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12° Seminário de Ensino Pesquisa e Extensão / 6° Seminário de Bolsistas Juniores

ANÁLISE DA INFLUÊNCIA DO TEMPO DE DESTORROAMENTO E


DE DEFLOCULANTE NO PROCESSO DE SEDIMENTAÇÃO DE
SOLOS

CRUZ, Mauro César Cardoso¹; NOVAIS, Tiago de Morais Faria²; OLIVEIRA, Ana Flávia
Pinto³; COELHO, Emanuel Gomes Cândido³; COELHO, Gabriela Fernandes3

RESUMO
Os ensaios laboratoriais em solos têm evoluído de maneiras distintas em países onde há
predominância de solos tropicais. Desta forma, a presença de solos finos promove uma
necessidade de análises granulométricas que, por sua vez, podem ser realizadas por ensaios de
sedimentação, os quais podem ser explicados pela Lei de Stokes. Para analisar a influência no
tempo de sedimentação ocasionada pelo tempo de destorroamento de amostras secas e da
presença e tipo de defloculantes utilizados no ensaio normatizado pela NBR 7181/2016,
foram coletadas amostras de solo no interior do campus da UEMG Divinópolis, de forma a
permitir a repartição em 9 amostras onde a cada 3 amostras foram feitos com intervalos de
destorroamento de 5, 10 e 15 min. Os dois primeiros grupos de 3 amostras cada foram
misturadas a defloculantes: 3 com hexametafosfato de sódio e 3 com cloreto de sódio. Para as
3 últimas amostras não foram utilizados defloculantes. Assim, foi possível observar
diferenças óbvias no tempo de sedimentação, principalmente quanto às amostras sem
defloculante, obtendo densidades médias de 31,5 e 45,28 g/L para os destorroamentos com 10
e 15 min, respectivamente. Para as amostras defloculadas com NaCl as médias de densidades
foram 21,08 e 20,48 g/L e com hexametafosfato de sódio as médias foram de 40,2 e 33,6 g/L.
Portanto, o tempo de destorroamento se mostra como um parâmetro importante a ser
considerado. Já as análises dos defloculantes evidenciam o hexametafosfato de sódio como
mais eficiente entre as amostras, reforçando sua aplicabilidade recomendada pela NBR
7181/2016.

PALAVRAS-CHAVE: Geotecnia. Análise granulométrica. Lei de Stokes

¹ Docente - Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG, Unidade Divinópolis. Mestre em Engenharia
Civil, UFV – Universidade Federal de Viçosa. mauro.cruz@uemg.br
² Docente - Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG, Unidade Divinópolis. Doutor em Engenharia
Civil , UFV – Universidade Federal de Viçosa. tiago.novais@uemg.br
³ Graduandos em engenharia civil - Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG, Unidade Divinópolis.
anafpoliveira3@gmail.com; emanuelcandido.ec@gmail.com; gabicoelho54@hotmail.com

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INTRODUÇÃO

A análise granulométrica do solo exerce papel fundamental na engenharia civil. Constitui uma
importante etapa para a classificação geotécnica e é capaz de caracterizar solos e sedimentos,
tornando possível, assim, a execução de projetos de grande, médio e pequeno portes.
Conforme relatou Pinto (2006), é objetivo da classificação dos solos para engenharia poder
estimar o provável comportamento do solo ou, pelo menos, orientar o programa de
investigação necessário para permitir a devida análise de um problema.
Desta forma, vale destacar que a classificação proposta por Casagrande (1948) – que baseia-
se na granulometria e nas características plásticas dos solos – é a mais utilizada hoje em dia,
principalmente pelos geotécnicos que trabalham em barragens de terra (PINTO, 2006).
A identificação e caracterização das propriedades físicas e mecânicas de solos com fins para
engenharia perpassam pela avaliação da interação entre seus componentes. As frações
componentes dos solos, de acordo com suas dimensões, podem ser classificadas em
pedregulho, areia, silte e argila, com diâmetros e propriedades distintas entre si.
Pinto (2006), ainda define solos residuais ou lateríticos como aqueles que se decompõem das
rochas que se encontram no mesmo local de formação. As condições de regiões tropicais
aceleram o processo de decomposição e, por isso, tem-se uma maior concentração destes
solos nessas regiões, entre elas o Brasil. O mesmo autor define solos transportados, como os
que foram levados ao seu local atual com a ajuda de um agente transportador, e que têm
características dependentes desse agente.
Diversos são os sistemas de classificação de solos existentes, onde a finalidade da utilização
do solo define os critérios para sua aplicação. Para a engenharia civil, os sistemas
desenvolvidos pelo HRB (Highway Research Board) e o USCS (Unified Soil Classification
System) podem ser citados como os mais utilizados.
Contudo, utilizar estas classificações, quando se trata de solos tropicais, pode levar à
ocorrência de resultados distintos dos observados em prática, uma vez que o solo
característico de regiões tropicais são caracterizados por grãos muito resistentes mecânica e
quimicamente na fração areia e pedregulho, e elevada porcentagem de partículas constituídas
por hidróxidos e óxidos de Fe e Al, na fração argila, por sua vez, verifica-se a presença de
caulinita em sua mineralogia.
Com isso, Nogami e Villibor (1981) propuseram uma classificação geotécnica chamada
Classificação MCT (Miniatura, Compactado, Tropical), que abrange as características dos

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solos tropicais. A metodologia MCT tem o princípio de que existe a necessidade de se criar
novos índices mais detalhados, destacando as características dos solos tropicais.
Em suma, a Classificação MCT visa classificar os solos tropicais considerando suas
peculiaridades adquiridas durante o processo de formação, demonstrando assim sua aptidão
ou não para uso viário.
Conforme confirmou Caputo (1967), para os solos finos, sendo eles com dimensões menores
que 0,074 mm, deve-se utilizar o método de sedimentação contínua em meio líquido. Este
método é baseado na Lei de Stokes, que estabelece uma relação entre o diâmetro da partícula
e sua velocidade de sedimentação em um meio líquido de viscosidade e peso específico
conhecidos.
Caputo (1967), ainda resume o desenvolvimento teórico do método de Casagrande da
seguinte forma: leituras densimétricas, conhecimento do peso específico das partículas, da
temperatura e dos tempos, que resultam no ábaco, sendo este a resolução monográfica da
equação da Lei de Stokes.
No Brasil, a norma vigente para as análises granulométricas é a NBR 7181/2016, dando
providências sobre a aparelhagem necessária, execução dos ensaios de peneiramento e
sedimentação, cálculos e apresentação dos resultados.
Em meio natural, as partículas de solos se encontram agrupadas em forma de torrões, com
isso, utiliza-se o destorroamento, que consiste – basicamente – em um método mecânico de
separação de partículas de solos que se encontram agrupadas.
Portanto, este método é capaz de gerar diversas hipóteses sobre sua influência no processo de
sedimentação. Uma das mais evidentes é se tempo destinado à execução do método mecânico
é capaz de alterar os resultados da sedimentação.
Entretanto, existem os defloculantes, que através de processos químicos podem ser capazes de
agir como catalizadores do processo de sedimentação. Assim, o método utilizando
defloculante também é capaz de gerar diversas hipóteses sobre sua influência no processo de
sedimentação. Como existem diversos defloculantes, uma das hipóteses levantadas é da
eficácia de certos defloculantes ao serem utilizados como catalizadores do processo de
sedimentação.
Com isso, o presente trabalho tem por objetivo apresentar a análise da influência do tempo de
destorroamento e de diferentes defloculantes no ensaio de sedimentação de solos.

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MATERIAL E MÉTODOS

Solos e ensaio de secagem

As amostras de solos utilizadas foram coletadas na UEMG – Unidade Divinópolis, que está
localizado na macrorregião Oeste de Minas Gerais, caracterizada como uma região de
predominância de solos tropicais. Foram coletados cerca de 2.500 g de amostra do solo
levados para secagem em estufa por 24 horas à uma temperatura constante de 105°C.

Processo de dispersão e ensaio de sedimentação

As amostras foram divididas em 9 partes iguais de 200 g cada, onde cada grupo de 3 amostras
foram preparadas com intervalos de destorroamento de 5, 10 e 15 min. Em seguida, os
defloculantes foram misturados de forma que cada um estivesse presente em cada grupo de
destorroamento, permanecendo um grupo de 3 amostras sem adição de defloculante, tendo em
vista a necessidade de amostras controle. Os defloculantes utilizados foram: Hexametafosfato
de sódio – (NaPO3)6 – e Cloreto de sódio (NaCl).
Utilizaram-se béqueres de 1 litro de capacidade para a realização das misturas, as pipetas para
a adição do defloculante líquido; uma espátula para o sólido e balança de precisão. A
quantidade de Hexametafosfato de sódio e de NaCl, para cada amostra, foi de 25 mL e de 25
g, respectivamente. Após este processo, cada amostra preparada foi levada ao aparelho
dispersor, juntamente com 500 mL de água deionizada, por um tempo de 10 min.
Em seguida, mais 500 mL de água deionizada, aproximadamente, foram adicionados à
amostra misturada em uma proveta de 1 L. Com a proveta tampada, foram executados três
movimentos enérgicos de rotação e, logo após, esta foi deixada em processo de sedimentação.
Este procedimento foi repetido para cada amostra.
As horas exatas do início de cada processo de sedimentação foram anotadas para ter-se um
maior controle e uma maior precisão diante das medições posteriores. Os intervalos de tempo
utilizados para a medição da densidade e da temperatura, com o auxílio do densímetro e do
termômetro, foram de 0 min, 5 min, 10 min, 6 h, 24 h.

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RESULTADOS E DISCUSSÃO

Considerando os conceitos sobre densidade especificados na NBR 7181/2016 têm-se que


quanto maior for o valor obtido na leitura do densímetro maior será o número de partículas de
solos que estão em suspensão. Assim, analisando apenas as amostras sem defloculante, os
valores obtidos, no intervalo 0 min, de densidade em cada um dos 3 grupos, são
respectivamente: 19,1 g/L; 50,5 g/L e 62 g/L. As mesmas amostras apresentam, para o
intervalo 5 min, respectivamente: 9,8 g/L; 37,5 g/L e 51 g/L.
Portanto, para uma mesma amostra dividida em 3 grupos de diferentes tempos de
destorroamento é possível deduzir que a densidade inicial de cada grupo será crescente
conforme o tempo dedicado ao processo de separação mecânica aumenta.

Tabela 1: Resultados dos ensaios do grupo 1 – 5 min de destorroamento.

A – H2 O B – NaCl C – (NaPO3)6
Intervalo de
Densidade Densidade Densidade
medição ºC ºC ºC
(g/L) (g/L) (g/L)
0 min 19,1 20 >60 20 18 19,5
5 min 9,8 20 >60 19,5 14,3 19
10 min 9,5 20 >60 19 12,9 19
30 min 8 20 >60 20 11 19
6h 3,5 21 29 21 6 21
24 h 3,5 17,5 11,3 17 5,5 17
Fonte: Autores

Tabela 2: Resultados dos ensaios do grupo 2 – 10 min de destorroamento

A – H2 O B – NaCl C – (NaPO3)6
Intervalo de
Densidade Densidade Densidade
medição ºC ºC ºC
(g / L) (g / L) (g / L)
0 min 50,5 22,5 >60 22 61 22
5 min 37,5 21,5 >60 21,5 49,5 22
10 min 35,5 22,5 >60 22 47 22
30 min 33 22 >60 22 42,5 21
6h 1 18,5 38,5 18 1 19
24 h 0 21 30 21 0 21
Fonte: Autores

Correlacionando as amostras A, B e C, têm-se diferenças significativas no processo de


sedimentação, uma vez que, a amostra A apresentou uma variação de 49,5 g/L em sua
densidade, enquanto a amostra C apresentou uma variação maior (60 g/L) quando observar-se
o intervalo de 6h.

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Todavia, ao comparar os dois defloculantes, a maior eficiência do hexametafosfato sódico em


relação ao cloreto de sódio é perceptível. As amostras B, apresentaram altos valores de
densidade inicial que não puderam ser mensurados, e ainda, altos valores de densidade final –
24 h – quando comparamos às amostras A e C.
Destacando os valores das densidades lidas no intervalo 0 min e 6 h – 50,5 g/L e 1 g/L para a
amostra A, 61 g/L e 1 g/L para a amostra C – é plausível a confirmação da NBR 7181, que
sugere a utilização do hexametafosfato sódico como defloculante (Tabela 2).

Tabela 3: Resultados dos ensaios do grupo 3 – 15 min de destorroamento

A – H2 O B – NaCl C – (NaPO3)6
Intervalo
Densidade Densidade Densidade
de medição ºC ºC ºC
(g/L) (g/L) (g/L)
0 min 62 22 >60 21 60 22
5 min 51 21 >60 21 52,5 22
10 min 54,9 22 >60 21 51,5 21
30 min 52,5 21,5 >60 21 50,8 22
6h 6 19 33,5 17,5 6,5 18
24 h 0 21,5 30 21 0 21
Fonte: Autores

CONCLUSÃO

Portanto, ao explorar o método de destorroamento, considerando as densidades iniciais


analisadas, percebe-se que ele é capaz de dificultar o processo de sedimentação, visto que,
partículas agrupadas apresentam diâmetro maiores que as partículas que se encontram
separadas, fazendo com que quando agrupadas, elas se sedimentem de forma mais rápida.
Com isso, o destorroamento é capaz de influenciar na densidade inicial do processo de
sedimentação, o que faz com o processo ocorra de forma mais lenta quando o tempo de
destorroamento é maior.
Com relação aos defloculantes, ficou claro que o de cloreto de sódio não fez com que o
processo de sedimentação acontecesse da forma esperada. Assim, deduz-se que a dosagem
utilizada deste defloculante esteja acima do necessário. Entretanto, quando se analisou as
amostras C, com hexametafosfato sódico, sua eficiência foi aprovada conforme demonstraram
os resultados.

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ANALYSIS OF THE INFLUENCE OF DUSTING AND DEFLOCULANT


TIME IN THE PROCESS OF SOIL SEDIMENTATION

ABSTRACT
Laboratory tests on soils have evolved in distinct ways in countries where there is a
predominance of tropical soils. Thus, the presence of fine soils promotes a need for
granulometric analyzes that can be performed by sedimentation tests, which can be explained
by Stokes' Law. To analyze the influence on the sedimentation time caused by the time of
disruption of dry samples and the presence and type of deflocculants used in the test
normalized by NBR 7181/2016, soil samples were collected inside the campus of UEMG
Divinópolis, to allow the distribution in 9 samples where every 3 samples were made with
intervals of smashing of 5, 10 and 15 min. The first two groups of 3 samples each were mixed
with deflocculants: 3 with sodium hexametaphosphate and 3 with sodium chloride. No
deflocculants were used for the last 3 samples. Thus, it was possible to observe obvious
differences in the sedimentation time, mainly in the samples without deflocculant, obtaining
average densities of 31.5 and 45.28 g/L for the 10 and 15 min disruptions, respectively. For
the deflocculated samples with NaCl the average densities were 21.08 and 20.48 g/L and with
sodium hexametaphosphate the averages were 40.2 and 33.6 g/L. Therefore, the time of
disruption is shown as an important parameter to be considered. On the other hand, the
deflocculant analyzes evidence the sodium hexametaphosphate as more efficient among the
samples, reinforcing its applicability recommended by NBR 7181/2016.

KEYWORDS: Geotechnical. Particle size analysis. Stokes’ Law.

REFERÊNCIAS

ABNT- Associação Brasileira de Normas Técnicas. (1984) NBR 7.181 – Análise


granulométrica de Solo. Rio de Janeiro: ABNT. 13p

CAPUTO, Homero Pinto. Mecânica dos Solos e Suas Aplicações. 6. ed. Rio de Janeiro:
LTC, 1988. [Reimpr. 2011]. 248p.

CASAGRANDE, A. Classification and Identification of Soils. Transaction ASCE, New


York, v. 113, p. 901-991, 1948.

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NOGAMI, J. S.; VILLIBOR, D. F. Uma nova classificação de solos para finalidades


rodoviárias. In.: Simpósio brasileiro de tropicais em engenharia, Rio de Janeiro, v. 1, p. 30-
40, COPPE/ABMS, 1981.

PINTO, Carlos de Sousa. Curso Básico de Mecânica dos Solos em 16 aulas. 3.ed São
Paulo: Oficina de Textos, 2006.

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