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osebodigital.blogspot.com

ARTHUR C. CLARKE

A CIDADE
E AS ESTRELAS

Tradução de
Donaldson Garschagen

EDITORA NOVA FRONTEIRA

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Título original em inglês:
THE CITY AND THE STARS

© Arthur C. Clarke, 1956

Direitos adquiridos pata a língua portuguesa pela
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Maria Angélica, 168 - Lagoa - CEP 22461 - Tel.: 266-7474
Endereço Telegráfico: NEOFRONT
Rio de Janeiro - RJ

Capa
ROLF GUNTER BRAUN

Revisão
JORGE URANGA

Diagramação
ANTONIO HERRANZ

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A CIDADE E AS ESTRELAS Para Val 5 .

6 .

Diaspar ainda seria capaz de proteger os filhos daqueles que a haviam edificado. milênios . e eles se sentiam desagradavelmente perturbados à lem- brança das lendas do Império. As longas noites de inverno cobriam o deserto de geada. Algumas haviam durado séculos. Era. O Homem já havia construído cidades. em si mesma. havia conhecido mudanças e inovações. Não lhes importava saber que um dia o Homem havia sido senhor das estrelas. Estavam tão ajustados ao meio ambiente em que viviam como este a eles . outras. do desgaste moroso das eras. O que existia além dos muros da cidade não lhes interessava. era algo que tinha sido como que varrido de suas mentes. dos estragos da decadên- cia e da corrupção da ferrugem. ao se congelar a última umidade caída no ar rarefeito da Terra . Haviam-se esquecido de muitas coisas. Só Diaspar havia desafiado a Eternidade. Desde sua construção.pois tinham sido projetados em conjunto. mas nas ruas de Diaspar era sempre crepúsculo. mas agora tudo estava imóvel no tempo. os oceanos da Terra já haviam desapa- recido e o deserto tinha passado a abranger todo o globo. do fluxo do tempo. No passado. A cidade. Não tinha contato com o mundo exterior. a eles e a seus tesouros. mas nunca uma cidade como aquela. não se preocupava: mesmo que a Terra se consu- misse. salvando. Noites e dias passavam sobre a face do deserto. um universo. e a tudo quanto ela reunia. Diaspar encerrava tudo quanto existia. e a escu- ridão jamais chegava. mas não o percebiam. às vezes os antigos mitos se levantavam para os perseguir. quando Diaspar era jovem e extraía 7 . tudo de que necessitavam. Contudo.mas a cidade não sofria calor ou frio. Como jóia fulgurante. defendendo-se a si mesma. a cidade jazia sobre o seio do deserto.an- tes que o tempo apagasse até mesmo seus nomes. novas. tudo que seriam capazes de ima- ginar. porém. As últimas montanhas tinham sido reduzidas a pó pelos ventos e pela chuva e o mundo achava-se demasiado cansado para produzir outras.

8 . enquanto mais de um bilhão de anos transcorriam. E isso porque tinham vivido na mesma cidade. e lá podiam ficar . Não queriam a volta dos tempos antigos. E então voltavam-se mais uma vez para a vida e para o acon- chego da cidade. milagrosamente imutáveis. estavam felizes e satisfeitos com o eterno outono. Outros ho- mens haviam sonhado com essa idade. e ao pensarem nos Invasores o próprio frio do espaço lhes gelava os ossos.sua seiva do comércio com muitos sóis. mas somente eles a haviam alcançado. caminhando pelas mesmas ruas. para a longa idade áurea cujas origens já se acha- vam perdidas e cujo fim nem se vislumbrava a distância.pois recordavam-se perfeitamente de como o Império havia encontrado seu fim. As glórias do Império eram coisa do passado.

já que teria sido tão simples muni-los com neutralizadores de gravidade. quase junto dele. Através da parede surgiu um lingote metáli- co que. O brilho branco e esmaecido escorria pelo corredor estreito e se es- palhava pelas paredes cintilantes. pois ao se aproximarem a rocha começou a transformar-se em pó. Teria a seta os enganado de novo? Não. lutando com o peso dos projetores. Atrás de Alystra. inteiramente diferente. Ainda agora não poderiam estar se- guros de que não os perseguiam um daqueles monstros pálidos . e que por trás do mundo dos sentidos ele colhesse o lampejo de outro universo. Alvin sabia muito bem que os maiores perigos naquelas cavernas de modo algum eram os que se podiam ver. Alvin olhou rapidamente para trás. Quando pensamentos assim passavam por sua cabeça. como acontecera tantas vezes antes. esperando que a máquina for- 9 . No entanto.e a força de suas armas já se havia quase esgotado. era como se a estrutura da realidade começasse a ruir por um instan- te. Alystra. O corredor terminava numa parede branca. vinham Narillian e Floranus. mesmo no meio das aventuras mais desespera- das. Alvin nunca parava de pensar nessa espécie de coisas. podiam ver para onde caminhavam e lhes era possível perceber a presença de qualquer perigo visível. CAPÍTULO I Tinham levado muitas horas abrindo caminho para fora da Caverna dos Vermes Brancos.. Alvin e seus amigos voltaram atrás. Alvin ficou a imaginar por que os projetores seriam tão pesados. Não lhes restava outra alternativa senão segui-las. enquanto durava. logo se transformou num gigantesco parafuso. rodopiando. ainda acenavam para eles as setas flutuantes que lhes haviam ser- vido de misterioso guia através dos labirintos da Montanha de Cris- tal. elas pudessem conduzi-los a perigos ainda mais funestos. ainda que. Mais adiante. car- regava a esfera de luz fria mas permanente que havia mostrado tantos horrores e esplendores desde o início daquela aventura. tentando verificar se os companheiros estavam próximos..

Alystra foi a primeira a aparecer.disse ele. terrores e maravilhas ficariam para trás. a seu quarto familiar. Alystra emitiu um grito abafado. Pela inclinação do piso.Callistron .e o sonho chegou ao fim.a subterráquea emergiu da parede e veio repousar aos pés deles.. e a máquina saltou adiante ao dar início à sua jornada pelas entranhas da Terra. estariam em casa.ela se queixou. . como sempre acon- tecia. 10 .. Foi interrompido pela chegada simultânea de Callistron e Floranus. o interior da subterráquea estremeceu como uma imagem vista através da água.A aventura estava tão emocionante! Por que você estragou tudo? . Alvin estava de volta a Diaspar.começou Callistron.Desculpe-me. Só achei que seria uma boa idéia. Estamos debaixo da terra há muito tempo. Alvin .. .e ele sabia exatamente o que viria a seguir. Alvin voltara a ser ele mesmo. Alvin pressentiu que havia cometido um erro.. . a terra ao redor. De repente tudo acabou. Abriu-se uma porta ma- ciça e surgiu Callistron. gritando que se apressassem. olhando-o da parede na qual como que se materializara. ora outro. Prova- velmente Callistron sabia o que estava fazendo e essa era a manei- ra de levá-los para casa. pois o campo de gravidade o protegia do contato doloroso com a matéria bruta.Ah.Ouça aqui. quebrou a seqüência.çasse entrada na caverna. (“Por que Callistron?”. Estavam exaustos e felizes. era uma pena.. de repente -. por que não vamos para o alto? Ninguém conhece a forma ou os contornos da Montanha de Cristal. predominando ora um. pois estava perdidamente apaixonada por ele. A aventura chegara ao fim. pensou Alvin. Assim que terminou de pronunciar essas palavras. mais perplexa do que abor- recida. Alvin percebeu que a subterráquea penetrava na terra. flutuan- do meio metro acima do chão. e para além das paredes metálicas que os cercavam Alvin sentiu mais um de seus vislumbres de outro uni- verso. e todos os espantos. Aquela era a sua realidade . Com um ruído tonitruante de metal so- bre rocha . Seria maravilhoso sair numa de suas encostas.. Ontem. Os dois mundos pareciam em conflito.que decerto ecoaria por todos os desvãos da Montanha e despertaria toda sua raça de pesadelos . “Que estará ele fazendo aqui?”) Logo depois estavam em segurança. . avistar o céu. Daí a pouco. Não tive intenção.Esta foi a terceira vez que você interrompeu uma Saga. Ainda assim. Alvin . Houve um estalo. . uma sensação de que alguma coisa se quebrava .

e que poderia conde- ná-lo a uma vida de frustração. perplexa mas com uma expressão de ternura. Callistron desapareceu enfurecido.Você é infeliz. Ele estava sempre querendo sair. Para não deixar patente seu erro. . Sabia onde aquilo o levaria. com um certo azedume. Jamais fala- vam sobre isso. . quando a custó- dia chegava ao fim. Alvin inclinou o campo gravitacional. pegou a fruta de aspecto menos perigoso e pôs-se a chupá-la com cuidado. Alvin sabia que não adiantava argumentar. Alvin sacudiu a cabeça com rispidez. . Além disso. Uma cidade com dez milhões de seres humanos. Nos últimos cinco anos. pensou Al- vin. seu tutor. .Acho que as regras são imbecis.disse. Deixe-me ir falar com você. Sair era coisa imunda. o que pretende fazer? . levando Floranus consi- go.arque- jou. comporto-me do modo que me parece mais natural. o “lá fora” era um pesadelo que não podiam encarar. má. sentiam-se satisfeitos por poder deixar que ele moldasse os próprios divertimentos e a própria vida. em realidade ou em sonho. e nem uma só pessoa com quem ele pudesse abrir-se. horrorizada. Ali estava a bar- reira que o separava do povo de seu mundo. E anteontem estragou tudo quando quis chegar à Origem. Eriston e Etania gostavam dele à sua maneira. como pos- so lembrar-me delas quando estou vivendo uma Saga? Portanto. Mas para toda a população de Diaspar. ..Não posso evitar essas coisas . terá de ir sozinho. mas agora.quando quis subir o Vale do Arco-íris.Ninguém deve ser infeliz em Diaspar. ao invés da comida que havia desejado. desceu e caminhou em direção à mesa que se materializara. Sobre ela surgiu uma taça com frutas exóticas. Nem mesmo Jeserac. olhando para Alvin com tristeza.disse Alystra finalmente -. por certo estava demasiado aborrecido. Você não gos- taria de olhar a montanha? Alystra arregalou os olhos. se fosse possível evitar o assunto. pois na confusão de seus pensamentos ele havia cometido um equívoco. Daqui por diante. Só ficou a imagem de Alystra.. Alystra ainda o observava. Alvin . se você não cumprir as regras. quando as divergências de Alvin com os padrões con- 11 . Alystra desapareceu de vista. lhe dizia por quê. e por ora queria apenas ficar sozinho.Mas isso significaria sair para o mundo exterior! . Narillian não apareceu.respondeu ele. naquela linha de tempo que estáva- mos explorando. Duplamente desa- pontada.Bem .

Esse ressentimento não era com ele . Alvin. por que não se saía bem nas Sagas? Das milha- res formas de recreação da cidade. essas palavras nada significavam. Daí a alguns dias ele se tornaria cidadão pleno de Diaspar. mais de uma vez. o mistério não residia aí. Quan- do alguém entrava numa Saga. entre os milhões de habitantes da cidade.Na época. Antes dessa primeira recordação. Único. o res- sentimento dos pais.. o tutor. ela parecia encerrar insinuações funestas. Eu sou Eriston. Ele se lembrava do seu primeiro momento e das primeiras palavras que escutara: . Um dia talvez esse nada retornasse. designado como seu pai. triste. Os fatos e as 12 . . O enigma que nunca tinha sido capaz de resolver. haviam tenta- do protegê-lo da verdade. que ameaçavam alguma coisa mais que sua própria felicidade. Não lhe parecia estranho que pudesse ter sido criado. quando chegasse o tempo de abandoná-lo. mas com o completo azar que havia feito com que fossem escolhidos. isso seria pelo menos uma coisa que poderia enfrentar -. nem ninguém lhe havia explicado. mas tratava-se de uma idéia demasiado remota para que suas sensações fossem atingidas.se fosse. era um participante ativo e possuía (ou parecia possuir) livre-arbítrio. Alvin voltou a mente para o mistério de seu nascimento. Alvin lembrava-se de ter olhado de alto a baixo para seu próprio corpo. Seus pais. que Alvin experimentara às vezes.. agora três ou cinco dedos mais alto. Mais uma vez. Quando essa palavra lhe era aplicada (e isso acontecera várias vezes. da Casa de Criação. todos quantos ele conhecia. dentro de uns mil anos. Coisa também estranha e triste para alguém ser. essa era a mais popular. palavra estranha. ele sentira. Por exemplo. como nas diversões rudimentares das épocas primitivas. sua mãe. mas a mente as gravara com total exatidão. exceto no peso. e nada do que desejasse saber lhe poderia ser ocultado. Não. nada. pelos poderes e forças que materializa- vam todos os objetos da vida diária. vinte anos antes. num determinado instante.Seja bem-vindo. porém. Vinte anos. como se estivessem ansiosos por preser- var a inocência de sua longa infância. Ele havia chegado ao mun- do quase inteiramente desenvolvido. e pouco teria mudado desde então. como seus guardiões quando Alvin saiu. quando pensavam que não estivesse ou- vindo). A simulação duraria pouco. estava em seu caráter de único. mas que quase nada se modi- ficara desde o momento do nascimento.vencionais se tornaram óbvias. E esta é Etania. não era simplesmente como um observador passivo.

acovardado. O Homem renuncia- ra ao Universo e se encarcerara no ventre de Diaspar. havia-se esmaecido.o vácuo luminoso entre as estrelas e os planetas. Na verdade. Não havia grandes panoramas.eram dramas simples de aventuras e descobrimentos. eram sempre pintadas em tela pequena demais. mais além.cenas que constituíam a matéria-prima das aventuras podiam ter sido preparados de antemão por artistas desconhecidos. Há muito tempo. Al- gumas . embora as Sagas parecessem agradar a seus companheiros. antes talvez da construção de Diaspar. outras eram puras explorações de estados de alma. que encobriam a visão do resto do mundo. Podia-se penetrar nesses mundos fantasmagóricos com os amigos. Elas envolviam toda a gama de emoções e continham variações infinitas e sutilíssimas. Os planejadores das Sa- gas tinham sido acometidos pela mesma estranha fobia que ata- cava todos os habitantes de Diaspar. O flamejante e invencível impulso que o arremessara para a Galáxia e para as ilhas de névoa. para refugiar-se. mas havia ampla flexibilidade. No entanto. Apesar das cores e das emoções.as mais populares entre os jovens . Só havia uma explicação. entre as estrelas. acontecera alguma coisa que destruíra não só a curiosidade e a ambição do Homem. Acima de tudo. outras ainda constituíam exercícios de lógica ou matemática que proporcionavam deleites sem fim às mentes mais sofisticadas. procu- rar emoções que não existiam em Diaspar . Alvin concluiu que as Sagas nunca chegavam a uma con- clusão.e enquanto durasse o sonho não havia maneira de distingui-lo da realidade. faltava alguma coisa nelas. de modo a permitir grande variação. por eras sem fim. as paisagens inesperadas por que sua alma ansiava. dos temas e dos locais variados. quem poderia ter certeza de que a própria Diaspar não fosse um sonho? Ninguém fora capaz de esgotar todas as Sagas imaginadas e gravadas desde os primórdios da cidade. no peque- no mundo fechado da última cidade terrestre. Nenhuma nave ha- via penetrado no Sistema Solar. em cavernas subterrâneas ou em pequenos vales claros e limpos cercados de montanhas. deixavam Alvin com uma sensação de inconclusão. faltava-lhes a sugestão da imensidão onde se haviam realizado as explorações do homem antigo . os descendentes do Homem podiam estar ainda construindo Impérios e arruinando sóis. Em algum lugar. mas a Terra a tudo per- 13 . Até mesmo suas aventuras vicárias deviam ocorrer dentro de portas fechadas. mas que o trouxera para casa. de volta das estrelas.

Mas Alvin. não. A Terra. sim.manecia alheia e indiferente. 14 .

Se o artista não sabia qual era seu ob- jetivo. Não adiantara. O azul do mar defi- nhou. excetuada uma pare- de brilhante sobre a qual fluíam e refluíam ondas de cor. Alvin interrompeu os rabiscos insatisfatórios e olhou com dissabor as três quartas partes vazias do retângulo. Teria de começar tudo de novo. Num impulso repentino. Não. Era como se os desenhos não tivessem existido. E o pior é que a mudança de escala havia revelado os defeitos da construção. CAPÍTULO II A sala estava mergulhada na escuridão. até ficar apenas o branco. Parte do desenho o satisfazia. fundindo-se com as outras paredes. e o equilíbrio estava errado. conquanto não soubesse o quê. então. ele pareceria na verdade muito estranho. Alvin estudara-as longamente. Alguma coisa lhe escapava. mesclou-se ao ambiente. as cores manchadas e opacas.. como se estivessem perdidos no limbo que tragara todos os mares e monta- nhas da Terra em épocas anteriores ao nascimento de Alvin. ordenou ele à máquina. enquanto Alvin lutava com os sonhos. as montanhas se dissolveram como névoa. Havia algo de poder e orgulho naquelas curvas ascendentes. colocando-as. a falta de rigor daquelas linhas à primeira vista corretas. Mas seriam mesmo paredes? Para quem nunca tivesse visto aposento semelhante. onde ficariam preservadas enquanto ele fazia experiências com o resto do quadro. no qual Alvin estive- ra projetando seus sonhos. A luz apagou-se e o retângulo luminoso. “Rasura total”. esse era um processo canhestro. nem mesmo o mais milagroso dos instrumentos seria capaz de encontrá-lo para ele.. As linhas saíam borradas e inseguras. ele havia admirado imensamente as linhas acidentadas das montanhas que saltavam do mar. duplicou a propor- ção do desenho e desviou-o para o centro da estrutura. enquanto o instrumento lia em sua mente os desenhos cambiantes e os materializava na parede. que tentava preencher com beleza. Era inteiramente desprovido de contornos e ca- 15 . na unidade de memória do visualizador. Tentara repeti- damente preencher os espaços em branco.

A ilusão era perfeita e não se perdeu quando Eriston come- çou a falar. como Alvin não ignorava. mas tinham-se mudado desde a últi- ma ocasião em que estivera fisicamente diante deles. Nenhuma linha visível separava paredes de chão ou de teto. Como tudo em Diaspar. a matéria sólida. pois os construtores da ci- dade haviam conquistado o espaço de maneira tão completa como haviam subjugado o tempo. Bastava a Alvin formular o pensamento adequado e as paredes se transfor- mariam em janelas abertas para qualquer parte da cidade. Nossa custódia acabou. Na realidade. .Alvin . Alvin já reconstruíra parcialmente o aposento quando um re- pique persistente. Tal como esperava. ali estavam os pais com Jeserac um pouco atrás. vinte anos já se passaram desde que sua mãe e eu nos encontramos com você.. O espaço em torno de Alvin tanto podia ter três metros como três quilômetros . jamais se gastavam .recia de mobília.e jamais mu- dariam. Não obstante. Etania e Jeserac estavam a quilômetros dali. Era difícil resistir à tentação de caminhar para a frente. A presença do tu- tor significava que aquela reunião familiar não seria nada comum . com os braços estendidos. tais salas haviam sido o “lar” para a maioria da raça humana durante a maior parte de sua história. Estruturou mentalmente o sinal de admissão e a parede em que estivera pintando dissolveu-se mais uma vez. soou em seus ouvidos. de modo que Alvin dava a impressão de estar no centro de uma esfera.o sentido da visão não tinha ali objeto definido. Decerto não seriam menos reais do que aquela outra contrafação. Não havia nada sobre o que se pudesse fixar os olhos.. por ele escolhida. a fim de descobrir os limites físicos de tão insó- lito lugar.de tristeza na voz 16 . Outro desejo. e quando já não fossem necessários poderiam voltar ao mundo fantasmal dos bancos de memória da cidade. O fato de os móveis assim obtidos serem ou não “reais” era problema que molestara poucos homens durante os últimos bi- lhões de anos. e você está livre para fazer o que bem desejar. Eriston.começou Eriston -.mas isso ele já sabia de antemão. a menos que os modelos armazenados fossem cancelados por ato ou desejo deliberado. em meio às incontáveis espirais e com- plexos labirintos de Diaspar.mas apenas um traço . Havia um traço . Alvin não sabia com segurança nem mesmo onde os pais viviam. Sabe o que isso significa. e máquinas que ele jamais vira encheriam o cômodo com imagens de qualquer tipo de mobília que ele neces- sitasse. semelhante ao de sinos.

e eu fiz o melhor que pude para lhe ensinar as maneiras da cida- de e conduzi-lo à herança que lhe pertence. embora a juventude mal tenha começado. Você me fez muitas perguntas. Fazia anos que Alvin antecipara sua liberdade.Agradeço a vocês os cuidados que tiveram comigo. po- rém. nada houvera em sua vida recente capaz de provocar aquela tímida incerteza. Sempre me lembrarei de vocês em todas as minhas vidas.Alvin . não. Não. Alvin.respondeu. como apressar Jeserac. Alvin já a ouvira tantas vezes que o significado real das palavras lhe escapava. . Dentro de duzentos anos. contudo. . Virou-se então desconsoladamente para Jeserac. Jeserac.Compreendo . por vinte anos você foi meu pupilo. enquanto suas palavras caíam com o peso 17 . Lançou um olhar interrogativo a Eriston e Etania e. Alvin sabia vagamente o que ela significava. parecia dominar a situação. Por um momento. Eu mesmo.de Eriston. Sua memória passou rapidamente em revista as lembranças das últimas semanas. não foi a todas que pude responder. agora. só vi menos de um quarto de Diaspar e talvez menos de uma milésima parte de seus tesouros. mas deixou-a cair. O ancião olhou-o resolutamente atra- vés do golfo dos séculos. Você ainda não estava pronto para saber umas tantas coisas. eu mesmo desconhecia. no caso de você necessitar de ajuda.começou -. não havia. bem como um pouco de sua história. teve-se a impressão de que Etania dese- java falar. que já me aproximo do fim da vida. Tratava-se tão somen- te de um padrão de sons sem significado específico. pensando bem. Alvin nada tinha ouvido de novo. Agora. sua infância terminou. chegava o mo- mento de saber com certeza. Ainda é meu dever guiá-lo. desfazendo a gaze iridescente da tú- nica. outras. aquela expressão quase de alarme que parecia cercar Eriston e Etania. “todas as minhas vidas” era expressão inusitada. . você começa- rá a conhecer alguma coisa dessa cidade. No entanto. e pela primeira vez Alvin percebeu que seus pais esta- vam preocupados. Ela ergueu a mão. Essa era a resposta formal. como se agradasse a Eriston que uma situação de fato já perdurando há certo tempo ti- vesse agora reconhecimento legal. Havia muitas coisas em Diaspar que ele ainda não compreendia e que teria de aprender nos séculos vindouros. satisfeito com o fato de não terem mais o que dizer. O que predominava era o alívio. lançou-se à arenga por cuja oportunidade esperava há tantos anos. Até agora.

” “Como qualquer outro objeto. a raça humana tem vivi- do nesta cidade. naturalmente . Talvez não passasse de uma ma- triz no cérebro da cidade.. “Durante um bilhão de anos. criadas. Caso você se interesse. também pode o Homem. mas por ora basta dizer que o método já não possuía grande importância quando foi abandonado. Alvin. Desde que o Império Galático desmoronou.” 18 . a natureza foi capaz de reduzi-lo a uma pequenís- sima célula. mas você não. ao que parece. Num processo complexo e.” “O que a natureza pode fazer. é incrivelmente comple- xo. todas elas ig- norantes da verdade.” “Pouco sabemos a respeito de nossos ancestrais primitivos. O padrão de um homem. . no alvo- recer da história.Você está certo. Não sabemos quanto tempo ele levou para atingir tal finali- dade. a seu modo. Sentou-se e ficou à espera de que Jeserac prosseguisse. Alvin. este tem sido o nosso mundo. incapaz de ser vista a olho desarmado.da sabedoria incomensurável adquirida durante uma vida de longo contato diário com homens e máquinas. Porventura já se perguntou onde você estava antes de ter nascido.Creio que estava no nada. na Casa da Criação? . esperando o momento de ser criado. por estranho que possa parecer. Um divã materializou-se ao lado de Alvin. os moldes-chaves de cada ser humano eram preservados em microscópicas estruturas celulares. é apenas uma pequena parte dela. incontrolável. Por isso devemos prepará-lo para enfrentar os fatos. Ainda assim. mas o que isso significa? Nossos antepassados terminaram por aprender a analisar e guardar as informações que definiriam qualquer ser humano específico . os biólogos poderão falar a respeito. Dentro em breve elas poderão recordar. Até agora você só conheceu crianças de sua idade. e mais ainda o padrão que define a mente desse homem. dentro do corpo. efetivamente.Mas essa não é uma resposta completa. podiam reproduzir-se sem auxílio das unidades de memó- ria ou de organizadores de matéria. nada existe . Fora dos muros de Diaspar. exceto que tinham vida muito curta e que. e os Invasores retornaram às estrelas. um ser humano é definido pela sua estrutura: seu padrão.exceto o deserto de que falam as nossas lendas. antes de encontrar-se diante de Etania e Eriston.e a usar essas informações a fim de recriar o original..Diga-me uma coisa. Al- guma coisa assim. da mesma forma como você acabou de criar esse divã. . Um milhão de anos. . talvez.foi a resposta.

Em qualquer ocasião.. esperando pelo sinal que poderá chamá-los a um novo estágio de vida. o que vale é a informação propriamente dita. “Sei perfeitamente que essas coisas lhe interessam. muito tempo. há muito. Alvin. Então. Todos nós já vol- tamos aqui. Cuidarão de mim como Eriston e Etania cuidaram de você. diante da- queles que vierem a ser escolhidos como meus guardiães. nossos antepassa- dos nos deram. para sermos mais exatos. Essas memórias retornarão devagar. Regressarei através de minhas memórias. de campos magnéticos variáveis ou. ao modelo incorpóreo. Através desse método.” “Isso você já sabe. condensando-as e cancelando as que não desejo manter. Portanto.ainda existirá.ou. Alvin. eu nada saberei sobre Diaspar nem terei lembranças do que fui an- tes. Alvin. temos continuidade. do qual podia ser chamado de volta à existência. acabará também a minha consciência. ele era capaz de armazenar a si próprio . O Homem utilizou todos esses métodos de armazenamento. e muitos outros. mas evitaram os proble- mas criados pela abolição da morte. a imortalidade. A ma- neira de armazenar a informação não tem importância. mas o velho Jeserac . ou a um novo nascimento. enquanto mover-me rumo a meu novo ciclo de existência. daqui a cem mil anos. Basta dizer que. e ela só aspira ao descanso. ao fim de minha infância. mas não posso dizer-lhe exatamente como se chegou a isso.” “Muito em breve. na prática. Mil anos de vida corporal são mais do que suficientes para qualquer pessoa. conseqüentemente.” “Isso não é tudo. Então. ainda de padrões de carga elétrica. Nada restará de Jeserac exceto uma galáxia de elé- trons congelada no núcleo de um cristal. muitíssimas vezes antes. quem sabe eu me encontrarei num novo corpo. Alvin. a po- pulação atual jamais se repete. temos a imortali- 19 . pois.” “Dormirei. mas por uma porta que você nunca viu. e sem sonhos. Alvin.aquilo que eu quiser preservar dele . a mente está repleta de recordações. certo dia. mas estamos sujeitos a mudança.” “Esse é o padrão de nossas vidas.. entrarei na Casa da Criação. e embora os intervalos de inexistência variem segundo leis aparentemente aleatórias. A grande maioria jaz nos bancos de memória. ao fim desse tempo. e eu crescerei com base nelas. Este velho corpo deixará de existir e. somente um centésimo dos cidadãos de Diaspar vive e caminha pelas ruas. eu me prepararei para deixar esta vida. a princípio. Ela pode assumir a forma de palavras escritas em geral. O novo Jeserac terá amigos novos e diferentes.

nunca viveu antes. ou talvez tenha sido criado há somente vinte anos. por força de alguma permuta fortui- ta.” “Sei o que você está pensando. Alvin. desde sua fundação. pelos arquitetos da cidade. está à margem da raça humana. Na verdade. Alvin. no começo. a fim de que nenhuma sombra toldasse sua infância. é uma coisa que só tem acontecido raramente em Diaspar. Tentamos ao máximo mantê-lo na ignorância desse fato..” “Não sabemos. Alvin. embora eu acredite que você deve ter adivinhado parte da verdade. a exemplo de seus companheiros. Não existem essas memórias. Pode ter sido planejado.” 20 . Quer saber quando re- cuperará as lembranças de suas vidas anteriores. digo que você é a primeira criança a nascer na Terra depois de pelo menos dez milhões de anos.dade. Tudo o que sabemos é que você...” “Você. mas agora não resta mais dúvida. Não sus- peitávamos disso até cinco anos atrás. mas não a estagnação. Talvez tenha permanecido ador- mecido durante eras nos bancos de memória. ou ser fruto de um acidente de nossa própria época.. porque você é único.

Fechou o quarto à sua volta. Diaspar podia bastar para o resto da humanidade.. de um só arranco. Uma coisa. A parede tremulou e deixou de existir parcialmente quando ele a atravessou.. Tudo isso eram coisas que ele poderia fazer. Quase tudo o que Je- serac lhe dissera. saindo para o corredor. era ter adivinhado. embora não fosse realmente indispensável.. CAPÍTULO III Quando Jeserac e seus pais desapareceram. mas. se não fizesse outras. Dormir era coisa que nunca fizera. Esvaziar a mente constituía para ele a coisa mais próxima ao sono e. ele já adivinhara antes. e outra verificar que suas previsões estavam confir- madas além de qualquer possibilidade de contestação. e a hesitação era uma sensação nova. Não podia permanecer ali naquele inquieto estado de espírito. Não tinha dúvida de que poderia gastar mil existências sem conhecer todas as maravilhas da cidade. ele o faria na próxima. Se não conseguisse adaptar-se a Diaspar. sem provar todas as permutas de experiência que ela tinha a oferecer. e só havia um lugar na cidade onde poderia encontrar alguma paz de espírito. porém. Só havia um problema a enfrentar: o que mais havia ali a ser feito? A pergunta sem resposta tirou-o. jamais ficaria satisfeito. e suas moléculas pola- rizadas resistiram à passagem como um vento fraco a soprar em 21 . coi- sa que pertencia a um mundo de dias e noites. Havia aprendido poucas coisas novas. nesta vida. mas não para ele. Alvin fez o que pôde para esvaziar o cérebro de qualquer pensamento. Mesmo enquanto formulava o pensamento.. sabia que aquilo o ajudaria a pôr em ordem a mente. Não estava dormindo. para que ninguém pudesse interromper o tran- se em que mergulhara. a mente o rejei- tava. Talvez não fizesse di- ferença. De que modo aquilo poderia afetar-lhe a vida? Não sabia ao certo. do deva- neio. e em Diaspar só ha- via dia.

que lhe aliviava a mente.exibir de vez em quando suas últimas produções ao lado das vias móveis. a obra não despertaria provavelmente a mes- ma emoção nos conterrâneos de Alvin. Mas o padrão básico era sempre o mesmo. Ele sabia por que amava essa peça de escultura intangível. de cada feita ela apresentava diferenças sutis e indefiníveis. a matriz dessa obra entrava para a memória da cidade. Anotou o nome do artista e decidiu procurá-lo na primeira oportunidade. subitamente sucumbia e reiniciava o ciclo. O veredicto.sem dúvida um gesto excêntrico. de modo que os transeuntes pudessem admirá-las. Não exatamente o mesmo. Alvin viu apenas um objet d’art que o impressionou realmen- te: era uma criação de pura vida. mas Alvin preferiu caminhar. O aposen- to achava-se quase no nível principal da cidade. de fuga. Alvin não tomou conhecimento da via móvel e dirigiu-se à calçada es- treita . também.e todos em Diaspar eram artistas . gra- vado automaticamente por dispositivos de amostragem de opinião. numa área circular de cinco quilômetros de diâmetro.seu rosto. Embora Alvin a examinasse durante uma vintena de pulsações. bastavam alguns dias para que a po- pulação examinasse com espírito crítico qualquer criação digna de nota e expressasse sobre ela seus pontos de vista. tanto as móveis como as fixas. terminavam ao atingir o parque que era o coração verde da cidade. no futuro. pois não havia dois ciclos idênticos. Todas as vias. Se a votação fosse suficientemente conclusiva. que ninguém ainda tinha sido capaz de subornar ou ludibriar . Todas as outras peças seguiam o destino de tais trabalhos: eram dissolvidas em seus elementos originais ou acabavam na residência de amigos dos artistas. Além disso.e não faltavam tentativas disso -. Mas ele apreciava o exercício. Abrindo-se vagarosamente a partir de um minúsculo núcleo de cor. uma cópia indistinguível do original. que lembrava vagamente uma flor que desabrochasse. decidia qual era a obra-prima. Quem assim desejasse poderia possuir. havia tanto o que ver que seria to- lice passar rapidamente pelas mais recentes maravilhas de Diaspar quando se dispunha de uma eternidade de vida. Dessa maneira. achava-se a memória 22 . pois tinha diante de si um caminho de vários quilômetros. expandia-se em espirais e pétalas com- plexas. Por esse motivo. Ali. Era costume dos artistas da cidade . Depois. Seu ritmo expansivo dava a impressão de espaço e. Existiam muitas maneiras pelas quais ele poderia ser transportado sem esforço. e uma passagem curta deixou-o numa rampa em espiral que o levou até a rua.

as variações de tamanho e peso não apresentavam correlação algu- ma com a idade. se houvesse outras pessoas como ele. Ah. se não de nome. quanto mais altas mais idosas fossem. depois árvores baixas que pareciam cada vez mais grossas à medida que se cami- nhava sob sua sombra. Era estranho pensar que. e por um momento esteve tentado a ir juntar-se a elas. houvesse vistas infinitas das vidas que em bre- ve iriam recordar. mas não estava certo de ter motivos para isso. uma ampla faixa de grama. 23 . adormecidas no fun- do de suas mentes. Que um rio de águas velozes como aquele pudesse retornar para si mesmo. não havia como determinar. Diaspar encerrava coisas ainda mais estranhas.expressão essa que os traía ao primeiro exame. todos os sinais da cidade haviam desaparecido. uma expressão de inquiridora surpresa diante do mundo em que agora se encontravam . Na verdade. Mas o segredo que ele estava conduzindo fez com que se decidisse a não fazê-lo. Apesar de consideráveis. Primeiro. O longo curso d’água que corria à frente de Alvin era chamado simplesmente de o Rio.do que tinha sido a Terra antes que o deserto engolisse tudo. Fisicamente. o chão inclinava-se sua- vemente para baixo. e corria ao redor do parque num círculo completo e fechado. em geral. A intervalos era cruzado por pontes estreitas. Alguns dos re- cém-nascidos eram mais altos do que Alvin. qual daqueles jo- vens havia saído da Casa de Criação naquele ano. O rosto constituía orientação mais segura. e Alvin limitou-se ao papel de espectador. simplesmente. Conhecia a maioria de vista. me- nos Diaspar.. depois de um curso de menos de dez quilômetros. As pessoas nasciam assim.. no frescor do alvorecer. ocultos pela cortina de árvores. nem precisava. Não tinha. e Alvin parou a observá-las. não teria achado nada extraordinário se em determinado ponto do cir- cuito o Rio empreendesse uma escalada. A primeira existência de uma pessoa constituía bem precioso que nunca deveria repetir-se. Ao mesmo tempo. mas tinham um olhar de imaturidade. essa regra era de aplicação duvidosa. era coisa que Alvin jamais considerara esquisita. e ainda que. e qual deles vivia em Diaspar há tanto tempo quanto Alvin. de outro nome. a menos que se tratasse de uma pessoa várias vezes centenária. Alvin os invejava. Cerca de doze pessoas nadavam numa das pequenas lagoas. com quem pudesse comparti- lhar pensamentos e sensações. quebrado por lagoas oca- sionais. Era maravilhoso con- templar a vida pela primeira vez. de modo que quando enfim se saía da estreita floresta.

que agora o “equipamento” viril era inteiramente recolhido quando fora de uso.mas permanecia o desejo. Era verdade que a reprodução desde muito deixara de ser competência do corpo. O corpo humano não havia mudado muito durante o bilhão de anos trans- corridos desde a construção de Diaspar. e embora a concepção e o nascimento já não representassem nem mesmo memórias. no esforço de abolir as doenças de que a carne tinha sido herdeira. e à primeira vista eles se sentiriam também desafiados pelo problema de distinguir machos e fêmeas. portanto. a bem da verdade. Viam-se ali caminhos claramente demarcados cruzando e recruzando fileiras de arbustos e vez por outra penetrando em estreitas ravinas entre grandes penhascos recobertos de líquen. o desaparecimento do um- bigo. Ocorria. Já nos tempos remotos. Talvez chegassem até à presun- ção de não haver qualquer diferença. embora a maioria das modificações fossem internas e. Alvin a certa altura encontrou uma pequena máquina poliédrica. Contudo. não maior do que a cabeça de um homem. O desapare- cimento desse simples um por cento havia mudado o padrão da sociedade humana e a significação de palavras como “pai” e “mãe” . a armazenagem interna melhorara enorme- mente a disposição pouco elegante e. talvez. No entanto. não havia qualquer vestígio deles no corpo. Nas circunstâncias apropriadas. Acessórios desnecessários como unhas e dentes haviam de- saparecido. Alvin deixou os companheiros de geração e continuou em direção ao centro do parque. pois o desenho básico ha- via sido congelado eternamente nos bancos de memória da cidade. fisicamente. ele tinha exatamente as mesmas ca- racterísticas daquelas crianças que se divertiam na água. A mudança que mais teria surpreendido os homens das eras anteriores era. Os pêlos limitavam-se à cabeça. bastante perigosa criada pela natureza. invisíveis ao olhar. por ser questão demasiado importante para ser entregue aos jogos do acaso em que os cromossomos eram usa- dos como dados. no que estariam incorrendo em erro grave. o sexo continuava a existir. havia-se alterado boa parte de sua primitiva forma. No entanto. O Homem havia-se reconstruído muitas vezes no decurso de sua longa história. Essa inexplicável ausência lhes daria muito o que pensar. nem mesmo uma centésima parte da atividade sexual tinha relação com a reprodução. apenas. flu- 24 . não restava dúvida quanto à masculinidade de qualquer homem de Diaspar. embora sua satisfação já não tivesse agora objetivo mais profundo senão a de quaisquer dos outros pra- zeres dos sentidos.

era uma máquina possante e completa em si mesma. portanto.o construtor. para confusão dos ouvintes. com os olhos levemente baixos. pois era colecionador de palavras arcaicas. Além deles. Durante muitas eras geológicas. diziam alguns. que gostava de deixar cair aqui e ali na conversa. Ninguém sabia quantas variedades de robôs havia em Diaspar. O rosto conservava aquela expressão curiosamente fugidia que havia confundido o mundo durante tantas gerações. pés humanos haviam cruzado e recruzado aquele chão. Daquele ponto central. Alguns haviam-na interpretado como um capricho gratuito do artista. que à primeira vista pareciam pedras naturais. estendiam-se no horizonte as torres e terraços que subiam vagarosamente para o céu. Todo o edifício constituía um enigma. O teto abria-se para o céu e a única câmara era pavimentada com grandes lajes. da própria Diaspar . da própria cidade.tuando entre as ramagens de uma árvore. sem qualquer traço no material inconcebi- velmente resistente. e ainda da cidade. embora lhes fosse impossível imaginar de que materiais era fei- to. sobre o biombo das árvores. Talvez Jeserac lhe pudesse explicar. O criador do grande parque . tornando- se cada vez mais rebuscados e imponentes. O solo começou a elevar-se de novo. ainda que sua aparência exterior chegasse a 25 .sentava-se. Diaspar tinha sido pla- nejada como uma entidade. Alvin estava-se aproxi- mando da pequena colina no centro exato do parque e. mais além. fileira após fileira. Havia ali menos obstáculos e voltas e ele tinha uma visão clara do topo da elevação e do edifício simples que a encimava. O Túmulo de Yarlan Zey poderia ter sido pro- jetado pelos construtores de templos das primeiras civilizações. formando um cinturão baixo que circundava o par- que. Mas satisfeito por poder descansar encostado afinal numa das colunas róseas e olhar o caminho que acabara de trilhar. Alvin nem mesmo ti- nha certeza do que significava a palavra “túmulo”. como se examinasse os planos espalhados nos joelhos. Mas. mas a outros parecia que Yarlan Zey estivesse rindo de algum gracejo secreto. porque alcan- çaram a perfeição. Os edifícios mais próximos encontravam-se a quase três quilômetros. Há formas arquitetônicas que nunca mudam. Alvin dispunha de uma visão pano- râmica do parque. Estava um tanto ofegante ao chegar a seu destino. mantinham-se a distância e desincumbiam-se de suas tarefas com tal eficiência que era rarís- simo encontrar um deles. pois a seu respeito nada constava das memórias históricas da cidade. no templo.

Conti- nuou a contemplar as espirais coloridas e as ameias que encer- ravam agora o domínio total da humanidade. Não a encontrou. tomou uma decisão. com seus detalhes perdidos na distância. Por que. como não atraía a mais ninguém que ele já houvesse conhecido? Alvin não sabia. aquele vazio o atraía. Sabia agora o que ia fazer de sua vida. 26 . como se procurasse uma resposta à sua própria pergunta. Nada havia além delas .causar espanto por sua complexidade. A quinze.exceto o vazio palpitante do deserto. vinte quilômetros. então. sem as quais todos os enormes edifícios seriam sepulcros sem vida. Mas naquele momento. tudo aquilo dava simples- mente uma idéia vaga das maravilhas ocultas da tecnologia. quando seu cora- ção ansiava pelo inalcançável. esta- vam as muralhas externas da cidade. Alvin olhava fixamente os limites de seu mundo. sobre as quais parecia repou- sar o teto do céu. no qual um homem logo perderia o juízo.

Mas nas coisas do amor. Um Único esta- ria certamente sujeito a tais distorções. como seria de desejar. mas a brevidade de seus romances já se tornara conhecida. nem dos mundos de fantasia dos companheiros. muito embora não se mos- trasse tão reticente quanto Alvin temia. ou desaparecia por vários dias com a companheira escolhida. Ninguém. No momento apropriado. Eram inten- sos enquanto duravam . que se punham a vaguear pela cidade e gastavam tempo enorme até encontrar consolo. tinha-se a impressão de que ele buscava uma meta que Diaspar não lhe poderia fornecer. sobretudo em sua idade. Não se esperava que ele viesse a formar uniões estáveis pelo menos antes de passado um século. Não que Alvin fosse frio ou leviano. Contudo. Alvin só era capaz de se concen- trar em uma coisa de cada vez. entregava-se de corpo e alma aos jogos eróticos dos companheiros. CAPÍTULO IV Jeserac não foi de grande ajuda. Sem dúvida.mas nenhum deles ultrapassara algumas semanas. Não demonstrava grande interesse pelos domínios mais elevados do pensamento. da vida social meticulosamente elaborada de Diaspar. Contudo. sobrevinham prolongados períodos em que se mostrava de todo alheio àquilo que deveria representar o maior interesse de sua idade. Con- forme Jeserac percebera. o que era de admirar. como em tudo mais. Segundo tudo indicava. Alvin passaria a obedecer às normas gerais da cidade. e não acreditava que mesmo um Único pudesse causar muitas surpresas ou trazer-lhe problemas que não estivesse em condições de resolver. uma vez cessada a animação. Não participava. nada disso preocupava Jeserac. Era bem verdade que Alvin começava a mostrar algumas pe- quenas excentricidades de conduta que mais cedo ou mais tarde poderiam exigir correção. Mais estranha ainda era sua insólita vida amorosa. e pior ainda para suas amantes abandonadas. isso era ruim para ele. Já escutara aquelas per- guntas em sua longa carreira de mentor. 27 . Em certas ocasiões. Alystra chegara agora a essa situação deplorável.

Os homens que construíram esta cidade. Aqueles espaços ilimitados. quando a cidade o deixasse de proteger e nutrir. além da esta- bilidade. E mesmo que fosse bem sucedido. da mesma forma como você também esquecerá os seus. e que planejaram a sociedade que ela gerou. mas você ficaria surpreso ao saber quantas pessoas aceitam o mundo passivamente. Colocaram dentro destas paredes tudo quanto a raça humana pu- desse vir a desejar . Não acredito que muita gente tenha visto essas imagens antigas.respondeu Jeserac.o que me impede de ir embora? . caso os encontrasse. eram senhores das mentes e da matéria. antes que os desertos se alastrassem e os oceanos desaparecessem. É verdade que a raça humana ocupou no passado um espaço infinitamente maior do que o desta cidade. . “E mesmo a Terra. Você já viu um pouco do que a Terra era. nada mais era concebível. É pos- sível que haja caminhos para fora da cidade.” “Mantivemos o pacto e esquecemos os sonhos vãos de nossa infância. não podem ser suportados por todos.Se existe um caminho para fora da cidade .disse Alvin de- vagar .” “Ah.disse ele a Alvin -. abertos para o infinito.e garantiram que jamais sairíamos daqui. mas não creio que você os seguisse até o fim. as barreiras físicas são as menos importantes. .Acho que você já sabe a resposta. não passa de um grão de areia no Império Galáctico. veja) que cele- bramos um pacto com os Invasores. para ele. Poderiam ficar com o Universo que tanto desejavam. e nós nos contentaríamos com o mundo em que havíamos nascido. quando saíram para construir o Império. Cruzaram-nos novamen- te quando os Invasores os expulsaram da face da Terra. Alvin. as únicas que mostram o planeta antes da chegada dos Invasores.O problema que o afeta é muito antigo . seria capaz de afetar a inércia colossal de uma sociedade que permanecera praticamente imutável durante aproximadamente um bilhão de anos. Jeserac não se limitava a acreditar em estabilidade. O vazio entre os abismos interestelares cons- titui um pesadelo que nenhum homem saudável tentaria imaginar.’’ .” “A lenda diz (e trata-se apenas de uma lenda.por mais excêntrico ou brilhante que fosse. veja bem. que vantagem obteria? Seu corpo não resistiria por muito tempo no deserto.Essa é uma pergunta tola . Essas lembranças que você projeta com tanto prazer são as mais remotas que possuímos. Nossos ancestrais cruzaram esses abismos na aurora da história. 28 .

deu com Alystra. Via ainda as léguas infindas de águas azuis. Jamais ocorrera a Alvin que Alystra fosse bela. No lado remoto desse deserto de tempo. Recordava as florestas e as pradarias. e gastou muito tempo repassando na memória histórias mais antigas da cidade. Quando o registro terminava. rolando em ondas contra as praias douradas. à exceção de algumas crônicas que podiam ser inteiramente lendárias. Alvin pretendia realizar suas experiências sozinho. Alvin realmente já sabia . Antes de Diaspar tudo era simples . que de modo algum procurou dar à sua presença ali um ar de casualidade. que em certa ocasião. juntos. mas uma de suas conseqüências tinha sido esta. Em seus ouvidos ressoavam ainda o quebrar dos vagalhões desaparecidos havia um bilhão de anos. Eram raros esses registros antigos. enquanto o projetor hipnótico lhe abria a mente para o passado. a projeção vacilava e sumia. os primeiros homens que haviam domesticado o fogo e os primeiros a libertar a energia atômica. E essa destruição fora tão completa que era difícil atribuí-la a mero acidente. pois jamais vira a fealdade humana. en- tretanto. Nunca tinham sido capazes de deixar Diaspar. entre a chegada dos Invasores e a construção de Diaspar. E Alvin perguntava-se quantas dessas conseqüências ele teria ainda a desvendar. e esta era uma regra que nem mesmo Alvin violava com freqüência. embora ninguém soubesse a razão. Naquele limbo estavam mergulhados. adivinhara. tanto na vida conscien- te como nas aventuras oníricas que haviam compartilhado. o que Jeserac ignorava. bem como os estranhos animais que tinham dividido o mundo com o Homem. Logo que saiu do quarto. Passou horas a fio apoiado nos braços impalpáveis de um campo antigra- vitacional. deitado. era que a compulsão que governava a vida deles não tinha nenhum poder sobre Alvin. mais vastas do que a própria terra.as Origens. ela perde 29 . Em Diaspar ninguém tinha pressa. Seus com- panheiros lhe haviam fornecido a resposta. A hu- manidade perdera o seu passado. Durante várias sema- nas pensou cuidadosamente no problema. mas so- lidão era coisa difícil de conseguir em Diaspar. Aceitava-se pacificamen- te. todas as me- mórias dos tempos primitivos se tinham perdido. Este não sabia se sua condição de Úni- co havia sido causada por um acidente ou por desígnio antigo. Quando a beleza é universal. todos eram vizinhos. mas de um modo diferente do que ima- ginava. mas Alvin permanecia ali. antes de regressar das épocas remotas e encarar a realidade. olhando para o vazio.ou melhor. Jeserac estava certo. os primeiros a construir uma canoa de madeira e os primeiros a alcançar as estrelas.

Mesmo nos momentos de maior intimida- de a barreira de sua singularidade se interpunha entre ele e suas amantes. e quando a ocasião chegasse talvez viesse a ter difi- culdade para mantê-las. Acontecia que. Na verdade. como demonstrava seu corpo bem propor- cionado. mas não fisicamente. Isso já acontecera antes e o impedira. os companheiros recordariam as vi- das anteriores e o deixariam para trás. e assim permaneceria durante decênios. Jun- tos. por cautela. que por ora parecia tão cândida e simples. Por um instante. em outra. pois no decurso de sua vida encontraria quase todos os habitantes de Diaspar. indi- ferentes ao milagre que se consumava sob seus pés. Um engenhei- ro do mundo antigo chegaria à insanidade tentando compreender como um caminho aparentemente sólido movia-se com rapidez cada vez maior. Alvin aborreceu-se com o encontro. se aquelas paredes verticais se tornassem transparentes como vidro e se pu- desse observar a vida lá dentro! Espalhadas no espaço ao derredor havia pessoas conhecidas. Ao redor deles. se assim desejasse. Ainda era por de- mais jovem e auto-suficiente para sentir necessidade de ligações duradouras. e não queria guardar a nova experiência para si mesmo. Mas para Alvin e Alystra era natural a existência de matérias que acumulavam as propriedades dos sólidos. mas não sozinha. de entregar-se sem reservas a outra pessoa. Alystra não fez perguntas. os edifícios agigantavam-se cada vez mais. quando o canal expresso os deixou fora do coração agitado da cidade. Como seria estranho. e dos líquidos. real. Alvin estava longe de ser um egoísta. o que era de estranhar.seu poder sobre o coração. em breve se tornaria um inimaginável complexo de recordações e co- nhecimentos acumulados. poucas. ele ainda era uma criança. A vacilação sentida por Alvin desapareceu quase imediata- mente. A maior parte dessas pessoas estaria senta- da em seus próprios cômodos. numa direção. como se a cidade procurasse fortalecer suas proteções contra o mundo exterior. Tinham apenas de formular o desejo para estarem. Não havia motivo para que Alystra não o acompanhasse. pessoas que viria a conhecer ainda e pessoas estranhas que jamais encontraria . enquanto um a um.estas últimas. Até mesmo Alystra. como um avarento. na pre- 30 . pensava Alvin. na verdade. que tra- zia a lembrança de paixões já estéreis para ele. encaminharam-se para a seção central de alta velocidade. e só a sua ausência é capaz de produzir qualquer efeito emocional. poderia até aprender muitas coisas observando as reações dela.

Temos mais coisas pela frente . observavam os arredores.Isso é apenas 31 . Havia ainda jardins em Diaspar. a existência era absolutamente satisfatória. Embora a maior parte dos grandes edifícios fosse semelhante. diferenças sutis au- mentavam o interesse do cenário. Para homens cujas mentes estavam assim constituídas. Não sofriam de tédio. Alvin desejava ir mais adiante. . pois dispunham de acesso a tudo quanto acontecera nos reinos da imaginação ou da realidade. Alvin ficou a observá-la por alguns momentos. gozando os prazeres de cada nova descoberta. embora ainda longe da compreensão de Alvin. Daí a pouco eram depositados suavemente num amplo cômo- do elíptico. mas nunca havia encontrado uma maneira de retardar seu avanço pelo túnel. correndo ale- gremente de um cenário a outro. e tinha naturalmente a impressão de que Alvin a levara ali para que as visse. Existiam centenas de locais idênticos nos edifícios meio vazios da periferia de Diaspar. Algum dias a maré da vida poderia chegar ali mais uma vez. completamente cercado de janelas. mas só tinham existido na mente do artista que os concebera. junto a uma longa plataforma de mármore. Alvin escolheu um e penetrou nele. e já não restava nenhuma à vista quando atingiram um ponto de des- canso. reluzindo à luz solar. Confortavelmente deitados. após suave desaceleração. e também fútil. e acima deles os céus davam a im- pressão de abertos aos ventos. elevavam-se as cúspides da cidade. . Sem hesitar. através das quais podiam perceber vislumbres tantalizantes de jardins ornamenta- dos de flores brilhantes. A medida que ele e Alystra se afastavam do coração da cida- de. mas a Diaspar de uma era remotíssima.disse Alvin. mantidos em ordem perfeita pelos poderes ocultos que velavam por eles. desde a época da construção da cidade. Caminharam através do frio remoinho de matéria onde a substância do caminho móvel refluía à origem.sença de qualquer pessoa que escolhessem. Certamente não havia flores semelhantes no mundo de hoje. o número de pessoas nas ruas diminuía gradativamente. Alystra estava encantada com a beleza das flores. Ao redor. A arte que se ocupara de tudo quanto existia em Diaspar também atuara ali. mas até esse tempo o velho jardim constituía um segredo de que só eles partilhavam. e defrontaram-se com uma parede cheia de túneis brilhantemente iluminados. O campo peristáltico os recolheu e os impulsionou para diante. com Alystra logo atrás. Parecia incrível que estivessem num túnel tão profundamen- te cavado na terra. Não era aquela a cidade que Alvin conhecia.

como se ansioso por levá-los a um destino. ele estivera olhando para dentro do passado. até descrever um novo ângulo reto.Você sabe. mas era desconcertante para uma pessoa ver-se movimen- tando entre cenários cambiantes e imaginários. como Alvin já se convencera. na realidade. não lhes provocava qualquer sensação de insegurança. embora soubesse que ela não poderia vê-lo. onde estamos? . Alvin sabia muito bem que ali não tinha como apressar Alystra . por acaso. quando terminaram o giro dos espelhos. mudavam constante- mente de posição. através de um poço vertical. como também porque ninguém seria capaz de resistir ao fascínio de um lugar daqueles. concluiu que não estivera olhando para amigos que houvesse conhecido em sua existência. por mais que esperasse diante daqueles cenários. Às vezes viam-se pessoas indo e vindo nos limites do mundo atrás dos espelhos. observando as encarnações anteriores de pessoas que trilhavam os caminhos do mundo em que ele próprio vivia. era como se fossem conduzidos por um corredor inteiramente plano. não havia jardim algum além do vidro. a uma grande profundidade. O corredor começou a “baixar” novamente. . na passagem. Para os sentidos.perguntou ele a Alys- tra. a ilusão se desfez. O movimento do chão diminuiu um pouco. Entris- teceu-se ao recordar sua condição de Único. 32 . Os espelhos restantes decerto refletiam alguma coisa. O fato de eles es- tarem movendo-se. O chão que pisavam começou a deslizar lentamente para a frente. uma falha no campo de polarização era simplesmente impossível. não hesitou e logo depois achava-se ao lado dele. O corredor inclinou-se um pouco para cima e cerca de trinta metros adiante fez uma volta. mas apenas uma passagem cir- cular. em curva ascendente. porém. para o alto. Através da mente do artista desconhecido. jamais encontraria qualquer eco remoto de si próprio. Devido a algum truque do artista. Alvin avistou Alystra um pouco abaixo dele. e por mais de uma vez Alvin dera com rostos conhecidos. Mas somente a lógi- ca levava a essa conclusão. até deter-se ao fim de um longo pórtico decorado com espelhos. Ao penetrar ele por uma das janelas. A moça.o começo. No entanto. e mesmo aqueles. des- de Eva. até que a velocidade da via tomou-se tão grande que qualquer esforço se fazia desnecessário. Caminharam um pouco sobre o caminho.não só porque algumas características femininas haviam-se mantido. em ângulo reto. apenas alguns espelhos refletiam a cena como era na realidade. ao pensar que.

destruíra esses convencionalismos. pelo qual penetrava um ven- to frio e constante. Alvin ofereceu-lhe sua própria capa. ela lhe teria dado a capa. . divisava campos e bosques. O túnel estendia-se horizontalmente por mais de cem metros.Perto dos limites da cidade .É frio. .queixou-se Alystra. pois estavam à bei- ra do nada. Considerando que o desconforto de Alystra era por culpa dele. que ele teria aceito automaticamente. bem como o Rio. mais além. Deveria ter aconselha- do que ela trouxesse uma capa. os remotos 33 .Parece que andamos bastante. Não havia saídas visíveis na parede. A visão era a inversão da cena que Alvin contemplara do cen- tro do Parque. e podia-se penetrar por ela em outro corredor. . Diaspar estendia-se a seus pés. Não era desagradável caminhar com o vento soprando atrás deles. Ainda mais longe.respondeu Alvin. . . abaixo de Alvin e Alystra despenhava-se um declive de pelo menos trezentos metros. Uma treliça de pedra os impedia de prosseguir. e logo depois atingiram o fim do túnel. Quando alguém se aproximava dos espelhos nesses pontos. sem uma palavra. Poucas pessoas a ti- nham visto ali. Não havia no gesto traço algum de galanteria.Estamos na Torre de Loranne .respondeu. pois todas as roupas em Diaspar eram ornamentais e não serviam para proteger o corpo.Não gosto desse lugar . uma capa eficiente. mas em vários pontos se viam sinais da existência de corredores laterais. correndo eternamente em círculo. em várias direções. Alystra perdeu toda noção consciente dos desvios e vol- tas. Venha. os reflexos pareciam fundir-se numa arcada de luz. Acompanhava com os olhos as ondas concêntricas de pedra e metal que desciam em extensões de um quilômetro e meio em direção ao coração da cidade. O grande conduto de ar abria-se na face escarpada da torre. mas não faço idéia do espaço que percorremos.É um dos pontos mais altos de Diaspar. Alystra sacudiu a cabeça. e seus últimos confins eram débeis círculos luminosos. e Alvin sentiu-se culpado. conduziu-a para fora do corre- dor. Estavam no alto das muralhas externas da cidade. Era provável que ela jamais tivesse experimentado frio de ver- dade em sua vida. parcialmente encobertos pelas torres. Segurando a mão de Alystra. es- tabelecida havia muito tempo. vou mostrar-lhe. e por fim saíram num túnel longo. descuidadamente. A igualdade entre os sexos. . o que era de esperar. Se a culpa fosse de Alystra.

protestou Alvin. pois não havia dificuldade em 34 . Alvin afastou-se da treliça e começou a caminhar para o dis- tante círculo de luz na extremidade do túnel. seria inteiramente inútil. Alystra gozava a paisagem com prazer. . Alvin! . ele realmente era. surpreendendo-se ao encontrar Alystra trêmula. mas ele mal se dava conta do des- conforto de assim penetrar na corrente de ar. O vento soprava frio contra seu corpo envolto em luz.Ainda estamos em segurança. E para seus padrões.perguntou. sem remorsos. com a capa em- prestada adejando ao vento e uma das mãos protegendo o rosto. mas sem surpresa. Ela o observava. Na verdade. Fez meia volta e deslizou pela rampa que os trouxera ao túnel. Alvin viu que seus lábios se moviam. Ela não podia segui-lo. Você olhou por aquela janela atrás de nós. Atrás de Alystra ficava o mundo conhecido. Já tinha visto a cidade vezes sem conta. quanto mais o olho. A persuasão.Por que está com medo? . cheio de maravilhas.Mas não há lógica nisso! . Aprendera o significado daquele distante círculo luminoso.Eu não seria capaz disso . Adiante.Agora. Olhou-a primeiramente com surpresa. A seu lado. E não havia perigo de que se perdesse nos labirintos da cidade. estendia-se a imensidão vazia. quero mostrar-lhe outra coisa. Dera apenas alguns passos quando verificou que Alystra não mostrava intenção de segui-lo. mas desprovido de surpresas. . mas nada tem de hor- rível.Que mal lhe poderia fazer ir até o fim deste corredor e olhar para fora? O mundo lá fora é estranho e deserto. pelo qual o vento penetrava em Diaspar. . o mundo dos Invasores.disse Alvin. Alystra não esperou que terminasse. Inteiro . Alvin voltou atrás. . ele via. e depois com impaciência mesclada de certa piedade. pois isso implicaria sua vontade sobre outra pessoa. de outros miran- tes bem situados e quase tão belos . Sabia que Alystra não iria parar até chegar de volta à sua casa. Não vá além. .respondeu afinal.Aí está o nosso mundo. mas não conseguiu entender o que ela dizia. flutuando como uma bolha brilhan- te mas fechada pelo rio do tempo. Nesse caso.baluartes de Diaspar voltavam a elevar-se para o céu. mais belo ele me parece.e com muito mais conforto. . Alvin não fez nenhum gesto para detê-la. .Só de pensar nisso sinto um frio mais forte do que o deste vento. por que não olha também por essa outra? Alystra olhava-o como se ele fosse um monstro estranho. a poucos passos dela. O que dissera Jeserac era verdade.

sustentar que nenhuma da- quelas obras de escultura fosse obra de seres inteligentes.somente por sua violência e irracionalidade. ele teria dado tudo para ver ao vivo as montanhas alcantiladas de que falavam os antigos registros e seus próprios sonhos. Em- bora lamentasse sinceramente que tivesse ido embora. meio esperançoso de que Alys- tra mudasse de idéia e voltasse. a luz do sol varria o deserto. que essas coisas existiam. Os raios quase horizontais in- cidiam sobre a grade e lançavam desenhos fantásticos de ouro e de sombra pelo interior do túnel. às vezes. Centenas de metros abaixo. e mesmo assim o panorama apresentava-se algo restrito. com os contornos grosseiramente exagerados pela luz oblíqua. com sua luz en- fraquecida e avermelhada pelas centenas de quilômetros de atmos- fera que havia atravessado. Havia duas grandes manchas pretas em seu disco. Não fora colhido de surpresa pela reação da amiga . O sol alteava-se sobre o cume das colinas. Só ao atingir a treliça de pedra e ao lançar os bra- ços em torno de suas barras é que ele pôde relaxar o corpo. Além do frio.reconstituir de volta seus próprios passos. em seus estudos. O rato. Havia espaço suficiente para ele introduzir a cabeça. Quilômetro após qui- lômetro. enquan- 35 . Parecia um mar eternamente gelado. o que ele via era suficiente. Alvin tinha aprendido. tornando-se difícil. Pareciam quase um par de olhos a espreitá-lo. Aqui e ali algum capricho do vento formara curiosos sorvedouros e ravinas na areia. tão grande que Alvin não podia julgar até onde se estendia. era desagradável também marchar contra o vento que penetrava nos pulmões da cidade. A habilidade instintiva de escapar mesmo ao mais emaranhado dos labirintos não passa- va de uma das muitas conquistas do Homem desde que começara a viver em cidades. Alvin aguardou um momento. tinha sido forçado a adquirir a mesma capacidade quando abandonara os campos para viver em contato com a humanidade. há muito extinto. não podia deixar de pensar que ela bem poderia ter deixado a capa. A uma grande distância. pois a entrada do conduto de ar estava em parte fixada à parede da cidade. Contudo. mas ficava surpreso de poder vê-las com tanta facilidade. dunas de areia ondulavam na direção do oeste. elevava-se uma fileira de colinas suavemente arredon- dadas. Alvin apertou os olhos para não ser ofuscado pelo clarão e examinou a terra pela qual nenhum homem havia caminhado durante eras sem conta. Alvin lutava ao mes- mo tempo contra a corrente de ar e contra a força que a mantinha em movimento. Essas colinas tinham sido uma decepção para Alvin.

Contudo. chegara a conhecer . de toda a humanidade. Seis deles estavam dispostos numa elipse levemente achatada. caminhavam agora para a decadência. A cor fugiu do céu. Em conjunto. com os Sete Sóis incrustados em suas dobras. deixando seu sinal entre as estrelas. a azul. cada vez mais profundamente. Muitas semanas haviam-se passado desde que ele viera pela primeira vez àquele lugar. Com o cair do sol. Formavam um pequeno grupo com- pacto e surpreendentemente simétrico contra o poente. Não poderiam ter outro nome. Cada estrela tinha cor diferente. Segun- do seus próprios termos. ela mudara completamente. Era quase como se alguma força se houvesse deliberadamente oposto às desordens do universo natural. sentia o vento perpassar-lhe os ouvidos. Mas Alvin 36 . Mas nesse curto período. que a natureza houvesse jamais projetado composição tão perfeita. as estrias vermelhas e douradas desvaneceram-se. dando lugar a um azul ártico que mergulhou na noite. Dez vezes. Estendia-se do zênite até o horizonte. um pouco inclinado em direção à linha de visão. As outras estrelas já haviam surgido agora. para desafiá-los. e contra todas as leis da proba- bilidade. Os grandes sóis que em certa época haviam ardido com violência. mas seus agrupamentos desiguais apenas reforçavam o enigma daquela simetria perfeita.to ele. o grupo assemelhava-se a uma peça de joalheria. Alvin percebia. No centro exato da forma- ção achava-se um único gigante branco .o momento em que a primeira estrela reluz e ganha vida. os poços de sombra entre as dunas reuniram-se velozmente num único e vasto lago de escuridão. As palavras lhe afloraram es- pontaneamente aos lábios. era na realidade um círculo perfeito. Alvin pôde localizar o grande véu de poeira que tinha sido chamado de Via Láctea. mudara mais do que tinha o direito de fazer no curso natural dos acontecimentos. Alvin podia identificar a vermelha. e ele sabia que a configuração do céu noturno devia ter mudado nesse intervalo. mas as de outros matizes enganavam-lhe a vista. Alvin esperou por aquele momento emocionante que só ele. não se achava preparado para o primeiro olhar aos Sete Sóis. agachado em seu solitário buraco de espia. parecia incrível. À medida que seus olhos se acostumavam à escuridão. a Galáxia havia girado em torno de seu eixo desde que o Homem pisara a Terra pela primeira vez. Não houve crepúsculo.a estrela mais brilhante de todo o céu visível. um simples momento. não mais. a dourada e a verde. no orgulho da juventude. a qual.

Fora da cidade havia coisas como dia e noite. Ainda assim. obrigou-o a voltar depressa para a cidade. Parecia-lhe não haver maneira de escapar para aquele vazio enorme . Alvin demorou- se entre os reflexos do passado. mas nada mais. Alvin achava-se agora em pé num largo pátio que na realida- de nunca vira. À sua frente. Alvin voltou lentamente pelo corredor de espelhos. Seria um jogo que não pode- ria compartilhar com ninguém. Os espelhos permaneciam sempre vazios até ele entrar na sala. Ao descer o sol. Dois homens discutiam cortesmente numa plata- forma. Diante de um dos grandes es- pelhos. A única noite que chegava a Diaspar era uma rara e imprevisível obscuridade que às vezes visitava o Parque e o transformava num local de mistério. Talvez algum dia ele chegasse a descobrir algum modo de deixar os limites físicos de Diaspar. e Alvin bem podia acreditar nisso. ainda com o cérebro tomado pela noite e pelos espelhos. enquanto seus seguidores os rodeavam. mas que com toda probabilidade existia em algum lugar de Diaspar.não vira os céus em sua antiga glória e. por isso. ativando a circulação. ignorava o que perdera. observou as cenas que iam e vinham.e nenhum objetivo racional para essa idéia. se isso ajudasse a apaziguar o anseio que lhe ia na alma. O pátio estava cheio de gente. mas agitavam-se assim que ele se punha a caminhar entre eles. Jeserac tinha dito que um homem não demoraria a morrer no deserto. mas mesmo que o fizesse estava se- guro de que teria de retornar logo à cidade. numa espécie de reunião pública. Que estariam aqueles homens debatendo? Talvez não se tratasse de uma cena real do passado. pois a imaginação supria imediatamente a ausência de sons. mas em seu interior o dia era eterno. o céu sobre Diaspar se enchia de luz e ninguém podia perceber quando a iluminação na- tural havia desvanecido. levantando inda- gações ocasionais. O mecanismo de aparecimento dessas imagens era controlado por sua presença. no túnel. já haviam banido a escuridão das cidades. Atingir o deserto seria façanha divertida. Alvin livrou-se da treliça e esfregou o corpo. e até certo ponto por seus pensamentos. mas sim de um episódio engendrado 37 . O frio penetrando em seus ossos. a luz que emanava de Diaspar era tão fulgurante que por um momento ele teve de proteger os olhos. teria de aceitá-lo. mas nada mais. Relutando em voltar ao seu mundo familiar. O total silêncio aumentava a sedução da cena. Mesmo antes de os homens perderem a necessidade de dormir.

foi a vez do próprio Alvin eclipsar-se. Alvin observou os rostos na multidão. da mesma forma como teria feito um objeto real. tal como Alvin. Não conhecia ninguém. suas roupas. um pouco à margem do grupo princi- pal. As pessoas no espelho continuavam sua discussão de há muito esquecida. Quantos padrões possíveis de fisionomia humana exis- tiriam? O número era enorme. E quando um outro se movimentou à sua frente.pela sua imaginação. mas ainda finito. sobretudo porque todas as variações pouco estéticas já haviam sido eliminadas. O homem era. muito mais do que isso. Seus movimentos. tudo nele parecia ligeiramente deslocado naquela reunião. com um sorriso ligeiramente enigmático. os mo- vimentos levemente formais. 38 . Às vezes era-lhe difícil não acreditar que estivesse fora da cena. porém. à procura de alguém que ele reconhecesse. tudo isso parecia bem arrumado de- mais para ser verdadeiro. um anacronismo. Já se preparava para ir embora quando notou um homem com estranha indumentária. Ele não obedecia ao padrão. O cuidadoso equilíbrio das figuras. Era real e olhava para Alvin. Um dos fantasmas do espelho pareceu caminhar para trás de Alvin e desapareceu imediatamente. mas pensou que po- deria estar olhando para amigos que não encontraria no decorrer de séculos. ignorando a presença de Alvin entre elas. pois a ilusão parecia perfeita.

. Alvin rebuscou a mente à procura do significado do estranho nome.. o outro falou. mas não pôde identificá-las. . . com potencialidades secretas. devia ter percebido que se tratava de você.Assim é a fama. era uma simples declaração positiva. encontrar alguém ali. Voltou as costas ao mundo do espelho e encarou o intruso. Não ficara surpreendido. intenção de ofensa.perguntou Alvin.Você é Alvin. quase como se estivesse respondendo aos pensamentos silenciosos de Alvin. porém. pensou. Você é jovem. como se isso explicas- se tudo. olhado para o deserto ou contemplado as estrelas caindo em direção ao oeste? . evidentemente. “Bufão”.disse Khedron. . tão perto da fronteira do desconhecido. na torre deserta. Quando descobri que alguém estava vi- sitando este lugar. Já teria Khedron.. fizera-o co- nhecido de todos na cidade. A observação não tinha. Alvin ficou na mesma.Chamam-me de Bufão. e Khedron deu de ombros.continuou o estranho. Havia alguma coisa em Khedron de agradavelmente inusita- do. com o fato de o homem diante dele ser um estranho. era preciso toda uma vida para aprendê-los todos. Gostasse ou não disso. creio. Alvin havia encontrado menos de um milésimo dos habitantes de Diaspar. Antes que dissesse alguma coisa.Não . Cau- sava-lhe surpresa. e gracejar ainda não fez parte de sua vida. Sua ignorância está desculpada. com uma ponta de ciúme. Ele havia crescido considerando a Torre de Loran- ne como uma propriedade pessoal. CAPÍTULO V Em sua vida. .Você vem sempre a este lugar? . e agora sentia-se ligeiramente perturbado ao saber que suas maravilhas eram do conhecimento de outra pessoa. portanto. e foi assim que Alvin a acei- tou.Sou Khedron . Evocava lembranças muito vagas. num gesto de resignação zombeteira. Havendo tantos títulos na complexa estrutura social da cidade. . Ser reconhecido não o surpreendeu. sua condição de Único. 39 . ainda curta.Nunca estive aqui antes.

Diaspar não é simplesmente uma máquina. de modo que começarei por lhe dizer “o porquê”. E para muitos. e faz muito tempo que ninguém vinha à Torre de Loranne. Ah. Alvin perguntou a si mesmo.Mesmo que seja raro alguém vir aqui . . É uma história comprida. mas o que é um Bufão? E o que ele faz? . Temos aqui um mundo pequeno e fe- chado sobre si mesmo. Já saí umas mil vezes da Casa da Criação.Mas é um prazer para mim entrar em contato com acontecimentos invulgares desta cidade. Esta não é a minha primeira vida. 40 . Havia um quê de ironia nas palavras de Khedron que deixava Alvin ainda sem entender as coisas direito.redargüiu Khedron -. você sabe. mesmo um já é demais. Mas em algum ponto. e. perfeitamente estável.respondeu Alvin com sinceridade. que nunca muda. conforme se acredita.tiveram de so- lucionar um problema incrivelmente complicado.Muito bem.se é que eles eram homens. bem como de outros órgãos sensoriais ainda mais sutis. Apesar de mi- nha aparência. ainda usando as palavras com cautela -.Perdoe minha ignorância . contudo.disse Alvin.disse Alvin -. Eu já marquei você há muito tempo. mas não do modo como você é.Porque em Diaspar .Tudo me interessa . a ra- ridade. Os homens que projetaram Diaspar . a não ser em detalhes mínimos.Você pergunta “o quê” . é prerrogativa minha. era após era. Sabia que haveríamos de nos encontrar algum dia. também sou um Único. Não seria cortês fa- zer perguntas pessoais diretas. Mas naquela história. . mas um organismo vivo e mortal. mas creio que ela lhe interessará. Diaspar estava cheia de olhos e ouvidos. . por que alguém deveria interes- sar-se por isso? .o inusitado. mas logo afas- tou a questão. rapidamente. como Khedron te- ria tomado conhecimento de suas visitas anteriores. . que a mantinham informada de tudo quanto nela acontecia. mas afinal de contas fora Khedron quem tocara no assunto. É prová- vel que este mundo já tenha durado mais tempo que todo o resto da história humana. Alguém suficientemente interessado poderia sem qualquer dúvida descobrir um meio de tirar proveito desses canais.respondeu Khedron . nos começos de minha origem fui escolhido como Bufão e há apenas um Bufão de cada vez em Diaspar. Estamos de tal modo habituados à nossa sociedade que não podemos apreciar em que medida ela pareceu estranha a nos- sos primeiros antepassados. coisa de que às vezes duvido .

. Os Bancos de Memória guardam muitas outras coisas além dos modelos de nos- sos corpos e nossas personalidades. Os construtores da cidade não determina- ram somente a população.respondeu. Mas enquanto houver energia para operar os Bancos de Memória. Eis onde quero chegar: há igualmente em Diaspar máqui- nas que preservam nossa estrutura social. Talvez reparando nossos modelos de personalidade. Raramente nos apercebemos de que essas leis exis- tem.. . Foi feito há milhares de anos. Talvez através da seleção daqueles que saem da Casa da Criação. e enquanto as matrizes que eles contêm puderem controlar os moldes da cidade.Mui- tos prédios foram demolidos desde que a cidade foi construída.interpôs Alvin. Podemos achar que dispomos de livre 41 .existiam culturas separadas e civilizações em quantidade. mas acredito que isso seja verdade. é claro .A população de Diaspar sempre foi a mesma. com a criação ou destrui- ção dos corpos.Naturalmente. embora seus agrupa- mentos humanos reais sempre mudem. por mais dura que fosse. Khedron balançou a cabeça negativamente. . Veja este calçamento. Elas observam qualquer sinal de mudança e o corrigem antes que se torne excessivamen- te grande. Guardam a imagem da própria cidade. que se mantinham em existência durante certo tempo e depois acabavam. .Por meio dos Bancos de Memória. . e edificaram-se novos. mas ainda assim nós as obedecemos.Isso é apenas uma parte da verdade. não disponho de comprovações claras. estou me referindo ao fato simples- mente como exemplo da maneira como a cidade se preserva fisica- mente. Você pode ver algum sinal de desgaste? Qualquer matéria sem proteção. e suas esperanças de aprender alguma coisa nova começaram a terminar. De qualquer modo. Não posso provar isso. e um número incontável de pés já caminhou sobre ele. preservando cada átomo de todas as mudanças promovidas pelo tempo. Como teria Diaspar conquistado essa extraordinária estabilidade? Alvin surpreendeu-se de que alguém pudesse formular uma pergunta tão elementar. já se teria transformado em pó. incapaz de ultrapassar limites estreitos. fixaram também leis que governassem a sua conduta. Com a mesma popu- lação se poderia formar muitas sociedades diferentes. E como fazem isso? Não sei. Diaspar é uma cultura congelada.Mas têm havido algumas mudanças .. a estrutura física de Diaspar jamais mudará. . mas apenas descarregando-se as informa- ções contidas nos Bancos de Memória e definindo-se então novos padrões.

Julgue-me por meus feitos. Alvin jamais estivera diante de alguém como Khedron. principalmente Jeserac. Se valeu a pena.quando houvesse pausas em seu solilóquio . como parecia. tinham a lhe dizer sobre Khedron. depois disso. Os planejadores da cidade imaginaram medidas para evitar isso. mas nunca poderei ter certeza. Explicar minhas operações seria destruir a efici- ência delas. Alguma coisa lhe dizia que seria dificílimo encontrar algo que surpreendesse Khedron. ela gera a es- tagnação e. E uma tremenda conquista de engenharia social. resposta a muitos problemas que o intrigavam. O importante. Diaspar tem sobrevivido e atravessado as eras em segurança. Facilmente. Khedron. a decadência.e que poderia dar a ele. ainda que esses edifícios va- zios constituam prova de que não foram totalmente bem sucedidos. e que estivesse interessado. Só quando já percorriam nova- mente as ruas é que ocorreu a Alvin que Khedron não lhe pergun- tara o que é que ele estava fazendo na fronteira do desconhecido. queria saber o que seus amigos. saindo ao lado do caminho móvel. é possível. se muito prolongada. o problema foi resolvido.um personagem que se alteava. para que pudessem chamar um ao outro quando quisessem.Digamos que eu introduzo na cidade quantidades calcula- das de desordem. mas podemos estar seguros disso? “De qualquer modo. .perguntou Alvin. ainda muito confuso e já um tanto exasperado. Juntos. Gosto de pensar o contrário. da cabeça aos pés. sentiu Alvin. era que Khedron era alguém com quem se podia conversar . Uma parte pequenís- sima.Até nosso próximo encontro . que são muitas.” “Contudo. ali vazio.arbítrio. embora poucos. e não por minhas palavras. Alvin. não basta estabilidade. Antes de reencontrá-lo. como um imenso navio que carrega como carga tudo aquilo que a raça humana le- gou. é outra questão. Trocaram seus números de identificação. Desconfiava de que Khedron soubesse a resposta. O Bu- fão era uma verdadeira personalidade . embora não surpreso. Eu.” .E que parte é essa? . desceram os corredores da Torre de Loranne.disse Khedron e desapare- 42 . . sobre o nível geral de uniformidade tí- pico de Diaspar. possibilidade de descobrir exatamente quais eram os seus deveres e como ele os executava. Mesmo não havendo. isso era de menor importância. embora pensasse que sua companhia pu- desse acabar mostrando-se cansativa. sou parte desse plano. o Bufão. Alvin estava ansioso por ver novamente o Bufão.

em certa época. homens de gênio remodelaram a cidade. Durante suas longas vi- das. desde a hora em que vinham à luz. já crescidos. com os corpos só um pouco mais envelhecidos. Era provável que Khedron tivesse permanecido tranqüilo em sua casa todo o tempo .onde quer que ele morasse. dando-lhe as máquinas que a faziam imortal. Em geral uma pessoa distribuía à vontade seu número. Alvin sentiu-se incomodado. Caso contrário. exceto sua própria sobrevivência. Havia um milhão de coisas em que ocupar as vidas. através do Tempo. seu nome fora conhecido em todos os mundos que o Homem perdera. na Casa da Criação. era de bom tom deixar isso claro desde o início. Embora aquele mundo pudesse ser pequeno. Conforme se dizia. tudo quanto havia sido salvo da ruína do passado. à hora em que. Num mundo em que homens e mulheres possuíam uma inteligên- cia que fora. todas as cidades um dia existentes tinham dado alguma coisa a Diaspar. Era estranho que ele nunca houvesse encontrado outra pes- soa que se mostrasse insatisfeita com seu modo de vida. mas o endereço real era coisa que só revelava aos amigos mais chegados. Quando se encon- trava uma pessoa através de uma mera projeção física. sem que se estivesse presente em carne e osso. O número-índice que dera a Alvin assegurava o recebimento de qualquer mensagem. Para a edificação de Diaspar haviam sido canalizados todo o talento e toda a arte do Im- pério. Alvin pensava no que Khedron lhe contara sobre Diaspar e sua organização so- cial. e estavam satisfeitos com isso. Diaspar e seus habitantes haviam sido projetados como parte de um plano- mestre. sua riqueza de tesouros e divertimentos superava qualquer cálcu- lo. Por mais que muitas coisas fossem esquecidas. a pessoa não avisada disso po- dia ficar às vezes em considerável desvantagem. as pessoas daquela cidade não sofriam nem se angustiavam. sua complexidade era surpreendente. a marca do gênio. Os deleites da conversação e do debate. em comparação com os modelos de eras remotas. Pelo menos isso estava de acordo com os costumes normais. não existia perigo de enfado. as intrincadas formalidades do intercâmbio social .ceu em seguida.tudo isso bastava para ocupar 43 . mas não revela- va onde vivia. Ali o Homem havia reunido todos os frutos de seu gênio. Quando os grandes dias aproximavam-se do fim. com toda segu- rança. retornavam aos Bancos de Memória da cidade. Nada haviam realizado. antes da chegada dos Invasores. formavam uma simbiose perfeita. Diaspar viveria para conduzir os descendentes do Homem. Enquanto caminhava de volta para a cidade.

No campo da aventura e do exercício da imaginação. embora se acreditasse desperto. inclusive muitos só possibilita- dos pelo controle da gravidade. não havia ninguém em Diaspar incapaz de compreender um pouco do que Eriston e Etania tentavam fazer e que não possuísse um pas- satempo próprio igualmente absorvente. passava a maior parte do tempo em longos solilóquios com o Computador Central. Nas Sagas a ilusão era perfeita porque todas as impressões sensoriais envolvidas eram levadas diretamente ao cérebro e as sensações conflitantes eram desviadas. Eriston. Suas obras podiam ser vistas por toda Diaspar. mas dispunha ainda de tempo para vencer dezenas de discussões simultâneas com quantos se dispusessem a desafiá-lo. projetava e construía formas entrelaçadas tridimensionais de tal beleza e complexidade que re- presentavam na verdade problemas extremamente avançados de topologia.boa parte da existência. por exemplo. que não são jamais conquistados e por isso mesmo constituem desafio perene. Tais ocupações poderiam parecer áridas a quem não pos- suísse intelecto para lhes apreciar as sutilezas. E não tinha esperanças de fazer progressos reais antes de haver usado várias vidas. e al- gumas estavam incorporadas aos pisos dos grandes pavilhões de coreografia. Os interesses de Etania eram de natureza mais estética. que praticamente dirigia a cidade. havia os grandes debates formais que a cidade inteira escutava extasiada. Eram elas o inevitável produto final daquela busca de realismo que havia começado na reprodução. Não havia homem ou mulher que não possuísse um absor- vente interesse intelectual. Num mundo de ordem e estabilidade. de imagens mó- veis e na gravação de sons. utilizadas como base para novas criações de balé e motivos de dança. Ademais. com suas mentes mais aguçadas entregues ao combate ou dedicadas à tarefa de escalar os picos altaneiros da filosofia. talvez não fosse 44 . que em suas linhas gerais não haviam mudado em um bilhão de anos. era como se vivesse um sonho. as Sagas proporcionavam tudo quanto se desejas- se. Entretanto. O espectador arrebatado perdia contato com a realidade enquanto a aventura durasse. tornavam agradáveis os cinco pri- meiros séculos da juventude. pelos homens. Durante trezentos anos Eriston tentara construir paradoxos lógicos que a máquina não conseguisse solu- cionar. O atletismo e vários esportes. Com ajuda de organizadores de matéria. chegando à detectação de cenas da vida real ou imaginária.

Entrelaçados porque sem Arte o Amor se reduz à satisfação do desejo e a Arte não pode ser usufruída se não abordada com Amor. para gozo dos homens. De qualquer forma. Esses meios expressivos ainda sobreviviam em Dias- par. nos movimentos do corpo humano. A Humanidade sempre fora fascinada pelo mistério dos dados que rolam. os mundos entre- laçados do Amor e da Arte. o fascínio puramente in- telectual pelo acaso continuava a excitar as mentes mais sofistica- das. da carta que se revela. Contudo.acontecimentos cujos resultados jamais poderiam ser previstos.emoção que não tinha lugar num mundo onde todos possuíam tudo de que pudessem necessi- tar moderadamente.podiam dar a filósofos e joga- dores igual soma de divertimento. em linhas no papel. E subsistiam ainda. 45 . E o mesmo se poderia dizer para o Amor. ou se ela teria outro significado fora da mente humana. em superfície de pedra. No fundo. ninguém estava seguro de que todas as possibilidades da arte já houvessem sido esgotadas. O Homem havia buscado a beleza em muitas formas . Máquinas que funcionavam de maneira puramente aleatória .em seqüências de som. do giro da roleta.surpreendente encontrar grande interesse pelos jogos de azar. esse in- teresse baseava-se na mera cupidez . por mais informações que se tivesse . em cores que se espalhavam pelo espaço. e no transcurso dos tempos outros haviam surgido.

46 .

Dava-lhe prazer abrir caminho por entre a selva aritmética. mas não podia explicar a razão desse comportamento. os algarismos se fundiram numa massa informe e Jeserac retornou ao mundo da mera realidade. aparentemente sem obedecer a quaisquer leis. Des- cobria como os números se comportavam. no meio de um remoinho de números. Se tivesse desejado permanecer em tranqüilidade. imóvel. expressos na escala binária que havia sido usada para todas as operações aritméticas desde a invenção dos computadores eletrônicos. pelo espectro dos números inteiros. Jeserac levantou a matriz de todos os possíveis números in- teiros e fez o computador começar a enfíleirar os números primos em sua superfície tal como se dispusesse contas nas interseções de uma malha. No entanto. mas não ficou nada sa- 47 . e de vez em quando descobria maravilhas que a exploradores mais capacitados haviam escapado. deveria para tanto ter ajustado o anunciador. Reconheceu Khedron imediatamente. Quando o suave som do carrilhão soou em seus ouvidos. trazendo aos olhos de Jeserac seqüências completas dos núme- ros que não possuíam quaisquer fatores além deles próprios e da unidade. com justiça. embora às vezes gostasse de imaginar que fosse. Conhecia as leis de distribuição já descobertas. Os números primos encerravam um mistério que sempre havia fascinado o Homem e ainda seduzia sua imaginação. na se- qüência infinita dos números primos. Os primeiros mil números primos. mas sempre espe- rava descobrir outras. Jeserac não era matemático. mas nunca ha- via descoberto nada. Já havia feito isso centenas de vezes. a parede de números estremeceu. relações e regras especiais que homens mais talentosos transformariam em leis gerais. CAPÍTULO VI Jeserac estava sentado. Não poderia. Tudo quanto podia fazer era procurar. Desfilavam fileiras intermináveis de 1 e de 0. sentia-se fascinado pela maneira como os números que ele estudava se espalhavam. ter-se queixado da interrupção. marchavam em ordem à sua frente.

sempre que ele deseja. mas muitas das coisas que deveriam interessá-lo pare- cem encontrar da parte dele a mais completa indiferença. . Em média. abruptamente: . e tinham feito tudo o quanto deles se esperava. No entanto. se as houvesse. na verdade. saudou o visitante com polidez e ocultou qualquer sinal de sua ligeira preocupação.É verdade . não? . representan- do. não existe nada de errado na inteligência de Alvin. Eram responsáveis por seu caráter. Khedron irritou Jeserac por reduzir essas formalidades a apenas quinze mi- nutos. por sua mente. . tudo quanto os rodeava parecia novo e estranho. Os deveres de Jeserac limitavam-se aos aspectos mais for- mais dessa educação.ou até mesmo na centésima vez -. . um dos alicerces da vida em Diaspar. .respondeu Jeserac.. apresentando-o a um cír- culo cada vez mais amplo de amigos.. dez mil mentes novas chegavam anualmente à cidade. mas Khedron representava o imprevisível. . dizendo então.tisfeito.Gostaria de falar com você sobre Alvin. Eriston e Etania não haviam dedicado mais que um terço de seu tempo na educação de Alvin.disse Je- serac.O mundo fora de Diaspar.Acho um pouco difícil responder a sua pergunta . Por outro lado. A seleção era feita ao acaso. Não era fácil respondê-la. revela uma curiosidade mórbida por assuntos que geralmente não são discutidos. Tinham de aprender a usar a infinidade de máquinas e dispositivos que constituíam o pano de fundo da vida diária e abrir caminho na mais complexa sociedade que o Homem jamais cons- truíra. Jeserac.Você diria que ele é um aluno capaz? Jeserac pensou na questão. Jeserac não se importava de ser perturbado em sua vida ordeira. Suas me- mórias anteriores ainda estavam latentes. De certa forma. e os deveres não eram onerosos. Parte dessa instrução era dada pelos casais escolhidos como pais dos novos cidadãos. Você é o tutor dele. e durante os vinte pri- meiros anos de existência. Quando duas pessoas se encontravam pela primeira vez . por exemplo? 48 .Ainda vejo Alvin várias vezes por semana. Ficara convencionado que os pais ensina- riam Alvin a se conduzir na sociedade. As re- lações aluno-tutor eram extremamente importantes. era costume em Diaspar passar uma hora ou mais trocando cortesias. antes de começarem a tratar de coisas mais sérias.Evidentemente.

deixaria de ser crime.Será mais fácil . que nunca passou por vida anterior em Diaspar.Foi um palpite meu . Sabia ser ele pessoa bon- dosa e bem intencionada. e ele queria analisá-la da maneira mais completa possível. Tinham existido homens com de- veres idênticos. não haveria muito o que ficar saben- do. O ofício de Bufão foi a solução . Tratava-se de uma situação interessante.à primeira vista ingênua. Uma vez liberado e regulamentado. . que sem um pouco de crime e desordem a Utopia logo se tornaria insuportavelmente monótona. Talvez você possa prever..disse Jeserac . com conseqüências impresíviveis. Havia-se descoberto. Contudo. nos tem- pos das cortes e dos reis.. Contudo.e mesmo essa excentricidade fora planejada pelos idealizadores de Diaspar. Khedron era a única outra pessoa na cidade que poderia ser considerada excêntrica . Duvido que qualquer coisa que 49 . mas não ignorava também que o ancião devia sofrer a influência dos tabus que controlavam a todos em Diaspar . há muito tempo. embora no passado alguns Bufões houvessem ultrapassado os limites e pago a única penalidade que Diaspar podia impor . Jeserac instalou-se mais confortavelmente nas profundezas da poltrona que ele havia acabado de materializar. Sabemos que Alvin é Único. Em toda a história de Diaspar havia menos de du- zentas pessoas cuja herança mental as apontava para a execução desse papel. Bem consideradas as coisas.Sim. não se pode- ria garantir que o crime permanecesse no nível ideal exigido pelas equações sociais. Ele deveria ter imaginado que um dia Alvin viria a conhecer o Bufão. indagando a si mesmo até que ponto deveria confiar em Jeserac. Em raras e imprevisíveis ocasiões.todos. . Tinham elas certos privilégios que as protegiam das conseqüências de suas ações. devido à natureza das coisas. melhor do que eu.se usarmos de franqueza um com o outro. e que atuavam com a mesma “liberdade”. . o Bufão punha a cidade em polvorosa com alguma brincadeira que não passava de uma peça bem pregada ou um ataque calculado contra crenças ou esti- los de vida muito estimados. exceto Alvin. o nome “Bufão” era bastante apropriado. as implicações disso.que os construtores da cidade encontraram. a menos que Khedron se dispusesse a cooperar. Mas como sabe disso? Khedron hesitou por um momento.a de ser banido para o futuro antes que se consumasse sua presente encarnação. mas na realidade profundamente sutil .respondeu finalmente.

Obrigado.Suponhamos que essa finalidade diga respeito a alguma coisa fora da cidade.Não creio que Alvin seja um rapaz feliz . e é duro ver como ainda sofre com essa obsessão.disse Jeserac. .disse Khedron baixo.Acho que ele já a viu . . 50 .respondeu Khedron. Quando ele vir a realidade. acho que o Destino pode estar arquitetando uma Bufonaria perto da qual todos os meus esforços parecerão modestíssimos. Jeserac . . Quantos Únicos já existiram em toda a história de Diaspar? Chegarão a dez? .Eu deveria ter previsto .Já contei a Alvin o que ele encontrará lá. a não ser o deserto. Nada.Quatorze . . .disse tristemente . Nesse caso.Por enquanto pode. Não posso adivinhar qual seja. sem hesitar. . talvez se cure dessa esquisitice.Talvez possa dizer-me então o que aconteceu a esses Únicos. É por isso que tenho falado pou- co com Alvin sobre seus antecessores.Eles desapareceram. falando mais para si mesmo do que para Jeserac. Se ele cumprirá essa finalidade. No estado em que ele se encontra hoje. . Talvez você saiba como. . . Khedron fi- cou a imaginar se ele realmente acreditava no que dizia. Jeserac falava assim para readquirir confiança. subita- mente.Alvin sabe que não é o primeiro Único? Jeserac mostrou-se um tanto alarmado e depois um pouco hostil. Os misté- rios sempre me intrigaram.Diga-me uma coisa. não sei. . isso não o ajudaria muito. Além disso. .acontece nesta cidade seja inteiramente fora dos planos. Pode per- feitamente escapar dessa fase e tornar-se parte do padrão geral da cidade. Posso contar com sua cooperação? . de modo que deve haver uma finalidade na criação de Alvin.perguntou Khedron.Não formou afetos verdadeiros. já sabia disso. . Mas antes de tudo. quero ficar certo de que estarei presente em seu clí- max.que você esta- ria a par disso. Nem sei tampouco se é boa ou má.Fora Alvin.Você dispõe de informações melhores do que as minhas . O Bufão se divertia. e eles são raríssimos em Diaspar. Leve-o lá. qualquer que ela seja. Quero estudá-lo eu próprio. como se- ria de esperar. Jeserac sorriu pacientemente. é muito jovem. se puder.continuou Jese- rac. .

Pesou o problema cuidadosamente. pairava sobre ele. escondera-se e só aparecera depois que o monstro sumira tão misteriosamente como surgira. Esperaria para ver. envol- vendo a imobilização geral das vias móveis. a verdade era que Khedron era um recluso: ninguém sabia onde morava e ignorava-se tudo quanto a seu estilo de vida. quando a singular dieta da fera se torna- ra óbvia. Temos alguns séculos bem interessantes à nossa frente.Você gosta demais de falar por enigmas . . com toda razão alarmado. 51 . Por incrível que pudes- se parecer. havia um controle supremo que impedisse que um Bufão superambicioso causasse prejuízo à complexa estrutura de Diaspar. Como de costume. Isso acontecera havia cinqüenta anos. depois da imagem de Khedron ter desapareci- do de sua vista. O velho tutor fez um relato pormenorizado de seu encontro com o Bufão.Duvido que meus palpites possam ser melhores do que os seus. Por um rápido momento imaginou se não seria conveniente solicitar uma audiência ao Con- selho. Mas acho que nem eu. A última brincadeira que imaginara fora um tanto infantil.. esquecido de suas matemáticas.. ainda que ele não conseguisse imaginar por que teria sido escolhido como alvo. nem você. Jeserac permaneceu imóvel por muito tempo. que nunca havia sentido anteriormente. Uma sensação de mau agouro. Os relatos deixavam claro uma coisa: Khedron devia ter pro- fundo conhecimento das máquinas e dos poderes que governavam a cidade. exatamente? . que vagueara pela cidade devorando os exempla- res existentes do escultor mais popular da época. acrescentando o pouco que sabia a respeito do modo de vida do personagem. . Um século antes pusera em liberdade um dragão particular- mente revoltante. Presumivelmente. Jeserac foi sua principal fonte de informações. Alvin não perdeu tempo para aprender tudo quanto pudesse acerca de Khedron. E depois de pouco mais de uma hora.O que está prevendo.queixou-se Jese- rac. examinando-o por todos os ângulos. forçando-os a obedecerem a seus desejos de uma maneira de que ninguém era capaz. mas não estaria fazendo um espalhafato ridículo por causa de nada? Talvez tudo aquilo não passasse de um complicado e obs- curo gracejo de Khedron. O próprio artista. tomou uma de- cisão característica. nem ninguém em Diaspar será capaz de deter Alvin quando decidir o que deseja fazer.

obviamente num giro de inspeção. mas todas barradas. Mas suas tentativas eram vãs. Passava suas semanas e seus dias vas- culhando as torres solitárias na periferia da cidade. que absorvia toda sua energia 52 . organizando e dirigindo a matéria que controlavam. recusavam-se à travar conversa. Todos esses edifícios se encontra- vam naquela condição perfeita e impecável que os habitantes de Diaspar consideravam como parte da ordem natural das coisas. Os padrões que tinham estocados em suas memórias estremeciam à beira da realidade. mas não esboçou ne- nhuma iniciativa para entrar em contato com Khedron. mesmo quando na companhia de pessoas que considerava amigas. que davam para o deserto. E assim. Como um viajante em terra estranha. Embora conscientes da presença de Alvin. bastante elevadas. Havia ocasiões em que Alvin não via outro ser humano du- rante dias. Durante essa busca encontrou uma dúzia de grandes saídas de ar. Às vezes Alvin encontrava um robô errante. E mesmo que as barras não existissem. Essa ardente exploração. acordavam para a vida após eras sem fim de sono. a simples queda de mil e quinhentos metros era obstáculo suficiente. porque as máquinas que encontrava não ti- nham sido preparadas para responder à fala ou aos pensamentos humanos. uma refeição pre- parada por um mestre-cuca cem milhões de anos antes ganhava novamente existência para deliciar o paladar ou apenas para satis- fazer o apetite. na esperança de descobrir em algum lugar um caminho para o mundo exterior. A solidão desse mundo deserto . Alvin tomou nota dessas informações. começou a exploração sistemática de Diaspar. pois abriam caminho polidamente para deixá-lo passar. embora explorasse mil corre- dores e dez mil câmaras vazias. Não descobriu outras saídas.a casca vazia que cercava o coração vivo da cidade . estaria feliz.não deprimia Alvin. Estava habituado à solidão. Máquinas miraculosas. sua obstinada ten- dência à independência .levava-o a descobrir tudo que pudesse me- diante seus próprios esforços. Quando sentia fome. e não perdia oportunidade de interrogá-lo. entrava num aposento de moradia e ordenava uma refeição. a cuja existência ele raramente havia dedicado um pensamento. mas enquanto se sentisse avançar em direção à meta. Havia-se empenhado num projeto que sem dúvida exigiria anos de atenção.talvez a mais verdadeiramente única de todas suas qualidades . Embora tivesse muitas perguntas para fazer ao Bufão.

Podiam contar- lhe detalhadamente a história da cidade desde o começo das eras remotas até a barreira além da qual as Eras do Alvorecer jaziam para sempre ocultas. Alvin estaria disposto a voltar atrás e terminar a tarefa. na verdade. 53 .ou então um poder superior as havia im- pedido de fazê-lo. a menos que pedisse a ajuda de homens mais sábios. mesmo que nela tivesse de empregar o resto da vida. já vira o suficiente para constatar que. duvidava que existisse. Poderia gastar séculos em buscas infrutíferas. pes- quisavam em vão suas memórias quase infinitas. As máquinas de informação. Alvin teria de ver Khedron outra vez. não seria encontrado dessa forma. fez com que ele se esquecesse por algum tempo do mistério de sua herança e a anomalia que o apartava de seus ca- maradas.e sua atenção. Explorara menos de um milésimo de periferia da cidade quan- do chegou à conclusão de que estava perdendo tempo. Mas não eram capazes de responder à per- gunta simples de Alvin . Essa deci- são não foi fruto de impaciência. Se necessário. se existia um caminho para fora de Diaspar. Jeserac lhe dissera taxativamente que não conhecia qualquer caminho de saída de Diaspar. mas de profundo bom senso. quando interrogadas por Alvin. No entanto.

54 .

sua vida atual e todas as anteriores estendiam-se 55 .Estou tentando achar uma saída para fora da cidade .disse Alvin abruptamente. Khedron sentia-se satisfeito com a ordem das coisas. não um revolucionário. CAPÍTULO VII . de virar as costas ao caminho que a partir dali se estendia diante dele e que levava a um futuro além de todos seus poderes de profecia. ali estava a última oportunidade para repeli-lo. aque- la centelha de curiosidade que havia constituído o maior bem do Homem. Era um crítico. . Mas se existisse o risco de algo estranho e novo invadir aquele mundo. Talvez não houvesse perigo. Na ver- dade. como de todos os demais cidadãos de Diaspar. Como con- tas num colar. seus sonhos de meio milênio.. Ainda havia tempo.Deve haver uma saída. O desejo de aventura . . Olhando para Alvin.fora eliminado dele. tentou relembrar sua própria juventude. talvez nada conseguisse alterar a perpétua imutabilidade de Dias- par. e acho que você po- deria ajudar-me a encontrá-la. podia agitar essa ordem de vez em quando. Ima- ginou se o Bufão teria acompanhado suas buscas infrutíferas e se saberia exatamente o que ele andara fazendo. ele desejava apenas provocar algumas ma- rolas. que fluía placidamente. Essa segurança aborreceu Alvin.. cuidadosa e completamente. mesmo dispondo de poder para tanto. mas só um pouco.com exceção das aventuras do espírito .disse Khedron -. Qualquer momento de seu passado que ele desejasse recordar ainda aparecia claro e nítido. Ele ainda estava disposto a correr um ou outro risco.Você demorou . se assim o desejasse. mas evitava desviar-lhe o curso. qualquer outro homem da cidade. conquanto já quase extinta. mas eu sabia que viria. No rio do tempo. Khedron ficou em silêncio por um momento. mais cedo ou mais tarde. No entanto. ainda possuía. Nenhuma outra pessoa teria hesitado. jamais teria ousado perturbar os fantasmas de uma era morta há milhões de séculos. não lhe era agradável pen- sar que sua conduta pudesse ser prevista com tanto acerto.

ele disse . Acabava de aparecer um novo ator. quando retornasse à Casa da Criação para dormir até o momento em que a cidade o convocasse de novo . não quero des- pertar falsas esperanças. poderia varrer da mente todas as suas encarnações anteriores. surgia a oportunidade de obter a vingança tão longamente adiada. percebeu que Khedron estava ali em carne e osso. mesmo agora. esses antigos Khedrons eram-lhe agora estranhos. e o que faria se obtivesse o que quer.Estou imaginando . não tinha sido diferente dos companheiros. talvez não. Agora. mas o peso da experiência separava-o deles para sempre. Encontre-me dentro de meia hora na in- terseção do Raio 3 e do Anel 2. Na juventude. capaz de baixar a cortina pela última vez. Não se tratava de uma imagem projetada. Alvin chegou ao ponto de encontro dez minutos adiantado. Alvin. ele podia separar e reexaminar qualquer uma que desejasse. encerrando uma peça que já se fazia longa demais. Por fim. avistou a figura alta de Khedron aparecer a distância e daí a alguns instantes estava pela primeira vez na presença física do Bufão. Vez por outra ressentia-se com o fato de que a inteligência que concebera Diaspar com uma habilidade tão grande pudesse. como um náutico encerrado em sua concha. fa- zer com que ele se movesse como um títere. Ainda tinha desejo de prosseguir e recolher tudo quanto a vida tivesse a oferecer. Na maioria. muito embora ele ficasse do outro lado da cidade. e um travesso senso de humor .esses foram os fatores discordantes que incitaram Khedron a agir. no cumpri- mento antigo. Se lhe aprouvesse. os modelos básicos podiam ser os mesmos. Somente ao atingir a idade em que as lembranças latentes da vida pregressa despertavam. O Bufão sentou-se numa das balaustradas de mármore e olhou para Alvin com curiosidade. após tantas eras. prometo-lhe pelo menos uma viagem interessante. e ele ainda não se sentia disposto a tanto. . enquanto as vias móveis deslizavam eternamente por ele. começou a desempenhar o papel a que fora sido destinado havia tanto tempo.se você sabe o que está pe- dindo. Você imagina realmente 56 . a adicionar pacientemente novas células à sua espiral em lenta expansão. Compaixão por uma pessoa cuja solidão devia ser ainda maior do que a dele. Esperou impa- cientemente. talvez. Se não puder fazer grande coisa. ao se tocarem as palmas das mãos. o tédio causado por eras de repetição. conduzindo os plácidos e contentes habitantes da cidade para seus negócios sem importância.Talvez eu possa ajudá-lo.mas isso seria uma es- pécie de morte. .rumo ao passado.

embora Khedron pudesse perceber a incerteza em sua voz.Não sei . Teria vertigens e cairia antes de dar doze passos. porque temos medo da altura. separados por um canyon de mil e quinhentos metros de altura. ficava a sala onde o Conselho se reunia nas raras ocasiões em que havia algum assun- to a debater. a prancha seria exatamente a mesma. O Palácio era um dos maiores edifícios da cidade. Mostre a qualquer homem de Diaspar um caminho para fora da cidade.disse Khedron. quer no chão.perguntou Alvin.respondeu.. Você seria capaz de atravessá-la? Alvin hesitou. dispostos frontal- mente um ao outro. Vou levá-lo ao Palácio do Conselho.Permita-me então que lhe diga uma coisa que você talvez ig- nore. mas é forte o sufi- ciente para a ignorarmos.Mas por quê? . temos medo do espaço aberto.Os homens no passado an- daram por todo o mundo. que eram as verdadei- ras administradoras de Diaspar. Apenas você imagina que não o possui.. Alguma coisa os transformou.Uma coisa simples. que às vezes encontramos por aí. chegaram até às estrelas.Tenho certeza de que sim . . da mesma forma que você voltaria se começasse a caminhar sobre a prancha no alto daquelas torres. e estava quase inteiramente entregue às máquinas. . .Suponhamos que eu estendesse uma prancha perfeitamente firme entre as duas torres. Nascemos com ela.Deve ter havido uma época. Bem. Está vendo aquelas torres? .respondeu Alvin corajosamente. . Está dentro de nós. inoculou neles esse medo com que nascem agora. diante de nós. .Khedron apontou os picos gême- os da Central de Força e do Palácio do Conselho.que poderia deixar a cidade. Nós não podemos fazer isso. Pode ser uma coisa irracional. Do mesmo modo. a que estou tentando chegar.Não gostaria de tentar. 57 . uma prancha com apenas quinze centímetros de largura. Um desses robôs montados sobre rodas. Mas se a mesma prancha fosse colocada no chão. veremos. eu sei . . Perto do alto. você poderia caminhar sobre ela sem a menor dificuldade.Tenho absoluta certeza de que não seria capaz de fazer isso. poderia rolar facilmente sobre a prancha. quer no alto das torres. um caminho que poderia ser exatamente igual a esse aí.Eu sei. Nas duas experiências que descrevi. e ele não conseguiria ir muito longe. . mesmo que encontrasse uma saída? . . Ele teria de voltar. .E o que é que isso prova? . .

Algumas dessas rampas desciam em ziguezague. espa- lhada diante dele com seus edifícios mais altos quase tocando seus ombros. Não encontraram novas barreiras. sentia em relação àquele lugar um temor qua- se religioso.E o que desejam? . embora nunca mudasse. . não porque fosse proibido . Ele estava olhando para toda a cidade de Diaspar. Sem hesitações.Pura curiosidade. mas Alvin suspeitou que haviam passado por muitos testes de que ele não tinha nenhum conhecimento. a porta abriu-se imediatamente. e nesse piso havia uma coisa tão surpreendente que por um momento Alvin foi tomado de espanto. e que depois se fe- chou por trás deles. O largo pórtico os tragou e Khedron penetrou na obscuridade dourada. que não se abriu. havia máquinas com tecla- 58 . A experiência lhe ensinara que respostas jocosas a máquinas sempre levavam a confusão e que se tinha de voltar ao começo. havia outra porta. e não para seres humanos. As paredes estavam recobertas com um desenho microscopicamente detalhado de quadrados brancos e ne- gros. . o Palácio do Conselho era a coisa que mais se parecia com um templo. O desenho propriamente dito era completamente irregular. Chegaram finalmente a uma porta que deslizou silenciosa- mente. limitando-se a parar diante dela. Adiante. em ângulos tão agudos que seria impossível a uma pessoa ficar em pé.uma das mais altas na hierarquia do Computador Central. mas porque. a intervalos freqüentes. o Bufão. Em torno da sala.havia poucas proibições em Diaspar -. se a gravidade não tivesse sido invertida a fim de compensar a inclinação.Por favor. Após um momento. Khedron não fez nenhum gesto para abri-la. queiram declarar seus nomes.Eu sou Khedron. e quando movia os olhos rapidamente Alvin tinha a impressão de que tremeluzia também rapidamente. abrindo-se assim que se aproximaram. uma voz tranqüila disse: . Khedron conduziu Alvin por corredores e rampas que obviamente haviam sido feitos para máquinas mon- tadas sobre rodas. A máquina que interrogou Khedron devia ser muito sofisticada . Alvin nunca entrara no Palácio do Conselho. tal como os demais. Para surpresa de Alvin. Levou tanto tempo identificando lugares familiares e obser- vando panoramas inesperados que só muito depois prestou aten- ção ao resto do aposento. Naquele mundo sem deuses. Um corredor curto levou-os subitamente a uma grande sala circular com o piso rebaixado. Meu companheiro é Alvin.

cada uma delas com vídeo e uma poltrona para o operador.Sabe o que é isso? Alvin esteve tentado a responder “uma maquete. Depois disse. Cada um dos átomos de Diaspar está de certa forma controlado por forças que já esquecemos. perfeita e infinita- mente pormenorizada de Diaspar. com seu imensurável estoque de informações. mas raramente elas se interessam.disse Khe- 59 . Khedron deixou que Alvin olhasse tudo. Portanto. Duvido que esta sala seja visitada mais de duas ou três vezes por ano. à nossa volta. .Isso não é uma maquete. pelas matri- zes sepultadas nessas paredes. E ainda assim. . O Conselho vem aqui de vez em quando. em poucos dias. muitas. . e depois lembrou-se de que muitos de seus chistes mais complicados exi- giam sem dúvida um conhecimento íntimo de todos os mecanismos da cidade. .Ah. definindo completamente a cidade como ela é hoje. São usadas quando se torna necessário fazer alguma alteração no projeto. este é o lu- gar adequado. sacudiu a cabeça e esperou as explicações de Khedron.disse Alvin. a maneira como os Bancos de Memória estocam os modelos congelados? Esses Bancos estão aí. suponho”. Um dos privilégios do Bufão devia ser poder ir onde quisesse e aprender qualquer coisa. do que passando a vida inteira em explorações reais. Nenhuma alteração na cidade pode ser feita sem que seus membros estejam todos reunidos aqui. é absolutamente idêntico à cidade. mas a resposta era tão óbvia que ele teve a certeza de estar errada. portanto.Isso é maravilhoso .dos. que só teria sido possível com estudo profundo. Alvin imaginou como Khedron teria acesso a ela.Quantas pessoas sabem de sua existência? .O que você está procurando pode não existir . ain- da que já se tenha passado muito tempo desde que isso foi feito pela última vez. Khedron apontou a réplica em miniatura. Por isso. Trata- se simplesmente de uma imagem projetada do modelo estocado nos Bancos de Memória e que. apontando para a cidade em miniatura: . o Computador Central terá de aprovar a modificação proposta. Poderá aprender mais aqui.Lembra-se de que lhe expliquei como era feita a manuten- ção da cidade. pelo tempo que dese- jasse. . Essas máquinas nos permitem ampliar qualquer trecho desejado e examiná-lo em tamanho natural ou maior. não existe na realidade. Alvin não poderia dispor de melhor guia para os segredos de Diaspar. Se você quer saber como é Diaspar.

portanto. Para além da treliça ha- via. de forma a olhar inversamente o caminho que ele havia percorrido. na realidade. os circuitos de memória e a multidão de mecanismos que criavam a imagem. Alvin aproximou-se da grade. na realidade. durante talvez me- tade da história da humanidade. Girou o controle que comandava a direção de sua visão. movendo-se rapidamente pelos corredores e passagens que já explorara na realidade. olhou para fora . Alvin estava interessado apenas na criação de pedra e metal na qual se encontrava aprisionado. torres. não era Diaspar.o sonho que tivera o poder de manter a verdadeira Diaspar protegida da ação do tempo du- rante um bilhão de anos. No entanto. você o encontrará aqui. E atrás dele es- tava Diaspar . Ele só podia ver a parte permanente da cidade. livre de toda peia física. Alvin passou seu ponto de observação para além da treliça. ele quase sentiu o vento frio que havia soprado incessantemente através dela. aprendendo a comandar os controles. e não naqueles que com- partilhavam . um mundo que a tela do monitor jamais poderia mostrar. O deserto não fazia parte de Diaspar.vista do lado de fora. nenhuma imagem dele no mundo fantasmagórico que estava explorando. olhando a imagem onírica da cidade .e não viu nada. Então sua visão do deserto não teria passado de sonho? Então ele se lembrou da verdade. . as pessoas que caminhavam pelas ruas não faziam parte da imagem congelada. No entanto. Procurou a Torre de Loranne e encontrou-a dentro em pou- co. a seu talante. Ele estava movendo-se pelas células de memória. Alvin tinha a impressão de ser um espírito onipresente. a mover-se por Diaspar sem esforço. para o vazio que jazia fora da cidade. Para os computadores.ainda que voluntariamente .Mas se existir.desse confinamento. Ruas. Para seus objetivos. ela lhe poderia mostrar uma coisa que nenhum homem vivo jamais vira. tratava-se simplesmente 60 . Podia selecionar. enquanto ele mudava as coordenadas. paredes e vias móveis passavam pela tela.dron. isso não fazia qualquer diferença. Quando a imagem da treliça de pedra ex- pandiu-se diante de seus olhos. e que estava soprando naquele exato momento. Alvin passou a hora seguinte sentado diante de um dos víde- os. qualquer ponto da cidade e examiná-lo sob qualquer grau de ampliação. que ele estava examinando. Por um momento o choque foi tão grande que quase duvidou de sua própria memória. Vou mostrar-lhe como se usam os monitores. não existia. incorpóreo.

de conquista. sala após sala. havia muito o que fazer. Em espírito. Agora. sentiu- se ligeiramente aliviado. podiam mostrá-la como ela estava aparecendo agora. poderia percorrer o exterior da cidade e ver imediatamente qualquer abertura que pudesse conduzir para o deserto e o mundo além. Para sua própria paz de espírito. por isso. “Conheciam” a forma da cidade. corredor após corredor. muito melhor. examinou a superfície lisa e cinzenta que tinha diante de seus olhos. Khedron podia ajudá-lo na pesquisa. não se preocu- param com isso. senão na realidade. Parecia estar pairando no espaço. verificando que ele se encontrava ausente. Não havia necessidade de passar meses e anos explorando Diaspar de dentro para fora. o efeito sobre Alvin foi de assombro. a alguns metros da muralha da Torre de Loranne. pôs a imagem da cidade a correr lentamente por ela e começou sua busca. A sensação de solidão. A sensação de vitória. mas até mesmo o Bufão era sensível ao estranho horror do universo que já há tanto tempo imobilizava a humanidade dentro daquele pequeno mundo. Eriston e Etania chamaram o quarto dele uma ou duas vezes e. e após um momento de reflexão Alvin entendeu por quê. Virou- se para Khedron. Jeserec. encheu-o de felicidade e tornou-o ansioso por compartilhar sua alegria com alguém. ao descobrir que seu ex-pupilo estava passando todo o tempo no Palácio do Conselho. Mas não havia tem- po para melancolia. supondo que Alvin não causaria nenhum problema. desejando agradecer ao Bufão por haver possi- bilitado isso. Por um momento. Por isso deixara Alvin sozinho. quando havia tantas escolhas 61 . Mas Khedron fora embora. Alvin era talvez o único homem em Diaspar capaz de não ser afetado pelas imagens que estavam desfilando na tela. Alystra foi um pouco mais persistente. Alvin debruçou-se sobre a tela. seu plano de ação tornou-se claro. Diaspar pouco soube de Alvin nas semanas seguintes. que por algum tempo abandonara a alma de Alvin. baixou uma vez mais sobre ele. conhecendo as possibilidades daquele aparelho mara- vilhoso. depois tocou o botão de controle e fez seu ponto de vista cair para o chão. isto é. Embo- ra raras pessoas percebessem sua ausência. Daquele ângulo novo. vista do exterior. Muito embora fosse capaz de compreender a maneira pela qual se produzia. ao invés de vaguear pelas fronteiras da cidade. ele havia saído de Diaspar.de um problema de perspectiva. era uma pena que ela se houvesse apaixonado por Alvin.

como isso era feito e falavam professoralmente de “tempo de acesso” e “espaço 62 . fabricadas segundo o mesmo modelo sem personalidade. ela disse: . Entrou resolutamente no pavilhão principal. lhe contou o que sabia. Se Alvin não desejava companhia. após hesitar um momento. Havia pessoas que sabiam . auto-suficiente e determinado a viver sua própria vida. Entretanto. Embora tivesse sido esquecido o nascimento. Ela não o perderia sem luta. No entanto. O tutor nem aprovava nem desaprovava aquela ligação. Vez por outra censurava-se por haver abandonando Alvin na Torre de Loranne. sabia que. Não havia meio de compreender o que se passava na mente de Alvin. pelo menos. Ele está em algum lugar deste edi- fício. Assim que o sinal de reconhecimento acendeu. Alystra nunca tivera dificuldade para encontrar companheiros. Por mais que Alvin se mostrasse obstinado.mais apropriadas. ainda perduravam os instintos femi- ninos de proteção e compaixão. faria exatamente a mesma coisa outra vez. gostava de Alystra e esperava que a influência dela ajudasse Alvin a se ajustar à vida em Diaspar. o desinte- resse e o alheamento dele representavam um desafio a que ela não podia resistir. disse a si mesma. para afastar sus- peitas de Alystra com relação a possíveis rivais. e ela escolheu uma delas ao acaso. as pessoas se acos- tumavam inteiramente à completa ausência de intervalo quando uma máquina de informação respondia a uma pergunta comum. Embora seu ciú- me não fosse com isso despertado. De maneira geral.Estou procurando Alvin.o que servia. lado a lado. se as circunstân- cias se repetissem. O fato de Alvin estar passando todo o tempo no Palácio do Conselho só podia significar que ele estava empenhado em algum projeto de pesquisa .ou afirmavam saber . Onde posso encontrá-lo? Nem mesmo depois de toda uma vida. seriam antes maternais do que sexuais. talvez seus motivos não fossem inteiramente egoístas. junto à parede mais distante. interrogou Jeserac que. a não ser descobrindo o que ele estava tentando fazer. impressionada mas não intimidada pelo silêncio que caiu mal terminara de cruzar o pórtico. a resposta estava em suas próprias mãos. mas em comparação com Alvin os homens que ela conhecia eram pessoas apagadas. o mesmo não aconteceu à sua curiosidade. As máquinas de informação estavam alinhadas. Alystra era capaz de pressentir sua solidão interior. Ao descobrir que Alvin desaparecera.

O Conselho governava Diaspar.Ele está com os Monitores . Alystra sabia que qual- quer tentativa para encontrar Alvin .veio a resposta.Não posso dizer-lhe. Isso não ajuda- va muito. Des- cobriria o que eram os Monitores quando chegasse lá. até cansar-se e sair dali por sua livre e espontânea vontade. Alystra estava certa de que Alvin não obtivera permissão do Conselho. Estava de mau humor ao sair para a rua. Apenas se cálculos complexos fossem necessários é que a resposta sofreria algum re- tardo apreciável.e. portanto. embora na verdade ele fosse a soma total de todas as máquinas de Diaspar.Como posso chegar onde ele está? .o intelecto infinito do Computador Central.mesmo que soubesse exa- tamente onde ele se encontrava naquele edifício colossal . Nenhu- ma máquina fornecia voluntariamente informações suplementares. sem dúvida possuía pelo menos a consciência e a racionalidade de um ser humano. Formular perguntas corretas constituía uma arte só dominada de- pois de longo aprendizado. sentia pela primeira vez que havia um mistério perto do qual seus desejos e interesses pessoais pareciam banais. Foi uma resposta inesperada. De nada lhe valeria permanecer ali. Isso não significava. mas o próprio Conselho po- dia ser sobrepujado por um poder superior . Devia saber o que Alvin estava fazendo . dentro do enorme volume de informações disponíveis sobre a ci- dade. como a máquina de informação fizera com Alystra. pois a palavra não significava nada para Alystra. e não para a frente. Um tanto intrigada.estava fadada ao fracasso. . Eram pouquíssimos os lugares em Diaspar que não podiam ser livremente visitados. Isso só podia significar que uma autorida- de mais alta ajudava-o. As portas se recusariam a abrir. até mesmo desconcertante. em sentido biológico. poderia ser respondida imediatamente. ou então vaguearia às tontas pelo Palácio do Conselho. levando-a para trás. os elevadores permaneceriam misteriosamente iner- tes.perguntou Alystra. . pois de outra for- ma já o teria detido ou remetido ao Conselho. as vias móveis se inverteriam quando ela pisasse nelas. Mesmo não sendo vivo. aprovava. 63 . seria conduzida para a rua por um polido mas firme robô. Se insistisse. localizada num lugar específico. Qualquer pergunta de natureza puramente factual.de armazenamento”. Era difícil pensar no Computador como enti- dade viva. mas isso não tornava o resultado final menos maravilhoso. a menos que você tenha permissão do Conselho. .

porém. 64 . Alystra não sabia absolutamente o que fazer em seguida. que se lhe tornassem menos importantes. mas de uma coisa estava certa: Alvin não era a única pessoa em Diaspar capaz de teimosia e obstinação.

olhava-a como um deus. No entanto. Na verdade. deveria atacar as outras. com a possível exceção de Khedron. a cidade mudaria com ele. olhando para o retângulo negro que ocu- para sua mente consciente durante semanas a fio. um ponto de luz deslizava pela superfície da ré- plica. Ele circunave- gara seu mundo. dando-lhe uma passagem. nos passos que teria de dar agora. Se tudo mais falhasse. um a um. enquanto pensava. O importante era que eliminara uma possibilidade. Seria possível reprojetar uma seção do muro exterior. nesse caso. imóvel. colocar esse modelo nos Monitores e deixar a cidade dar a si mesma uma nova concepção. O sentimento que o tomava todo não era de simples desa- pontamento. não esperara encontrar o que procurava logo na primeira tentativa. Agora. de modo que ele pudesse ver exatamente para onde estava indo. 65 . embora soubesse que não passava de uma projeção óptica da ma- triz das células de memória que estivera a explorar. Sabia agora que não existia saída através dos muros. Quando ele modificava os controles do Monitor e fazia o ponto de vista mover- se por Diaspar. congelada para todo sempre de acordo com os modelos nas células de memória. mal a via. mas ele passara a dominar de tal modo o manejo das coordenadas que agora podia dispensar esse auxílio. Mas até mesmo esse modelo podia ser alterado e. Era difícil não pensar nela como um modelo real. Levantou-se e caminhou até a imagem da cidade que quase enchia a sala. A cidade estendia-se à sua frente. Esse ponto de luz fora excelente guia nos primeiros dias. havia uma solução para o problema. CAPÍTULO VIII A imagem no vídeo desvaneceu-se quando Alvin levantou as mãos do painel e desimpediu os circuitos. pela tela passara cada centímetro quadrado das paredes exteriores de Diaspar. Conhecia a cidade melhor do que qualquer outra pessoa. Diaspar podia ser mantida em perpétua imobilidade por seus cir- cuitos de eternidade. Por um momento per- maneceu sentado.

ter reconquistado a liberdade do ar. Era uma perspectiva que não o atraía absolutamente. Alvin jamais seria capaz de concluir se gostava ou não do Bu- fão. trazendo tesouros desconhecidos. durante dé- cadas. Alvin dirigiu seu raciocínio em direção ao céu. estivessem relacionadas com essas alterações. mesmo dentro dos limites da cidade. Se o céu era inatingível e se o caminho terrestre se achava bloqueado. Do espaço exte- rior chegavam enormes naves. em fantasias de que se envergonhava um pouco de re- cordar. Alvin sonhava que em algum lugar. Seria inútil experimentá-los. seus pensamentos voltaram a Khedron. Os controles capazes de modificar a própria estrutura da cidade estavam firmemente travados. Imaginou- se senhor dos céus. e grato a Khedron 66 . Inevitavelmente. nos labirintos de Diaspar. Havia pouquíssima possibilidade de o Conselho conceder-lhe o que pedia. mas não acreditava realmente nisso. a que o homem renun- ciara havia tanto tempo. Durante um momento. O que via não era o mundo de seu próprio tempo. Mesmo nos dias em que máquinas vo- adoras pequenas e pessoais tinham sido de uso comum. Mas o Porto se tinha localizado além dos limites da cidade. Não lhe agradava admitir isso. Estava satisfeito por se terem encontrado. Às vezes havia imaginado. o que lhe restava fazer? Mais uma vez chegara ao ponto em que necessitava de aju- da. em que não podia progredir mediante seus próprios esforços. Alvin libertou-se dele e retornou ao presente e ao problema que tinha diante de si. mas era suficientemente honesto para não negá-lo. e sim o mundo perdido do Alvorecer . Alvin suspeitava que as grandes áreas no painel de controle do Monitor. e só poderiam ser operados com au- torização do Conselho e aprovação do Computador Central. que haviam voado com tamanha liberdade sobre a Terra e deixado sua beleza fanar-se. e ancoravam no lendário Porto de Diaspar. Sentiu uma inveja amarga de seus desconhecidos ancestrais. os céus da Terra tinham estado apinhados de formas estranhas. perdeu-se no velho sonho. era muito improvável que fosse permitido sua utilização. cuja finalidade Khedron não lhe explicara. viu o mundo a seus pés. ele sabia. ainda haveria uma máquina voadora oculta. ou mesmo séculos.um panorama rico e vívido de montanhas. convidando-o a viajar onde lhe aprouvesse. há eras havia sido soterra- do pela areia. Esse devaneio entorpecedor era inútil. No passado. lagos e florestas. mesmo que estivesse disposto a solicitação paciente.

Em geral só se tinha acesso a eles a pé.Não .Não o enten- do.confessou Alvin. deixavam uma impressão de seguro confinamento.. . mas havia alguma coisa na personalidade do outro que lhe desagradava. sendo rodea- do por um material verde-azulado e translúcido.. mesmo se parecia fazer todo o possível para ajudá-lo. sem o qual nenhum habitante de Diaspar poderia sentir-se inteiramente feliz. E embora não se observassem limites visíveis. secretamente. . Combinaram encontrar-se num pequeno pátio circular.disse o Bufão. Isso é uma coi- sa que só raramente se vê em Diaspar. Alvin . após uma caminhada cheia de rodeios. e também por causa de sua teimosia e independência naturais. Alvin hesitava em aproximar-se do Bufão. Khedron correu os dedos pelo mosaico. que brilhava com uma espécie de leve luz interna.Veja esse mosaico. Não existia em Diaspar outra pessoa com quem ele tivesse tantas coisas em comum.pela ajuda e simpatia implícita que lhe dera em sua procura. mas inteiramente apartados. não distante do Palácio do Conselho.Veja essas bordas aqui. com todos os seus esforços. tão fantasticamente emaranhados que Alvin nem sequer tentou compreender seu desenho. mas não há nada de estranho nele. Era característico de Khedron escolher um local desses para um encontro. não aparentava ter limites físicos definidos. o que realça- va seu isolamento. O desgaste. em minha últi- 67 . . a desin- tegração da matéria sob a ação do tempo. . En- tretanto. Lembro-me de quando esse padrão era novo. Paredes baixas. Talvez fosse o ar de irônico desinteresse. que mal davam na cintura. e interrompidas a intervalos para que se pudesse passar por elas. Por isso.Você nota alguma coisa de estranho nele? . exceto como último recurso.disse. às vezes a poucos metros de uma rua movi- mentada. O pátio não tinha mais de cinqüenta passos de um lado a outro e estava localizado no interior de algum grande edifício. Outras vezes. há apenas oitenta mil anos. após um breve exame. Havia na cidade muitos lugares isolados como esse. Alvin. Era uma parede coberta por um intrincado mosaico de azulejos coloridos. observe como ficaram arredondadas e moles.Você não é muito observador . . ficavam no centro de labirintos habilmente traçados. o pátio tinha sido disposto de forma a não haver perigo de uma pessoa sentir-se perdida no espaço infinito. Khedron estava examinando uma dessas paredes quando Al- vin chegou. que às vezes dava a Alvin a impressão de que o Bufão estava se divertindo.

Há na cidade outras obras de arte que não são suficientemente boas para serem preservadas nos circuitos de memória.Há em Diaspar objetos que não estão preservados nos circuitos de me- mória. outro artista virá aqui e fará obra melhor. numa de minhas fases artísticas. Entretanto. . tentando vinculá-lo de alguma forma ao proble- ma que dominava seu espírito.ma vida. agora impaciente demais para se pre- ocupar com sutilezas. Atirou o fragmento ao chão. Não foi difícil encontrar a resposta. assim que compreendeu que ela existia.Não vejo nada de surpreendente nisso .Creio que você encontraria a parede. Ali.disse ele a Khedron.Deu uma risada. já que não consigo me lembrar quem era o homem. . que parecia traçar atalhos não acessíveis à mera lógica.Entendo . Eu sei que as paredes externas 68 . eu sabia que essa peça estava se desfazendo!.Talvez eu próprio a tenha desenhado.Entendo o que você quer dizer .. acho. os azulejos estarão completamente gastos. de modo que nunca poderei encontrá-los através dos Mo- nitores do Palácio do Conselho..Conheci o homem que desenhou essa parede . Khedron conseguiu soltar um floco do mosaico dourado. ainda não com- preendo em que isso me ajuda. mas que ainda não se desgastaram..disse Alvin. que decidi esquecer completamente o assunto. mostrando-se quase feliz com essa pequena sabotagem. disse-lhe isso. Aquele estranho instinto conhecido como intuição. Se eu for lá e focalizar este pátio. podem haver partes da cidade que nunca foram preservadas nos circuitos de eternidade. Talvez eu não gostasse dele e por isso o apaguei da mente.. pensou Alvin. . . dizendo: .É estranho que eu possa me recordar disso.disse Khe- dron. não vou encontrar nenhum sinal da parede sobre a qual estamos sentados.Agora os robôs encarregados de manutenção terão alguma coisa que fazer! Aquilo encerrava uma lição. Um dia. . . . . quando a cidade se recusou a torná-la eterna.comentou Alvin. explorando ainda as fendas do mosaico com os dedos. .Da mesma forma. . Se eu voltar a este pátio daqui a doze vidas. Mas não haveria ne- nhum mosaico sobre ela. Olhou para o fragmento dourado no chão. e tenha ficado de tal modo aborrecido. E talvez essa nova obra seja destinada a durar. nem bas- tante ruins para serem destruídas totalmente. .

finalmente.disse Khedron. Ele a olhou com uma nova compreen- são. imperceptíveis.. . . Primeiro. mas nada aconteceu. julgara que só lhe fora permitido acesso aos Monitores exclusivamente devido à influência de Khe- dron.Seus dedos moviam-se agora com segurança sobre o painel e assim que a mensagem apa- gou-se no vídeo.Cometi uma tolice . . então.disse ele.Fiz o resto todo certo. . A imagem da cidade flutuou ali. A imagem imutável da cidade ainda dominava a câmara onde Alvin passara tantas horas. mas ao invés da imagem que Alvin tinha esperado.De qualquer for- ma.e. era justo. descansando por um momento nos pontos nodais na placa sensível. ele girou no assento.. Decerto.mas nem tudo que havia em Diaspar aparecia ali. devagar. a caminho do Palácio do Conselho.. Alvin ficou pensando a respeito dessa observação. os dedos de Khedron moveram-se sobre os controles. as discrepâncias deveriam ser de pequena monta . E ao que parece ele sente queda por você. mas os controles estavam fechados para mim.murmurou Khedron. . e que não há aberturas nelas. . . apareceu uma mensagem um tanto desconcertante: A REGRESSÃO TERÁ INÍCIO ASSIM QUE FOR RESTABELECIDO O CONTROLE DE VELOCIDADE . veremos logo. mas esqueci o mais importante. à medida que recuperava acesso a técnicas havia muito esquecidas. e depois com mais confiança. que houvesse certas recompensas. se o Computador Central permitir.Não posso prometer-lhe nada. Ser Único tinha suas desvantagens. . diante de seus olhos. Mas creio que os Monitores ainda te- nham muito o que nos dizer. até onde ele podia ver.Veja isso. Talvez me obedeçam agora.respondeu Khedron. Tudo o que via ali existia realmente .Parece que está certo . enterrada no painel à sua frente. Alvin esperou pacientemente. Até agora. sentando- se diante do Monitor -.Talvez não exista saída alguma .Creio que vamos aprender al- guma coisa nova a respeito de Diaspar..disse. .Tentei fazer isso há muitos anos . Não lhe ocorrera que poderia ser devido a alguma qualidade intrínseca dele próprio. Alvin . A tela ganhou vida. a fim de examinar a réplica da cidade. com todas as suas bele- 69 .existem.

muito embora ele não tomasse cons- ciência delas agora. Fiz com que o Monitor regressasse através dessas unidades. Teremos de ir muito além para vermos qualquer mu- dança importante. Vou aumentar a velocidade.. Então. Estava para perguntar a Khedron o que devia procurar ver quando um movimento súbito chamou sua atenção e ele voltou rapidamente a cabeça a fim de acompanhá-lo. A informação que continham foi levada para unidades subsidiárias de armazenamento.Ah. mas muita gente sentia amor por ela. e as mudanças estavam acontecendo com tanta rapidez que o olho humano não conseguia acompanhá- 70 . não apenas um edifício. tomado de pasmo. A transformação tinha sido tão rápida que se Alvin estives- se piscando o olho ele a teria perdido. percebeu que Khedron observava-o com um sorriso sardônico. de modo que pudessem ser recuperadas..disse o Bufão. a uma velocidade de mil anos por segundo. .Essa é a imagem da cidade há milhares de anos . imediata- mente. mas pouco exata. . os circuitos de memória não foram sim- plesmente esvaziados. .zas e maravilhas familiares . sendo substituído por um outro. . Um dos edifícios à beira do Parque desvaneceu-se subita- mente. .Lembro-me da controvérsia que houve quando decidimos dar-lhe fim. Khedron virou-se novamente para o painel de controle. . mas todo um quarteirão desapareceu e foi substituído por um grande anfiteatro ovalado.Essa é uma maneira pitoresca.. a coisa aconteceu diante de seus olhos. Não tinha sido nada mais que um clarão ou brilho fugaz. O Monitor estava agora despertando suas lembranças a uma velocidade muito maior. a cidade sutilmente modificada.O que acontece na verdade é que o Mo- nitor está se lembrando das primeiras versões da cidade. de forma inteiramente di- ferente. a Arena! . A imagem de Diaspar retrocedia no vídeo a milhões de anos por minuto. Diaspar estava como ele sempre a conhecera. e já era tarde de- mais para ver o que é que o tinha provocado.. Olhou.Estamos voltando no tempo. e mesmo enquanto o fazia.disse Khedron. o que estava acontecendo.e percebeu. sempre que necessário. Lembrou-se das palavras que haviam aparecido na tela do Monitor -: A REGRESSÃO TERÁ INÍCIO.ele disse a Khedron. mas mesmo durante o primeiro choque de assombro sua mente estava procurando a resposta para aquilo. Raramente era utilizada. Dessa vez. e voltou a olhar para a cidade. Já estamos olhando para Diaspar de meio milhão de anos atrás. Quando se fizeram modificações. . de colocar a questão . Nada havia mudado.

Ali estava a Diaspar antes da grande mudança que sobreviera à humanidade. - Esta deve ser a mais antiga versão da cidade preservada nas célu- las de memória. além do conhecimento dos Mo- nitores. Seria capaz de chegar até a fundação da cidade. No decorrer de todas essas modificações. 71 . Diaspar contraiu-se a uma fração de seu antigo tamanho. Fora dos muros de Diaspar. Esses homens eram seus antepassa- dos. pois as estradas radicais prolongavam-se. Talvez existissem oceanos e florestas. e passar através do véu que separava a história conhecida dos mitos e das lendas do Alvorecer? Já haviam retrocedido quinhentos milhões de anos no pas- sado. nos homens que teriam andado livremente por todos os cantos do mundo . . A cidade estava aberta ao mundo. Era quase como se Diaspar fosse um organismo vivo que tivesse de recuperar suas energias vitais após cada explosão de crescimento. do que das pes- soas que agora compartilhavam de sua vida. Nele haviam aparecido as palavras REGRESSÃO CONCLUÍDA. e o Parque continuava sen- do o coração verde de Diaspar. Alvin notou que as modificações na cidade pareciam ocorrer em ciclos. Por mais fascinante que fosse a lição. chegariam às mais remotas memórias esto- cadas e o regresso se completaria. Dentro em pouco.e também de outros mundos. Mas esses pensamentos não teriam sido felizes. Os minutos passavam rapidamente. representando cada um deles toda uma era no pequeno universo dos Monitores. Pen- sou no tráfego que havia rolado por aqueles caminhos. por afinidade. torres titânicas esvaíram-se num átimo. Numa implosão súbita e silenciosa. O Parque desvaneceu-se. até os limites da imagem no Monitor. sem obstrução. Antes disso. Alvin imaginou até onde o Monitor poderia recuar.Não podemos ir além .disse Khedron. apontando o vídeo. o projeto básico da cidade não havia mudado. ele não percebia como aquilo o ajudaria a sair da cidade como ela era atualmente. Por muito tempo. ou até mesmo outras cidades que o homem ainda não houvesse abandonado na longa fuga para sua morada final. haveria uma Terra diferente. pensou Alvin. Desejou poder vê-los e partilhar de seus pensamentos nas ruas daquela Diaspar de um bi- lhão de anos atrás. seguida por nova pausa. os muros sumiram. Alvin fitou o modelo da cidade antiga. havia um longo período de imutabilidade. Os edifícios surgiam e desapareciam. logo após uma febre de reconstrução.las. sentia-se mais próximo deles. mas o traçado das ruas parecia eterno. duvido que as unidades de eternidade fossem usadas e que os edifícios durassem eternamente.

Khedron dirigiu o monitor para trás e para frente umas doze vezes. Depois essa clareira havia se expandido enormemente. e a tela respondeu à pergunta de Alvin. Era alguma coisa mais com- 72 . naturalmente. Mesmo antes da transformação tinha havido uma pe- quena clareira. e havia sido armazenado nos circuitos de memória o conhecimento que permi- tia àquelas máquinas desempenhar suas tarefas. quando o im- pulso adequado os chamasse de novo à vida. Durante um bilhão de anos. E não se tratava. Dentro de mais alguns séculos voltariam o rosto à glória que haviam conquistado e construiriam um muro contra o universo.perguntou Alvin. de simples memória o que ele estava vendo agora. à espera do instante em que alguém a invocasse. que ele fosse inteiramente de homens que no passado haviam vivido e caminhado sobre a Ter- ra. pensou Alvin. A mudança . cercando a junção de todas as ruas radiais. de modo que. os circuitos de memória haviam-na conservado numa pseudo-existência espectral. Alvin jamais acreditara nas lendas que cercavam a antigüida- de do Túmulo. Essa memória da Diaspar que existira no passado era ainda tão nítida e clara quanto a imagem da cidade contemporânea. pelo breve período histórico em que se dera a transformação. mas agora elas lhe pareciam autênticas.tinha-se efetuado em pouco mais de mil anos. Muito pouco da antiga Diaspar havia permanecido quando fora criada a nova cidade. Os dedos de Khedron deslizaram sobre o painel do Monitor. Havia surgido então o Túmulo de Yarlan Zey. Também para os circuitos de memória deviam ter tido as características essenciais de todos os homens que viviam agora. A cidade há tanto tempo de- saparecida começou a ampliar-se diante de seus olhos. Em certo sentido. pensou Alvin. Nesse ínterim deviam ter sido projetadas e construídas as máqui- nas que ainda agora serviam a Diaspar com eficiência. no centro de Diaspar. ele devia ter existido naquele mundo remoto. tomado por uma idéia repentina.de uma pequena cidade aberta para uma outra muito maior e fechada .pois nessa época os homens deviam viver sob a sombra dos Inva- sores. . substituindo uma ampla estrutura circular erguida anteriormente no ponto de encontro de todas as ruas. pudessem ser reves- tidos de matéria e emergissem renascidos na Casa da Criação.Será que podemos explorar essa imagem como exploramos a imagem da Diaspar atual? . Era possível. enquanto o ponto de vista movia-se através de ruas curiosamente estreitas. tragando ruas e edifícios. o Parque a havia obliterado quase com- pletamente. recoberta de relva.

uma vez que ele teria chegado àquele ponto mais cedo ou mais tarde . Talvez tenha sido pura sorte. talvez fosse lógica elementar. Apontou um edifício baixo e circular no centro da cidade.era a memória de uma memória. .ele disse a Khedron. Alvin levou dez minutos para descobrir que elas não se en- contravam ali apenas por questões de simetria . Não importava. Não fazia diferença. ver um mundo que existira nos tempos em que os ho- mens ainda viajavam entre as estrelas.Vamos começar ali . Não sabia o que podia aprender com isso.. Talvez alguma memória remota. 73 .Parece um lugar tão comum como qualquer outro para começar. nem se o ajudaria em suas buscas.aquele lugar para onde convergiam todas as ruas radiais da cidade.plexa . Era fascinante observar aquele passado..dez minutos para descobrir que sua longa busca fora recompensada. .

74 .

e pessoas apressadas como Alvin e Khedron não estariam interessadas em desfrutar tão somente do cenário. O Túmulo consistia em duas colunatas concêntricas. ocultando-se en- tre a multidão. descendo para uma meta que ainda agora nenhum deles en- 75 . viu que não havia ninguém ali e caminhou na ponta dos pés para a segunda. Tinha certeza de que poderia esconder-se atrás de um dos grandes pilares e descobrir o que Alvin e Khedron estavam fa- zendo. Alystra esperou até que Khe- dron e Alvin tivessem desaparecido na escuridão marmórea. numa sala pequena em forma de caixa. Tinha sido divertido persegui-los ao longo das vias móveis. De- pois.e nunca olhavam para trás. Através das aberturas. CAPÍTULO IX Alystra havia descoberto ser muito fácil seguir Alvin e Khe- dron sem que dessem por isso. as colunas encobriam completamente o interior e Alystra evitou entrar pelo lado aberto. assim que desapareceram de vista. O Tú- mulo estava vazio. Daí a pouco o destino deles havia-se tornado óbvio. não havia sinal de qualquer vibração que mostrasse que estavam penetrando rapidamente na terra. encer- rando um pátio circular. Essa era a única indicação de movimento. O Parque não tinha outros edifícios. Eles pareciam apressados . Como não havia meio de ocultar-se nas últimas centenas de metros que a separavam do Túmulo. Exceto num setor.coisa por si só muito esquisita . E não havia mais ninguém nessa solidão marmórea. cujas paredes pareciam subir verticalmente e com firmeza. podia ver Yarlan Zey olhando através da entrada para o Parque que ele construíra. Naquele momento. só podiam estar se dirigindo para o Túmulo de Yarlan Zey. Cautelosamente. bem como para a cidade que ele contemplava havia tantas eras. Não importava que eles a detectassem depois disso. subiu correndo a elevação gramada. Alvin e Khedron achavam-se a uma pro- fundidade de trinta metros. transpôs a primeira colunata. mas sem perdê-los de vista. quando deixaram as ruas e entraram no Parque.

Nela apareceu uma breve mensagem. Não podiam ter certeza de que os mecanismos ainda respon- deriam ao impulso. Pelo Computador Central? Ou pelo próprio Yarlan Zey. . Uma vez des- coberto o segredo. . . poderia ver que os olhos estavam baixos e que o sorriso misterioso se dirigia para um lugar logo à entrada do Túmulo. Quanto a “Fique onde está a estátua”. mas haviam acompanhado seu curso apenas por um momento. .respondeu Khedron. Tudo fora absurdamente fácil. um instante havia sido suficiente para localizar. Isso significava.Quantas pessoas já terão lido essa mensagem? .disse Al- vin. formuladas mentalmente. tinham sido usadas imemorialmente para abrir portas ou acionar máqui- nas. FIQUE ONDE OLHA A ESTÁTUA . quatorze . Mas se o observador se colocasse diretamente à sua frente. antes da imagem se desvanecer.E LEMBRE-SE: DIASPAR NEM SEMPRE FOI ASSIM As últimas cinco palavras estavam impressas em tipo maior e o significado da mensagem tornou-se óbvio para Alvin imediata- mente. isso era simples de- mais. Mal acabou de formular esse pensamento. e Alvin tinha pressa demais em ir ao Parque para interrogá-lo mais detidamente. pois o caminho havia sido pre- parado para eles. Voltou-se para Khedron e mentalmente repetiu as palavras 76 . pensativo. A primeira vista. Ao chegarem ao Túmulo.tendia perfeitamente. não havia dúvida com relação a ele. a tela ganhou vida outra vez.Não fez maiores comentários que elucidassem essa observação um tanto enigmática. redigida na lingua- gem simplificada que as máquinas utilizavam para comunicar-se com o Homem desde que haviam conquistado paridade intelec- tual. entre tantas que calçavam o piso. que estavam pedindo informações que o Monitor não possuía e que talvez nunca tivesse possuído.Ao que eu saiba. Alvin pisou na laje ao lado e verificou que Yarlan Zey já não olhava em sua direção.E pode ter havido outras. a estátua dava a impressão de estar olhando para a cidade.pensava Alvin. quando transformara a cida- de?) A tela do Monitor lhes havia mostrado um longo poço vertical que mergulhava nas profundezas. a única laje sobre a qual incidia fixamente o olhar de Yarlan Zey. pensou Alvin. Mensagens em código. (Por quem? .

cres- ceu e transformou-se subitamente numa porta. A grande laje sobre a qual pi- savam começou a conduzi-los rumo às profundezas.disse ele. Khedron mais uma vez lutava com sua consciência. Era a mesma sen- sação que havia experimentado na Torre de Loranne. sendo continuamente recriada a profundidades cada vez maiores.Essa coluna . ao se debru- çar sobre o deserto virgem e ver as estrelas conquistando o céu noturno. as máquinas responderam. Instantaneamente. O tráfego era feito através daqueles 77 . Em cima. se é que levava mesmo a alguma parte. falando aos solavancos. indagando se dessa vez não teria ultrapassado os limites.foi construída sim- plesmente para alojar o poço por onde descemos. não havia perigo de alguém cair nele por acidente. começava a compreender o que era o medo. deram alguns passos por um curto corredor . O poço já não era aberto. Pela primeira vez. Jamais poderia suportar o tráfego que deve ter passado por aqui quando Diaspar se comunicava com o mundo. a nesga de azul deixou subitamente de existir. As paredes deixaram de fluir por eles. como se os milhões de anos que se haviam escoado desde sua última operação nunca tivessem existido. mas estava excitado. Havia então apenas fitado o desconhecido. . Um ponto luminoso surgiu numa das extremidades da misteriosa câmara móvel. na verda- de. Alvin nada receava. chegou à mesma conclusão. agora estava sendo levado para ele. e depois mudou de idéia. Nem Alvin nem Khedron falavam enquanto as paredes cor- riam silenciosamente por eles. dando a impressão de ser um acréscimo posterior. cujas paredes se uniam numa cur- va ampla noventa metros acima de suas cabeças. Khedron. Alvin imaginou por um instante se outra laje de pedra não teria sido materializada a fim de substituir aquela que agora suportava a ele e a Khedron. Não podia imaginar onde aquele caminho os conduziria. A coluna por cujo interior haviam descido parecia demasiado delgada para suportar os milhões de toneladas de rocha. A laje ori- ginal provavelmente ainda pavimentava o Túmulo. Aquela sobre a qual estavam de pé podia existir apenas por frações infinitesimais de segundo. a fim de dar a ilusão de contínuo movimento descen- dente. como se estivesse ansioso por encontrar algo que dizer . que acompanhara o olhar de Alvin. parecia não ser parte integrante da caverna. Atravessaram-na.e viram-se de pé numa grande caverna circular.que o Bufão havia pronunciado em voz alta: DIASPAR NEM SEM- PRE FOI ASSIM.

Parou e olhou para o vazio embaixo. o centro do sistema de caminhos móveis tinha sido soterrado.Deve ter havido alguma forma de iluminação interna no passado .respondeu Alvin. ao invés de subirem. Estava traçando as li- nhas debaixo de seus pés.disse Khedron com ar ausente. .Acho que sim . mas estão apaga- dos demais para lê-los. Alvin percebia que eles adquiriam uma leve inclinação para o alto e reconhecia agora a familiar superfície cinzenta das vias móveis. ao lado dos grandes arcos dos cami- nhos móveis. a uma profundidade inde- finida. a mais de trinta metros de distância. Alvin encaminhou-se para os túneis mais próximos. teve a impressão de es- tar suspenso no ar sem apoio visível. . Claramente visível. Quando o Parque fora reconstruído.É difícil imaginar um sistema mais simples. Eram apenas os to- cos seccionados de grandes estradas. Posso ver nomes ao lado deles. Khedron perguntou tranqüila- mente: . Será que você os reconhece? Alvin olhou para as paredes da sala. .Bem como pensei! . que irradiavam em várias direções. desciam.Compreende o que é isso? .Está vendo todas essas linhas radiantes que convergem para os pequenos túneis? Alvin havia percebido.uma imensa rede de linhas que convergiam para um ponto central debaixo do poço central. doze no total. viam-se grandes túneis. exata- mente como as vias móveis do presente. inumeráveis túneis menores que saíam da caverna. Aqueles círculos pequenos devem indicar as outras cidades da Terra. sem esperar resposta.É um mapa do sistema de transportes. O chão estava-se tornando transparente.Khedron! Venha cá e olhe isso! O outro chegou e juntos fitaram a maravilha que se descor- tinava sob os pés. o estranho material que uma vez lhes dera vida estava agora imobilizado. . acompanhando-as com os olhos até as paredes da caverna. Khedron prosseguiu. Mas nunca havia sido destruído. Por um momento. Alguns metros mais adiante. havia um enorme mapa .túneis lá. . escolhiam o lugar que desejavam visitar e então seguiam a linha apropriada no mapa. Furando-as a intervalos regulares. olharam-no em silêncio. .. Eram túneis que. As pessoas des- ciam pelas vias móveis. Dera apenas alguns passos quando percebeu que alguma coisa estava acontecendo ao chão onde ele pisava.. 78 .exclamou de repente.

. provando-lhe a sibilância como se fosse uma especiaria exótica. e apontava. como uma flecha de luz. Eram trinta ou quarenta. quase apagados. pois uma das li- nhas. e contra esse círculo havia uma única palavra: LYS.E o que acontecia depois disso? . Dava sinais de nervosismo e impaciência. pensou. era um desafio que ele sabia não poder aceitar jamais. Dessa vez. Alvin e Khedron fitaram aquele símbolo si- lencioso. nem todo ele estava escuro demais para ser visto com clareza.perguntou Khedron. parecendo todos exa- tamente iguais. Mas para Alvin aquilo representava como que o prenuncio da reali- zação de todos os seus sonhos. buscando com os olhos o mistério daqueles tú- neis descendentes. deixou-o rolar pela boca. ele preferia que não existisse. mas as cidades da Terra ainda mantinham contato entre si. Embora o nome Lys não significasse nada para ele. ISSO era tudo. Por quanto tempo. as maçãs de seu rosto queimavam febricitantes. e que. a linha transfixava um círculo de luz dourada. Pensou nos incontáveis milhões de anos em que o tráfego havia minguado gradualmente e imaginou as luzes do grande mapa apagando-se uma a uma. um dos túneis ascendentes. ela havia brilhado ali. Sua voz chegou a Khedron ligeiramente abafada pelos ecos das paredes da sala. O sangue disparava em suas veias. mas esses nomes estavam agora indecifráveis. Para Khedron. Alvin olhou em volta do imenso recinto. Por muito tempo.O que é? . Khedron interrompeu finalmente seu devaneio. porém. entre suas companheiras apagadas. Pouco antes de seu fim. o mapa nada significasse agora. quando o transporte aéreo havia chegado ao fim. esperando para guiar passos que nunca vinham. Isso acontecera havia um bilhão de anos. Khedron estava em silêncio. Alvin rodeara a coluna central. Parecia impossível que ela pudesse ter sobrevivido. . Tratava-se da outra metade do grande mapa. Tendo-se afastado. afinal de contas. Não era a mesma pessoa segura e 79 . era possível que. Lys devia estar em contato com Diaspar. e somente uma. atendeu-o. com sua tênue rede de linhas radiando para os pontos cardeais. até Yarlan Zey ter lacrado os caminhos móveis e fechado Diaspar para o mundo. até só restar aquela única linha. pois quase conseguira ler um dos grupos de letras.perguntou Alvin. tentando imaginar como teria sido nos dias remotos. Mas como Alvin chamava com insistência. Somente os nomes no mapa poderiam distingui- los. Era como se ela não tivesse conexão com o resto do sistema. na verdade. Ainda então. estava brilhantemente iluminada. sem querer mover-se.

.disse. e isso mostra que o tráfego não era in- tenso. desaparecendo por um dos túneis.Par- tiu com resolução e após um instante de hesitação o Bufão acom- panhou-o pela flecha luminosa. A viagem não chegou a durar um minuto. A finalidade da longa máquina aerodinâmica que espera- va. a segunda máquina estaria à espera em outra câmara semelhante àquela. até estarmos mais preparados. . olhando através das paredes. .Vou descer por aquele túnel . Alvin sabia.Não creio que devamos ir adiante agora . Alvin talvez se deixasse influen- ciar. mas uma aguda consciência de sua própria coragem. Havia verdade nisso. sob a desconhecida e distante Lys. que em algum lugar.. outra barra conduzia ao segundo túnel. com- binada por desdém pela timidez do companheiro. . Não fora esse fato.Que estranho sistema de transporte! Só pode transportar cem pessoas de cada vez. como se desafiasse Khedron a detê-lo. Khedron começou a falar. Homens de quase todas as civilizações que haviam existido desde o Alvorecer teriam achado o ambiente inteiramente fami- liar. mas Alvin percebeu o tom de medo na voz de Khedron. mas sobre ela nenhuma máquina flutuava. enquanto os homens ainda viajavam. se os céus ainda estavam abertos? Talvez os Invasores nem mesmo permitissem que voassem. Parecia tolice ter chegado tão longe e retornar quan- do a meta parecia estar à vista. Sua parte superior era transparente e.confiante que sempre fora na cidade lá em cima. Não havia nenhum sinal de entrada.Quero saber até onde vai. . sentiram o repuxão familiar do campo peristáltico. quando o campo os liber- tou. Ao entrarem no túnel. no túnel. Alguns metros mais adiante. era óbvia. Alvin viu filas de poltronas luxuosas. E por que subterrâneo. mas não queriam lembrar-se do espaço? Podiam ir de cidade a cidade 80 . como se lhe tivesse sido dito. como um projétil. ainda que eu ache difícil acreditar nisso. estavam de pé numa extremidade de uma longa câmara em forma de semicilindro. mas para Alvin e Khedron tratava-se de uma visão de outro mundo. Ou teria isso sido construído no período de transição. e daí a pouco deslizavam sem esforço para baixo. impulsionou-o para a frente. Na outra extremidade. . um pouco depressa demais.. mas isso não tornava o ambiente menos insólito.Pode não ser seguro até.disse obstinadamente. a máquina flutuava a pouco mais de um palmo acima de uma única barra metálica que sumia na distância. dois túneis pequenos e escuros seguiam para o infinito.

e mesmo que isso acontecesse. entre seus lares e seus empregos rotineiros. Todas as cidades deviam ser essencialmente idênti- cas. milhões de homens realizavam tais jornadas. De que adiantaria haver mais de uma? Alvin mal o escutava. Khedron abriu a boca. o longo cilindro já entrava em movimento. Quando Lys existiu. se assim desejasse. Voltou-se para encarar Khedron. Aquele era o momento de opção. em máquinas semelhantes àquela. que per- manecia de pé. enquanto cada um deles esperava que o outro dissesse alguma coisa. Não é de admirar que todas terminassem por ser abandonadas e se reduzissem a Diaspar.e nunca ver o céu e as estrelas. diariamente. Já não exercia controle sobre seu próprio destino. Desde aquela época. Estava ocupado em examinar o longo projétil. A decisão foi tomada à revelia deles. num protesto ansioso. era muito parecida com Diaspar. e aquilo se reduziria a um enig- ma enlouquecedor para o resto de sua vida. Quando a porta se abriu silenciosamente. uma parte da parede simples- mente desapareceu de vista e o interior lindamente decorado sur- giu diante de seus olhos. Alvin. Mas se transpusesse aquela porta. embora não soubesse para onde iria. sabia o que ia acontecer. foi tomado de sur- presa. Enquanto Alvin levantava a mão num adeus.Sorriu nervosamente. havia funda- do um Império e deixara que ele escapasse a seu controle. já se movia mais depressa do que um homem correndo. Não houve som nem aviso. pois aque- le momento ansiosamente esperado talvez jamais se repetisse . estaria entregue a forças desconhecidas. E aquela haveria de ser a viagem mais momentosa que qual- 81 . o Ho- mem havia explorado o Universo e retornado à Terra. e a máquina novamente se fechou. talvez sua coragem não correspon- desse a seu desejo de conhecimento. Mal hesitou. Houvera um tempo em que. Agora uma viagem semelhante estava sendo feita mais uma vez. talvez jamais fosse capaz de fazer com que ela o obedecesse. por um instante houve um silêncio intenso. Se a máquina era controla- da por alguma ordem mental ou verbal. . mas antes que pudesse dizer alguma coisa Alvin já entrara na máquina. emoldurado pelo retângulo da porta de entrada. numa máquina em que milhões de homens desconhecidos e sedentários se tinham sentido inteiramente à vontade. Houve um leve bruxu- leio de translucidez.De uma coisa tenho certeza. . Até então ele sempre tinha sido capaz de voltar. Antes de penetrar no túnel. tentando encontrar a entrada. Estava com medo de demorar-se.

perguntou a si mesma se o que tinha seguido pelo Parque não teria sido. enquanto esperava que retornas- sem. Agora você sabe tanto quanto eu.Onde está Alvin? . Não. vol- tou-se e viu que estava sozinho. o Khedron real. Não pareceu absolu- tamente surpreso por encontrá-la ali. em algum lugar haveria uma entrada secre- ta. . Sucedeu.quer ser humano empreendera em um bilhão de anos. por acaso. que ela não deu pelo reaparecimento de Khedron. e Alystra teve de repetir a pergunta antes que ele a notasse. pois não havia ali lugar algum em que uma pessoa pudesse ocultar-se. Uma pessoa normal não faria sua imagem projetada “an- dar” três quilômetros. 82 . ficaria à procura dela. ainda que uma só tivesse sido suficiente. . Mas não fazia sentido. levando meia hora para chegar ao destino. Por conseguinte. . as projeções eram materializadas no lugar que se queria visitar. Mas escutou seus passos. Ele parecia perturbado e sem saber o que dizer. pois estava examinando uma coluna atrás da estátua quando ele ressurgiu do outro lado.respondeu por fim. Nunca era sensato aceitar as informações de Khedron ao pé da letra. Mas Alystra não precisava de maior garantia de que o Bu- fão não estava representando seu papel aquele dia. quando podia estar lá instantaneamente. Então. sem o inconveniente de se ter de ir lá fisica- mente. Passou-se algum tempo antes que o Bufão respondesse.Tudo que posso dizer é que está a caminho de Lys. Alystra já havia percorrido o Túmulo uma dezena de vezes. projeções de Alvin e Khedron.Não sei onde ele está . o que ela seguira até o Túmulo fora o Alvin real. Depois do primeiro choque de surpresa.gritou. porém.

Começou a prestar atenção às coisas que o ro- deavam. Não era só o medo que o assaltava. como ne- nhum homem tinha sabido. Tudo que lhe importava agora era que a viagem o conduzia para fora de seu mundo. era possível que nunca mais voltasse a seu mundo. Tudo quanto conhecia e amava estava em Diaspar. durante eras. Naquele momento de desolação. o que significava deixar o lar para sempre. mesmo que a viagem não o conduzisse a perigos. e sua visão tornou-se turva e incerta. Pela primeira vez. a ver o que podia aprender no veículo inacreditavelmente antigo em que estava viajando. Não fora preservado nos circuitos de memória da cidade. Esse estado de espírito cedeu aos poucos. Toda a energia parecia ter abandonado de repente suas pernas. como nunca antes. mesmo que isso significasse a renúncia a seus sonhos. mas em algum lugar deviam existir semelhantes preservando-o da ação do tempo e das mutações. Sabia. o número mudou para “34”. sem vacilar. e as sombras dei- xaram sua mente. não lhe parecia ter qualquer importância o que o aguardava. mas tranqüi- lizadora: LYS 35 MINUTOS Enquanto a observava. perigo ou segurança. mas também uma sen- sação de indizível solidão. Alvin deixou-se cair na poltrona mais próxima. Isso pelo 83 . da máquina veloz. notou o quadro indicador que fazia parte da parede anterior. Se pu- desse. Havia ali uma mensagem breve. Não lhe parecia particularmente estranho ou maravilhoso que aquele soterrado sistema de trans- porte ainda funcionasse perfeitamente após tantas eras. CAPÍTULO X Quando a porta se fechou. Sentiu que tre- mia dos pés à cabeça. teria escapado. aquele medo do desconhecido que oprimia seus companheiros. finalmente conhecia.

pensou Alvin. e a única sensação de movimento era fornecida por uma levíssima vibração que jamais teria observa- do se não a procurasse detectar. embora agora. se não existisse. até mesmo maior do que a sala das vias móveis. ele percebia os contornos de grandes máquinas. E a cada desaparecimento. por um espaço enormemente vazio. Que espécie de cidade seria? Por mais que tentasse. nada lhe dissesse sobre a extensão da viagem. Diaspar devia estar agora a muitos quilômetros dali. Um jorro de luz azulada despenhava-se da cúpula arqueada do teto e. sem qualquer aviso. A velocidade ainda fazia com que as paredes do túnel fossem um cinzento sem maiores detalhes. Então. as paredes do túnel reaparece- ram de ambos os lados. Alvin podia perceber debaixo dele uma complexa rede de barras e canos que se cruzavam e recruzavam até desaparecerem num emaranha- do de túneis laterais. aquele lugar. de vez em quando. As paredes do túnel eram contínuas manchas cinzentas. porém. pareciam persistir um pouquinho mais em seu campo de visão. Sua imaginação disparou em direção a Lys. ainda que. ainda a grande veloci- dade. A luz era tão brilhante que ofuscava a vista. só conseguia concebê-la como uma versão menor de Diaspar. Um tanto surpreso. houve uma clara modificação na vibração. De repente. Alvin olhou para o indicador: LYS 23 MINUTOS Intrigado. deu-se conta de que. Talvez naquele exato momento Alvin estivesse a correr sob as colinas ero- didas que havia observado tantas vezes da Torre de Loranne. O tempo passara mais depressa do que ele havia imaginado. colocou o rosto na parede da máquina. silhuetas contra o clarão. e um tanto preocupado. Imaginou se ainda existiria. depois. A máquina passava. como não dispunha de nenhuma informação sobre a velocidade da máquina. aquela máquina não estaria a levá-lo cele- remente através da terra. não havia sido desti- 84 . acima dele estaria o deserto com suas dunas ao sabor dos ventos.menos era uma informação útil. Olhando pasmado através das paredes transparentes. ele conseguisse colher um lampejo de marcas que de- sapareciam quase tão depressa quanto eram percebidas. como se ansiosa por chegar lá antes do corpo.não havia dúvida quanto a isso. O veí- culo começou a diminuir sua velocidade .

Alvin sentiu-se excitado demais para ver qualquer coisa com clareza. A máquina diminuía de velocidade. Um momento depois. Sua passagem deixou uma sensa- ção de medo na mente de Alvin. A passagem pela grande caverna levara menos de um minu- to. Alvin relanceou os olhos novamente pelo indicador. que ele não podia sequer estimar. pois pela primeira vez compreendia realmente o significado daquele grande mapa obscurecido debaixo de Diaspar. O caminho para a superfície estendia-se claramen- te através de um túnel baixo e largo. numa das extremidades da 85 . A mensagem mudara e era infinitamente tranqüilizadora: DIASPAR 35 MINUTOS Enquanto se punha a procurar uma saída da caverna. Agora o indicador dizia: LYS 1 MINUTO e esse minuto foi o mais longo que Alvin já havia experimen- tado. Em torno deles agrupavam-se mecanismos incompreensíveis. A máquina estava acelerando novamente. inteiramente imóveis acima de seus carris. teve um últi- mo relance do indicador. Ela estava chegando a seu destino. com inúmeras articulações. ocorreu novamente a indefinível modificação da vibração. Após um tempo que pareceu um século. embora a sensação de movimento fosse mínima. O mundo estava mais cheio de maravilhas do que ele jamais sonhara. Eram maiores do que o seu. a porta permaneceu aberta por um tempo considerável antes que ele compreendesse que pode- ria deixar o veículo. Enquanto saía apressadamente. a vasta e solitária câmara desapareceu atrás dele. Não mu- dara. o longo cilindro emergiu do túnel e entrou numa caverna que era a réplica da que havia em Diaspar. de ambos os lados. Quase tão depressa como havia aparecido.nado a homens. Por um momento. imóveis e silencio- sos. e Alvin supôs que se destinassem ao transporte de carga. o veículo que o transportava passou velozmente por filas após filas de cilindros. as paredes do túnel passavam a uma velocidade. Alvin teve o primeiro indício de que talvez estivesse numa civilização di- ferente da sua. Sem solavancos e silenciosamente.

acima das árvores. Isso era um resquício dos tempos em que. Por fim seus olhos se habituaram à escala daquela paisagem colossal. Até onde a vista al- cançava. e ele percebeu que aquelas muralhas longínquas não eram cons- trução humana. e por um ins- tante teve a impressão de que estava novamente no parque central de Diaspar. minu- tos depois. a Terra ainda possuía montanhas de que se orgulhar. e não se surpreendeu quando. Então Alvin ergueu os olhos para o horizonte. A cidade que ele tinha esperado ver não era visível em parte alguma. Subiu correndo a rampa até a abertura ensolarada. mas Al- vin sabia que devia ter subido uma longa distância. No entanto. semelhante à que o transportara pelo poço sob o Túmulo de Yarlan Zey. muito embora a estrada que descia a colina parecesse bem conservada. Estava tão distante que seus detalhes confundiam-se numa mancha in- distinta. a estrada desaparecia entre grandes ár- 86 .caverna . no entanto. Não havia coisa melhor a fazer senão seguir por ela. Não havia nenhuma sensação de movimento. Alvin não percebia nenhum vestígio de vida humana. A escadaria era curta e terminava diante de portas que se abriram automaticamente ante a aproximação de Alvin. e lá. em sua maioria. Entrou numa pequena câmara. esquecido de todos os temores na ânsia de verificar o que havia para ser visto. O Tempo não havia conquistado tudo. Sentia-se um tanto atô- nito pelo impacto das dimensões e do espaço. mas alguma coisa em sua conformação intrigou Alvin. Ele estava de pé no alto de uma colina baixa.e dele saía um lance de escadas. aquele anel de mon- tanhas nevoentas poderia conter cerca de uma dezena de cidades do tamanho de Diaspar e. procu- rando adaptar-se àquele mundo estranho. as portas se abriram de novo para revelar um corredor abobadado que subia até uma arcada que emoldurava um semicír- culo de céu. só havia florestas e planícies relvadas. Ao pé do outeiro. estendendo-se da direita para a esquerda num grande arco que abarcava o mundo. Por muito tempo Alvin permaneceu à boca do túnel. havia uma linha de pedra que teria reduzido a um nada os mais pujantes gigantes de Diaspar. era demasiado colossal para que sua mente o abarcasse. se aquilo era um parque. Os arquitetos da cidade haviam construído rampas ou corredores inclinados sempre que havia uma mudança de nível. os robôs eram montados sobre rodas e por isso encontravam nos degraus uma barreira intransponível. Escadas eram coisas extremamente raras em Diaspar.

e Alvin compreendeu por que não havia percebido até então nenhum vestígio humano. Naqueles edifícios. Alvin já conhecia o rumorejar do vento nas folhas. Mais uma vez a floresta fechou-se a seu redor. e diante dele surgiu uma enorme massa de água interrompida por ilhotas. O peixe deveria ter-lhe parecido inteiramente estra- nho. que envolvia a utilização de colunas esfriadas e pedras graciosamente engasta- das. Assaltavam-no cores desconhecidas. mas no entanto sua forma feriu-lhe a mente com uma sin- gular familiaridade. no pálido vazio verde. Enquanto se aproximava da vila. A direita. A maioria era de arquitetura simples. O grande peixe prateado que repentinamente forçou passa- gem entre os juncos aquáticos foi a primeira criatura não humana que Alvin viu. onde suas nadadeiras formavam uma esmaecida mancha de movimento. que quase ocultavam o sol. Até mesmo o 87 . Alvin quebrou o encantamento que lhe provocava o lago e continuou a caminhar pela estrada batida pelo vento. foi saudado por uma estranha mistura de aromas e sons. incorporadas em carne viva. as maiores piscinas de Diaspar não passavam de poças. que descansavam a vista mesmo ao clarão do sol. bem como odores há muito perdidos na memória de sua raça. a profusão de perfumes e cores. A evolução e a ciência tinham chegado às mesmas respostas. Alvin deu com o lago sem qualquer aviso. que pareciam muito antigos. deixando que ela lhe escorresse entre os dedos. Nada lhe era familiar. o peixe parecia a verdadeira corporificação de força e velocidade. pintados com cores suaves. A clareira estava repleta de edifícios baixos. as árvores terminaram de repente. repetia-se o invento incomensuravelmente remoto da ogiva. compa- radas com aquela massa de água. Pairando ali. Quando penetrou na sombra. O calor. estavam as linhas graciosas das po- derosas naves que um dia haviam dominado os céus da Terra. mas não daquele jeito. bem como a presença invisível de um milhão de seres vivos o atingiam com uma violência quase física.vores. Ali. mas apenas por um curto espaço. Alvin caminhou devagar até a margem do lago e colheu a água morna entre as mãos. de dois pavimen- tos. sublinhado por um milhão de vagos ruídos que nada significavam para ele. Jamais em sua vida vira tanta água. Por fim. pois a estrada não demorou a desembocar numa grande clareira de quase um quilômetro de largura e cerca de dois quilô- metros de comprimento . E o trabalho da natureza durara mais. porém mui- tos apresentavam um complexo estilo arquitetônico. Alvin ainda lutava por com- preender aquele novo ambiente.

.perguntou por fim. por isso. tomado de surpresa. Sempre sabemos quando os veículos se põem em movimento. E as pessoas altas que passavam entre os prédios. O sangue quase se congelou em suas veias. o estivessem esperando: Alvin sen- tiu uma excitação súbita e violenta. que tínhamos medo de que o segredo se houvesse perdido.Achamos melhor recebê-lo aqui .. Diga.como se. mas por um instante não pôde responder. o que não deixava de ser estranho. Não teve dificulda- de para compreender as outras. Agora compreendia por que todos os outros aldeões o haviam ignorado tão completamente. com graça in- consciente. Ali. . Gerane. que se puseram a caminhar diretamente para ele . Não tomaram conhecimento de Alvin.Nossas moradias são muito diferentes das de Diaspar e a caminhada desde a estação dá aos visitantes oportunidade de.ar mudara.disse. A temperatura em Diaspar jamais se modifica- va e por isso as roupas eram puramente ornamentais e muitas ve- zes extremamente complicadas. Seranis está esperando.. projetados mais para serem usados do que exibidos.. em um único pedaço de pano envolvendo o corpo.. Como foi que descobriu o caminho? Tanto tem- po já passou desde a última visita. . Aqueles seres que se aproximavam dele agora eram obviamente de sua própria espécie. E então a reação assumiu uma forma um tanto inesperada. se aclimatarem. mas até que ponto teriam divergido nas eter- nidades que os separavam de Diaspar? A delegação deteve-se a alguns passos de Alvin. os trajes pareciam sobretudo funcionais. De dentro de uma das casas saiu um grupo de cinco homens.Creio que seria melhor refrear nossa curiosidade. eram obviamente de uma raça diferente da dos homens de Diaspar. O nome “Seranis” foi precedido de uma palavra desconhecida que Alvin supôs ser alguma espécie de título. e freqüentemente consistiam. . na verdade. e em momento algum ocorreu-lhe 88 . com sua insinuação de vida palpitante e desconhecida.. pois as roupas que ele usava eram completamente diferentes das deles. estendendo a mão no remoto gesto de amizade. .Sabiam que eu estava vindo? . O líder do grupo sorriu. Alvin aceitou a mão estendida.Claro. Pensou em todos os encontros fatídicos que os ho- mens deviam ter tido com raças diferentes em mundos distantes. O orador foi interrompido por um de seus companheiros. Só quando Alvin já se encontrava dentro da vila é que a popu- lação de Lys reagiu à sua presença.

Tinham a pele bem morena. Era assim que a vida começava. mas es- sas eram virtudes que ele havia considerado como naturais du- rante toda a vida. o preço da imortalidade. Ali estava uma coisa que seu mundo havia perdido há tanto tempo que agora era uma coisa relegada ao domínio da mitologia.a de que. e dois deles mostravam marcas inequívocas de idade física. Todos. e um grupo de criaturas pequenas e excitadas irrompeu do bosque e cercou Alvin. não acreditando em seus olhos. Alvin as olhava com meditativa incredulidade . mas que ainda não era capaz de identificar. a luz do sol filtrando-se através de paredes translúcidas banhava todas as coi- sas com um fulgor macio e repousante. mas era difícil defini-las. espantadíssimo. De repente.. num gesto de fingida resigna- ção: . A comitiva deteve-se diante do maior edifício que Alvin já vira ali. Enquanto caminhavam pela vila. e plenamente.pudesse haver alguma coisa de surpreendente nisso. um tanto desconcertantes. e em todos seus movimentos pareciam irradiar um vigor e uma alegria que Alvin achava agra- dáveis. uma flâmula verde balançava ao vento. A população da vila olhava-o agora com franca curiosidade. Nenhum outro sinal faria com que ele sentisse tão profundamente a distância do mundo que ele conhe- cia. antigamente. Diaspar havia pago. . O chão era liso e resistente. se deixaram ficar para trás quando ele penetrou no edifício. Erguia-se no centro da aldeia e. Alvin estudava os homens que o acompanhavam. ao mesmo tempo. se jamais chegasse a Lys. veria que era exatamente igual a Diaspar..e com uma outra sensação que lhe fazia disparar o coração. 89 .Seranis goza de poucos privilégios. Dentro. Não devo privá-la deste. aquelas criaturas barulhentas e fas- cinantes eram crianças humanas. partiram gritos altos e estridentes das árvores à direita.sorriu. Pareciam bondosos e inteligentes. de um mastro na pequena torre circular. ainda que.Muito bem . menos Gerane. Ele pa- rou. Sorriu ao se lembrar da profecia de Khedron . e a remota invenção da gravação dos sons congelara há muito a fala num modelo inque- brável. já não havia nenhuma pretensão de encará-lo naturalmente. enquanto Alvin acompanhava seus guias. e o que ele estava procurando eram maneiras de distingui-los dos habitantes de Diaspar. Gerane encolheu os ombros. Existiam diferenças. havia silêncio e frescor. Diaspar e Lys partilhavam a mesma herança lingüística. Os homens dali eram um pouco mais altos do que Alvin.

Jun- tamente com essas pinturas havia outros murais que nada signi- ficavam para Alvin.coisa um tanto difícil em face daquele intenso escrutínio. nada disse até Alvin ter-se instalado à von- tade . Numa parede estava embutida uma tela cheia de um labirinto de cores em contínua mutação . mas alguns pareciam possuir seis ou mesmo oito pernas. o que. Alvin ficou a imagi- nar quantos anos ela teria. devia ser alguma indicação de idade. e isso explica por que achamos a fala um meio de comu- nicação um tanto lento e difícil. percebeu aquela sabedoria e aquela maturi- dade que ele às vezes sentia quando estava com Jeserac.Não há por que se preocupar. com todas as conseqüências que isso implicava. mesmo inesperado.Esta é uma ocasião que não surge muitas vezes. Dali. ainda que pequeno. Nas paredes. segura- mente devia haver morte. A palavra é coisa pouco utilizada 90 . as árvores abriam-se para circundar amplas campinas. A maioria era formada de quadrúpedes. e acrescentou rapi- damente: . onde pastavam animais de várias espécies diferentes. Alvin não sabia imaginar que animais seriam aqueles. Seranis aguardava-o na sombra da torre. ainda que cordial. e embora seus olhos sorris- sem acolhedoramente. Só poderei entrar em sua mente se você me convidar. A distân- cia. deixara-o confuso. quinhentos ou cinco mil anos. Sorriu ao notar a consternação de Alvin. Ela lhe indicou uma banqueta. A presença de crianças. Nenhum direito é mais res- peitado aqui do que o da intimidade mental. preciso adverti-lo de uma coisa. e o período de vida ali em Lys devia ser bastante diferente do de Diaspar. Depois suspirou e dirigiu-se a ele em voz baixa. Subiram uma curta escadaria circular. e por isso queira me desculpar se eu não conhecer a conduta correta. mas olhando dentro de seus olhos. Posso ler seu pensamento. Há certos direitos e deveres que se prestam a um hóspede. Antes de começarmos a conversar. embora fossem atraentes e agradáveis à vista. Ser-lhe-ia difícil dizer que Sera- nis tinha cinqüenta. gentil: . Mas não seria justo ocultar-lhe esse fato. Onde havia nascimento.recoberto de belos mosaicos. um artista de grande habilidade e força pintara um conjunto de cenas florestais. que os deixou no ter- raço plano do edifício. podia-se ver toda a vila e Alvin obser- vou que ela consistia em aproximadamente cem prédios.provavelmente um receptor de visifo- nia. supunha ele. seus longos cabelos dourados começa- vam a encanecer.

Eu lhe disse . houve alguns momentos de silêncio.Primeiro eu gostaria de saber alguma coisa de você. não foi senão mais tarde que ele compreendeu que muitas outras mentes. . se parecem saber tantas coisas a nosso respeito? Seranis achou graça de sua ânsia. No passado. . por sabê-los verdadeiros. imutáveis.E foi essa a única razão? 91 . À exceção de Diaspar. só existe deserto além de nossas montanhas. não chegou a sur- preender Alvin.ele pediu. .entre nós. .Por que você veio a Lys? Alvin surpreendeu-se com a pergunta. Jamais tinha falado com tanta liberdade. mas. estavam ouvindo suas palavras.Eu queria explorar o mundo. não duvidasse das palavras de Seranis. sua bus- ca chegou ao fim.Daqui a pouco . Era difícil para Alvin imaginar que coisas que faziam parte de sua vida diária não tivessem sentido para al- guém que nunca vivera na cidade e que nada sabia de sua comple- xa cultura e organização social. e depois com crescente segurança. e as máquinas. Quando terminou. afinal encontrava alguém que não ria de seus sonhos.Não sei o que foi que o trouxe de seu mundo para o nosso . . Por uma ou duas vezes Seranis o interrompeu com rá- pidas perguntas. tanto os homens como as máquinas tinham possuído esse poder. Diga-me como descobriu o caminho para cá e por que veio. Todos me diziam que só havia o deserto além da cidade. Vacilante a princípio. e eu queria ver com meus próprios olhos. Mas em Diaspar o ho- mem perdera esse dom que antes compartilhara com seus escra- vos.Por que permaneceram afasta- dos de Diaspar por tanto tempo. . Seranis o ouvia com tal simpatia que ele tomava sua compreensão como pacífica. . ainda eram capazes de ler as ordens de seus senhores. . Sua única sensação foi de tristeza pelo fato de as coisas que ele havia aprendido serem quase totalmente verdadeiras.respondeu.ela disse. além da dela. Foi estranho que Alvin. se o que você procura é vida. Al- vin contou sua história. A revelação. Seranis olhou-o e disse rapidamente: .Fale-me de Lys .continuou Seranis -. embora um tanto alarmante. De- pois. quando ele se referia a algum aspecto de Diaspar desconhecido para ela. que com tanta freqüência havia con- testado crenças universais no passado.

adqui- rira uma cultura diferente. - Algumas eu posso responder. Pode confiar em mim. quando olhou para dentro de sua mente o co- nhecimento estava lá.. e embora não se lembrasse de havê-lo adquirido. uma das mais altas que a humanidade jamais conhecera. mas grande parte da humanidade preferira viver em comunidades relativamente pequenas. . Quando respondeu.. Esse hiato só se fechava em épocas de grande crise. não de maneira clara. olhe para meus olhos. no transcurso das eras. .. Nas Eras do Alvorecer tinham existido milhares de cidades. eu lhe direi o que precisa saber. Houve um eclipse total de seus sentidos.Que quer que eu faça? . mas como um homem do alto de uma montanha veria uma planície nevoenta. mas havia com- preensão em seus olhos. mas seria cansativo fazê-lo em pala- vras. Ainda que não soubesse disso até agora.ela disse. O transporte universal e as comunicações instantâneas lhe davam todo o contato necessário com o resto do mundo. afinal. de centenas de outras comunidades.Sei quais são as perguntas que você quer fazer .Que aceite minha ajuda. e esque- ça-se de tudo .Não foi essa a única razão. quando a Lua começou 92 .disse lentamente. ampliou-se o abismo entre Lys e as outras cidades. Alvin não saberia nunca dizer o que lhe aconteceu. . Alvin hesitou. esperou que ela cumprisse o prometido. . Através das eras. e isso a apartou do resto da sociedade humana. mas a criança perdida nascida num mundo alienígena.. Compreendeu que o Homem nem sempre havia sido um habitante de cidades e que. nos primeiros dias. Era uma cultura baseada fundamentalmente no uso direto do poder mental.Não . e não sentiam nenhuma necessidade de viver amontoados com milhões de seres de sua espécie. desde que as máquinas o haviam libertado do trabalho. e à medida que seguiam caminhos diferen- tes. Ele pôde olhar o passado. Se você abrir-me sua mente. Mas gradualmente.Seranis sorria..Solitário? Em Diaspar? . . que passava a confiar cada vez mais nas máquinas. Seranis então levantou-se e começou a an- dar de um lado para outro. Lys pouco diferia. não era o explo- rador indômito quem falava. Agora que havia contado toda sua história.ordenou Seranis. surgira uma rivalidade entre dois tipos diferentes de civi- lização. e Alvin percebeu que ela não esperava maiores explicações. Nada tirarei de você sem sua permissão. .perguntou Alvin cautelosamente. sentia-me solitário..

talvez por expressa deliberação. a paralisia dos sentidos de Alvin dimi- nuiu e ele voltou a si. capaz de ter a mesma duração da Terra. A maioria dessas mudanças não afetou Lys. Você verá que mes- mo nas Eras do Alvorecer tínhamos muito pouco em comum com as cidades. mas ao invés disso ela conseguiu for- mar uma cultura estável. quando as cidades começaram a morrer. . muito resumida. teve início a migração que faria de Diaspar a última e a maior de todas as cidades. mas. é nossa história. sua destruição foi empreendida pelos cientistas de Lys. e que a leste o céu já tinha sombras da noite.. e muitas eras se passaram antes que o grande oásis fosse tornado seguro. não quisemos ser envolvidos em sua derrocada. Esse caminho foi fechado lá. Em al- gum lugar vibrou um grande sino. como se muitas outras línguas falassem em uníssono com a dela. as imagens se borravam. mas ela tinha sua própria batalha a ser travada . com a construção do Parque. ainda que seus habitantes viessem muitas vezes à nos- sa terra. e quase sempre foram homens extraordinários. Ao reduzir- se a população. Alvin não podia ver o que dera a Lys a virtual eternidade que Dias- par havia conseguido.” A voz desvaneceu-se. A grande provação havia exaurido a humanidade. as cidades morreram e o deserto rolou sobre elas. e vocês nos esqueceram.Essa. O mesmo aconteceu com a defesa da Terra contra os Invasores. embora nunca nos tenhamos esquecido de vocês. Viu com espanto que o Sol havia mergulhado sob as árvores.a cair. os quais foram detidos na batalha final de Shalmirane.mas não era apenas sua voz. A voz de Seranis parecia vir de grande distância . só restou um caminho para Lys . que trou- xeram consigo alguma coisa de valor quando vieram para Lys. Não é uma cultura que conte com nossa admiração. deixando o ar tenso de mistério e premonições. Nunca os impedimos. pois muitos de nossos maiores ho- mens vieram do Exterior. não por causa do primeiro toque do 93 ..o sistema subterrâneo que parte de Diaspar. mas ficamos felizes com o fato de que aqueles que desejaram escapar o tenham conseguido.a luta contra o deserto. Com o fim do transporte aéreo. “Diaspar surpreendeu-nos. Uma a uma. pois ela parecia fundida com uma sinfonia de palavras. com uma pulsação que morreu lentamente. Alvin deu consigo tremendo de leve. Nesse ponto. Muito mais gente do que você imagina empreendeu a viagem. A bar- reira natural das montanhas não era suficiente. Esperávamos que ela seguisse o destino das demais cidades.

disse.perguntou Alvin. Essa resposta irradiava tanta superioridade inconsciente.. Pela primeira vez. . . mesmo que soubesse que há outro lugar para onde ir.Receio que as coisas não sejam assim tão fáceis . . Se os portões fossem abertos.frio da noite. seria impossível manter o segredo. . .explicou Seranis ...Não creio que vocês encontrassem outra pessoa em Diaspar disposta a deixar a cidade. Não podia explicar o motivo da pequena fraude de que lançara mão. eles estão me esperando. e sentiu-se ligeiramente envergonhado tão logo pronunciou as palavras.disse secamente. nem exatamente como ha- viam conferenciado. Seranis mostrou desagrado. posto que baseada em falsas premissas.Isso não é verdade .O veículo que me trouxe não pode levar-me de volta? . meus pais. . .Tenho de voltar . . mas Alvin tinha plena certeza de que ninguém mais sabia que havia abandonado Dias- par.Essa decisão não é minha .Khedron. Sentiu súbita necessidade de rever seus amigos e achar-se entre os aspectos e as cenas familiares de Diaspar. Isso não era exatamente verdade. Khedron com toda certeza estaria pensando no que lhe acontecera. Seranis parecia ligeiramente embaraçada. . isso não causaria nenhuma diferença a Lys.explicou.Não pensamos assim. mas em conseqüência do assombro que lhe causava tudo aquilo que acabara de aprender.Nós estivemos conversando a seu respeito . sem especificar quem faria parte do “nós”..Se você voltar para Diaspar. Se eu voltasse... .Ele ainda se recusava a en- frentar o fato de que poderia ser mantido em Lys contra a vontade. Seranis olhou-o pensativamente. Já era muito tarde e estava longe de casa. que Alvin sentiu um abor- recimento que prontamente superava seu alarme. só os melhores dentre sua gente chegaram até aqui. Da maneira como as coisas estão.perguntou Alvin.O que quer dizer? . seria ótimo para ambos os povos se voltas- sem a se encontrar. .Evidentemente. . Mesmo que você prometesse não dizer nada.e você está subestimando os poderes da mente. mesmo que pudesse.disse.E por que desejam que isso fique em segredo? . ainda que essa idéia tivesse passado rapidamente por sua mente. nossa terra seria invadida por curiosos indolentes e caçadores de sensa- ções. toda a cidade ficará sabendo de nós. . se julga que as barreiras que 94 .

Outros homens já vieram aqui antes e disseram aos amigos para onde iam. desvendar todos os segredos daquele mundo novo.disse. .ela respondeu.Khedron sabe onde estou . a presença de um poder irresistível e implacável. Seranis sorriu. Al- vin divisou. Posso chegar a Diaspar em menos tempo do que preciso para atravessar Lys. mas Alvin imaginava se não haveria circunstâncias em que essa promessa não fosse cumprida.Evidentemente. Pensou quantas vezes. nos milhões de anos decorridos desde a separação das duas culturas. e mesmo que compreendesse. forças que não hesitavam em utilizar. Fora tolice de Alvin ignorar essa possibilidade. esses amigos esqueceram-se deles e eles desapareceram da história de Diaspar. por trás dele. Não podia compre- ender as razões que levavam a esse desejo de segredo. estava igualmente resolvido a voltar.. Seria seguro fazer planos? Seranis prometera respeitar sua mente. Contudo. Mas se você se resolver dentro de poucos dias. Entretanto. a fim de mostrar a seus ami- gos que não sonhara com coisas inexistentes. .Pode ficar quanto tempo quiser e retornar à sua cidade. se assim preferir. Aquela era uma opção que Alvin se recusava a aceitar. isso não teria feito diferença alguma em seu comportamento. . Compreendeu que devia ganhar tempo.disse ele.respondeu Seranis.Essa questão nunca surgiu antes. Alvin . que em outras cir- cunstâncias teria sido bastante cordial. pela primeira vez. bastante óbvia depois que Seranis a apontara. Ele queria explorar Lys.isolam seu povo nunca poderão ser quebradas. No entanto. descobrir em que ele se distinguia de Diaspar. . Não desejamos mantê-lo aqui contra sua vontade. foi para ficar.Isso seria fací- limo. mas se você regressar a Diaspar teremos de cancelar de sua mente todas as lembranças de Lys. . E imaginou até onde não iriam as forças mentais daquela gente estranha.Vocês não podem apagar as memórias dele.. homens de Lys não haveriam penetrado em Diaspar a fim de preservar o segredo ciosamente protegido. .Claro . vocês não esperam que eu tome uma de- cisão imediata . - Hesitou por um instante. Era um sorriso agradável. .Você nos subestima.Posso conhecer o país antes de me decidir? . as coisas serão muito mais fáceis. Você não 95 . ou então convencer Seranis de que aquilo que ela lhe pedia era impossível. To- dos os seus antecessores que vieram. .

por que não cancelava os circuitos de memória que guardavam indícios de sua existência? Talvez fos- se essa a única pergunta a que Alvin poderia dar resposta plausí- vel.Temos orgulho de Lys e será um prazer mostrar como os homens podem viver sem a ajuda de cidades. O Computador Central era adversário teimoso demais para ser manejado e dificilmente seria afetado mesmo pelas mais avançadas técnicas mentais.disse. e dessa vez seu sorriso não encerrava qualquer ameaça oculta. mas as informações que ele e Khedron possuíam seriam obli- teradas.. poderia vir ter oportunidade de elu- cidá-los.. Era a primeira vez em sua vida que Seranis fazia uma pro- messa que não poderia cumprir. ..Ótimo .Muito bem . e quanto mais tempo você demorar mais difícil para nós será tomarmos as providências necessárias. Era ocioso especular. Entrementes. quando mais não seja para nossa própria proteção. . pois ainda estava aborrecido com o surgimento daquele obstáculo inesperadamente posto em seu caminho. Havia muitos mistérios em Lys. Haveria algum propósito por trás da curio- sa relação unilateral entre Lys e Diaspar. Provavelmente alguém de Lys entraria em contato com Khedron . construir pirâmides de conjecturas sobre alicerces de ignorância. e se a gente de Lys podia entrar em Diaspar. Alvin pôs esses problemas de lado. .sem que o Bufão percebesse . se você me mostrar como é o seu mundo. seus amigos não ficarão alarmados com sua ausência. e ele não parecia perto de so- lucionar nenhum deles. não há necessidade de você se preocupar.Vou dar-lhe minha resposta assim que possível. embora a contragosto. Um dia. ou tratava-se apenas de um acidente histórico? Quem e o que eram os Únicos.quer que seus amigos fiquem preocupados. O desaparecimento de Alvin não poderia ser oculta- do. Alvin entendia isso. . o nome de Alvin se juntaria ao de outros Únicos que haviam desaparecido misteriosamente. depois de ter aprendido muito mais coisas. gostaria de saber exatamente que “pro- vidências” eram essas. Com o passar do tempo.. Cuidaremos disso.e influencia- ria sua mente.respondeu Seranis. e que agora estavam esquecidos. 96 . sem deixar vestígios.

Todas as garantias de Khedron de que isso não acontecia foram vãs. ao voltar à superfície. A princípio. senão teme- rário. quase certo. Alystra não conseguiu extrair maiores informações de Khedron. e Khedron não queria que outra pessoa desco- brisse o segredo de Yarlan Zey. ficando aliviado quando ela resolveu acom- panhá-lo de volta à cidade. não acreditava realmente que viesse a correr qualquer perigo. Isto é. interpretando-o desde logo como sinal de que Alvin corria perigo. Sentia-se também envergonhado de sua conduta covarde. Decidiu que o mais sensato se- ria dizer o mínimo possível por enquanto. era patente a Khedron que suas táticas evasivas haviam fracassado redondamente e que a situação corria sério risco de escapar a seu controle. Infelizmente. Muito embora acreditasse que Alvin fora impaciente. e pensava consigo mesmo se algum dia teria forças para retornar à câmara das Vias Móveis e à rede de túneis que dali se irradiavam. Alystra manifestara desejo de permanecer no Túmulo. Ela vira o medo inequivocamente gravado em seus olhos. e tentar fazer com que tudo aquilo parecesse outro de seus gracejos. porém. Havia uma possibilidade de que Alvin voltasse quase logo. CAPÍTULO XI Por mais que tentasse. esperando que Alvin retornasse da mesma forma misteriosa que havia desaparecido. bem como do pânico que o fizera subir correndo à superfície quando se viu só nas profundezas sob o Tú- mulo. Estava certo de que mais cedo ou mais tarde voltaria. Era a primeira vez em sua vida que não sabia como proceder e que não se sentia capaz de resolver qualquer problema que surgisse. Khedron conseguira convencê-la de que isso seria perda de tempo. Já ao chegarem à cidade. O Bufão havia-se recuperado rapidamen- te de seu choque inicial. havia em seu espírito dúvida suficiente para fazer com que sentisse a necessidade de cautela. e ela se mostrava cada vez mais furiosa com ele enquanto voltavam pelo Parque. Seu medo imediato e irracional estava sendo aos poucos substituído por um alarme 97 . não fora capaz de ocultar suas emoções quando Alystra o encontrou.

assim como uma leve. ocultou-o bem . porém legítima. tinham sido suficientes para motivá-lo a fazer o que acabara de fazer. Jeserac escutou-lhe a história sem qualquer emoção visí- vel. Alystra agiu rapidamente e com inteligência. Os pais de Alvin eram pes- soas medíocres. Quando acabou de falar. ela seria a última pessoa a lamentá-lo. imaginando com cansaço que pla- nos estaria ela arquitetando. A única reação positiva que ela obteve junto a Jeserac foi a 98 . e o comportamento sereno de Jeserac decepcionou-a. jamais acreditara que qualquer coisa daquele gênero pudesse de fato acontecer. era um pouco injusto que Alystra obviamente o considerasse a ovelha-negra de Alvin e se mostrasse inclinada a culpá-lo de tudo quanto acontecera. Até agora. Parecia-lhe que nada tão importante como aquilo já havia acontecido no passado. simpa- tia por Alvin. por quem sentia afeição. Não se deu ao trabalho de procurar Eriston e Etania. Só perderiam tempo em discussões estéreis. o fato de Khedron estar envolvido naquilo tornava essa possibilidade altamente provável. Despediram-se num silêncio pétreo quando chegaram ao grande caminho circular que circundava o Parque. Em vista disso. Conquanto tivesse dado ajuda e estímulo a Alvin. mas estava transtornada e parte desse sentimento era descarregado sobre Khedron. insinuando. mas nenhum respeito. Khedron sempre dera pouca atenção às conseqüências de seus atos. Alvin poderia estar rindo dela. Era tarde demais agora para remediar isso. para Khedron. Durante muito tempo não correria qualquer perigo de tédio. que Alystra se sentiu desapontada. a personalidade de Alvin sempre tinha sido mais forte do que a sua. Se estava alarmado ou surpreso. os acontecimentos estavam levando-o de roldão para um clímax intei- ramente além de seu controle. Se qualquer ato seu causasse prejuí- zo ao Bufão. Só havia uma coisa de que podia estar seguro.mais profundo e mais bem fundamentado. Apesar do abismo de anos e de experiência que os separava. Naquele exato momento. Que razão teria para supor que Alvin havia realmente deixado a cidade? Tal- vez tudo aquilo não passasse de uma brincadeira às suas custas. Seus próprios interesses. Khedron viu a moça desaparecer na distância. e depois fariam exata- mente o que Alystra estava fazendo agora. Alystra não era realmente vingativa. sem dizer claramente. que ela poderia ter cometido um engano. escondido em algum lugar de Diaspar.tão bem. ele a interrogou prolongadamente. na verdade.

Jeserac tinha amigos no Conselho. e poderia voltar a fazê-lo se não tivesse sorte. Houve concordância unânime em que a primeira coisa a fazer era entrar em contacto com Khedron e pedir-lhe explicações. ele próprio havia parti- cipado da junta em sua longa vida. Tudo que ele havia descoberto com certeza era que Lys estava dividida em inúmeras vilas. Khedron previra que isso aconte- ceria e não podia ser encontrado em parte alguma. As diferenças chegavam mesmo a coisas tão básicas como a linguagem. teria ficado mais satisfeita se visse o comportamento do ancião assim que ela saiu. No entanto. Nesse ínterim. Como tutor de Alvin. Tudo era extremamente con- fuso.embora governar fosse pa- lavra forte demais para definir sua função. quanto menos pessoas sou- bessem o que havia acontecido. As vezes parecia a Alvin que ela era uma ditadora benevolente. No entanto. ademais. e estava ansioso por salvaguardar-se. despertou-lhes o interesse. cautelosamente. Só havia um problema nesse plano. às vezes parecia-lhe que ela não exercia absolutamente poder algum. seus anfitriões tiveram todo cuidado de não deixar que ele a percebesse. estava ciente de sua própria posição. a pequena aldeia governada por Seranis . Por ora.promessa de que faria investigações e entraria em contato com ela novamente no dia seguinte. das quais Airlee era exemplo bastante típico. Até agora não havia compreendido nada do sistema social de Lys. que ela não se preocu- passe. Não havia pratica- mente um só aspecto da vida que não diferisse de seu equivalente em Diaspar. Conquanto fosse muito pequena. em certo sentido não havia exemplos típicos. Não havia por que semear o alarme com relação a um incidente que provavelmente estaria resolvido dentro de poucas horas. seria melhor não comentar nada com ninguém a respeito do caso. e depois 99 . Se havia alguma ambigüidade com relação à situação de Al- vin. possuindo menos de mil habitantes. pois haviam garantido a Alvin que cada vila procurava ser o mais diferente possível da vizinha. Airlee encerrava muitas surpresas. Apenas as crianças usavam a voz para a comu- nicação normal. Chamou três de seus colegas mais influentes e. melhor. Tinha liberdade para ir onde quisesse em Airlee. bastante delicada. fosse por ser simples demais ou por ser de tal modo complexo que suas ramificações lhe escapavam. os adultos praticamente nunca falavam. Alystra saiu de seu encontro com Jeserac sentindo-se ligeira- mente frustrada.

Parecia surpreendente até que a fala vocal houvesse sobrevivido. Possuíam um vocabulário bastante extenso e Alvin entreouviu-os 100 . explicaram-lhe pacientemente que a gente de Lys gostava de ver as coisas crescerem. realizar complicadas experi- ências genéticas. adquirir gostos e paladares cada vez mais sutis. e pareciam gostar. Tratava-se de experiência curiosamente frustran- te sentir-se enredado numa enorme teia de palavras sem som e indetectáveis. empenhados em tarefas ou problemas que em geral Alvin não compreendia. Logo percebeu não ser esse o caso. Airlee era famosa por suas frutas. mas após algum tempo Alvin habituou-se. A princípio. muito dócil e forte. Estavam todos sempre ocupados. Alvin des- cobriu que a gente de Lys amava o canto e. e não sintetizada de acordo com padrões determinados remotamente no passado. Sem esse incentivo. na verdade.de algum tempo Alvin concluiu que quando o faziam era por de- ferência a ele. mas quando Alvin provou algu- mas. O exemplo mais notável disso era proporcionado pelo sistema de transportes. era bastante provável que há muito tivessem ficado inteiramente mudos. mais tarde.os poderes e as máquinas que ele tomava como naturais e sobre as quais se baseava toda a vida em Diaspar. parte substancial de seus alimentos era cultivada. se é que merecia tal nome. A espécie de carga era um animal bai- xo. e o passageiro viajava num assento dotado de eixo e atado ao lombo da criatura. Podiam atravessar toda a extensão de Lys em poucas horas. porém.ou se nunca possuíra . e tinham plena consciência disso. grande parte desse trabalho lhe parecia in- teiramente desnecessário. Para distâncias curtas. As ferramentas e o conhecimento existiam. Quando Alvin comentou a esse respeito. não lhe pareceram melhores do que as que ele poderia obter em Diaspar sem esforço maior do que levantar um dedo. as pessoas anda- vam. Se tinham pressa ou precisavam transpor- tar pequenas cargas. todas as formas de música. uma vez que já não tinha qualquer serventia. Nada no mundo teria induzido Alvin a se arris- car a uma viagem dessas. Por exemplo. ainda que tais corridas representassem esporte dos mais populares entre os rapazes. usavam animais que obviamente tinham sido desenvolvidos para esse fim. normalmente andavam sobre as quatro patas. Os animais de corrida pertenciam a uma raça totalmente diferente. mas utilizavam so- mente seus musculosos membros traseiros quando ganhavam for- te velocidade. mas carente de inteligência. Quando entendia o que estavam fazendo. mas só eram usados quando essenciais. imaginou se o povo de Lys teria esquecido . de seis pernas. Seus corcéis eram os aristocratas do mundo animal.

Mas quando se faziam necessárias altas velocidades. Ainda que a vida animal de Lys apresentasse a Alvin todo um mundo novo de interesses e surpresas. não pedindo mais da vida. Até onde Alvin podia perceber. Parecia passar a maior parte do tempo sentado ao Sol. já havia quase esgotado suas forças físicas. com ar de ofendida dignidade. Esses dois tipos de animal bastavam a todas as necessida- des comuns. através dos milênios. sua lógica e até mesmo sua linguagem eram tão exóticas. Os muito jovens e os muito velhos . aquelas criaturinhas que lhe eram tão estranhas quanto os animais de Lys.conversando jactanciosamente entre si sobre vitórias passadas e futuras. Quando ele tivesse chegado àquela idade. como compensação. usadas sem hesitação. nem se mostrando aflito com o fim que se avizinhava. na esperança de vidas futuras. eram os dois extremos da população humana que mais o fascinavam. Alvin olhava incre- 101 . Por que have- ria uma pessoa de aceitar a morte. quando se tinha a opção de viver mil anos e depois saltar adiante.ambos eram igualmente estranhos e igualmente assombrosos.então entravam em cena as máquinas. fingiam não ser capazes de compreendê-lo e. Ali estava uma filosofia tão discrepante da de Diaspar que escapava inteiramente ao entendimento de Alvin. lembrou-se Alvin. e proporcionavam a seus proprietários grande soma de prazer que nenhum artifício mecânico poderia ter sobrepujado.ao passo que aquele velho. uma vez que seus motivos. Parte da resposta ele a encontrava entre as crianças.e dispunha apenas de mais alguns anos de vida. Mas. Por vezes lhe parecia que não fossem absolutamente humanas. seu corpo quase não se teria alterado . Era dificílimo para ele acreditar que Lys houvesse feito essa opção por livre vontade. Passava muito tempo entre elas. que não podia consolar-se. O habitante mais idoso de Airlee não teria atingido seu segundo século . Os ca- belos estavam completamente brancos e seu rosto era uma mas- sa inacreditavelmente intrincada de rugas. saíam marchando aos solavancos. ou caminhando vagarosamente em torno da vila. se persistia. se ela era tão desnecessária. no caso de saber que havia alternativa. quando procurava ser cordial e tomar parte na con- versa. e começar de novo num mundo que havia ajudado a formar? Isso era um mistério que ele estava resolvido a desvendar tão logo tivesse oportunidade de discuti-lo com fran- queza. trocando saudações com todos quanto encontrava. vendo-as brincar e sendo por fim aceito por elas como amigo. ou quando era preciso movimentar cargas enormes . mostrava-se inteiramente satisfeito.

despertavam em seu coração um sentimento que jamais havia conhecido. mas é claro que você poderá ir aonde quiser. . Alvin havia encontrado amor em Diaspar. esta também o estudava. permane- cendo para sempre incompleto . Imaginou se não haveria objeção se tentasse voltar ao outeiro de cujo topo vira Lys pela primeira vez. e sem a qual o próprio amor jamais conseguiria alcançar a suprema realização. embora não as compreendesse. Como este é um caso excepcional. Alvin havia levado algum tempo para se acostumar com Hilvar. Quando rompiam em lágrimas de frustração ou desespero . mas às vezes acontecia -. Hilvar será seu guia.dulamente para os adultos e se perguntava como era possível que houvessem brotado daquelas criaturas extraordinárias que pare- ciam passar a maior parte da vida em seu mundo privado. na verdade. Apreciou o gesto de Seranis. que ainda estava satisfeito em viver o presente. pouca atenção dedicara ao problema de sua volta desde seu encontro inicial com Seranis. Isso era algo por demais grandioso e remoto para sua compreensão. seus insignificantes desapon- tamentos pareciam-lhe mais trágicos do que toda a longa retirada do Homem após a perda de seu Império Galático. Foi uma proposta que ele aceitou imediatamente . não era mais notada do que o ar que se 102 .estava aprendendo a conhecer a ternura. mas o choro de uma criança era capaz de transpassar o coração de uma pessoa.disse Seranis. Se Alvin estava estudando Lys. conquanto não restasse dúvidas de que Hilvar recebera instruções precisas no sentido de evitar que ele criasse problemas.Posso garantir-lhe .sob a condição de não ter de viajar num dos tão admirados animais de corrida da vila. providencia- rei uma forma de transporte na qual você se sinta mais à vontade. oferecendo-lhe o filho como guia. numa rara demonstra- ção de humor . por um motivo que não lhe podia explicar muito bem sem melindrá-lo. sem insatisfação com o que havia descoberto. uma vez que não tinha pressa em voltar para Dias- par. A vida ali era tão interes- sante e diferente. Ainda assim. A perfeição física era tão universal em Diaspar que a beleza pessoal perdera totalmente o significado. Contudo. Alvin perguntou a si mesmo se isso seria rigorosamente ver- dade.o que não era comum. mas agora estava aprendendo uma coisa igualmente preciosa. Alvin já estava há três dias em Airlee quando Seranis lhe sugeriu que fosse um pouco mais longe e visse mais coisas. isso não o preo- cupava por ora.que ninguém aqui sonharia em arriscar um de seus preciosos animais.

Ainda que o grande inseto atendesse quando chamado e atendesse . Se alguma coisa o incomodava. era quase totalmente desprovido de cérebro. Deixaram Airlee logo ao romper da aurora. pois a história natural era a paixão de sua vida. ele era simplesmente feio. Silenciosa como um espectro. por algum motivo. e não gostaria que ele se modificasse por nenhum motivo. num pequeno ve- ículo que Hilvar chamava de carro terrestre e que aparentemente funcionava segundo o mesmo princípio que a máquina que trou- xera Alvin de Diaspar. Hilvar lhe disse que os carros só podiam correr em rotas predeterminadas. Hilvar dedicara muito esforço na organização daquela expe- dição. O mesmo não ocorria em Lys e a qualificação mais lison- jeira que se poderia aplicar a Hilvar era “sem graça”. um companheiro . não deu qualquer demonstração. Todos os centros populacionais estavam ligados dessa maneira. não tardando que sua cordialidade amena rompes- se a barreira entre eles. o qual reluzia através delas como um cetro cra- vejado de gemas.às vezes . as seis asas diáfanas de Krif permaneciam dobradas sobre o seu corpo. e ele nutria esperanças de encontrar novos tipos de insetos nas regiões relativamente pouco habitadas de Lys pelas quais passa- riam. Viajava a uma velocidade de aproximadamente dez vezes a de um 103 . à sua força e à sua cordura. e durante algum tempo deliberadamente o evitou. elevava-se no ar com um adejar iridescente e um ligeiro rumorejar de asas invisíveis. e evidentemente estava tão ansioso por tomar parte nela quanto Alvin.a ordens simples. Flutuava no ar alguns centímetros sobre a relva e. Para Alvin a viagem por Lys tinha algo de sonho. jamais se desviando de seu trilho invisível. Tinham com eles. a máquina deslizava pelas planícies ondulantes e contornava florestas. embora não houvesse nenhum sinal de carril. Havia planejado o trajeto tendo em mente seus pró- prios interesses. Se Hilvar percebeu. mas durante toda sua estada em Lys. Segundo os padrões de Alvin. Sem compreender as implicações disso. Chegaria um dia em que Alvin de tal modo se acostumaria ao sorriso largo e mais torto de Hilvar.respirava. Pretendia chegar ao ponto mais meridional que a máquina os levasse. suspeitava de Alvin. na viagem. que mal acreditaria que jamais o tivesse achado re- pelente. No entanto. Alvin nunca viu outro carro terrestre em funcionamento. cujas tentativas esporá- dicas de ganhar sua confiança sempre terminavam em fracasso.Krif. possuía decididamente personalidade própria e. Alvin não opôs objeção. Quando estava descansando. o mais espetacular dos animais de estimação de Hilvar. o resto da viagem teria de ser feito a pé.

Passaram por muitas vilas. enquanto lâminas incontáveis curvavam-se em uníssono sobre eles. A civilização de Lys compunha-se de centenas de culturas distintas. mas a maioria construída de modo bastante análogo. Mostraram-se obviamente muito satisfei- tos por se rever. Ao reiniciarem a viagem. Isso devia ser-lhes muitas vezes bastante incômodo. após um intervalo discreto. mas substanciais. algumas maiores do que Airlee. Não imaginava como poderia ser o amor numa so- ciedade telepática e. pois Alvin teve a fantasia tola de que a erva curvava-se a fim de olhá-lo. que nunca deixava de ficar impressionado pela cortesia sim- ples com que todos usavam a voz tão logo ficavam a par de quem era ele. abordou o assun- to. Não havia muito o que ver na aldeia. raramente um habi- tante de Lys experimentava maior velocidade. verificou que o movimento contínuo era bastante tranqüilizador. porém. no vestuá- rio e até mesmo no aspecto físico entre uma comunidade e outra. estava ansioso por fazer muitas per- guntas a Hilvar. cada uma das quais contribuía com algum talento especial para a totalidade. quase ocul- ta por um mar de altos ervais dourados que subiam bem acima de suas cabeças e ondulavam à brisa como se dotados de vida. Alvin interes- sou-se em notar as diferenças sutis. Alvin logo entendeu por que haviam feito a pausa. havia uma moça morena e tímida. Muitas vezes parava para conversar com amigos e apresentá-los a Alvin. 104 . A princípio. ao que lhe era dado perceber. e Alvin invejou-lhes a evidente felicidade causada pelo breve encontro. Hilvar dispôs-se de bom grado a explicar-lhe tudo. mas. eram continuamente afagados por ondas inces- santes. Hilvar estava claramente dividido entre seus deveres como guia e o desejo de não ter outra companhia senão a de Nyara.homem caminhando sem pressa: na verdade. O carro terrestre levava bom estoque do mais famoso produto de Airlee. sempre resistiam à tentação de usar a telepatia e Alvín jamais se sentia excluído da conversa. de- pois de algum tempo. que Hilvar lhe apresentou como Nyara. Alvin salvou-o do dilema saindo sozinho para um giro de exploração. mas aproveitou bem o passeio. No meio da pequena multidão que já se reunira antes que o carro deslizas- se para a aldeia. embora ele suspeitasse haver obrigado o amigo a interromper uma prolongada e terna despedida mental. um minúsculo pêssego amarelo que era recebi- do com gratidão sempre que Hilvar distribuía algumas amostras. isso era ligeiramente aborrecido. Ao passarem por eles. Fizeram pausa mais longa numa vila minúscula.

apenas o amor baseado numa absoluta falta de egoísmo poderia sobreviver a ela. ex- plicou Hilvar. Em Lys. que terminou abrupta- mente.Não podemos mais continuar de carro. que julgou difícil acreditar que pudesse realmente ocor- rer. Entretanto. como se houvesse sido traçada uma fronteira além da qual a relva não poderia crescer.É aqui que começamos a caminhar .Mas não vamos contorná- las. e depois o assen- to confortável em que estivera viajando. era impossível haver falsas impressões. poder-se-ia jurar. ao que parecia. Hilvar garantiu que ocorria.Não há maneira de contorná-las? . todo amor começava com contato mental.. Vou pôr 105 . era inteiramente despida de qualquer má fé. Quando o carro emergiu da savana. Havia certas coisas que não podiam ser comunicadas. . a outra logo saberia que alguma coisa estava sendo escondida. Alvin olhou as colinas que os circundavam. Duas pessoas cujas mentes estavam abertas uma para a outra não podiam ocultar segredos. O carro deteve-se num vale estreito e abrigado. . seria tão perfeito. o que é muito mais interessante. Alvin entendia bem que tal amor seria mais profundo e mais rico do que qualquer coisa que sua própria gente podia conhecer. podendo-se passar meses ou anos antes que um casal efe- tivamente se encontrasse. . Alvin chegou tristemen- te à conclusão de que jamais seria capaz de atingir o tipo de mútuo entendimento que aquelas felizes criaturas haviam transformado em base de suas vidas. bem como fraudes de ambas as partes.Claro que há . da principal fortaleza que protegia Lys. Apenas as mentes muito amadurecidas e equilibradas po- diam-se permitir tal honestidade. As verdadei- ras montanhas achavam-se mais além.disse jovialmente. .replicou Hilvar. Vamos subir ao alto. seus olhos brilharam e ele perdeu-se em devaneios quando Alvin o incitou a ser mais ex- plícito. Hilvar olhou para Alvin com uma espécie de franqueza direta que. . Assim. Tratava-se de um posto avançado. mas para Alvin até mesmo aquelas diminutas colinas representaram uma imponente e colos- sal visão. ou uma pessoa as conhecia. explicou Hilvar. Se uma delas tentasse. ainda banha- do pelo calor e pela luz do poente. pon- do-se a descarregar equipamentos do veículo. havia uma zona de colinas baixas e arborizadas à frente deles. ou não conhecia. na verdade..perguntou sem muitas esperanças.

não pesava praticamente nada. começaram a caminhar lentamente pelo vale. era muito agradável a escalada. . não tinha consciên- cia de estar transportando carga alguma. mas não parecia provir de nenhuma direção determinada. de modo que ele estará esperando por nós quando descermos do outro lado. deixando apenas a força de inércia. O manejo daqueles reci- pientes exigia certa prática. Alvin fez uma tentativa fi- nal.protestou. Não podia detectar seu rumo. .Vamos passar a noite no topo e ter- minar a viagem de manhã. o uso de ferramentas e fogo. vendo o carro terres- tre voltar atrás e desaparecer de vista. 106 . até que ele vencesse o impulso. e soube que havia muitos animais pequenos naquelas colinas - alguns solitários.Daqui a pouco estará escuro . tanto ele como Hilvar consideravam a idéia indis- cutível. Tudo estava embalado em recipientes polarizadores de gravi- dade que neutralizavam o peso. Alvin olhou para trás com tristeza. Resolvido a não ceder sem luta. . Fazia meia hora que subiam quando Alvin observou o mur- múrio fraco e reverberante no ar em torno. mas que Hilvar era capaz de seguir mesmo quando Alvin não per- cebia o menor sinal dela. Alguns deles ha- viam descoberto. Quando Hilvar terminou de ajustar todas as correias e verifi- cou que estava tudo em ordem.Não conseguire- mos percorrer todo o caminho antes do pôr-do-sol. Ao mesmo tempo que se movia em linha reta. Jamais ocorreu a Alvin que tais criaturas pudessem deixar de ser benignas. outros vivendo em comunidades primitivas que repetiam muitos aspectos da civilização humana. pois já estavam distantes as eras em que qualquer coisa houvesse contestado a supremacia do Homem na Terra.anuiu Hilvar. a carga parecia adquirir personalidade obstinada e fazia todo o possível para mantê-lo em seu rumo original. pois se tentava uma súbita mudança de direção. Não obstante. O equipamento que estavam transportando parecia imenso. imaginou quantas horas transcorreriam antes que ele pudesse repousar mais uma vez em seu conforto. .o carro no automático. arrumando pacotes e equipa- mentos com incrível rapidez. ou lhes fora ensinado.Exatamente . Alvin reconheceu a derrota. com o Sol su- ave às suas costas e em meio a paisagens magníficas. Havia uma trilha parcialmente obliterada que desaparecia de vez em quando. Perguntou a Hilvar quem fizera a trilha. mas. embora volumoso.

107 . deixando seus corpos serem banhados pelo Sol suave. E da extremidade mais distante da face do penhasco saltava uma possante fita de água. As árvores que cobriam a parte inferior do monte já rareavam. em toda sua vida nunca passara por um momento de doença. não bastava para a tarefa que enfrentava agora. Tratava-se de um jogo sem malícia e ele entrou no espírito da brincadeira. mas não a habilidade necessária. que logo se tornava um penhasco quase vertical. As passadas largas de Hilvar. Ali. Estavam agora correndo contra o Sol. Dali em diante a encosta precipitava-se ingrememente. Hilvar sentiu pena dele ao terem completado dois terços da escalada. por mais importante e necessário que fosse. sobre a qual a caminhada era agradabilíssima. e nas últimas centenas de metros o chão era atapetado de relva curta e espinhenta. Disse que a surpresa ficaria estragada se Alvin soubesse o que es- perava ao fim da subida. Na verdade. enquanto das profundezas subia aquele trovão incessante e ribombante. a duras penas. Hilvar recusou-se a responder. Contudo. Teria perguntado a Hilvar do que se tratava. como se cansadas demais para lutar contra a gravidade. Sabia perfeitamente que Hilvar testava-o e não se aborrecia com isso. que se curvava no espaço para rebentar nos rochedos trezentos metros abaixo. Alvin resolveu ignorar o desafio. Hilvar deu vazão a um repentino assomo de energia e pôs-se a correr. e ver a origem do trovão incessan- te que agora enchia o ar. ainda que a fadiga se espalhasse lentamente por seus membros. e embora Alvin lhe perguntasse o que era aquilo. a força serena que o fazia superar todas as encostas. Alvin tinha saúde perfeita. desde o topo do monte . mas felizmente o resto da ascensão era suave e serena. perdia-se numa névoa re- luzente de vapor. mas tornara-se necessário poupar o fôlego para outras finalidades. e quando atingiu Hilvar caiu exausto a seu lado.Nunca cessava e tornava-se cada vez mais forte à medida que a paisagem se abria em torno deles. o bem-estar físico. reverberando em ecos surdos nas colinas do outro lado. Bastava-lhe poder continuar. enchiam Alvin de inveja . não lhe restava outra alternativa.e de determinação de não ceder enquanto fosse capaz de ainda pôr um pé diante do outro.tão íngreme. na verda- de. O trovão palpitante era fortíssimo agora. era a descida. Ele possuía o corpo. Só quando recuperou o fôlego é que pôde apreciar o pano- rama que se abria a seus pés. descansaram por um momento apoiados num barranco que dava para oeste. na verdade.

E ainda mais além.disse. Em todos os demais lugares.ne- nhum indício das clareiras e rios disciplinados que proclamavam a presença do Homem. Oculta em algum ponto do vasto panorama estava a vila de Airlee. . A leste e oeste. Alvin imaginou ter um vislumbre do lago pelo qual havia passado ao chegar a Lys. Somente em um ponto se percebia indicação de que ele jamais habitara a área. caindo obliquamente na montanha.disse. campos. essa parte de Lys era habitada . . interrompido ocasionalmente por linhas de serras. Hilvar respondeu à pergunta silenciosa de Alvin. Alvin as via com toda clareza. mas a luz solar. como um banco de nuvens distantes. estremecendo. De algum modo indefinível. mas chegou à con- clusão de que seus olhos o enganavam. De fato.Daqui . como se o Homem não houvesse ali habi- tado por muitos anos. a floresta voltara a dominar. estendiam-se quilômetros e quilômetros de florestas. O Sol já caía bem abaixo das muralhas ocidentais de Lys. A maior parte da cachoeira estava agora envolta em sombras. jaziam as montanhas que separavam Lys do deserto. a vista pouco diferia. e percebeu que se elevavam muito mais alto do que o pequeno pico sobre o qual se encontravam. pois a muitos quilômetros dali uma ruína branca se projetava sobre o teto da floresta como uma presa quebrada. quebradas aqui e ali por clareiras.você pode contemplar toda Lys. via-se o último arco-íris que restava na Terra. . erguendo a voz para que pudesse ser ouvido sobre o troar da cachoeira . as montanhas distantes como que arde- 108 . Ao norte. árvo- res e clareiras se perdiam num tapete mosqueado de vários tons de verde. Alvin podia realmente acreditar nele. mas era inútil tentar achá-la. só os animais habitam ali. Hoje. Por um momento grandioso.Não sei por que foi abandonada e talvez um dia voltemos a viver nela.pois. Ainda mais ao norte. numa evanescente beleza sobre a base daquela espécie de catadupa. e pelos fios tortuosos de uma centena de rios. Hilvar abriu os braços. até onde a vista alcançava. As montanhas estavam separadas deles por uma região muito mais selvagem do que aque- la pela qual tinham acabado de passar. ainda ilumi- nava a terra lá embaixo.No passado. adicionando um toque final de magia à cena . parecia deserta e vazia. num gesto que abarcava todo o hori- zonte. em parte alguma se via sinais de vida humana . mas ao sul as monta- nhas pareciam estar a apenas alguns quilômetros.

. como também calor. Hilvar elevou a haste até a pêra estar um pouco acima de suas cabeças. Curiosas peças de equipamento começaram a cobrir a relva. depois. Acomodaram-se para fazer a refeição enquanto a noite se 109 .Dentro de cin- co minutos estará escuro como breu. Talvez essa caixa projetasse também as camas de campanha confortáveis e semitransparentes em que Alvin repousou.Devíamos ter feito isso antes . Alvin apreciava muito mais o alimento sintético. tendo na extremidade superior uma protuberância periforme. surgiu um grande hemisfério de material rígido e quase invisível que os encobriu completamente. chegando ao ponto de soterrá-la sob o restante das coisas. Carregando o tripé com uma das mãos. A maneira como o outro tipo era preparado lhe parecia incrivelmente anti-higiênica e. Em primeiro lugar. A cúpula parecia ser gerada por uma pequena caixa retangular que Hilvar dispôs no chão e depois deu mostras de ignorar totalmente. ao começar a descarregar o equipamento.. A refeição que Hilvar tirou de outro de seus receptáculos era também o primeiro alimento sintético que Alvin havia experimen- tado desde sua chegada a Lys. fazendo todo o possível para se manter dentro do círculo de luz. e fez algum sinal mental que Alvin não pôde interceptar. Por fim. enquanto o conversor de matéria colhia matéria-prima para realizar seu milagre cotidiano.ram entre labaredas douradas.. e frio também. pois Alvin sentia um brilho acariciante e suave que parecia penetrar até seus os- sos. De modo geral.. Hilvar fixou o acampamento numa pequena depressão a algumas centenas de metros abaixo dali e começou a montar o resto do equipamento. onde lhe parecia que as casas eram terrivelmente atulhadas de artefatos permanen- tes que melhores serviços prestariam se mantidos fora da vista nos bancos de memória. De algum orifício na cúpula sobre suas cabeças soprava um vento contínuo. De um tripé esguio saía uma haste vertical. Da pêra emanava não somente luz. pelo menos. Imediatamente.disse Hilvar. protegen- do-os da brisa fria que havia começado a soprar do alto do monte. prático como sempre. a terra que guardavam foi rapidamente tragada pelas sombras e a noite chegou. . Hilvar desceu a encosta enquanto Alvin se apressava a acompanhá-lo. e levando a mochila na outra. Era a primeira vez que ele via mobiliário ser materializado em Lys. com os conversores de matéria ele sabia exatamente o que estava comendo. . fazendo fugir as trevas. o pequeno acampamento inundou-se de luz.

Qualquer um dos três bancos pode manter a cidade.E como é que se mantém a relação entre o padrão armaze- nado nas unidades de memória e a estrutura real da cidade? Entre o plano. Tudo era muito pacífico. e todos os circuitos que estão ligados a eles? Não existem defeitos de nenhuma espécie? . Bem. Você me diz que as informações que definem a cidade e todas as pessoas que vivem ali são conserva- das como padrões de carga elétrica no interior de cristais. percebia o brilho da luz refletida em olhos pá- lidos que o miravam. estava completamente escuro fora do círculo de luz. por assim dizer. de modo que não pôde ficar sabendo como eram exatamente. conversando sobre as coisas que tinham visto. . e Alvin achava difícil responder algumas de suas perguntas. .é como os planejadores de Diaspar asseguraram que nada jamais aconteceria de errado com os circuitos de memória.respondeu . e Alvin sentia-se tomado de alegria. quaisquer que fossem.. e na fímbria daquele círculo Alvin podia ver vagos vultos se movendo . Só se o mesmo problema acontecesse simultaneamente em dois dos bancos é que haveria dano permanente.disse Hilvar .O que não entendo ... e sobre as muitas coisas em que as duas culturas diferiam.aprofundava ao redor deles e as estrelas começavam a nascer. Ele sabia que a resposta envolvia tecnologias que se relacionavam com a manipulação do próprio espaço . Hilvar mostrava-se fascinado pelos Circuitos de Eternidade. e a coisa que ele descreve? Isso era uma pergunta que estava inteiramente fora da ca- pacidade de Alvin. ficaram deitados. Quando terminaram. mas. que haviam posto Diaspar além do alcance do tempo. e se alguma coisa sair erra- da num deles. Tomado de súbita inspiração.Diga-me como é que esse teto sobre nossas cabeças é criado por aquela caixa sobre a qual você está sentado . sobre o mistério que prendia ambos em suas teias. os animais não se aproximavam muito.. De vez em quando.Fiz a mesma pergunta a Khedron e ele me respondeu que os Bancos de Memória são praticamente triplicados. apontou para a cúpula invisí- vel que os protegia da noite. os cristais durarão eternamente. os outros dois automaticamente corrigem o defeito. .e de- 110 .criaturas da floresta que saíam de seus esconderijos. Por um momento.mas o modo como se poderia encerrar um átomo na posição definida por dados armazenados em outro lugar era coisa que não saberia nem começar a explicar. mas. e as chances de isso acontecer são infinitesimais.

Você teria de perguntar a um dos técnicos de teoria de campos para entender isso. Durante o sono o corpo se revigora. Mesmo que assim fosse. .Gostaria . Vai dormir? . Não havia nada de desagradável na sensação. até que Hilvar disse: . Ninguém dorme nunca em Diaspar? . muito pelo contrário. - Eu soube que no passado era uma necessidade para todos os seres humanos. parecia-lhe que se espalhava a partir dos calcanhares e das coxas.Acho que é uma comparação justa. Hilvar o observava com um sorriso divertido. Um corpo bem constituído não deve ter necessi- dade desses períodos de descanso. A luz que fluía da pêra de metal sobre suas cabeças transfor- mou-se num brilho baço. Ainda gostamos de dormir pelo menos uma vez por dia. Contudo. e a Alvin ainda sobra- vam faculdades suficientes para imaginar que seu companheiro talvez estivesse exercendo sobre ele algum de seus poderes men- tais.Alvin esfregou o corpo ainda fatigado. Al- gumas das mudanças eram meramente de ênfase e proporção. Alvin viu até que ponto os dois ramos da raça humana haviam divergido. Alvin sentiu um cansaço como jamais havia experimentado. e a mente também. as outras.pois eu lhe explico como funcionam os Circuitos de Eternidade. Então. depois de ter feito algum esforço men- tal excepcional.Só de raro em raro . seus atos as desmentiam. pela primeira vez. E você?. Dor- mir ainda me parece um costume estranho.confessou -. . . já dormiu uma ou duas vezes. o que mais o espantou foi o 111 .disse Hilvar sorrindo.Estou cansado. A resposta fez Alvin pensar. .. Eu não seria capaz de explicar. fluindo depois por todo o corpo. unhas e pêlos. mesmo se por poucas horas.É muito mais do que um costume . Mas. como a genitália externa e a presença de dentes. Hilvar havia-se despedido e.. não faria nenhuma objeção. havia ainda em Lys ho- mens que entendiam o funcionamento de máquinas. eram mais básicas. meu tutor. mas o calor que ela irradiava continuou igual.Jeserac.. Eliminamos isso há milhões de anos. Hilvar riu.. enquanto pronunciava essas palavras perpassadas de jactância. o mesmo não se poderia dizer de Diaspar. O último bruxuleio de luz registrou na mente de Alvin um fato curioso sobre o qual teria de fazer perguntas na manhã se- guinte. Continuaram a conversar e discutir. mas acho que não conseguirei.disse Alvin.

E tanto ele como Alvin tinham dado um largo passo no senti- do de compreender a base de suas respectivas culturas. Depois que Hilvar deixou bem claras as funções do umbigo.curioso buraquinho na boca do estômago de Hilvar. já havia pronunciado milhares de palavras e desenhado meia dúzia de diagramas. Alguns dias mais tarde. ao lembrar-se subitamente do as- sunto. ouviu muitas explicações. 112 .

Alvin percebeu que o compa- nheiro rolava no leito e se sentava. A luz das estrelas era fraca demais para revelar os quilômetros de terras que se estendiam a dezenas de metros lá embaixo. sustendo a respiração. enquanto. as montanhas e a terra que elas encerravam ficaram gravadas a fogo contra o ne- grume da noite. algum sussurro que se infiltrara até o fundo de sua mente. e nas matas lá embaixo um vento súbito agi- tou as árvores. Talvez seja apenas imaginação. fazendo força para enxergar a terra oculta. escutava o ruído das águas e os sons mais suaves. das criaturas da noite.e foi como se o relâmpago houvesse atingido a Terra. brilhava um ponto solitário de luz. Alvin conheceu o medo. Sentou-se. revelava a presença das montanhas no horizonte meridional.ele ouviu uma voz sussurrante. A distância. a luz come- çou a escalar o espectro de intensidade. Então. baixo demais no céu para ser uma estrela. Não era uma sensação tão pessoal e iminente como a que o assaltara 113 . . manchado de violeta e. Nas trevas. em direção ao sul. Houve silêncio.Que tipo de barulho? . Pela segunda vez em sua vida. ao lado dele. Por um breve momento. eclip- sando as estrelas. CAPÍTULO XII A noite já ia alta quando Alvin despertou. . em meio à escuridão. Então.O que foi? . Muito tempo depois ouviu-se o fantasma de uma explosão longínqua. enquanto olhavam. Era de um branco brilhante. de repente. .Acho que ouvi um barulho. e uma a uma as estrelas dispersadas voltaram ao céu. enquanto dois pares de olhos perscruta- vam o mistério da noite. apenas uma linha acidentada de noite mais escura. até que a vista não supor- tou mais contemplá-la.Não sei. Hilvar pegou Alvin pelo braço.murmurou. . morrendo rapidamente. Alguma coisa o havia perturbado.Veja! . explodiu . Nada se via. apesar do trovão incessante das cachoeiras. mais fugidios.

Acabei de me lembrar . . Depois de todo aquele imenso lapso de tempo. aquele era realmente um nome mágico. Ainda que os fatos reais estivessem irremediavel- mente perdidos nas névoas que se haviam reunido tão densamente em torno das Eras do Alvorecer.O que foi isso? . que aquilo justificava interromper o sono de alguém. mas talvez ainda more alguém lá. Alvin mal o escutava. e era como se já houvesse pressentido que para além das montanhas residisse alguma coisa que ele tinha de ver de perto. tentando recordar tudo quanto ouvira falar de Shalmirane. e não interrompeu mais a investigação silenciosa do amigo. as lendas nunca tinham sido es- quecidas e perdurariam enquanto existisse o Homem. na verdade.Estou tentando descobrir . . e não tenho plena certeza de minha posição. Seranis já me contou que a fortaleza fica nessas montanhas. com uma ponta de sarcasmo. A voz de Hilvar soou novamente na escuridão. Vou chamá-los pela manhã. Hilvar voltou a falar. Estava para sugerir. Daí a pouco Hilvar soltou um pequeno suspiro de desapon- tamento. Teremos de esperar até de manhã. é claro. . ele estava contemplando a face do desconhecido. - Já faz muito tempo que não venho aqui. Em toda a longa história da Terra.disse Hilvar. . Era pouca coisa. E eu não gostaria de fazer isso a menos que se tratasse de alguma coisa realmente importante. calando-se outra vez. Tudo que se 114 . . Está em ruínas há muito tempo.Existe. Mas antes que pudesse formular o comentário.na câmara dos Caminhos Móveis. quando tomou a decisão que o levara a Lys. Tenho alguns amigos lá. estava imerso em seus próprios pensa- mentos.cochichou por fim. Talvez fosse mais um temor respeitoso.ele disse. num tom de desculpas. Shalmirane! Para aqueles filhos de duas raças.A gente do sul poderia contar mais coisas. Alvin adivinhou o que ele estava fazendo. . E eu tinha quase esquecido. ninguém podia separar a verdade da lenda.Todos estão dormindo . de cultura e história tão diferentes. Alvin pensou com seus botões o que é que Hilvar conside- raria um assunto de real importância. Mas ali deve ser Shalmirane.disse.Não há ninguém que pu- desse informar. a menos que eu acorde um de meus amigos.Shalmirane! Ainda existe? . . jamais houvera epopéia maior do que a defesa da Terra contra um invasor que havia conquistado todo o Universo.

sabia ao certo era que a batalha de Shalmirane assinalou o fim das
conquistas do Homem e o começo de seu longo declínio.
Entre aquelas montanhas, pensou Alvin, poderia estar a
resposta para todos os problemas que o atormetaram por tantos
anos.
- Quanto tempo levaríamos para chegar à fortaleza? - per-
guntou a Hilvar.
- Nunca estive lá, mas é muito mais longe do que eu preten-
dia ir. Duvido que possamos fazer a viagem em um dia.
- Não podemos usar o carro terrestre?
- Não. O caminho segue pelas montanhas e nenhum carro
pode viajar por ali.
Alvin meditou. Estava cansado, tinha os pés doloridos e os
músculos de suas coxas ainda doíam do esforço a que não estava
habituado. Era muito tentador deixar aquilo para outra ocasião. No
entanto, talvez não houvesse outra ocasião...
Sob a luz baça das estrelas, das quais não poucas haviam
morrido desde a construção de Shalmirane, Alvin, após lutar com
seus pensamentos, tomou sua decisão. Nada se havia modificado,
as montanhas retomaram sua vigília sobre a terra adormecida. Mas
um ponto crítico na história da Terra chegara e desaparecera, e a
raça humana encaminhava-se para um futuro novo e estranho.
Alvin e Hilvar não dormiram mais, levantando acampamento
logo ao romper da aurora. A colina estava encharcada de orvalho,
levando Alvin a maravilhar-se com a ourivesaria refulgente que fa-
zia pender cada lâmina de relva e cada folha. O farfalhar da erva
molhada fascinava-o, e olhando de volta para o alto do monte, via
suas pegadas estendendo-se atrás de si como uma fita negra sobre
o chão reluzente.
O Sol tinha acabado de se erguer sobre a muralha oriental
de Lys quando chegaram às cercanias da floresta. Ali, a natureza
imperava livremente. Mesmo Hilvar parecia um tanto perdido entre
as árvores gigantescas que bloqueavam a luz do Sol e lançavam
sombras densas no leito da floresta. Felizmente, depois das cacho-
eiras, o rio corria numa linha reta demais para ser inteiramente
natural, e acompanhando-o pela beirada conseguiam evitar a ve-
getação mais densa. Grande parte do tempo de Hilvar era dedicado
a controlar Krif, que desaparecia de vez em quando na selva ou
saía saltando loucamente sobre a água. Alvin, para quem tudo era
tão novo, percebia que a floresta encerrava um fascínio ausente
dos bosques menores e mais delicados na área setentrional de Lys.
Poucas árvores eram iguais, a maioria se encontrava em vários
115

estágios de involução e algumas haviam retornado, através das
eras, quase às suas formas naturais originais. Muitas não eram
obviamente da Terra - provavelmente não pertenceriam sequer ao
sistema solar. Como sentinelas, pairando sobre as árvores meno-
res, agigantavam-se sequóias descomunais, de noventa ou cento
e vinte metros de altura. No passado haviam sido considerados os
seres vivos mais antigos do planeta, e ainda eram um pouco mais
velhas do que o Homem.
O rio começava a alargar-se. A todo momento abria-se em pe-
quenos lagos, pontilhados por ilhotas. Havia insetos ali, criaturas
de colorido brilhante que pululavam à flor d’água. De certa feita,
desobedecendo às ordens de Hilvar, Krif disparou para juntar-se
a seus parentes distantes. Desapareceu instantaneamente numa
nuvem de asas fulgurantes, em meio ao som de murmúrios enrai-
vecidos. Logo depois, a nuvem se abriu e Krif voltou sobre a água,
quase que rápido demais para ser visto. Depois disso, ficou sempre
junto de Hilvar e não se afastou novamente.
Ao cair da noite, começaram a perceber mais de perto as
montanhas. O rio, até então guia fiel, fluía lentamente agora, como
que se avizinhando do fim da jornada. Mas estava claro que não
poderiam atingir as montanhas ao cair da noite, bem antes do oca-
so, a floresta se tomara tão escura que impedia qualquer avanço.
As grandes árvores ocultavam-se em poços de sombras, e um vento
frio corria entre as ramagens. Alvin e Hilvar prepararam-se para
passar a noite ao lado de uma sequóia gigantesca, cujos galhos
mais altos ainda brilhavam ao Sol.
Quando, finalmente, o Sol escondido desapareceu, a luz con-
tinuou ainda sobre as águas saltitantes. Os dois exploradores -
pois era assim que se consideravam agora, e realmente o eram
- deitaram-se em meio à escuridão, olhando o rio e pensando em
tudo que haviam visto. Daí a alguns momentos, Alvin sentiu nova-
mente correr por ele aquela sensação de deliciosa sonolência que
havia conhecido pela primeira vez na noite anterior, e de bom grado
resignou-se ao sono. Dormir era algo que podia ser desnecessário
na vida sem esforços de Diaspar, mas era bem vindo ali. No último
momento, antes da inconsciência apoderar-se dele, deu consigo
imaginando quem teria sido a última pessoa a caminhar por ali e
há quanto tempo isso acontecera.
O Sol já ia alto quando deixaram a floresta e se viram final-
mente diante das muralhas montanhosas de Lys. À frente deles,
o chão erguia-se ingrememente até o céu, em ondas de rochedos
estéreis. Ali, o rio chegava a seu fim, tão espetaculoso quanto no
116

início, pois o chão abria-se em seu caminho e ele desaparecia de
vista num turbilhão de águas. Alvin imaginou o que lhe acontecia,
e por quais cavernas subterrâneas ele viajava, antes de emergir
novamente à luz do dia. Talvez ainda existissem os oceanos perdi-
dos da Terra, nas profundezas da treva eterna, e aquele rio antigo
ainda atendesse ao chamado e fosse atraído para o mar.
Por um momento, Hilvar contemplou o turbilhão e a terra
acidentada. Depois apontou para a abertura entre as montanhas.
- Shalmirane fica naquela direção - disse, confiante. Alvin
não perguntou como ele sabia, supôs que Hilvar tivesse feito con-
tato mental com um amigo a muitos quilômetros dali, e que a infor-
mação houvesse sido transmitida silenciosamente.
Não demoraram muito a chegar à abertura, e depois de a
transporem “viram-se diante de um curioso planalto, com encostas
muito suaves. Alvin já não sentia qualquer cansaço, nem medo
- apenas uma expectativa tensa e uma sensação de aventura pró-
xima. Não imaginava o que estava por descobrir. Mas não tinha
dúvida alguma de que descobriria alguma coisa.
Ao se aproximarem do cume, a natureza do terreno alterou-
se abruptamente. Mais abaixo, as encostas tinham consistido em
pedra porosa, vulcânica, amontoada aqui e ali em grandes pilhas
de escória. Agora a superfície transformava-se subitamente em len-
çóis duros e vítreos, lisos e traiçoeiros, como se a rocha houvesse
escorrido em rios fundidos encosta abaixo.
A borda do planalto estava quase a seus pés. Hilvar alcan-
çou-o primeiro, e daí a alguns segundos Alvin chegou, permanecen-
do sem voz a seu lado. Estavam de pé sobre a orla, não do planalto
que esperavam, mas de uma depressão colossal, de quase um qui-
lômetro de profundidade e quase cinco de diâmetro. À frente deles,
o terreno precipitava-se para baixo, aplainando-se lentamente no
fundo do vale e levantando-se outra vez, cada vez mais ingreme-
mente, até a orla do outro lado. A parte mais baixa da depressão
era ocupada por um lago circular, cuja superfície estremecia conti-
nuamente, como se agitada por ondas incessantes.
Conquanto exposta à luz radiante do Sol, toda aquela gigan-
tesca depressão era negra como ébano. O material que formava a
cratera era desconhecido por Alvin e Hilvar, mas era negro como a
rocha de um mundo que jamais houvesse conhecido um sol. E isso
não era tudo, pois debaixo de seus pés, e circundando toda a crate-
ra, havia, sem emendas, uma faixa de metal com algumas dezenas
de metros, manchada pelo tempo incomensurável mas ainda livre
de qualquer sinal de corrosão.
117

Ao habituarem a vista à cena alienígena, Alvin e Hilvar per-
ceberam que o negrume da depressão não era tão absoluto como
haviam pensado. Aqui e ali, tão fugazes que não podiam vê-las
senão indiretamente, minúsculas explosões de luz pontilhavam as
paredes de ébano. Ocorriam irregularmente, sumindo tão logo nas-
ciam, como os reflexos de estrelas num mar encapelado.
- É maravilhoso! - arfou Alvin. - Mas o que é isso?
- Parece uma espécie de refletor.
- Mas é tão negro!
- Apenas para os nossos olhos, lembre-se. Não sabemos que
radiações eles usavam.
- Mas certamente deve haver mais do que isso! Onde fica a
fortaleza?
Hilvar apontou para o lago.
- Olhe com cuidado - disse.
Alvin fitou a superfície trêmula do lago, tentando sondar os
segredos que se ocultavam em suas profundezas. A princípio, nada
pôde ver, depois, nos baixios perto da margem, divisou uma apa-
gada retícula de luzes e sombras. Pôde acompanhar o desenho em
direção ao centro do lago, até que as águas mais profundas escon-
deram todos os detalhes.
O lago escuro havia tragado a fortaleza. Em seu fundo jaziam
as ruínas de edifícios outrora poderosos, vencidos pelo tempo. No
entanto, nem todos tinham sido submergidos, pois na extremida-
de mais distante da cratera Alvin notava agora pilhas de pedras
amontoadas, bem como grandes blocos que no passado deviam ter
feito parte de paredes sólidas. As águas as lambiam, mas ainda não
se haviam erguido o suficiente para completar sua vitória.
- Vamos rodear o lago - disse Hilvar, falando baixo, como se a
desolação majestosa houvesse infundido um respeitoso temor em
sua alma. - Talvez encontremos alguma coisa nas ruínas daquele
lado.
Nas primeiras centenas de metros, as paredes da cratera
eram tão lisas e íngremes que se tornava quase impossível manter
o equilíbrio, mas após certo tempo chegaram às encostas mais su-
aves e puderam caminhar sem dificuldade. Perto da borda do lago,
a lisa superfície de ébano estava oculta por uma fina camada de
solo, ali depositado certamente pelos ventos de Lys durante eras
sem conta.
A cerca de quatrocentos metros dali, titânicos blocos de pedra
amontoavam-se uns sobre os outros, como brinquedos abandona-
dos de uma criança gigantesca. Aqui, ainda se podia reconhecer
118

Alvin perguntou a si mesmo o que pretenderia ele descobrir em posição tão estranha. sua voz tinha um quê de insegu- rança que levou Alvin a olhá-lo com súbita surpresa. dois obeliscos esculpidos marcavam um lugar que fora uma entrada imponente. ali. Hilvar abaixou-se. Ninguém jamais lograra capturar Shalmirane. forças capazes de transformar um mundo em poeira haviam sido lançadas em meio a chamas e trovões. leve. sendo inteiramente derrota- das.disse lenta- mente. Ondas minúsculas. Com certa repugnância . . quebravam incessantemente sobre a praia estreita. Sacudiram a água de seus cabelos. Entraram na sombra de uma muralha destruída e seguiram por um desfiladeiro onde as montanhas de pedra se haviam rendido. porém.que o lago era vivo. Foi assim que Hilvar e Alvin chegaram às ruínas de Shalmira- ne. Antes que Alvin pudesse pensar em alguma resposta. e daí a pouco estavam bem junto dele.um pedaço de uma muralha maciça. Nenhum deles se atrevia a dizer o que estava pensando . olhando um para o outro com um único e silencioso pensamento. com menos de um palmo de altura.seguiu o exemplo de Hilvar. depois percebeu que estava escutando alguma coisa. Contra aquelas muralhas.disse Hilvar daí a momentos .investigarmos 119 . . Hilvar foi o primeiro a falar.Há alguma coisa aqui que não compreendo . a fortaleza. e contra as energias que abrigavam. . uma pulsação firme e bem ritmada. as batidas de um coração gigante. virou a cabeça de lado e mergulhou o ouvido direito na água. o que causa essas marolas? A água de- veria estar perfeitamente imóvel. as águas batendo-lhes nos pés. Alvin e Hilvar caminharam em silêncio em direção às ruínas colossais. Diante deles estendia-se o lago. por gera- ções de vermes cegamente obstinados e pelas águas do lago em lenta ascensão.Seria melhor . e as montanhas de Lys deviam ter balouçado como coisas vivas sob a fúria de seus senhores. O primeiro choque do frio durou apenas um segundo. bem como minúsculas árvo- res raquíticas.. Por toda parte cresciam musgos e trepadeiras. o reduto inexpugnável. Agora. Até o vento era abafado. mas clara.Se não há vento.pois as águas escuras pa- reciam singularmente repelentes . quan- do passou. ele pôde ouvir. havia finalmente sucumbido - capturada e destruída pelas pacientes gavinhas da era.. das profundezas do lago. Subjugados por sua majestade. Outrora aqueles céus pacíficos haviam ardido com fogueiras arrancadas dos núcleos de sóis. Era como se pudesse escutar.

temos visitantes.a maquinaria que havia realizado sua tarefa há tanto tempo.essas ruínas e nos mantermos longe do lago. mas trans- mitindo preocupação -. Estavam no caminho certo. . pensou Alvin. . estivessem os túmulos de má- quinas sepultas . quando Alvin o examinou mais detidamente. Não se aventuraram a aproximar-se mais. mas.Alvin .Não consigo detectar pensamentos de espécie alguma aqui. Seriam inúteis agora. não du- vidava. pensou Alvin. mas não acredito que estejamos sozinhos.ou o que . sujando-lhes as pernas com carvão. 120 . apontando para as inexplicáveis marolas que continuavam a quebrar contra seus pés. viu que estava cheio de uma névoa diáfana que atormentava a vista.perguntou Alvin. ele se estava afastando cada vez mais da compre- ensão das verdades que buscava. Aquele aro inclinado estava obviamente apontado para o Espaço.havia montado aque- le aparelho ali. É muito estranho.respondeu Hilvar.Poderia ser perigoso? . No centro da clareira havia um tripé de metal. A primeira vista. talvez. firmemente preso ao chão e suportando um aro inclinado em seu eixo de maneira a apontar para um ponto no céu. (Isso seria verdade?. e não havia por que procurar novos. por se localizar fugidiamente no limite do es- pectro visível. observando a má- quina de uma distância segura. Não era crível que as ruínas pudessem informar-lhes qual- quer coisa. com a voz serena. desfazendo-se em cinzas quando se aproximaram. Voltaram lentamente para as ruínas da fortaleza. A alguns metros do lago encontraram uma pequena clareira entre o refugo. cada qual levando no espírito o som daquela pulsação firme e abafada. Só restava descobrir quem . Era o brilho da força.disse Hilvar de repente. Seria o clarão que tinham visto alguma espécie de sinal? Essa idéia acarretava implicações assustadoras.Você acha que existe alguma coisa lá embaixo? . mas exploraram cuidadosamente as pilhas de entulho e os montes de pedras. pensou Alvin. . mas as plantas es- tavam agora enegrecidas e chamuscadas por um calor tremendo. Tinha sido recoberta por ervas.Nada que possua mente é perigoso . parecia que o arco nada continha. Ali. apesar de todos os seus esforços. e com que finalidade. Pare- cia a Alvin que os mistérios se acumulavam e que. e daquele mecanismo. O que dizer dos Invasores?) . viera a explosão de luz que os havia atraído a Shalmirane. Por que nunca teriam voltado? Mas isso era ainda outro mistério. Ele já tinha enigmas suficientes para desvendar. se os Invasores retornassem.

mas ela não teria nenhum ressentimento com relação a ele. Ou a máquina era obtu- sa demais para entendê-lo. por trás dos olhos fixos. sentiu-se inteiramente senhor da situação. a pouca distância do chão. Caia. A criatura que emergia das águas escuras parecia uma paró- dia monstruosa. Alvin girou nos calcanhares e deu consigo fitando um triân- gulo de olhos sem pálpebras. contudo. Aliás. Mesmo assim. posto que pequena. a semelhança ces- sava.Há alguém controlando você? Ainda silêncio. e o fato de não conhecer aquela não tinha importância. Além disso. Estava suspensa no ar.a franja de palpos delicados e frágeis que batiam na água com um ritmo constante. Aquela mesma disposição eqüilateral dos olhos não podia ser coincidência. Assim que passou a surpresa inicial. poderia vir a subestimá-la . Levante-se. Durante toda a sua vida dera ordens a máqui- nas. até mesmo a disposição dos tentáculos e dos pequenos membros articulados tinha sido repro- duzida aproximadamente. deveria tratá-la como a um igual. Venha cá. na verdade. . percebeu os contornos de uma máquina complexa. era inteligente demais com seus próprios poderes de opção e volição. . pelo menos. A máquina permaneceu desdenhosamente inativa.evidentemente não tinha necessidade daquilo . Essa. Estava para sugerir que ele assumisse a tarefa de comunica- ção. mas deliberadamente em direção ao lago.Poder falar? . Pela segunda vez desde que saíra de Diaspar. quando as palavras morreram em seus lábios. Depois lembrou-se que não era com esse espírito que devia afrontar as aventuras. provocado por um corpo de grandes dimensões que emergia do lago.o espadanar de água. Houve silêncio. pois a presunção não era vício de que as máquinas sofressem. do robô que ainda os submetia a seu silencioso escrutínio. .Vá embora. as pernas múltiplas e curtas sobre os 121 .perguntou. O robô não possuía . O sossego de Shalmirane foi despedaçado por um som pressago e totalmente inconfundível . Alvin desejou estar em casa. e não se assemelhava a nenhum robô que ele já tivesse visto. ou. foi sua primeira impressão. Nenhum dos pensamentos convencionais de controle pro- duziu qualquer efeito. Isso sugeria duas possibilidades. Nesse caso. jamais vira senão uma pequena parte dos robôs que atendiam às suas necessidades diárias em Diaspar. em matéria viva. Hilvar não pôde deixar de rir da óbvia perplexidade de Al- vin. Então. e começou a caminhar lenta.

então. Havia naquela criatura um desa- jeitamento simpático que tornava de todo impossível considerá-la uma ameaça séria.disse Hilvar tranqüilamente.. e mesmo uma pessoa desprovida de qualquer conhe- cimento de biologia teria compreendido que havia algo inteiramen- te errado nele. a mem- brana palpitante contraiu-se. De qualquer maneira sua mentalidade deve ser muito estranha.Deixe-me tratar disso . . Ainda não consigo detectar nenhum indício de pensamento.sussurrou Alvin. Por vários minutos. Começaram a formar-se palavras inteligí- veis. que parecia estar mantendo com considerável esforço.quais o animal se punha agora de pé na margem. . Apesar de seu tamanho e de suas dúvidas iniciais. Ei. A maior parte do corpo da criatura permanecia na água. Era como se a criatura 122 . que agora se abriam e fechavam espas- modicamente no ar rarefeito.. . ape- nas os três metros superiores emergiam para um elemento que evi- dentemente lhe era estranho. Tratava-se de um medo que não poderia sobreviver após o primeiro contato com raças extraterrestres amistosas. conquanto fosse evidente que a criatura estava tentando falar com eles.Tenho certe- za de que é inteligente. A raça humana havia há muito tempo superado seu terror infantil de tudo o que apresentasse aspecto estranho. O animal teria seus quinze metros de comprimento. ou as aberturas de ventilação.Mas isso não é um animal . a criatura esforçou-se em vão. .Estou acostumado a lidar com animais. . e é dono do robô. ainda que misturadas com algaravias. de repente. como se percebesse que cometera um engano. diminuiu de tamanho e começou a emitir sons de freqüência várias oitavas mais alta. nem Alvin nem Hilvar sentiram o menor nervosismo assim que olharam mais claramente o habitante do lago. O que está acontecendo? O monstro não modificara sua posição meio erguida na bei- ra do lago. Era doloroso assistir àquela tentativa desesperada de comu- nicação. se eram isso. como se suas partes tivessem sido fabricadas sem muito planejamento e reunidas de qualquer maneira quando surgiu a necessidade de fazê-lo.Pode ser que o robô seja dono dele. até chegar ao espectro da fala normal. Mas no centro do triângulo dos olhos começara a formar-se uma membrana semitransparente . mesmo que houvesse qualquer razão para se tê-la na conta de perigosa. Aparentava um extraordinário ar de improvisação e desenho descuidado. Eram ruídos graves e ressonantes que não criavam quaisquer palavras inteligíveis.uma membrana latejante que logo começou a emitir sons audíveis.

havia muita margem para conjecturas e deba- te. Era como se a criatura tivesse visto tudo quanto desejava ver por ora. a criatura pareceu murchar.estivesse recordando um vocabulário que conhecera há muito tem- po mas que não tivera ocasião de usar durante muitos anos. Eles virão. Antes que Alvin pu- desse prosseguir seu interrogatório. Sobretudo.Lys . com boa vontade cada vez maior.Os Grandes . Ela nos trouxe aqui. a criatura parecia reagir bem a ele. como se tomada de amargo desapontamento. em breve come- çou a explicitar mais as respostas e até se dispôs a dar informações espontaneamente. mais necessidade de olhos. em constante movi- mento. . Os palpos delicados.repetiu.perguntou Alvin.Sempre de Lys. mais sutis. apesar de sua ânsia. mas eles não atendem. Isso não tornava as coisas mais claras. enquanto Hilvar juntava os fios da história incrível. falando devagar e com toda clareza. A palavra Lys. Hilvar tentou dar a ajuda possível. Hilvar interveio novamente. de Lys. não tendo. O Mestre nos prometeu. . de modo que a palavra saía mais parecida com “Lyd”.Dos planetas do dia eterno. Suas perguntas eram tão pacientes. . Chamamos os Grandes.Quem são os Grandes? . À medida que a criatura respondia às perguntas de Hilvar. ao passo que no começo mostrara brusquidão que raiava a rudeza. sua aparência começou a mudar. agitaram-se rapidamente em direção ao céu. mas não restavam dúvidas de que sua capacidade de lidar com animais estendia-se até aquele ser fantás- tico. Sua fala fez-se mais clara à medida que a conversa prosseguiu e.Podemos ajudá-lo? Vimos a luz que você fez.Podemos entendê-lo agora . mas ainda assim tão penetrantes que Alvin achou melhor não interromper. ocorrendo logo depois uma mudança ainda mais extraordinária: os três olhos imensos fecharam-se lentamen- te. Es- corregou de volta ao lago e as pernas curtas pareceram dissolver-se no restante do corpo. Alvin perdeu consciência da passagem do tempo. reduziram-se a dimensões de cabeças de alfinetes e desaparece- ram. Não conseguiram desco- brir toda a verdade. . Não lhe agradava admitir que Hilvar lhe fosse superior em inteligência. . pois. continuavam a ocorrer. Outras alterações. debruçando-se avidamente para frente. e por fim tudo que restava sobre a superfície da água era quase apenas 123 . . Nunca vêm outras pessoas. .disse a criatura. Não conseguia pronunciar o “s” muito bem. tão compassivas.disse.

o diafragma vibrante através do qual a criatura falava.mas a maior surpresa ainda estava por acontecer. compreendesse o tipo de organismo com que estavam lidando.haviam florescido outrora nos grandes oceanos da Terra. Na verdade. arrastando seus corpos translúcidos e as florestas de tentáculos peçonhentos por dezenas de metros. em todos seus pronunciamentos. Mas nenhum desses seres havia atingido se- quer o nível mais ínfimo de inteligência. apesar de todo seu conhecimento de biologia. Jamais Alvin se esqueceria desse encontro . por exemplo . Não se tratava de uma única entidade. Ali. havia inteligência. passou-se algum tempo antes que Hilvar. não era outra coisa senão uma colônia de criaturas independentes. a criatura sempre se referia a si como “nós”. além da capacidade de reagir a estímulos simples. Para Alvin. organizadas e controladas por forças desconhecidas. Conquanto parecesse evidente que a criatura não era de origem terrestre. porém.as medusas. Sem dúvida essa membrana se dissolveria na massa amorfa original de proto- plasma quando não fosse mais necessária. Animais de um tipo remotamente semelhante .Hilvar jun- tando os pedaços da história do Mestre. 124 . conquanto vacilante e em de- generação. Alguns deles eram de grandes dimensões. enquanto o pólipo protéico tateava em busca de palavras pouco familiares. o lago escuro lam- bia as ruínas de Shalmirane e o robô trióptico os vigiava com olhos fixos. era difícil acreditar que pudesse haver inteligência numa forma tão instável .

e por mais fantásticos que fossem seus credos sempre logravam atrair prosélitos. acabando por sumir. e apesar de nunca terem possuído qualquer poder real. no entanto. mas a realidade é que sofria de um mal que. videntes. Não obstante. ainda que nascido num dos planetas que giravam em torno dos Sete Sóis. Era de origem humana. enquanto milhões de rivais ou precursores estavam errados. outros eram esquecidos já antes de morrerem. dentre todas as raças inteligentes do Universo. Atribuía a expulsão a inimigos vingativos. ser o repositório exclusivo da verdade. Não destruiu. e não foi surpreendente que os Séculos de Transição 125 . que com monótona regularidade refu- tava as cosmologias dos profetas e produzia milagres que eles não conseguiam igualar. O que perdeu a força. Alguns conseguiram fundar religiões que sobreviveram por muitas gera- ções e influenciaram bilhões de pessoas. foram as incontáveis religiões. acabou por destruir todos esses credos. do qual trazia ainda enorme saudade. A evolução da ciência. assim que a humanidade atingiu um nível elementarís- simo de civilização. a reverência e a humildade que todos os seres inteligentes sentiam ao contemplar o universo ma- ravilhoso em que se encontravam. em que cada um de seus membros afirmava. fora obrigado a abandonar seu mundo nativo. aparentemente só acometia o Homo Sa- piens: a mania religiosa. Vicejavam particularmente em tempos de confusão e desordem. Durante toda a primeira parte de sua história. a raça huma- na produzira uma infinidade de profetas. não cessaram de aparecer cultos isolados. que convenciam a si próprios e a seus seguidores de que só a eles tinham sido revelados os segredos do Universo. mas as li- nhas de comunicação entre as estrelas ainda não haviam sido com- pletamente destruídas. com inacreditável arrogância. época em que o Império Galáctico desmoronava. o assombro. Na juven- tude. CAPÍTULO XIII O Mestre viera à Terra em meio ao caos dos Séculos de Tran- sição. messias e evan- gelistas.

De certa forma. Realizara sua Hégira numa nave pequena mas veloz. O Mestre havia se detido em muitos mundos. Os Sete Sóis tinham sido o centro do poder e da ciência da galáxia. a criatura era dada ao hábito de repetir frases ou períodos inteiros com uma espécie de rápida entonação mecâni- ca. reputada uma das mais rápidas jamais construídas. o Mestre não o deixou de mãos vazias.como foi também o último . Hilvar fez o possível para desviar a conversa desses atoleiros teoló- gicos sem sentido. nem seus ensinamentos foram difundidos por tamanhos intervalos de tempo e espaço. porém muitas das palavras que utilizava não tinham sentido. e ele deve ter possuído amigos influentes. Ninguém jamais conhecera plenamente os talentos e as fun- ções de tal máquina. Sua personalidade deve ter sido imensamente poderosa para que inspirasse tanto humanos quanto não-humanos. O grande pólipo fez o que lhe foi pos- sível para transmiti-los. Para o exílio levara consigo outro dos produtos supremos da ciência galác- tica . por exem- 126 .de todos os messias da humanidade. decerto não acidentalmente. De- vem ter vindo em muitas espécies de naves. ela se tornara o alter ego do Mestre. os homens tentavam consolar-se com mitos.assistissem a uma imensa explosão de irracionalidade. nem Alvin nem Hilvar pude- ram descobrir com precisão. Quando a realidade era deprimente. não restando dú- vidas de que religião de tão amplo apelo conteria muitas coisas excelentes e nobres. sem ela. até que. Que ensinamentos eram esses. Bibliotecas inteiras foram escritas sobre aquela saga. por uma espécie de reação em cadeia. a religião dos Grandes provavelmente teria entrado em colapso após a morte do Mestre. Juntos. ao mundo de onde os ancestrais do Mestre tinham surgido. a fim de concentrar-se em fatos verificáveis. os volumes originais per- deram-se sob montanhas de exegeses e notas. fazendo discípulos entre muitas raças. É provável que o Mestre tenha sido o mais bem-sucedido . enquanto o porto de Diaspar ainda estava aberto ao tráfego das estrelas. o que tornava dificílimo acompanhá-la. com efeito. Depois de algum tempo. Muito embora tivesse sido expulso de seu próprio mundo. que levou por fim. O Mestre e um grupo de seguidores mais fiéis haviam chega- do à Terra às vésperas do desaparecimento das cidades.o robô que ainda agora vigiava Alvin e Hilvar. Nenhum de seus predecessores poderia ter conquis- tado tamanho número de apóstolos. cada uma de tais obras inspirando uma legião de comentários. numa trilha tortuosa. haviam errado pelas nuvens estelares. os pólipos.

Não se sabe ao certo como o movimento foi recebido na Terra. Havia aguardado. o monstro se desintegrava em suas miríades de células separadas. Era imortal.plo. mas antes que isso acontecesse elas se reproduziam. acreditavam que os Grandes. Os bilhões de células indivi- duais de que se compunha seu corpo morriam. se o ambiente lhe fosse propício. Os fiéis humanos. Os Grandes jamais retornaram. o pólipo não existia como 127 . A princípio. e ele pediu aos amigos que o levassem para o ar livre. e após algumas perambulações fixou seu refúgio final entre as florestas e as montanhas de Lys. enquanto minguavam-lhe as forças. Repetidamente referiu-se aos “Grandes”. Ao fim de sua longa vida. O grande pólipo tornara-se o último discípulo do Mestre por um motivo muito simples. o vigor do mo- vimento reduziu-se. foram os primeiros a desaparecer. porém. e havia algo de supremamente irônico no fato de que o último seguidor de um profeta humano fosse uma criatura inteiramente diferente do Homem. exortando seus fiéis a permanecerem ali para saudá-los quando chegassem. ao menos. Alvin imaginava apenas gerações de fanáticos esperando algum grande acontecimento que não compreendiam e que deveria ter lugar em alguma desconhecida data futura. à medida que a morte e a decepção lhe rou- bavam os discípulos. e em sua agonia ainda pronunciou muitas palavras que viriam a inspirar mais bibliotecas de interpretação nas eras futuras. mas essa esperança definhou com o passar dos séculos. fossem quem fossem. que já haviam deixado este universo de espaço e maté- ria. morreu. Lentamente. que seguiam seu próprio caminho e se multiplicavam por fissão. muitos de seus seguidores dis- persaram-se. Essas fo- ram suas últimas palavras racionais. mas outros permaneceram fiéis a seus ensinamentos. mas pouco antes do fim emitiu uma frase que vinha sendo legada de geração a geração. mas que certamente regressariam um dia. Nesse ponto. até a culminação dos Sete Sóis. Durante essa fase. parecendo que a verdade e as lendas estavam deslindavelmente entrelaçadas. que lentamente reelaboraram. para que pudesse con- templar as estrelas. Quando da morte do Mestre. de vida curta. no decurso das eras. numa cheia das águas do mar que era seu berço. cedo voltariam. a história se tomava das mais confusas. os pensamentos do Mestre haviam- se voltado mais uma vez para o lar de onde fora exilado. não contou com oposição violenta. Dito isso. A longos intervalos. perdeu a cons- ciência. Depois disso. atormentando as mentes de todos quantos a ouviam: “É lindo contemplar as sombras dos planetas da luz eterna”.

ele jamais te- ria acreditado em tal história se não tivesse visto a prova diante de seus olhos. mantido agora por um animal que se esquecera de aprender coisas novas e por um robô que nunca aprendera a esquecer. bem como do robô que silenciosamente os olhava. entre aquelas duas entidades. Quando aquela voz incomensuravelmente antiga morreu no ar silente. mas agora as trevas fechavam-se novamente. Ao se constatar que os Grandes se recusavam obstinadamente a aparecer. o modo como os habitantes de Diaspar passavam milênios em estado latente nos bancos de memória da cidade.. haviam 128 . ainda que muitas vezes imperfeitamente. tinham sido feitas tentativas para enviar sinais a seu mundo remoto. ir- resistivelmente. a própria existência do grande pólipo.uma entidade consciente e inteligente . a lealdade que havia mantido seu rumo inútil enquanto sóis e planetas se desfaziam. Retornava à consciência e reconstituía suas vidas anteriores. A devoção deslocada. o grande pólipo era uma vítima indefesa de sua natureza biológica. impossibilitava a Alvin classificar toda a história como uma fábula feita de ilusão sobre um funda- mento de loucura. Um minúsculo fragmento do passado fora iluminado por um lapso breve. a extensão de sua ignorância entristeceu-o. No entanto. iniciando o pólipo um novo ciclo de existência. No devido tempo. Mais do que nunca. Qual seria a relação. Alvin sentiu-se tomado de uma imensa sensação de compaixão. sendo obrigado a repetir eternamente o mesmo comporta- mento invariável. que embora tão diferentes. alguma misteriosa força biológica reunia mais uma vez os componentes dispersos. não podia mudar. Talvez nenhuma outra forma de vida pudesse manter a fé por tanto tempo num credo por todos esquecido havia um bilhão de anos.e isso lembrou a Alvin. De certa forma. e ninguém poderia dizer quais eram importan- tes e quais eram banais. Devido à sua imortalidade. perguntava-se ele. Em seus estágios ulteriores.. Aquele conto fantástico do Mestre e dos Grandes parecia semelhante a outra das inumeráveis lendas que de algum modo haviam sobrevivido às civilizações do Alvorecer. em todos os sentidos. Havia muito esses sinais se tinham tornado nada mais do que um ritual sem significação. pois um acidente podia lesar as células que transmitiam os delica- dos padrões da memória. A história do Universo devia ser um emaranhado desses fios desconexos. a religião dos Grandes se iden- tificara com uma veneração dos Sete Sóis.

falando com o pólipo. se fora construída para servir ao Mestre. Se estivesse a seu alcance. Alvin pensou a respeito do que ouvira. Alvin olhou a máquina enigmática que ainda o olhava. mas visando ao robô . ele romperia aquela seqüência inú- til. .ele disse lentamente. começava a formar-se em sua mente. Fora o confidente do Mestre e ainda devia sa- ber todos os seus segredos. . mais tarde. seria mais correto chamá-lo de nosso companheiro que de nosso servo. Poderiam ser em grande parte egoístas.Sim. mas talvez fosse possível curar o robô de sua insânia. Parecia-lhe injusto que tanto conhecimento se per- desse e ficasse oculto ao mundo. Ao pensar em todos os segredos que aquela máquina obsti- nadamente muda devia possuir. deveriam existir ali maravilhas maiores ainda do que as do Computador Central em Diaspar. Só por casualidade os descobrimos.Contrariava os desejos do Mestre que o robô falasse com outra voz senão a dele. A criatura de certa forma esperava essa pergunta. e sua voz agora se calou.mantido sua extraordinária ligação no decorrer de tantas eras? Por algum motivo ele estava convicto de que o robô era de longe o mais importante dos dois. e ela deveria responder a ordens humanas. Uma idéia. . quando se lembrava daquele momento. Contudo.Tem certeza . mas continham também um elemento de compai- xão. Talvez fosse inspirada por puro desejo de conhecimento e poder. libertando essas criaturas de seu conto fantástico.Mas ele lhe obedece? . e ao mesmo tempo liberar suas inestimáveis memórias acumuladas. mas essas doutrinas têm permanecido ocultas aqui em Shalmirane. o Mestre o pôs sob nossa responsabilidade. Não sabia ao certo o que poderia ser feito com relação ao pólipo. . Por que se recusava a falar? Que pensamentos estariam cruzando sua mente complicada e talvez exótica? No entanto. e talvez haja outros que gostariam de ouvir a doutrina dos Grandes.ele perguntou ao pó- lipo. num momento em que Hilvar fez uma pausa momentânea. decerto seu raciocínio não poderia ser de todo diferente.que está realmente cumprindo os desejos do Mestre permanecendo aqui? Ele desejava que o mundo conhecesse seus ensinamentos. Podemos ver através de seus olhos. Alvin sentiu uma curiosidade que raiava a cobiça. Ele vigia as máqui- nas que preservam este lago e mantêm as águas puras.Por que seu robô não fala conosco? . nunca sabia dizer com cer- teza quais tinham sido suas motivações. 129 . onde quer que ele vá. ainda vaga e inarticulada.

É claro que sinto pena dessas pobres criaturas . não deu o me- nor sinal.Não acha que seria bondade libertá-las? .ele res- pondeu.Falava baixinho.Acho.e não havia motivo para supor que ele o fizesse -.respondeu Alvin. de modo que o mundo deve vir a nós. mas já aprendi o bastante sobre você para saber que o altruísmo não é uma de suas emoções dominantes. Muitas coisas se modificaram desde que o Mestre morreu. . Enquanto Alvin o olhava. para não ser ouvido. . Mas não podemos sair de Shalmirane. Tal precaução talvez fosse inútil.Já discutimos esse problema durante muitos anos. e os batimentos contínuos de seu aparelho respiratório cessaram por alguns instantes. . mas não há nenhum motivo para que seu companheiro não venha conosco. . Ele poderá voltar a qualquer momento que desejar.Acho que poderiam fazer alguma coisa pelo robô. ali permanecendo vários minutos. Felizmente. Nos últimos minutos tinha-se tornado bem menor e seus movimentos estavam mais desorganiza- dos. O pólipo mostrou-se agitado. . sem dú- vida era capaz de ler-lhe o caráter. meio seriamente. mudou de idéia e voltou para a água.disse. ou quando você necessitar dele. coisas que vocês devem conhecer. se o robô interceptou suas observações. Você deve ter algum outro motivo. . O robô em nenhum momento se moveu.Ou você próprio não sabe? .disse Alvin animadamente.Tenho uma idéia melhor . Alvin sorriu tristemente. . numa voz um tanto fora de controle: . antes que Hilvar pudesse levar o interrogatório adiante.Gostaria de saber o que você está tentando fazer . Hilvar aproveitou a oportunidade para trocar algumas palavras com Al- vin. Mesmo que Hilvar não lesse sua mente . De- pois respondeu.É verdade que você talvez tenha de ficar aqui no lago. por mais tempo que isso demore. obviamente incerto de suas in- tenções. um segmento de seu corpo comple- xo e translúcido soltou-se da parte principal e desintegrou-se em 130 . Hilvar olhou-o de esguelha.Sua gente possui extraordinários poderes mentais . mas. . mas na agonia de sua indecisão o pólipo mergulhou completamente sob a superfície da água. meio de brincadeira. mas que nunca poderão compreender se ficarem aqui. várias vezes começou a reemergir. senão por esse animal. o pólipo emergiu de novo. Talvez estivesse man- tendo uma discussão silenciosa com o companheiro. tentando desviar a conversa de terreno perigoso.

como num gesto desesperado de adeus. esverdeados. Depois. as forças desconhecidas que nunca haviam deixado de cumprir seu dever no passado voltariam a atuar e o pólipo renas- ceria. A água estava cheia de flocos peque- nos... e Alvin entendeu que a pulsação contínua que eles ha- viam escutado nas profundezas também já teria cessado.O robô vem conosco? Houve uma pausa agônica enquanto o pólipo tentava obrigar seu corpo em dissolução a obedecer à sua vontade. estimulação grande demais. Era um fenômeno estranho e maravilhoso.. ou por alguns sécu- los. As pequenas ondas da superfície haviam agora cessado in- teiramente. ou perderia sua oportunidade. algum dia. mas eles compreenderam que o esforço e a excitação pouco comuns causados por sua presença era responsável por aquela metamorfose prematura. mas nenhum som se ouviu. não era nada agradável ver uma criatura inteligente apa- rentemente em agonia. onde imediatamente se soltaram e saíram a flutuar pelo lago. Não restava da criatura nenhum pe- daço maior do que um dedo. uma vasta colônia de células separadas e vivas? 131 . sua voz era insegura e de difícil com- preensão. ... Em questão de minutos a transformação se consumara. Alvin compreendeu que tinha de agir depressa. que rapidamente desaparece- ram.ele conseguiu dizer.perguntou ansiosamente. O lago estava morto novamente . seria muito mais estranho do que a organização do corpo humano. talvez por alguns anos. . numa espécie de sussurro flutuante.Não esperem rápido demais. e que rapidamente desapareceram na vastidão das águas. no entanto.. a criatura agitou debilmente seus pal- pos delicados e deixou-os voltar para a água.O que você decidiu? .. Sentiam também uma obscura sensação de culpa. que pareciam dotados de vida e mobilidade pró- prias. Mas era uma ilusão.ou assim parecia. Quando voltou a falar.grande número de partes menores..Começando novo ciclo . Muito embora o processo a que estavam assistindo fosse natural. A criatura estava começando a decompor-se diante de seus olhos. . uma vez que não tinha grande importância o momento em que o pólipo começava um outro ci- clo. restam so- mente minutos. tal sentimento era irracional. Alvin e Hilvar fitavam a criatura tomados de hórrida fasci- nação. . não haverá coesão por muito tempo. O diafragma vocal agitou-se.

. talvez até mesmo a Diaspar . que até agora vinha flutuando. Uma oportunidade estupenda tinha sido perdida. acho que você obteve o que queria. ela estava agora sob seu con- trole. Alvin era o seu senhor provisório. 132 . A máquina estava esperando para ver o que ele faria em se- guida. Esta- va abatido por sua sensação de fracasso. a distância. mas Alvin tinha poucas dúvidas de que sua atenção estava concentrada nele. uma oportunidade que talvez nun- ca mais voltasse. ainda que jamais tives- se concebido claramente a meta a que visava. Os olhos imóveis. pelo menos.Alvin . e passou-se algum tempo antes que sua mente registrasse a mensagem que Hilvar estava murmurando em seu ouvido. não davam nenhuma indicação da di- reção de seu interesse.dizia o amigo baixinho -. alheio a tudo. Provavelmente via todo o hemisfério à sua frente com igual clareza.a menos que mudasse de idéia. Olhou o lago pesarosamente. com largo ângulo de visão. Alvin desperdiçou pouco esforço nessas especulações. nunca se aproxi- mando deles mais do que seis metros. A partir de agora. Alvin girou rapidamente nos calcanhares. Poderia acompanhá-lo a Lys. O robô. De certa forma. havia-se movido em silêncio e estava agora a meio metro sobre sua cabeça.

em parte porque Alvin.talvez medo de revelar em demasia os seus segredos . por seus próprios motivos. entenderei que quer dizer sim”. Por alguma razão própria . De início. o robô era inteligente demais para sucumbir a truques tão simples. e fechava a mente a qualquer sondagem. tal como di- rigia os robôs de Diaspar.o Mestre devia ter bloqueado de modo muito efi- ciente seus circuitos de fala. ele estava aos poucos tomando contacto com a inteligência estranha e obcecada que se havia tornado seu companheiro. pois a máquina recusava-se teimosamente a falar. mais fortes do que as suas. A exploração física de Lys fora agora suplantada por um projeto mais importante e mais excitante.era difícil pensar nela como uma simples máquina .baixou sua guarda ainda mais e permitiu a Alvin enxergar através de seus olhos. ao que parecia. não obedecia a nenhuma de suas ordens. Obedecia or- dens que não lhe exigissem falar ou fornecer informações. Quem decididamente se opunha ao robô era Krif. desapontou um pouco Alvin. Isso represen- tou um grande avanço. apenas pelo pensamento. Em outros aspectos. Depois de certo tempo. que nutria esperanças de que as forças mentais de Hilvar. Falhavam até mesmo interrogatórios indiretos do tipo “Se você não disser nada. porém. e logo depois a criatura . a essas formas simples de comunicação. lhe permitissem abrir à força o tesouro das memórias escondidas. Alvin suspeitava que o robô estivesse tentando usá-lo para seus próprios fins. Só mais tarde percebeu a vantagem que representava possuir um ser- vo que não obedecia a mais ninguém no mundo. mas bloque- ava todas as tentativas de conhecimento mais profundo. cooperava mais. Não objetava. Que fins seriam esses era coisa que ele não podia imaginar. CAPÍTULO XIV A viagem de volta a Airlee durou três dias . Talvez ima- 133 . Alvin descobriu que podia controlá-lo. não tinha nenhuma pressa de retornar. Ignorava totalmente a existência de Hilvar. e as tentativas feitas por Alvin para eliminar esses bloqueios fracassaram inteiramente.

ele deu mostras de haver-se conformado com a situação. Quando ninguém estava olhando. Mas o futuro chegara. mas Diaspar ainda mantém esse 134 . Na excitação dos últimos dias. Suas mentes interconectadas mantinha-os em contacto com tudo que estava acontecendo em sua terra. surpreender aquela gente. e Alvin lembrou-se da opção que tinha de enfrentar agora. lançou seu povo contra o mundo e fez com que se perdesse em seus próprios sonhos. e o que fizemos foi feito de olhos abertos. Aqui em Lys esse medo nunca foi tão grande. que deslizava silenciosamente por florestas e campos . mas levava a raça à estagnação. “Você conhece uma das razões para o isolamento de nossas duas raças.. A voz de Seranis estava perturbada quando começou a falar. Alvin teve a impressão súbita de que alguma coisa saíra errada com os planos de Lys a seu respeito. e falhado em sua missão? . há muitas coisas que eu não lhe disse antes.ginasse ter um rival. no carro terrestre. pensou Alvin. O temor dos Invasores. Seranis parecia preocupada e mais insegura do que ele jamais a vira. pois era de presu- mir que todos em Lys já soubessem delas. qualquer coisa que voasse sem asas.começou Seranis -. e na viagem para casa. os homens procuraram a imortalida- de e finalmente a conseguiram. a fim de influenciar a mente de Khedron. em- preendia ataques diretos ao robô. Há muito tempo sacrificamos nossa imortalidade. Robô e inseto escoltavam o veículo. Tínhamos uma razão melhor para nos- sas ações.. a fim de com- preender nossos atos. aquela sombra aziaga nas pro- fundezas de toda mente humana. Era impossível. tinha de decidir em qual dos dois mundos desejava viver. O que teria acontecido duran- te sua ausência? Teriam sido enviados emissários a Diaspar. Esqueceram-se de que um mundo que havia banido a morte deveria também banir o nascimento. mas das quais você precisa saber agora. em princípio. Por fim. Seranis já os esperava quando o carro entrou flutuando em Airlee.cada um ao lado de seu respectivo senhor e fingindo que o rival não existia. Não lhe apetecia gastar energias preocupando-se com problemas que ainda jaziam no futuro. quase a esquecera completamente. muito embora tenhamos suporta- do a força do ataque final.” “Há muito tempo. O poder de estender a vida indefinidamente poderia trazer satisfação para o indivíduo. Ficou imaginando como te- riam reagido às suas aventuras em Shalmirane. Alvin. Hilvar conseguiu acalmá-lo.Alvin . talvez desaprovasse. que o deixava ainda mais enfu- recido por não tomar o menor conhecimento desses ataques.

Aconteceram coisas demais para que nos possamos per- mitir pôr a questão em suas mãos. O aposento estava silencioso. Foi por isso que nossos caminhos se separaram.E quanto a Diaspar.O que quer que eu faça? . . Você e Hilvar são ago- ra quase da mesma idade . Nem o Conselho de Diaspar nem nossos agentes 135 .. Não. delas tomando devida nota. Entre nossa cultura e a sua há um abismo tão grande como o que separava a Terra de suas antigas colônias.e apenas uma parte de seu cérebro esta- va escutando Seranis agora.” Embora aquelas palavras de certa forma fossem esperadas. Compreendia todas as suas palavras.Gente demais sabe para onde você foi. Seranis estava visivelmente triste. Não agimos a tempo. . mas também ao filho.por mais vagos que fossem . E esta é apenas a primeira de uma série de vidas que você viverá. Mas teria sido melhor deixar as cria- turas que você encontrou em Shalmirane entregues a seu próprio destino.. tão silencioso que Alvin conse- guia ouvir os gritos estranhos e lamurientos dos animais no cam- po. mas agora isso é im- possível. e Alvin sabia que ela estava falando não somente a ele. o golpe não parecia menor pelo fato de ter sido previsto. No entanto.. além da aldeia. Alvin recusava-se a aceitar o fracasso de todos os seus planos . Tenho certeza de que não teve qualquer intenção malévola. O que é mais sério é que o homem que ajudou você a descobrir Lys desapareceu. sua influência já foi altamente perturbadora. Pense apenas nisso. Hilvar olhava a mãe atentamente enquanto ela falava. e é por isso que nunca mais devem encontrar-se novamente. Sua voz tinha quase um tom de súplica. Alvin. quase num sussurro: . Mesmo durante o breve tempo que você passou aqui. Ela devia estar consciente da simpatia e do afeto que haviam nascido entre eles durante os dias que acaba- vam de passar juntos.. não estou reprovando você. .falso sonho.Seranis teve um gesto de enfado. e a Alvin parecia que seu olhar transmitia não só preo- cupação mas também um traço de censura.Não desejamos obrigá-lo a fazer qualquer coisa contra sua vontade. mas você certamente compreende o que aconteceria se nossos povos se encontrassem outra vez. tentando imaginar os obstáculos que poderia encontrar. Disse. .mas tanto ele como eu estaremos mortos há séculos quando você ainda for jovem.Esperávamos que pudéssemos oferecer-lhe a alternativa en- tre permanecer aqui ou voltar para Diaspar. mas a parte consciente de sua mente estava retraçando o caminho para Diaspar.

Além disso. . e não saberá nada até se encontrar de volta em Diaspar. Estamos prontos. Deixarei vocês aqui.Quando quer que eu sofra esse. Talvez o surpreenda que eu lhe conte tudo isso. Você pode não acei- tar nosso veredicto. dis- se serenamente: . Não ha- verá. deixando-os a sós. temos de mandá-lo de volta a Diaspar com um falso conjunto de memórias.. nenhum mistério que atraia futuros exploradores.Eu gostaria de me despedir de Hilvar. Olhou mais uma vez para a vila onde havia encontrado felicidade e que talvez nunca mais voltasse a ver. Pelo resto de sua vida. Sentia profunda tristeza. Abra a sua mente para mim. de modo que ele continua a ser um perigo potencial para nossa segurança. Pelo menos você não terá arrependimentos. e onde só se mantinha vivo comendo ervas repugnantes e bebendo água em fontes ocasionais. mas posso fazê-lo com toda segurança. Essas memórias fo- ram construídas com muito cuidado.Seranis encaminhou-se para as escadas que levavam ao exterior da casa. não saberá nada a nosso respeito. portanto. Depois. onde os tetos ruíam continuamente às suas costas. . Tenho a impressão de que só temos uma opção. . pois acreditará que descobriu tudo que há para ser descoberto. e todos em Diaspar aceitarão sua história. mas temos conhecimento de muitos fatos que lhe estão ocultos.Compreendo. Alvin imaginou se seria mesmo verdade. você há de acreditar ser essa a verdade. como fez antes. Alvin permaneceu em silêncio por algum tempo. e quando você chegar de volta à sua casa. Acreditará que teve aventuras enfadonhas e perigosas em sinistras cavernas subterrâ- neas. e voltarei quando estiver pronto.perguntou. não tinha nenhuma intenção de pôr a questão à prova. mas também uma inabalável determi- nação de não permitir a destruição de todas as suas esperanças. se aqueles que se ocultavam 136 . mesmo depois de haver-se convencido de que além de suas muralhas nada existia de importante. . pensarão que sabem tudo quanto há para saber a respeito de Lys.Deploramos muitíssimo que isso seja necessário. Não tinha certeza de que algum dia viesse a aceitar a rotina da vida em Diaspar. Passou-se algum tempo antes que Alvin falasse ao amigo.Imediatamente. tratamento? . e pedimos perdão enquanto você ainda se recorda de nós. Seranis fez uma pausa e olhou para Alvin com expressão de ânsia.. . Seranis assentiu.conseguem encontrá-lo.

por trás de Seranis lograssem seus intentos. O carro terrestre ain-
da estava sob uma das árvores de largas ramagens, com o paciente
robô pairando no ar. Algumas crianças haviam-se reunido para
examinar aquele estranho recém-chegado, mas nenhum dos adul-
tos parecia interessado nele.
- Hilvar - disse Alvin de repente -, sinto muito por isso tudo.
- Eu também - respondeu Hilvar, com a voz embargada. - Eu
tinha esperanças de que você pudesse ficar aqui.
- Você acha que está certo o que Seranis quer fazer?
- Não culpe minha mãe. Ela só está fazendo o que lhe pedem
- disse Hilvar. Embora não houvesse respondido a pergunta, Alvin
não teve coragem de repeti-la. Não era justo exigir tanto da lealda-
de do amigo.
- Então, me diga uma coisa - pediu Alvin. - Como poderia sua
gente me deter se eu tentasse ir embora com minhas lembranças
intactas?
- Seria fácil. Se você tentasse fugir, controlaríamos sua men-
te e obrigaríamos você a voltar.
Era o que Alvin esperava ouvir e sentiu-se desanimado. De-
sejava poder confidenciar a Hilvar que estava obviamente chocado
pela separação iminente, mas não se atrevia a arriscar o fracasso
de seus planos. Com o máximo cuidado, verificando cada detalhe,
ele retraçou na mente o único caminho que poderia levá-lo de volta
a Diaspar nos termos em que ele desejava.
Havia apenas um risco que teria de correr, e contra o qual
nada podia fazer para proteger-se. Se Seranis quebrasse sua pro-
messa e mergulhasse em sua mente, todos seus cuidadosos prepa-
rativos poderiam ser vãos.
Estendeu a mão a Hilvar, que a apertou com firmeza. O rapaz
ainda parecia incapaz de falar.
- Vamos descer para nos encontrarmos com Seranis - disse
Alvin. - Gostaria de me encontrar com algumas pessoas da vila
antes de partir.
Hilvar seguiu-o silenciosamente pelo frescor da casa, acom-
panhou-o pelo corredor e até o anel de vidro colorido que cercava
o edifício. Seranis o esperava ali, com ar calmo e resoluto. Sabia
que Alvin estava tentando esconder-lhe alguma coisa, e lembrou-
se novamente das precauções que tomara. Tal como um homem
flexionando os músculos antes de um grande esforço, ela repassou
os padrões de compulsão que teria de usar.
- Está pronto, Alvin? - perguntou.
- Inteiramente - respondeu ele, e em sua voz havia alguma
137

coisa que fez com que Seranis lhe lançasse um olhar rápido.
- Então é melhor você não pensar em nada, como fez antes.
Você não sentirá nem saberá de nada depois disso, até encontrar-
se novamente em Diaspar.
Alvin virou-se para Hilvar e disse, num sussurro rápido que
Seranis não pôde ouvir:
- Adeus, Hilvar. Não se preocupe... vou voltar. - Depois virou-
se novamente para Seranis:
- Não estou ressentido pelo que você está tentando fazer -
disse. - Sem dúvida você acredita que isso seja o melhor a fazer,
embora eu creia que está enganada. Diaspar e Lys não deveriam
permanecer isoladas para sempre, algum dia poderão necessitar
uma da outra desesperadamente. Por isso, vou voltar com tudo
quanto aprendi... e não acredito que você possa deter-me.
Não esperou mais, o que foi melhor para ele. Seranis não
fez nenhum gesto, mas instantaneamente sentiu o corpo sair de
seu controle. A força que havia posto de lado seu próprio arbítrio
era ainda maior do que ele esperara, e Alvin entendeu que muitas
mentes ocultas deviam estar ajudando Seranis. Molemente, come-
çou a caminhar de volta à casa, e por um momento terrível teve a
impressão de que seu plano fracassara.
Houve então um relâmpago de aço e cristal e braços de metal
se fecharam rapidamente à sua volta. Seu corpo lutou contra o
amplexo, como ele sabia que devia fazer, mas seus esforços foram
inúteis. O chão cedeu sob seus pés e ele viu Hilvar de relance, con-
gelado pela surpresa com um sorriso tolo no rosto.
O robô carregava-o a uns quatro metros acima do chão, muito
mais depressa do que um homem poderia correr. Seranis precisou
apenas de um momento para compreender o ardil, e seus esforços
cessaram à medida que ela relaxou o controle mental. Mas ainda
não estava derrotada, e daí a momentos aconteceu o que Alvin te-
mera e fizera todo o possível para neutralizar.
Agora duas entidades separadas lutavam em sua mente, e
uma delas argumentava com o robô, pedindo-lhe que o largasse.
O Alvin real esperava, sem fôlego, resistindo apenas um pouco a
forças que, sabia, não podia combater. Ele jogara, não havia ma-
neira de prever com antecedência se seu incerto aliado obedeceria
a ordens tão complexas como as que ele lhe dera. Em nenhuma
circunstância - dissera ao robô - deveria obedecer outras ordens
antes que ele, Alvin, estivesse em segurança em Diaspar. Essas
eram as ordens. Se fossem cumpridas, Alvin teria colocado seu
destino além do alcance da interferência humana.
138

Sem hesitar um só momento, a máquina seguia a trilha que
ele mapeara com tamanho cuidado. Uma parte dele ainda esta-
va suplicando raivosamente que fosse libertado, mas Alvin sabia
agora que se encontrava em segurança. Seranis não demorou a
também compreender isso, pois as forças dentro de seu cérebro
cessaram de combater.
Mais uma vez Alvin estava em paz, tal como estivera no pas-
sado um explorador mais antigo, quando, amarrado ao mastro de
seu navio, escutara o canto das sereias morrer sobre o mar tingido
de rubro.

139

140

e esse conhecimento fazia-se acompanhar de uma confiança que raiava a arrogância. e por algum motivo Alvin não acreditava que os de Diaspar viessem a ter melhor sorte. Havia ainda o perigo de que a gente de Lys pudesse deter ou até mesmo fazer retroceder o veículo em que viajava.tudo isso aumentava sua autoconfiança. Os do Conselho o esperavam. Mas sua volta foi uma repetição sem novidades da ida. e muito pouco alarme.uma fé em seu destino. vestindo os formais mantos negros. até que o Con- selho tenha julgado seu caso e pronunciado o veredicto. CAPÍTULO XV Alvin só se tranqüilizou ao chegar novamente à câmara das Vias Móveis. ainda que imprevisível. encontrava-se no Túmulo de Yarlan Zey.disse o líder dos supervisores da cidade -. Provavelmente. temos ordens para acompanhá-lo onde quer que você vá. possuía agora um aliado poderoso. Havia bases racionais para essa convicção. . mas Alvin ignorava quan- tos de seus antecessores tinham sido levados ao desastre por essa fé. não conse- guindo levar muito a sério os novos fatos. seu êxito em lograr o que nenhum homem jamais conseguira.perguntou Alvin. mas em parte ela se fundava em alguma coisa que ia além da razão . O mistério de sua origem. tra- zendo-o para o ponto de partida. Ademais. o modo como novos caminhos se lhe haviam descortinado . que lentamente vinha se formando na mente de Alvin.Alvin . Alvin não sentiu qualquer surpresa. que havia séculos não usavam. quarenta minutos depois de haver deixado Lys. . A fé no próprio destino contava-se entre as dádivas mais valiosas que os deuses poderiam conceder a um homem. Aprendera muito desde sua saída de Diaspar.De que crime sou acusado? . Khedron falara. ante a presença da comissão de recepção. Havia vencido tantos obstáculos que um a mais não fa- zia muita diferença. Alvin sentiu-se irritado com o Bufão por haver traído seu 141 . Ainda se sentia tomado da excitação e da alegria da fuga de Lys. Os melhores cérebros de Lys não tinham sido capazes de interferir em seus planos.

Ora tratava Alvin como um concidadão. Os supervisores não o seguiram a seu quarto. o sistema subterrâneo de transporte certamente já teria sido imobilizado por Seranis e sua gente. depois que você for ouvido. imagino. a presença da escolta poderia impossibilitar a concreti- zação desse plano. e conversando entre si em sussurros agita- dos.Encontrei-o em Lys. apontando o companheiro de Alvin . .Se necessário. colocando-se do lado de fora.Muito cedo. Essa afirmativa clara produziu enorme agitação.de onde veio? É um dos nossos? . Trouxe-o para que ele se encontre com o Computador Central. mas Alvin ter trazido do exterior um de seus habitantes e tencionar apresentá-lo ao cérebro da cidade era pior ainda. Khedron.respondeu Alvin.disse ele de repente.Ainda não se fez nenhuma acusação . o país em que estive. . Alvin ponderou sua próxima atitude.O supervisor estava visivelmente contrafeito.Esse robô . a escolta seguindo dis- cretamente atrás dele. A primeira coisa a fazer era descobrir exatamente o que acontecera durante sua ausência. Ao chegar a seu apartamento. e como o conhecimento que o Bufão tinha da cidade era inigua- lável. Enquanto caminhavam pelo Parque. Sabiam que só havia uma saída. Contudo. não era provável que fosse encontrado até que resolvesse re- aparecer. que Alvin não conseguiu reter o riso. segundo lhe dissera Seranis. já quase se esquecera da existência dos supervisores. a menos que tentasse deixar Diaspar.segredo. e por enquanto não era sua intenção proceder assim. .foi a resposta. .E quando será isso? . Havia em Diaspar inúmeros lugares onde uma pessoa poderia esconder- se. pensou Alvin. Na verdade. tinha quase certeza de que seria impossível voltar a Lys pelo caminho original. . Tinha de admitir que a vigilância era das mais discretas.Não . sem saber ao certo como se conduzir nessa missão constrangedora. Os administra- dores entreolharam-se com tal expressão de alarme. pudesse deixar uma mensagem em local onde Khedron fatalmente a veria. será proclamada uma. Imaginou que não interfeririam em seus movimen- tos. Como não tinham 142 . estava desaparecido. Existir algu- ma coisa fora de Diaspar já representava surpresa bastante. combinando um encontro. ora lem- brava-se de seus deveres de guardião e assumia uma atitude de exagerado alheamento. A essa al- tura. Talvez. .

Entregando-se ao prazer que lhe causava o ambiente familiar. lembrou-se de que a cidade não lhe era es- tranha. ainda que não houvesse compre- endido que.instruções com relação ao robô. deixaram que acompanhasse Al- vin. com seus olhos largos e insondáveis. Em vista dessa incerteza. acredita- riam ser melhor deixá-la em paz. naturalmen- te. Não tinham o menor desejo de se meter com aquela máquina. agradavam-lhe agora menos ainda. Seu palpite estava correto . pois ele a havia conhecido nos últimos dias em que Diaspar mantivera contacto com as estrelas. mais por um sentimento de dever do que por algum desejo real de vê-los e falar com eles novamente. como a maioria das virtudes. Apagou todos esses produtos de sua adolescência. Não ficou aborrecido quando os comunicadores dos pais adotivos lhe informaram que não esta- vam em casa. uma vez que a essa altura toda a cidade já estaria a par de seu regresso. Então. tudo que havia nele era o divã em que estava deitado e o robô. mas havia sempre a possibilidade de que Khedron houvesse deixado uma mensagem. ela possui pouco mérito se não for espontânea e inconsciente. A pessoa que os havia criado não existia mais. cancelan- do-os para sempre. Isso era inteiramente desnecessário. examinando- os com olho crítico. Alvin materia- lizou seu divã predileto e atirou-se nele. não podiam dizer se era um servo passivo de Alvin ou se operava por livre volição. chamou o número que Khedron lhe dera na Torre de Loranne. Depois. porém. agindo por impulso. que os pais apreciassem sua consideração. Começou com Eriston e Eta- nia. Assim que a parede se fechou à suas costas. Não esperava resposta. porquanto era óbvio que provinha de outro lugar. A parede se dissolveu e Khedron estava de pé diante dele. O 143 . A julgar por seu comportamento. e Alvin deixou uma mensagem breve. a Alvin parecia ter comprimido toda a experiência de uma vida nos poucos dias que passara fora de Diaspar. O que o robô pensaria de Diaspar? - imaginou Alvin. Es- perava. estava começando a aprender a cortesia. não lhe despertando qualquer orgulho. que ainda olhava. invocou das unidades de me- mória seus últimos esforços de pintura e escultura. não simplesmente devolvendo-os ao Banco de Memória. Só quando se sentiu inteiramente tranqüilo em casa foi que Alvin começou a chamar seus amigos. Se antes não haviam conseguido satisfazê-lo. O aposento voltou a ficar vazio. informando-os sobre sua volta.só que a mensagem era assusta- doramente inesperada.

começou ele .. descobri que Alystra nos seguira. já o fiz antes. Se isso não acontecer. .) . apenas um momento parecerá ter passado antes de eu pisar novamente nas ruas de Diaspar. conquanto estejam numa cidade que lhes deve ser estranha. daqui a cinqüenta ou cento e cinqüenta mil anos. Estou acostuma- do a isso. e estão à minha procura.Alvin . . Logo os supervisores estavam à minha procura e resolvi esconder-me.” “Estou. depo- sito minha confiança no Computador Central e nas forças que ele controla em benefício de Diaspar. sugere que possuem poderes de telepatia. estamos todos perdidos. já que no passado houve ameaças disso. Se alguma coisa afetar o Compu- tador Central. Que espécie de cidade encontrarei? Será estranho se você estiver lá.(Aqui. e ele falava como se dispusesse de pouquíssimo tempo. O fato de quase me terem apanhado. Um dia. Nada me impor- tará.” “Para mim.” “Nunca o compreendi. só podem ter vindo de Lys. nada tenho a temer.. diferente da pessoa confiante e ligeiramente cínica que pusera Alvin no caminho de Lys. suponho.” “Você já imagina que voltei para a Casa da Criação. Alvin. Havia em seus olhos uma expressão de animal caçado.Bufão parecia cansado e nervoso. Só o Computa- 144 . Talvez seja tolice proceder assim. mas uma outra pessoa quase me encontrou.isso é uma gravação. e onde poderei escapar de todas as mudanças que es- tão para acontecer em Diaspar. mas isso é uma coisa que só o tempo dirá. Aconteça o que acontecer. antecipando-me a uma medida que acredi- to que o Conselho certamente se disporia a me aplicar. Só você pode recebê-la.Não me encontrariam nem em mil anos. pensou Alvin. mas pode utilizá-la como lhe aprouver. Estou indo para onde ninguém me pode seguir. algum dia. Não sei dizer se espero com ansiedade esse encon- tro ou se o temo. “Quando cheguei de volta ao Túmulo de Yarlan Zey. Eu seria capaz de lutar contra o Conselho. voltaremos a nos encontrar. Não sei o que significa e não gosto nada disso.. Há estrangeiros em Diaspar.. Alvin. para a se- gurança dos Bancos de Memória. Ela deve ter avisado ao Conselho que você havia saído de Diaspar e que eu o ajudara. mas esse agora é um perigo des- conhecido que prefiro não enfrentar. quando algumas de minhas brincadeiras não foram muito apreciadas. embora houvesse uma época em que a vaidade me levou a crer que o compreendia. estava um lam- pejo do velho Khedron. por isso. saberei com certeza a resposta.

. mas de modo algum toda ela. mas tivera o infortúnio adicional de possuir fértil imaginação.dor Central conhece a verdade. poderia trazer coisas pio- res . em breve. o Bufão fugira do presente para o futuro ignoto. Pensei em lhe dar alguns conselhos.” “Adeus. Você seguirá seu próprio caminho. para considerar o efeito do que estava fazendo sobre algum dos amigos? Havia-lhes trazido ansiedade e. Não me lembro de mais nada a dizer. O fato só provava o que ele já sabia . poderão ser desagradáveis. Em decorrência de seus atos. mesmo que Alvin o houvesse desejado. mas creio que você não os aceitaria. Alvin permaneceu imóvel por muito tempo após a imagem de Khedron ter desaparecido. e que depois nunca mais foram vistos.o Khedron que já não existia. ou ver se você foi inteiramente esquecido. aparentemente..que Khedron era um covarde. mas estou ansioso por perder os estágios intermediários que. salvo como um padrão de cargas elétricas nas células de memória da cidade . tristeza. num mundo que estará à minha volta apenas daqui a alguns minutos de tempo aparente. em todos os seus planos e aventuras. conforme a ocasião.olhou Alvin com resignação e. a personalidade ácida do Bufão impedia qualquer relacionamento mais estreito. Quando foi que fizera uma pausa.” “Isso é tudo. Alvin podia assumir uma parte da responsabili- dade por seu destino. Estava sondando sua própria alma. Khedron . Alvin. 145 . Jamais fora muito amigo de Khedron. Evidentemente. No entanto. pensou Alvin. Desejo ver os resultados da- quilo que você começou. ao se lembrar das pala- vras com que Khedron se despedira. porém. sentia-se tomado de remorso. se você é lembrado como um criador ou como um destruidor. pois não podia negar a verdade de muito do que Khedron acabara de dizer. Será in- teressante ver. não havia por que se culpar disso. Talvez não fosse mais covarde do que qualquer outra pessoa em Diaspar. Depois a tela esvaziou-se. suspeito. tal como sabe a verdade a respeito dos demais Únicos que têm aparecido de vez em quando. no decur- so das eras.tudo por causa de sua insaciável curiosidade e do impulso de descobrir o que não era conhecido. Descobriu o que lhes aconteceu?” “Suponho que um dos motivos pelos quais estou fugindo para o futuro é a minha impaciência. e seus amigos serão apenas instrumentos a serem usa- dos ou abandonados. como raramente havia feito em toda a vida.” Por um momento. como sempre fez.

segundo a ocasião. O animal levava-o a muitos lugares estranhos. que mais po- deria ter feito? Teria ela sido mais feliz se a desdenhasse comple- tamente? Compreendia agora que jamais amara Alystra. como nenhu- ma das mulheres que conhecera em Diaspar. se tal momento jamais existiu. mas não inamistoso. O devaneio de Alvin foi rudemente interrompido pelo carri- lhão da tela. O tutor mostrava-se grave. E lembrou-se de Alystra. mas em seu louco galope lhe mostrara seus po- deres e lhe ensinara onde ele. Lembrou-se de todas as pequenas gentilezas que os pais lhe haviam dispensado durante anos. Diaspar esquecera-se de muitas coisas. Foi esse o momento. . não havia agora em Diaspar uma só mulher que conhecesse ou amasse aquilo que fora outrora a meta final do amor. Talvez essas coisas só vicejassem devido à sua própria fu- gacidade. porque não podiam durar eternamente e jaziam sempre sob a sombra que Diaspar havia banido. A quem mais em Diaspar causara mal ou sofrimento? Pensou em Jeserac. seu tutor. Alvin. Se pudesse conceber uma analogia tão arcaica. Ela o amara. . Até agora. . e ele aceitara aquele amor ou o ignorara. poderia ter-se comparado ao montador de um cavalo que houvesse tomado o freio nos dentes. Deu o sinal de admissão e daí a um instante estava diante de Jeserac.ele disse. Al- vin . e o mesmo poderia voltar a acontecer. No entanto. agora percebia que tinham sido maiores do que imaginara. e en- tre elas estava o verdadeiro significado do amor. . Em Airlee vira as mães embalando os filhos no colo e sentira ele próprio aquela ter- nura protetora por todas as criaturas pequenas e desamparadas. na cidade imortal. ternura que é a desprendida irmã gêmea do amor.Quer dizer que este é o companhei- ro que você trouxe de suas viagens! Creio que seria melhor ele vir conosco. tão paciente com um pupilo dos mais difí- ceis. Isso vinha a calhar para Alvin.Pediram-me que o conduzisse à presença do Conselho. Não existiam emoções reais. No entanto.Jeserac viu então o robô e examinou-o com curiosidade. Essa era outra lição que Lys lhe ensinara. O timbre do som avisou-o de que não se tratava de um chamado. mas que chegara uma pessoa que desejava vê-lo. realmente desejava ir. paixões profundas. 146 .Estão à sua espera. O robô já o livrara de uma situação perigosa e possivelmente teria de ser-lhe novamente útil. em que Alvin compreendeu qual tinha de ser o seu destino. havia sido o agente inconsciente de seus próprios impulsos.

talvez bem depressa. . e pela milésima vez de- sejou poder compreender o que se passava em sua mente herme- ticamente lacrada. mas não despedaçado. pois ele jamais lhe perten- cera. Alystra . se resolvesse a agir. . ao vê-lo partir.. Alvin sentiu o corpo respondendo à sua pre- sença. A única vez em que havia co- nhecido essa sensação foi quando se obrigara a transpor as últimas 147 .O que vão fazer com você? Alvin tomou-lhe as mãos com uma ternura que surpreendeu a ambos.Oh. Afinal. Alvin mal notou os olhares curiosos ou horrorizados de seus concidadãos. Esperaram apenas alguns minutos na ante-sala. seus olhos estavam rasos d’água quando se aproximou para saudá-lo.ela disse. e poderia deserdá-lo a qualquer momento. Mas era apenas atração física. . se não tinha medo. A beleza e a infelicidade dela eram tão gritantes que. De vez em quando. mas foi tempo suficiente para que Alvin imaginasse por que. E com a aceitação desse fato. Suavemente soltou as mãos e virou-se para acompanhar Jeserac em direção à Câmara do Conselho. não teve coragem de fazê-lo. tal como nos velhos tempos. Alystra esperava-os na rampa que levava à rua. Alystra sentiu o coração magoado.Tudo vai sair bem. e o que então fizesse tal- vez não se coadunasse com os planos de Alvin. analisar e tirar suas próprias conclusões. O único aliado que possuía estava ligado a ele por tênues laços de interesse. Depois. Percebeu que não o perdera. as pernas lhe tremiam tanto. e por algum motivo não creio que isso venha a acontecer.Não se preocupe. Alvin não a desdenhava. a pior coisa que o Conselho poderia fazer seria mandar-me de volta para os Bancos de Memória. enquanto ele e seus acompanhantes atravessavam as ruas familiares. Mesmo que Alvin houvesse desejado culpá-la pelo papel que desempenhara na revelação de seu segredo.disse. A afli- ção dela era palpável. Repassava os argumentos que poderia ter de usar e dispunha sua narrativa na forma que lhe fosse mais favorável. Alvin tinha a impressão de que por ora o robô decidira-se a ver. assegurava a si mesmo que não estava absoluta- mente alarmado e que ainda era senhor da situação. nada fazendo por livre vontade até chegar o momento oportuno. . Alvin .. mas aquilo já não bastava. começou a colocar-se além do poder das lamentações vãs. mesmo naquele momento.Imaginou o que a máquina teria pensado a respeito das aventuras e vicissitudes em que tinha sido envolvida.

por uma entrevista en- tre o Presidente e o Computador Central. em muitos séculos. Pensou no que Hilvar estaria fazendo naquele mo- mento e em se algum dia voltariam a encontrar-se. e Alvin sentiu-se lisonjeado ao per- ceber que não havia lugares vagos. mas a natureza humana havia melhorado em certos aspectos. De repente. onde Hilvar lhe mostrara a cachoeira. se necessário. afinal. e sentiu-se reconfortado pela presença de tantos rostos familiares. No passado isso teria sido suposição temerária. homens razoáveis. Eles o ouviriam com justiça. As grandes portas se abriram e ele seguiu Jeserac à Câmara do Conselho. que o Conselho se reunia sem uma única abstenção. Seu juiz não seria o Conselho. Poderiam estar irrita- dos com o fato de alguém haver provado que laboravam em erro. Em geral. Alvin conhecia de vista a maioria dos membros do Conselho. 148 . Tal como Jeserac. uma vez que todos os negócios rotineiros se resolviam com chamados de visifone e. mas o que pensariam não era o mais importante. não se mostravam hostis . à mesa em forma de crescente. Eram. Seria o Computa- dor Central. suas raras reuniões eram apenas uma total formalidade.apenas ansiosos e perplexos. pareceu-lhe muito importante que se revissem. Aquela devia ser a primeira vez. mas Alvin não acreditava que lhe votassem qualquer ressentimen- to.encostas daquele monte distante de Lys. Os vinte membros já se achavam em seus lugares. de cujo topo avistara a explosão de luz que os atraíra a Shalmirane.

Duvidou que soubessem que estranhos vinham entrando na cidade. o era. e de sua convicção ir- racional de que esse mundo realmente existia. a violação de seus preconceitos mais profundos. já era bastante estranha aos ouvidos dos membros do Conselho e dispensava maiores embelezamentos. e que estavam enganados. A princípio. Caso se sen- tissem tentados a fazê-lo.disse. o Conselho relutava em ad- mitir que ele houvesse realmente saído de Diaspar. Poderiam não gostar do que Alvin lhes contara. com bastante cordialidade -. Somente num ponto afas- tou-se da rigorosa exatidão. O Presidente declarou aberta a ses- são e virou-se para Alvin. quaisquer dúvidas que pudessem ter tido lentamente se dissolveram. Só houve um aspecto de sua história que lhes despertou in- dignação . Alvin contou sua história com clareza e sem dramaticidade. Parecia provável que tivesse de usar o mes- mo método novamente. Para suas men- tes. Nesse caso. Quando Alvin lhes falou de seu desejo passional de ex- plorar o mundo que havia além da cidade. Era fascinante observar como a atitude dos membros do Conselho se alterou durante o curso de sua narrativa.Alvin . com efeito. O emprego da palavra “desaparecimento”. mostraram-se céticos. era altamente significativo. gostaríamos que nos contasse o que lhe aconteceu desde seu desaparecimento. A medida que a história se desenrolava. dez dias atrás. recusando-se a aceitar a negação de tudo em que haviam acreditado. pois nada disse a respeito da maneira como escapara de Lys. CAPÍTULO XVI Não houve formalidades. mas já não podiam negar-lhe a veracidade.e mesmo assim o sentimento não se dirigia contra ele. Ainda agora. teriam demonstrado muito mais alarme. pensou Alvin. 149 . Mas por fim viram-se obrigados a admitir que Alvin tivera razão. . bastava-lhes olhar o companheiro silen- cioso de Alvin. fitaram-no como se ele fosse um animal estranho e incompreensível.

antes que censura. desejava até onde fosse possível. Quando em Lys. mas também temos muitas coisas para lhes dar. pois desarmava de antemão a maioria de seus possíveis detratores. Um dia. teria de convencer esses homens das verdades que havia aprendido em Lys. Havia uma certa honra em ter sido o preceptor do cérebro mais original surgido em Diaspar desde as Eras do Alvorecer. e que esperava louvor. Que alguém pudesse considerá-los inferiores era mais do que os membros do Conselho podiam tolerar. O próprio Jeserac. embora soubesse perfeitamente o que estava pen- sando. não será óbvio que ambos estamos errados? Alvin olhou os rostos à sua frente e sentiu-se encorajado a prosseguir.ele disse . poderemos vir a saber como isso se deu. Se nossos povos acreditarem que nada temos a aprender uns com os outros. Não foi senão depois de ter findado o relato factual de suas aventuras que Alvin tentou um pouco de persuasão.Parece uma enorme tragédia . era jovem demais para ver qualquer perigo no que estava fazendo. talvez. Jeserac parecia não tomar conhecimento desses olhares. fazia-se claro a seus interlocutores. e as medidas que Seranis tomara para evitar tal catástrofe. por suas descobertas.Um murmúrio de irritação percorreu a câmara quando Alvin ex- plicou a ansiedade de Lys em evitar contaminação com Diaspar. e de vez em quando vários dos conselheiros lançavam- lhe olhares significativos. O Bufão. Ainda não sabiam o quanto o próprio Khedron havia concordado com eles. De algum modo. Teve também o efeito . como tutor de Alvin. podem ter muito o que nos ensinar. porém mais importante agora é remediar o rompimento. entretanto. e com bons motivos.de transferir toda culpa para o desaparecido Khedron. de que nos são superiores. e nada podia roubar-lhe isso. A cidade tinha orgulho de sua cultura. tentou dar a impressão de não ter vis- to nada de errado no que fazia.que os dois ra- mos sobreviventes da raça humana se tenham separado durante período tão vasto. conquistar as boas graças do Conselho.ainda que involuntário . Durante toda a exposição. O próprio Alvin. evitar que ocorra novamente. protestei contra a concepção local... 150 . Era a melhor política a adotar. pois se comportara da maneira mais irresponsável possível. mas como poderia fazer com que compreendes- sem realmente uma coisa que jamais tinham visto e dificilmente poderiam imaginar? . deveria ter agido melhor. merecia parte da censura. Alvin teve todo cuidado em não ofender ninguém.

ele proclamara a verdade. podiam fa- lar aos homens .Só uma coisa. quando tivermos terminado nossa discussão. que fizessem o que desejassem.Por quê? Você sabe que o Computador já está informado de tudo quanto aconteceu nesta sala. . Diga-se. Deveremos para sempre nos ocultar como covardes.construíram um império que alcançou as estrelas. quero ir .Peço permissão tanto ao Conselho como ao Compu- tador. . quando as portas se fecharam mais uma vez.mas não possuíam esse tom inequívoco de sabe- doria e autoridade. Gostaria de levar esse robô à presença do Computador Central. Alvin olhou o Presidente.respondeu Alvin. em- bora eu a houvesse adivinhado há muito tempo.Muito bem. que não ten- tou explorar sua vitória.continuou . polido. Antes que o Presidente pudesse responder. que não passavam de fragmentos de vanguarda dessa grande inteligência. Alvin fez uma ligeira mesura de agradecimento. Os homens percorriam à vontade esses mundos. As máquinas de informação. Os supervisores o acompanharão e o trarão de volta.Tenho permissão do Conselho para sair? O Presidente olhou em torno. porque há um bilhão de anos os Invasores nos expulsaram de volta para a Terra? Pusera o dedo no medo secreto que sentiam .Alvin fez uma pausa. portanto. fingindo que nada mais exis- te. as grandes portas se abriram e ele saiu lentamente da Câmara.Nossos ancestrais . pelo menos tal como a via.Ainda assim. 151 . . .Que ele venha até mim . Contaram-me a verdade em Lys. mas sabia quem falava. Terei de dizer-lhes por quê? . Agora. .. jamais entendera plenamente.perguntou . Alvin jamais a escutara em sua vida. O Presidente olhou-o gravemente. . medo de uma coisa que aconteceu nos primórdios da história.o medo que ele jamais compartilhara e cujo poder.. e hoje seus descendentes receiam aventurar-se além das muralhas de sua cidade.E porque temos medo. a seu crédito. . uma voz clara e calma soou pela câmara... Jeserac o ha- via acompanhado e. não havia nenhum movimento no salão.antes de con- siderarmos o que devemos fazer? . não viu sinal de discordância e respondeu um tanto contrafeito: . Simplesmente perguntou: . mas com obstinação.disse o Computador Central.Tem mais alguma coisa a dizer .

Contudo. . a cidade de máquinas sem as quais Diaspar não podia existir. mestre e aluno encararam-se em silêncio. mas ele era arguto demais para levá-lo muito a sério. Havia nele um quê de humildade. num impulso.perguntou daí a pouco.Impaciente como sempre. Aquilo comoveu Jeserac. percebeu Alvin. . . e a longo prazo o que será o mais importante? Quantas vezes você parou para pensar nisso? Por um momento.ele disse lentamente. e não há como negar que você acrescentou muito ao nosso conhe- cimento. mas imagino que decidirão selar o Túmulo de Yarlan Zey. pois que não os tinha. sem que nunca. Jeserac sorriu.ele se virou para encarar o tutor. de modo que ninguém possa voltar a fazer a viagem.É disso que tenho medo . em séculos. Então. Alvin achava-se sob considerável tensão. e não seria seguro supor que qualquer melhoria em seu caráter fosse permanente.tão brilhantes que feriam a vista . . Sabia que Jeserac adi- vinhara suas intenções. A algumas centenas de me- 152 . Por aquelas grandiosas passagens os robôs de Diaspar de- viam transitar durante todas as suas vidas intermináveis. e Jeserac ficou surpreso com o novo tom de sua voz. . você aumentou também os nossos perigos.Essa é uma pergunta muito difícil de responder . não? Não sei o quanto vale meu palpite. com a escolta ainda os seguindo pacientemente na retaguarda. Ali estava o subterrâneo da cidade. uma tênue sugestão de que pela primeira vez buscava a aprovação de seus conterrâneos. Chegara ao estágio em que só podia improvisar e enfrentar cada nova situação quando ela surgia.disse Alvin amargamente.perguntou ansio- samente. Sob o esplendor de intensas luzes azuis . Então Diaspar poderá continuar como antes.O que pensa que o Conselho fará agora? . . sem ser perturbada pelo mundo lá fora. ouvissem o som de passos humanos. Aquele mundo. mas pelo menos seu tutor não lhe podia prever os planos.os longos e largos corredores pareciam estender-se até o infinito. viraram-se juntos e entraram no longo corredor de saída da Câmara do Conselho.Acha que tenho culpa? .Sou tentado a dizer que todo conhecimento é valioso. .E você ainda tenciona evitar que isso aconteça? Alvin não respondeu imediatamente. não fora feito para o homem. cada qual talvez vendo o ponto de vista do outro mais claramente do que antes.

água. Toda aquela expansão brilhantemente ilumi- nada achava-se coberta por centenas de grandes estruturas bran- cas. depois uma perspectiva distante. algo tão inesperado. terminava no alto da parede da câmara . segundo os mapas. Sabia que eram todas 153 . e a cada mudança as máquinas antigas eram esquecidas e outras novas ocupavam-lhes o lugar. doravante poderia manter-se eternamente.e de ambos os lados longas rampas desciam para o piso distante. tomado de assombro e incerteza. aproxi- mava-se do ideal da máquina perfeita . à sua frente. o Computador Central conjecturava eternamente sobre o destino de Diaspar. Ali estava o fim de uma evolução quase tão longa quanto a do Homem. Sua realização custara ao Homem talvez cem milhões de anos. Em parte alguma havia o que esperava ver . A câmara ali estava. Alvin já não se perguntava mais quais daquelas silentes pre- senças brancas era o Computador Central. fez com que se detivesse. vento . Vagarosamente. Ali. o corredor abria-se numa câmara circular com mais de quilô- metro e meio de diâmetro. e era ainda mais vasta do que Alvin ou- sara imaginar .tros. Ali estava a expressão suprema daquele ideal. e por fim uma realidade: Nenhuma máquina pode conter qualquer parte móvel. O panorama fantástico. e por toda sua vida jamais a perderia. A máqui- na atingira a perfeição. por mais ingê- nua que fosse tal concepção.certamente a maior cavidade jamais cons- truída pelo homem . A impressão era acentuadamente vívida.aquele ideal que fora pri- meiramente um sonho. e no momento de seu triunfo ele voltara as costas à máquina para sempre. o teto suportado por colossais colunas que tinham também de arcar com o peso inimaginável do Centro de Força. no decurso de milhares de anos. até ser por seu turno descartada. enquanto o servia. Vapor. O corredor. pelo qual tinham chegado ali. que por um momento Alvin pensou que estivesse contemplando uma cidade subterrânea. a energia da matéria havia também movido o mundo. mas despido de significado.o familiar brilho de metal que desde o começo do tempo o Homem aprendera a associar com seus servos. quando a humanidade aprendera o emprego da força e enviara seus motores ruidosos por todo o mundo. Seus primórdios perdiam-se nas brumas das Eras do Alvorecer.tudo tinha sido mobilizado por algum tempo e depois aban- donado.mas onde estava o Computador? Por alguma razão esperara encontrar uma única máquina gigantesca. Por séculos.

nada viu. A máquina diante da qual se encontrava era menor do que a maioria das companheiras. um largo painel transparente percorria toda a extensão da estrutura. organizadas num volume de espaço de alguns centímetros. 154 . davam a impressão de um animal agachado e. Alvin desceu lentamente pela rampa. móveis ou não. uma vez que sabia tudo quanto acontecia em Diaspar. ou se haviam concluído que poderiam exercer vigilância sobre ele do ponto onde estavam.Siga pela rampa da esquerda . depois. A voz agora familiar. mas ainda assim se sentiu minúsculo em comparação a ela. a voz serena deu novas instruções. Os cinco pavimentos. com suas amplas li- nhas horizontais. .e que ele se estendia para muito além daquela câmara. Inseguro quanto ao caminho a tomar. e ele pôs- se a caminhar entre uma avenida de adormecidas formas titânicas. Estavam dispostos um após o outro. que Alvin não acreditou que sua escolta pudesse também ouvi-la. sendo ambos designados pela mesma palavra.. A cerca de um metro do chão. Por três vezes a voz falou-lhe novamente. Ao pé da rampa. . Ou talvez já houvessem chegado o mais próximo que se atreviam do santuário central de Diaspar. incluin- do em seu ser todas as incontáveis máquinas de Diaspar. soou tão serena e tão perto dele. desviando o olhar para seu próprio robô. mas ainda assustadora. O Computador Central deve- ria saber que ele se encontrava ali. numa treliça tridimensional. no alto. distinguiu milhares de tênues pontos de luz pairando no vazio. também os elementos físicos do Computador central estavam espalhados por toda a extensão de Diaspar. Aquela câmara poderia não encerrar mais do que o sis- tema pelo qual todas essas unidades dispersas se mantinham em contacto recíproco.Depois darei novas instruções. protegendo os olhos. Só lhe cabia aguardar instruções.disse. Alvin achou difícil acredi- tar que ambos fossem produtos da mesma evolução. sem se darem ao trabalho de empreender a longa descida. Alvin ficou a pensar se teriam recebido ordens para lá permanece- rem. com o robô a flutuar sobre sua cabeça. Nem Jeserac nem os supervisores o seguiram. até que daí a momentos entendeu que chegara ao destino. Da mesma forma que seu próprio cérebro era a soma de muitos bilhões de células separadas. De início. Alvin contemplou as grandes rampas e a arena silenciosa. Alvin premiu a testa con- tra o material liso e curiosamente morno. perscrutando as entra- nhas da máquina.

raramente se lem- brando de que em algum lugar deveria existir o protótipo daquilo que ele via chegar ao mundo. nada entenderia tampouco. que era após era proviam o fluxo incessante das necessidades de Diaspar.tão estranha e sem sentido para ele como as estrelas certamente teriam sido para o homem antigo. esquecido da passagem do tempo. Era difícil falar com uma presença que enchia todo o espaço ao redor. Em par- te alguma viam-se indícios de órgãos sensoriais .. Imaginava como o Computador Central tinha ciência de sua presença. que não passava de um dos inumeráveis incidentes que chega- vam à sua atenção simultânea enquanto vigiava Diaspar. Da mesma forma que o cérebro humano pode demorar-se um instante sobre um único pensamento. A máquina parecia inerte e imóvel porque ele não podia ver seus pensamentos. per- cebeu Alvin.perguntou. não ousando falar até receber algum outro sinal de reconhecimento. Os padrões de todas as coisas criadas estavam congelados naquelas mentes eternas. Mi- lhares de vezes assistira àquele ato de criação.nada dos gradis.Exponha seu problema . As palavras de Alvin como que morriam no ar vazio assim que ele as pronunciava. também os cérebros in- finitamente maiores. hora após hora.O que sou? . Se pudesse contemplar o interior de seu próprio cérebro. Embora olhasse por muitos mi- nutos. talvez nem mesmo uma milionésima parte do Computador Central estivesse tratando com ele. Alvin enten- deu então que estava sendo presunçoso. podia vê-lo e ouvir sua voz. telas ou impassíveis olhos de cristal através dos quais os robôs normalmente tomavam conhecimento do mundo que os rodeava. Houvesse ele colocado tal pergunta a uma das máquinas de 155 . . Parecia estranho que aquela esmagadora massa de maquinaria re- sumisse seus pensamentos com tamanha suavidade. . Alvin esperava. Pela primeira vez. as luzes coloridas nem uma vez se moveram nem seu brilho se alterou. . carecendo apenas do toque de uma vontade humana para torná-las realidade. que não representavam senão uma porção do Computador Central. Por toda a vida aceitara sem discussão o milagre dos sintetizadores. começou a ter um remoto entendimento dos poderes e das forças que mantinham a cidade. podiam apreender e aguardar para sempre as mais complexas idéias. os primeiros cavernícolas haviam talhado pacientemente suas pontas de flechas e suas facas na pedra obstinada.disse a voz serena a seu ouvido. O mundo percorrera longo caminho desde que.

O robô poderia reagir violentamente se soubesse o que estava planejando. . o amortecimento total de todos os sons. e não havia necessidade de dificultosa precisão semântica. porém. várias vezes o tinha feito. . Mas agora estava lidando com uma inteligência de ordem totalmente diversa.informação da cidade. mas não havia necessariamente virtude alguma nisso. portanto. Sabia que ali não poderia aprender nada mais com relação ao mistério de sua origem. . Os habitantes de Diaspar tinham sido projetados com o mesmo cuidado que suas máquinas.Ninguém pode ouvir-nos agora. 156 . agora curiosamente sem expressão e sinistra.Ele deve possuir conhecimentos inestimáveis do passado. devia ocultar. ou esperar que ela revelasse informações que. Diga o que quer. Na verdade. . o que. . não havia mudado de posição.Não posso responder a essa pergunta. sem dúvida. . e sempre lhe haviam respondido: “Você é um homem”. que ocorria quando uma pessoa se encontrava dentro de uma dessas zonas.perguntou.Você deve estar a par de que encontrei esse robô .Alvin olhou de relance para o robô.Então meu papel foi planejado quando a cidade foi cons- truída? . O Computador Central saberia o que ele que- ria dizer. Talvez de nada suspeitasse. pelas or- dens recebidas. Essa resposta obrigou Alvin a fazer uma pausa. sentiu a inequívoca sensação “morta”. anulá-lo. A voz do Com- putador. a resposta foi exatamente a que Alvin temera. de modo que era essencial não entreouvir ele o que pretendia dizer ao Computador Central. Era inútil tentar ludibriar aquela vasta in- teligência. O fato de ser um Único transformava Alvin em raridade.Isso pode ser dito de todo e qualquer ser humano. Era verdadei- ra. Instantaneamente. Olhou o robô trazido de Lys e ficou a pensar como proceder a seguir.Pode-se obter uma zona de silêncio? . Fazê-lo representaria revelar o objetivo de meus construtores e. Alvin não se sentiu exageradamente desapontado. e de qualquer maneira não era esse o principal objetivo de sua visita. sabia qual teria sido a resposta. achava que já começara a vislumbrar a verdade. não significava que estivesse disposto a responder-lhe. falou: . e ele cometesse erro ao imaginar que a má- quina tivesse planos próprios. Com efeito. Talvez ela o houvesse acompanhado a Diaspar como um servo fiel e digno de confiança e nesse caso o que ele estava agora planejando parecia um golpe particularmente baixo.começou Alvin.

com seus recursos mentais infinitamente maiores. fará com que o conteúdo das células de memória seja cancelado. e vou segui-lo.Se você puder falar ao robô. com súbito alarme . Isso representava.É possível criar um bloqueio que se modificado. Será simples então assegurar o seu envolvimento num paradoxo lógico. Infe- lizmente. será forçada a desobedecer às instruções recebidas. sem êxito. .foi a resposta.que remontam aos dias anteriores à cidade tal como a conhecemos.Seu pedido envolve dois problemas . que absorvia cada palavra antes que pudesse formar um eco. que seu pedido fosse deferido ou rejeitado. de modo que.Isso depende inteiramente da natureza do bloqueio . mas peço-lhe que o anule. Sua voz soava morta e oca na zona de silêncio.que o cancelamento da memória seja causado por uma mera pergunta a respeito da existência desse circuito? . quer ela me responda. . Esse robô foi projetado para obedecer às ordens de um determinado homem.respondeu o Computa- dor.respondeu. Nesse casos. Não sei até onde vai a eficácia desse bloqueio. creio ser improvável que o Mestre possuísse perícia suficiente para fazer isso. Darei instruções secundárias. dizendo à máquina que ignore mi- nha pergunta se tal situação existir. Que direito tenho de passar sobre elas mesmo que possa fazê-lo? Essa era uma pergunta que Alvin previra e para a qual havia preparado várias respostas. dentro daquele vazio invisível e sem reverberações. para sua própria proteção. Perguntarei à sua máquina se um circuito de can- celamento foi acoplado em suas unidades de memória. pois tal procedimento envolve técnicas altamente especializadas. Con- tudo. poderá talvez per- suadi-lo de que as circunstâncias nas quais o bloqueio foi imposto acham-se agora alteradas.interpôs Alvin. quer não diga nada. Alvin quase se arrependeu de ter levantado a questão. todos os robôs agem da mesma maneira. uma vez que acompanhou o Mestre em suas viagens. mas esperava que o Computador Central.Um deles é moral. o outro é técnico. . Poderá até ser capaz de nos falar sobre outros mundos além da Terra.Não sabemos a forma exata que tomou a proibição do mes- tre . .Mas suponhamos . . Esperou. . O próprio Alvin a tentara. Eles limpam seus circuitos de entrada e agem como se não tivesse sido feita pergunta alguma. naturalmente. a abordagem óbvia ao pro- blema. e de- 157 . fosse capaz de ter sucesso onde ele falhara. .Há um procedimento padrão para tais casos. seus circuitos de fala acham-se bloqueados.

Então. Houve outro longo silêncio enquanto Alvin considerava o sig- nificado dessa observação e enquanto as mentes dos dois robôs refaziam seu delicado contacto. Alvin não tinha desejo algum de ver a máquina reduzida a uma pilha de sucata. Agora ambas se achavam além da compreensão total de qualquer homem vivo. e creio saber porque foi imposto. fingindo que jamais tinha feito a pergunta. Os Grandes nunca existiram e nunca existirão.o Computador Central estava plenamente preparado para lidar com quaisquer ar- madilhas que pudessem existir nas unidades de memória do robô. falava coisas sem sentido. Fora afastado da verdade pelos desejos de um ho- mem que enlouquecera e que morrera havia um bilhão de anos.Talvez você tenha razão . .disse. Durante a maior parte do tempo. e Alvin sentiu um amargo de- sapontamento. e tentou explicar-nos como eram.Estabeleci contato parcial .Pelo menos conheço a natureza do bloqueio.ao dizer que os Grandes nunca existiram. . enquanto ocorria o silencioso e impalpável encontro de intelectos. preferia vê-la voltar para Shalmirane com seus segredos ainda intactos. .protestou Alvin. Ali se pro- cessava um encontro entre duas mentes.O outro discípulo do Mestre também acreditava neles.pois de um momento de luta mental decidiu que ele também adota- ria a mesma tática. Só há uma maneira pela qual ele pode ser suspenso.disse o Computador Central . . esse robô jamais falará novamente. de sua realização suprema. ele se viu em Shalmirane. Pelo menos estava tranqüilo com relação a uma coisa . sem qualquer aviso. 158 . Parecia um impasse completo. há muito perdida. Esperou com o máximo de paciência que pôde.Mas isso é absurdo! . ouviu-se de novo a voz sem eco do Compu- tador Central. ambas criadas pelo gê- nio humano na idade áurea. Antes que os Grandes voltem à Terra. Mas isso não significa que nunca existirão. Minutos depois. .

O robô ainda estava a seu lado. E chegavam. Os poderes que a ha- viam criado estavam perscrutando o universo de brinquedo que haviam descoberto. Apesar de todo seu conhecimento de astronomia. a cunha continuou a ampliar-se até abarcar um quarto do céu. Como centelhas a saltar de uma forja celeste. até que uma cascata de fogo como que jorrava do céu e se acumulava em poças de líquida luz. talvez consultando-se quanto à conveniência de explorá-lo. alargando-se vagaro- samente. a grande depressão de ébano absorvendo toda a luz solar. Diante daquela “pesquisa” cósmica. CAPÍTULO XVII Tudo estava como ele vira pela última vez. como se a noite e o caos estivessem a despenhar-se sobre o universo. Agora haviam decidido: prodigalizariam alguns fragmentos da eternidade à Terra e seus povos. O céu começou a se rachar em dois. Vinham cada vez mais densos. A Alvin soaram desnecessárias as palavras. Inexoravelmente. através da janela que haviam aberto no céu.e que alguma coisa estava penetrando nessa cúpula. Alvin não teve tempo para pensar no que aquilo significava ou preocupar-se com a ausência do amigo. sem refletir porção alguma dela. Uma delgada cunha de escuridão estendeu-se do horizonte ao zênite. caíam sobre a Terra. Sabia que estava face a face com o poder e a sabedoria. ouvi- 159 . tendo deixado de ser uma criatura organizada e inteligente. contemplan- do o lago. Alvin achava-se em meio às ruínas da fortaleza. pois quase imediatamente ocorreu algo tão fantástico que baniu de seu espírito quaisquer outros pensamentos. A cunha de noite cessara de crescer. Alvin não sentia alarme nem terror. vinda do lado de fora. mas não havia sinal de Hil- var. nunca medo. ao tocar o chão. diante dos quais um homem poderia sentir assombro. cujas águas imóveis mostravam que o pólipo gigantesco não passava agora de uma nuvem dispersa de animálculos. Alvin não conseguia rechaçar a impressão de que ele e seu mundo jaziam sob uma grande cúpula azul .

E naquele momento Shalmirane e seus estranhos visitantes desapa- receram. seus centros se erguendo em colunas.E como fez isso? . esses turbilhões giravam em seus eixos. não mais real do que o mundo de fantasia das Sagas. Você entende que pude empregar centenas de circuitos. nas profundezas de Diaspar. perguntando ao robô como eram os Grandes. em cujo interior Alvin lobrigava misteriosas formas evanescentes. e pude passar de uma imagem para outra tão depressa que a mudança não foi percebida. O pa- drão era muito incompleto. Desses totens brilhantes vinha uma leve nota musi- cal. Mas como fora criada? De onde proviriam as estranhas imagens que ele vira? . Foi uma espécie de prestidigitação. e ele estava novamente de pé ante o Computador Central. infundindo à grande depressão de Shalmirane seu brilho dourado. em que ele passara tantas horas de sua juventude. ‘’Eis chegados os Grandes. . o resto seria simples. Cada vez mais depressa. e não queimava. O esplendor começou a adquirir formas separadas. Alvin percebeu que o que via não era uma inundação informe de luz. além disso.disse a voz serena do Compu- tador Central. Mesmo tomado de admiração. a juntar-se em ardentes vórtices distintos. 160 . fui capaz de saturar os circuitos sensórios do robô e. Estivemos à espera de vos- sa chegada”. ao passo que ele só tinha um à sua disposi- ção. e então capturando o padrão formado em seus pensamentos.Basicamente. Tudo fora ilusão. . O que você viu foi apenas a imagem final e corrigida . mas que ela possuía feitio e estrutura. inun- dar suas faculdades críticas. soube que as barreiras tinham sido postas abaixo. mas quando isso aconteceu con- segui perceber a crescente perplexidade dele e modificar o quadro antes que passasse a suspeitar. Quando Alvin escutou as pala- vras “Os servos do Mestre vos saúdam.Era um problema inusitado .” O fogo alcançou-o. infinitamente distante e admiravelmente doce. Por uma ou duas vezes a imagem que criei começou a se afastar bastante da concepção do robô. de modo que tive de improvisar muito.’’ Dessa vez.das como uma bênção: “Eis chegados os Grandes. Estava por toda parte.a que melhor se ajustava à revelação do Mestre.Eu sabia que o robô devia ter alguma concepção vi- sual dos Grandes em sua mente. Se eu pudesse convencê-lo de que as impressões sensórias que ele recebesse coincidiam com aquela imagem. ouviu-se resposta.

como você poderá fazer agora. O robô não está mais louco. poderia destruir os fundamentos do poder do Mestre. e essa fé aumentava sua força. Se tivesse sido um mero impostor. Alvin ainda estava entorpecido. . Era um bom homem. O robô conhecia todos os seus segredos. e perguntou ansiosamente: . de uma má- quina suficientemente complexa para entender emoções como o ressentimento. A zona de silêncio fora rompida. se algum dia fosse interrogado detidamen- te. jamais teria atingido tal sucesso. mas. mas suficiente. Acho surpreendente que homens. Alvin imaginou o que o robô pensaria a respeito de sua liber- tação da velha servidão.e igualmente zangada com Alvin e com o Computador Central por terem-na devolvido à sanidade por meio de truques. e as portas do co- nhecimento agora lhe estavam abertas. Poderia estar encolerizada com o Mestre por havê-la escravizado . vê-se que ele alegava ter produzido muitos milagres.E suas objeções morais quanto ao desrespeito às ordens do Mestre? . acreditou em seus pró- prios milagres. Contudo. Lembrou-se então da advertência que o Computador Central lhe fizera. as coisas não são tão simples.Descobri por que foram impostas. até o último dia do Universo. O brilho daquele falso apo- calipse ainda fulgia em sua mente. não havia mais necessida- 161 . responderá a qualquer pergun- ta que você fizer. realizara-se um milagre de terapia. Por isso. É difícil acreditar que tal mistura de fraude e sinceridade pudesse coexistir no mesmo ho- mem. Quando se examina sua biografia em detalhes. nem seu movimento teria durado tanto tempo. se deixassem ludibriar dessa maneira. e muito do que ensinava era verdadeiro e sensato.Então. mas sabia que só havia uma testemunha capaz de refutá-los. e ele não se esforçou por com- preender inteiramente a explicação do Computador Central. O robô ficou convencido de sua veracidade o tempo suficiente para o bloqueio ser suspenso e nesse momento consegui estabelecer contacto completo com sua mente. Por fim. era seu porta- voz e seu colega. Tratava-se. o Mestre era uma fraude? . mas foi isso que aconteceu. e isso quando chegavam mesmo a acontecer. evidentemente. Não importava. é claro que to- dos esses milagres tinham uma explicação simples.Foi uma imagem grosseira. Seus discípulos acredita- vam nele.Não. quando os Grandes voltariam. em tudo mais dotados de bom senso. ordenou-lhe que jamais revelasse os segredos.

En- quanto perdurasse o mundo. nada ficou sabendo a respeito de sua conversa com o Computador Central. Mas Alvin quase não percebia. outros deviam certamente ter chegado quase tão longe quanto ele. Desde que travara conhe- cimento com Khedron. por exemplo.. a cada passo ele poderia ter tomado outro caminho. demasiado embriagado de êxito para manter qualquer conversa coerente. sem nada enxergar. essas silenciosas máquinas estariam ali. mas alguma coisa o impulsionara à frente. e esperar que Alvin saísse de seu transe. e por vezes sem conta. antes de pene- trarem no corredor. Shalmirane. Jeserac e os supervisores ainda esperavam pacientemente quando Alvin foi ter com eles... Voltou-se para o robô e fez-lhe a pergunta que o vinha perseguindo desde que ouvira a história da Saga do Mestre. Alvin estabelecia uma relação 162 . O que lhes acontecera? Talvez ele fosse simplesmente o primeiro a contar com a sorte.. ou estaria sendo especialmente favorecido pelo Destino? Talvez aquilo não passas- se de uma questão de probabilidades. pois nunca vivera. As ruas de Diaspar estavam banhadas por uma luz que pa- recia pálida e mortiça após o fulgor da cidade das máquinas. Embora Jeserac tentasse questionar Alvin.. mas pulsava com energias mais poderosas do que todas que jamais haviam latejado na matéria orgânica. Qualquer homem poderia ter encontrado a trilha traçada por seus passos. Abaixo dele estendia-se uma cidade morta de estra- nhos edifícios brancos.. E o robô respondeu. Lys. Alvin olhou para trás. Durante todo o trajeto de volta. Não se tratava apenas de discrição por parte de Alvin. durante o cami- nho de volta à Câmara do Conselho. não lançou um único olhar à beleza fa- miliar das grandes torres que passavam por ele. nas eras passadas. ou da atuação das leis do acaso.. os acontecimentos pareciam ter-se encami- nhado automaticamente a uma meta predeterminada. uma cidade calcinada por uma luz feroz. O momento esperado por Alvin chegara finalmente. ou pelos olhares curiosos de seus concidadãos.de de segredo. que não havia sido feita para a vista humana. Aqueles Únicos anteriores. ele ainda se achava demasiado per- dido na maravilha do que vira. Jeserac teria de reunir toda a paciência possível. jamais desviando a atenção dos pensamentos que homens de gênio lhe tinham dado havia muito tempo. Era estranho. e a ilusão foi mais forte do que nunca.. No alto da rampa. Seria ele o autor de seu próprio caminho. pensava que tudo que lhe acontecera levasse àquele momento. Morta poderia ser. Os Monito- res.

cada vez mais estreita com a máquina que ele libertara de uma
imemorial servidão. A máquina vinha sendo capaz de receber seus
pensamentos, mas até então ele não conseguira saber se ela obede-
cia a alguma ordem que lhe desse. Agora, terminara essa incerteza,
Alvin podia conversar com ela como falaria a outro ser humano,
muito embora, como não estivessem a sós, ele lhe determinasse
não usar a expressão verbal, mas sim imagens mentais simples
que ele pudesse entender. Às vezes Alvin ressentia-se do fato de
os robôs serem capazes de conversar livremente entre si ao nível
telepático, ao passo que os homens não podiam fazê-lo - exceto em
Lys. Esse era outro poder que Diaspar perdera ou deliberadamente
rejeitara.
Alvin continuou a conversa silenciosa, um tanto unilateral,
enquanto esperava na ante-sala da Câmara do Conselho. Era im-
possível não comparar sua situação no momento com a que ele
vivera em Lys, quando Seranis e seus colegas haviam tentado do-
brá-lo às suas vontades. Esperava que não houvesse necessidade
de novos conflitos, mas se surgisse algum litígio, estava agora mais
preparado para enfrentá-lo.
Logo ao ver os rostos dos membros do Conselho, ele entendeu
qual fora a decisão. Não ficou nem surpreso nem particularmente
decepcionado, e não demonstrou qualquer sinal da emoção que os
Conselheiros poderiam ter esperado, enquanto ouvia a súmula do
Presidente.
- Alvin - começou o Presidente -, consideramos com enorme
cuidado a situação provocada por sua descoberta, e chegamos a
uma decisão unânime. Como ninguém deseja qualquer mudança
em nosso modo de viver, e como apenas uma vez em muitos mi-
lhões de anos nasce alguém capaz de deixar Diaspar, e isso mesmo
que exista meio de fazê-lo, o sistema de túneis para Lys é desne-
cessário e pode ser até um perigo. Por conseguinte, a entrada para
a Câmara das Vias Móveis foi selada.
“Além disso, visto ser possível existirem outros meios para
sair da cidade, será realizada uma vistoria das unidades de memó-
ria do Monitor. Essa pesquisa ja foi iniciada.”
“Levamos em consideração quais atitudes devem ser tomadas
com relação a você. Tendo em vista sua juventude, e as circunstân-
cias especiais de sua origem, acreditamos que você não pode ser
censurado pelo que fez. Na verdade, ao revelar um perigo potencial
para nosso estilo de vida, você prestou um serviço à cidade, e dese-
jamos registrar nosso apreço por esse fato.”
Houve aplausos ralos, e expressões de satisfação perpassa-
163

ram pelas fisionomias dos Conselheiros. Uma situação difícil fora
resolvida com rapidez, haviam evitado a necessidade de admoestar
Alvin e agora poderiam voltar às suas vidas, sentindo que eles, os
principais cidadãos de Diaspar, haviam cumprido com seu dever.
Com sorte, poderiam passar séculos antes que fato análogo tornas-
se a acontecer.
O Presidente olhou Alvin, talvez esperasse que ele tomasse a
palavra para exprimir seu agradecimento ao Conselho por permitir
que ele se saísse tão bem da situação. Decepcionou-se, porém.
- Posso fazer um pergunta? - disse Alvin polidamente.
- Pois não.
- O Computador Central, por acaso, aprovou a decisão dos
senhores?
Ordinariamente, essa teria sido uma pergunta impertinente.
O Conselho não tinha por que justificar suas decisões, nem expli-
car como chegara a elas. Mas o próprio Alvin fora chamado à pre-
sença do Computador Central, por alguma razão que só a este dizia
respeito. Por isso, encontrava-se em situação privilegiada.
A pergunta evidentemente causou algum embaraço, e a res-
posta foi dada com certa relutância.
- Naturalmente consultamos o Computador Central. Ele nos
disse que usássemos nossos próprios critérios.
Era o que Alvin esperava ouvir. O Computador decerto es-
tivera em consulta com o Conselho no mesmo momento em que
ele, Alvin, conversava com a máquina - no mesmo momento, na
verdade, em que tratava de milhões de outras tarefas em Diaspar.
Sabia bem, tal como Alvin também sabia, que a decisão tomada
agora não tinha qualquer importância. O futuro se colocara intei-
ramente fora do controle do Conselho no momento exato em que,
em feliz ignorância, este decidira que a crise fora solucionada com
segurança.
Alvin não sentia sensação alguma de superioridade, nenhu-
ma doce antevisão de triunfo iminente, enquanto contemplava
aqueles tolos anciões que se julgavam os governantes de Diaspar.
Vira o verdadeiro governante da cidade, e falara-lhe no silêncio gra-
ve de seu mundo fulgurante e sepulto. Aquele fora um encontro
que cauterizara quase toda a arrogância que havia em sua alma,
mas restara-lhe ousadia suficiente para um ato final que superaria
tudo quanto ocorrera antes.
Ao se despedir do Conselho, Alvin imaginava se os conse-
lheiros não estariam admirados com sua tranqüila aquiescência,
sua falta de indignação com o fechamento do caminho para Lys.
164

Os supervisores não o acompanharam. Só Jeserac saiu com ele da
Câmara do Conselho pra as ruas coloridas e apinhadas.
- Muito bem, Alvin - disse Jeserac. - Você se comportou mui-
to bem, mas a mim não engana. O que está planejando?
Alvin sorriu.
- Eu sabia que você suspeitaria de alguma coisa, se vier co-
migo, mostrar-lhe-ei porque o subterrâneo para Lys não é mais
importante. E há outra experiência que desejo tentar, não lhe fará
mal algum, mas talvez não seja de seu agrado.
- Muito bem. Creio que ainda sou seu tutor, mas me parece
que os papéis agora se inverteram. Para onde está me levando?
- Vamos à Torre de Loranne, vou-lhe mostrar o mundo fora
de Diaspar.
Jeserac empalideceu, mas não deu meia-volta. Como se não
confiasse na firmeza de sua voz, balançou rigidamente a cabeça e
seguiu Alvin até a superfície lisa e deslizante da via móvel.
Jeserac não demostrou qualquer sinal de medo enquanto ca-
minhavam pelo túnel através do qual o vento frio soprava eterna-
mente sobre Diaspar. O túnel agora estava diferente, a treliça de
pedra que antes bloqueava o acesso ao mundo exterior desapare-
ceu. Não atendia a qualquer finalidade estrutural e o Computador
Central a eliminara a pedido de Alvin. Mais tarde, poderia instruir
aos Monitores que se lembrassem da treliça novamente, e a fizes-
sem existir outra vez. Mas por ora o túnel abria-se às escancaras,
sem proteção, sobre a parede exterior da cidade.
Só quando Jeserac estava quase chegando ao fim do túnel de
ar é que percebeu que o mundo exterior já se achava diante dele.
Olhou para o círculo de céu, cada vez maior, e seus passos se tor-
naram cada vez mais hesitantes até que cessaram. Alvin lembrou-
se do modo como Alystra fugira, naquele mesmo ponto, e ficou a
pensar se conseguiria induzir Jeserac a prosseguir.
- Estou-lhe pedindo apenas que olhe - disse -, e não que saia
da cidade. É claro que você pode fazer isso!
Durante sua breve estada em Airlee, Alvin tinha visto uma
mãe ensinar o filho a andar. A cena lhe veio à lembrança enquanto
persuadia Jeserac a caminhar pelo corredor, fazendo observações
encorajadoras, ao mesmo tempo que seu tutor avançava, vacilan-
te, pé ante pé. Jeserac, ao contrário de Khedron, não era covarde.
Estava disposto a lutar contra sua compulsão, mas era uma luta
desesperada. Alvin estava exausto quando conseguiu levar Jeserac
a um ponto de onde este podia ver a vastidão ininterrupta do de-
serto.
165

Ali chegado, o interesse e a estranha beleza da cena, tão re-
mota de tudo quanto Jeserac conhecera nesta ou em qualquer exis-
tência anterior, pareceram vencer seu medo. Estava francamente
fascinado pela paisagem imensa de dunas ondulantes e colinas
distantes e antigas. Era o fim da tarde, e daí a momentos toda essa
terra seria visitada pela noite, que jamais chegava a Diaspar.
- Pedi a você que viesse aqui - disse Alvin, depressa, como
se não pudesse conter a impaciência - por achar que você, mais
do que ninguém, ganhou o direito de ver onde minhas viagens me
levaram. Queria que visse o deserto, e quero também que sirva de
testemunha, de modo que o Conselho saiba o que foi que fiz.
“Como eu disse ao Conselho, trouxe esse robô de Lys na es-
perança de que o Computador Central fosse capaz de romper o
bloqueio que havia sido imposto às suas memórias pelo homem co-
nhecido como Mestre. Através de um ardil que ainda não entendo
perfeitamente, o Computador fez isso. Agora tenho acesso a todas
as memórias dessa máquina, bem como às aptidões especiais com
que ela foi dotada. Vou usar uma dessas aptidões agora. Veja.”
Ao receber uma ordem silenciosa que Jeserac mal podia ima-
ginar qual fosse, o robô saiu pela entrada do túnel, ganhou veloci-
dade e dentro de segundos não era mais do que um distante brilho
metálico à luz do Sol. Voava baixo sobre o deserto, pairando sobre
as dunas que se entrecruzavam como ondas congeladas. Jeserac
teve a impressão inequívoca de que ele estava procurando alguma
coisa.
Então, de repente, a centelha elevou-se rapidamente sobre o
deserto e parou a cerca de trezentos metros de altura. No mesmo
momento, Alvin soltou um explosivo suspiro de satisfação e relevo.
Olhou de relance para Jeserac, como se dissesse “Pronto!”
A princípio, não sabendo o que esperar, Jeserac não perce-
beu mudança alguma. Depois, mal acreditando em seus olhos, viu
que uma nuvem de pó se elevava lentamente do deserto.
Nada é mais terrível do que movimento onde jamais deveria
haver movimento outra vez, mas Jeserac já perdera a capacidade
de surpreender-se quando as dunas começaram a separar-se. Sob
o deserto, alguma coisa agitava-se, como um gigante que desper-
tasse de seu sono, e daí a pouco chegou aos ouvidos de Jeserac o
ruído de terra que caía e os estalidos de rochas que se partiam sob
uma irresistível força subterrânea. Então, de repente, um enorme
gêiser de areia subiu a dezenas de metros de altura e o solo tornou-
se quase invisível.
Lentamente, o pó começou a depositar-se numa ferida aber-
166

aguardando. jamais poderia desgastar-se ou ser destruída. Mas Jeserac e Alvin ainda tinham os olhos postos fixamente no céu aberto. sou grato 167 . mas não conseguia es- conder as linhas altivas da nave que ainda ascendia do deserto cortado ao meio. sendo afilada em ambas as extremidades. como uma coisa viva e sensível. Se não voltar. . que há um momento só continha o robô. O manto de terra e rocha embaçava. muito de- vagar. Jeserac podia ver que tinha cerca de trinta metros de comprimento. Creio que a nave do Mestre tenha sido uma das últimas a chegar à Terra. a imagem presente em suas células de memória nunca definharia e essa imagem controlava sua estrutura física. Alvin começou a falar depressa. Jeserac entendia por que Alvin se mostrara tão indiferente à decisão do Conselho.Não posso voltar a Diaspar a fim de me despedir dos amigos. e Jeserac viu de relance uma câmara pequena e nua. a nave lentamente voltou-se para eles. como se o tempo fosse cur- to. . Por favor. sob as areias. principalmente. De repente. por que não havia demonstrado nenhuma emoção ao saber que o caminho para Lys fora fechado. quando uma se- ção do casco abriu-se para a frente. ela foi preservada por seus próprios circuitos de eternidade. até reduzir-se a um círculo. embora a grossa camada de terra impedisse que ele tivesse certeza disso. à espera. pousou no porto de Diaspar. Como a própria Diaspar. Mesmo naquele tempo. como piloto da nave.Esse robô foi projetado para ser companheiro e servo do Mes- tre e. Mas nunca mais voltou a ter necessidade da nave. Diga a Eriston e Etania que espero voltar logo. Diante dos olhos de Jeserac. com uma segunda porta na extremidade posterior. faça isso por mim. o porto devia estar quase abandonado. por fim. Aparentemente. não havia janelas ou outras aberturas. o círculo começou a se ampliar. a rota ainda devia estar aberta naqueles dias. de que se aproximava com enorme cautela. A nave estava agora bem próxima. aproximando-se da Torre. como esse robô - como tudo que os construtores do passado consideravam realmen- te importante -. . Agora. Enquanto dispusesse de uma fonte de energia. Depois. Jeserac . antes de ir a Shalmirane.ta na face do deserto. Por algum tempo ele viveu em Diaspar.Adeus. Antes de chegar a Lys. levaram uma chuva de terra.disse Alvin. e durante todo esse tempo ela ficou ali. A nave se encontrava a um palmo de distância da saída de ar. controlada pelo robô. que agora jaz sob essas areias.

quilômetro após quilômetro. diga-lhe que uma rota que foi aberta não pode ser fechada através de uma simples resolução. E sou grato a você. e de re- pente Jeserac não a avistou mais. para ele tudo seria sempre um folguedo. A nave era agora uma mancha escura contra o céu. O Sol agora caía sobre o horizonte. um que- bra-cabeças a ser deslindado para seu próprio divertimento. Quanto ao Con- selho. Jeserac não fez movimento algum. Em sua brincadeira ele encontrara o jogo mortífero.. a única a ter chegado a Diaspar desde que o ciclo de nascimento e morte fora interrompido. Mesmo quando os últimos ecos morreram sobre o deserto.pois. 168 . Contudo. vencendo seu medo.por tudo quanto fizeram. para Jeserac.. e um vento gélido soprava do deserto. Estava pensando no garoto que havia partido . não demorou muito. num túnel de vácuo perfurado subitamente no céu. capaz de destruir o que sobrava da civilização humana . Alvin jamais cresceria. embora você possa não aprovar a maneira como apliquei suas lições. havia tanto tempo.o trovão contínuo do ar que se precipita. e pela primeira vez em sua vida ele viu as es- trelas. Não chegou a ver sua partida. Para ele. Jeserac ainda esperava. supremo. Alvin seria sempre uma criança.mas qualquer que fosse o resultado. todo o Universo não passava de um brinquedo. mas não tardou que ecoasse pelo céu o mais formidável de todos os sons que o Homem jamais produzira .

CAPÍTULO XVIII

Mesmo em Diaspar, raramente Alvin vira tanto luxo como
o que se descortinara diante dele quando a porta interna da nave
se abriu. O Mestre poderia ter sido muitas coisas, mas asceta não
era. Só um pouco mais tarde ocorreu a Alvin que todo aquele con-
forto talvez não fosse extravagância futil, aquele pequeno mundo
devia ter sido o lar do Mestre em muitas longas viagens entre as
estrelas.
Não havia controles visíveis de qualquer espécie, mas a grande
tela oval que cobria completamente a parede mostrava que aquele
não era um aposento comum. Diante dela dispunham-se três divãs
baixos, o resto da cabine era ocupado por duas mesinhas e várias
cadeiras acolchoadas, algumas das quais obviamente inadequadas
ao uso por seres humanos.
Depois de confortávelmente instalado diante da tela, Alvin
olhou em torno, à procura do robô. Para sua surpresa, constatou
que desaparecera, então localizou-o, depositado num desvão sob
o teto curvo. Ele trouxera o Mestre, através do espaço, até a Terra
e depois, como servo, acompanhara-o a Lys. Agora estava pronto,
como se as eras sem fim nesse intervalo jamais tivessem existido,
para voltar a cumprir suas tarefas.
Alvin mentalizou uma ordem experimental e a grande tela
estremeceu, ganhando vida. Diante dele estava a Torre de Loranne,
curiosamente abatida e aparentemente deitada de lado. Novas expe-
riências proporcionaram-lhe vistas do céu, da cidade e de grandes
extensões do deserto. A definição era brilhantemente clara, quase
artificial, embora não parecesse haver qualquer ampliação. Alvin
prosseguiu suas experiências durante algum tempo, solicitando as
vistas que imaginava, então, sentiu-se pronto para começar.
- Leve-me a Lys. - A ordem foi bastante simples, mas como
poderia a nave obedecer, se ele próprio não tinha nenhuma idéia
quanto à direção a tomar? Alvin não havia pensado nisso, e quando
a idéia lhe ocorreu a máquina já se movia sobre o deserto a uma
tremenda velocidade. Deu de ombros, agradecendo mentalmente
169

o fato de ter agora a seu dispor servos mais sábios do que ele pró-
prio.
Era difícil julgar a escala da imagem que passava velozmente
pela tela, mas muitos quilômetros deviam estar sendo percorridos
a cada minuto. A alguma distância da cidade, a cor do solo havia-
se alterado de repente para um cinza-opaco, e Alvin entendeu que
estava passando agora sobre o leito de um dos oceanos perdidos.
No passado Diaspar devia ter-se situado muito perto da costa, con-
quanto não houvesse qualquer referência a isso, mesmo nos regis-
tros mais antigos. Por mais antiga que fosse a cidade, os oceanos
deviam ter desaparecido muito antes de sua construção.
Centenas de quilômetros depois, o solo elevou-se acentua-
damente, voltando o deserto. De certa feita Alvin deteve sua nave
sobre um curioso desenho de linhas entrecruzadas, que apareciam
tenuamente através do manto de areia. Por um momento aquilo o
intrigou, até compreender que estava contemplando as ruínas de
alguma cidade esquecida. Não permaneceu ali muito tempo, era
desalentador imaginar que bilhões de homens não haviam deixado
outro traço de sua existência além daqueles sulcos na areia.
A curva regular do horizonte estava se quebrando finalmente,
transformando-se em montanhas que tão logo foram vislumbra-
das, já estavam sob ele. A máquina desacelerava-se agora, caindo
para a Terra num grande arco de centenas de quilômetros. E de
repente, lá embaixo, estava Lys, com suas florestas e rios intermi-
náveis formando uma cena de beleza tão incomparável que por al-
gum tempo ele se deteve a admirá-la. A leste, a terra estava imersa
em sombras, e os grandes lagos flutuavam sobre ela como poças
de noite mais escura. Mas em direção ao ocaso as águas dançavam
e cintilavam, devolvendo em direção a ele cores que jamais pudera
imaginar.
Não foi difícil localizar Airlee - felizmente, pois o robô não po-
dia guiá-lo além dali. Alvin esperara que isso acontecesse, e sentiu-
se satisfeito por haver enfim descoberto um limite a seus poderes.
Era improvável que o robô jamais tivesse ouvido falar de Airlee, de
modo que a posição da aldeia não fora gravada em suas células de
memória.
Após algumas experiências, Alvin fez sua nave pousar na en-
costa de onde tivera sua primeira visão de Lys. Era facílimo con-
trolar a máquina, bastava-lhe indicar seus desejos gerais e o robô
cuidava dos detalhes. Alvin imaginou que seu servo ignoraria or-
dens perigosas ou impossíveis, embora não tivesse intenção de dar
nenhuma ordem desse tipo, se pudesse evitar. Alvin tinha absoluta
170

certeza de que ninguém vira sua chegada. Julgava isso importante,
pois não tinha desejo algum de empenhar-se em combates mentais
com Seranis outra vez. Seus planos ainda eram vagos, mas não
lhe interessava correr riscos antes de haver estabelecido relações
amistosas. O robô poderia agir como seu embaixador, enquanto ele
permanecia em segurança na nave.
Não encontrou ninguém na estrada para Airlee. Era estra-
nho estar sentado na nave enquanto seu campo de visão se movia
sem esforço pelo caminho familiar a escutar o sussurro da floresta.
Ainda não aprendera a identificar-se plenamente com o robô, e o
esforço que ele despendia para controlá-lo ainda era considerável.
Já era quase noite quando chegou a Airlee, e as casinhas
flutuavam em círculos de luz. Alvin mantinha-se nas sombras e já
havia quase chegado à casa de Seranis quando foi descoberto. De
repente ouviu-se um murmúrio zangado e estridente, e sua visão
ficou toldada por um adejar de asas. Recuou instintivamente dian-
te do ataque, mas logo percebeu o que estava acontecendo. Krif
mais uma vez expressava seu ressentimento em relação a qualquer
coisa que voasse sem asas.
Não desejando melindrar a bela mas estúpida criatura, Alvin
fez o robô deter-se e suportou tão bem quanto pôde os golpes que
pareciam estar caindo sobre ele próprio. Embora estivesse sentado
confortavelmente a quase dois quilômetros dali, não podia evitar
esquivar-se aos ataques e ficou satisfeito quando Hilvar veio ver o
que estava acontecendo.
À chegada do dono, Krif fugiu, ainda sussurrando tristemen-
te. No silêncio que se seguiu, Hilvar ficou olhando para o robô por
alguns instantes. Depois sorriu.
- Como vai, Alvin? - disse. - Que bom você ter voltado. Você
ainda está em Diaspar?
Não era a primeira vez que isso acontecia, Alvin, porém, sen-
tiu uma invejosa admiração pela rapidez e precisão do raciocínio
de Hilvar.
- Não - respondeu, imaginando se o robô transmitiria sua voz
com clareza. - Estou em Airlee, não muito longe. Mas por enquanto
vou ficar onde estou.
Hilvar riu.
- Acho bom mesmo. Seranis perdoou você, mas a Assem-
bléia... bem, isso é outra questão. Está-se realizando uma confe-
rência no momento... a primeira de um tipo que jamais tivemos em
Airlee.
- Você quer dizer - perguntou Alvin - que seus Conselheiros
171

vieram aqui pessoalmente? Com os poderes telepáticos que vocês
têm, eu pensaria que as reuniões não fossem necessárias.
- São raras, mas há ocasiões em que são consideradas conve-
nientes. Não conheço a natureza exata da crise, mas três senado-
res já estão aqui e os outros são esperados para breve.
Alvin não pôde deixar de sorrir ao imaginar como os aconte-
cimentos em Diaspar haviam afetado a vida de Lys. Onde quer que
ele fosse, parecia deixar atrás de si uma esteira de consternação e
alarme.
- Acho que seria boa idéia eu falar a essa assembléia de vocês
- ele disse. - Quer dizer, desde que eu possa fazer isso com toda a
segurança.
- Seria seguro você vir aqui pessoalmente - disse Hilvar - se a
assembléia prometer não tentar controlar sua mente outra vez. Se
isso não acontecer, se eu fosse você, ficaria onde está. Vou condu-
zir seu robô aos senadores... Eles vão ficar transtornados ao vê-lo.
Alvin sentiu novamente aquela sensação aguda, mas traiço-
eira, de alegria, enquanto acompanhava Hilvar até o interior da
casa. Ia encontrar-se com os governantes de Lys em pé de igualda-
de, conquanto não nutrisse rancor em relação a eles, agradava-lhe
saber que agora era senhor da situação, dispondo de poderes que
ainda não entendia perfeitamente.
A porta da sala de conferências estava trancada e passou-se
algum tempo antes que Hilvar pudesse atrair atenção. As mentes
dos senadores, ao que parecia, estavam tão concentradas que era
difícil interromper suas deliberações. Quando as portas deslizaram
relutantemente, Alvin fez seu robô entrar rapidamente no aposen-
to.
Os três senadores permaneceram em suas cadeiras, parali-
sados, apenas uma leve expressão de surpresa passou pelo rosto
de Seranis. Talvez Hilvar já lhe houvesse mandado um aviso, ou
talvez ela tivesse esperado que, mais cedo ou mais tarde, Alvin
regressaria.
- Boa noite - disse Alvin, através do robô, como se sua entra-
da na sala fosse a coisa mais natural do mundo. Um dos senado-
res, um homem jovem, os cabelos meio grisalhos, foi o primeiro a
se recuperar.
- Como você entrou aqui? - ele perguntou, arfando.
A razão de seu espanto era óbvia. Da mesma forma que Dias-
par, também Lys devia ter tirado o subterrâneo de circulação.
- Ora, vim da mesma maneira como cheguei da última vez -
disse Alvin, incapaz de resistir à brincadeira.
172

Por um instante. um corpo poderoso esfregou-se afetuosamente nele e fugiu sem o menor som. enquanto o ar dava lugar à nave em ascensão. Houve um leve estalar de asas. .Muito bem . e por diversas vezes esteve para tropeçar em árvores. na altura de seu ventre.. uma sombra escura obscureceu as nuvens. Esperou até o robô ter voltado. ainda que eu não ache que tenhamos tido muito sucesso antes. pois o 173 . Contudo.Você não teve.continuou . não faltaria à sua palavra. em meio à vege- tação. . Dois dos senadores olharam fixamente para o terceiro. ouviu-se um assovio. . O mais jovem. que falara antes. Seranis. Alvin não imaginava o que fosse. a nave sumira no céu. Ainda assim. A porta da nave fechou-se silenciosamente às suas costas quando ele saiu. prometem não tentar restringir meus movimentos outra vez? Ninguém disse nada por algum tempo. resolvido a lhes aumentar a confusão. Mais de uma vez perdeu o caminho completamente. Esquecera-se de que os sen- tidos do robô eram mais agudos que os seus.por livre e espontânea vontade e por- que tenho algumas notícias importantes para vocês. voltou a dirigir-se a ele. . e que a noite estava muito mais negra do que ele esperara.Não tentaremos controlá-lo outra vez. como um suspiro arrastado e surpreso.perguntou. e Alvin imaginou que pensamentos silenciosos estariam sendo trocados.respondeu Alvin. . e de certa feita uma coisa de grandes dimensões veio em sua direção. prefiro permanecer a distância no momento. logo. que abriu as mãos num gesto de perplexa resignação. Não tardou que as luzes da vila brilhassem através das ár- vores. Depois Seranis falou em nome de todos.Absolutamente nenhuma . A floresta estava negra como breu..Voltei ..Vou a Airlee o mais depressa que puder. ele tinha certeza. mas ele não necessitava mais delas para se orientar. preferia salvaguardar sua linha de retirada. Só então Alvin compreendeu que cometera um erro de cál- culo. . Daí a um momento. e dois olhos de esmeralda olharam-no fixamente. Se eu aparecer pessoalmente.. em vista de nosso desacordo anterior.disse Alvin. Então. ligeiro. deu instruções à máquina e a fez repeti-las. Logo depois. Percebeu que tivera êxito. dificuldade? . Ele falou baixinho e uma língua incrivelmente longa roçou-lhe o rosto. com todo cuidado. embora inquietante: o tipo de engano que poderia pôr a perder os planos mais elaborados.

da mesma forma que a Diaspar. e toda Lys estava julgando sua cidade pelo que ele dissesse. Foi maravilhoso contemplar a reação dos senadores.deixou que essa observação causasse o efeito pretendido. antes de a radiação acabar. Era uma enorme res- ponsabilidade.Peço desculpas . que têm cometido um erro. esperando que ele prosseguisse.. e pela segunda vez apresentou-o a Seranis e aos se- nadores. Hilvar foi se encontrar com ele pela segunda vez do lado de fora da casa. e ele tinha consciência disso.Não acrescentou sua outra razão: a de que em Lys estava o único amigo certo que ele tinha e de cuja ajuda ele precisava agora. Se lhes causou surpresa a ausência do robô. Os senadores continuaram em silêncio. e quando Alvin abaixou-se para pegar um pouco do estranho musgo. O musgo que ele pisava era luminoso e suas pegadas dei- xavam manchas escuras que lentamente desapareciam atrás dele. e depois acrescentou ra- pidamente: . .caminho sob seus pés se havia transformado num rio de embaçado fogo azul. . Era uma visão bela e extasiante. Se pudesse fazer com que Lys e Diaspar se sentissem suficiente- mente irritadas uma com a outra. . Talvez lhes interesse saber que sair de Diaspar foi quase tão difícil. sonhando no seio do deserto.perguntou Seranis. Cada uma delas estaria tão ansiosa por demonstrar a superioridade de seu modo de vida que todas as barreiras cedo ruiriam. Descreveu a cidade como a vira pela última vez. Apesar de tudo que eu disse. e fiz tudo o que pude para dar uma impressão positiva.por ter sido obrigado a deixar esta terra de maneira tão pouco digna. deseja evitar contami- nação com uma cultura inferior.começou Alvin . Era o representante de Diaspar.Porque desejo convencer vocês. . Seu tema era Diaspar. suas torres fulgindo como arco-íris cativos contra o céu. Saudaram-no com uma espécie de respeito distante e re- lutante. mais da metade de seu problema estaria solucionada. e Alvin sabia que. nada comen- taram. ele brilhou por minutos em suas mãos em concha. pensou Alvin. muitas outras inteligências viam e ouviam o que se passava ali. através dos olhos e dos ouvidos daquelas pessoas. Concatenou seus pen- samentos e começou a falar. . Mas Diaspar não quer saber de vocês.Por que você voltou a Lys? .. Do tesouro de sua memória recolheu as canções que os poetas antigos haviam escrito em louvor de Dias- 174 .Contei a meu povo tudo a respeito de Lys. até mes- mo a comedida Seranis ruborizou-se um pouco ante tais palavras.

Agora.disse. Você o usou? Alvin saltou da cama e espreguiçou-se. . e de repente ele adorme- ceu. Alvin. e os dois grupos trocaram cumprimentos um tanto constrangidos. Por algum tempo. e o encontro inesperado deixara-os sem saber o que fazer. 175 . até que dentro em pouco estava banhado pelo clarão suave e fresco do Sol matutino. E conjecturou. que se filtrava pelas paredes transparentes. Quando terminou já era muito tarde.Agora que você está acordado. por mais tempo que vivesse. se seria verdade que a música de Diaspar fora o último som da Terra a ser transmitido para as estrelas. talvez queira me dizer finalmente qual será seu próximo lance e como foi que conseguiu chegar aqui. Sempre haveria alguma coisa nova. A tensão e a excitação daquele longo dia abatiam-no por fim. quanto à pergunta que você me fez. Com um som suave e musical. Alvin permaneceu meio adormecido. uma das paredes começou a dobrar-se de maneira tão complicada que a vista se cansava ao querer acompanhar os movimentos. poderia jamais esgotar os tesouros da cidade. Quando despertou.Não quero fazer com que percam tempo. e falou dos homens incontáveis que haviam dedicado as vidas a aumentar-lhe a beleza. Já tinham quase chegado ao lago quando alcançaram os três senadores.Talvez seja melhor a gente ir falar com eles . O Comitê de Investigações percebia que Alvin sa- bia onde ia. Hilvar entrou pela abertura formada. passa- ram-se alguns momentos antes que se lembrasse de que não esta- va mais em Diaspar. Ninguém. daqui a pouco vou mostrar a resposta. sem interrupções nem perguntas. estava num quarto desconhecido.. Ouviram-no até o fim. e sentia-se mais cansado do que em qualquer outra ocasião em sua vida. um tanto sonhadora- mente. lembrando-se dos acontecimentos da véspera e imaginando que forças teria posto em ação agora. não conseguem entender como foi que você o usou.. . olhando Alvin com uma expressão ao mesmo tempo di- vertida e preocupada. disse.par. descreveu as maravilhas que os homens de Diaspar haviam criado. tentou fazer com que cada uma das pessoas ali presentes captasse pelo menos um vislum- bre da beleza que os artistas do passado haviam inventado para a admiração eterna do homem. . Os senadores estão saindo para examinar o subter- râneo. A volta de sua consciência era acompanhada pela difusão da luz a seu redor.

uma agu- lha de luz prateada cruzou as montanhas. ela veio pousar na encosta. apontando em silêncio para o céu setentrional. e em vão. . Alvin. Rápida demais para ser acompanhada pela vista. o que toda Lys estaria pensando? A julgar pelas expres- sões deles. Na verdade. ela se deteve. porém. Enquanto caminhavam. O mais admirável de tudo. o som do ar esmagado e fendido pela violência da passagem da nave. O pensamento era desconcertante.. de modo que o olho que a acompanhara continuou a percorrer um quarto do céu antes que o cérebro pudesse interromper-lhe o movimento. foi o primeiro a se recobrar. mas agora estavam fundidos. e Alvin percebeu que ele começara a compreender a verdade. a cem metros dali. A nave parou instantaneamente. Dos céus desceu um estrondo. imaginava se o veículo nor- malmente viajava daquela maneira meteórica. deixando a nu o invólucro tenaz. Com Hilvar a seu lado. 176 . de modo que a tentativa de vocês de fechá-lo foi inteiramente desnecessária. Só quando chegou à nave. o Conselho de Diaspar também o fechou.. em direção à nave espacial. A seis mil metros de altitude sobre Lys. como foi que você chegou aqui? . De repente.Então. surgiu uma expressão de entendimento em seus olhos. foi que Alvin compreendeu o que acontecera.o revestimento de terra ainda permanecia quando a nave se libertou do deserto.na verdade. . Seria difícil dizer quem estava mais surpreso. Não houve qualquer desaceleração. Alvin ficou de pé junto à porta aberta e olhou os senadores silenciosos. que nem o tempo nem qualquer força natural jamais poderiam atingir. Um pouco depois. queimando os dedos ao tocar inadvertidamente o casco do veículo. Todo o restante fora eliminado. transformados em lava. Mas não disse nada.Não vim a Lys pelo antigo caminho. deixando uma longa trilha de incandescência. brilhando à luz. Perto da ré ainda havia vestígios de terra.Acho que não lhes contei tudo a noite passada . . Os rostos dos senadores denotavam perplexidade. enquanto uma solução após a outra passava por suas mentes. era como se a capacidade de pensar alguma coisa lhes houvesse fugido. quase cor- rendo.disse Alvin animadamente. entretanto.perguntou o líder. era que no dia anterior aquele engenho resplandecen- te estivera oculto sob uma espessa camada de rocha dura como ferro . embora não tivesse havido nenhuma sensação de movimento em sua primeira viagem. nenhum retarda- mento de sua velocidade colossal. O que estariam pensando . Ficou a imaginar se havia captado sua ordem mental enviada para além das montanhas.

Hilvar hesitou apenas por um momento. As mentes dos senadores. e Alvin sabia o que dizia quando nos falou que fôs- semos a Diaspar.a desaparecer no sul. . Não demorará muito para que Dias- par faça a mesma coisa. Tanto Lys como Diaspar chegaram ao fim de uma era. por desejarmos mudanças . E uma nave espacial. Os senadores ficaram a olhar o veículo.Mas o subterrâneo está fechado em ambas as extremida- des! . Depois o jovem de cabelos meio grisalhos que liderava o grupo balançou os ombros filosofícamente e virou-se para um dos colegas: . Mas creio que agora o futuro não pertence a nenhum de nossos grupos. acharão a resposta em Diaspar. As montanhas ainda nadavam em sombras quando chega- ram a Shalmirane.Você sempre se opôs a nós. entrou na nave. uma das mais velo- zes já construídas. tanto dos que estavam em Airlee como as dos que se encontravam espalhados por toda a Lys.Vou a Shalmirane . Mas vocês terão de ir lá. Depois. que agora se movia com muita lentidão . e até aqui obteve o que quis. a semente plantada por Alvin começava a frutificar. Do alto. Acho que seria melhor estabelecer- mos contacto com nossos primos. fazendo um gesto para a porta. desejo que meditem numa coisa: Esta má- quina não é um veículo comum como os que os homens usavam para viajar sobre a Terra. Quando Alvin fez a nave pousar entre as ruínas à beira do 177 . olhando o cenário familiar ao seu redor.foi a resposta taciturna.Acho que você tem razão . Se desejarem saber como a encontrei. enquanto estiver fora.pois sua viagem seria curta . e de nada adianta continuarmos a nos esconder. Mais cedo do que tinham o direito de esperar. con- sideraram a proposta e detestaram-na.e estarei de volta a Airlee dentro de uma hora mais ou menos. . parecia impossível que o destino da Terra houvesse outrora dependido de um círculo tão minúsculo. Agora sabem a nosso respeito. Mas isso é apenas o começo.ele disse -. . . a grande depressão da fortaleza parecia pequeníssima.disse Alvin . pois Diaspar jamais virá a vocês. Mas não viam outra alter- nativa. Alvin virou-se em direção a Hilvar.Podemos abrir a nossa.Esta- mos numa crise. e temos de conduzir a situação da melhor forma possível. talvez os encontremos mais dis- postos a cooperar agora.

Agora podiam repousar finalmente. Mas jogou-o fora quase imediatamente. a longa vigília dessas criaturas fora por fim recompensada. e o credo que abraçavam podia seguir o caminho de um milhão de outras fés que no passado se haviam acreditado eternas. Abriu a porta e o si- lêncio do local penetrou na nave. As águas do lago estavam perfeitamente imóveis e já não batiam com o ritmo regular que tanto os intrigara na primeira visita. dentro de anos. arrastando tentáculos quase invisíveis. Alvin ajoelhou-se à beira da água e perscrutou-lhe as profundezas frias e escuras. Mas teriam mesmo sido vãs? Por mais iludidas. Talvez não lhe agradasse saber a verdade a respeito do Mestre. talvez séculos. e queria dizer-lhe o que foi que eu descobri. Creio que tenho uma dívida para com ele. Alvin contara com isso. que de outra forma poderia ter-se perdido para sempre. tirando um deles da água.terá de esperar. a desolação do lugar gelou-lhe a alma. Você voltou cedo demais. mexiam-se de um lado para outro sob a superfície. .Eu queria lhe mostrar como era a nave. Tal possibilidade era mesmo remota e não se sentia desapontado com seu insucesso. perguntou baixinho: . ti- nham salvado o conhecimento anterior. poderia recusar-se a admitir que tantas eras de tão paciente espera haviam sido vãs. E eu também espe- rava que o pólipo se houvesse reconstruído novamente. A coisa o picara. Pequenos sinos translúcidos. en- quanto suas memórias se juntavam e sua consciência readquiria existência. Al- vin mergulhou a mão. que quase nada dissera durante o vôo.respondeu Hilvar . Com efeito.lago.Por que você voltou aqui? Alvin só respondeu quando já haviam quase chegado à beira do lago: . 178 . com uma leve exclamação de surpresa.Nesse caso . Hilvar. Alvin imaginava como a criatura receberia as desco- bertas que ele fizera. Algum dia. aquelas geléias informes se reuniriam novamente e o grande pólipo renasceria. Como por milagre.

mas quase que do outro lado do globo alguma coisa brilhava como uma jóia multicor. e ainda não sabia nada a respeito do encontro de Alvin com o Computador Cen- tral e do impacto daquela entrevista sobre seu espírito. Alvin nada fez para deter a máquina. Quando finalmente se detiveram. como o via agora. Reduziu-se rapidamente de tamanho. fitando para sempre o espaço. pela primeira vez.Acho que você está certo . era verdade. aquele era certamente o que ele menos podia dar-se o luxo de perder. Ficaram sentados longamente. todo o crescente da Terra estava visível embaixo. que não suspeitava das sú- bitas dúvidas que às vezes se apoderavam do amigo.Hilvar . De todos os antigos poderes do Homem. . embora com menos razão. Jamais Alvin subira a tal altitude.Isso.Hilvar respondeu vagarosamente. Mas Alvin ainda estava preocupado. 179 . Não era uma pergunta fácil de se responder casualmente. Estava sendo irremediavelmente tragado pelo turbilhão que Alvin deixava em sua passagem pela vida. ilha verde num mar ocre. ele sabia. você acha certo o que estou fa- zendo? A pergunta surpreendeu Hilvar. . CAPÍTULO XIX Alvin e Hilvar caminharam num silêncio meditativo de volta à nave. Lys era pequeníssima agora . . vendo a Terra girar sob eles. . embora soubesse que seu próprio sentimento devia deturpar sua resposta. Alvin desejou poder mostrar o mundo.apenas uma mancha cor de esmeralda contra o deserto cor de ferrugem -. e subiram até ver toda a Lys abaixo deles. aos governantes de Lys e de Diaspar.Nossos povos estão separados há muito tempo. logo eles a perderam em meio ao grande panorama de Lys. Foi assim que. até tornar- se um olho negro e sem pálpebra. não demorou que a fortaleza caísse novamente em sombras entre as colinas. Hilvar sentia que seu próprio ca- ráter estava sendo submergido. Hilvar viu a cidade de Diaspar. tal como Khe- dron.disse finalmente -.

Não disse mais nada. mas talvez 180 . mas cada um deles sabia o que o outro estava pensan- do. a felicidade individual não tinha importância. Não podemos estar ambos certos . estava a única esperança.nossas vidas podem ser curtas demais e a de vocês evidentemente é longa demais. . e. e aceitou sem remorso a infelicidade que sua escolha poderia vir a causar um dia. Por um momento. agora tudo na Terra parece tão pequeno e sem importância.Acha que eu poderia detê-lo? . no entanto. quer a separação estivesse a uma distância de cem ou um milhão de anos. .Alvin continuou. Mesmo em Diaspar todas as amizades viviam sob a mesma sombra.. no espaço? Os Invasores podem ter deixado o Universo.Há um problema que me aflige . . Lembrou-se novamente das palavras amargas de Seranis: “Tanto ele como eu estaremos mortos há séculos enquanto você ain- da for um jovem. viu a humanidade como algo mais do que o pano de fun- do vivo de sua própria vida.Quem sabe o que há lá. haverá um ajuste. com a voz trêmula. Alvin ficou a pensar.Isso também já me preocupou .Isso não é resposta ..admitiu Hilvar -. . Lá embaixo.. com uma certeza que superava toda e qualquer lógica.disse ele . mas as eras de transição seriam realmente di- fíceis.” Muito bem. Aprendera muito sobre o amigo nos últimos minutos. Lys me teria satisfeito. . Por fim. que o bem-estar da raça exigia a mistura das duas culturas. Hilvar nunca vira Alvin tão pensativo. Antes.continuou Alvin . Sen- tindo a tristeza do amigo.É a diferença na duração de nossas vidas. . o mundo continuava seu giro interminável. mais do que satisfeito.. Hilvar nada disse.respondeu Hilvar..que esta nave pode che- gar aos Sete Sóis em menos de um dia. Cada uma das descobertas que fiz le- vantou perguntas maiores e horizontes mais largos. .não sabia o que poderia encontrar.Quando saí de Diaspar pela primeira vez . Alvin sorriu..ele disse. serena- mente. mas creio que o problema se resolverá por si mesmo quando nossos povos se encontrarem novamente. Aceitaria as condições.O robô me disse . em tal caso. isso pouca diferença fazia no fim. era verdade. até Alvin quebrar o silêncio. Nesse caminho. . Alvin sabia. Fico pensando onde isso irá terminar. e não quis interrom- per-lhe o solilóquio. Acha que devo ir? .

Não é provável que uma raça verdadeiramente seja inamistosa. Alvin olhou novamente para a tela.Você vem comigo. já devem ter se destruído. . . admito.? . as longas eras de isolamento estéril estavam chegando ao fim.São mesmo um enigma. sentia grande prazer.Eu disse a Seranis e a todos os meus amigos que iria com você. .. e não sei o que acontecerá quando souberem que localizei uma nave espacial.No passado tivemos um Império. Não creio que alguém tenha realmente medo deles.haja outras inteligências hostis ao Homem. . Estão se preparando para receber a primei- ra delegação de Lys. Estava aberto o caminho para o que poderia ser sua última aventura.As coisas são muito diferentes em Diaspar . isso agora parecia uma ninharia. . Seranis acaba de me informar. Saber que tivera êxito naquilo que antes representara sua principal missão acabou por dissipar as últimas dúvidas de Alvin..Por que haveria? . . Hilvar? . O que temos agora que pudessem cobiçar? Alvin sentiu-se surpreso com o fato de outra pessoa ter o mesmo ponto de vista seu. Ficam aterrorizados só em pensar em sair da cidade..Só uma minoria. mais depressa e mais com- pletamente do que ousara esperar. um tanto constran- gido. Já estavam a grande altitude quando Alvin deu ao robô suas 181 . e eu gostaria de saber o que estão fazendo ago- ra..Não havia necessidade de perguntar isso. . certamente a maior delas.Essa é uma das ques- tões que nossos filósofos vêm debatendo há eras. . .. No entanto. Se eram realmente maus. mas provavelmente diriam que se os Invasores desejas- sem mesmo destruir a Terra já o teriam feito há muito tempo. .Hilvar apontou para os desertos sem fim lá embaixo. Jeserac já terá contado isso ao Conselho. Alvin .perguntou.disse Alvin.perguntou.perguntou Hilvar. - Meus conterrâneos são grandes covardes. Hilvar olhou-o firmemente.ele respon- deu. Podia abarcar a distância entre Lys e Diaspar com um olhar. .Toda sua gente pensa assim? . .Mas os Invasores..Posso dizer-lhe. Embora um de seus objetivos tivesse sido atingido. há uma hora atrás. Ele cumprira sua finalidade na Terra. E mesmo que isso não tenha aconteci- do. Certamente. As pessoas comuns não se preocupam com isso.

o grande anel dos Sete Sóis resplande- cia em sua beleza multicor. sumindo como centelhas caídas na água. Mais uma vez sentiu-se aquele arranco. ficando para trás. em posição ligeiramente diferente. o primeiro de um tipo que Alvin ja- mais ouvira de uma máquina..últimas instruções. quase enchendo o céu. oscilando no espaço como uma agulha de bússola à procura de seu norte. A nave estava “caçando”. en- quanto os segundos transcorriam e os Sete Sóis refulgiam na tela. agarrado à poltrona. A Terra reapareceu. Não houve qualquer som. no passado. obli- terado por um hemisfério de noite. até que finalmente a nave se deteve. até perder-se no limite da audição. e com ele um leve murmúrio. apenas um arranco repentino que pareceu embaçar a visão: a Terra desaparecera como se mão gi- gantesca a houvesse empurrado. que subiu rapidamente. Por alguns minutos. nada. O céu atrás dele havia desaparecido inteiramente. que ultra- passava toda a sua experiência. como um projétil gigantesco apontado para as estrelas. sozinhos com as estrelas e um Sol estranhamente reduzido. como se o robô estivesse ve- rificando controles e circuitos. Olhou para trás por um instante e viu. Centralizado na tela. foi como se nada tivesse acontecido. Ouviu-se então um leve som. Estavam sós no espaço. mas de repente notou que as estrelas estavam passando pela tela. oitava a oitava. depois Alvin percebeu que o próprio Sol desaparecera e que as estrelas passavam lentamente pela nave. Enquanto olhava. Não houve nenhuma sensação de mudança ou movimento. No entanto. Era um zumbido tênue. A nave imobilizara e a Terra estava a cerca de dois mil quilômetros abaixo. por um momen- to. Esperou. sem utilização há eras geológicas. seu coração quase parou de bater. como um crescente escuro orlado do ouro e do escarlate do poente. O estranho embaça- 182 . A Terra desapa- recera como se nunca houvera existido. como se pela primeira vez os geradores estivessem exer- cendo parcela apreciável de sua força. A nave viajava muito mais depressa do que a luz. Houve uma pausa apreciável. Quando aquele arranco súbito e vertiginoso ocorreu pela ter- ceira vez.. Alguma coisa estava acontecendo agora. Da Terra ainda era visível um pedaço. Parecia muito pouco atraente e Alvin imaginou quantas naves haveriam pairado ali por um momento. os céus giraram e contorceram-se em torno deles. saiu do campo de visão e depois tornou a surgir. percebia Alvin. e Alvin pensou que o espaço familiar da Terra e do Sol não mais o deti- nha. podia ver as estrelas sendo tragadas na treva. antes de continuarem viagem.

logo os faria atravessar o núcleo da Galáxia e enveredar pelo grande vazio além dela. por algum ato mágico da ciência ou da natureza. pois era o primeiro grito de protesto que Alvin escutava de uma máquina. essa formação não pode ser natu- ral. por um momento. A nave arrojava-se na direção deles por um túnel de escuridão. e talvez menos perigosa. a uma velocidade enorme demais para a mente conceber. Não seriam mais necessários até o fim da viagem. O outro assentiu. embora suas cores e posições se houvessem alterado sutilmente. . As estrelas adiante brilharam. tudo quanto o cercava tornou-se distorcido a ponto de ficar irreconhecível. Houve no pas- sado uma nave. além das fronteiras de espaço e tempo.O sistema pode não ter sido construído pelo Homem . mas é forçoso que tenha sido criado pela inteligên- 183 . e não uma ilusão de sua vista.Alvin . um vislumbre das coisas que estavam ocorrendo no espaço a seu redor. mas ainda me parece fantás- tico. milhões de séculos mais tarde.Tenho pensado isso há anos. do que sua primeira jornada a Lys. Foi Hilvar quem expressou seus pensamentos quando os Sete Sóis começaram a brilhar mais forte diante deles. Depois tudo acabou e o súbito silêncio como que retiniu em seus ouvidos. . O sig- nificado dessa distorção lhe ocorreu num átimo de inspiração que ele não poderia explicar. branco-azuladas. Era real.comentou ele -. os Sete Sóis ainda eram visíveis. e.mento da visão era inequívoco. Os grandes geradores haviam cumprido sua ta- refa. Nem Alvin nem Hilvar poderiam conceber a imensidão real da jornada. o murmúrio dos geradores elevou-se a um estrondo que sacudiu a nave . Era difícil imaginar que já haviam sido atirados para fora do sistema solar a uma velocidade que. Para Alvin essa viagem era pouquíssimo maior. sussurrava a lenda. . que circunavegara o Cosmos no lapso entre o nascer e o pôr-do-sol.som duplamente imponente. e desapareceram na faixa do ultravioleta.con- cordou Hilvar-. as grandes sagas de exploração haviam completamente alterado a perspectiva do Homem em relação ao Universo. Os bilhões de quilômetros entre as estrelas nada significavam diante de tais velocidades. De alguma forma estava recebendo. No mesmo instante. a menos que reduzida em breve. as antigas tradições não tinham ainda morrido inteiramente. ao passar através da delgada pelí- cula do Presente. No entanto. ainda agora.

trata-se simplesmente da maior de todas as obras de arte. . e por algum motivo creio que é essa a explica- ção verdadeira.ele disse.” Talvez. seu futuro imediato estava controlado por uma máquina maravilhosa .certamente uma das supremas realizações técnicas de todos os tempos . Nada havia que ele pudesse fazer agora senão esperar. não demonstrando surpresa nem mesmo quando o amigo lhe falou do encontro com o Computador Central e da operação que este realizara na mente do robô. Sem pedir uma ex- plicação. Hilvar ouviu a história sem comentários. talvez isso não fosse tão surpreendente... Khedron deu-me parte da resposta quando explicou a maneira pela qual os construtores de Diaspar haviam tomado providências para evitar que a cidade se tornasse decaden- te. enquanto deixava Diaspar e. mas até o momento não tivera uma pausa para refletir tranqüilamente. “Saberemos toda a verdade. Talvez seja um sinal. você deve ter entendido por quê. quando foi construído.que o Compu- tador Central deve ter recebido instruções especiais com relação a você. a uma velocidade além de qualquer compreensão. mas quanto dessa verdade jamais saberemos? Parecia estranho que na- quele momento. E não há nada no universo visível semelhante ao Sol Central.. Talvez marque o centro da administração ga- láctica. 184 . na verdade. todas com o mesmo brilho. Era um momento para reflexão e meditação. Em poucas horas saberemos toda a verdade. Mas é tolice especular agora. mas a história do passado estava cheia de maravilhas que poderiam igualar-se a qualquer coisa na história contada por Alvin. . apenas dois dias antes.que o transportava para o coração daquele universo.Mas por que se teria construído uma coisa dessas? .cia. Não que ele fosse incapaz de admiração. pensou Alvin. sua mente voltasse mais uma vez para o mistério de sua origem... ele aprendera muitas coi- sas desde que chegara pela primeira vez a Lys. . parecia entender imediatamente tudo quanto Alvin des- crevia. A essa altura. de modo que qualquer nave que entrasse em nosso universo soubesse onde procurar vida. Ou talvez.. terminada a narrativa . quisesse ele ou não.Creio que sim.Ah.É óbvio . a própria Terra. No entanto. Mas primeiro contaria a Hilvar tudo quanto lhe acontecera desde que se tinham despedido apressadamente. posso imaginar várias razões. A natureza jamais poderia ter formado aquele círculo perfeito de estrelas.

. Na verdade. ou quem quer que tenha sido. A primeira facção venceu.conjecturou Hilvar. sempre que fossem criados .Creio que sua teoria cobre todos os fatos conhecidos . sem qualquer ajuda do pobre Khedron.. ensinando-me muitas coisas que eu nunca pode- ria ter aprendido sozinho. você e os de sua espécie são. e seus olhos se toldaram...dis- se Hilvar cautelosamente.Exatamente. Ele pode ter programado sua personalidade nos Bancos de Memória.E Yarlan Zey. .. talvez eu seja Yarlan Zey. seguindo a mesma linha de raciocínio. Algum dia terei de descobrir o que aconteceu aos outros Únicos.Alvin fez uma pausa.Infelizmente.Em que está pensando agora? . Mas não resta dúvida de que Khedron poupou- me muito tempo. uma divergência entre aqueles que desejavam fechá- la completamente ao mundo externo e aqueles que defendiam a manutenção de certos contactos. ainda deixa em aberto o maior problema de todos. Fez o melhor que pôde. Pa- rece até que houve um conflito de opiniões quando a cidade foi construída.Acha que você e os outros Únicos antes de você fazem parte do mecanismo social que impede a completa estagnação? De modo que. mas ainda assim Alvin não concebia perfeitamente o que Hilvar tinha em mente. A ironia é que eu poderia ter recebido toda in- formação que queria do Computador Central... de modo que por um instante ele pareceu esquecido de onde estava. É perfeita- mente possível. confiando em que ela quebrasse os padrões de Diaspar antes de estarem fixados de uma vez por todas. .. fatores corretivos a longo prazo? Hilvar expressara a idéia melhor do que Alvin poderia fazê- lo. por assim dizer. deixando o subterrâneo em fun- cionamento e garantindo que a longos intervalos saísse da Casa da Criação alguém que não compartilhasse dos medos de todos os seus compatriotas. Isso poderá ajudar a completar as lacunas do quadro.perguntou Hilvar.. . pensativos. . Por que sua gente tentou fingir que o mundo fora da cidade não existia? 185 . mas não dispunha de força para agir aber- tamente. mas os outros não admitiram a derrota.Acabo de imaginar. fico pensando. também instruiu o Computador Central para dar assistência especial aos Únicos. . .. . enquanto os Bufões são fatores corretivos a curto prazo. O Computador me teria dito muito mais do que jamais disse a ele. .Creio que a verdade seja mais complicada do que isso. a finalidade original de Diaspar.. Creio que Yarlan Zey deve ter sido um de seus líderes.

e estava contorcida em formas estranhas que enganavam o olho. uma nota profunda e clangorosa vibrou pela câmara. a princípio minúsculo. Então..Essa é uma pergunta que eu gostaria de ver respondida. de ma- neira mais que repentina. pois o grande anel de blocos coloridos dominava agora o céu. transformando-se num disco. A causa da luz nacarada do Sol Central era agora perfeita- mente compreensível.. nem como. quanto mais se olhava. teremos a informa- ção que desejamos. Assim continuaram a discutir e a sonhar. Ainda fulgia com a luz perolada que o distinguia de todas as outras. A nave caíra de volta no espaço. A nave ainda viajava celeremente em direção ao Sol Central. O mais lógico seria nos dirigirmos para o maior planeta do Sol Central.disse Alvin.. . ha- viam desaparecido.disse Hilvar -. Ou você espera explorar todos eles? .Se conse- guirmos estabelecer contacto em alguma parte. E que céu! Todas as estrelas conhecidas. . mundos de enormes dimensões para serem visíveis a tal distância. A Via Láctea não era mais uma tênue faixa de bruma quase no canto do céu. que logo começou a crescer diante deles. A névoa em torno só podia ser vista indiretamente. A grande estrela estava envolta numa auréo- la de gás que lhe abrandava a radiação e lhe dava sua cor caracte- rística. Perto da mais próxima viam-se as centelhas diminutas de planetas circulantes. embora o gesto fosse inútil. A advertência foi das mais breves: por um instante. Mais uma vez os grandes geradores ganharam vida e. 186 . uma a uma as seis estrelas exteriores desapareceram na orla da escuridão e por fim só restou o Sol Central. as estrelas reapareceram. e. mais ampla ela parecia ser.Mas não sei quando. Mas ali estava. A cada minuto.Por sorte isso não será necessário . ao mundo natural onde nada podia ser mais rápido do que a luz. . enquanto hora a hora os Sete Sóis se separavam até encherem aquele estranho tú- nel de noite pelo qual a nave estava a viajar. encontravam-se no centro mesmo da criação. Alvin . Já se encontravam dentro do Sistema dos Sete Sóis. todas as constelações familiares. e o grande círculo de Estrada de São Tiago dividia agora o Universo em duas partes.Bem.. . até que deixou de ser um ponto.É uma pergunta que pretendo responder . regressara ao universo de sóis e planetas.disse Alvin. temos muitos mundos entre os quais escolher. e as seis estrelas restantes do sistema eram como que faróis colori- dos dispostos no céu. seu brilho aumenta- va. Alvin agarrou-se aos braços de sua poltrona.

eram tão grandes que a vida humana não poderia existir ne- les. Que ela possuía uma personalidade. havia uma pálida centelha.. Ele ainda acreditava em tudo quanto o Mestre lhe ensinara. caso contrário não teria sentido a obscura sensação de culpa que o afligira ao lembrar-se do truque de que fora vítima. . Não se esqueça de que nosso guia já esteve aqui.. Em qualquer caso. ouvi dizer. agora que retor- nava à terra antiga do Mestre. Ele nos está conduzindo. nunca o vira demonstrar qualquer sentimento ou emoção. podere- mos ver do alto se existem cidades e edifícios. estava acompanhando suas imemoriais memórias de volta à origem. O robô era capaz. e o que será que ele pensa a respeito? Alvin também estava cogitando sobre a mesma coisa.imaginar que o robô sentisse qualquer coisa semelhante a emoções humanas.. Os homens seriam esmagados sob seu próprio peso. de conciliar conjuntos de dados discordantes. Alguns planetas. essas inconveniências não lhe afetavam a leal- dade.faria algum sentido . depois de tantas eras passadas? Em toda sua convivência com o robô. mas sua verdadeira personalidade se mantivera inteiramente inacessí- vel. Quase perdida no clarão do Sol Central. Mas seria correto .Duvido que isso seja verdade aqui. ele e seu companheiro agora latente. A viagem fabulosa estava chegando ao fim: em breve ficariam sabendo se ela teria sido vã. Agora.A menos que seja grande demais. 187 . e em torno dela os brilhos ainda mais tênues de mundos ainda menores. desde que o Computa- dor Central liberara os bloqueios que o tornavam mudo.. era coisa de que Alvin não duvidava. tenho certeza de que esse sistema é inteiramente artificial. como muitos seres humanos antes dele.. Embora o tivesse visto fraudar seus milagres e dizer mentiras a seus seguidores..O problema foi solucionado para nós. . Hilvar apontou para o robô: . A máquina havia respondido as suas perguntas e obedecido as suas ordens.

188 .

onde os mares se evaporaram. Não havia escuridão em nenhuma parte de sua superfície... chegamos atrasados de- mais.Acho que. podem-se ver marcas neles! Só quando o planeta estava mais perto é que Alvin pôde en- tender o que o amigo queria dizer.Toda sua água desapareceu. .mas decerto dar forma a um mundo teria sido tarefa desprezível para aqueles que haviam construído seus sóis! . bem para dentro das linhas que ele tomara como os limites do mar.Veja. o planeta girava abaixo da nave. uma bela esfera de luz multicor. absolutamente! . .Não se trata de oceanos. pois. . Com majestosa lentidão. pois conhecia bem o significado dessas linhas. .Eles nunca deixariam isso acontecer . Os continentes do planeta não se mostravam como a natureza os fizera . aborrecido. Estavam agora tão perto que podiam ver continentes e oce- anos.exclamou Hilvar. CAPÍTULO XX O planeta de que se aproximavam estava agora a somente alguns milhões de quilômetros. Já as vira antes. Essa visão encheu-o de dúvida. à medida que ele girava sob o Sol Central. e logo com- preenderam que as divisões entre terra e água eram curiosamente regulares. e sua superfície erguia-se imponentemente para encontrar-se com 189 . limitando-se a olhar em silêncio o grande mundo à sua frente.respondeu Hilvar. os demais astros marcha- vam um a um por sobre seus céus. no deserto além de Diaspar. alguma coisa os intrigava nas marcas da superfície.. No entanto. e elas lhe informavam que a viagem tinha sido em vão. Seu desapontamento era tamanho que Alvin preferiu não vol- tar a falar. . de repente.Este planeta é tão seco como a Terra . no final das contas. essas marcas são de leitos de sal.. Depois notou faixas claras e li- nhas ao longo das fronteiras dos continentes. Alvin percebia agora com toda clareza o significado das últimas palavras do Mestre: “É lindo con- templar as sombras coloridas dos planetas da luz eterna”.ele disse. bem como uma diáfana bruma de atmosfera.

estivera em meio a um silêncio tão profundo.Por que você nos trouxe a este lugar? . 190 . Na Terra havia sempre o murmúrio de vozes. Agora. Sob eles elevava-se uma coluna de pedra branca como a neve.O Mestre partiu daqui . e achava-se colocada sobre um círculo de metal um pouco acima do nível da planície. nem inscri- ção alguma. .instou Hilvar. . Ainda agora. e no solo não se via nenhum ponto em movimento que traduzisse vida. seus ares vazios. Mesmo assim. Essa esperança dissipou-se instantaneamente. instruiu-a a pousar ao pé da coluna. Alvin reservava alguma esperança de encontrar vida no planeta. procurando tirar Alvin da- quele estado de depressão. No passado. en- tão. nem mes- mo na desolação de Shalmirane. mesmo quando já perdera todo entusias- mo por levá-la adiante.Viajamos metade do Universo para vermos esse lugar. jazia imóvel. a nave ainda deslizava resolutamente sobre o mar congelado de pedra . ou o sussurro do vento. nem nunca voltaria a haver.minúsculas incrusta- ções brancas por toda parte.. . Tanto o Mestre como seus seguidores estavam sepultados no esquecimento. assim que contemplou a paisagem.respondeu o robô. que brotava do centro de um imenso anfiteatro de mármore. menos nos próprios leitos oceânicos.um mar que aqui e ali assumira o feitio de grandes ondas que desafiavam o céu.disse Hilvar.eles. a agitação de criaturas vivas. aquele mundo fora o centro do Universo. . . . Depois a nave imobilizou-se. Pelo menos você pode fazer um esforço para sair da nave.Vamos lá fora . como a máquina continuasse imóvel.Percebe a ironia disso tudo? Ele fugiu desse mundo em des- graça. mas o ímpeto de sua busca ainda o fazia prosseguir.Era a explicação que eu esperava . Agora já podiam ver as construções . Alvin esperou um pouco mais. os discípulos do Mestre não se teriam reunido ali para cultuá-lo? E porventura teriam sabido que ele morrera no exílio. Não tinha qualquer marca. conjec- turou Alvin. na distante Terra? Isso não fazia diferença alguma agora. Nunca em sua vida. Ali não havia nada.perguntou Alvin. como se finalmente o robô hou- vesse relacionado suas memórias à fonte. Agora veja o monumento erguido em sua homenagem! A colossal coluna de pedra teria cem vezes a altura de um homem. Durante quantos milhares ou milhões de anos.. Tinha pouco interesse pela resposta.

Veja todas aquelas pe- dras caídas ali. Hilvar estava prestes a sugerir que voltassem à nave e sobre- voassem os edifícios mais próximos quando Alvin notou uma fenda longa e estreita no piso de mármore do anfiteatro.se mil ou um milhão de anos. que o ajudasse a resolver alguns dos mistérios do passado. e sobrevoaram lentamente a arena. O material resistente de que era feito mostrava os sinais claros de sua idade. começou a animar-se um pouco mais. Era estranho pensar que eles poderiam ser os últimos de muitos bilhões de seres humanos a se postarem naquele ponto.Esses edifícios não parecem seguros. Daí a pouco. Há muitas eras . Não era preciso muita imaginação para adivinhar a causa daquilo. Apenas o disco branco do Sol Cen- tral proporcionava algum calor real. até chegarem ao mais imponente dos edifícios que a circundavam. deveria possuir alguma coisa de interesse. Percorreram-na por uma distância considerável. e o metal sobre que repousava fora gasto pelos pés de gerações de discípulos e visitantes. Mesmo que aquele mundo estivesse morto. Hilvar apontou para uma coisa que Alvin notara no mesmo momento. só por milagre ainda estão de pé. mas respirável. Apesar dos muitos sóis no céu. vendo a fenda ampliar-se cada vez mais. Quem teriam sido? De onde teriam vindo? Alvin só podia con- jecturar. estavam ao lado de seu ponto de origem. os cantos estavam arre- dondados. formando enorme depressão rasa. O ar era bolorento. Ou outros sóis forneciam partículas de cor. Alguns minutos bastaram para assegurar que o obelisco nada lhes poderia informar. até permitir que um homem a abarcasse com as pernas. A su- perfície da arena fora esmagada e despedaçada. Jamais saberia quanto tempo havia chegado depois da- queles visitantes . Se houvesse tem- 191 . Alvin sorriu e seguiu Hilvar pela câmara de descompressão. deixando o planeta entregue às suas lembranças. . Caminharam em silêncio de volta para sua própria nave (de- certo insignificante em comparação com o monstro que um dia já estivera naquele mesmo lugar!).ainda que certamente muito depois da- quele mundo ter sido abandonado . mas nenhum calor. Apesar de tudo. com mais de um quilômetro e meio de compri- mento. a temperatura era baixa.uma imensa forma cilíndrica repousara ali e depois se erguera novamente em direção ao espaço. Uma vez lá fora. e ainda assim tal calor parecia ter perdido força em sua passagem através da bruma em torno do astro. Ao pousarem diante de sua suntuosa entrada.

o que você sugere? . Isso era verdade. ao que parecia.Não vou fazer isso.pestades neste planeta.Alvin . e não provocará nenhuma perturbação que possa fazer com que a estrutura desmorone em cima dele. devem obedecer a certas leis básicas. Estamos perdendo tempo. apenas aterrissando se parecerem fundamentalmente diferentes ou se observarmos al- guma coisa inusitada.disse Hilvar finalmente -..perguntou Alvin. . mas também insistiu numa outra. como espero que sejam. viram quilômetros de corredores e passagens vazias e atapetadas de poeira passa- rem pela tela. tornando-se ademais incapaz de absorver novas impres- sões. Talvez fossem mesmo homens.Devíamos examinar mais duas ou três áreas desse planeta e ver se são iguais. Vou mandar o robô.. Isso é tudo que podemos fazer. Alvin fez com que ele passasse uma série de instruções para o cérebro da nave. quase igualmente inteligente.. pudessem pelo menos voltar em segurança para a Terra. Aqueles edifícios. foram cuidadosamente despidos de qualquer coisa de valor que possuíam. e não realizar pesquisas arqueológicas. 192 . em que Alvin não havia pensado. poderíamos passar um milhão de anos explorando esses edifícios. Poderiam utilizar dispositivos pessoais de neutralização da gravidade. mas dos quais hoje não se encontrava sinal em Diaspar. ele anda muito mais depressa do que nós. Antes do robô sair para seu reconhe- cimento. Foi preciso pouco tempo para ambos se convencerem de que aquele mundo pouco tinha a oferecer. Depois faríamos um exame igualmente rápido dos outros planetas.. e após algum tempo mesmo as formas arquitetônicas mais exóti- cas deixam de provocar surpresa. havia um número surpreendente de cômodos e desvãos em que só poderiam penetrar criaturas voadoras. os quais no passado tinham sido de uso comum.Então. . . mas isso não significava que os construtores dessa cidade fossem alados. na verdade. Juntos. de modo que. tinham sido residenciais. o que eles desejavam era estabelecer con- tacto com vida inteligente. e a mente passa a se cansar da repetição. qualquer que seja a forma de seus corpos. enquanto o robô explorava aqueles labirintos vazios. a menos que desejemos passar aqui o resto da vida. É óbvio que não foram apenas abandonados. Todos os edifícios projetados por seres inteligentes. Acho que não é aconselhável entrarmos em qualquer um deles. . já teriam sido destruídos há muito tempo. e os seres que neles residiam teriam aproximadamente o mesmo tamanho dos homens. se acontecesse alguma coisa ao piloto. - Hilvar aprovou a precaução.

sem abrir a câmara. No passado pode ter sido um grande jardim ou parque. Deixaram o planeta duas horas depois.Acho melhor termos cuidado aqui . com efeito. Todo o globo. Seria melhor permanecermos no interior da nave. mas quando foi abandonado a natureza tomou conta dele outra vez. tão unifor- me que impunha um problema imediato.. Tampouco via-se sinal de inteligência. Aquele mundo fora inteiramente esté- ril e era difícil imaginar a psicologia dos seres que haviam vivido ali. Alvin não duvidou de que Hilvar tivesse razão. e. e tão cercadas de vegetação rasteira. algo de hostil a toda ordem e regularidade. estava recoberto por um manto de um verde virulento.. pensou Alvin. e não gosto nada da cor dessa vegetação. na anarquia biológica que reinava lá embaixo. aquele mun- do de edifícios intermináveis deveria ter sido muito deprimente. Esse planeta estava perto do Sol. Mesmo quando fervilhante de vida.estavam tão juntas umas das outras. estamos muito longe da Terra e pode haver perigos aqui que não podemos pressentir. e até mesmo do espaço ele parecia quente. que seus troncos 193 . Achava-se parcialmente coberto de nuvens baixas. mas não havia sinais de oceanos.A primeira tarefa poderia ser cumprida em poucos dias. embora meu povo saiba como enfrentá-la.Nem isso. de qualquer espécie. provavelmente abandonaria sua busca ali mesmo. Se o próximo planeta fosse idêntico. Não havia sinais de parques ou qualquer espaço aberto onde pu- desse ter existido vegetação. completamente coberta de árvores cuja altura só podia ser objeto de conjectura . . O terreno era limitado por uma área mais elevada. Você já esqueceu o que é a doença. o que indicava água abundante.Nem mesmo para deixar o robô sair? . Ali. Acho que este mundo desgovernou-se. satisfeitos por saírem dali. Havia alguma coisa maléfica. . Jamais poderia ser assim quando o sistema era habitado. Mas tal não aconteceu. em que se baseavam tanto Lys como Diaspar. uma batalha incessante tinha sido travada durante um bilhão de anos. Desceram cautelosamente numa ampla planície. circularam o planeta por duas vezes sem vislumbrar um único artefato sequer. dos pólos ao equador.Este mundo está vivo. a segunda exigiria séculos de trabalho por exército de homens e robôs. . resolveu Alvin.disse Hilvar. seria melhor precaverem-se contra os sobreviventes. teria sido impossível ima- ginar contraste maior. se é que seria cumprida.

Não . por outro lado.Não compreendo .disse Alvin.perguntou Hilvar. A literalidade da mente dos robôs podia às vezes ser tão ir- ritante quanto a verbosidade de seres humanos. Embora descessem a apenas quinze metros de altura. fungos.Não .O que foi que cobriu os receptores? .Nesse caso.Você a desligou? . embora se movessem com tama- nha rapidez que se tornava impossível dizer se eram animais ou insetos. por que a tela está vazia? . esquecendo-se por um mo- mento de que o robô só agia em resposta a ordens ou perguntas definidas.foi a resposta. Alvin afastou da mente a idéia de que o robô pudesse ter começado a agir segundo seu próprio arbí- trio. A tela. Apesar do fato de ser uma batalha silenciosa. Entre os galhos mais altos voavam muitas criaturas aladas. sentindo um calafrio percorrer-lhe a espinha. enquanto pensava na única explicação. de que ele pudesse estar a braços com um motim mecânico. A discussão já se prolongava há alguns minutos quando no- taram algo estranho.idéias que Alvin achava difícil visualizar e.perguntou. . a impressão de conflito impiedoso e implacável era inequívoca. e coberta de relva fina e espinhenta. vírus e micróbios . parecia plácida. um pouco à frente da de Alvin. Era chapada. .Foi você quem a desligou? . e Hilvar pacientemente explicava coisas como bactérias. Com um suspiro de alívio.Não sei.respondeu Alvin.se achavam praticamente soterrados. o que Hilvar achou surpreendente. escondendo-se no solo. A planície. mais difícil ainda. . Pairaram a pouca altura sobre a planície. ou nenhuma dessas coisas.. Concluiu que os animais talvez tivessem ficado com medo de sua aproxima- ção.perguntou ao robô. aplicar a si próprio. enquanto Alvin tentava convencer Hilvar de que seria seguro abrir a câmara pneu- mática. como de costume. es- tendendo-se até o horizonte. . Antes que Alvin 194 . .Os receptores de imagens foram cobertos. um gigante da floresta lograra elevar-se alguns metros sobre os vizinhos em batalha. que há pouco estivera mostrando a floresta diante deles. Aqui e ali. . não havia sinal de vida animal. com a mente.. travada com demasiada lentidão para que a vista a acompanhasse. ficara vazia. Recobrou-se depressa e perguntou: . os quais haviam formado uma breve aliança a fim de abater e destruir a vantagem que ele havia conquistado. .

. A essa altura. A planície não estava mais plana.disse Hilvar obviamente fascinado pelo que acabara de ver. o equilíbrio já deve ter sido alcançado e.. Gigantescos pseudópodos agitavam-se vagarosamente sobre o buraco. mostrava o suficiente para pôr fim à discussão sobre ater- rissagem. em nenhum momento.pudesse continuar o interrogatório. Alvin repetiu a ordem. como se tentassem re- capturar a presa que há pouco escapara de suas garras. ou não teria cometido a tolice de pretender devorar uma nave espacial. No entanto. Uma enorme protuberância formara-se bem abaixo deles. . Mil e quinhentos metros acima da planície.perguntou num arquejo. a imagem recompôs-se na tela.. com um tom de urgên- cia na voz. que positivamente parecia convidá-lo a descer e correr sobre sua superfície espinhenta. . talvez até um parente de nosso amigo de Shalmirane. . Não só a evolução. Enquanto olhava.O que era. . tomado de horrorizado fascínio.. quando formas superiores de vida voltaram atrás depois que o planeta foi abando- nado.Vi um mundo sem vida.respondeu Alvin. no ponto em que a nave se libertara. Alvin percebeu de relance um orifício escarlate latejante. Decerto não era inteligente. aquilo? . o planeta lhes 195 . ainda que a princípio baça e distorcida. Hilvar interrompeu. a criatura afundou lentamen- te no solo .Pode ter sido alguma forma de vida animal primitiva. e outro com vida demais. lentamente. Roubada de sua quase vítima. empurrando tudo quanto esti- vesse a seu alcance para o interior das fauces escancaradas.A evolução deve ter produzido alguns resultados bem interessantes nessas condi- ções. mas também a involução.e foi então que Alvin compreendeu que a planície lá embaixo era apenas a espuma delgada na superfície de um mar estagnado. . . franjado por tentáculos em forma de chicotes que batiam em uníssono. você já quer ir embora? . Imaginou quais outras criaturas vive- riam sob aquela ondulação inocente. Não houve sensação alguma de mo- vimento. Alvin sentia-se abalado..respondeu Hilvar jovialmente.Terei de descer lá embaixo e estudá-la de perto antes de poder responder . enquanto a paisa- gem ficava cada vez mais distante.Quero .. .Diga-lhe que levante a nave . uma protuberância rasgada no alto. conquanto soubesse que não haviam corrido verdadeiro perigo.disse..Sua voz parecia queixosa. e não sei qual é o mais detestável.Eu poderia passar um bocado de tempo aqui . Depois.

Alvin despertou Hilvar quando mergulharam na atmosfera. meio vazios. De cada um dos invólucros semitransparentes pendiam aglomerados de gavinhas. formando praticamente uma floresta invertida. Algumas plantas. No entanto. depois de cautelosamente considerarem todas as possibilidades. Por alguma razão que o robô não lhes pôde explicar. Lá embaixo via-se uma paisagem inóspita de tons negros e cinzentos. alguns dos quais dispostos em desenhos com- plexos e simétricos. as colinas baixas e os vales rasos achavam-se pontilhados de per- feitos hemisférios. com o invólucro rompido atuando como grosseiro pára-quedas. haviam aprendido a conquistar o ar. de vez em quando tinham de manter algum contacto com o solo. achavam-se infestadas com toda uma fauna de animais que lem- bravam aranhas. haviam conseguido sintetizar hidrogênio e armazená-lo em vesículas. Suas hastes e folhas.O que é que você pensa disso! . a nave viajava lentamente . não era certo que mesmo ali houvessem encon- trado segurança. Ficou a imaginar se aquilo seria um acidente ou parte do ciclo vital daque- las estranhas entidades. de modo que conseguiam elevar-se para a relativa paz da atmosfera inferior.perguntou.proporcionou uma surpresa final. apontando para a tela. Encontraram uma frotilha de imensos balões. Provavelmen- te. dando prosseguimento à batalha uni- versal pela existência em suas solitárias ilhas aéreas. Hilvar dormiu enquanto esperavam a aproximação do próxi- mo planeta. No último planeta. No entanto. Através de seus olhos. havia indícios indiretos. que não mostrava sinal algum de vegetação ou qualquer outra prova concreta de vida. Alvin viu um dos grandes balões subitamente despenhar-se. que deviam passar toda a vida flutuando muito acima da superfície do globo. que pendiam para baixo. e ele ficou surpreso com o fato de que uma simples viagem interplanetária pudesse durar tanto tempo. . permaneceram a uma boa altitude. agora que se encontra- va num sistema solar. flutuando ao vento. viram um dos hemisférios se aproximar até o robô estar flutuando a pequena distância da superfície completa- 196 . haviam aprendido a agir com cuidado e. no esforço de escapar do conflito feroz na superfície do planeta. mandando o robô investigar. Levaram quase duas horas para chegar ao mundo que Alvin escolhera como sua terceira escala. Através de um milagre de adaptação.pelo menos em comparação com a ve- locidade com que percorrera o Universo -. ao que parecia.

perguntou Alvin. Alvin sabia que a porta não se abriria a menos que o cérebro da nave já houvesse verificado que a atmosfera fosse respirável. Após alguma hesitação. Para espanto seu. Alvin voltou-se para Hilvar. e po- deriam ter incluído esse tabu nas instruções originais da máqui- na. Era bastante grande . Isso parecia eliminar uma possibilidade.Há inteligência aqui! Pode senti-la? . Alvin ordenou ao robô que se moves- se à frente e tocasse a cúpula. Deram mais um passo . reunir-me ao robô. com a luz de uma nova esperança brilhando em seus olhos.e então 197 . . Hilvar não discutiu a questão. embora não parecesse muito satisfeito. . pois o ar era tênue e quase não lhe enchia os pulmões.Não .. . A ordem foi programada em você? .mente lisa e sem marcas.Proibido por quem? . embora julgasse que só poderia suportar. Se era um edifício.respondeu Hilvar. inalando profundamente.O lugar me parece tão morto quanto o primeiro mundo que visitamos. Os construtores das cúpulas bem poderiam ser os mesmos construtores do robô.Quando você recebeu a ordem? . no máximo. . ao recu- perar-se do assombro.Por que não faz o que mando? . Levaram a nave a trinta metros de distância da cúpula.ou a princípio assim pareceu. . Qualquer coisa que lhe te- nha falado poderá falar comigo também. Não havia sinal de entrada. .Então. cancele isso. Realmente.perguntou Alvin.É proibido ..Vou lá fora. caminharam até o robô e se aproximaram da pa- rede curva da enigmática cúpula. alguns minutos ali.foi a resposta. . o robô recusou-se a obedecê-lo. Então. tratava-se de um motim .Quando pousei. e abriram a câmara pneumática. como. supôs que o cérebro houvesse cometido um enga- no. não. para perto do robô. . descobriu que podia sugar oxigênio su- ficiente para sobreviver. nem qualquer sinal da finalidade da estrutura. Por um momento.mais de trinta metros de al- tura. não parecia permitir nem entrada nem saída. Ofegando.Não. Alguns dos outros hemisférios eram ainda mais altos. .Não sei.

disse. Isso. NÃO SE APROXIMEM MAIS. se todas elas nos avisarem que fiquemos a distância. .O que será que estão tentando proteger? . A mensagem se transmitia não em pala- vras. debaixo dessas cúpulas.. Tiraram absolutamente tudo do primeiro. Pareciam dizer que havia ali algo de intrinsecamente perigoso.. De algum modo. e que os construtores daqueles hemisférios estavam ansiosos em ga- rantir que ninguém sofresse por ignorância.e ainda mais forte ali.. . Em suas mentes. . Assim que a porta fechou-se atrás deles.Não temos como descobrir..Vamos voltar para a nave . pensou Alvin. Alvin teve a certeza de que qual- quer criatura.Mas nunca voltaram. acionada por nossa presença quando nos aproximamos excessivamente. Era um aviso. sua presença fora forte naque- le primeiro planeta . Essa advertência é automática. Alvin . como se atingidos pelo mesmo golpe súbito.no recesso mais profundo da mente. É interessante.Poderia haver edifícios. do mesmo modo inteiramente inequívoco .. qualquer coisa.. . abandonaram o segundo sem darem a menor importância. e nada mais.. juntos.. cada qual esperando que o amigo dissesse o que estava pen- sando. Era curioso. Aquele era um mun- do cuidadosamente embalado e guardado para qualquer época em que voltasse a ser necessário.pararam. mas tiveram muito trabalho aqui. Hilvar foi o primeiro a resumir sua opinião. ofegante. . Alvin assentiu com a cabeça. ... reverberara uma mensagem: PERIGO.. como se soasse um poderoso gongo. a diferença entre os três planetas que visitamos.Eu estava certo. a maneira como tanto ele como Hilvar haviam inconscientemente começado a usar a palavra “eles”. qualquer que fosse seu nível de inteligência. não uma ameaça.. recebe- ria a mesma advertência. mas pretendiam protegê-los. Para realizarem uma in- vestigação rigorosa.disse. e isso foi há muito tempo.. olhando um para o outro. Alvin e Hilvar recuaram vários passos.. . Quem ou o que “eles” tivessem sido. mas em puro pensamento. . entenderam que as palavras não eram contra eles. Talvez esperassem voltar algum dia.. relaxaram e come- çaram a debater o que fariam a seguir.Não con- sigo respirar direito aqui. e desejassem que tudo estivesse pronto quando regressassem.disse Alvin.Não há inteligência aqui. deveriam examinar um grande número de cú- 198 .Podem ter mudado de idéia. ..

esparsamente salpi- cado com as cúpulas tantalizantes e impenetráveis. na esperança de poderem encontrar uma que não emitisse advertência e na qual pudessem entrar.. 199 . Se isso não desse certo. até ser obrigado a isso. Ao lado da cratera estava uma nave espacial em pedaços. sempre com o mesmo resultado.. Abaixo deles estendia-se um amplo vale. quando deram com uma cena inteiramente despropositada naque- le mundo limpo e bem arrumado. via- se a cicatriz inconfundível de uma grande explosão. Haviam mandado o robô a meia dúzia de cúpulas. que espalhara destroços por quilômetros em todas as direções e cavara uma rasa cratera. Teve de enfrentá-la menos de uma hora depois. mas Alvin não desejava enfrentar a possibilidade.pulas. No centro. e de uma for- ma muito mais dramática do que teria sonhado.

200 .

disse Hilvar. Chegaram até o casco. Da nave. examinando o interior da nave.conjecturou Hilvar - e não levaram o aviso em consideração. na pequena colina ao lado da nave. acho que essa é a nave que pousou no primeiro planeta que visitamos. - Essa parte da nave está muito destruída. . restava apenas uma parte mínima. quebrados no ponto da explosão. Ao se aproximarem. Onde está o resto? Teria ela se quebrado em duas partes no espaço e essa parte caiu aqui? Só depois que mandaram o robô para outra excursão de in- vestigação. imaginou Alvin. tudo o mais provavelmente fora destruído na explosão. um pensamento começou a formar- se no cérebro de Alvin. Não havia sombra de dúvida. proporcionavam uma visão distorcida da seção trans- versal da nave. em direção ao casco imenso e dilacerado.Quer dizer que eles pousaram aqui . poupando o fôlego.Hilvar . quaisquer reservas desapareceram quando Alvin encontrou a série de montículos baixos. Hilvar assentiu com a cabeça. e após eles mesmos terem examinado a área em torno do sinistro. que seria da proa ou da popa. ainda jaziam no lugar onde haviam encontrado a morte quando da tragédia de seu veículo? . . pensava ele. Eram curiosos. Aquela era uma boa lição concreta. Esperava que Alvin não dei- xasse de atentar para isso. paredes e tetos. ganhando força até tornar-se verdadeira certeza. foi que tiveram resposta. mas acha-se quase in- tacta. preferindo poupar o fôlego.disse ele. CAPÍTULO XXI Pousaram perto do palco dessa antiga tragédia e caminha- ram lentamente. Pisos. cada qual com três metros de comprimento. Era como olhar para dentro de um edifício gigantesco que tivesse sido quase rachado ao meio. encontrando dificuldade para caminhar e falar ao mesmo tempo -.Não compreendo uma coisa . tal como 201 . para visitantes incautos. A mesma coisa já lhe ocorrera. de repente. Que estranhos seres.

perguntou Hilvar. . Agora que Alvin começava a demonstrar alguma dose de cautela.você. ainda sem marcas. em direção ao invólucro liso.disse ele. Tentaram abrir aquela cúpula. e Alvin estava agora mais disposto a lhe dar ouvidos do que há alguns dias antes.Provocaram a destruição da nave.Você acha que devo voltar? . Hilvar não chegou a ouvir as palavras que Alvin murmurou enquanto lentamente caminhavam de volta para sua nave. Hilvar apontou para o outro lado da cratera.Espero que tenham chegado aonde queriam ir . Nossa sorte pode não durar muito ainda. Essa pergunta poderia permanecer sem resposta. . se se dispusesse a mexer nelas. Mas não se tratava mais de uma cúpula . dentro do qual os governantes daquele mundo haviam lacrado seus tesouros. Que trabalho deve ter dado! Alvin mal o escutava.Vamos ficar na nave de agora em diante . e muitos deles morreram.E agora. pois o solo sobre o qual repousava havia sido arrancado pela explosão.a haste delgada circundada por um círculo horizontal a um terço da extremidade superior. Hilvar deu de ombros. estava a resposta para pelo menos uma pergunta. Por exótica e des- conhecida que fosse.Seria a coisa mais sensata a fazer. haviam conquistado o direito ao repouso. ainda que já houvesse há muito perdido toda esperança de 202 . Alvin encarou pensativamente a tela antes de responder. não regressaria enquanto ainda houvesse tantas coisas a ver. e esperara toda sua vida por aquele momento. Debaixo daquelas pedras. . Mas ele viajara muito. para onde vamos? . como se recusando a assumir qual- quer responsabilidade pelo que pudesse acontecer. ele era capaz de entender a mensagem muda que ela vinha transmitindo há eras sem fim. . fossem o que fossem aquelas criaturas. . Olhava para a curiosa estrela que o atraíra àquele lugar . ao saírem novamente para o espaço.era agora uma esfera quase completa.disse . cortando fora esse pedaço e tirando dele tudo que fosse de valor. conseguiram reparar o veículo e partir novamente. julgou inoportuno admitir que estava igualmente ansioso por prosseguir na explora- ção. Será suficiente como precaução. e quem sabe quais surpresas esses planetas podem nos reservar? Era a voz da razão e da cautela.e não desceremos à superfície em parte alguma. Ainda assim.

nesse caso. pois apenas um dos sóis mais distantes elevava-se acima do horizonte na área com a qual haviam esta- belecido o primeiro contacto. À frente deles havia um mundo duplo. A vida não pode ter origem em espaço sem ar. mas pode desenvolver formas que sobrevivam nesse tipo de ambiente. ou po- deria? . poderiam então adquirir inteligência desenvolvidíssima. A discussão. De nada valeria pousar ali. Era o primeiro mundo em que ele havia visto alguma coisa semelhante à noite. Na verdade. Todas as sombras tinham arestas nítidas. Depois de se haverem adaptado. as montanhas ainda acidentadas e serrilhadas como teriam sido nas eras dis- tantes de sua gênese. . teriam de adaptar-se ou perecer. quando Alvin lhe colocou a pergun- ta.Não há nada de biologicamente absurdo na idéia. Sobrevoaram longamente. nem havia gradações entre a noite e o dia. Mas. Aquele era um mundo que jamais conhecera mudança ou decadência... Mas. era uma histó- ria que já conheciam. Mas. é prová- vel que isso acontecesse. se não havia ar. se a atmosfera desapareces- se enquanto ainda se encontravam no estado primitivo.Mas você esperaria que a vida inteligente existisse no vá- cuo? Essas formas de vida não se teriam protegido contra a perda do ar? .Claro . Isso deve ter acontecido milhões de vezes. não lhe foi necessário atender à advertência do complexo mecanis- mo. como se mergulhada em sangue. .. qual seria a finalidade daquele mundo? Todo o sistema 203 . que nunca fora açoitado por ventos ou chuvas. pois o revestia o mesmo manto de verde doentio.encontrar vida inteligente em qualquer um daqueles planetas. sempre que um planeta habitado perdeu sua atmosfera. um planeta colossal com um pequeno satélite ao lado. Alvin fez a nave descer mais perto da superfície do satélite. pois o incentivo seria bem grande. não poderia ter existido vida. no sentido de que ali não havia atmosfera. marcadas. inteligente ou não. O planeta primário poderia ser gêmeo do segundo que haviam visitado. Em parte alguma se viam sinais de que algum dia ele houvesse abrigado vida.disse Hilvar. A paisagem banhava-se de uma luz vermelha e opaca. concluiu Alvin era puramente teórica.. no que dizia respeito àquele planeta. a baixa altitude. se isso acontecesse depois de haverem con- quistado inteligência suficiente.Provavelmente. Ali eram desnecessários circuitos de eternidade para pre- servar os objetos em seu estado original.

e o que se viu foi um sinal inequívoco de vida. e ja- ziam sobre as rochas. que nada observara. entretanto.Olhe . apontando para a tela. e aquele mundo devia constituir parcela do grande projeto. . à direita. pensou Alvin. enquanto circulavam sobre aquilo que Hilvar havia descoberto.disse Hilvar. depois a imagem estabilizou-se. prosse- guindo numa marcha ininterrupta por vales e colinas. Alvin desviou a nave para a direita e começou a percorrer rapidamente a fila de colunas.dos Sete Sóis. Eram absolutamente uniformes. . uma suspeita fantástica começou a nascer em suas mentes . levasse a nave a dar uma meia-volta. Isso não era tudo.para haver uma lua no céu de seu gigantesco com- panheiro. a oitenta quilômetros da última mudança de rumo. era artificial. a linha mudou de rumo. separadas por intervalos perfeitamente regulares. Alvin continuou em frente vários quilômetros antes de reagir e conseguir desviar a nave para a nova direção. em breve estariam exa- tamente no ponto de partida. e a paisagem girou em torno deles. seria de esperar que lhe fosse destinada alguma utilização. numa perspectiva hipnótica. sim.Lá. próxima. Não havia qualquer sinal de que já houvessem algum dia suportado alguma coisa. Os rochedos. imaginando ao mesmo tempo qual teria sido sua finalidade. A seqüência interminável de colunas de tal forma os havia hipnotizado que quando chegou ao fim estavam a muitos quilôme- tros depois da descontinuidade. A prosseguirem assim. cada qual a cerca de trinta metros da outra. e com duas vezes sua altura. ambas as colunas adja- 204 . tornaram-se baços com a rapidez do movimento. Inequívoco. até que o horizonte distante as tragava. fazendo-se cônicas em dire- ção ao alto. Era crível que tivesse sido criado tão-somente para fins or- namentais .ainda que a princípio nenhum dos dois se atrevesse a transmiti-la ao outro. Mesmo nesse caso. e. As colunas continuavam da mesma maneira. dando uma guinada sú- bita em ângulo reto. De repente. Depois. iluminados de vermelho. Estendiam-se a distância. Alvin modificou o rumo da nave. mas ainda assim enigmático. eram lisas e sem endentações. Duas das colunas tinham-se quebrado perto da base. ele acreditava agora. Desce- ram lentamente. reduzindo-se de tama- nho. descreviam novamente outro ângulo reto. Esse indício tomava a forma de uma fileira bem espaçada de colunas esguias. Hilvar gritou e fez com que Alvin.

Parece difícil acreditar. contudo. talvez tenha levado anos para quebrar esses mourões. Do lado de fora do cercado. travara uma batalha penosa mas sem quartel contra as barreiras que o confinavam.centes à abertura tinham sido vergadas para fora através de uma força irresistível. e de que algum mons- tro botânico. . e tinha de en- contrar alimento fresco em outro lugar. Provavelmente. com o cenho carregado.disse por fim. . que talvez se movesse vagarosamente demais para a vista acompanhar seu movimento.. que não teriam mais de dois ou quatro dedos de largura. .devem tomar cuidado para mantê-los sob controle. mas até aquele momento a mu- dança chocante de escala o impedira de reconhecer o que via.Talvez tenha sido deixado aí e fugiu por ter fome .Gostaria de examinar o chão de perto. uma cerca que não foi bastante forte. Hilvar e Alvin pararam de repente junto à cerca.Não compreendo .As pessoas que possuem animais de estimação . não havia no chão essas marcas misteriosas. . Desceram até a nave quase tocar as rochas áridas.perguntou ele. no en- 205 . Seria mais correto usarmos a palavra planta. Agora Alvin sabia o que significava a formação que sobrevoara. Não havia como fugir da conclusão espantosa. Havia esgotado o solo do lado de dentro do cercado.conjectu- rou Alvin. Não duvidava de que a análise de Hilvar era basicamente correta.disse Hilvar -.Hilvar . Estava fitando a barricada rompida. .Você tem razão .Como ele conseguiria alimento num planeta desses? E por que fugiu de seu cercado? Eu daria tudo para saber que animal era esse. movia-se com grande lentidão. ele estava com fome. .disse Hilvar.Vamos baixar um pouco mais . A imaginação de Alvin rapidamente colaborou com os deta- lhes que nunca poderia conhecer com certeza. Procurá-lo. Mas não era um animal. .você sabe o que é isso? . Isso aí é uma cerca. Hilvar não reagiu a esse bom humor forçado. . Poderia ainda estar vivo. mas estivemos voando em torno de um curral..Ou alguma coisa pode tê-lo deixado assustado. era uma coisa que ele vira com freqüência em Lys. . mesmo depois de passado tanto tempo. e foi então que notaram que a planície estava sulcada por inúmeros buraqui- nhos.disse Alvin com o riso nervoso que as pessoas às vezes usam para ocultar seu medo . ainda temeroso de vazar seus pensa- mentos em palavras . vagando à solta sobre a face do planeta.

Eram muitas as maravilhas em todos aqueles planetas. apurando cada um de seus sentidos e sondando o vazio em torno deles.perguntou Alvin. localizando uma grande mancha circular de buraquinhos. como se houvesse encontrado algo tão surpreendente que 206 . maior do que qualquer outra que já experimentara.Uma coisa que não compreendo. .se é que se podia utilizar essa palavra com referência a um organismo que de alguma forma extraía sua nutrição da rocha sólida. Podia com- preender agora o medo de Diaspar pelas vastidões do Universo. em busca de apoio. Mas o amigo es- tava de pé com os punhos cerrados e uma expressão vítrea nos olhos. mas sem qualquer sinal de alarme ou medo. Teve de repetir a pergunta antes que Hilvar desse qualquer demonstração de tê-lo ouvido. mas apren- dera muito pouco. Ao se elevarem mais uma vez no espaço. Mesmo que ainda subsistisse inteligência no Universo. Uma sensação de solidão e opressão.O que foi? .tanto. Vira coisas demais. e o pesadelo racial dos Invasores se estruturava para confrontá-lo com todo seu terror. Era difícil acreditar que.Alguma coisa está vindo . com quase cento e cin- qüenta metros de diâmetro. onde a criatura havia obviamente pa- rado para alimentar-se . . preocupado. Com um esforço da vontade. Sua voz soou muito baixa. enorme assombro e curiosi- dade. estivessem certos.apenas à segun- da. Voltou-se para Hilvar. Fizeram uma pesquisa rápida num raio de poucos quilômetros em torno da abertura. o terror que fizera sua gente reunir-se no microcosmo da cidade. Sua cabeça estava virada de lado. parecia escutar alguma coisa. Transmitia. seria tarefa inglória. Alvin sentiu um es- tranho cansaço tomar conta de si. que exauria suas resistências. Ainda fitava o vazio quando finalmente respondeu. mas o que ele procurava desaparecera dali há muito tempo.perguntou. onde ele a procuraria agora? Olhou para as estrelas dispersas como poeira fina pela tela. parecia tomar conta dele. no final das contas. entendendo que o que sobrava do Tempo não bastava para explorar todas elas. ao invés disso.É uma coisa amistosa? . uma vez que significaria vasculhar a superfície de todo um mundo. Seria inútil. visitar os outros mundos dos Sete Sóis.disse lentamente. lutou contra o pânico. A Alvin pareceu que a cabine se tornara de repente gelada. . .Devo correr para a Terra? Hilvar não respondeu à primeira pergunta . sabia. .

suplicou. acenou para Vanamonde. abstrata. transpondo anos-luz.Tarde demais . . ele se lançou na direção das duas mentes que havia descoberto. tomado de terror. partindo do centro da Galáxia. com o delicado nervosismo de uma besta selvagem meio pronta para desferir seu vôo.ele disse -.Diga-me o que está acontecendo! . desapareceu dos olhos de Hil- var.mas podia recordar-se ainda de seu desconsolo quando haviam partido.O que quer que eu faça? A expressão distante. e. Ou- trora sonhara em encontrar de novo aqueles que haviam assistido a seu nascimento. . A partir de então. no decurso dos tempos.Já está aqui. mas não há porque 207 . pois lhe era tão estranha quanto quase todas as coisas do mundo físico.não pudesse dar-se ao trabalho de satisfazer à indagação ansiosa de Alvin. E então soube que sua longa busca estava acabada. A longa forma metálica. mas somente de uma feita descobrira inteligên- cia . mas isso de nada lhe interessava agora. a gran- de explosão de força.Ainda não compreendo . do Sol Negro. Cuidadosamen- te. era coisa que ele não poderia compreender. . Num sem-fim de mundos ele havia encontrado os destroços deixados pela vida. vagarosamente desenvolvendo e ampliando seus poderes. tentando puxá-lo para uma aguda consciência da realidade. No entanto. com suas infinitas complexidades estruturais. jamais morrera inteiramente.ele disse.e fugira. no espaço e no tempo. Lembrava-se pouco daquelas primeiras eras e das criaturas que haviam então cuidado dele . havia errado de sol a sol. . Era inteiramente diferente da radiação das estrelas. Ainda que estivesse distante. Alvin agarrou Hilvar pelos ombros e sacudiu-o com violência. deixando-o só entre as estre- las. embora o sonho já se tivesse dissipado. Em torno dela ainda pairava a aura de força que o arrastara através do Universo. . e Vanamonde moveu-se pelo espaço e pelo tempo na- quela direção. A Galáxia girara muitas vezes em torno de seu eixo desde que a consciência pela primeira vez despontara em Vanamonde. e aparecera em seu campo de consciência tão repentinamente como a trilha deixada por um meteoro no céu sem nuvens. o Univer- so era muito grande e a procura mal começara.

Sou Vanamonde. isso era estranho. Era difí- cil acreditar que pudessem ter esquecido. Parece simplesmente. não estava inteiramente certo ao pensar assim. .Quem é você? Deu a única resposta que podia dar. aquilo lembrava suas pró- prias emoções quando o Sol Negro entrara. Alguma coisa estava partilhando de seu cérebro. Uma dessas mentes. Ficou perplexo e um tanto assustado com o recor- rente padrão de medo dos Invasores. quando terminou. .. Um fulgor morno e formigante como que se espalhou por seu corpo. estava além da compreensão de Vanamonde. igualmente emaranhada na criatura que se havia abatido sobre eles. Houve uma pausa (como era demorada a formação de seus pensamentos!) e então a pergunta foi repetida. era mais amena e acessível do que a outra. independentemente do que fosse. não nos fará mal.assustar-se. Mas nada sabiam a respeito do Sol Negro. Vanamonde percebeu de imediato. superpondo-se a ele tal como um círculo pode cobrir outro parcialmente. Alvin rebelara-se prontamente quando Seranis tentara domi- nar-lhe a mente. e sabia que a criatura.. também. Ele tinha consciência. A sensação era antes estranha que desa- gradável. interessado. mas não lutou contra aquela intrusão. A comunicação era dificílima. não era hostil. e agora suas pri- meiras indagações começavam a se formar na mente da criatura. Teria sido inútil.. Muitas das imagens mentais de seus cérebros eram tão estranhas que ele quase não conseguia identificá-las. Sentia que ambas estavam admiradas com sua presença. Relaxou-se aceitando sem resistência o fato de que uma inteligência infinitamente maior do que a sua própria estava explorando sua mente. No entanto. mas. Alvin estava prestes a responder quando foi tomado por uma sensação diferente de tudo quanto já conhecera no passado. tenho certeza disso. Seja lá o que for.. o esquecimento.o poder que em sua gente se degenerara de tal forma que agora só podia ser usado para controlar máquinas. e deu a Alvin o primeiro vislumbre da verdadeira telepatia . o que o surpreendeu muito. pela primeira vez. tal como a mortalidade. Não haviam com- preendido. pois certamente a espécie a que per- tenciam lhe havia dado nome para que essa denominação perdu- 208 . da mente de Hilvar bem próxima. já não era simplesmente Alvin. aquilo durou apenas alguns segundos. em seu campo de conhecimento.

mas pa- rece ter pouquíssima inteligência. enquanto vivesse. e começavam estranhamente num ponto isolado do tempo. . pois não se importava de admitir. E claro . .Não estou entendendo nada.acrescentou . . Alvin acreditava que. meio atordoado pela torrente de imagens mentais. pálido e cansado. Mais uma vez seus minúsculos pensamentos conseguiram atingir-lhe a consciência. há alguma coisa estranha aqui . . Acho que tem consciência do passado. com certa impaciência.Foram construídos por muitas raças.Alvin.que seu cérebro pode ser de uma espécie tão diferente que não consegui- mos compreendê-lo. mal podiam acreditar nele.. mas não tem capacidade para interpretá- 209 .perguntou Alvin. Só lhe cabia esperar e admirar-se. Daí a pouco. e o desapontamen- to que sentiram transpôs nítida e claramente o abismo que separa- va suas mentes da dele. jamais passaria no- vamente por uma experiência tão estranha como aquela conversa silenciosa. que a mente de Hilvar era em muitos sentidos bem mais ágil do que a sua.Não consigo descobrir o que é esse. Essas lembranças eram raríssimas. mesmo para si próprio. mas eram claras como cristal. não creio que seja a explicação correta.rasse entre as lembranças de seu nascimento.. .Bem.Ele sabe alguma coisa a respeito dos Sete Sóis? Hilvar ainda parecia ter a mente muito longe.Ele me fornece informações desse tipo. . Mas eram pacientes e ele estava satisfeito em poder ajudá-los. Era difícil que ele pudesse ser pouco mais do que espec- tador. no entanto.ele continuou. e sua fisionomia deve ter traduzido o que ele sentia. por alguma razão.. Vanamonde. pois procuravam a mesma coisa e lhe propor- cionavam a primeira companhia que ele jamais tivera. mas parece não compreender o que significam. o que foi que você descobriu? . .E uma criatura de tremendo conhecimento.. . inclusive a nossa - respondeu distraidamente. . com expressão fatigada..Onde estão os que construíram os Sete Sóis? O que lhes aconteceu? Ele não sabia.disse. situada além dos limites de sua com- preensão. pois Hilvar sorriu de repente. . A informação em parte restabeleceu a autoconfiança de Al- vin. Hilvar interrompeu a conversa e voltou-se para o amigo..

Vanamonde é amistoso. E de repente.lo.disse Hilvar. a idéia que durante todo aquele tempo estive- ra pairando sobre a orla da consciência de Alvin definiu-se clara- mente.Sim . Mais do que isso.como parece distante no passado! . E lembrou-se . na verdade parece carinhoso. . .do objetivo zoológico que determinara a expedição a Shalmirane. depois seu rosto ilumi- nou-se. Hilvar fez uma pausa momentânea. para aborrecimento ou alarme dos amigos de Hilvar.perguntou Alvin. pensando em como a observação do ami- go era descabida. Tudo que já aconteceu parece estar amontoado em sua mente. te- nho de levar Vanamonde à Terra. . Ele se lembrou de Krif e de todos os animais que estavam continuamente fugindo. Hilvar encontrara um novo animal de estimação.Seria seguro? . .Só há uma coisa a fazer. 210 . para que nossos filósofos possam estudá-lo. de uma maneira ou de outra.

Jeserac fora convocado para preencher um dos lugares vagos no Conselho. ouvindo o Conselho determinar que Diaspar seria fechada novamente ao mundo. Os seis visitantes de Lys estavam sentados diante do Conselho. Ficariam decepcionados. Estava sentado numa das extremidades da mesa em forma de ferradura. na esperança de que. Isso. O próprio Conselho já estava modificado. que. Muitos milhares deles já haviam fugido para o breve oblívio dos bancos de memória.não só o mundo. segundo Jeserac acreditava. Alvin estivera certo e o Conselho estava lenta- mente tomando consciência da verdade desagradável. e seguiram o mesmo caminho escolhido por Khedron. Era irônico lembrar que há pouco tempo Alvin esti- vera sentado no mesmo lugar. Ficou a imaginar se estariam lendo os pen- 211 . CAPÍTULO XXII Há apenas alguns dias. pois demonstravam também um elevado grau de coordenação. pensava Jeserac . numa mesa que fechava a abertura da ferradura. a crise tivesse passado e Diaspar voltado a ser o que sempre fora. Não só podia estudar os perfis de seus visi- tantes. aquela conferência seria simplesmente inconcebível. devido à sua posição como tutor de Alvin. posição que lhe dava várias vantagens. Sem dúvida. quando despertassem. E não era essa sua única vantagem. Aquela reunião fal- tavam nada menos de cinco de seus membros. Ainda que ele estivesse ali contrafeito. deveria estar relacionado com seus poderes telepáticos. Agora. era prova de que Diaspar fracassara. sua presença era tão claramente es- sencial que ninguém sugerira sua exclusão. A delegação de Lys era capaz de pensar muito mais depressa do que os homens mais inteligentes de Diaspar. como podia também ver os rostos de todos os companheiros de Conselho . mas todo o Universo.e suas expressões eram bastante instrutivas. pensava Jeserac. Tinham sido inca- pazes de enfrentar as responsabilidades e problemas com que ago- ra se confrontavam. vingativo .o fato de tantos de seus cidadãos serem incapazes de encarar o primeiro desafio real em milhões de anos -. o mundo se abatera sobre a cidade.

Poderia o Computador Central con- firmar isso? A voz impessoal respondeu imediatamente.. os visitantes. mas finalmente os havia encarado de frente. acredito. . Quando voltar. e deve também ter havido algum plano definido por trás de sua criação. mas ele se recuperou rapidamente. aliás. e isso há milhões de séculos. Jeserac não acreditava que houvessem feito muitos progres- sos. Não se supunha capaz de jamais pôr os pés fora de Diaspar. não podemos discutir os fatos.que foi por simples casualidade que essa situ- ação nunca surgiu antes. Algo da temeridade . teremos de admitir que os 212 .disse . Suas palavras não haviam agradado a ninguém. Sabemos que anteriormente houve qua- torze Únicos. O Conselho. não constava do plano original. A Terra está inteiramente indefesa. O próprio Jeserac não estava tão aterrorizado como previra. ainda parecia incapaz de compreender o que acontecera. Jeserac fez uma pausa e percorreu as mesas com o olhar. . que a custo havia aceito a existência de Lys.Acho . Mas estava claramente assustado . conquanto duvido de que venham a ter êxito. não imaginava como poderiam fazer. Alvin viajou para o espaço. ainda pressentia seus medos.ou seria coragem? . Alvin tomou a si essa aproximação. era o de assegurar que Lys e Diaspar não permanecessem separados para sempre.O Conselheiro sabe que não posso comentar as instruções que me foram dadas por meus construtores.Contudo. Jeserac aceitou a leve reprimenda.Seja como for. E. não há nada que possamos fazer a respeito. mas também fez uma coisa que. sem a qual aquela reunião teria sido impossível. . embora conse- guissem ocultar bem melhor o susto. sozinhos numa pequena nave. ele julgava. já que ele terá aprendido muitas coisas a essa altura. os senhores poderão impedi-lo de sair novamente.. provocariam sobre nós a ira dos Invasores? Se formos honestos. Esse plano. Por que dois homens. A pergunta do Presidente pegou-o desprevenido. A Ter- ra não corre maior perigo agora do que sempre correu.do próprio Alvin começara a modificar sua perspectiva e abrir-lhe novos horizontes.como também estavam. mas concluiu que não violariam sua promessa solene. . mas agora compreendia o impulso que levara Alvin a assim proceder.. se aquilo que os senhores temem aconteceu.samentos dos Conselheiros. creio.. nem ele esperara que agradassem. não vejo por que devemos ficar alarmados.

. Ficou a 213 . Os Conselheiros esperaram. pois nesse momento os visitantes de Lys subitamente puseram-se de pé. como se pedisse desculpas. ainda que somente através das máquinas de informa- ção. segundo ele entendeu. Não tinha sido visto qualquer sinal dele na viagem. sim . . . enquanto prosseguia a conversa silencio- sa. O próprio Vana- monde não se localizava em parte alguma .Alvin voltou à Terra? . Houve um silêncio desaprovador. Não houve resposta. na verdade. Hilvar acreditava. se Vanamonde estivesse localizado no espaço físico da máquina. o líder da delegação arrancou-se de seu transe e voltou- se para o Presidente. Enquanto fazia sua fiel nave pousar na clareira de Airlee. e seu co- nhecimento era mais direto.talvez nem mesmo em tempo algum. Alvin imaginava se em toda a história humana uma nave já trou- xera à Terra carga semelhante .disse Jeserac. Então. que somente a esfera de atenção de Vanamonde possuía alguma posição no espaço. Isso era heresia .e no pas- sado o próprio Jeserac a teria condenado como tal. com as fisionomias congeladas em expressões de incredulidade e alarme. Um dos Senadores já era conhecido de Alvin. O Presidente interrompeu. franzindo a testa.Uma lenda.isso.quis saber o Presidente. dois ou- tros que haviam participado da reunião por ocasião de sua última visita estavam agora em Diaspar.Não. e essa é uma delas.Invasores poderiam ter destruído nosso mundo há muitas eras. Talvez o Conselho se digne a fazer a pergunta diretamente.Acabamos de receber notícias muito estranhas e inquietan- tes de Lys . .Aceitamos muitas coisas sem contestação. e esperou pela resposta do Presidente.. Uma outra coisa. com sua própria apreensão cres- cendo minuto a minuto.disse. Contudo. Acho difícil acreditar que qualquer coisa dessa magnitude não ficasse registrada nas memórias do Computador Central. Alvin não. . e no entanto ele não tem nenhum conhecimento desse pacto. Pareciam estar ouvindo al- guma voz distante que despejava sua mensagem em seus ouvidos. não há disso prova alguma.. Já lhe perguntei. Seranis e cinco Senadores estavam à sua espera quando saí- ram da nave. Jeserac não via qualquer razão para se arriscar a uma segun- da admoestação por avançar em território proibido.Não conta uma lenda que os Invasores pouparam a Terra em troco de promessa que o Homem nunca mais voltaria ao espa- ço? E não violamos agora essas condições? .

um pouco atemorizado. Ele pode ter usado essa capacidade para seguir seu caminho à Terra. De alguma forma ele conseguiu re- constituir a trajetória de sua nave.Queremos crer. . de modo que é capaz de ve- locidades infinitas. E percebeu como tivera sorte em algum dia ter podido ludibriar Sera- nis. e que levanta interessantes problemas filosóficos. e de repente ele formou uma imagem incongruente de Vanamonde. uma fa- çanha extraordinária em si mesma. Isso foi simples.aqui ela sorriu de maneira estranha -. ainda que seus processos mentais sejam mui- to mais rápidos e ele aprenda rapidamente.disse Seranis.Sim. . . Alvin . no caminho de ida. Nas últimas horas. Mas é infantil. .. e estou usando esse termo em sua acepção mais literal. secamente. . ele nos ensinou mais história do que julgávamos poder existir. que você é um verdadeiro gênio para des- cobrir entidades extraordinárias. Haviam reagido com surpreendente rapidez. Além disso. .Sim. isso não era coisa que ele pudesse fazer duas vezes na vida. depois de haver saudado o filho -. Ainda assim. 214 . de uma forma difícil de descrever. Ele é pura mentalidade. E isso não é tudo. Alvin ficou em silêncio. Sua inteli- gência real é menor que a de um ser humano . dispõe de certos poderes que não compreendemos. e como a cidade havia reagi- do à presença dos primeiros intrusos em tantos milhões de anos. há várias horas. é imaturo e subdesenvolvido.perguntou Alvin.Claro! .Quero dizer que. .Eu devia ter adivinhado! Alvin fez uma expressão de pasmo. e seu conhecimento parece ilimitado. Dessa vez foi Alvin quem se surpreendeu..imaginar como a delegação se sentiria. acho que vai passar muito tempo antes que você consiga superar sua façanha de ago- ra. ainda que não saibamos qual sua ori- gem. Há alguns indícios de que ele chegou a Lys no momento em que você o descobriu. e Seranis sentiu pena dele.Descobriram o que ele é? .exclamou Hilvar. embora Vanamonde possua uma mente colossal. Alvin olhou Seranis. não era difícil imaginar qual teria sido o impacto de Vanamonde sobre aquela gente.Quer dizer que Vanamonde já chegou? . talvez um tanto assustado. Todo o passado parece aberto à sua mente. cercado pelos ávidos intelectos de Lys. Depois entendeu. com suas percepções agudas e suas mentes maravilhosa- mente entrelaçadas. talvez infinita. atônito. Compreen- deu a correção da decisão de Hilvar de trazer Vanamonde a Lys.

no entanto. .até medo .O que está acontecendo a Vanamonde agora? . depois percebeu que provavelmente todas as almas de Lys estavam acompanhando o progresso da grande pesquisa. Havia ali uma coisa que jamais poderia partilhar inteira- mente. e agora sentia pasmo . Para sua própria paz de espírito. e não resta dúvida de que sua origem está relacionada a todos os grandes mistérios do passado. as respostas lhe seriam comunicadas. Sua idade cronológica é enorme. nem compreender: o contato direto. O notável é que ele insiste em que fomos nós que o criamos. Havia uma ironia nisso. cuja vinda para a Terra fora provocada por ele. ainda que aparentemente menor que a do homem. a esse orgulho misturava-se certa frus- tração. mesmo entre mentes humanas. .perguntou . mas a tarefa leva- rá anos. . quando a investigação estivesse concluída. ali buscando refúgio.Os historiadores de Grevarn o estão interrogando. É dificílimo trabalhar com ele. enquanto ponderava seus sonhos e sua ambição. os habitantes de Lys estavam agora trocando pensamentos com aquele ser ini- maginavelmente alienígena. era para ele mistério tão grande quanto a música devia ser para o surdo.por tudo quan- to fizera. ou a cor para o cego. mas não compreende o que vê.perguntou Hilvar. Vanamonde é capaz de descrever o passado com porme- nores exatos. Não havia lugar para ele ali. num tom ligeiramente possessivo.Você quer dizer . Tentam mapear os principais delineamentos do passado.Pelos padrões dele. Sentiu orgulho ao perceber que agora havia deixado em Lys marca tão forte quanto em Diaspar.que Vanamonde acabou de nascer? . Alvin ficou a imaginar como Seranis saberia de tudo isso. No entanto. aquele que acicatara a cidade a se aventurar por entre as estrelas voltava para casa como uma criança assustada volta correndo para a mãe. com nenhum de seus sentidos. 215 . mas a quem nunca poderia atingir. sim. Ele abrira as por- tas do infinito. devia voltar ao mundo minúsculo e familiar de Diaspar.

216 .

Atravessara metade da Galáxia para aprender essa verda- de simples. mas ainda assim voltaria sempre. O firmamento de Diaspar. lembranças de tudo quanto o Homem havia per- dido. Não se permitia nunca que a noite. Os pretensos refugiados tinham de retornar pesarosamente à cidade. atravessando quaisquer escudos que fechassem seu céu do mundo exterior. nem ele explicava a razão de seus atos. Alvin pousara na periferia do Parque. protegida também das tempes- tades que por vezes se abatiam sobre o deserto e enchia o céu de nuvens de areia. com seu manto de estrelas. como tudo mais na cidade. e Alvin ficou a imaginar como seus conterrâneos o receberiam. mesmo antes de abrir a câmara de descompressão. como uma gigantesca colméia que tivesse sido violentamente remexida. A chama dissolvente. aquele era o lugar onde havia nascido e a que pertencia. já não despertavam. vistas na tela. A emoção do- 217 . obrigados a enfrentar os problemas de seu tempo. com as mentes lavadas. sem calor. Até aquele último momento. cem mil anos abaixo no rio do tempo. pelo menos em parte. Ainda relutava em enfrentar a realidade. nas proximidades do Palácio do Conselho. recu- sava-se a saudá-los. aqueles que procuravam apegar-se a seus sonhos e buscar refúgio no futuro entravam agora em vão na Casa da Criação. Os bancos de memória haviam deixado de aceitá-los. A cidade ainda estava agitada. Os apelos ao Computador Central de nada valiam. Multidões já se haviam reunido mesmo antes da nave aterris- sar. Por mais que o Universo e seus mis- térios o atraíssem. era artificial. CAPÍTULO XXIII Diaspar não demonstrou nenhuma surpresa ao rever Alvin. não tinha cer- teza de que poderia levar a nave a entrar na cidade. Podia ler facilmente as expressões em seus rostos. mas aqueles que se recusavam a admitir a existência de Lys e do mundo exterior já não tinham onde ocultar-se. Os guardiões invisíveis deixaram Alvin passar e ele viu a ci- dade estendida a seus pés. A cidade nunca o satisfaria. se intrometesse na cidade.

e eu tive um vislumbre da dele. Ouviram com profunda atenção sua descrição do vôo aos Sete Sóis e do encontro com Vanamonde. Os conservadores. Hilvar. Mas uma coisa é certa: ele é cordial e ficou feliz por encontrar-nos. Aquela foi a primeira vez que Alvin o viu furioso. por outro lado. mas isso não significa que um dia não possa voltar a ser perigoso. também nova em Diaspar.Tenho uma sugestão . ainda que nunca mencionassem esse nome e se mostrassem claramente desgostosos quando abordou o assunto diretamente. que parece ser pelo menos tão velho quanto Diaspar.minante parecia ser a curiosidade . . que estava presente apenas como espectador. que estavam em minoria. aliás. de um modo que ultrapassa nosso conhecimento presente.disse um dos Conselheiros de repen- te. Evidentemente. nenhuma outra pessoa poderia fornecer os fatos sobre os quais a futura política deveria basear-se. como se uma nuvem tivesse sido tira- da do espírito dos presentes. Embora fosse ele o causa- dor da atual crise. era o medo dos Inva- sores. Alvin logo descobriu. não es- perou permissão para falar. já haví- amos adivinhado isso antes de Vanamonde confirmá-lo. nada sabe a respeito deles.coisa.Se os Invasores ainda se encontrassem neste Universo - disse Alvin ao Conselho -. de censurar Hilvar por essa interrupção. Tornou-se claro para Alvin. ain- da que até agora não tenha descoberto o que ele é. respondeu várias perguntas. enquanto escutava o debate. ainda nutriam esperanças 218 . parecia satisfeito em revê-lo. certamente os teria encontrado em seu centro. Ninguém. recebeu-o decididamente com agrado.Vanamonde contemplou a minha mente . Decerto Vanamonde. que três escolas de pensamento faziam-se representar no Conselho. Ele se esque- ceu de sua origem. De mistura com a curiosidade. . Mas não existe vida inteligente entre os Sete Sóis. O Conselho. . pensou Alvin com certa mágoa. Meu povo já aprendeu muito sobre ele. ao passo que aqui e ali viam-se sinais inconfundíveis de medo. Creio que os Invasores partiram há eras. embora não por pura amizade. o Presidente não fez nenhuma tentativa. e Hilvar ficou um tanto embaraçado. Houve um breve silêncio após essa explosão. Depois. como devia fazer. . Era visível que a tensão na Câmara do Con- selho diminuiu a partir daí. Nada temos a temer dele.Vanamonde pode ser um descendente dos Invasores.disse . com uma paciência que provavelmente surpreendeu seus interrogadores. O que predominava neles. havia apreensão.

Jeserac foi ter com Alvin e Hilvar quando a sessão termi- nou.Claro..ele disse. o fato de existirem. era um dos capazes de aceitar o desafio que Alvin lançara sobre Diaspar. A mudança não era aquela que Alvin esperara. Ele não faz parte da delegação? .. .Sim. Aproveitando sua estada aqui. Já nos conhecemos bastante bem. e conhece melhor a mente humana do que eu teria julgado possí- vel. Apesar de sua idade. contudo. quando houver descoberto como foi imposta. Os Con- selheiros compreendiam que não podiam traçar planos gerais. Uns vinte de nós já estão cooperando com ele. agradava e surpreendia Alvin. não? Alvin ficou perplexo por um momento. foi um dos primeiros homens que conheci em Lys.. enquanto esperava ver o que aconteceria no futuro.Você conhece o Senador Gerane. até a tempestade haver passado. A maioria dos Conselheiros. Jeserac parecia mais jovem. como se o fogo da vida houvesse encontrado combustível novo e estivesse ardendo com mais força em suas veias. É homem brilhante.e se despedido .Tenho novidades para você. Alguns deles chegaram a sugerir que talvez houvesse meio de romper as barreiras psicológicas que por tanto tempo ha- viam confinado Diaspar com eficiência ainda maior que as barrei- ras físicas. refletindo com exatidão o estado de espírito da cidade. ainda que fosse uma mudança que ele viria a encontrar com freqüência cada vez maior nos dias vindouros. . Os progressistas formavam igualmente uma pequena mino- ria. Parecia haver mudado desde a última vez em que se haviam encontrado . Alvin . havia adotado uma atitude de cautela vigi- lante. Não estavam exatamente satisfeitos com essa invasão por parte do mundo exterior. . nem tentar pôr em prática qualquer política definida. deu início a um projeto que você apreciará bastante. com o deserto estendendo-se à sua frente.na Torre de Loranne. mas mostravam-se resolvidos a aproveitá-la ao máximo. 219 .de que o relógio pudesse andar para trás e que a velha ordem fosse de alguma maneira restaurada. Espera conseguir analisar a compul- são que nos mantém na cidade. apegavam-se à esperança de que Diaspar e Lys pudessem ser persuadidas a se esquecerem uma da outra. ainda que me diga que para os padrões de Lys é apenas um incidente. Contra toda razão. e acredita que. será capaz de eliminá-la. mas depois se lem- brou..

como seria de esperar.A que espécie de Sagas o Senador Gerane os conduz? .Você quer realmente poder sair de Diaspar? . sem hesitação.A maioria delas está relacionada. nem subestimava as forças ca- pazes de compelir um homem a agir contrariamente à lógica.Mundos oníricos imaginários . ainda que algumas provavelmente sejam baseadas em fatos históricos. Não podia deixar de comparar a calma coragem de Jeserac com a fuga espavorida de Khedron para o futuro . Fez com que fosse construída toda uma série delas. Mas compreendo que estávamos comple- tamente enganados em pensar que Diaspar representava todo o mundo que era importante. Gerane acredita que. Gerane acha que poderá fazer com que alguns de nós o acompanhe a Lys. com sair de Diaspar. quanto mais próximo conseguir chegar à origem des- sa compulsão. Alvin sentiu-se animado com as notícias.. com sua nova 220 . enquanto os impulsos estiverem sendo ali- mentados em sua mente. e ela lhe parecerá profundamente real. mais fácil será para ele destruí-la. . . bem perto da época da fundação da cidade. Já não desdenhava o poder da sugestão. e decerto não é agradável. mostrando na fisionomia a ex- pressão mais parecida com modéstia que Alvin já vira ou jamais veria.Como é que Gerane trabalha? . ..Não . . Emocionalmente.Alvin voltou-se para Jeserac.E você é um deles? . . e estuda nossas reações enquan- to as estamos vivendo.. Nunca imaginei que. . na maioria elas são imaginárias.perguntou Hilvar. .Não é fácil. . Seu trabalho ficaria pela metade se houvesse aberto as portas de Diaspar e verificasse que ninguém se dispunha a transpô-las. talvez venha a sentir isso para sempre. .respondeu Jeserac.quis saber Hilvar.. astutamente.ainda que. ainda sou inteira- mente incapaz de deixar a cidade. Algumas nos conduziram às nossas vidas mais antigas. e a lógica me diz que alguma coisa deve ser feita para corrigir o erro. – Fico aterroriza- do só em pensar nisso.O que são as Sagas? .explicou Alvin. Há milhões delas gravadas nas células de memória da cidade. ainda que em parte eu espere que ela fracasse. eu voltaria às recreações de minha infância! . mas é estimulante. em minha idade. você pode escolher entre qualquer espécie de aventura ou experiência que desejar. e quero ajudá-lo na experiência.Ele está operando através das Sagas.Pelo menos.respondeu Jeserac. Alvin olhou para seu velho tutor com novo respeito.Sou .

mas em Diaspar ele conheceu a solidão. Isso.quan- do as barreiras estivessem inteiramente destruídas. porém. A cidade lhe era mais estranha do que Lys fora para Alvin. Os visitantes de Lys tinham-se recusado. ainda que percebesse tratar-se de uma sensação irracional. Tratava-se de uma tarefa hercúlea. por mais que desejasse começar tudo de novo. Hilvar foi a única exceção. tinha certeza. os melhores elementos de ambas as culturas deveriam ser salvos e fundidos numa cultura nova e mais saudável. Gerane. A amizade que sentia por ele brotava. seria apenas questão de tempo antes que os restantes os seguissem. obstinado e egocêntrico. Hilvar jamais se sentira solitário em toda sua vida. embora não lhe agradasse morar numa casa com paredes indeter- minadas e mobiliário efêmero. que demandaria toda a sabedoria e toda a paciência que cada pessoa pudesse pôr a serviço da empresa. Isso teria surpreendido aqueles que viam em Alvin um moço resoluto. Algumas dessas dificuldades já surgiam. poderia realizar aquilo a que se pro- punha. Ele co- nhecia. Somente sua lealdade para com Alvin o mantinha ali. E assim que alguns houvessem fugi- do ao padrão de um bilhão de anos. Alvin imaginava o que aconteceria a Diaspar . ainda que superficialmente. e. e ele se sentia oprimido e esmagado por sua infinita complexidade e pelas miríades de estranhos que pareciam congestionar cada palmo de espaço a seu redor. da mes- ma fonte que inspirava sua atração por todas as criaturas peque- nas e inermes. consolado pela promessa de que não ficariam muito tempo ali. quer já houvesse conversado com eles quer não. De alguma forma. a habitar as casas que lhes ha- viam sido destinadas na cidade. sabia bem. Jeserac podia ser idoso demais para romper hábitos de toda uma vida. Haviam-se instalado no Parque. pois outros teriam êxito. já não se dispusesse a conde- nar o Bufão pelo que havia feito. polidamente. com a orientação arguta dos psicólogos de Lys. valentemente aceitou a hospitalida- de de Alvin.compreensão da natureza humana. num ambiente que lhes lembrava Lys. num mundo que nada mostrava de comum com o seu próprio. poderia vir a conhecer todos os que viviam em Diaspar. porém. não importava. Muitas vezes já tentara analisar seus sentimentos em relação a Alvin. dispensando afeto de quem quer que fosse e rejeitando-o sempre. todos os habitantes de Lys. mesmo quando ofere- cido desprendidamente. Nem em mil vidas. 221 .e a Lys . sentia- se vagamente deprimido.

contudo. ins- tintivamente. pelos homens geniais que tinham planejado Diaspar com tanta habilidade dis- torcida — ou pelos homens de gênio ainda maior que lhes haviam feito objeção. Isso não alterava sua necessidade de compreensão e afeto. Hilvar. O que Alvin estava procurando.pa- lavras que em Lys ainda conservavam seu antigo sentido biológico. pois não possuía crianças.não poderiam entender a cálida sensação de comunidade. os guardiões de Alvin. apesar de toda a atividade que se desenrolava a seu redor. Para sua própria gen- te. sendo suas ações predeterminadas por sua heran- ça. e eles se lhe apegavam mesmo enquanto cumpriam as intermináveis atividades sociais de Diaspar. os habitantes da cidade mantinham uma reserva difícil de penetrar. Eriston e Etania. Era impe- lido por forças que haviam sido acionadas há eras. Com efeito. Não percebiam o que não tinham . e mais raramente ainda a descoberta lhes proporciona mais alegria do que a procura. que Alvin era um explorador. Encontrara-as sem che- gar a conhecer praticamente ninguém. embora soubesse que não tinham necessidade alguma de sua compaixão. foram desde logo vis- tos por Hilvar como nulidades corteses. Hilvar o ignorava. Como todo ser humano. e todos os exploradores estão à procura de alguma coisa que perderam. embora fossem bastante polidos para ocultá-lo. A única privacidade que conheciam era a da mente. conhecia melhor a verdade. inteiramente vazias. para vê-lo como outro ser humano. Por estarem tão juntos. a sensação de participação que a todos congregava na sociedade telepática de Lys. nem o tornava infenso à solidão ou à frustração. Era necessário um contínuo esforço de imaginação para lembrar que as leis da vida e da morte tinham sido recusadas pelos cons- trutores de Diaspar. Hilvar já encontrara mais pessoas do que em toda sua vida. agora que seu longo isolamento chegara ao fim. Percebera. a cidade pare- cia vazia. desde o começo. acreditando estar diante de alguém que levava uma vida incrivelmente tediosa e vazia. A melhor coisa que a cidade po- 222 . Hilvar pensava no que aconteceria a Diaspar. Raramente a encontram. Acha- va muito estranho ouvir Alvin referir-se a eles como pai e mãe . era uma criatura tão inexplicável que às vezes se esqueciam de que ele ainda partilhava as mesmas emoções deles. Era preciso um estranho. era óbvio que a maioria das pessoas com quem ele falava olhava-o com compaixão. Alguns dias após ter chegado a Diaspar. e por momentos parecia a Hilvar que. Alvin era em certa medida uma máquina. Hilvar sentia pena deles. de um meio inteiramente diverso.

seria destruir os bancos de memória. Mas já estava começando. Hilvar sabia um pouco do que es- tava surgindo da exploração da mente de Vanamonde. ao passo que outros. uma cultura que tivera medo de muitas coisas.deria fazer. Isso também abalaria Lys. Alguns desses temores se haviam baseado na realidade. Apesar de toda a diferença entre as duas culturas. O que fora feito podia ser desfeito. dentro de mil anos a cidade estaria morta.talvez muitos séculos. Tratava-se de um dilema que tinha de ser encarado de frente. com calma e determinação. concluiu. entretanto. pois as pessoas haviam perdido a capacidade de se reproduzir. Diaspar também saberia . fundamen- tavam-se apenas na imaginação. para o pas- sado que haviam perdido. que a haviam mantido em transe por tanto tempo. 223 . eram criações de uma cultura doente. se Diaspar assim desejasse.e descobriria que grande parte de seu passado não passara de um mito. se os bancos de memória fossem destruídos. Primeiro. Daí a alguns dias. haviam nascido das mesmas raízes . a cidade teria de aprender o que perde- ra. era-se levado a crer. Ambas seriam mais saudáveis quando voltassem a olhar. Por mais miraculosos que fossem . Sempre havia uma resposta para qualquer pro- blema técnico. Sua educação levaria muitos anos . e sua gente era senhora das ciências biológicas. o impacto da primeira lição abalaria Diaspar tão profundamente como o próprio contato com Lys. mas Hilvar já percebera uma solução possível.e haviam compartilhado as mesmas ilusões.talvez o supremo triunfo da ciência que os produzira -. muito em breve. No entanto.

224 .

e que toda aque- la multidão que parecia cercá-lo estava também em seus próprios quartos. A arena encheu-se de uma névoa que se transformou em Callitrax. estava ocorrendo o equivalente àquela reunião. ouviria e veria tudo que acon- tecesse tão bem como qualquer outra pessoa de Diaspar. até os limites da visão a olho nu. Alvin lembrou-se irresistivelmente de Shalmirane. Alvin reconheceu a maioria dos rostos a seu redor. não. Desde que não tentasse sair daquele ponto. mas Alvin sabia que. Podia acreditar que Diaspar fora abolida e que todos seus cidadãos haviam sido reunidos ali. Alvin sabia que na realidade ainda se encontrava em seu quarto. As duas crateras tinham a mesma forma. o líder do grupo cuja tarefa tinha sido reconstruir o pas- 225 . aquele anfiteatro. e quase o mesmo tamanho. Nem uma só vez em mil anos a vida da cidade parara assim. bem no alto. havia uma diferença fundamental entre as duas. Contemplando a grande curva. era apenas um fantasma. tão imaginaria quando aquela. para que toda sua população pudesse reunir-se em Assembléia Ge- ral. Nunca existira. naquela enorme cavidade. Não obstante. a visão seria bastante semelhante à que se descorti- nava agora diante de si. estava a pequena arena sobre a qual se concentrava agora a atenção de todos. Alvin sabia. Era difícil acreditar que ele pudesse enxergar alguma coisa a tal distância. Também em Lys. quando o discurso começasse. e a trezentos metros abaixo. a ilusão era perfeita. a grande depressão de Shalmirane existia. A quase dois quilômetros de distância. No caso de se encher a cratera de Shalmirane com pessoas. e praticamente nenhum de seus dez milhões de lugares se achava desocupado. de seu ponto de observação. mas igualmente real em aparência. CAPÍTULO XXIV O anfiteatro fora projetado para conter toda a população de Diaspar. mas talvez asso- ciado a ele haveria uma reunião de corpos. um padrão de car- gas elétricas que dormitava na memória do Computador Central até que houvesse necessidade de convocá-lo. Haveria um encontro de mentes.

os pensamentos de Vanamonde eram tão desprovidos de sentido como mil vozes que gritassem em uníssono numa vasta caverna cheia de ecos. dominando sistema após sistema. Mesmo no começo. Apenas uma vez. Para Alvin.ou que os havia descoberto. da mesma forma que a geometria de um sonho desafia a lógica. O paradoxo não o preocupou. Sucintamente. Então. Para Alvin. ao homem restou apenas suas memórias e o mundo em que havia nascido. A retirada para o sistema solar fora amarga e devia ter dura- do várias eras. e não apenas por causa dos intervalos de tempo envolvidos. Já corria o boato . Falou dos povos desconhecidos da Civilização do Alvorecer. gravá-los para se- rem analisados com vagar. Quando tudo termi- nou. Durante milhões de anos ampliara seu raio de ação pela Galáxia. Callitrax repassou a história aceita da raça. quase impossível. como para todos em Diaspar. com a ajuda mental de Hilvar. Como su- prema ironia. embora não desperte surpresa na mente de quem sonha.sado com base nas informações trazidas à Terra por Vanamonde. os ho- mens de Lys eram capazes de desemaranhá-los. fora dado a Alvin um vis- lumbre da mente do estranho ser que haviam descoberto . Fora então que.ainda que Hilvar nem os negasse nem os confirmasse .oásis de vida num deserto que os cercava tão efetivamente como abismos entre as estrelas. A própria Terra fora salva por um triz pelas batalhas fabulosas travadas em torno de Shalmirane. No entanto. o resto fora uma longa decadência. a voz clara e precisa parecia provir de um ponto a poucos centímetros dele. vindos do negrume que ficava além dos limites do Universo. a raça que esperara governar o Universo tinha aban- donado a maior parte de seu minúsculo mundo. e ele simplesmente o aceitou sem contestação. como aceitava todos os outros triunfos sobre o tempo e o espaço que a ciência lhe dera. arrancando do Homem tudo quanto ele alcançara. dividindo-se nas duas culturas isoladas de Diaspar e Lys . o Homem ansiara pelas estrelas . 226 . Esse empreendimento havia sido portentoso. Alvin estava de pé ao lado de Callitrax. de um modo difícil de definir. ainda que ao mesmo tempo mantivesse seu lugar no anfiteatro.que o que haviam descoberto era tão estranho que não tinha nenhuma semelhança com a história que toda a raça humana havia aceito durante um bilhão de anos.e as ha- via finalmente atingido. Callitrax começou a falar. que nada haviam deixado atrás de si senão um punhado de grandes nomes e as lendas esmaecidas do Império. Desde então. os Invasores haviam atacado. se- gundo rezava a história.

Mais triste e infinitamente mais sábio. o Homem retornara ao sistema solar. não ocultava outros que lhe fossem superiores. No passado. Agora. A grande experiência consumira as energias da raça duran- te milhões de anos. Devo-lhes dizer agora que são falsas. Acreditava também que. Para Alvin. falando lenta e cuidadosamente. primeiramente nas naves de outras raças e depois em máquinas construídas com téc- nicas que com elas aprendera. Aceitou o desafio e lentamente elaborou um plano que trazia esperanças para o futuro. entre as estrelas. já que o espaço interestelar mostrara ser uma barreira além de sua capacidade. Então. Toda sua civilização es- tava reunida em torno do Sol. a fim de meditar a respeito do conhecimento que conquis- tara. tão falsas que ainda agora não as conciliamos inteiramente com a verdade. O choque foi tremendo. todo aquele sacrifício e 227 . sabia que ambas as crenças estavam erradas. com olhos que haviam testemunhado coisas que ainda agora não podiam ser inteiramente aceitas como verdade. como para os demais no imenso anfiteatro. e que lá fora.. ele se lançaria aos limites de sua evolução. Por muitos séculos. A totalidade de seu pequeno império era limitada pelas órbitas de Plutão e Perséfone.Tanto basta .. porém. o Homem jamais duvidara de que um dia viesse a conquistar as profundezas do espaço. as ciências físicas haviam representado o maior interesse do Homem. o Homem explorou a Galáxia. Esperou para que o sentido de suas palavras causasse pleno efeito. Não era sequer verdade que o Homem houvesse alcançado as estrelas.para as narrativas em que te- mos acreditado desde que começaram nossos registros. Agora..disse Callitrax . Por toda parte encontrava culturas que podia compreender. Todo aquele esforço. mas que não conseguia igualar. A qualquer custo.. falsas em todos os seus detalhes. mas provou a tempera da raça. O impacto deve ter sido deletério. se o Universo encerrava seres iguais a ele. e ainda era muito jovem quando as estrelas o alcançaram. . parecia que o historiador estava olhando dire- tamente para ele. A despeito de seus fracas- sos. habitavam espíritos mui- to maiores do que o seu. encontrava também mentes que em breve teriam passado para um ponto além de sua compreensão. voltava-se com disposição ainda maior para a genética e para o estudo da mente. transmitiu a Lys e a Diaspar o conhecimento que fora extraído da mente de Vanamon- de. Callitrax fez uma pausa.

. se encontrara uma inteligên- cia desencarnada. “Nunca.labuta tornaram-se apenas um punhado de palavras na narrativa de Callitrax. E desempenharia todo seu papel na história do Universo. se é que isso era possível. Encontra- ria em pé de igualdade as raças dos mundos dos quais fora afu- gentado no passado. Ele banira a doença. no universo natural. Havia sido um Império de muitas raças. vinham as lendas do Império. Essa era uma concepção comum entre muitas das antigas religiões da Terra e parece estranho que uma idéia que não tinha qualquer origem racional terminasse por tornar-se uma das maiores metas da ci- ência. as técnicas e os conhe- cimentos que tornaram isso possível. todos os segredos do tempo e do espaço. podia viver para sempre se desejasse. os grandes espaços da Galáxia. talvez até guerras. Como nossas mentes são o subproduto de uma 228 .uma mentalidade pura. talvez a mais grandiosa de toda a história.continuou Callitrax . para não dizermos na tragédia. Estava preparado para demandar novamente. Mesmo quando atingiram seu auge cultural. A empresa dera ao Homem suas maiores vitórias. Os cientistas do Império ha- viam dominado todas as forças da natureza. Estamos lidando antes com conjecturas do que com fatos comprovados. Tudo isso fez o Homem. a derro- cada e a glória suprema do Império. . O Império durara no mínimo um milhão de anos. Já esquecemos. que marcara seu fim. nada perderam de iniciativa. mas parece que as experiências que foram. Teria certa- mente conhecido crises.Podemos orgulhar-nos . na verdade. mas isso fora esquecido no drama. Dessa época. e ao domi- nar a telepatia subjugara o mais sutil de todos os poderes à sua vontade. ao mesmo tempo. foram inspiradas e dirigidas pelo Homem.do papel que nossos ancestrais representaram nessa história. como muitas outras coisas. Ar- gumentava-se que uma verdadeira imagem do Universo só poderia ser obtida. mas tudo isso perdeu- se no avanço de grandes raças que se encaminhavam para a ma- turidade.A filosofia que condicionava essas experiências parece ter sido a seguinte: o contacto com outras espécies mostrara ao Ho- mem até que ponto a cosmovisão de uma raça dependia de seu corpo físico e dos órgãos sensoriais com que estava equipado. por uma mente livre de tais limitações físicas . confiando em seus próprios recursos. mas o Império lançou-se à criação de uma.

tenso com a expectativa de seu sucesso iminente. Durante séculos. pois era imortal.” “O que aconteceu nesse curto período não é difícil de imagi- nar. Civilizações haveriam de nascer e morrer. mas ou era insana ou. era impla- cavelmente hostil à matéria. Sobre a Galáxia pende uma mortalha de medo. Algum dia poderemos vir a conhecer toda a história desse cometimento.” “Em grande parte como resultado da experiência acumula- da em sua própria regeneração. Todas as raças da Galáxia juntaram-se para torná-la realidade. adquiriria potencialidades que nem mesmo seus construtores haviam previsto. Tal cérebro. devido a seu próprio medo. o trabalho imemorial de mundos inteiros se perderia várias vezes. das lembranças desse conflito vêm algumas das lendas dos Invasores. Mas sobre isso voltarei a falar mais tarde. Funcionaria com velocidade muito maior do que qualquer in- teligência orgânica. o Homem sugeriu que a criação de tais seres devia ser tentada. depois de séculos de debate. qualquer que tenha sido. A arma que o Império usou nesse momento extremo. foi aceita. mas a meta jamais era esquecida. No começo podemos ver o Império na pujança de sua glória. o maior esforço de toda a história. como parece mais provável. No fim. um medo que está ligado ao nome ‘A Mente Louca’. com base em outras fontes. se podemos chamá-lo assim. da mesma forma eles se esforçaram por criar um cérebro cujos componentes não eram materiais.” “Mais de um milhão de anos separaria o sonho de sua con- cretização.” “A mente de Vanamonde recusa-se a penetrar nesse período. reunidas pela rede do sistema nervoso. mas sim padrões gravados no próprio espaço. Há uma estreita região do tempo que lhe está bloqueada. e. só sabemos que seu fim foi um desastre que quase destruiu a Galáxia. Era o maior desafio já lançado à inteligência no Universo. A mentalidade pura tinha sido criada. assolou o Universo. acreditamos. e estaria completamente livre da tirania da maté- ria. Foi 229 . Duraria enquanto houvesse um erg de energia no Universo. apenas alguns milhares de anos depois. como que exauridas em seu poder. e limite algum poderia ser previsto para seus poderes. Uma vez criada. mas ape- nas. Hoje. ou ainda maio- res do que estas.disposição de células cerebrais.” “A Mente Louca não podia ser destruída. funcionaria com forças elétricas. até ser controlada por forças que não podemos imaginar quais fos- sem. imensamente complexas. ainda que nem todas elas. esgotou os recursos das estrelas. o Império aparece despedaçado e as próprias estrelas se turvam.

Aquela era a idade. muitas pes- soas que se opunham ao trabalho e previam novos desastres. os recursos do Império ainda eram enormes. mas acreditamos que foram criadas muito poucas. Vanamonde foi a primeira dessas men- tes. Havia agora. Quando o Sol Negro morrer. Não temos como dizer quando isso acontecerá. Com uma coragem da qual só podemos nos admirar. Não fiz nenhuma referência à Terra pro- priamente dita porque sua história representa tão somente um fio 230 . Callitrax recomeçou a falar num tom mais sereno. pois Vanamonde jamais encon- trou qualquer outra de sua espécie. os rostos de seus conterrâneos estavam congelados numa máscara de incredulidade. e ainda hoje ela lá se encontra.” Callitrax calou-se. “A nova raça ali nascida contava com um intelecto potencial que não podia sequer ser medido. enquanto ouvia a narrativa. ainda lutavam por rejeitar seu falso passado. o Homem desempenhou nela papel importan- te. inteiramente esquecido de que os olhos de todo o mundo estavam postos nele.a coragem que era capaz de arrancar a vitória dos dentes do desastre. e seu espírito não se abatera. ela estará livre novamente. mas parece provável que o sabiam inevitável. Mas era inteiramente infantil. não sabemos se isso era esperado por seus criadores. Nessa época houve aventura. .encurralada para a periferia da Galáxia e ali aprisionada segundo meios que não compreendemos. Alvin contemplou a mul- tidão densa em torno dele. e talvez predominante. em que ele gos- taria de ter vivido. deve haver outras espalhadas pela Galáxia. Sua prisão era uma estranha es- trela artificial chamada o Sol Negro. com o conhecimento adquirido tão amargamente.e essa ameaça desconhecida que deveria a partir de então substituir o mito dos Invasores. mais tran- qüilo. mas foram vencidas. face a essa revelação . bem como uma coragem soberba e intrépida . naturalmente. iniciando-se a busca da falha que engendrara a catástrofe. e nada podia ser feito para apressar o processo. e ainda não podiam aceitar a realidade mais estranha que se sobrepusera a ela.Embora a Galáxia tivesse sido arrasada pela Mente Louca. compreendeu Alvin. No longo silêncio. dessa vez foi coroado de êxito. O projeto seguiu avante e. Milhões de anos seriam necessá- rios para que ela alcançasse a maturidade. descrevendo os últimos dias do Império. Na maior parte.” “A criação de mentalidades puras foi a maior realização da civilização galáctica. como se perdido em seus próprios pensa- mentos. a grande experiência foi encerrada. procurando ler os pensamentos dos presentes.

.” “Há aqui um mistério . pendia no nada. mas também as mil outras raças que com ele haviam colaborado para construir o Im- pério.. Dentro de um perí- odo de tempo bastante curto. muito estranha e muito grande. alguma coisa. Estavam reunidos. mas seu chamado deve ter sido de extrema urgência. Deixariam o Universo para Vanamonde. Mas jamais poderiam restaurar o esplendor desaparecido. Os homens do tempo olharam as estrelas que haviam destroçado no perigo de- sesperador e tomaram uma decisão. Uma vez que fora sempre des- pojado de seus espíritos mais aventureiros. E não somente o Homem. Por toda sua extensão se viam os enormes rasgões vazios provocados pela Mente Louca . estava para ser lançado pelo infinito.” “A obra do Império estava agora terminada. na outra extremidade do próprio espaço. Suas naus capitâneas eram sóis. seus barcos menores. e por fim opunha-se aos cientistas que haviam criado Vanamonde. pois Vanamonde não nos pode ajudar. roda em lenta rotação. Os pensamentos de Vanamonde pa- recem estar limitados pelas fronteiras da Galáxia. planetas. O homem estava prestes a deixar seu Universo. mil sóis 231 .. garantido por uma imensa promessa.feridas que nas eras do porvir as estrelas errantes haveriam de preencher. Todo um aglomerado globular. agora vamos todos vol- tar um bilhão de anos no passado.. saltando de estrela em estrela. ali na fímbria da Galáxia. tal como há muito deixara seu mundo. nossos ancestrais e as demais raças que lhes faziam companhia haviam partido para uma jornada que não podemos acompanhar. Num momento do tempo. Eis a imagem que reconstruímos.minúsculo numa enorme tapeçaria.” Como pálido espectro de sua antiga glória. mas através de sua mente já contemplamos os começos dessa grande e misteriosa aventura. que interpunha toda sua espessura entre eles e a meta que não alcançariam antes de passadas eras inteiras.um mistério que talvez nunca solucio- nemos. com todos seus sistemas solares e seus mundos fervilhantes. nosso planeta torna- ra-se inevitavelmente muito conservador. Tudo que sabemos é que o Império estabeleceu contacto com.. Haviam mobilizado uma frota diante da qual a imaginação es- tremecia. Só podemos conjecturar quanto ao que fosse. situada muito além da curva do Cosmos. A longa linha de fogo jorrou no centro mesmo do Universo. a Galáxia. Decerto não representou nenhum papel no ato final..

exceto o mal-estar que lhes ia na alma. ainda que aparentemente absurda. parece ser a mais provável. Quando seus herdeiros. quando descoberta. talvez voltem. um problema em particu- lar nos intrigou em Lys. Há muito tempo.São muitas as lendas como essas.que na realidade duraram milhões de anos . e em torno de sua utiliza- ção teceram-se as lendas que todos nós conhecemos. Mas esse dia certamente se acha muito distante. a Lua finalmente começou a cair. o Homem mergulhou num barbarismo supersticioso. embora algumas talvez ainda sobrevivam. a Lua.. Durante os Séculos de Transição . menos aventurei- ras. mas a resposta. houverem chegado à plena maioridade. nossos ancestrais diretos estavam entre eles.Quando fizemos essa descoberta. a fim de encontrar seu destino alhures. Shalmirane foi construída para esse fim. tornou-se necessário destruí-la. .o conhe- cimento do passado se perdeu ou foi deliberadamente destruído. Durante muito tempo. conquanto a luta desesperada contra a Mente Louca tenha sem dúvida contribuído um pouco para sua criação. A nossa própria mal escapou a esse mesmo destino. e há outros paradoxos em nosso passado que ainda 232 . Shalmirane existiu. Nada prendia nossos ancestrais à Terra. alimentando com sua energia a forma monstruosa que cruzara de roldão o eixo da Galáxia e agora despenhava-se no abismo. Além disso. essas raças entraram em decadência e acham-se agora extintas. . que nos parece tão im- portante. nosso planeta possuía um gigantesco satélite. . no embate da guerra contínua entre as marés e a gravidade. em parte falsas. não é mais do que um epílogo tardio e trivial. . as mentalidades pu- ras. ainda sim. Quan- do..haviam morrido. Parece que muitas das raças mais velhas. e existe até hoje. Na maioria.Assim. ainda que científico. o Império deixou nosso Universo. Nossa própria história. representa uma das maiores armas de destruição jamais construídas.Esta.. durante o qual distorceu a história a fim de afastar da lembrança sua sensação de impotência e fracasso. Callitrax sorriu. é a história da civilização galáctica. mas.. As lendas dos Invasores são inteiramente falsas. recusaram-se a partir. com certa tristeza. A Batalha de Shalmirane jamais aconte- ceu. embora de tal forma complexo que ainda não pudemos conhecer seus deta- lhes.Levamos algum tempo para resolver esse enigma. Essa última conjectura. mostrou-se muito simples. em contornos breves e superficiais. . em parte verdadeiras.

Não me cabe.Na Terra. compete mais ao psicólogo que ao historiador. Esse problema. mas apenas observar e interpretar o passado.não foram solucionados. Mas ambas as culturas. A lição. achavam-se distorcidas pelos temores e mitos que haviam herdado. prever o futuro. apenas Diaspar e Lys sobreviveram ao período de decadência: Diaspar. temos vivido muito tempo sem contacto com a realidade. . 233 . . como historiador. devido a seu isolamento parcial e aos inusitados poderes intelec- tuais de sua população.Não há por que deixarmos que esses temores continuem a perseguir-nos. Não se pode confiar plenamente nem mesmo nos registros do Computador Central. porém. graças à perfeição de suas máquinas. entretanto. e agora chegou o momento de reconstruirmos nossas vidas. que mostram sinais claros de deturpação do passado mais remoto. Lys. mesmo quando conseguiram retornar a seu antigo nível. é bastante clara.

234 .

que lentamente se contorciam e giravam. da cidade onde pas- sara todas as suas vidas. O medo não era bastante forte para paralisar-lhe a vontade. situava-se o túmulo de Yarlan Zey. Estava caminhando para o coração de Diaspar. os edifícios mais baixos. Através das nuvens. CAPÍTULO XXV Jeserac caminhava em silêncio pelas ruas de uma Diaspar que ele nunca vira. apenas um edifício baixo e circular. marcando o azul com suas tênues esteiras. naquela cidade antiga. em sua própria era. em que se entrava por vários portais em arco. levadas pelos ventos que sopravam sobre a face dessa Terra mais jovem. Jeserac contemplou por longo tempo o mis- tério e a maravilha do céu aberto. Tão diferente. Jeserac sabia que toda aquela ex- periência era um sonho. não existia ainda. em direção ao ponto onde. até que acordasse novamente na cidade que conhecia. com todo seu mistério e suas ameaças. que não a teria reconhecido. Em alguma parte de sua mente. Aquela era a Diaspar de antes da mudança. e por um momento o medo roçou sua alma. a Diaspar que estivera aberta ao mundo e ao Universo. mas agora já nada era capaz de surpreendê-lo. um homem esperava por ele. O céu acima da cidade era de um azul-páli- do. iam e vinham as naves que ligavam Diaspar com o mundo. Jeserac deveria ter ficado assombrado. Não havia túmulo algum ali. com efeito. passavam via- jantes mais concretos. e o Parque não existia mais.e que mais além se estendia o Espaço. e um sonho não lhe podia fazer mal. Quilômetros sobre a cidade. De alguma forma parecia certo e natural que ele devesse estar agora face a face com o homem que constru- 235 . salpicado de nuvens esfiapadas. No entanto. As ruas eram mais estreitas. embora não parasse para perguntar como o sabia. consciente de que aquela pacífica cúpula azul sobre sua cabeça não era mais do que o mais fino dos envoltórios . assim como além delas. Sentia-se nu e desprotegido. ou melhor. Junto de um desses portais. sabia tratar-se de Diaspar.

Obedientemente. pois. quando quiser.Agora.íra Diaspar. sabia Jeserac.Não lhe parece estranho . como também a presença de Yarlan Zey parecia ser um talismã contra quaisquer perigos que pudessem confrontá-lo. Perdemos contacto com as estrelas.Não serão vistas por muito tempo ainda. e ele sabia que no passado teria fugido daquilo. e que nem eu nem você estamos realmente aqui. . . em seu próprio tempo. que nada pode fazer-lhe mal.. no espaço. Quaisquer que fossem seus temores. e ninguém lhes fazia com- panhia quando daí a momentos se colocaram. entretanto. e em breve terá fechado todas as portas que levam ao Universo.Nesse caso. e essa é Diaspar. entran- do no edifício.Claro. Quando seu guia apontou a porta aberta. .Mas eu vi naves espaciais sobre Diaspar . . .disse Jeserac. tomado de horror. não precisa ficar alarmado com nada que venha a acontecer. numa jornada que outrora haveria de dilacerar- lhe a mente.Creio que você me reconhece . Ago- ra. sorrindo. Sei que estou sonhando. Sentiu apenas ligeiro estremecimen- to quando a entrada do túnel deslizou silenciosamente em sua di- reção e a máquina em que ele viajava começou a ganhar velocida- de. . Não só se sentia protegido pelo conhecimento de que aquela experiência não era real. Le- 236 . e em breve até os planetas estarão desertos. está assustada com aquilo que jaz lá fora. tenhamos tentado soterrar-nos na Terra? É o começo da doença cujo fim você viu em sua época.Viu? .. .. Jeserac acompanhou Yarlan Zey. Siga-me. já vi sua estátua mil vezes. Jeserac acreditava nele. embora os céus estejam abertos para nós. advertia-o de que alguma coisa iria acontecer em seguida. ou eco de lembrança. haviam sido esquecidos em sua ansiedade de con- versar com aquela figura quase mítica do passado. era capaz de tirá-lo da cidade. poderá despertar em Diaspar. A humanidade está tentando esconder-se. Alguma lembrança. . em silêncio. do lado do cilindro longo e aerodinâmico que. acalme-se e lem- bre-se de que está em segurança. e lembre-se de que nada poderá fazer-lhe mal. incapaz de posicionamento crítico. Seu espírito era uma esponja receptiva.disse Yarlan Zey. ele não fez mais que uma pausa momentânea antes de entrar. Havia poucas pessoas descendo pelas vias deslizantes que conduziam às profundezas do edifício. arrojando-se pelas profundezas da terra. tal como há um bilhão de anos. Você é Yarlan Zey..disse Yarlan Zey.que.começou Yarlan Zey . não sentia medo algum.

Éramos uma raça doente e não queríamos mais ter nada a ver com o Universo.. mas apenas alguns séculos para retornar às bases. a história começou. e desejávamos paz e estabilidade.” 237 . Não podíamos desafiar os desejos de nossa cultura..Precisávamos de um refúgio onde nos abrigássemos de dois medos: o medo da Morte e o medo do Espaço. Ah. de modo que trabalhamos em segredo. fomos convocados dos circuitos de memória e ganhamos carne outra vez. Não havia nin- guém que tivesse qualquer contacto com o passado. mas por algum motivo sentiu-se impelido a formular a pergunta.” “No entanto.Por que fizeram isso? .. “Projetamos a cidade que você conhece e inventamos um fal- so passado para ocultar nossa covardia. percebíamos os riscos envolvidos em não deixar nenhuma válvula de escape e em tentar fechar-nos comple- tamente do Universo. Diaspar começou a desempenhar as tarefas para que fora projetada. Já vimos o caos reinar entre as estrelas... . A eter- nidade era muito longa. de modo que se satisfizesse com o mundo que agora possuía. um a um. não fomos os primei- ros a fazer isso. A medida que cada um completava sua tarefa. eram lavadas as memórias de sua mente.perguntou Jeserac. impondo as modi- ficações que supúnhamos necessárias.. Assim. mas fomos os primeiros a fazê-lo completamente. obedecendo às ordens com que fora alimentado e controlando os bancos de memória em que estávamos dormindo.” “Então. Diaspar tinha de ser fechada. Ele conhecia a resposta. E dentro de pouco tempo teremos abandonado quase toda a própria Terra. numa seqüência predeterminada. Como uma máquina recém-terminada e posta a funcionar pela pri- meira vez. chegou finalmente o dia em que já não restava em Diaspar um único homem vivo. . alguns nutriam dúvidas desde o começo. Só havia o Computador Central. implantando-se um padrão cuidadosamente planejado de falsas recordações. sendo sua iden- tidade armazenada nos circuitos da cidade até que fosse necessário chamá-la de volta à existência. E redesenhamos o espírito humano. retirando-lhe a ambição e as paixões mais violentas.vamos milhões de anos para realizar a jornada para o espaço.” “Foi preciso mil anos para construir a cidade e todas as suas máquinas. e por isso fingimos que ele não existia. Por isso. para que nada de novo jamais pudesse entrar na cidade. nesse ponto.” “Assim.

Jamais imaginamos que seria preciso tanto tempo para que um deles tivesse êxito.. que lhe gerei esse medo. com expressões de ansiedade. Você não tem mais medo. enquanto a visão desapare- cia. parecendo indicar que o sonho estava chegando ao fim.O passado terminou. Yarlan Zey começou a falar com uma rapidez e uma autoridade que não havia demonstrado antes. Hilvar e Gerane de pé a seu lado. A viagem estava chegando ao fim. as paredes do túnel já não ficavam para trás a uma velocidade tão estonteante. Yar- lan Zey desaparecera. porém. Eu. mas não podia reconhecer. se as circunstâncias lhes permitissem. ele ainda escutava aquela voz imperiosa. Abriu os olhos e viu Alvin. nem imaginamos que esse êxito seria tão grande. lhe falaram encorajadoramente e ele se sentiu apoiado em braços amigos. agora o liberto.” Apesar da suspensão das faculdades críticas. com a maneira como Yarlan Zey era capaz de falar com tamanha segurança de coisas acontecidas um bilhão de anos após o tempo em que ele vivera. fugazmen- te. sua mente estava excessivamente ocupada em receber as maravilhas 238 . Apareceriam a longos in- tervalos e. até parecer reverberar através de todo o espaço. como uma rápida aurora.. medo e compulsão que você compartilha com todos em Diaspar.. e isso não está mais em discussão. a voz de Yarlan Zey alteou-se cada vez mais. que ele lhe foi imposto artificialmente. um interregno estranho em que vozes que ele conhecia.. En- tão. O túnel através do qual se precipitavam como que se esfumou e estremeceu ao redor de Jeserac. descobririam se haveria além de Diaspar qualquer coisa que valesse os riscos do contacto. Jeserac. Você sabe agora que o medo era infundado. Jeserac surpreendeu-se. tronitruando em seus ouvidos: . “Os Únicos foram invenção nossa. que constitui a própria essência de um sonho. Yarlan Zey. e ele não sabia mais em que ponto do espaço ou do tempo se encontrava. Jeserac esforçou-se para despertar.Você não tem mais medo. tomou consciência da realidade. bem como aquela compulsão de permanecer dentro dos limites da cidade. Era tudo muito confuso. No entanto. houve. Jeserac. Mas não lhes prestou atenção. foi-lhe inoculado aquele medo do mundo exterior. Compreende? Com essas últimas palavras. . Quando você foi criado. tal como um mergulha- dor sobe das profundezas oceânicas para a superfície do mar. Fizemos nosso trabalho para o bem ou para o mal.

voltou-se para os companheiros.disse.. Ninguém o perturbou naquele momento fora do tempo que se gravava para sempre em seu espírito.. . mas o mundo é grande. de modo que todos quantos queiram possam sair de Diaspar. com um sorriso. mas é possível.Nunca acreditei que você tivesse sucesso. .Isso pode levar muito tempo.. Está de acordo com tudo que sabemos sobre Yarlan Zey e as origens de Diaspar.disse Al- vin.Esse problema se resolverá por si mesmo . .E quanto àquela imagem de Yarlan Zey que você injetou em minha mente.Teríamos de mantê-lo inconsciente e o levaríamos de volta a Diaspar. demonstrando grande satisfação consigo mes- mo. o que você teria feito nesse caso? . Por que havería- mos de deixá-lo todo para o deserto? . onde você poderia ter despertado naturalmente. Por fim. Eu estava muito mais interessado em que minha pequena Saga fosse convincente do que em que tivesse exatidão histórica. e fiquei com medo de ter de quebrar a seqüência.o panorama de rios e florestas e a abóbada azul do céu aberto. .Você nos causou alguns momentos de ansiedade .disse Jeserac. 239 . . .respondeu Alvin.Obrigado. até onde o que ele disse era verdade? . a seu lado.admi- tiu. Gerane . . . mas algum dia poderemos neu- tralizar esse medo. .Com que então. . . . você ainda está sonhando .Eu estava pensando o que você estaria disposto a fazer agora.Por duas ou três vezes começou a fazer perguntas que não podiam ser respondidas logicamente... Alvin. mas Callitrax examinou-a e não achou erro al- gum.. estava fazendo ajustes delicados numa pequena máquina que pairava no ar.Agora.E não se esqueça de que Lys não é suficientemente grande para receber várias centenas de milhões de pessoas a mais.respondeu Gerane secamente. Ele estava em Lys. E não sentia medo. podemos realmente abrir a cidade . . então. creio. Não creio que isso seja provável. quando se con- venceu de que tudo aquilo era realmente real. sem jamais saber que estivera em Lys.Quase tudo. se todo seu povo resolver vir aqui. O psicólogo.Suponhamos que Yarlan Zey não me houvesse convenci- do.que se estendiam agora diante dele .Levará muito tempo .Lys pode ser pequena.

com insistência cada vez maior. Alvin não respondeu. 240 . caminhando atrás dos outros. Aquela era uma questão que se vinha impondo a ele. nas últimas sema- nas. enquanto desciam a colina em direção a Airlee. Ele se havia desin- cumbido de seu destino. Seriam os séculos vindouros um longo período de tédio e ociosidade? A resposta estava em suas próprias mãos. Ficou ensimesmado. Agora. talvez pudesse começar a viver.

Diaspar não tinha agora nenhu- ma necessidade dele. pensava Alvin. 241 . restavam ainda os anelos do coração. embora nunca soubesse qual aldeia seria sua próxima parada.que também ela. quando satisfeitos o poder. Seria isso. de um estilo de vida. Aquela terra pacífica em que ele se encontrava também mu- daria. ainda que suas propostas fossem demasiado técnicas para que Alvin as compreen- desse. Nem mesmo Hilvar o acompanhava. enquanto vagueava sozinho pelas florestas e pelos campos de Lys. no im- placável impulso de satisfazer sua própria curiosidade. Acreditava que Diaspar devia fugir à prisão dos bancos de memória. tal como Diaspar. de uma in- fluência. Não estava à procura de lugar algum em particular. pois há mo- mentos em que um homem tem de ficar distante até mesmo de seus amigos mais íntimos. na percepção de que uma meta há muito buscada foi finalmente atingida e que a vida tem de ser agora encaminhada para outros fins. Alvin conheceu essa tristeza. Talvez voltasse um tempo em que o amor em Diaspar não fosse completamente estéril. mas de um estado de espírito. aquilo de que sempre sentira falta em Diaspar . restaurando outra vez o ciclo da vida e da morte. Às vezes ficava a imaginar que forma assumiria a nova so- ciedade. e ele nada podia fazer para acelerar ou retardar as mudanças que estavam acontecendo. CAPÍTULO XXVI Há uma tristeza especial na realização. Ninguém realmente vivera antes de haver realizado aquela síntese de amor e desejo com que ele jamais sonhara até chegar a Lys. Alvin não errava sem destino. o fermento que introduzira na cidade estava trabalhando rapidamente.aquilo que ele estava realmente procurando? Sabia agora que. fora fundada em parte sobre medos e falsidades. a ambição e a curiosidade. era decerto melhor que Lys conhecesse a verdade . Muitas vezes perguntava-se se cometera um erro. Sabia que Hilvar estava certo de que isso podia ser feito. ao abrir o velho caminho entre as duas culturas. No entanto.

As casas coloridas. compreendia agora. adivinhando. ainda brilhantes. a cidade estava distante demais para ser reconhecida como obra humana. que haviam deixado a beleza da Terra morrer devido à sua própria negligência. Esperava que Alvin estivesse certo em seu sonho de que tudo 242 . calor e conforto . mas sem saberem com certeza. Contudo. Ele estava numa aldeia de pequeninos canais.. Daí a pouco puderam ver a linha do crepúsculo. O vazio oprimia a ambos. Isso não seria preocupação sua. seu futuro estava ali. Ha- via em sua gente um calor e uma compreensão que. poderia um dia encontrar aquilo que desejava. Mas antes de poder repousar. Em Lys. apesar de toda a glória que haviam perdido. à beira de um vasto lago. mas agora sabia que não poderia ter paz enquanto aquela respon- sabilidade lhe pesasse nos ombros. Quando Alvin conteve o ímpeto ascendente da nave. formavam uma cena de beleza quase irreal. Havia ali vida. a milhares de quilômetros de distância. Em suas mãos caíra o poder. que ele soubesse ser carne de sua própria carne.tudo que ele sentira não existir em meio à grandiosidade inóspita dos Sete Sóis. quando tomou a decisão. enquanto contemplavam o panorama deso- lado. isso pouco lhe signifi- cava agora. Ele pisara os planetas dos Sete Sóis . e já se percebia a curva do planeta..o primeiro homem a fazê-lo em um bilhão de anos. E ele ainda possuía esse poder. que pare- ciam flutuar. sobre as ondas suaves. havia ainda uma decisão a ser tomada. faltavam em Diaspar. na Terra. por que Alvin estava fazendo aquele vôo e por que lhes pedira que o acompanhassem. e Jeserac sentiu de repente fúria e desprezo pelos homens do passado. Nenhum deles se sentia disposto a falar. antes de poder encontrar a paz. ancoradas. Qual novo capítulo a humanidade escreveria entre as estrelas. Hilvar e Jeserac mantinham-se em silêncio. abandoná-la seria trair uma confiança. Era uma responsabilidade que ele procurava e aceitara com ardor. realizaria mais um vôo antes de voltar as costas às estrelas. No entanto. Um dia a humanidade estaria novamente pronta para o espa- ço. Acima e em torno deles estendiam-se as estrelas. em sua marcha interminável sobre o deserto. Alvin não sabia. No entanto. às vezes imaginava-se disposto a trocar todos os seus feitos pelo choro de um recém-nascido.

E depois disso..Não estamos prontos para sair rumo às estrelas. se possível. A água ainda estava lá.restava apenas o desejo de voltar atrás nos séculos e fazer os oceanos agitarem-se de novo. em torno de si. Nada quero com o espaço. e não vou abandoná-lo novamente. a fim de descobrir o que aconteceu a nossos ancestrais. duvido que valham o esforço de encontrá-las. . Vou mandá-la sair da Galáxia.isso pudesse ser modificado. Estive imaginando o que deveria fazer com esta nave. mas Diaspar podia arrostá-los.e.Não. A reconstrução do passado duraria séculos.Você vai deixar a Terra? . bem oculta nas profundezas da Terra. decidi o seguinte.disse Alvin calmamente.Talvez nunca tenham outra oportunidade. . Havia muito o que fazer nos anos à frente.. e saberão que es- tamos à espera deles aqui na Terra. sempre estarei tentado a usá-la. ou. Jeserac sabia que se encontrava entre duas épocas. Havia grandes pro- blemas a enfrentar. poder-se-iam construir usinas de transmutação para produzi-la.Eu queria que vocês vissem isso . e muito tempo se passará antes de podermos enfrentar o desafio outra vez.. Mesmo que outras civiliza- ções ainda sobrevivam nesta Galáxia. Entretanto. por mais que dure a viagem. Sei agora que este é meu lar. . Deve ter sido algo de maravilho- so para que abandonassem tantas coisas. e devo usá-la em benefício do mundo. Eles voltarão. Alvin olhou para os grandes desertos. mesmo que se conseguis- se isso. entregue ao comando do robô. Um dia nossos primos receberão minha mensagem. e jamais terei paz de espírito. No entanto. mas o que seus olhos viam eram as águas que estariam rolando sobre eles dentro de mil anos. Se ela per- manecer aqui na Terra. se necessário. mas quando estivesse terminada o Ho- mem teria recuperado quase tudo quanto perdera.” “O robô nunca se cansará. e Jeserac desviou os olhos da tela. poderia reconquistar tudo? Era difícil acreditar que a Galáxia viesse a ser recuperada . e. podia sentir a pulsação da humanidade acelerar-se outra vez. por maiores que se tenham 243 . Sinto que ela me foi confiada. o que pretendiam encontrar quando deixaram nosso Universo. para que serviria? Alvin interrompeu seu devaneio. não posso perdê-la. e espero que já então sejamos merecedores deles. Há muito o que fazer aqui. . Ainda existiam o poder e o conhe- cimento .. “Por isso. O homem redescobrira seu mundo e o tornaria belo enquan- to vivesse ali.

disse Jeserac. Porventura saberia o 244 .Você se esquece . .Aos poucos. pela úl- tima vez. e dentro de milênios retornaria. e era uma coisa que o perseguiria para sempre.Mas suponhamos . sua voz silenciou.” Alvin calou-se.Por algum motivo. Podemos ajudá-lo agora.disse Hilvar. banindo com esse sorriso o último fantasma dos Invasores. . mas preferiu si- lenciar.que em breve teremos Vanamonde para ajudar-nos. en- quanto ela habitasse a Terra.Não sei explicar . ressoou o eco de um medo antigo.Não tenho certeza . atormentando-o. enquanto reconhecia a fonte de sua ansiedade e sorria.acrescentou . o ponto de interrogação que perpetuamente se interporia no caminho da humanidade. fitando um futuro a que ele dera forma.que a nave estabeleça contacto com alguma coisa que não desejamos encontrar.confessou Hilvar. mas mesmo que isso não ocorres- se ele estava satisfeito. levando-o mais a sério do que esperava . Não sabemos quais seus poderes. havia penetrado em sua mente durante aquele contacto indescritível e incompartilhável que tivera com Vanamonde.tornado. . . Não creio que seu destino final tenha qualquer coisa a ver conosco. De alguma forma. Não á isso. Parecia seguro dizer que a evolução de Vanamonde rumo à consciência de si mesmo já fora acelerada por seu contacto com os filósofos de Lys. .Por que pensa assim? . mas seremos apenas um breve incidente em sua vida total.disse Alvin. e ain- da que Alvin não fosse rir de seu sonho Hilvar não se dispunha a discuti-lo. ele tinha certeza disso. aquela nave estaria cruzando a escuridão entre as Galáxias.Acho que você procede bem . Esses assuntos não eram passíveis de comunicação.. Hilvar? Hilvar não respondeu imediatamente..perguntou. . Tinham grandes esperan- ças de cooperação futura com a supermente infantil.Trata-se apenas de uma intuição. . mas que possivelmente nunca veria. Então. nem mesmo com o amigo. Era algo mais que um sonho. . Enquanto o Homem estivesse re- construindo seu mundo. Era verdade que Vana- monde constituía o outro grande enigma. Talvez ele ainda estivesse ali para reencontrá-la. . acreditando poderem reduzir os tempos fantásticos que seu desenvolvimento natural exigiria.Poderia ter acrescentado mais coisas. não acho que devamos esperar demais de Vanamonde. mas todos em Lys parecem crer que são potencialmente ilimitados. . Alvin olhou-o com surpresa.

e o planeta abaixo deles era um hemisfério perfeito.. março de 1955 245 . Mas em outro lugar as estrelas ainda eram jovens e a luz da manhã refulgia. Himalaya Sydney. S. o Homem voltaria um dia a caminhar. O simbolismo era tão perfeito. pelo caminho que já trilhara no passado. tratava-se de um conflito que nada tinha a ver com o Homem. Esse conflito poderia fazer descer o pano sobre a própria Criação. entre os cadáveres das estrelas. Neste universo. as energias do Sol Negro chegariam ao fim e ele li- bertaria seu prisioneiro. e. Jeserac e Hilvar puderam ver. No entanto. . tanto a aurora como o pôr-do-sol dos dois lados do mundo.próprio Vanamonde qual deveria ser seu destino solitário? Algum dia.. prestes a se deter. que eles jamais esqueceriam aquele momento. as sombras se alongavam em di- reção a um oriente que não conheceria outro alvorecer. ao fim do Universo. Vanamonde e a Mente Louca deveriam encontrar-se frente a frente.Era isso que eu queria mostrar a vocês. Londres. Contemplando a faixa de crepúsculo. e cujo resultado ele nunca viria a conhecer. setembro de 1954 S. a noite caía. ao mesmo tempo. por mais que vivessem. e de tal forma notável. E então.Vejam! .bradou Alvin subitamente. quando o pró- prio Tempo estivesse cambaleante. Compreendem o que significa? A nave estava agora sobre o Pólo. .

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