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Dignidade da Pessoa Humana - Pensamento de Kant

Kant foi o primeiro teórico a reconhecer que ao homem não se pode


atribuir valor (assim entendido como preço), justamente na medida em que
deve ser considerado como um fim em si mesmo e em função da sua
autonomia enquanto ser racional.
É na liberdade inerente aos seres humanos, enquanto entes racionais
submetidos a leis morais, ou seja, na personalidade humana, que se funda
todo o sistema internacional de proteção aos direitos humanos, e é por essa
razão que se identifica na obra de Kant, o mais radical dos pensadores da
Modernidade, a base para a construção da contemporânea filosofia dos
direitos humanos.

O sistema internacional de proteção dos direitos humanos nada mais


é do que uma tentativa de restauração do paradigma da modernidade
jurídica diante da irrupção do fenômeno totalitário.
Por isso, a concepção kantiana a respeito da dignidade é essencial à
atribuição de significado jurídico ao termo e, logicamente, para a
determinação do sentido do alcance do princípio da dignidade da pessoa
humana.
Para Kant, a dignidade é o valor de que se reveste tudo aquilo que
não tem preço, ou seja, não é passível de ser substituído por um
equivalente.
Dessa forma, a dignidade é uma qualidade inerente aos seres
humanos enquanto entes morais: na medida em que exercem de forma
autônoma a sua razão prática, os seres humanos constroem distintas
personalidades humanas, cada uma delas absolutamente individual e
insubstituível.
Consequentemente, a dignidade é totalmente inseparável da
autonomia para o exercício da razão prática, e é por esse motivo que apenas
os seres humanos revestem-se de dignidade.

O grande legado do pensamento kantiano para a filosofia dos


direitos humanos, contudo, é a igualdade na atribuição da dignidade.

Na medida em que a liberdade no exercício da razão prática é o


único requisito para que um ente se revista de dignidade, e que todos os
seres humanos gozam dessa autonomia, tem-se que a condição humana é
o suporte fático necessário e suficiente à dignidade, independentemente de
qualquer tipo de reconhecimento social.
O pensamento kantiano acerca da dignidade da pessoa humana,
quando confrontado com suas concepções acerca das regras de direito,
parece não refletir com exatidão aquilo que hoje se entende como tal, ainda
que provavelmente por conta das circunstâncias de tempo e espaço em que
viveu o filósofo alemão.
Deve-se partir da premissa de que na "Fundamentação da
metafísica dos costumes" Kant visou à formulação de raciocínios no campo
da filosofia moral, para compreender como os seres humanos formulam seu
arcabouço axiológico, ainda que não dotado de coerção.
Valores
Já na "Doutrina do direito" Kant buscou demonstrar como e porque
devem ser formulados preceitos jurídicos, estes sim dotados de coerção
para viabilizar a convivência social.

Kant, negando o fundamento metafísico de todas as morais


transcendentes, tira a regra moral da vontade autônoma dos homens.
Assim, segundo ele, a moral procede apenas da ‘voz interior’ de
cada qual e não de um mandamento exterior, enquanto o direito é uma
regra de vida traçada e aplicada sob a coerção social.
Do mesmo modo, para Kant, o direito se interessaria apenas pelas
ações, pelo ‘foro exterior’, e não pelos móbeis que as inspiram, ao passo
que a moral só se concentraria nas intenções e nos motivos do homem, em
seu ‘foro interior’ e não em suas ações.
Há, no entanto, no universo kantiano, uma separação de caráter
meramente formal entre moral e direito, já que essencialmente idênticos os
seus fundamentos, que se resumem na autonomia racional.

Pois, na teoria kantiana, processa-se a separação entre direito e


moral, sob o prisma formal e não material, isto é, a distinção depende do
motivo pelo qual se cumpre a norma jurídica ou moral. No ato moral, o ato
só pode ser a própria idéia do dever, mesmo que seja diretamente dever
jurídico e só indiretamente dever moral. Porém, no mesmo ato jurídico, o
motivo de agir pode ser, além do motivo moral de cumprir o dever, o da
aversão à sanção, seja ela pena corporal ou pecuniária. Kant identifica o
direito com o poder de constranger.

Para o jusnaturalismo de Kant, sendo racional e livre, o homem é


capaz de impor a si mesmo normas de conduta, designadas por normas
éticas, válidas para todos os seres racionais que, por sua racionalidade, são
fins em si e não meios a serviço de outros.
Logo, a norma básica de conduta moral que o homem se pode
prescrever é que em tudo o que faz deve sempre tratar a si mesmo e a seus
semelhantes como fim e nunca como meio.

Aplicada à conveniência jurídico-social, essa norma moral básica


transmuda-se em norma de direito natural.
Noma é feita para reprimir
O homem não precisa mais temer a Deus porque passam a existir leis que
punem

A obediência do homem à sua própria vontade livre e autônoma


constitui, para Kant, a essência da moral e do direito natural.
As normas jurídicas, para tal concepção, serão de direito natural, se
sua obrigatoriedade for cognoscível pela razão pura, independente de lei
externa ou de direito positivo, se dependerem, para obrigarem, de lei
Que pode ser conhecido
externa.
Mas, nesta hipótese, deve-se pressupor uma lei natural, de ordem
ética, que justifique a autoridade do legislador, ou seja, o seu direito de
obrigar outrem por simples decisão de sua vontade.

Tal lei natural, que é o princípio de todo direito, deriva da liberdade


humana, reconhecida por intermédio do imperativo moral categórico.

Ainda que essencialmente idênticos os pilares do universo moral e do


universo jurídico para Kant, a constatação de que, em matéria de dignidade
da pessoa humana, nem sempre se mostram afinadas a "Fundamentação da
metafísica dos costumes" e a "Doutrina do direito", se mostra instigante.

Serve a sua análise, pois, à revisão das bases teóricas do princípio da


dignidade da pessoa humana, tendo por premissa o sempre oportuno
reconhecimento da primazia do ser humano para o universo jurídico, como
acentua MIGUEL REALE, ao dizer que “a pessoa humana é o valor-fonte de
Conceito original de felicidade é bem estar social
todos os valores.
O homem, como ser natural biopsíquico, é apenas um indivíduo entre
outros indivíduos, um animal entre os demais da mesma espécie.
O homem, considerando na sua objetividade espiritual, enquanto ser
que só se realiza no sentido de seu dever ser, é o que chamamos de pessoa.
Só o homem possui a dignidade originária de ser enquanto deve ser,
pondo-se como razão determinante do processo histórico.”

Kant dizia: "Sê uma pessoa e respeita os demais como pessoas", dando
ao mandamento a força de um imperativo categórico, de máxima
fundamental de sua Ética, estava reconhecendo na pessoa o valor por
excelência.