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PROFMAT – P1 – MA 11 – 2011

Questão 1.
Um pequeno barco a vela, com 7 tripulantes, deve atravessar o oceano em 42 dias. Seu suprimento de água potável
permite a cada pessoa dispor de 3,5 litros de água por dia (e é o que os tripulantes fazem). Após 12 dias de viagem,
o barco encontra 3 náufragos numa jangada e os acolhe. Pergunta-se:

(1.0) (a) Quantos litros de água por dia caberão agora a cada pessoa se a viagem prosseguir como antes?

(1.0) (b) Se os 10 ocupantes de agora continuarem consumindo 3,5 litros de água cada um, em quantos dias, no máximo,
será necessário encontrar uma ilha onde haja água?

UMA RESPOSTA

Uma solução concisa é a seguinte:

10 7
(a) O número de pessoas aumentou em 7 . Portanto a água disponı́vel para cada um deve ser 10 do que era antes
49
(3,5 litros), isto é, 20 = 2, 45 litros.

10
(b) As 7 pessoas teriam água pelos 30 dias restantes, mas agora há 7 vezes o número anterior de pessoas. Isso reduz
7
os dias a 10 · 30 = 21.

Outra forma de pensar é a seguinte. Primeiro calcula-se a quantidade Q de água que resta após 12 dias. Como
restam 30 dias de viagem, com 7 pessoas consumindo 3,5 litros por dia, são Q = 30×7×3, 5 litros (como a quantidade
de água é justa para os 42 dias e os primeiros 12 dias transcorreram como previsto, conclui-se que o que resta para
os outros 30 dias também é justo).

(a) Esse total deve ser consumido nos mesmos 30 dias, mas agora por 10 pessoas. Então o consumo diário de cada
7
um é Q dividido por 30 × 10, que dá 10 × 3, 5 = 2, 45 litros.

(b) Se todos consumirem 3,5 litros por dia, a cada dia transcorrido após o décimo segundo dia serão consumidos 35
litros. Portanto, após n dias restarão Q − 35n litros. Queremos saber o maior n tal que Q − 35n ≥ 0, isto é, o maior
Q Q 7
n que seja menor ou igual a 35 . Mas 35 = 30 × 10 = 21, então em 21 dias (exatamente) se esgotará o reservatório
de água.

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Questão 2.

(1.0) (a) Quais são os valores de y para os quais existe uma função quadrática f : R → R tal que f (1) = 3, f (2) = 5 e
f (3) = y?

(1.0) (b) Tome y = 9 e determine a função quadrática correspondente. Justifique seus argumentos.

UMA RESPOSTA

(a) Para que exista uma função quadrática f : R → R tal que f (1) = 3, f (2) = 5 e f (3) = y é necessário e suficiente
5−3 y−5
que os pontos (1, 3), (2, 5) e (3, y) não sejam colineares, isto é, que 2−1 6= 3−2 , ou seja, que y − 5 6= 2, ou ainda,
y 6= 7.

(b) Para obter os coeficientes a, b, c da função f (x) = ax2 + bx + c, deve-se resolver o sistema (nas incógnitas a, b, c)



 a+b+c = 3
4a + 2b + c = 5


 9a + 3b + c = 9

Isto é feito de modo simples: basta subtrair a primeira equação das duas seguintes. Tem-se
(
3a + b = 2
8a + 2b = 6

Por subtração (segunda menos duas vezes a primeira), ficamos com 2a = 2, de onde sai imediatamente a = 1.
Substituindo esse valor em 3a + b = 2, obtemos b = −1, e voltando à equação a + b + c = 3 obtemos c = 3. Portanto
x2 − x + 3 é a função quadrática procurada.

Comentário: Há diversas outras formas de se resolver o problema. Por exemplo: tome primeiro a função g(x) = 1+2x,
que é a função afim tal que g(1) = 3 e g(2) = 5. Observe que f (x) = g(x) + a(x − 1)(x − 2) é uma função quadrática
que assume os mesmos valores que g nos pontos x = 1 e x = 2. Então basta achar a que faça f (3) = y. Ora,

f (3) = 1 + 2 · 3 + a(3 − 1)(3 − 2) = 7 + 2a .

y−7
Então 7 + 2a = y e, portanto, a = 2 . Por conseguinte,

y−7
f (x) = 1 + 2x + (x − 1)(x − 2)
2
responde o problema para qualquer y. Em particular, para y = 9,

f (x) = 1 + 2x + (x − 1)(x − 2) = x2 − x + 3 .

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Questão 3.

(1.0) (a) Seja f : A → B uma função. Dê as definições de f (X) e f −1 (Y ), para X ⊂ A e Y ⊂ B. Se f : R → R é dada
por f (x) = 2x2 + 3x + 4, determine os conjuntos f (R) e f −1 (3).

(1.0) (b) Seja f : A → B uma função. Prove que f (X ∪ Y ) = f (X) ∪ f (Y ), quaisquer que sejam X, Y ⊂ A. Dê um
exemplo em que f (X ∩ Y ) 6= f (X) ∩ f (Y ).

UMA RESPOSTA

(a) Definição da imagem de um subconjunto X de A:

f (X) = {y ∈ B; f (x) = y para algum x ∈ X} .

Definição da pré-imagem de um subconjunto Y de B:

f −1 (Y ) = {x ∈ A; f (x) ∈ Y } .

Agora consideremos a função f : R → R tal que f (x) = 2x2 + 3x + 4. Como o coeficiente de x2 é positivo, a função
quadrática assume seu valor mı́nimo f (− 34 ) = 23 b 3 23
8 para x = − 2a = − 4 . Assim, f (x) ≥ 8 para todo x ∈ R, ou seja,
f (R) ⊂ [ 23
8 , +∞). Além disso, para todo y ≥ 23 2
8 , a equação f (x) = y, ou seja, 2x + 3x + 4 = y, que equivale a
2
2x + 3x + 4 − y = 0, tem discriminante ∆ = 9 − 32 + 8y ≥ −23 + 23 = 0, logo existe(m) valor(es) de x com f (x) = y.
Assim f (R) = [ 23
8 , +∞).

f −1 (3) é o conjunto dos pontos x tais que f (x) = 3, isto é, tais que 2x2 + 3x + 4 = 3. Então é o conjunto das soluções
de 2x2 + 3x + 1 = 0, que é igual a {−1, − 12 }.

Comentário: f −1 (3) é um abuso de linguagem amplamente aceito para designar f −1 ({3}).

(b) z ∈ f (X ∪ Y ) se, e somente se, existe w ∈ X ∪ Y tal que f (w) = z, que por sua vez ocorre se, e somente se, existe
x ∈ X tal que f (x) = z ou existe y ∈ Y tal que f (y) = z, que ocorre se, e somente se, z ∈ f (X) ou z ∈ f (Y ), que
ocorre se, e somente se, z ∈ f (X) ∪ f (Y ).

Tome f : R → R com f (x) = x2 , X = [−1, 0] e Y = [0, 1]. Neste caso, X ∩ Y = {0} e f (X) = f (Y ) = [0, 1]. Logo
f (X ∩ Y ) = {f (0)} = {0} e f (X) ∩ f (Y ) = [0, 1].

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Questão 4.

(0.5) (a) Se r 6= 0 é um número racional, prove que r 2 é irracional.

(0.5) (b) Dado qualquer número real  > 0, prove que existe um número irracional α tal que 0 < α < .

(1.0) (c) Mostre que todo intervalo [a, b], com a < b, contém algum número irracional.

UMA RESPOSTA
√ √ √
(a) Se r 2 é racional, então r 2 = pq , para p, q ∈ Z, q 6= 0. Como r 6= 0, podemos dividir por r para obter 2 = p
rq ,

de que resulta 2 racional, contradição.

√ √
2 2
(b) Escolha n um número natural maior do que  . Então α = n é positivo, irracional (pelo item (a)) e
√ √
2 2
α= <√ = .
n 2/

(c) Se a ou b for irracional, não há o que provar. Se a for racional, subtraindo a de todos os números do intervalo
[a, b], ficamos com o intervalo [0, b − a]. Tomando  igual a b − a no item (b), obtemos o irracional α menor do que
b − a e maior do que zero. Então a + α é irracional (se não fosse, então α seria a soma de dois racionais e, portanto,
um racional, contradizendo (b)) e pertence ao intervalo [a, b].

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Questão 5.
Sejam m e n números naturais primos entre si.
m
(1.0) (a) Mostre que n é equivalente a uma fração decimal (isto é, com denominador potência de 10) se, e somente se,
n não tem fatores primos diferentes de 2 ou 5.

(1.0) (b) Mostre que se n tem outros fatores primos além de 2 ou 5 então a expansão decimal é infinita e, a partir de
um certo ponto, periódica.

UMA RESPOSTA

m mp
(a) Sendo m e n primos entre si, uma fração equivalente a n deve ter a forma np (obtida multiplicando-se m e n
pelo mesmo número natural p).
mp
Os fatores primos de uma potência de 10 são 2 e 5. Se np é fração decimal para algum p então np = 10r . Logo,
np só admite fatores primos iguais a 2 ou 5, e, portanto, n também.
Reciprocamente, se n possui apenas fatores primos iguais a 2 ou 5, então podemos multiplicar n por p de forma
mp
que o resultado seja uma potência de 10 (p pode ser ou uma potência de 2 ou uma potência de 5). Com esse p, np
é uma fração decimal.

m
(b) Usando o processo tradicional da divisão continuada para transformar n em fração decimal, como há fatores
de n diferentes de 2 ou 5, em nenhuma etapa o resto da divisão é zero, logo a expansão nunca termina, ou seja, é
infinita. Além disso, os diferentes restos (diferentes de zero) que ocorrem são todos menores do que n, portanto o
número deles é no máximo n − 1. Assim, algum resto deve repetir-se e, a partir daı́, o processo se repete: os restos
se sucedem na mesma ordem anterior e, portanto, os quocientes também, o que fornece a periodicidade (observe que
o perı́odo tem, no máximo, n − 1 números).

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Questão 1.
Calcule as seguintes expressões:

n n √
 qp 
(1,0) (a) logn logn n
n

(1,0) (b) xlog a/ log x , onde a > 0, x > 0 e a base dos logaritmos é fixada arbitrariamente.

UMA SOLUÇÃO


qp
3
(a) Como n n n
n = n1/n , temos
rq
n √ 1
= n−3 ,
n n
logn n=
n3
logo o valor da expressão dada é −3.

(b) Tomando logaritmo na base b que foi fixada, temos

  log a
log xlog a/ log x = · log x = log a .
log x
Como a função log é injetiva, segue-se que
xlog a/ log x = a .

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Questão 2.
(Como caracterizar a função exponencial a partir da função logaritmo.) Seja f : R → R uma função crescente, tal
que f (x + y) = f (x) · f (y) para quaisquer x, y ∈ R. Prove as seguintes afirmações:

(1,0) (a) f (x) > 0 para todo x ∈ R e f (1) > 1.

(1,0) (b) Pondo a = f (1) a função g : R → R definida por g(x) = loga f (x) é linear. (Use o Teorema Fundamental da
Proporcionalidade.)

(0,5) (c) Para todo x ∈ R, g(x) = x, onde g é a função definida no item (b).

(0,5) (d) f (x) = ax para todo x ∈ R.

UMA SOLUÇÃO

O objetivo desta questão é mostrar que é possı́vel caracterizar a função exponencial a partir da função logaritmo,
sem usar argumentos geométricos, como está no livro no caso de logaritmos naturais.
(a) Sendo crescente, f não é identicamente nula. Daı́ resulta que f (x) 6= 0 para todo x ∈ R, pois se existisse x0 ∈ R
com f (x0 ) = 0 terı́amos, para qualquer x ∈ R,

f (x) = f (x0 + (x − x0 )) = f (x0 ) · f (x − x0 ) = 0

e f seria identicamente nula.


Em seguida, notamos que
x x x x x
f (x) = f ( + ) = f ( ) · f ( ) = [f ( )]2 > 0
2 2 2 2 2
para todo x ∈ R.
Vamos mostrar que f (0) = 1. Como f (0) = f (0 + 0) = f (0) · f (0), então f (0) é solução positiva da equação x = x2 .
Como essa equação só tem 1 como solução positiva, a igualdade está demonstrada.
Finalmente, como f é crescente, f (1) > f (0) = 1.

(b) O Teorema Fundamental da Proporcionalidade diz que se g : R → R é crescente e satisfaz g(x + y) = g(x) + g(y)
para quaisquer x, y ∈ R, então g é linear, isto é, g(x) = cx, com c > 0. No nosso caso, temos

g(x + y) = loga f (x + y) = loga [f (x) · f (y)] = loga f (x) + loga f (y) = g(x) + g(y) ,

para quaisquer x, y ∈ R.

(c) Temos g(1) = loga f (1) = loga a = 1, portanto g(x) = x para todo x ∈ R.

(d) Como acabamos de ver, loga f (x) = x, para todo x ∈ R. Como loga ax = x e a função loga é injetiva, segue-se
que f (x) = ax .

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Questão 3.

(1,0) (a) Usando as fórmulas para cos(x + y) e sen(x + y), prove que

tg(x) − tg(y)
tg(x − y) =
1 + tg(x) · tg(y)

(desde que tg(x − y), tg(x) e tg(y) estejam definidas).

(1,5) (b) Levando em conta que um ângulo é máximo num certo intervalo quando sua tangente é máxima, use a fórmula
acima para resolver o seguinte problema:
Dentro de um campo de futebol, um jogador corre para a linha de fundo do time adversário ao longo de uma
reta paralela à lateral do campo que cruza a linha de fundo fora do gol (ver figura). Os postes da meta distam
a e b (com a < b) da reta percorrida por ele. Mostre que o jogador vê a meta sob ângulo máximo quando sua

distância x ao fundo do campo é igual a ab.

b
a

UMA SOLUÇÃO

(a) A manipulação é direta:

sen(x − y) sen(x) · cos(y) − sen(y) · cos(x)


tg(x − y) = = .
cos(x − y) cos(x) · cos(y) + sen(x) · sen(y)

Dividindo o numerador e o denominador por cos(x) · cos(y) (se tg(x) e tg(y) estão definidas, cos(x) e cos(y) são não
nulos), vem
sen(x) sen(y)
cos(x) − cos(y) tg(x) − tg(y)
tg(x − y) = sen(x) sen(y) = 1 + tg(x) · tg(y) .
1 + cos(x) · cos(y)
(b) Em cada instante, o jogador vê a meta sob o ângulo α = α2 − α1 , onde α1 e α2 são os ângulos entre sua trajetória
e as retas que o ligam aos postes da meta. Temos

tg(α2 ) − tg(α1 )
tg(α) = .
1 + tg(α1) · tg(α2 )

3
a
Se x é a distância do jogador ao fundo do campo, temos tg(α1 ) = x e tg(α2 ) = xb , logo
b a
x − x b−a
tg(α) = ab
= .
1+ x2 x + ab
x

Como o numerador b − a é constante, tg(α) é máxima quando o denominador for mı́nimo. Ou seja, é preciso achar
ab
x que minimiza a expressão x + x . q √
Como a média aritmética é sempre maior do que ou igual à média geométrica, então 12 (x + ab
x ) ≥ x · ab
x = ab,

ou seja, o denominador é sempre maior do que ou igual a a 2 ab. A igualdade vale se e somente se os dois termos
√ √
da média são iguais, isto é, quando x = ab. Portanto x + ab
x atinge seu menor valor quando x = ab.

Obs. É possı́vel resolver a questão (b) com outros argumentos. Sejam A e B os extremos da meta, que distam a
e b da linha do jogador, respectivamente (veja figura abaixo, à esquerda). Para cada posição P do jogador, existe
um único cı́rculo que passa por A, B e P . O centro desse cı́rculo, O, está na mediatriz dos pontos A e B (pois
b+a
AOB é triângulo isósceles), estando, portanto, a 2 de distância da linha do jogador. Os segmentos OA e OB têm
comprimento igual ao raio do cı́rculo, digamos r, cujo valor depende de P .
Pelo Teorema do Ângulo Inscrito, AÔB = 2AP̂ B. Assim, AP̂ B é máximo quando AÔB é máximo. E AÔB é
máximo quando a distância OA = OB = r é mı́nima. Mas o menor r possı́vel é aquele tal que o cı́rculo de centro
sobre a mediatriz de A e B e raio r tangencia a linha do jogador. Nessa situação, OP é perpendicular à linha do
b+a
jogador e r = 2 (ver figura abaixo, à direita).
O valor de x, neste caso, é a altura do triângulo AOB com relação à base AB (ou seja, o comprimento da apótema
da corda AB). Esse valor sai do Teorema de Pitágoras aplicado ao triângulo AOQ, em que Q é o ponto médio de
AB. Ou seja,
 2  2
2 b−a 2 a+b
x + =r = .
2 2

Dessa equação resulta a solução x = ab.

B B
O 2α O 2α
A A

α α

P x P x

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Questão 4.

(1,0) (a) 24h após sua administração, a quantidade de uma droga no sangue reduz-se a 10% da inicial. Que percentagem
resta 12h após a administração? Justifique sua resposta, admitindo que o decaimento da quantidade de droga
no sangue é exponencial.

(1,0) (b) Em quanto tempo a quantidade de droga no organismo se reduz a 50% da dose inicial?

(0,5) (c) Se a mesma droga for administrada em duas doses de 10 mg com um intervalo de 12h, qual é a quantidade
presente no organismo após 24h da primeira dose?

UMA SOLUÇÃO

(a) Sendo exponencial, a quantidade de droga no organismo obedece à lei c0 at , onde a é um número entre 0 e 1, c0 é
a dose inicial (obtida da expressão para t = 0) e t é medido, por exemplo, em horas. Após 24h a quantidade se reduz
1
a 10 da inicial, isto é,
c0
c0 a24 = .
10
1 √1 ,
Portanto a24 = 10 . Daı́ segue que a12 = 10
e que

c0
c0 a12 = √ .
10

Então a quantidade de droga após 12h é a quantidade inicial dividida por 10.

(b) Para saber o tempo necessário para a redução da quantidade de droga à metade (isto é, a meia-vida da droga no
organismo), basta achar t que cumpra at = 12 . Como a24 = 1
10 implica
 s
24s 1
a =
10

a resposta é t = 24s, onde s é tal que 10−s = 2−1 . Daı́ segue que s = log10 2 e que t = 24 log10 2.

(c) A quantidade logo após a primeira dose é c0 . Após 12h ela decai para √c10
0
. Uma nova administração a eleva para
c0

c0 + 10 = c0 (1 + √110 ). Após mais 12h essa quantidade é dividida por 10, passando a ser
 
1 1
c0 √ + ,
10 10
logo, com c0 = 10 mg, restarão, após 24h da primeira dose,

(1 + 10) mg.

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Questão 1.

(1,0) (a) Prove isto: Se um número natural não é o quadrado de um outro número natural, sua raiz quadrada é irracional.
√ √
(1,0) (b) Mostre que 2+ 5 é irracional.

UMA SOLUÇÃO

 2
p p
(a) Seja n ∈ N. Se q ∈ Q é tal que q = n, então p2 = nq 2 . Como os fatores primos de p2 e q 2 aparecem todos com
expoente par, o mesmo deve ocorrer com os fatores primos de n. Então n é o quadrado de algum número natural.

√ √
(b) Se 2+ 5 fosse racional então seu quadrado
√ √ √ √
q = ( 2 + 5)2 = 2 + 2 10 + 5 = 7 + 2 10

q−7

também seria. Mas aı́ 2 = 10 também seria racional, o que não é possı́vel, pois 10 não é o quadrado de um
número natural.

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Questão 2.

(2,0) No instante em que uma pedra caiu (sem sofrer impulso inicial) ao momento em que se ouviu o som de seu
choque com a água no fundo do poço decorreram S segundos. Calcular a profundidade do poço. Dar a resposta
em função da aceleração g da gravidade e da velocidade v do som. Usar a fórmula s = g2 t2 do espaço percorrido
no tempo t por um corpo em queda livre que partiu do repouso.

DUAS SOLUÇÕES

Uma solução. O tempo S = t1 + t2 é a soma do tempo t1 que a pedra levou para chegar ao fundo mais o tempo t2
que o som levou para vir até o nı́vel da borda. Chamando de x a profundidade do poço, temos x = g2 t21 e, por outro
lado, x = vt2 = v(S − t1 ). Logo
g 2
t = v(S − t1 )
2 1
ou
gt21 + 2vt1 − 2vS = 0 ,
que é uma equação quadrática na incógnita t1 . As soluções desta equação são
p p
−2v + 4v 2 + 8gvS −2v − 4v 2 + 8gvS
, .
2g 2g
p √
A segunda é negativa e neste problema não faz sentido. A primeira é positiva, porque 4v 2 + 8gvS > 4v 2 = 2v.
Então, dividindo por 2 o numerador e o denominador da fração,
p
−v + v 2 + 2gvS
t1 = ,
g
logo
v2 vp 2
x = vt2 = v(S − t1 ) = Sv + − v + 2gvS .
g g

Outra solução. A solução é essencialmente determinada por aquilo que escolhemos como
q incógnita (t1 , t2 ou x).
2x x
Se equacionarmos diretamente em x iremos pelo seguinte caminho. Observe que t1 = g e t2 = v . Então, de
t1 + t2 = S resulta uma equação em x:
x p −1 √
+ 2g x − S = 0.
√ v
Definamos y = x. Então precisamos achar soluções positivas de
p
v −1 y 2 + 2g −1 y − S = 0 .

A única solução positiva dessa equação quadrática é


p p
− 2g −1 + 2g −1 + 4Sv −1
y= .
2v −1
Então " s #
v2 2
 
2 2 4S 4 8S
x=y = + + −2 + ,
4 g g v g2 vg
que equivale à expressão obtida na primeira solução.

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Questão 3.

(2,0) Percorrendo, ao longo de uma reta horizontal, a distância d = AB em direção à base inacessı́vel de um poste
CD, nota-se (com o auxı́lio de um teodolito) que os ângulos C ÂD e C B̂D medem, respectivamente, α e β
radianos. Qual é a altura do poste CD?

α d β
A B C

UMA SOLUÇÃO

Temos CD = AC tg α = BC tg β. Como AC = BC + d, vem (BC + d)tg α = BC tg β, e daı́


tg α
BC = d ·
tg α − tg β
e
tg α tg β
CD = BC tg β = d · ,
tg α − tg β
que é a resposta para a pergunta.

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Questão 4.

(2,0) Um reservatório contém uma mistura de água com sal (uma salmoura), que se mantém homogênea graças a
um misturador. Num certo momento, são abertas duas torneiras, com igual capacidade. Uma despeja água no
reservatório e a outra escoa. Após 8 horas de funcionamento, verifica-se que a quantidade de sal na salmoura
reduziu-se a 80% do que era antes que as torneiras fossem abertas. Que percentagem do sal inicial permanecerá
na salmoura após 24h de abertura das torneiras?

UMA SOLUÇÃO

Seja M0 a massa de sal existente no inı́cio da operação. Decorrido o tempo t, essa massa será M (t) = M0 at , onde
a é uma constante (0 < a < 1). Isto se justifica porque, sendo a salmoura da torneira de saı́da uma amostra da
salmoura do tanque, supostamente homogênea, a quantidade de sal que sai por unidade de tempo é proporcional à
quantidade de sal no tanque, e isto é o princı́pio que rege o decaimento exponencial.
No entanto, a constante a não precisa ser calculada para se resolver o problema. O enunciado nos diz (supondo o
tempo t medido em horas) que M (8) = M0 a8 = 0, 8M0 , logo a8 = 0, 8. Após 24 horas, a quantidade de sal é M0 a24 .
Ora, a24 = (a8 )3 = 0, 83 = 0, 512. Portanto a resposta é 51, 2%, isto é, pouco mais que a metade.

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Questão 5.
Considere a função f : [1, +∞) → R, definida por f (x) = x3 − x2 .
(1,0) (a) Defina função crescente e prove que f é crescente.

(1,0) (b) Defina função ilimitada e prove que f é ilimitada.

UMA SOLUÇÃO

(a) Uma função f : X → R, definida no conjunto X ⊂ R, chama-se crescente quando, para x, y ∈ X, x < y implica
f (x) < f (y).
Em nosso caso, sejam x, y ∈ [1, +∞), com x < y. Vamos mostrar que f (y) − f (x) > 0. Temos
f (y) − f (x) = (y 3 − y 2 ) − (x3 − x2 )
= (y 3 − x3 ) − (y 2 − x2 )
= (y − x)(y 2 + xy + x2 ) − (y − x)(y + x)
> (y − x)(y 2 + x2 ) − (y − x)(y + x)
= (y − x)(y 2 − y + x2 − x)
= (y − x)(y(y − 1) + x(x − 1)) .
Como x ≥ 1, então x(x − 1) ≥ 0; e como y > x ≥ 1, então y(y − 1) > 0 e y − x > 0. Portanto f (y) − f (x) > 0.

Outra solução. Podemos definir o número positivo h = y − x, ou seja, escrever y como x + h, e provar que
f (x + h) − f (x) > 0. Temos
f (x + h) − f (x) = (x + h)3 − (x + h)2 − x3 − x2
   

= (x3 + 3x2 h + 3xh2 + h3 ) − (x2 + 2hx + h2 ) − x3 + x2


= 3x2 h + 3xh2 + h3 − 2hx − h2 .
Para mostrar que essa expressão é positiva, precisamos achar termos positivos que, somados aos negativos, resultem
em um número positivo. Então a reescrevemos:
f (x + h) − f (x) = 3x2 h + 3xh2 + h3 − 2hx − h2
= x2 h + 2xh2 + h3 + (2x2 h − 2hx) + (xh2 − h2 )
= x2 h + 2xh2 + h3 + 2hx(x − 1) + h2 (x − 1) .
Como x ≥ 1 então os dois últimos termos são maiores do que ou iguais a zero. Acrescido do fato que os três primeiros
são positivos, tem-se que f (x + h) − f (x) > 0, para qualquer x ≥ 1 e h > 0.

(b) Uma função f : X → R, definida no conjunto X ⊂ R, chama-se ilimitada quando, dado qualquer A > 0, pode-se
achar x ∈ X tal que f (x) > A. No nosso caso, f (x) > A significa x3 − x2 > A, ou seja, x3 (1 − x1 ) > A. Ora, quando
1
x > 2 já se tem 1 − > 12 . Então, para se ter x3 (1 − x1 ) > A, basta tomar um x ∈ [1, +∞) que seja maior do que
x

2 e tal que x3 · 12> A, isto é, x3 > 2A, o que se obtém simplesmente tomando x > 3 2A. Portanto, basta tomar

x > max{2, 3 2A}.

5
AV1 - MA 11 - 2012

Questão 1.
√ √ √ √
Prove que se a, b, c e d são números racionais tais que a 2 + b 3 = c 2 + d 3 então a = c e b = d.

UMA SOLUÇÃO

√ √ √ √ √ √
A igualdade a 2 + b 3 = c 2 + d 3 implica que ( a − c) 2 = (d − b) 3. Suponha que tenhamos ( a, b) 6= (c, d).
Então teremos a 6= c ou b 6= d. Digamos que b 6= d (o caso a 6= c é análogo). Neste caso podemos dividir ambos os
lados por d − b, e teremos √
a−c 3
= √ .
d−b 2
p
Como a, b, c, d são todos racionais, o lado esquerdo é racional e igual a alguma fração irredutível q . Mas aí teríamos

3q2 = 2p2 ,

o que é impossível, pois o lado esquerdo tem um número par de fatores 2 e o lado direito tem um número ímpar
(ou: o lado esquerdo tem um número ímpar de fatores 3 e o lado direito tem um número par).

1
AV1 - MA 11 - 2012

Questão 2.

Seja f : R → R uma função crescente tal que, para todo x racional, vale f ( x ) = ax + b (com a, b ∈ R
constantes). Prove que se tem f ( x ) = ax + b também se x for irracional.

UMA SOLUÇÃO

Dado x irracional, podemos achar r e s racionais com r < x < s, sendo s − r tão pequeno quanto desejemos.
Como f é crescente, daí vem f (r ) < f ( x ) < f (s), ou seja, ar + b < f ( x ) < as + b. Como f é crescente, então a > 0,
logo podemos subtrair b de cada termo e dividir por a, sem alterar a direção das desigualdades:

f (x) − b
r< < s.
a
f ( x )−b
Como r e s podem ser escolhidos tão próximos de x quanto desejemos, isto nos obriga a ter a = x e, portanto,
f ( x ) = ax + b.

2
AV1 - MA 11 - 2012

Questão 3.

(a) Determine uma função afim f : R → R tal que g : R → R, definida por g( x ) = | | f ( x )| − 1|, tenha o gráfico
abaixo.

(b) Expresse g na forma g( x ) = A + α1 | x − a1 | + α2 | x − a2 | + . . . + αn | x − an |, para algum n, explicitando os


valores de A, α1 , . . . , αn .
Y

-3 -2 -1 0
X

UMA SOLUÇÃO

(a)
Observação: Em princípio não é necessário “deduzir” quem é f , basta apresentar uma função candidata e verificar.
No entanto, dois argumentos para obtê-la seguem abaixo.

Primeiro argumento: No trecho afim mais à direita, vale g( x ) = 2x + 2. Portanto para x ≥ −1, vale, || f ( x )| − 1| =
2x + 2. Então, no intervalo (−1, ∞), a expressão | f ( x )| − 1 não se anula, logo ou é sempre negativa, e neste caso
ter-se-á || f ( x )| − 1| = −| f ( x )| + 1, ou é sempre positiva, e neste caso ter-se-á || f ( x )| − 1| = | f ( x )| − 1. No primeiro
caso, teríamos −| f ( x )| + 1 = 2x + 2, ou | f ( x )| = −1 − 2x, em particular | f (0)| = −1, o que é impossível. Então só
resta segunda opção, e | f ( x )| − 1 = 2x + 2, de onde | f ( x )| = 2x + 3, para x ≥ −1. Concluímos que f ( x ) = 2x + 3
ou f ( x ) = −2x − 3. Ambas as possibilidades são válidas, e escolhemos a primeira f ( x ) = 2x + 3. Aí observamos
que essa escolha de f ( x ) também funciona nos demais trechos afins.

Segundo argumento: Suponha que a taxa de variação de f seja positiva. Então, para x suficientemente afastado para
a direita da raiz de f , f é positiva e maior do que 1, de modo que || f ( x )| − 1| = f ( x ) − 1. No trecho mais à direita,
isso dá 2x + 2, e daí se conclui que f ( x ) = 2x + 3. Nos outros intervalos, basta verificar.

Verificação: Para verificar que g( x ) = || f ( x )| − 1| olha-se a coincidência das funções em cada trecho afim. Os dois
lados são afins nos mesmos intervalos: (−∞, −2], [−2, − 32 ], [− 23 , −1] e [1, ∞). Logo basta verificar a coincidência
entre as funções em dois pontos de cada intervalo. Basta, portanto, verificar que coincidem em −3, −2, − 32 , −1, 0, o
que pode ser feito facilmente.

3
(b) É natural tomar a1 = −2, a2 = − 32 e a3 = −1. Então buscamos escrever

3
g ( x ) = A + α | x + 2| + β | x + | + γ | x + 1| .
2

Impondo g(0) = 2, g(−1) = 0, g(− 23 ) = 1 e g(−2) = 0, obtemos quatro equações lineares nas incógnitas A, α, β e
γ. Resolvendo o sistema, chegamos em A = −1, α = γ = 2 e β = −2, logo na função dada por

3
x 7 → −1 + 2| x + 2| − 2| x + | + 2| x + 1| .
2
Resta ver que essa função é realmente a função g. Essa verificação é feita da mesma maneira que na questão (a).

4
AV1 - MA 11 - 2012

Questão 4.

Ache uma fração ordinária igual ao número real α = 3, 757575 . . .

UMA SOLUÇÃO

Se α é o número acima então 100α = 375, 757575 . . .. Subtraindo as duas igualdades, vem 99α = 372, 0000 . . ..
372
Logo α = 99 .

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AV1 - MA 11 - 2012

Questão 5.

Considere as seguintes possibilidades a respeito das funções afins f , g : R → R, em que f ( x ) = ax + b e


g( x ) = cx + d.
A) f ( x ) = g( x ) para todo x ∈ R.
B) f ( x ) 6= g( x ) seja qual for x ∈ R.
C) Existe um único x ∈ R tal que f ( x ) = g( x ).
Com essas informações,

i) Exprima cada uma das possibilidades acima por meio de relações entre os coeficientes a, b, c e d.

ii) Interprete geometricamente cada uma dessas 3 possibilidades usando os gráficos de f e g.

UMA SOLUÇÃO

(i) A possibilidade A) ocorre se, e somente se, a = c e b = d. Prova: Se a = c e b = d então, para qualquer x ∈ R,
tem-se f ( x ) = ax + b = cx + d = g( x ). Por outro lado, se f ( x ) = g( x ) para qualquer x ∈ R, então, em particular,
f (0) = g(0), ou seja, a · 0 + b = c · 0 + d, isto é, b = d; além disso, f (1) = g(1), implicando a · 1 + b = c · 1 + d, ou
seja, a = c (usando que b = d).
A possibilidade B) ocorre se, e somente se, a = c e b 6= d. Prova: Se a = c e b 6= d, então f ( x ) − g( x ) =
( a − c) x + (b − d) = b − d 6= 0, para qualquer x ∈ R. Por outro lado, se f ( x ) 6= g( x ) para qualquer x ∈ R então
f ( x ) − g( x ) = ( a − c) x + (b − d) 6= 0 para qualquer x ∈ R, ou seja, ( a − c) x + (b − d) não tem raiz. Mas isto só
ocorre se a = c e b 6= d.
A possibilidade C) ocorre se, e somente se, a 6= c. Prova: Se a 6= c então f ( x ) − g( x ) = ( a − c) x + (b − d) tem
única raiz igual a da− b
−c , logo este é o único ponto x tal que f ( x ) = g ( x ). Por outro lado, se existe um único ponto x
tal que f ( x ) = g( x ) é porque a diferença f ( x ) − g( x ) = ( a − c) x + (b − d) tem uma única raiz, ou seja, a − c 6= 0.

(ii) No caso A), os gráficos de f e g são retas coincidentes. No caso B), os gráficos de f e g são retas paralelas. No
caso C), os gráficos de f e g são retas concorrentes.

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AV2 - MA 11 - 2012

Questão 1. Seja f : R → R uma função tal que f (0) = 0 e | f ( x ) − f (y)| = | x − y| para quaisquer x, y ∈ R. Prove
que ou f ( x ) = x para todo x ou então f ( x ) = − x seja qual for x.

UMA SOLUÇÃO

Tomando y = 0, vemos que | f ( x )| = | x |, logo f ( x ) = ± x para todo x. Resta mostrar que não se pode ter
f ( x1 ) = x1 e f ( x2 ) = − x2 com x1 e x2 não nulos. De fato, se isto ocorresse, então

| x1 + x2 | = | x1 − (− x2 )| = | f ( x1 ) − f ( x2 )| = | x1 − x2 | .

Elevando ao quadrado ambos os lados da igualdade | x1 + x2 | = | x1 − x2 | concluiríamos que x1 x2 = − x1 x2 , isto é,


que x1 x2 = 0, o que é uma contradição com o fato de x1 e x2 serem ambos nulos.

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AV2 - MA 11 - 2012

Questão 2. Dada a função quadrática f ( x ) = ax2 + bx + c, consideremos as funções afins g( x ) = mx + t, onde


m é fixo e t será escolhido convenientemente. Prove que existe uma (única) escolha de t para a qual a equação
f ( x ) = g( x ) tem uma, e somente uma, raiz x. Interprete este fato geometricamente em termos dos gráficos de f e g.

UMA SOLUÇÃO

A equação f ( x ) = g( x ) significa ax2 + (b − m) x + c − t = 0. Esta equação do segundo grau tem uma raiz única
( b − m )2
se, e somente se, seu discriminante (b − m)2 − 4a(c − t) é igual a zero, ou seja, se t = c − 4a (observando que
a 6= 0, já que f é quadrática).
Ao variar t, a reta gráfico de g se desloca paralelamente a si mesma e toca a parábola gráfico de f num só ponto
quando é sua tangente. Este é o valor de t que foi calculado.

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AV2 - MA 11 - 2012

Questão 3. Dados os pontos A = (3, 7), B = (4, 5), C = (5, 5) e D = (5, 3) em R2 , determine a função afim
f ( x ) = ax + b cujo gráfico contém três desses pontos.

UMA SOLUÇÃO

As inclinações dos segmentos AB, AC e AD são, respectivamente, −2, −1 e −2. Portanto A, B e D são colineares.
O segmento CD é vertical, logo C e D não podem pertencer ao gráfico de uma função afim. Logo, além de A, B,
D só resta a possibilidade de que A, B e C sejam colineares. No entanto, AB tem inclinação −2 e BC tem inclinação
0, então A, B e C não podem ser colineares.
Assim, A, B e D são os únicos três pontos colineares dentre os quatro pontos dados. A função afim cujo gráfico
os contém é f ( x ) = ax + b tal que f (3) = 7 e f (4) = 5. Portanto 3a + b = 7 e 4a + b = 5. Daí resulta que a = −2 e
b = 13. A função procurada é f ( x ) = −2x + 13.

3
AV2 - MA 11 - 2012

Questão 4. A população de uma cultura de bactérias, num ambiente controlado, é estimada pela área que ocupa
sobre uma superfície plana e tem taxa de crescimento diária proporcional a seu tamanho. Se, decorridos 20 dias, a
população duplicou, então ela ficou 50% maior

(a) antes de 10 dias.

(b) ao completar 10 dias.

(c) após 10 dias.

Escolha a resposta certa e justifique sua opção.

UMA SOLUÇÃO

Se p0 é a população original, após decorridos t dias a população p = p(t) será dada por p = p0 at , onde a é uma
√ √
constante maior do que 1. Temos p0 a20 = 2p0 , logo a20 = 2. Então p(10) = p0 a10 = p0 a20 = p0 2 ' 1, 414p0 .
Então p(10) < 1, 5p0 , o que nos faz concluir que o crescimento de 50% será atingido após os primeiros 10 dias. A
opção correta é (c).

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AV2 - MA 11 - 2012

1 1
Questão 5. Dados números reais positivos x e y, ache α e β tais que cos x · cos y = 2 cos α + 2 cos β. Em seguida
mostre como (mediante o uso de uma tabela de funções trigonométricas) esta igualdade pode ser empregada para
reduzir o produto de dois números reais positivos quaisquer às operações de soma e divisão por 2.

UMA SOLUÇÃO

A fórmula do cosseno de uma soma, junto com a observação de que sen(−y) = −sen y, nos dá

cos( x + y) = cos x · cos y − sen x · sen y

e
cos( x − y) = cos x · cos y + sen x · sen y ,

logo cos( x + y) + cos( x − y) = 2 cos x · cos y. Daí resulta a igualdade proposta, com α = x + y e β = x − y.
Em seguida, se a e b são números reais positivos quaisquer, dados por suas expressões decimais, deslocando as
vírgulas que separam suas partes inteiras (alteração que pode facilmente ser refeita no final), podemos supor que
esses números são ambos compreendidos entre 0 e 1. A tabela nos dá x e y tais que cos x = a e cos y = b. E a
igualdade inicial fornece ab = cos x · cos y = 12 (cos( x + y) + cos( x − y)). Na prática, é preciso (i) tomar x e y pela
tabela; (ii) calcular x + y e x − y; (iii) obter seus cossenos, também pela tabela; (iv) somar os cossenos; e (v) dividir
por 2.
Este artifício era usado pelos astrônomos antes da descoberta dos logaritmos.

5
AV3 - MA 11 - 2012

√ √
Questão 1. Sejam a, x números reais positivos, com a < x. Pondo y = 12 ( x + xa ), prove que a < y < x.

UMA SOLUÇÃO


Primeiro notamos que x é maior do que xa : a < x significa a < x2 , logo a
x < x, usando que x é positivo. Como y
a
é a média aritmética dos números x e x, dos quais x é o maior, então y < x.
Outra maneira:
1 a 1 x2
y= (x + ) < (x + ) = x ,
2 x 2 x
usando a < x2 .
Além disso, como a média aritmética de dois números diferentes é maior do que a média geométrica e como a
a √ √
média geométrica de x e
x é igual a a, resulta que y > a.
Essa última desigualdade também poderia ser feita diretamente:

1 2 a2 1 a2 1 a
y2 = ( x + 2a + 2 ) = ( x2 − 2a + 2 + 4a) = a + ( x − )2 > a .
4 x 4 x 4 x

1
AV3 - MA 11 - 2012

Questão 2. A imagem (ou conjunto de valores) de uma função f : R → R é o conjunto f (R) cujos elementos são os
números f ( x ), onde x é qualquer número real.
Determine as imagens da função afim f : R → R, f ( x ) = rx + s, e da função quadrática g : R → R, g( x ) =
ax2 + bx + c. Discuta as possibilidades e justifique suas afirmações.

UMA SOLUÇÃO

Para a função afim f , há duas possibilidades: se r = 0 então f é constante e sua imagem é o conjunto {s}, com um
só elemento. A segunda possibilidade ocorre se r 6= 0. Então f (R) = R pois, dado qualquer y ∈ R, existe x ∈ R tal
y−s
que f ( x ) = y, ou seja, rx + s = y. Basta tomar x = r .
No caso da função quadrática g( x ) = ax2 + bx + c, há duas possibilidades para a imagem g(R). Se a > 0 então
a imagem é a semirreta (intervalo infinito) [k, +∞) e se a < 0 então f (R) = (−∞, k], onde k (em ambos os casos) é
igual a
b 4ac − b2
g(− ) = .
a 4a
Justificando: se a > 0 então, tomando qualquer y ∈ [k, +∞), ou seja, y ≥ k, para achar x ∈ R tal que f ( x ) = y,
devemos mostrar que a equação ax2 + bx + c = y, isto é, ax2 + bx + c − y = 0, possui raízes reais. Isto ocorre se, e
4ac−b2
somente se, seu discriminante b2 − 4a(c − y) é maior do que ou igual a 0. Como y ≥ 4a , isto sempre ocorre.
O que acabamos de mostrar foi que [k, +∞) ⊂ g(R). Para ver que g(R) ⊂ [k, +∞), basta observar que, em
virtude da forma canônica g( x ) = a( x − m)2 + k, quando a > 0 todos os valores g( x ) são maiores do que ou iguais
a k.
A discussão do caso a < 0 é inteiramente análoga.

2
AV3 - MA 11 - 2012

Questão 3. Uma torneira leva x horas para encher um tanque, outra leva y horas e uma terceira enche esse mesmo
tanque em z horas. Em quanto tempo as três juntas encherão o tanque?

UMA SOLUÇÃO

1 1 1
As três torneiras separadamente, abertas durante uma hora, encherão respectivamente as frações x, y e z do
1 1 1
tanque e, abertas juntas, encherão x + y + z do tanque. Logo, juntas, encherão o tanque em

1 xyz
1 1 1
=
x + y + z
yz + xz + xy

horas.

3
AV3 - MA 11 - 2012

Questão 4. Uma cultura de bactérias, cuja população é medida pela área que ocupa sobre uma superfície plana,
ficou 64 vezes maior após 1 ano. Quantas vezes maior ela estava após 1 trimestre?

UMA SOLUÇÃO

Seja p0 a população inicial. Após decorrido o tempo t, a população será p0 at = p, onde a é uma constante maior
do que 1, determinada experimentalmente. Medindo o tempo em meses, temos p = p0 a12 = 64p0 , após 1 ano.
√ √
Quer-se saber o valor de p = p0 a3 . De a12 p0 = 64p0 temos a12 = 64 e daí a3 = 4 64 = 2 2 ' 2, 83. Portanto, após
um trimestre, a população de bactérias estava 2, 83 vezes maior do que a população original.

4
AV3 - MA 11 - 2012

Questão 5. Seja r o raio da circunferência sobre a qual estão os vértices do triângulo ABC. Se a é a medida do lado
oposto ao ângulo A,b prove que sen Ab = a (dica: baixe, do centro da circunferência, a perpendicular a BC). Conclua
2r
daí a Leis dos Senos.

UMA SOLUÇÃO

Seja O o centro da circunferência e seja P no segmento BC tal que OP é perpendicular a BC. É sabido que o
ângulo BOC (ângulo central da corda BC) é o dobro do ângulo inscrito A b (fato conhecido como o Teorema do
Ângulo Inscrito). Como o triângulo BOC é isósceles, então OP é bissetriz e, portanto, o ângulo POC é exatamente
b Também pelo fato de BOC ser isósceles, OP é mediatriz, de forma que PC = a . Sendo OC = r e OPC
igual a A. 2
triângulo-retângulo, segue que sen ( A
b) = = a/2
PC
OC
a
r = 2r .
O que acabamos de provar é que o seno do ângulo em A dividido pelo comprimento do lado oposto ao vértice A
1
é igual a 2r . O mesmo argumento se aplica a B ou a C, de modo que essa razão (seno de um ângulo dividido pelo
lado oposto) é constante. Essa é a Lei dos Senos.

5
Sociedade Brasileira de Matemática
Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional

MA11 – Números e Funções Reais


Avaliação 1 - GABARITO
13 de abril de 2013

1. Determine se as afirmações a seguir são verdadeiras ou falsas, justificando adequadamente


e em detalhes as suas respostas.

(a) A soma de dois números irracionais é um número irracional. (pontuação 1,0)


(b) O produto de dois números reais com representação decimal infinita e periódica é um
número real que não possui representação decimal finita. (pontuação 1,0)

Uma solução:
a) Falso.
Contra-exemplo: x = π e y = 1 − π são irracionais, mas x + y = 1 não é irracional.
b)Falso.
7 6 1
Contra-exemplo: x = 12 ey= 7
têm representação decimal infinita, mas x.y = 2
possui
representação decimal finita.

2. Da mesma forma que se expressa um número real no sistema de numeração decimal, é


possível expressá-lo em um sistema de numeração posicional qualquer, de base β ∈ N,
β > 2. Dizemos que um número a ∈ R está expresso no sistema de base β se ele é escrito
na forma:
+∞
X
a = a0 + an β −n
n=1

em que a0 ∈ Z e os an são dígitos entre 0 e β − 1.

(a) Sejam x e y os números reais cujas representações no sistema de numeração de base


4 são dadas por 0, 321 e 0, 111 . . ., respectivamente. Determine as representações de
x e de y no sistema decimal. (pontuação 1,0)
(b) Mostre que um número racional a = m n
∈ R, com m, n ∈ Z, n 6= 0 e mdc(m, n) = 1,
possui representação finita no sistema de numeração posicional de base β se, e somente
se, o denominador n não possui fatores primos que não sejam fatores de β. (pontuação
1,0)
Uma solução:
a) Pela definição da expressão de um número real no sistema de numeração posicional de
base β, temos que:

1 1 1 3 1 1 57
x = (0, 321)β = 3 × +2× 2 +1× 3 = + + = = 0, 890625
4 4 4 4 8 64 64

+∞
X 1
y = (0, 111 . . .)β =
k=1
4k

Portanto, a expressão acima é a soma da progressão geométrica infinita cujo termo inicial
é 14 e a razão é 14 . Essa soma converge para:

1
4 1
1 = = 0, 333 . . .
1− 4
3

b) Observamos que um número a possui representação finita no sistema de numeração


posicional de base β se, e somente se, existe um expoente k ∈ N tal que β k a ∈ N.
m
Assim, se possui representação finita no sistema de numeração posicional de base β,
n
k
β m
então ∈ N para algum k ∈ N. Logo, n | β k m. Como mdc(m, n) = 1, então n | β k .
n
Portanto, n não possui fatores primos que não sejam fatores de β k . Mas estes são os
mesmos fatores primos de β.
Reciprocamente, se n não possui fatores primos que não sejam fatores de β, então n | β k ,
βkm
para um expoente k suficientemente grande. Logo, n | β k m, portanto ∈ N. Então,
n
m
possui representação finita no sistema de numeração posicional de base β.
n
√ √
3. (a) Considere a função h : [0, +∞[ → R definida por h(x) = x + 2x . Usando o fato

de que a função g : [0, +∞[ → R, definida por g(x) = x é monótona crescente,
mostre que h é monótona crescente. (pontuação 0,5)
√ √
(b) Conclua, com base no item anterior, que, ∀ a ∈ R, a > 0 a equação x = a − 2x
admite uma única solução real. (pontuação 0,5)
√ √
(c) Considere a seguinte resolução para a equação x = 1 − 2x :

√ √ √ √
x = 1 − 2x ⇒ x = 1 − 2 2x + 2x ⇒ 1 + x = 2 2x ⇒

1 + 2x + x2 = 8x ⇒ x2 − 6x + 1 = 0 ⇒ x = 3 ± 2 2

Este método de resolução está correto? Justifique sua resposta. (pontuação 1,0)
Uma solução:
√ √ √ √ √
a) Temos que h(x) = x + 2 x = (1 + 2) x = (1 + 2) g(x). Como g é crescente,
então, x1 , x2 ∈ [0, +∞[ , x1 < x2 ⇒ g(x1 ) < g(x2 ) ⇒ h(x1 ) < h(x2 ). Portanto, h é
crescente.
√ √ 2
b) A existência da solução da equação x = a− 2x é explícita: dado a ≥ 0, x = (1+a√2)2
é uma solução. Mesmo que não conseguíssemos uma solução explícita, a garantia teórica
da existência de uma solução desta equação é uma consequência da continuidade de h
e de que limx→+∞ h(x) = +∞. Assim, para todo a ∈ R, a ≥ 0, existe pelo menos
um x ∈ [0, +∞[ tal que h(x) = a. Vejamos a unicidade: suponhamos que existam
x1 x2 ∈ [0, +∞[ , x1 6= x2 tais que h(x1 ) = h(x2 ) = a. Digamos x1 < x2 . Como h
é crescente, deveríamos ter h(x1 ) < h(x2 ). Logo, existe um único x ∈ [0, +∞[ tal que
√ √
h(x) = a, isto é, x = a − 2x .
√ √
c) Pelo item anterior, a equação x = 1 − 2x admite uma única solução. Portanto, a
resolução não está correta.
√ √ √
Na primeira passagem da resolução, é verdade que x = 1 − 2x ⇒ x = 1 − 2 2x + 2x.
√ √ √
Entretanto, x = 1 − 2 2x + 2x 6⇒ x = 1 − 2x. De fato, nesta implicação, estamos
implicitamente fazendo:
√ √ 2 √
q √ √
x = 1 − 2 2x + 2x = (1 − 2x) ⇒ x = (1 − 2x)2 = 1 − 2x .

Em primeiro lugar, para que a implicação acima seja verdadeira, devemos supor que x > 0,
o que já é uma hipótese inicial para a resolução q da equação. Além disso, temos que
√ √ 2 √ √
1 − 2 2x + 2x = (1 − 2x) , mas a igualdade (1 − 2x)2 = 1 − 2x só vale se

1 − 2x > 0. Logo, a implicação acima só é verdadeira se 0 6 x 6 12 .
Portanto, nessa passagem ocorre uma inclusão de raízes estranhas à equação.

4. Considere a função p : [−1, 5] → R definida por:


(
3 x − x2 se −1 6 x < 1
||x − 2| − 1| se 1 6 x 6 5

(a) Faça um esboço do gráfico de p. (pontuação 0,5)


(b) Determine todas as soluções reais da equação p(x) = 2. (pontuação 0,5)
(c) Determine todos os pontos de máximo e de mínimo locais e absolutos de p. (pontu-
ação 0,5)
(d) Faça um esboço do gráfico da função q : [−1, 2]] → R definida por:

q(x) = p(2x + 1) − 2 .
(pontuação 0,5)

Uma solução:
a) O gráfico da função p é dado por:

-1 1 2 3 4 5 6

-1

-2

-3

-4

b) Resolvendo 3 x − x2 = 2, obtemos x = 1 ou x = 2, mas estes valores estão fora do


intervalo em que p é definida pela expressão y = 3 x − x2 . Resolvendo ||x − 2| − 1| = 2,
obtemos |x − 2| = 1 ± 2. Como não há valores de x tais que |x − 2| = −1, resta apenas
a alternativa |x − 2| = 3. Esta implica em x = 2 ± 3, portanto x = −1 ou x = 5, mas
x = −1 está fora do intervalo em que p é definida pela expressão y = ||x − 2| − 1| = 2,
portanto, a única solução da equação p(x) = 2 é x = 5. De fato, percebemos pelo gráfico
esboçado no item anterior que a reta y = 2 intercepta o gráfico de p apenas quando x = 5.

c) Analisando o gráfico, concluímos que a função p possui:


• mínimo absoluto em x = −1;
• mínimo local em x = 1;
• máximo local em x = 2;
• mínimo local em x = 3;
• máximo absoluto em x = 5.

d) Na definição da função q, a variável de p é multiplicada por 2 e somada a 1 e, em


seguida, a função p é somada à constante −2. Estas operações podem ser descritas
geometricamente por meio das seguintes funções:
• p(x), cujo gráfico foi obtido em a),
• p1 (x) = p(2x), cujo gráfico é obtido do de p(x) por uma contração horizontal de
razão 12 ,
• p2 (x) = p1 (x + 12 ) = p(2(x + 21 )) = p(2x + 1), cujo gráfico é obtido do de p1 (x)
por uma translação horizontal de 21 unidade no sentido negativo do eixo (isto é, para a
esquerda),
e, finalmente,
• q(x) = p2 (x) − 2, cujo gráfico é obtido do de p2 (x) por meio de uma translação
vertical de 2 unidades no sentido negativo do eixo (isto é, para baixo).
Portanto, o gráfico de q tem o seguinte aspecto:

-1 1 2 3 4 5 6

-1

-2

-3

-4

-5

-6
5. Considere a função quadrática f : R → R, f (x) = a x2 + b x + c, com a > 0. Use a forma
canônica do trinômio de segundo grau

y = a (x − x0 )2 + y0

para mostrar que:


a) (x0 , y0 ) é um ponto de mínimo absoluto de f ; (pontuação 1,0)
b) a reta x = x0 é um eixo de simetria vertical do gráfico de f . (pontuação 1,0)

Uma solução:
a) Temos que f (x0 ) = y0 . Além disso, para qualquer x ∈ R, x 6= x0 , temos a (x − x0 )2 > 0,
portanto:
f (x) = a (x − x0 )2 + y0 > y0 = f (x0 )
Segue que (x0 , y0 ) é ponto de mínimo absoluto de f .
b) Dado r > 0 qualquer temos:

f (x0 − r) = a r2 + y0
f (x0 + r) = a r2 + y0
Portanto, f (x0 − r) = f (x0 + r), ∀r > 0. Logo, a reta x = x0 é um eixo de simetria vertical
do gráfico de f .
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MA11 – Números e Funções Reais


Avaliação 2 GABARITO
22 de junho de 2013

1. Em cada um dos itens abaixo, dê, se possível, um exemplo de um polinômio p(x) satisfa-
zendo todas as condições dadas.
Caso o exemplo não seja possível, justifique a sua resposta.
Lembre-se que se p(x) = a0 + a1 x + a2 x2 + · · · + an−1 xn−1 + an xn então

p0 (x) = a1 + 2a2 x + · · · + (n − 1)an−1 xn−2 + nan xn−1

(a) p(1) = p(−1) = 0, p0 (0) = 1 e p(x) é de grau 2.


(b) p(1) = p(−1) = 0 e p0 (0) = 1.
(c) p(1) = p(−1) = 0, p0 (0) = 0 e p(x) é de grau 2.
(d) p(1) = p(−1) = 0, p(0) = p(2) = 1 e p(x) é de grau 2.
(e) p(1) = p(−1) = 0, p(0) = p(2) = 1 e p(x) é de grau 3.

Uma solução:

[pontuação total: 2,0]

(a) (0,4 ponto) Como x1 = 1 e x2 = −1 são raízes de p e p é um polinômio de grau 2,


então, pela simetria do gráfico das funções quadráticas, em seu ponto médio, x0 = 0,
deve ocorre um extremo de p. Logo, deve-se ter p0 (0) = 0.
Uma outra solução é a seguinte: como p(x) = a(x − 1)(x + 1) = ax2 − a, para algum
a 6= 0, já que x1 = 1 e x2 = −1 são raízes, então p0 (x) = 2ax e p0 (0) = 0.
Portanto, o exemplo não é possível.
(b) (0,4 ponto) Consideremos, por exemplo, o polinômio de grau 3, p(x) = a x3 + b x2 +
c x + d. Então, p0 (x) = 3 a x2 + 2 b x + c. Logo, para satisfazer as condições dadas,
deve-se ter:

 a+b+c+d=0

−a + b − c + d = 0

c=1

Isto é: a = −1, b = −d e c = 1. Portanto, pode-se tomar como exemplo: p(x) =
−x3 + x.
(c) (0,4 ponto) Pelo mesmo argumento do item (a), a condição p0 (0) = 0 é corolário da
condição p(1) = p(−1) = 0. Logo, basta garantir que p(1) = p(−1) = 0.
Portanto, pode-se tomar como exemplo: p(x) = x2 − 1.
(d) (0,4 ponto) Consideremos o polinômio de grau 2, p(x) = a x2 +b x+c. Para satisfazer
as condições dadas, deve-se ter:


 a+b+c=0

 a−b+c=0


 c=1

4a + 2b + c = 1
Entretanto, substituindo c = 1 nas duas primeiras equações conclui-se que a = −1 e
b = 0, o que contradiz a última equação. Logo, o sistema não tem soluções.
Portanto, o exemplo não é possível.
(e) (0,4 ponto) Consideremos, por exemplo, o polinômio de grau 3, p(x) = a x3 + b x2 +
c x + d. Para satisfazer as condições dadas, deve-se ter:


 a+b+c+d=0

 −a + b − c + d = 0


 d=1

8a + 4b + 2c + d = 1
Substituindo d = 1 nas duas primeiras equações conclui-se que b = −1 e a + c = 0.
Da última equação, segue que a = 32 e c = − 23 .
Portanto, o (único) exemplo possível é: p(x) = 23 x3 − x2 − 32 x + 1.

2. Um número real x0 é raiz de multiplicidade k do polinômio p(x) se p(x) = (x − x0 )k q(x),


para algum polinômio q(x), com q(x0 ) 6= 0.
Sugestão para resolver os ítens abaixo: Use o fato de que toda função polinomial é uma
função contínua e que "Se f é uma função real contínua e f (x0 ) 6= 0, então existe uma
vizinhança de x0 em que f não se anula".

(a) Mostre que x0 é raiz de multiplicidade par de p(x) se, e somente se, existe r > 0 tal
que p(x) não muda de sinal para x pertencente ao conjunto ]x0 − r, x0 + r[ \{x0 } =
{x ∈ R : x0 − r < x < x0 + r, x 6= x0 }.

2
(b) Mostre que x0 é raiz de multiplicidade ímpar de p(x) se, e somente se, existe r > 0 tal
que o sinal de p(x) para x ∈ ]x0 −r, x0 [ é oposto ao sinal de p(x) para x ∈ ]x0 , x0 +r[ .
(c) Interprete geometricamente os resultados dos dois ítens anteriores.

Uma solução:

[pontuação total: 2,0]


Nesta questão, embora não explicitamente afirmado, deve-se supor, como uma hipótese
global, que x0 é uma raiz de p(x), embora a parte b) possa ser provada sem que isto seja
assumido.
Tem-se que q(x0 ) 6= 0, digamos q(x0 ) > 0. Então, existe r > 0 tal que q(x) > 0 ∀ x ∈ I,
em que I é o intervalo ]x0 −r, x0 +r[ . Como p(x) = (x−x0 )k q(x), então p(x) e (x−x0 )k
possuem o mesmo sinal em I \ {x0 } (se q(x0 ) < 0, p(x) e (x − x0 )k terão sinais opostos
em I \ {x0 }, e as conclusões dos itens a seguir valerão com os sinais contrários).

(a) (0,8 ponto) Tem-se que k é par se, e somente se, (x − x0 )k > 0, ∀ x ∈ I \ {x0 }.
Logo, k é par se, e somente se, p(x) > 0, ∀ x ∈ I \ {x0 }.
(b) (0,8 ponto) Tem-se que k é ímpar se, e somente se, (x − x0 )k < 0, ∀ x ∈ ]x0 − r, x0 [
e (x − x0 )k > 0, ∀ x ∈ ]x0 , x0 + r[ . Logo, k é ímpar se, e somente se, p(x) < 0,
∀ x ∈ ]x0 − r, x0 [ e p(x) > 0, ∀ x ∈ ]x0 , x0 + r[ .
(c) (0,4 ponto) Geometricamente, tem-se que:
i. se a multiplicidade de x0 é par, então o gráfico de p “toca” o eixo em x0 , no sentido
em que, próximo ao ponto (x0 , 0), fica no mesmo semi-plano determinado pelo
eixo horizontal;
ii. se a multiplicidade de x0 é ímpar, então o gráfico de p “cruza” o eixo em x0 , no
sentido em que, próximo ao ponto (x0 , 0), fica em semi-planos opostos determi-
nados pelo eixo horizontal.

3. A massa de certas substâncias radioativas decresce a uma taxa proporcional à própria


massa. A meia-vida T de uma substância como essa é definida como o tempo transcorrido
para que sua massa se reduza à metade da inicial. Considere uma substância radioativa S
que cuja meia-vida é de 5.000 anos.

(a) Considere uma massa de m0 = 7 g da substância S. Qual é o tempo transcorrido


para a massa se reduza a 18 da inicial? Este tempo depende da massa inicial m0 ?
Justifique sua resposta.

3
(b) Determine a função m : [ 0, +∞[ → R que dá a massa da substância S, com massa
inicial m0 , em função do tempo medido em anos.
(c) Use as aproximações log (2) ∼
10 = 0, 3 e log (5) ∼
10 = 0, 7 para determinar uma apro-
ximação para o tempo gasto para a massa da substância S se reduzir a 10% da
inicial.

Uma solução:

[pontuação total: 2,0]

(a) (0,2 ponto) Após os primeiros 5.000 anos, a massa será igual m1 = 12 m0 . Após mais
5.000 a massa será m2 = 21 m1 = 14 m0 ; e após outros 5.000, esta será m3 = 21 m2 =
1
8
m0 . Portanto, são decorridos 15.000 para que a massa se reduza a 18 da inicial.
Independentemente de m0 = 7g ou outro valor, o tempo para que a massa seja
reduzida a 81 da inicial será sempre de 15.000 anos.
Como este argumento mostra, devido à definição de meia-vida, a resposta não depende
do valor da massa inicial.
(b) (0,8 ponto) Consideremos uma variável s representando o tempo medido em unidades
de 5.000 anos. Como a cada 5.000 anos, a massa cai a metade, então a massa em
função de s é dada por:
1
m(s) = s m0 .
2
Se t é uma variável representando o tempo medido em anos, então t = 5.000 s.
Portanto:
1
m(t) = t/5.000 m0 .
2
1
(c) (1,0 ponto) Devemos resolver a equação m(t) = 10
m0 , que corresponde a 2t/5.000 =
10. Portanto, temos:

t log10 5
= log2 10 = 1 + log2 5 = 1 +
5.000 log10 2
Logo:
   
log10 5 7 50.000
t = 5.000 1 + ' 5.000 1 + = ' 16.667 anos.
log10 2 3 3

4
4. Considere uma reta r, um ponto A 6∈ r e três pontos B, C, D ∈ r, tais que C está entre
B e D. Em cada um dos itens a seguir, decida se os dados são suficientes para determinar
com certeza as medidas de:
(i) cada um dos lados do triângulo ABC;
(ii) cada um dos ângulos do triângulo ABC.
Justifique rigorosamente as suas respostas.

[ = 60◦ ;
(a) BC = 1 e BAC
\ = 135◦ ;
(b) BC = 1 e ACD
[ = 60◦ e ACD
(c) BC = 1, BAC \ = 135◦ ;
[ = 60◦ e ACD
(d) BAC \ = 135◦ .

Uma solução:

[pontuação total: 2,0]


Sejam a = BC, b = AC e c = AB.

(a) (0,5 ponto) Pela Lei dos Cossenos, temos: a2 = b2 + c2 − 2 b c cos(BAC).


[ Isto é:

b2 + c 2 − b c = 1 .

Quaisquer soluções da equação acima satisfazem às condições dadas. Podemos tomar,


por exemplo, os triângulos T1 e T2 , como lados dados respectivamente por:
√ √
3 2 3
a1 = b 1 = c 1 = 1 a2 = 1, b2 = , c2 =
3 3
Além de terem lados diferentes, estes triângulos possuem, claramente, ângulos dife-
rentes (isto é, não são semelhantes), uma vez que o primeiro é equilátero e o segundo
não.
Portanto, não é possível determinar com certeza as medidas dos lados ou dos ângulos
do triângulo. De fato, o lugar geométrico dos pontos A que satisfazem as condições
dadas formam um arco de círculo (chamado arco capaz). Portanto, há infinitos
triângulos satisfazendo essas condições.
(b) (0,5 ponto) Pela Lei dos Cossenos, temos: c2 = a2 + b2 − 2 a b cos(BCA).
[ Isto é:

c 2 = 1 + b2 − 2b.

5
Como no item anterior, quaisquer soluções da equação acima satisfazem às condi-
ções dadas. Podemos tomar, por exemplo, os triângulos T1 e T2 , como lados dados
respectivamente por:

√ √ √
a1 = c1 = 1 , b1 = 2 a2 = 1, b2 = 2 2, c2 = 5

De forma análoga ao item anterior, estes triângulos possuem, claramente, ângulos


diferentes (isto é, não são semelhantes), uma vez que o primeiro é isósceles e o
segundo não.
Portanto, não é possível determinar com certeza as medidas dos lados ou dos ângulos
do triângulo. De fato, o lugar geométrico dos pontos A que satisfazem as condições
~ Portanto, há infinitos triângulos satisfazendo essas condições.
dadas é a semi-reta CA.
(c) (0,5 ponto) Neste caso, os ângulos do triângulo estão determinados, pois temos:

[ = 60◦
BAC [ = 45◦
BCA [ = 75◦
ABC
sen (BAC)
[ sen (ABC)
[ sen (BCA)
[
Pela Lei dos Senos, temos: = = .
a b c
Temos
√ √ que √ sen (75◦ )√= sen (45◦ + 30◦ ) = sen (45◦ ) cos(30◦ ) + cos(45◦ ) sen (30◦ ) =
2 3 21 2 √
+ = ( 3 + 1).
2 2 2 2 4
Isto permite determinar também as medidas dos lados dos triângulo:
√ √ √ √
3 2( 3 + 1) 2
= =
2 4b 2c
Portanto:
√ √ √ √
2( 3 + 1) 2( 3 + 3)
b= √ =
√ 2 √3 6
2 6
c= √ =
3 3
Como as condições dadas nesse item são a união das condições dos itens (a) e (b),
o ponto A que satisfaz essas condições está na interseção dos lugares geométricos
mencionados nos itens (a) e (b) (arco de círculo e semi-reta). Portanto, há um único
triângulo satisfazendo às condições dadas.
(d) (0,5 ponto) Neste caso, os ângulos do triângulo estão determinados, pois temos:

[ = 60◦
BAC [ = 45◦
BCA [ = 75◦
ABC

6
Porém como não há nenhuma informação sobre as medidas dos lados, não é possível
determiná-las. De fato, há uma família de triângulos semelhantes que satisfazem as
condições dadas.

5. A figura a seguir representa um esboço do gráfico da função g : ]0, +∞[ → R definida por
g(x) = sen (log10 (x)), feito por um aplicativo computacional. Observe que o aplicativo não
conseguiu desenhar em detalhes o que ocorre perto da origem do sistema de coordenadas.

(a) Determine todas as raízes da equação g(x) = 0. É possível determinar a menor raiz?
(b) Faça um esboço do gráfico de g na janela gráfica 0 < x < 0, 1 e −2 < y < 2.
(c) Considere um sistema de coordenadas x0 y em que o eixo horizontal x0 está em escala
logarítmica decimal (isto é, se x representa um eixo em coordenadas cartesianas
convencionais, então x0 = log10 x) e o eixo vertical y está em coordenadas cartesianas
convencionais. Faça um esboço do gráfico de g neste sistema, para 10−4 < x < 104
e −2 < y < 2.

Uma solução:

[pontuação total: 2,0]

(a) (0,6 ponto) Temos que:

sen (log10 x) = 0 ⇔ log10 x = k π , k ∈ Z ⇔ x = 10k π , k ∈ Z

7
Então, tomando valores negativos de k, obtemos raízes tão próximas de 0 quanto se
queira. Portanto, não existe uma raiz mínima para a equação.
(b) (0,7 ponto) Nesta janela, o gráfico terá o seguinte aspecto:

(c) (0,7 ponto) No sistema de variáveis x0 y, a equação de g adquire a forma g(x0 ) =


sen (x). Portanto, neste sistema de eixos o gráfico terá o aspecto de uma curva
senóide. Neste intervalo da variável x, encontram-se as raízes: x1 = 10−π ' 0, 001,
x2 = 1 e x3 = 10π ' 1000.
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MA11 – Números e Funções Reais


Avaliação 3 - GABARITO
06 de julho de 2013

1. (1,5 pontos) Determine se as afirmações a seguir são verdadeiras ou falsas, justificando


adequadamente e em detalhes as suas respostas.

(a) (0,5 ponto) Se f : R → R e g : R → R são funções monótonas crescentes, então


a função soma f + g : R → R, definida por (f + g)(x) = f (x) + g(x) é monótona
crescente.
(b) (0,5 ponto) Se f : R → R é uma função limitada superiormente, então f admite um
ponto de máximo absoluto.
(c) (0,5 ponto) Se f : R → R admite um ponto de máximo local, então f admite um
ponto de máximo absoluto.

2. (2,0 pontos) Da mesma forma que se expressa um número real no sistema de numeração
decimal, é possível expressá-lo em um sistema de numeração posicional qualquer, de base
β ∈ N, β > 2. Dizemos que um número a ∈ R está expresso no sistema de base β se ele
é escrito na forma:
+∞
X
a = a0 + ak β −k
k=1

em que a0 ∈ Z e os ak são dígitos entre 0 e β − 1 (incluindo-os).

(a) (1,0 ponto) Mostre que, se um número x ∈ R é irracional, então x possui represen-
tação infinita em toda base β.
(b) (1,0 ponto) Reciprocamente, mostre que, se um número x ∈ R possui representação
infinita em toda base β, então x é irracional.

3. (2,0 pontos) Considere a função p1 : R → R, p1 (x) = (x2 − 1)2 . A figura abaixo mostra
o gráfico de uma função p2 : R → R na forma p2 (x) = c p1 (a x − b) + d, sendo a, b, c e d
constantes reais. Determine a, b, c e d. Justifique sua resposta.
4. (2,0 pontos) Considere as funções u, v : R → R, definidas por u(x) = 2 sen (x) e v(x) =
sen (2x ).

(a) (1,0 ponto) Determine o maior e menor valores atingidos por u e v.


(b) (1,0 ponto) Esboce os gráficos de u e de v.

1
5. (2,5 pontos) Considere a função g : R∗ → R, g(x) = 21− x .

(a) (1,0 ponto) Faça um esboço o gráfico de g.


(b) (0,75 ponto) Determine todas as soluções reais das equações g(x) = 2 e g(x) = 4.
(c) (0,75 ponto) Resolva a inequação g(x) < 4, para x ∈ R.

2
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MA11 – Números e Funções Reais


Avaliação 1 – Gabarito

1. (a) Verdadeiro.
Sejam x1 , x2 ∈ R, com x1 < x2 . Como f e g são monótonas crescentes, então
f (x1 ) < f (x2 ) e g(x1 ) < g(x2 ). Logo, f (x1 ) + g(x1 ) < f (x2 ) + g(x2 ). Portanto,
f + g é monótona crescente.
(b) Falso.
Contra-exemplo: A função f : R → R, f (x) = −2x é limitada superiormente, mas
não admite um ponto de máximo absoluto.
(c) Falso.
Contra-exemplo: A função f : R → R, f (x) = (x2 −1)2 admite um ponto de máximo
local em (0, 1), mas não um ponto de máximo absoluto.

2. (a) Suponhamos que x tenha representação finita em alguma base β. Então, pela defini-
ção (dada no enunciado da questão), x é soma finita de números racionais, portanto
é racional.
(b) Suponhamos que x seja racional; pelo algoritmo da divisão, podemos supor, sem
a
perda de generalidade, que 0 ≤ x < 1. Então x se escreve na forma x = , com
b
a, b ∈ N, 0 ≤ a < b. Consideremos o sistema de numeração posicional β = b.
Como x = a b−1 , então, por definição, esta é a representação de x na base b (isto é,
xb = 0, a). Assim, existe uma base em que x possui representação finita.

3. O gráfico da função p1 tem o aspecto mostrado na figura abaixo. O gráfico de p2 é dado


pela aplicação de translações e de dilatações no gráfico de p1 .

1
Observemos primeiro os efeitos da translação e da dilatação horizontais, determinadas pelas
constantes a e b. Os pontos (−1, 0) e (1, 0) são transformados nos pontos − 12 , 0 e 12 , 0 ,
 

respectivamente. Assim, a distância entre as abscissas desses pontos é multiplicada pelo


fator 21 . Podemos concluir que a = 2. Como o eixo de simetria vertical não se altera, não
há deslocamento horizontal, isto é, b = 0.
Passemos agora a analisar a translação e a dilatação verticais, determinadas pelas constan-
tes c e d. Observamos que não há dilatação vertical do gráfico, pois as distâncias entre as
ordenadas de pontos do gráfico de p1 e as distâncias entre as ordenadas dos correspondentes
pontos do gráfico de p2 permanecem as mesmas. Isto pode ser facilmente visto olhando-se
os pontos de máximo e de mínimo locais das funções. Segue que c = 1. Finalmente, como
a ordenada de (0, 1) é subtraída de duas unidades, concluímos que d = −2 (translação
vertical).
Desta forma, temos que:

a=2 b=0 c=1 d = −2

Portanto: p2 (x) = p1 (2 x) − 2 = ((2 x)2 − 1)2 − 2 = (4 x2 − 1)2 − 2.

4. (a) Como u é dada por uma função exponencial x 7→ 2x aplicada sobre a função seno e
esta função exponencial é estritamente crescente, segue que o valor de u será máximo
quando o valor de sen x for máximo e será mínimo quando o valor de sen x for
mínimo.

π
x= + 2 k π, k ∈ Z ⇔ sen (x) = 1 ⇔ u(x) = 2
2
3π 1
x= + 2 k π, k ∈ Z ⇔ sen (x) = −1 ⇔ u(x) =
2 2
1
Portanto, o maior e o menor valores atingidos por u são 2 e 2
.

2
Como v é dada pela função seno aplicada sobre outra função real, temos necessaria-
mente que −1 6 v(x) 6 1 ∀ x ∈ R. Mais precisamente, temos que:

π π 
v(x) = 1 ⇔ 2x = + 2 k π, k ∈ N ⇔ x = log2 + 2kπ , k ∈ N
2 2 
x 3π 3π
v(x) = −1 ⇔ 2 = + 2 k π, k ∈ N ⇔ x = log2 + 2kπ , k ∈ N
2 2

Portanto, o maior e o menor valores atingidos por v são 1 e −1.


(b) Com base no item anterior, concluímos que os gráficos de u e de v têm os seguintes
aspectos:

3
5. (a) Quando x cresce muito em valor absoluto (isto é, quando x tende a ±∞), o expoente
1 − x1 se aproxima de 1, portanto g(x) se aproxima de 2. Quando x se aproxima de 0
com valores positivos, o expoente 1 − x1 tende de −∞, logo g(x) se aproxima de 0.
Quando x se aproxima de 0 com valores negativos, o expoente 1 − x1 tende de +∞,
logo g(x) também tende de +∞. Logo, o gráfico de g tem o seguinte aspecto:

1
(b) Para que tivéssemos g(x) = 2, deveríamos ter 1 − x
= 1. Portanto, a equação
g(x) = 2 não possui soluções reais.
Resolvendo a equação g(x) = 4, temos

1 1
g(x) = 4 ⇔ 1 − = 2 ⇔ = −1 ⇔ x = −1
x x
Portanto, a única solução real da equação g(x) = 2 é x = −1.
(c) Em primeiro lugar, observamos que, como a função exponencial é estritamente cres-
cente, então:

1
g(x) < 4 ⇔ 1 − <2
x
Então:

1
g(x) < 4 ⇔ > −1
x
Para continuar a resolução da inequação, devemos considerar separadamente os casos
em x > 0 e x < 0:
1
• Se x > 0, então x
> −1 ⇔ x > −1.

4
1
• Se x < 0, então x
> −1 ⇔ x < −1.
Portanto a solução da inequação é dada pelo conjunto ] − ∞, −1[ ∪ ] 0, +∞[ .
Observe que esta solução pode ser visualizada no gráfico de g, pelos pontos do domínio
cujas imagens ficam abaixo da reta y = 4.

5
Sociedade Brasileira de Matemática
Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional

MA11 – Números e Funções Reais


Avaliação de Recuperação GABARITO - MA 11
23 de novembro de 2013

1. (valor 2,0)
Determine se as afirmações a seguir são verdadeiras ou falsas, justificando adequadamente e
em detalhes as suas respostas.
a) O produto de dois números irracionais é um número irracional.(0,5)
1
b) Se a ∈ R não possui representação decimal finita, então também não possui represen-
a
tação decimal finita.(0,5)
c) Se f : R → R possui um ponto de máximo em x0 ∈ R, então a função f 2 : R → R
definida por f 2 (x) = f (x).f (x), ∀x ∈ R, também possui um ponto de máximo em x0 .(0,5)
d) Se a função f 2 : R → R possui um ponto de mínimo em x0 ∈ R, então f : R → R
também possui um ponto de mínimo em x0 .(0,5)

Uma solução:
a) Falso.
√ √
Contra-exemplo: a = 2 e b = 8 são irracionais, mas a b = 4 ∈ Q.
b) Falso.
Contra-exemplo: a = 13 não possui representação decimal finita, mas a1 = 3.
c) Falso.
Contra-exemplo: Seja f : R → R, f (x) = −x2 . Então f possui um máximo absoluto em
x0 = 0, mas a função f 2 (x) = x4 não possui um ponto de máximo nesse ponto.
d) Falso.
Contra-exemplo: Seja f : R → R, definida por f (x) = −1, x 6= 0, f (0) = − 21 . Então a
função f 2 (x) = 1, x 6= 0, f (0) = 14 . Assim x0 = 0 é ponto de mínimo de f 2 , mas não é de f .

2. (valor 2,0)
Seja f : X → Y uma função injetiva e sejam A, B ⊂ X.
a) Mostre que f (A ∩ B) = f (A) ∩ f (B). Indique claramente em que ponto da demonstração
você usou a hipótese de injetividade. (1,0)
b) A igualdade de conjuntos demonstrada no item anterior continua valendo sem a hipótese
de que f é injetiva? Justifique sua resposta, com uma demonstração ou um contra-exemplo.
(1,0)
Uma solução:
a) Seja y ∈ f (A ∩ B). Então, ∃ x ∈ A ∩ B tal que f (x) = y. Logo, x ∈ A e x ∈ B, portanto
y = f (x) ∈ f (A) e y = f (x) ∈ f (B). Então, y ∈ f (A) e y ∈ f (B), portanto y ∈ f (A) ∩ f (B).
Segue que f (A ∩ B) ⊂ f (A) ∩ f (B).
Reciprocamente, seja y ∈ f (A) ∩ f (B). Então, y ∈ f (A) e y ∈ f (B), portanto existem
x1 ∈ A tal que f (x1 ) = y e x2 ∈ A tal que f (x2 ) = y. Como f é injetiva e f (x1 ) =
f (x2 ), então x1 = x2 . Logo, x1 ∈ A ∩ B, portanto y = f (x1 ) ∈ f (A) ∩ f (B). Segue que
f (A) ∩ f (B) ⊂ f (A ∩ B).
b) A igualdade não vale sem a hipótese de injetividade, pois neste caso não é possível garantir
a inclusão f (A) ∩ f (B) ⊂ f (A ∩ B). Como, contra-exemplo, considere f : R → R, f (x) = |x|,
A = [−1, 0], B = [0, 1]. Então, f (A) = f (B) = [0, 1], logo f (A) ∩ f (B) = [0, 1]. Porém,
f (A ∩ B) = {0}.

3. (valor 2,0)

a) Mostre que o número p, em que p é um número natural primo, é irracional. (0,5)

b) Mostre que o número a, em que a é um natural qualquer, é inteiro ou irracional. (1,5)
r
(Sugestão: Suponha que a seja racional, escreva-o na forma irredutível a = , r, s ∈ N, s 6= 0,
√ s
e observe que a satisfaz x2 − a = 0)
Uma solução:
√ √ r
a) Se p fosse racional, então poderíamos escrevê-lo na forma p = , com mdc(r, s) = 1.
s
Logo s2 p = r2 ; portanto, sendo p primo, ele seria fator de r2 e também de r, isto é r = λp, para
algum λ ∈ N. Assim s2 p = λ2 p2 . Portanto p também seria fator de s, o que é uma contradição.
Este resultado também é uma consequência de b), que será demonstrado a seguir.
√ √ r
b) Suponhamos que a fosse racional então podemos escrever a = na forma irredutível.
√ s
Se s = 1, a seria inteiro e terminou. Vamos supor então que s 6= 1; neste caso s tem um fator
primo q. Vamos verificar que este q é fator comum de r e de s.
Isto é evidente pois r2 = as2 e portanto todo fator primo de s é também fator de r.

Isto é uma contradição e portanto a, caso não seja inteiro, deve ser irracional.

4. (valor 2,0)
Determine o polinômio p de menor grau possível que tenha uma raiz dupla em x = 1 e tal
que p(−1) = 2. Justifique sua resposta.

Uma solução:
A condição de x = 1 ser raiz dupla nos diz que o polinômio p de ter (x − 1)2 como fator.
Logo o grau de p deve ser maior ou igual do que 2. Como queremos que o grau seja o mínimo
possível, buscamos uma constante a tal que p(x) = a.(x − 1)2 satisfaça p(−1) = 2. É imediato
1 1
verificar que a = é a constante procurada. Logo p(x) = .(x − 1)2 .
2 2
5. (valor 2,0) Certas substâncias radioativas decaem a uma taxa proporcional à própria
massa. A meia-vida T de uma substância radioativa com essa propriedade é definida como o
tempo decorrido até que sua massa reduza-se à metade, isto é, se a massa de uma substância
com meia-vida T é dada pela função f : R+ → R+ , então f (t + T ) = 21 f (t), ∀ t > 0.
a) Se a meia-vida de uma substância radioativa é de 1 hora, qual é número inteiro mínimo
de horas que deve transcorrer para que sua massa fique menor do que 10% da original? (0,5)
b) Nas condições do ítem a), se a massa inicial dessa substância é m0 , deduza uma fórmula
para sua massa em função do tempo t > 0. (0,5)
c) Verificou-se que 2 kg de uma substância radioativa se reduziram a 500 g, depois de
transcorridas 3 horas. Qual é a meia vida dessa substância? (0,5)
d) Nas condições do ítem c), deduza uma fórmula para a massa dessa substância em função
do tempo t > 0 medido em horas. (0,5)

Uma solução:
a) Neste caso, depois de transcorridas k horas, com k ∈ N, a massa da substância terá ser
1 1
reduzido a k da original. Assim, depois de 3h passadas, a massa terá se reduzido a da original;
2 8
1
e depois de 4h, a da original. Portanto, o número mínimo inteiro para que a massa fique
16
1
inferior a da original é de 4 horas.
10
b) Se a cada hora a massa decai a metade, então depois de t horas, a massa será dada pela
1
função f : R+ → R+ , f (t) = t m0 .
2
1
c) Se depois de transcorridas 3h a massa decai a da original, então depois de 1, 5 h a massa
4
1
era da original. Portanto, a meia vida da substância é de T = 1, 5 horas.
2
d) Seja m0 a massa original da substância. Considere s e t as variáveis correspondentes ao
3
tempo medido em unidades de 1,5h e de 1h, respectivamente. Então, t = s. Então, depois de
2
1
transcorrido um tempo s, a massa da substância terá se reduzido a s m0 . Portanto, a função
2 2
que dá a massa em função do tempo medido em horas é f : R+ → R+ , f (t) = 2− 3 t m0 .
MA11 – Números e Funções Reais – AV1 – 2014

Questão 1 [ 2,0 pt ]

Sejam A, B, C conjuntos. Prove que

(a) A − (B ∪ C) = (A − B) ∩ (A − C).

(b) A − (B ∩ C) = (A − B) ∪ (A − C).

As identidades acima são versões para três conjuntos das “leis de De Morgan”, em homenagem ao matemático
Augustus De Morgan (1806-1871), um dos pais da lógica matemática moderna.

Solução
(a) Inicialmente vamos mostrar que A − (B ∪ C) ⊆ (A − B) ∩ (A − C). De fato, se x ∈ A − (B ∪ C), então x ∈ A e x 6∈ B ∪ C,
isto é, x ∈ A, x 6∈ B e x 6∈ C. Como x ∈ A e x 6∈ B vemos que x ∈ A − B. Analogamente, como x ∈ A e x 6∈ C, vemos
que x ∈ A − C. Logo x ∈ (A − B) ∩ (A − C).

Reciprocamente, vamos mostrar que (A − B) ∩ (A − C) ⊆ A − (B ∪ C). Se x ∈ (A − B) ∩ (A − C), então x ∈ A − B e


x ∈ A − C, isto é, x ∈ A, x 6∈ B e x 6∈ C. Desta forma, x ∈ A e x 6∈ B ∪ C, ou seja, x ∈ A − (B ∪ C).
Como A−(B ∪C) ⊆ (A−B)∩(A−C) e (A−B)∩(A−C) ⊆ A−(B ∪C), concluı́mos que A−(B ∪C) = (A−B)∩(A−C).
(b) Inicialmente, vamos provar que A − (B ∩ C) ⊆ (A − B) ∪ (A − C). Se x ∈ A − (B ∩ C), então x ∈ A e x 6∈ B ∩ C. Temos
então três possibilidades:
(i) x ∈ A, x ∈ B e x 6∈ C;
(ii) x ∈ A, x 6∈ B e x ∈ C;
(iii) x ∈ A, x 6∈ B e x 6∈ C.
No caso (i) temos x ∈ A − C, no caso (ii) temos x ∈ A − B e no caso (iii) temos x ∈ A − B e x ∈ A − C. Assim x ∈
(A−B)∪(A−C). Observe que aqui temos o tı́pico caso de “ou” lógico, que engloba o caso (iii), onde x ∈ (A−C)∩(A−B).
Reciprocamente, se x ∈ (A − B) ∪ (A − C), então x ∈ A − C ou x ∈ A − B (onde, como dito acima, “ou” engloba o caso
x ∈ (A − B) ∩ (A − C)). Temos os seguintes casos a considerar:
(i) x ∈ A − B e x 6∈ A − C;
(ii) x ∈ A − C e x 6∈ A − B;
(iii) x ∈ A − B e x ∈ A − C.
No caso (i) temos x ∈ A, x 6∈ B e x 6∈ A − C, o que implica x ∈ A, x 6∈ B e x ∈ C, de onde segue que x ∈ A e x 6∈ B ∩ C,
isto é, x ∈ A − (B ∩ C). O caso (ii) é inteiramente análogo. No caso (iii), temos x ∈ A − B e x ∈ A − C, de onde
x ∈ A, x 6∈ B e x 6∈ C, o que implica x ∈ A − (B ∩ C). Logo (A − B) ∪ (A − C) ⊆ A − (B ∩ C), e portanto, os dois
conjuntos coincidem.

Questão 2 [ 2,0 pt ]

x
Prove que f : R → (−1, 1), f (x) = √ é uma bijeção.
1 + x2

Solução

(i) A função f é injetiva. Vamos mostrar que, se f (x1 ) = f (x2 ) então x1 = x2 . Temos
x1 x2
f (x1 ) = f (x2 ) ⇒ p = p
1 + x21 1 + x22
x21 x22
⇒ 2
=
1 + x1 1 + x22
⇒ x21 + x21 x22 = x22 + x21 x22
⇒ x21 = x22 .

Substituindo esse resultado no denominador da equação


x1 x2
p = p ,
1 + x21 1 + x22
vemos que x1 = x2 . Logo f é injetiva.
(ii) A função f é sobrejetiva.
x
Dado y ∈ (−1, 1), vamos encontrar x ∈ R tal que f (x) = y. Resolvendo a equação √ = y, temos
1 + x2
x x2
√ =y⇒ = y2
1+x2 1 + x2
y2
⇒ x2 =
1 − y2
y
⇒x= p ,
1 − y2
−y x
pois a opção x = p pode ser descartada substituindo-a na equação √ = y. Logo f é sobrejetiva e,
1 − y2 1 + x2
portanto, é uma bijeção.

Questão 3 [ 2,0 pt ]

Prove que log10 2 não é um número racional.

Solução
Suponhamos por absurdo que log10 2 seja um número racional. Isto implica que existem p, q ∈ Z\{0}, primos entre si, tais que
p
log10 2 = .
q
Temos que
p
⇔ 10p/q = 2 ⇔ 10p = 2q ⇔ 2p .5p = 2q ⇔ 5p = 2q−p ,
log10 2 =
q
o que claramente um absurdo, visto que p, q 6= 0.
Observação: Podia-se notar também, a partir da identidade 10p = 2q , que 5 divide 10p mas não divide 2q , o que nos levaria
igualmente a uma contradição.

Questão 4 [ 2,0 pt ]

Apesar do “grau Celsius” (◦ C) ser a medida mais usada para a temperatura, alguns paı́ses, como os Estados
Unidos, usam outra medida de temperatura, o “grau Fahrenheit” (◦ F). Sabendo que os pontos de fusão e ebulição da
água são 0◦ C e 100◦ C, respectivamente, e 32◦ F e 212◦ F, respectivamente, determine uma função afim que relaciona
as temperaturas medidas em graus Celsius e graus Fahrenheit.

Solução
Denotemos por TF a temperatura em graus Fahrenheit e por TC a temperatura em graus Celsius.

Temos
TF − 32 212 − 32 TF − 32 180
= ⇒ = ,
TC − 0 100 − 0 TC 100
isto é,
5
TF = 1, 8TC + 32, ou TC = (TF − 32).
9

Questão 5 [ 2,0 pt ]

nm o
Considere o conjunto dos números racionais diádicos D = : m, n ∈ Z, n ≥ 0 .
2n
(a) Prove que se a e b são números reais tais que a < b, então existe d ∈ D tal que a < d < b.

(b) A partir do item (a) conclua que em qualquer intervalo (a, b) existem infinitos números racionais diádicos.

Solução

1
(a) Seja n ∈ N tal que 0 < n
< b − a. Logo 2n b − 2n a > 1. Como 2n b e 2n a estão a uma distância maior que 1, segue que
2
existe m ∈ Z tal que 2n a < m < 2n b. Portanto a < 2mn < b.
1 m
(b) Seja n0 um número natural tal que 0 < n < b−a. Usando o item (a), existe um número diádico n ∈ (a, b). Tomando
2 0 2 0
1 1
n > n0 temos 0 < n < n < b − a e desta forma, seguindo a construção do item (a), para cada n > n0 existe um
2 2 0
número diádico pertencente ao intervalo (a, b). Portanto, existem infinitos números diádicos no intervalo (a, b).
MA11 – Números e Funções Reais – AV2 – 2014

Questão 1 [ 2,0 pt ]

Divide-se um arame de comprimento L em duas partes. Uma das partes estará destinada para construir
um quadrado e a outra parte para construir um triângulo equilátero. Qual é o comprimento de cada parte
para que a soma das áreas das figuras obtidas seja a menor possı́vel? É possı́vel encontrar uma divisão tal
que a soma das áreas do quadrado e do triângulo equilátero seja máxima? Justifique.

Solução
Denotemos por x o lado do quadrado e por y o lado do triângulo equilátero. A soma das áreas das duas figuras é

2 2 3
A=x +y . (1)
4
Seja L o comprimento do arame. Temos
L = 4x + 3y,

de onde segue
L − 4x
y= . (2)
3
Substituindo (2) em (1), temos
√ √ ! √ √
2 3 4 3 2 3 3 2
A(x) = x + (L − 4x)2 = 1+ 2
x − Lx + L .
36 9 9 36

Como x e y são grandezas positivas, devemos ter

x ∈ (0, L/4).

Note que a obrigatoriedade da divisão em duas partes impede que o intervalo da definição de x seja fechado em
qualquer um dos extremos. Como A(x) é uma função quadrática com coeficiente lider positivo, A(x) assume um
valor mı́nimo em R no ponto √
2 3

L 3L
x0 =  9 √  = √ .
2 1+ 94 3 9+4 3

Como √ √
3L L 4 3
√ < ⇔ √ < 1,
9+4 3 4 9+4 3
vemos que x0 ∈ (0, L/4). Logo x0 é o ponto de mı́nimo para A(x). Assim, os comprimentos que resultam em área
mı́nima são √
3 L − 4x0 3
x0 = √ L, y0 = = √ L.
9+4 3 3 9+4 3
O valor máximo deveria ser atingido em um dos extremos do intervalo, mas como já observamos, nos extremos do
intervalo não temos divisão do arame em duas partes. Logo não há uma divisão que nos dê uma área máxima.
Questão 2 [ 2,0 pt ]

(a) Usando o fato de que x4 = (x4 + 1) − 1, mostre que

x2014 = ((x4 + 1) − 1)503 · x2 = [(x4 + 1) · q(x) + (−1)503 ] · x2

para algum polinômio q(x). Conclua que o resto da divisão de x2014 por x4 + 1 é −x2 .

(b) Determine o resto da divisão do polinômio p(x) = 2x2014 + 15x5 + 9x − 2014 pelo polinômio d(x) =
x4 + 1.

Sugestão para o item (b): Use o fato que o resto da divisão de p1 (x) + p2 (x) por d(x) é igual à soma
r1 (x) + r2 (x) dos restos r1 (x) e r2 (x) das divisões de p1 (x) e p2 (x) por d(x), respectivamente.

Solução

(a) Usando a expansão pelo Binômio de Newton, temos

x2014 = x4×503 · x2 = ((x4 + 1) − 1)503 · x2


503   !
X 503 4 k 503−k
= (x + 1) (−1) · x2
k
k=0
503   !
503 4
X 503 4 k−1 503−k
= (−1) + (x + 1) (x + 1) (−1) · x2
k
k=1

= (−1) + (x + 1)q(x) · x2 ,
503 4


isto é,
x2014 = (x2 q(x))(x4 + 1) − x2 ,
503  
X 503
onde q(x) = (x4 + 1)k−1 (−1)503−k . Portanto −x2 é o resto da divisão de x2014 por x4 + 1.
k
k=1

(b) Temos

2x2014 + 15x5 + 9x − 2014 = 2(x2 q(x))(x4 + 1) − 2x2 + 15x(x4 + 1) − 15x + 9x − 2014


= (2x2 q(x) + 15x)(x4 + 1) − 2x2 − 6x − 2014.

Assim, o resto da divisão de p(x) por x4 + 1 é r(x) = −2x2 − 6x − 2014.

Questão 3 [ 2,0 pt ]

Seja f : R+ → R uma função crescente tal que f (xy) = f (x) + f (y) para quaisquer x, y ∈ R+ . Mostre que
existe a > 0 tal que f (x) = loga x para todo x ∈ R+ .

Solução
Teorema 8.8 do livro-texto.
Questão 4 [ 2,0 pt ]

Observações por longo tempo mostram que, após perı́odos de mesma duração, a população de uma cidade
fica multiplicada pelo mesmo fator. Sabendo-se que a população de uma cidade era de 750 mil habitantes
em 1990 e 1 milhão de habitantes em 2010, calcule:

(a) A população estimada para 2020;

(b) Em que ano a população da cidade alcançará a marca de 2 milhões de habitantes?

Observação: Caso julgue necessário, use as igualdades aproximadas a seguir: ln 4 = 1, 386, ln 3 = 1, 098,
e0,144 = 1, 154

Solução
Denotemos por a o fator de multiplicação e por P (t) a população no ano t. Fixado um ano t0 , temos

P (1 + t0 ) = aP (t0 ), P (2 + t0 ) = aP (1 + t0 ) = a2 P (t0 ), · · · , P (n + t0 ) = an P (t0 ).

Fazendo t = t0 + n, temos
P (t) = at−t0 P (t0 ).

(a) Temos
1 000 000 4
P (2010) = a2010−1990 P (1990) ⇒ 1 000 000 = a20 × 750 000 ⇒ a20 = = .
750 000 3
Isto implica
1
ln a = (ln 4 − ln 3)
20
1
= (1, 386 − 1, 098)
20
= 0, 0144.

Usando esses dados, temos

P (2020) = a2020−2010 P (2010) = a10 × 1 000 000


= (eln a )10 × 1 000 000 = e10×ln a 1 000 000
0,144
= e × 1 000 000 = 1 154 000,

isto é, a população em 2020 será de 1 154 000 habitantes.

(b) Denote por t o ano em que a população alcançará a marca de 2 milhões de habitantes. Temos

P (t) = 2 000 000 = at−2010 P (2010) = at−2010 × 1 000 000,

isto é,
at−2010 = 2 ⇒ (t − 2010) ln a = ln 2.

Isto implica
ln 2 ln 4 0, 693
t = 2010 + = 2010 + = 2010 + ≈ 2010 + 48, 1.
ln a 2 ln a 0, 0144
Assim a população atingirá 2 milhões de habitantes no inı́cio de 2058.
Questão 5 [ 2,0 pt ]

Resolva a equação    
1+x 1−x π
arctg + arctg = .
2 2 4

Solução    
1+x 1−x π
Denote por α = arctg e β = arctg . Desta forma, temos α + β = . Calculando a tangente desse
2 2 4
ângulo e aplicando a fórmula da tangente da soma de dois ângulos, temos
π
1 = tg = tg(α + β)
4
tg(α) + tg(β)
=
1 − tg(α)tg(β)
   
1+x 1−x
+
2 2
=   
1+x 1−x
1−
2 2
1
= ,
1 − x2
1−
4
isto é,
1 − x2
1− = 1 ⇒ 1 − x2 = 0 ⇒ x = ±1.
4
Note que isso implica (α, β) = ( π4 , 0) ou (α, β) = (0, π4 ).
MA11 – Números e Funções Reais – AV3 – 2014

Questão 1 [ 2,0 pt ]

Sejam p e q dois números primos distintos.



(a) Mostre que pq é irracional.
√ √
(b) Use o item (a) para provar que p + q é irracional.

Solução
√ √ a
(a) Suponha que pq seja racional. Então existem a, b ∈ Z\{0}, primos entre si, tais que pq = . Temos
b
a2
pq = ⇒ a2 = b2 pq ⇒ p|a e q|a ⇒
b2
2 2 2 2
p |a e q |a ⇒ a2 = p2 q 2 r, r ∈ Z\{0} ⇒ p2 q 2 r = b2 pq ⇒
pqr = b2 ⇒ p|b e q|b,

mas isto é um absurdo, pois a e b são primos entre si.


√ √ √ √ a
(b) Suponha que p + q seja racional. Então existem a, b ∈ Z\{0}, primos entre si, tais que p + q = . Temos
b
a2 a2 1 a2
 
√ √ √ √
( p + q)2 = 2 ⇒ p + 2 pq + q = 2 ⇒ pq = − p − q ∈ Q,
b b 2 b2

e isto é um absurdo, pois pq é irracional pelo item (a).

Questão 2 [ 2,0 pt ]

Sejam X e Y conjuntos arbitrários e f : X → Y uma função. Prove que, se A, B ⊂ X então


(a) f (A ∪ B) = f (A) ∪ f (B)
(b) f (A ∩ B) ⊆ f (A) ∩ f (B).
(c) Dê um exemplo para o qual a igualdade de conjuntos no item (b) acima não ocorre.

Solução

(a) Inicialmente, mostraremos que f (A ∪ B) ⊆ f (A) ∪ f (B). Seja y ∈ f (A ∪ B). Então existe x ∈ A ∪ B tal
que f (x) = y. Se x ∈ A, então y ∈ f (A). Se x ∈ B, então f (x) ∈ f (B). Logo, f (x) ∈ f (A) ∪ f (B) e
f (A ∪ B) ⊆ f (A) ∪ f (B). Reciprocamente, se y ∈ f (A) ∪ f (B), então y ∈ f (A) ou y ∈ f (B). Se y ∈ f (A), então
existe x ∈ A e, portanto x ∈ A ∪ B, tal que f (x) = y. Se y ∈ f (B) então existe x ∈ B e, portanto, x ∈ A ∪ B,
tal que f (x) = y. Assim y ∈ f (A ∪ B) e f (A) ∪ f (B) ⊆ f (A ∪ B). Concluı́mos então que os dois conjuntos são
iguais.

(b) Dado y ∈ f (A ∩ B), existe x ∈ A ∩ B tal que f (x) = y. Como A ∩ B ⊆ A e A ∩ B ⊆ B, segue que y ∈ f (A) e
y ∈ f (B), isto é, y ∈ f (A) ∩ f (B).
(c) Para obter um contra-exemplo, vamos tentar provar a recı́proca do item (b). Dado y ∈ f (A) ∩ f (B), temos
que y ∈ f (A) e y ∈ f (B). Desta forma existem x1 ∈ A e x2 ∈ B tais que f (x1 ) = y = f (x2 ). Se f é injetiva,
então x1 = x2 = x ∈ A ∩ B, de onde segue que y ∈ f (A ∩ B). Assim, vemos que f (A) ∩ f (B) ⊆ f (A ∩ B) se f
é injetiva.

Vamos construir um exemplo de uma função não injetiva tal que a inclusão f (A) ∩ f (B) ⊆ f (A ∩ B) não
seja verdadeira. Seja f (x) = x2 , A = [−1, 0], B = [0, 1]. Temos que A ∩ B = {0}, f (A ∩ B) = {0} e
f (A) ∩ f (B) = [0, 1], de onde segue que f (A) ∩ f (B) 6= f (A ∩ B).

Questão 3 [ 2,0 pt ]

João tem uma fábrica de sorvetes. Ele vende, em média, 300 caixas de picolés por R$20, 00 cada caixa.
Entretanto, percebeu que, cada vez que diminuia R$1, 00 no preço da caixa, vendia 40 caixas a mais.
Considerando-se apenas valores inteiros de caixas e reais, quanto ele deveria cobrar pela caixa para que
sua receita fosse máxima?

Solução
Como a cada R$1, 00 que ele desconta no preço da caixa ele vende 40 caixas a mais, a receita R(n) da fábrica a cada
n reais descontados no preço da caixa é

R(n) = (300 + 40n)(20 − n) = 6000 + 500n − 40n2 .

Como R(n) é uma função quadrática em n com coeficiente lı́der negativo, vemos que R(n) atinge um ponto de
máximo para
500
n=− = 6, 25.
2 · (−40)
Por ser uma função quadrática de coeficiente lı́der negativo, R é decrescente para n > 6, 25 e crescente para n < 6, 25.
Assim o maior valor de R para n inteiro ocorre no inteiro mais próximo de 6, 25, isto é, para n = 6. Portanto, para
maximizar os lucros ele deve cobrar R$14, 00 por caixa.
Questão 4 [ 2,0 pt ]

Uma pessoa tomou 60 mg de uma certa medicação. A bula do remédio informava que a meia-vida do
medicamento era de seis horas. Como o paciente não sabia o significado da palavra meia-vida, foi a um
site de busca e encontrou a seguinte definição:
Meia-vida: tempo necessário para que uma grandeza (fı́sica, biológica) atinja metade de seu valor inicial.
(a) Após 12 horas da ingestão do remédio, qual é a quantidade do remédio ainda presente no organismo?
(b) E após 3 horas?
(c) Quanto tempo após a ingestão a quantidade de remédio no organismo é igual a 20 mg?

Caso julge necessário, use os dados 2 = 1, 4, ln 3 = 1, 1 e ln 2 = 0, 7.

Solução

(a) Seja C(t) a concentração após t horas. Temos

60 C(6)
C(6) = = 30mg C(12) = = 15mg.
2 2

(b) Temos C(6n) = 60 × 2−n , n ∈ N. Desta forma, fazendo 6n = t, temos C(t) = 60 × 2−t/6 . Logo

−3/6 60 2
C(3) = 60 × 2 = ≈ 60 × 0, 7 = 42 mg.
2

(c) Temos
1 ln 3 11
20 = 2−t/6 × 60 ⇒ = 2−t/6 ⇒ t = 6 × ≈6× ≈ 9, 4 horas.
3 ln 2 7

Questão 5 [ 2,0 pt ]

(a) Encontre uma expressão para sen 3x como um polinômio de coeficientes inteiros em termos de sen x.

(b) Mostre que sen 10◦ é raiz de um polinômio com coeficientes inteiros e use este fato para concluir que
sen 10◦ é irracional.

Solução

(a)

sen 3x = sen(2x + x) = sen 2x cos x + sen x cos 2x


= 2sen x cos2 x + sen x(1 − 2sen2 x)
= 2sen x(1 − sen2 x) + sen x − 2sen3 x
= 3sen x − 4sen3 x
= P (sen x),

onde P (u) = 3u − 4u3 .


p
(b) Suponhamos que sen 10◦ seja racional. Então existem p, q ∈ Z\{0}, primos entre si, tais que sen 10◦ = q.
Usando o item anterior, vemos que
1
= sen 30◦ = 3sen 10◦ − 4sen3 10◦
2
e isto implica que sen 10◦ é raiz da equação polinomial

8u3 − 6u + 1 = 0. (1)

Se p/q é raiz da equação polinomial (1), então


 3  
p p
8 −6 + 1 = 0 ⇔ 8p3 − 6pq 2 + q 3 = 0.
q q

Escrevendo a última equação acima das formas

8p3 = 6pq 2 − q 3 e q 3 = 6pq 2 − 8p3 ,

e observando que p e q são primos entre si, vemos que p|1 e q|8. Assim, as únicas possibilidades para as raizes
p 1 1 1
racionais são = , e , visto que sen 10◦ é positivo e diferente de 1. Como nenhum desses números é raiz
q 2 4 8
de (1), temos que (1) não tem raı́zes racionais e, visto que sen 10◦ é raiz de (1), concluı́mos que sen 10◦ é
irracional.
MA11 – Números e Funções Reais – AVF – 2014

Questão 1 [ 2,0 pt ]


Mostre que, para todo m > 0, a equação x + m = x tem exatamente uma raiz.

Solução
√ √
Inicialmente, observe que a equação só faz sentido para x ≥ 0, e como x ≥ 0, temos x = m + x ≥ m. Temos
√ √
x+m=x⇔ x = x − m ⇔ x = (x − m)2 ⇔ x = x2 − 2mx + m2 ⇔ x2 − (2m + 1)x + m2 = 0,

cujas soluções são √ √


2m + 1 + 4m + 1 2m + 1 − 4m + 1
x1 = e x2 = .
2 2

Como x ≥ m, a solução x2 não é válida. Assim a equação x + m = x possui uma única solução, a saber

2m + 1 + 4m + 1
x1 = .
2

Questão 2 [ 2,0 pt ]

(a) Seja p um número primo. Mostre que log10 p é irracional.

(b) Mais geralmente, dado n um número inteiro positivo, mostre que log10 n é racional se, e somente se,
n é uma potência de 10.

Solução
a
(a) Suponha que log10 p é racional. Então existem a, b ∈ Z\{0}, primos entre si, tais que log10 p = . Temos
b
a
10 b = p ⇒ 10a = pb ⇒ 2|pb e 5|pb ⇒ 2|p e 5|p,

o que é um absurdo, pois p é primo.


a
(b) Suponha que log10 n seja racional. Então existem a, b ∈ Z\{0}, primos entre si, tais que log10 n = . Temos
b
a
10 b = n ⇒ 10a = nb ⇒ 2|nb e 5|nb ⇒ 2|n e 5|n.

Por outro lado, se um número primo p divide n, então p|10a , e portanto p = 2 ou p = 5. Logo n = 2k 5r , mas
isto implica
10a = 2bk 5br ⇒ 2a 5a = 2bk 5br ⇒ bk = a = br ⇒ k = r.

Assim n = 10k . Reciprocamente, se n = 10k , então log10 n = k ∈ N ⊂ Q.


Questão 3 [ 2,0 pt ]

Seja f : R → R a função quadrática f (x) = ax2 + bx. Determine as constantes reais a e b de modo que
f −1 ({3}) = {−1, 32 } e, em seguida, determine o conjunto imagem de f.

Solução
Vamos encontrar a e b tais que f (−1) = f (3/2) = 3. Temos
9 3
3 = f (−1) = a − b, 3 = f (3/2) = a + b.
4 2
Resolvendo o sistema de equações lineares acima, temos a = 2 e b = −1. Assim

f (x) = 2x2 − x.

Denotemos por Im f a imagem de R por f. Como f (x) = x(2x − 1) tem raı́zes em x = 0 e x = 1/2, a simetria da
parábola nos garante que o vértice está localizado no ponto 41 , f ( 14 ) = ( 41 , − 18 ). Como a parábola tem concavidade


voltada para cima, podemos induzir que Im f = [− 18 , ∞). Vamos demonstrar este fato. De fato, dado y ∈ [− 18 , ∞),
a equação 2x2 − x = y tem soluções
√ √
1+ 1 + 8y 1 − 1 + 8y
x1 = e x2 = .
4 4
Note que essas soluções só estão bem definidas para y ≥ − 18 . Isto implica que [− 81 , ∞) ⊆ Im f. Por outro lado,
 2
1 1 1
f (x) = 2x2 − x = 2 x − − ≥ − , ∀ x ∈ R,
4 8 8

de onde segue que Im f ⊆ [− 81 , ∞). Assim Im f = [− 81 , ∞).

Questão 4 [ 2,0 pt ]

Seja p(x) um polinômio do sétimo grau tal que

p(1) = p(2) = p(3) = p(4) = p(5) = p(6) = p(7) = 10.

Sabendo que p(8) = 30, determine p(−3).

Solução
Seja q(x) = p(x) − 10. Então q(1) = q(2) = · · · = q(7) = 0. Isto implica que q(x) = a(x − 1)(x − 2) · · · (x − 7) para
algum a ∈ R. Como p(8) = 30, temos q(8) = 20. Isto implica 20 = a × 7!. Assim,
20
p(x) = (x − 1)(x − 2)(x − 3)(x − 4)(x − 5)(x − 6)(x − 7) + 10,
7!
de onde segue que
(−1)7 · 20 · 4 · 5 · 6 · 7 · 8 · 9 · 10
p(−3) = + 10 = −2400 + 10 = −2390.
2·3·4·5·6·7
Questão 5 [ 2,0 pt ]

(a) Mostre que, para qualquer número real x, vale a identidade


2 2
1 − x2
 
2x
+ = 1.
1 + x2 1 + x2

(b) Use o item anterior para mostrar que

1 − tg2 t 2tg t
cos 2t = 2 e sen 2t = .
1 + tg t 1 + tg2 t

Solução

(a)
2 2
1 − x2 1 + x4 + 2x2 (1 + x2 )2
 
2x
+ = = = 1.
1 + x2 1 + x2 2
(1 + x )2 (1 + x2 )2

(b) Usando o item anterior, vemos que existe β ∈ [0, 2π) tal que

1 − x2 2x
cos β = e sen β = .
1 + x2 1 + x2

Como tg : − π2 , π2 → R é uma função sobrejetiva, existe t ∈ − π2 , π2 tal que x = tg t. Substituindo x = tg t


 

nas expressões de cos β e sen β acima, vemos que

sen2 t
1−
cos β = cos2 t = cos 2t
sen2 t
1+
cos2 t
e
sen t
2
sen β = cos t = sen 2t.
sen2 t
1+
cos2 t
MESTRADO PROFISSIONAL EM MATEMÁTICA EM REDE NACIONAL

Avaliação 1 - MA11 - 2015.1 - Gabarito

Questão 01 [ 2,0 pts ]

Faça um esboço do conjunto dos pontos do plano tais que

bxc2 + byc2 = 4; x, y ∈ R,

onde bxc = max{m ∈ Z : m 6 x} representa o maior inteiro menor do que x ou igual a x.

Solução
Note que o número bxc é sempre um número inteiro, e então bxc2 é um inteiro não-negativo quadrado perfeito. Logo, as únicas
possı́veis soluções inteiras para a equação são bxc2 = 0, o que implica necessariamente byc2 = 4, ou bxc2 = 4 o que implica
byc2 = 0.
Temos
bxc2 = 0 ⇐⇒ bxc = 0 ⇐⇒ x ∈ [0, 1)

bxc2 = 4 ⇐⇒ bxc = ±2 ⇐⇒ x ∈ [−2, −1) ∪ [2, 3)

e analogamente para y. Desta forma, os pares ordenados (x, y) que satisfazem à equação são os que pertencem ao conjunto
     
[0, 1) × [−2, −1) ∪ [2, 3) ∪ [−2, −1) ∪ [2, 3) × [0, 1) ,

cujo esboço é

onde, na figura, os segmentos tracejados representam os pontos da fronteira que não pertencem ao conjunto e as linhas
contı́nuas, bem como as regiões internas pintadas, representam os pontos do conjunto.

Questão 02 [ 2,0 pts ]

Seja f : R → R uma função monótona injetiva. Prove que, se o acréscimo f (x + h) − f (x) = ϕ(h) depender apenas
de h, mas não de x, então f é uma função afim.
Solução
Teorema 5.11, página 102 do livro texto.

Questão 03 [ 2,0 pts ]

Os termos a1 , a2 , . . . , an de uma progressão aritmética positiva e crescente são os valores f (1), f (2), . . . , f (n) de
uma função afim.

(a) Mostre que cada ai é igual à área de um trapézio delimitado pelo gráfico de f, pelo eixo OX e pelas retas
verticais de equações
1 1
x=i− e x=i+ .
2 2
(b) Mostre que a soma S = a1 + a2 + · · · + an é igual à área do trapézio delimitado pelo gráfico de f, pelo eixo OX
1 1
e pelas retas verticais x = e x = n + .
2 2
(a1 + an )n
(c) Conclua que S = .
2

Solução

(a) A área do trapézio da figura é


1
+ f i − 12
  
f i+ 2
A= .
2
Visto que ai = f (i), onde f (x) = mx + b é uma função afim, temos

f i + 21 + f i − 12
  
2mi + 2b
A= =
2 2
= mi + b = f (i) = ai .
1 1

(b) Visto que o intervalo 2
,n + 2
pode ser particionado como
  [ n  
1 1 1 1
,n + = i − ,i + ,
2 2 i=1
2 2

o trapézio em questão pode ser particionado em n trapézios como os do item (a). Dessa forma a área do trapézio é
n  n
f i + 12 + f i − 12
 
X X
AT = = ai = S.
i=1
2 i=1
(c) A área do trapézio do item anterior é
 1
f 2 + f n + 12 n + 12 − 21 1 1
     
m· 2
+b+m n+ 2
+b n
AT = =
2 2
((m + b) + (mn + b))n f (1) + f (n)
= =
2 2
(a1 + an )n
= .
2
Como, pelo item (b), temos S = AT , concluı́mos o resultado desejado.

Questão 04 [ 2,0 pts ]

Dados dois conjuntos A e B, definimos o produto cartesiano de A por B, que denotamos por A × B, como sendo
o conjunto de todos os pares ordenados (a, b) tais que a ∈ A e b ∈ B, isto é, A × B = {(a, b)|a ∈ A, b ∈ B}.

(a) Determine, justificando, se o conjunto X = {(1, 3), (2, 3), (2, 4)} é um produto cartesiano de dois conjuntos.

(b) Suponha que A e B tenham exatamente 2 e 3 elementos, respectivamente. Quantos subconjuntos não vazios
de A × B são também produtos cartesianos?

Solução

(a)
O conjunto X não é um produto cartesiano, pois caso pudéssemos escrever X = A × B, deverı́amos ter {1, 2} ⊂ A e
{3, 4} ⊂ B e isto obrigaria termos (1, 4) ∈ A × B = X, o que não ocorre.

(b)
Sejam A = {a, b} e B = {x, y, z}. Os subconjuntos não vazios de A são {a}, {b}, e {a, b} e os subconjuntos não vazios
de B são {x}, {y}, {z}, {x, y}, {x, z}, {y, z}, e {x, y, z}. Os subconjuntos de A × B que são produtos cartesianos são
os produtos cartesianos dos subconjuntos não vazios de A pelos subconjuntos não vazios de B, o que nos dá 3 × 7 = 21
subconjuntos.

Questão 05 [ 2,0 pts ]


Sejam E e F conjuntos com pelo menos 2 elementos e f : E → F uma função.

(a) Prove que, se f é bijetiva então f (E\A) = F \f (A), ∀A ⊂ E.

(b) Reciprocamente, prove que se f (E\A) = F \f (A), ∀A ⊂ E, A 6= ∅ e A 6= E, então f : E → F é bijetiva.

Solução

(a) Inicialmente observe que, se f é bijetiva, a identidade vale trivialmente para A = ∅ e A = E, desta forma, vamos nos
ater à demonstração para subconjuntos não vazios com complementares não vazios.
Vamos provar primeiro que f (E\A) ⊂ F \f (A), ∀A ⊂ E. Dado y ∈ f (E\A), existe x ∈ E\A tal que f (x) = y.
Suponhamos por absurdo que y ∈ f (A). Nesse caso existe x1 ∈ A tal que f (x1 ) = y, isto é, f (x) = y = f (x1 ). Como f
é injetiva, segue que x1 = x, o que é um absurdo, pois x ∈ E\A. Logo y ∈ F \f (A) e, portanto, f (E\A) ⊂ F \f (A).
Reciprocamente, vamos mostrar que F \f (A) ⊂ f (E\A). Seja y ∈ F \f (A). Como f é sobrejetiva, existe x ∈ E tal que
f (x) = y. Suponhamos, por absurdo que x ∈ A. Nesse caso, y = f (x) ∈ f (A), o que é um absurdo. Logo x ∈ E\A e
y = f (x) ∈ f (E\A).

(b) Primeiro vamos mostrar que f é injetiva. Sejam x1 ∈ E e x2 ∈ E tais que f (x1 ) = y = f (x2 ). Vamos mostrar que
x1 = x2 . Considere A = {x1 }. Se x1 6= x2 , então x2 ∈ E\A. Isto implica que y = f (x2 ) ∈ f (E\A) = F \f (A), o que é
um absurdo, pois y = f (x1 ) ∈ f (A). Logo x1 = x2 e f é injetiva.
Agora vamos mostrar que f é sobrejetiva. Seja x ∈ E e A = E\{x}. Como E tem pelo menos 2 elementos, E\{x} é não
vazio. Temos F \f (A) = f (E\A) = f ({x}). Isto implica que

F = (F \f (A)) ∪ f (A) = f ({x}) ∪ f (E\{x}) = f ({x} ∪ (E\{x})) = f (E),

e portanto f é sobrejetiva.