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Para além da Consciência

Para além da consciência

Frederico Crisóstomo Barreto, nº 10441, FMUL

1 de Novembro de 2010

Introdução

À medida que fazia a minha incursão no mundo da consciência fui-me deparando com teorias
fascinantes. Li alguns livros, artigos e sites da internet, sobre temas tão diversos como a neurobiologia
da consciência, teorias sobre a consciência superior, e até sobre sonhos lúcidos. Contudo, cheguei a um
ponto em que por mais que procurasse, nenhuma das respostas que encontrava me satisfazia o
intelecto. Afinal, o que nos reserva o futuro para a consciência e para a espécie humana? Levará a
evolução do Homem à evolução concomitante da consciência? Ou, por outro lado, estará nas “mãos” da
consciência elevar a espécie humana a uma condição superior? Estas são as questões às quais tentarei
esboçar tímidas propostas de solução, não tanto para acrescentar informação ao já vasto conhecimento
humano, mas sim para acalentar a minha sede interior.

Durante estas últimas férias do Verão fui em viagem à Índia, e o contacto com esta realidade despertou
algo em mim que se encontrava esquecido, uma parte de mim que me completa, mas que tinha sido
reprimida entretanto: a minha faceta espiritual. Reparei que no mundo Ocidental as pessoas vivem num
ritmo frenético e intenso, e exploram pouco os mistérios do universo e do sentido da vida, ou pelo
menos não o demonstram fazer. Na Índia pude contactar com uma outra realidade, mais humana, e
menos tecnoeconomicista, o que me fez procurar mais informação sobre religiões como o Hinduísmo e
o Budismo. Este último acabou por se revelar uma autêntica lufada de ar fresco, pois face às grandes
religiões monoteístas, aborda uma filosofia de vida centrada nas acções do indivíduo, e não na crença de
que o mundo é regido pelos preceitos impostos por uma entidade superior, que pouco fomenta o
desenvolvimento de uma consciência crítica.

Tive depois a oportunidade de assistir às aulas de Ciências da Consciência, que abordaram diversas
temáticas intrigantes e absorventes, como a Hipnose e as experiências de Quase-Morte. Numa das aulas
falou-se do recém-editado livro de António Damásio, “O Livro da Consciência”, e não resisti em comprá-
lo. Foi então que realmente aprofundei os meus conhecimentos sobre a perspectiva neurobiológica da
consciência.

Teoria da construção Neurobiológica da Consciência

O nosso cérebro monitoriza a cada instante os processos que ocorrem no nosso corpo. Através das
ligações do sistema nervoso periférico, o sistema nervoso central recebe relatórios pormenorizados
quanto aos processos corporais, e consoante disposições (modos de acção em resposta a um estímulo
específico) predefinidas (geneticamente gravadas) ou adquiridas (assimiladas pela experiência do
organismo), responde face aos desvios do plano homeostático. A finalidade dos genes da maioria dos
organismos é permitir-lhes manter-se dentro dos limites homeostáticos até estes conseguirem atingir a
maturidade reprodutiva que permita a perpetuação do património genético. Tal como uma amiba
responde a uma agressão fugindo para o lado contrário, também um mamífero responde a uma
agressão, porém esta é processada pela sua mente. Em que diferem então as respostas? No mecanismo
que despoleta as respostas, e não nas respostas em si. O mecanismo, no caso dos animais, passa a
depender do sistema nervoso, e não somente em respostas bioquímicas e genéticas básicas.

Segundo Damásio, a “consciência é um estado mental em que temos conhecimento da nossa própria
existência e da existência daquilo que nos rodeia”. Logo, segundo esta definição, a consciência depende
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da existência de uma mente, à qual é adicionada o outro ingrediente essencial: o Eu. Portanto, quando o
Eu, ou a emergência de uma identidade, se torna o protagonista dos nossos processos mentais, então a
consciência entra em cena. Convém agora aprofundar quais as bases responsáveis pela construção
desta mente e deste Eu, os quais se fundem para criar um estado mental consciente.

A representação do nosso corpo no nosso cérebro é bastante exaustiva, e cada input origina um mapa
cerebral, ou seja, uma constelação de neurónios activados segundo um padrão tridimensional, o qual
representa a informação que se pretende trabalhar no cérebro. Para uma melhor compreensão,
podemos imaginar o cérebro tal como um painel electrónico das auto-estradas, cheio de led’s por
acender. Quando recebe input um conjunto de led’s activam-se, segundo um padrão coerente, que
neste caso forma letras que nos permitem decifrar a mensagem que se pretende transmitir. No caso do
cérebro é um pouco isto que se passa: o cérebro recebe um input e um conjunto de neurónios são
activados, originando um mapa. Este mapa é a representação física deste fenómeno biológico, mas não
serve de matéria-prima para os nossos pensamentos. Na verdade, o nosso cérebro descodifica estes
mapas neuronais e lê-as como se fossem imagens. Um fluxo contínuo destas imagens é o que leva em
última instância à formação da mente. A mente é como o nosso ambiente de trabalho, no qual entram,
saem, se sobrepõem e entrecruzam diferentes imagens, que nos permitem conhecer o estado do nosso
corpo e do mundo que nos rodeia. Com base nestas imagens, que são representadas por mapas
neuronais nos córtices sensoriais primários, a informação é processada através dos córtices secundários,
prosseguindo finalmente para os córtices terciários nos quais as disposições (respostas algorítmicas a
inputs cerebrais) são iniciadas e devolvidas então para os córtices sensoriais primários e os córtices
motores. Percebe-se assim que a essência da mente é esta sua capacidade de representação imagética
do corpo e do mundo. Muitos são os animais que possuem esta capacidade imagética, contudo, apenas
nos mamíferos começam a surgir traços que parecem estar na base da formação do Eu. No fundo o Eu é
como um foco da mente desperta sobre o organismo em que ela habita.

Para Damásio a formação da consciência dá-se em 3 fases: a do proto-eu, a do eu nuclear e a do eu


autobiográfico. Nas fundações do proto-eu encontramos mapas interoceptivos (que relatam o meio
interno), mapas gerais do organismo (ou proprioceptivos, que descrevem a posição e movimentos do
organismo) e a parte dos mapas das portadas sensoriais orientadas para o exterior que contribui para a
construção da perspectiva. Torna-se mais fácil, através da seguinte metáfora de Damásio, compreender
a funcionalidade dos mapas do proto-eu: “A combinação do meio interno, da estrutura visceral e do
estado básico das portadas sensoriais garante uma ilha de estabilidade no meio de um mar de
movimento”. Não só estes mapas descrevem o estado do organismo, como também originam
sentimentos espontâneos, denominados sentimentos primordiais. Os mapas do proto-eu geram
imagens sentidas do corpo, que formam uma plataforma razoavelmente estável e uma fonte de
continuidade, sendo essa plataforma útil para o registo das alterações causadas pela interacção do
organismo com o ambiente. Em suma, o proto-eu é a descrição cerebral de aspectos relativamente
estáveis do organismo, cujo principal produto são os sentimentos primordiais.

Numa segunda fase surge o eu nuclear. Gera-se um pulso do eu nuclear quando o proto-eu é modificado
por uma interacção entre o organismo e um objecto, e quando, como resultado, as imagens do objecto
são também modificadas. A relação entre o organismo e o objecto é descrita por uma sequência
narrativa de imagens, algumas das quais são sentimentos. Os principais resultados funcionais do eu
nuclear são os sentimentos de conhecimento e o realce do objecto que desencadeou esses sentimentos.
Esses sentimentos de conhecimento estão na base dos sentimentos de posse e da sensação relativa de
uma capacidade de agir em relação ao objecto em causa.

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Finalmente, quando objectos da biografia de um indivíduo criam múltiplos pulsos do eu nuclear que
ficam, a seguir, ligados momentaneamente num padrão coerente de larga escala, surge o eu
autobiográfico. O eu autobiográfico é aquele que experienciamos quando, por exemplo, vamos num
comboio a olhar pela janela e divagamos sobre a nossa vida, aquilo que fizemos no passado e o que
esperamos para o nosso futuro. Tudo isto exige uma enorme capacidade de memorização e ainda maior
de coordenação, que organiza os diversos pulsos do eu nuclear (resultantes da interacção dos objectos
recordados com o proto-eu) e raciocina com base nestes. O eu autobiográfico dota assim o ser humano
de uma ferramenta que lhe permite não só reflectir e aprender com as vivências passadas, mas também
fazer previsões quanto a ocorrências futuras, não o deixando assim tão vulnerável face aos eventuais
desequilíbrios homeostáticos que possam vir a ocorrer.

Seria lícito então perguntarmo-nos: qual a verdadeira contribuição da consciência? Em tom coloquial
poder-se-ia dizer que consciência permite optimizar as reacções do organismo face às condições
ambientais. Numa mente consciente o processamento das imagens ambientais é orientado por imagens
internas do organismo. O eu focaliza o processo mental, motiva o organismo a agir e encontrar outros
objectos, inspira-o a explorar o meio exterior, tendo sempre em mente a tarefa mais importante: a
regulação da vida. Nos seres humanos a consciência atingiu o seu apogeu actual graças à expansão da
memória, raciocínio e linguagem.

Limites de actuação da Consciência

Mas até que ponto a consciência controla as nossas acções? Em muitas ocasiões a execução das nossas
tarefas é controlada por processos não-conscientes. Sabemos por experiência própria que muitas vezes
agimos sem pensar. Quantas vezes voltámos para casa pelo mesmo caminho de sempre e nem nos
demos conta que por ali passámos? Ou quando estamos irritados e respondemos de cabeça quente,
muitas vezes ofendendo injustamente o outro? Apesar de tudo, este controlo não-consciente acaba por
ser uma realidade bem-vinda, que liberta um grande fardo à consciência, e a deixa livre para a execução
de outras tarefas. Os processos não-conscientes tornaram-se um meio adequado e conveniente para
levar a cabo o comportamento e dar à consciência mais tempo para a análise das situações e
planeamento do futuro. Contudo, o controlo não-consciente não se encontra desligado do controlo
consciente. Antes pelo contrário. O controlo consciente educa os processos inconscientes, uma
educação lenta semelhante a um processo de transferência de parte do controlo consciente para um
“server” não-consciente. O controlo consciente possibilita, potencialmente, minimizar o efeito das
predisposições não-conscientes. Talvez o conceito mais importante de todos será compreender que a
deliberação consciente pouco tem que ver com a capacidade de controlar as acções no momento, e tem
tudo que ver com a capacidade de planear e decidir quais as acções que queremos ou não levar a cabo.
A deliberação consciente tem que ver com a reflexão ponderada, pelo que aplicamos esta reflexão e o
conhecimento quando decidimos questões importantes da nossa vida. Talvez por isso seja tão difícil
resistir a acções impulsionadas por um desejo ou apetite. Uma negação bem-sucedida exige uma
demorada preparação consciente.

Poderíamos pensar que os processos neuronais não-conscientes se encarregam somente da execução


de aptidões previamente treinadas, mas na verdade têm capacidade para algum tipo de raciocínio, que
é posto em marcha quando o tempo é escasso e a informação a analisar é excessiva para o espaço de
trabalho mental consciente. Aquilo que muitas vezes chamamos de intuição, ou seja, a chegada a uma
conclusão sem que nos tenhamos apercebido conscientemente de todos os passos intervenientes, não
passa de um resultado de processos não-conscientes.

Um maior controlo sobre os caprichos do comportamento humano exige uma acumulação de


conhecimento e uma análise dos factos descobertos. Quando um indivíduo toma uma droga, o seu
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estado homeostático desequilibrado no presente (infelicidade, stress, síndrome de abstinência) é


reequilibrado a curto prazo. Porém, acaba por colocar em cheque a homeostase a longo prazo. Como
pode o indivíduo lutar contra algo que na perspectiva dos seus processos não-conscientes contribui para
a homeostasia? A exigência homeostática não-consciente detém o controlo natural e apenas pode ser
contrariada por uma força oposta e bem treinada. O dispositivo não-consciente tem de ser treinado pela
mente consciente para desferir um contragolpe emocional.

Altruísmo e Homeostase

Ao longo da evolução os hominídeos foram-se agrupando em pequenas comunidades, as quais


conferiam diversas vantagens aos seus elementos. No seio destes espaços sociais começaram a surgir
problemas funcionais, desequilíbrios, definidos por parâmetros socioculturais. Estes desequilíbrios ao
colocarem em risco as comunidades, colocavam também em risco cada um dos seus elementos. Então,
à homeostase básica de cada organismo foi adicionada uma sensibilidade para a detecção destes
desequilíbrios socioculturais, os quais exigem um processamento cortical e interacção entre os diversos
organismos para manter os parâmetros dentro de valores homeostáticos. Surge assim a homeostase
sociocultural, uma solução só recentemente adicionada ao reportório da regulação da vida. Esta não se
encontra dissociada da homeostase básica e automatizada, mas antes em constante interacção. A
homeostase sociocultural é moldada pelo funcionamento de muitas mentes cujos cérebros foram
originalmente construídos de uma determinada forma sob a orientação de genomas específicos. Mas os
desenvolvimentos culturais podem também levar a profundas modificações no genoma, não fosse a
exploração dos lacticínios responsável pelo aprimoramento dos genes responsáveis pela digestão do
leite.

Uma teoria interessante com a qual me deparei foi a dos selfish genes, por Richard Dawkins. De acordo
com esta teoria, como a selecção natural actua sobre os genes e não sobre o organismo como uma
individualidade, o organismo nem sempre actua em proveito próprio, sacrificando-se muitas vezes por
outros elementos da mesma espécie, em atitudes aparentemente altruístas. Mas segundo Dawkins, os
comportamentos à primeira vista altruístas de alguns seres têm no fundo um interesse secundário, que
é a da perpetuação dos genes de uma espécie. Tomemos como exemplo o caso das complexas
comunidades de formigas. Formigas operárias sacrificam-se diariamente para alimentar a rainha, que
assegura a perpetuação dos genes da sua população, mas quando esta se torna estéril rapidamente é
esquecida pelas outras formigas, morrendo pouco tempo depois. Esta perspectiva crua e fria da
natureza tira muito do brilho das atitudes altruístas. Consigo conceber este conceito aplicado em
espécies cujo peso da consciência na tomada de decisões seja muito reduzido ou mesmo inexistente.
Todavia, em seres com consciências mais complexas, parece-me que a motivação por detrás de atitudes
altruístas não é somente a perpetuação de material genético.

Quando o ser humano realiza um acto altruísta, contribui para o bem-estar do próximo, mas acima de
tudo contribui para o seu bem-estar. Pode então dizer-se que não existe altruísmo na verdadeira
acepção da palavra, mas apenas um bom egoísmo, uma vez que quando nos preocupamos com o bem-
estar do outro estamos na verdade é a procurar o nosso bem-estar interior, mesmo que para isso
tenhamos de sacrificar parte de nós. Contudo, mesmo visto à luz dos selfish genes, faria sentido agir
pelo bem-estar do próximo, uma vez que isso contribuiria para a perpetuação dos genes, em última
instância. Mas se pensarmos bem, qual a motivação dos seres humanos que sacrificam a sua vida pelo
bem-estar de outras espécies animais? Ou quando se sacrificam por ecossistemas, ou mesmo o planeta
Terra como um todo, sem no fundo estarem preocupados com a perpetuação da espécie humana?

Creio que a fonte de motivação se encontra na procura pela homeostase universal. Acho que a muitas
pessoas, apesar de não se aperceberem conscientemente, sentem impulsos de homeotasia universal,
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como se uma força interior as empurrasse para o plano universal da existência. Alguns descrevem estes
impulsos como um sentimento de união com o cosmos, que leva à perda dos limites do Eu. Este
sentimento de que o indivíduo é na verdade apenas uma expressão efémera dos fenómenos do
Universo liberta a sua mente da visão eucentrada que dominara até então, e que limitara em muito a
sua perspectiva do mundo, como se olhasse para este através de uma palhinha. Este elevado grau de
compreensão, em certos casos referido como iluminação espiritual, liberta o ser humano das grisalhas
impostas pelos desejos e caprichos.

Em busca de uma consciência superior

Mas como pode o ser humano, dotado de uma consciência que filtra o mundo em seu redor mediante
os interesses do Eu, libertar-se dessa sensação inata de individualidade e experienciar o universo como
ele realmente é? Como pode o ser humano transcender as suas limitações e dedicar-se à homeostasia
universal? Ainda não experienciei semelhante transcendência, pelo que apenas posso fazer humildes
suposições baseadas em relatos de outros que declaram terem atingido estados superiores de
consciência. Este estados superiores de consciência podem ser encontrados na bibliografia sob várias
denominações: consciência superior, consciência objectiva, consciência cósmica, consciência divina,
entre outras. Apesar de diferirem em nome, não passam do mesmo conceito, no qual a consciência de
um ser humano atingiu um nível superior de desenvolvimento que lhe permite percepcionar a realidade
com maior grau de fidelidade. Ao desenvolver esta consciência superior (terminação que adoptarei), o
indivíduo adquire um controlo ímpar sobre as suas faculdades intelectuais, que lhe permitiram
compreender melhor qual a sua posição no universo, definir objectivos de vida mais concretos, e levá-
los a cabo com maior determinação, uma vez que se encontra liberto das correntes do desejo, dos
pensamentos fúteis e dos julgamentos inúteis.

Em suma, o ser humano encontra-se preso num patamar inferior de consciência, dentro do qual não
experiencia a realidade na sua verdadeira essência. Isso limita a sua percepção e consequente
compreensão da realidade. Como tal, sente-se incompleto e busca incessantemente um sentido para a
vida, que muitas vezes falha em encontrar (pode haver quem encontre um sentido para a vida sem ter
atingido o grau de consciência superior). Alguns acabam por encontrar um sentido para a vida baseado
em actos altruístas, que os deixa realizados, mas no fundo não compreendem a verdadeira motivação
que os levou a agir desse modo e qual a razão porque esses actos os fazem sentir realizados. Só um
estado de consciência superior poderia iluminar o caminho a percorrer pelo indivíduo. E acredito que
uma vez atingida a consciência superior, o indivíduo consiga fazer uma auto-observação muito mais
precisa da sua essência, podendo assim aperfeiçoar-se com melhor eficiência. Em última instância, o
desenvolvimento de uma consciência superior levará a uma maior compreensão do Universo e a uma
maior contribuição para a homeostase universal.

GW – Global Workplace

O acordar das faculdades adormecidas no ser humano normal é há muito fomentado por tradições
religiosas e contemplativas. Só recentemente, com a evolução das neurociências, se começou a
desvendar os mistérios que envolvem a consciência e outros processos neuronais. Gostaria apenas de
rever uma teoria que achei bastante pertinente e cuja aplicabilidade científica prima pela coerência, e
que tirará com certeza a sombra de esoterismo que paira sobre a consciência superior. A teoria do Local
de Trabalho Global (do inglês Global Workplace – GW) é apresentada por John Stewart no artigo “The
future evolution of consciousness”.

A razão pela qual a evolução favoreceu o desenvolvimento da consciência foi porque esta dotou o
Homem de uma maior capacidade de desenvolvimento de respostas adaptativas. A teoria GW explica
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que esta capacidade da consciência reside na habilidade de formar novas combinações de


conhecimento, competências e outros recursos para o desenvolvimento de novas respostas adaptativas.
Tal capacidade é crucial quando o organismo se depara com novos desafios em contextos nunca antes
experienciados. No fundo o GW (Local de Trabalho Global) é o espaço no qual a mente consciente junta
conhecimentos e recursos, e trabalha sobre eles para gerar soluções para os novos desafios
apresentados. Este espaço é ocupado pela sequência de pensamentos que fluem através da mente
consciente. Ao GW chegam as conclusões retiradas pelos outros processadores cerebrais, que
trabalham de forma não-consciente, pelo que o GW apenas tem que saber quais os processadores e
fontes de informação que necessita de recorrer para obter a informação que lhe permita encontrar a
solução consciente para o problema que enfrenta. Uma forma mais simples de entender o que é o GW:
o Local de Trabalho Global está ocupado sempre que na nossa mente ouvimos palavras e pensamos de
forma simbólica e consciente.

O problema é que o nosso modo de pensar consciente e narrativo sobrecarrega as limitadas


capacidades do GW. O GW é bastante limitado e não permite a análise simultânea de grandes
quantidades de informação, mas apenas um ténue fio corrente de pensamento consciente. Por
exemplo, dificilmente um indivíduo consegue seguir com precisão duas conversas absorventes ao
mesmo tempo. Estas limitações da acção consciente contrastam com as enormes capacidades de
processamento paralelo dos mecanismos neuronais não-conscientes. Aquilo que acontece quando
afirmamos ter um palpite é meramente a emergência no GW de uma conclusão retirada por um
processador não-consciente. Por exemplo, quando começo a aprender uma nova peça no piano recorro
com grande exaustão ao meu GW, pelo que o ocupo na sua totalidade. Assim, é-me muito complicado
tocar e falar com alguém ao mesmo tempo. Mas à medida que esta competência é abraçada por
processos não-conscientes, vou libertando o meu GW, ao ponto de conseguir tocar a música e nem
sequer estar a pensar nela, mas sim naquilo que fiz ontem, ou vou fazer a seguir. Assim, segundo esta
teoria a consciência é um recurso muito limitado que deveria idealmente ser reservado naquilo em que
é superior – o desenvolvimento de novas respostas adaptativas. Quando as novas respostas foram
assimiladas, aprendidas e automatizadas, poderão ser acedidas e implementadas por processos não-
conscientes paralelos. Mas qual a relevância desta teoria? Esta teoria explica, por uma perspectiva
científica, que a consciência a que o ser humano normal recorre é uma ferramenta limitada que priva o
ser humano da riqueza sensorial que de outra forma seria percepcionada.

Transição declarativa e o sistema hedónico

Como poderemos então optimizar este limitado recurso que é o GW? Através da transição declarativa.
Para a compreendermos é importante ter em mente que na base das respostas adaptativas estão dois
tipos de conhecimento: o processual e o declarativo. O processual é o conhecimento implícito não-
consciente a que recorremos quando por exemplo andamos de bicicleta. Os detalhes do conhecimento
processual não estão acessíveis à consciência, pelo que este conhecimento não pode ser adaptado pela
consciência quando novos contextos assim o exigem. Como os detalhes do conhecimento processual
não entram no GW, não se tornam conteúdos da mente consciente. Não obstante, as aptidões e
comportamentos processuais podem no entanto ser adaptados por mecanismos de tentativa e erro.

No que toca aos conhecimentos declarativos, estes manifestam-se no GW e recrutam outras


representações explícitas relevantes. Nós temos consciência do conhecimento declarativo quando este
entra e ocupa GW sob a forma de percepções, pensamentos e imagens. O conhecimento declarativo
existe então na forma de representações de objectos, propriedades, eventos, acções e relações, que são
combinados para gerar novos modelos de comportamento, cujos efeitos podem ser antevistos
mediante o contexto em causa. Quando as circunstâncias se alteram, estas representações podem ser

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recombinadas com outras representações de forma a adaptar o comportamento para o novo contexto
apresentado. Ao antever os futuros impactos do comportamento a ser desencadeado, a modelação
declarativa permite testar diferentes respostas e perceber qual a mais adequada para o contexto em
questão, evitando assim o desgastante processo de tentativa e erro.

Entraríamos agora num impasse se não fosse pela transição declarativa. A grande vantagem do
conhecimento declarativo sobre o processual é que este pode ser “processualizado” sem se perder a
capacidade de o poder evocar, rever e remodelar. Ou seja, diversas são as áreas de conhecimento
declarativo (aptidões linguísticas, compreensão do mundo físico, capacidades matemáticas) que podem
sofrer esta transição declarativa, passando para o domínio dos processos não-conscientes. Assim, sem
se perder esta capacidade de revisão e remodelação, levanta-se um enorme fardo ao limitado GW.

Diversas são os processos que sofreram com sucesso uma transição declarativa. Todavia, dois muito
importantes ainda teimam em sobrecarregar o GW: os processos que estabelecem objectivos e os
processos que regulam o uso de sequências de pensamento ou imagens. Para os compreender é
importante entender o conceito de sistema hedónico. O sistema hedónico é o sistema que determina o
que gostamos e o que não gostamos, desejamos, queremos, precisamos e estamos motivados para
fazer. Apesar deste sistema predominar sobre o curso das acções de um indivíduo no seu quotidiano,
não se encontra adaptado à linguagem do conhecimento declarativo. Os indivíduos geralmente não
escolhem deliberadamente aquilo que gostam ou desgostam, o que desejam, ou aquilo que os motiva.
O que acontece é que os desejos e as motivações foram estabelecidos processualmente, seleccionados
ao longo dos tempos por processos de selecção natural, que favoreceram a perpetuação de desejos e
motivações que contribuíssem para uma melhor adaptação do organismo. E como os objectivos de um
indivíduo são em grande medida guiados pelos seus desejos e motivações, escapam ao escrutínio da
consciência. O problema surge quando desejos e motivações a longo prazo entram em conflito com
impulsos mais imediatos. Mas se os objectivos de um indivíduo fossem estabelecidos e adaptados
declarativamente, então esta transição declarativa libertaria os indivíduos da ditadura imposta pelo
sistema hedónico. Neste caso os conflitos entre objectivos seriam resolvidos com maior facilidade.

Os benefícios adaptativos potenciais de uma utilização consciente do conhecimento declarativo no


estabelecimento de objectivos são significativos, se tivermos em conta o papel central dos objectivos na
determinação daquilo que entra no GW. Os objectivos, reforçados pelo sistema hedónico, determinam
o foco da nossa atenção, os processadores a que recorremos e que acções voluntárias iniciar.
Consequentemente, os seres humanos têm imensa dificuldade em cumprir objectivos estabelecidos
somente pela razão, sem serem reforçados pelo sistema hedónico. O cumprimento de objectivos
estabelecidos pela razão entra em conflito com outros objectivos reforçados pelo sistema hedónico que
facilmente ganham acesso e ocupam o GW. Na maioria do tempo as paixões dominam sobre a razão.
Uma transição declarativa permitiria assim o cumprimento dos objectivos estabelecidos pela razão, com
o mínimo de distrações, e também um alinhamento mais fácil dos outros objectivos que entrassem em
conflito. Permitiria também ao indivíduo recorrer a todos os recursos neuronais que dispusesse, e não
apenas àqueles suportados pelo sistema hedónico. Permitiria a um indivíduo que experienciasse fortes
emoções, responder como um todo, e não apenas a uma parte limitada pelo sistema hedónico. Temos
que compreender que a evolução seleccionou naturalmente o sistema hedónico como mecanismo de
estabelecimento de objectivos simplesmente porque na altura não havia organismos capazes de utilizar
a razão. Este sistema muito útil no passado torna-se agora obsoleto e limitativo, e como tal devemos
procurar formas que permitam a maioria dos seres humanos realizar esta transição declarativa.

Consideremos agora os processos que determinam quando é que a consciência fica ocupada por
sequências estruturadas de pensamentos e imagens. Estas sequências colocam a consciência off-line, ao

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ocuparem totalmente a sua limitada capacidade. E enquanto uma sequência se desenrola, evita que
outras necessidades adaptativas recorram à consciência para aceder a recursos relevantes. De facto,
dificilmente conseguimos parar voluntariamente a emergência de pensamentos no nosso GW. Quando
não estamos envolvidos em tarefas absorventes (como quando por exemplo lavamos a loiça), a nossa
consciência facilmente fica ocupada por sequências de pensamentos e imagens pouco relevantes para a
tarefa em questão. Assim, ao invés de permanecermos online, apreciarmos aquilo que estamos a fazer e
estarmos conscientemente atentos àquilo que acontece em nosso redor, perdemo-nos em fantasias.
Poderão dizer que não serve de nada ter o GW livre em tarefas pouco exigentes (como conduzir em
estradas monótonas), mas a verdade é que se tivermos o GW sobrecarregado e nos surgir de repente
um novo desafio, (como um cão atravessar a estrada) teremos muito mais dificuldade em desenvolver
rapidamente uma nova resposta adaptativa. Por isso é tão importante estar “on-line”.

Através de uma modelação declarativa poder-se-ia optimizar o recurso ao GW apenas para sequências
de pensamentos e imagens que fossem relevantes para o desenvolvimento de novas respostas
adaptativas. E se, como aparece ser verdade, os seres humanos estão constantemente envolvidos em
sequências de pensamentos e imagens, as suas capacidades adaptativas encontram-se severamente
diminuídas por extensos períodos de tempo. Para além do mais, sequências de pensamento
deliberativas são seriais e demasiado lentas para o desenvolvimento de respostas complexas em tempo
real. A adaptabilidade é muito melhor servida se a consciência estiver livre para poder recrutar
processadores e recursos não-conscientes, não se deixando aborver por percepções e processsamentos,
e apenas ficando ocupada por curtos períodos, nos quais coordena os processadores. Assim se liberta
um grande fardo sobre o GW, que fica com muito mais capacidade de recrutar diversos processadores e
assim desenvolver várias respostas ao mesmo tempo, ou respostas complexas em curtos espaços de
tempo. Em suma, um indivíduo deve-se manter “on-line” sempre que esteja na eventualidade de se
deparar com novos desafios adaptativos, e apenas “off-line” durante períodos em que respostas não
sejam necessárias, como por exemplo na contemplação ou na reflexão. Quando os indivíduos não estão
interessados em se deixar envolver pelo exterior, podem então trabalhar em modo “off-line”, no qual
poderão utilizar a modelação declarativa para desenvolver novos comportamentos adaptativos e
aptidões cognitivas. Isto é essencial para efectuar uma transição declarativa com sucesso, ao permitir a
construção e acumulação de processadores complexos e especializados, em quem podem depois confiar
quando se encontram activamente envolvidos pelo mundo e o tempo é insuficiente para recorrer a
sequências de pensamento. Contudo, aceitar este conceito é muito complicado porque a nossa
experiência subjectiva nos diz que estamos perfeitamente bem assim e que as nossas capacidades
deliberativas chegam perfeitamente. O problema é que a maioria de nós nunca experienciou o mundo
com um GW vazio, porque se o tivesse experienciado procuraria formas de o manter assim. É difícil
aceitar que os processos cognitivos de que estamos conscientes são muitas vezes menos eficientes do
que aqueles que são não-conscientes. Felizmente esta relutância em aceitar que a maioria do
pensamento não tem utilidade dissipa-se uma vez que o indivíduo desenvolve a capacidade de
experienciar o mundo com um GW livre. Mas até lá somos dominados pelo seguinte pensamento: A
menos que pensemos em algo, não podemos saber que o sabemos.

Caminho para uma transição declarativa

Percebemos agora, por uma perspectiva científica, quais as grandes limitações do nosso consciente, e
quais as potencialidades dos nossos processos não-conscientes. Analisarei agora brevemente quais as
capacidades a desenvolver se se quiser efectuar uma transição declarativa no domínio do
estabelecimento de objectivos e da regulação das sequências de pensamento. Especificamente, para
objectivos alternativos os indivíduos teriam de prevenir com sucesso o sobrecarregamento do GW pelos
objectivos reforçados pelo sistema hedónico. E para prevenir que as sequências de pensamento

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sobrecarregassem a consciência, seria essencial evitar o seu acesso e perpetuação ao GW. Em geral o
desenvolvimento de tais capacidades não tem sido muito pesquisado pela psicologia empírica ocidental.
Contudo, diversas religiões e tradições contemplativas procuram desenvolver aspectos chave dessas
capacidades nos indivíduos, com maior ênfase nos mecanismos que permitem evitar o acesso ao GW
por parte dos objectivos reforçados pelo sistema hedónico: resistir à tentação e dar a outra face no
Cristianismo; libertação de todos os desejos no Budismo; e equanimidade no prazer e no sofrimento, no
Hinduísmo. No que toca à prevenção do acesso de sequências de pensamento ao GW, muitas são as
tradições contemplativas que procuram ensinar um modo de funcionamento “on-line”, um “estar no
presente” (a meditação é um dos caminhos).

Alguns dos resultados destas práticas parecem corresponder directamente a um modo de


funcionamento livre do domínio do sistema hedónico. Descrições comuns desses resultados incluem:

1. Equanimidade face ao prazer e ao sofrimento;

2. Desapego das consequências das acções;

3. Morte do ego – ego como sistema psicológico que procura satisfazer impulsos, desejos e
motivações imediatos centrados no Eu;

4. Consciência objectiva, ou iluminação impessoal, na qual os indivíduos deixam de ter a


percepção e relação com o mundo determinada pelo impacto destas sobre os desejos e
motivações pessoais.

De facto, as emoções e sentimento não são reprimidos, sendo vividos mais intensamente. Mas a
diferença é que deixam de controlar o comportamento humano. Neste modo de funcionamento, as
emoções e os sentimentos deixam de ditar quais os recursos a ocupar o GW, e tornam-se meros
objectos de percepção (tal como um jarro é um objecto de percepção). Assim, o indivíduo, sem deixar
de sentir as emoções e os pensamentos, deixa o GW livre para poder efectuar respostas adaptativas
mais adequadas e racionais. Para além disto, ao perder a perspectiva privilegiada, tudo passa a ser
experienciado como um ou nenhum fenómeno.

Alguns dos resultados das práticas parecem corresponder ao modo de funcionamento da consciência no
qual o GW se encontra livre de sequências de pensamento por extensos períodos de tempo. Descrições
comummente incluem:

1. Acordar, estar no agora, estar no presente, testemunhar de forma silenciosa. Neste modo de
funcionamento os indivíduos estão mais ou menos continuamente conscientes e são capazes
de responder a eventos externos e internos à medida que estes vão surgindo. Nesta nova
perspectiva, o indivíduo apercebe-se que no seu antigo modo de funcionamento (o normal e
comum), estivera cego a inúmeros factores relevantes. Isto é semelhante ao acordar de um
sonho e perceber que as respostas encontradas durante o sonho estavam cegas ao contexto
mais alargado que temos quando estamos acordados;

2. Melhorar as capacidades intuitivas, sabedoria, conhecimento, e até a capacidade de ver


padrões complexos de relance. Estas formas de conhecimento emergem na consciência do
indivíduo quando a mente está silenciosa;

3. Experienciar uma consciência mais espaçosa e percepções mais vívidas, enquanto a mente está
silenciosa e em paz;

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Para além da Consciência

4. Actuar espontaneamente, silenciosamente e sem processamento consciente. Neste modo de


funcionamento as percepções, conclusões e acções não são acompanhadas de interpretação,
análise, planos, ensaios ou outras sequências de pensamento. As intuições, julgamentos e
percepções aparecerão limitar-se-ão a aparecer na consciência.

Pensamentos finais

O desenvolvimento progressivo destas capacidades abre o caminho para a transição declarativa ocorrer.
Em particular, o desenvolvimento das capacidades dará aos indivíduos a oportunidade de regular
conscientemente a altura para desenvolver sequências de pensamento e implementar os objectivos
escolhidos, independentemente do seu suporte pelo sistema hedónico. Mas tudo isto não passa de
meros potenciais. A optimização destas funções depende da acumulação de conhecimento declarativo
relevante que permita ao indivíduo construir modelos de comportamento e processadores
especializados e incorporá-los nos mecanismos não-conscientes. Porém, este conhecimento não pode
começar a ser adquirido enquanto as capacidades acima descritas não forem desenvolvidas. A aptidão
de permanecer no presente enquanto se lida com o mundo é fundamental para desenvolver a
capacidade de auto-observação e mente vazia essenciais para a obtenção do conhecimento declarativo.
Não faria muito sentido desenvolver estas capacidades e depois falhar em obter o conhecimento
declarativo que nos permita utilizá-las da melhor forma. O desenvolvimento destas capacidades deverá
ser um meio, e não um fim em si mesmo. Deverá servir para levar a consciência humana mais longe,
elevá-la ao expoente máximo, para que o ser humano possa seguir com maior fidelidade os objectivos a
que se propõe. Creio que este será o caminho para a nossa evolução, uma evolução que sem adicionar
mais hardware cerebral, recorrendo isso sim a um upgrade monumental no software.

Na verdade, os seres humanos não nascem conscientes. Nascem, isso sim, com potencial para atingirem
a verdadeira consciência, uma consciência superior, que lhes permitirá tirar o máximo partido da sua
breve existência no Universo. Não olho para o desenvolvimento de uma consciência superior como um
fim em si mesmo, mas sim como um meio, que permita ao ser humano realmente compreender qual o
seu papel na manutenção da homeostasia universal.

Bibliografia

Livro: DAMÁSIO, António, O livro da consciência, Temas e Debates, 1º Edição, 2010-11-01.

Artigo: STEWART, John, The future evolution of consciousness, ECCO Working paper, version 1,
November 24, 2006.

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