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ROTEIRO DE ENTREVISTA DEVOLUTIVA PARA OS PAIS

“Bom, conforme havíamos falado no início dos nossos encontros, hoje


será a última vez que nos veremos antes das férias, e dessa forma, precisamos
conversar sobre cada aspecto visto durante todo o processo. Vocês podem se
sentir à vontade para interromper e tirar dúvidas quando quiserem.

Primeiramente, gostaria de começar com o motivo que trouxe vocês até


a Clínica, que foram as dificuldades de relacionamento e timidez de Sofia1.
Investigamos o que foi trazido através de vários instrumentos de avaliação,
entre eles, um teste que avalia o nível intelectual da criança, chamado WISC
III, para obter um panorama geral do funcionamento cognitivo de Sofia, em
comparação às crianças da mesma idade dela. As atividades desse teste
envolvem conhecimento geral, compreensão de palavras e operações
matemáticas, entre outros aspectos. Os resultados indicaram que Sofia
apresenta desenvolvimento cognitivo compatível com crianças de sua idade
(Nota: neste momento é possível descrever mais detalhadamente os resultados
dos diferentes subtestes do WISC III e o que eles medem, sinalizando o
desempenho acima da média – média – abaixo da média).

Também foi realizada a observação da brincadeira de Sofia, através da


Hora de jogo diagnóstica, que objetiva conhecer o modo como a criança se
expressa e compreende seu ambiente. Observei que Sofia participou
ativamente, demonstrando interesse e aceitando as regras propostas, o que
representam pontos positivos. Sofia apresentou maiores dificuldades em jogos
que envolviam a criatividade, pois ocorreram situações em que Sofia desistiu
de realizar as atividades lúdicas quando as mesmas não eram como ela
gostaria. Observei também que Sofia verbalizou pouco comigo no início da
avaliação, sendo necessário no primeiro encontro que a mãe entrasse junto.
Contudo, no decorrer dos encontros, ela já apresentou uma maior fluência
verbal, dirigindo-se a mim de forma espontânea, utilizando-se de um
vocabulário mais amplo, respondendo às perguntas que eu fazia, o que tornou

1
Nome fictício
nosso relacionamento mais próximo. Portanto, de modo geral, Sofia não
apresenta atrasos significativos em seu desenvolvimento. As áreas cognitiva,
psicomotora e emocional apresentam-se de acordo com o que é esperado para
a idade dela. O que chama a atenção é o comportamento dependente e o
retraimento social.

Com base nas informações que vocês trouxeram, gostaria de abordar


alguns pontos: Sofia ainda pede para a mãe escolher a roupa dela, certo?
Bem, pelo que observei dela, acredito que ela já possui capacidade para
escolher sua roupa sozinha, e você (mãe) pode indicar que ela consegue fazer
isso, com frases de estímulo como: a mãe sabe que você consegue fazer!
Caso ela ainda assim fique em dúvida, você pode dar duas ou três sugestões
de roupas e pedir que ela escolha uma. Essas atitudes auxiliam a Sofia a ser
mais independente.

Outro fato observado é que Sofia demonstra interesse em participar das


tarefas domésticas. Sugiro que vocês a chamem para realizar algumas tarefas
em casa, como colocar os pratos e talheres na mesa, secar a louça, ajudar a
preparar alguma refeição; mostrem que precisam da ajuda dela. Isto a deixará
mais confiante e ela perceberá que vocês acreditam na capacidade dela de
fazer as coisas sozinha.

Em relação ao comportamento dependente de Sofia e o medo de ficar


sozinha, sempre avisando vocês quando ela vai tomar água ou ao banheiro,
vocês podem tomas algumas medidas como: o papai e a mamãe acham que
está tudo bem e você não precisa pedir nem avisar que vai ao banheiro ou
tomar água... o(a) banheiro/cozinha é tão pertinho(a)! Sabemos que está tudo
bem!

Vocês haviam me questionado sobre como lidar com a timidez de Sofia


no nosso primeiro encontro, lembram? Bem, o que observei é que este
comportamento tímido não faz parte de nenhum transtorno mental que poderia
afetar o desenvolvimento de Sofia. O que percebo é que esta timidez dela é
muito semelhante a alguns comportamentos que vocês relataram entre vocês e
Sofia identifica-se com estes comportamentos. Assim, o que percebe-se é que
alguns padrões do relacionamento entre vocês (pai e mãe) e do
relacionamento de vocês com ela indicam superproteção e cuidado excessivo.
Vocês mesmos disseram no primeiro encontro que ajudam Sofia em muitas
coisas e facilitam tudo para ela!

No caso de Sofia, o que tenho como sugestão e proposta é que


iniciemos um processo de psicoterapia individual com ela, utilizando
brincadeiras e atividades que vão auxiliar o desenvolvimento das capacidades
dela em expressar seus sentimentos e idéias, ampliando suas habilidades
sociais. Paralelamente, proponho que também vocês participem de encontros
quinzenais comigo para que eu possa orientá-los a favorecer o
desenvolvimento destas habilidades. Lembrem: vocês têm um papel
importantíssimo na saúde mental da Sofia e dessa forma, precisam ser
parceiros de trabalho e estar dispostos a conversar e rever algumas formas de
lidar com ela.

Esse processo leva algum tempo, mas eu percebo que vocês


demonstram bastante interesse em ajudar Sofia. Então, gostaria que vocês
pensassem sobre essa proposta e após as férias voltaremos a conversar, ok?

Agora gostaria que vocês me falassem como estas informações foram


percebidas e se as mesmas fazem sentido para vocês! Fiquem à vontade!”
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ROTEIRO DE ENTREVISTA DEVOLUTIVA PARA A CRIANÇA

“Olá Sofia! Como combinamos, hoje é nosso último encontro antes das
férias e vamos conversar sobre tudo o que falamos e brincamos nesses dias
todos que você veio aqui, está bem?

Eu vou te contar um pouco sobre o que conversei com o papai e a


mamãe e se você tiver alguma dúvida ou não entender alguma coisa, pode
perguntar, ok? É muito importante que você entenda o que eu quero te dizer.

Primeiro, eu queria dizer que você é uma menina muito corajosa por ter
entrado na sala de atendimento sozinha... no início a mamãe precisou entrar
junto, mas logo depois você já conseguiu entrar sozinha e isso foi muito legal!

Também queria dizer que você é uma menina inteligente e que se saiu
muito bem naquelas atividades que fizemos, com perguntas, contas de
matemática, os cubos, lembra? Através daquelas brincadeiras, pude conhecer
melhor como você pensa e entende as coisas. Percebi que em algumas
atividades você foi melhor, como nos cubos, do que na atividade de
vocabulário, com os significados das palavras, lembra? Nesta atividade eu
percebi que você ficava bastante envergonhada de me dizer o que você
pensava.

O papai e a mamãe me procuraram porque eles querem te ajudar a falar


o que você sente e pensa, porque eles percebem que em algumas situações
você fica tímida, envergonhada e não consegue falar com as pessoas. As
vezes a timidez também atrapalha lá na escola, quando tem festas e teatros
nas apresentações como festa junina, dia das mães, natal... então, como será
que você se sente? Quais são os pensamentos dentro da cabeça? Nem
sempre é fácil falar disso, não?

A mamãe também, havia me dito que as vezes, lá na tua casa, você


pede para ela escolher tua roupa, né? Mas, olha só, a mamãe, o papai e eu
achamos que você consegue fazer uma porção de coisas sozinha! Por
exemplo: você escova os dentes, come, faz tarefas da escola... e geralmente,
são as crianças menores, com uns 3 ou 4 anos que precisam de ajuda da mãe
para se vestir, não? Mas você, já tem 7 anos! Sabe fazer uma porção de coisas
que os pequenos ainda não sabem! Lembra quando você era menor e o papai
te ajudava e dava comida na boca? Depois, você aprendeu a comer sozinha e
hoje ele não precisa mais fazer isso! Isso quer dizer que você também pode
aprender a escolher a tua roupa sozinha!

Algumas crianças ficam bravas, tristes ou com medo quando estão


crescendo... elas acham que não vão ser mais o bebê do papai e da mamãe!!!
Algumas crianças acham que se ficarem grandes, o pai e a mãe não vão mais
gostar ou cuidar! Mas o que essas crianças não sabem é que assim como elas
crescem, o amor e o cuidado dos pais crescem junto!

E olha só: quando a gente cresce, o pai e a mãe descobrem que a gente
pode ajudar a fazer algumas coisas em casa. O papai e a mamãe me disseram
que você sabe fazer várias coisas: secar a louça, fazer limonada, guardar a
roupa... um monte de coisas que só meninas crescidas fazem! Eles me
disseram que vão pedir mais a tua ajuda em casa, porque isso vai dar mais
tempo para todo mundo passar mais momentos juntos, brincando,
conversando...

Eu disse a eles que podia ajudá-los a te ajudar, e que também poderia te


ver mais vezes para a gente brincar e conversar sobre os sentimentos e os
pensamentos. O que você acha disso?

Depois das férias, podemos marcar um dia para começarmos a terapia,


que é o nome desses encontros que ajudam as crianças a falarem como se
sentem e como são as idéias que passam na cabeça. Nesses encontros tem o
psicólogo, que você já sabe o que faz, que ajuda as crianças a entender esses
sentimentos e idéias, através das brincadeiras, dos desenhos e das conversas.

Então, me conte o que você achou disso tudo? (Nota: é possível utilizar
uma história que pode ser criada a partir das demandas do paciente para
realizar a entrevista devolutiva).

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