Você está na página 1de 15

FUNÇÕES DO AUXILIAR DE ENSINO NAS UNIDADES ESCOLARES DO

MUNICÍPIO DE SÃO JOSÉ – SANTA CARTARINA

ZOTTI, Josiane Daniela¹


MARTINI, Viviane²
CAMPOS, Simone Ballmann de³

RESUMO

Este trabalho diz respeito ao estudo das principais atribuições do auxiliar de ensino dentro
da política educacional, bem como seus objetivos e os recursos utilizados para
alcançá-los. Esclarece as principais dúvidas a respeito da real atividade
exercida por este profissional, muitas vezes mal aproveitado, através de uma
análise simplificada de sua estruturação mediante as atividades por ele
exercidas, dando ênfase a questões de currículo, relacionadas com o nível de
formação acadêmica e do emprego da afetividade. Concluímos que sozinho
suas atividades em sala de aula não são suficientes para alcançar os objetivos.
O presente estudo possibilitou a constatação, que a intervenção do corpo
docente da escola se faz necessária no sentido de regular os conteúdos por ele
aplicados ao currículo trabalhado pelos professores regentes.

Palavras-chave: Auxiliar de Ensino- Profissionais da Educação Básica- Gestão


Educacional- Educação Socioemocional.

ABSTRACT

This paper concerns the study of the main attributions of the teaching assistant within the
educational policy, as well as its objectives and the resources used to achieve them.
Clarifies the main doubts about the real activity performed by this professional, often
misused, through a simplified analysis of its structure through the activities performed by
him, emphasizing curriculum issues related to the level of academic education and
employment of affectivity. We conclude that your classroom activities alone are not
sufficient to achieve the objectives. The present study made possible the observation that
the intervention of the school faculty is necessary in order to regulate the contents applied
by it to the curriculum worked by the teachers.
1. INTRODUÇÃO

Qual será o papel do auxiliar de ensino para a diminuição do fracasso escolar?


Sabemos que certas crianças dos meios populares alcançam sucesso nos estudos, apesar de
pesquisas, como as de Bourdieu & Passeron (2014) identificarem a interferência que a
classe social tem sobre a formação acadêmica.
Muito já se escreveu sobre a questão do fracasso escolar, muitas são as teorias e
opiniões de senso comum. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em
2017, expressa uma abordagem por competências e habilidades, defendendo a formação de
um estudante que aprenda a aprender continuamente, desenvolva o entusiasmo pela vida,
interaja, fazendo conexões dos conhecimentos teóricos em suas vivências, sendo capaz de
construir valores claros e éticos.

[...] incapaz de perceber a singularidade, não entende que aprender é sempre


aprender com outros, pois as estruturas e pensamentos não são mais do que
corpos que se interiorizam, afeições que se tornam estáveis, nos impõem um
certo modelo de fechamento de abertura diante do mundo. [...] A tarefa do
pedagogo é formar sensibilidades e para isso, deve passar da razão teórica à
razão sensorial [...] A separação entre razão e emoção é produto do analfabetismo
afetivo a que nos levaram um império burocrático e generalizador que
desconhece por completo a dinâmica dos processos singulares [...] (RESPRETO;
2003, p. 33-37).

Educar é fazer escolhas, guiando-nos através da ética. Neste percurso, acreditamos


que seja necessário que os auxiliares escolares construam relações de afetividade com os
alunos, conhecendo o meio em que vivem, para podermos apresentar uma melhor
organização de nossa prática educativa, com a escolha das metodologias e métodos
adequados à identidade da escola e dos conteúdos, procurando formar de alunos críticos e
que possam contribuir para com a comunidade em que vivem. Desta forma, procuramos
esclarecer questões básicas do planejamento e suas perspectivas, para que realmente o
auxiliar de ensino, como professor no seu fazer pedagógico, não se distancie das
peculiaridades da escola e da importância do trabalho coletivo.
Para atingir as metas citadas anteriormente, torna-se necessário que tal profissional
de ensino possua formação e experiência acadêmica, pois a sua atuação ocorre em vários
níveis do magistério, bem como em diversas áreas do conhecimento. E, ainda, acesso ao
planejamento dos professores titulares. A partir disso, será possível a interação, para a
continuidade do processo ensino-aprendizagem.
Citamos como referência, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC. BRASIL,
2017), que solicita aos educadores de cada localidade que, para a incorporação da mesma ,
haja a análise e comparação daquilo que é proposto no currículo em uso e o que consta no
documento nacional para, na sequência, que a (re)elaboração desse documento manter o
que há de bom na prática vigente e, se preciso, aprimorá-la, cuidando para que as
características culturais, socioambientais e econômicas da localidade estejam
contempladas. Além disso, ao basear-se em uma abordagem de desenvolvimento de
competências e habilidades, requer um novo olhar sobre o ser e o fazer pedagógico
(BNCC, 2018, p.13).
Porém, na maioria das situações cotidianas o auxiliar de ensino quando entra em
sala de aula não dispõe do conteúdo planejado pelo professor, nem do seu planejamento
anual, o que torna difícil sua atuação.
Este trabalho diz respeito ao estudo das habilidades e competências do auxiliar de
ensino dentro da política educacional do município de São José. As atividades exercidas
por este profissional, muitas vezes mal aproveitado, foram aqui colocadas, através de uma
análise simplificada de sua estruturação, dando ênfase a questões de currículo, relacionadas
com o nível de formação acadêmica e do emprego da afetividade.
Agregado ao fato de que suas interferências diretas com os alunos são periódicas e
sem continuidade, será tratada ainda a questão do ERER (Ensino das Relações Étnico
Raciais), Programa da Secretaria de Educação de São José que, assim como a Educação, é
um processo em constante construção, aberto a reflexões, debates e reformulações. Tal
programa, direcionado aos auxiliares de ensino, busca utilizar de conexão e coerência entre
prática e teoria, promovendo valores que promovam o fortalecimento dos indivíduos, da
coletividade e da Instituição.
Devemos estar abertos às mudanças necessárias, que por vezes veladamente são
racistas. Promover uma reflexão de todo processo histórico-social, questionar nossa
posição, com relação ao racismo, rompendo barreiras obre a realidade africana e afro-
brasileira, afirmando nossa memória e identidade, através das manifestações culturais, que
no passado e no presente representam uma forma de resistência.
Assim, este trabalho teve caráter essencialmente qualitativo, com ênfase na
observação, estudo documental e bibliográfico, para investigar dentro da política
educacional de São José, quais são as habilidades e competências do Auxiliar de ensino.
Simultaneamente, para efetivar o objetivo de elencarmos as funções do auxiliar de ensino,
a necessidade de regular os conteúdos aplicados, e inferir a importância do nível de
formação acadêmica dos mesmos, utilizamos a coleta de dados através de entrevistas com
auxiliares de três escolas da Rede Municipal de Ensino de São José.
Dando suporte aos procedimentos de coleta de dados, foi elaborada uma pesquisa
bibliográfica, utilizando como referência artigos de revistas acadêmicas, legislações
vigentes, como a BNCC, e diversos autores, dentre os quais destacamos: Nóvoa, Charlot,
Chakur e Tardif. A partir de tais estudos, foi elaborada entrevista organizadas em três
categorias de análise relação de aprendizagem entre os alunos e o auxiliar; as atividades do
auxiliar de ensino no cotidiano escolar a parceria com a gestão e o corpo docente,

2. HISTÓRICO DAS FUNÇÕES DO AUXILIAR DE ENSINO NAS UNIDADES


ESCOLARES DO MUNICÍPIO DE SÃO JOSÉ – SANTA CARTARINA

A escolaridade mínima necessária para ocupar o cargo de Auxiliar de Ensino é o


Curso de Magistério, com habilitação específica na área de atuação ou Licenciatura Plena
em Pedagogia, com habilitação específica na área de atuação, com carga horária de 20 ou
40 horas semanais.
De acordo com o Departamento de Administração Escolar da Secretária
Municipal de Educação, em seu texto sobre Cargos e Atribuições do Auxiliar de Ensino, o
qual deve atuar em atividades, programas e projetos educacionais, cooperando com o corpo
docente, técnico e administrativo, em atividades relacionadas ao planejamento, execução e
avaliação do processo ensino-aprendizagem, objetivando aprimorar a qualidade do ensino,
colaborando para o acesso e permanência do aluno na escola.
Em São José-SC, a Lei Municipal Nº 4422, de 11/01/2006, estabelece as diretrizes
e cria o Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração do Magistério da Administração Direta
do Município de São José e tem por objetivo estruturar o Quadro de Pessoal do Magistério
Público. Ela apresenta a constituição dos cargos de provimento efetivo que passaram a
constituir o Grupo Magistério, como um todo, inseridos nas três categorias funcionais:
docente, especialistas em assuntos educacionais e apoio pedagógico.
Em seu inciso III, a referida lei regulamenta a função de Auxiliar de Ensino, “[...]
Apoio pedagógico: abrangendo os cargos de provimento efetivo de: Auxiliar de Ensino,
Auxiliar de Sala. A partir dela se estabelecem normas de enquadramento e tabela de
vencimentos. No que se refere à função de Auxiliar de Ensino, especifica as seguintes
atribuições:
 Substituir o professor, no caso de ausência;
 Planejar as atividades pedagógicas de forma articulada com a proposta de
escola, objetivando a realização de suas aulas de substituição;
 Auxiliar os professores e a equipe pedagógica da unidade escolar no
planejamento, execução e avaliação do processo ensino-aprendizagem;
 Participar e contribuir nos conselhos de classe, reuniões pedagógicas e
administrativas, estudos, programa e projetos que a escola promova;
 Confeccionar e ajudar na elaboração de materiais didático-pedagógicos em
consonância com a prática desenvolvida na sala de aula;
 Colaborar com a administração escolar e a equipe pedagógica na
organização e operacionalização de trabalhos imprescindíveis à organização
da unidade escolar, quando da não substituição do professor;
 Colaborar com os professores e a equipe pedagógica da escola na
organização e preenchimento de documentos da escola e dos alunos;
 Auxiliar o professor, quando solicitado, no desenvolvimento de atividades
em sala de aula e no interior ou fora da escola;
 Executar outras atividades compatíveis com o cargo;
 Participar do processo de formação continuada promovido pela unidade
escolar e Secretaria Municipal de Educação. (SÃO JOSÉ, 2006, Lei n. 4422,
Inc. III).

Assim, percebemos que a legislação vigente no município de São José prevê que o
auxiliar de ensino tenha como principal função, substituir professores faltantes e nos
demais afazeres pedagógicos da instituição de ensino, em que esteja locado. Contudo, nem
todas as funções por eles exercidas estão claramente elencadas, pois cada instituição lhes
atribui afazeres que vão desde atividades na secretaria, cuidar dos alunos durante o
intervalo, encaminhamento de bilhetes, entre outros.

2.1 A PRÁTICA DOCENTE: FORMAÇÃO EM SERVIÇO

Em seu artigo “Para uma formação de professores construída dentro da profissão”,


Nóvoa (2017) procura identificar de forma simples cinco características que definem o
bom professor, são elas: conhecimento, cultura profissional, tato pedagógico, trabalho em
equipe e compromisso social.
O autor ressalta a importância do trabalho em equipe, que abrilhanta os projetos
interdisciplinares dentro da escola, assim como a importância das temáticas direcionadas às
vivências dos alunos, o qual aumenta a capacidade de relação e de comunicação entre
docentes e discentes.
Ele advoga a favor da articulação das dinâmicas de formação continuada, que sejam
construídas dentro da profissão, combinando contributos científicos, pedagógicos e
técnicos, tendo como mola mestra de apoio os próprios professores, principalmente os mais
experientes, que devem ter participação na formação dos mais jovens. Em continuidade,
afirma que assim poderemos enriquecer nossa prática tão empobrecida mediante discursos
que repetem conceitos e não apresentam propostas para a mudança deste que é um círculo
vicioso e que em nada ajuda para a formação dos professores. Sugere, com isso:

[...] a importância de conceber a formação de professores num contexto de


responsabilidade profissional, sugerindo uma atenção constante à necessidade de
mudanças nas rotinas de trabalho, pessoais, coletivas ou organizacionais. A
inovação é um elemento central do próprio processo de formação. (NÓVOA,
2017, p.5)

Deve ter a formação de professores a inserção num contexto de responsabilidade


profissional, em constante mudança das rotinas, tendo a inovação como elemento principal
do próprio processo de formação.
Chakur (2000), por sua vez, em seu artigo Profissionalização docente: a necessária
valorização do papel de professor, cita algumas condutas, atitudes e habilidades que
parecem centrais ao papel do professor como, ter habilidades técnico-pedagógicas, saber
seus objetivos e métodos avaliativos; competência em habilidades psicopedagógicas,
sabendo interagir com gerações que não são a dele; ter responsabilidade social, pois as
transformações sociais que levem a superar as nossas desigualdades; ser engajado na rotina
institucional; e investir na própria formação, que é fundamental.
O professor precisa estar em constante capacitação, não pode parar no tempo,
porque escola e alunos não o fazem. Com essa busca por saberes provenientes de várias
fontes, pode o professor alcançar os objetivos delimitados pelo currículo na medida em que
sejam capazes de julgar sua formação ao longo da carreira. Os saberes práticos brotam da
experiência e são por ela validados, e incorporam-se à experiência individual e coletiva sob
a forma de habitus e habilidades, de saber-fazer e de saber-ser (TARDIF, 2002, p.33).

2.2 RELAÇÕES DE APRENDIZAGEM COM FOCO NA AFETIVIDADE,


MOBILIZAÇÃO, ATIVIDADE E SENTIDO.

Em seu livro, “Da relação com o saber - Elementos para uma teoria”, Bernard
Charlot (2000), aborda a questão do fracasso escolar, na perspectiva da relação com o saber
e a escola, na qual sustenta a relação do saber com questões tratadas em termos de fracasso
escolar, origem social, ou até deficiências socioculturais. O autor afirma que o fracasso
escolar é um objeto sociomidiático, pois não pode ser considerado tal qual um objeto de
pesquisa, já que deve considerar as diferenças entre as posições sociais ao analisá-lo.
Para ele (CHARLOT, 2000), a noção de fracasso escolar é utilizada para exprimir
tanto a reprovação em uma determinada série, quando a não aquisição de certos
conhecimentos ou competências. Esta afirmação nos remete ao aprendizado em si, à
eficácia dos docentes, à forma como o serviço público é oferecido à população, à
desigualdade de chances, ao investimento em educação por parte do governo. O fracasso
escolar não é um objeto analisável. Esses alunos, situações e histórias que devem ser
analisados, com suas singularidades. Pois o fracasso escolar é uma diferença: alunos,
currículos, estabelecimentos, etc. Quando utilizam-se dados estatísticos, a posição social
torna-se a origem e a diferença é vista como falta, porém, o fracasso escolar “também é
uma experiência que o aluno vive e interpreta e que pode constituir-se em “objeto de
pesquisa”.
Por isso, ainda segundo o autor (CHARLOT, 2000), cabe ao pesquisador
aproximar-se dos fenômenos a serem estudados, sempre voltando aos fundamentos:
descrever e escutar, mas também conceituar e teorizar.

Essa análise, porém, se defronta com uma dificuldade particular: a noção de


fracasso escolar remete para fenômenos designados por uma ausência, uma
recusa, uma transgressão – ausência de resultados, de saberes, de competência,
transgressão das regras... O fracasso escolar é “não ter”, “não ser”. Como pensar
aquilo que não é? Não se pode fazê-lo diretamente, pois é impossível pensar o
não-ser. Mas se pode fazer isso indiretamente. São maneiras de “traduzir” o
fracasso escolar para poder pensá-lo.(CHARLOT, 2000, p.17)

Como para muitos sociólogos explicar o fracasso escolar é explicar às vezes, como
os alunos são levados a ocupar essa ou aquela posição no espaço escolar, há uma
imposição progressiva da “leitura negativa” do fracasso escolar, e de uma forma mais
geral, da escolaridade das crianças das famílias de categorias populares.
De acordo com Charlot (2000), se na obra de Bourdieu, essa abordagem encontra
sua forma mais acabada: as diferenças de posições sociais dos pais correspondem à
diferenças de posições escolares dos filhos e, mais tarde, suas diferenças de posições
sociais, mostram a homologia de estrutura entre sistemas e diferenças, a posição a criança
se constrói ao longo de sua história e é singular, irmãos criados dentro da mesma família,
na mesma posição social, podem ter resultados diferenciados, de acordo com o conjunto
das suas relações de vivências e de mundo que se constroem. Não basta a posição social,
deve-se questionar o significado que a eles conferem essa posição e o conjunto de práticas
familiares dos pais e dos filhos, ou seja, das regras que regem essas atividades.
O fracasso escolar pode ter a ver com a origem social, mas não é necessariamente
produzido por ele, se faz necessário através da pesquisa criar para esses, enunciados claros
e rigorosos, pois a “deficiência sociocultural” não é um fato mas sim uma construção
teórica para interpretar o que está ocorrendo ou não, arraigada na experiência profissional
dos docentes, interpretada à luz de seus interesses ideológicos.
Uma leitura negativa é a forma como as categorias dominantes veem as dominadas,
de forma exclusiva. Praticar uma leitura positiva, nos faz considerar que todo o indivíduo
é, um “sujeito”.
O aluno é um “sujeito” aberto a um mundo que não se reduz ao aqui e agora, um
ser social que nasce e cresce em uma família, ocupando uma posição em um espaço social,
é singular, se produz e é produzido através da educação.
Nesse ínterim, segundo Charlot (2000), Durkhein pensava em um psiquismo
analisado em referência à sociedade e não ao sujeito (representações coletivas). Bourdieu
tratava de posições sociais e agentes sociais e não permitia pensar a experiência escolar. Já
Dubet identificou que o sujeito não pode ser um objeto direto de análise sociológica,
construindo uma teoria da subjetividade que procura abrir mão da noção de sujeito.

O sujeito é um ser singular dotado de um psiquismo regido por uma lógica


específica, mas também é um indivíduo que ocupa uma posição na sociedade e
que está inserido em relações sociais. (CHARLOT,2000, p.42,43 e 45)

Para a sociedade o saber deve ser reconhecido pela comunidade cientifica, se não o
saber se torna frágil, não ocorre uma educação intelectual e sim acumulação de conteúdo
intelectual, sem ser puramente cognitivo e didático, propiciando prazer e renúncia, consigo
e com o mundo e com os outros.
Qual é o tipo de relação com o mundo e com o saber que a escola deve ajudar a
construir para utilizar suas potencialidades, já que nem sempre o aprender tem o mesmo
sentido para os docentes e para os alunos? O auxiliar de ensino pode intermediar as
relações de saber através do respeito a individualidade de cada aluno, demonstrando que
todos temos capacidade de desenvolvermos nossas competências e habilidades.
Observando as inter-relações naturais do grupo, essenciais para a sua manutenção,
buscando utilizar atividades que condizem com a realidade do grupo, em uma relação com
o mundo de forma prática.
...Não há sujeito de saber e não há saber em uma certa relação
com o mundo, que vem a ser, ao mesmo tempo e por isso
mesmo, uma relação como saber. Essa relação com o mundo é
também relação consigo mesmo e ralação com os outros. Implica
uma forma de atividade e, acrescentarei uma relação com a
linguagem e uma relação com o tempo.
(CHARLOT,2000, p.63)
2.3 O AUXILIAR DE ENSINO

A comunidade escolar, que deveria ser um ponto de apoio, entre si e para o futuro
dos alunos, por vezes faz o papel contrário. Dentro da pratica educacional, devemos
utilizar os objetivos e os recursos do currículo para realmente apoiarmos nossos colegas e
por consequência nossos alunos, trazendo as famílias para dentro das escolas. Para isso a
formação do Conselho Escolar deve ser feita de forma a estimular os grupos de alunos,
pais e professores, a participarem ativamente do controle e desenvolvimento educacional.
É necessário, um olhar mais afetivo e empático por parte dos educadores entre si e
para si. Não podendo achar que sua formação pedagógica e/ou experiência profissional, ou
sua função, são os únicos fatores que compõem o sucesso de uma unidade escolar. Um
ótimo currículo profissional, que acompanha também os auxiliares de ensino, não retrata o
fato de que nós educadores, também somos reflexo de nossas vivências, que junto com
nossas questões familiares, alteram a forma de como vemos o mundo e são por nós,
reproduzidas em sala de aula.
Salientamos então que um olhar terno e amoroso para conosco e com o outro serve
como uma ferramenta essencial para o bem-estar coletivo. Devemos propiciar formas de
instigar o interesse, a apreensão, a compreensão, a apropriação dos “saberes” de acordo
com essas vivências e as particularidades de cada um.
Quando as expectativas em relação à educação não são cumpridas entre alunos,
educadores e família, ocorrem diálogos árduos e muitas vezes, sem retorno. Tais
instituições precisam assumir as responsabilidades que lhes cabe, no sentido de garantir
que a aprendizagem aconteça numa educação voltada para o exercício ético da democracia
e da cidadania.
Dentro desse contexto o ERER busca trazer entendimento sobre um tema fácil de
ser tratado, porem difícil de ser executado didaticamente em sala de aula. Apesar de que
auxiliares de ensino não tem acesso continuo em todas as turmas, os estudos desenvolvidos
dentro das capacitações estão ano a ano, dissolvendo uma gama de atitudes e falas, a tanto
tempo estabelecidas como normas e sem más intenções.
A historicidade que construiu o preconceito étnico-racial que vivenciamos hoje, é
capaz de nos mudar de dentro para fora, de nos colocarmos realmente no lugar do outro, ou
no mínimo de termos a certeza de que a dor do outro não precisa ser a nossa para merecer
ser respeitada, cuidada e dissolvida através da mudanças de padrões comportamentais.
No Bairro Forquilhinhas, na cidade de São José, está sendo criado um projeto que
propõe a implantação de atividades para os alunos como a Biodanza. Partindo de uma
abordagem fenomenológica, a Biodanza, enquanto sistema de integração humana,
contextualiza com os aspectos históricos e sociais que permeiam sua origem, bem como a
reflexão sobre seus conceitos fundamentais: dança, movimento integrativo, vivência,
princípio biocêntrico, inconsciente vital, contato. O intuito é que alunos voluntários se
apoderem através do compartilhar, momentos de crescimento e autoconhecimento.

1. CARACTERIZAÇÃO DO CONTEXTO E METODOLOGIA DA PESQUISA

Foi utilizado em nosso artigo o método de pesquisa descritiva com a finalidade de


analisar as habilidades e competências do auxiliar de ensino. Isso se deu através de um
estudo profundo das leis que denominam sua função, partindo de uma revisão bibliográfica
composta pelos principais autores sobre gestão. Tivemos por finalidade verificar o que é
preconizado legalmente e, a partir disto, sugerir diretrizes para o trabalho deste profissional
diante do período vivido e da emergência da BNCC.
Para isso, a pesquisa foi baseada em estudos de autores como José Carlos Libâneo,
João Ferreira de Oliveira, Mirza Seabra Toschi, Luis Carlos Respetro, entre outros
pensadores que elaboraram trabalhos pertinentes ao assunto. Partimos dos parâmetros
legais apresentados pela Secretaria de Educação de São José, o Projeto Político Pedagógico
da Instituição Municipal de Ensino de São José, denominada de Escola S, para resguardar a
sua identidade. O trabalho buscou compreender todo o trabalho que os mesmos realizam,
assim como a importância que possuem para a construção do saber pedagógico.
Foi necessária uma pesquisa documental: na Legislação de São José, na Proposta
Curricular de São José e, ocasionalmente, entrevistas com os responsáveis pelos setores da
educação que com eles trabalham direta ou indiretamente, como parte do processo de
construção do perfil dos mesmos, de maneira que foram entrevistas pessoas, entre diretores
e auxiliares de ensino.
De acordo com Rosa e Arnoldi (2006) e Luna (1988, p.71) a entrevista dentro da
pesquisa, consiste em um instrumento de investigação e análise de dados.

O termo entrevista é construído a partir de duas palavras, entre e vista. Vista


refere-se ao ato de ver, ter preocupação com algo. Entre indica relação de lugar
ou estado no espaço que separa duas pessoas ou coisas. Portanto, o termo
entrevista refere-se ao ato de perceber realizado entre duas pessoas.
RICHARDSON (1999, p 207)
Os entrevistados foram denominados como E1, E2 e E3 para manter sigilo sobre
sua identidade.
O estudo teve caráter essencialmente qualitativo, com ênfase na observação
e estudo documental. Ao mesmo tempo, foi realizado o cruzamento dos levantamentos
com toda a pesquisa bibliográfica já feita e outras que apresentam significativa importância
na definição e construção das funções desse profissional, através dos estudados em fontes
secundárias como trabalhos acadêmicos, artigos, livros, entrevistas, aqui selecionados.
O método de pesquisa escolhido favorece uma liberdade na análise de se mover por
diversos caminhos do conhecimento, possibilitando assumir várias posições no decorrer do
percurso, não obrigando a se atribuir uma resposta única e universal, a respeito do objeto.
A pesquisa documental, mais presente em trabalhos das áreas humanas, faz-se necessária
para embasar esse trabalho.
Gil (2008), conceitua a Pesquisa Documental como sendo muito parecida com a
pesquisa bibliográfica. A diferença, segundo ele, está na natureza das fontes, pois a forma
vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou ainda podem ser
reelaborados de acordo com os objetos da pesquisa.
Isso se deu, de uma seleção bibliográfica criteriosa, levando-se em conta a
confiabilidade das fontes, pois ainda não se encontra quase nenhuma análise sobre as
informações referentes ao auxiliar de ensino.

4. ANALISES E RESULTADOS

A partir das entrevistas e dos nossos registros sobre as atividades realizadas na


função de auxiliar de ensino no município de São José, elegemos três categorias de análise
neste estudo, na procura por responder os objetivos elencados na pesquisa, como segue:
a) As atividades do auxiliar de ensino no cotidiano; b) Parceria entre a gestão e o corpo
docente: relações necessárias; e c) Relações de aprendizagem entre os alunos e o auxiliar
de ensino: em busca de avanços na aprendizagem.

a) As atividades do auxiliar de ensino no cotidiano.

A referida função existe de acordo com uma necessidade principal, “substituir


professores faltantes”. Não queremos de forma alguma, julgar tais falas, mesmo porque a
maioria não percebe a falta que o mesmo faz. Podem ser retratadas discrepâncias a respeito
das questões educacionais com relação às atividades exercidas por vários profissionais nas
instituições de ensino, não somente do auxiliar de ensino, através de uma análise de suas
estruturações e mediante as atividades por eles exercidas.
Para isso, foi feito o levantamento e análise dos auxiliares de ensino, relacionando o
trabalho que desenvolvem com as necessidades dos centros educacionais, do corpo docente
e dos alunos.

b) Parceria entre a gestão e o corpo docente: relações necessárias.

De acordo com nossas leituras e, ainda, com a experiência profissional como


professoras e auxiliares de ensino, consideramos importante uma revisão das atividades
exercidas pelos referidos profissionais.
Assim, se o objetivo é ter uma continuidade nos conteúdos, a falta de acesso aos
planejamentos dos professores regentes, inibe sua execução. Porém, se houver uma troca
entre professores titulares e auxiliares o progresso contínuo dos alunos será mantido.
É importante acrescentarmos que o aluno espera que suas atividades tenham peso
de avaliação, muitos questionam se a atividade proposta pelos auxiliares será computada
como nota pelo professor regente.
Particularmente em nossa unidade de ensino temos o aval da direção para, feita a
correção, podermos passá-la para o professor regente. Salientamos porém que a efetivação
do uso de nota depende da visão deste professor.
E é exatamente esta a vantagem das parcerias professor/auxiliar de ensino e auxiliar
de ensino/aluno, já que ambos representam meios educacionais diferentes para a mesma
finalidade, o melhor desempenho do aluno. Para tanto, a importância do grau de
qualificação e a formação continuada deste profissional, de forma similar ao que ocorre
com os demais profissionais da educação.
Se os instrumentos que estimulam a aprendizagem forem utilizados de forma conjunta,
os alunos irão deter uma maior confiança ao realizarem as atividades propostas.
O equilíbrio entre os profissionais da educação, coloca aulas e substituições num patamar
equivalente. Uma identidade profissional, como bem diz Nóvoa (1991, 1994, 1995), é
sempre uma conquista coletiva.

c) Relações de aprendizagem entre os alunos e o auxiliar de ensino: em busca de


avanços na aprendizagem
O equilíbrio necessário para que os auxiliares construam vínculos com os alunos, se
dará à medida que os educadores conheçam um pouco da vida de cada um dos seus alunos
– gerados pela empatia e pela afetividade. Pois as relações de afeto são instrumentos
prirmordiais para a aprendizagem e construção de processos políticos pedagógicos que
construam alunos críticos e participativos.
Wallon defende que há um predomínio alternado entre emoção e cognição. Como
lembra Almeida (1999, p´29), "a inteligência não se desenvolve sem afetividade, e vice-
versa, pois ambas compõem uma unidade de contrários".
Percebemos ainda que muitas vezes as dificuldades quanto à importância
profissional de nossa função, faz-se por parte dos próprios professores, já que os alunos ao
perceberem o grau de domínio acadêmico, o comprometimento e a empatia aplicada, se
tornam mais afetivos e participativos na mesma medida.
O local pode influenciar a apropriação do saber é nele que se partilha o espaço-
tempo com os outros homens, onde os alunos aprendem um saber que não possuem,
regulando essas relações entre si e os outros de forma afetiva e relacional.

... Toda relação com o saber é também uma relação consigo próprio: através do
“aprender”, qualquer que seja a figura sob a qual se aprende, sempre está em
jogo a construção de si mesmo e seu eco reflexivo, a imagem de si. A criança e o
adolescente aprendem para conquistar sua independência e para tornar-se
“alguém”. Sabe-se que o sucesso escolar produz um potente efeito de segurança
e de reforço narcísico, enquanto que o fracasso causa grandes estragos na relação
consigo mesmo. (CHARLOT, BERNARD,2000, p.72)

O sucesso escolar produz segurança, o fracasso causa grandes estragos na


autoestima. Aprender a “virar-se” é aprender o uso de um mundo que não foi organizado a
favor de todos.
Tendo em vista a miscigenação que compõem nossa sociedade e que a quantidade
de alunos afrodescendentes, se dar em maior escala nas instituições públicas, o ERER vem
agregar ao processo de ensino aprendizagem, a desmistificação e o apoderamento dos
alunos que fazem parte de grupos diferenciados e a muito colocados como inferiores no
que diz respeito ao aprender.
Isso só tem poder quando o professor deixa de ser o detentor do saber e se coloca
no lugar do aluno, ao praticar a empatia percebendo que séculos de preconceito e
intolerância, mesmo que em alguns casos de forma velada, transformam negativamente sua
visão de mundo e dificultam a percepção dos alunos para a sua capacidade de mudar a sua
realidade e de sua comunidade, através dos estudos.
As origens sociais, a evolução do mercado de trabalho, do sistema escolar, das
formas culturais, entre outros fatores, nos ajudam a compreender a relação de um indivíduo
com o saber, devendo observar-se as histórias sociais não apenas posições e trajetórias.

2. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os ‘fins’ do trabalho docente é um tema que por vezes pode nos causar desconforto,
enquanto docentes. Eles não se limitam tão somente aos resultados que queremos obter
com os alunos, pois no decorrer de todo processo, ocorrem mudanças na aprendizagem, de
acordo, por exemplo, com as vivências individuais.
Nosso trabalho apesar de regulado, controlado por programas oficiais, precisa
manter certa autonomia e principalmente responsabilidade pessoal. Planejar envolve
escolha, atitude, intencionalidade. Só avalia bem, se planeja bem. Devendo nossos
planejamentos serem coordenados e organizados de acordo com os objetivos propostos,
pois direcionam, tomadas de decisão sobre as ações e as opções. Tudo isso deve passar por
um processo de reflexão.
Não, entender a realidade de onde se trabalha, facilita em muito, outros problemas
adjacentes como: salas lotadas, defasagens de aprendizagem, baixos salário, questões
sociais e muito trabalho em casa. Só assim serem avaliados os tão almejados objetivos,
bem como os conteúdos, adequados as comunidades as quais serão aplicados.
Para que isso ocorra os objetivos devem ser protagonistas, parte ativa de todo o
processo de ensino e aprendizagem, valorizando as relações entre o conteúdo a ser
ensinado e aprendido, com equilíbrio nas abordagens didáticas, que devem ser
constantemente interpretadas e adaptadas, para quebrar, entre outras coisas a ausência de
vínculos entre as disciplinas e todos os profissionais da educação e a hierarquização dos
mesmos.
As próprias relações entre esses profissionais, que atendem vários interesses,
mantêm os professores à distância uns dos outros e dificultam, a pesar do próprio esforço
individual de cada educador, a realização dos objetivos escolares coletivos.
Antes da criação dos “meios” para chegarmos aos “fins”, a representação mental
dos mesmos, necessita da colaboração de todos os envolvidos nesse processo, sendo o
professor, o principal mandatário nessa organização para que a escola atinja seus objetivos,
pois é a ponte entre a escola e o aluno.
O que nos leva a refletir sobre que tipo de sujeito a escola atual deve formar?
Acredito que um sujeito crítico autônomo, capaz de perceber as necessidades para o bem
comum e ter desenvolvido habilidades e competências que o levem a agir como um agente
transformador do meio em que vive.
Se faz necessário uma nova adequação das relações de experiências entre
professores novos e antigos, professores e auxiliares de ensino, favorecendo mudanças
necessárias dentro do nosso papel enquanto educadores para promovermos uma reflexão
de todo o processo educacional, para ai sim alcançarmos os objetivos almejados.

3. REFERÊNCIAIS

Atribuições do Auxiliar de Ensino - Secretaria de Educação - Departamento de


Administração Escolar. Disponívelem:www.saojose.sc.gov.br Visitado em: 20/06/2018.
BOURDIEU, Pierre. Os herdeiros: os estudantes e a cultura. Florianópolis: Ed. da UFSC,
2014.
CHAKUR, C. R. de S. L.Profissionalização docente: a necessária valorização do papel de
professor. Disponível em: http://books.scielo.org/id/vtzmp/pdf/oliveira-9788579830228-
07.pdf
CHAKUR, C. R. de S. L. Desenvolvimento profi ssional docente: contribuições de uma
leitura piagetiana. Araraquara: JM Editora, 2001.
GATTI, B.A. & BERNARDES, N.M.G. & MELLO, G.N. (1974). Estudo sobre a função
do Assistente Pedagógico. Cadernos de Pesquisa, no. 9,4-40.
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4 . ed. São Paulo: Atlas,2008.
Lei nº 4422, de 11/01/2016, dispõe sobre o plano de cargos, carreiras e remuneração do
magistério público do município de São José e estabelece outras providências.
Disponívelem:www.saojose.sc.gov.br Visitado em: 12/06/2018.
LIBÂNEO, José Carlos, et al, EDUCAÇÃO ESCOLAR. Políticas, Estrutura e
Organização. São Paulo, Editora Cortez, 2012.
RESPRETO; Luis Carlos, O direito a ternura. Petrópolis, Editora Vozes: 2003.
RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3.ed. São Paulo:
Atlas,1999.
TARDIF, Maurice; LESSARD, Claude. O trabalho docente: elementos para
uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Tradução de
João Batista Kreuch. 6.ed.. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

Você também pode gostar