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Universidade de Brasília – UnB

Departamento de Teorias Literárias e Literatura – TEL


Literatura Brasileira Contemporânea (cód.: 141178)
Prof.ª Dr.ª: Regina Dalcastagne
Nome: Karolliny Medeiros Costa Matrícula: 15/0014228

Comentário 3

Sobre a história em quadrinhos “Castanha do Pará” de Gidalti Jr (2016)

A obra de Gidalti (2016) narra de forma textual e imagética a história de um


garoto passada na década de 90, conhecido por Castanha-do-Pará, natural de Belém-PA,
provindo de uma família pobre que foi dilacerada pelo alcoolismo, pelo machismo e
pela violência que é consequência disso tudo. Fazendo um breve resumo: Castanha
ficou desamparado depois que sua mãe, em uma das situações de violência e agressão
que passou ao lado de seu ex-esposo – padrasto de Castanha – o matou à facada, sendo
apreendida pela polícia logo em seguida. O garoto vai parar nas ruas de Belém, mais
especificamente no famoso e maior mercado do estado, o Ver-o-Peso, conhecido
também pela quantidade de crianças e adolescentes em situação de rua que
andavam/andam por alí em busca de abrigo, restos de alimentos e outros mantimentos
para sobreviverem. Sua avó, que também morava na mesma casa, fica só, porém sempre
com a esperança de que o neto um dia retorne.

Quem narra tudo isso é uma vizinha que, no falso pretexto de tentar ajudar a
senhora solitária, interpela a polícia para ir em busca de Castanha. Essa personagem é
um modelo da hipocrisia da nossa sociedade: finge estar preocupada, mas se tratando de
um jovem pobre, negro, vindo de uma família desestruturada, ela logo se convence de
que ele é apenas um marginal que está dando trabalho e preocupação para a avó, e que,
não bastando todo esse preconceito, ainda considera que ele possa ser um risco para a
vizinhança e mais especificamente para o seu filho (que aliás não tem nada de mocinho
nessa história). Por isso, ela não mede suas palavras ao descrever o garoto ao policial
que está recolhendo seu depoimento. É a típica vizinha “fifi”, que observa e julga a vida
de todos e todas e se considera um modelo a ser seguido pelos e pelas demais, inclusive
durante o depoimento ela faz várias interrupções para falar mal de outras pessoas.

As características mais marcantes de toda a obra são: a singularidade das


ilustrações, que têm uma natureza alegórica e fabulosa, exteriorizando a forma como a
sociedade enxerga os jovens marginalizados que se encontram em situação de rua,
simbolicamente ilustrados nessa HQ como seres híbridos (meio humanos e meio
animais “urbanos e sujos”, que causam certo incômodo e pavor na sociedade, e que
tanto faz existir ou não, visto que são considerados como “pragas”); a paleta de cores
diversificada e viva que dilui um pouco o peso da hiperrealidade da história; a
linguagem utilizada, que respeitou e manteve os dialetos e socioletos daquela região, o
que deu ainda mais vida e realidade para o texto; a ordem de exposição dos fatos
ocorridos (narrados pela fofoqueira), que serviu para dar um ar de suspense e mistério à
história; e por último, não menos importante, a forma como autor mostrou o lado
psicológico do menino-urubu Castanha, que, mesmo vivendo uma situação de
precariedade total em todos os sentidos, ainda mantinha seu lado “criança”: brincava e
imaginava um mundo no qual ele não sofria e tinha um papel relevante na sociedade –
como um super-herói ou uma pessoa célebre - conservando, assim, sua essência de
menino ingênuo, mas que, devido às adversidades que vivenciou em casa e nas ruas, já
tinha aprendido mais ou menos a se virar e a se defender naquela Belém caótica dos
anos 90.

A sensibilidade com que Gidalti trabalhou essa HQ é surpreendente, chegando


até mesmo a ser emocionante. Lidar com a realidade nua e crua assim comove e
provoca imediante no leitor ou leitora uma conscientização ou uma reflexão mais crítica
acerca da realidade vivida não só naquela região, mas no país de um modo geral. A
invisibilidade de pessoas em situação de rua pelo estado e pela sociedade, além de todos
os maus julgamentos e preconceitos, ainda é algo gritante.