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Confraria de Artes Liberais


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CURSO DE LÓGICA

AULA XI

SILOGÍSTICA (2/2)

1. Introdução. – Continuaremos, nesta aula, o estudo do silogismo. Na aula passada,


tratamos do silogismo em geral e do silogismo categórico da primeira figura, que, como
vimos, era considerada a figura perfeita, entre outras razões, porque permite a conclusão nas
quatro espécies de proposição, isto é, em universal afirmativa, universal negativa, particular
afirmativa e particular negativa.

Nesta aula, trataremos da segunda figura – de suas características gerais e de seus


modos válidos – e de sua redução à primeira. A segunda figura tem como característica
principal a conclusão sempre em proposições negativas. A sua redução à primeira figura
servirá de modelo para que depois o aluno reduza à primeira os silogismos da terceira.

2. A segunda figura. – Conforme visto na aula anterior, a segunda figura pode ser assim
esquematizada:

P M
S M
S P

Ou seja, o mesmo termo é predicado – afirmado ou negado – do predicado e do sujeito


do conseqüente, de tal modo que se pode inferir validamente uma ligação entre esses dois
termos. Esse modo vai consistir, em primeiro lugar, na afirmação ou negação universal do
termo médio em relação ao extremo maior, que pode ser assim esquematizada:
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M
ou
M P
P

O primeiro esquema simboliza que toda a extensão do termo extremo maior está contida
sob a extensão do termo médio, e o segundo, que suas extensões estão completamente
separadas. Mais concretamente, no primeiro caso, todas as coisas concretas a que o termo se
refere (sua extensão) têm a forma inteligível significada pelo predicado, ao passo que, no
segundo caso, nenhuma das coisas concretas a que o termo se refere (sua extensão) tem a
forma inteligível significada pelo predicado.

3. Exemplos de silogismos da segunda figura:

CESARE
P M
Antecedente Premissa maior (E) Nada que dispõe ao mal É uma virtude
S M
Premissa menor (A) A coragem é uma virtude
S P
Conseqüente (E) Logo a coragem Não dispõe para o mal

CAMESTRES
P M
Antecedente PM (E) Todo peixe é um animal marinho
S M
pm (A) Nenhuma cabra é um animal marinho
S P
Conseqüente (E) Logo nenhuma cabra é peixe
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FESTINO
P M
Antecedente PM (A) Nenhum primo é quadrado
S M
pm (I) Alguns ímpares são quadrados
S P
Conseqüente (I) Logo alguns ímpares não são primos

BAROCO
P M
Antecedente PM (A) Toda enunciação é verdadeira ou falsa
S M
pm (O) Algumas orações não são verdadeiras ou falsas
S P
Conseqüente (O) Logo algumas orações Não são enunciações

4. Redução da segunda figura à primeira – Comecemos pelo primeiro modo válido da


segunda figura:

CESARE
P M
Antecedente Premissa maior (E) Nada que dispõe ao mal É uma virtude
S M
Premissa menor (A) A coragem é uma virtude
S P
Conseqüente (E) Logo a coragem Não dispõe para o mal

Conforme vimos na aula passada, as letras dos nomes que significam as formas
válidas de silogismo indicam também a maneira de reduzi-los à primeira figura, que é
considerada tradicionalmente a figura perfeita, em razão, principalmente, da evidência da
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conseqüência nos seus modos válidos. A letra inicial significa o modo da primeira figura à
qual o silogismo deve ser reduzido; assim, Cesare reduz-se a Celarent. As consoantes s e p
representam a espécie de conversão que se deve fazer da proposição representada pela vogal
imediatamente anterior; assim, em Cesare, deve-se converter, por conversão simples, a
premissa maior, que é negativa universal (E).

Assim, converte-se (PM): Nada que dispõe para o mal é virtude. ↔ Nenhuma virtude
dispõe para o mal.

CELARENT
M P
Antecedente PM (E) Nenhuma virtude dispõe para o mal
S M
pm (A) A coragem é uma virtude
S P
Conseqüente (E) Logo a coragem Não dispõe para o mal

Desse modo, reduz-se facilmente essa forma de silogismo para a primeira figura.

Mais dificuldade oferece a redução do modo Camestres.

CAMESTRES
P M
Antecedente PM (A) Todo peixe é um animal marinho
S M
pm (E) Nenhuma cabra é um animal marinho
S P
Consequente (E) Logo nenhuma cabra é peixe

A qual modo da primeira figura reduz-se? Assim como Cesare, também Camestres
reduz-se a Celarent, como indica a letra C. Porém, a consoante s imediatamente após a vogal
correspondente ao conseqüente indica que este deverá ser convertido por conversão simples e,
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por conseguinte, que as premissas deverão ser invertidas. Isso porque, convertendo-se o
conseqüente, o extremo maior do silogismo torna-se seu extremo menor e vice-versa, o
mesmo se passando com as premissas. A necessidade de inversão das premissas é indicada
pela consoante m (mutatio) entre as vogais correspondentes às premissas. Além disso,
também a premissa menor do silogismo original – premissa maior do silogismo já reduzido –
deve ser convertida por conversão simples.

Conseqüente: Nenhuma cabra é peixe ↔ Nenhum peixe é cabra.


pm (E): Nenhuma cabra é um animal marinho ↔ Nenhum animal marinho é uma cabra.

CELARENT
M P
Antecedente PM (E) Nenhum animal marinho é uma cabra
S M
pm (A) Todo peixe é um animal marinho
S P
Conseqüente (E) Logo nenhum peixe é uma cabra

Desse modo, reduz-se essa forma de silogismo à primeira figura.

O modo Festino tampouco oferece dificuldades. A inicial F indica que deverá ser
reduzido a Ferio.

FESTINO
P M
Antecedente PM (A) Nenhum primo é quadrado
S M
pm (I) Alguns ímpares são quadrados
S P
Conseqüente (I) Logo alguns ímpares não são primos

PM: Nenhum primo é quadrado ↔ Nenhum quadrado é primo


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FERIO
M P
Antecedente PM (A) Nenhum quadrado é primo
S M
pm (I) Alguns ímpares são quadrados
S P
Conseqüente (I) Logo alguns ímpares não são primos

5. Redução do Baroco. – O modo Baroco da segunda figura tem a peculiaridade de não se


reduzir diretamente à primeira figura por operações de conversão e mutação. A sua redução
deve ser feita indiretamente, por meio de uma reductio ad impossibilem.

BAROCO
P M
Antecedente PM (A) Toda enunciação é verdadeira ou falsa
S M
pm (O) Algumas orações não são verdadeiras ou falsas
S P
Conseqüente (O) Logo algumas orações Não são enunciações

A redução ao impossível não provará diretamente que o conseqüente é verdadeiro,


mas antes que a sua contraditória é falsa. Ora, como, se uma proposição é falsa, a sua
contraditória é verdadeira, a prova válida de que a proposição contraditória do conseqüente de
um silogismo é falsa a partir tão somente de suas premissas.

Qual é a proposição contraditória do conseqüente do exemplo? Se nos recordarmos do


quadrado lógico, recordaremos que a contraditória da particular negativa (O) é a universal
afirmativa (A). Assim, a contraditória de “Algumas orações não são enunciações” é: “Toda
oração é uma enunciação”. Atente-se a que aqui não se trata de converter proposições, mas de
encontrar a sua contraditória, operação que não envolve a inversão de termos (sujeito e
predicado).
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Encontrada a contraditória do conseqüente, formamos um silogismo Barbara com essa


proposição em lugar de premissa menor e a mesma premissa maior do Baroco.

BARBARA
M P
Antecedente PM (A) Toda enunciação é verdadeira ou falsa
S M
pm (A) Toda oração É uma enunciação
S P
Conseqüente (O) Logo toda oração É verdadeira ou falsa

O conseqüente do silogismo assim formado é contraditório em relação à premissa


menor do Baroco. Em outros termos: se o contraditório do conseqüente do silogismo Baroco
é verdadeiro – portanto, se o conseqüente do silogismo Baroco é falso –, então a sua premissa
menor é falsa. Por conseguinte, se, pelo contrário, sua premissa menor é verdadeira, então seu
conseqüente não pode ser falso. Assim fica demonstrada a validade do modo Baroco – isto é,
que seu conseqüente se segue às suas premissas, ou seja, que, se suas premissas são
verdadeiras, seu conseqüente é verdadeiro – a partir de princípios lógicos e de silogismos da
primeira figura.