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Do Crescimento Econômico ao Desenvolvimento Sustentável

da crueldade da riqueza concentrada (e miséria distribuída) à inviabilidade da utopia

Resumo

O conceito de desenvolvimento sustentável tem sua origem no conceito de crescimento


econômico. Aos poucos, ele começa a se diferenciar desse último, em função da observação de
que tal crescimento é condição necessária, mas se afasta da condição suficiência para a obtenção
e preservação dos elementos que caracterizam o desenvolvimento. A evolução do termo, agora,
incorpora nova adjetivação: “sustentável”, agregando novas dimensões que não apresentam
grandezas mensuráveis. Chega-se ao paradoxo: o conceito é bastante atraente, mas puramente
filosófico, não permitindo implementação de políticas e estratégias que possam gerenciar ações
com efetividade.
Palavras-chaves: Desenvolvimento sustentável; Desenvolvimento econômico; Crescimento
econômico.

Abstract

The concept of sustainable development originates from the concept of economic growth.
Gradually, it begins to differentiate itself from the latter, since it is observed that such growth is a
necessary condition, but it moves away from the sufficiency condition for obtaining and preserving
the elements that characterize development. Now, the evolution of the term incorporates a new
adjective: "sustainable", incorporating new dimensions that do not present measurable
magnitudes. We arrive at the paradox: the concept is quite attractive, but purely philosophical,
not allowing the implementation of policies and strategies that can manage actions with
effectiveness.
Key words: Economic growth; Economic development; Sustainable development.
1 O que se pode controlar

Da teoria de sistemas vem o paradigma de que só se consegue medir o que se pode observar,
e só se pode pretender controlar o que se consegue medir. Assim, para um sistema ser controlável,
ele precisa ser observável e ter suas saídas mensuráveis.

Desta forma, na busca por algum aspecto científico na Economia, tenta-se estabelecer
parâmetros que possam ser observáveis e medidos. Na tentativa de medir o desempenho
econômico, desenvolveu-se o PIB (produto interno bruto), que dá uma visão mensurável do
crescimento econômico. Com ele, tem-se uma boa ideia em síntese do crescimento da produção
total de um país e pode-se pretender controlar tal crescimento.

A contraparte do PIB corresponde o crescimento da renda, que está intimamente ligada ao


crescimento do lucro empresarial, o qual é oriundo da aplicação de processos eficientes na
produção de riqueza. Produção essa que correspondeu, na evolução do mundo, a uma aplicação
intensiva de tecnologia. Com o crescimento do lucro e a aplicação de novas tecnologias mais
oportunidades de reinvestimento foram geradas.

Aumentou-se sucessivamente o crescimento econômico em taxas cada vez mais


surpreendentes. Foram medidos PIB e Renda per Capta Média crescentes. Entretanto, não
necessariamente esses crescimentos do PIB e da renda média implicam diretamente em uma
melhor distribuição de renda, é preciso se verificar o desvio em torno dessa média, que pode ter
aumentado, por exemplo.

Gerenciar países se torna, então, tarefa cada vez mais complexa, onde facilmente se perde
a visão do todo e das necessidades da população. Surge a necessidade de se buscar, cada vez mais,
desenvolver parâmetros que permitam medir e controlar os diversos aspectos da vida nacional.
Aspectos não apenas como a economia, mas, que venham a incluir a educação e tantos outros de
importância na vida dos indivíduos e da sociedade como um todo.

2 O crescimento econômico

Matos e Rovella (2019) fazem uma apresentação sintética da evolução do conceito de


desenvolvimento, partindo do crescimento econômico até o chamado desenvolvimento
sustentável.

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Nesse presente trabalho, entretanto, o problema que se destaca não é a evolução detalhada
de conceitos. Na realidade, a intensão é se busca ressaltar que o crescimento econômico é bem
mensurável, mas, embora ele seja condição necessária, ele não implica diretamente em
desenvolvimento. Outros eixos de avaliação, não embutidos na medição desse crescimento,
influenciam no desenvolvimento e, em última análise, podem impactar até o próprio crescimento,
agravando aspectos negativos que terminam por contrariar o conceito de desenvolvimento. Vale
dizer, pode-se até ter crescimento econômico e não se ter a plenitude de desenvolvimento.
Controlar crescimento econômico não é o bastante.

Smith (1937) estabelece o ciclo: o emprego da mão-de-obra, incrementando a produção,


incrementaria o lucro, que reinvestido aumentaria o mercado de trabalho, que geraria mais lucro e
aumentaria a renda da população. Na verdade, o aumento nos lucros aumentou a renda média, mas
não aumentou a renda da população e viu-se uma enorme concentração de renda nas mãos de
poucos, justificando o surgimento de teorias políticas que contrariam as ideias apresentadas na sua
obra, pois a definida redistribuição da renda entre o capital e o trabalho estava cada vez mais longe
do ideal, aprofundando as desigualdades.

Se é verdade que com o crescimento surpreendente do PIB, cresceu surpreendentemente a


renda e o lucro, não é verdade que a distribuição da renda pelos agentes produtores tenha
igualmente crescido.

O crescimento econômico, de per si, não se mostrou como um fator digno de representar o
real desenvolvimento, ainda que o crescimento possa ser bem medido pelo PIB (ou pela renda per
capita) conforme Keynes (1936).

Na realidade, aumentou-se o desvio padrão em torno da renda per capita (média). Vale
dizer, aumentou a desigualdade. Os donos dos empreendimentos tornaram-se mais ricos e os
fornecedores do trabalho tornaram-se cada vez mais pobres.

Assim, crescimento econômico passou, paradoxalmente, a significar aumento da miséria


para maioria.

Logo, PIB (ou a renda per capita) não é um medidor que consiga simbolizar melhores
condições de vida para a maioria, ao contrário, com valores de PIB crescentes, viu-se surgir uma
enorme população que passa ser totalmente subjugada na busca desesperada por sobreviver, sendo

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submetida a condições de trabalho escravo, para que poucos possam viver e desfrutar de confortos
muito além da imaginação do vulgo.

Não é um bom indicar se governos pretenderem melhorar as condições sociais dos


cidadãos. Com a riqueza, vem a concentração de facilidades e poder, configurando-se uma
sociedade com enormes desigualdades políticas e sociais.

Se é verdade que PIB é um indicador que permite a governos controlar o crescimento


econômico (fator necessário ao desenvolvimento), políticas orientadas para tal crescimento não
necessariamente garantem uma mínima condição de vida para população.

Logo, as políticas públicas precisam trabalhar fatores adicionais para obter essa visão
necessária de busca de satisfação das necessidades humanas. Sachs (2004), por exemplo,
prognosticou a necessidade da intervenção estatal nos assuntos econômicos, priorizando o
emprego pleno, corrigindo a insensibilidade dos mercados.

Vale notar que o conceito de crescimento econômico se associa inegavelmente ao conceito


que a Escola Superior de Guerra (2019) estabelece como Expressão Econômica do Poder Nacional,
ainda que tal crescimento traga influência sobre outros aspectos do referido Poder. Como medido
e controlado até aqui, essas influências do crescimento econômico se mostraram mais pelo aspecto
negativo, ou seja, por falhas ou distorções dentro das Expressões Política e Psicossocial (ESG,
2019).

Desta forma, o conceito precisava evoluir. Seers (1970) distingue que, além da necessidade
absoluta de se alimentar, a pessoa humana carece de estar empregada e agrega uma terceira
necessidade intangível, a igualdade. Já aí o conceito em si pode evoluir, mas inicia por agregar
características não mensuráveis, dificultando, ou mesmo impedindo, o controle em políticas
públicas.

A escala deixa de ser métrica para agregar o que Max, Elizalde e Holpenhayn apud Boisier
(2001) chamaram de “Desenvolvimento na Escala Humana”, mas que não conseguiram
estabelecer como medir...

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3 O Desenvolvimento econômico

Desta forma, com essa motivação, o conceito inicial de Desenvolvimento vem evoluindo
e tentando incluir parâmetros em outros eixos sociais que possam ser medidos (e assim
controlados), permitindo a definição, implementação e controle de políticas e estratégias que
efetivamente satisfaçam às necessidades mais amplas da população.

Por ser condição necessária compatível com o crescimento populacional, não se pode, em
tempo algum, renunciar ao crescimento econômico medido pelo PIB. Entretanto, torna-se
indispensável diminuir o desvio padrão em torno da renda média, vale dizer melhorar a distribuição
da renda e não apenas aumentar a renda média, pois um aumento simples pode implicar em
concentração da renda, e, como consequência, implicar na contínua distribuição de miséria.

Nesse sentido, estudiosos buscaram ampliar o conceito, tentando trazer outras dimensões
que medissem de alguma forma um nível mais amplo de crescimento humano.

Nessa contínua evolução conceitual, o termo desenvolvimento abarcou outros eixos de


avaliação. Não mais se concentrando na resolução do desnível de renda, mas agregando aspectos
das condições pessoais e humanas.

O PIB já não se mostra um índice suficiente, embora ainda necessário. Surge o IDH - Índice
de Desenvolvimento Humano (desenvolvido por Mahbub ul Haq e Amartya Sem), mas sendo
ainda reconhecido como limitado na tentativa de medir algo que permita controle e atingimento
real de desenvolvimento de um país, como reconhece o Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD) segundo Matos e Rovella (2019).

Os estudiosos, na busca pelo desejado controle sobre o desenvolvimento, seguiram


ampliando o conceito. Entretanto, perpassaram áreas onde o conhecimento é bastante subjetivo,
tornando o conceito ainda mais intangível. Vale dizer, dificultando ainda mais a mensurabilidade,
com a implicação resultante de ser cada vez menos controlável.

Também, em oposição ao conceito, surge o de subdesenvolvimento. Emergindo, assim,


subliminarmente a ideia de que para alguns países atingirem e manterem o grau de
desenvolvimento, implicitamente, precisariam da existência daqueles que permaneceriam como
subdesenvolvidos. Em resumo, a riqueza de uns estaria baseada na miséria de muitos.

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Em 1995, nas Organizações das Nações Unidas (ONU), é criada uma “Agenda para o
Desenvolvimento” em que se estipula 5 dimensões para se buscar evoluir dentro da ideia
conceitual de desenvolvimento (mesmo não se podendo medir tal desenvolvimento): o crescimento
econômico, a paz, a democracia, a justiça social e o ambiente. Já com a dimensão do meio
ambiente, que incorpora um novo conceito que irá ampliar ainda mais o conceito de
desenvolvimento adjetivando-o como “sustentável” (MATOS; ROVELLA, 2019).

Essa evolução, agora, incorpora, além da dimensão econômica aspectos transversais das
dimensões política, social e ambiental. Inegavelmente amplia-se a impossibilidade de medir
grandezas relativas a essas dimensões acrescidas.

Com as dificuldades de se realizar medições, o debate fica em âmbito filosófico entre duas
tendências extremas (MATOS; ROVELLA,2019):

 aqueles que caracterizam o conceito desenvolvimento como uma “armadilha


ideológica”; e
 os que consideram o conceito simplesmente redundante ao do crescimento
econômico.

Entretanto, mesmo se admitindo o crescimento econômico como condição necessária para


o desenvolvimento, ele sozinho não permite criação de políticas que atenda a amplitude das
necessidades humanas sob a gerência do Estado para abranger totalmente o conceito de
desenvolvimento. Permanece o desafio de se obter maneira de se buscar sua medição. Agora, com
a nova dimensão de sustentabilidade, o assunto se torna mais complexo...

3 O Desenvolvimento sustentável

Atingir um estágio de desenvolvimento, que já é bastante difícil, não é mais suficiente!

É preciso garantir que o que se consiga atingir, para ser mantido não comprometa o
desenvolvimento das futuras gerações. Aí reside o conceito de desenvolvimento sustentável.

O conceito anterior, como rapidamente sintetizado, já era abrangente e intangível, agora,


incorporando os aspectos ambientais, torna-se ainda mais complexo e polêmico.

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A Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU (2019)
conceituou o desenvolvimento sustentável como o “desenvolvimento que satisfaz as necessidades
do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem as suas próprias
necessidades”.

Lima (2003) acrescenta que não existe possibilidade de sustentabilidade sem agregar a
necessidade de minimizar as desigualdades políticas e sociais, acrescentando respeito à vida e às
diferenças.

Matos e Rovella (2019) adicionam a obrigação de refletir sobre o atendimento futuro das
necessidades alertando que, hoje, ele já não ocorre de forma igualitária.

4 Conclusão

Observe-se, pelo exposto, que a evolução do conceito desenvolvimento, cada vez mais,
imiscui-se pelas Expressões Econômica, Política e Psicossocial do Poder Nacional.

Ainda, na busca pela preservação do meio ambiente, reciclagem e emprego de tecnologia


para exploração racional dos recursos naturais se tornam mandatórios, levando-nos, também, pelos
meandros da Expressão Científica e Tecnológica. Sem ciência e tecnologia já não há possibilidade
de evolução.

Entretanto, se já é muito difícil (senão impossível) medir o desenvolvimento presente,


como medir, para poder controlar e garantir, o desenvolvimento futuro?

Se até aqui não se conseguiu administrar o conceito de forma estática para viabilizar
políticas públicas efetivas no momento presente, como administrar o conceito desenvolvimento
em tal forma dinâmica para garantir o futuro?

Realmente, desenvolvimento econômico sustentável é um atraente conceito filosófico, mas


muito mais difícil ainda de se medir e de se obter, sendo quase impossível de se operacionalizar
políticas e estratégias coerentes.

Embora se acredite que, com planejamento em longo prazo, seja possível se obter o
desenvolvimento sustentável, é preciso uma reflexão profunda para garantir que o meio ambiente,
origem dos recursos naturais, não se esgote.

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Tema polêmico em essência, quando se considera a possibilidade de ter que se
conscientizar pessoas, em estado completo de fome e miséria, a dedicar tempo e esforço para, em
acréscimo, ter que preservar o meio ambiente. Ainda mais quando parte ponderável da rica
população mundial demonstra não ter se preocupado com isso até aqui...

REFERÊNCIAS
BOISIER, Sérgio. Desarollo(Local): De que estamos hablando? In: Transformaciones globales,
instituciones y políticas de desarrollo local. Rosario: Editora Homo Sapiens, 2001.
ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). Fundamentos do Poder Nacional. Rio de Janeiro:
ESG, 2019.
KEYNES, John Maynard. The general theory of employment, interest and money. New York:
Harcourt, Brace and World, 1936.
LIMA, Gustavo da Costa. O discurso da sustentabilidade e suas implicações para a educação.
In: Ambiente e sociedade, São Paulo: Unicamp, v.6, n.2, 2003.
MATOS, Richer de Andrade; ROVELLA, Syane Brandão Caribé. Do crescimento econômico ao
desenvolvimento sustentável: conceitos em evolução.
http://www.opet.com.br/faculdade/revista-cc-adm/pdf/n3/DO-CRESCIMENTO-ECONOMICO-
AO-DESENVOLVIMENTO-SUSTENTAVEL-CONCEITOS-EM-EVOLUCAO.pdf
Acesso em: 26/05/2019
SACHS, Ignacy. Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado. Rio de Janeiro:
Garamond, 2004.
SEERS, Dudley. The meaning of development. Rio de Janeiro: Revista brasileira de Economia,
v.24, n.3, 1970.
SMITH, Adams. An inquiry into the nature and causes of the wealth of nations. New York:
Modern Library, 1937.

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