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CAMINHOS DO ROMANTISMO Camilo Castelo Branco | Amor de Perdição

4.1. A obra como crónica da mudança social

O que se entende por crónica da mudança social em Amor de Perdição?

Como o próprio título indica, o enredo de Amor de Perdição centra-se numa história
amorosa que tem um final trágico. No entanto, o fascínio pela novela de Camilo Castelo Branco
excede largamente o motivo da relação passional entre Simão Botelho e Teresa Albuquerque e
os sentimentos fortes que Mariana nutre pelo protagonista. Um dos interesses da narrativa
está na forma como representa os valores e os comportamentos sociais dos grupos da época
da ação da novela. A intriga amorosa, protagonizada por Simão e Teresa, desenrola-se entre os
anos de 1805 e 1807, anos que se inscrevem no final de um período histórico que é conhecido
por Antigo Regime (ou Absolutismo). Esta é a época que antecede o Liberalismo, que desponta
em Portugal em 1820, mas que tivera como momento fundador a Revolução Francesa (1789).
Caracterizemos, em traços amplos, os dois períodos históricos.

Como se articulam os temas de Amor de Perdição com a crónica da mudança social?

Os temas nucleares de Amor de Perdição acabam por tratar a mudança de valores e de


comportamentos sociais que a novela representa e o embate entre a mentalidade retrógrada
de uma época que termina (o Antigo Regime) e os ideais do Liberalismo (a que o Romantismo
está associado), que estão a despontar. Estas questões estão no cerne da © AREAL EDITORES
crítica social que a novela empreende.

No capítulo IV é evidente o código rígido da sociedade da época, uma vez que


Teresa é obrigada a escolher entre o casamento imposto com o seu primo
Baltasar ou o seu futuro no convento.
Algo que choca o leitor, é a violência que o pai de Teresa adquire quando esta
respeitosamente, lhe nega algo que ele lhe pede. Este modo violento do pai é
justificado como amor.
A importância da opinião pública é algo valorizado na época, como podemos
perceber com a reação de Baltasar Coutinho, quando posta a possibilidade de
Teresa ir para um convento.
Talvez a intenção do escritor fosse mudar a sociedade ao seu redor, e a
verdade é que atualmente, muitos dos atos repressivos que exemplificámos
não são habituais na maior parte dos países desenvolvidos. A questão do
casamento imposto apenas é habitual em algumas etnias e religiões. Teresa é
apenas uma adolescente, mas se esta história se passasse em pleno século
XXI, provavelmente a sua reação não seria tão educada e a do seu pai não
seria tão autoritária e bruta.
Infelizmente, as aparências ainda são algo atual na nossa sociedade, não
devido aos conventos, mas sim devido ao estilo de vida que as pessoas levam,
algo visivel nas redes sociais. Por isso, é bom pensar que a sociedade continua
evoluir, e que com o tempo melhorou a sua maneira de ver as coisas.

Relação entre personagens - pai e filha

No capítulo IV de “Amor de perdição”, o escritor apresenta um diálogo entre


Teresa e Tadeu de Albuquerque onde é notório a relação entre pai e filha.
De facto, no século XIX, era visível a existência de um código familiar onde o
pai tinha poder autoritário sobre os restantes membros da família. Neste
contexto, Tadeu esperava que Teresa o respeitasse na sua decisão de a casar
com o seu primo Baltasar. O poder que este exercia sobre a sua filha pode-se
verificar nas linhas 30-31, onde Tadeu diz “Mas repara, minha querida filha, que
a violência de um pai é sempre amor”.
Face a isto, quando Teresa desobedeceu à vontade paterna, o mesmo
sentiu-se desrespeitado e traído, ameaçando enviá-la para um Convento e
deserdando-a.
Hoje, no século XXI, temos diferentes perspectivas sobre este assunto pois
deve haver respeito por parte de ambos.
A obra como crónica da mudança social

No capítulo IV é evidente o código rígido da sociedade da época, uma vez que


Teresa é obrigada a escolher entro o casamento imposto com o seu primo
Baltasar ou o seu futuro no convento.
Algo que choca o leitor, é a violência que o pai de Teresa adquire quando esta
respeitosamente, lhe nega algo que ele lhe pede, este modo violento do pai é
justificado como amor.
A importância da opinião pública é algo valorizado na época, como podemos
perceber com a reação de Baltasar Coutinho, quando posta a possibilidade
para ir para um convento.
Talvez a intenção do escritor fosse mudar a sociedade ao seu redor, e a
verdade é que atualmente, muitos dos atos repressivos que exemplificamos
não são habituais na maior parte dos países desenvolvidos. A questão do
casamento imposto apenas é habitual em algumas etnias e regiões. Teresa é
apenas uma adolescente, se esta história se passasse em pleno século XXI
provavelmente a sua reação não seria tão educada e a do seu pai não seria tão
autoritária e bruta.
Infelizmente, as aparências ainda são algo atual na nossa sociedade, não
devido aos conventos, mas sim devido ao estilo de vida que as pessoas levam,
algo visivel nas redes sociais. Por isso, é bom pensar que a sociedade continua
evoluir, e que com o tempo melhorou a sua maneira de ver as coisas.
A obra como crónica da mudança social (IV):
Inicialmente a Teresa pensa que vai a primeira missa paroquial de
domingo, coreia surpreendida com a ideia de que se irá casar com
o seu primo Baltazar no mesmo dia.
No início do diálogo entre pai e filha o pai está sereno, amável e
iludido com ideia de que a filha não se importa com o casamento,
que está desassombrada, completamente livre, mas de certa forma
tem noção do que o que está a fazer não é totalmente do agrado de
Teresa quando diz “ Mas repara, minha querida filha que a violência
de um pai é sempre amor.” E o que o autor pretende fazer com esta
fala, também, é chocar os leitores pois o pai justifica a violência
com o amor.
Continuando com a ideia de chocar os leitores o autor no fim do
diálogo entre pai e filha, onde o pai já mais irritado com o facto de
Teresa continuar a renegar um relacionamento com o seu primo
volta a ameaça-la de que a vai mandar para um convento e que a
irá deserdar quando diz “Hás de casar! Quero que cases! Quero!...
Quando não amaldiçoada serás para sempre, Teresa! Morrerás
num convento! Está casa irá para o teu primo! (…) não me
pertences, não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos
(…) Entra nesse quarto, e espera que daí te arranquem para outro,
onde não verás um raio de sol.”
Outro lado de bastante chocante e quando Baltazar diz ao seu tio
para não mandar Teresa para o convento uma vez que isso
estragaria a imagem da família, pois no século IX era preferível
manter as aparências perante o público do que uma relação
saudável entre os membros de uma família.
Esta situação apesar de ser visível em certas culturas como por exemplo a
etnia cigana e os indianos onde as crianças/adolescente como Teresa são
obrigados a casar se numa idade muito precoce, já não é muito comum.
Não vemos um pai obrigar a filha a um relacionamento que não quer
apenas para manter as aparências e ainda menos um pai a ameaçar de
deserdá-la e mandá-la para o convento por algo que não aprova e justificar
a violência como sendo amor.

O capítulo abre com uma caracterização de Teresa, a partir do diálogo com


Baltasar Coutinho, destacando o narrador que ela é uma mulher de «orgulho
fortalecido pelo amor». Por carta, Teresa relata o sucedido a Simão, omitindo apenas
as ameaças do primo.
A vida de Teresa parece regressar à normalidade (não entrara no convento, não
se falava em casamento e Baltasar Coutinho estava ausente), até ao momento em que
o pai lhe diz que, nesse dia, ela deve casar com Baltasar. Teresa responde descrevendo
aquilo que lhe é pedido como um sacrifício e afirmando que odeia o primo. Tadeu
amaldiçoa a filha e diz-lhe que ela morrerá num convento. Ao sobrinho Baltasar, diz
que não lhe pode dar a mão de Teresa porque já não tem filha. Teresa acaba por não
ser enviada para um convento, segundo o conselho do primo, e escreve uma carta a
Simão contando-lhe o sucedido. Simão fica fora de si e planeia matar Baltasar, mas
abandona esta ideia ao perceber que essa ação o afastaria de Teresa para Sempre.

O estudante resolve ir a Viseu para ver a filha de Tadeu. Como precisa de um


sítio seguro onde ficar, o arrieiro recomenda-lhe a casa de um primo seu, que fica perto
de Viseu. Simão envia uma carta a Teresa e combinam um encontro às onze horas, no
dia do aniversário desta. À hora combinada, Simão fica surpreendido por ouvir música
vinda de uma casa que ele sempre considerara triste e sem vida.

A obra como crónica de mudança social


Aspetos criticados em Amor de Perdição:
✓a aristocracia como símbolo de uma sociedade retrógrada e decadente
materializada na oposição preconceituosa das famílias de Teresa e Simão ao amor,
conduzindo-os à morte;

Relações entre personagens


Simão Botelho é jovem bonito e viril. É o típico herói romântico: rebelde, intempestivo,
solitário, transformado pelo amor. É uma pessoa digna e honrada, corajosa e
determinada, que acredita no amor eterno.
Teresa Albuquerque é jovem bonita, de origem aristocrática e rica. É apaixonada por
Simão, muito sensível e acredita no amor eterno. Tem personalidade forte e
determinada – recusa casar com Baltasar –, revelando a sua coragem – mantém a sua
vontade, enfrentando a tirania do pai.
Baltasar é orgulhoso, prepotente, insensível e arrogante. Mesmo sabendo que Teresa
ama Simão, decide levar o seu desejo de a desposar avante.
Tadeu de Albuquerque e Domingos Botelho são orgulhosos, preconceituosos,
prepotentes e inflexíveis, revelando- se insensíveis ao amor arrebatado de Teresa e
Simão, cedendo perante todas as convenções sociais.

Amor-paixão
O amor em Amor de Perdição é sofrimento. Teresa e Simão vivem um amor impossível
e proibido, no entanto, apesar dos obstáculos impostos pela família, não desistem da
sua felicidade. As adversidades parecem até dar-lhes mais força para lutarem pelos
seus objetivos.
Como creem no amor eterno, encaram a morte/transcendência como superação das
dificuldades da vida, achando que encontrarão nela a felicidade que não conseguiram
alcançar em vida. A morte é encarada como salvação e única saída para o sofrimento
que vivem, ou seja, para Simão e Teresa só a morte permitirá a concretização do seu
amor.
Nas cartas que os dois apaixonados trocam pode encontrar-se o desenvolvimento do
conceito de amor eterno.
Para além de estas funcionarem como o verdadeiro diálogo entre os amantes,
cumprem outras funções:
✓são um meio de comunicação entre os amantes;
✓traduzem uma transgressão em relação às normas impostas;
✓completam a caracterização das personagens, evidenciando a sua dimensão de
heróis românticos;
✓relatam acontecimentos;
✓refletem as memórias dos apaixonados;
✓comunicam decisões;
✓veiculam promessas e sentimentos;
✓revelamde
Denúncia projetos;
uma sociedade repressiva que atua
✓expressam
através apelos e desabafos;
de instituições:
✓constituem momentos de prosa poética.
• instituição familiar (autoritarismo paterno,
casamentos de conveniência, situação de
inferioridade da mulher);
• igreja (conventos);
• justiça (prisão).
Classes nobres

• (Simão, Teresa e respetivas famílias): linguagem convencional, esmerada, elaborada.


linguagem culta, erudita, com períodos longos e sentenciosos e vocabulário erudito; e

Diálogo entre

Tadeu de Albuquerque e Teresa

“– Teresa… – disse o velho.

– Aqui estou, senhor – respondeu a filha, sem o encarar.

– Ainda é tempo […] de seres boa filha.

– Não me acusa a consciência de o não ser. “

p. 221 NOVO PLURAL

1. A primeira parte corresponde aos três primeiros parágrafos; a segunda parte


começa com o anúncio «mas não é esta ainda a carta que surpreendeu Simão
Botelho» (l. 20), deixando implícita a mudança iminente no rumo dos
acontecimentos. Acaba no penúltimo parágrafo, com o relato da partida de Simão
para o encontro com Teresa, que acontecerá no capítulo seguinte.
1.1 Primeira parte: a caracterização de Teresa remete para o capítulo anterior, bem
como uma primeira carta a Simão, dando conta de acontecimentos igualmente
narrados no mesmo capítulo.
Segunda parte: após algumas semanas tranquilas, Teresa é surpreendida pela notícia
de que irá casar com o primo, nesse mesmo dia. Enfrenta o pai, o que o deixa irado,
ameaçando-a com o convento. Baltasar demove-o, com a promessa de encontrar uma
solução. Teresa conta tudo a Simão, provocando a decisão deste de ir a Viseu.
Encontrada uma casa onde se esconder, comunica-o a Teresa, marcando esta um
encontro para a mesma noite.
Terceira parte: o último parágrafo caracteriza o estado emocional de Simão, antes
do encontro.
2. A força de caráter, o orgulho, a defesa intransigente do seu livre-arbítrio são as
qualidades mais vincadas; o narrador refere ainda a astúcia, embora logo corrija para
perspicácia.
3. A referida «perspicácia» é confirmada pela carta, na qual, com uma maturidade
invulgar, omite as informações que entende prejudiciais.
4.1 Tadeu afirma que a decisão foi tomada em função da felicidade dela e que um
pai sabe sempre o que é melhor para os seus filhos. Tenta provar- lhe a sua
benevolência, comparando-se com outros. Ainda justifica o facto de não ter voltado
a consultá-la com o temor de prejudicar o cumprimento dos seus deveres de filha − o
«zelo», a gratidão, ser digna do amor dele.
4.2 Ela mostra firmeza, presença de espírito e fidelidade aos seus sentimentos.
4.3.1
Nomes − infame, miserável
Adj. − vil, maldita
Adv. − para sempre
Verbos − serás amaldiçoada, morrerás, arranquem, não verás, não me pertences, não
és (minha filha)
4.3.2 As frases curtas imprimem um ritmo rápido, próprio, neste caso, de um
discurso exaltado, acentuado pela exclamação; o modo imperativo, usado
repetidamente, exprime o desejo de imposição da vontade paterna; a repetição −
«Hás de casar! − Quero que cases! Quero!» e «não me pertences, não és minha filha,
não podes herdar apelidos honrosos» − sublinha as ideias fundamentais: as ordens do
pai e o castigo da filha, por lhes desobedecer.
5. O temperamento ardente é bem evidenciado nas reações físicas − «já não tinha
clara luz nos olhos […]. Tremia sezões, e as artérias frontais arfavam-lhe
intumescidas». Confirma- se no impulso de ir matar Baltasar, na impaciência com que
espera o cavalo. Mais à frente, o narrador fala do seu «natural inquieto e ansioso de
comoções desusadas» (ll. 101-102). No final, das «pancadas do seu coração
sobressaltado».
O texto mostra como a honra determinara o caminho da felicidade; a honra ferida
por uma «ameaça impune» tinha provocado a urgência da vingança; o amor leva-o a
desistir do propósito inicial − «Mas eu perco-a! Nunca mais hei de vê-la!... Fugirei
como um assassino […], e ela […] há de horrorizar-se da minha vingança…» (ll. 106-
107), em consonância com a reavaliação da ofensa − «As linhas finais desmentiam […]
a suspeita do aviltamento». (ll. 110-111)
6.1 Contra o amor aliam-se Tadeu de Albuquerque e Baltasar Coutinho. O primeiro é
autoritário e insensível; sabe ser dissimulado, mas a violência rapidamente o domina.
Quanto a Baltasar, no entender de Tadeu «um composto de todas as virtudes», o
narrador afirma a sua «absoluta carência de brios», isto é, caracteriza-o como um
homem sem princípios, desprezível.

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