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ENSAIOS FILOSÓFICOS

ROSA MENDONÇA DE BRITO

Manaus – 2014
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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ................................................................................................................... 3
NOTA INTRODUTÓRIA- Antonio Paim.......................................................................... 4

1 O PENSAMENTO FISOSÓFICO BRASILEIRO ............................................................ 6


2 KANTISMO E NEOKANTISMO NA MEDITAÇÃO BRASILEIRA .......................... 18
3 A TRAJETÓRIA DA FILOSOFIA DA CIÊNCIA NA ESCOLA
POLITÉCNICA DO RIO DE JANEIRO ......................................................................... 28
4 FORMAÇÃO E EVOLUÇÃO DAS CIÊNCIAS HUMANAS E SUA POSIÇÃO
ENTRE OS SABERES DA MODERNIDADE: UMA PERSPECTIVA
EM FOUCAULT ............................................................................................................ 41
5 HERMENÊUTICA: DE CÂNONE DE INTERPRETAÇÃO À
HERMENÊUTICA FILOSÓFICA .................................................................................. 57
6 ÉTICA E QUALIDADE DE ENSINO ........................................................................... 68
7 UMA PERSPECTIVA DO PROBLEMA EPISMOLÓGICO DA
COMPLEXIDADE EM EDGAR MORIN ........................................................................ 75
8 A INFLUÊNCIA DA FENOMENOLOGIA NA DIALÉTICA DAS
CONSCIÊNCIAS DE VICENTE FERREIRA DA SILVA ............................................ 85
9 O SISTEMA PANTITEISTA DE CUNHA SEIXAS ................................................... 109
10 REALIZAÇÃO DA LIBERDADE .............................................................................. 121
11 O REPUBLICANISMO DEMOCRÁTICO .................................................................. 133

REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 149


BIOGRAFIA DA AUTORA .................................................................................................. 151
109

O SISTEMA PANTITEISTA DE CUNHA SEIXAS

INTRODUÇÃO

José Maria da Cunha Seixas nasceu em Trevões, em 1836. Entrou para o


Seminário e o abandona mais tarde para dedicar-se ao estudo do Direito na
Universidade de Coimbra, colando grau em 1864. Companheiro de Antero de Quental
dirigiu com ele a publicação coimbrã "O Acadêmico" (1860). Em Lisboa, exerceu as
profissões de advogado e jornalista. Como jornalista colaborou para os jornais
Viriato (Viseu), Distrito de Beja (Beja), Acadêmico (Coimbra), Diário do Comércio,
Jornal de Lisboa, Gazeta de Portugal e Comércio de Portugal (Lisboa). Foi integrante
do Partido Histórico e professor de Filosofia no Instituto de Ensino Livre. Em 1878
concorreu para a docência do Curso Superior de Letras, sendo preterido por
Consiglieri Pedroso, discípulo de Teófilo Braga, em virtude de sua oposição ao
positivismo. Morreu em Lisboa em 1895.
Sua obra filosófica recolhida em livros, compreende: “A Fênix ou a
Imortalidade da Alma Humana” (1870); “Princípios Gerais de Filosofia da História”
(1878); “Galeria de Ciências Contemporâneas” (1878); “O Pantiteísmo na Arte”
(1883); “Ensaios de Crítica Filosófica” (1884); “Estudos de Literatura e Filosofia”
(1884); “Lucubrações Históricas” 1885); “Elementos de Moral” (1886); “Tratado de
Filosofia Elementar” (1887); “Princípios Gerais de Filosofia” (1897). Além destas,
publicou, também: “Estréias (Poemas e Ensaios” - 1864); “A Dotação do Culto e do
Clero Católico” (1866); “Fantasias de Amor” (1880); Teorias das Ações de Filiação
Ilegítima” (1883); “Elementos de Direito Público Constitucional” (1885); “Princípios
Elementares do Direito Civil Português” (1884).
O pensamento filosófico de Cunhas Seixas situa-se na primeira fase da
nova consideração da ideia de Deus e do conceito de razão a que se dedicaram os
pensadores portugueses na segunda metade do século XIX. Jus-filósofo, Cunha
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Seixas não limita a sua reflexão ao problema de Deus, à filosofia da religião e às


relações entre razão e fé, lança-se na ambiciosa empresa de construir um verdadeiro
sistema original cuja ideia central se encontra na afirmação: "Deus está em tudo".
Para Braz Teixeira, Cunha Seixas apresenta desde a sua primeira obra um
sistema filosófico perfeito e acabado, como um todo unitário e coerente que será
explicitado e desenvolvido ao longo do tempo. O objetivo primordial ou fim último
de Cunha Seixas era, no entender de Pinharanda Gomes, a estruturação do seu
sistema pantiteísta fundamentado através de uma síntese, por vezes problemática, de
idealismo platônico e de realismo aristotélico. Filósofo de linha biológica ao estilo de
Leibniz, e de algum modo oposto ao mecanismo cartesiano, Cunha Seixas opõe-se
radicalmente a todo materialismo que seja finalidade para si mesmo.

1 PENSAMENTO FILOSÓFICO DE CUNHA SEIXAS

1.1 O PANTITEÍSMO

Conforme Braz Teixeira, o pantiteísmo se apresenta como renovada


expressão do espiritualismo atento às conquistas das ciências do seu tempo e herdeiro
de toda uma linha de pensamento antigo e moderno que vem de Platão e Aristóteles a
Descartes, Malebranche, Leibniz e ao idealismo alemão. Situa-se, fundamentalmente,
por um lado, em relação ao krausismo e, por outro, em oposição ao positivismo, em
especial, ao de Teófilo Braga. É um repensamento dos primeiros princípios na
convergência e divergência do positivismo francês e do idealismo alemão. É um
espiritualismo e significa: "Deus em tudo", diferindo, por isso mesmo, do panteísmo
para quem "Tudo é Deus" e do Panenteísmo que afirma: "Tudo está em Deus".
Enquanto o panteísmo se caracteriza como um materialismo
espiritualizado identifica "Deus e matéria", e o Panenteísmo coloca Deus como
recipiente universal, como contentor da matéria, o Pantiteísmo, divergindo de ambos
e abraçando a tradição desde Aristóteles até Leibniz, pensa Deus como motor imóvel,
princípio e fim. Em tudo que existe Deus está, mas não se identifica com ele.
Segundo Pinharanda Gomes (1975, p. 16), “o sistema pantiteísta reflete as
preocupações do autor quanto às ciências e constitui um projeto metodológico e
epistemológico sem minorar a crença e a revelação como via Ontognoseológica".
Nele entende-se a filosofia como geradora das ciências, que uma vez autonomizadas,
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isolam a filosofia na situação de "ciência da unidade geral", isto é, a filosofia não é


mais o saber unificado, mas a unidade geradora das ciências.
Todo o sistema pantiteísta está fundado em três leis: a do ser, a da
manifestação e a da harmonia e encontra, segundo Seixas, defesa na psicologia, na
lógica e na ontologia. Como estas leis envolvem toda a História da Filosofia, elas fazem
parte de um novo sistema filosófico universal com aplicação a todos os ramos do saber
humano.
Para Cunha Seixas não há, na sua filosofia, elementos meramente ideais nem
a simples experiência. Há a combinação harmônica do real e do ideal, da fatalidade e da
liberdade, do corpo e do espírito. Sua filosofia não é determinista nem entende o
homem curvado ao império único das circunstâncias; ela não reconhece o progresso
retilíneo, de hora a hora, mas o progresso efetivo, real, certo e incontestável; ela é
espiritualista e honra-se de o ser, porque é sua convicção que também a humanidade o
é, nas suas feições, nas suas crenças, em seus mitos e legendas, em suas religiões, em
sua natureza moral; ela não desconhece fato algum, mas procura concatenar os
trabalhos humanitários, dando entrada a tudo que é real e verdadeiro. Não há
universalidade em leis experimentais, mas tão somente na metafísica, que abrange o
mundo, o homem e Deus.
Ao catalogar a História da Filosofia em quatro sistemas: Panteísmo,
Sensualismo, Conceptualismo e Espiritualismo, Cunha Seixas diz que o panteísmo,
embora admita a necessidade do infinito e do absoluto, confunde finito e infinito; o
sensualismo, baseando-se na finalidade, chega a um sistema irrevogável de pluralidades
inunificáveis pelo infinito; o conceptualismo que surge da confluência dos dois
anteriores, comete os mesmos erros.
O espiritualismo, no entanto, sendo um sistema sintético e postulante do
absoluto, aceita a realidade do mundo material sem renunciar ao mundo do espírito e,
por sobre ambos, a verdade divina. Por isso, cientificamente o pantiteísmo que é um
espiritualismo, é o sistema que forma a conjunção de todas as ciências exibindo as
determinações destas na permanência de seus princípios e na evolução infinita que lhes
compete, ou seja, exige uma síntese harmônica de leis universais sob a unidade do
absoluto.
No desenvolvimento de seu pantiteísmo Cunha Seixas opõe-se ao
positivismo e ao evolucionismo. Ao positivismo censura-lhe a falta de metafísica, a
falsa psicologia em que se funda; a confusão da alma com o cérebro, o materialismo
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fatal a que conduz necessariamente; a redução experimentalista, a lei dos três estados, a
concepção determinista e linear do progresso, e alguns pontos da moral e do direito, em
especial aos de Littrè, a falta de ideal humanitário, etc. Aos sistemas evolucionistas
opõe-se ao sem número de hipóteses de que partem e a falta de provas de grande parte
de suas infundadas suposições; o seu materialismo: o desconhecimento, em parte, das
leis ontológicas: o seu método meramente experimental.
No entendimento de Cunha Seixas a origem da filosofia está na Teoria do
Conhecimento que se desenvolve na metafísica pura (ontologia e teodicéia). Como a
filosofia tem por natureza abranger as leis gerais de todas as ciências e de
ser uma síntese de todos os conhecimentos humanos que tem por missão fornecer os
axiomas para todas as ciências, ela é a única que pode exercer a soberania e, por isso
mesmo, deve figurar como a primeira em tudo.
Como o pensamento e a subjetividade são o ponto de partida de todo o saber
e de toda a ciência, a matriz da filosofia é a gnoseologia e o seu núcleo essencial a
metafísica enquanto ciência das leis universais do ser (ontologia) e ciência do ser
supremo ou Deus (teodicéia).

1.2 ONTOGNOSEOLOGIA

Para Cunha Seixas, do ponto de vista subjetivo, o início do conhecimento


humano está no próprio pensamento; do ponto de vista objetivo, está na ideia de ser. Se
o conhecimento ou ciência é sempre um ato do espírito pensante, um ato subjetivo, o
seu ponto de partida deve estar não no sentimento ou na vontade (meros excitadores ou
motores do conhecimento) mas no próprio pensamento (leis da razão e axiomas). E,
como todo pensamento e todo juízo implicam a ideia de ser (pois afirmando ou negando
algo, pressupõe-se sempre o ser), tal ideia é também o necessário ponto de partida
objetivo do conhecimento humano. Por isso, não podemos avançar no caminho do
pensamento sem termos presente a ideia de ser; todos os nossos pensamentos aí
começam, todos os nossos juízos a envolvem.
Quando indagamos a respeito de algo, estamos tratando da sua existência,
por isso, a ideia metafísica de ser é o centro de todos os juízos e o nosso sinal de
verdade. Quando dizemos que uma coisa é ou não é, estamos tratando em qualquer dos
casos, da sua existência, mesmo que o juízo seja negativo. No entanto, a ideia de ser
como centro do juízo implica outra coisa cuja essência se deve procurar para que o
espírito realize a sua necessidade de unidade geral. Por isso, nos diz Seixas, sem a ideia
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de ser não se pode conceber o pensamento.


Mas o ser, sinal de verdade, implica o gerador, o fundamento, o centro dessa
verdade que deve ser independente das circunstâncias, perpétuo, eterno e imutável, pois
senão fosse, não poderia ser sinal de verdade, não sairíamos do relativo que careceria de
um centro que fosse superior. Por isso, afirma o pensador, se é certo que não há juízo
sem ser e que o ser é o sinal de verdade, que por isso mesmo deve ser absoluto, segue-
se que todos os juízos envolvem o absoluto. Assim. a ideia de ser que se apresenta
como elemento de juízo e sinal do absoluto, não envolve limitações.
Como a ideia de ser não envolve limitações e o infinito é a realidade de
todas as perfeições e importa o ser pleno, é ele (infinito) a primeira ideia e gerará a
ideia de finito.

Como lei, a ideia de infinito existe antes da de finito; como ideia, só


aparece no espírito em virtude dos seres finitos. Assim, como ideia abstrata
da razão, só aparece depois da ideia de finito, embora logicamente a ideia
de infinito governe a inteligência (mesmo inconscientemente) senão não
poderíamos formar a do finito já que é impossível pensarmos no finito sem
a presença da ideia do infinito (idem, 55).

Todas as obras humanas, no entender de Cunha Seixas, começam aos


poucos e vão se aperfeiçoando à medida que procuram a harmonia universal para
chegarem ao absoluto, ao infinito que é o mais alto pouso do nosso pensamento,
pois só nele repousa com segurança a nossa razão. No entanto, a divindade não se
revela ao homem rapidamente e em uma só intuição espontânea e imediata; o
homem só descobre as perfeições divinas através de incessantes lavores, através da
razão. O sentimento do infinito é o clarim que desperta o espírito e o faz marchar
para o combate; nessa luta constante, o belo, o justo, o bem vão sendo melhor
conhecidos e aplicados à vida social e cada vez mais o homem se
torna senhor do espaço e do tempo, progredindo sempre em sua marcha. Por isso, o
progresso é uma verdade física, filosófica e histórica; ele engrandece o homem e
dilata a liberdade; liga as gerações e os povos; é a expressão do indefinido valor do
homem e da humanidade.
As ideias como pressuposto e condição primeira do saber possível ao
homem são para Cunha Seixas, de três espécies distintas: experimentais, reflexivas
e racionais. Para ele, todo conhecimento se traduz num juízo, na afirmação,
explícita ou, implícita, de uma relação, que todo juízo é formado segundo três leis
(da substância, da manifestação e da harmonia) e desenvolve-se em três momentos:
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o primeiro corresponde à afirmação espontânea e intuitiva de um objeto, aprendido


concretamente na sua existência; no segundo, através da análise e reflexão, sobre a
noção intuitivamente recebida, inquire-se da sua natureza, dissociando-se,
classificam-se e distinguem-se os vários elementos que compõem o objeto,
enquanto no terceiro se realiza a síntese harmônica dos resultados da
abstração anterior e se integra cada ser no lugar que lhe cabe na ordem hierárquica
do real.
Assim, no primeiro momento encontramo-nos no domínio das ideias
experimentais, cuja origem se situa rios sentidos, ideias particulares e
contingentes, referidas a um objeto da natureza e dependentes das sensações,
variáveis de sujeito para sujeito e radicadas na crença intuitiva e espontânea, na
existência de algo alheio ao próprio espírito. O segundo grau do juízo processa-se
no plano das ideias reflexivas, de índole geral e abstrata, formadas a partir da
análise e da reflexão sobre os dados experimentais e intuitivos.
A síntese harmônica, terceiro momento, realiza-se ao nível das ideias
racionais ou ontológicas, inatas ao próprio espírito, universais, absolutas,
necessárias e invariáveis. Sendo justamente a natureza desta terceira ordem de
ideias que possibilita e garante o conhecimento, do mesmo modo que faz da
ontologia a ciência do ser nas suas mais gerais determinações.
Por isso, a primeira dessas ideias é a ideia de ser, na sua máxima
indeterminação, como princípio de identidade, de não contradição e do
terceiro excluído, como fundamento de todos os princípios ontológico-metafísicos
(pois que todo o juízo a envolve) como possibilidade, unidade, identidade,
existência e totalidade, critério de verdade e termo comum de todo juízo.
A primeira determinação da ideia de ser dá-se na sua consideração como
sujeito e base de qualidade, como substância. A consideração do eu, ser e
substância, como centro de atividade, conduz naturalmente à ideia de causa, a qual
leva, por sua vez, à de relação. Esta, considerada ora em termos de sucessão ou
simultaneidade, ora como contiguidade ou coexistência, abre via às ideias de tempo
e espaço, do mesmo modo que aponta ainda outro tipo de relação, a de grandeza.
Por outro lado, cada ser surge-nos dotado de certa finalidade específica,
decorrente de sua própria natureza, finalidade que se coordena com as dos outros
seres, dentro da ordem geral que preside ao mundo e em cuja realização consiste o
bem ou harmonia. Mas, assim como estas ideias são simultaneamente 'elementos
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do pensamento e da natureza, as leis que presidem ao conhecimento são de igual


modo as que comandam o domínio do ser. Assim, é também através de um
processo tríadico de ser, manifestação e harmonia, que a ordem ontológica se
desenvolve e concretiza, e a finalidade própria de cada ser se coordena
dinamicamente com a dos restantes, concorrendo para a realização dos mais altos
destinos do universo.
Cada ente configura-se, então, como algo de individualizado e dotado de
finalidade específica, como um infinito relativo, que, no seu movimento próprio, se
manifesta relacionando-se com todos os outros do seu gênero e, através dele, com a
ordem mais geral do ser.
A noção de ordem, por um lado, e a ideia dos seres como infinitos
relativos, por outro, conduzem o espírito à noção de um ser perfeito e absoluto que
tenha em si o seu próprio fim e que, na sua unidade e simplicidade, seja criador e
ordenador dos demais seres.

Como o finito não pode existir sem a sua causa geradora, e como o
infinito é a eternidade e a imensidade, segue-se que Deus está em tudo,
cedendo a todos os infinitos relativos a sua realidade e subsistência, ficando
sempre perfeitamente distinto, porque o eterno e imenso não se pode fundir
com o transitório e com o limitado. Movemo-nos, somos e vivemos em Deus,
participando da sua realidade sem confusão alguma (idem, p. 364).

Desta forma, no pensamento de Cunha Seixas, o vértice da escala dos seres


é ocupada pelo infinito absoluto, criador e ordenador do mundo; abaixo dele
encontram-se as ideias elementos, infinitos relativos, princípios constitutivos de todo
o ser, e cuja sede é o próprio absoluto, ideias que geram tudo o que existe, o qual se
agrupa, descendentemente, nas classes e subclasses que o mundo fenomenal da
natureza nos patenteia.

1.3 ANTROPOLOGIA

O exemplo mais acabado do dualismo pantiteísta ê o próprio ser do


homem, composto misterioso e admirável de duas substâncias distintas: uma, múltipla
e divisível, em perpétua transformação, domínio da extensão e da quantidade; a outra,
simples e una, imaterial e idêntica a si mesma, sede do sentimento, da reflexão e da
razão.
Na concepção teleológica própria do pantiteísmo, a natureza de cada ser
encontra-se pré-ordenada em função do seu fim específico no seio do universo,
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consistindo o destino particular de cada ente na realização da sua essência. Todos os


seres possuem uma certa natureza a que deve corresponder no pensamento criador um
certo fim. Por isso, a essência de cada ser indica o seu destino providencial, o seu
lugar no seio do universo. Cada um possui o seu alvo na sua própria ação.
Por isso, o destino ou fim do homem consiste na realização de sua própria
natureza, das suas faculdades, da sua essência em geral. Todavia, se o homem ocupa
um lugar no seio do universo e tem de viver dentro do mundo é necessário que o seu
fim esteja conforme a coexistência dos outros seres e do universo, devendo o seu
desenvolvimento ser harmônico e congruente à ordem universal.
Desta forma,

o destino do homem é o livre desenvolvimento, completo e harmônico da sua


natureza, considerada em si mesma em geral ainda nas tendências
particulares de cada indivíduo e no conjunto das relações com os outros seres
em geral, com a humanidade, e com Deus em especial (idem, 43).

Realizando o seu destino e desenvolvimento harmonicamente as suas


potencialidades, o homem alcança o seu bem, contribuindo dinamicamente para a
ordem universal. O bem se torna então a lei moral do homem, de cujo fiel
cumprimento vem a depender a realização do fim próprio do ser humano, a ponto de
poder dizer-se que este é o próprio bem. Este fim que decorre da essência do homem,
realiza-o a humanidade e alcança-o cada um de seus membros no seu viver, e no seu
agir, numa multiplicidade de sentidos e de planos harmônicos e complementares.
Assim, encontramos na atividade humana três zonas capitais: a primeira,
refere-se ao indivíduo enquanto tal, à sua conservação, à satisfação das suas
necessidades e à realização dos seus desejos (utilitária e estética); a segunda, refere -se
a coexistência social (jurídica e moral); e a terceira, à síntese harmônica da
individualidade com a sociedade, no plano dos mais altos fins da religião e do saber.
Coerente com o seu pluralismo a antropologia de Cunha Seixas afirma-se,
no entender de Braz Teixeira, decididamente personalística especialmente na teoria do
amor, no conceito de razão e na doutrina da imortalidade da alma.
Opondo-se com vigor tanto às concepções materialistas que fazem do amor
uma realidade meramente física, como ao idealismo platônico que vê no bem em geral
seu único objeto, Cunha Seixas afirma o caráter pessoal do amor, impulso generoso
para fundirmos o nosso ser noutro ser concreto e individualizado, que partindo da
atração ou encanto físico, do sentimento estético, se eleva à união das v ontades,
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libertando o homem do seu egoísmo e abrindo a sua alma à superior realidade do bem.
Mas não só no plano do sentimento o personalismo antropológico de Cunha
Seixas se afirma, diz Braz Teixeira. Para ele, também a razão, faculdade superior do
homem, pela qual este pode arrogar-se legitimamente o sublime títu10 de filho de
Deus, impessoal e divina, por ser dotada de verdades eternas, é igualmente pessoal,
não só porque em nós existe como ainda porque unicamente pelo exercício da reflexão
se nos patenteia os dados que nela se encontram.
No entanto, o personalismo do autor encontrará maior expressão no
tratamento do problema da imortalidade da alma. Entendendo que a alma imaterial é
simples e una, dirá que a sua vida não pode cessar após a morte do corpo, visto que a
morte é portadora da vida: correio de boa nova: condição de um futuro esplêndido,
estrela silenciosa que esconde em si mistérios inefáveis. O horror à morte denuncia
que ela é contrária à nossa natureza, por isso, nos deve inspirar a crença na
imortalidade. Ela é um trânsito, uma passagem necessária de um ponto conhecido para
outro desconhecido, e a vida imortal é necessária e inegável; é o pouso contínuo das
almas, é o desmentido solene a todas as negações e desordens do presente e do
passado.
A pessoa humana não pode morrer porque há nela uma grande força ínsita
que triunfa do nada. "E o poder que tem o espírito de descobrir as perfeições de Deus,
seria inútil sem a imortalidade. Por isso, não é a humanidade, mas a pessoa humana
que é imortal” (GOMES, 1975, p. 98).
A alma que habitou um corpo e com ele formou um ser individualizado e
distinto, não deixa este mundo despida da sua índole humana, diz Cunha Seixas, não
ascende ao seio da divindade como mero espírito abstrato, desligado em toda a sua
herança terrena: é a própria pessoa que com ela se eleva às ignotas regiões etéreas,
transportando consigo toda a sua história terrestre, a responsabilidade e a memória do
passado para sofrer ou gozar os efeitos do vício ou da virtude.
O homem, participando tanto da unidade e imaterialidade - divindade -
como da multiplicidade e divisibilidade - materialidade - encontra sua salvação no
desenvolvimento pantiteísta de quanto existe na multiplicidade. Por isso, só no ciclo da
história o homem se realiza como homem e alarga as esferas da vida e da civilização.
A realidade humana, diz o autor, é verdadeiramente independente do viver
em sociedade e/ou humanidade, pois a pessoa é o finito que tem consciência do
infinito. O homem salva-se com os outros, mas o princípio da salvação é ele mesmo.
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No conhecimento de si mesmo, aprendendo o ser dos outros, o homem vislumbra os


segredos da alteridade, e procurando relacionar-se com Deus, através dos outros,
através da tríade que, trina mas uma, corporiza a justiça (verdade, bondade e beleza).
Ao homem cabe realizar a sua parte no conhecimento e na comunicação do
que é verdadeiro, do que é belo e do que é bom, para que no exercício histórico consiga
a catarse filosófica e, em cada finita medida, logre vislumbrar a infinita inefabilidade,
que é justiça porque é verdade, e é verdade por ser justiça.

1.4 TEODICÉIA

Para Cunha Seixas, o problema da prova da existência de Deus se apresenta


vão e sem sentido. Deus revela-se constantemente ao homem através das leis da razão,
que estando em nós e manifestando-se na vida e na ordem universal tem a sua origem
no próprio espírito divino. Como Deus se revela a todo instante, é indispensável pedir
provas da sua existência; tal revelação é a prova inequívoca da sua existência.
Não sendo uma criação do espírito, mas exigência necessária da própria
realidade, sua essência só pode ser alcançada pelos dados da existência, por isso, o
instrumento mais correto para se chegar a ideia de Deus é a razão e não a crença.
Contudo, o conhecimento que o homem tem da natureza divina e seus atributos
infinitos é limitado e só os atingirá usando precários meios lógicos e partindo da
manifestação do infinito na realidade física.
Para Cunha Seixas nós vemos em Deus o gerador dos mundos, a unidade de
onde surge a existência de todos os seres; nós vemos nele a lei que está escrita no
universo.

Os céus revelam a glória de Deus porque obedecem a uma sabedoria


que se manifesta e que nos dá o sentimento de religiosidade que nos transporta
ao divino. Deus é para nós, por um lado, um ser que a todo momento
afirmamos, por outro, é um ser de natureza inteiramente impenetrável, cuja
essência nos está oculta. Todo ser que se deixa explicar, todo ser que se sujeita
à nossa análise é um ser limitado e, portanto, não é o ser supremo. Na natureza
de Deus nós não penetramos, apenas percebemos de alguns seus atributos que
servem de guia e luz para a ciência humana. Por isso, a incompreensibilidade
de Deus não é absoluta, mas é real! (idem, p. l03).

Assim, da natureza de Deus, que sempre nos queda oculta, sabemos tão
somente ser ele absoluto, onipotente e perfeito, imutável e uno. Se considerarmos a sua
manifestação na criação e nas leis do universo, alcançaremos saber que o seu atributo
fundamental é o ser infinito, da qual deduzimos a eternidade e a imensidade, a
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onisciência e a onipresença, a liberdade e a providência. Por fim, diz Cunha Seixas, se


atentarmos em que nele está a fonte da harmonia, que a conservação do universo e a
sua ordem espiritual nos tornam patentes, poderemos saber que os seus atributos
supremos são a verdade, a bondade e a beleza.
Mas se ideias são em Deus e estão em nós (pantiteísmo), o homem tem
realidade e avista outra realidade suprema que é Deus. Por isso, as provas da existência
de Deus, para Cunha Seixas, são trabalhos filosóficos para o sistema científico e não
uma demonstração, visto que a existência de Deus como princípio é de evidência
indemonstrável; a evidência impõe-se, não se demonstra.
No plano da Filosofia da Religião o pantiteísmo vai ainda mais longe. Além
de recusar o conteúdo sobrenatural ao cristianismo e negar a divindade de Jesus; de
considerar infundado do dogma da trindade, e falsas e figuradas as ideias de queda e de
pecado original, Cunha Seixas afirma a inferioridade da fé e da crença face ao
pensamento filosófico, ao mesmo tempo em que repele a noção de milagre em nome da
fixidez e permanência da ordem universal e da imutabilidade das suas leis, nas quais se
manifesta em infinita sabedoria do seu divino autor.
Para Cunha Seixas, Deus é causa primeira de tudo o que existe, e mesmo
não sendo possível saber como se manifestou, podemos postular uma identidade entre
ele e o mundo criado, representada pela existência ou ser, através da qual estabelece
uma ligação indeterminada entre o Absoluto e o universo, relação que a passagem dos
seres da simples possibilidade à realidade da existência dota da máxima determinação.
Assim, o mundo, como resultado da manifestação divina, é como que sua
sombra, na qual se projetam as idéias-elementos, matrizes de toda a criação. Deste
modo, o ser supremo, uno na sua natureza, revela-se múltiplo na sua manifestação e,
permanecendo uno e transcendente, está em todo o universo que nele existe e se
desenvolve dinamicamente, se bem que com ele não se identifique jamais.
Desta forma, imanência e transcendência conciliam-se sem se confundirem
nem se absorverem mutuamente, antes coordenando-se por via ascendente no seio de
uma unidade superior, fonte de todo o ser, todo o movimento e toda a harmonia.
A realidade é então, radicalmente, dual: de um lado, embora intimamente
unificada pela sua origem divina, manifesta-se-nos uma substância desconhecida, sob
a multiplicidade varia do fenômeno sensível e a pluralidade de formas coexistentes no
espaço; do outro, surge-nos a unidade incindível do espírito, o reino imaterial do
pensamento, da moral e da religião.
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CONCLUSÃO

O Pantiteísmo em Cunha Seixas é um espiritualismo guiado pelo


entendimento de que "Deus está em tudo", que ele é o motor imóvel, princípio e fim.
Em tudo que existe ele está, mas este tudo não se identifica com ele. Difere, portanto,
do panteísmo para quem "tudo é Deus" e do panenteísmo que afirma "tudo está em
Deus".
Ao postular o absoluto, não deixa de aceitar a realidade do mundo material
onde Deus se revela a todo instante, não existindo por isso mesmo a necessidade de
provar a sua existência, a sua revelação é a prova indispensável e inequívoca de sua
existência. Todavia, a divindade não se revela ao homem rapidamente, mas através de
uma evolução progressiva, através da razão, até atingir o belo, o justo e o bem
supremo, Deus.
Para o pantiteísmo de Seixas, somente na metafísica existe universalidade.
Ela abrange o mundo, o homem e Deus, como verbo do próprio Deus. Como ciência
da unidade geral, a filosofia pantiteísta é geradora das ciências e todo o seu sistema se
funda em três leis: a do ser, a da manifestação e da harmonia. Estas leis podem explicar
toda a ciência humana porque envolvem toda a História da Filosofia.
No pantiteísmo, o ponto de partida de todo o conhecimento humano do
ponto de vista subjetivo, é o pensamento e, do ponto de vista objetivo, a ideia de ser. E
as ideias como pressuposto e condição primeira do saber humano são de três espécies:
experimentais, reflexivas e racionais, sendo a natureza da terceira ordem de ideias que
possibilita e garante o conhecimento. A religião depende da filosofia e da ciência
porque o excesso de religiosidade nos afogaria em Deus.

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