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MARATONA DA POESIA

8º Ano
2010/2011
Esta «Maratona da Poesia -8º ano» assenta numa selecção de
textos existentes em manuais escolares, homenageando todas
e todos os autores de manuais escolares que, afincadamente,
dão a conhecer os poetas e as poetisas. Aproximamo-nos da
poesia lida, apreendida, aprendida, trabalhada nas salas de
aula, também desta forma.

Sendo certo que há textos com índices de dificuldade variada,


propomos que, em cada turma, se delibere quem «diz» o quê
ou quem «leia» o quê.

Mais uma organização CR/BE em prol do Apoio ao


Desenvolvimento Curricular, à Leitura, à Literacia e mais do que
tudo isto… em prol de cada pessoa, de cada utente.

Bem-vindos e bem-vindas ao mundo da poesia… e tragam


um@ amig@ também.

A coordenadora do CR/BE
Amélia Rosa Macedo
Índice Remissivo
Por título

1. LEGENDA
2. UMA PALAVRA DORME 16. FRONTEIRA

3. ROSAS SANTAS 17. REGRESSO

4. O PÁSSARO MANSO E O 18. SEGREDO

PÁSSARO LIVRE 19. QUANDO EU NASCI


20. NATAL, E NÃO DEZEMBRO
5. A RALHA SEQUIOSA
21. NATAL DE POBRES
6. O FRANGO E A PÉROLA 22. PAÍS NATAL
7. FÁBULA DA FÁBULA 23. HINO À MINHA TERRA
24. SER POETA
8. EU, ETIQUETA 25. QUANDO O MEU CORPO
9. AMANHÃ ACONTECEU… 26. PRAIA
27. MENINA DOS OLHOS
10.AINDA QUE MAL
TRISTES
11.VIAGEM 28. ONDE ME LEVAS; RIO QUE
12.FANTASIA CANTEI
13.SE ESTOU SÓ 29. QUATRO LUGARES COMUNS
SOBRE VÁRIAS ARTES POÉTICAS
14.POESIA
30. MOMENTO
15.COMUNHÃO
MARATONA DA POESIA
Poesias propostas
8º Ano
2010/2011
Texto1
LEGENDA
João Rui de Sousa, Meditação em Samos, 1970

As palavras erguem-se
À altura do vento
Delas nasce a nuvem
Do nosso pensamento.

E a nuvem vai ou fica


- Perece só o amor existe
E aquece.
Texto2
UMA PALAVRA DORME
José Carlos Ary dos Santos, Sofrimento

Uma palavra dorme em seu casulo


De saliva lavrada
Está viva porém muda
E anulada.

Uma palavra hiberna em seu conteúdo


Seu buraco de som seu palácio de letras:
Bela Adormecida à espera que tudo
Volte a acordar nos poetas.

Diremos outras vezes


Que uma esbelta palavra se levanta
E canta
O perfeito silêncio que a inventa.

Outras vezes diremos


Que uma palavra tenta
Ser apenas
O acto
Que desvenda.
Texto3
ROSAS SANTAS
(lenda)
Manuel da Silva Gaio. Versos Escolhidos

Em Terras de Portugal
Uma princesa reinava,
A quem o povo leal
Luz dos seus olhos clamava.

À vista só do seu manto,


Por onde quer que passasse,
Corava a todos a face, Que a chuva que então choveu
Secava a todos o pranto. Da lua vinha, por certo,
Pois nuvens não nas vi eu,
Ora uma vez, que a princesa E o céu era um céu aberto.
Por minha ponte seguia,
Como eu num fio morria, E minhas águas cresceram,
Doeu-lhe a minha pobreza. E minhas águas levaram
Rosas, que os campos encheram,
E logo o seu manto abriu, Rosas que o mar perfumaram.
Donde tombaram mãos cheias
De rosas com que cobriu
Estas enxutas areias.

E quando a noite chegou,


Temeu vê-las murchar,
A lua mal despontou,
Pôs-se a chorar, a chorar,
Texto 4
O PÁSSARO MANSO E O PÁSSARO LIVRE
Rabindranath Tagore (1981). O Coração da Primavera. Editorial A.O.
Braga

O pássaro manso vivia na gaiola,


E o pássaro livre no bosque, O pássaro livre cantava:
Mas o destino de ambos - Não, não, não;
Era encontrarem-se Ninguém pode ensinar as canções.
E tinha chegado o momento. O pássaro preso dizia:
- ai, eu não sei as canções do
O pássaro livre cantava: campo!
- Amor, vem até ao bosque.
O pássaro preso dizia baixinho: O amor deles é um desejo infinito,
- vem tudo aqui, Mas não podem voar lado a lado,
Vivamos os dois na gaiola. Olham-se e tornam a olhar-se
E o pássaro livre dizia: Através dos arames da gaiola,
- As almas não podem expandir-se Mas é em vão o seu desejo.
Entre grades.
- Ai – dizia o pássaro preso – Batem as asas, nostálgicos,
Que saberei eu pousar no céu? E cantam:
- aproxima-te mais, aproxima-te
Mas o pássaro livre cantava: mais.
-Meu amor, O pássaro livre grita:
Canta a canção do campo. - não posso
O pássaro preso dizia: Que medo me causa
-Fica a meu lado; A tua gaiola fechada!
Vou ensinar-te as canções dos O pássaro preso canta baixinho:
sábios. - ai, não posso
As minhas asas morreram!
Texto 5
A RALHA SEQUIOSA
António de Azevedo Castelo Branco. Lira Ardente

Queimava sede ardente


A pobre de uma gralha;
Porém, por mais que tente,
Não bebe duma talha.
Pousara na vasilha
Com água lá no fundo;
Com ar meditabundo,
O pássaro esmerilha,
Espreita à roda, e vede,
Que singular lembrança!
Pedrinhas dentro lança,
E assim matou a sede!
O líquido na talha subiu, parece cheia;
Com tão feliz ideia
Pôde beber a gralha.
Primeiro em vão se esforça
Pela tombar no chão;
Porém a reflexão
Valeu-lhe mais que a força.
Texto 6
O FRANGO E A PÉROLA
Visconde de Santo Tirso (século XIX)

Um pintainho andava na estrumeira,


Debicando em procura de alimento,
Quando achou, misturada na esterqueira,
Uma formosa pérola, um portento!

O pinto era filósofo, decerto,


Pois afirma o honrado fabulista
Que ele ficou ali de bico aberto,
Meditando em tal coisa nunca vista.

E depois exclamou, triste e mesquinho,


Cismando nos contrastes deste mundo
- e falava latim o pintainho! -:
- tão linda coisa num lugar imundo!

Se algum homem te achasse, o antigo brilho


Recobraras, ó pérola manchada!
Mas eu prefiro a ti um grão de milho:
Para mim, que te achei, não vales nada!
Texto 7
FÁBULA DA FÁBULA
Miguel Torga. Diário VIII

Era uma vez


Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
A base duns insectos,
De quem não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome

E, realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.
Texto 8
EU, ETIQUETA
Carlos Drummond de Andrade. O Corpo. (Brasil)

Em minha calça está grudado um nome


Que não é meu de baptismo ou de cartório,
Um nome…estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu ténis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por ste provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu corpo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico de sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais
Ordens de uso, abuso reincidência,
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
Seja negar a minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logótipos do mercado (…)
Agora sou anúncio
Ora vulgar ou bizarro,
Em língua nacional oi em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação.
Texto 9
AMANHÃ ACONTECEU…
Alexandre O’Neill. Poesias Completas

Que é notícia?

Um hoje que nunca é hoje.


Um amanhã que é já ontem
Entre ontens que se perdem
No anteontem dos anos no transantontem dos lustros…

Que é notícia?

Amanhã acontecido,
Notícia é sempre um depois,
É um viver vivido…

Que é notícia?

Notícia é devoração!
Aí vai ela pela goela que há-de engolir tudo e todos!
Aí vai ela, lá foi ela!

Nem trabalho de moela


Retém a notícia…

Que é notícia?

Cão perdeu-se! Por que não?


Cão achou-se! Ainda bem!
Ainda melhor por sinal,
Se o cão perdido e o achado
Forem um só e um mesmo
«lidos» no mesmo jornal!
Texto 10
AINDA QUE MAL
Carlos Drummond de Andrade. Obra Poética

Ainda que mal pergunte,


Ainda que mal respondas;
Ainda que mal repitas;
Ainda que mal insista,
Ainda que mal desculpes;
Ainda que mal me exprima,
Ainda que mal me julgues;
Ainda que mal me mostre,
Ainda que mal me vejas;
Ainda que mal te encare,
Ainda que mal te furtes;
Ainda que mal te siga,
Ainda que mal te voltes;
Ainda que mal te ame,
Ainda que mal o saibas;
Ainda que mal te agarre;
Ainda que mal te mates;
Ainda assim te pergunto
E me queimando em teu seio,
Me salvo e me dano, amor.
Texto 11
VIAGEM
Miguel Torga, Câmara Ardente

Aparelhei o barco da ilusão


E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos!).

Prestes, larguei a vela


E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas o corpo as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não chegar.
Texto 12
FANTASIA
Fernando Pessoa. Poesias Inéditas

Do seu longínquo reino cor-de-rosa


Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

A criança que dorme chega leve,


E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia –
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam


Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam rabecas…

E há figuras pequenas e engraçadas


Que brincam e dão saltos e passadas…
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.
Texto 13
SE ESTOU SÓ
Fernando Pessoa. Poesias Inéditas

Se estou só, quero não star,


Se não stou, quero star só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele,


E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer


Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.
Texto 14
POESIA
Sebastião da Gama. Serra Mãe

Ai deixa, deixa lá que a Poesia


No perfume das flores, no quebrar
Das ondas pela praia,
Na alegria
Das crianças que riem sem porquê
- Deixa lá que se exprima a Poesia.

Fica sentado aí onde estás, Poeta,


E não mexas os lábios nem os braços:
Deixa-a viver em si;
Não tentes segurá-la nos teus braços,
Não pretendas vesti-la com palavras.

Se a queres ter,
Se a queres sempre ver pairando à flor das coisas, fica aí
No teu caminho e nem respires, Poeta, e não te bulas,
Pra que ela não dê por ti.

Não a faças fugir toda assustada


Com a tua presença…
Deixa-a, nua, pairando à flor das coisas,
Que ela não sabe que a viste,
Nem sabe que está nua,
Nem sequer sabe que existe …
Texto 15
COMUNHÃO
Miguel Torga. Cântico do Homem

Tal como o camponês, que canta a semear


A terra,
Ou como tu, pastor, que cantas a bordar
A serra
De brancura,
Assim eu canto, sem me ouvir cantar,
Livre e à minha altura.

Semear trigo e apascentar ovelhas


É oficiar à vida
Numa missa campal.
Mas como sobra desse ritual
Uma leve e gratuita melodia,
Junto o meu canto de homem natural
Ao grande coro dessa poesia.
Texto 16
FRONTEIRA
Miguel Torga. Libertação

De um lado a terra, doutro lado terra;


De um lado gente, doutro lado gente;
Lados e filhos desta mesma Serra,
O mesmo céu os olha e os consente.

O mesmo beijo aqui, o mesmo beijo além;


Uivos iguais do cão e de alcateia.
E a mesma lua lírica que vem
Corar meadas de uma velha teia.

Mas uma força que não tem razão,


Que não tem olhos, que não tem sentido,
Passa e reparte o coração
Do mais pequeno tojo adormecido.
Texto 17
REGRESSO
Miguel Torga. Diário VI

Regresso às fragas de onde me roubaram.


Ah! Minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância.

Cantava cada fonte à sua porta:


O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.

Depois o céu abriu-se num sorriso,


E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos,
Aos deuses do meu velho paraíso.
Texto 18
SEGREDO
Miguel Torga, Diário I

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:


Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser u bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar
Texto 19
QUANDO EU NASCI
Sebastião da Gama. Pelo Sonho É Que Vamos. Ed. Ática

Quando eu nasci,
Ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias


Nem o sol escureceu
Nem houve estrelas a mais…
Somente,
Esquecida das dores,
A minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
Não houve nada de novo
Senão eu.

As nuvens não se espantaram,


Não enlouqueceu ninguém…
Pra que o dia fosse enorme,
Bastava
Toda a ternura que olhava
Nos olhos de minha Mãe.
Texto 20
NATAL, E NÃO DEZEMBRO
David Mourão-Ferreira. Cancioneiro de Natal. Ed. Verbo

Entremos, apressados, friorentos,


Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,


Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja universal a consoada.
Texto 21
NATAL DE POBRES
Leonel Neves. O Menino e as Estrelas. Livros Horizonte

Quando a mulher adormeceu


Naquela noite de Natal,
O homem foi, pé ante pé,
Pôr um sapato (dela, não seu)
Com um embrulho de jornal
Na lareirinha da chaminé.

Um casal pobre… um ano mau…


Era um pedaço de bacalhau.

Ora alta noite, pela janela,


Com fome e frio, entrou um gato
Que, no escuro, cheirando aquela
Comida boa no sapato,
Rasgou o embrulho, comeu, comeu
E, quente e farto, adormeceu.

De manhã cedo, ela acordou,


Foi à cozinha e viu o gatinho
Adormecido no seu sapato.
Voltando ao quarto, feliz, falou
Para o seu homem: - meu amorzinho,
Como soubeste que eu queria um gato?
Texto 22
PAÍS NATAL
António Baticã Ferreira (Guiné). Primeiro Livro de Poesia

Um sentimento de amor pátrio sobe no meu coração,


Em espírito demando o meu país natal,
E lembro aquela floresta africana,
Cheia de caça e de verdura;
Lembro as suas imensas árvores gigantes,
A folhagem verde ou amarela
Que nos perfuma.
Revejo a minha infância,
Toda cheia de alegrias:
Eu corria pelo mato,
Espiava os animais selvagens,
Sem medo;
E olhava os lavradores nos campos,
E, no mar, os pescadores,
Que lutavam contra o vento, para agarrar o peixe,
E que eu, atento, seguia com o olhar:
Como gostava de os ver no oceano
Domar as vagas, que lhes queriam virar as barcas!
(Ah! Bem me lembro, bem me lembro do meu país natal!)
Texto 23
HINO À MINHA TERRA
José Craveirinha (Moçambique). 50 Poetas Africanos

O sangue dos nomes


É o sangue dos homens.
Suga-o também se és capaz
Tu que não os amas.

Amanhece
Sobre as cidades do futuro.
E uma saudade cresce no nome das coisas
E digo Metengobalame e Macomia
E é Metengobalame a cálida palavra
Que os negros inventaram
E não outra coisa Macomia.

E grito Inhamússua, Mutamba, Massangulo !!!


E torno a gritar Inhamússsua, Mutamba, Massangulo !!!
E outros nomes da minha terra
Afluem doces e altivos na memória filial
E na exacta pronúncia desnudo-lhes a beleza.
Texto 24
SER POETA
Florbela Espanca. Charneca em Flor

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior


Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e Além-Dor!

É ter mil desejos o esplendor


É não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!


Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…


É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Texto 25
QUANDO O MEU CORPO
Sophia de Mello Breyner Andresen. Dia do Mar

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta


Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar


Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longas pontes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,


Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Texto 26
PRAIA
Sophia de Mello Breyner Andresen. Coral

Os pinheiros gemem quando passa o vento.


O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar


Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repente,


Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz


A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro


Baloiça nos pinheiros.
Texto 27
MENINA DOS OLHOS TRISTES
Reinaldo Ferreira. Poemas (Moçambique)
Poema cantado por Adriano Correia de Oliveira

Menina dos olhos tristes,


O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,


Porque a fatiga o tear?
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Vamos, senhor pensativo,


Olhe o cachimbo a apagar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Anda bem triste um amigo,


Uma carta o fez chorar,
- o soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

A Lua, que é viajante,


É que nos pode informar.
-o soldadinho já volta,
Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta,
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.
Texto 28
ONDE ME LEVAS; RIO QUE CANTEI
Eugénio de Andrade. As mãos e os Frutos

Onde me levas rio que cantei,


Esperança destes olhos que molhei
De pura solidão e desencanto?
Onde me levas – que me custa tanto?

Não quero que conduzas ao silêncio


De uma noite maior e mais completa,
Com anjos tristes a medir gestos
Da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo


Como o coração dos frutos bravos,
Pátria minha de fundos desenganos,
Mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo


E rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.
Texto 29
QUATRO LUGARES COMUNS SOBRE VÁRIAS ARTES POÉTICAS
Alexandre 0’NEILL

Estou sozinho diante da página em branco.

Cedo à inspiração?
Dedico-me ao suor?

Vou investir com a caneta o branco da página em branco.

Minha tentação era subscrever o branco,


Assinar o silêncio
Mas o branco seria o silêncio,
Uma vez assinado?

Cedo à inspiração?
Dedico-me ao suor?

Não vem de bandeja.


Nada vem do suor.
Texto 30
MOMENTO
Fernando Amaral. Antologia de Poesias Angolanas

No ramo de uma palmeira


Um «bico de lacre» está
Com uma altura que insiste
Em ser apenas de lá.

Mas um menino que passa


Aponta a fisga e dispara.

E o drama não foi a morte


- foi a voz que se calara,
A voz do «bico de lacre»
Que no momento cantava
Sem ver a traição da fisga
Do menino que passava.

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