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FUNDAÇÃO ESCOLA SUPERIOR DO MINISTÉRIO


PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO

BENEDITA ROSARINHA DE ARRUDA BASTOS

Violência contra a criança e o


adolescente
Exploração Sexual Infanto-Juvenil
Prostituição Infantil

CUIABÁ/MT
2

2008
BENEDITA ROSARINHA DE ARRUDA BASTOS

Violência contra a criança e o


adolescente
Exploração Sexual Infanto-Juvenil
Prostituição Infantil

Monografia de Especialização em
Direito da Criança e do
Adolescente.

Orientador: Prof. Ms. José Antonio Borges

CUIABÁ/MT
3

2008
BENEDITA ROSARINHA DE ARRUDA BASTOS

Violência contra a criança e o adolescente


Exploração sexual infanto-juvenil
Prostituição Infantil

Monografia apresentada à Fundação


da Escola Superior do Ministério
Público do Estado de Mato Grosso
como exigência parcial para obtenção
do Título de Especialista em Direito da
Criança e do Adolescente.

Aprovada pelos membros da banca examinadora com


menção_______
(_____________________________________________________)

BANCA EXAMINADORA
_____________________
Orientador: Prof. Ms. José Antonio Borges
Fundação Escola Superior do Ministério Público/MT
__________________
Integrante: Prof.
......................................................
__________________
Integrante: Prof.
4

......................................................
Data de Aprovação ____/_____/_____

DEDICATÓRIA
5

Aos meus netos: Ale Guilherme Arfux


da Costa Ribeiro (in memorian), Antonia
Arfux Taques e Rafael Vicente Arfux
Taques

“É a partir dos que sofrem, dos


que estão marginalizados (as)
que devemos formular valores.
São estas pessoas que através
de sua dor indicam os
6

caminhos em vista de uma vida


mais justa ou em vista da
restauração da vida”.
(Serviço da Mulher Marginalizada)
RESUMO

O tema da violência é cada vez mais freqüente nas publicações


periódicas e científicas. A violência cresce assustadoramente e ainda não se
reconhece, com precisão, as causas que a antecedem. Esta problemática está
relacionada a outra mais específica, porém não menos importante. Trata-se do
grave problema que vive a sociedade moderna atual, denominado Exploração
Sexual Infanto-Juvenil.
A prostituição e a exploração infantil são realidades disseminadas em
todo o mundo. Entre os fatores que levam à alta incidência da prostituição
estão, além da miséria, as tradições sócio-cultural e as pressões exercidas pela
mídia.
A cultura coronelista sempre esteve presente na valorização de práticas
sexuais como o incesto, a preferência de sexo com meninas e a separação
entre a mulher doméstica das “outras”. Este pensamento leva ao crescente
número de usuários que fortalecem o surgimento e a manutenção das redes de
exploração sexual de crianças e adolescentes. Geralmente, as meninas da
classe social menos favorecida têm uma iniciação sexual no seio da família. E,
as instituições que poderiam reverter essa situação são ausentes nas questões
preventivas, bem como na orientação sexual dessas crianças e adolescentes.
Entretanto, são inúmeros os projetos nessa área, o que falta – além da
conscientização da sociedade – é o interesse por parte do Estado em trabalhar,
efetivamente, essas questões. Os fatores que impulsionam o quadro da prática
da prostituição têm contornos definidos. Os estudos realizados na área
quantificam e categorizam as diferentes formas de exploração, abuso e
exploração sexual infanto-juvenil. As pesquisas citam a quantidade de 500.000
meninas prostituídas, número este que coloca o Brasil em segundo lugar no
mundo, superado apenas pela Tailândia.
Somos da opinião de que a gravidade do problema social ora trabalhado
pode se resolver conhecendo as causas sociais que os provoca, buscando
soluções de diversas formas. Apesar de que as mais diferentes áreas como a
Sociologia, Psicologia, Ética, etc., ao estudar o problema ainda não chegaram
a uma resposta conclusiva. Dessa forma, somos favoráveis que em todos os
casos a investigação multidisciplinar deve ser realizada.
No presente trabalho consideramos de grande importância a abordagem
teórica e prática do problema referente à exploração e ao abuso sexual da
população infanto-juvenil, desde a sua perspectiva e a prática da busca dos
direitos. Na realidade, sabemos que existem comportamentos “sociais” que
ainda não estão caracterizados como delitos, a Pornografia, por exemplo.
Existem fatores e aspectos teóricos que ainda precisam ser elaborados
com a finalidade de vincular (melhor), a lei com a realidade social e garantir a
prática dos Direitos Humanos ligado ao respeito à pessoa humana, garantindo-
lhe a liberdade de seus direitos.
7

Violência – Direitos Humanos - Exploração e Abuso Sexual – Prostituição

ABSTRACT

Each day, becomes amore frequent issue in periodical and cientific


publications. Violence grows and still its causes are not well recognized. This
difficulty is related to another whuch, although not more specific, it is not less
imortant. It is the serious problem our modern soity lives – Infant – Juvenil
Sexual Exploitation.
Prostitution and infant explotation are disseminated realities all over the
world. Among the factors which bring a rise to the prostituion incidence they
are, besides mesery, the social. And cultural traditions and the pressions
exercised by the midia.
The presence of the patriarcal culture continues in the sexual practices as
family, incest, preference of Sex with girls and the separation between the wife
and other womwn. With this factor underlining the present situation, the great,
number of consumers strengthens emergence and maintenence of the girl
sexual exploitation network. Generally, girls from the lowest social classes have
a violent sexual iniciation in their family. The instituions which could change this
situation are absent in the prevention and the children sexual orientation.
Although there is a great number of projects in this area, there is a lack of
concientization from the soiety, application of these projects from the state. The
factores which push the prostitution practices assume defined shapes. There
are recent quantitatives studies which classift rhr different forms of infant –
juvenil prostitution. A lot was said about quantifyng the prostitution girls were
mentioned, number which positiones Brazil in the word’s second place, only
behing Tayland.
In our opinion, the seriosity of the social problem aluded can be resolved
by knowing the social causes which provoke them and by questioning other
their causes, we could say that we do not have get complete answers from any
of the sciences which study the problem, like Soliology, Ethics, Psicology, etc.
Worst it would be to try to final in Politics any solutions for these problems.
We considere that a miltidiciplinar investigations of the subject should be done.
In this study, we considere actual and of great teorical, meodological and
pratical importance to appoach the Infant – Juvenil Sexual Exploitation Problem
from the perspective and practice of the Law.
The reality that there are criminal social behaviors and practices which are
not yet labeled as infraction and, the negligence from the part of social and
public institutions – from when it comes to the exercise lf the Law difficults the
fight against these practices.
These are technical factors and aspects which still need to be elaborated
as to vinculate beteer the Law to the social reality and to ajust the social
practice to the Humam Rights, related to the beings, their freedon and rights.
8

Violence - Right Human - Exploration and Sexual Abuse - Prostitution

ABSTRACTO

El tema de la violencia es cada vez mas frecuente en publicaciones


periodicas y cientificas. És cierto que la violencia cresce y a ún no se reconoce
com precisión las causas que conceden a ella. Esta problemática está
relacionada com outra que, a ún mas especifica no es menos importante.
Tratase del grave problema que vive la sociedad moderna actual, denominado
Exploración Sexual Infancia – Juvenil.
La prostitución y la esploración infantil son realidades diseminadas en
todo el mundo. Entre los factores que llevan a la alta incidencia de la
prostitución estan, fuera de la miseria, las tradiciones socio-culturales y las
presiones ejercidas por la midia. La cultura coronelista se mantiene presente en
la valorización de prácticas sexuales como el incest familiar, la preferencia de
sexo com niñas, y la separación entre la muyer doméstica y las “otras”. Com
esta armación es grande el número de usuarios que fortalece el surgimiento y
la manutención de las redes de exploración sexual de niñas. En general las
niñas de los segmentos mas pobres tienen una iniciación sexual violenta en el
seno de la familia. Las instituciones que poderian revertir esa situación, se
muestran ausentes en la prevención y orientación sexual de estos niños, no
obstante haiga imnúmeros de proyectos en esa área, lo que falta es sin duda la
concientización de la sociedade, del estado par ala aplicación de los mismos.
Los factores que impulsan el cuadro de la práctica de la prostitución asumen
contornos definidos. Existen estudios cuantitativos recientes que categorizan y
estudian las diferentes formas de prostitución infania- juvenil. Mucho se habla a
especto de la contidad de la prostitución de uqe tratamos. Diversos números
fueron sitados. Llego a ser mensionada la cantidad de 500.000 niñas
prostituidas, cifra que colocaria el Brasil en segundo lugar en el mundo,
superado apenas por Tailandia.
Em nuestra opinión, la gravidad del problema social aludido puede ser
resuelto, conociendo las causas sociales que las provoca y indagando las mas
posibles para su solución. Apesar de que, en defirentes áreas, se intenta dar
una respuesta sobre las causas del mismo, podemos decir que a ún no
tenemos repuestas completas en nunguna de las ciencias que studian el
problema, como la Soliologia, la Ética, la Psicologia, etc. Tan poco la politica
tiene encontrado solución para estos problemas. Em nuestra conciencia,
consideramos que a investigación multidisciplinar del mismo deve ser
realizada.
En el presente trabajo, consideramos actual y de grande importancia
teórico metodológica que práctica y aborda el problema de la Exploración
Sexual Infancia-Juvenil desde la perspectiva y la práctica del derecho.
La realidad que tenemos delante de los ojos y que existen actos y
comportamientos solicales criminosos que a ún no estan caracterizados como
delitos, bien como existe negligencia por parte de instituciones sociales y de los
poderes públicos, en la que se refiere el ejecicio de la ley que, debilita la lucha
contra tal proyecto. Existen factores y aspectos técnicos que a ún precisam se
elaborados com el fin de vncular mejor la ley com la realidad social y ajustar
9

mas la práctica social al Derecho Humano, ligado al respecto a la persona


humana, la mayor libertaad de sus derechos.

Violencia – Derechos Humanos - Exploración y Abuso Sexual - Prostitución

LISTA DE SIGLAS

AIDS – Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida


CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito
C.F. – Constituição Federal
EUA – Estados Unidos da América
NCCAPR – Nacional Center on Child Abuse Prevention Research
FAI – Federação Abolicionista Internacional
FEBEM – Fundação do Bem–Estar do Menor
CUT – Central Única dos Trabalhadores
OIT – Organização Internacional do Trabalho
UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância
ONG´s – Organizações não Governamentais
AIJD – Associação Internacional de Justiça e Direito.
DPCA – Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente
CRIAD – Conselho Estadual dos Direitos da Criança.
G.D.F. – Governo do Distrito Federal
CEDCA – Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente.
PROSOL – Promoção do Bem–Estar Social
ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente
AMENCAR – Amparo ao Menor Carente
EMBRATUR – Empresa Brasileira de Turismo
CONANDA – Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes
CDCA – Conselho de Defesa da Criança e do Adolescente.
TJSP – Tribunal de Justiça de São Paulo.
CEBRID – Centro Brasileiro de informações sobre drogas e Psicotrópicos
CP – Código Penal
FORUM DCA/MT – Fórum Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do
Adolescente
10

CMDCA – Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente


FUNABEM – Fundação Nacional do Bem - Estar do Menor

SUMÁRIO

Dedicatória
Resumo
Abstract
Lista de Siglas
Sumário
1.0 –
Introdução...............................................................................................12
1.1 – Histórico............................................................................................14
1.2 – A Violência de Gênero no Âmbito dos Direitos Humanos...............20
2.0 – Desenvolvimento.................................................................................22
2.1 - Dos Direitos Humanos.......................................................................22
2.1.2 - Dos Direitos da Criança e do Adolescente......................................23
2.1.3 - Da Tutela Jurisdicional...................................................................27
2.2 - Violência Infanto-Juvenil..................................................................29
2.3 – Da Prostituição ................................................................................38
2.3.1 - Considerações Iniciais sobre a Prostituição....................................38
2.3.2 - Formas de Iniciação e Condições de Vida na Prostituição.............42
2.4 - Prostituição Infanto-Juvenil..............................................................44
2.4.1 – Análises Comparativas – Prostituição em Fortaleza......................49
2.4.1.1 - A Prostituição no Estado do Espírito Santo.................................51
2.4.1.2 - A Prostituição no Estado de Mato Grosso...................................52
2.4.1.3 - A Prostituição em Cuiabá............................................................55
2.4.2 - Do Turismo Sexual Infantil............................................................56
3.0 – Da Prevenção da Violência Sexual......................................................60
3.1 - Como Intervir e Prevenir a Exploração e a Violência Sexual............62
3.1.2 – Da Educação Sexual Preventiva.....................................................63
11

3.2 – Conseqüências...................................................................................63
3.2.1 - Das Doenças Sexualmente Transmissíveis.....................................64
3.2.2 - Alcoolismo Precoce........................................................................66
3.2.2.1 – O Álcool na Adolescência...........................................................67
4.0 - Do Sistema da Justiça...........................................................................68
4.1- Do Sistema Jurídico............................................................................68
4.1.2 – Da Proteção do Estado à Criança e ao Adolescente......................69
4.1.3 – Estatuto da Criança e do Adolescente: Um Instrumento na
Construção de uma Sociedade Cidadã.........................................70
4.2 - Do Sistema Político............................................................................73
4.2.1 - Instituições Repressivas: O Caso da Polícia Civil.........................73
4.2.2 - A Realidade Brasileira....................................................................74
5.0 – Considerações Finais...........................................................................76
6.0 – Bibliografia..........................................................................................78
12

1.0 – Introdução

A violência cresce assustadoramente no mundo todo. Em cada país, os que


trabalham com saúde, bem-estar, educação, etc., assim também como os representantes
dos governos têm expressado sua preocupação com a violência crescente, e se têm
comprometido a empenhar-se em ações para resolvê-la. No entanto, todos nós sabemos
que a real solução destes problemas tão complexos requer mudanças que sejam,
igualmente, profundas. Tivemos a oportunidade de estudar os problemas das pessoas
que vivem em situação de conflito ou que vivenciam tipos de violência. Convém
assinalar que mulheres e crianças não são grupos “especiais” nessas situações. Por
várias razões, mulheres e crianças são alvos de violência, principalmente da violência
sexual, e da exploração sexual infanto-juvenil. Se olharmos a nossa realidade, a situação
é ainda mais complexa, pois não estamos apenas diante de casos esporádicos que
privilegiam uma faixa etária em detrimento de outras. O que se constata é que camadas
populacionais inteiras são excluídas por um sistema político-econômico perverso que
resguarda a poucos o direito de tudo possuírem, ainda que esta posse resulte em fome,
doenças e a falta de habitação para milhões de cidadãos brasileiros, ou melhor, para os
quase-cidadãos ou semi-cidadãos, pois no conceito de cidadania não está somente o
direito/obrigação de votar, mas todos os direitos e deveres inerentes à vivência
comunitária na polis, como trabalho, casa, alimentação, escola, saúde, etc. E nesse
contexto é exatamente a criança a que mais sofre. Primeiro por não ter condições de se
auto-defender, sendo vítima fácil da desnutrição e de todas as doenças, o que resulta em
um elevado índice de mortalidade infantil. Desde pequena, a criança é jogada no mundo
adulto, sendo explorada em sua força de trabalho, ficando distante dos bancos escolares,
crescendo um adulto inabilitado para os requisitos de mão-de-obra especializada. Há,
ainda, outras formas de exclusão, tais como a permissão de participarem de programas
impróprios, pelo seu caráter nocivo (que violentariam uma premissa básica de serem
sujeitos em processo de desenvolvimento e, portanto, merecedores de cuidados
especiais), além de outras circunstâncias em que o envolvimento da criança não seria
saudável, tanto para a criança e o/a adolescente como para os seus genitores. Há que se
buscar mecanismos, sobretudo, como um estilo de vida, senão alternativo, mas no
mínimo diferenciado do senso comum no qual o mundo adulto relega à criança um
papel secundário, um submundo de completo descaso.
A análise da problemática da infância tem que ser entendida num contexto
globalizante da situação do ser humano Desta forma é importante colocar quais são os
principais problemas que afetam os habitantes do mundo de hoje. Fazer frente a isto,
avaliando as possibilidades críticas de êxito e também os desafios de uma ação contínua
em favor da infância e da juventude, necessário se faz esclarecer que todos os
problemas conforme se detalham, possuem seu próprio caráter e sua profundidade de se
manifestar, que não são idênticas às conseqüências dessas para a humanidade em seu
conjunto e para seus diversos grupos sociais. Os problemas globais que afetam a
humanidade vão desde a necessidade de impedir o atraso dos países em
desenvolvimento à eliminação de revoltantes injustiças sociais até garantir o
desenvolvimento equilibrado entre o crescimento demográfico e a dinâmica de oferecer
alimentos, recursos energéticos, matérias-prima e um efetivo cuidado de meio natural e,
13

finalmente o problema do desenvolvimento do homem e da garantia de um futuro digno


para ele. Para entrarmos na análise a que nos propomos, retrataremos alguns dos
grandes problemas sociais, tais como o problema alimentar que resulta de difícil
solução, o mesmo que está relacionado intimamente com o desenvolvimento
demográfico. Durante os três primeiros quartos do século, a população aumentou 2,6
vezes, e a produção agrícola se desenvolveu somente 2,8 vezes. Ocasionando 500
milhões de pessoas que sofrem de fome crônica e alimentação insuficiente. Mais de 100
milhões de seres humanos se alimentam deficientemente. Durante os últimos 25 anos
deste século, conforme cálculos moderados, a população aumentou em mais de 60%
(635 milhões até o ano 2.000). De acordo com as projeções feitas pela ONU (2001), a
população mundial crescerá em 52% passando para 9,3 bilhões. Como podemos
vivenciar esse crescimento populacional, inevitavelmente, tem provocado um rápido
crescimento no volume de procura dos alimentos. O diretor geral da FAO, Jacques
Diouf, pediu à comunidade internacional não só que atue de imediato para solucionar a
atual crise alimentar mundial, mas também que aproveite a oportunidade que constitui o
aumento dos preços dos alimentos e se evite que esta situação dramática se repita no
futuro1. No entender Diouf, “chegou o momento de relançar a agricultura, e a
comunidade internacional não deveria perder a oportunidade”2.
A formação de cidades de várias dezenas de milhões de habitantes acarreta graves
problemas tanto na provisão de serviços básicos como nas condições de vida das
pessoas: emprego, assistência médica, água potável, alimentos. Em todo o planeta o
número da população urbana pode chegar a superar os três bilhões de pessoas. A esses
problemas se somam outros como os que estão relacionados com os valores humanos e
particularmente entre adultos, crianças e adolescentes. Justamente neste quesito é que se
concentra a especificidade da problemática que abordamos, qual seja, o abuso sexual
como uma forma crua de maltrato que interrompe o desenvolvimento harmônico da
criança e a possibilidade a que ela escolha de per si o desenvolvimento de sua
sexualidade.
Resulta reivindicar os direitos subjetivos e não somente os direitos objetivos. O
maltrato é um fenômeno integrado de ações que lesam os direitos das crianças e dos/as
adolescentes onde quer que estejam desde os círculos mais particulares até o contexto
geral da sociedade e do Estado. Dessa forma a sociedade é deteriorada quando as
condições dos pobres impedem a família de satisfazer as necessidades básicas de seus
filhos. O Estado é deteriorador quando não define políticas orientadas à proteção da
criança e da família, quando não prioriza suas descobertas na área social ou quando no
aparato legal introduz postulados coercitivos e práticas punitivas que geram violência
contra os menores de idade. O abuso sexual tem aumentado progressivamente pelas
trocas na estrutura familiar devido ao crescimento da taxa de divórcios, pais/padrastos
que abusam de crianças e adolescente os quais, segundo a ciência, quando adultos
transformam-se, também, em abusadores. Outro fator é a nociva influência dos meios de
comunicação no comportamento social e bem podem ser qualificados, em muitos casos,
como motivadores ou indutores para atividades sexuais precoces.
Veremos neste trabalho que as crianças e adolescentes do sexo feminino (muito
embora, os do sexo masculino, também sejam alvos) são presas fáceis da exploração, do
abuso e da violência que atingem seu corpo, seu sexo e seu ser. Trata-se das
circunstâncias que fazem parte da realidade da vida de toda a população pobre: a
menina, no entanto, por sua múltipla vulnerabilidade – por ser criança, por ser mulher e
também por ser pobre – é, entre todas as que se encontra em situação de mais alto risco.
1
In Agraportal. 02/05/2008.
2
Idem.
14

1.1- Histórico

Resgatando a figura das crianças na história da humanidade, observamos que a


sua presença é praticamente nula, quando não, é recebedora de algumas atenções e
cuidados, pelo seu status enquanto filho (a) de nobre, de castas especiais, como
aconteceu durante a idade antiga. Os estudos históricos sobre a criança e o adolescente
são muito recentes. Iniciaram-se na década de 60 e se difundiram na década de 70. Estes
estudos estão fundamentados em diversas fontes: decretos, livros de leis, prescrições da
igreja, códigos, escritos filosóficos, escritos religiosos, registros oficiais, estudos
demográficos, estudos epidemiológicos e testemunhos por registros que se baseiam na
vida de uma família (em geral aristocrática) ou de uma comunidade, em determinado
momento da história. O reconhecimento da criança como ser diferenciado dependeu dos
modelos de cultura e dos fatores demográficos, da freqüente mortalidade e do inevitável
desaparecimento (à mercê do azar), que criava uma indiferença para estes seres frágeis
com quem ninguém queria se identificar nem se vincular. Eram considerados com a
mesma ambigüidade que o feto, e não se avaliava o nascimento como mudança de
natureza importante. Segundo Ariés: “não se pensava que esta criança continha já toda
uma pessoa humana, como cremos habitualmente hoje”3. Aristóteles atribuiu à criança
uma avidez doentia, próxima à loucura. Concedeu-lhe, apesar disto, disposições naturais
para a virtude ao afirmar que a criança é um ser irracional carente de entendimento, e
por capacidades inatas pode adquirir a razão, do pai ou do educador. Hipócrates propõe
como natural de saber a que crianças convêm educar. Justino, o Santo que viveu entre
100 e 165 da era cristã, avocando o respeito dos cristãos pela vida da criança,
especificava ser esta fútil recém-nascida. Santo Agostinho não assinala à criança, um
estado de inocência, ao contrário, considera-a um ser de natureza corrompida que não
pode ser salva a não ser com o auxílio vindo dos céus. E afirma que se deixarmos o
menor fazer o que lhe apraz, não há nenhum crime em que não se o veja precipitar. A
criança e o/a adolescente durante os séculos suscitaram desconfiança e rechaço. A
tradição do infanticídio estava tão estabelecida que conseguiu se manter abertamente
durante vários séculos, depois da conversão ao cristianismo, até praticamente, ao final
do século XVIII. Era praticado com freqüência não desdenhável, já que as tradições
culturais não ofereciam aos cônjuges outros meios mais cômodos e eficazes para limitar
sua descendência e porque a pessoa da criança não estava ainda verdadeiramente
sacralizada e tampouco suscitava, em princípio, respeito e amor. À mortalidade infantil
em massa, imputável pelas condições sanitárias antigas, se acrescentava uma
mortalidade imputável pela negligência e descuido. O abandono da criança em plena
natureza, sem condições de viver, a incapacidade dos pais em alimentar seus filhos,
descuidos e incidentes como a asfixia na cama, desmame precoce ou negação de
alimentos eram as razões mais freqüentes do infanticídio. Com raras exceções, nos
escritos encontrados a criança sempre foi negligenciada pelos meios. No entanto, alguns
registros da inquisição, como da época do Papa Avignon, Benedito XII (1318-1325), o
nascimento do filho é cultural e afetivamente vivido, especialmente quando o filho era
do sexo masculino (primogênito), e de origem aristocrática. Isto faz com que não se
possam generalizar as atitudes hostis em épocas tão longas e em culturas muito
diversas. Entre os nobres e os ricos, o afastamento dos filhos do ambiente da família,
3
ARIÉS, Philippe. História da Criança e da Família. p. 276.
15

para serem criados no campo com nutrizes substitutas é o modelo encontrado na história
de vários países como a Inglaterra, França e Espanha. Mesmo os príncipes tinham
famílias substitutas, onde mamavam no seio nutriz até os dois ou três anos e ficavam
por mais tempo, praticamente até o período quando já passavam pelas doenças infantis,
como sarampo, catapora, coqueluche e outras que dizimavam as crianças.
Sobrevivendo, voltavam às suas famílias, onde passavam a ser considerados como
pequenos adultos.
Podemos dividir a história das crianças de acordo com as reações psicológicas dos
adultos, especialmente a dos pais frente a elas, cuja classificação se deu seis épocas e
conforme os pais projetam suas emoções:
• Modo Infanticida – que se estende desde a antigüidade até o século IV da era
cristã, no qual o rechaço está em primeiro plano. Na dificuldade de cuidar dos
filhos, pela ansiedade, os pais os matavam. A imagem de Medéia não é um simples
mito, mas o reflexo da realidade;
• Modo de Abandono – do século IV ao século XIII, corresponde a um período
no qual os pais começam a aceitar que a criança tenha alma;
• Modo Ambivalente – do século XIV ao XVI, quando a criança era autorizada a
penetrar na vida emocional de seus pais, mas poderiam ser perigosas. Os pais
tratam de moldá-las como patrão;
• Modo Intrusivo – século XVIII, é uma época de grande transição. Os pais
começam a se aproximar da criança e ensaiam a conquista de seu espírito, com a
possibilidade de verdadeira empatia, sem dar importância ao amor;

Modo Social – do século XIX até meados do século XX. A educação passa a ser
importante. Ela é menos um processo de conquista que um guia em seu próprio
caminho. Educação com amor se torna o binômio importante;
• Modo de Ajuda – os pais compreendem que os filhos sabem melhor
do que seus pais aquilo que necessitam em cada idade da vida. A criança empurra
seus pais (quando os têm) a tratar de compreender suas necessidades particulares.
O fenômeno das relações violentas entre pais e filhos talvez tenha estado presente
desde os primórdios da raça humana. Entretanto, foi somente no século XX que este
fenômeno foi estudado amplamente por diversos ramos do conhecimento. Em meados
do século XIX começa a se esboçar uma preocupação com a criança, ou seja, ela é
descoberta como um ser humano autônomo, percebendo-se com mais profundidade seus
valores, seus sentimentos.
Novas ciências como a Psicanálise, a Pediatria, a Psicologia passaram a se
consagrar aos problemas desta etapa da vida, a tal ponto que Ariés chega a dizer que “o
mundo atual é obcecado pelos problemas físicos, morais e sexuais da infância” 4. A era
contemporânea marca uma acentuada intervenção do Estado na vida familiar.

Com Revolução Francesa e as Constituições baseadas no Código


Civil de Napoleão, com a teoria da res publica e com o
reconhecimento da cidadania do operariado, a criação e a educação
dos menores — futuros cidadãos — tornou-se responsabilidade
pública.5

4
Op. Cit. p. 276.
5
SIMÕES, Carlos. A família e a propriedade no Código de Menores. p.85
16

Isto vinculou as crianças ao Estado, que começou a exigir dos pais deveres e
obrigações. As crianças passaram a ser encaradas como pessoas, ou seja, cidadãos em
formação. Alguns movimentos podem ser percebidos, a partir daí na sociedade burguesa
em termos da constituição e da destituição do poder familiar. Num primeiro momento,
os pais são destituídos deste poder sobre o filho, uma vez que a ele é atribuída uma
existência pública desde o nascimento. Num segundo momento, o Estado devolve aos
pais o poder sobre o filho, consagrando-lhes a tarefa de zelar pela educação da criança,
e, num terceiro momento o Estado pode, ainda, confiscar o “pátrio poder” sob diversas
circunstâncias, principalmente no caso específico de serem constatadas ameaças à
integridade física da criança advinda de seus próprios pais. O Estado se organizou de
forma a tomar conhecimento dos casos de violência imposta às crianças, estabelecendo
medidas compatíveis. A criança é um fenômeno moderno, pode-se observar que
numerosos ramos da Ciência começaram a se preocupar com ela e, evidentemente com
o fenômeno da violência a que ela possa estar sujeita em seu ambiente familiar.
Geralmente o termo violência tem sido empregado em diversas ciências como Física,
Direito, Moral e Filosofia. No entender de Daniel: “referir-se a situações de força
(sobretudo de procedência exterior à pessoa que a sofre) que se opõe à naturalidade, à
responsabilidade jurídica, à liberdade moral, etc.”6.
Doutrinadores outros entendem, também, como a: “força material, ativa, vertida
para o exterior e causa de prejuízo físico. Implica a relação energia física — prejuízo
físico”7. O estudo das relações violentas entre pais e filhos sempre é tratado com certo
pudor. Este é mais um dos “temas malditos” na medida em que, ao abordá-lo, se está
desvelando uma face que a família tem todo interesse em manter oculta, preservando
assim sua imagem de “santuário”. Por outro lado, o estudo do fenômeno envolve um
componente ameaçador para seus protagonistas pelas conseqüências que acarreta na
legislação (criminais para os agressores), e possibilidade de separação da criança dos
pais pelas vias de institucionalização, guarda por terceiros, adoção.
A violência que os pais podem exercer contra os filhos, com fins pretensamente
disciplinadores, no exercício de sua função socializadora ou com outros objetivos,
assume três facetas principais:
1. Física: quando a coação se processa através de maus tratos corporais (espancamentos,
queimaduras etc.) ou negligência em termos de cuidados básicos (alimentação,
vestuário, segurança, etc.);
2. Sexual: quando a coação se exerce tendo em vista obter a participação em práticas
eróticas;
3. Psicológica: quando a coação é feita através de ameaças, humilhações, privação
emocional.
As crianças estiveram em muitos períodos da História sujeitas, desde a tenra
idade, a todos os castigos e sanções destinados a adultos incluindo-se até a Pena capital.
A história da criança tem sido também a história de um mundo de violências
perpetradas contra ela na forma de escravidão, abandonos, mutilações, filicídio e
espancamentos. Embora se saiba que a violência contra a criança, perpetradas nas
formas acima descritas tenha explicações científicas que procuram correlacioná-la com
o contexto sócio-econômico-político-cultural em que ela se deu (ou se dá), como por
exemplo, o filicídio, o trabalho infantil excessivo, etc.; o nosso objetivo será apenas o
de descrever alguns tipos de violência a título exemplificativo. Estes mesmos exemplos,
ocorridos em épocas diversas e em contextos também diversos, servirão para provar o
6
DANIEL, Eduvaldo. Fenomenologia Crítica da Violência Urbana. p. 127.
7
FERNANDES, Ana Maria Babette Bajer & FERNANDES, Paulo Sérgio Leite. Aspectos jurídico-
penais da tortura. p.104.
17

fato de que a violência contra a criança é um fenômeno presente na raça humana. Não
foi nossa preocupação apresentar os exemplos de forma cronológica, mas sim, enquanto
flashes de uma realidade, não importando o período em que estivessem ocorrendo.
A Bíblia é um dos instrumentos valiosos para se verificar o quanto a perseguição
às crianças é antiga. Nela são descritos os grandes massacres sofridos na infância, como
é o caso dos meninos judeus jogados ao rio, por ordem do Faraó, por ocasião do
nascimento de Moisés. O mesmo se repete em relação aos primogênitos egípcios do
Êxodo e na matança de crianças nascidas em Belém, ordenada por Herodes, em
perseguição a Jesus.
A sociedade espartana, por exemplo, decretava a morte das crianças portadoras de
defeitos físicos, uma vez que eram consideradas inaptas aos objetivos guerreiros desta
mesma sociedade. Na antiga Cartago eram freqüentes os sacrifícios de crianças aos
deuses. Segundo evidências arqueológicas, estas crianças eram queimadas, sendo que
antes desse procedimento, eram imobilizadas, utilizando-se para isso de drogas ou
mordaças, e, que essa prática se dava não só por motivos religiosos, mas, também,
econômicos. Estudando a história de Cartago, arqueólogos americanos perceberam que
num dado momento este povo parou de sacrificar crianças trocando-as por animais,
voltando, entretanto, tempos depois, a oferecer de novo crianças aos deuses. Atribuíram
estas mudanças ao fato de que, no princípio, os cartagineses tinham uma economia
desenvolvida, mas uma população pequena, sendo que não era conveniente o
desperdício de recursos humanos. Era preferível o sacrifício de animais. Entre os
romanos, em alguns períodos do seu império eram executados os varões portadores de
deficiências físicas e mentais, bem como as crianças do sexo feminino, sob
determinadas condições. Em uma passagem das Metamorphoses, de Ovídio (Livro IX),
isto se torna claro quando Litus ordena à mulher, no caso de dar à luz uma menina, que
a mate: “Edita forte tuo fuerit si femina partu (invitus mando, pietas ignosce) necato”8.
Na idade contemporânea tem-se, por exemplo, o assassinato de crianças na
Alemanha nazista:
As crianças condenadas à morte eram enviadas a uma divisão
infantil (Goerden, Eichberg, Indstei etc.). Em sua maioria eram
envenenadas com fortes doses de luminal, drogas administradas
em colheres, como se fossem medicamentos, ou então, misturadas
com alimentos. A morte ocorria alguns dias depois e, às vezes,
semanas mais tarde. Na prática, as ordens para matar crianças se
multiplicavam, incluindo crianças com orelhas disformes, as que
urinavam na cama, as que mesmo sendo perfeitamente sadias eram
consideradas difíceis de educar. 9

Posteriormente, empregou-se o método denominado eutanásia infantil, que


consistia em deixar as crianças morrerem de fome literal e deliberadamente nas divisões
infantis. As mutilações impostas às crianças com o objetivo de convertê-las em
“mendigos profissionais” eram relatadas por M. Annaeus Sêneca, já na época de César.
Este mesmo tipo de deformação é mencionado como existente no século XVII por
Donzelot:

Era realizada por mendigos que as compravam direta ou


indiretamente, nos lugares de recolhimento que precederam à Ação
de São Vicente de Paula ou na famosa Associação de Vagabundos,

8
CANTU, César. História Universal. p. 482.
9
RASCOVSKY, Arnaldo. O Filicídio. p. 163.
18

especializada em cirurgia teratológica, que eram os compra-chicos


(literalmente compra-crianças). 10

Outros exemplos podem ser citados em termos de abandono de crianças,


registrados em diferentes sociedades. Os romanos as lançavam em cestos de vime junto
ao tronco da Figueira Ruminal ou da Coluna Lactaria no Forum Olitorium,
especialmente nos últimos anos de seu Império, quando o número de crianças
abandonadas cresceu de forma significativa. Até os nossos dias, o problema do
abandono não foi resolvido, aparecendo intensamente em algumas partes do mundo.
Tomemos ainda como exemplo, a Inglaterra nos fins do século passado, onde crianças
de 04 anos de idade trabalhavam em fábricas e, a partir dos 08 anos em minas de
carvão, durante 16 horas diárias.
Em 1817, na Inglaterra cerca de 6% de mortes violentas eram classificadas como
infanticídios. Os maus tratos dirigidos às crianças com fins pretensamente educativos
têm antecedentes remotos. Essas violências sofreram sanções diversas que surgiram na
forma de legislação específica destinada a salvaguardar a vida das crianças. Para tanto,
basta que rebusquemos a história desde a Antigüidade até a Idade Contemporânea. O
Código de Hamurabi, as inúmeras determinações dos imperadores romanos, a
introdução dos mais diversos tipos de penalidades para os que maltratam crianças até a
legislação atual, espelham a necessidade de diferentes sociedades em termos de
estabelecer normas disciplinadoras da violência contra a criança, qualquer que seja o
tipo desta violência.
A violência sexual não é objeto de estudos severos por parte da História.
Primeiro, pela deficiência de testemunhos, e, obviamente, o grosso das transgressões
não ficou registrado, pois estaria dentro das circunstâncias em que a sociedade
consideraria normal – previsível – a infração aos códigos vigentes. O conceito de
estupro escondia experiências muito mais elásticas do que ilícitos penais cometidos
contra a prática consentida da sexualidade. Esses ilícitos eram da competência de
instâncias seculares e religiosas. No campo eclesiástico, o mais diretamente interessado
nesse assunto constituía pecado ou impiedade, incluído nas transgressões da carne. O
estupro era uma das modalidades da conjunção carnal ilícita, assim como a sedução, o
rapto e a fraude sexual. Todavia, um caráter essencial o distinguia: a violência
perpetrada contra a vítima, sempre de menor idade. Violência de um sexo que detinha o
poder físico, econômico, moral e jurídico sobre o outro e que freqüentemente era
exercitado pelo pai sobre suas filhas. A definição de estupro fala em atentado ao pudor,
cometido com violência. As ordenações previam penas severíssimas aos estupradores de
freiras, donzelas ou viúvas honestas. O Código Penal português estipulava, até em nosso
século, que aquele que estuprasse mulher virgem ou viúva honesta (maior de 12 anos e
menor de 17), teria a pena de degredo temporário. Na prática, as penas sempre foram
mais suaves do que as leis estipulavam, mesmo estupros incestuosos encontravam
conivência de juizes e da sociedade. Incestos envolvendo pais e filhas inserem-se na
pauta sexual de longo passado histórico. No folclore ibérico, pais incestuosos são
personagens banais dos romances. Representam o indivíduo instintual que submete
todos à satisfação de seus desejos, assumindo posições anti-éticas e anti-sociais. A
terceira figura do clássico triângulo Edipiano, a mãe, em algumas versões dos romances,
lamenta não poder socorrer a filha. Em outras a maldizem, inculpando-a pelos revezes
de seu casamento. A dissimulação dos estupros era necessariamente freqüente, o que
explica que os processos arquivados sejam pouco numerosos, dificultando o seu estudo.

10
DONZELOT, Jacques. A Política das Famílias. p. 59.
19

Não obstante, como considera François Giraud11 nas sociedades coloniais pluri-étnicas o
problema do estupro era essencial, pois a obsessão da mestiçagem e da pureza racial fez
das práticas sexuais um jogo fundamental nas estratégias de confronto e de distinção
social. Os casos de estupro envolvem crianças e adolescentes nos umbrais da puberdade.
Boa parte dos crimes ocorria no âmbito doméstico – tal qual hoje -, ficando claro que a
violência contra mulheres era tributária do poder macho, da “força e superioridade” dos
criminosos.
Analisando a nossa realidade brasileira, a preocupação com a situação de
abandono e marginalidade da criança pobre não é recente. No final do século XIX,
surgiram os primeiros movimentos no sentido de uma organização por parte da
sociedade e do Estado para se lidar com a questão, e, desde então inúmeras tentativas
são empreendidas no sentido de dar assistência e recuperação a essas crianças.
Constituiu-se uma ampla rede de instituições e programas de atendimento às crianças e
aos adolescentes considerados carentes, abandonados e delinqüentes, bem como um
extenso conjunto de leis de “proteção” à infância, que foi estruturado a partir da
promulgação do Primeiro Código de Menores (1927).
O forte domínio exercido pela esfera jurídica sobre a questão da infância durante
todo o período de vigência do Código de Menores (1927 – 1990) resultou numa grave
distorção de enfoque. Os problemas relacionados à infância, sobretudo aqueles que
excediam às condições de resolução no âmbito das famílias pobres, adquiriram uma
conotação predominantemente jurídica e desconectada do social. Essa distorção
facilitou a dicotomização entre criança e menor que se estabeleceu em nosso país, ou
seja, “menor” sendo invariavelmente a criança pobre, aquela que se encontra em
situação irregular (Código de Menores, 1979), que é abandonada, que perambula pelas
ruas, que comete atos infracionais.
Somente nos anos 80 é que se observam fomentar uma nítida reação por parte de
segmentos, os mais diversos da sociedade, contra o enorme descaso com que se vinha
lidando com a questão. Muitas vozes se levantaram e foi possível a formação de um
movimento em defesa da criança e do adolescente. Essa comunhão de esforços
solidificou-se em dois importantes momentos da década, ou seja: participação no
processo de elaboração da Constituição Federal (1980), em particular o artigo 227, que
trata dos direitos da criança e adolescente e do Estatuto da Criança e do Adolescente
(1990), lei que revogou o antigo Código de Menores. A partir de então, muitos estudos
vêm sendo empreendidos com relação ao conhecimento sobre as condições de vida da
infância no Brasil. Entretanto, é cada vez mais freqüente o deslocamento de crianças já
a partir dos 07, 08 anos de idade para as ruas das grandes cidades em busca de
ocupações que lhes garantam algum dinheiro. São os chamados “meninos e meninas de
rua” – fenômeno que tem sido alvo de preocupação em todo o país nos últimos anos.
Mesmo aqueles que não rompem com suas famílias estão expostos a todo o tipo de
violência e exploração nas ruas, envolvidos em atividade ilegais, imorais, “rentosas”,
como tráfico de drogas, assaltos, prostituição, etc. Associada a essa situação de extrema
pobreza e vida indigna para milhões de crianças, observa-se outro fenômeno que tem
causado grande constrangimento em todo o país. Trata-se dos números alarmantes de
crianças e adolescentes que vêm sendo assassinados em diversos estados brasileiros,
onde os graves problemas sociais tornam a vida urbana particularmente difícil,
encontram-se milhares de casos por ano. Esses crimes, geralmente, são cometidos por
grupos de extermínio que são contratados para matar as crianças, que por serem de
11
GIRAUD, François. "Viol et société coloniale: le cas de la Nouvelle-Espagne au XVIIIe siècle".
Annales 41. 1986.
20

segmentos pobres da população, são vistas como um mal para a sociedade. O que se
desprende desse perfil é que a maioria das crianças e jovens brasileiros não têm sequer
um futuro, pois os mesmos encontram obstáculos intransponíveis para o seu
desenvolvimento pleno, sendo excluídos da participação no processo produtivo do país.
No presente trabalho, interessa-nos voltar o olhar para o caso específico da
menina. Indagando se as conseqüências dessa realidade atingem igualmente à criança e
ao adolescente de ambos os sexos. Através de pesquisas e indagações, demonstraremos
que não, muito embora as circunstâncias de vida impostas pela pobreza sejam duras
para todos. As meninas, por sua condição de gênero, são em muitos aspectos mais
sacrificadas.

1.2 – A Violência de Gênero no Âmbito dos Direitos Humanos

A violência de gênero resultante das relações estruturais de poder-dominação e


privilégio estabelecidos entre homens e mulheres na sociedade -, ocorre em todas as
classes sociais e regiões do mundo – tanto desenvolvidas quanto subdesenvolvidas e,
permeia todas as dimensões da vida das mulheres, seja no lar, no trabalho ou na rua.
Apesar dos esforços sistemáticos para entender a natureza e a ampla extensão da
violência ser relativamente recentes, existe um número importante de estudos e
pesquisas que analisam a violência contra a mulher e os fatores que a desencadeiam e a
perpetuam. Os resultados dessas pesquisas confirmam a necessidade de se estudar a
violência contra o sexo feminino, a partir de uma perspectiva analítica das relações de
poder e de gênero. Ao mesmo tempo, indicam que a desigualdade que orienta essas
relações e que coloca a mulher em situação desfavorável em relação ao homem, deriva
de uma combinação de fatores culturais que repercutem em práticas sistemáticas de
discriminação traduzidas em leis, normas sociais e políticas, econômicas
discriminatórias. Esses fatores estão estritamente relacionados aos baixos níveis
educacionais, à falta de profissionalização e à subordinação da mulher dentro do núcleo
familiar. Além das privações e das péssimas condições de vida que uma proporção
elevada de mulheres enfrenta em cada país, especialmente, nos países em
desenvolvimento, elas também suportam a violência de gênero que, nas diversas regiões
do mundo assume distintas formas, tais como maus-tratos físicos, tortura psicológica,
esterilização forçada, mutilação genital, estupros (inclusive os perpetrados por maridos
ou companheiros) e outros tipos de abuso sexual. Essa violência é dirigida às mulheres
apenas pelo fato de serem mulheres. Nós a classificaremos de acordo com as formas sob
as quais ela se manifesta, quais sejam:
• Na família: agressão física (espancamento, mutilação, homicídio, ausência de
assistência médica), abuso sexual (estupro, incesto), agressão emocional
(confinamento doméstico, não-aceitação da sexualidade, exigência de castidade,
casamento forçado, desvalorização cotidiana, educação discriminatória);
• No local de trabalho: agressão sexual (assédio, intimidação, exploração), salários
femininos e condições precárias de trabalho;
• Na comunidade: tráfico, prostituição (meninas da noite), estupro; pena de morte
por adultério (legítima defesa da honra), obrigação de reproduzir;
• Na mídia: pornografia, pedofilia (comercialização do corpo feminino como objeto
descartável de prazer);
• No Estado: violência política (através da polícia ou do exército, prisão, tortura,
exílio, violência nas prisões, estupro), violência contra a saúde (tratamento médico
inadequado, esterilização forçada, manipulação ginecológica abusiva,
21

desinformação sobre contraceptivos), injustiça criminal (absolvição dos


estupradores, ausência de proteção à mulher vítima).
• Na religião: criação da mulher, condenação do sexo, exigência da virgindade para o
casamento.
A combinação desses tipos de abuso com as relações hierárquicas de gênero
fornecem o marco de referência para localizar os contextos onde ocorre a violência
contra a mulher, isto é, na família, na comunidade e no Estado. A violência doméstica é
produto de um padrão de relações assimétricas entre homem e mulher, legitimado pela
ideologia dominante-patriarcal e favorecido pela forma na qual a mulher se encontra
sujeita aos desígnios sócio-econômicos e culturais prevalecentes, construídos a partir da
concepção masculina. O lar, em sua grande maioria, nem sempre é um espaço onde
as mulheres e as crianças se encontram protegidas, pelo contrário, pode tornar-se um
lugar perigoso para elas quando são objetos de qualquer forma de abuso.
Até recentemente a violência intra-familiar era aceita como normal ou atada como
um assunto de caráter individual ou privado. A dicotomia entre espaço público e espaço
privado – com conotação hierárquica específica designada a cada sexo – surge como
marco de análise a fim de explicar a subordinação da mulher dentro do lar. De acordo
com este enfoque, a autoridade do homem estende-se a todos os âmbitos da vida social,
pública e privada, justificando-se pela sua inserção no trabalho produtivo. Por outro
lado, à mulher se destina o mundo doméstico, um espaço restrito e controlado, com a
conotação de valores que isto significa, colocando-a, assim, em posição de inferioridade
no conjunto das relações sociais, levando-a, portanto, a assumir comportamentos
subordinados e freqüentemente dependentes. Com o tempo, tem sido redimensionada a
compreensão intelectual e política das questões que se colocam, tanto para a ciência
quanto para os movimentos sociais. À medida que se começa entender a violência a
partir de uma perspectiva mais ampla, os aspectos sociais, econômicos, políticos e
culturais que possibilitam a explicação da violência estrutural são incorporados na
análise. Uma das realizações mais significativas dentro desta perspectiva é a mudança
da visão dicotômica do público e do privado. A violência intra-familiar é muito mais
difundida do que a refletida pelas estatísticas oficiais, que não conseguem mostrar a
magnitude total do problema devido ao fato de que grande parte desta violência não é
denunciada. De qualquer forma, as estatísticas existentes mostram que na família a
mulher é vulnerável desde que nasce.
No Brasil, de acordo com o Relatório da CPI da Violência (1992), foram
registradas nas Delegacias, em média, 337 ocorrências diárias de violência contra as
mulheres. Os tipos de violência mais freqüentemente denunciados foram a lesão
corporal (26,2%) e a ameaça (16,4%). A categoria dos “outros”, com mais de 59% dos
casos, compreende o atentado violento ao pudor, o rapto, o cárcere privado, a
discriminação racial e no trabalho. Não obstante, apesar de existir o reconhecimento dos
abusos cometidos contra a mulher, como são demonstrados pelos estudos realizados em
diversas regiões do mundo, os direitos da mulher não têm sido considerados como
Direitos Humanos e, portanto, de responsabilidade do Estado. É latente que, ao Estado
cabe a responsabilidade da proteção de todos os cidadãos e cidadãs. Na maioria dos
países – a exemplo do Brasil -, essa proteção é estabelecida por sua Constituição, que
promete igualdade para todos os habitantes da nação. Na realidade, são poucos os
países que podem mostrar, na prática, a igualdade da mulher, tanto na política nacional
quanto na externa, como direito humano básico. Parece até que os Direitos Humanos,
intrínsecos à humanidade, são diferentes dos direitos das mulheres, como se elas
tivessem outro tipo ou classe de direitos, diferentes dos contemplados dentro do
conjunto dos Direitos Humanos. O combate à violência de gênero não é um assunto
22

apenas da competência das mulheres. Existe a necessidade de a sociedade, em sua


totalidade, reconhecer os efeitos negativos e retrógrados deste tipo de violência, bem
com se faz necessário perceber que, embora as mulheres sejam as vítimas, essa questão
não dever ser restrita somente às mulheres.
Embora seja fundamental a tomada de consciência social a fim de combater a
violência contra a mulher, tornou-se também crucial a criação de mecanismos legais
para contra-atacar essa violência. A lei até agora tem falhado não só em impedir a
violência, mas também em punir como agente de mudança social e em muitos casos
expõe, ainda mais, a mulher à exploração e à violência.

2.0 – DESENVOLVIMENTO

2.1 – Direitos Humanos

Os Direitos Humanos devem ser concebidos como um conjunto de princípios


garantidores da dignidade humana voltados para a não–agressão e a não–degradação da
espécie humana. Hoje, mais do nunca, o empenho pela tutela desses direitos implica em
uma contínua resistência, perceptíveis na defesa da cultura indígena, da ecologia, dos
direitos das crianças e adolescente, das minorias étnicas, da paz, etc.
Segundo Baratta, classifica-se em dois os grandes grupos fundamentais de
Direitos Humanos:

Pertencem ao primeiro grupo o direito à vida, à integridade física,


à liberdade pessoal, à liberdade de opinião, de expressão, de
religião, e também os direitos políticos. Ao segundo grupo
pertencem os denominados direitos econômico-sociais, dentre eles
o direito ao trabalho, à educação etc.12

Recorda Baratta que:

O conteúdo normativo dos direitos humanos entendido numa


concepção histórico - social, sobrepõe-se às suas transcrições nos
termos do direito nacional e das convenções internacionais, assim
como a idéia de justiça sempre ultrapassa às suas realizações
dentro do direito e indica o caminha à realização da idéia do
homem, ou seja, do princípio da dignidade humana. A história dos
povos e da sociedade apresenta-se como a história dos contínuos
obstáculos encontrados neste caminho, a história da contínua
violação dos direitos humanos, isto é, da permanente tentativa de
se reprimir as necessidades reais das pessoas, dos grupos humanos
e dos povos.13

Os direitos do homem são aqueles cujo reconhecimento é condição necessária


para o aperfeiçoamento da pessoa humana, ou para o desenvolvimento da civilização.
Todas as Declarações dos Direitos do Homem compreendem, além dos direitos
individuais tradicionais, que constituem em liberdade, também os direitos sociais, que
12
BARATTA, Alessandro. Direitos Humanos: entre a Violência Estrutural e a Violência Penal. Trad.
da revisão alemã (1993) do original espanhol por Ana Lúcia Sabadell. Universidade de Saarland,
Alemanha. Complementa o autor que “outras distinções levam em consideração às necessidades
específicas dos sujeitos. Nesse caso, distinguem-se os direitos das pessoas, dos grupos, como por
exemplo, no caso das minorias étnicas e os direitos dos povos, entre eles o direito à autodeterminação
e o direito ao desenvolvimento”. pp .6-7
13
Idem. p. 04.
23

consiste em poder. Quanto mais aumentam os poderes dos indivíduos tanto mais
diminuem a liberdade dos mesmos indivíduos. O problema fundamental em relação aos
direitos do homem, hoje, não é o de justificá-los, mas o de protegê-los. Trata-se de um
problema não filosófico, mas político. A Declaração Universal dos Direitos do Homem
representa a manifestação da única prova através da qual um sistema de valores pode ser
considerado humanamente fundado e, portanto, reconhecido. E essa prova é o consenso
geral acerca de sua validade. É indispensável que os Direitos do Homem sejam
protegidos por normas jurídicas.
A Declaração dos Direitos da Criança, adotada pela Assembléia Geral em 20 de
novembro de 1959, refere-se em seu preâmbulo à Declaração Universal, e, em seguida
apresenta os problemas dos direitos da criança como uma especificação da solução dada
ao problema dos direitos do homem. Sê se diz que a criança e o/a adolescente – em
virtude de sua imaturidade física e intelectual -, necessitam de uma proteção particular e
de cuidados especiais, deixa-se assim claro que os direitos da criança e do/a adolescente
são considerados como um “ius singulare” com relação a um “ius com mune”. Vale
dizer, na medida em que se impede ao homem de se desenvolver plenamente, neste
momento, dá-se o início a um processo de violência, que se manifesta das mais variadas
formas, servindo-se de diferentes meios.

2.1.2 – Dos Direitos da Criança e do Adolescente

O processo de construção de um novo direito – o Direito da Criança e do


Adolescente – que não tem a pretensão de ser autônomo, haja vista que cada vez mais
tomamos consciência da interdisciplinaridade, se apresenta hoje como uma das mais
importantes discussões. Esse direito, sobre o qual nos debruçamos, evidencia não
somente a importância, mas a imprescindibilidade da conjugação de conhecimentos.
O novo direito da criança e do adolescente é construído com vistas ao Direito
Internacional Público e Privado, ante os Tratados e as Convenções Internacionais, ao
Direito Constitucional, que no caso brasileiro, deferem absoluta prioridade à criança e
ao adolescente, ao Direito Civil, Penal, Trabalhista, Processuais e ainda, leis
extravagantes. Exemplifica essa defesa de direitos, Ação Civil Pública, imprescindível
em se tratando da tutela dos interesses difusos. Devemos considerar, ainda, o seu
entrelaçamento com outras áreas do conhecimento, que não o jurídico, como a
sociologia, psicologia e criminologia, conforme dito alhures. Entendemos como
necessário elaborarmos um resgate histórico das nossas leis e ações em favor da criança
brasileira, para daí compreendermos no que consiste, efetivamente, a mudança de
paradigma ocorrida. Ou seja, do Direito Tutelar, caracterizador da doutrina da situação
irregular, para um Direito Protetor, responsável pela Doutrina da Proteção Integral.
Reconstituir a história da criança e do adolescente através das legislações e iniciativas
assistenciais surgidas em seu favor no Brasil, a partir de 1823 – logo após a
independência política de Portugal (7 de setembro de 1822), implicou em resgatar
aspectos específicos que traçaram e estruturaram esse movimento.
O tímido surgimento das primeiras leis e instituições foi sendo firmado
gradativamente. Quando da primeira colocação sobre o problema da criança (criança
negra), em virtude do nosso sistema escravocrata, na Constituinte de 1823, não houve
uma preocupação com a criança negra em si. Quando José Bonifácio defendia que a
escrava depois do parto teria um mês de convalescência, e durante o ano que se seguisse
não trabalharia longe “da cria”14; antes, o que se pretendia era zelar por aquele que
14
Revista Retrato do Brasil. “Organização Social/população: a situação do menor e os órgãos de
proteção – nossos pixotes”. p.303
24

constituiria em breve a força de trabalho gratuito, ou seja, o escravo. Com a decretação


(1871) da Lei do Ventre Livre, fruto da campanha abolicionista, os senhores de escravos
delineavam dois caminhos: ou recebiam do Estado uma indenização (deixando no
abandono as crianças libertas cujos pais permaneciam no cativeiro), ou as sustentavam
e, em seguida, cobrariam tal “generosidade” através de trabalhos forçados até que
completassem 21 anos.
Observando o processo de formação das instituições que prestavam serviços de
assistência às crianças e aos adolescentes, verificamos que, no período colonial e no
Império, a mesma se dava em três níveis: uma caritativa, prestada pela igreja através das
ordens religiosas e associações civis; outra filantrópica, oriunda da aristocracia rural e
mercantilista e, a terceira (em menor número), fruto de algumas realizações da Coroa
Portuguesa. Com as mutações sociais, políticas e econômicas que se sucederam à
Abolição dos Escravos (1888) e à Proclamação da República (1889), a proteção e
assistência à criança tornaram-se cada vez mais uma necessidade, sentida, sobretudo,
pelo próprio corpo social. A partir de 1920, fortaleceu-se a opinião de que ao Estado
caberia assistir à criança. Tanto que surge desse período o trabalho de formulação de
uma legislação específica para crianças e adolescentes, o que se consolidou no Decreto
n. 17.943 – A, de 12 de outubro de 1927, cuja elaboração foi confiada pelo Presidente
Washington Luiz ao jurista Mello Mattos. O Código de Menores de 1927 conseguiu
corporificar leis e decretos que, desde 1902, propunha-se a aprovar um mecanismo legal
que desse especial relevo à questão do menor de idade. Alterou e substituiu concepções
obsoletas como as de discernimento, culpabilidade, responsabilidade, discriminando,
ainda, que a assistência à infância deveria passar da esfera punitiva para a esfera
educacional. A concepção dessa lei pôs em relevo questões controversa em relação à
legislação civil em vigor. Com o Código de Menores, o “pátrio poder” foi transformado
em pátrio dever, pois ao Estado era permitido intervir na relação pai/filho, ou mesmo
substituir a autoridade paterna, caso este não tivesse condições ou se recusasse a dar ao
filho uma educação regular, recorrendo então o Estado à utilização do internato. Já no
Código Civil (1916), o pai, enquanto chefe da prole continuava detendo o “pátrio
poder”, sobre todos os que compunham a estrutura familiar: mulher, filhos, agregados,
pessoas e bens sob o seu domínio. Na esfera constitucional, as Cartas de 1824 e 1891
são omissas com relação à criança. A primeira a se referir sobre o assunto foi a
Constituição de 1934, ao proibir o trabalho para os de idade inferior a 14 anos. A partir
de 1937, é ampliada a esfera de proteção à infância, ficando ao encargo do Estado
assisti-la nos casos de carência. A Constituição de 1946 continuou de igual modo,
protegendo-a desde a maternidade. Por sua vez, a Constituição Federal de 1967, seguida
pela Emenda Constitucional n.1, de 1969, ao instituir a assistência ao universo infanto-
juvenil, não seguiu, no todo, as Constituições precedentes, determinando duas
modificações, quais sejam: a primeira, referente à idade mínima para a iniciação ao
trabalho, que passa a ser de 12 anos, e, a segunda, instituindo o e sino obrigatório e
gratuito nos estabelecimentos oficiais para as crianças de 07 a 14 anos de idade. A
postura assumida pelo Estado brasileiro de permitir o trabalho de crianças com 12 anos,
a partir de 1967, significou um retrocesso com relação às legislações da maioria dos
países.
A Constituição da República Federativa do Brasil promulgada em 05 de outubro
de 1988 significou um grande avanço nos Direitos Sociais e isto por sua vez beneficiou,
entre outros, a criança e o/a adolescente, ou, deveria ter beneficiado, vez que ao declarar
absoluta prioridade em todas as circunstâncias à população infanto-juvenil. Nessa
perspectiva, tem-se exemplificativamente, que a idade mínima para admissão ao
trabalho é, novamente, fixada aos 14 anos (artigo 7º, XXXIII), sob a forma de aprendiz.
25

Muito embora, na Convenção de n. 182 e Recomendação de n. 190, a OIT tenha


deliberado ao empregador admitir apenas os maiores de 16 anos. Nesse sentido, o Brasil
deliberou pelo trabalho sob a forma de aprendiz a partir dos 14 anos, fato gerador de
polêmica em nossa sociedade. Por um lado, opinam alguns que é melhor trabalhar que
ficar nas ruas. Outros, mais engajados na legislação de proteção integral à criança e ao
adolescente (a exemplo desta autora), opina no sentido de que lugar de crianças e
adolescente é, justamente, no orçamento público gozando de prioridade, a fim de que
possam gozar de todos os seus direitos e garantias fundamentais. Quanto à educação, a
referida Carta Política, em seu artigo 208, determina como dever do Estado garantir
ensino fundamental (primeiro grau), obrigatório e gratuito, até mesmo para os que a ele
não tiverem acesso na idade própria. Consoante a presente análise histórica, verificou-se
que a expressão “menor” foi usada como categoria jurídica desde as Ordenações do
Reino, como caracterizadora da criança ou do adolescente envolvidos com a prática de
infrações Penais. Já no Código de Menores de 1927, o termo foi utilizado para designar
aqueles que se encontrava em situações de carência material ou moral, além de
infratoras (conforme dito alhures).
Com o surgimento do Código de Menores de 1979, surge uma nova categoria:
“menor em situação irregular”, isto é, o menor de 18 anos, abandonado materialmente,
vítima de maus-tratos, em perigo moral, desassistido juridicamente, com desvio de
conduta ou autor de infração penal. O Código de Menores, apesar de ter constituído um
avanço em algumas direções, continha, no entanto, aspectos controversos que permitiam
questionamentos e críticas, como é o caso das características inquisitoriais do processo
envolvendo crianças e adolescentes, quando a própria Constituição garantia ao maior de
18 anos ampla defesa. O referido Código não previa o princípio do contraditório. Outro
fato que pode ser colocado como exemplo dessa distorção era a existência, para os
menores de 18 anos da prisão cautelar, vez que ao “menor” a que se atribuía a autoria de
infração penal, podia ser apreendido para fins de verificação, o que significava uma
verdadeira afronta aos direitos da criança e do adolescente, na medida em que para o
adulto a Prisão Preventiva só poderia ser aplicada em dois casos: flagrante delito ou
ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente (artigo 5º, LXI,
Constituição Federal 1988).
O Estatuto da Criança e do Adolescente veio pôr fim a estas e tantas outras
situações que implicavam numa ameaça aos direitos da criança e do adolescente.
Suscita no seu conjunto de medidas uma nova postura a ser tomada tanto pela família,
pela sociedade, como também pelo Estado, objetivando resguardar os direitos da criança
e do/a adolescente zelando para que não sejam, sequer, ameaçados. No entanto, embora
existam pessoas comprometidas com a causa e que não se cansam de interceder nesse
sentido, observamos que o Estatuto até hoje não ser tornou eficaz em face da falta de
implementação por parte do governo. Do universo de documentos internacionais que
objetivam resguardar as garantias dos Direitos Infanto-Juvenis destaca-se a Convenção
Internacional sobre os Direitos da Criança aprovada pela Assembléia das Nações
Unidas em 20 de novembro de 1989. Se elaborarmos uma análise pormenorizada desse
Tratado de Direitos Humanos, constatamos a sua efetiva influência sobre o Estatuto da
Criança e do Adolescente. Nesse sentido, chama atenção o fato de que a Convenção
Internacional não se configura numa simples carta de intenções, vez que tem natureza
coercitiva e exige dos Estados-Partes que a subscreveu e ratificou um determinado agir,
consistindo, portanto, num documento que expressa de forma clara, sem subterfúgios, a
responsabilidade de todos com o futuro.
A referida Convenção trouxe a proteção integral para o universo jurídico da
Doutrina. Situa a criança dentro de um quadro de garantia integral, evidencia que cada
26

país deverá dirigir suas políticas e diretrizes tendo por objetivo priorizar os interesses
das novas gerações. A infância passa a ser concebida não mais como um objeto de
medidas tuteladoras o que implica reconhecer a criança e o/a adolescente sob a
perspectiva de sujeitos de direitos.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, ao assegurar em seu art. 1º a proteção
integral à criança e ao adolescente, reconheceu como fundamentação doutrinária o
princípio da Convenção que em seu artigo 19 determina:

Os Estados Partes adotarão todas as medidas legislativas,


administrativas, sociais e educacionais apropriadas para proteger a
criança contra todas as formas de violência física ou mental, abuso
sexual, enquanto a criança estiver sob a custódia dos pais, do
representante legal ou de qualquer outra pessoa responsável por
ela.15

A Constituição Federal de 1988 dispõe em seu art. 227, caput:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e


ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde,
à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de
negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão.

A atual Carta Política tem essa nova base doutrinária, na qual implica que,
fundamentalmente, as crianças e adolescentes brasileiros passam a ser sujeitos de
direitos. Essa categoria encontra sua expressão mais significativa na própria concepção
de Direitos Humanos de Lefort: “o direito a ter direitos” 16, ou seja, da dinâmica dos
novos direitos que surge a partir do exercício dos direitos já conquistados.
A Lei anterior ao Estatuto da Criança e do Adolescente (Código de Menores de
1979) fundamentava-se na doutrina da situação irregular, isto é, havia um conjunto de
regras jurídicas que se dirigiam a um tipo de criança ou adolescente específico, aqueles
que estavam inseridos num quadro de patologia social, elencados no seu artigo 2º. O
que equivale afirmar, no entender de Amaral e Silva, que tal doutrina:

Confunde na mesma situação irregular, abandonados, maltratados,


vítimas e infratores. Causa perplexidade que se considerasse em
situação irregular o menino abandonado ou maltratado pelo pai, ou
aquele de saúde ou da educação por incúria do Estado. 17

Salienta o citado autor que, estará sim em situação irregular:

(...) aquele que descumprir os deveres inerentes ao pátrio poder ou


quem negligenciar políticas sociais básicas. Está em situação

15
Aliás, tal regra repetiu o que já havia sido colocado na Declaração Universal dos Direitos da Criança
(1959), que no seu princípio de n. 9 dispõe: “A criança gozará proteção contra quaisquer formas de
negligência, crueldade e exploração. Não será jamais objeto de tráfico, sob qualquer forma”.
16
LEFORT, Claude. Pensando o Político: ensaios sobre sobre democracia, revolução e à liberdade, p.
58.
17
AMARAL E SILVA, Antônio Fernando. Comentários do debatedor. In Simonetti, C. et ali (orgs.) –
“Do avesso ao Direito, p. 37.
27

irregular, de ilegalidade, o pai que abandona ou o Estado que


negligencia nunca o abandonado, a vítima. 18 (sic)

O Código de Menores de 1979, ao se dirigir a uma categoria de crianças e


adolescentes (os que se encontravam em situação irregular), colocava-se como uma
legislação tutelar. Na realidade, tal tutela pode ser entendida como culturalmente
inferiorizadora, pois implica no resguardo da superioridade de alguns, ou mesmo de
grupos, sobre outros, como a história registrou ter ocorrido, e ainda, ocorrer com as
mulheres, índios e outros.19
Dessa forma, a Lei 8069/90 significou a convicção de que a criança e o
adolescente são merecedores de direitos próprios e especiais que, em razão de sua
condição específica de pessoas em desenvolvimento necessitam de uma proteção
especializada, diferenciada e integral. O advento de uma legislação que se ocupasse
seriamente dos direitos da infância e da adolescência era de caráter imprescindível, pois
havia uma necessidade fundamental de que estes passassem da condição de “menores”
para a de cidadãos. O Estatuto da Criança e do Adolescente tem a relevante função - ao
regulamentar o texto constitucional-, de fazer com que este último não se constitua
em letra morta. No entanto, a simples existência de leis que proclamem os direitos
sociais por si só não consegue mudar as estruturas. Antes há que se conjugar aos
direitos, uma política social eficaz que de fato, assegure materialmente os direitos já
positivados, conforme nos referimos anteriormente. E isto significa que se dê um
impulso aos dois grandes princípios da Lei n. 8069/90, o da descentralização e o da
participação. A implementação deste primeiro princípio deve resultar numa melhor
divisão de tarefas, de empenhos, entre a União, os Estados e os Municípios no
cumprimento dos direitos sociais. No que tange à participação, esta, importa na atuação
sempre progressiva e constante da sociedade em todos os campos da ação.

2.1.3 – Da Tutela Jurisdicional

A Lei n. 8069/90 diz respeito à possibilidade dos direitos das crianças e dos
adolescentes serem demandados em juízo. Portanto, ao tratar da tutela jurisdicional dos
interesses individuais, difusos e coletivos, chama a atenção o fato de que o Estatuto da
Criança e do Adolescente está em consonância com as novas diretrizes da
processualística civil, por três motivos:
1º - Ao contemplar os meios judiciais garantidores dos interesses da criança e do
adolescente (sobretudo no que diz respeito aos direitos coletivos e difusos),
percebe-se que a natureza privatista do direito processual está sendo objeto de
profundas modificações, as quais remetem à necessidade de superação de
determinadas estruturas tradicionais. Por conseguinte, a Lei em comento, ao admitir
o ingresso em juízo dos mais variados tipos de demandas que visem à proteção de
seus interesses, importa um significativo avanço no campo processual, vez que não

18
Idem.
19
Neste quesito, muito oportuna a crítica de Zaffaroni ao afirmar que: “Ao longo de toda a história da
humanidade, a ideologia tutelar em qualquer âmbito resultou em um sistema processual punitivo
inquisitório. O tutelado sempre o tem sido em razão de alguma inferioridade (teológica, racial, cultural,
biológica, etc.), colonizados, mulheres, doentes mentais, minorias sexuais etc., foram psiquiatrisados ou
considerados inferiores e, portanto, necessitados de tutela”. Zaffaroni, Raul. Do Advogado – artigo 206:
In Cury, Munir et ali (coords.). Estatuto da Criança e do Adolescente: comentários jurídicos e sociais. p.
640.
28

está presa à idéia de procedimentos, de rito, considerando merecedor de atenção o


conteúdo do direito que está sendo pleiteado;
2º – Ao se preocupar com o tema do acesso à justiça, esta nova lei atenta ao fato de que
hoje, a garantia desse acesso se constitui num dos mais elementares direitos, pois
a sociedade pouco a pouco passou a compreender que não mais é suficiente que o
ordenamento jurídico contemple direitos, antes é imprescindível que estes sejam
efetivados, sendo que a propositura em juízo é, portanto, um dos mecanismos que
visam a sua aplicabilidade;
3º – O acesso à Justiça na interposição de interesses afetos à criança e ao adolescente se
constitui, ainda, em mais um fator a corroborar no processo de transformação do
próprio Poder Judiciário, o qual passa a ser um instrumento de expansão da
cidadania. Isto se dá porque da antiga posição de árbitro de litígios de natureza
inter-subjuntiva, agora é chamado a posicionar-se diante de situações de caráter
trans-individual, como o são os direitos sociais.
Uma das inovações trazidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente consiste,
justamente, na possibilidade de cobrar do Estado - através, por exemplo, da interposição
de uma Ação Civil Pública -, o cumprimento de determinados direitos como o acesso à
escola, ao sistema de saúde, a um programa especial para portadores de doenças físicas
e mentais, etc., previstos na Constituição Federal e regulamentados pelo Estatuto.
Como afirma Nogueira, inevitável é o fato de que no Brasil há toda uma produção
legislativa:

(...) em favor do cidadão, concedendo-lhes os direitos individuais,


difusos ou coletivos, através da Constituição Federal, das
Constituições Estaduais e das Leis Orgânicas Municipais, além de
outras leis ordinárias, como o Estatuto da Criança e do
Adolescente, mas o que falta, nesse complexo de leis, é fazer
justamente o Estado funcionar, através de seus governantes, que
conhecem os problemas e têm as soluções, mas que só se
preocupam em desfrutar o poder 20.

A lei anterior, ou seja, o Código de Menores de 1979 prelecionava:

A despeito de ser tratado por alguns, como instrumento de


proteção e tutela, olvidou que o Estado é o grande responsável por
essa degradante situação na qual se encontra a maioria da
população infanto-juvenil, isentando-o, de qualquer
responsabilidade. Considerando os pais ou responsável como
exclusivo causador da situação irregular, nenhuma menção existe
em relação à omissa participação do Estado e, via de
conseqüência, tão pouco contempla o Código de Menores
mecanismos jurídicos visando compelir o Poder Público a cumprir
suas funções. Assim, restringiu-se a Justiça de Menores do
julgamento de conflitos eminentemente individuais, jamais
colocando a Administração no banco dos réus. O Estado nunca foi
chamado perante o judiciário, sequer para justificar suas constantes
omissões.21

20
NOGUEIRA, Paulo Lúcio. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado. p. 283.
21
PAULA, Paulo Afonso Garrido de. Menores, direitos e justiça: apontamentos para um novo direito das
crianças e dos adolescentes. p.122.
29

Nesse quesito, a exceção foi o julgamento havido através do Tribunal Permanente


dos Povos22 que condenou (por unanimidade), o Estado de Mato Grosso, no Fórum
realizado na sede da OAB/MT, da qual a autora teve a honra de participar. E, depois de
colhida toda a pesquisa realizada em nível de Brasil, de igual forma procedeu-se a
condenação do Brasil quanto à violação dos direitos fundamentais da criança e do
adolescente no País.
Entendemos que o postular junto ao Poder Judiciário visando a garantia dos
direitos e interesses afetos à criança e ao adolescente, o tema conduz também a uma
reflexão de que tal acesso constitui um avanço na construção da cidadania em três
planos:
1º – no sentido de que torna mais explícitos os direitos das crianças e dos adolescentes,
possibilitando à sociedade uma maior conscientização no que tange ao seu papel
de contínua reivindicação dos citados direitos e interesses;
2º – o próprio Poder Judiciário passa a ser encarado como um instrumento de expansão
dessa cidadania, pois suas sentenças – deferidas em favor da garantia dos direitos
pleiteados ensejarão, para sua eficácia, determinadas realizações por parte do
Poder Executivo, notadamente no campo social;
3º – as inovações trazidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente devem
gradativamente revolucionar o modo da família, da sociedade e do Estado de
encararem as questões relativas à infância e à juventude brasileira.
Resta colocar que, ao longo da pesquisa, foi possível constatar que a questão da
criança e do adolescente não deixou de ser contemplada em leis. No entanto, nem
sempre as são foram obedecidas, o que reforça a idéia de que meros dispositivos legais
não resolvem os problemas sociais. Urgem, portanto, medidas públicas adequadas à
demanda. Faz-se necessária não somente a implantação de políticas sociais básicas,
mas, a sua efetivação23, garantindo dessa forma, acesso a todos, aos direitos
fundamentais.

2.2 – Violência Infanto-Juvenil

Ao revisitar a história, necessário se faz perceber, que a violência sempre esteve


presente no cotidiano de crianças e adolescentes. A forma de abordagem tem relevância
quando associada às especificidades dominantes em cada época e em cada sociedade.
Os conceitos acerca da violência contra a criança se refinam de tal modo a ponto de se
distinguirem entre violência contra a criança no ambiente doméstico, na sociedade e nas
instituições. A violência nesses vários âmbitos de vias expressa sob a forma de:
síndrome da criança espancada, abuso emocional, físico e sexual, exploração
econômica, negligência, abandono, etc. A violência contra a criança e o adolescente,
embora repudiada socialmente, pode ser considerada ainda hoje um fato cotidiano.
Tornou-se um tema de preocupação e reflexão por parte da sociedade civil, leiga e
acadêmica, devido às formas disseminadas e intensificadas com que se tem
caracterizado, especialmente, nas últimas décadas, nas áreas urbanas. E, a pesquisa
aponta que uma das causas que levam à violência (generalizada), é a extrema pobreza
em que vive a maior parte da sociedade, excluídas das políticas públicas de geração de
Emprego e Renda.
Essas formas de violência são conceituadas como “violência estrutural ou
fundamental” e, claro, são originadas pelo sistema social vigente. Os maus-tratos são
22
Tribunal Permanente dos Povos. Brasil. A violação dos direitos fundamentais das crianças e dos
adolescentes no Brasil: O distanciamento entre a lei e a realidade vivida. Mar-Ago. 1998.
23
Estatuto da Criança e do Adolescente. Artigo 7.
30

formas de violência interpessoal que costumam se apresentar contra crianças de todos os


níveis sociais, sendo, no entanto, mais comumente registrados naqueles grupos que
sofrem as conseqüências negativas da desigualdade social. A categoria “maus-tratos”
engloba os conceitos de abuso físico, sexual, emocional e negligência/abandono. As
crianças e adolescentes maltratados são aqueles que sofrem ocasional ou habitualmente
atos de violência física, sexual, ou emocional, tanto no grupo familiar como na
comunidade ou nas instituições sociais. Os maus-tratos podem ser executados por
omissão, supressão e transgressão dos direitos individuais e coletivos. Situações de
abandono também podem ser incluídas nesta categoria de maus-tratos (UNICEF, 1989),
desde que seja fruto de ação/omissão parcial ou total do agressor.
Pesquisas em vários países do mundo têm demonstrado a gravidade do problema
destes abusos em crianças e adolescentes. Segundo o National Incidents Study,
realizado nos EUA durante o ano de 1986, 311.500 crianças, ou 4,9 em cada grupo de
1.000, foram abusadas fisicamente; 188.100 crianças, ou 3 por 1.000, foram abusadas
emocionalmente; 133.600 crianças ou 2,1 por 1.000 foram abusadas sexualmente;
507.700 crianças, ou 8,1 por 1.000, foram vítimas de negligência física e 285.900
crianças, ou 4,5 por 1.000, foram vítimas de negligência educacional (US Departament
of Health and Human Services,1992).
Outro estudo indica que 20% de todas as mulheres e 7% de todos os homens nos
EUA, já tiveram experiência, pelo menos uma vez, num episódio de abuso sexual
durante a infância (National Center on Child Abuse Prevention Research, 1992). Este
mesmo relatório menciona outro estudo realizado com 7.000 adolescentes entre 15 e 16
anos, na Finlândia. Os resultados indicam que 7% das moças e 3% dos rapazes foram
identificados como vítimas de abuso sexual.
Para que possamos efetuar investigações científicas, é essencial ter muito claro os
conceitos fundamentais à pesquisa. No tema da violência, algumas definições
operacionais têm sido elaboradas e utilizadas com grande freqüência. São elas:
a) Entende-se por abuso físico qualquer ação, única ou repetida, não
acidental (ou intencional), perpetrada por um agente agressor adulto, que provoque
dano físico à criança ou ao/à adolescente. O dano provocado pelo ato abusivo pode
variar de lesão leve às conseqüências extremas, como a morte;
b) Compreende-se por abuso sexual todo ato ou jogo sexual, relação
hetero ou homossexual, cujo agressor esteja em estágio de desenvolvimento psico-
sexual mais adiantado que a criança ou adolescente. Tem por finalidade estimulá-la
sexualmente ou utilizá-la para obter estimulação sexual. Estas práticas eróticas e
sexuais são impostas às crianças e aos adolescentes pela violência física, ameaças
ou indução de sua vontade. Pode variar desde atos em que não exista contato sexual
(voyeurismo, exibicionismo), aos diferentes tipos de atos com contato sexual sem
penetração (sexo oral, com objetos, intercurso genital ou anal). Engloba ainda a
situação de exploração sexual, visando lucros, como a prostituição e a pornografia;
c) Define-se como abuso psicológico a interferência negativa do
adulto (ou pessoas mais velhas) sobre a competência social da criança,
conformando um padrão de comportamento destrutivo. São seis as formas
estudadas:
1ª. Rejeição: quando o adulto não reconhece o valor da criança nem a legitimidade
de suas necessidades;
2ª. Isolamento: o adulto afasta a criança de experiências sociais normais, impede-
a de ter amigos e a faz crer que está só no mundo;
3ª. Aterrorizamento: agressões verbais à criança, onde o agressor instaura clima
de medo, atemoriza e a faz crer que o mundo é hostil a ela;
31

4ª. Abandono: o adulto não estimula o crescimento emocional e intelectual da


criança;
5ª. Cobrança: expectativas irreais ou extremadas exigências sobre o rendimento
(escolar, intelectual, esportivo), que têm sido mais relacionados com crianças
oriundas de classe média ou alta;
6ª. Corrupção: ato pelo qual o adulto corrompe a criança à prostituição, ao crime
ao uso de drogas.
Por ser difícil de identificar, dada sua subjetividade, costuma-se habitualmente
categorizar como abuso psicológico apenas as formas graves (extremas) ou continuadas.
Este é o tipo de violência da qual menos se tem conhecimento e que é raramente
registrado nas instituições que atendem às crianças e adolescentes. Caracteriza-se
abandono como a ausência do responsável pela criança e pelo adolescente. Considera-se
abandono parcial a privação de afeto, o atendimento parcial às necessidades das
crianças, as situações de risco. Entende-se por abandono total o afastamento do grupo
familiar, crianças sem habitação, desamparadas e sujeitas a perigos.
Finalmente, define-se por negligência a postura de não oferecer à criança aquilo
de que ela necessita, quando isso é essencial ao seu desenvolvimento sadio. Pode
significar omissão, em termos de cuidados básicos, como: privação de medicamentos,
alimentos, ausência de proteção contra inclemências do meio (frio, calor). É necessário
ressaltar que estes dois últimos tipos de abuso são de difícil identificação, já que é
complicado distinguir entre condições sócio-econômicas e atuação voluntária dos
responsáveis. Contudo, é preciso que se considere a ação ou omissão do agente
agressor, independente das condições sócio-econômicas existentes. Ainda deve-se
considerar que esta ação ou omissão pode ser voluntária ou não. Pode-se sintetizar o
abuso ou maus-tratos pela existência de um sujeito agressor em condições superiores
(idade, força, posição social, condição econômica, inteligência, autoridade) que perpetra
um dano físico, psicológico ou sexual, contrariamente à vontade da vítima ou por
consentimento obtido a partir da indução ou sedução enganosa.
Cabe ressaltar que a violência contra a criança e o adolescente assume
características peculiares devido às mudanças físicas, intelectuais, sexuais e sociais que
ocorrem nesta etapa de seu desenvolvimento. As habilidades cognitivas dos
adolescentes são mais desenvolvidas do que as das crianças. As razões dos adolescentes
são muito parecidas com as dos adultos, e isto traz um novo elemento para a
complexidade das tarefas dos pais ou responsáveis. Os adolescentes têm uma força
física maior que a das crianças, podem com maior habilidade estimular e desencadear
conflitos familiares. Podem ainda desconsertar seus pais ou responsáveis e compará-los
com outros adultos. Suas relações individuais se ampliam e se tornam mais
independentes, inicia nesta fase um relacionamento afetivo e sexual. A violência contra
a criança sensibiliza mais a opinião pública do que a violência contra adolescentes. No
entanto, os adolescentes são também vítimas indefesas, vez que, também, são
dependentes emocional e financeiramente de seus pais.
Para compreender o problema da violência que acomete crianças e adolescentes,
forçosamente teremos que buscar conhecer a rede de violências que está por detrás de
cada caso. Estamos afirmando, com isto, que as formas de violência estão
intrinsecamente interligadas. Uma criança, educada através da “pedagogia do tapa”,
dificilmente deixará de sofrer conjuntamente o abuso emocional. E o que dizer de
crianças que vivem nas ruas, saídas muitas vezes de seus lares por serem vítimas de
abusos e, certamente, pelo quadro de miséria, ao qual estão sujeitas.
O Brasil é o mais rico entre os países com maior número de pessoas miseráveis.
Isso torna inexplicável a pobreza extrema de milhões de brasileiros, mas mostra que o
32

problema pode ser atacado com sucesso. Miséria é palavra de significado impreciso,
como de resto a maior parte dos termos que se referem à camada menos favorecida da
sociedade. Geralmente, cada um percebe a miséria por sua experiência pessoal. Para
efeito estatístico, no entanto, os estudiosos chegaram a uma definição quase matemática
sobre o que são miséria e pobreza. Estabeleceram duas grandes linhas. Uma delas é a
linha de pobreza, abaixo da qual estão as pessoas cuja renda não é suficiente para cobrir
os custos mínimos de manutenção da vida humana: alimentação, moradia, transporte e
vestuário. Outra é a linha da miséria (ou de indigência), que determina quem não
consegue ganhar o bastante para garantir aquela que é a mais básica das necessidades: a
alimentação. No Brasil, há 53 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza. Destas,
30 milhões vivem entre a linha de pobreza e acima da linha da miséria. Cerca de 23
milhões estariam na situação que se define como indigência ou miséria. Para melhorar
este quadro é necessário dar prioridade à infância e à juventude, vez que representam
quase a metade do universo de miseráveis brasileiros. Daí priorizar os programas sociais
para os jovens, pois a parcela de até 15 anos de idade representam 45% do total.
A violência estrutural tem sido consensualmente, considerada como
desencadeante de outras violências mais específicas, como a delinqüência, o crime, a
institucionalização de crianças e adolescentes, a existência de meninos meninas as
vivendo nas ruas. Paradoxalmente, convivemos diariamente ameaçados por crianças e
adolescentes que passam da condição de vítimas à condição também de vitimizadores.
A expressão “cuidado com as crianças” que outrora designava o zelo pelas crianças,
hoje também representa o temor diante da iminência de um ato violento por elas
provocado. Algumas alternativas têm sido propostas para a resolução de tais problemas,
como por exemplo, a diminuição da idade para a responsabilidade criminal dos 18 para
os 16 anos, o policiamento ostensivo e reforma das instituições que recebem crianças e
adolescentes infratores. Como percebemos, as “soluções” citadas se referem muito mais
ao momento de crise, não privilegiando, e mesmo ignorando, os fatores macro-sociais
que estão na base do problema. Diante da difícil tarefa de enfrentar estruturalmente essa
questão, o que se tem observado é uma freqüente postura de inércia. Esta noção de
imutabilidade do problema perpassa todas as esferas da vida em sociedade, desde as
instâncias governamentais ao cidadão comum. No tocante à infância e à juventude,
quando se fala da violência, logo a associamos ao fenômeno dos maus-tratos e da
violência sexual. De fato, estas duas formas são, de certo modo, as mais visíveis. Os
meios de comunicação social têm demonstrado as aberrações que ocorrem neste campo
em nosso País. As estatísticas dizem por si mesmas, e a situação é ainda mais
estarrecedora quando temos consciência de que muitos e muitos casos não chegam
sequer a ser noticiados, compondo a cifra negra da violência. A violência que acontece
no interior da família, na maioria das vezes assinalada por um “pacto de silêncio”, se
apresenta como uma das maiores responsáveis pela vitimização da infância (em termos
micro-criminais). Pesquisas realizadas confirmam que 70% dos casos de agressão
contra as crianças e adolescentes ocorrem na entidade familiar. As estatísticas sobre
maus-tratos na infância, tem chamado a atenção de pediatras, traumatologistas e
psiquiatras pelo fato de que as ocorrências têm se multiplicado. Estima-se que 1% a 2%
da população infantil do planeta é submetida a alguma forma de agressão, sem diferença
de classe social, de cultura ou mesmo de época, sendo em algumas até estimulada.
Nesse aspecto, chamam atenção os dados apontados por Rolim:

Na Austrália, uma pesquisa realizada em 1987 com crianças de


escola primária revelou que 81% dos meninos e 74% das meninas
haviam apanhado de suas mães e que 76% dos meninos e 63 % das
meninas haviam apanhado dos pais; em Barbados, uma sondagem
33

feita com pais em 1987 demonstrou que 70% dos pesquisados


aprovavam a prática das punições físicas, sendo que deste total,
76% apoiavam o uso das cintas e tiras de couro; na Índia, pesquisa
com estudantes universitários em 1991 revelou que 91% dos
rapazes e 86% das estudantes haviam sido castigados fisicamente
de modo regular em sua infância; na Romênia, uma pesquisa de
1992 mostrou que 84% dos pais consideravam as surras como um
método normal de educação infantil, sendo que 96% do total não
as consideravam uma prática degradante; no Reino Unido, um
estudo de 1985 demonstrou que 63% das mães admitiram ter
batido em seus bebês antes da idade de um ano; nos Estados
Unidos, uma pesquisa de 1985 com mais de 3 mil famílias com
filhos de 17 anos demonstrou que 89% dos pais haviam golpeados
seus filhos de até três anos e, aproximadamente, 1/3 dos
adolescentes entre 15 e 17 anos havia apanhado. O Reino Unido
foi o último país europeu a erradicar o castigo corporal em seu
sistema educacional estatal, o que só ocorreu em 1987. Em alguns
outros países, isto ocorreu no século XVIII. Ainda hoje, é bastante
comum bater em alunos em quase metade dos Estados norte-
americanos (no Estado de Mississipi, por exemplo, 10% dos
alunos recebiam castigos físicos ainda em 1990). Na África do Sul,
em meados dos anos 80, 12% da população escolar e 30% dos
alunos negros recebiam punições físicas uma vez por dia, em
média. Em contraste, a Namíbia declarou tais práticas
inconstitucionais e Botswana as proíbe formalmente, embora, na
prática, as punições ainda ocorram. Quando passamos a examinar
os sistemas penais em todo o mundo, descobrimos que, na África,
ainda se permite legalmente em algumas nações o chicoteamento
de crianças. Na Gâmbia, crianças podem receber chibatadas desde
os sete anos pela prática de delitos, desde que com autorização de
um oficial superior da polícia. Em Uganda, os tribunais da aldeia
podem sentenciar crianças ao chicote e no Sudão utiliza-se a
flagelação (Dados do Epoch-Worldwide).24

Preocupado com esta matéria, o Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu


artigo 13 preceitua: “Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança
ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva
localidade, sem prejuízo de outras providências legais”.
Abordaremos a questão da violência social conforme a terminologia de Galtung
25
injustiça social, designando sempre a repressão das necessidades, situação na qual os
direitos humanos são atacados em seu conteúdo histórico-social.
Dessa forma, há que se dar início ao processo de transformação dessa cultura (in)
civilizatória, na qual a criança brasileira é desumanamente tratada, não somente em
função dos maus-tratos, da violência e exploração sexual, mas também por situações
que demonstram um estado de verdadeira barbárie, onde as atitudes brutalizantes e
brutalizadoras têm sido mascaradas como “naturais”. Falamos das centenas de meninos
e meninas que têm as mãos em carne-viva, por carregarem feixes de sisal, falamos dos
que se encontram nas ruas de nossas cidades em meio aos vícios e à prostituição, dos
que se aniquila na construção civil, nos estaleiros, nas carvoarias e na produção de
calçados. Cite-se a cidade de Franca, em São Paulo, onde se estima que 5.000 crianças
24
ROLIM, Marcos, “Apresentação”. Relatório: Pelo fim das punições físicas contra crianças, Rio Grande do Sul,
Comissão da Cidadania e Direitos Humanos/ Assembléia Legislativa dos Estados do Rio Grande do Sul, 1996.
págs. 8 e 9
25
GALTUNG, Johan. Direitos Humanos - Uma Nova Perspectiva. Tradução Margarida Fernandes.
Lisboa, Instituto Piaget. 1994.
34

entre 5 e 14 anos são utilizadas como mão-de-obra barata no pesponto e colagem dos
sapatos. Fato este que, de imediato sugere duas observações: a primeira é que, em
função do trabalho ser terceirizado, o mesmo é realizado em casa, o que implica, além
da redução dos custos da indústria, o desembaraço de possíveis ações trabalhista, vez
que estão longe do olhar da fiscalização. De acordo com pesquisa realizada pela CUT e
OIT, cerca de 60% dessas bancas de produção trabalham clandestinamente. 26
A segunda, é o específico problema da cola e da tinta, extremamente tóxicos, as
quais provocam sérias agressões ao corpo da criança, desde um simples enjôo até a
cegueira, como também a grave questão da dependência a essa droga, haja vista que a
princípio estes pequenos trabalhadores – “pequenos escravos”– estranham o cheiro, mas
em seguida passam a “gostar” e infelizmente tornam-se dependentes dessa substância;
como conseqüência da inalação da cola tem-se o surgimento de problemas
neurológicos, como a alteração da memória e diminuição dos reflexos, bem como a
queda das defesas do organismo. Como se percebe, a infância brasileira se submete por
necessidade econômica a um número sem fim de atividades perigosas, insalubres, bem
distante da aprendizagem prevista no seu Estatuto, como o trabalho educativo que daria
condições ao pequeno empregado, a partir dos 14 anos de idade, sob a forma de
aprendiz.27
Faz-se necessário falar, também, de uma das formas mais atrozes de violência que
é o extermínio, se é que podemos graduar o fenômeno da violência, pois toda agressão,
por mais singular que possa parecer, é injustificável e quase sempre objeto de futura
reprodução no sentido de que adultos que sofreram maus-tratos e abusos durante a sua
infância, quase sempre reproduzem tal comportamento, agredindo sua família,
principalmente, os filhos, pois estruturalmente mais frágeis e, portanto mais facilmente
objetos de vitimização. Deve-se esclarecer ainda que, de acordo com o objeto de estudo
desta pesquisa–levantamento das denúncias de abuso sexual e prostituição com crianças
e adolescentes, faz-se necessário realizar um detalhamento no tema da violência e
enfatizar a violência sexual que ocorre contra crianças e adolescentes antes da seguinte
forma - a definição do fenômeno da violência sexual contra crianças e adolescentes.
Vários termos têm sido utilizados para designar o fenômeno: assalto e ataque sexual,
agressão sexual, violência e maus-tratos sexuais, perturbação sexual, ofensa sexual, etc.
Todos designam aspectos específicos e complementares do mesmo fenômeno e por isso
mesmo são inadequados para designar o fenômeno em sua totalidade ou abrangência.

26
Folha de São Paulo. In. Caderno Cotidiano: Dia do Trabalho. 2 de maio, 1983, p. 3.
27
A questão do trabalho infantil no Brasil ainda é dramática: mais de 1,2 milhões de crianças e adolescentes de 5 a
13 anos ainda eram vítimas de exploração em 2007, segundo levantamento da PNAD (Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílio) divulgado em 18/09/2008 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Mas,
apesar do número alarmante, a incidência de crianças trabalhadoras caiu de 4,5% da população desta faixa etária, em
2006, para 4%, em 2007. Ou seja, 171 mil delas deixaram de trabalhar. Os dados da PNAD revelam ainda que os
meninos negros ou pardos, de famílias de baixa renda (até um salário mínimo) e que moram em áreas rurais do Norte-
Nordeste formaram o perfil médio do trabalhador mirim. Mais da metade das crianças de 5 a 13 anos morava no
campo e, conseqüentemente, 60,7% delas trabalhavam em atividades agrícolas. Entre jovens com mais de 14 anos, a
proporção de pessoas no trabalho agrícola cai para 32%. Os mais novos foram as principais vítimas do trabalho sem
remuneração (60%), sendo que, em todas as regiões do país, a presença de crianças trabalhando sem qualquer tipo de
contrapartida foi muito mais incidente nas atividades agrícolas (83,6%) do que nas não-agrícolas (18,7%). Quase
metade das crianças ocupadas de 5 e 13 anos (44,2%) trabalhou até 14 horas por semana e 6,6% delas chegaram a ter
uma jornada de 40 horas ou mais. Apesar disso, 94,7% delas também foram à escola, praticamente a mesma
porcentagem obtida entre as crianças que não trabalhavam (95,7%). Entre os jovens de 14 a 17 anos, a situação é
outra. Nessa faixa etária, 88,9% dos não-ocupados vão à escola, contra 74,9% dos trabalhadores.
35

A partir dessas considerações, propomos a denominação “abuso-vitimização


sexual” como a possibilidade de expressar o fenômeno em sua totalidade de processo de
causar dano à criança através de sua participação “forçada” em práticas ou atos eróticos.
O argumento é que, quando se emprega o termo abuso, a ênfase é colocada no
pólo adulto e quando se emprega o termo vitimização, a ênfase é posta na criança; por
isso, afirmam que vitimização sexual é o que melhor expressa e de fato define o
fenômeno ocorrido.
Definida como “participação de uma criança em prática erótica mediante coerção
(física ou psicológica) de um adulto” a vitimização sexual tem os seguintes
pressupostos:
• A criança é vítima e nunca poderá ser transformada em ré;
• O objetivo presente no processo é sempre o prazer (direto ou indireto) do adulto;
• A participação da criança é garantida pelo coerção/poder que o adulto exerce sobre
ela;
• O efeito da vivência da situação para a criança revela-se sempre danoso: a
vitimização sexual é uma forma de erosão da infância.
A violência sexual contra crianças e adolescentes costuma ser classificada como
não doméstica, quando ocorre dentro ou fora do domicílio da vítima, perpetrada por
desconhecido ou conhecido sem vínculos e parentesco ou responsabilidade sobre a
vítima, e doméstica, quando ocorre no domicílio da vítima e parte de adultos próximos
afetivamente, com grau de parentesco ou responsabilidade para com a vítima.
Azevedo e Guerra esclarecem um pouco mais essas duas modalidades de
violência sexual contra crianças e adolescentes:

Abuso sexual e incesto às vezes costumam ser confundidos, mas


não são a mesma coisa. Abuso sexual (ou vitimização sexual)
geralmente designa relações sexuais entre um adulto e uma
criança. Incesto refere-se a relações sexuais entre dois membros da
mesma família, cujo casamento seria proibido e muito incesto é
vitimização sexual tal como o definimos: mas eles não são
idênticos. Em particular, o contato sexual entre familiares da
mesma idade é uma espécie de incesto que não é vitimização e o
contato sexual entre um adulto estranho a família e a criança é
vitimização sexual28.

Estatisticamente as meninas estão mais sujeitas à violência sexual e esta ocorre


principalmente, no convívio familiar. A fim de melhor esclarecemos, citaremos algumas
dessas formas de violência:

a) Violência sexual não doméstica:

Em consonância com a maioria das literaturas, definiremos violência sexual


como todo ato/jogo sexual, relação heterossexual ou homossexual entre um ou mais
adultos e uma criança menor de 18 anos, tendo por finalidade estimular sexualmente a
criança ou utilizá-la para obter uma estimulação sexual sobre a sua pessoa ou a de outra
pessoa. Os abusos sexuais, com a participação de estranhos, na maioria das vezes, são
acompanhados de agressões corporais, freqüentemente graves, quando não fatais.

28
ÁZEVEDO e GUERRA. Abuso e Exploração Sexual da criança e do Adolescente na região
metropolitana de Goiânia (1992-1996). p. 8.
36

b) Violência sexual doméstica:

Para a identificação e caracterização da violência sexual doméstica


relacionaremos e definiremos alguns itens:
1 – Toda ação que busca a satisfação de uma necessidade sensual/sexual de um adulto e
abrange as seguintes atividades:
a) sem contato físico (por exemplo, o voyerismo);
b) com contato físico envolvendo níveis diversos de intimidade (desde beijos até
copulas orais, anais ou vaginais);
c) sem uso de força física;
d) com uso de força física.
2 – Pode ser heterossexual ou homossexual conforme formação das duplas de
protagonistas (pai-filha, pai-filho, mãe-filha, irmão-irmão, irmão-irmã, irmã-irmã,
avô-neta, avô-neto, avó-neta, avó-neto, tio-sobrinha, tio-sobrinho) etc., o agressor
pode atuar sozinho ou não;
3 – Como se trata de abuso/vitimização doméstica, a denominação adulto deve ser
complementada por pais (biológicos, por afinidade) responsáveis (tutores,
padrinhos), parentes (irmãos, avós, tios, primos etc.).
Entretanto, não podemos olvidar que existe uma grande dificuldade em se
estabelecer um diagnóstico da vitimização sexual quando o agente agressor pertence à
própria família, pois depende da ruptura da passividade de um dos cônjuges ou mesmo
da vítima. Com relação ao incesto, trata-se de um abuso sexual intra-familiar, com ou
sem violência, explícita, caracterizado pela estimulação sexual intencional por parte de
algum dos membros do grupo que possui um vínculo parental pelo qual lhe é proibido o
matrimônio. Portanto, as características do incesto são: o abuso sexual e o vínculo
familiar. O adulto-abusador, no caso do incesto, não é apenas aquele indivíduo que tem
uma relação de consangüinidade com a vítima como também aquele adulto que tem
afinidade com a vítima e ou responsabilidade sobre ela. Dessa forma, nota-se que a
proibição do incesto extrapola os limites do biológico e se instala no contexto cultural,
ou seja, várias culturas, de formas diferentes, estabelecem limites para os contatos
sexuais.
A dinâmica do abuso sexual percorre cinco etapas, como veremos a seguir:
• Cerceamento – o abusador tem acesso à vítima e tente lhe mostrar a atividade
sexual como algo especial e divertido, tratando-o como algo “normal”;
• Interação sexual – realiza-se uma progressão da atividade sexual menos íntima
e evasiva até chegar a uma penetração anal, oral ou vaginal;
• Segredo- o abusador impõe à vítima manter segredo, o que possibilita a
repetição de abuso sexual e o deixa livre das sanções que poderia sofrer;
• Descobrimento ou revelação- a revelação do abuso sexual se dá de maneira
acidental, porque uma terceira pessoa o descobre, por alguns sintomas de
evidência física, por gravidez etc. Geralmente, o momento da revelação provoca
uma crise na família, e esta pode continuar a negar o ato ou efetivar uma
denuncia formal contra o abusador;
• Coerção – ocorre após a revelação e tem por objetivo eliminar a publicidade,
desviar a informação e evitar intervenções externas.

Características da vítima do incesto:


37

Diferenciaremos o tratamento dado ao incesto segundo o grau de evolução mental


e psicossocial da vítima:
a) quando a vítima é uma criança: o incesto deve sempre ser considerado como uma
agressão violenta;
b) quando a vítima é adolescente: neste caso, como freqüentemente a vítima é acusada
de ter seduzido o abusador, sua participação se dá pelo terror e culpa que a situação
lhe provoca;
c) quando a vítima é um adulto: se não se comprovar uma doença mental ou um
distúrbio de personalidade, deve ser respeitada a opção sexual da pessoa.

Conseqüências psicológicas do abuso sexual:

a) adaptação afetiva – apesar de não haver estudos conclusivos sobre a intensidade dos
problemas emocionais da vítima de abuso, os registros das vítimas que buscam
tratamento psicológico dão conta de que elas costumam enfrentar três problemas
intimamente ligados: sentimento de culpa, sentimento de auto-desvalorização e
depressão;
b) adaptação interpessoal – como o abuso sexual ocorre na trama de uma relação
interpessoal, em geral as vítimas costumam experimentar as seguintes dificuldades
básicas: recusa no estabelecimento de relação com homens, estabelecimento de
relações apenas transitórias com homens e tendência a super-sexualizar relações com
homens;
c) adaptação sexual – como não poderia deixar de ser, a área da sexualidade parece se a
mais seriamente afetada pela vivência do abuso sexual. De um modo geral os
problemas de adaptação sexual parecem estar ligados ou a uma negação de todo e
qualquer relacionamento sexual ou a uma incapacidade de vivenciar relacionamentos
sexuais satisfatórios.

Conseqüências orgânicas que o abuso sexual provoca:

a) lesões físicas gerais – a possibilidade de agressões físicas podem variar desde a


imobilização coercitiva até a morte da vítima, para o não reconhecimento posterior
do abusador (é inerente ao abuso);
b) lesões genitais – as lesões traumáticas do aparelho genital feminino vêm
apresentando índices crescentes nas notificações dos serviços de saúde e, dentre
essas lesões assume relevantes freqüência a rotura do fundo do saco vaginal,
encontrada em mais da metade dos casos. Lesões vulvares e clitoridianas têm sido
relatadas com freqüência;
c) lesões anais – a penetração do pênis ou de objetos variados pelo orifício anal pode
provocar uma série de lesões de extensão variada, intenso sangramento, e risco
dessas lacerações cutâneo-mucosas se infectarem, levando a formação de abscessos
perianais;
d) gestação – se o abuso sexual ocorre com mulher-adolescente com ovulações, existe o
risco de haver uma gestação. Trata-se de uma situação extremamente complexa em
qualquer das duas possibilidades, tanto quanto o pai da criança é um
estranho/desconhecido, ou quando este é membro da família. Nos dois casos, tanto a
mãe quanto a criança sofrem várias conseqüências, principalmente, no âmbito da
marginalidade social e da rejeição emocional;
38

e) DST – a vítima corre também o risco de se contaminar com doenças sexualmente


transmissíveis de que porventura o abusador seja portador, que podem variar de uma
blenorragia até os casos mais graves, por exemplo, SIDA/AIDS;
f) disfunções sexuais – as disfunções sexuais podem ser as mais variadas, pois a função
sexual excede, na espécie humana, os meros aspectos orgânicos, tornando-se uma
dependência de fatores biopsicossociais.

Características da família incestuosa:

Considerando que o incesto não é apenas relação sexual entre duas pessoas, mas
uma relação que nasce devido à ausência de uma estrutura familiar que pudesse contê-
la, abordaremos dois tipos de incesto associados às características das famílias
incestuosas:
1) Incesto Espótico – é aquele verificado numa situação ocasional, e geralmente
violenta, sendo a mãe uma pessoa fraca e submissa que não pode impedir o pai de
abusar sexualmente da filha;
2) Incesto Marital – é aquele em que, geralmente, a filha mais velha toma o lugar da
mãe, desempenhando outros papéis além de esposa, como mãe (dos irmãos),
administradora da casa, etc.
Valendo-nos dos ensinamentos de Azevedo e Guerra29 que adotam a
conceituação de Cohen, ambos classificam como incestogênicas as famílias com as
seguintes características:
• Afeto é expresso de forma erotizada: a criança pede amor e o adulto dá sexo;
• A comunicação não é clara, a vítima se cala diante das ameaças ou por medo de
perder o pouco de afeto que conquistou; os outros membros se negam a enxergar
o que está acontecendo na família e principalmente a mãe desenvolve um papel
de ‘cúmplice silenciosa;
• Dever/poder está altamente centralizado na figura paterna e a mulher-criança é
vista como objeto sexual da satisfação do poder masculino;
• Em decorrência da estrutura e da história familiar os limites básicos das relações
inter e intra-geracionais não foram estabelecidos.

Alguns dados importantes sobre o fenômeno do incesto. Por exemplo:

• As vítimas são preferencialmente mulheres e os agressores são


preferencialmente homens (embora em pequeno número, há vítimas do sexo
masculino);
• O tipo mais comum é o incesto pai-filha, por isso, denominado de ordinário;
• Existe a possibilidade, embora em menor grau de o agressor sexual sofrer de
distúrbios psiquiátricos;
• Embora haja vítimas de 0 a 18 anos, a idade mais comum varia entre 8 e 12
anos.

O tratamento terapêutico deve envolver toda a família, pois, na verdade, trata-se


de uma família incestogênica, e não de indivíduos isolados que praticam um ato ou
atividades sexuais. Não podemos ficar inertes diante da violência que nos rouba a
humanidade, que nos animaliza. Há que se exigir ações efetivas por parte do Estado e da
29
Op. Cit. p.10.
39

sociedade, é imperioso, portanto, uma reação contrária ao cotidiano avanço da


violência, do descaso com os direitos humanos mais elementares.

2.3 – DA PROSTITUIÇÃO

2.3.1 – Considerações Iniciais Sobre a Prostituição

A prostituição é um fenômeno de degenerescência social, constante em quase


todas as civilizações, cuja origem se perde, nos tempos. Desde logo, podemos
vislumbrar dificuldades que se antepõem a sua definição.
Gaspar30 define prostituição como um contínuo de relações possíveis entre
homens e mulheres que combinem sexo e dinheiro sem passar pelo casamento ou pela
procriação. A tendência a relacionar prostituição e casamento encontra suas origens na
divisão histórica da condição feminina entre “honestas” e “perdidas”. Observa esta
divisão como o processo da coisificação da mulher, reduzida a mero objeto dos desejos
do homem, a quem deve ser assegurada a garantia da realização plena. Sobre as
semelhanças e diferenças entre a prostituta e a esposa, Beauvoir31 preleciona em suas
lições que (...) para ambas, o ato sexual é um serviço; a segunda é contratada pela vida
inteira por um só homem; a primeira tem vários clientes que lhe pagam tanto por vez.
Àquela é protegida por um homem contra os outros, esta é defendida por todos contra a
tirania exclusiva de cada um.
A prostituição é alimentada diariamente através de mecanismos sociais, como
linguagem, hábitos, educação, dominação, discriminação, competição, consumo, status.
Analisando os padrões sociais masculinos e femininos, Saffiotti reflete:

Há um arquétipo masculino muito precioso, o do homem forte (...).


No arquétipo masculino eu identifico o sujeito desejador. Ele
deseja um objeto que está fora dele e usa este objeto para a
sociedade da sua aspiração. Do outro lado, o que encontramos?
Não apenas um arquétipo feminino, porém dois arquétipos: o
arquétipo da SANTA* mãe, dona de casa, assexuada e outro que é
o arquétipo da prostituta. Aparentemente, estes dois arquétipos são
absolutamente contraditórios, mas há um entre elas, uma
identidade básica. Ela resulta do fato de ambas as mulheres, a
SANTA* e a PUTA*, serem objeto de prazer do homem.
Nenhuma delas é sujeito de desejo, o que reflete evidentemente
relações de dominação e de subordinação, razão por que eu não
consigo desvincular a prostituição de violência.32

Os padrões sociais de dominação/subordinação, homem/mulher, brancos/negros,


adultos/crianças se interpenetram e se cruzam nas relações sociais, dando origem à
ordem “social”. No universo amplo da prostituição, a infantil, enquanto “comércio
carnal de crianças” ou “sua participação em atividades sexuais com adultos ou jovens
mediante um elemento de retribuição sob a forma de dinheiro, de presentes, e até
mesmo de tóxicos”, se insere como mais uma forma de violência contra a criança, ao
lado do rapto, do tráfico, das mutilações e assassinatos, dos abusos e negligências, da
exploração no trabalho, do abandono político e social.33

30
GASPAR, Maria Dulce. Garotas de programa. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
31
DE BEAUVOIR, Simone. Le Deuxième Sexe. L´Expérience vécue.Paris: Gallimard. 1975.
32
In: Revista de Psicologia, Fortaleza, v.7 (1/2), p.97-113. Jan/Dez.1989/90.
33
AZEVEDO. Op. Cit.p. 112.
40

Quando abordamos o tema da exploração sexual de crianças e adolescentes nos


deparamos com um primeiro problema, qual seja, seria correto falar em prostituição,
como oportunamente indaga a socióloga Marlene Vaz: “Seriam essas meninas
prostitutas ou prostituídas?”34
Comungamos da idéia que essas meninas são prostituídas, haja vista o fato que as
conduzem a esse tipo de vida ser, justamente, a alta de uma política de base – geradora
de desemprego –, levando-as primeiramente à prostituição famélica. Daí, a se
transformar em vício é apenas uma questão de tempo – mínimo. Da fome, chega-se à
necessidade das drogas, do álcool; à subordinação às cafetinas ou cafetões onde, mais
uma vez são vitimizadas – pela fome e pelo vício. E, apesar das freqüentes denúncias,
principalmente, das entidades que defendem os interesses da infância e da adolescência
no Brasil, sobre a prostituição infanto-juvenil, essa face escura da realidade tem sido
freqüentemente encoberta pela sociedade.
O número sobre a exploração e o abuso sexual de crianças e adolescentes
aumentam dia-a-dia. Pode-se tornar como um indicador da dimensão do fenômeno o
interesse e o envolvimento de alguns organismos governamentais e não-governamentais
que se propõem a conhecer e discutir o problema e intervir na realidade que o produz e
sustenta. São bons exemplos disso a realização da Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI) sobre a Prostituição Infantil, em 1993, a realização em Brasília do Seminário
sobre Exploração Sexual de Meninas e Adolescentes no Brasil em março/1.985, a
realização do Seminário contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas
Américas, em Brasília, no mês de abril de 1986, e o World Congress Against
Comercial Sexual Explotation of Children, congresso realizado em Estocolmo no mês
de agosto de 1996. A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Prostituição Infanto-
Juvenil (1994) tornou ainda mais explícito o que vinha sendo denunciado através dos
meios de comunicação e da literatura, a respeito da prostituição e da exploração sexual
de crianças e adolescentes brasileiros.
O Relatório Final dessa CPI afirma que tal situação antes de ser um choque, um
escândalo social, é na verdade um crime, pois:

(...) não é fácil para nossas consciências sequer acreditar que há


crianças de apenas seis anos de idade sendo usadas em práticas
sexuais remuneradas, ou meninos de cinco anos contracenando
com meninas de doze, em filmes pornográficos. Numa idade em
que crianças brincam de bonecas e jogam bola, estas crianças,
para quem a Constituição Federal proclama obrigatório o ensino
básico, já são brutalizadas por seus pais, parentes e
exploradores.35

À época, a CPI apurou - com apoio do UNICEF -, ser em torno de 500.000


(quinhentos mil) o número de crianças e adolescentes que se encontra em estado de
prostituição no Brasil, expondo-se a toda sorte de doenças – inclusive a AIDS – e
também às mortes violentas. Outra constatação importante dos parlamentares foi de que,
em quase todos os casos, a família é o ponto de partida para a prostituição infantil,
sendo o pai/padrasto o principal agressor. Assim, numa trágica inversão de valores, a
casa que deveria abrigar e proteger oferece perigo, e as ruas são vistas como um refúgio

34
VAZ, Marlene. “Meninas de Salvador”. Pesquisa sobre a População Infanto-Juvenil Prostituída –
CEDECA/UNICEF, Bahia, 1994, p.8
35
Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a apurar a responsabilidade pela Exploração e Prostituição
Infanto-Juvenil. Relatório final. Brasília, Câmara dos Deputados, 1994 (mimeo) p.22.
41

seguro. O referido Relatório sintetiza considerações, frutos dessa investigação, desse


mapeamento do “fenômeno” da prostituição em nível nacional, tais como:

A prostituição e a exploração infanto-juvenil são realidades


disseminadas por todo o território nacional e permeiam todas as
classes sociais; Não existe idade mínima para a vitimização; há
distinção entre a prostituição famélica e a destinada à obtenção de
bens de consumo ou acesso aos locais da moda. As meninas que se
prostituem para conseguir sustento se enquadram no primeiro
grupo: a prestação de favores sexuais serve à subsistência ou à
proteção contra autoridades a que se submete etc. A CPI recebeu,
inclusive, denúncia de corrupção policial, segundo as quais
agentes da lei exploram, eles próprios a prostituição.36

Definiremos a prostituição infanto-juvenil como o comércio carnal da criança e ou


adolescente com adulto ou jovem, em que ela recebe em pagamento em dinheiro,
presentes e substâncias tóxicas. A ampliação do fenômeno da prostituição infanto-
juvenil está relacionada com três fatores principais:
a) O desenvolvimento do turismo sexual;
b) A condição sócio-econômica das crianças, isto é, sua condição de miséria e opressão;
c) A ideologicização da infância e da sexualidade feminina e masculina.
Sabe-se que a prostituição infanto-juvenil ocorre tanto em grandes centros
urbanos como em comunidades pequenas, principalmente aquelas nas quais se
desenvolve alguma atividade produtiva com a participação de um grande número de
homens e que, além disso, ficam distantes e ou são de difícil acesso, como, por
exemplo, os garimpos. Ela adquire, certamente, significados e contornos diferentes
dependendo dos contextos geográficos e sócio-econômicos, por isso se ouve falar (com
freqüência) em turismo sexual especialmente nas cidades litorâneas, escravização de
meninas em zonas de garimpo, meninas prostituídas em áreas portuárias etc. Os
levantamentos realizados por diferentes entidades – CPI, prefeituras, órgãos
governamentais e ONGs – mostram que a iniciação na prostituição ocorre cada vez mais
cedo, chegando a atingir crianças de até cinco anos de idade. Apesar de se privilegiar o
estudo da menina prostituída, existem crianças e adolescentes do sexo masculino
prostituídos, principalmente para práticas homossexuais. Em todos os estudos já
realizados a prostituição infanto-juvenil, este figura relacionado com o aumento da
pobreza e miséria, desemprego, violência doméstica, desagregação familiar, perda de
valores culturais, carência do sistema escolar e consumo e tráfico de drogas.
Certamente, essa realidade atinge em maior profundidade as crianças e adolescentes
advindas das camadas populares.
A prostituição consiste, para muitas meninas, em um meio de contribuir com a
precária renda familiar ou de ter acesso a bens de consumo que não estão ao seu
alcance. Vítimas da violência de adultos aprendem a utilizar seu corpo como mercadoria
de troca na esperança de mudar o curso de uma existência que parece já traçada, onde o
sonho e a brincadeira deixaram precocemente seus lugares à dor e à luta pela
sobrevivência. Mas, os sonhos das mulheres/meninas terminam, na maior parte dos
casos, na rede de exploradores sem escrúpulos ou na morte.
Pode-se afirmar que, não existe prostituição infantil sem que haja - no mínimo -
um adulto responsável, ou ele é o cliente, que explora os serviços sexuais, ou é o agente
aliciador, que obtém vantagens econômicas. No nosso entender, o tema da vitimização

36
Idem. p.23-27
42

sexual em família é altamente responsável pela prostituição, mormente de meninas


porque incide muito mais sobre elas do que sobre os meninos.
A violência sexual possui diferentes contornos, dependendo do contexto de classe
social, conforme assinala Saffioti:

Uma diferença que encontramos, é a desigualdade de classe, no


abuso incestuoso que é a seguinte: nas classes mais pobres, o pai
joga a filha numa cama, põe uma faca, um canivete, um revólver, a
arma que tiver a lado da cama e estupra a filha e diz: ´Se você
abrir a boca, eu mato você, mato sua mãe, todos os seus irmãos´. A
menina vive sob ameaça concreta. Agora é muito pior nas camadas
privilegiadas. Não se ameaça com revólver nem faca. Não há
ameaça. O que há é um processo de sedução que, a meu ver, é
muito mais deletério, para a saúde emocional da criança do que a
ameaça grave. Porque o pai vai seduzindo, ele vai avançando as
carícias – dizemos o pai porque é a figura mais freqüente, mas isso
não impede que seja o avô, o tio, o primo, o irmão, etc. – e é muito
difícil para a criança distinguir entre a ternura e o afago com fins
genitais.37 (grifamos)

2.3.2 – Formas de Iniciação e Condições de Vida na Prostituição

O relatório da AIJD38 nos fornece informações sobre a forma de iniciação da


criança na prostituição:
• A idade de ingresso na prostituição varia de acordo com o local e a forma de
recrutamento das crianças. As nascidas em zonas de prostituição, ou provenientes de
mães prostitutas, são, em geral, exploradas a partir de 03 anos de idade. As que são
trazidas do interior para trabalharem como domésticas em casas de família,
geralmente aos cinco anos, também são utilizadas sexualmente pelo patrão, seus
filhos e amigos, e posteriormente, por volta dos 13 anos, colocadas na rua. Nas zonas
de garimpo, é comum a existência de meninas de 10 a 12 anos com a finalidade de
“servirem” aos homens;
• Em alguns lugares, a prostituição infantil se organiza em “casas de tolerância”,
situadas geralmente na periferia das cidades. Foram citados Caruaru–PE, Lages-SC,
e Rio Grande do Sul, onde as casas de tolerância são chamadas “Matadouros”. Ali as
meninas são drogadas e guardadas por cães;
• Em cidades como Fortaleza, São Paulo, Salvador e Porto Alegre, o recrutamento
das crianças para prostituição se confunde com o rapto e o tráfico de crianças;
• A rota do tráfico de crianças brasileiras pode se iniciar em Fortaleza, com destino
ao Rio de Janeiro, onde as crianças são negociadas, ou pode ainda se estender do Sul
do Brasil para países fronteiriços como Paraguai e Argentina;
• A revista acima referendada publicou uma matéria (Fev.1988, pág.34)
acerca do comércio de crianças brasileiras, salientando que a cada ano, perto de
1.500 (mil e quinhentas) crianças brasileiras deixam o país para morar no exterior –
com os papéis em ordem. Pela rota da clandestinidade, que passa obrigatoriamente
pela falsificação de documentos e pela exploração abusiva dos sentimentos
tumultuados de mães em dificuldades, estima-se um número bem maior – a projeção
37
Revista de Psicologia, Fortaleza. v.7 (1/2), pg.115.Jan/Dez. 1989/1990.
38
Apud LORENZI, Mário. Prostituição Infantil no Brasil e outras Infâmias. Porto Alegre: Thê, 1987.
p.30.
43

da Polícia Federal, por exemplo, alcança 3.000 (três mil) crianças por ano, ou 50
(cinqüenta) a cada semana. Curitiba e Fortaleza são identificadas como plataforma de
embarque de crianças para o exterior. De acordo com o chefe local (Fortaleza) do
Serviço de Fronteiras da Polícia Federal, a Secretaria de Segurança Pública do Ceará
recebe em torno de 05 (cinco) denúncias de seqüestro de criança, por semana;
• A produção de filmes pornográficos, envolvendo crianças no Brasil, está
localizada principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo, onde estão os estúdios mais
importantes. Recife foi citado também como produtor de pornografia infantil. Ali as
crianças mais novas são as preferidas dos clientes, em função do baixo preço cobrado
por elas. Algumas vezes, o próprio cliente leva a menina para o bordel. Há registro
de casas especializadas que fornecem meninas virgens por telefone.

Na tentativa de fazer a síntese das variadas e complexas causas que contribuem


para o surgimento e permanência do fenômeno da prostituição infanto-juvenil no Brasil,
relacionamos as seguintes causas e, respectivamente, suas conseqüências:

a) Causas Essenciais:
• Sexualidade – o papel da sexualidade na cultura brasileira e na cultura ocidental é
responsável em grande parte, pela Prostituição Infanto-Juvenil. A idéia da
sexualidade está intimamente ligada à idéia que se tem de dominação. Existe uma
ética sexual que é embasada por uma prática da dominação, da coerção, e que faz
com que essa dominação seja geracional, porque se manifesta de uma geração à
outra;
• Família – a ordem familiar historicamente estabelecida. A ética sexual
predominantes na sociedade, que determina a construção familiar monogâmica, fiel
( profundamente hipócrita), reconhece também a existência de figuras extraconjugais
– a outra, a prostituta, a amante, a concubina- que fazem parte do imaginário da
família brasileira.

b) Causas Secundárias:
• Pobreza - a situação de extrema pobreza e necessidade vivida pelas famílias e as
crianças/adolescentes. Certamente esse fator não é único, determinante e exclusivo,
mas é fundamental;
• Escola - a natureza do sistema escolar brasileiro marcado pela exclusão, que
impossibilita o acesso e a permanência das crianças na vida escolar;
• Violência - seja física, sexual, simbólica, emocional ou psicológica, a violência,
tanto dentro quanto fora da família, é constitutiva da inserção da menina na
prostituição.

De acordo com a pesquisa “Meninos de rua: dimensão trajetória e estratégias de


sobrevivência”, realizada em Recife, o objetivo foi de conhecer em profundidade o
fenômeno da prostituição infanto-juvenil – a saída para a rua, a trajetória empreendida
e as estratégias que permitem a sobrevivência, apresenta os seguintes dados e
conclusões:
• Do total de meninas e adolescentes pesquisados, 47% estavam na faixa etária de 17
a 20 anos, 36% tinham entre 12 e 16 anos e 17% até 11 anos de idade;
44

• Quase todas não são crianças sem famílias, nem crianças abandonas. Vão para a rua
porque é o elemento mais frágil numa estrutura familiar enlouquecida pela miséria
que esmaga gradativamente do adulto à criança;
• A maioria absoluta não tem pai. A figura ou é desconhecida ou totalmente ausente
por abandono ou rejeição da família. Quando presente na família, sua ação é quase
sempre marcada pela violência – física, psíquica ou sexual;
• As mães estão presentes e são vistas como as responsáveis pelo sustentáculo da
pseudo-estrutura familiar existente. No entanto, não dispõem de condições
emocional, física e econômica para atender a essa expectativa. A mãe da menina de
rua é uma mulher esmagada pelas engrenagens da miséria, afetada no seu equilíbrio
mental e recorrendo com freqüência à embriaguez;
• Na relação estabelecida entre mãe e filha predominam o abandono diário, a
agressão verbal, a rejeição, a violência física e a indiferença;
• Outro dado da relação mãe-filha é a presença de padrastos, que em geral, rejeitam as
enteadas, de forma violenta, levando as mães a praticamente expulsarem as filhas de
casa. Essa relação se torna mais complexa mais ainda pela ocorrência freqüente do
abuso sexual contra as enteadas e do ciúme das mães em relação às filhas;
• Aposição da menina na hierarquia familiar é visivelmente inferior a posição do
menino, cabendo a esta quase sempre a responsabilidade pelo cuidado dos irmãos
mais novos e dos afazeres domésticos;
• A desagregação do grupo familiar, que não permite às meninas construir vínculos
mais profundos e afetivos com os pais/mães/irmãos, é causada por falta: de uma das
figuras fortes, o pai ou a mãe, de dinheiro para a comida e outras necessidades
básica, de espaço para morar, de privacidade para cada um dos membros da família e
de afetividade no interior da família;
• A liberdade em relação à situação familiar significa, para a menina, ir para a rua,
que representa um espaço de ‘liberdade’ psicológica.
Esses dados expõem as múltiplas causas da prostituição infanto-juvenil no país.
Eles mostram que a sua erradicação passa por uma tomada de consciência de toda a
sociedade e, especialmente dos órgãos governamentais. Muito mais que um esforço de
entidades que lutam pelo fim da prostituição infanto-juvenil no Brasil e no mundo, é
fundamental a conscientização e o engajamento de toda a sociedade e principalmente do
Estado para retirar do silêncio essa triste situação buscando formas de superar essa
prática que foi socialmente instituída.

Destacamos três níveis de conseqüências da prostituição infantil:


a) Problemas de ajustamento sexual, que vão desde uma preocupação
acentuada com a questão sexual, até uma identificação deteriorada, passando pela
troca de sexo e pela promiscuidade;
b) Problemas de natureza interpessoal, ou perturbações nas relações sociais, que
vão da hostilidade às idéias suicidas;
c) Problemas educacionais, como por exemplo, dificuldades de aprendizagem.

Acrescentam-se ainda sintomas de debilidade mental (social), perda de auto-


estima, ansiedade, perturbações do sono. Ressaltamos que todos esses efeitos são
relativos à violência sexual como um todo, onde se inclui a prostituição. Os fatores até
aqui relacionados, não se destinam a formar um quadro definitivo daquilo que significa
ser a prostituição infanto-juvenil. Antes, pretendemos evidenciar, a partir de estudos
45

diversos, em épocas e lugares diferentes, elementos que possam contribuir para a


compreensão das possibilidades do ingresso e da manifestação do fenômeno de
prostituição, bem como de algumas conseqüências a nível individual.

2.4 - Prostituição Infanto-Juvenil

O fato de o Brasil ter sediado, recentemente, o Seminário Contra a Exploração


Sexual de Crianças e Adolescentes nas Américas, sugere a abrangência do problema em
nosso país. O Seminário contou com a participação de diversas organizações da
sociedade civil de defesa e promoção da infância e juventude. Em seu transcurso, foram
divulgadas denúncias de exploração e abuso sexual de crianças e adolescentes tanto no
âmbito das famílias, como por redes e organizações de prostituição, de pornografia e de
tráfico de drogas. A expansão do problema se dá com a atuação de redes globais de sexo
e, principalmente, via turismo sexual, conforme dito alhures. As denúncias falam
também da morbidade e mortalidade de crianças e adolescentes associadas à violência
sexual e à prostituição. A existência da prostituição infanto-juvenil no Brasil é inegável.
A gravidade e abrangência desse problema estão expressas na fala/denúncia de
Pinto39 ao observar que a exploração sexual infanto-juvenil se apresenta em todas as
unidades federadas do país. Embora com formas diversificadas, que se relacionam
inclusive, com a organização local e com a economia local, ela está presente nas 27
unidades federadas. A faixa etária mais visível é entre 12 e 16 anos. No entanto, temos
presença confirmada, especificamente, nas regiões Sul, Sudeste, no Espírito Santo,
Norte, no Acre e Amapá, e em Pernambuco, de meninas de quatro, cinco, seis e sete
anos, usadas sexualmente das mais diversas formas, porque tem a ver com o
desenvolvimento físico, e com o que elas podem fazer.
A violência sexual contra crianças e adolescentes é tão-somente uma face (talvez
a mais perversa) da violência que, de uma forma geral, se alastra pelas sociedades
contemporâneas. O significado da violência tem de ser compreendido no contexto de
uma sociedade específica e de uma cultura determinada. No caso brasileiro, diversas
formas de violência estão gerando uma sociedade extremamente desigual em termos
sócio-econômicos e com históricas marcantes de injustiça social. Trata-se, portanto, de
uma sociedade que pratica a violência tanto entre as classes sociais quanto no interior de
cada classe, conforme comprovam as elevadas, estatísticas dos conflitos (urbanos e
rurais) e das ocorrências de maus-tratos às mulheres, idosos, crianças e adolescentes, no
interior da família e fora dela. A literatura nacional e estrangeira registra que, do total de
violência cometida contra crianças e adolescentes, cerca de 10% correspondem a abusos
sexuais. No entanto, o desconhecimento de tal situação, tem levado à desinformação e
ao despreparo dos profissionais de educação e saúde, à dificuldade de comprovação de
algumas formas de abusos sexuais (sevícias, atos de libidinagem, sexo oral, etc.), e ao
descrédito com que é tratada a criança e o/a adolescente. Existe um sub-registro dos
casos. Há estudiosos que chegam a estimar que para cada caso denunciado, haveria mais
três sem denúncia. De qualquer modo, é consenso que as estatísticas revelam apenas um
esboço do quadro real. São inúmeros os relatos e de abuso sexual contra crianças e
adolescentes no Brasil. Várias reportagens são feitas mostrando bordéis localizados em
áreas de garimpo e o turismo sexual nos grandes centros.
Podemos apontar como principais causas da prostituição infanto-juvenil, a fome, a
miséria, a carência afetiva, bem como, o lucro que tal exploração propicia a quem dela
39
LEAL, Maria Lúcia P. Relatório do Brasil - Exploração Sexual Comercial de Meninos, Meninas e de
Adolescentes na América Latina e Caribe: Relatório Final – Brasil. In. Violência y -Explotacíon
Sexual Comercial del Ninõs y Niñas en America latina y el Caribe. Montivideo: IIN/OEA, 2001.
46

se vale. Vemos um país com grandes problemas sociais e a maioria da população


vivendo em condições de pobreza e miséria. Explorar sexualmente uma criança ou
um/uma adolescente acaba sendo fonte de renda para muitas famílias.
Em 1993, o Brasil foi apontado como o segundo do mundo em prostituição
infanto-juvenil (só perdendo para Tailândia, pois este possuía à época, cerca de 800.000
crianças e adolescentes envolvidos com a prostituição) cerca de 500.000 (quinhentas
mil)40 crianças e adolescentes na prostituição, 150.000 (cento e cinqüenta mil) só no
eixo Rio/São Paulo). Não se pode deixar de citar as áreas de garimpos, na Região Norte
do país, que abrigam uma grande quantidade de meninas.
Em 2005, a SNDH em parceria com a UNICEF realizou um estudo que revelou a
exploração de crianças e adolescentes com fins comerciais em 17% (dezessete) dos
municípios brasileiros. E, diante desse resultado, o então ministro da SNDH - Nilmário
Miranda - declarou o intuito de reduzir esse número pela metade até 2006, com relação
aos municípios e reduzir o número de crianças e adolescentes envolvidos nesse tipo de
exploração. À época não entendemos a declaração da redução dirigida à apenas uma das
formas de exploração sexual infanto-juvenil. Ainda de acordo com a UNICEF, os
grandes problemas do Brasil são a miséria, seguida do desemprego e da violência dentro
de casa. Segundo diagnóstico, a violência que a criança sofre nas ruas é muito menor do
que a sofrida dentro de casa, cometida pelo pai, padrasto, ou irmão. E é, “(...) então,
essa falta de respeito, de solidariedade, tudo isso que joga as crianças na rua” 41. O
comércio de crianças é outro problema social freqüente e de extrema gravidade que está
intimamente relacionado à prostituição. As crianças são vendidas como mercadorias a
bordéis e casas de massagens. Junto com tal comércio, vem o seqüestro de crianças para
serem comercializadas nas grandes cidades, em áreas de garimpo ou em agenciadoras
no exterior. Crianças e adolescentes de classes menos favorecidas é o alvo mais
freqüente, já que o empenho policial não é intenso no sentido de encontrá-las e devolvê-
las às suas famílias.
Diz o relatório E/CN4/Sub. 2 Ac 2/1984/ NGO/4 da Subcomissão da ONU:

Se a compra e venda de pessoas humanas é proibido no mundo


todo sobre o nome de escravidão, é claro que os que praticam este
comércio (...), ocorrem em graves riscos, tanto mais que as
crianças não sobrevivem muito tempo à vida dura que lhes é
imposta. Tudo deverá ser feito na mais extrema clandestinidade e
serão procuradas crianças indigentes do terceiro mundo a bom
preço (sic) tanto mais fácil e tanto melhor se não tem mais família,
nem pátria, como por exemplo, as crianças refugiadas. 42

Crianças sem família, crianças maltratadas, crianças vivendo em situação de


miséria é a melhor escolha para o seqüestro e conseqüente venda. A promessa de uma
vida melhor, muitas vezes leva as meninas a abandonarem suas casas. Um emprego com
salário razoável é o grande sonho que as fazem entrar numa aventura desconhecida. A
maioria não sabe que estão sendo levadas para zonas de prostituição, sendo enganadas e
mantidas presas por donos de bordéis onde são obrigadas a manter relações sexuais com
qualquer homem e, caso se recuse são trancadas e ficam vários dias sem comer.
Dimenstein transcreve vários relatos dessas meninas, tal como:

40
Estimativa da UNICEF. O Secretário da SNDH discordou da estimativa, muito embora haja forte
ocorrência do problema.
41
UNICEF. Infância em Perigo. In Programa Zoon: TV Cultura. 1998
42
Op. Cit. p.30.
47

Miriam não estava entendendo nada. Há três dias viajava pelo rio
em busca de um emprego prometido pela irmã. Mas no porto foi
recebida pela primeira vez a passarela de madeira que separa o
porto da boate, um homem parou-a, pegou-a pelo braço e disse:
‘quero ver se você é boa de cama’. Teve que amargar um mês até
se libertar e ir embora da cidade. A regra da boate era dura: se não
‘fizesse salão´ , não comia e ainda tinha de pagar o aluguel do
quarto. A desobediência era resolvida no braço.43

Esse é o depoimento de uma menina de 14 anos, levada à Laranjal do Jari (Sul do


Amapá), com a promessa de emprego em uma lanchonete. A própria irmã a enganou e
ela se viu obrigada à prostituição. A irmã ganhava dinheiro arranjando meninas para os
bordéis em áreas de garimpo. Uma CPI foi instaurada para cuidar do problema da
prostituição infanto-juvenil. Os membros dessa Comissão percorreram diversas regiões
de garimpos e descobriram, entre outras coisas, que os donos do garimpo pagam, com
ouro, aos policiais da região para que eles impeçam a fuga de meninas do garimpo e,
conseqüentemente livrá-las da prostituição. São vítimas de todo o tipo de violência e
caso se recusem a dormir com algum garimpeiro, algumas chegam à morte. O que,
também, se observa com freqüência são meninas que vivem nas ruas agenciadas pelos
meninos que igualmente vivem nas ruas. Eles fazem o contrato com o “freguês”, e
levam um percentual nos lucros. E, um dado peculiar é que muitas dessas meninas
começam a se prostituir após terem sido violentadas pelos próprios meninos de rua.
Muitas meninas foram iniciadas sexualmente nas ruas, por um policial ou outro homem
qualquer que as estupraram. Outras foram violentadas na própria casa pelo pai ou outro
parente qualquer (evidenciado anteriormente). A mãe e o restante da família, muitas
vezes se calam diante do estupro porque o estuprador é a base de sustento da família.
O Brasil é detentor de uma das maiores concentrações de renda do mundo, onde
se aglomeram altos níveis de desigualdade e pobreza, crescente deterioração dos
salários, aumento das taxas de desemprego; desigualdades regionais e ocupação
perversa da terra. Resumindo alguns dados, relacionamos ainda as seguintes
informações:
• Entre 1980 e 1985, enquanto no Brasil a taxa de mortalidade infantil alcançava o
índice de 37 óbitos por mil nascidos vivos, o Nordeste se sobressaía com o índice
alarmante de 103 por mil. As causas mais freqüentes de mortalidade infantil
(infecções intestinais, infecções respiratórias agudas associadas à desnutrição), são
causas que podem, perfeitamente, ser detectadas e tratadas e até prevenidas;
• Após sobreviver às intempéries do primeiro ano de vida, a criança proveniente de
lares empobrecidos será gradualmente inserida no mercado de trabalho, em geral no
setor primário, com vista a aumentar a renda familiar;
• Apesar de realizar uma jornada de trabalho adulta, igual ou maior a 40 horas;
praticamente nenhum menor de idade, no Nordeste, recebe mais de um salário
mínimo;
• As instituições de recolhimento que se propõe a atender as crianças tidas como
“portadoras de conduta anti-social” e/ou “abandonadas”, há muito têm sua função
social e sua competência questionadas, em face do caráter perverso e estigmatizante
de que se revestiram;

43
DIMENSTEIN, Gilberto. “Meninas da Noite: a prostituição de meninas-escravas no Brasil. São Paulo:
Ática, 1992. p. 55
48

• Ao mesmo tempo em que cresce o número de meninos e meninas de rua, este


espaço se afirma cada vez de forma mais irreversível como local de trabalho, que
garante muitas vezes o sustento de famílias inteiras;
• Quanto ao uso de drogas, 77,5% das crianças de rua, em São Paulo, utilizam
solventes orgânicos e 60% já experimentaram maconha. A idade média de iniciação
é de dez anos;
• Sobre a educação, o país detém um índice de analfabetismo de 17%, entre crianças
de 10 a 14 anos; o índice eleva-se no Nordeste para 37%. Evasão e repetência escolar
são fenômenos associados, principalmente na 1ª Série do 1º Grau. Observou-se, em
1985, que, das crianças que ingressaram na 1ª série, apenas 18,3% concluíram o 1º
Grau. As escolas padecem de condições precárias de infra-estrutura e de recursos
humanos;
• Quanto à saúde, são péssimas as condições de saneamento básico em que vivem,
principalmente, as famílias de baixa renda. O que favorece a proliferação das mais
diversas doenças. Mais de 90% das crianças brasileiras de até 04 anos, provenientes
de famílias em situação de pobreza absoluta (menos de ¼ de salário mínimo per
capita) vivem em condições inadequadas de saneamento básico.
Existem estudos desenvolvidos em todo o mundo apontando que 50% a 80% de
crianças em idade escolar usam drogas lícitas ou ilícitas, como forma de “recreação.”

Na zona rural, a situação se intensifica:


• Somam-se à ineficácia do sistema de tratamento de esgoto e do lixo, as deficiências
crônicas no padrão alimentar e nutricional do brasileiro, tendo assim condições
propícias à manutenção do estado de saúde precário da população. No Brasil,
apenas 4% das crianças com menos de 12 anos se beneficiam da assistência
hospitalar, no Nordeste, o índice é inferior a 3%.
Num país em que a população é diariamente fraudada em seus direitos sociais
mais básicos, deslocado do interior para a periferia dos grandes centros, sendo obrigada
a subsistir em meio a condições miseráveis, é natural que se desenvolvam alternativas
de sobrevivência por vezes perversas. Entretanto, não queremos aprisionar a análise da
prostituição infantil às condições sócio-político-econômicas da sociedade brasileira, vez
que acreditamos estar a questão, também relacionada a certo modo de ver e tratar a
criança e o adolescente sob a ótica de um padrão cultural que costuma reduzir o mundo
infantil a uma categoria de alienação da realidade. Dessa maneira, é com o silêncio que
a sociedade vem se resguardando do processo de implosão que sofrem suas instituições,
e a prostituição é um dos reflexos.
Segundo Paulo Victor Sapienza, há um aumento de casos de agressão física,
espancamento e negligência, totalmente relacionados à família, ou seja, a
desestruturação familiar criada pelo desequilíbrio sócio-econômico é a razão que leva o
pai, a mãe ou o responsável pela criança a praticar violência contra ela. Entende
Sapienza que a maior parte dos casos registrados vem das classes baixas. As denúncias
partem de parentes, vizinhos e das próprias crianças. Nas classes privilegiadas, a
violência é absorvida e não se transforma em denúncia. Para ele, o afastamento dos pais
do convívio com os filhos é o principal motivo para o envolvimento com drogas e a
fuga para as ruas e afirma que, quando a família se desestrutura e a criança perde seus
referenciais, como o pai e mãe, a rua passa a oferecer vínculos mais atrativos. “Não
adianta colocar a criança em uma instituição onde ela não tenha amor e carinho. É
49

preciso ajudar a reestruturar a família para que as crianças tenham carinho e amor
dentro de casa e não precisem sair” 44.
De acordo com a Secretaria Nacional de Direitos Humanos e a UNICEF, a
exploração da prostituição infantil atinge 927 dos 5.561 municípios brasileiros45. O
levantamento (realizado pela Universidade de Brasília), que inclui dados colhidos entre
2002 e 2004, a região que mais apresenta casos é o Nordeste, com ocorrências em 289
cidades (31,1% do total). As regiões Sul e Sudeste, que concentram a maior parte da
riqueza nacional, tiveram ocorrências em 402 cidades. Os números refletem a melhor
estrutura de proteção à infância nestas regiões, mas também ajudam a derrubar o mito
de que a exploração infanto-juvenil se concentra nas regiões mais miseráveis. No
Estado de São Paulo (casos registrados em 93 cidades), está na liderança do ranking da
exploração sexual infantil, seguido por Minas Gerais, com 92, e Pernambuco, com 63.
Segundo os pesquisadores, ainda hoje, não existe um perfil definido vez que
acontece em várias classes sociais, econômicas e culturais. Essa violência contra a
infância e juventude está ligada à violência intra-familiar, trabalho infantil e drogas,
explica a professora Maria Lúcia Leal, da UNB, que coordenou o levantamento.
Ao contrário do que se pensa, a prostituição infanto-juvenil não acontece apenas
nas classes menos favorecidas. É comum encontrar adolescentes de classe média se
prostituindo. Os motivos que levam essas adolescentes à prostituição diferem daqueles
que comumente encontramos o desejo de consumo é o mais comum deles. Aquele
produto de marca famosa, roupas, dinheiro para freqüentar lugares badalados, são
alguns exemplos que se pode citar.
Nos classificados dos grandes jornais encontra-se anúncios de belas garotas para
servir de acompanhante para executivos. São universitárias, estudantes, na sua maioria
pertencente à classe média. A grande dificuldade encontrada no combate à prostituição
infanto-juvenil, é que normalmente as meninas usam documentos falsos, muitas vezes
arranjados pelos próprios agenciadores.
Regina Stela Braga afirma que “as pequenas prostitutas vendem amendoim, balas,
bilhetes de loteria e em nada diferem das meninas que vivem apenas da venda desses
produtos”46. No Rio de Janeiro, segundo a jornalista, é possível observar diferenças nas
meninas, de acordo com o local de prostituição:

As meninas da Zona Sul vestem-se com mais cuidado que suas


colegas do centro cobram alto e quase sempre em dólar. Algumas
moram em apartamento conjugado, dividindo o aluguel entre três e
quatro. No centro, o preço é baixo e há meninas de 10 anos de
idade que se entregam por um prato de comida.47

Apesar de iniciativas das entidades civis em combater a exploração sexual de


crianças e adolescentes, é notório que falta vontade política no sentido de tratar, com a
seriedade devida, o problema da exploração sexual infantil. Não basta apenas acusar a
família, responsabilizando-a pelas crianças nas ruas, é preciso dar condições para que
essas pessoas cuidem de seus filhos. É necessário investimento, não só de verba, mas de
interesse em realmente coibir a exploração de crianças e adolescentes. É um comércio
que movimenta muito dinheiro, além da rigidez das leis a certeza da punição tem que se
44
In O Estado de São Paulo - 07/11/95. p. C5.
45
Jornal O Globo.
46
BRAGA, Regina Stela. O triste caminho que ameaça as meninas da rua. O Globo, Rio de Janeiro, 14 de
Junho, 1987. Jornal da Família, p.1
47
Idem.
50

fazer presente, caso contrário nossas crianças e adolescentes continuarão a mercê desses
exploradores.

2.4.1 – Análises Comparativas – Prostituição em Fortaleza

Durante a elaboração deste estudo, cinco pessoas, que trabalham diretamente com
a menina prostituída em Fortaleza (duas educadoras da Pastoral do Menor, duas
educadoras do Movimento Terre des Hommes e uma médica) foram entrevistadas, com
vistas a colher dados relativos ao desenvolvimento do fenômeno da prostituição infantil
em Fortaleza. Analisando comparativamente a caracterização da prostituição
anteriormente explicitada e o material colhido através das entrevistas, observamos
alguns pontos de convergência e divergência, que passamos a discorrer. Ressaltamos
que os dados obtidos em Fortaleza referem-se à situação da menina prostituída nas ruas,
em função da dificuldade de acesso às meninas confinadas em bordéis, ou a dados
fidedignos sobre elas. O contexto miserável em que vivem essas crianças e suas
famílias, o que lhes impõem a inserção precoce no mercado de trabalho como única
forma de sobrevivência, desponta como principal motivo, no Ceará, para a menina na
rua se tornar menina prostituída, ou prostituta. Assim a menina de rua (em nosso
entender, são meninas na rua), em geral, percorre inicialmente o caminho da
mendicância, para em seguida ocupar-se com pequenas vendas nos sinais e nas praças,
onde finalmente se inicia na “vida”. Ressalte-se o fato de a prostituição infantil se
deslocar no Centro da cidade para a beira-mar, zona de intenso fluxo turístico,
caracterizada pela existência de grande número de bares, restaurantes e bordéis. O
deslocamento, longe de ser apenas físico-espacial diz respeito ao grau de envolvimento
da menina com a prostituição, captados a partir do uso discriminado de atributos como
beleza e poder de sedução. Não é por acaso que a idade das meninas do centro da cidade
varia entre 11 e 14 anos, enquanto que na beira-mar encontram-se meninas de até 06
anos de idade. O tráfico de crianças, embora não tenha sido citado pelas entrevistadas,
constitui notadamente, uma forma de ingresso da menina na prostituição, e Fortaleza
vem se destacando já há algum tempo, como porta de embarque de crianças para o
exterior. Uma vez compondo o universo da prostituição, a saúde precária da menina
prostituída em Fortaleza é uma conseqüência natural da instabilidade da sua vida na rua,
no espaço público onde ao uso abusivo de tóxicos e de álcool soma-se a cuidados
corporais efêmeros. Há um acúmulo de doenças mal tratadas e mal curadas, ao uso
constante de automedicação, a gestação sucessivas (seguidas de abortos clandestinos), à
ineficácia da assistência pública, ao contato com muitos parceiros, à precariedade
higiênica dos locais que freqüentam, à ignorância, e tantos outros fatores.
No tocante às drogas destacamos o fato de ser comum entre meninas e meninos
nas ruas, o uso de misturas de drogas (cola, remédios, thinner e maconha), ao invés de
drogas isoladas. As doenças mais comuns às meninas envolvidas com a prostituição
infanto-juvenil em Fortaleza (segundo a médica entrevistada) são as de pele, as
sexualmente transmissíveis, em especial a gonorréia e a sífilis, e as infecções
respiratórias, como a pneumonia e a bronquite, mormente entre aquelas que dormem
nas ruas. Ainda de acordo com a médica, há grandes possibilidades de existência de
AIDS entre as meninas, apesar de não ter sido constatado nenhum caso À época,
entretanto podemos afirmar que, fatalmente essas meninas compõem um grupo de risco
muito grande e, a conseqüência maior é o vírus HIV positivo. O que mais impressionou
na pesquisa, foi o fato de as meninas mais jovens (em torno de 13 anos), demonstrarem
vontade de engravidar. Essa vontade, com o passar dos anos, irá diminuir, até
desaparecer por volta dos 16 anos. Dentre as que levam a gravidez até o fim (por
51

vontade ou porque os métodos abortivos não surtiram efeitos), os filhos nascem


geralmente, mortos ou morrem nos dois primeiros meses de vida, em função da total
instabilidade de suas vidas nas ruas. Diferentemente da análise de Junqueira48 as
“prostitutas” infantis de Fortaleza são negligentes com seus filhos, que são levados para
a rua, onde geralmente morrem. A relação das meninas entre si, em Fortaleza, de acordo
com as investigações anteriores de Beauvoir49 e Junqueira50, é marcadamente ambígua:
amizade/competição. Por um lado, algumas preferem trabalhar em grupo, por medida de
segurança, e também para melhor atender à demanda de clientes, por outro, as brigas
entre elas são freqüentes, na disputa por clientes, gigolôs (de quem são, por vezes,
amantes apaixonadas), por drogas e por vingança. Há quem se refere ao senso de
vingança das meninas, observamos um desacordo entre o universo pesquisado por
Junqueira51 pois que, entre as meninas envolvidas com a prostituição em Fortaleza, o
senso de vingança está presente, sendo uma das principais causa das agressões físicas
entre elas. No tocante ao relacionamento entre meninas e meninos nas ruas - de acordo
com as entrevistas feitas em Fortaleza -, situa-se entre a amizade chegando em alguns
casos à relações amorosas e a marginalização em função das atividades desenvolvidas
na rua pela menina. No último caso, observamos a reprodução, entre meninos e meninas
marginalizados, da atitude de cominação machista inerente à sociedade de uma maneira
geral. Interessante ressaltar que determinadas ruas na cidade de Fortaleza eram espaços
quase exclusivo dos meninos. A partir de 1987, a quantidade de meninas na rua
aumentou, chegando a constituírem 10% (SAS/UNICEF/NUCE-PEC-UFC, 1988). O
universo masculino com o qual a menina se relaciona sexualmente na rua compõe-se
basicamente dos meninos, dos cafetões e dos clientes.
De acordo com o registro de Gaspar52, há em Fortaleza o cliente habitual e o
circunstancial, e a preferência por um, ou por outro, refere-se ao tipo de atividade sexual
exigida, e ao cumprimento do acordo preestabelecido com a menina. São preferidos
aqueles clientes que substituem o coito pelas fantasias sexuais e, são preteridos aqueles
que se utilizam de violência no ato sexual, ou que se recusam a pagar o acordado.
Portanto, a fantasia do cliente, diferente da análise de Beauvoir53 é bem aceita pelas
meninas de Fortaleza. É óbvio que, nem todas as meninas têm condições de manter uma
relação sexual completa, inclusive por falta de maturidade genital. Assim, a fantasia do
cliente, além de preferencial, pode ser ainda para a menina condição única de acesso à
prostituição, e consequentemente ao dinheiro.
Segundo uma das entrevistadas, as primeiras experiências sexuais são apontadas
pelas meninas como violentas. De igual forma, os espancamentos por parte dos clientes
fazem com que as meninas andem armadas e em grupo, para se protegerem de eventuais
incidentes. Para se chegar a um perfil claro da menina envolvida com a prostituição em
Fortaleza, é necessário acrescentar aos fatores já expostos, a questão da educação e da
família da menina, pois são intimamente relacionados com as perspectivas de saída da
menina da prostituição. A situação das meninas nos bordéis não pode continuar
confinada ao silêncio. Urge que se encontrem vias de acesso a essas crianças e
adolescentes, relegadas a um destino tão cruel quanto o abandono sócio-político-
institucional. Registramos que esta sistematização das condições de vida da menina
envolvida com a prostituição, deve retornar àqueles que, com seu trabalho cotidiano e

48
JUNQUEIRA, Lia. 1986. Abandonados. São Paulo. Ed. Ícone LTDA. 1986.
49
Op. Cit.
50
Op. Cit.
51
Idem.
52
Op. Cit.
53
Op. Cit.
52

pouco reconhecido, nos demonstraram que, a parte todas as dificuldades, algo deve e
pode ser feito.
Tivemos a oportunidade de participar do “Seminário Internacional sobre Políticas
e Programas para a Família” (16 e 17 de Outubro de 1997), em Fortaleza, onde foram
expostos trabalhos de quase toda América Latina e do Caribe, no combate à violência
intra-familiar como um todo. Merece destaque estudo realizado sobre a prostituição
infantil, naquela cidade. Embora os projetos apresentados pela Secretaria do Bem-Estar
Social tivessem imbuídos de boas intenções tais como: monitoramento 24 h/dia nas ruas
e praias de Fortaleza constatamos in loco que as meninas continuam se prostituindo sem
a intervenção dos órgãos participantes do referido Seminário. E, ao dialogar com várias
meninas, o que elas dizem é que: “A praia é tão boa (principalmente por causa dos
‘gringos´, (...) não dá nem tempo de guardar o dinheiro de uma relação sexual para outra
(...), nós colocamos nos seios”.

2.4.1.1 – A Prostituição no Estado do Espírito Santo

No Estado do Espírito Santo, ao contrário de outros Estados brasileiros, a


existência da prostituição infanto-juvenil (desde a década de 90), circulou no jornal “A
GAZETA” que, há tempos aparecem denúncias dessa natureza. Nos últimos dez anos,
várias reportagens foram feitas com o intuito de trazer à tona o abuso que essas crianças
vêm sofrendo.
Em 1994, o então presidente do Instituto do Bem-Estar do Menor (IESBEM)
revelou que “Vitória, infelizmente, está entre as primeiras capitais do país no índice de
prostituição infanto-juvenil”54. À época calculava-se que existiam aproximadamente 100
casas de massagem funcionando na Grande Vitória (Vitória, Cariacica, Viana, vila
Velha e Serra) que se utilizavam de “menores” na prostituição.
Em 1995, Nilcilene Verbeno revelou que existiam, no Estado, cerca de 6.000
crianças e adolescentes envolvidas com a prostituição, sendo que aproximadamente
1.200 estavam na região da Grande Vitória. Falar das causas da prostituição infanto-
juvenil no Espírito Santo é repetir a história de miséria, abandono, exploração e
violência, tal qual se encontra na história de milhares de crianças brasileiras. Não é
diferente do que foi descrito até então. Ao invés de repetir as conhecidas causas da
prostituição infanto-juvenil, prefere-se mostrar o descaso e a falta de estrutura dos
órgãos que deveriam se responsabilizar pelas crianças e adolescentes do Estado.
Em 21 de agosto de 199355, foi criada a Delegacia de Proteção à Criança e ao
Adolescente (DPCA), ocorrida dois dias antes, com o que parecia ser o objetivo de
combater a exploração infantil de qualquer espécie. Segundo a reportagem, “o Governo
deu todos os recursos para um funcionamento perfeito da Delegacia, que será
informatizada com a ajuda do prefeito de Vitória”56. A intenção era atuar, juntamente,
com o Juizado da Infância e Juventude para reduzir o índice de violência cometida
contra crianças e adolescentes. Segundo Claudia Feliz:

A estrutura dos órgãos ditos competentes na Grande Vitória para


combate à prostituição infantil e juvenil é quase nenhuma. A
começar pela Delegacia de Proteção à criança e ao Adolescente
(DPCA)... Não é segredo que na DPCA equipamentos como

54

VERBENO, Nilcilene. Prostituição de adolescentes aumenta 100% no Espírito Ssnto. A Gazeta, Vitória,
11 jun. 1995.p.34.
55
Jornal A Gazeta: Delegada reprimirá prostituição. Vitória, 21 ago/ 1993.p. 29
56
Idem.
53

máquinas de datilografia e até rádios-transreceptores foram


adquiridos com recursos próprios da delegada. O carro da
delegacia, um Fiat Prêmio já velho, está freqüentemente com
problemas. 57

A fim de colher dados estatísticos atuais acerca da prostituição infanto-juvenil,


detectamos através de pesquisas que, o Instituto da Criança e do Adolescente do
Espírito Santo, é o órgão administrativo para a execução da Política Estadual de
Promoção e Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes.
O “SOS Criança” divulga que a maioria dos casos atendidos referem-se à maus-
tratos, violência sexual, agressão e negligência. No caso de violência sexual, a criança e
o/a adolescente são encaminhados para um membro da família ou, na falta deste, para
um local especializado. De acordo com relatórios apresentados, a prostituição infanto-
juvenil em Vitória é gritante. As crianças e adolescentes, em geral, vêm de outros
Estados, como Bahia e Minas Gerais. Isto se deve ao fato de Vitória ser uma
capital litorânea - ponto de turismo-, o que levaria à prostituição. Assim como sua
localização atrai crianças e adolescente do interior do Estado do Espírito Santo, em
busca de uma vida mais “fácil” e com maior lucratividade e trabalho e que acabam por
cair no mundo da prostituição.

2.4.1.2 – A Prostituição no Estado de Mato Grosso

A prostituição e a exploração infanto-juvenil são realidades disseminadas em todo


o Estado. Entre os fatores que levam à alta incidência da prostituição estão além da
miséria, das tradições socioculturais do brasileiro e das pressões da mídia. A cultura
coronelista se mantém presente na valorização de práticas sexuais como o incesto
familiar, a preferência de sexo com meninas, e a separação entre a mulher do “lar” e as
“outras”. Tendo este pano de fundo, é grande o número de usuários que fortalece o
surgimento e a manutenção das redes de exploração sexual de meninas. Há praticamente
uma estrada de mão única entre a vida da menina na família, na escola e na vizinhança e
os diferentes elos nas redes de exploração. Em geral, as meninas dos segmentos mais
carentes têm uma iniciação sexual violenta na família. As instituições que poderiam
reverter essa situação se mostram ausentes na prevenção e orientação sexual destas
crianças (família, escola, posto de saúde, polícia). Ao tomar conhecimento da iniciação
sexual das meninas, desenvolvem-se medidas e assumem posturas que as marginalizam
do convívio social e a empurram para a rede de exploração.
Os fatores que impulsionam – em nosso Estado - o quadro da prostituição
assumem contornos definidos, tais como:
a) Rede que emerge a partir das atividades do garimpo e que é alimentada pelo tráfico
de escravas brancas. Este tipo de rede é o maior responsável pelo cárcere privado de
meninas e pelo aliciamento de cidades do interior e de outros Estados
(preferencialmente Nordeste), e, se localiza no norte de Mato Grosso, tendo como
casos mais graves Peixoto de Azevedo e Alta Floresta;
b) Rede que se instaura para viabilizar a prostituição nas ruas, bordéis, agências de
acompanhamento e que aparecem nas cidades maiores do estado: Baixada Cuiabana,
Rondonópolis, Barra do Garças e Cáceres;

57
FELIZ, Claudia. Crianças invadem mercado de prostituição. A Gazeta. Vitória, 24 nov.1996.p.28.
54

c) Rede de prostituição infantil vinculada ao narcotráfico, que se localiza nas regiões de


fronteira: Cáceres, Pontes e Lacerda, Jauru (fronteira Oeste);
d) Rede alimentada pelos usuários (caminhoneiros, motorista de ônibus, policiais) dos
serviços existentes ao longo das principais estradas de escoamento agrícola e de
abastecimento da região Centro-Oeste;
e) Rede de prostituição infantil vinculada ao turismo em Mato Grosso, fazendo-se
presente, principalmente, nas cidades do Pantanal (Santo Antônio, Cáceres, Poconé,
Mimoso, Rosário Oeste e Barão de Melgaço), e cidades de turismo ecológico (Chapada
dos Guimarães e Barra do Garças).
Uma pesquisa feita pelo Governo do Estado de Mato Grosso (através da
PROSOL-1995), objetivando detectar as condições de sobrevivência das crianças até 06
anos de idade, revelou que, em primeiro lugar, no intervalo definido entre 0,50 a 1,00
(com condições menos favoráveis de sobrevivência) encontravam-se cerca de 42,0%
dos municípios do Estado (40). Sua população infantil atingia quase 1/3 (um terço) do
total da faixa etária (101.8 mil). Os municípios de Barão de Melgaço deteve o índice de
0,81(o mais crítico deste grupo e de todo o Estado), enquanto que Apiacás obtinha 0,30
e estava no limiar deste intervalo. Mais de 40.0% dos municípios (39) encontravam-se
no agrupamento de 0.30 a 0,49 (de condição intermediária, com um contingente de
163.7 mil crianças, 44,8%). Como pior classificado deste grupo figurou o município de
Figueirópolis D’Oeste (0,49), enquanto Apiacás deteve a melhor colocação (0,30). Em
terceiro lugar, no intervalo compreendido entre 0,00 a 0,29 (de condições mais
favoráveis de sobrevivência) ficaram 16 municípios, com um contingente de população
infantil um pouco superior a ¼ (um quarto) do total dessa faixa etária (91,9 mil
crianças). Tapurá apareceu com um índice de 0.28, enquanto que a melhor condição
cabia a Campo Novo do Parecis e a Dom Aquino (0.08). Cuiabá, capital do Estado se
situou com um índice de 0,24, algo distante do melhor colocado.
Parece evidente, pois, que o Estado de Mato Grosso, tendo grande parcela de seus
municípios localizados nos dois primeiro grupos, passa por um momento de transição,
já que quase metade de suas crianças ainda se encontra no intervalo de condições
médias de sobrevivência. Nos anos de 2006 e 2007, a Polícia Rodoviária Federal (PRF),
juntamente com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), realizou mapeamento
às margens das rodovias federais do nosso Estado e concluiu que chega a 91 o número
de pontos vulneráveis de prostituição infanto-juvenil. Até maio do ano passado, 64
pontos haviam sido elencados. A quantidade de pontos localizados garantiu ao Estado,
na época, a 11º posição entre as demais unidades da federação.
O inspetor Átila Passos Calonga - Núcleo de Capacitação da PRF e gestor de
ações educativas responsável pela pesquisa em Mato Grosso -, cita que a localização de
novos pontos, não necessariamente, significa que eles tenham surgido após a pesquisa.
Foram vislumbrados após implantação de nova metodologia de trabalho, afirma o
inspetor. Calonga estima ainda que o número pode ser ainda maior já que o
levantamento continua sendo realizado, principalmente no trecho entre Cuiabá e
Rondonópolis. A pesquisa aponta que em alguns locais (terminais rodoviários), foram
encontrados mais de um ponto vulnerável. Para tanto, cita o caso de um posto situado na
saída de Cuiabá (às margens da BR-364), onde foram encontrados três pontos distintos
e, antes da mudança de metodologia, apenas um era contabilizado. Afirma o inspetor
que a pesquisa ainda está incompleta no trecho da BR-364 que liga Cuiabá à
Rondonópolis. Os pontos vulneráveis mapeados abrangem estacionamentos de
caminhões, balneários, lojas, paradas de ônibus, lanchonetes, hotéis, borracharias,
clubes, postos de caixa eletrônico, povoados, vilarejos, trevos e rotatórias nas estradas,
festas freqüentes, praças, casas particulares, viadutos ou pontos espalhados ao longo das
55

estradas. Na referida pesquisa foram identificados 1.918 pontos considerados


vulneráveis à ocorrência de casos de abusos sexuais contra crianças e adolescente ao
longo dos mais de 60 mil quilômetros de rodovias federais em todo país. Em 2006
foram mapeados 1.222 pontos, demonstrando um aumento de mais de 55% em todo o
país. No nosso Estado, no ano de 2006 foram catalogados 52 pontos. Isso representa um
aumento de 12% se comparando com as informações obtidas em 2007. A identificação
desses locais foi possível graças ao mapeamento dos corredores viários do país. O
relatório é elaborado pela Divisão de Combate ao Crime, com apoio da Coordenação de
Inteligência e de 151 Delegacias da PRF. A pesquisa servirá de parâmetro na elaboração
de estratégias para combater a exploração sexual infanto-juvenil. Só em Mato Grosso
cerca de 4,8 mil km de estradas federais por onde circulam o equivalente a 10 mil
veículos (a grande maioria carretas e caminhões) diariamente, o que termina por
fomentar a prostituição, necessita de uma intensa mudança cultural, diz Calonga.
De acordo com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), existem 930
municípios vulneráveis à exploração sexual. A prostituição infantil não está ligada
somente ás cidades turísticas, mas também ao interior, especialmente nas fronteiras com
outros países. E, de acordo com o promotor da Vara da Infância e Juventude – Dr. José
Antônio Borges-, este, avalia que para se combater efetivamente a questão da
prostituição infanto-juvenil são necessários investimentos pesados na criação de Varas e
Promotorias Especializadas e aplicação de punições rigorosas. Hoje, os crimes sexuais
contra crianças e adolescentes são distribuídos nas cinco varas criminais de Cuiabá. Ele
avalia ainda que o trabalho de investigação deve ser mais profundo pela Polícia
Judiciária Civil. Segundo o promotor:

Em eventos como rodeios e festas agropecuárias o que existe é


uma verdadeira festa de prostituição. Sabe-se que centenas de
mulheres são contratadas, e dentre elas, estão menores. Sofre-se de
uma acomodação olfativa sobre a questão. Quem mora com o lixo
ou próximo de um curtume termina se acostumando ao odor, deixa
de incomodar, mas está ali, presente, todos os dias. A elite se
incomoda com a violência, mas esquece do que essas crianças
sofrem.58

O membro do parquet matogrossense critica ainda as campanhas que não trazem


no seu âmago perspectivas de mudanças, ou seja, de uma vida digna para crianças e
adolescentes que vivem submersos num mundo de qualidade tão ruim. Essas campanhas
estão pautadas em leis cujas funções seriam moralizar e reprimir atuações exploradoras
de indivíduos, entretanto, não se vê ações efetivas para sobrevivência desses jovens, há
um total descaso com sua realidade social.
De igual forma o então coordenador dos Conselhos Tutelares de Cuiabá, professor
Edinaldo Gomes de Souza, considera nulas as medidas adotadas, já que o investimento
é pequeno na criação de programas, que de fato, atendem as necessidades dessas jovens.
Ele traça um perfil das meninas que foram localizadas e encaminhadas para atendimento
pelos Conselhos, são jovens com idade entre 12 e 16 anos, semi-alfabetizadas e de
famílias extremamente pobres. Assegura o Coordenador “que prostituição acaba
entrando na vida delas como forma de ter acesso a bens materiais e comida, muitas
vezes”. As garotas servem também a outro propósito como a venda de entorpecentes e
drogas lícitas. A proibição do comércio de bebidas é tida como positiva já que vai

58
Jornal A Gazeta. 02/03/2008.
56

reduzir a oportunidade de encontros. “O uso do álcool, muitas vezes, fomenta esses


encontros sexuais”, diz o Coordenador.59
Em 2008, os seis Conselhos Tutelares de Cuiabá (Pedra 90, CPA, Santa Isabel,
Coxipó, Centro e Planalto) registraram 87 casos de violência sexual contra crianças e
adolescentes em Cuiabá. Somente a Delegacia de Defesa dos Direitos das Crianças e
dos Adolescentes (DEDDICA) registrou 49 boletins de ocorrências envolvendo crimes
sexuais como estupros, atos obscenos, sedução, atentados violento ao pudor, entre
outros.60
O número de ligações para o Disque-Denúncia Nacional de Combate ao Abuso e
à Exploração Sexual contra crianças e adolescentes no ano de 2007 chegou à 24.924.

2.4.1.3 – A Prostituição em Cuiabá

Conforme dito alhures, pesquisas mostram que a prostituição infantil está presente
na maioria dos municípios do Estado. Crianças e adolescentes de Mato Grosso estão se
prostituindo, cujo diagnóstico faz parte de um levantamento divulgado (12/12/2008),
pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (MJ). De igual forma, confirmaram-se,
também, casos em todas as capitais brasileiras e em 910 cidades do interior do país.
Ressaltamos que em 2004, o governo federal, através do Disque-Denúncia
recebeu 80 casos referentes à Mato Grosso, colocando-o em 19º Estado em quantidade
de relatos. A exploração sexual se faz presente em municípios da região norte como
Juára, Peixoto de Azevedo, São Félix do Araguaia e Sorriso e também em
grandes centros como Várzea Grande, Rondonópolis e a capital, de acordo com dados
estatísticos apresentados acima. Segundo os pesquisadores, o número pode ser ainda
maior, já que o estudo compilou dados de quatro relatórios:
a) Uma pesquisa sobre rotas de exploração sexual (PESTRAF);
b) Um mapa da Polícia Rodoviária Federal (PRF) sobre pontos de prostituição nas
rodovias;
c) Ligações para o Disque-Denúncia sobre a CPI da Exploração Sexual Infantil,
concluída em julho de 2004.
Esse estudo teve a participação da Universidade de Brasília (UnB) e do Fundo das
Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Constatou-se durante a pesquisa que a
pobreza está diretamente ligada à prostituição infantil. Há uma relação entre a situação
de pobreza e exclusão social e a incidência de ação das redes criminosas na cooptação
dessas crianças, afirma a coordenadora do estudo, Elizabeth Leitão (SDH).
Nesse sentido, a coordenação das Casas da Retaguarda depreende outro traço
comum nesses casos, ou seja, a falta de estrutura familiar. Na maioria dos casos, o pai
além de ser pobre financeiramente, é alcoólatra, há irmão preso por homicídio, mãe
conivente - tudo isso faz parte da vida de várias das adolescentes que encontram refúgio
nas Casas. Há relatos de casos como da adolescente “Aninha”61 (16 anos), que após ter
sido corrigida pela pai porque desobedecia suas ordens para não sair à noite, foi
abrigada na Casa da Retaguarda. Meses depois se evadiu, vindo a ser estuprada logo em
seguida, fato que culminou com uma cirurgia gravíssima. E, o pior, o pai não a quer
receber de volta à casa, bem como sua mãe (que é separada do pai). Noutro caso,
“Maria”62(17 anos), grávida de 08 (oito) meses foi para a Casa de Retaguarda logo após
ter sido espancada em um bar onde se prostituía. Relata a adolescente que começou a
59
Idem.
60
Fontes: Conselho Tutelar e DEDDICA.
61
Nome fictício.
62
Idem.
57

fazer programas aos 11 (onze) anos de idade. Em seguida teve que deixar a escola,
segundo ela “às vezes achava bom, outras não, todos brigavam muito comigo”. Maria
diz que entrava em boates, consumia bebidas alcoólicas e freqüentava motéis. E, como
não podia deixar de acontecer, traficava pasta base e cocaína. Maria termina seu relato
dizendo: “quero trabalhar e estudar”.
Geralmente, o perfil das adolescentes que ficam na Casa de Retaguarda apresenta
história de violência sexual na família. Na maioria dos casos são violentadas pelo pai,
padrasto, irmão, tios, amigos, etc., desde a mais tenra infância. E, como somos
sabedores, essas adolescentes têm que fazer uso de psicotrópicos a fim de atenuar as
seqüelas deixadas pela violência praticada.
É muito comum se deparar com “pontos” de prostituição infanto-juvenil nos
bairros da grande Cuiabá (CPA, 1º Março, Morada do Ouro, etc.). Existem casos na
grande Cuiabá, em que cafetinas estão levando meninas de 08/10 anos para colocar
silicone nos seios e nas nádegas, a fim de ficarem atraentes para seus clientes.

2.4.2 – Do Turismo Sexual Infantil

A prostituição infantil e o turismo sexual, duas práticas muito comuns no Sudeste


Asiático, cresceram na América Latina e transformaram-se em um problema de grandes
proporções. Especialistas concordam que o aumento do abuso sexual a menores deve-se
à extrema pobreza e à mudança das estruturas familiares, com destaque para o aumento
do número de mulheres solteiras com filhos.
O Brasil é um dos poucos países do mundo com uma espécie de vocação natural
para o turismo sexual, detentor de um dos maiores e mais promissores potenciais
turísticos do planeta. Entretanto, transforma esse mesmo paraíso em alvo preferido de
uma das práticas mais violentas contra a dignidade humana: o turismo sexual. Um tipo
de turismo nocivo em que as principais vítimas são crianças e adolescentes de ambos os
sexos. O país tenta ser vigilante para que nossas crianças e adolescentes sejam vigiadas,
mas, falta vontade política de dar continuidade ao que já foi implantado. Como
estratégia de combate a esse tipo de ação que denigre a imagem de todos os países
envolvidos, (tanto os emissores como os que recebem esse tipo de turista), o Brasil fez
uma proposta à Organização Mundial de Turismo, convocando todos os países
membros da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, a instituir
normas, estratégias e legislação específica para o combate à Exploração e ao Abuso
Sexual de Crianças e Adolescentes. Quanto à ocorrência desses problemas
especificamente no Brasil, a EMBRATUR adotou duas frentes de combate: mercados
emissores e mercado doméstico. Uma das principais ações da EMBRATUR nessa
campanha é a de mobilizar todos os segmentos envolvidos no mercado de turismo,
como: hotéis, agências de viagens, bares e transportadoras, cujo objetivo é evitar o
abuso sexual de crianças. E, em havendo comprovação de que uma dessas empresas se
envolveu com alguma forma ou prática de turismo sexual, a Embratur tomaria as
providências cabíveis.
O turismo sexual é um grande problema existente no Brasil, principalmente nas
cidades litorâneas. Diversas agências de turismo espalhadas pelo mundo vendem seu
“pacote” de viagem com a criança já incluída. Nas cidades da região Nordeste, onde a
exploração de meninas para atender ao turismo sexual é mais intensa, existem
verdadeiras “máfias” envolvendo taxistas, garçons e gerentes de grandes hotéis.
Normalmente os taxistas oferecem as meninas aos turistas e já os levam para um local
onde, com certeza, ele (o turista) poderá manter relações sexuais com essa menina. Um
58

detalhe que serve ainda mais para agravar esta situação, é que todas as meninas
gostariam de ter uma vida diferente (casar, ter filhos, uma profissão, um emprego). Não
gostam da vida que são obrigadas a levar, os depoimentos dessas meninas – “garotas de
programas”, são imbuídos de tristeza, falta de esperança e descrença total, senão
vejamos:

Eu acho que isso não é uma vida digna, nem par mim, nem pra
ninguém, entendeu? Eu acho que uma vida assim, eu acho que
ninguém quer (...) tem muita gente que fala: ‘pôxa, uma vida assim
é fácil’, mas não é fácil, não63. Outra menina: - Eu não gosto dessa
vida na rua. Eu continuo porque não tenho nada para fazer. Não
tenho outra coisa pra fazer, entende? Eu não vou viver de vento,
né? (...) Eu queria ser professora64.

Gastou-se muito dinheiro, erroneamente, para promover o Brasil como o país de


mulheres bonitas. Esse erro de enfoque de publicidade e de marketing voltados,
principalmente, para o exterior criou a distorção do turismo sexual. Americanos e
europeus passaram a visitar o Brasil em busca de companhia e não mais pelo interesse
cultural e paisagístico de nossos pontos turísticos. O impacto negativo do turismo sexual
só tende a crescer e a afastar os verdadeiros turistas principalmente, a partir da
constatação do envolvimento de crianças. Com a edição da campanha nacional contra a
Prostituição Infanto-Juvenil, intitulada: “Cuidado, o Brasil está de Olho”, o país prova
que não tem nenhuma conivência oficial com esta prática. E na tentativa de varrer este
subproduto de seu território, tem feito acordos com as autoridades dos países emissores
de turistas; buscando também coibir as agências de turismo brasileiras que
participassem deste tipo de “pacote”.
O crescimento do turismo sexual no Brasil é tão grande que vem colocando nosso
país à frente de Bangcoc - Tailândia onde essa prática é tolerada. Essa máfia vem se
espalhando pelo país e já registram casos de hoteleiros do Nordeste que sofreram
boicote porque se recusaram a aceitar este tipo de prática turística. As medidas contra o
turismo sexual são fundamentais para preservar a imagem de o país consolidar um
marketing positivo, que aponte para as nossas potencialidades turísticas e para o vigor
de uma das dez maiores economias do planeta. Este tipo de subproduto turístico só
serve para minar as bases da indústria turística nacional porque tem um efeito moral
devastador, principalmente no MERCOSUL e nos Estados Unidos.
Poucos produtos dependem tanto de emoções positivas como o turismo, mas elas
precisam ser cultivadas pela publicidade e pelo marketing, com responsabilidade. Por
causa deste fator é tão importante o repúdio ao turismo sexual. Paralelamente, torna-se
importante consolidar o marketing externo do país, com verbas e divulgação
compatíveis com as grandezas do Brasil, motivando os estrangeiros a se transformar em
turistas em potencial. Temos alternativas para todos os gostos – pesca, praia,
ecoturismo, estâncias, parques temáticos, etc.
Em turismo, quando o problema existe, não se pode ignorar. Temos de assumir e
buscar soluções. Foi o que fizeram as autoridades de Miami, quando os turistas em
carros alugados viraram alvo de assaltantes. Ao negar a prática de turismo sexual, o
Brasil está afirmando que concebe a indústria turística como atividade significativa
dentro da economia nacional.
Aliado ao Turismo como fonte de exploração de crianças e adolescentes, estão as
revistas e filmes pornográficos, encontrados em larga escala no mercado. Crianças são
63
Rede Globo. Globo Repórter. Prostituição de Crianças e Adolescentes. Rio de Janeiro. 1993.
64
Idem.
59

fotografadas e filmadas praticando sexo oral e tendo relações sexuais com adultos. É um
comércio bastante lucrativo.

Dos anos 60 para cá se vendem na América e na Europa


fotografias e filmes onde crianças de 06 (seis) anos e até menores
fazendo sexo oral entre elas e adultos. A revista Little girl
(meninas) oferece fotografias de crianças de 10 (dez) e 12 (doze)
anos em poses sexuais com homens adultos. [...] e mais, das
estatísticas da polícia e da lista de assinantes de material
pornográfico, se calcula que nos EUA (e, 1982) 1.200.000
menores de 16 (dezesseis) anos estejam envolvidos pela
comercialização sexual.65

Com a Internet, o problema se agrava ainda mais. É possível encontrar na rede,


fotos de crianças mantendo relações sexuais com adultos. Configura-se a tão decantada
Pedofilia, que há mais de 10 anos temos tomado conhecimento através da mídia, a
exemplo de uma reportagem66, em que um rapaz encontrou a imagem de uma menina de
aproximadamente 08 (oito) anos mantendo relações sexuais com um adulto. A imagem
foi gerada por um dos computadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz
– ESALQ – da Universidade de São Paulo, por um de seus funcionários. Das 574
imagens geradas pelos computadores da ESALQ, 72 são de crianças e 44 de
adolescentes. Outros órgãos públicos já foram acusados de colocarem fotos
pornográficas nos computadores do local de trabalho. São citados pela reportagem – um
funcionário da Secretaria de Saúde de São Paulo e da Universidade de Campinas que
mantinha “[ ...] um endereço na rede para discussão da pedofilia, que, na verdade, se
transformou em espaço para troca de dicas de locais da Internet em que se podia
encontrar fotos eróticas de crianças”67. O problema maior é que qualquer usuário da
rede pode ter acesso a esse tipo de foto, bastando apenas descobrir onde encontrá-las. A
Internet é hoje utilizada por milhares de pessoas, inclusive crianças que, a qualquer
momento podem encontrar este tipo de material pornográfico.
Infelizmente, no Brasil, a pedofilia – inobstante a CPMI que tramita no Congresso
– ainda é apenas uma patologia (de difícil cura, vez que o único remédio seria a
castração química); entretanto, segundo o Segundo o Senador Magno Malta: “Enquanto
a pedofilia não for tipificada como crime em nosso Código Penal, ela não será
encerrada”68. E, o mais curioso é que o Senador foi convidado por vários países para
proferir palestras acerca do assunto e, muitos desses países já estão legislando e punindo
os pedófilos.
Nesse sentido, a Bélgica saiu à frente vez que suas crianças estão sendo protegidas
da Pedofilia na Internet através do Kids card (cartão inteligente de identidade que
autentica a criança nos sites de chat), através do certificado digital armazenado no chip,
garantindo assim que estejam conversando com crianças da mesma faixa etária.
A lei aprovada para a implementação dessa tecnologia levou o país a oferecer aos
belgas um novo direito por meio do aplicativo da web “My File” (“Meu arquivo”). Esse
serviço permite que todos os cidadãos belgas saibam quem consultou seus dados
pessoais. Isso porque cada acesso por oficiais do governo aos dados no registro nacional
ficará gravado em um banco de dados no qual também ficará registrada a identidade, a
data e a localização do agente que leu ou usou os dados do cidadão. Além disso, um
65
LORENZI, Op. Cit., p.31.
66
BARROS, Andréa. Revista Veja. Rede proibida. São Paulo, n. 1531, 28 jan. 1998.
67
Idem.
68
Seminário: A Influência da Pedofilia nos casos de Abuso e Exploração de Crianças e Adolescentes.
Câmara dos Deputados – Brasília-DF. 06-11-2008. Representamos a OAB/MT no Evento.
60

formulário para questionamentos ou reclamações estará disponível e poderá ser enviado


para solicitar que a administração explique as razões dos acessos mencionados.
No Brasil, o Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de
Segurança registrou, no segundo trimestre de 2008, um aumento de 96% de tentativas
de fraudes virtuais em relação ao primeiro trimestre do mesmo ano e de 114%, em
comparação com o segundo trimestre de 2007. Esses números corroboram,
sobremaneira, na denúncia de um grande problema, ou seja, sem a presença física dos
usuários, como provar que eles são quem realmente afirmam ser? E como assegurar que
as informações trocadas na rede mundial de computadores não serão lidas,
interceptadas, modificadas e armazenadas por outra pessoa?
Destarte, o governo brasileiro tem investido na regulamentação do uso da internet
e prevê punições (Lei dos Crimes Digitais). De igual forma, as empresas de tecnologia
têm investido no aprimoramento de segurança e certificação digital.
E, como dito alhures com relação à Bélgica, a tecnologia mais usada é o smart
card, (adotado por bancos, operadoras de telefonia GSM e governos como método de
identificação e autenticação). Esta tecnologia é uma excelente resposta ao problema dos
crimes digitais, pois é um dispositivo seguro e à prova de fraude.
Um estudo, recentemente divulgado pela Frost & Sullivan, aponta que em 2012 o
mercado de smart cards será 43% maior do que o de 2006, contabilizando uma
importante receita de US$ 775.4 milhões na América Latina.

3.0 – Da Prevenção da Violência Sexual

A literatura enfatiza a importância (fundamental) da prevenção, embora reconheça


as dificuldades que as medidas preventivas apresentam. Países desenvolvidos,
principalmente os EUA, têm-se empenhado já há algumas décadas em estudar,
pesquisar, diagnosticar e denunciar esse problema. Contam, para essa tarefa, com
instituições que acompanham as famílias, vítimas e abusadores, tentando dessa forma,
romper o círculo vicioso vítima-abusador que tem caracterizado o fenômeno.
Esclarecemos que, em relação aos abusos sexuais praticados por estranhos, é
necessário desenvolver estratégias de detecção de fatores de risco, relacionados com o
ambiente (situações de aliciamento), bem como criar mecanismos de segurança do
Estado e da própria comunidade a fim de prevenir os abusos sexuais contra a criança e
o/a adolescente. Analisamos as relações existentes entre crianças e seus pais,
particularmente no que diz respeito aos abusos sexuais e violências físicas. Sugerimos
algumas medidas preventivas com relação à prática médico-hospitalar, atendimento em
Pronto-Socorro, tais como: reestruturação dos espaços físicos, sensibilização da
população para o problema, mobilização dos profissionais de saúde, preparação e
educação para a paternidade e sensibilização dos órgãos públicos para a necessidade de
encontrar soluções reais e eficientes tanto para esses pais como para essas crianças e,
principalmente, a criação e implementação de um Comitê de Defesa da Criança e do
Adolescente em todos os hospitais, pronto-socorros, postos de saúde, etc.
Nesse diapasão, Azevedo e Guerra (1985) apontam a necessidade de se combater
uma cultura sexofóbica, sexodiscriminativa e sexoviolenta e, obviamente, combater a
educação sexista que em geral meninos e meninas recebem cotidianamente. Nesse
sentido, afirmam que um programa bem sucedido de prevenção da violência sexual
doméstica contra crianças e adolescentes, deve assumir, no mínimo, três compromisso
fundamentais:
61

1º- Compromisso comum à visão positiva da sexualidade humana, admitindo a


legitimidade do prazer sexual e da diversidade de manifestações sexuais e, em
especial, da sexualidade humana infantil;
2º- Compromisso com uma cultura sexofílica que diga não à díade sexualidade +
violência, e sim, à díade sexualidade + afeto. Uma cultura que postule a bondade da
sexualidade (“sexo com amor”), e o respeito à vontade sexual do outro (como
exercício de limites);
3º-Compromisso com uma educação de gênero igualitária que condene a transformação
da diferença de sexo em diferença assimétrica de gênero e oportunidade de
dominação do sexo masculino sobre o feminino socialmente definido como “segundo
sexo”.
As pesquisas na área apontam a prevenção como a estratégia privilegiada para
combater com mais eficácia a (re) produção da violência doméstica. Citaremos três
níveis de prevenção conhecidos:
a- Primária: todas as estratégias dirigidas ao conjunto da população
num esforço para reduzir a incidência ou o índice de ocorrência de novos casos. As
estratégias adotadas incluem, de modo geral, programas de pré-natal que abordam a
temática e reforcem os vínculos pais-filhos, programa de treinamento para pais em
escola (especialmente para adolescentes), campanhas pelos meios de comunicação,
palestras, debates;
b- Secundária: envolve a identificação precoce da assim chamada
“população de risco”. As estratégias incluem visitação domiciliar para prover
cuidados médico-sociais aos pais do “grupo de risco”, os “telefones de crise”, aos
quais se recorre em momentos difíceis, obtendo ajuda e encaminhamento
especializado; recepção de auxílio material; programas de creches para as crianças do
“grupo de risco”;
c- Terciária: dirigidas aos indivíduos que já são agressores ou vítimas
no sentido de reduzir as conseqüências adversas do fenômeno ou de evitar que o
indivíduo sofra o processo de incapacidade permanente.
O jornal “Amparo ao Menor Carente” - MENCAR - veiculou em uma de sua
edição (março/abril de 1996)69, as principais propostas resultantes do Seminário Contra
a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Américas para equacionar essa
problemática, quais sejam:
• Prioridade com relação ao problema da exploração sexual na definição ou
redefinição de políticas de modo a garantir recursos financeiros e humanos
apropriados para sua implementação, identificando os grupos mais vulneráveis e
empreendendo ações concretas para atende suas necessidades;
• Formulação de estratégias de mobilização social para despertar e criar a consciência
pública de forma que todos os membros da sociedade assumam o compromisso de
eliminar a exploração sexual de crianças e adolescentes;
• Criação de uma rede de serviços integrados de caráter político e social, no âmbito da
exploração sexual, para a prevenção, proteção, defesa e atendimento às crianças e aos
adolescentes, ampla divulgação dos serviços e garantia plena de acesso da população
a esses serviços;
• Adoção e implementação por todos os países envolvidos, de leis protetoras e
punitivas, baseadas na Convenção dos Direitos da Criança, conforme o compromisso

69
Cumpre observar a data das referidas propostas: 1996.
62

assumido pelos Estados, devendo inclusive seguir o principio da extraterritorialidade


da lei, para eliminar a prática da exploração sexual;
• Adoção por parte dos meios de comunicação, de um compromisso ético no trato das
questões relacionadas com a criança e adolescente para garantir o respeito à sua
dignidade. Nesta perspectiva, a capacitação dos profissionais dos meios de
comunicação é determinante;
• Subscrição pelos governos dos países americanos, das estratégias internacionais e
regionais, definidas no Congresso Mundial contra a Exploração Sexual e Comercial
da Criança.
Seguindo essa linha de pensamento - para a compreensão da violência a que são
submetidas as crianças e adolescentes -, Azevedo e Guerra 70 propõem como ponto de
partida a criação de modelos explicativos, tais como: os modelos unidimensionais, os
modelos multidimensionais, e o modelo interativo multi-causal. Muito embora esses
modelos sejam propostos para a violência doméstica, podem ser utilizados, também,
para explicar o fenômeno da violência de uma forma mais ampla, englobando situações
de violência não-doméstica. Os modelos unidimensionais podem ser representados por
dois tipos: um cujo pressuposto é o da causalidade linear entre características
psicopatológicas e/ou sociais dos agressores e ocorrências de abusos de crianças e
adolescentes e o outro que se preocupa com a relação causal não tanto entre as
características do agressor e o abuso, mas sim entre as características da criança e do/a
adolescente vítima e o abuso. Esses dois tipos de explicações unidimensionais têm em
comum seu caráter determinista.

3.1 – Como Intervir e Prevenir a Exploração e a Violência Sexual

Para intervir e prevenir a exploração e a violência sexual contra crianças e


adolescentes é preciso que - além de se criar uma Rede de Atendimento
multiprofissional e interinstitucional – é imperioso que essa Rede seja devidamente
implementada e funcione atuando, principalmente nas seguintes áreas:

• Notificação: é fundamental para o conhecimento da ocorrência do fenômeno, pois


possibilita o planejamento da intervenção. Preferencialmente, deve ser centralizada
em um único local como, por exemplo, no Conselho Tutelar. Para tanto, os médicos
dos Pronto-Atendimentos, Pronto-Socorros e demais Postos devem atentar para a
Notificação, vez que a mesma será o ponto de partida para uma investigação da
violência praticada71;
• Diagnóstico: comprova a ocorrência, verifica a gravidade e o risco que oferece
tanto para a vítima quanto para as demais crianças e adolescentes da família. Define
70
Op. Cit. 121.
71
Os casos notificados apresentam grande importância, pois é por meio deles que a violência ganha
visibilidade, permitindo o dimensionamento epidemiológico do problema e a criação de políticas públicas
voltadas à sua prevenção. O artigo 66 do Decreto-Lei 3.688 de 1941 reconhece como contravenção penal,
a omissão do profissional de saúde que não comunicar crime do qual tenha tomado conhecimento por
meio do seu trabalho. O não cumprimento acarreta pena pecuniária. A interpretação desse artigo remete à
idéia de que o profissional de saúde deverá comunicar crime cometido contra qualquer pessoa,
independentemente de idade ou gênero da vítima. O Estatuto da Criança e Adolescente afasta uma
política meramente assistencialista, e cria uma estrutura que protege e defende esse grupo, haja vista o
preconizado no seu artigo 13 em que a notificação dos casos, mesmo que suspeitos de maus-tratos passou
a ser obrigatória. Nesse sentido, Braz & Cardoso (2000) afirmam: “(...) todos os profissionais
entrevistados, mesmo diante de fortes suspeitas de maus-tratos contra crianças, tendem a não denunciar o
caso”.
63

as medidas mais adequadas da intervenção nos planos social, jurídico, psicológico e


médico;
• Intervenção: deve ser planejada, tomando as medidas cabíveis mediante a gravidade
de cada caso.

Tipos de Intervenção:

• Jurídica: pode ser aplicada através dos Conselhos Tutelares, das Varas da Justiça da
Infância e Juventude ou das Varas da Justiça Criminal;
• Social: viabiliza a hospitalização da vítima (se necessário), a sua colocação em
família substituta ou em abrigos (medida provisória);
• Médica: aplicadas em decorrência de seqüelas orgânicas provenientes da violência.
Deve ser realizada em hospitais e, incluir a vítima em algum programa de proteção;
• Psicoterapêutica: aplicadas conforme o caso, observando a idade da vítima, tipo de
família, tipo de abuso, etc. Pode ser psicoterapia familiar, para vitimizados, bem
como para o agressor;
• Pesquisa: periodicamente deve se realizar pesquisas, tanto para construir estatísticas
confiáveis, como para planejar as intervenções;
• Prevenção: é a estratégia privilegiada para combater a (re) produção da violência
contra crianças e adolescentes.

Níveis de Prevenção:
• Primária: destina-se à toda população, pode ser realizada através de programas de
educação sexual, palestras, debates, campanhas educativa;
• Secundária: objetiva a identificação precoce das crianças em situação de risco
pessoal e social, impedindo a ocorrência e/ou repetição da violência. Atua em
situações já existentes;
• Terciária: visa o acompanhamento integral das vítimas e dos agressores.
3.1.2 – Da Educação Sexual Preventiva

Uma forma de tratar a violência sexual contra crianças e adolescentes e contribuir


para o rompimento do “pacto do silêncio” pode ser feita por meio de uma política de
educação sexual, com profissionais da área, altamente capacitados. Uma política que
chegue às escolas, aos centros comunitários. Afinal, este fenômeno acaba mexendo,
diretamente, com a sexualidade humana. A educação sexual trabalha a auto-estima, o
conhecimento do corpo – suas necessidade e potencialidades. E isso fortalece a pessoa,
ajudando-lhe a enfrentar o problema. Os programas de educação sexual proporcionam,
entre outras coisas, condições para que crianças, jovens e adultos tenham uma visão
mais clara do fenômeno. Assim podem se defender, evitar certas circunstâncias,
denunciar e dizer não à violência. Uma das formas de enfrentamento e combate à
exploração e violência sexual contra crianças e adolescentes é a articulação dos diversos
atores responsáveis pela promoção, defesa e garantia dos direitos humanos por meio de
FORUNS de Defesa. Os Fóruns têm por objetivo conscientizar a sociedade sobre a
realidade da população infanto-juvenil, aglutinando vários setores para desencadear um
processo educativo de combate à violência, bem como fomentando a elaboração de
políticas públicas efetivas para essa população.
Suas estratégias seguem três eixos:
64

• Conscientizador – para que possibilite à sociedade refletir sobre as causas e


conseqüências da violência na vida da criança e do adolescente;
• Educador – para que provoque mudanças de atitudes (individual e institucional);
• Repressor – para que identifique, denuncie e articule a punição dos agressores não
somente nos casos de exploração e violência sexual, mas, em todos os casos de
violação de direitos da criança e do adolescente.
As ações dos Fóruns não têm o escopo de substituir serviços já existentes. Mas buscam
a potencialização dos mesmos, bem como a posição de diretrizes para uma política de
atendimento aos direitos das crianças e dos adolescentes.

3.2 – Das Conseqüências

As jovens nos países em desenvolvimento são três vezes marginalizadas –


primeiro por ser mulher, segundo porque fazem parte de uma família de baixa renda, e a
terceira vez por ser menor de idade. Basicamente as dificuldades que essas mulheres
enfrentam são prelúdios de suas vidas como adultas. Em relação à sua condição de
saúde, as contrariedades que começam desde o seu nascimento têm conseqüências a
longo prazo. A vida dessas jovens tem muitos riscos: gravidez indesejada e/ou de alto
risco, experiências sexuais precoces e abuso sexual expostas às doenças sexualmente
transmissíveis como sífilis, gonorréia, AIDS, problemas de doença mental, incluindo
vício em drogas e má nutrição.
No mundo, por ano, 15 milhões de adolescentes entre 15 e 19 anos dão à luz, 80%
destas, em países em desenvolvimento. Na América Latina, 50% das mulheres se
tornam mães antes dos 20 anos. Esse tipo de gravidez precoce é acompanhada, muitas
vezes, pela alta taxa de mortalidade materna, mortalidade infantil e aborto clandestino e
arriscado. Uma das características mais comuns entre as mulheres jovens de baixa renda
é a gravidez precoce não desejada. Importante atentar para esse tipo de gravidez, não
somente porque são numerosas, mas porque mostram que desde pequenas elas não têm
controle sobre seus próprios corpos e suas vidas. Outro fator maior que contribui para a
alta taxa de mortalidade materno-infantil entre mães adolescentes nos países em
desenvolvimento é o aborto perigoso e induzido. É calculada a existência de 10 a 20
milhões de abortos clandestinos de mulheres de todas as idades nos países em
desenvolvimento. Considerando que de 10% a 20% das mulheres que dão à luz são
adolescentes, é provável que seja proporcional ao número das que abortam. Baseado
nesses números, os abortos ocorridos entre adolescentes nos países em desenvolvimento
está entre 1 milhão a 4,4 milhões por ano.
O impacto desses abortos perigosos é significante. Enquanto faltam dados exatos,
vários estudos e a evidência dos números, os países em desenvolvimento mostram que
as adolescentes compõem a porcentagem significante das 200.000 mortes que ocorrem
cada ano.

3.2.1 – Das Doenças Sexualmente Transmissíveis

Em virtude da alta taxa de pessoas que iniciam sua atividade sexualmente muito
cedo e a resistência ao uso de preservativo (camisinhas), os dados disponíveis mostram
que as jovens de baixa renda correm maior risco de pegar doenças sexualmente
transmissíveis, incluindo AIDS/HIV. Além disso, muitas delas usam o sexo para
sobreviver – sexo em troca do dinheiro, abrigo ou proteção – ou outras relações sexuais
que exploram, muitas vezes não têm como e não pode exigir de seus parceiros o uso da
65

camisinha. Como acontece a gravidez precoce, a prevenção das doenças sexualmente


transmissíveis entre mulheres jovens nos países em desenvolvimento é atrapalhada
pelos preconceitos sociais e vergonha dos adultos com a sexualidade do adolescente.
Assim, limita o tipo de informação a serviço aos quais essas jovens têm acesso.
Exemplificaremos a dimensão do problema das doenças sexualmente transmissíveis
entre adolescentes de baixa renda.
Na Tailândia, uma fonte revela que 6% dos 10.000 portadores de vírus do HIV
positivo, são prostitutas entre 15 e 20 anos de idade. Outra fonte calcula que 70% das
700.000 prostitutas são contaminadas com alguma doença sexualmente transmissíveis.
Em Uganda, o Ministério de Saúde relata que, entre as 800.000 pessoas de com HIV
positivo, há duas vezes mais mulheres de 15 a 20 anos do que homens da mesma faixa
etária. Nos Estados Unidos, o vírus HIV está aumentando rapidamente entre jovens de
famílias de baixa renda e, mais ainda, entre mulheres que deixaram de estudar. Dados
do Centro Nacional de Controle das Doenças (U.S. Center for Disease Control),
referentes as jovens de baixa renda, com idade entre 16 a 25 anos, descobriram que,
entre 1988 e 1990, o número das mulheres contaminadas dobrou, enquanto diminuiu o
número dos homens contaminados. Foram examinadas 50.000 mulheres e quase
120.000 homens. Atualmente, nos Estados Unidos, a mulher tem 1,5 vezes mais a
possibilidade de ser portadora de vírus HIV do que os homens.
Entrevista com 73 jovens de rua, na Guatemala revelaram que 15% já tiveram
alguma doença sexualmente transmissível, assim como 21 das 39 mulheres entrevistas
na Nicarágua. Um programa dedicado a serviço das meninas “de rua” na cidade de
Guatemala relata que a maior despesa mensal é com remédios para tratar doenças
sexualmente transmissíveis. Como a médica não tem certeza se essas mulheres
retornarão, é necessário dar um remédio de dose única. E, essa é a válvula de escape das
adolescentes, a “pílula do dia seguinte”, vendida deliberadamente em qualquer farmácia
do país. Na Bolívia, todas as 35 meninas “de rua”, entrevistadas já tiveram resultado
positivo para uma doença sexualmente transmissível. Nesse sentido, os Programas a
serviço dessas meninas na Bolívia, no Brasil e na Guatemala informam que muitas
vezes essas meninas se cortam com facas e giletes revelando a raiva e ódio de si
mesmas. Essa automutilação demonstra a baixa consideração que elas têm por si
próprias e os esforços para lhes dar assistência se complicam ainda mais pelo sentido de
fatalismo que elas mostram. As adolescentes que nasceram na área rural e depois
migraram para as cidades muitas vezes sentem-se deslocadas e isoladas. Programas na
Bolívia e Senegal informam que esse isolamento é agravado pelo fato de que essa
juventude (fora da escola muitas vezes) só fala linguagem indígena e dialeto tribal em
vez da linguagem da cidade. Um número alarmante de jovens dessa categoria (de baixa
renda, urbana, nos países em desenvolvimento) são obrigadas a se prostituir para se
sustentar financeiramente a si e suas famílias. Na América Latina, por exemplo, o perfil
da prostituta é a mulher de 24 anos de idade, que trabalha desde a juventude e vem de
classe trabalhadora de baixa renda.
No Brasil, um recente relatório do governo calcula que há 500.000 mulheres com
menos de 19 anos de idade na prostituição. Esse relatório conclui que a maioria delas
escolheu esse trabalho para se sustentar, ajudar no sustendo da família e dos filhos
advindos precocemente. Muitas vezes, a prostituição é vista como o único meio possível
da mulher jovem, urbana, de baixa renda ganhar dinheiro. Em Dakar, Senegal, as
meninas de rua dizem que podem ganhar entre US$ 7 e US$ 90 por dia, como
prostitutas, enquanto que meninas “de rua” pedem esmolas e ganham entre US$ 7 e
US$ 17 por dia. Nas Filipinas, as meninas “de rua”, trabalhando na prostituição, podem
ganhar até US$ 20 por hora, quase sete vezes mais do que suas colegas que trabalham
66

em outras atividades. O abuso e a exploração sexual são, também, comuns na vida de


muitas mulheres trabalhadoras e meninas “de rua”. Nos casos de incesto (de pai ou
padrasto) que resulta em gravidez, as mães destas jovens são obrigadas a expulsar o pai
ou a filha de casa. Um programa de apoio às meninas “de rua” em Recife relata que o
abuso sexual dentro de casa é fator principal que leva as meninas à rua. Em seis cidades
grandes na América Latina, nas entrevistas com meninas “de rua” entre 6 a 95% contam
que sofreram algum abuso sexual.
Com referência às condições de vida da prostituta, Beauvoir72 afirma que a baixa
prostituição é um ofício penoso em que a mulher oprimida sexual e economicamente,
submetida à arbitrariedade da polícia, a uma humilhante fiscalização médica, aos
caprichos dos fregueses, presa dos micróbios, de doença e da miséria, é realmente
degradada ao nível de uma coisa.
Registra-se o fato de haver encontrado meninas de doze anos já com alguns anos de
prostituição e que aos 20 anos já eram consideradas velhas, afirma Beauvoir. Sair da
prostituição impõe-se como perspectiva difícil de ser executada. Há um
comprometimento que vai além do aspecto físico. Para suportarem este tipo de vida
acabam fazendo uso de tóxicos e de bebidas alcoólicas, que embora as ajudem a
sustentar a vida que levam, estão ao mesmo tempo as deteriorando. Além do mais, o
tipo de trabalho as consome, pois muitas vezes se obrigam a manter relações sexuais
com mais de cinco homens por dia.

3.2.2 – Do Alcoolismo Precoce

O alcoolismo precoce é um problema que deveria chamar a atenção das


autoridades sanitárias, por ser um problemas de saúde pública e, particularmente, das
famílias brasileiras. Pesquisa realizada pelo CEBRID constata que, estudantes da rede
estadual de primeiro e segundo graus da cidade de São Paulo (70,4%) começaram a
beber entre os 10 e os 12 anos de idade (quando nos Estados Unidos o índice é de
50,2%). A maioria dos debates anti-drogas nos quais se enfocam as drogas ilegais,
como a maconha, a cocaína, o “crack”, etc., não estão se preocupando com as “drogas
lícitas”, como a cola de sapateiro, o éter, esmalte de unhas, e sobretudo, o álcool, e,
acabam por contribuir, ainda que involuntariamente para um novo agravamento da
questão.
De fato, é paradoxal que tais campanhas se restrinjam às drogas ilícitas, dando a
entender que o álcool (por ser legalizado), é algo seguro que com o seu consumo não se
corre o risco da overdose (se esquecem da possibilidade do coma alcoólico), e que o
mesmo não gera grandes complicações, o que também é uma inverdade, pois sua
síndrome de abstinência é tão séria quanto a das drogas mais pesadas. Sem contar a
própria questão da dependência, hoje se estima que 10% da população brasileira é
dependente de álcool, dado este que é por si só alarmante.
Entre os mais variados fatores que levam as pessoas ao uso das drogas, desde a
simples curiosidade de conhecer/experimentar até os mais complexo, como problemas
familiares, econômicos, estados depressivos, etc., não se pode olvidar que no Brasil as
bebidas alcoólicas são baratíssima, a exemplo da cachaça, a imprensa tem denunciado
que é muito comum, nas centenas de bolsões de pobreza aqui existentes, o largo
consumo da “pinga”, e até os bebês são seus consumidores, pois a mãe, não tendo com
que lhes alimentar, coloca na mamadeira esta barata e mortal fonte de caloria –
tecnicamente chamada de falsa caloria – e que, além disso, adormece os sentidos, o que
em termos sociais se constitui tal prática num estado de gritante perversão, de barbárie.
72
Op. Cit.
67

O consumo do álcool está associado, inclusive, com a criminalidade. Sabe-se que


muitos bebem para se encorajar e daí cometerem atos ilícitos como assassinatos, lesões,
etc. Tal hipótese (estado de embriaguez preordenado) se constitui, nos termos do
Código Penal, em agravamento da pena. Há os que por estarem alcoolizados cometem
excessos e crimes, como é o caso dos acidentes automobilísticos – nos quais há mortes e
lesões-, das violências domésticas, entre outros. Há que se ressaltar, ainda, o custo
social desta droga lícita, haja vista as despesas realizadas com os tratamentos das
cirroses hepáticas, com as mais variadas lesões decorrentes do seu uso, bem como das
intervenções psiquiátricas.
No campo Jurídico, em se tratando especificamente, da criança e do adolescente, a
Lei 8.069/90 não se omite. Tanto que a venda de bebidas alcoólicas aos menores de 18
(dezoito) anos que anteriormente ao seu advento era simplesmente considerada uma
contravenção penal (artigo 63, I do Decreto-Lei n. 3.688/41), conhecido com Lei das
Contravenções Penais, passou a ser concebida como crime previsto no artigo 243 da
referida Lei. Todavia, a nova Lei protetora dos direitos infanto-juvenis neste aspecto é
frontalmente desrespeitada. O poder público e a própria sociedade hipocritamente
escamoteiam ou negam o problema do alcoolismo. É evidente que o trabalho de
conscientização a respeito dos perigos do uso do álcool, tanto para o corpo físico quanto
para o corpo social, não pode ser simplesmente reduzido a uma questão legal. Por ser
um assunto que atinge a saúde pública, sob tal enfoque deveria ser abordado.
Defendemos a idéia de que se faz imperioso dar início às campanhas elucidativas
nas escolas, igrejas, grupos, associações e, também, no âmbito familiar. E aí nos
deparamos com uma grave questão, o embate deverá ser dirigido, sobretudo à mídia, na
qual circulam centenas de milhares de reais nas propagandas de álcool e do fumo, as
quais mostram um mundo de bem-estar e de prazer, o que de fato é incompatível aos
viciados de qualquer tipo de droga. Podemos, dessa forma, indagar por que a sociedade
não se organiza e exige do Estado — justamente neste momento em que este último,
defendendo um neoliberalismo, pretende se esquivar de todos os seus encargos — que
cumpra ao menos uma das suas funções mais elementares, qual seja a de
segurador/promotor de saúde pública?
Isto se daria, através da promoção de campanhas sérias e responsáveis, taxando-
se gravosamente as “drogas legais” (álcool e cigarro). É inaceitável que enquanto nos
países desenvolvidos os impostos sobre as bebidas alcoólicas são cada vez mais
pesados,73 no Brasil nos encontramos num estágio incivilizatório, pois não se reconhece
a questão do alcoolismo, especificamente do alcoolismo precoce, como um grave
problema a ser respondido com medidas concretas e urgentes.

3.2.2.1 – O Álcool na Adolescência

Como dito anteriormente, o uso do álcool entra cada vez mais cedo na vida tanto
da criança como do adolescente. O adolescente que está consumindo álcool, causando
preocupação aos pais, geralmente não é receptivo à ajuda dos familiares quando tentam
encaminhá-lo para um profissional ou a um serviço especializado.
Existem trabalhos realizados na Clínica Mirante do Instituto Bairral de Psiquiatria
– Itapira/SP com dependentes de substâncias psicoativas, ao pesquisar a história de vida
de pessoas em tratamento por alcoolismo, foi possível encontrar nessas histórias
subsídios para identificar sinais ou indicadores relacionados ao consumo do álcool na

73
A pretensão dessa imposição é diminuir o consumo e obter recursos que se destinariam às campanhas
preventivas e para o tratamento dos dependentes.
68

época da adolescência dessas pessoas. Acredita os pesquisadores que se esses


indicadores fossem conhecidos e trabalhados à época da adolescência dessas pessoas,
talvez fosse possível impedir o avanço e a configuração do quadro de alcoolismo em
que se encontram e que levam para a vida adulta.
O fácil acesso à bebida alcoólica pelos adolescentes se deve ao fato da
vulnerabilidade sócio-cultural ao álcool. Na adolescência, quando das primeiras
experiências com a bebida alcoólica, há o adolescente fraco (sensível para beber, é
aquele que com uma ou duas doses de bebida alcoólica já se sente alterado e, ao mesmo
tempo, pode passar mal com isso. Não consegue então beber mais que isso, porque não
se sente bem. No dia seguinte ao uso ou ao abuso de álcool, o fraco para beber não pode
ver bebida alcoólica em sua frente. E, sofre as conseqüências do álcool, como: mal
estar, dor de cabeça, problemas abdominais, indisposição), e o adolescente forte em
relação ao álcool ( tolerante para beber, é o que suporta beber quantias maiores sem
muita alteração. Desenvolve também, com o aprendizado de beber, a tolerância
comportamental, quer dizer, a capacidade de executar tarefas mesmo sob o efeito do
álcool SHUCKIT74. É aquele que é enaltecido pela turma pelo fato de agüentar a beber.
No dia seguinte, o forte para o beber, mesmo sentido alguns efeitos do consumo de
álcool do dia anterior, mostra disposição para beber novamente. No decorrer do uso, o
valor reforçador do álcool, emparelhado com outros estímulos ambientais, desenvolve
condicionamentos e reforçadores secundários. Conforme se instala a dependência, o
álcool passa a ser um reforçador negativo, pois alivia o organismo dos sintomas de
abstinência de outras drogas. Os efeitos ruins experimentados pelo organismo
decorrentes do uso do álcool podem tornar o álcool um estímulo aversivo.
As pesquisas na área constatam que as pessoas em tratamento que desenvolveram
um quadro de dependência de álcool (diagnosticados na vida adulta), após anos e anos
de uso e abuso de álcool, são os que na juventude mostraram tolerância ao álcool. Essa
dependência culmina com desgastes físicos, desorganização da vida, perdas ou ameaças
de perdas (emprego, separação conjugal, condutas agressivas, condutas irresponsáveis),
entre outros.

4.0 – DO SISTEMA DA JUSTIÇA

4.1 – Do Sistema Jurídico

A nossa Constituição Cidadã de 1988, prescreve em seu artigo 227 que:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e


ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, saúde,
alimentação, educação, ao lazer, profissionalização, cultura,
dignidade, ao respeito, liberdade e convivência familiar e
comunitária, além de colocá-los a saldo de toda forma de
negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão.

E ainda em seu §4º, preceitua: “A lei punirá severamente o abuso, a violência, e a


exploração sexual da criança e do adolescente”.
Diante do preceito constitucional, podemos indagar se a atual legislação penal
consegue atender o que naquele documento normativo está exposto. A Convenção sobre
74
SHUCKIT, M.A. Transtornos relacionados ao álcool. In: I.H. KAPLAN & B.S. SADOCK e cols.
Tratado de Psiquiatria Compreensiva. Porto Alegre: Artemed. 1999.
69

os Direitos da Criança, adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em 20 de


novembro de 1990, da qual o Brasil foi um dos signatários, determina em seu artigo 34:

Os Estados Partes se comprometem a proteger a criança contra


todas as formas de exploração e abuso sexual. Nesse sentido, os
Estados Partes tomarão, em especial, todas as medidas de caráter
nacional, bilateral e multilateral que sejam necessárias para
impedir:
a) o incentivo ou coação para que uma criança se dedique a
qualquer atividade sexual ilegal;
b) a exploração da criança na prostituição ou outras práticas
sexuais ilegais;
c) exploração da criança em espetáculos ou materiais
pornográficos.

O referido dispositivo, portanto, assegura à criança e ao adolescente a proteção


contra a exploração e o abuso sexual, incluído a prostituição e o envolvimento em
pornografia. Convém ressaltar que, no Brasil, a Convenção foi aprovada pelo Congresso
Nacional, através do Decreto Legislativo n. 28, de 14 de setembro de 1990, sendo que
em 21 de novembro desse mesmo ano foi finalmente promulgada pelo Decreto n.
99.710. Desta forma, a negligência de nosso País no que concerne a exploração sexual
infanto-juvenil se constitui num desrespeito à Constituição Federal, num descaso para
com a citada Convenção e para com os direitos proclamados no Estatuto da Criança e
do Adolescente. Trata-se, em síntese, de uma profunda negação dos direitos
fundamentais da pessoa humana, sobretudo tendo-se em conta que esta negativa de
cidadania atinge justamente aqueles que são merecedores de proteção especial e
integral, por estarem num processo de desenvolvimento. E o que mais nos indigna nesta
abordagem é que todo o sistema político é condescendente com tais abusos. Por outro
lado, ao tentar se elaborar uma leitura jurídica da prostituição infantil e, portanto, quais
os mecanismos que o sistema penal teria para oferecer a fim de se evitar a degradante
exploração sexual infanto-juvenil, somos também levados a questionar se o mero
advento de normas que dessem à questão um enfoque mais severo, no sentido de impor
penas mais drásticas já seria suficiente.
Nesse diapasão, preleciona Garcia-Pabios de Molina: “a eficaz prevenção do
crime não depende tanto da maior efetividade do controle social formal, senão da
melhor integração ou sincronização do controle social formal e informal”.75 Significa
que a verdadeira prevenção de um problema tão sério como o é o da prostituição
infantil, se dará através de uma ação conjunta entre a sociedade e o Estado, se servindo
de métodos e programas capazes de neutralizar o problema já na origem. É lógico que a
solução não se dará a curto prazo, mas isto não deve servir como um argumento para
um não agir. Devemos considerar que a sociedade civil deve cobrar do Estado uma
maior fiscalização em hotéis, motéis e congêneres, inclusive, parece oportuno o
estabelecimento de medidas administrativas que impliquem a imposição de multas
significativas, e até mesmo a interdição de estabelecimentos nos quais fossem flagrados
o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes, sem detrimento da
responsabilidade penal. Certamente, temendo mais as multas ou o fechamento de suas
“atividades” do que a punição penal ter-se-ia, uma diminuição dessa exploração. Pois,
pensar em resolver estas questões com a mera prevenção pelo Direito Penal é uma
ilusão, porque, em primeiro lugar, nem sempre o rigor das leis importa em sua
efetividade. Estes dois fatos como que “geram” o problema da impunidade.
75
MOLINA, Antônio Garcia Pablos de. “Criminologia: uma introdução aos seus fundamentos teóricos”,
Trad. De Luiz Flávio Gomes, São Paulo, RT, 1992, p. 78
70

A este respeito, já se pronunciara o jovem Beccaria, em 1764:

Não é o rigor do suplício que previne os crimes com mais


segurança, mas a certeza do castigo, o zelo do magistrado e essa
severidade inflexível que só é uma virtude no juiz quando as leis
são brandas. A perspectiva de um castigo moderado, mas
inevitável, causará sempre uma impressão mais forte do que o
vago termo de um suplício terrível, em relação ao qual se
apresenta alguma esperança de impunidade.76

4.1.2 – Da Proteção do Estado à Criança e ao Adolescente

O Estado assumiu, juntamente com a família, responsabilidades com relação à


criança e ao adolescente, quais sejam as de lhes assegurar, com prioridade absoluta, o
uso e gozo dos direito fundamentais, tendo sido muito mais pródigo na enunciação
desses direitos com referência à criança e ao adolescente do que com relação aos
adultos. A preocupação do legislador constituinte com a criança e o adolescente
justifica-se pelo fato de o Brasil ter uma população muito jovem que, aliás, durante
longos anos vem tendo seu destino negligenciado pelo Estado, que particularmente em
relação às crianças e adolescentes vez que, a partir da Constituição de 1988 passaram a
figurar como sujeitos de direitos. Entretanto, o Estado parece não entender a sua
responsabilidade para com esta camada da população tão relegada à marginalização. Em
conseqüência de tal desapreço com relação à tão nobre problema, é que convivemos
hoje com a falta de estabelecimentos suficientes e adequados para a internação de
adolescentes envolvidos com a prática de Ato Infracional, lançado-os na vala comum
de estabelecimentos inadequados que funcionam como escolas de delinqüência ou
celeiros de criminalidade. É natural, portanto, que no seio de uma sociedade assim tão
mal assistida, germine e cresça a criminalidade, que tendo sua origem necessariamente
na fome, na miséria e no desemprego, tem também, suas raízes na (des) educação e na
falta de assistência e efetiva proteção à população infanto-juvenil que vive sob constante
risco pessoal e social.
Em nosso Estado, é imperioso reconhecer que com a edição da nova Carta Magna,
a despeito de todas as promessas de proteção das autoridades governamentais à criança
e ao adolescente, os Programas de Atendimento não têm continuidade. Vale ressaltar
que o artigo 204 Constituição Federal dispõe sobre a “descentralização político-
administrativa e a participação da sociedade por meio de organizações representativas
na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis”.
O Estado, como já foi dito, ao prometer em norma constitucional assegurar à
criança e ao adolescente a preservação de seus direitos básicos, assumiu perante a
Nação, responsabilidades que até a presente data pouco tem se preocupado. O Estado
através de uma perversa política econômica (na qual tem resultado o crescente
empobrecimento das camadas mais modestas de nossa sociedade) vem submetendo a
criança e o adolescente à verdadeira privação do gozo de seus direitos, quando, por
exemplo, deixa de proporcionar assistência médico-hospitalar adequada, saneamento
básico, acesso à educação e a uma alimentação sadia. É verdade que tem procurado
fazer, em termos de programas de assistência social, nos últimos tempos, desde a
restauração do regime democrático em nosso país. O Estado de forma ainda muito
discreta, destina recursos às regiões mais carentes do território nacional com o escopo
de reduzir os índices alarmantes de mortalidade infantil, através de: aumento da rede
76
BECCARIA., Cesare. Dos Delitos e das Penas. Trad. De Paulo M. Oliveira, Rio de Janeiro, Ediouro,
1994. p. 80
71

geral de água e esgoto, que tem contribuindo para recuperar as crianças afetadas por
diarréia; a implantação de programas de (re) hidratação oral, para recuperar as crianças
afetadas por processos diarréicos infecciosos; o aumento de cobertura vacinal, que tem
contribuído para reduzir a mortalidade por doenças previsíveis por imunizações; maior
acesso à assistência médica e hospitalar; e, a diminuição da fecundidade ocorrida
especialmente entre as mulheres de mais baixa renda e pouca idade, diminuindo o
número de crianças de alto risco. Evidente que não se pode negar, portanto, que muita
coisa já foi feita nesse campo, porém, a toda evidência, muito menos do que foi
prometido à Nação pelo legislador constituinte.
A norma constitucional, contida no artigo 227 foi pródiga na enunciação dos
direitos da criança e do adolescente, e vão desde o direito à vida até o direito ao lazer. O
que se espera das autoridades governamentais é que, pelo menos ,os direitos básicos
prometidos sejam assegurados, a fim de que não só as crianças e os adolescentes, mas
também os cidadãos em geral, possam viver em sociedade, com o mínimo de dignidade.

4.1.3 – Estatuto da Criança e do Adolescente - Um Instrumento na Construção de uma


Sociedade Cidadã

Falar em cidadania no atual contexto brasileiro é entendê-la como o exercício de


uma reivindicação de direitos77, o que significa uma batalha pelo recente
reconhecimento de novos direitos sociais ou de direitos já existentes, os quais, no
entanto, têm sido historicamente negados neste país. Este conceito que poder-se-ia
denominar de “contemporâneo”, de cidadania está tal qual a concepção clássica, ou seja
aquela que dizia que, cidadão é o que participa, que vive engajado com a cidade – polis
-, comprometida com valores. Nesse sentido afirma Torres:

Não se trata de, pura e simplesmente, lutar pelo respeito a valores


que já estão dados. Ao contrário, trata-se de restabelecer e de fazer
com que a ordem política-constitucional existente consagre,
efetivamente, assegura tais direitos. Então, a concepção
contemporânea de cidadania é uma concepção que recupera a idéia
de uma atividade do cidadão, mas que a recupera não dentro da
ação estatal e do exercício da soberania, mas reafirma o caráter
dinâmico da ação cidadã a partir da sociedade civil, e como um
programa de transformação da esfera público-juridico-
constitucional, tal como estabelecido numa certa circunstância.78

Analisando criticamente esta questão, Muricy entende que falta à sociedade


brasileira uma “participação de base e cidadania organizada” 79. Tal fato faz com que o
povo seja manipulado, funcionando como:

(...) massa de manobra para políticas assistencialistas


desmobilizadoras, que alternam com as mais cínicas práticas
institucionais privada da coisa pública, estas últimas tão freqüentes
e avassaladoras, que já tornam consagrados no Brasil o estado de
impunidade.80

77
TORRES, João B. “Cidadania: exercício de reivindicação de direitos”. In anais da XIV Conferência
Nacional da OAB – Vitória – ES. Setembro. 1992 p. 345.
78
Idem.
79
MURICY, Marília. “Cidadania, Estado e Sociedade Civil”, in Anais da XIC Conferência Nacional da
OAB, Op. Cit. p. 6l.
80
Idem.
72

A ampliação da cidadania através de uma participação popular constante do corpo


social em todas as esferas acabará por produzir transformações na idéia tradicional do
Estado como instância exclusiva e absoluta do poder societário. Nesse sentido,
Wolkmer faz sua defesa: “Há que se mudar o enfoque, e passar a encarar o Estado não
mais como criador e tutor do autoritário da Sociedade Civil, plenamente organizada
pelo exercício e pela participação da cidadania popular”81.
Neste processo, o Estatuto da Criança e do Adolescente se constitui numa norma
de extremo valor, pois significa a introdução na ordem jurídica de avanços que ocorrem
na ordem social. O diploma legal estabelece uma nova concepção de criança e
adolescente, passando a contemplar a proteção integral e concebendo- os como sujeitos
de direitos. Ao substituir o Código de Menores de 1979, o Estatuto da Criança e do
Adolescente introduz uma série de transformações na política de atendimento à infância
e à adolescência brasileira, dando ênfase ao processo de descentralização e
municipalização da política de atendimento direto e destaca a participação da sociedade
civil através de seus Conselhos e Fóruns, conforme dito alhures. Como evidenciado, o
ECA estabelece o conceito de “Criança Cidadã” e entende como indispensável num
processo democrático a descentralização/municipalização das atividades e, outro
aspecto que reflete uma das suas grandes contribuições é a respeito da participação da
sociedade civil nas políticas públicas.
Preleciona Leme Machado que o envolvimento dos cidadãos em todos os
processos da vida social, tem como pressuposto “o exercício crítico, cuja prática deve
dar-se desde a infância, e que uma postura crítica, a qual é incompatível como o
autoritarismo, somente é possível de ser adquirida através da reflexão” 82.
No entanto, é extremamente difícil para quem vive em condições subumanas –
que vão desde a exploração salarial até as situações de absoluta miséria a que estão
sujeitos -, aglutinar-se na defesa de interesses que superem a esfera individual. Isto,
inclusive, reforçado pela implantação da ditadura militar, que se estendeu por mais de
vinte anos, destruindo e obstaculizando a participação na vida pública, o que resultou na
apatia política do brasileiro, que é, na maioria das vezes, um mero telespectador de sua
própria história. Desse modo compõe-se um quadro estarrecedor, não se participa por
não se ter as mínimas condições de vida, tornando esta uma enfadonha luta pela
satisfação das necessidades individuais e, também porque não se foi educado para
refletir e, portanto, criticar e agir. Assim, este cenário não poderá ser revertido enquanto
não houver mobilização popular, isto é, a união de interesses que objetivem a ruptura
desse círculo vicioso. O Estatuto da Criança e do Adolescente, situando-se nessa
necessidade premente, estabelece, em seus artigos 86 e 88, uma estrutura de gestão
absolutamente distinta da anterior. Baseando-se numa conjunção de forças e de
compromissos entre o Estado e a Sociedade Civil, cria-se através dos Conselhos de
Direitos da Criança e do Adolescente o espaço institucional específico, nos quais se
desencadeiam as tarefas de decisão e de controle desses dois sujeitos sociais: governo e
sociedade. Os Conselhos de Direitos colocam-se, portanto, como canais de participação,
possuem paritariamente representantes das instâncias governamentais e das
organizações representativas da sociedade, constituindo dessa forma, um eixo
imprescindível no processo de democratização do poder, de uma efetiva e consciente
participação. Tal qual o Conselho Tutelar, o Ministério Público, o Juizado da Infância e
da Juventude, os Conselhos de Direitos constituem uma instância responsável pela

81
WOLKMER, Antônio Carlos. “Elementos para uma Crítica do Estado. Porto Alegre. Fabris 1990. p.
43.
82
MACHADO, Paulo Leme. “Administração participada e interesses coletivos”. In Grinover, Ada
Pellegrini (coord). “A tutela dos interesses difusos”, São Paulo, Max Limonad, 1984. p. 49.
73

garantia dos Direitos da criança e do Adolescente. A presença da sociedade civil nos


Conselhos, garante aos cidadãos a possibilidade de acesso às informações oficiais e
ações públicas. E envolve-os politicamente para uma interlocução constante, ampliando
assim os espaços de mediação, negociação e decisão. Esta participação facilita o
controle, permitindo que projetos e ações se voltem aos problemas mais coletivos e
prioritários e os recursos financeiros sejam efetivamente visíveis e dirigidos à maioria
da população, na linha do atendimento às suas necessidades básicas. Ressaltamos que os
Conselhos não substituem o dever do Governo na realização de seu papel precípuo –
executar políticas – porém participam e devem promover ampla visibilidade para que a
sociedade civil e governo se engajem e queiram uma política de desenvolvimento da
criança e do adolescente. Os Conselhos não só deliberam sobre essa política como
também acompanham a sua implementação, execução e seus resultados. A estas
atividades de acompanhamento chamamos de controle. É por isso que o Estatuto da
Criança e do Adolescente institui legalmente, como papel dos Conselhos, deliberar e
controlar. Assim, é inquestionável que a sociedade seja ativamente organizada,
solidária, comprometida com o resgate ético, com mudanças sócio-político-culturais,
enfim, que se transforme numa sociedade cidadã.

4.2 – Do Sistema Político

4.2.1 - Instituições Repressivas: O Caso da Polícia Civil

A tradição institucional brasileira cria, aliada a um conjunto de traços culturais,


um caldo autoritário e antidemocrático, que a priori tende a inviabilizar o sentido
expresso da existência da instituição policial, ou seja, garantir a ordem e cumprir a lei.
O aparato policial tem-se constituído como uma instituição opaca, bastante
impermeável e autoritária, com pouca porosidade, e até sórdida, em alguns períodos de
repressão, aberta e institucionalizada. Não obstante, este aparato institucional é um dos
mais próximos à população, sobretudo aos trabalhadores urbanos e pobres, posto que a
Delegacia Policial funciona diuturnamente e acaba se constituindo contraditoriamente
em um pronto-socorro social devido à inexistência, insuficiência ou inoperância da rede
de equipamentos sociais. O trabalhador pobre tem histórias de intimidade com a polícia,
quer porque buscou sua mediação em relação as mais variadas gama de situações
imagináveis, quer porque foi abandonado, pelo menos uma vez, por algum agente
policial. Na prática desses agentes observa-se uma contradição entre a expectativa de
legalidade e a legitimidade de suas práticas concretas. No cotidiano desses atores a
legalidade é instrumento utilizado circunstancialmente, mas não é um canal que
respalde uma prática objetiva e democrática. Ao contrário, o que se observa é uma
prática que, às vezes, se autonomiza em relação ao controle estatal e da sociedade.
Prática que ignora fronteiras da lei. Para tanto, há todo um suporte cultural, uma cultura
da violência, do autoritarismo e da impunidade, onde o direito de cidadania não é
reconhecido. Esse caldo cultural envolve não só especificamente o crime, a violência, a
repressão e outros fenômenos. Envolve atores presentes no cenário das várias
mediações que têm lugar na relação entre o aparato estatal e a sociedade civil e nas
relações sociais cotidianas. Abrange os discursos e as práticas desses atores relacionadas
a esses fenômenos, influenciando dialeticamente processos culturais e políticos,
representações, e o seu próprio modo de vida. Como conseqüência desse caldo cultural
autoritário tem-se uma polícia que tem pouca credibilidade para garantir a segurança e a
manutenção da ordem. Uma instituição esvaziada de legalidade social. Por outro lado,
há representações e práticas da população que reforçam as atitudes repressivas desses
74

atores da instituição os quais, em si, já têm o monopólio legítimo da violência


institucional. Entre a ordem pública e a lei existem tensões que fazem com que o
aparato policial tente garantir a vigência da ordem, contra a lei, perante a qual há
igualdade absoluta garantida a todos.
Bretas83 faz uma reconstituição histórica das funções da instituição policial desde
o período republicano, quando esta tratava de tudo aquilo que colocasse em risco a
ordem, pública. Conclui que essa instituição tinha originalmente funções mais
ampliadas, passando por períodos de restrição em nível de competência, porém seus
traços fundamentais não sofreram alteração substantiva. A partir do momento em que o
Estado se diversifica e começa a assumir a questão social, a ação da polícia se restringe
àquelas em que há necessidade do uso da força real ou potencial. Com isso se
institucionaliza e se legitima o uso da força. O Estado ampara legalmente o uso da força
pela polícia e pretende profissionalizar a violência, recrutando, a exemplo do modelo
francês, seus agentes no chamado mundo do crime.
Embora com a independência o Brasil tivesse tido contrato com o pensamento
iluminista, com o positivismo e com o liberalismo, o que gerava uma onda
modernizadora e reformista no aparato institucional brasileiro, a instituição policial se
mostrou pouco permeável e quase intacta. Seus agentes permanecem desqualificados
para o exercício técnico de suas atividades até os dias de hoje, com raríssimas exceções.
Pesquisas de opinião pública recentes denotam sentimentos de insatisfação diante da
conjuntura atual do país, insegurança diante da elevação dos índices de violência,
descréditos nas instituições, nas autoridades e nos políticos. Simultaneamente, seus
resultados expressam expectativas de garantia de segurança e indicação da necessidade
de medidas repressivas truculentas. Tal fato remete à proposição de que as camadas
populares não possuem ainda uma organização suficientemente forte, capaz de por em
questão de forma crítica a ação das instituições estatais, especificamente do aparato
policial. De outro lado, como conseqüência da autonomia e independência dessa
instituição frente ao controle popular, tem-se um poder próprio, que se configura de
forma dupla, o Estado que garante e o Estado que limita.84
A percepção das camadas médias acerca da instituição policial é - via de regra-,
puramente cartorial, para viabilizar compensações patrimoniais (como exemplo,
obtenção de cópia de registro de ocorrência de furto de automóveis para receber
seguros). Em contrapartida, os setores populares, além de buscar, algumas vezes, a
mediação da polícia na expectativa de solução de seus problemas, têm na instituição a
concretização da ameaça da violência institucional estatal. Muitas vezes, esses setores
só têm por si a segurança do crime organizado que, particularmente nas favelas acaba
assumindo a responsabilidade pela manutenção da ordem, ao mesmo tempo em que
ameaça a paz social. Contrapondo-se à idéia disseminada da cordialidade dos cidadãos
brasileiros, evidenciam-se relações antagônicas e, por vezes, hierarquizadas entre
indivíduos que detêm parcelas diferenciadas de poder, traduzindo-se em relações de
dominação/exploração. Tais fenômenos são resultantes de determinações de classe,
gênero e raça/etnia e se inscrevem em instâncias de relações sociais macrossocietais,
bem como em espaços que constituem cenários onde se desenvolvem relações
interpessoais permeadas por micropoderes. Situações inscritas em relações de poder
contraditórias, que perpassam as várias frações de classe, se manifestam em instâncias

83
Pesquisador do Centro de Estudos Históricos da Fundação Casa de Rui Barbosa, desenvolve pesquisa
histórica sobre a política no século passado e, em especial, no período republicano. Ver, sobre o tema, o
trabalho de sua autoria “Policiar a cidade republicana”, sem data, mimeo.
84
“A prática de Serviço Social em Delegacias Policias do Estado do Rio de Janeiro”, elaboração
coletiva da equipe do projeto de extensão da ESS/UFRJ, setembro de 1986, mimeo.
75

consideradas pela ideologia dominante como espaços de não-poder, de expressão


apenas de relações interpessoais marcadas eminentemente pela afetividade e ela
privatização. Dentre esses espaços, a família é um locus privilegiado, onde se inscrevem
relações contraditórias travejadas pelo autoritarismo e pela afetividade. Neste cenário
têm lugar situações de conflito, fundadas em relações de micro-poder de natureza
antagônica manifestadas de forma mais ou menos explícita. Emolduradas nos contornos
das relações de poder na família (no ambiente doméstico), encontra-se o fenômeno da
violência sexual infanto-juvenil. Cotidianamente, a instituição policial é buscada por
mulheres que vivem situações de violência no contexto familiar, no sentido de ser
obtida uma ação mediadora da polícia. O que encontram como resposta à expectativa de
proteção que têm em relação à ação policial são o descaso e a omissão.
Esse quadro denota o caráter antidemocrático e machista do aparato policial e traz
à tona a ação dos movimentos da sociedade civil, que pressionam o Estado, com vistas à
sua democratização. Traz à tona, em especial, a luta dos movimentos feministas no
combate à violência contra a mulher e contra a exploração sensual infanto-juvenil, por
um atendimento especializado, que, atualmente está se desencadeando em diversos
Estados.

4.2.2 – A Realidade Brasileira

A liquidação de pixotes, segundo a designação comumente adotada pela


linguagem jornalística, se constitui num dos dados mais tristes da nossa história, que
ano a ano vinha aumentando até que a situação tornou-se insustentável e em 1990 a
Anistia Internacional, com sede em Londres, passou a denunciar esta forma diferenciada
de genocídio. A Anistia, tendo por base as primeiras estatísticas de assassinatos de
crianças e adolescentes no Brasil (1990) pelo Instituto Brasileiro de análises
Econômicas, se expressou contundentemente no sentido de que, no Brasil, as crianças
pobres são tratadas com desprezo pelas autoridades e arriscam a vida pelo simples fato
de estarem nas ruas. Seus direitos humanos mais básicos são desrespeitados pelas
próprias pessoas que deveriam garanti-los. As autoridades precisam agir agora proteger
as vítimas mais vulneráveis da brutalidade da polícia. Este fato, que quase gerou um
problema diplomático, teve um aspecto positivo quando da criação da Comissão
Nacional Contra Violência da Criança e Adolescente (dez/1990), vinculada ao
Ministério da Justiça. Constituída por entidades governamentais e não-governamentais,
com a participação da UNICEF, tem como meta apoiar as ações que são providas nos
Estados, voltadas a enfrentar o fenômeno da violência. Em 1993, o Brasil volta ao
cenário internacional, em função do massacre da Candelária (RJ). A violência estrutural,
portanto, se refere também, às situações adversas que demonstram a falta de respeito
para com o ser humano, a miséria, o trabalho escravo e precoce, a falta de escola, de
moradia, etc. Quanto à violência sexual contra crianças e adolescentes, esta começou a
ser enfrentada como problema de cunho social na última década do século XX.
Assumiu relevância política e visibilidade social nos anos 90. Na década de 1990,
segundo Libório85, a violência sexual contra crianças e adolescentes foi incluída na
agenda pública da sociedade civil relacionada à luta nacional e internacional pelos
direitos humanos. Argumenta, ainda, o citado autor que, vários eventos contribuíram
para destacar a questão da violência sexual contra crianças e adolescentes na mídia e
pressionaram o país a se posicionar frente à exploração sexual de crianças e

85
LIBÓRIO, R. M. C. Desvendando vozes silenciadas: adolescentes em situação de exploração sexual.
Tese (Doutorado em Psicologia). Universidade de São Paulo, 2003.
76

adolescentes. A partir daí, aconteceu uma ampla mobilização de vários segmentos da


sociedade com relação ao enfrentamento da violência sexual de crianças e adolescentes
de forma que, em junho de 2000, aconteceu o encontro para a elaboração do Plano
Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil, em Natal, RN,
conforme já evidenciado.
Martinez86 aponta que, de acordo com os estudos realizados em vários países
(dentre eles, o Brasil), 7 a 36% das mulheres e 3 a 29% dos homens já sofreram abuso
sexual na infância. Em pesquisa realizada por Braun87 ficou evidenciado que crianças e
adolescentes de 02 até 17 anos podem ser vitimizadas/os pela violência sexual. De
acordo com os dados obtidos pela Autora, uma quantidade significativa de crianças
vitimizadas pela violência sexual encontra-se na faixa etária de 10 à 14 anos (56%),
seguida pela faixa etária de 5 à 9 anos (20%), de 15 à 17 anos (14%) e entre 2 e 4 anos
(10 %). No tocante aos meninos, existem barreiras claras que os impedem de relatarem
o abuso sexual praticado por homens mais velhos. A Abrapia (1997), afirma que, em
primeiro lugar há o duplo tabu - incesto e homossexualidade -, em segundo, pode ser
difícil para os adolescentes aceitar que não são capazes de se protegerem e, em terceiro
lugar, espera-se que os homens sejam autoconfiantes e que não falem de seus
sentimentos para os outros. Nesse diapasão, o papel da escola e do professor tem
importância relevante na prevenção e enfrentamento da violência. Brino e Williams 88
enfatizam que a Escola é o lugar ideal para prevenção, intervenção e enfrentamento
deste fenômeno, pois deve ter como objetivo a garantia da qualidade de vida de seus
alunos e a promoção da cidadania. Esse papel está claro no Plano Nacional de
Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil (2000) e no Estatuto da Criança e
do Adolescente (ECA, Lei 8069/90) cujo objetivo foi estabelecer um conjunto de ações
articuladas que permitam intervenção técnica, política e financeira para o enfrentamento
da violência sexual cometida contra crianças e adolescentes.

5.0 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar de já sermos detentores de direitos através da Declaração solene dos


Direitos Humanos, nosso mundo continua sendo um planeta inabitado para a maioria
dos seres humanos. Os direitos humanos continuam sendo uma grande utopia para a
grande maioria. As cifras de violação desses direitos são espantosas, mesmo diante dos
direitos e garantias fundamentais preconizados pela Declaração dos Direitos Humanos e
inseridos na Carta Magna de 1988. A exigência dos direitos humanos é antiga e
profunda, entretanto a violação desses direitos é extremamente brutal e generalizada.
Não obstante os 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos, foi a partir dos
anos 60 que a violência começou a ser considerada como uma violação dos direitos
individuais, em decorrência das pressões recebidas das instituições internacionais, pois,
até então não havia nenhum serviço para atender as vítimas, e as punições eram raras,
mesmo nos países industrializados. Essa espantosa situação nos impulsiona a
86
MARTINEZ,J. Prevención del abuso sexual infantil: analisis crítico de los programas educativos. In:
Revista de la Escuela de Psicologia, Facultad de Ciências Sociales – Pontifícia Universidad Católica de
Chile, Volumen 9 – Número 20, Noviembre 2000.
87
BRAUN, S. A violência sexual infantil na família: do silêncio à revelação do segredo. Porto Alegre :
AGE, 2002.
88
BRINO, R.F & WILLIANS, L.C.A. Concepções da professora acerca do abuso sexual infantil.
Cadernos de Pesquisa. São Paulo: Fundação Carlos Chagas, Autores Associados. Julho:2003
77

preocupações maiores com o ser humano e faz com que fiquemos incomodados com a
maneira clássica de encarar os direitos. A clássica leitura liberal da Declaração
Universal não pode entender que certas pessoas são uma espécie de negação para a
sociedade. Não são reconhecidas como seres humanos, como pessoas, como sujeitos de
direitos. São apontados como os excluídos, os marginalizados, os mendigos, as
prostitutas, os meninos e meninas de/na rua, os viciados em drogas.
Os esquecidos até da comunidade dos Direitos Humanos...
Se analisarmos profundamente a violência social, encontraremos um momento
decisivo na gênesis da violação aos direitos humanos, que foi a violência estrutural.
Violência esta que nada mais é que esse conjunto de estruturas econômicas, sociais,
jurídicas e culturais que causam uma dor profunda, cruel e desumana na pessoa
impedindo-a que seja liberada da opressão.
Em pleno final de milênio, e comemorando os 60 anos da Declaração dos
Direitos Humanos somos tomados pelo processo de uma concepção hipócrita dos
direitos humanos. Isto se dá um pleno momento em que tomamos conhecimento da
vertiginosa seqüência de sucessos que são o estertor do mal chamado “fim da história”
pelas arrogantes estratégias das políticas neoliberais. Deve-se admitir, então, que os
últimos anos não têm sido triunfo de nada, e, sim catastróficos no que se refere aos
direitos humanos. Talvez tenhamos avançado em algumas novas formulações jurídicas e
em consciência a certos níveis da humanidade, porém, sem sombra de dúvidas que esses
avanços se mesclam com o horror da nossa experiência diária (declaração universal e
fome, pactos internacionais e terras arrasadas, riquezas nunca vistas e pobreza obscena).
Mas, a ânsia de crer e apostar no que parece utópico, nos impulsiona a desafiar
todos os temores. Vincular os direitos humanos às políticas sociais que dê vida a “não-
pessoa” de nossa sociedade e esperança de viver com dignidade não podem permanecer
no terreno da declaração e da utopia. Não há que se duvidar que a expressão “Direitos
Humanos” é uma formulação histórica e recente que nasceu na etapa moderna dentro de
uma cultura chamada ocidental, e que recolhe experiências muito básicas, extensivas a
toda humanidade porque se referem eminentemente à dignidade das pessoas como
integrantes dessa cultura. Na realidade, esses direitos são preliminares a todo
reconhecimento jurídico e os Estados devem usar os meios necessários para que os
seres humanos possam realizá-los a fim de que todos possam alcançar a felicidade,
segundo a Declaração de Virgínia em 1776.
A pesquisa deixa latente as evidentes agressões ao ser humano e, em especial, à
mulher - desde a sua concepção - salientamos a luta feminina no que tange a (re)
concepção dos direitos humanos, haja vista que, até hoje, eles se fundamentam em uma
visão machista e discriminatória. Visão esta, herdada do contexto jurídico romano onde
o homem sempre foi o senhor absoluto que sempre deteve direitos e poderes de vida e
de morte sobre a sua família. Necessário se faz introduzir uma visão crítica que abranja
o contexto sócio-político de gênero, onde os direitos humanos foram sempre
conceitualizados. As nossas leis ainda são muito tímidas no combate à violência como
um todo e, em especial, no combate à violência contra a população infanto-juvenil.
Precisamos de eficácia nas legislações existentes (própria, definida), com a finalidade
de criar instrumentos e mecanismos para erradicar a violência intra-familiar, propondo
ações punitivas, tanto no Direito Penal como no Direito Civil, além de medidas de apoio
à vítima e à sua família com assistência social e jurídica, trabalhadas sob a forma de
políticas públicas e não de ações afirmativas.
E, o fato social há de ser o ponto de partida no processo de elaboração do direito,
vez que a norma jurídica, em sua formação, é condicionada pelos fatos sociais. A
descoberta das engrenagens do colapso social de uma sociedade que produz crianças
78

prostituídas é a descoberta do desemprego, da falta de escola, da migração, da


desagregação familiar e do desrespeito sistemático aos direitos humanos.
O Direito é, em essência, interdisciplinar. A doutrina penal contemporânea aponta
no sentido da necessidade do empirismo criminológico para melhor interpretação da
norma penal. Advogamos a idéia de que a única coisa que o Direito Penal não consegue
resolver - tomado em caráter singular - é o problema da criminalidade, pois o crime é
fato social antes de ser jurídico oriundo de uma multi-causa de fatores sociológicos e
psíquicos. A observação do fato social deve, portanto, preceder a elaboração científica,
sob pena da ciência não atingir qualquer fim prático e resultar num vazio quanto à sua
experiência. Enquanto não chega esta transformação, os direitos humanos continuarão
sendo a instância maior da humanidade por sua concretização como discernimento
crítico-utópico. E, continuaremos a presenciar o crescimento da prostituição infanto-
juvenil em nosso País, apontada pela ONU como uma das maiores do mundo. Em todos
os momentos e circunstâncias há que seguir lutando e reivindicando os pressupostos que
façam com que seja possível a passagem dos direitos humanos do âmbito utópico e
formal, para o âmbito real. Importa indagar o que se pode fazer. O que o Estado e a
sociedade civil podem criar como estratégias para sua superação e intervir no sentido de
que o governo comece a trabalhar essas questões, efetivando políticas sociais públicas.
A violência contra a mulher é uma agressão aos direitos humanos. A criança e
o/a adolescente devem crescer num ambiente familiar em clima de amor e paz, vez que
são as primeiras vítimas do contexto da desestrutura familiar. A criança e o/a
adolescente gozam do direito de ser preparada, plenamente, para a vida na sociedade e
educada no espírito dos ideais proclamados na Carta das Nações Unidas (paz,
tolerância, liberdade, igualdade e solidariedade). Um dos aspectos essenciais dessa luta
para que os direitos humanos passe da utopia para a realidade, é liberá-los da ideologia
individualista burguesa que foi sua matriz original na formulação histórica moderna.
A nossa pretensão é arrojada. Estamos apenas iniciando um processo de
sensibilização e conscientização social da problemática que emerge da prostituição
infanto-juvenil e demais explorações das quais as crianças e adolescentes são vítimas. É
imprescindível que segmentos organizados da sociedade encontrem sua forma de agir e
interferir nesse processo. Seria utopia? Defendemos a idéia de que sem utopia não há
mudança. Sem transformações que impulsionem aos direitos humanos de todos e de
todas ficaremos neste estágio desumano da humanidade, no qual a barbárie é a grande
tônica.

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