 1964-1969. Ou seja, seu “comportamento futuro” requeria da renda agrícola um
comportamento diferente do observado no passado recente da periodização. A
interpretação revela, pois, uma afinidade muito grande da renda agrícola com a função
depósito, no caso do período, e da natureza muito mais sensível que a detectada no
modelo da renda não-agrícola (48).

(2) A plenitude do desempenho na periodização – A dinâmica específica do mecanismo


redirecionador da economia nas condições do modelo do “crescimento por via das
exportações” (CPE) se revela pela associação da “renda agrícola” com “os depósitos em
todos os bancos” de 1968 a 1980. O papel “ex-post” das poupanças agrícolas fica
também caracterizado pela indiferença ao tipo de efeitos apontados no gráfico 40.

(3) Diferença Comportamental nos Resíduos – Admitida a idéia básica da “função


depósito”, pode-se interpretar a diferente direção dos resíduos como expressiva das
novas forças em presença, que se revelaram capazes de deprimir os “valores
observados”.

Em termos histórico-econômicos, as forças sociais que ocuparam o espaço


político do Brasil a partir do golpe-de-estado de 1964 implicavam um projeto de
modernização muito mais conservador do que poderia ter sido possível, dadas outras
condições políticas. O espaço da proposta contida no Plano Trienal, o espaço do jogo
político das forças democráticas, etc, abriam num sentido de equilíbrio de poder, onde
as sofisticações da “grande política” se revelam sempre mais criadoras. Contudo, o
triunfo do golpe foi seguido por uma opção política de retorno ao passado, de liquidação
do projeto de poder da Constituição de 1946, de negação dos avanços constituídos
durante a fase do modelo “das substituições de importações”. Essa ideologia política do
golpismo, aparentemente radical, era de fato uma política profundamente conservadora;
uma visão antiga do liberalismo, que ignorava as estratégias específicas de

137
modernização em curso no mundo, após as experiências do pós-guerra e se reduzia a
algumas assertivas puramente de manual de ensino.

A pobreza de conceitos das forças golpistas tornou-se evidente já nas primeiras


implementações políticas de ativação de uma versão caricatural do CPE. As políticas de
retorno à dinamização pura e simples da agricultura de exportação e “cerco e
aniquilamento” à industrialização substitutiva revelavam o exercício da incompetência
e não da razão. Muitas foram as gargalhadas que ecoaram pelo mundo, mas que –
graças ao provincianismo das elites brasileiras – foram silenciadas no país.
Supostamente tomava-se o caminho dos “tigres asiáticos”: a inexistência sequer de
traduções das obras que revelaram a experiência porque passavam aqueles países –
mesmo a nível acadêmico – deixa a nu a falaciosidade.

As três grandes opções tomadas imbricavam-se mal e colocavam em dificuldade


as estratégias possíveis: (a) subestimava-se a oligopolização precoce da economia, ao
favorecê-la; (b) subestimavam-se os efeitos negativos do “crescimento acelerado”,
particularmente em associação com (a); (c) superestimava-se o papel da poupança
externa, seu efeito sobre o mecanismo dos ciclos e a capacidade de resposta da
agricultura de exportação para corresponder às novas necessidades da divisão
internacional do trabalho. Nesse ponto, de fato, as autoridades públicas optavam por
seguir a linha antiga, “vertical”, da Divisão Internacional do Trabalho (D.I.T.) e não a
nova linha, que vinha sendo dominante desde os anos 50, da horizontalização da D.I.T.
Optava-se, assim, pelo subdesenvolvimento, porque não se poderia impor uma linha às
antigas metrópoles.

Vê-se, portanto, que a comparação dos modelos (48) e (49) de formas da função
depósito faz subentender uma rápida viragem do mecanismo de poupanças interna; ao
crescimento de importância da renda urbana respondeu-se com um preferência “ex-
post” pelo papel da renda agrícola. Sem emprestar a esta observação um valor
conclusivo, cabe avançar no exame empírico. O procedimento mais simples seria o de

utilizar o incremento nominal da renda disponível ( YdN ) como a “variável explicadora”


que se acrescenta no modelo da função depósito. Antes porém pode-se verificar qual é o
relacionamento desta variável por si só com “depósitos em todos os bancos”. Tem-se
assim a equação (1964-1980):

138
S D = 2212.3391 + 16.979466 YdN (50)

R 2 = 0.020508

R 2 ajustado = - 0.044791

F = 0.314062

O indicativo de uma alta elasticidade para os incrementos nominais da renda


disponível fica prejudicado pela baixa associatividade detectada pelos estatísticos do
procedimento. Contudo, na assunção de linearidade que utilizou-se em modelo anterior,
é possível aproveitar a pendente resultante para fins de análise econômica da relação.

O gráfico 42 nos mostra a posição relativa do relacionamento das séries do


modelo (50):

Gráfico 42

Depósitos em Todos os Bancos e Similar Computada Desde o Incremento Nominal


da Renda Disponível- 1964/1980

25000

20000

15000

10000

5000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-5000

Resíduos Observado Ajustado

139
Ou seja, o “incremento nominal da renda disponível” não pode, neste modelo,
explicar satisfatoriamente os altos níveis de “depósitos em todos os bancos” da “função
depósito”.

Qual seria, portanto, o desempenho desta variável – “o incremento nominal da


renda disponível” – como coadjuvante da variável “renda bruta não-agrícola” na
“função depósito”? Esta informação pode ser prestada pelo modelo que se segue (1964-
1980):

G
S D = -117067574 + 0.7660525 Ynag + 0.731588 YdN (51)

R 2 = 0.997896

R 2 = 0.997595

F = 3319.502

Vê-se assim que, aceite o teorema básico da função depósito, na associação do


poder explicativo das duas variáveis, demonstra-se uma elasticidade baixa e similar,
devido possivelmente ao papel inelástico da moeda nominal ofertada. Outro fator
coadjuvante pode ter sido o defluxo do movimento de capitais associado com a política
depressiva no período 1964-1966.

Observe-se o gráfico 43:

Depósitos em Todos os Bancos e Similar Computada da Renda Bruta


Não-Agrícola e do Incremento Nominal da Renda Disponível - 1964/1980

25000

20000

15000

10000

5000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-5000

Resíduos Observado Ajustado

140
O período 1964-1967 manifesta-se sem concordância das variáveis. Uma boa
associatividade revela-se, no entanto, no período 1969-1980. Pode-se concluir pela
eficácia da associação explicativa das variáveis renda urbana e incremento nominal da
renda disponível, para o segundo período citado.

É bem possível – como já referido anteriormente – que as dissociações do


período 1964-1967 reflitam seja a especificidade do modelo anterior – o da
“substituição das importações” (CSI), seja o condicionamento da recessão de 1964-1967
para a implantação do novo modelo (CPE).

Nesse sentido, os acréscimos na renda disponível verificar-se-iam,


posteriormente, integrados no desempenho da renda poupada.

Qual seria, pois, o desempenho da “renda bruta agrícola” no mesmo período? O


modelo (52) permite explorar esta questão (período: 1964-1980).

G
S D = -38.412611 + 1.6260429 Y AG + 0.7752095 YdN (52)

R 2 = 0.998368

R 2 ajustado = 0.998135

F = 4282.314

A associação entre a “renda bruta agrícola” e os “incrementos nominais da renda


disponível” como forças explicativas dos “depósitos em todos os bancos” revelou uma
pendente da curva muito mais pronunciada. Ela indicou diferenças substanciais em
ambas as elasticidades.

Aqui aparece claramente a viragem, no período do CPE, da renda urbana para a


renda agrícola no mecanismo da poupança, a que já se referiu. Esta indicação empírica
revela as dificuldades para lançar o CPE de uma nova base econômica, quando ele de
fato era ancorado nas forças previamente superadas pelo próprio processo econômico.

O desempenho da “inflação corretiva” parece, assim, haver deprimido o


comportamento da “renda não-agrícola” na função depósito, em benefício de uma maior
elasticidade da “renda agrícola”.

141
Observe-se, pois, o gráfico 44:

Gráfico 44

Poupança Doméstica e Similar Computada a Partir da Renda Agrícola e


da Renda Disponível Nominal - 1964/1980

25.000

20.000

15.000

10.000

5.000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-5.000

Resíduos Observados Ajustados

O período 1964-1968 denota forte instabilidade entre os elementos considerados.


No entanto, o valor explicativo das duas variáveis – “renda bruta agrícola” e
“acréscimos nominais da renda disponível” – é muito satisfatório para o período 1969-
1980. É bem verdade que a análise dos resíduos revela que as duas variáveis se
compensam mutuamente, a partir de 1974, para “esconder”pressões existentes que
variam a relação estrutural de cada qual na função depósito. No entanto, tanto o valor
preditivo como o potencial explicativo ficam ampliados pela consistência deste modelo.

De fato,

Erro-Padrão da Regressão: 237.8553

D.W.: 1.939360

Indicam um ganho adicional no coeficiente de determinação (R ) 2 pelo


acréscimo da segunda variável explicativa, quando mediado pelo processo “ceteris
paribus”.

142
Qual seria o desempenho conjunto, pois, dos dois tipos de renda, no modelo da
função depósito, quando considerados também os “acréscimos nominais da renda
disponível”? E o que se intenta responder, em seguida (1964-1980):

G G
S D = -72.420417 + 0.3145107 YNAG + 0.9595131 Y AG + 0.7467495 YdN
(53)

R 2 = 0.998811

R 2 ajustado = 0.998536

F = 3639.631

Embora haja ocorrido a redução dos termos-de-erro, e um acréscimo do R 2


adicional para cada variável ao par, a inclusão de mais uma variável explicativa não
reforçou a capacidade preditiva do modelo substancialmente, evidenciando-se apenas
aquilo que já se havia inferido. Acrescidos assim parcialmente até todos os
componentes alternativos importantes para uma função depósito, a ilação plausível é
que o desempenho empírico revela uma inibição de comportamento da renda bruta não-
agrícola, que pode interpretativamente ser traduzida como “demanda urbana reprimida”
ou, como a chamou Belluzzo para o período, “demanda declinante”. Por outro lado, fica
também evidenciada empiricamente a hipótese para o desenvolvimento do rendimento
agregado nesse período histórico.

Na verdade, o conjunto dos mecanismos que protegeu a manutenção doméstica


dos preços dos exportáveis é que contribui para reprimir uma demanda local de
potencial evidentemente maior. Ao assegurar aos exportáveis subsídios, abatimento de
impostos e taxas, majorações domésticas de preços, etc, as autoridades governamentais
viabilizam a expansão dos exportáveis mas não podem lhe assegurar preços externos
crescentes (na verdade, são cadentes). A massa de lucros haurida assim pelos
exportáveis é, em parte, fictícia, e formada com ganhos reais tomados a outras camadas
da economia doméstica. Isso se reflete certamente no desempenho específico da renda
não-agrícola com a variável dependente poupança (“depósitos em todos os bancos”).
Sua baixa elasticidade não chega de todo a ser comprometida pela evolução dos
acréscimos da renda nominal (impacto positivo do efeito inflacionário).

143
Gráfico 45

Poupança Doméstica e Similar Computada desde os Rendimentos


Bruto e Nominal - 1964/1980

25000

20000

15000

10000

5000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-5000

Resíduos Observados Ajustados

Poderia a consideração da taxa de crescimento da renda nominal disponível (


YdN2 ) oferecer um resultado diferente em algum aspecto daquele que foi obtido? É o

que indica o modelo (54) (1964-1980):

G G
S d = -25.011189 + 0.3447910 YNAG + 0.8954971 Y AG + 0.6864068 YdN2 (54)

R 2 = 0.998834

R 2 ajustado = 0.9988565

F = 3712.581

Vê-se que nesse modelo houve uma ligeira melhoria para o desempenho da
G
elasticidade da renda bruta não-agrícola ( YNAG ) em termos absolutos e relativos, mas

144
nada que houvesse alterado substancialmente as posições explicativas. Infere-se,
portanto, a persistência das mesmas interpretações já feitas.

Gráfico 46

Poupança Doméstica e Similar Computada Desde a Renda Bruta e a Taxa de


Crescimento da Renda Nominal - 1964/1980

25000

20000

15000

10000

5000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-5000

Resíduos Observados Ajustados

Logicamente, o ajuste do gráfico 46 não apresenta ganhos consideráveis aos do


gráfico 45, a ponto de justificar uma revisão das interpretações já feitas.

De fato,

Modelo (53) Modelo (54)

Erro-padrão Erro-padrão

de regressão: 210.7047 de regressão: 208.6267

D.W. - : 1.402651 D.W. : 1.325513

São valores bastante aproximados.

Há indicação de coeficiente não-zero e, certamente, correlação serial como se


indica pelos valores DW inferiores a 2. No entanto, é importante evitar a manipulação

145
dos dados para eliminar a dispersão e a flutuação, porque a leitura de suas indicações
conforme a computação original é que interessa para a análise macroeconômica aqui.

B) Rendimento Disponível e Função Consumo.

Para efeito dos exercícios empíricos, pode-se considerar uma amostra de


portadores de rendimento que pagaram impostos em cada ano, com uma técnica de
generalização da amostra para o conjunto da renda líquida disponível. Os segmentos
adotados seguem-se abaixo, havendo sido ajustados polinomialmente os valores, após o
método de balizamento dos anos-amostra acessados. Ter-se-iam as seguintes camadas
de portadores de renda disponível, cada qual expressando, portanto, estimativamente
uma função de consumo e uma função de rendimento “aproximadoras” da realidade.

- os 5% do topo; seja o símbolo Y5d

- os próximos 15%; seja o símbolo Y15d

- os seguintes 40%; como símbolo Y Nd40

- os mais baixos 40%; ficando o símbolo YLd40

(Os detalhes da mostragem foram incluídos em excurso empírico e não serão


repetidos neste texto).

O índice físico de processamento do ramo de alimentos da F.G.V., com 1973 =


100.0 pode ser utilizado como capaz de caracterizar “produção tradicional”.
Considerando-se que a “produção tradicional” seja igual ao “consumo tradicional”,
poder-se-ia ver em que medida este índice é “previsível” pela renda disponível dos 40
por cento mais baixo dos pagadores de impostos (exclui-se aqui os detalhes da
construção da amostra). Tais 40 por cento dos portadores de rendimento com a renda
mais baixa, para o período 1965-1980, permitem o modelo:

O Pi = C t = -131.561 + 2.2578 YLd40 (55)

R 2 = 0.9590

t = 89.3709

146
Há, portanto, um forte relacionamento entre a renda disponível dos 40 por cento
portadores de renda mais-baixa (diante do imposto direto) e o índice físico do
processamento de alimentos da F.G.V.. Pode-se interpretar este resultado pela hipótese
de que este setor de portadores de renda utiliza seu rendimento disponível basicamente
para o consumo tradicional, dentro do período em questão. Qual seria, então, o
desempenho explicativo de um índice nominal de importações para a “produção

tradicional ( O Pi ) ou “consumo tradicional” ( C t ) (período 1965-1980)?

N
C t = -469.616 + 5.8289 I i (56)

R 2 = 0.89860

t = 82.5698

O resultado, bastante significativo, até surpreende e pode ser interpretado pela


hipótese de que a forte liberalização comercial estimulou a competição externa para
com as indústrias domésticas de processamento alimentar, - como ocorreu no governo
Costa e Silva . Um comportamento deste padrão pode haver intensificado o desempenho
do “índice de importações” no período. Por outro lado, uma das pré-condições do
“crescimento por via das exportações” é um nível de importações elevado, para
assegurar um nível mínimo de trocas e o fluxo de divisas necessário.

Considere-se uma outra camada de portadores de rendimento. Quando a posição


dos “próximos 40%” do rendimento disponível líquido é utilizada para explicar a
“função de consumo tradicional”, tem-se (1964-1980):

d
C t = - 449.382 + 7.4943 Y N 40 (57)

R 2 = 0.95570

t = 82.5698

Uma vez que os “próximos 40 por cento dos detentores de rendimento líquido”
explica um pouco melhor (6,35 por cento) que os “40 por cento de rendimento líquido

mais-baixo”, pode-se interpretar que o setor dos próximos 40% ( Y Nd40 ) – por possuir
maior renda- estava durante este período restringindo menos seu consumo de itens

147
alimentares que o setor YLd40 podia fazê-lo. Esta hipótese explicativa confirmaria o
caráter persistente do baixo nível do rendimento agregado líquido da maioria da
população brasileira, apesar do processo de crescimento econômico haver-se sustentado
já a longo prazo.

Adicione-se agora o desempenho do “índice nominal das importações” ao

“poder preditivo” dos “40% do rendimento mais baixo” ( YLd40 ), a fim de avaliar a
“função do consumo tradicional” daí resultante (1965-1980):

d N
C t = 67.544 + 0.366476 YL 40 - 0.022868 I i (58)

S Y .12 = 2.9132

RY2.12 = 0.6941

Enquanto que este modelo adiciona uma explicação de cerca de 70% à “função
de consumo tradicional”, ele indica que o decréscimo marginal das importações parece
haver-se reduzido com relação ao consumo tradicional, fenômeno este que seria
compatível com o aspecto ideal das liberalizações comerciais de potencializar o poder
de exportação no período, e não o poder de “consumir improdutivamente”. O
interessante resultado indica testar a variável “rendimento líquido dos próximos 40%” (
Y Nd40 ), incluindo-a neste modelo (1965-1980):

t d N
C 65 80 = 25.491 + 0.2343133 YL 40 + 0.4980567 I i + 0.00413 Y Nd40 (59)

RY2.123 = 0.7971 S Y .123 = 24.296

Quando apenas consideramos a relação da “variável dependente” e os “40%

mais baixo”, tem-se: RY21 = 0.9590, ou seja, o mesmo resultado obtido em (55). Ao
concluirmos as quatro variáveis, o poder associativo entre a “variável dependente” e os

próximos 40% ( Y Nd40 ), torna-se:

rY23.12 = 0.3367

148
O que interpretativamente atribui um desempenho mais importante “dos
próximos 40%” na “função de consumo tradicional” do que aquele apresentado na
função similar para o período 1947-1964 (não incluída neste excurso).

Avancemos agora no sentido da função de consumo mais convencional.


Explanaremos o consumo pessoal em termos reais a partir dos dados das Contas
Nacionais do Brasil (FGV/FIBGE). Em virtude da imcompletitude das amostras do
Imposto de rendas e das Contas nacionais, tivemos que introduzir compatibilizações por
técnicas padronizadas de procedimentos estatístico-inferenciais, a fim de delas extrair as
variáveis aproximatórias de interesse para o nosso estudo. Os detalhes dessas técnicas e
procedimentos serão omitidos aqui no texto.

Um destes agregados é a variável “rendimento do trabalho ( YWd )”, construída a


partir dos rendimentos médios pagos nas empresas ao fator trabalho, em amostras do
FIBGE, redistribuídas. Se explicarmos “consumo pessoal” pelo “rendimento do
trabalho”, obtem-se (1964-1980):

CF1

(1) Ci = 99.995 + 0.0973 YWd (60)

R 2 = 0.89490 t = 32.9775

Consideremos agora a “variável explanatória” o “rendimento disponível de

vencimentos & propriedades” ( YSd& P ) (1964-1980):

CF2

(2) Ci = -238.899 + 1.5743 YSd& P (61)

R 2 = 0.99280 t= 535.924

Neste caso, a função de consumo agregada apresenta uma propensão marginal a


consumir maior que a unidade, além da pendente de “tipo exponencial”. No caso do
modelo (60), na função de consumo dos trabalhadores, a propensão marginal a consumir
mostrou-se inferior a 0.10. Isto é compatível com a hipótese de nossa interpretação de

149
que o extremo “aperto salarial” (“arrocho”) no período em estudo reduziu a participação
corrente dos trabalhadores na expansão do mercado doméstico como consumidores.

Consideremos a expressão não-linear do modelo (68), a fim de avaliar se há


alguma diferença substancial entre a “pendente” e a “curva”:

C i = -1406.3616 + 14.386729 YWd (62)

R 2 = 0.92040

R 2 ajustado = 0.9155098

F = 173.4521

Embora a escolha do “grau correto” da curva permita uma melhoria do ajuste,


não há grande discrepância na relativização interna dos estatísticos de ambas as
equações. É visível no gráfico 47 a depressão dos valores observados, quando
representados pelo ajuste da variável “rendimento do trabalho (assalariado)”.

Gráfico 47

Consumo Pessoal e Similar Computada Desde o Rendimento do


Trabalho Fabril - 1964/1980

2000

1500

1000

500

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-500

Resíduo Observado Ajustado

150
Um modelo alternativo dessa função de consumo pode considerar o efeito das
taxas de crescimento dos “rendimentos do trabalho”, como auxiliar do ajuste do
“consumo pessoal” (1964-1980):

C i = -1401.1091 + 14.355195 YWd - 0.5217323 YWd 2 (63)

R 2 = 0.92054

R 2 ajustado = 0.90919

F = 81.09798

Como se observa no gráfico 48, o efeito oferece apenas alguma colinearidade,


mas não melhoria do ajuste:

Gráfico 48

Consumo Pessoal e Similar Computada a Partir dos Rendimentos do


Trabalho - 1964/1980

2000

1500

1000

500

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-500

Resíduos Observados Ajustados

Veja-se agora o desempenho alternativo da função de consumo CF2 , ou seja,

aquela em que o “rendimento disponível de vencimentos e propriedades” ( YSd& P )


explica a variável “consumo pessoal” (1964-1980):

151
C i = 175.38818 + 0.9738015 YSd& P (64)

R 2 = 0.99524
R 2 ajustado = 0.99492
F = 3137.176
Houve uma melhoria pequena do ajuste e uma atenuamento da pendente em
função da diferença de grau, o que oferece elementos auxiliares comparativos entre os
diferentes resultados dos modelos. Os valores do ajuste possível demonstram a grande
aderência do “rendimento de vencimentos e propriedades” ao desempenho observado do
consumo pessoal.

Gráfico 49

Consumo Pessoal e Similar Computada a Partir do Rendimento Disponível de


Vencimentos e Propriedades- 1964/1980

1800

1600

1400

1200

1000

800

600

400

200

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-200

Resíduos Observados Ajustados

O “rendimento dos vencimentos e propriedades”, ao contrário do efeito


depressor visível no desempenho do “rendimento do trabalho” no gráfico 47, exerce,
por sua vez, ao ser observado no gráfico 49, um efeito “empurrante”, isto é, ele
pressiona os valores do consumo para acima dos parâmetros observados.
Como interpretar estas variações? O modelo (60) oferece de modo consistente
uma propensão marginal a consumir baixa, como característica do trabalho assalariado.
Por outro lado, o modelo (61) nos oferece uma elasticidade muito elevada de consumo

152
para os detentores de rendimento de vencimentos e propriedades. Pode-se interpretar
tais achados empíricos como confirmando hipóteses sobre o processo de disparidades de
renda associado com o desenvolvimento dual; e os crescentes diferenciais de
rendimento inter e intra-subestruturas da economia no período referenciado. Ao lado
desta tendência dual, o mercado – sob pressão dos estímulos orientadores da política
econômica – acabava por manifestar diferentes funções de consumo para diferentes
setores de rendimento, como está aqui caracterizado. A opção por modelos mais
sofisticados não altera o resultado cru de (1) e (2), ou seja, respectivamente, os modelos
(60) e (61). Por outro lado, estes modelos mais simples tem a vantagem de poderem ser
levados como informação empírica ao diagrama da função dispêndio total, para fins de
análise econômica.
Considere-se agora o valor explicatório dos “40% de rendimento mais baixo” (
YLd40 ), em vistas a estabelecer uma função de consumo com a variável “consumo

pessoal” (1964-1980):
CF3

(3) C i = 3.9609 + 0.1246 YLd40 (65)

R 2 = 0.9881 t = 323.5080
Além do alto “poder explanatório” da associação, observa-se uma propensão
marginal a consumir, que atribui uma participação acrescentada de 12 centavos de
cruzeiros constantes (de 1949), no caso do aumento de 1 cruzeiro real na economia (de
Cr$ de 1949), considerado em termo líquido.
Ao considerar-se os “próximos 40%” ( Y Nd40 ), obtem-se o resultado:
CF4

(4) C i = 0.12474 + 0.4143 Y Nd40 (66)

R 2 = 0.98960 t = 370.4658
Tem-se assim, no caso da função consumo (4), que os “próximos 40%” de
detentores de renda disponível melhoraram sua capacidade de consumo com cerca de 40
centavos de cruzeiros de 1949 para cada correspondente cruzeiro real-constante criado
na economia doméstica. É, portanto, momento de considerar o papel que o rendimento

dos “próximos 15%” ( YNd15 ) teria como “variável explanatória” em nossa função de
consumo (1964-1980):

153
CF5

(5) C i = -8.8243 + 0.3857 YNd15 (67)

R 2 = 0.99050 t = 405.7256
Observe-se que (67) apresenta uma pendente muito mais pronunciada que o
modelo (66), por exemplo. Isso indica no sentido da concentração excessiva da renda
disponível, que se chamou característica do modelo de crescimento acelerado por via
das exportações, tal como o mesmo foi adotado pelos autores da política econômica no
período.
Por outro lado, a propensão marginal para o consumo indicada no modelo (67)
apresenta um coeficiente para os “15% mais próximos” quase tão forte como aquele

verificado para os “próximos 40%” ( Y Nd40 ) – Deduz assim, claramente, uma condição
adicional do processo de concentração de renda e sua evidenciação empírica factível a
partir das hipóteses dos diferentes comportamentos de consumo dos detentores de
rendimento liquido.
Caso oferecidos modelos de ajuste alternativo também para os exercícios dos
modelos (65), (66) e (67); haveria mudanças substanciais em interpretação?
O modelo (68) é uma alternativa ao ajuste linear do modelo (65) (1964-1980):
CF3

C i = 920.49534 + 0.3790134 YLd40 (68)

R 2 = 0.33318
R 2 ajustado = 0.311127 F = 0.517003

O resultado é surpreendente. Fora do ajuste tendencial, a renda dos “40% de


rendimento mais baixo” não apresenta associações diferenciais com a função consumo.
Os valores da variável suposta preditiva não guardam a relacionalidade necessária, ou
em acordo com os pressupostos da teoria econômica. Ou seja, os fatores que
condicionam um nível tão baixo de expansão do rendimento líquido são evidentemente
extra-econômicos. Caracteriza-se, portanto, à idiopatia da política econômica oficial
concentracionista no período. O gráfico 50 nos informa a disparidade do ajuste (e
porque não?) da política econômica...

Gráfico 50

154
Consumo Pessoal e Similar Computada Desde os 40% de
Rendimento Mais Baixo- 1964/1980

2000

1500

1000

500

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-500

-1000

Resíduo Observado Ajustado

Vê-se nitidamente a “incapacidade” que o rendimento líquido ( YLd40 ) possue


para descrever, com um polinômio de tipo elevado normal, o conjunto da função de
consumo de toda a sociedade. A ilação é que há uma ruptura muito visível entre seus
padrões, - de fato, ajustados para o comportamento daquela que se chama “função de
consumo tradicional” -, e o padrão do consumo expresso nas contas nacionais, e que
reflete outros setores de renda mais elevada na sociedade. A variação tendencial é, pois,
o seu principal e exclusivo – quase elemento de vinculação com o consumo pessoal da
sociedade e seu conjunto, mostrando-se por esta via a dualidade dos mercados de
produção e de remuneração fatorial que se caracterizara vigente.
Considere-se em seguida a posição do rendimento dos “5% do topo”, da
distribuição de renda líquida, para o mesmo período (1964-1980):
CF6

(6) C i = - 129.85 + 0.7565 YTd5 (69)

R 2 = 0.9922 t = 494.5998

155
Figura 1 - Brazil: diferentes funções consumo agregadas: 1964-1980

C7

1.200

960
C6

720

C4
480

C5
240
C3

240 480 720 960 1200


29 58 57 116 145 C3
92 184 276 368 460 C4
85 170 255 340 425 C5
152 304 456 608 760 C6
360 720 1080 1440 1800 C7

Estimativas de acordo com dados de distribuição de renda


Fonte: CCN – FGV e DIR-SEEF, MF.
Figura 2 – Brasil: Função Renda Disponível

RNB I

Consumo
Cr$ TEII g
Bilhões
1800 de
1949 c
TEI b6
C
1440 a6

1080 b4
a4
720 b5
a5
360
b3
a3 C4 C6
C3 C5
240 480 720 960 1200
360 720 1080 1440 1800
Rendimento Disponível
Fonte: FGV e MF

156
Como se pode apreciar, também este resultado aponta no sentido de referidas
hipóteses. Parece apoiar a análise geral do problema da concentração da renda,
vinculada com a expansão dos duráveis.
As diferentes pendentes das funções de consumo até aqui referidas em número
entre parêntese (), podem ser vistas no gráfico referente a “diferentes funções de
consumo agregadas – Brasil” e o seguinte . Pode-se notar ali que, apesar do processo de
concentração de renda, as pendentes das seis funções de consumo citadas estão abaixo
da linha de 45 graus, o que pode ser interpretado como um confortável desenvolvimento
do PIB. A função “ CF7 ” (7) no gráfico corresponde ao ajuste da “renda líquida
disponível no setor privado” que é:
CF7
d
(7) C i = 80.345 + 1.524 YPS (70)

R 2 = 0.98730 t = 303.0076
Como se vê nos gráficos em referência, as funções de consumo C3, C4, C5 e C6
são plotadas linearmente “contra” a função da renda disponível. As diferentes funções
de consumo correspondem, portanto, níveis diferentes de PNB e de PIB, uma vez que os
níveis específicos de dispêndios serão diferentes. A função CF3 (equação 65), que
representava o nível de consumo da função de rendimento dos “40% mais baixo” de

renda líquida ( YLd40 ), loca-se ao ponto a3, com um nível de poupanças negativa de
aproximadamente 40 bilhões de cruzeiros reais (de 1949), quando lida “contra” a renda
total disponível no setor privado (1.800 Cr$ milhões).
Estas despoupanças são as diferenças b-a, como se lê na interceptação da linha
de 45 graus no ponto b. Esta linha vertical intercepta também a função de dispêndio
total TE1, no ponto c, indicando uma posição na função PNB, tal como determinada
pelo nível das despesas (cerca de 1.600 milhões de Cr$ de 1949).
As funções C5 (modelo 67) e C4 (modelo 65), demonstram respectivamente
posições positivas de poupanças, quais sejam, de 90 bilhões de cruzeiros reais e de 110

bilhões de cruzeiros reais, em medição aproximada. Assim, “os próximos 40%” ( Y Nd40 )
seriam responsáveis por cerca de 110 bilhões de poupanças, contribuindo para o
crescimento econômico através dos mecanismos realocativos. Os “próximos 15%” de

detentores de rendimento ( YNd15 ), - embora com uma contribuição per capita maior – ,

157
apresentariam um montante total inferior com relação a C4. Os níveis da função do
rendimento disponível e consequentemente do PNB se situam um cerca do outro (c e g),
aproximadamente 1.650 milhões. No entanto, à função de consumo CF6 (6)
corresponde um montante de poupanças de 400-450 bilhões de cruzeiros reais; e daí um
PNB e um nível da função da renda disponível tremendamente mais elevado: cerca de
2.400 milhões. Assim, a nossa conclusão é que a concentração da renda contribuiu no
período para mais elevadas pendentes da PNB/PIB, em intimidade com níveis elevados
de poupança e consequentemente responsável pelo crescimento acelerado, em coerência
com nossas hipóteses básicas sobre as políticas públicas.
Qual será o valor explicativo do modelo que inclua os “5% do topo” do

rendimento disponível líquido e os “próximos 15%” ( YNd15 ) (1964-1980)?


C i = 119.34750 + 2.1381723 YTd5 + 0.0741961 YNd15 (71)

R 2 = 0.987044
R 2 ajustado = 0.985194
F = 533.3099
O modelo revela uma elevada aderência, confirmando a nossa hipótese da
extrema concentração de renda. Como se vê do gráfico 51, os valores estimados
começam mais baixo em 1964 (indicando participação relativa menor desse setor no
consumo) e ultrapassam o valor observado para 1980 (indicando a pendente mais
exponencial para os rendimentos dos 5% do topo e os seus vizinhos 15%).

Gráfico 51

Consumo Pessoal e Similar Computada a Partir dos


Rendimentos dos 5% do Topo e dos Próximos 15% - 1964/1980

2000
1800
1600
1400
1200
1000
800
600
400
200
0
-2001964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

Resíduo Observado Ajustado

158
Cumpre agora observar o ajuste da função de consumo para os rendimentos dos

“5% do topo” ( YTd5 ) e os “próximos 40% ( Y Nd40 ) (1964-1980):


C i = -25.741227 + 0.4020463 YTd5 + 3.022317 Y Nd40 (72)

R 2 = 0.997324
R 2 ajustado = 0.996942
F = 2609.121
A associação de ambas as variáveis demonstra uma propensão a consumir maior
do que a indicada pela associação relativa ao modelo (71). Os dois grupos de
rendimento disponível apresentam, pois, a mais ampla associação com o desempenho da
função consumo, como pode-se observar dos valores no gráfico 52.
Gráfico 52

Consumo Pessoal e Similar Computada a Partir do Rendimento


dos 5% do Topo e dos Próximos 40% - 1964/1980

1800
1600
1400
1200
1000
800
600
400
200
0
-2001964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

Resíduo Observado Ajustado

Os ganhos relativos doa três componentes do rendimento YTd5 , YNd15 e Y Nd40 ,

quando associados via YTd5 , levam a perguntar o desempenho dos “40% de rendimento
mais baixo”, quando associados aos “5% do topo”, para esclarecer a função de consumo
(1964-1980):
C i = 123.87081 + 2.1733812 YTd5 + 0.0074218 YLd40 (73)

159
R 2 = 0.987054
R 2 ajustado = 0.985205
F = 533.7230
Embora os “40% de rendimentos mais baixo” exerçam menor pressão sobre o
nível de consumo dos “5% do topo” do que os “próximos 15%” (vide modelo (71)),
ainda assim a baixa propensão ao consumo adicional para os “40% mais baixo” indica
seu desempenho pouco significativo para as transformações do consumo no período. De
fato, o efeito de “demanda reprimida” pode ser observado nos valores ajustados do
gráfico 53:
Gráfico 53

Consumo Pessoal e Similar Computada a Partir dos 5% do Topo


e os 40% de Rendimento Mais Baixo - 1964/1980

2000
1800
1600
1400
1200
1000
800
600
400
200
0
-2001964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

Resíduo Observado Ajustado

O poder explicativo dos “5% do topo”, dos próximos 15% e dos “próximos
40%”, perfazendo, portanto, 60% do total dos portadores de rendimento líquido, será
utilizado para uma solução mais sofisticada da função consumo no período (1964-
1980):
C t = 13.625953 + 0.6790183 YTd5 - 0.6290623 YNd15 + 3.0794231 Y Nd40 (74)

R 2 = 0.997498
R 2 ajustado = 0.996920
F = 1727.404

160
Sempre no caso de aceitarem-se as indicações dos modelos, é-nos agora
empiricamente oferecida a hipótese de decréscimo relativo da propensão marginal a
consumir dos “próximos 15%”, quando em associação com os outros dois grupos. Tal
interessa pelo efeito depressivo potencial manifesto na simulação do desempenho do
consumo, para um certo grupo, em função da posição certamente excessiva ocupada por
outros na estrutura do rendimento. O ajuste do Gráfico 54 é bastante firme.

Gráfico 54

Consumo Pessoal e Similar Computada Desde os 5% do Topo, os


15% Seguintes e os Próximos 40% - 1964/1980

1800
1600

1400
1200

1000
800
600
400
200

0
-2001964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

Resíduo Observado Ajustado

Qual será o efeito explicativo no modelo da função consumo, ao substituirem-se


os “próximos 40%” pelos “40% mais baixo”? E o que explica o modelo a seguir (1964-
1980):
C i = 121.79131 + 2.1579840 YTd5 + 0.0070414 YLd40 (75)

R 2 = 0.987055
R 2 ajustado = 0.984067
F = 330.4105
Não só aumentou a turbulência da dispersão dos erros, como a posição relativa
dos “5% do topo” não se alterou muito, uma vez mais. Seu parceiro mais competitivo

161
no consumo é, obviamente, os “próximos 15%” que, contudo, não pode beneficiar-se
muito da presença de outros “consumidores”. O consumo é, ao mesmo tempo, pouco
elástico para os consumidores de maior rendimento (e de mais alta taxa de crescimento
do rendimento, que funciona como a mesma coisa) e daí apresentar um efeito de atrito
para sua efetivação (que na prática deve ser caracterizada pela oferta limitada, inflação,
etc.). O gráfico 55 nos mostra o padrão do ajuste:

Gráfico 55

Consumo Pessoal e Similar Computada dos 5% do Topo, os


Próximos 15% e os 40% de Rendimento Mais Baixo - 1964/1980

2000
1800
1600
1400
1200
1000
800
600
400
200
0
-2001964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

Resíduo Observado Ajustado

Observa-se finalmente o poder explicativo do conjunto dos integrantes da renda


líquida disponível, na função consumo(1964-1980):
C i = -5.18995345 + 0.5026157 YTd5 - 0.4004760 YNd15 + 3.2014797 Y Nd40 -

0.042149 YLd40 (76)

R 2 = 0.987850
R 2 ajustado = 0.997134
F = 1392.577

A leitura dos coeficientes demonstra a hipótese em que se tem insistido da


concentração de renda, com a penalização dos “próximos 15%” e dos “40% mais baixo”

162
dos portadores de rendimento no período. Evidencia-se empiricamente uma vez mais o
efeito da “demanda reprimida” e a impossibilidade de acomodação expansiva dentro da
qual é característico das economias subdesenvolvidas. O gráfico 56 nos oferece o ajuste
resultante.

Gráfico 56

Consumo Pessoal e Similar Computada a Partir de Todos os


Estamentos de Renda - 1964/1980

1800
1600
1400
1200
1000
800
600
400
200
0
-2001964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

Resíduo Observado Ajustado

C) Função do Rendimento Disponível.


Os prévios supostos são os mesmos do estudo sobre o período 1940-1964. Ao
aplicar-se o modelo da renda disponível para o período 1965-1980, vê-se que a variável
“pagamentos de impostos ao Governo” (T) explica a função da renda disponível como
se segue:
Y d = -54.616 + 0.2823 T p (77)
R 2 = 0.99560 t = 848.5059

Este modelo tem uma variante que segue (1964-1980):


Y d = 185.05970 + 3.563471 T p (78)
R 2 = 0.995333
R 2 ajustado = 0.995022

163
F = 3199.107

Em ambos os casos o nível de ajuste do “pagamento de impostos ao governo”


revela sua aderência e, consequentemente, alta previsibilidade para a “função do
rendimento disponível”. Isto pode ser observado no gráfico 57.
Gráfico 57

Rendimento Disponível e Similar Computada a Partir de


Pagamento de Impostos ao Governo - 1964/1980

2000

1500

1000

500

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-500

Resíduo Observado Ajustado

A qualidade do ajuste permite aceitar o apoio à hipótese de uma melhoria


substancial no mecanismo fiscal nas políticas públicas pós-1964, quando comparadas
com o comportamento do período prévio (1947-1964). Procura-se agora evidenciar o
poder explicativo do “rendimento retido pelos produtores”, após o pagamento dos
impostos, na função do rendimento disponível (1965-1980):
P
Y d = 12.0744 + 0.2823 Yr (79)

R 2 = 0.99180 t = 455.4119
Se ajusta-se a variável não-linear do modelo, tem-se para o valor explicatório da

variável YrP (rendimento retido pelos produtores após o pagamento dos impostos) um
desempenho um pouco melhor:
P
Y d = -202.86353 + 17.645009 Yr (80)

R 2 = 0.992826
R 2 ajustado = 0.992347

164
F estatístico = 2075.761
De fato, tem-se os estatísticos de medida dos erros:
(78) (80)
Erro-padrão de regressão: 29.2587 36.27720
Durbin-Watson: 0.532314 1.988383
que dão a posição relativa dos dois modelos para explicar a renda disponível. O
maior ajuste do modelo (80) pode ser apreciado no gráfico 58; apesar da autocorrelação
elevada:
Gráfico 58

Rendimento Disponível e Similar Computada a Partir do


Rendimento Retido Pelos Produtores - 1964/1980

2000
1800
1600
1400
1200
1000
800
600
400
200
0
-2001964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

Resíduo Observado Ajustado

Observe-se pelo gráfico 51 a pressão para cima que exerce o “pagamento de


impostos ao governo” ( T p ), quando utilizado para explicar a renda disponível. Esta
pressão para fora dos parâmetros indica ambos: (a) o excesso de impostos sobre a renda,
dadas as suas proporções de crescimento; (b) a manipulação dos mesmos nos curto e
médio prazo, para suprir objetivos do governo sem consideração efetiva pelos níveis de
renda.
No entanto, no gráfico 58, pode-se considerar a normalidade entre o desempenho
da renda, antes e após os impostos. Se comparado este modelo com o comportamento
empírico estudado no período da industrialização substitutiva (pré-1964), ver-se-à um
ajuste maior no período pós-64, do mesmo com a “função rendimento disponível. Isto
aponta num sentido da maturação macroeconômica, com aumento de sensibilidade dos

165
fatores em presença. A melhoria dos mecanismos de poupança na faixa das atividades
privadas também responde pela adequação entre os rendimentos, em instantes
diferentes. Analisadas as obrigações fiscais internas, qual seria o desempenho da renda
N
líquida enviada ao exterior” ( YSA ) para “prever” o “rendimento disponível” (1965-
1980)?
N
Y d = -20.02 + 0.3418 YSA (81)

R 2 = 0.86640 t = 26.0661
Vê-se que a “renda líquida enviada ao exterior” pode satisfatoriamente explicar
o comportamento da função do rendimento disponível. Isto significa um entrelaçamento
intimo na natureza das duas forças, capazes de refletir com grande proximidade o que se
passa numa ou noutra, mutuamente. Ora, uma vez que a “renda líquida enviada ao
exterior” é fundamentalmente parte da renda doméstica gerada, o sentido desta relação
se torna por demais evidente.
O gráfico 59 nos permite apreciar as dificuldades especificas que o ajuste
apresente, para representar os valores observados do rendimento disponível.
Gráfico 59

Renda Disponível e Similar Computada Desde a Renda Líquida


Enviada ao Exterior - 1964/1980

2500

2000

1500

1000

500

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-500

Resíduo Observado Ajustado

O modelo (82) oferece uma outra forma de ajuste da função renda disponível,
pela “renda líquida enviada ao exterior” (1964-1980):

166
N
Y d = 630.34907 + 26.2637118 YSA (82)

R 2 = 0.868158
R 2 ajustado = 0.85937
F = 98.77222
Pelo “comportamento preditivo” da “renda líquida enviada ao exterior”, seria de
esperar-se uma renda disponível de chegada em níveis mais altos, mas partindo também
de níveis muito mais elevados. A variável “renda líquida enviada ao exterior” parece,
assim, sofrer das mesmas influências de política econômica que vieram a caracterizar o
crescimento e desempenho da variável “pagamento de impostos ao governo”. Ambas
crescem muito rápido, ignoram os níveis efetivos da renda disponível à partida e,
consequentemente, – ao se separarem efetivamente da renda disponível – exercem sobre
ela um efeito depressivo. Estas hipóteses interpretativas são consonantes com as
características concentradoras de renda da variante do CPE que foi aplicado no Brasil
no período, e também com sua marcante dependência das poupanças externas para
investir. Consequentemente, pela sua forte posição como exportador de renda líquida,
no longo prazo.
Os resultados desses modelos indicam, pois, favoravelmente à nossa hipótese
dos efeitos não-direcionados da liberalização e da expansão dos influxos de capital. Daí
resultaria, pois, a aceleração dos defluxos de recursos. Este fluxo melhorado dos
recursos é característico do CPE, mas a insuficiente diversificação da pauta de
exportações, acompanhada por persistência de baixa produtividade, minimizou os
ganhos desta melhoria e amplificou as perdas a ela inerentes. A corrida para o
crescimento mais rápido intensificava as perdas entrópicas e os fatores de desequilíbrio.
Adicione-se agora o poder explicativo de “rendimentos retidos pelos produtores”

( YrP ) ao desempenho do “pagamento de impostos ao governo” ( T p ) para ajustar a


função do rendimento disponível (1964-1980):
P
Y d = 24.636487 + 2.1279582 T p + 7.16442234 Yr (83)

R 2 = 0.997479
R 2 ajustado = 0.997119
estatístico F = 2769.440
O bom ajuste destas variáveis indica a crescente sofisticação da capacidade do
governo para manipular as alocações na economia. Isto porque tratam-se de agregados
muito sensíveis que se modificam rapidamente em resposta a políticas bem definidas.

167
Tendem, assim, a apoiar a hipótese do entrejogo entre as políticas do governo e a
expansão dos duráveis, como o uso impactante desta expansão para reverter a
produtividade de atividades econômicas. O gráfico 60 oferece a apreciação do ajuste do
modelo (83):
Gráfico 60

Rendimento Disponível e Similar Computada a Partir do Pagamento


de Impostos ao Governo e Rendimentos Retidos Pelos Produtores -
1964/1980

2000

1500

1000

500

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-500

Resíduo Observado Ajustado

Ao incluir-se no modelo a “renda líquida enviada ao exterior”, o resultado será


(1965-1980):
P N
Y d = 121.909 + 4.03275 TP + 0.2203814 Yr - 4.023671 YSA (84)
RY2.123 = 0.99990 S Y2.123 = 490517

Se considerar-se somente o relacionamento da “variável dependente” com

“pagamentos de impostos ao governo”, tem-se: rY21 = 0.99560, que é o mesmo


resultado obtido em (77). Quando se considera a “variável dependente” e o “rendimento
retido pelos produtores”, fixando-se “pagamentos de impostos ao governo”, obtém-se:
rY22.1 = 0.97710

E, ao incluirem-se as quatro variáveis, o “poder associativo” entre a “variável

dependente” e a “renda líquida enviada ao exterior”, torna-se: rY23.12 = 0.5380, que é


um elevado incremento de aproximação, se considerar-se o desempenho descritivo do
modelo para o período.

168
A variante deste modelo pode ser:
P N
Y d = 72.5368876 + 3.6790467 TP + 3.6790467 Yr - 2.323890 YSA (84)
R 2 = 0.997650
R 2 ajustado = 0.997108
F = 1839.929
Com o grau de ajuste apreciável no gráfico 61.

Gráfico 61

Renda Disponível e Similar Computada a Partir de Pagamentos de


Impostos e Rendimento Retido e Renda Líquida Enviada ao Exterior -
1964/1980

2000

1800

1600

1400

1200

1000

800

600

400

200

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-200

Resíduo Observado Ajustado

Tais resultados confirmam: (a) a utilidade do modelo do rendimento disponível;


(b) a funcionalidade das variáveis escolhidas para configurar os efeitos da política
econômica no desenvolvimento de tal rendimento, no período. Vê-se nitidamente que o
incremento da renda implica uma redução do envio de sua parte ao exterior, da ordem
de uns 60% daquele crescimento. Configura-se também a hipótese explicativa do
importante papel da poupança externa para o crescimento do rendimento, e as
dubiedades do efeito do movimento de capital, em função de manipulações inexpertas
da política econômica.

169
Os “poderes preditivos” comparáveis das variáveis, expressos nos coeficientes
parciais de determinação, são obtidos para os “dois planos regressionais”, que não
haviam sido ainda calculados, através da computação das necessárias equações
simultâneas. Vê-se daí que a variação do tamanho dos ditos coeficientes parciais de
determinação expressa as reduções de dispersão do ajuste. Ou seja, o poder preditivo
específico adicional pelo acréscimo de cada variável, em sua relação “per se”, com a
“variável dependente”.
O desempenho satisfatório das diferentes equações da função do rendimento
agregado disponível pode ser visto pelos coeficientes que indicam as propensões
marginais a poupar. O indicativo da expansão do rendimento em sua parcela que não é
gasta em consumo, implica potencialmente as “propensões marginais a investir”. É,
pois, possível configurar a hipótese do comportamento da poupança externa, a partir das
diferenças entre as propensões marginais a poupar e a investir.
Por outro lado, a função do rendimento disponível não é totalmente explicada
pela renda bruta interna. Como exemplo, o poder explicativo da “renda bruta agregada
não-agrícola” e a “renda bruta agrícola” pode ser utilizado para explicar o que se
afirmou (1964-1980):

G G
Y d = 864.47338 + 0.3462742 YNAG - 0.6379414 Y AG (86)

R 2 = 0.709602
R 2 ajustado = 0.665031 F = 16.88280

O indicativo de elevada dispersão no ajuste leva a meditar no tipo de forças que


podem explicar melhor a expansão do rendimento disponível, que não a renda bruta
interna. As rendas, agrícola e não-agrícola, tendem “a ajustar para cima” os valores da
renda disponível, o que é então, de fato, que – como mecanismo da economia – “ajusta
para baixo” os valores observados?

170
Gráfico 62

Renda Disponível e Similar Computada a Partir das Rendas Brutas Não-


Agrícola e Agrícola - 1964/1980

2500

2000

1500

1000

500

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-500

Resíduo Observado Ajustado

Considerando a “população” do país como variável isolada, pode-se obter um


ajuste muito satisfatório da função do rendimento disponível. E, sem dúvida, surpreende
a interpretação de um desempenho tão “modesto” para a expansão da renda. Se
recordar-se porém o caráter intensivo em trabalho da economia, talvez a surpresa se
desfaça. Insere-se potencialmente que, mesmo este caráter trabalho – intensivo, poderia
haver conduzido no período a resultados similares. A interpretação é que tal ocorreu. A
expectativa de um crescimento ainda maior – como é indicada pelo modelo (86) –
perdeu-se em algum ponto do processo, possivelmente como resultado da excessiva
manipulação e forte dependência dos recursos externos (período 1964-1980):
Y d = -1818.4107 + 29.359046 P (87)
R 2 = 0.987427
R 2 ajustado = 0.986589
F = 1178.021
O ajuste resultante da população (P) pode ser apreciado no gráfico 63.

171
Gráfico 63

Renda Disponível e Similar Computada a Partir da População -


1964/1980

2000

1500

1000

500

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-500

Resíduo Observado Ajustado

Tal ajuste é possível devido ao caráter intensivo em trabalho da economia, com a


geração de renda em forte dependência da expansão natural da população. Ou seja,
apesar do elevado “nível de acumulação”, ele é relativamente baixo. Qual seria o poder
explicativo dos “5% do topo do rendimento líquido” para prever a função do
rendimento disponível (1964-1980):
d
Y d = 263.18987 + 2.1559368 YT 5 (88)

R 2 = 0.980741
R 2 ajustado = 0.979457
F = 763.8571
Como se vê, a pendente é muito menos pronunciada que a resultante do modelo
(87). Os valores ajustados também pressionam “para cima”, como se pode observar no
gráfico 64. O valor elevado de dispersão não é de admirar, uma vez que, como se tem
argumentado, os valores dos setores de renda mais expressiva quase se confundem com
o perfil do rendimento disponível. Daí a forte colinearidade, que, contudo, não tem
importância maior aqui para o objetivo a demonstrar no argumento da intensividade em
trabalho.

172
Gráfico 64

Renda Disponível e Similar Computada Desde os 5% do Topo -


1964/1980

2000

1500

1000

500

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

-500

Resíduo Observado Ajustado

Pode–se inferir do exposto que o conjunto do exercício empírico sobre a função


do rendimento disponível confirma as hipóteses apresentadas acerca de: (a)
concentração de renda; (b) fluxos de poupança e investimento; (c) prevalência da
intensividade em trabalho. Combinados com o exercício da função consumo, oferecem
uma capacidade interpretativa interessante sobre a natureza específica do CPE, tal como
foi aplicado na versão pós-1964, seus pontos fortes e seus pontos fracos. Mantida, pois,
a interpretação de que a poupança externa foi um fator decisivo para os resultados do
modelo, cumpre uma rápida reflexão sobre a função da dívida externa.

D) A Dívida Externa Como Uma Função.


Sendo o déficit público usado como um instrumento de políticas de crescimento
acelerado, com o requisito de concentração da renda, é importante analisar a função da
dívida externa do país, como uma fonte que pode ser explicada pelas variações da renda
disponível. Neste caso, um modelo da função do endividamento externo pode ser
construído, a partir das variáveis abaixo:
FD = dívida externa
Ii = índice nominal dos valores das importações

173
APCi = índice da propensão média ao consumo
Yi d = índice do incremento da renda disponível

Pode-se então escrever esta relação funcional como:


FDit = a + b Ii + c MPCi + d Yi d
Este modelo da função da dívida externa foi processado com dados para o
período 1967-1979. Durante este período é claro que o déficit nacional foi financiado
com recursos externos, manipulados estes para ampliar o poder de compra no exterior e
a expansão da renda disponível real. A dívida externa desempenhou, assim, neste
período, uma função (a) de mecanismo acumulador e (b) redistribuidor de renda.
Considere-se primeiro o índice das importações como valor explicativo da
função do endividamento externo (1967-1979):
FDit = 115.174 + 0.6293 I i (89)

R 2 = 0.80910 T = 32.8200
O elevado valor explicativo pode ser interpretado pelos termos-de-troca
piorados, aliado ao uso doméstico de recursos da dívida para cobrir os déficits da
capacidade de compra no exterior. O crescimento das importações no período pode
também ser visualizado – para fins interpretativos – como função da dívida externa.
Veja-se agora o papel explicativo do índice da propensão média a consumir (o mesmo
período: 1967-1979):
FDit = 101.595 + 0.002072 APC i (90)

R 2 = 0.1296 t = 1.3718
Embora o relacionamento não seja aparentemente visível (0,20% da variação no
índice), o coeficiente de determinação não deixa de assustar (cerca de 13%), para um
caso onde a flutuação poderá ser o único resultado esperado. Exercite-se agora o papel
do índice do incremento da renda disponível (1967-1979):
FDit = -547.629 + 4.2932 Yi d (91)

R 2 = 0.96960 t = 107.5509
Tem-se agora uma associação muito íntima, que parece confirmar a hipótese da
divida externa como expansor e redistribuídos de renda.
Considere-se agora uma variante mais sofisticada, pela inclusão do desempenho
do índice da propensão média a consumir, ao poder explicativo do índice nominal de
importações (1967-1979):

174
FDit = 2930.208 + 1.23295 Ii – 29.05915 APCi (92)
RY2.12 = 0.65880 S Y .12 = 222.177

O resultado pode ser considerado satisfatório, tendo em vista a análise das


políticas de liberalização. Cerca de 66% da divida externa pode “explicar-se” em termos
das variações do índice de importações e do decréscimo da propensão média a
consumir. Nesse caso – se a indicação do modelo aponta na direção correta – a extensão
e profundidade da viragem para os “duráveis” foi maior do que se julga, aparentemente,
que ocorreu no período. Inclua-se, pois, no modelo, os incrementos do rendimento
disponível, e veja-se que resulta (1967-1979):
FDit = 792.629 + 0.733564 – 6.951694 APCi – 0.048533 Yi d (93)
RY2.12 = 0.99820 S Y .12 = 257.7460

Quando se considera somente a relação da “variável dependente” (índice

nominal da divida externa), FDit , com o “nominal das importações”, Ii, obtém-se: rY21
= 0.80920, o mesmo resultado, praticamente, que se obtivera em (89).
Caso se considere apenas FDit e a propensão média a consumir, fixando-se a

variável índice nominal das importações”, obtém-se: rY22.1 = 0.78830.


O que significa uma considerável melhoria sobre o “desempenho isolado” desta
variável. Pela inclusão das quatro variáveis, a força de associação entre a “variável

dependente” FDit e o “incremento do rendimento disponível” é: rY23.12 = 0.99470.


O resultado explicita o valor explicativo do modelo para explicar a posição da
divida externa brasileira, dentro da hipótese de sua funcionalidade, dando elementos
comprobatórios dos ganhos efetivos da aplicação das variáveis, dentro deste pressuposto
teórico.
De fato, caso se recorra ao poder explicativo dos termos-de-troca do comércio
exterior, TTi, como um índice, para explicar o endividamento externo, advém (1964-
1980):
FDit = 2718.2654 – 12.753535 TTi (94)

R 2 = 0.10799
R 2 ajustado = 0.055148
F = 0.163751
O desempenho desfavorável dos estatísticos fundamentais não impede a
sugestão de uma piora radical dos termos-de-troca no mercado exterior, associado a

175
uma expansão da dívida externa. Como se formulou contudo a hipótese explicativa de
uma associação entre a expansão da dívida externa e da expansão dos duráveis, um
índice agregado da produção de aço e de veículos pode ser incluído, SVi, para
estimular-se o resultado (1964-1980):
FDit = -4692.7385 + 37.424842 Tti + 5.0767639 SVi (95)

R 2 = 0.841183
R 2 ajustado = 0.818494
F = 37.07578
Vê-se que da associação dos “termos-de-troca” com o “índice de aço-duráveis”,
obtém-se um poder explanatório mais significativo do “índice da divida externa”. No
entanto, a “renda líquida enviada ao exterior”, incluída no lugar dos “termos-de-troca”,
torna o modelo muito mais explicativo (1964-1980):
FDit = - 425.76279 -0.4081340 SVi + 129.92363 N SA
Y
(96)

R 2 = 0.969052
R 2 ajustado = 0.964631
F = 219.1859
O desempenho destes coeficientes pode ser apreciado no gráfico 65, onde apenas
o ano de 1964, certamente submetido a outras influências, escapa ao ajuste pretendido.
É de se notar que, mesmo para a variável “renda líquida enviada ao exterior”, torna-se
difícil reproduzir os altos índices que atingiu a “divida externa”, no período.
Qual será o desempenho deste modelo se nele incluímos o acréscimo da renda
disponível real no período (1964-1980)?
FDit = -384.7433 - 0.0821590 SVi + 124.62944 N SA
Y
- 2.1979414 Yi d (97)

R 2 = 0.971257
R 2 ajustado = 0.964624
F = 146.4300

176
Gráfico 65

Dívida Externa e Similar Computada a Partir do Índice de Aço-


Duráveis e da Renda Líquida Enviada ao Exterior - 1964/1980

7000

6000

5000

4000

3000

2000

1000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-1000

Resíduo Observado Ajustado

O modelo permite formular a hipótese explicativa de uma íntima associação


entre: (a) o decréscimo da dívida externa; (b) o decréscimo da produção de duráveis e
(c) o decréscimo da renda disponível, para permitir, simultaneamente, o aumento do
envio necessário da “renda líquida (enviada) ao exterior”. Ou seja, empiricamente
indica-se o fim e a inconseqüência da expansão dos duráveis, via o pretexto do CPE,
pela rota do endividamento externo e a necessidade de políticas recessivas para
assegurar o conjuramento no mais rápido prazo das forças cumulativas descendentes.
Tal comprovação empírica sustenta amplamente os nossos argumentos e confirma a
inconseqüência das políticas adotadas no período.
Para o efeito, veja-se o gráfico 66.

177
Gráfico 66

Dívida Externa e Similar Computada a Partir do Índice Aço-Duráveis, a Renda Líquida


Enviada ao Exterior e a Renda e o Acréscimo da Renda Disponível Real - 1964/1980

7000

6000

5000

4000

3000

2000

1000

0
1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980
-1000

Resíduo Observado Ajustado

Por outro lado, uma leitura das relações indicadas pelos coeficientes de modo
dinâmico indicará que (a) a expansão da produção de duráveis está associada a (b) ao
aumento da dívida externa. Ambos se associam à expansão da renda disponível, na
condição de sua crescente concentração. (Caso se desconcentre a renda pelos quartís
obtidos, ela cresce mais devagar, mantendo-se aproximadamente a taxa de crescimento
da dívida externa).
O modelo indica igualmente a desconsideração – por parte das autoridades
públicas – das premissas cíclicas de toda a política econômica, com perdas sistemáticas
de funcionalidades, elevações desnecessárias de custos, etc, com – de fato – a
substituição dos elementos sinérgicos da expansão objetiva e maximizada por
pressupostos ideológicos de discutível sabor, que, ao lado das óbices característicos das
sociedades subdesenvolvidas, atuam em pleno com sua força entrópica.
(Lund setembro-outubro, 1982,
outono).

178
Sobre o Autor

Wilson do Nascimento Barbosa é Professor Titular de História Econômica do


Departamento de História da FFLCH-USP. É autor de dezesseis obras na área,
dedicando-se ao ensino e pesquisa desde os anos (19)60.

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