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DUBET, François. O que é uma escola justa? A escola das oportunidades.

São Paulo: Cortez,


2008.

INTRODUÇÃO

Uma discussão interessante: A legitimidade da escola em nossa sociedade.

“Uma escola justa não pode se limitar a selecionar os que têm mais mérito, ela deve também
se preocupar com a sorte dos vencidos”. (p. 10)

Igualdade formal de oportunidades que produz a desigualdade em uma pretensa sociedade


democrática. Onde se equilibram as desigualdades sociais, sexuais e étnicas?

Meritocracia = Orgulho dos ganhadores e desprezo dos perdedores.

Desenvolvimento da igualdade distributiva das oportunidades – “zelar pela equidade da oferta


escolar, às vezes dando mais aos menos favorecidos, de qualquer maneira tentando atenuar
os efeitos mais brutais de uma competição pura”. (p. 12)

Igualdade social das oportunidades – “[...] pela criação de um bem escolar partilhado com
todos, independentemente do êxito de cada um. Antes que comece a seleção meritocrática,
uma escola justa deve oferecer um bem comum, uma cultura comum independentemente das
lógicas seletivas. Isso convida a se engajar fortemente em favor de um verdadeiro colégio
único, de um colégio cuja função seja garantir a cada um, isto é, ao mais fraco dos alunos, os
conhecimentos e as competências a que ele tem direito”. (p. 13)

As consequências das desigualdades escolares – “Uma sociedade em que os diplomas


determinam a totalidade das igualdades sociais seria justa? [...] Mesmo justa, uma escola que
determinasse totalmente a trajetória dos indivíduos estaria encarregada de uma tarefa
esmagadora e teria poucas chances de contribuir para a ampliação de uma justiça social”. (p.
14)

CAPÍTULO I – A IGUALDADE MERITOCRÁTICA DAS OPORTUNIDADES

Desigualdade de acesso x Desigualdade de sucesso

UM SISTEMA DE PRODUÇÃO DE DESIGUALDADES RELATIVAMENTE JUSTAS

“Em todos os países, mas em graus diversos, os alunos originários das categorias sociais mais
privilegiadas, os mais bem munidos em capital cultural e social, apresentam um rendimento
melhor, cursam estudos mais longos, mais prestigiosos e mais rentáveis que os outros [...] a
estrutura das carreiras e das performances escolares continua refletindo mais ou menos a das
desigualdades sociais”. (p. 27)

“O sistema escolar funciona como um processo de destilação fracionado durante o qual os


alunos mais fracos, que são também os menos favorecidos socialmente, são ‘evacuados’ para
as habilitações relegadas, de baixo prestígio e pouca rentabilidade. O fato de não haver mais
seleção social fora dos estudos não impede que haja, através da seleção escolar, uma seleção
social durante os estudos”. (p. 27-28)

Influência das desigualdades sociais sobre as desigualdades escolares, que dissimulam as


hierarquias sociais:

- Os diversos grupos sociais e culturais desenvolvem precocemente nas crianças conjuntos de


atitudes e de competências mais ou menos favoráveis ao êxito escolar.

- Recursos e capacidades estratégicas das famílias.

A IGUALDADE DE OPORTUNIDADES NÃO PRODUZ, PORTANTO, A IGUALDADE DE RESULTADOS.

“Quanto mais um aluno é de origem favorecida, mais tem chance e ser um bom aluno, e
quanto melhor aluno ele for, mais chance tem de ter acesso a um ensino de qualidade”. (p. 35)

A ficção da igualdade e liberdade como responsáveis pelas desiguais performances dos alunos.
Responsabiliza-se o aluno, mantendo a ideia fundamental de igualdade, o que é necessário à
competição escolar e meritocracia. “Esse sistema se torna extremamente cruel quando a
ficção não funciona mais, quando o aluno trabalha e fracassa, quando trabalha muito e tem
pouco êxito, e quando ele só consegue explicar sua situação admitindo ser, na realidade,
desigual, menos dotado, menos corajoso, menos eficaz...” (p. 41)

Consequência: “Ameaçados em sua autoestima, eles oscilam entre o desânimo e a depressão,


sentindo-se indignos das esperanças neles depositadas pelos seus professores, pela sua família
e por si mesmos. Às vezes, rejeitando a interiorização que os culpa por suas dificuldades, eles a
devolvem em ressentimento e agressão contra a escola e os professores, e também contra os
bons alunos que são a prova viva de que ‘quando se quer, se pode’ e de que a igualdade das
oportunidades não é uma simples fábula”. (p. 41-42)

A crueldade subjetiva da meritocracia nasce com a obrigatoriedade da competição, em nome


da justiça e da universalidade da detecção do mérito, por força da igualdade que
supostamente existe e propõe a excelência a todos.

A DIFICULDADE EM SE IMAGINAR UM PRINCÍPIO DE JUSTIÇA ESCOLAR ALTERNATIVO À


IGUALDADE MERITOCRÁTICA E TÃO FORTE QUANTO.

CAPÍTULO II – A IGUALDADE DISTRIBUTIVA DAS OPORTUNIDADES

Uma política de distribuição controlada e razoável dos recursos atribuídos à educação pública
e privada, a fim de construir uma maior igualdade na competição escolar.

“Sempre se pode dizer que é dever do Estado melhorar a qualidade dos estabelecimentos
escolares das zonas menos favorecidas a fim de que ninguém tenha boas razões para deles
fugir. Isso é incontestável. Mas é igualmente incontestável que, enquanto esperam, os alunos
dos bairros desfavorecidos sofrem, notadamente os melhores dentre eles que poderiam se
beneficiar amplamente de um bom ambiente escolar no colégio, o que lhes pe vedado em
nome de um mapa que defende a mistura social. É preciso, portanto, rever o mapa escolar a
fim de que ele não se torne o decalque da segregação urbana...” (p. 59)

Discriminação positiva >> Cotas

“[...] essa política pode influenciar uma cristalização dos pertencimentos sociais atribuídos ou
‘inatos’, obrigando os indivíduos a se definirem por sua herança social, étnica ou sexual: a fim
de se beneficiar de um direito específico, ter-se-ia que se identificar um grupo. Sobretudo,
essa maneira de agir pode por sua vez produzir as maiores injustiças e as maiores frustrações
quando se continua acreditando na necessidade da ficção da igualdade das oportunidades”. (p.
61)

Políticas de affirmartive action x Políticas de affirmative opportunity (William Julius Wilson)

- Tratamento diferencial dos indivíduos segundo a singularidade de suas histórias e de seus


projetos.

Políticas de discriminação positiva que tenha como alvo tanto indivíduos como
estabelecimentos frágeis.

“A igualdade só é desejável quando aparece como um exercício de liberdade, quando ela


amplia a capacidade de exercer essa liberdade” (p. 70)

CAPÍTULO III – A IGUALDADE SOCIAL DAS OPORTUNIDADES

Princípio da diferença – “[...] as desigualdades decorrentes da igualdade meritocrática das


oportunidades não devem se desenvolver às custas dos alunos de menor performance, seja
qual for o mérito dos vencedores e sua utilidade coletiva, sua eficiência”. (p. 73)

“Sem atacar o princípio do mérito, convém garantir a todos os alunos a aquisição da cultura
comum a que têm direito. Ao lado de uma igualdade das oportunidades que deve possibilitar
aos melhores alcançarem a excelência, é preciso definir o que a escola obrigatória deve
obrigatoriamente garantir a todos os alunos”. (p. 75)

Quais devem ser as bases da cultura comum?

“A definição de uma cultura comum permanece conflituosa e política, porque implica uma
concepção do que os filósofos chamam ‘a vida boa’, e porque essa vida desejável a todos deve
ser uma vida possível e não uma vida perfeita”. (p. 82)

“A afirmação de uma cultura comum leva a suspender toda seleção, multiplicando as ofertas
de formação desde que os alunos adquiram o bem comum a que eles têm direito. Em outras
palavras, nada impede de dar mais, a mesmo muito mais que a cultura comum, pois a
igualdade meritocrática das oportunidades não desaparece e nada obriga a pensar
angelicamente que os alunos não são mais ou menos rápidos, mais ou menos interessados,
ativos e mobilizados. É, portanto, bom e justo que os que podem e querem façam mais latim,
matemática ou esporte... Mas só se pode lhes oferecer mais quando se está seguro
primeiramente de que cada um adquiriu o que lhe é devido em termos de conhecimentos e
competências consideradas indispensáveis a todos”. (p. 89)

“A escolha de construir o colégio sobre o princípio da diferença, o da cultura comum garantida


a todos, não visa unicamente tornar a escola mais justa, atenuando a brutalidade da igualdade
de oportunidades e do mérito [...] é em si um bem de integração social”. (p. 90)

Educar junto os alunos diferentes sem baixar o nível nem limitar o talento das elites,
favorecendo mobilidades e não lhes encerrando precocemente em certas habilitações,
fechando mais portas do que abrindo (p. 91)

“O imperativo da cultura comum é uma escolha de justiça fundamental, pois preserva os mais
fracos de uma degradação de sua situação. Mais ainda, ele faz do aumento de seu nível de
formação geral uma prioridade de justiça, uma exigência de cidadania e, provavelmente, uma
condição de eficiência coletiva [...]Na escola, a prioridade atribuída à igualdade social das
oportunidades introduzirá certamente uma mutação tão radical quanto o fora a extensão dos
direitos sociais, dando, ao preço de muitas lutas, alguma ‘realidade’ aos direitos políticos”. (p.
92-93)