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FORMAÇÃO DE PROFESSORES/AS PARA ABORDAGEM DA

EDUCAÇÃO SEXUAL NA ESCOLA

TEACHING TRAINING; THE APPROACHES FOR SEX EDUCATION IN SCHOOLS

Márcio de Oliveira1
Eliane Rose Maio2

Resumo: O presente artigo objetiva Abstract: This article aims to fulfill some
realizar algumas considerações acerca da considerations about the teacher training on
formação de professores/professoras em sex education. For that purpose, some
educação sexual. Para tanto, serão feitos questions will be raise on the sex education
questionamentos a respeito da preocupação approach at the schools and will be
com a educação sexual nas escolas e serão presented some discussions about the
apresentadas algumas discussões a respeito teacher training. At last, the specific points
da formação docente. Por fim, serão about training teacher upon sex education
expostos os pontos específicos sobre a will be exposed.
formação para se educar sexualmente.
Key-Words: Formation, Teacher; gender,
Palavras-chave: Formação, professores/as, sex diversity.
gênero, diversidade sexual.

Introdução

Temos consciência de que a de número 06, a seguinte afirmação: “É


passagem de uma criança pelos campos dever dos pais ou responsáveis efetuar a
educacionais é obrigatória em nosso País. matrícula dos menores, a partir dos sete
Quando a Lei de Diretrizes e Bases da anos de idade, no ensino fundamental”.
Educação Nacional – LDBEN aborda o Mais adiante, no artigo de número 32, é
título Do Direito à Educação e do Dever apontado que “O ensino fundamental, com
de Educar, é publicada, no artigo duração mínima de oito anos, obrigatório

1
Graduação em Pedagogia e Mestrando em Educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da
Universidade Estadual de Maringá.
2
Pós-doutora em Educação Escolar - UNESP/Araraquara. Professora do Departamento de Teoria e Prática da
Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá. E-
mail: elianerosemaio@yahoo.com.br

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e gratuito na escola pública, diversidade sexual7. Perguntamo-nos: esses


terá por objetivo a formação básica do temas estão inseridos nas escolas? Os/as
cidadão (...)”3 (grifos nossos). professores/as trabalham com essas
Em 2005, foi promulgada a questões? Silva e Neto8 apontam que “[...]
primeira lei específica do Ensino a Educação Sexual de crianças e de jovens
Fundamental de nove anos (lei nº sempre existiu, mas se fez mais pela
11.114/05), que torna omissão e repressão do que por intermédio
de uma educação dialogal, humanista e
[...] obrigatória a matrícula da criança libertária”. Notamos que a habilidade em
aos seis anos de idade no Ensino discutir temas relacionados à sexualidade,
Fundamental. Enquanto esta lei modifica diversidade sexual e gênero ainda não
a idade de ingresso neste nível de
ensino, a lei nº 11.274 trata da duração estão presentes na maioria das escolas.
do Ensino Fundamental, ampliando-o Com base nesses apontamentos, a
para nove anos, com matrícula seção seguinte procura enfatizar a
obrigatória aos seis4 (grifos nossos).
preocupação em se trabalhar sexualidade,
diversidade sexual e gênero no ambiente
Com isso, queremos chamar a escolar.
atenção para o fato de que a
obrigatoriedade do ensino no Brasil nos é Preocupação com a Educação Sexual
dada na forma de lei. E, nesse sentido,
passamos a nos perguntar: qual é a Alguns/as autores/as são
formação dos/as professores/as que atuam reconhecidos pelo trabalho realizado com a
diretamente com as crianças ingressantes educação sexual, dentre eles/elas: Maio9,
nessas escolas? Essa questão irá permear as Ribeiro10, Figueiró11, Xavier Filha12.
discussões subsequentes deste trabalho. No
6
decorrer deste texto, apresentaremos, Para Braga (2007, p.213-214), “[...] gênero é uma
construção social e histórica. A noção de gênero,
também, outros pontos que estarão portanto, aponta para a dimensão das relações
relacionados à formação de professores/as sociais do feminino e do masculino”.
7
e à educação sexual. Entendemos por diversidade sexual as várias
orientações sexuais: heterossexual, homossexual,
O ponto de partida deste trabalho bissexual, transexual, travesti etc.
8
encontra-se na formação de professores/as SILVA, Regina Célia Pinheiro da; NETO, Jorge
Megid. Formação de professores e educadores para
em educação para a sexualidade5, gênero6 e abordagem da educação sexual na escola: o que
mostram as pesquisas. Ciência e Educação, v.12,
3
n.2, 2006, pp.186.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9
MAIO, Eliane Rose. O nome da coisa. Maringá:
Nacional. Lei 9.394/1996. UNICORPORE, 2011.
4 10
GUSSO, Angela Mari [et al.]. Ensino fundamental RIBEIRO, Marcos. Metodologia do trabalho com
de nove anos: orientações pedagógicas para os anos crianças. In: _____ (Org.). O prazer e o pensar:
iniciais. Curitiba: Secretaria de Estado da Educação, orientação sexual para educadores e profissionais de
2010, p. 9. saúde. São Paulo: Gente: Cores – Centro de
5
Para Louro (2001, p.11), “[...] sexualidade não é Orientação e Educação Sexual, 1999, pp.167-174.
11
apenas uma questão pessoal, mas é social e política FIGUEIRÓ, Mary Neide Damico. Educação
(...) a sexualidade é “aprendida”, ou melhor, é sexual: retomando uma proposta, um desafio. 3. ed.
construída, ao longo de toda a vida, de muitos rev. e atual. Londrina: Eduel, 2010.
12
modos, por todos os sujeitos”. Weeks (2001, p.52) XAVIER FILHA, Constantina. As dores e as
aponta que a “sexualidade é modelada na junção de delícias de trabalhar com as temáticas de gênero,
duas preocupações principais: com a nossa sexualidades e diversidades na formação docente.
subjetividade (...) e com a sociedade”. In: SOUZA, Leonardo Lemos de; ROCHA, Simone

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Atualmente, esses autores discutem a No entanto, antes disso, houve a


implantação de projetos e programas que preocupação nos anos 1920 pautada nos
abordem e discutam de forma temas doenças venérea e, mais tarde,
emancipatória assuntos como gênero, repressão sexual. Esses autores apontam
diversidade sexual e sexualidade, uma vez que a sistematização do tema nas escolas se
que são temas imprescindíveis para o deu por volta dos anos 1960.
currículo escolar. Embora tais assuntos
permeiem o cenário social, eles ainda são As primeiras experiências formais e
tratados (quando tratados), nas instituições sistematizadas de Educação Sexual nas
escolas acontecem nos anos 1960, nos
formais, de forma equivocada. Maio13 estados do Rio de Janeiro, São Paulo e
afirma que uma proposta de educação Belo Horizonte, e são extintas após o
sexual “adequada, consciente e início dos governos militares15.
emancipadora poderia contribuir para o
objetivo de tornar toda a comunidade Apesar da dificuldade, algumas
educativa apta a discutir assuntos experiências conseguiram sobreviver por
importantes para o discernimento, na área algum tempo. Citando Sayão (1997),
da sexualidade”. Agrada-nos a ideia de Maio16 aponta que alguns estados
enfatizar “toda a comunidade educativa” mantiveram um programa de educação
pelo fato de entendermos que sexual: “[...] entre os anos 1963 e 1966, um
professores/as, diretores/as, pedagogos/as, colégio em Minas Gerais manteve um
zeladores/as etc. estão em contato com programa de educação sexual para alunos
os/as alunos/as. do então quarto ano ginasial”; já no Rio de
É válido questionarmos se essa Janeiro, “[...] o Colégio Pedro de
preocupação surgiu neste século. Para isso, Alcântara, em 1964, adotou a educação
faremos uma retomada histórica, sexual para todas as séries”; no mesmo
pontuando os períodos que marcaram a estado, no ano de 1968, “[...] os colégios
preocupação de trabalhar com a André Maurois, infante Dom Henrique e
sexualidade nas escolas. Orlando Rebouças introduziram a
Os Parâmetros Curriculares educação sexual em seus currículos”. Em
Nacionais apontam que São Paulo, também, houve experiências
importantes nesse âmbito, “[...] entre 1954
[...] a discussão sobre a inclusão da e 1970, pelo Serviço de Saúde Pública do
temática da sexualidade no currículo das departamento de Assistência ao Escolar,
escolas de primeiro e segundo graus tem
se intensificado a partir da década de (...) oferecia aulas de educação sexual às
1970, por ser considerada importante na meninas da quarta série primária”.
formação global do indivíduo14. Vale lembrar que mesmo com um
número significativo de experiências no
Albuquerque da Rocha. Formação de educadores,
gênero e diversidade. Cuiabá, MT: EdUFMT, 2012,
15
pp.13-36. SILVA, Regina Célia Pinheiro da; NETO, Jorge
13
MAIO, Eliane Rose. O nome da coisa. Maringá: Megid. Formação de professores e educadores para
UNICORPORE, 2011, p. 182. abordagem da educação sexual na escola: o que
14
BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: mostram as pesquisas. Ciência e Educação, v.12,
pluralidade cultural, orientação sexual. Secretaria de n.2, 2006, p.186.
16
Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997, MAIO, Eliane Rose. O nome da coisa. Maringá:
p. 111. UNICORPORE, 2011, p. 192.

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campo da educação sexual nas escolas, o privadas de ensino em todos os níveis, o


que é iniciado nos anos seguintes20.
regime militar17 reprimiu essas práticas.
Maio assinala que
Nesse contexto, fica claro que a
[...] com o Regime Militar dominando a preocupação não estava relacionada à
política brasileira, as propostas inerentes educação sexual, mas à epidemiologia de
ao trabalho de educação sexual na escola Doenças Sexualmente Transmissíveis.
foram reprimidas, principalmente sob a
alegação de que era a responsabilidade Frente a todas essas manifestações,
da família a educação sexual das a proposta de educação sexual nas escolas
crianças18. foi retomada com a publicação dos PCNs,
os quais são separados em 10 volumes,
Furlani19 considera os anos sendo o último intitulado Pluralidade
subsequentes a esse período como um Cultural e Orientação Sexual. Esse
retrocesso. A autora afirma, em seu artigo documento foi publicado em 1997 e
intitulado “Educação Sexual – quando a apresenta a política do governo federal
articulação de múltiplos discursos para a área.
possibilita sua inclusão curricular”, que na Diante do exposto, apresentamos, a
década de 1970, “a Educação Sexual no seguir, o tema formação de professores/as.
Brasil parece ter ‘andado para trás’ – assim
como o contexto mundial foi marcado por Formação de Professores/as
um exagerado controle e pudor”.
Já em 1992, a preocupação com a Pautados/as em Saviani21,
educação sexual ressurge por conta do abordamos algumas características
crescente número de pessoas com o vírus históricas com relação à formação de
da AIDS. Nesse sentido, Silva e Neto professores/as. Essa preocupação vem de
afirmam que longa data. Duarte (1986) apud Saviani
afirma que
[...] em 1992, a partir de preocupações
com o crescente aumento da AIDS, a [...] a necessidade da formação docente
Portaria Interministerial nº 796 propõe a já fora preconizada por Comenius, no
implantação, manutenção e/ou século XVII, e o primeiro
ampliação de projeto educativo de estabelecimento de ensino destinado à
prevenção à AIDS nas redes oficiais e formação de professores teria sido
instituído por São João Batista de La
17
O Regime Militar foi um período da política Salle em 1684, em Reims, com o nome
brasileira, entre 1964 e 1985, que militares de Seminário dos Mestres22.
conduziram o País, colocando em prática a censura,
a perseguição política, a supressão de direitos
20
constitucionais, a falta total de democracia e a SILVA, Regina Célia Pinheiro da; NETO, Jorge
repressão àqueles que eram contrários ao atual Megid. Formação de professores e educadores para
regime. Disponível em: abordagem da educação sexual na escola: o que
<http://www.sohistoria.com.br/ef2/ditadura/>. mostram as pesquisas. Ciência e Educação, v.12,
Acesso em 20 jun. 2012. n.2, 2006, p.186.
18 21
MAIO, Eliane Rose. O nome da coisa. Maringá: SAVIANI, Demerval. Formação de professores:
UNICORPORE, 2011, p. 193. aspectos históricos e teóricos do problema no
19
FURLANI, Jimena. Educação Sexual – quando a contexto brasileiro. Revista Brasileira de Educação.
articulação de múltiplos discursos possibilita sua v.14, n. 40, jan./abr, 2009.
22
inclusão curricular. Perspectiva, Florianópolis, v.26, SAVIANI, Demerval. Formação de professores:
n.1, jan./jun, 2008, p.298. aspectos históricos e teóricos do problema no

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ensino dos conteúdos específicos e o


ensino das disciplinas pedagógicas25.
Essa formação, no entanto, não era
institucional. A institucionalização fora
exigida, conforme Saviani23, “apenas no Nesse sentido, devemos nos atentar
século XIX, quando, após a Revolução para o fato de que essa formação não deve
Francesa, foi colocado o problema da trabalhar os conteúdos a serem ensinados e
instrução popular”. Nesse período, surgem seus modos de ensinar de maneira
as Escolas Normais, instituições que desarticulada, mas deve também integrar
visavam à formação dos/as professores/as. “[...] conhecimentos, habilidades, crenças,
No Brasil, “a questão do preparo de valores, emoções e comprometimentos” 26.
professores [e professoras] emerge de Para se alcançar tais objetivos, a formação
forma explícita após a Independência, deve se ater a certos pontos como a
quando se cogita [a] organização da integração entre “as experiências e as
instrução popular” (SAVIANI24). contribuições dos especialistas nos
No momento em que nos propomos conteúdos específicos, dos especialistas em
a abordar o tema “formação de currículo e metodologia, assim como dos
professores/as”, não pretendemos professores de primeiro e segundo
apresentar fórmulas prontas e/ou um graus”27.
manual contendo o que deve e o que não Notamos, ainda, que se está
deve ser feito. Objetivamos, no entanto, deixando para segundo plano a dimensão
elencar algumas características e/ou prática dos cursos formadores de
atitudes essenciais que os/as professores/as professores/as. Gomes28 afirma que “[...]
devem se atentar quando se trata do ensino. há quase uma unanimidade sobre esse
Por essa razão, iniciamos este tema, se considerarmos a produção teórica
debate trazendo a ideia de Moreiraa e a análise sobre o modo de organização
respeito das dissociações realizadas nos dos cursos de formação de professores em
cursos de formação de professores/as. Ele nível superior”. A autora defende que “[...]
sugere que 25
MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa. A formação
de professores e o aluno das camadas populares:
[...] em primeiro lugar, que se evite, na subsídios para debate. In: ALVES, Nilda (Org.).
formação do professor, a dissociação Formação de professores: pensar e fazer. 11. ed.,
usual entre o ensino dos conteúdos v.30. Coleção questões da nossa época. São Paulo:
Cortez, 2011, p 48.
específicos e o ensino de suas 26
MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa. A formação
metodologias, assim como entre o de professores e o aluno das camadas populares:
subsídios para debate. In: ALVES, Nilda (Org.).
Formação de professores: pensar e fazer. 11. ed.,
v.30. Coleção questões da nossa época. São Paulo:
Cortez, 2011, p 48.
27
contexto brasileiro. Revista Brasileira de Educação. MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa. A formação
v.14, n. 40, jan./abr, 2009, p. 143. de professores e o aluno das camadas populares:
23
SAVIANI, Demerval. Formação de professores: subsídios para debate. In: ALVES, Nilda (Org.).
aspectos históricos e teóricos do problema no Formação de professores: pensar e fazer. 11. ed.,
contexto brasileiro. Revista Brasileira de Educação. v.30. Coleção questões da nossa época. São Paulo:
v.14, n. 40, jan./abr, 2009, p. 143. Cortez, 2011, p 48.
24 28
SAVIANI, Demerval. Formação de professores: GOMES, Marineide de Oliveira. Formação de
aspectos históricos e teóricos do problema no professores na Educação Infantil. Coleção docência
contexto brasileiro. Revista Brasileira de Educação. em formação. Série educação infantil. São Paulo:
v.14, n. 40, jan./abr, 2009, p. 143. Cortez, 2009, p. 70.

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a dimensão prática tem sido relegada a fatores que redimensionam o pensamento


segundo plano no conjunto da formação dos/as alunos/as e as suas formas de viver
geral desses profissionais”29. Concordamos enquanto seres sexuados e formadores de
com essa afirmação pelo fato de sexualidades.
entendermos que o saber fazer de uma Dessa maneira, a seção seguinte
profissão se enriquece e se aprimora, aborda algumas características da formação
também, a partir da aprendizagem de professores/as em educação sexual,
realizada via formação prática. especificamente.
Fernandes30 critica o conhecimento
acadêmico ao afirmar que esse meio se Formação de Professores/as em
utiliza muito de conhecimentos Educação Sexual
ultrapassados, se esquecendo – de certa
forma – do conhecimento atual, da Acreditamos ser necessário discutir
vivência de hoje. A autora aponta que a a respeito da formação do/a educador/a que
academia tem trabalhado “com o atuará no espaço da escola, já que o foco
conhecimento do passado, com a deste trabalho consiste em apresentar as
informação que a ciência já legitimou, e temáticas de gênero, diversidade sexual e
não com os desafios do presente ou com o sexualidade.
conhecimento empírico na busca de Voltamos à questão inicial: será que
compreendê-los e ressignificá-los”31. os/as profissionais da educação se sentem
Dessa forma, entendemos que a preparados/as para trabalhar o tema?
comunidade acadêmica deve articular seus Santos e Araujo32 afirmam que “[...] é
espaços para que consiga estabelecer uma comum (...) um posicionamento, se não
reflexão crítica e contextualizada a respeito oposto, pelo menos neutro a respeito da
da educação. E em se tratando de educação abordagem de tais assuntos”. As mesmas
sexual, é necessário que esta se articule autoras inferem que isso se justifica “[...]
com a produção intelectual, com os fatores pela falta de conhecimento, pelos valores
econômicos e com a ideologia de cada arraigados e/ou pelo receio de que o
época. A educação sexual deve pensar as resultado do trabalho seja interpretado
questões de gênero e de sexualidade como negativamente”.
Nesse sentido, nas linhas que
29
GOMES, Marineide de Oliveira. Formação de seguem, discutimos acerca de algumas
professores na Educação Infantil. Coleção docência atitudes necessárias para que o trabalho de
em formação. Série educação infantil. São Paulo: educação sexual seja realizado com um
Cortez, 2009, p. 70.
30
FERNANDES, Cleoni Maria Barboza. Formação viés emancipatório.
de professores, ética, solidariedade e cidadania: em Para que um/uma profissional
busca da humanidade do humano. In: SEVERINO,
Francisca Eleodora Santos (Org.). Ética e formação
trabalhe a educação sexual escolar, é
de professores: política responsabilidade e necessário que ele/a entenda que
autoridade em questão. São Paulo: Cortez, 2011.
31
FERNANDES, Cleoni Maria Barboza. Formação
de professores, ética, solidariedade e cidadania: em
busca da humanidade do humano. In: SEVERINO,
32
Francisca Eleodora Santos (Org.). Ética e formação SANTOS, Dayana Brunetto Carlin dos;
de professores: política responsabilidade e ARAUJO, Débora Cristina de. Sexualidade e
autoridade em questão. São Paulo: Cortez, 2011, p. Gêneros: questões introdutórias. Sexualidade.
64. Curitiba: SEED-PR, 2009, p. 15.

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[...] o trabalho de educação sexual na pensar por si próprio, a adotar com


escola deve ter uma leitura pedagógica – segurança um posicionamento pessoal
e ser desenvolvido dentro das técnicas em relação a valores morais, bem como
educativas, retirando da prática a visão a tomar decisões36.
terapêutica que afirma ‘eu vou resolver
seu problema’ 33.
Pensando dessa forma, o trabalho
com a educação sexual pode abrir portas
O autor aponta a ideia de que os/as
para outras discussões necessárias. Dentre
professores/as não devem ditar normas do
elas, podemos citar: respeito ao próximo,
que é certo ou errado, ou “impor seus
relações familiares, relação com os/as
valores, acreditando que é o melhor para o
colegas etc.
aluno [e para a aluna]”34, pois mesmo
Ao observarmos os currículos
entendendo que essa seja a melhor
escolares, percebemos que os conteúdos
intenção, não é a melhor postura para se
trabalhados são divididos por disciplinas,
seguir na escola.
em horários específicos. No entanto,
É possível trabalhar com a ideia de
acreditamos que a educação sexual não
que os assuntos abordados em uma
deva ser vista de forma isolada. Esse tema
discussão que trate de gênero,
deve ser debatido no decorrer das
sexualidades, diversidade sexual podem
atividades escolares.
dar abertura para o estudo de outros
Dessa forma, concordamos com
assuntos. Conforme Figueiró35, “[...] os
Ribeiro37, quando ele aponta que as
temas relacionados à Educação Sexual são
atividades que envolvem as discussões de
ricos, no sentido de ‘abrir caminhos’ para o
gênero, diversidade sexual e sexualidades
desenvolvimento da criticidade nos
devem “[...] integrar-se às atividades do
educandos [e educandas] e para a conquista
dia-a-dia (...), quando a criança apresenta
da democracia”. E isso pode ser alcançado
alguma curiosidade (...) ou tem alguma
a partir do momento em que o/a professor/a
atitude em que o professor [ou a
cria
professora] considere adequado intervir”.
Os/as especialistas que trabalham
[...] condições para a formação da com a educação sexual devem atentar-se,
autonomia moral e intelectual do
educando, isto é, levá-lo a aprender a também, à metodologia utilizada em suas
aulas. Negrão38 afirma que é primordial o
33
RIBEIRO, Marcos. Metodologia do trabalho com “[...] número mínimo de aulas expositivas e
crianças. In: _____ (Org.). O prazer e o pensar:
orientação sexual para educadores e profissionais de 36
saúde. São Paulo: Gente: Cores – Centro de FIGUEIRÓ, Mary Neide Damico. Educação
Orientação e Educação Sexual, 1999, pp.167-174, sexual: retomando uma proposta, um desafio. 3. ed.
p. 169. rev. e atual. Londrina: Eduel, 2010, p. 201.
37
34
RIBEIRO, Marcos. Metodologia do trabalho com RIBEIRO, Marcos. Metodologia do trabalho com
crianças. In: _____ (Org.). O prazer e o pensar: crianças. In: _____ (Org.). O prazer e o pensar:
orientação sexual para educadores e profissionais de
orientação sexual para educadores e profissionais de
saúde. São Paulo: Gente: Cores – Centro de
saúde. São Paulo: Gente: Cores – Centro de Orientação e Educação Sexual, 1999, p.169.
Orientação e Educação Sexual, 1999, pp.167-174, 38
NEGRÃO, Inocência Parizi. Metodologia do
p. 169. trabalho com o professor. In: RIBEIRO, Marcos. O
prazer e o pensar: orientação sexual para
35
FIGUEIRÓ, Mary Neide Damico. Educação educadores e profissionais de saúde. São Paulo:
sexual: retomando uma proposta, um desafio. 3. ed. Gente: Cores – Centro de Orientação e Educação
rev. e atual. Londrina: Eduel, 2010, p. 200. Sexual, 1999, p. 186.

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incentivo a métodos participativos, pois Cavasin41, “[...] um bom material sobre


estes facilitam a aprendizagem de maneira sexualidade não é aquele que dá respostas
agradável”. As aulas participativas também prontas, mas aquele que incentiva a
são importantes pelo fato de permitirem discussão e a possibilidade do uso de uma
“que os participantes coloquem seus metodologia participativa”. Assim,
pensamentos e sentimentos”, facilitando, entendemos que o material com o qual se
assim, a intervenção do/a professor/a. trabalha a educação sexual deve ser o mais
Negrão39 apresenta alguns tipos de interativo possível, deixando os/as
atividades a serem trabalhados com os/as alunos/as seguros para discutirem o
alunos/as, a fim de tornar as aulas mais assunto.
dinâmicas e interativas, para que assim, Dessa forma, o/a educador/a deve
eles/as participem das discussões de forma sempre se manter informado e atualizado
ativa. no que diz respeito ao conteúdo a ser
trabalhado. “Faz-se necessário pesquisar
[A] leitura de textos, exercícios, novas técnicas e dinâmicas de grupo e
questionários, vídeos e aulas expositivas buscar bons materiais impressos e
com slides ou transparências feitas por visuais”42. Assim, as discussões deixam de
eles [os/as alunos/as] ou pelo professor
podem levar a novos questionamentos e ser orientadas somente por materiais
abrir a discussão em pequenos grupos, o ultrapassados.
que funciona muito bem para os diversos As próprias mídias podem ser
assuntos.
fontes privilegiadas de debates43. As
crianças e adolescentes gostam de discutir
Essas técnicas são vistas como os programas e cenas televisivas, por
positivas a partir do momento em que exemplo. E “[...] se partirmos da premissa
estimulam a troca de ideias e “[...] ajudam de que qualquer projeto educativo deve ter
a esclarecer pontos delicados, sentimentos o objetivo não só de transmitir o
e atitudes”40. conhecimento, mas também de formar a
Aproveitando as discussões sobre consciência social crítica do cidadão”44,
as práticas, vale lembrar que os materiais podemos inferir que “[...] a educação não
didáticos são riquíssimos para trabalhar o
41
assunto. É preciso, no entanto, abandonar ARRUDA, Silvani; CAVASIN, Sylvia.
os materiais que tentam inserir valores Sexualidade e materiais educativos. In: RIBEIRO,
Marcos. O prazer e o pensar: orientação sexual para
(religiosos, por exemplo), como os educadores e profissionais de saúde. São Paulo:
manuais. Conforme afirmam Arruda e Gente: Cores – Centro de Orientação e Educação
Sexual, 1999, p.193.
42
ARRUDA, Silvani; CAVASIN, Sylvia.
39
NEGRÃO, Inocência Parizi. Metodologia do Sexualidade e materiais educativos. In: RIBEIRO,
trabalho com o professor. In: RIBEIRO, Marcos. O Marcos. O prazer e o pensar: orientação sexual para
prazer e o pensar: orientação sexual para educadores e profissionais de saúde. São Paulo:
educadores e profissionais de saúde. São Paulo: Gente: Cores – Centro de Orientação e Educação
Gente: Cores – Centro de Orientação e Educação Sexual, 1999, p.192.
43
Sexual, 1999, p. 187. Ver Andrade (2004).
40 44
NEGRÃO, Inocência Parizi. Metodologia do ARRUDA, Silvani; CAVASIN, Sylvia.
trabalho com o professor. In: RIBEIRO, Marcos. O Sexualidade e materiais educativos. In: RIBEIRO,
prazer e o pensar: orientação sexual para Marcos. O prazer e o pensar: orientação sexual para
educadores e profissionais de saúde. São Paulo: educadores e profissionais de saúde. São Paulo:
Gente: Cores – Centro de Orientação e Educação Gente: Cores – Centro de Orientação e Educação
Sexual, 1999, p. 187. Sexual, 1999, p.197.

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PERSPECTIVAS

pode deixar de estar atenta às fontes de educação sexual. Uma de suas discussões
informação e às linguagens externas à pauta-se na inserção ou não de uma
escola”45. Por essa razão, defendemos a disciplina específica de educação sexual
ideia de que as discussões acerca dos temas nos cursos de Pedagogia e em outras
que envolvem sexualidade devem ir além licenciaturas. A autora aponta que
das atitudes percebidas dentro dos muros
das escolas, os/as professores/as devem [...] a inclusão ou não de uma disciplina
pesquisar filmes e documentários que que aborde as temáticas em questão
ajudem a trabalhar com o tema de forma ocorre em meio a discussões entre as
pessoas partidárias da inclusão e criação
diferenciada. de uma disciplina específica [...] e outro
Vale ressaltar, no entanto, que “[...] grupo que advoga em favor das
mais importante que o material é o temáticas a serem trabalhadas nas
diversas disciplinas do currículo destes
educador que trabalha com ele”46. Assim,
cursos.
seja qual for o material, é necessário que se
tenham profissionais preparados/as para
Além desses apontamentos ainda
trabalharem com a educação sexual, visto
existe outra discussão levantada pela
que quem garante fonte de conhecimento
autora, que acredita ser necessário repensar
não é o material em si, mas a atuação do/a
“conceitos e conteúdos a partir do ensino
educador/educadora sobre ele.
por projeto, de estudos de caso”48. A nosso
Nesse contexto, destacamos outra
ver, todas essas tentativas são válidas. Mas
questão: as disciplinas específicas de
acreditamos estarmos longe de inserirmos
educação sexual nos cursos de licenciatura,
uma disciplina específica obrigatória
por exemplo, no curso de Pedagogia.
acerca do tema nos mais variados cursos de
Xavier Filha47, em um texto intitulado As
licenciatura. Ainda assim, concordamos
dores e as delícias de trabalhar com as
com Xavier Filha49 quando ela afirma que
temáticas de gênero, sexualidade e
“[...] as questões relativas à inclusão de
diversidades na formação docente,
uma disciplina obrigatória que discuta as
apresenta algumas discussões acerca dessa
temáticas de sexualidade e gênero são
formação docente para o trabalho com a
muito pulsantes, mas bem longe de serem
45
ARRUDA, Silvani; CAVASIN, Sylvia. consensuais”.
Sexualidade e materiais educativos. In: RIBEIRO, Pensamos que uma única disciplina,
Marcos. O prazer e o pensar: orientação sexual para sozinha, não daria conta de formar,
educadores e profissionais de saúde. São Paulo:
Gente: Cores – Centro de Orientação e Educação
48
Sexual, 1999, p.197. XAVIER FILHA, Constantina. As dores e as
46
ARRUDA, Silvani; CAVASIN, Sylvia. delícias de trabalhar com as temáticas de gênero,
Sexualidade e materiais educativos. In: RIBEIRO, sexualidades e diversidades na formação docente.
Marcos. O prazer e o pensar: orientação sexual para In: SOUZA, Leonardo Lemos de; ROCHA, Simone
educadores e profissionais de saúde. São Paulo: Albuquerque da Rocha. Formação de educadores,
Gente: Cores – Centro de Orientação e Educação gênero e diversidade. Cuiabá, MT: EdUFMT, 2012,
Sexual, 1999, p.198. p.16.
47 49
XAVIER FILHA, Constantina. As dores e as XAVIER FILHA, Constantina. As dores e as
delícias de trabalhar com as temáticas de gênero, delícias de trabalhar com as temáticas de gênero,
sexualidades e diversidades na formação docente. sexualidades e diversidades na formação docente.
In: SOUZA, Leonardo Lemos de; ROCHA, Simone In: SOUZA, Leonardo Lemos de; ROCHA, Simone
Albuquerque da Rocha. Formação de educadores, Albuquerque da Rocha. Formação de educadores,
gênero e diversidade. Cuiabá, MT: EdUFMT, 2012, gênero e diversidade. Cuiabá, MT: EdUFMT, 2012,
p.16. p.16.

Espaço Plural • Ano XIII • Nº 26 • 1º Semestre 2012 • p. 45-54 • ISSN 1518-4196


FORMAÇÃO DE PROFESSORES/AS PARA ABORDAGEM DA EDUCAÇÃO SEXUAL
NA ESCOLA

conforme Xavier Filha50, a “[...] identidade [...] um mundo onde a profissionalidade


é tão complexa, exige, com certeza, uma
profissional e ética dos/as futuros/as
jornada de crescimento e
educadores/as”. No entanto, é um espaço desenvolvimento ao longo do ciclo de
privilegiado “[...] de discussão, estudo e vida. Envolve crescer, ser, sentir, agir
reflexão sobre assuntos, conceitos e permanentemente; é um processo de
desenvolvimento e aprendizagem ao
conteúdos que, sem a referida disciplina, longo da vida.
sequer seriam aprofundados ao longo de
toda a formação”. Assim entendemos que
Assim, acreditamos que a formação
todo diálogo – com respeito e
inicial é, somente, o primeiro caminho. E
esclarecimentos – acerca dos temas gênero,
que, aos poucos, os/as professores/as que
sexualidade e diversidade sexual é válido.
trabalham, principalmente com educação
sexual, devem aprimorar os seus
Conclusão
conhecimentos e suas práticas.
Sabemos, ainda, que os temas
As ideias expostas neste trabalho
gênero e diversidade sexual, apesar de
procuraram atentar para o fato de que a boa
terem sido implantados no currículo há
formação profissional é de extrema
muito tempo, ainda refletem, por parte
importância quando se pretende abordar os
dos/as professores/as, uma abordagem
temas gênero, diversidade sexual e
difusa, quando muitas vezes permeadas por
sexualidades. Embora tais temas ainda
erros e ideologias que aparecem como
sejam colocados como tabus em nossa
limites para uma prática docente de
sociedade, acreditamos ser necessário
qualidade.
abordá-los na escola, desde as crianças
Desse modo, esperamos que o
ingressantes no meio escolar até os/as
presente trabalho possa contribuir para a
adolescentes que estão finalizando o
visibilidade dessa temática na escola,
Ensino Médio.
sendo tratada de maneira emancipatória.
Concordamos com Oliveira-
51 Ainda falta muito para os/as
Formosinho quando ela aborda que a
pesquisadores/as e educadores/as se darem
formação profissional deve ser realizada ao
conta de que a educação sexual deve ser
longo de toda a vida do/a profissional. A
realizada em longo prazo, ao mesmo tempo
autora afirma que
em que deve ser sistematizada e contínua.

Artigo recebido em 12/07/2012


50
XAVIER FILHA, Constantina. As dores e as Artigo aceito em 13/08/2012
delícias de trabalhar com as temáticas de gênero,
sexualidades e diversidades na formação docente.
In: SOUZA, Leonardo Lemos de; ROCHA, Simone
Albuquerque da Rocha. Formação de educadores,
gênero e diversidade. Cuiabá, MT: EdUFMT, 2012,
p.17.
51
OLIVEIRA-FORMOSINHO, Júlia. O
desenvolvimento profissional das educadoras de
infância: entre os saberes e os afetos, entre a sala e
o mundo. In: OLIVEIRA-FORMOSINHO, Júlia;
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Formação em
Contexto: uma Estratégia de Integração. São Paulo:
Pioneira Thomson Learning, 2002, p. 62.

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