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13/06/2018 Oposição ao paradigma mecanicista - DM.COM.

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Oposição ao paradigma mecanicista


Os sistemas não podem ser entendidos pela análise

Postado por Weimar Muniz de Oliveira (/search/Weimar+Muniz de Oliveira) em 28 de junho de 2017 às 23h52

Levando-se em linha de conta a realidade unitária do Universo, ostentando-


se, embora, em inevitável dualidade, na Natureza, quanto aos seres orgânicos
e inorgânicos, fazia-se então necessária, ao final do século XVIII e início do
século XIX, uma reação ao paradigma mecanicista em voga.

Relativamente ao assunto, veja-se o pensamento de um dos mais eminentes


pensadores, Fritjof Capra, em seu festejado livro “A Teia da Vida”¹, em A As-
censão do Pensamento Sistêmico.

Sob o subtítulo Movimento Romântico, escreve o autor:

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“A primeira forte oposição ao paradigma cartesiano mecanicista veio do movimento ro-


mântico na arte, na literatura e na filosofia, no final do século XVIII e no século XIX.
William Blake (1757 – 1827), o grande poeta e pintor místico que exerceu uma forte in-
fluência sobre o romantismo inglês, era um crítico apaixonado em sua oposição a
Newton. Ele resumiu sua crítica nestas célebres linhas:

“Possa Deus nos proteger da visão única e do sono de Newton.”

Os poetas e filósofos românticos alemães retornaram à tradição aristotélica, concen-


trando-se na natureza da forma orgânica. Goethe, a figura central desse movimento, foi
um dos principais a usar o termo “morfologia” para o estudo da forma biológica a partir
de um ponto de vista dinâmico. Ele admirava a “ordem móvel” (brewegliche Ordnung)
– concepção que está na linha de frente do pensamento sistêmico contemporâneo. “Ca-
da criatura, escreveu Goethe, “é apenas uma gradação padronizada (Schattierung) de
um grande todo harmonioso.” Os artistas românticos estavam preocupados principal-
mente com um entendimento qualitativo de padrões, e, portanto, colocavam grande ên-
fase na explicação das propriedades básicas da vida em termos de formas visualizadas.
Goethe, em particular, sentia que a percepção visual era a porta para o entendimento da
forma orgânica.

O entendimento da forma orgânica também desempenhou um importante papel na filo-


sofia de Immanuel Kant, que é frequentemente considerado o maior dos filósofos mo-
dernos. Idealista, Kant separava o mundo fenomênico de um mundo de “coisas-em-si”.
Ele acreditava que a ciência só podia oferecer explicações mecânicas, mas afirmava que
em áreas onde tais explicações eram inadequadas, o conhecimento científico precisava
ser suplementado considerando-se a natureza como sendo dotada de propósito. A mais
importante dessas áreas, de acordo com Kant, é a compreensão da vida…”

2 – Percebe-se, a partir das preocupações do mundo artístico, particularmente dos


grandes poetas da Humanidade, tais como Goethe² (1749 – 1832) e Schiller³ (1759 –
1805) e outros grandes vates da literatura mundial, que conseguem com poucas pala-
vras a síntese necessária, núcleo do conhecimento em todos os departamentos do saber,
que já soava o momento de uma vigorosa e imprescindível mudança de paradigma.

O propósito de submeter as partes do todo à análise precisava Curta nossa página no


e devia ser revertido, ou seja, analisar o todo em função das Facebook!
partes e não as partes em função do todo.
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Tal é a proposta do pensamento sistêmico, como diz o autor,


em seguida, às páginas 40/41, em Pensamento Sistêmico: Curtir Página Usar aplicativo

“…A emergência do pensamento sistêmico representou uma profunda revolução na his-


tória do pensamento científico ocidental. A crença segundo a qual em todo sistema com-
plexo o comportamento do todo pode ser entendido inteiramente a partir das proprie-
dades de suas partes é fundamental no paradigma cartesiano. Foi este o célebre método
de Descartes do pensamento analítico, que tem sido uma característica essencial do mo-

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derno pensamento científico. Na abordagem analítica, ou reducionista, as próprias par-


tes não podem ser analisadas ulteriormente, a não ser reduzindo-as a partes ainda me-
nores. De fato, a ciência ocidental tem progredido dessa maneira, e em cada passo tem
surgido um nível de constituintes fundamentais que não podia ser analisado posterior-
mente.

O grande impacto que adveio com a ciência do século XX foi a percepção de que os sis-
temas não podem ser entendidos pela análise. As propriedades das partes não são pro-
priedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas apenas a partir da organização do
todo. Em consequência disso, o pensamento sistêmico concentra-se não em blocos de
construção básicos, mas em princípios de organização básicos. O pensamento sistêmico
é “contextual”, o que é o oposto do pensamento analítico. A análise significa isolar algu-
ma coisa, a fim de entendê-la; o pensamento sistêmico significa colocá-la no contexto de
um todo mais amplo”.

3 – Ainda sobre o assunto, de acordo com o qual, em última análise, tudo está conecta-
do, não sendo, pois, de se apoiar, contemporaneamente, o paradigma reducionista, que
considera que a matéria se sobreleva ao psíquico, sendo que, na linguagem moderna da
Filosofia e das ciências naturais, é exatamente o contrário. Veja-se, a seguir, a lição de
Jung 4, (1875 – 1961) citado por Fritjof Capra, em seu opulento livro, “O Ponto de
Mutação – A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente”5, quando se refere à saúde :

“Na concepção sistêmica de saúde, toda enfermidade é, em essência, um fenômenos


mental, e, em muitos casos, o processo de adotar é invertido do modo mais eficaz atra-
vés de uma abordagem que integra terapias físicas e psicológicas. A estrutura conceitual
subjacente a tal abordagem incluirá não só a nova biologia sistêmica, mas também uma
nova psicologia sistêmica, uma ciência da experiência e do comportamento humanos
que percebe o organismo como um sistema dinâmico que envolve padrões fisiológicos e
psicológicos interdependentes e está inserida nos mais amplos sistemas interagentes de
dimensões físicas, sociais e culturais.

Carl Gustav Jung foi talvez o primeiro a estender a psicologia clássica a esses novos do-
mínios. Ao romper com Freud, ele abandonou os modelos newtonianos de psicanálise e
desenvolveu numerosos conceitos que são inteiramente compatíveis com os da física
moderna e da teoria geral dos sistemas. Jung, que estava em contato estreito com mui-
tos dos mais eminentes físicos de seu tempo, estava perfeitamente cônscio dessas seme-
lhanças. Em uma de suas principais obras, Aion, encontramos a seguinte passagem:

“Mais cedo ou mais tarde, a física nuclear e a psicologia do inconsciente se aproximarão


cada vez mais, já que ambas, independentemente uma da outra e a partir de direções
opostas, avançam para território transcendente. (…). A psique não pode ser totalmente
diferente da matéria, pois como poderia de outro modo movimentar a matéria? E a ma-
téria não pode ser alheia à psique, pois de que outro modo poderia a matéria produzir a
psique? Psique e matéria existem no mesmo mundo, e cada uma compartilha de outra,
pois do contrário qualquer ação recíproca seria impossível. Portanto, se a pesquisa pu-

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desse avançar o suficiente, chegaríamos a um acordo final entre os conceitos físicos e


psicológicos. Nossas tentativas atuais podem ser arrojadas, mas acredito que estejam no
rumo certo”.

REFERÊNCIAS:

1 – “A Teia da Vida” – Editora CULTRIX – São Paulo/SP – 10ª reimpressão – 1997 –


cap. 2, p. 35/36;

2 – Johann Wolfgang Goethe e Schiller são os dois maiores poetas da literatura alemã.
Foram contemporâneos, embora Goethe fosse dez anos mais velho do que Schiller. Am-
bos conviveram, entre si, e morreram na Cidade-Estado de Weimar. Goethe escreveu
“Fausto”, poema trágico;

3 – Johann Christoph Friedrich Schiller escreveu, além de “Hino à Alegria”, “Textos so-
bre o Belo, o Sublime e o Trágico”;

4 – Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, foi discípulo mais importante
de Sigmund Freud (l856 – 1930, também psicólogo suíço além de médico. Jung escre-
veu, entre outros, “Memórias, Sonhos, Reflexões”.

5 – “O Ponto de Mutação” – Editora CULTRIX – São Paulo/SP – 26ª reimpressão –


2006, cap. 11, p. 351;

Nota: de meu livro, inédito: “Deduções Filosóficas e Induções Científicas da Existência


de Deus” – 2ª Parte (Contribuição da Filosofia e da Ciência para uma nova Visão de
Mundo e do Universo).

(Weimar Muniz de Oliveira, weimar.adv3@gmail.com


(mailto:mar.adv3@gmail.com))

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