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Assistência Farmacêutica no Programa Saúde da Família:

TEMAS LIVRES FREE THEMES


encontros e desencontros do processo de organização

Pharmaceutical Assistance in the Family Healthcare Program:


points of affinity and discord in the organization process

Tatiane de Oliveira Silva Alencar 1


Maria Angela Alves do Nascimento 1

Abstract The scope of this study was to discuss Resumo Estudo sobre a organização da Assistên-
the organization of the pharmaceutical assistance cia Farmacêutica no Programa Saúde da Família
service in the family healthcare program. Quali- (PSF). Tem-se como objetivo discutir a organiza-
tative research from a critical/analytical perspec- ção da Assistência Farmacêutica no PSF. Pesqui-
tive was conducted in family healthcare units in sa qualitativa, numa perspectiva crítico-analíti-
a municipality of the state of Bahia, Brazil. Data ca, tendo como campo de investigação as Unida-
was collected on the basis of systematic observa- des de Saúde da Família de um município da
tion, semi-structured interviews and documents Bahia. As técnicas de produção dos dados foram
analysis from a dialectic standpoint. The organi- observação sistemática, entrevista semi-estrutu-
zation of Pharmaceutical Assistance consisted of rada e análise de documentos. O método de análi-
selection, planning, acquisition, storage and dis- se foi o hermenêutico-dialético. A organização da
pensing activities. The process was studied in the Assistência Farmacêutica, demarcada pelas ações
implementation phase, which was occurring in a de seleção, programação, aquisição, armazena-
centralized and uncoordinated fashion, without gem, distribuição e dispensação, apresentou-se
the proposed team work. An excess of activity was como uma realidade ainda em construção, que se
observed among the healthcare workers and there dá de modo centralizado e desarticulado das de-
was an absence of a continued education policy mais ações de saúde, divergindo da proposta de
for the workers. For the transformation of this trabalho em equipe; excesso de atividades realiza-
situation and to ensure the organization of phar- das pelos trabalhadores de saúde; e a ausência de
maceutical assistance with quality and in an in- uma política de educação permanente para os tra-
tegrated manner, a reworking of the manner of balhadores. Para a transformação dessa realida-
thinking and action of the players concerned de, de modo a assegurar a organização da Assis-
(managers, health workers and users), who par- tência Farmacêutica com qualidade e integrali-
ticipate directly in the organization, is necessary. dade, faz-se necessário uma reconstrução do modo
Furthermore, mechanical, bureaucratic and im- de pensar e fazer dos sujeitos (gestores, trabalha-
personal work practices need to be abandoned. dores e usuários) que participam diretamente da
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Universidade Estadual de
Feira de Santana. Av. Key words Pharmaceutical assistance, Organi- organização, rompendo as práticas impessoais, bu-
Transnordestina, s/n CP zation, Family Health Program rocráticas e pouco comunicativas que as caracte-
252-294, Novo Horizonte.
rizam.
44036-900 Feira de Santana
BA. tatifarmauefs@ Palavras-Chave Assistência farmacêutica,
yahoo.com.br Organização, Programa Saúde da Família
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Introdução Destaca-se, contudo, que o ciclo operativo


envolve ações que implicam em relação entre su-
A construção das políticas de saúde no contexto jeitos, mais particularmente através da dispen-
brasileiro foi marcada pela reflexão sobre a for- sação. Há necessidade, portanto, da incorpora-
ma de se produzir ações mais resolutivas na saú- ção de tecnologias leves, aquelas denominadas
de, anteriormente centradas no controle de epi- de tecnologia das relações5, como vínculo, aco-
demias, focalizadas na doença e sua cura, con- lhimento, humanização, dentre outras percebi-
formando o modelo biologizante, centrado na das enquanto possibilidade para transformação
figura do médico. das práticas no contexto da assistência à saúde.
A Assistência Farmacêutica desenvolveu-se Dessa forma, ao se articular os saberes técnicos e
nesse mesmo cenário e tem agregado uma série as tecnologias das relações ao contexto no qual
de mudanças que lhe conferem um caráter ino- se insere as ações de Assistência Farmacêutica,
vador e pertinente à proposta de Saúde Coletiva, teve-se como questionamento o modo como se
a qual reconhece outros determinantes que pre- processa a organização de tais ações no serviço
cisam ser considerados no processo saúde-do- de saúde.
ença tais como o modo de vida, os aspectos cul-
turais e religiosos, a subjetividade dos sujeitos e
que têm sua resolução centrada num trabalho Metodologia
em equipe e na participação do usuário.
Historicamente, o processo de construção das Trata-se de um estudo de abordagem crítica-ana-
políticas de saúde brasileira tem incorporado re- lítica, que teve como cenário um município do
gulamentações diversas no âmbito da Assistên- estado da Bahia. O campo de investigação pro-
cia Farmacêutica tais como a Política Nacional priamente dito foram as farmácias das Unidades
de Medicamentos1, a Política Nacional de Assis- de Saúde da Família (USF) da zona urbana e ru-
tência Farmacêutica2, Política de Financiamento ral. Os sujeitos do estudo foram divididos em
da Assistência Farmacêutica3, entre outros. três grupos: grupo I, constituído por dois infor-
Por conseguinte, não se pode desconsiderar a mantes-chave (gestores); grupo II, por oito tra-
contribuição sobre o acesso a medicamentos que balhadores de saúde e o grupo III, treze usuários
tais políticas proporcionam no cenário da saú- das farmácias das Unidades de Saúde da Família.
de, bem como também desconsiderar algumas Como critério de inclusão, os trabalhadores de
limitações de caráter prático que as mesmas ain- saúde deveriam exercer atividades relacionadas à
da apresentam, especialmente, no que se refere dispensação de medicamentos nas farmácias das
ao atendimento das necessidades dos indivídu- USF há pelo menos seis meses; e os usuários de-
os. Concretamente, hoje se convive com um com- veriam ser maiores de 18 anos bem como utiliza-
plexo e diversificado conjunto de interesses que rem as farmácias das USF pelo mesmo período
integram políticas de saúde, políticas industriais, mínimo.
políticas científicas e tecnológicas que têm con- No desenvolvimento desta pesquisa foram
tribuído para que as práticas dos serviços ainda utilizadas três técnicas para produção de dados:
mantenham-se centradas no medicamento4. a observação sistemática, a entrevista semiestru-
A Assistência Farmacêutica pode ser compre- turada e a análise de documentos. Por se tratar
endida como uma atividade essencial para o aten- de uma pesquisa envolvendo seres humanos, esta
dimento das necessidades dos usuários dos servi- obedeceu à Resolução nº196 de 10 de outubro de
ços de saúde e a sua organização constitui-se em 1996, do Ministério da Saúde6, tendo sido apro-
uma série de atividades interligadas e dependen- vada pelo comitê de Ética em Pesquisa da Univer-
tes que contribuem para a integralidade das ações sidade Estadual de Feira de Santana.
como produção, seleção, programação, aquisi- O método de análise de dados foi a herme-
ção, armazenagem, distribuição e dispensação. nêutica-dialética, que se apresenta como um ca-
Assim esse artigo tem como objetivo discutir o minho do pensamento, um encontro entre a arte
processo de organização da Assistência Farma- da compreensão (hermenêutica) e arte do estra-
cêutica, considerando as atividades do seu ciclo nhamento e da crítica (dialética), entre a teoria e
logístico, compreendendo que a organização des- práxis. A hermenêutica e a dialética apresentam-
sas atividades reforça o sentido de integralidade se como momentos necessários na produção da
das ações conforme estabelecido como princípio racionalidade, pois ambas trazem em seu núcleo
do SUS, uma vez que poderá contribuir para tor- a ideia fecunda das condições históricas de qual-
nar mais eficiente e resolutiva as ações de saúde. quer manifestação simbólica, da linguagem e de
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qualquer trabalho do pensamento; ambas par- Nacional de Medicamentos Essenciais (RENA-
tem do pressuposto de que não há observador ME) o documento oficial de referência nacional9.
imparcial; ambas ultrapassam a simples tarefa Ao servir de referência para a elaboração das
de serem ferramentas do pensamento; ambas listas de medicamentos essenciais dos Estados e
questionam o tecnicismo presente nos métodos Municípios, constituindo um instrumento fun-
das Ciências Sociais; ambas referem-se à práxis7. damental à orientação, à prescrição, à dispensa-
ção e ao abastecimento de medicamentos, a RE-
NAME tem sua relevância acentuada e tornam-
Resultados e discussões se imprescindíveis ações de atualização, revisão e
adaptação às reais necessidades de cada local para
No presente estudo a Assistência Farmacêutica é que seja efetiva. Além disso, os determinantes
compreendida como produto de um conjunto como a modificação do perfil epidemiológico da
de atividades que reúnem diferentes processos população, o processo dinâmico da indústria
de trabalho. Daí serem discutidas algumas con- farmacêutica com a introdução e a modificação
cepções articuladas com as tecnologias envolvi- de novos fármacos, os avanços terapêuticos e
das no processo de trabalho, classificadas como tecnológicos são justificativas plausíveis para a
tecnologias leves, que compreendem as tecnolo- necessidade de constante revisão da RENAME.
gias das relações do tipo vínculo, autonomiza- Neste estudo, vimos que a seleção de medica-
ção, acolhimento; tecnologias leve-duras, enten- mentos não é um processo dinâmico, constante
didas como os saberes estruturados que operam e coletivo, uma vez que, na prática, essa seleção é
no processo de trabalho em saúde, como a Clí- uma simples adaptação de listas de medicamen-
nica Médica, a orientação farmacêutica e a Epi- tos já existentes ou, quando muito, aparecem
demiologia; e as tecnologias duras, como os equi- como discussões pontuais, apesar de existir uma
pamentos, normas e estruturas5. Comissão de Farmacoterapêutica (CFT) no
A produção é vista como a obtenção de pro- município, que é uma instância colegiada, de ca-
dutos farmacêuticos a partir de um conjunto de ráter consultivo e deliberativo que deve garantir
conhecimentos e procedimentos condicionados um caráter multidisciplinar e dinâmico ao pro-
a padrões e técnicas de qualidade, regidos por cesso de seleção de medicamentos. Geralmente é
regulamentações e normas8. A Política Nacional constituída por médicos, enfermeiros e farma-
de Medicamentos1 estabelece a produção como cêuticos escolhidos a partir da experiência na área
diretriz, uma atividade realizada tanto por labo- terapêutica e, principalmente, do interesse e dis-
ratórios privados quanto por laboratórios pú- ponibilidade para contribuir9,10. Porém, os da-
blicos, inseridos no contexto das relações de mer- dos encontrados revelam que as ações da CFT
cado, dos incentivos à pesquisa e desenvolvimen- refletem um descompromisso dos representan-
to de fármacos e das necessidades sociais. tes e também em pouca resolutividade das ações
No processo de Assistência Farmacêutica, a que seriam de sua competência, conforme os de-
produção de medicamentos é a etapa que envol- poimentos a seguir:
ve unicamente as tecnologias duras, representa- A gente organizou a comissão, mas de lá pra
das pelos diversos equipamentos, e as tecnologi- cá a gente não teve mais reuniões. Eu conversei
as leve-duras, sintetizadas nos conhecimentos com uma colega pra gente estar fazendo essas reu-
técnicos específicos da área farmacêutica. No en- niões, mas ela também tá cheia de trabalho e aí
tanto, ela é essencial, pois os medicamentos re- a gente deu uma parada [...] (E.1, Grupo I).
sultantes deste processo são instrumentos que Tinha muita dificuldade pra encontrar um dia
possibilitam a continuidade das demais ações que pra se reunir. O dia era de acordo com a disponibi-
são constituídas por outros tipos de tecnologias, lidade de uma médica psiquiatra do CAPS. Como
e que permitem outros tipos de relações. ela só ia uma vez por semana no município, a gen-
A seleção é entendida como um processo de te tentava marcar neste dia. Precisava de um psi-
escolha de medicamentos eficazes e seguros, im- quiatra porque são medicações que realmente pre-
prescindíveis ao atendimento das necessidades de cisavam ter. Mas também marcava no dia e ela
uma dada população, com base em critérios fár- acabava não indo (E.2, Grupo I).
maco-epidemiológicos e fármaco-econômicos De acordo com os depoimentos, existe uma
pré-definidos, e também na estrutura dos servi- desarticulação e não efetividade do trabalho en-
ços de saúde, com a finalidade de garantir uma tre os componentes da Comissão ao revelarem
terapêutica medicamentosa de qualidade nos di- que, na prática, as reuniões não têm ocorrido de
versos níveis de atenção à saúde, sendo a Relação maneira regular, prejudicando a realização das
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atividades. Compreensão esta, que pode ser com- Diante desta realidade, vê-se claramente a com-
plementada com a análise da Ata da Comissão plexidade e a diversidade de serviços desenvolvidos
de Farmácia e Terapêutica11, onde é registrada pelo PSF, uma vez que, além de envolverem fontes
apenas uma única reunião, o que reforça a fala de financiamento ainda em constantes discussões,
do entrevistado 1, grupo I. há ausência de uma política de recursos humanos
A seleção de medicamentos propriamente dita para o SUS. Contudo, é preciso que esses trabalha-
deve ocorrer através de um trabalho coletivo de dores desconstruam tais discursos dos usuários e
profissionais, dinâmico e resolutivo, capaz de da sociedade em geral, sobre o Sistema Único de
satisfazer as demandas de maneira racional. Os Saúde, oportunizando ao usuário sua participa-
depoimentos a seguir expressam uma prática que ção no processo enquanto sujeito coletivo para re-
divergem desta ideia: verter a realidade de saúde em defesa da vida.
Eu tomo mais remédio, mas eu só pego esse Uma outra etapa imprescindível do ciclo de
[captopril] e o remédio da diabetes eu pego aqui Assistência Farmacêutica é a programação, con-
também, mas o remédio caro da artrose eu nunca siderada como um conjunto de atividades desti-
peguei (E.11, Grupo III). nadas a garantir a disponibilidade de medica-
Tem vezes que passa pra comprar, tem que mentos previamente selecionados e compatibili-
comprar mesmo. É devido ao sofrimento da colu- zar com os recursos disponíveis, a fim de garan-
na. Aí eu tenho que comprar (E.17, Grupo III). tir o acesso da população à terapêutica medica-
Os depoimentos dos usuários 11 e 17 expres- mentosa em qualidade e quantidade adequada,
sam um entendimento limitado quanto às po- em um período definido de tempo9,12,13. A pro-
tencialidades do SUS, na medida em que sugerem gramação é, portanto, uma atividade associada
que os medicamentos distribuídos são baratos e ao planejamento e por isso precisa haver meca-
para situações de menor complexidade, sendo nismos de controle e de acompanhamento.
necessário arcar com despesas para a aquisição A partir destes critérios, nota-se que a pro-
daqueles que venham atender à totalidade de suas gramação é uma atividade que necessita da con-
necessidades. No entanto, faz-se necessário ex- tribuição dos diferentes sujeitos, por meio dos
trapolar esses pré-conceitos estabelecidos na soci- diferentes saberes, práticas e conhecimentos que,
edade de que o SUS é para pobres ou que não integrados numa perspectiva coletiva, possibili-
possui o mesmo valor que o serviço privado. tem a efetivação de ações que assegurem o direi-
Além dessas reflexões, tais falas e outras situ- to à saúde. Ou seja, é um processo que precisa
ações observadas contribuíram para alguns ques- ser descentralizado e ascendente para que possi-
tionamentos: a lista de medicamentos do Muni- bilite a transmissão de informações fidedignas,
cípio realmente tem atendido às necessidades lo- capazes de expressar a realidade local.
cais? Por que o usuário atendido na rede pública Os depoimentos a seguir convergem com a
municipal faz uso de medicamentos não dispo- realidade observada.
níveis no serviço do Município? Qual a garantia Eu tenho planilhas [...]. Toda medicação, por
de que este usuário terá acesso ao medicamento exemplo, no mês eu despachei 200 amoxicilina. Aí
caro da artrose, ao qual se referiu? Qual a garan- então, no final do mês eu só faço corrigir e passo
tia de adesão ao tratamento? E, por fim, como para a próxima planilha, a que vai o pedido. O
será possível discutir tais questões e transformar paciente é diabético ou hipertenso ele vem todo
essa realidade se elas não são percebidas ou, se mês pra cá. Então, ele tá cadastrado aqui: hidro-
percebidas, não são dialogadas entre os traba- clorotiazida, captopril e furosemida. Então aqui
lhadores de saúde, inclusive aqueles que, ao me- tem nome, data e quantidade da medicação. As-
nos formalmente, compõem a CFT? sim, no final do mês você tem uma ideia de quanto
Estas questões não podem ser desvinculadas já gastou (E.6, Grupo II).
do processo de construção das políticas de saúde [...] Por exemplo, esse mês teve 5280 captopril,
e, mais especificamente, da Assistência Farma- mas em compensação, esse mês não teve atendi-
cêutica já que expõem a realidade encontrada no mento da enfermeira porque ela tá de férias e
Município em estudo, diante do seu processo de não teve tanto como no mês anterior. Eu só pedi
organização caracterizado por uma assistência pra completar. Eu já tenho toda essa base da hidro-
marcadamente centrada no medicamento, sem clorotiazida, do captopril, do que sai mais, do que
considerar as particularidades dos usuários, suas sai menos. [...] eu não peço a mais. É só o que
dificuldades e contexto, no qual estão inseridos; precisa mesmo (E.6, Grupo II).
além de pouco dialogada entre os sujeitos cons- Diante de tal realidade, torna-se imprescin-
trutores dessa prática, como pudemos observar. dível que a atividade de programação esteja as-
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sociada ao planejamento, requerendo a adoção afirma que houve um aumento significativo de
de critérios referidos anteriormente, de metodo- recursos financeiros em relação às contraparti-
logias e definição de sujeitos responsáveis pela das das três esferas entre os anos de 2005 e 2006.
atividade, numa perspectiva de compromisso Porém, há uma ressalva quanto ao repasse esta-
coletivo, de forma que proporcione resultados dual ao destacar atrasos em decorrência da falta
positivos para a comunidade. Ou seja, as ativi- de alguns itens na Central Farmacêutica da Bahia
dades de programação e planejamento exigem – CEFARBA, o que, possivelmente, tem reflexos
critérios que vão além da simples observação da no abastecimento de medicamentos das unida-
demanda atendida e não atendida, conforme ve- des da atenção básica nos demais municípios.
rificado no depoimento do entrevistado 6, mas Todavia, ainda assim, a falta de recursos fi-
envolvem também aspectos como o perfil epide- nanceiros não pode ser utilizada como justifica-
miológico e dados populacionais, a partir de um tiva das instabilidades na aquisição de medica-
sistema de dados eficiente e real, a adequação de mentos conforme relatou o entrevistado 2, ao
recursos financeiros e, também importante, os explicitar a necessidade de maior interação entre
mecanismos de controle e avaliação, pois o pro- os responsáveis pelo processo de aquisição, no
cesso é dinâmico e não estático. Não pode, por- sentido de minimizar esses entraves.
tanto, ser realizado acriticamente. [...] Minha maior atividade era sentar com
A fala do entrevistado 6 expressa também que, esse pessoal todo junto, setor do almoxarifado, As-
diante da ausência da enfermeira, a unidade não sistência Farmacêutica, contabilidade e setor de
se organizou para adequar condições que permi- compras. Colocava todo mundo em volta da mesa e
tissem continuar os atendimentos dos usuários estava identificando essas falhas. Então eu dizia:
que, de acordo com o depoimento, ficaram de- gente não está faltando dinheiro pra comprar
sassistidos do cuidado do trabalhador e também medicação, por que é que está faltando medi-
dos medicamentos necessários. Situações como cação? Toda reunião começava assim: Não faltou
estas possivelmente não acontecem de forma iso- dinheiro, eu não recusei comprar medicação, não
lada e exigem intervenções imediatas, devido ao neguei nenhum pedido que veio, por que então
fato de interferirem negativamente na vida desses faltou medicação? Então eu sempre perguntava isso.
sujeitos. Além disso, implicam em considerações Um olhava pro outro e aí a gente acabava desco-
quanto ao planejamento, compromisso, respon- brindo, verificando o que exatamente houve (E.2,
sabilidade, vínculo e resolubilidade das ações que Grupo I).
são produzidas pelos trabalhadores. Mais uma vez é reiterada a nossa ideia do
Em relação a aquisição, o Ministério da Saú- pensar coletivo, do agir em equipe para que as
de14 a define como um conjunto de procedimen- ações se construam efetivamente, de maneira pla-
tos articulados pelas quais se efetiva o processo nejada, articulada entre outros setores envolvi-
de compra de medicamentos estabelecidos pela dos, com consideração às limitações e capacida-
programação, de forma a garantir o suprimento des de cada um, de modo claro, para que se te-
das unidades de saúde em quantidade, qualida- nha conhecimento do significado do seu traba-
de e menor custo/efetividade, com a finalidade lho para a coletividade. Não se pode, portanto,
de manter a regularidade e o funcionamento do permitir que as ações equivocadas dos trabalha-
sistema. dores sejam obstáculos para a garantia dos di-
A Portaria GM nº 3237 de 24 de dezembro de reitos dos cidadãos.
200715, estabelece normas de execução de financi- A elaboração dos Planos de Assistência Far-
amento da assistência farmacêutica na atenção macêutica constitui um instrumento que contri-
básica, modificando os valores mínimos de re- bui para o planejamento e a condução das ações
passe das três esferas. Assim, cabe a União o va- que conformam a Assistência Farmacêutica, mas
lor de R$ 4,10 por habitante/ano, aos Estados e ainda não foi elaborado pelo Município pesqui-
ao distrito federal, o valor de R$ 1,50 por habi- sado. Neste sentido, acreditamos que os Planos
tante/ano; e aos Municípios, R$ 1,50 por habi- são importantes à operacionalidade das ações,
tante/ano. Além desses recursos, o Ministério da na medida em que explicitam as etapas necessá-
Saúde financiará, com recursos distintos dos men- rias ao alcance de determinados objetivos e pos-
cionados acima, a aquisição e distribuição de in- sibilitam o acompanhamento das ações. No en-
sulinas, contraceptivos e insumos do Programa tanto, o planejamento não se reduz à produção
Saúde da Mulher. de planos, a teorias, ele precisa ser elaborado de
Complementando essas informações quan- modo a romper os limites teóricos para que seja
to ao financiamento, o Relatório de Gestão 200616 capaz de interferir na realidade.
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Após selecionados e adquiridos pelas unida- mento Farmacêutico (CAF), assim como a in-
des gestoras em todos os níveis, os medicamen- serção do farmacêutico no serviço.
tos devem ser distribuídos de maneira coerente Já consegui separar dentro de algumas normas,
às demandas locais previamente conhecidas, nos algumas coisas da VISA, já fazendo a Central de
prazos determinados, em quantidade e qualida- Armazenamento Farmacêutico. [...] Nós fizemos
de adequadas. Este processo é definido como dis- uma consulta à SESAB e aí nos foi esclarecido que
tribuição e alguns critérios são estabelecidos pelo para os municípios menores, não necessariamente
Ministério da Saúde14 tais como rapidez, segu- deveria ser dois lugares, mas que tinha que existir
rança, controle das informações relacionadas ao ambientes separados e adequar todas as normas da
estoque e adequadas condições de transporte. VISA. A outra questão foi a presença do farmacêu-
Dando continuidade às atividades que confi- tico (E.2, Grupo I).
guram a Assistência Farmacêutica tem-se a ar- O depoimento converge com as observações
mazenagem dos medicamentos adquiridos, cujo realizadas às quais nos possibilitaram perceber
objetivo é assegurar a qualidade dos medicamen- avanços significativos referentes à armazenagem
tos através de condições ambientais adequadas e dos produtos. Tanto no que diz respeito aos as-
do controle de estoque, de forma a garantir a pectos estruturais do CAF, como piso, parede,
disponibilidade dos medicamentos em todos os portas, teto, instalações elétricas e sanitárias, as-
locais de distribuição para os usuários, as far- sim como também, no que se refere aos equipa-
mácias das Unidades de Saúde da Família. mentos que facilitam a movimentação e estoca-
A armazenagem dos medicamentos ocorre gem, com finalidade de otimizar as atividades e
na Central de Abastecimento Farmacêutico aproveitar o espaço para empilhadeira, carros
(CAF), local destinado à guarda exclusiva de para transporte de medicamentos, termômetros,
medicamentos, é mediada pelas atividades de re- higrômetros, exaustores e outros.
cepção, estocagem, segurança e conservação. Um outro avanço diz respeito aos aspectos
Consiste em acondicionar os medicamentos ad- estruturais do CAF, como piso, parede, portas,
quiridos de acordo com a programação feita pe- teto, instalações elétricas e sanitárias, reportadas
las USF à coordenação da Assistência Farmacêu- no depoimento do entrevistado 2 a seguir, assim
tica de maneira que atenda aos critérios de boas como também, no que se refere aos equipamen-
práticas de armazenamento para que seja dis- tos que facilitam a movimentação e estocagem,
pensado com qualidade ao usuário13,17. Na ar- com a finalidade de otimizar as atividades e apro-
mazenagem, destacamos ainda o controle de es- veitar o espaço para empilhadeira, carros para
toque para que haja um acompanhamento das transporte de medicamentos, termômetros, hi-
movimentações de entradas, saídas e perdas de grômetros, exaustores e outros.
produtos de modo a minimizar obstáculos para Logo que começou foi a questão estrutural. Não
o acesso do usuário à Assistência Farmacêutica. existia a Central de Abastecimento Farmacêutico
A área destinada à guarda de medicamentos separado. Era tudo numa casa em péssimas condi-
deverá garantir as condições adequadas já referi- ções. Então logo no primeiro semestre de 2005 foi a
das, de modo a atender os critérios de Boas Prá- primeira providência. Era mais fácil e também mais
ticas de Armazenamento, que podem ser elabo- gritante. Foi mais fácil tirar de uma estrutura que
rados pelas diferentes instituições de acordo com tava ruim e passar para outra um pouco melhor
a realidade apresentada. Assim, também os mu- (E.2, Grupo I).
nicípios e estados devem desenvolver os seus Conforme esse depoimento, é visível uma
manuais para orientação das ações de armaze- preocupação e iniciativa por parte do gestor para
nagem. Além de explicitar as atividades em todas com a reestruturação do CAF, no sentido de
as suas etapas, o manual serve como orientação melhorar as condições de armazenagem. Assim,
escrita para os trabalhadores no setor. No en- ao utilizar-se dos critérios definidos pela Coor-
tanto, não exime a equipe de desenvolver traba- denação da Assistência Farmacêutica Estadual da
lhos de educação em saúde a partir de uma rela- Bahia, CEAF-BA17, são observados avanços em
ção dialógica entre os trabalhadores que poderá aspectos como localização, dimensionamento,
favorecer o estabelecimento de estratégias diante condições ambientais e comunicação com os de-
de possíveis dificuldades no setor, sejam estrutu- mais setores.
rais e financeiras ou da própria equipe. Quanto à localização, é visível que se tornou
O depoimento do entrevistado 2 mostra o mais acessível ao facilitar a entrada e a saída de
interesse desse gestor em atender às recomenda- mercadorias, o que contribui para minimizar di-
ções da Vigilância Sanitária no que se refere à ficuldades antes existentes já que o CAF ocupava
estrutura organizacional da Central de Abasteci-
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o 1º andar de um prédio e, por conta disso, mui- mas atribuições referentes à observação e ao con-
tas vezes provocou morosidade e desgastes no trole das condições ambientais, o que pode reve-
processo de recebimento e distribuição de medi- lar que, ao menos teoricamente, os trabalhadores
camentos. A partir do momento em que o CAF se têm conhecimento de suas responsabilidades.
instalou em local plano e mais próximo geografi- No entanto, é necessário destacar que todas
camente das unidades de saúde da família, o pro- as considerações quanto às condições ideais de
cesso de distribuição dos produtos tornou o ser- armazenagem também devem ser aplicadas às
viço mais eficiente, com repercussões para o aces- farmácias das USF já que há acondicionamento
so do usuário à Assistência Farmacêutica. de medicamentos a serem dispensados aos usu-
No que diz respeito ao dimensionamento, o ários do serviço. Porém, a observação da reali-
CAF tornou-se mais amplo e favoreceu uma me- dade revelou condições divergentes.
lhor disposição dos produtos, de acordo com as As USF em sua maioria não apresenta uma
características particulares, tais como os fotos- área específica destinada à farmácia, mas sim
sensíveis, termosensíveis e inflamáveis. Além dis- armários onde são guardados os medicamentos
so, vimos que os produtos foram arrumados de ou, até mesmo, salas aproveitadas para acondi-
maneira mais uniforme e adequada. Esse sistema cioná-los, diante da insuficiência dos espaços nos
de organização facilitou a identificação e a rotati- armários. As salas, inclusive, não atendem aos
vidade dos produtos, evitando inclusive perdas critérios de boas práticas de armazenamento,
desnecessárias por validade, por exemplo. havendo, visivelmente, excesso de luminosidade,
Ressalta-se, neste sentido, que não existe um pouca higienização e presença de insetos como
padrão estabelecido para determinar a dimensão aspectos mais críticos. Tal situação verificada
do CAF, pois ele varia em função das atividades converge com os depoimentos dos entrevistados
desenvolvidas, quantidades e tipos de produtos a 1 e 5 ao revelarem que não há, na rotina de ativi-
serem estocados, intervalo de tempo para entrega dades, prioridades nas ações particulares do ar-
dos produtos, do sistema de distribuição, equi- mazenamento de medicamentos:
pamentos e quantidades de trabalhadores, áreas [...] nas unidades de PSF, o setor onde a gente
necessárias à organização e fluxo dos serviços. vai armazenar os medicamentos, eles não dão im-
O próprio dimensionamento contribuiu para portância, prioridade à área da farmácia. A far-
o atendimento de condições ambientais mais ade- mácia geralmente ocupa um lugar pequeno. Então
quadas tais como ventilação, luminosidade, umi- você não encontra uma farmácia, só poucas uni-
dade e temperatura, elementos determinantes dades que têm sua farmácia arrumadinha, num
para a qualidade dos produtos. A ventilação deve lugar separado (E.1, Grupo I).
ocorrer de modo que a circulação interna de ar A limpeza é a menina que tá de férias. Mas tem
seja mantida para conservação satisfatória dos uma colega que está pela tarde no lugar dela. Ago-
produtos, bem como o equilíbrio de temperatura ra, do medicamento são outras duas e, quando eu
em todo o ambiente. A temperatura é, também, tenho um tempinho eu vou lá. Às vezes, o enfer-
responsável por grande parte das alterações e de- meiro também vai lá. Quem tiver desocupado dá
teriorações nos medicamentos, provocando alte- uma mãozinha. A pessoa mais difícil de ir, sou eu
rações na eficácia, devendo seguir as especifica- mesmo (E.5, Grupo II).
ções dos produtos ou, quando não houver espe- Diante os depoimentos, a armazenagem de
cificações, deve encontrar-se entre 15ºC e 30ºC e medicamentos é vista por muitos trabalhadores
medidas com termômetro em todas as áreas12,13,17. como um aspecto menos importante no conjun-
A umidade também pode afetar a estabilida- to de atividades que envolve a Assistência Far-
de do medicamento, podendo ocorrer alterações macêutica que, muitas vezes, é entendida unica-
de cor, sabor, odor, consistência. Não deve, por- mente como disponibilidade de medicamentos
tanto, ultrapassar 70%. A incidência direta dos enquanto outros aspectos não menos importan-
raios solares sobre os medicamentos acelera a tes deixam de ser observados e não são incluídos
velocidade das reações químicas, daí a necessida- como responsabilidade da equipe que só faz a
de de controle da luminosidade10. Todos estes cri- organização do local destinado à guarda dos me-
térios foram por nós visualizados durante o estu- dicamentos quando sobra um tempinho ou quan-
do e, assim, se pode distinguir que a nova estru- do alguém que esteja desocupado dá uma mãozi-
tura condicionou favoravelmente o atendimento nha (sic).
dos mesmos. Além disso, a Programação de Ati- Outro aspecto destacado nos depoimentos
vidades do Almoxarifado18, ao descrever as res- dos entrevistados é a necessidade de educação
ponsabilidades dos trabalhadores, destaca algu- permanente dos profissionais para o trabalho
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Maia TOS, Nascimento AA

em saúde. Assim, faz-se necessário a integração obstáculos para o acesso do usuário à Assistên-
dos trabalhadores mediante adoção de estraté- cia Farmacêutica.
gias de inclusão no serviço sobre o novo modo Contudo, o fluxo da distribuição depende das
de realizar o trabalho de forma que não haja pre- características da rede, da capacitação dos traba-
juízos que impliquem na efetivação dos resulta- lhadores envolvidos no processo, dos recursos
dos planejados. A inserção deve ocorrer a partir estruturais disponíveis e da comunicação entre
da perspectiva da educação em saúde de maneira os setores.
processual, reflexiva e crítica, pois no trabalho Todas as atividades já comentadas têm como
em saúde não deve existir o fazer por fazer, mas propósito final a dispensação de medicamentos,
sim o fazer para transformar, para resolver as entendida por nós como atividade chave, na qual
necessidades demandadas. consiste um conjunto de ações que implicam, de
Em relação à armazenagem, o controle de forma muito direta, na qualidade do acesso do
estoque é uma atividade inerente, que pode ser usuário à Assistência Farmacêutica. Isso porque
entendido como atividade técnico-administrati- esta atividade encerra a relação do usuário com a
va cujo objetivo é garantir um adequado supri- unidade de saúde após o atendimento médico, de
mento dos produtos para o atendimento das de- enfermagem ou odontológico, constituindo-se
mandas, no sentido de evitar excessos ou desa- numa oportunidade de acentuar ou efetivar a ade-
bastecimentos nos estoques, bem como perdas. quada orientação ao usuário em relação à prescri-
Historicamente, a administração de materiais ção, o que poderia evitar ou reduzir riscos ou fa-
tem se desenvolvido arraigada aos ideais de uma lhas relacionadas à terapêutica medicamentosa.
prática funcionalista, mantendo-se adequada às Em relação aos possíveis riscos, são destaca-
normas ou fórmulas que tentam expressar con- das como causas o curto tempo da consulta mé-
dições da realidade através de indicadores como dica e também o da dispensação, a falta de práti-
o consumo médio mensal, estoque máximo e cas farmacêuticas no local, inclusive a ausência
mínimo, estoque de reserva ou de segurança, en- do profissional farmacêutico, a alta frequência
tre outros19 e que possibilitam fornecer informa- de prescrições ilegíveis, a não capacitação dos tra-
ções que orientam, por exemplo, o processo de balhadores que dispensam medicamentos e a ine-
aquisição e programação de maneira racional. xistência de quaisquer instruções e esclarecimen-
No entanto, considerando o contexto da saú- to aos usuários, o que implica em baixo nível de
de, o controle não pode ser pautado apenas na entendimento e conhecimento dos mesmos.
conduta funcionalista, pois o trabalho em saúde Estudos realizados em Brasília20 e Fortaleza21 cor-
está sempre sujeito a imprevistos, exigindo para roboram com tais dados ao destacarem uma
o enfrentamento do inesperado, criatividade e ini- prática sem comunicação entre os sujeitos na re-
ciativa. Características que ultrapassam a meto- lação entre o trabalhador de saúde e o usuário.
dologia pertinente aos indicadores referidos. Nesse sentido, Mendes22 destaca que o con-
Entretanto, com esta afirmação não se quer ceito de dispensação tem sido modificado em fun-
minimizar a utilidade desses indicadores na ativi- ção do processo de resgate da função assistencial
dade de programação, por exemplo. Mas apenas do farmacêutico, havendo inclusive, algumas
reforçar a necessidade de que nas novas propos- contradições nas diferentes legislações que abor-
tas sejam consideradas as particularidades encon- dam tal prática.
tradas nos sujeitos e nos limites das relações entre A definição de dispensação expõe em suas
eles, para que possam ser resgatadas no processo entrelinhas a necessidade da relação entre o far-
de organização; e, além disso, que exista educação macêutico e o usuário, ao citar saberes particula-
dos trabalhadores no sentido de melhor utilizar res da profissão. Uma outra definição mais abran-
os indicadores já existentes na prática da Coorde- gente entende a dispensação como
nação da Assistência Farmacêutica. [...] o momento da recepção do medicamento,
Os aspectos como validade, controle de esto- insumo farmacêutico ou correlato, pelo usuário,
que, entre os outros, discutidos até aqui têm re- fornecido por profissional habilitado a analisar
flexos no processo de distribuição, que visa a condições anteriores de erro, fornecer informações
garantia do fornecimento de medicamentos e para o uso correto e estabelecer condições para o
demais produtos às Unidades de Saúde da Famí- acompanhamento dos resultados da terapêutica
lia, de maneira rápida e segura. Entretanto, para adotada. Seu produto é o aviamento de prescrição
que essa distribuição seja efetiva, todas as ativi- devidamente analisada e o fornecimento de todas
dades discutidas precisam ocorrer processual- as informações necessárias ao fiel cumprimento do
mente sem interrupções para que não existam tratamento estabelecido8.
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Tal definição aborda aspectos relacionados à medicamentos, mas que, muitas vezes, não são
prescrição medicamentosa, no sentido de estar dadas pelo prescritor nem pelo farmacêutico ou
atento a possíveis erros, bem como para ratificar dispensador23,24.
ou retificar a comunicação oral ou escrita passa- Os depoimentos dos entrevistados 3 e 7 (tra-
da pelo prescritor. Aborda também o acompa- balhadores de saúde) descrevem um modo sim-
nhamento terapêutico enquanto oportunidade plista de dispensação, como já havíamos referi-
para o farmacêutico intervir no cuidado à saúde, do anteriormente no processo de observação do
apesar de não expor quais estratégias poderiam trabalho de campo.
ser utilizados para garantir o acompanhamento. A gente pega, olha a receita do médico pra
A partir desse entendimento, é notório que o pegar, despacha e ainda dizer como toma. Por-
produto da dispensação não será necessariamente que a gente sabe que lá dentro o médico explica
o aviamento da prescrição, pois ao se estabelecer como toma, mas quando chega aqui fora ele não
a comunicação com o usuário, talvez ocorram sabe mais nada. Aí eu pego a receita, assino que
situações em que não se precise utilizar medica- despachei, anoto tudo no livro (E.7, Grupo II).
mento e, a partir dessa observação poderão se Eu só digo como tomar. Assim, por exemplo,
estabelecer outras relações. Contudo, a realidade amoxicilina, uma medida de oito em oito horas;
apresentada no campo de estudo é contraditó- dipirona, um comprimido de seis em seis horas; o
ria, uma vez que a dispensação não é uma ativi- paracetamol de seis em seis horas. Até o creme va-
dade do farmacêutico, como também não é uma ginal a gente pergunta. Sabe por quê? Porque tem
prática transformadora e colaborativa no mo- gente que não sabe (E.3, Grupo II).
delo de atenção à saúde, defendido pelo Sistema Um outro depoimento converge com essa
Único de Saúde. realidade ao destacar a dispensação como algo
No campo de estudo encontramos uma dis- que precisa ser revisto, detalhando aspectos do
pensação realizada por trabalhadores sem for- trabalho em saúde de forma geral, apontando
mação para tal, que desenvolvem várias outras limitações no sistema de saúde municipal, com
atividades na unidade de saúde, explicitadas nos questões que permeiam a educação em saúde, o
depoimentos dos entrevistados 3 e 4. compromisso, a responsabilidade pelo trabalho
Despacho remédio, marco consulta, marco a e a resolubilidade das ações.
agenda do médico e da enfermeira, marco pueri- A dispensação é muito ruim [...] A maioria
cultura, planejamento, preventivo [...] (E.3, Gru- deles não tem nem o treinamento de como atender
po II). as pessoas. Não só para a Assistência Farmacêuti-
[Faço] Tudo, tudo. Curativo, teste do pezinho, ca, mas para todas [as demais atividades]. Falta de
peso das crianças, distribuição de medicamentos, compromisso mesmo, não só de capacitação [...]
solicitação de medicamentos (E.4, Grupo II). Por trás disso, pessoas, inclusive com dificuldade
Além desses depoimentos, durante a pesqui- de leitura, [...] muitos deles escreviam errado e ti-
sa observou-se que as ações realizadas pelos tra- nham dificuldade com o nome da medicação, que
balhadores ocorriam simultaneamente no mes- não é coisa fácil (E.2, Grupo I).
mo ambiente da área de recepção da USF. Inú- Tais depoimentos mostram que a dispensa-
meras vezes foram escutados os termos como ção de medicamentos nas USF do Município, ain-
despachar e distribuir ao referirem à dispensa- da segue os moldes funcionalistas, estruturados
ção, pois nas farmácias das USF pesquisadas, na nos modelos taylorista e fayolista, caracterizados
prática, apenas se distribui o medicamento ao nas ações que antecederam à dispensação, já dis-
usuário. cutidas ao longo deste item. Desse modo, não há
Assim, há uma prática de dispensação que disponibilidade de tempo para incorporar novas
não promove uma contribuição ao usuário do práticas, já que tem como objetivo e fim unica-
medicamento, pois é desprovida de cuidados mente a entrega do medicamento; perde a opor-
como a avaliação da prescrição, orientações quan- tunidade de se construir um modelo de dispen-
to ao uso do medicamento, no sentido de verifi- sação que se fundamente no acolhimento e no
car se o usuário compreendeu claramente as in- diálogo e, consequentemente, criando espaço
formações sobre o medicamento que está usan- para a construção de ações baseadas na escuta,
do, a indicação, a duração do tratamento, as no respeito às singularidades do outro, no en-
doses, os possíveis efeitos colaterais, como pre- tendimento das limitações/dificuldades do servi-
parar, quando parar, entre outros aspectos per- ço, do sujeito usuário e do trabalhador. Possibi-
tinentes ao uso de medicamentos. Cuidados es- lidades que poderão favorecer a (re)construção
tes que auxiliam na proposta do uso racional de coletiva das práticas de saúde.
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Considerações finais

Assim, compreendemos que no Município em


estudo novos olhares precisam estar direciona-
dos para os obstáculos identificados nas ações
da organização da Assistência Farmacêutica, bem
como também para os ruídos do cotidiano, como
possibilidade de uma reconstrução dos proces-
sos de trabalho.
Porém, mesmo nesses desencontros entre o
fazer e o pensar, acreditamos ser possível recons-
truir novas práticas de saúde fundamentadas no
cuidado farmacêutico, na organização das ações
de Assistência Farmacêutica, na reconstrução das
relações de trabalho como possibilidade de uma
prática na Saúde Coletiva, embasada na propos-
ta em defesa da vida, para a garantia da Assistên-
cia Farmacêutica.

Colaboradores

TO Silva foi responsável pela concepção, revisão


bibliográfica, discussão do tema e redação do
artigo. MAA Nascimento realizou a revisão da
redação e da discussão do tema e atuou como
orientadora do artigo.
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