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CARLOS AUGUSTO DE FIGUEIREDO MONTEIRO

Rua
da

GLÓRIA
3

1993
CARLOS AUGUSTO DE FIGUEIREDO MONTEIRO

Rua
da

GLÓRIA
3

No Tempo dos Revoltosos


(1921 – 1934)

1993

i
À minhas Tias
Dulce
Zeneide
Gersila
e Edith

ii
Sumário

1. Os Turbulentos Anos Vinte ................................................................................... __


1.1. O Brasil nos Anos Loucos ............................................................................. __
1.2. O Meio Norte e a Marginalização do Piauí.................................................... __

2. Teresina à Época do Centenário da Independência. Os Dois Lados da Família ... __


2.1. O Major Santídio e sua Família ..................................................................... __
2.2. Perfil do Jovem Mundico............................................................................... __
2.3. A Viúva do Major Fiscal e seus Filhos .......................................................... __
2.4. Perfil da Jovem Graci..................................................................................... __
2.5. A Estória de Amor do Primo Zuca com Rapto, Perseguição e Fuga ............ __

3. Piauí 1925: Teresina entre Enchentes do Paranaíba e Passagem da Coluna


Prestes. O Casamento............................................................................................ __
3.1. A Cera de Carnaúba no Norte e o Progresso da Parnaíba.............................. __
3.2. O Sul e os Jagunços ....................................................................................... __
3.3. Teresina e as Enchentes Calamitosas............................................................. __
3.4. A Passagem dos Revoltosos........................................................................... __
3.5. Estória do Casamento..................................................................................... __

4. Um Princípio de Vida no Piauí na Passagem dos Anos Vinte aos Trinta ............. __
4.1. O Ano de 1927: Um Nascimento na Rua da Glória ...................................... __
4.2. Tempo Brasileiro entre 1929 e 1930.............................................................. __
4.3. Primeiras Imagens na Parnaíba e Descoberta do Mundo na União e em
Teresina.......................................................................................................... __
4.4. A Vida Periférica do Piauí no Brasil do Governo Provisório ........................ __

iii
“....... : consciência significa principalmente memória. À memória pode
faltar amplitude; ela pode abarcar apenas uma parte ínfima do passado; ela
pode reter apenas o que acaba de acontecer; mas a memória existe, ou então
não existe consciência. Uma consciência que não conservasse nada de seu
passado, que se esquecesse sem cessar de si própria, pereceria e renasceria a
cada instante; como definir de outra forma a inconsciência? quando Leibiniz
dizia que a matéria é ‘um espírito instantâneo’ não a declarava, bem ou mal,
insensível? Toda consciência é, pois, memória – conservação e acumulação
do passado no presente.
Nas toda consciência A antecipação do futuro, Consideramos a direção de
nosso espírito a qualquer momento: veremos que ele se ocupa do que ele é,
mas sobretudo em vista do que ele vai ser. A atenção é una expectativa e não
há consciência sem uma certa atenção a vida. O futuro lá está: ele nos
chama, ou melhor, ele nos puxa: esta tração ininterrupta, que nos faz avançar
na rota do tempo, é também a causa de que ajamos continuadamente. Toda
ação é um penetrar no futuro.
Reter o que já não é, antecipar o que ainda não é, eis a primeira função da
consciência. Não haveria para ela o presente se este se reduzisse ao instante
matemático. Este instante é apenas o limite, puramente teórico, que separa o
passado do futuro; ele pode a rigor ser concebido, não é jamais percebido;
quando cremos surpreendê-lo, ele já está longe de nós. O que percebemos de
fato é uma certa espessura de duração que se compõe de duas partes: nosso
passado imediato e nosso futuro iminente. Sobre este passado nos apoiamos,
sobre este futuro nos debruçamos; apoiar-se e debruçar-se desta maneira é o
que é próprio de um ser consciente. Digamos, pois, que a consciência é o
traço de união entre o que foi e o que será, uma ponte entre o passado e o
futuro....”

BERGSON (1859-l941)

“A Intuição Filosófica”
(Conferência – 10.01.1911)

iv
Prólogo

–1–
Os galos já cantavam a algum tempo. Uma fresta de tênue luz atravessava a
persiana da janela anunciando que já era mais que tempo de levantar-se. Graci ouve
barulho na cozinha e percebe que D. Julia, sua mãe, e a prima Benilde, já estão
preparando o café. Dulce, a irmã, esgueira-se da rede bocejando preguiçosamente. Já
devem ser umas cinco e meia, diz à irmã. É tempo de ir andando, responde a outra.
Graci dormira mal aquela noite, preocupada com o passo que daria hoje. Estava
acertado com o Padre Cyrilo que ele celebraria o casamento após a missa das seis.
Mundico ia esperá-la na igreja do Amparo. A moça separa o seu melhor vestido, aquele
de shantung estampadinho predominando o amarelo palha. As irmãs vão ao banheiro,
apressadas, e voltam para vestir-se. Pegam os missais e as mantilhas. Em seguida vão
para a cozinha. Dona Julia, muito séria, despeja café nas xícaras. As moças mal tomam
o café. Pensam estar atrasadas. Faltam ainda vinte minutos para as seis, informa
Benilde. Mas até chegar à igreja é mais que tempo de irmos andando. – “Vão com
Deus”, diz D. Julia, tomando o seu café, apreensiva.

v
As três moças partem apressadas, descendo a rua da Glória. Os tacões dos seus
sapatos nas calçadas ecoam pela rua ainda silenciosa, com as primeiras portas se
abrindo e algumas pessoas saindo apressadas. Em menos de dez minutos estão
atravessando a praça Rio Branco, quase vazia, e entram pela porta lateral, da sacristia,
na Igreja.
Mundico já estava à espera – O padre disse que, acabada a missa, devemos ir até
ao altar mor. O safado do padre está de olhos vermelhos; deve ser do porre dessa noite.
– “Respeite o pobre do padre, que também é una pecador”, intervém Benilde. As três
moças entram na nave da igreja para assistir a missa já começada mas ainda no
ofertório.
A igreja tem mais gente que o habitual na missa das seis horas. As pessoas estão
assustadas e aflitas. Os revoltosos estão do outro lado do rio, pertinho das Flores e
outros deles vêm vindo por outros lados, cercar a cidade. – “Senhor, tende piedade de
nós...” ressoam os votos sinceramente aflitos dos fiéis. A missa acaba, uns disparam
quase correndo para suas casas. Outros acendem velas e ajoelham-se nos altares laterais.
Padre Cyrilo Nunes celebra o casamento de Gracildes e Mundico, na presença
das duas testemunhas e alguns curiosos que ficaram assistindo. Algumas pessoas aflitas
rezam. Outros falam alto.

–2–
O automóvel Ford vai resfolegando pelos calombos das ruas do Amparo e da rua
da Glória, por onde segue, subindo até a casa da viúva do Major Gerson de Figueiredo.
Os noivos à frente, as duas moças atrás. Ao apear-se da viatura Mundico anuncia a D.
Julia, que assoma à janela:
– “Estamos casados no padre. Agora falta o Juiz. Tenho que ir buscá-lo. Antes
vou apanhar minha irmã Mariquinha e o cunhado Pombo, que são minhas testemunhas
do civil”.
Benilde comenta: “Casamento mais esquisito estes de vocês. Sem os pais do
noivo... e da noiva, diz olhando de soslaio para a prima Julia. Esta retruca:
– “Numa hora perigosa destas, com os revoltosos às portas da cidade e todo
mundo fugindo! Aquele maluco quer levar a gente, ainda hoje, para o Alto Longá, mas é
preciso arrumar alguma bagagem. Sabe-se lá quando poderemos voltar. Só Deus sabe! –

vi
D. Julia entra para o seu quarto procurar alguns sacos de pano para colocar as redes, e
arrumar alguma mala”.
Dulce dá risadas ante o nervoso de Zeneide, que morre de medo dos tiros dos
revoltosos. A garota Gersila e o menino Gerson, estão alegres por poderem ir à fazenda,
andar a cavalo. Era bom aproveitar aquelas férias. Gersila havia tido o seu primeiro ano
de estudos, bem puxado, na Escola Normal.
– “Venham arrumar-se antes que o juiz chegue. Mesmo saindo amanhã não há
tempo a perder. Onde foi o Gerson? Já saiu para o maldito futebol? Aquele menino não
toma jeito”. – D. Julia conclama todos ao trabalho.
Gracildes e Benilde conversam, à parte:
– “Você há de ser feliz, minha prima, se Deus quiser. E ele há de permitir que o
rapaz assente a cabeça e seja um bom marido”.
– “Queria tanto ter casado no dia oito, dia de Nossa Senhora da Conceição. Ela
está aqui no meu peito. A moagem de ouro que minha avó Celsa deixou para Mamãe e
que ela diz que será minha”.
– “Tenha cuidado para não perder, menina. Nestas horas de confusão, nunca se
sabe...”
Um tropel de cavalos é ouvido na rua. Passa gente correndo, algumas mulheres
gritam histéricas... Deus nos acuda! Os revoltosos, estão chegando! Vão nos matar! .
Será possível? São rapazes de boas famílias, militares formados em academias. Os
tenentes querem é derrubar o governo. Pra que vão nos matar? Não precisa fugir...
Nunca se sabe! O melhor é dar o fora, enquanto é tempo... O seguro morreu de velho...
São frases que se repetem, na confusão.
Todos os vizinhos estavam às portas e janelas. Indagavam, conjecturavam ante o
perigo. Discutiam. Nesse momento o automóvel está de volta trazendo o Sr. José
Belizário e D. Mariquinha Rocha
– “Só o doido do meu irmão pra se casar numa hora dessas. Tenho muito o que
fazer em casa, pois vamos sair para o Bonito logo depois do almoço. Não é por medo
dos revoltosos, diz D. Mariquinha, pois já é tempo de ir para lá, como todo fim de ano
nós vamos. Vocês também deviam ir hoje, com a gente. Mas amanhã nos encontramos
nos Altos pois as montarias já estão nos esperando...”

vii
D. Julia ouvia a fazendeira falando. Não simpatizava com ela. O marido, o Sr.
Pombo era muito gentil e atencioso. Mas esta mulher... parece a dona do mundo.
Sempre dando ordens. Ainda bem que nos ofereceram para ficar em outra fazenda, perto
do Bonito. Não fosse o medo dessas meninas não deixava minha casa. Imaginem se os
soldados vierem saquear a cidade. Não temos muita coisa mas, por isso no esmo,
sempre faz falta. E este juiz que não chega! Parece até que é um aviso...

–3–
O Ford fumegava. O radiador precisava de água. – Mas agora não vou parar,
pensava Mundico na direção. Não posso atrasar pois este velho dá um ataque. Velho
cagão! pensava, ele, ao lado do juiz.
Dr. Ernesto Baptista resmungava:
– Só um maluco pra casar numa hora dessas. Todo mundo fugindo. A cidade
sitiada, correndo perigo... Não se esqueça rapaz que logo terminada a cerimônia você
vai me levar até a beira do Poti onde a minha família está a minha espera. As montarias
já estão prontas desde cedinho. Estamos atrasadíssimos... e correndo perigo.
O automóvel para à porta de D. Julia. Há muitas pessoas na calçada. Uns
preparando-se para dar o fora... outros, curiosos, querendo assistir. Os casamentos civis
realizados nas casas de famílias são feitos à portas abertas... quem quiser pode ver.
O escrivão do registro civil já chegara. O Juiz entra aflito. Vamos logo, vamos
logo, que preciso viajar. Onde estão as testemunhas? O Juiz e o escrivão ficam de um
lado da mesa de jantar, coberta com uma toalha de crochê. Em frente a eles
emparelham-se os noivos tendo de um lado, Dulce e Benilde. A eles junta-se o Hercínio
Fortes, amigo de Mundico e noivo de Iracema Veras, prima de Gracildes. Do outro
lado, José Belizário e Dona Mariquinha.
– Alguém neste recinto sabe de algum impedimento...
O juiz principia a cerimônia. D. Julia, os olhos marejados de lágrimas, afasta-se,
lentamente, da saia. Respira fundo ao chegar ao quintal, no meio das plantas. Apanha a
latinha de cinzas e peles de fumo. Nas horas de aflição, arear os dentes é um calmante...
Deus tenha piedade de minha filha, soluça D. Julia. Chega ao limoeiro carregado de
flores. O chão está juncado de pétalas. D. Julia arrebanha os lados de sua saia ampla e

viii
põe-se de cócoras... arcando os dentes. Eram dez horas e o sol estava alto no céu. Para o
poente, acumulavam-se nuvens pesadas e escuras.

ix
1. Os Turbulentos Anos Vinte

Ao entrar na segunda década do século XX o Brasil preparava-se para


comemorar o primeiro centenário de sua Independência de Portugal. Com sete décadas
de Reinado e três de República, em meio a muitas mudanças, a construção da nação
fazia-se ainda por meio de muitos percalços. Parecia pouco tempo para aglutinar
harmonicamente um espaço tão amplo, quase continental, e composição étnica tão
díspar, do modo esperado conforme o dístico aposto em nossa bandeira.
A grande guerra, de européia passara a condição de primeira “mundial” e
embora fosse o prelúdio ou introdução à segunda – as mudanças produzidas já eram
bastante sintomáticas de substanciais mutações no globo.
Em 1919, ou seja, ao final da primeira grande-guerra, o Brasil substituíra a libra
inglesa pelo dólar americano como unidade internacional de conversão de nossa moeda.
Em realidade o mundo, após a conferência de Versalhes, já não era o mesmo. Não era
apenas a Alemanha, o país mais populoso da Europa (60 milhões de habitantes), – a
cujo extraordinário desenvolvimento interno outras potências haviam cortado suas
pretensões coloniais e inflingiram a derrota militar – que estava abalado. Embora
humilhado pela perda dos territórios da Alsácia – Lorena, incorporados na guerra de
unificação (1870) e do peso da enorme divida de guerra que lhe fora imposta, não era a
única abalada. Com ela estavam abalados o império russo, o otomano e o austro-
húngaro. E o próprio Império Britânico, tão poderoso, não só via enfraquecer-se os
laços da Commonweath como principiava a passar o bastão do prestígio aos Estados
Unidos da América.
Neutra no início, e após vacilações, a nação americana, sob a égide de Woodrow
Wilson, entrou na guerra (1917) ajudando a consumação da vitória sobre a Alemanha.
Este papel e mais os esforços de Wilson em prol de uma Liga das Nações colocaram os
Estados Unidos na proa da política internacional. Mas aquilo que poderia gerar uma
liderança na política mundial, foi mudado. O Senado Americano recusará a Liga das
Nações enquanto o Presidente Warren Ardem (1920-1923) – o obscuro senador de
Chicago que chegara à presidência – declarava que “não buscamos tomar parte na
direção dos destinos do mundo”. Preferia uma “absorção nos assuntos nacionais”,

1
conduzindo a América para uma era de isolacionismo – na política externa – e
materialismo como força interna, impulsionadora dos negócios (bussines). Este
isolacionismo – após o ingresso ao colonialismo no Caribe e no Pacifico – era um hiato
possibilitado, de um lado pela vastidão de um território que se havia beneficiado da
apropriação de extensas áreas do México (Califórnia, Texas e Novo México); por outro
lado a experiência da guerra européia deixara nos americanos como que um ar superior
e “blasé” que os levava a afastar-se da desordem reinante no “resto do mundo”.
Os anos vinte serão uma década decisiva na evolução econômica dos Estados
Unidos e sua organização interna. Mas longe da simplicidade de um desenvolvimento
continuo e igualmente distribuído ele será – como soe acontecer tanto nos países, como
nas pessoas – acompanhado de grandes contrastes e contradições internas. Há como que
duas faces. Brilhante à superfície externa e sombria no interior. O aumento da renda
percapita crescerá, entre 1921 e 1929, de 660 para 857 dólares1 enquanto a produção de
automóveis crescia de 8 para 23 milhões. No panorama industrial, a do automóvel
empregava 15% do aço do país. Esta indústria, nascida na virada do século, não só
aumentará nos anos vinte mas revolucionará o processo industrial pela chamada
estratégia do “fordismo”, ou seja, a montagem por etapas simultâneas e independentes.
Roland Barthes, o critico francês, considerou que o automóvel está para o século
XX como a catedral gótica esteve para a Idade Média. Isto dá bem a idéia da
importância do “valor” que passa a revestir a idéia do “novo”, do “moderno” e,
sobretudo a idéia do “movimento” prenunciado aquela da “velocidade” – onde o novo é
o bom, o que está por aparecer é o melhor, tornando tudo descartável – que nos viria
massacrar hoje em dia.
Mas não eram só os automóveis. O crescimento da renda promovia a busca do
conforto dos eletrodomésticos – geladeiras e fogões, notadamente, à frente do cortejo
infindável que, a partir dai, se desenvolverá na faixa das utilidades domésticas.
Uma onda de construção civil percorre o país. Os edifícios arranham os céus
numa verticalidade espantosa, caracterizando a silhueta da cidade americana. Os vinte
serão também o início da era do rádio. Os raros aparelhos do início da década chegam a
atingir, em 1930, cerca de 13 milhões. A era do rádio é também a era do jazz –

1
Cifras colhidas do artigo de J.M. Roberts: “A Nova Era: os anos vinte nos Estados Unidos”, reproduzido
na História do Século XX. Vol. 3 – pp. 1218-1240 – São Paulo – Abril Cultural – 1968.

2
contribuição da cultura negra que, em música e músicos, após a conquista da Europa, se
expandirá pelo mundo.
Mas, ao lado desses aspectos brilhantes, a indústria apresenta também
problemas, notadamente na faixa dos têxteis, onde se nota uma certa estagnação. A
agricultura, em franco progresso e expansão, atinge uma tal produção que se mostra
indutora da baixa dos preços. Mas o lado mais sério que se revela abaixo da superfície
brilhante é notada, sobretudo nas desigualdades regionais. Aquela renda per capita
média de US$ 857, que chega a 881 na região Nordeste do país decai,
assustadoramente, no Sudeste. Enquanto os fruticultores da Califórnia atingem a mais
alta renda (US$ 1.246) os agricultores decadentes da Carolina do Sul exibem a mais
baixa (US$ 129), dez vezes menor que aquela.
São estes aspectos negativos da face interna que serão denunciados na literatura,
dentre outros, por Sinclair Lewis (Babbit – 1922), retratando a pobreza do campo. Na
vida das cidades e da cultura em geral, uma das denúncias será posta a nu pela
“iconoclastia furiosa” do grande crítico H.L. Mencken.
Conquanto a renda anual de 60% das famílias americanas fosse inferior a dois
mil dólares havia grande concentração de riqueza. Já em 1918, ao final da guerra, o
balanço do Comércio Mundial revelava um acúmulo de 13 bilhões de dólares. Tal
acumulação de capitais gerava internamente o costume das “vendas a crédito” como
impulsionadora dos negócios, enquanto, externamente, este excedente de capitais era
lançado pelos bancos em empréstimos. O “isolamento” não afetava o setor financeiro,
cada vez mais expandido, notadamente para a Europa, onde a própria recuperação e
prosperidade alemã vai estar na dependência dos empréstimos americanos.
É chegado o momento do velho continente passar ao jugo da influência norte
americana, que, a partir da canalização de capitais, dos empréstimos bancários, abriu as
portas do velho continente para inúmeros outros canais. O continente europeu,
cambalido pela guerra, era um campo fértil a mudanças.
Havia cerca de 10 milhões de feridos e mutilados numa guerra que fora, antes de
tudo, uma lenta carnificina. De ambas as partes as baixas, no contingente de homens em
armas, havia sido séria, em torno de 10% para franceses e para alemães. A luta de
quatro anos mobilizou esforços e sacrifícios de populações inteiras, sob estreitos
controles governamentais. Foram mobilizados para a luta vultosos capitais europeus

3
investidos no exterior o que, de certo modo, preparou o caminho para o abandono da
convertibilidade das moedas nas balanças comerciais ao que a ajuda americana – com a
retirada dos russos, mergulhados em sua revolução de outubro de 1917 – assentou a
força do dólar.
Como em quase todas as guerras, não houve grandes diferenças entre vencedores
e vencidos. Os aliados: Grã Bretanha, França, Bélgica e Itália, tidos como vitoriosos,
viam-se seriamente abalados em sua estrutura social ao longo dos anos vinte.
A Inglaterra, a par do enfraquecimento progressivo dos laços da Commonweath,
ver-se-ia palco de um acerbamento da luta de classes. Malgrado os esforços de Lloyd
George em aumentar o efetivo da nobreza, a industrialização havia aumentado o
proletariado e a luta reivindicatória faria nascer (1906) nesta década (1922) o “Labour
Party” (Partido Trabalhista). A grave situação interna no Império Russo culminara na
revolução bolchevique e a nova nação, que em 1922 adotaria o nome de União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas (1922-1992) cercava-se de um “cordão sanitário” –
um prelúdio da “cortina de ferro” – isolando-se para a edificação do socialismo, em
direção ao utópico comunismo.
A França, que dirigira muito dos seus capitais para os famosos empréstimos para
a industrialização do Império Russo, sofrerá um grande abalo com a revolução
bolchevique. Paris enchia-se de russos brancos, nobres decaídos à condição de
“chauffeurs”, empregados domésticos, chorando as penas ao som das balalaikas dos
inúmeros cafés saudosistas que proliferaram por toda a cidade. O colonialismo francês
se enfraquecia, abalado por sérias questões no Marrocos. E, sobretudo, a sua falta de
capitais respondia, em parte, pelo seu fracasso ou incompetência em ocupar e dinamizar
o vale do Rhur, que lhe tocara não pela partilha ao lado da Alsácia-Lorena, mas pela
falta alemã de pagamento da dívida.
A Alemanha principiara a perder a guerra dentro do seu próprio território
tumultuado e dividido, debatendo-se na ação revolucionária que queria impor, a
exemplo da Rússia, a hegemonia do proletariado, cada vez mais maltratado pela
Indústria Alemã.
Unificado em 1870, após a guerra Franco-Prussiana, o Império Alemão fora
constituído de uma federação de 25 unidades, das quais 22 eram monarquias, 3
repúblicas, além do caso especial da Alsácia-Lorena, controlada pela Prússia. O poder

4
executivo era representado pelo Imperador (Kaiser) Guilherme II. Do armistício até o
encerramento do Congresso de Versalhes (28 de maio de 1919), o país, enfraquecido,
debatera-se entre várias facções. Havia um denominador comum na rejeição da
monarquia, findando a dinastia dos Hohenzollern mas, em novembro de 1918, duas
diferentes repúblicas foram proclamadas, havendo cisão por repúblicas independentes
em algumas das unidades (Baviera, por exemplo).
Os esforços para manter a unidade do território que restara após Versalhes – das
25 unidades restaram 17 – decidiu-se pela eleição de uma Assembléia Constituinte
realizada a 19 de fevereiro de 1919. Em meio a muita agitação a campanha processou-se
com grande animação e com ativa participação feminina, a quem fora concedido o
direito de voto.
Em Weimar – pequena cidade da Turingia, que malgrado os seus apenas seis mil
habitantes tinha um peso considerável na cultura germânica2 – reuniu-se a assembléia (6
de fevereiro), com ampla maioria do centro (75%) num total de 421 cadeiras das quais
37 ocupadas por mulheres. A 11 de agosto desse ano de 1919 promulgava-se a
Constituição da nova república alemã – designada como República de Weimar3, tendo
como presidente o Marechal Paul Frederich von Hindenburg que vigorará por 14 anos
(1919-1933).
Talvez em nenhum outro país o epíteto de “turbulentos” tenha assentado melhor
aos anos 20 do que na Alemanha da República de Weimar. Nascida de uma guerra
perdida e uma revolução fracassada, em meio a gravíssimos problemas ela foi sede de
uma fortíssima crise que, como ensina a sabedoria chinesa, foi de sérios perigos
enfrentados e muitas oportunidades aproveitadas. Dessas contradições violentas
resultaram marcantes progressos científicos, tecnológicos e culturais que a
caracterizaram. Embora resultando no soerguimento geral da Alemanha, principalmente
no poderio industrial, foi uma época de características peculiaríssimas4. O soerguimento
econômico e a reconstrução não foram fáceis pois que não conheceu “um
desenvolvimento progressivo continuo, mas uma alternância entre situações extremas”.

2
Dentre outros atributos e méritos Weimar guarda os sepuleros de Goethe e Schiller, poetas magnos da
cultura germânica.
3
A estratégia de localizar a Constituinte nessa pequena cidade era resguardar dos trabalhos de pressão
esquerdista e das agitações de Berlin – a capital do Império – e das grandes cidades. Promulgada a nova
Constituição em Weimar, naquele mesmo outono o governo se instalaria em Berlin.

5
Ocorrem aí o processo inflacionário mais exacerbado de que se tem notícia na história
econômica, cujo pique foi atingido em 1923, quando o dólar americano chegou a valer o
equivalente a 4,2 trilhões de marcos papel.
No último trimestre desse ano a quarta parte da população ativa do país estava
desempregada. Esta situação calamitosa chegou até 1924 quando o governo americano,
segundo os planos traçados pelo Vice-Presidente Charles Dowes, injetaram 110 milhões
de dólares de empréstimos. Até o “crack” da bolsa de Nova York e a grande depressão
americana os industriais alemães tiveram tempo de reativar e impulsionar os seus
processos.
A urbanização tomava vulto na Alemanha que desde a idade média possuíra
cerca de 3.300 cidades, 25 delas com mais de 10 mil habitantes. Na República de
Weimar (1919-1933) há 92 com mais de cem mil habitantes, das quais 11 são superiores
a 500 mil.
Decaíram os aristocratas cedendo o lugar de hegemonia na sociedade ocupado
agora, não mais pela estirpe, mas, pelos milhões. As famílias Krupp e Thiessen são
representantes legítimas dessa fase. A vida no país gira entre os dois extremos: a revolta
operária e a disciplina prussiana o que equivaleu a lutas nas ruas e repressão. A ajuda
americana, de um lado e a falta de pagamento das dívidas de guerra estipuladas por
Versalhes, de outro, respondem, em grande parte, pela recuperação financeira e
industrial.
Turquia, Áustria e Hungria, aliados da Alemanha, quebraram os seus “impérios”
(otomano e austro-húngaro) e se tornariam pequenos estados, em dificuldades,
sobretudo para fazer frente ao comunismo russo.
O restante da Europa Ocidental registrava também progresso e enriquecimento
nos países “neutros” como os países Escandinavos, Baixos e Suíça. A península Ibérica,
sede das grandes potências navegadoras e coloniais de um passado já remoto, era, como
sempre, algo a parte do conjunto europeu. Se a Espanha se beneficiara de um certo
progresso, Portugal, desde a perda do Brasil, continuava atrelado à Inglaterra, num
progressivo declínio econômico que se refletia na grande instabilidade política, em

4
Veja-se, a propósito a obra de Leonel Richard “A República de Weimar”, tradução da edição original
francesa da Hachette (1983) publicada entre nós pela Companhia das Letras (1988).

6
golpes de estado5 quase anuais até que um deles (1929) revelaria o Ministro Oliveira
Salazar, mentor de futura e duradoura ditadura.
Derrotados, estagnados, recuperados ou enriquecidos todo o conjunto de países
da Europa Ocidental, após a primeira grande guerra – em que pesem as variações de
intensidade entre eles – vai ser atingido por uma necessidade de reformulação e
reestruturação econômica e, sobretudo, social. Findava-se, assim, aquela era onde o
racionalismo vigente, gerador das visões liberais e otimistas do século XIX, não era
mais possível. A Europa abalada vai viver a contradição de, ao mesmo tempo, soerguer
o capitalismo e enfrentar o comunismo. Enquanto o progresso da luta operária legaliza o
partido comunista em vários países, nasce, ao mesmo tempo o oponente fascismo, na
Itália, sob a égide de Mussolini (1922).
A conseqüência básica dessa situação econômica de recuperação é a retração de
importações aos países periféricos. Criam-se sérias restrições aduaneiras na Europa e na
América do Norte. Juntava-se, assim, a essa tendência européia à pretensa auto-
suficiência e isolacionismo6 americano. Não é sem razão que no Modelo Kondratief dos
Ciclos Longos da economia mundial, o ano de 1921 balizou a crista que separa o
período expansivo (1896-1921) daquele depressivo (1921-1948).
Aquilo que é uma tendência modificadora da curva econômica irá declarar-se
nitidamente pela implosão da Bolsa de Nova Iorque. Mas isto ocorrerá no outono de
1929, ao final dos anos 20. Até então há tempo para todos os extremos que
caracterizaram essa época como os “anos loucos” (“les années folles”, “the roaring
twenties”).
Retraídos do resto do mundo, os dois blocos que compõem o grande pólo
hegemônico da economia mundial, localizados no hemisfério norte, em ambos os lados
do Atlântico: Europa Ocidental e América do Norte, mantêm entre si relações as mais
curiosamente complexas, ambíguas, quando não contraditórias.
O isolacionismo americano impõe sérias restrições à imigração, especialmente
européia. Os anos de 1921 a 1924 notabilizaram-se pelas sérias medidas restritivas,
criando-se rigorosas taxas para os diferentes países. Neste último ano o total de
imigrantes nos Estados Unidos estava reduzido para 150.000, enquanto no período

5
De 1910 a 1929 sucederam-se 16 golpes de Estado em Portugal.
6
Em 1922 o futuro Presidente Hoover publicará um livro com esse título: “O Isolacionismo Americano”,
tendência que norteará o seu governo bem como a de Calvin Coolidge.

7
anterior à guerra (1900-1914) só a imigração italiana era superior a esse número. Os
anos vinte foram os anos da famosa “lei seca” que impulsionou as grandes quadrilhas,
“gangs” ou “famiglias” de italianos e ítalo-americanos que, na disputa do mercado
ilícito de bebidas e no contrabando em geral, promoviam massacres entre grupos rivais.
Al Capone, de Chicago foi o protótipo desses “gansters”. Além do crime e contrabando
organizados no interior dos Estados Unidos a colônia italiana atraia as suspeitas e
hostilidades pela sua participação nos movimentos “anarquista” e “comunista”. O
rumoroso caso de Sacco e Vanzetti (1927) é um exemplo desse comportamento.
A corrupção grassava por toda a parte não deixando mesmo as esferas
governamentais. O governo Harding ficou famoso pela eclosão de grandes escândalos.
Enriquecia-se facilmente e roubava-se por toda parte. Um campo fértil era a
especulação imobiliária, a medida que as cidades em crescimento explodiam. O paraíso
desse setor foi o estado da Florida, até então pouco povoado. A medida que o seu clima
subtropical mostrou-se vantajoso para o lazer dos “yankees” submetidos a invernos
rigorosos e, sobretudo, para a residência de idosos, estourou um “boom” imobiliário,
que fez duplicar a população do Estado enquanto a cidade de Miami a teve triplicada. O
ano de 1925 foi o ápice dessa febre imobiliária da Florida. Cerca de 25 mil agentes
imobiliários apregoavam as virtudes do Paraíso do Sol, onde a temperatura era 200
acima daquela de Nova Iorque. Vendia-se, mas roubava-se muito também, vendendo-se
“terrenos” em pântanos e dentro do mar. A questão racial exacerbou-se. No sul a Ku-
Klux-Klan – que ressurgira em 1915 – teve nos anos 20 o seu período máximo,
incendiando casas e enforcando negros nos galhos das magnólias.
Enquanto os negros eram perseguidos no sul, sua expressão artística – sobretudo
na musica – extravasava da América para a Europa. O jazz e os cantores negros
atravessavam o atlântico e conquistavam Paris, Londres e Berlin. Josephine Baker, após
o sucesso da “Revue Negre” foi adotada definitivamente por uma Paris capital da moda
e das artes. Igualmente em Berlim, os cabarets, popularíssimos, abriram-se à nova
mania musical. A Europa abria-se aos americanismos. O chá na Inglaterra e o vinho na
França disputavam lugar com os “cock-tails”, “bonbons”, enquanto o “fox-trot” e o
“charleston” eclipsavam as valsas e “shottishes”. Enquanto os industriais urbanos
cresciam nas cidades, no campo remanescia uma aristocracia de província, cujos
membros eram bastante reduzidas em suas fortunas e prestígio. As classes médias –

8
menos perturbadas que as classes altas – ressentiam-se dos aumentos dos impostos e
redução do poder aquisitivo. Os jovens, dela oriundos, almejavam carreiras mais
lucrativas, lançando-se em novas profissões. As classes laboriosas conquistaram
melhorias salariais e maior força no início da década, mas, a partir de 1925 houve em
certo declínio nos salários. Enquanto na Inglaterra as reivindicações concentravam-se
nas condições de trabalho, no continente as reivindicações eram mais fortes posto que
voltadas para as questões políticas, sob o fluxo dos ideais marxistas.
Nos Estados Unidos o mundo dos negócios tinha o governo a seu lado, pois que
o “individualismo’ externo favorecia, internamente, às grandes empresas que se
organizavam em grandes corporações. Com isso os salários dos operários, defasados, já
não eram aceitáveis.
Autores americanos, analistas desse período, assina- iam que os valores vigentes
no mundo dos “big-bussiness”, nem sempre necessariamente maus, pareciam declinar
em direção ao “eclipse de algumas das tradições e dos ideais mais nobres da América”.
Era como se estas visões distorcidas, pelas loucuras dos anos vinte, visassem enriquecer
o mais rápido e o mais possível, esquecendo-se os que eram pobres.
Ao lado dos capitais e empréstimos bancários os americanos enriquecidos e os
intelectuais confusos atravessavam o Atlântico para movimentar e prover de dólares a
Europa ancestral de onde alguns novos ricos se enchiam de bugigangas e milionários
compravam castelos transferindo-os, pedra por pedra, para a América. Os intelectuais
caiam na vida boêmia da “lost generation”.
O cinema, que aparecera com o novo século, estava tornando-se um hábito
universal. Os Estados Unidos, com a implantação e sucesso da indústria na Califórnia,
tornava-se o grande produtor. A Europa, além de produtora menor, consumia
avidamente a nova forma de lazer. O cinema era como que uma “fábrica de sonhos”
embalando os ideais, anseios e expectativas padronizados e estereotipados na tela. Nos
meados da década os Estados Unidos produziam cerca de 90% dos filmes projetados na
Inglaterra com uma freqüência semanal de 20 milhões de espectadores. Charles
Chaplin, vindo da Inglaterra para a América, comovia e fazia gargalhar o mundo com o
Carlitos. Nos Estados Unidos, em 1927, a freqüência aos cinemas, de costa a costa, era

9
estimada em 60 milhões semanais, chegando a atingir, em 1929, com o advento da
sonorização, 110 milhões7.
A moda parisiense, pela mão de Coco Chanel, libertara as mulheres da tortura do
espartilho e levantara-lhes as saias. Nascia a figura trêfega da melindrosa, de cabelos
cortados “à la garçonne” e boquinha pintada em coração. Talvez um dos aspectos mais
relevantes dos anos loucos tinha sido as transformações da mulher que, além da nova
silhueta, passa a trabalhar fora de casa, fumar cigarros, dirigir automóveis.., além de
conquistar o direito de voto, passou a reivindicar direitos que, em marcha lenta, vem
conquistando desde então.
A influência de Freud e a divulgação da escola psicanalítica de Viena, faziam
com que o “sexo” entrasse na conversação deixando de ser o tabu que sempre tinha sido
na linguagem cotidiana.
Toda essa efervescência dos anos vinte foi progredindo num crescendo que
atingiu o seu auge a 3 de setembro de 1929 quando a Bolsa de Valores de Nova Iorque
atingiu sua maior alta. A especulação financeira enlouquecia as pessoas até a tarde
daquela cinzenta quarta-feira de outono, o fatídico 24 de outubro, quando tudo
desmoronou.
O fato financeiro foi uma inesquecível lição à Ciência Econômica que naquela
época era ainda mais titubeante do que é nos dias que correm. Inicia-se a Grande
Depressão Americana que repercutiu seriamente não só na Europa, mas por toda a parte.
Uma queda proporcional à turbulência e às mudanças que se produziram nos anos vinte:
os anos loucos.

1.1. O Brasil nos anos Loucos


A fase descendente (1921-1948) ou retrativa da economia mundial desse novo
ciclo longo (1921-1973) com o pólo hegemônico imporá, pela restrição de importações,
que o pólo interno brasileiro vá produzir os ajustamentos necessários na economia e,
Como sempre, repercutir na estrutura social e política.
Enquanto os abalos econômicos no pólo hegemônico vão conduzir os esforços
no sentido da melhoria tecnológica – fato positivo no desenvolvimento científico e
criação artística – o pólo interno que somos nós, irá mobilizar mecanismos de

7
A morte de Rodolfo Valentino em 1926, foi calamidade que abalou os corações femininos em todo o

10
compensação econômica, visando a substituição das exportações, acompanhando-as de
sérias revisões políticas que irão abalar a república oligárquica.
É fato sabido que os fundamentos revolucionários na ciência – principiados na
primeira década do século – serão decisivos nos anos vinte, quando tomam corpo as
teorias da relatividade e dos quanta (Einstein, Max Planck). As novas concepções, os
abalos profundos na ciência “moderna” até então norteada pela razão cartesiana, vão
progredir a partir dai, preparando assim o alvorecer de uma nova “modernidade”, cujos
progressos ao longo deste século, serão marca decisiva como aconteceu no século XVII.
As grandes transformações artísticas, prenunciadoras da nova modernidade terão vulto
nos anos 20. Lembremos a revolução literária com o Ulysses (1922) de James Joyce, ao
lado do expressionismo e construtivismo na Alemanha de Weimar, com a Bauhauss
revolucionando a arquitetura, já abalada com o “art-nouveau”. O cinema alemão e a
nova estética: o “Metrópoles” de Fritz Lang é de 1926. A negação máxima através do
“dadaismo”; o surrealismo.
Até entre nós, no ano mesmo de celebração do primeiro centenário da
Independência, realizava-se em São Paulo a Semana de Arte Moderna, na qual se
propunha a “aceitação” de nossa realidade como temática e a libertação dos modelos
europeus no modo de expressão de nossas manifestações artísticas.
Os anos vinte serão, na retração econômica dos centros do hemisfério norte, o
vestibular para a 3ª dualidade brasileira (1930-1985) na qual a parceria urbana dos
senhores de terras, parceiros menores ultrapassados pelos comerciantes, vai ceder lugar
à hegemonia dos industriais – comerciantes e senhores mais evoluídos, colocando os
comerciantes como parceiros menores.
Mas será preciso considerar que o modelo dos “ciclos longos” com suas fases
contrastantes que assentou até aqui tão bem à caracterização econômica como motor do
processo histórico, passa a revestir-se – na passagem da segunda para a terceira
dualidades brasileiras – de uma complexidade bem maior. É de toda justiça ressaltar que
o famoso artigo de Ignácio Rangel refere-se a situação genérica do país. Embora
deixando implícitas as diferenças de “escalonamento” (temporal) e variações regionais
(espaciais) cumpre acentuá-las aqui neste exato momento histórico, pela importância
que os violentos contrastes entre áreas modernas e arcaicas terão, de ora em diante. E

mundo. Em 1928 era instituída a premiação do “Oscar”.

11
isto parece fundamental para o conhecimento do Meio Norte Brasileiro, especialmente o
Piauí que terá, nos anos vinte, o grande divisor d’água cuja falta de transposição o
deixou à margem do conjunto nacional.
Sem nenhum demérito para o referencial teórico que vem norteando a
caracterização histórica que serve de embasamento a esta “crônica familiar” atrevo-me a
enfatizar alguns aspectos que me parecem extremamente significativos para o caso em
tela. Talvez a mania de geógrafo (que tenho sido) impele-me a enfatizar as associações
de “tempo-espaço”. Desnecessário será dizer que a abordagem dos “ciclos longos” –
uma proposta chumpeteriana – já enfatiza as componentes “temporais”. A admissão –
da Rangel – da diversidade (dualidade) de pólos (externo e interno) já é uma associação
espacial. Contudo parece-me que o caso especial do Brasil – continentalmente amplo
em espacialidade e historicamente curto no tempo – requer ou exige mesmo um enfoque
mais acentuado.
Assegurar a unidade territorial, muito ao contrário do que aconteceu com os
domínios hispânicos, não foi apenas uma decorrência determinista advinda da
diversidade das cordilheiras e da “unidade” dos amplos planaltos e planícies brasileiras.
Politicamente ela tem muito a ver com o fato de que nossa Independência foi uma
“dádiva” do príncipe regente. Mas a isto deve-se juntar e reconhecer a importância das
variáveis econômicas do problema. E isto já foi suficientemente ressaltado, como se
percebe nessa asserção de Celso Furtado:

“... Se a independência houvesse resultado de una luta prolongada,


dificilmente ter-se-ia preservado a unidade territorial, pois nenhuma das
regiões do país dispunha de suficiente ascendência sobre as demais para
impor a unidade. Os interesses regionais constituíram uma realidade muito
mais palpável que a unidade nacional, a qual só começou realmente a existir
quando se transferiu para o Rio, o governo português. A luta ingente e inútil
de BOLIVAR para manter a unidade de Nova Granada constitui um exemplo
do difícil que é impor uma idéia que não encontra correspondência na
realidade dos interesses dominantes.”8

Até o final do período colonial a economia brasileira apresentava-se como “uma


constelação de sistemas em que alguns se articulavam entre si e outros permaneceram
isolados”. Somente a partir do meado do século XIX, por obra e graça do café, é que irá
esboçar-se um jogo de tensões que progride a medida que se hegemoniza a cultura

8
Celso Furtado – “Formação Econômica do Brasil”, edição da Universidade de Brasília, 1963 – Cap. 17,
p. 119.

12
cafeeira do sudeste, até que a classe dos cafeicultores assuma o controle do poder
político, impondo o controle geral da economia em torno desse produto.
A transferência da capital da colônia para o Rio de Janeiro, que se deveu ao ciclo
do ouro e dos diamantes nas Minas Gerais, tão curto em duração, foi realçado pela
presença da corte metropolitana. Mas a área cafeeira do Sudeste, em torno do Rio de
Janeiro, iria propiciar a hegemonia não apenas econômica mas política da classe dos
senhores cafeicultores que fizeram da República, o seu “império”.
O princípio dessa nossa crônica ocorre exatamente no meio do século (1850)
quando a Lei de Terras e a colocação do café no primeiro lugar de nossas exportações e
as outras mudanças atreladas a estes fatos, promovem o completo deslocamento do
centro de gravidade do país do Nordeste para o Sudeste. A ação dos barões do café do
Império e sua transformação em “republicanos convictos” só aumentou-lhes o poder.
Embora no esquema genérico os senhores do café possam ser associados aos senhores
de engenho da Zona da Mata Nordestina e dos coronéis do sertão algodoeiro há, entre
eles uma profunda diferença. Os cafeicultores, além de estarem nos arredores da capital
federal, adquiriram um treinamento econômico financeiro que, aliado ao tráfico de
influência, conciliou os laços econômicos aos políticos alçando-os à condição de classe
verdadeiramente dominante do país.
Já se tem ressaltado como a chamada “política dos governadores”, desenvolvida
por Campos Salles em nome do fortalecimento da federação, serviu bem mais à
centralização do poder. A dobradinha café-com-leite dominava a política nacional.
Quando um político paraibano foi alçado à Presidência – Epitácio Pessoa, em cujo
governo se – festejou o centenário – foi como amortecedor à pressão do Rio Grande do
Sul que se opôs violentamente ao domínio continuado dos dois estados cafeeiros.
O papel desempenhado pelo café na economia nacional e na sua definição
política é, como tudo na vida, penetrado de dualismos antagônicos. E esse papel
decisivo já foi explicado. Ao comentar os esforços brasileiros para eliminar os efeitos
dos acordos econômicos firmados com a Inglaterra em 1827 – uma espécie de
recompensa pela ajuda em nossa Independência de Portugal – e a passagem dos Estados
Unidos para o posto de nosso principal importador de café, Celso Furtado acrescenta:

“O passivo político da colonia portuguesa estava liquidado, Contudo, do


ponto de vista de sua estrutura econômica, o Brasil da metade do século XII
não diferia muito do que fora nos três séculos anteriores. A estrutura

13
econômica baseada principalmente no trabalho escravo, se manteve instável
nas etapas de expansão e decadência. A ausência de tensões internas,
resultantes dessa imutabilidade, é responsável pelo atraso da
industrialização. A expansão cafeeira da segunda metade do século XIX,
durante o qual se modificaram as bases do sistema econômico, constitui uma
etapa de transição econômica, assim como a primeira metade desse século
representou uma fase de transição política. É das tensões internas da
economia cafeeira em sua etapa de crise, que surgirão os elementos de um
sistema econômico autônomo, capaz de gerar o seu próprio impulso,
concluindo-se então definitivamente a etapa colonial da economia
brasileira.”9

A economia cafeeira foi, assim, decisiva para a in1plantaçao industrial efetiva,


após o seu atraso e seus ensaios por diferentes regiões. Não só pela acumulação de
capitais mas devendo muito também ao treinamento “empresarial” dos cafeicultores e a
entrada dos imigrantes não ibéricos – atraídos pelo próprio café, em São Paulo, ou nos
contingentes coloniais agrícolas do sul do país – cuja motivação empresarial para a
indústria tem a ver, tanto com a ancestralidade quanto com a forte aspiração de
conquistar um lugar de destaque na sociedade. Ao mesmo tempo os novos donos do
poder, do Sudeste, estavam libertos dos arcaísmos tradicionais nativos que já se
percebiam arraigados em outras regiões, sobretudo no Nordeste.
Recuando ao início do processo de industrialização, que se manifestou pelas
diferentes regiões, constata-se que ele foi entravado pela vigência do escravismo. De
pouco adiantaram as desvalorizações da moeda e mesmo as tarifas protecionistas de
Alves Branco (1844) e do Visconde de Itaboraí (1868) pois que a falta de uma classe
obreira livre, recebendo salários baixos, não poderia ser suprida pela mão-de-obra
escrava que, mesmo com a liberação de salário, arcava com o sustento total do
trabalhador. Assim, o início da industrialização foi lento. Das 50 indústrias existentes
em 1850 chegou-se a 1881 com 200, das quais 44 eram fábricas de tecidos: o ramo dos
têxteis tido como a etapa pioneira na industrialização dos países em fase pre-capitalista.
E foi no Nordeste que, após a reforma tarifária de 1844 se instalaram as primeiras
manufaturas têxteis modernas.
Na capital imperial a era de Mauá (1846-1875)10 visando outras formas mais
pesadas viveu a duras penas. Os últimos esforços imperiais para fomentar a indústria –

9
Celso Furtado. Op. cit. p. 47-48.
10
Irineu Evangelista de Souza, gaúcho radicado no Rio de Janeiro, Barão e Visconde de Mauá foi o
pioneiro grande empresário industrial (doublé de banqueiro) que procurou incrementar inclusive a
indústria naval, nos estaleiros da Ponta da Areia (Niterói).

14
foram as medidas do futuro visconde de Ouro Preto (1879) que repercutiram
favoravelmente nos têxteis em São Paulo. Mas a industrialização será obra da
República, assentada sobre o café.
Embora fracassado, o “Encilhamento” (1890-1891) de Ruy Barbosa fez
aumentar o número de industriais do país que, dos 50 do meio do século XIX chegara,
ao advento da República, a 636. O sucesso da cafeicultura e a resultante hegemonia
política dos cafeicultores implicou na vigência de uma crescente política de valorização
do café que, entre 1906 e 1914 foi decisiva para a prosperidade e acumulação de
capitais.
A guerra de 1914-18 ajudou consideravelmente o impulso nas nossas indústrias.
Embora muito longe da produção agrícola – onde o café era o rei – a exportação de
nossos produtos manufaturados, durante a guerra, cresceu de 0,9% em 1913 para 29,0%
em 1918.
Os anos vinte serão o período decisivo não só para o “salto” no processo
industrial, pela implantação da “grande” indústria mas também pela sua concentração
no Sudeste, notadamente em São Paulo, que será o nosso parque industrial. E isso será
feito à base de uma considerável concentração de capitais em grandes corporações11.
A industrialização no Nordeste, pelo menos nas cidades litorâneas onde seria de
esperar que se avolumasse posto que, já ensaiada, se bem que não paralisada, contudo
não se efetiva. Aqui o valor e o peso da iniciativa perdem para as injunções políticas
locais, como bem demonstra a luta entre a visão esclarecida do empresário Delmiro
Gouveia e a perseguição de Rosa e Silva, em Pernambuco12. Em 1914 – momento de
florescimento industrial no país – seu empreendimento Agro Fabril, da famosa Fábrica
da Pedra, no sertão alagoano, fabricando as linhas “Estrela”, após renhida luta com a
firma inglesa Machine Cottons, produtora das linhas “Corrente”, não conseguiu firmar-
se. Em 1919, após a morte do empresário nacional (1917) foi adquirida pela adversária
inglesa que desmontou a fábrica a porrete, jogando a sucata no leito do rio São
Francisco.

11
Chegou-se a um grau de concentração tal que 4% das empresas detinham 62% do capital industrial;
utilizavam 59,5% do total da energia consumida; empregavam 46,5% da mão-de-obra e 48,8% do
produto industrial.
12
Delmiro, com o seu Mercado Modelo do Derby no Recife foi o precursor dos super-mercados (1898-
1900). A novidade acabou-se em um suspeito incêndio.

15
Os investimentos estrangeiros visavam mais a exploração das ferrovias da mata
para o sertão, motivando a valorização das terras e a disputa sobre elas. Embora o
comércio se ampliasse, reforçando o prestígio do comerciante na cidade, o senhor de
terras, das grandes monoculturas, continuava a ser o parceiro, fazendo falta a
emergência da classe do “industrial”, que ficou, senão de Lodo ausente, atrofiada.

“O rápido crescimento da economia cafeeira – durante o meio século


compreendido entre 1880 e 1930 – se por um lado criou fortes discrepâncias
regionais de níveis de renda per capita, por outro dotou o Brasil de um sólido
núcleo em torno do qual as demais regiões tiveram necessariamente de
articular-se.”13

Aquilo que se evidenciara no meio do século passado como tendência, seria


efetivamente firmado nos anos 20 deste século, após a primeira guerra mundial, tida
como a “primeira fase de aceleração do desenvolvimento industrial”.
O censo de 1920 indica que a concentração de operários no estado de São Paulo
já atinge 29,1% enquanto o total do Nordeste, incluindo a Bahia é de 27,0%. O declínio
do Nordeste será crescente pois em 1940 exibirá apenas 17,7%, estacionando nesse
patamar porquanto em 1950 apresentará 17,0%14.
Consumou-se assim a hegemonia do Sudeste sobre o conjunto do território
nacional, em torno do novo “core” econômico que, será, cada vez mais, o parque
industrial paulista. Não se veja nisso uma razão para “ressentimentos” e lamentações
ociosas num arraigado regionalismo. A perspectiva deve ser, antes de tudo, nacional,
brasileira, sobretudo porque o fato que é a concentração regional de renda é um
fenômeno universal que pode ser notado em toda parte, incluindo os próprios países
hegemônicos na economia mundial que, de nenhum modo, possuem homogeneidade
interna. No caso especifico do Brasil, em suas dimensões continentais tão amplas, a
reestruturação geográfica dos espaços econômicos é, contudo, extremamente
significativa para que se possa compreender os diferentes modos de vida, nas diferentes
regiões, afetadas por possibilidades variadas de condições naturais e de conjunções
complexas de eventos temporais.
O que desejo enfatizar – em proveito da minha crônica de família – é que a partir
dos anos 20, vestíbulo da terceira dualidade brasileira, não haverá mais aquela

13
Celso Furtado. Op. cit. – Cap. 36, p. 293-294.
14
Dados coligidos em Celso Furtado. Op. cit. p. 295.

16
simplicidade de falar-se em pólo externo (que já se bifurcara nitidamente) e sobretudo
num pólo interno porquanto houve aqui, a criação de um “outro” pólo: aquele de
concentração nacional. Até então o passivo colonial fizera sobreviver aquela estrutura
em arquipélago ou constelação de sistemas desarticulados que, de modo geral, se dirigia
de cada ponto para o entreposto de Lisboa, entrada para o pólo Britânico. Agora, haverá
– para as áreas periféricas do território nacional – uma vacilação, ambigüidade ou
indefinição entre o dirigir-se para o antigo pólo – ele mesmo dividido para os dois lados
do Atlântico Norte – seguindo inicialmente o fluxo antigo ou dirigir-se, em vez, para a
novidade que é o pólo intermediário, espécie de entreposto interno (São Paulo sucessor
de Lisboa) que se arroga, doravante, a sincronizar ou articular os sistemas (arquipélagos
ou constelações) “colonialmente” isolados para formar um “todo” integrado
“nacionalmente” (Vide Gráfico).
Esta será, para o Brasil, uma característica peculiar dos anos vinte ao final do
que a grande crise (1929), com as medidas protecionistas e salvadoras da política
cafeeira, vão acabar por confirmar e fortalecer o pólo do Sudeste como “core”
econômico do país, absorvendo as demais regiões da vasta periferia nacional.
As relações do novo centro econômico nacional aglutinador do “polo interno”,
no contexto da economia mundial, vai girar ainda entre Inglaterra e Estados Unidos.
Embora até 1929 o predomínio dos investimentos e o peso do capital sejam do primeiro,
a América vai conquistando gradativamente o seu lugar no espaço econômico brasileiro.
Dos 50 milhões de dólares investidos no Brasil em 1914 os Estados Unidos passaram a
557 milhões em 1930, momento em que os capitais ingleses ainda dominavam com
1.375 milhões de dólares. A balança comercial pendia mais para a América de vez que
já era maior importadora do nosso café. Os ingleses ainda estavam mergulhados em chá,
por essa época. Mas era à Inglaterra que se recorria para as operações financeiras. Em
1927 o Brasil contrairia uma enorme divida com os bancos de Londres, de quase nove
milhões de libras. Em 1928 o magnata Henry Ford investia num projeto na Amazônia,
numa tentativa de racionalizar a cultura da “hévea” após a perda para a Malásia.
Embora abortado, esse projeto será precursor de investimentos crescentes que, no
futuro, sobrepujarão a hegemonia dos capitais britânicos.

17
18
Relação Tempo-Espaciais Entre Economia Brasileira (Pólo Interno Dependente) e Economia Mundial (Pólo Externo
Dominante). Tentativa de Esquematização Teórico-Interpretativa por C.Z. de Figueiredo Monteiro, 1983
1770 - 1780 1850 - 1860 1930 - 1940
É importante apontar como, nos anos vinte, vai se revelando a reestruturação do
espaço econômico que o pólo do Sudeste vai produzindo no espaço geográfico
brasileiro. O beneficiário imediato – seja por contigüidade territorial seja por conjunção
de fatores vários – será o Sul do país. Perifericamente cultural ao conjunto do país, pela
menor participação do contingente luso, pela forte ligação com os “castelhanos” do
Prata – dos quais mantivera-se como adversário tradicional – e pelo fluxo considerável
da colonização extra-ibérica (alemães e italianos notadamente) o Antigo Continente de
São Pedro, aglutinado às áreas coloniais, acrescera ao núcleo pecuário fundamental uma
agricultura variada15 que aliada à carne reforçará o abastecimento interno em alimentos,
pouco a pouco ampliará o mosaico da pequena indústria de manufaturas das zonas
coloniais.
O Rio Grande, que sempre rivalizara no comércio de carnes (charque) com os
países platinos, após a Revolução Farroupilha conseguiria a proteção tarifária, embora
não ficasse livre de concorrência. Durante a fase da expansão cafeeira, malgrado a
proteção tarifária, a produção dos países platinos – Uruguai e Argentina – fez aumentar
consideravelmente suas exportações para o Brasil.
O advento dos grandes frigoríficos no Sudeste Brasileiro e sobretudo no Rio da
Prata favoreceram em muito os fluxos exportadores canalizados para a Europa. Mas a
onda de beneficio advinda com a expansão do mercado do Sudeste, não iria cessar.
Assim estabeleceu-se – por força da ascensão do Sudeste – um vinculo do Sul para o
Nordeste, capaz de absorver o charque que sua pecuária extensiva e decadente não
supria. O Nordeste brasileiro e seu Sertão algodoeiro serão mercado certo para a
produção do Rio Grande. Ao charque irão juntar-se, mais tarde, as manufaturas de
pequena metalurgia – fogões a lenha, utensílios de ágata, cutelaria, etc., etc. que ainda
hoje são colocados no Grande Nordeste, ou seja, a partir do Norte de Minais Gerais.
Minas Gerais, em sua parte meridional, integra-se facilmente no core do Sudeste
com São Paulo e Rio de Janeiro sobretudo por participar também da área cafeicultora,
complementada pela produção de alimentos da Zona da Mata (Planalto Sul Mineiro) e
da remanescente mineração do ouro, em declínio, mas com a do ferro que passa a atrair
o interesse e capitais europeus: ingleses e belgas.

15
Com referência ao inicial mosaico policultor do sistema de pequenas propriedades rurais da Serra
Gaúcha, dos vales catarinenses e do primeiro planalto do Paraná, anterior ao advento dos cereais – o
trigo e, bem depois, o soja.

19
O Nordeste enfrenta o declínio tanto dos mercados externos da cana-de-açúcar
com o do algodão que, contudo se mantem pelo consumo interno. Acentua-se o
contraste entre a faixa litorânea – mata e agreste – com o sertão. Os dois centros
litorâneos da Cidade do Salvador e do Recife, mantêm-se num ritmo bem mais lento,
demorando a integrar-se na nova estrutura em formação, mas, persistirá em suas
ligações com o exterior e sua polarização no entorno regional a modo do esquema de
“Estados Isolados” do modelo de von Thunen16.
O Sertão, arranhado pelas ferrovias, malgrado os problemas de comercialização
do algodão e, sobretudo, da ação repetidas das “secas” tem suas terras valorizadas. A
medida que as ferrovias o penetram, os açudes se concluem e o comércio se amplia. Os
coronéis crescem de importância a medida que se apropriam das terras e consolidam
seus currais eleitorais. Os grandes coronéis investem contra os pequenos acentuando a
desigualdade da pirâmide do prestigio e poder político. Os grandes têm a seu favor as
forças dos próprios Estados, obrigando os menores e armar-se para proteger-se e
defender-se dos abusos daqueles. O uso generalizado de pistoleiros e jagunços
recrutados da massa dos sem terra atinge um ponto em que estes se transformam em
grupos autônomos de sobrevivência belicosa, gerando o “cangaço”.
Este importante fato social da região, que se esboçava desde o final do século
passado, teve seus primórdios retratados na literatura no romance “O Cabeleira” de
Franklin Távora (1876). Integrando-se ao bando de Luis Mansidão (1897) ingressa no
cangaço o famoso Antonio Silvino – Manoel Batista de Moraes (1875-1944),
pernambucano, vingador do assassinato do pai. Silvino foi o primeiro Governador do
Sertão. Em 1912 uniam-se as forças policiais dos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio
Grande do Norte e Ceará na repressão ao cangaço, até a captura de Antonio Silvino
(1914)17.
Também para vingar o assassinato de um irmão formou-se o bando de Sinhô
Pereira que militaria no cangaço de 1916 a 1922. Considera-se que o período capital do

16
O caso da Bahia, com a cidade comercial e portuária do Salvador, o Recôncavo agrícola e o Sertão
pecuarista é bem adequado ao modelo citado. Veja-se a propósito o estudo da geógrafa Sonia de
Oliveira Leão – “Evolução dos Padrões de Uso do Solo Agrícola na Bahia” – SUDENE, 1987 – onde o
caráter regional da abordagem poderia ser, acoplado, com proveito, aos estudos históricos da Cidade do
Salvador no século XIX, de Katia Mattoso.
17
Antonio Silvino permaneceu na cadeia de 1914 a 1937 quando, indultado, passou a viver pacificamente
na cidade paraibana de Campina Grande, onde faleceu em 1944.

20
cangaço nordestino vigorou entre 1917 e 1937, ano de chacina do bando de Lampião.
Virgulino Ferreira da Silva, sertanejo de Serra Talhada, em Pernambuco, também para
vingar roubo e assassinato na família, entrou para o bando de Sinhô Pereira, assumindo
a chefia do bando em 192218. Daí até o massacre da Grota de Angico, em Sergipe,
Lampião foi o inconteste Imperador do Sertão, à frente do mais temido dos bandos. Sua
atuação chegou a culminância em 1927 quando ousou sitiar a cidade de Mossoró no Rio
Grande do Norte.
Desde que o Imperador D. Pedro II prometeu a última jóia da coroa para
combater a seca, uma série de medidas paliativas foi iniciada no Nordeste. No governo
do paraibano Epitácio Pessoa, acentuou-se a ação das obras contra as secas. Os açudes,
muitos deles construídos nas propriedades dos coronéis de maior influência, não
resolveriam o problema regional – bem mais complexo do que uma simples calamidade
meteorológica – mas a organização de “frentes de trabalho”, socorro emergencial aos
flagelados, contribuiu, pela continuação de abertura de rodovias pavimentadas, a
possibilitar meios de “abertura” do sertão. Daquele meio fechado dos tempos do
Antonio Conselheiro (1893-1897) a região foi se abrindo. Abertura essa que, em vez de
servir a entrada do progresso, fomentaria antes a saída dos flagelados para outras
regiões. E a partir dessa “abertura” que se organizarão os fluxos imigratórios que se irão
canalizar, cada vez mais, para o Sudeste.
Assim, o sertão nordestino passará a ser o gerador do liame que se estabelecerá
entre o Nordeste e o core do Sudeste, notadamente o parque industrial paulista. Ele será
o viveiro de reserva de mão-de-obra – desqualificada mas barata – que alimentará as
indústrias, inclusive a construção civil nas cidades em grande crescimento.
O Centro-Oeste é uma região de povoamento escasso, adormecida reserva de
recursos que a missão do Marechal Rondon cortara no início do século (1910).
Permaneceria adormecida nos pequenos núcleos de mineração, que responderam pela
sua conquista, e na expansão lenta do povoamento mineiro. O Norte Amazônico, muito
menos povoado e entregue à coleta, sofrerá o grande golpe do colapso da borracha. Este
produto, e mais outros poucos do imenso elenco de recursos naturais, passarão a ser
canalizados mais para o “core” do pólo interno nacional do que para o exterior um tanto
desinteressado, nesse período depressivo (1921-1929) de importações.

18
Sinhô Pereira foi o único cangaceiro que deixou a luta por vontade própria.

21
Se as mais extensas áreas do Norte e Centro-Oeste eram simples reservas de
recursos (os efeitos dos sistemas arquipélagos ou constelações) a integrar-se em nova
estruturação, configurava-se na fachada atlântica brasileira, ante o dualismo oponente
Sudeste/Sul e Nordeste.
O economista brasileiro Celso Furtado, nordestino da Paraíba, não incorre no
erro de ver esse dualismo oponente sob o ângulo daquela suspeita de fatalidade segundo
a qual “o rápido desenvolvimento de uma região tem como contrapartida necessária o
entorpecimento do desenvolvimento de outras”. E acrescenta:

“decadência da região nordestina é um fenômeno secular, muito anterior ao


processo de industrialização do Sul do Brasil. A causa básica daquela
decadência está na incapacidade do sistema para superar as formas de
produção e utilização dos recursos estabelecidos na época colonial. A
articulação com o sul, através da cartelização da economia açucareira,
prolongou a vida do velho sistema cuja decadência se iniciou no século
XVII, pois contribuiu para prolongar as velhas estrutura monoprodutoras.”19

A cartelização açucareira a que se refere o autor é fato posterior aos anos vinte,
mostrando bem que toda a reestruturação não poderia conter naquele segmento temporal
(dos anos vinte). O que será preciso reter para a compreensão do Nordeste e sobretudo,
a marginalização do Meio Norte nos anos 20, é a vinculação inicial, das primeiras
articulações advindas da hegemonia do Sudeste. Assim, será preciso reter o fundamento
da questão, advinda do confronto dessa disparidade que, antes de tudo, é complementar:

“A coexistência das duas regiões numa mesma economia tem conseqüências


práticas de grande importância. Assim o fluxo de mão-de-obra da região de
mais baixa produtividade para a de mais alta, mesmo que não alcance
grandes proporções relativas, tenderá a pressionar sobre o nível de salários
desta última, impedindo que os mesmos acompanhem a elevação da
produtividade. Essa baixa relativa do nível de salários traduz-se em melhora
relativa da rentabilidade média dos capitais invertidos. Em conseqüência, os
próprios capitais que se formam na região mais pobre tendem a emigrar para
a mais rica. A concentração das inversões traz economias externas, as quais,
por seu lado, contribuem ainda mais para aumentar a rentabilidade relativa
dos capitais invertidos na região de mais alta produtividade. Do ponto-de-
vista da região de mais baixa produtividade, o cerne do problema está nos
preços relativamente elevados dos gêneros de primeira necessidade, o que é
um reflexo da pobreza relativa de terras ou da forma inadequada como estas
são utilizadas. Sendo relativamente elevado o custo de subsistência da mão-
de-obra, os salários monetários tendem a ser relativamente altos em função
da produtividade, comparativamente a região mais rica em recursos naturais,
Não existindo nesse caso a possibilidade de optar para a tarifa ou subsídios

19
Celso Furtado. Op. cit. – Cap. Final. p. 298-299.

22
cambiais, com o fim de corrigir as disparidades, a industrialização da região
mais pobre passa a encontrar sérios tropeços.”20

Fatalidades econômicas e hegemonias políticas poderão aliar algumas regiões


contra as outras mas a elaboração cultural de uma nação não se atrela
proporcionalmente à renda per capita. O Nordeste teria outras contribuições
importantes. O pernambucano Manoel Bandeira, que aderira à Semana de Arte Moderna
realizada no ano do centenário da Independência em São Paulo, cantaria (1942), em sua
poesia renovadora, a “descida” daqueles do Norte que se dirigiam ao Sul:

“E o clamor ia engrossando
Num retumbar formidando
Pelas cidades alem...
– “Que foi?’ as gentes falavam
E eles pálidos bradavam:
‘São os do Norte que vêm!”.21

Em 1928 o paraibano José Américo de Almeida – no mesmo ano em que o


paulista Mano de Andrade publica o Macunaíma – lança o seu romance “A Bagaceira”
inaugurando o vigoroso ciclo do romance nordestino que iria mercar a literatura
brasileira na década seguinte.
Mas serão os anos vinte que irão forjar os esforços da intelectualidade do país
ainda incipiente a uma verdadeira descoberta da realidade brasileira e o despontar de
uma consciência critica. As cidades cresciam, estruturando uma classe média e, as
maiores, industrializando-se, sediavam articulações operárias. O aumento dessas
camadas intermediárias nos anos vinte, viria questionar e discutir os vícios do sistema
oligárquico vigente e tentar impor-lhe limites.
Malgrado as sensíveis diferenças econômicas, o modo de acesso a terra e a
consumação de sua posse não produzia antagonismos profundos entre os senhores de
terras – os donos do poder – quer fossem coronéis sertanejos, usineiros de açúcar e
grandes cafeicultores. A aparente autonomia federalista garantia os interesses das
oligarquias regionais em seus domínios próprios, irmanando uma classe dominante na
República. O relativo desenvolvimento econômico desse período, com lucros crescentes
e acumulação de capitais, projetados na urbanização, não tardariam em gerar, entre as

20
Celso Furtado. Op. cit. p. 297-298.
21
“Os Voluntários do Norte” (ESTRELA DA MANHÃ). In: Manoel Bandeira – POESIAS – 6ª Edição
aumentada. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1955. p. 253-4.

23
forças econômicas e mecanismos sociais dele desarticulados, ideais e movimentos de
contestação ao regime vigente.
As classes médias e, sobretudo o operariado mais consciente, almejariam
condições de moradia decente, aspiravam por meios de fazer face ao aumento de custo
de vida, sem falar nos fundamentais requisitos de educação e saúde. Essas questões se
antepunham às preocupações da classe dominante com a apropriação das terras, os
benefícios e proteção a sua produção. À crescente massa de eleitores, passou a
preocupar a “verdade eleitoral” viciada “sob os gonsos empenados da cúpula
oligárquica”.
A rígida estruturação das forças oligárquicas não tinha flexibilidade para admitir
a representação das forças sociais emergentes, fechando-lhes os canais de comunicação
política.
Dentre os novos grupos destacou-se, como expressão típica da crescente classe
média, o tenentismo. Bafejada pela aura de prestigio das forças armadas, os jovens de
classe média assumiram a contestação do regime. Inaugurado com o famoso episódio do
levante dos 18 do Forte de Copacabana, ainda em 1922, ele ecoaria em Manaus e em
outros pontos do país. O movimento tenentista desembocaria na epopéia que foi a
“Coluna Prestes” que serpenteou pelo amplo território brasileiro, como um fogo de
artifício rasga os céus na noite, em sinal de aviso.
Após o paraibano Epitácio Pessoa – um acidente no processo da aliança café-
com-leite – sucederam-se os governos crescentemente impopulares do mineiro Arthur
Bernardes (1922-1926), que governou sob estado de sítio, e do paulista (de Macaé)
Washington Luis (1926-1930) ao longo dos quais o auge do protecionismo aos
cafeicultores e a desvalorização da moeda foram um custo social tão elevado que
resultou na Revolução de Trinta.

1.2. O Meio Norte e a Marginalização do Piauí


No carnaval do ano de 1916 no Rio de Janeiro os maiores sucessos musicais
foram a toada sertaneja “O Meu Boi Morreu” e a valsa “Pierrot e Colombina”, esta de
autoria de Eduardo das Neves. O samba ainda não havia ascendido à condição de
música executável em bailes de sociedade e clubes. Só no ano seguinte o samba “Pelo

24
Telefone” de Donga e Mauro de Almeida inaugurará o império desse novo ritmo
brasileiro.
Chegara à capital da República, nos toscos versos da toada sertaneja, a
referência ao obscuro estado do Meio Norte.

“Se o meu boi morrer


O que será de ti?
Manda buscar outro, maninha
La no Piauí”

A partir daí o Piauí ficará indelevelmente marcado como a terra do “boi


morreu”. A distância, o isolamento, colocavam a terra dos “currais de dentro”, à
margem dos acontecimentos. Se alguns políticos chegaram a atingir posições destacadas
na capital da República, como o Dr. Felix Pacheco, grande parte deles, malgrado a
condição de senhores de terras e bens, era bisonha e alguns deles ficaram famosos pelas
anedotas e “ratas” que cometiam na Capital Federal. O senador Gervásio Meio, de
Piracuruca, detem o recorde do anedotário. Dizia-se dele que, ao entrar no prédio do
Senado Federal, recuara alguns metros e preparara o pulo para não pisar no belo tapete
estendido ao piso. Mesmo o Marechal Pires Ferreira, fora alvo de chacota no Senado.
Dele o irreverente autor da “História do Brasil pelo Método Confuso”22 dissera que
“morrera abraçado a uma virgem: a sua espada”.
Muitas dessas anedotas eram veiculadas pelo país afora, pelos vizinhos – e rivais
– estados do Maranhão e do Ceará. Embora sem correspondência em divulgação, no
Piauí cultivava-se crescente preconceito contra os dois vizinhos. O Ceará pela freqüente
e repetida entrada de levas de retirantes das secas, quando não bandoleiros e bandidos.
Mas a vizinhança com o Maranhão, do qual apenas o rio Parnaíba os separava, a
implicância era maior. Lembro-me ainda que em minha meninice cantarolava-se a
quadrinha que dizia:

“Pro Ceará – banhos de Mar!


O Piauí, pra criar gado!
E o lado do Maranhão?
Só pra negro apresentado.”23

22
Esta obra da autoria do humorista Mendes Fradique, publicada em 1919 fez muito sucesso, atingindo sete
edições. Mendes Fradique era pseudônimo do médico capixaba José Madeira de Freitas (1893-1944).
23
“Apresentado” no Piauí significava “saliente”, “intrometido no lugar indevido”, algo como equivalente
ao termo “inxerido” que, embora não fosse desconhecido, era típica expressão do Nordeste verdadeiro,
ou seja, o dito oriental.

25
A negritude maranhense, herdada do ciclo do algodão, era coisa que não atingira
o vale do Parnaíba – terra de caboclos, como o Piauí – pois que no vale, não havia muita
diferença. Cada lugar, cidade ou vilarejo do Piauí tinha, na outra margem, um “outro
lado” maranhense, às expensas daquele do Piauí. O verdadeiro Maranhão era São Luis e
o Golfão Maranhense, com o povoamento nos baixos cursos dos rios Itapicuru, Mearim,
Pindaré, etc. Muitas dessas localidades tinham contingentes elevados de população
negra, não sendo raros os que se originaram de quilombos. Codó, no vale do Itapicuru,
por exemplo, era conhecido centro de cultos africanos, terra de “feitiços”. Quando
alguém de Teresina, viajava para Codó, ficava sob suspeita de pretender mandar fazer
algum “serviço”. Na capital o contingente era considerável penetrando na classe média,
inclusive na intelectualidade. São Luis, como a Bahia, era terra de “pretos doutores”.
Se as grandes cidades portuárias do Nordeste, como a Bahia e o Recife,
mantinham-se como grandes centros comerciais é porque tinham um entorno agrícola
importante (Recôncavo, Zona da Mata) intercambiando seus produtos inclusive para o
exterior, com o que resistiam à atração do pólo do Sudeste. Já São Luis não manteve
esse estatuto de “estado isolado” (thuneniano) com a queda da exportação do algodão,
subsistindo pela cultura do arroz.
O Estado do Piauí, desprovido de uma grande cidade portuária, não participava
do esquema. A vida urbana comercial diluía-se entre o “meio porto” da Parnaíba –
concorrendo com Tutóia, porto secundário do Maranhão, no deita – e os pequenos
portos ao longo do Rio Parnaíba.
Ao entrar nos anos vinte o Estado do Piauí dividia-se em partes diferentes: uma
pecuária estagnada, uma indústria abortada, uma agricultura comercial decadente
repousando ainda na remanescente lavoura do algodão, voltando-se, cada vez mais, para
o extrativismo. Vejamos, cada uma dessas partes.
O rebanho bovino do Estado estacionara. Para as 1.163.250 cabeças estimadas
em 1913 havia, na entrada dos anos vinte um rebanho geral, de todos os tipos de gado,
de 1.750.000 cabeças. Valença, Campo Maior, Jaicós, Alto Longá, Oeiras e Piracuruca
estavam entre os municípios de maior destaque. Estimava-se a seguinte discriminação:
Fazendas de gado vacum – 6.855 produzindo cerca de 88.517 garrotes, fora aquelas de
eqüinos (1.108 fazendas produzindo 3.384 poldros) e muares (165 produzindo 294)
numa produção total cujo valor era em torno de 1.977:520$000.

26
A criação não evoluíra, por falta de cruzamento e melhoria genética no
rebanho24. O roubo e o contrabando de gado, que já vigorava desde o final do século, se
avolumara. Os rebanhos se evadiam tanto para o outro lado do Parnaíba como para o
Sul (Pernambucano, Bahia) e, sobretudo para o Ceará. O Estado, sem nenhum poder de
controle, chegou ao ponto de extinguir – pela lei 1.055 de 1923 – o imposto do
“dízimo” cobrado aos fazendeiros. O criatório subsistia, estagnado, sem controle.
Persistia o gado “pé duro” que nas feiras do Nordeste era reconhecido pelo
cumprimento dos chifres.
A inauguração da importante fábrica que foi a Companhia de Fiação e Tecidos
Piauienses em Teresina (1891), coincide com aquela famosa Fábrica Santana montada em
São Paulo por Antonio Álvares Penteado (1892). Mas havia, nessa introdução da pioneira
indústria têxtil um atraso econômico de cerca de vinte anos entre os têxteis republicanos
de São Paulo e Teresina, em relação às pioneiras do Nordeste, do período imperial.
Projeção de capitais maranhenses da família Cruz, complementada por recursos
locais, a fábrica piauiense era uma ponta avançada daquilo que se iniciara na boca de
sertão que era Caxias e que atingia o vale do Parnaíba. Em vez de prosperar e abrir
caminho para outras indústrias a “Fiação” (como era abreviadamente conhecida) foi
declinando. Não conseguiu nem mesmo suprir as necessidades regionais. Em 1907 o
produto mais importado pelo Estado do Piauí foram os tecidos, com o que se dispendeu
424 contos de réis25. Em 1916, como se viu anteriormente26 a firma comercial de maior
vulto em Teresina era exatamente o grupo Lundgren de Pernambuco, com as Casas
Paulista, posteriormente Pernambucanas. Vê-se, assim, que nem chegava a ser uma
subordinação ao “core” econômico do Sudeste, mas uma concorrência intra-regional: o
Nordeste sobre o Meio-Norte.
Talvez caiba aqui considerar a complexidade e os caprichos da trama de que se
revestem os processos econômicos. Embora a pioneira das teorias espaciais da
economia seja antiga, remontando ao meio do século passado, retomadas fortemente nos

24
Em 1928 há uma notícia sobre essa carência: “O Governo do Estado consegue, com o agrônomo
Argemiro Oliveira, piauiense residente no Rio Grande do Sul, a doação de alguns excelentes
reprodutores da raça bovina, que já apresentam belos produtos de cruzamento com o gado local”.
Mensagem à Assembléia Legislativa, Governo Mathias Olympio de Mello. Teresina, 1928. p. 62.
25
O segundo produto mais importado, após os tecidos, foram barras e artefatos de ferro com os quais o
Estado dispendeu 157 contos de réis.
26
Veja-se “AS ARMAS E AS MÁQUINAS”. Cap. A Casa da Rua Santo Antônio e a Vida da Cidade – p.
350.

27
anos trinta deste século27, os conceitos de “polarização”28, mais recentemente, vem
merecendo criticas sobre sua aplicação no planejamento regional brasileiro29. Embora
num segmento temporal distante (de cerca de 70 anos) o caso da Fiação se possa
beneficiar dos raciocínios interpretativos desenvolvidos estes últimos tempos.
Embora sendo um investimento que mobilizou um volume de capital
considerável para a região e oferecido emprego a algumas centenas de operários,
recrutados entre a inexperiente mão-de-obra local (notadamente feminina), aquela
indústria têxtil não operou qualquer efeito “de arrasto”, ou seja, de atração para outros
empreendimentos. A cidade, que na entrada do século tinha apenas quarenta e poucos
mil habitantes, capital de um Estado onde a população, rarefeita pelos 250 mil Km² , era
de pouco mais de trezentos mil habitantes, mostrava-se impotente a produzir aquela
função de aglomeração capaz de torná-la um pólo ou “campo aglomerativo”. Além do
que, não suficientemente distante dos pseudo-pólos de Caxias e São Luiz, foi deixada a
ela a tarefa de fabricação de tecidos mais rústicos e baratos. Mas, certamente, a causa do
insucesso não se prende apenas ao local, desde que se insere num contexto mais amplo,
o qual estou tentando retratar.
Vimos assim que adicionada à pecuária estagnada a tentativa de implantação
industrial de manufatura foi praticamente abortada. Durante muito tempo a rubrica
“industrial” aplicada ao Piauí será de base artesanal e, sobretudo “extrativa” (Ver Gráfico).
A febre da borracha na Amazônia repercutiu no Piauí que, na virada do século,
se lançou na exploração do látex da maniçoba. Em 1897 a exportação desse tipo de
borracha passou a ter sentido econômico e, numa rápida ascensão, atinge o seu máximo
em 1910 quando alcançou a posição de responsável por 68,2% da receita de exportação,
no valor de 552 contes de réis. Acrescente-se a isso o fato de que a produção deve ter
sido bem maior posto que, boa parte dela, se evadia para os estados vizinhos e escapava
pelo rio São Francisco. A partir daí foi a queda que acompanhou a derrocada da
borracha amazônica. Malgrado as tentativas de desenvolvimento técnico no Governo
Miguel Rosa, quando se chegou a criar uma estação experimental, ela praticamente se
extingue em 1914.

27
De von Thunen (1842); Loesch (1930) e Christhaler (1933).
28
Tais como preconizados por Jacques BOUDEVILLE (1958) e François PERROUX (1969).
29
Veja-se, a propósito o artigo de Carlos Mauricio de Carvalho Ferreira “A Controvérsia da
desconcentração geográfica da indústria na década de 70”. Revista de Economia Política, vol. II, nº
1(41) janeiro/março 1991. p. 138-145.

28
29
A exploração do látex da maniçoba, se dirigiu a outros recursos vegetais,
notadamente a cera de carnaúba que, desde os anos oitenta do século passado, vinha
sendo estudada e tentada a colocação do produto no exterior. Principiando de modo
incipiente a partir de 1907-8 em 1910 – ano da queda da borracha – ela atinge 1.500
toneladas embora o valor da produção fosse ainda próximo a 50 contos de réis. Em
1912 a cera já é o segundo produto das exportações do Estado. Durante a primeira
grande guerra os preços começaram a melhorar e em 1919 as 1.500 toneladas
produzidas já valeram cerca de 450 contos. A partir daí a curva, embora oscilante – e a
oscilação da produção anual será uma característica da cera de carnaúba – atinge o seu
pique em 1928-1929 – quando a produção se aproxima das 3 mil toneladas e o valor da
exportação se avizinha de mil contos de réis.
A partir de 1911 as amêndoas do coco babaçu começam a despertar interesse no
mercado exterior e será a Alemanha – no surto de progresso anterior a guerra – o grande
comprador inicial. Mas a coleta do babaçu será apenas um complemento de valor bem
menor que aquela da carnaúba. Em 1928 quando a produção exportada já andava por
volta das 4 mil toneladas o valor era apenas de 3 mil contos, ou seja, menor que a
metade daquela da cera de carnaúba.
Assim, os anos vinte, serão mercados no Piauí pela extração dos recursos
vegetais como a base da economia, o que acarretará sérias conseqüências. Em primeiro
lugar pela sua repercussão negativa na lavoura. Embora a produção do algodão – o
único produto comercial – tenha sido aumentada em relação a década anterior ela
ultrapassará o valor dos cem contos de réis, sem contudo atingir os 300. A cultura do
algodão é trabalhosa e exige muita mão-de-obra para a colheita, e esta estava dirigida
para a coleta do pó de folhas e preparo da cera. Assim, o caprichoso calendário da cera
de carnaúba repercutia em detrimento não só daquele produto comercial mas, que é bem
mais sério – na lavoura de subsistência. O Piauí, nos anos vinte, vai enfrentar escassez
dos gêneros alimentícios, alta de preços, crise de abastecimento.
Outra conseqüência de relevância foi a ampliação do espectro da extração e da
coleta – tanto da flora quanto da fauna – que vai se alastrar, causando sensíveis e
progressivos danos na biota. Há uma variedade grande de essências vegetais, medicinais
em maioria, que serão coletadas vigorosamente além de peles dos animais silvestres.
Dentre as essências vegetais que encontravam colocação certa no porto da Parnaíba para

30
exportar para a Europa, destaca-se o jaborandi30. Das folhas deste vegetal, que encontra
o seu habitat e maior densidade na bacia do Parnaíba, a indústria farmacêutica extrai um
precioso alcalóide, base da “pilocarpina” utilizado no combate ou controle do glaucoma.
As firmas exportadoras da cidade da Parnaíba disputarão o produto que, se não tem
grande volume, tem compensador valor. E fazem anúncios pelos jornais e almanaques
da região.
A grande conseqüência daninha, lenta mas cumulativa e progressiva, será aquela
que o desmatamento ou seja, a verdadeira rapina na cobertura vegetal e na fauna local,
representará no escoamento das águas das chuvas, a influência perniciosa no regime dos
cursos d’água até a do rio principal – o Parnaíba – que será afetada negativa e
seriamente em suas já não muito fáceis condições de navegabilidade.
Mas o extrativismo – e particularmente aquele dos carnaubais – terá
conseqüências profundas, não apenas do ponto de vista biológico mas sobretudo na
organização rural e fundiária do campo. Os carnaubais não eram destruídos, mas
coletadas as folhas a cada final do período seco. Assim, funcionavam na extração da
cera como um recurso “renovável”. Efeito maior, além do abandono das lavouras em
proveito da colheita das folhas da palmeira, era o que se produzia na organização do
sistema fundiário.
Os carnaubais encontram-se, via de regra, associados, em sua estrutura tipo
parque, aos campos limpos, sede dos melhores pastos naturais. O município de Campo
Maior, por exemplo, um dos sediadores dos maiores rebanhos era, ao mesmo tempo, um
dos grandes produtores de cera de carna&ba. A exploração da cera, embora em alguns
casos fosse feito pelo próprio fazendeiro de gado, deu margem ampla ao sistema de
“arrendamento”. Ora, se a pecuária extensiva e decadente, já vinha tornando o
fazendeiro cada vez mais “absenteista”, o arrendamento das terras para a exploração de
cera reforçava ainda mais aquela prática. Ao fazendeiro era vantajoso arrendar seus
carnaubais aos exploradores da cera, recebendo anualmente um lucro certo e sem
nenhum trabalho. Assim, cada vez mais ele vai se afastando da propriedade, deixando o
gado com o vaqueiro de confiança e o carnaubal com o arrendatário explorador da cera.
Ao mesmo tempo, o valor dos carnaubais aumenta consideravelmente o preço da terra e
contribui ao aumento do latifúndio.

30
O jaborandi, nome vulgar do Pilocarpus Jaborandi, Holmes ainda hoje é muito procurado.

31
Com isto temos o pano de fundo da configuração econômica vigente no Piauí à
entrada dos anos 20. O censo de 1920 revelara uma população total de 609.027
habitantes para o Estado do Piauí. Embora fosse quase o dobro daquela revelada em
1900 (334.292 hab.) ainda era escassa para a extensão do território. O que era
certamente mais do que a densidade do Território do Acre, definitivamente conquistado
à Bolívia em 1903 pela estratégia diplomática do Barão do Rio Branco. Mas o
“conhecimento” que se tinha do Piauí no centro da República não era superior aquele do
Acre. Aquela cunha de sertão piauiense, povoado lentamente do sul para o norte,
embora com um pequeno porto de mar não seria mais “aberto” do que o território
acreano, a última porção do avanço luso-brasileiro sobre os domínios hispânicos.
O centro comercial da Parnaíba, próximo à costa, disputava a condição portuária
com Tutóia, porto maranhense do deita do Parnaíba, sem poder contar com Luis Correia
(antiga Amarração) cujas condições portuárias exigiam dispendiosas obras de
melhoramentos. Se a capital político administrativa era Teresina, e a maior aglomeração
urbana com 57.500 habitantes, Parnaíba, embora menos populoso, era o centro coletor
do comércio, do curso do rio e vindo do mar. A primeira agência do Banco do Brasil
instalada no território piauiense foi aquela da Parnaíba, o que aconteceu em 4 de junho
de 1917. A capital, Teresina só teria a sua no ano do centenário (1922), a segunda
agência bancária do Estado.
Essa ausência de estabelecimento bancário refletia o significado econômico. O
próprio governo estadual, antes dos anos vinte, recorria a capitalistas particulares.
Assim se deu para a instalação do serviço de abastecimento d’água e de luz elétrica na
capital31. O orçamento da unidade federativa era precário pois que, não raro, se
dispendia mais do que se arrecadava. As oscilações ocorridas entre 1890 e 1930 são
bem esclarecedoras (vide gráfico). Após o déficit no período de 1892-1895 houve uma
recuperação no final do século, abrindo-se a novo déficit entre 1900-1903 parcialmente
motivado pelos gastos com obras de infra-estrutura urbana na capital. O maior rombo
nas finanças estaduais ocorreria no Governo Miguel Rosa, tanto por obras quanto pelas
dificuldades da Seca do 15 e do início da grande guerra. A recomposição, pelo
saneamento das finanças no período Eurípides Aguiar, favorecia a situação da entrada

31
Veja-se no volume anterior, AS ARMAS E AS MÁQUINAS, o Capítulo – A Cidade e as Máquinas –
pp. 258-282.

32
dos anos vinte, quando a cera de carnaúba soergue as finanças, coincidindo com a
administração do engenheiro João Luiz Ferreira.
Se a década dos dez foi aquela da entrada e difusão da rede telegráfica ela se
continua ainda pelos anos vinte, arregimentando mais municípios para essa nova etapa
de comunicações, sobretudo úteis quanto difícil o acesso pela falta de estradas. Os anos
vinte serão marcados pelo início da abertura sistemática das vias terrestres. Da
dependência linear do rio Parnaíba, só as trilhas de gado e caminhos antigos esboçavam
os veios da circulação terrestre. Eram estradas carroçáveis. É a época de abertura das
primeiras estradas ditas “rodoviárias”, na década em que o Estado será atingido pelos
primeiros veículos automotores. Os primeiros automóveis chegam a Teresina em 1923.
O serviço dos correios era muito irregular. Em 1926 a capital passou cerca de
dois meses sem receber maias do Rio de Janeiro32. Por essa época as ligações
telegráficas entre Teresina e Rio de Janeiro assinalavam 271.614 telegramas recebidos e
57.959 emitidos para a capital da República.
Seriam também os anos vinte aqueles de “planos” para ferrovias. Já era possível,
em Teresina, atravessar-se o rio Parnaíba e tomar o trem para Caxias e São Luis (pela
EFSLT). O Estado solicitará sempre ao Governo Federal a execução das ferrovias.
Teoricamente havia planos para ligar Parnaíba a Teresina e esta a Petrolina, no Rio São
Francisco, em Pernambuco, com linhas para este estado a partir de Picos. Contudo isso
será mais matéria de papel e discussão do que de realização.
Sob a pomposa designação de Estrada de Ferro Central do Piauí o advento
(teórico) das ferrovias rio Piauí data de 1916. Mas tudo se arrastava lentamente, naquela
necessária ligação terrestre de Norte para o Sul, complementar ao eixo do rio Parnaíba,
cujas condições de navegabilidade já declinavam. Em 1919 inaugurou-se o ínfimo
trecho de 19 km entre Portinho e Cacimbão. Só em 1923 foi atingido Piracuruca, no Km
147. Para que fosse atingido Piripiri, distante daquela apenas 43 km, foram decorridos
14 anos (1937). Para chegar até Teresina, a 149 km foram preciso nada menos que 33
anos (1969). Assim, nos anos vinte (e trinta) o rio Parnaíba ainda era o eixo
fundamental de circulação da economia piauiense.

32
A chegada do Correio Aéreo Nacional – CAN virá melhorar os serviços postais. Mas isto só acontecerá
em 1933, no Governo Landri Sales Gonçalves.

33
Novela bem mais arrastada e difícil é aquela da instalação portuária em Luis
Correia. Em 1900 a cidade da Parnaíba empenha-se numa grande campanha para as
obras daquele porto que – sem ter o trunfo do cacau em Ilhéus – foi bem pior sucedido
do que o porto do sul baiano que, embora demorado, acabou acontecendo.
A criação de uma comissão de estudos para as necessárias obras arrastou-se por
anos. Em 1912 ela recebia o Engenheiro J. Mendonça para chefiá-la e iniciar os estudos.
A situação à entrada dos anos vinte, no porto de Luis Correia e no seu concorrente porto
maranhense de Tutóia, estava nos seguintes termos relativos:

1920 – Arrecadação nos portos servindo ao Estado do Piauí

Porto Estado Arrecadação


Exportação Importação
Tutóia Maranhão 17:340:528$402 1:976:925$100
Luis Correia Piauí 4:693:919$700 7:122:955$414

Note-se, pelo quadro, que o surto de progresso oferecido pela cera de carnaúba,
fazia aumentar o fluxo das importações, o que será uma característica “nacional” deste
período inicial do segmento entre as duas grandes guerras, onde o principal fator
determinante do nível de procura – e, portanto de desenvolvimento – foram as inversões
de capitais ligadas ao mercado interno33.
No governo Epitácio Pessoa, quando se iniciaram as ações de construção de
açudes e escavação de poços artesianos, fez-se grande campanha para conseguir a
efetivação do sonhado porto piauiense. Ao final do período o Presidente Epitácio,
graças aos esforços dispendidos pelo então deputado Almirante Armando Cesar
Burlamaqui, sancionou a autorização – pelo Decreto nº 15.603 de 12 de agosto de 1922
– para que o Governo Federal construísse as obras necessárias. Chegou-se a contratar a
firma inglesa Norton Griffith para a execução das obras. Para tal empreendimento o
Engenheiro Lalarque, adquiriu vultoso volume de materiais, trazidos em navios e
estocados no cais.

33
Celso Furtado (Op. cit. p. 291) chama a atenção para o fato de que, no conjunto nacional, entre 1920 e
1929 a taxa média anual de crescimento do produto foi da ordem de 4,5%, decaindo para 2,9% (1937-
1947) para soerguer-se para 5,3% entre 1947-1957.

34
Com a entrada de Arthur Bernardes a ordem foi revogada. O Governo Federal
eximiu-se das obras do porto e o material adquirido para tal foi apanhado e destinado a
outros estados, grande parte dele carreado para o interior de Minas Gerais.
Este pode ser um fato simples, aparentemente isolado e sem grande significado.
Contudo creio que se poderá explorá-lo, sobretudo no que concerne ao liame entre
aspirações regionais e medidas do governo central. Segundo o conceito de espaço
econômico como entidade abstrata, na proposta de Perroux, ele se definiria mediante um
jogo de fatores ou propriedades: dominação – heterogeneidade – assimetria –
desigualdade – hierarquia. E estes pressupostos têm norteado, no meio do presente
século, as especulações sobre a organização dos espaços econômicos. E a decorrente
idéia de “polarização” norteou muitos dos esforços – muitas vezes demonstrados vãos –
aplicados ao “planejamento regional” em nosso país. Como toda a proposta teórica tem
sido mais matéria de debate e discussão do que de aceitação.
O caso brasileiro, pela vastidão do seu território e densidade geográfica, serve
bem a avaliar estes pressupostos não apenas na relação existente entre a realidade
concreta do potencial de recursos e a ação política – aleatória ou deliberada – na
mobilização dos atributos indutores da geração da estrutura (abstrata) dos espaços
econômicos.
Tudo seria muito claro se houvesse a simplicidade dos esquemas extremos do
determinismo natural onde o desenvolvimento econômico fosse diretamente
proporcional aos recursos de cada região ou se, em contrapartida, o livre arbítrio do
poder político, através da dominação, estabelecesse logo o jogo da hierarquia. Mas a
realidade é muito outra e há uma sutileza de eventualidades no jogo complicado nas
conjunções de múltiplos fatores – mutantes no tempo e no espaço – na constituição de
uma nação, através de suas bases econômicas.
O meu propósito aqui será tão somente o de confrontar os dois extremos
aplicados à realidade geográfica do Meio Norte Brasileiro e as injunções políticas da
República, no decorrer dos anos vinte, ante a necessidade de organizar internamente a
economia do país em função da configuração mundial existente, no meio de um período
de retração econômica (Vide quadro geral de correlações, colocado, em anexo, no final
do volume).

35
Ninguém, em sã consciência ou conhecimento mediano da realidade geográfica
do Meio Norte poderá atribuir-lhe potencial ou atributos naturais capazes de o alçar a
hegemonia econômica. Desde os tempos coloniais e imperiais sua posição vinha sendo
periférica. Mesmo em relação aos atributos naturais, colocando-se como transição entre
os extremos de uma Amazônia super-unida e um Nordeste Semi-árido. Aquilo que para
a sociedade primitiva autóctone havia sido um trunfo – pois as áreas interfaciais são
privilegiadas em variedade de recursos da biota – passava desapercebido por uma
mentalidade “coletora, extrativa” que só via sentido na “homogeneidade” que facilitasse
a mais cômoda “retirada”, fosse o pau brasil da mata atlântica fosse a monocultura da
cana-de-açúcar34.
Na visão ainda prevalecente de “caranguejos aranhando às costas” São Luis
estava, após o declínio do algodão, em nítida inferioridade aos portos do Recife e
Salvador – com entornos mais definidos e diversificados (Mata Recôncavo), agreste e
sertão – e mesmo em relação a Belém que, embora difícil de configurar-se no modelo de
“estado isolado”35, mantinha, mesmo depois do colapso da borracha (ou seja, um
produto exportável de grande peso econômico), contava com um espectro muito variado
de múltiplos recursos a coletar e exportar.
Já vimos anteriormente36 que o Piauí, Capitania colonial ou Província imperial,
era uma cunha de sertão pecuário que, não havendo “conquistado a costa” ficará como
periferia entre os dois “Estados” coloniais: do Brasil e do Maranhão e Grão-Pará. Agora
a luta na indefinição por que atravessara o Império e os primórdios da República,
continuava a debater-se em seu destino de periferia indefinida. Não era mais cinturão
externo de pecuária. Não possuía centro urbano portuário apoiado em entorno
monocultor. A introdução da indústria não dera resultados. Longe do centro
hegemônico cafeicultor, e diferente dos pólos relativamente autônomos do Nordeste
(Bahia e Recife) só lhe restavam duas alternativas. Subsistir mediocremente como
apêndice de São Luis do Maranhão ou aspirar a ser – caso tivesse um porto – um

34
São Paulo, situado num nítido domínio natural interfacial demonstrará a importância econômica desse
atributo e será o core econômico da República.
35
O fracasso da tentativa de estabelecer a faixa agrícola na região bragantina, entre outras, era uma das
dificuldades.
36
Veja-se nos volumes antecedentes: TEMPO DE BALAIO – Cap. Os Fundamentos Estruturais – pp. 16-
66 – A Dinâmica Processual – pp. 67-160. AS ARMAS E AS MÁQUINAS – Cap. A Virada do Século
– pp. 01-35.

36
arremedo grosseiro de Belém, exportando essências vegetais e animais do sertão. Após
o colapso do látex da maniçoba, a carnaúba parecia uma realidade e o babaçu uma
esperança. Quem sabe outros mais, a disputar o interesse de europeus e norte
americanos?
O porto de Luis Correia, a antiga Amarração, era uma questão vital para a
definição econômica do Piauí. Amarração de um suporte econômico que contribuísse ao
desenvolvimento do Estado e pudesse vir a conferir-lhe prestígio político para,
efetivamente, integrar-se na Federação que pretendia ser a República. Os anos vinte
serão assim um momento capital e decisivo para o destino da terra onde “o boi morreu”.
O que importa ressaltar aqui não é a “fatalidade” da força de dominação. Mas
compreender por que, num território geograficamente tão amplo e tão variado com o do
Brasil, a hierarquização do poder político agiu sobre o “todo” nacional ante tal
variedade de “partes” regionais, e a causa prin1eira das profundas desigualdades
econômicas que se vieram produzir.
Sendo esta relação um dos elementos básicos de como um conjunto nacional se
relaciona com os sub-conjuntos em que se decompõe – na proposta do economista
Perroux – sobre a elaboração do espaço econômico abstrato, cabe refletir sobre os elos
de ligação que se estabelecem entre aqueles pressupostos atributos: dominação –
heterogeneidade – assimetria – desigualdade – hierarquia.
Num brilhante artigo, onde critica a validade de ampliação do conceito de
“polaridade” (teoria dos pólos de desenvolvimento) na regionalização e nos pianos de
desenvolvimento integrado da Amazônia, o economista mineiro Carlos Maurício de
Carvalho Ferreira37 torna perfeitamente claros os conceitos perrouxsianos e os erros a
que somos induzidos a aplicar, no planejamento de regiões onde não ocorrem aqueles
atributos ou pressupostos inerentes a configuração do espaço econômico abstrato. Na
Introdução do referido artigo, analisa o conceito de região e a variedade de conotações
de que se reveste. No tratamento da conceituação de Espaço Econômico e Região
Econômica – onde é cristalinamente objetivo, sem estabelecer qualquer confusão ou
ambigüidade entre o que seja espaço geográfico (concreto) e espaço econôn1ico
(abstrato) – ele se detém na proposta de Perroux. A ele recorro para salientar a

37
O cerne do artigo é demonstrar que a impossibilidade de identificar estes elos na região Amazônica
(Amazônia Legal Brasileira) é a razão da falência das tentativas de aplicar naquele sub-espaço do
grande espaço nacional, os conceitos de “pólos de desenvolvimento”.

37
importância entre os elos da cadeia de pressupostos perrouxsianos de configuração do
espaço econômico abstrato38.

“... Perroux conceitua os ‘Espaços Econômicos’ como espaços abstratos


constituídos por conjuntos de relações que se referem aos diversos
fenômenos econômicos ligando-se por meio de interações recíprocas. Na
verdade essas relações não são apenas econômicas, mas também sociais
políticas e institucionais. O aspecto relevante, contudo, é que essa trama de
inter-relações não envolve uma localização geográfica em eixos cartesianos
(que fazem 900 entre si) de um ponto, de uma figura ou de um sólido
qualquer como, por exemplo, ocorreria na geometria euclidiana, por meio de
duas ou três coordenadas.
O que significa de fato uma tal proposição?
Simplesmente que as relações sociais, econômicas, políticas e institucionais-
administrativas no país (como também, ao nível internacional) constituem
um conjunto interdependente e que afetam todos os espaços. Neste sentido,
fica difícil localizar problemas peculiares a um único subespaço, uma vez
que as atividades exercidas em qualquer unidade político administrativa (ou
em um dos Estados, por exemplo) dependem e interagem fortemente com as
atividades no âmbito nacional (e internacional).”

Dentro dessa trama o conceito de distancia representa um papel fundamental –


em suas dimensões temporais e espaciais – conceito esse de capital importância na
“medição” daqueles elos de ligação. Do ponto de vista da dimensão espacial, num país
amplo e variado como o nosso, é difícil estabelecer com exatidão estas “medidas”.

“Elos fortemente entrelaçados constituem um sistema integrado subdividido


em subsistemas ou subespaços definidos; a análise do espaço econômico
abstrato considera como pressuposto, por exemplo, que decisões de âmbito
nacional afetam de forma diferenciada (assimétrica) conjuntos de
subsistemas ou subespaços, porque se admite que eles são heterogêneos.
Esses subespaços são hierarquizados em função de graus de dependência ou
subordinação às decisões de caráter geral do governo central dos organismos
multilocacionais e dos efeitos positivos ou negativos resultantes dessas
decisões.
Por fim, é importante ressaltar que, quando esses elos são relacionados de
uma maneira frouxa, formam-se subsistemas relativamente isolados.”

Esta interpretação é muito significativa para o caso do Meio Norte Brasileiro


naquele momento histórico. Podemos tomar o caso do Piauí para avaliar a relação entre
algo que decorre da dinâmica interna da região (sub-espaço econômico) e algo que se
liga aos laços que o inserem no poder central. O malogro da indústria (têxtil) em

38
FERREIRA, Carlos Mauricio de Carvalho – “Teoria dos Pólos de Desenvolvimento, a questão da
regionalização e os planos de desenvolvimento integrado dos vales das bacias hidrográficas
amazônicas” Departamento de Ciências Econômicas da FACE-UFMG. Belo Horizonte, abril de 1991.

38
Teresina prendeu-se a fatores regionais, demonstrando que na vasta periferia brasileira a
ser coordenada (polarizada) pelo centro hegemônico do Sudeste havia diferentes
condições de capacidade para que a inovação industrial viesse modificar, integrar ou
garantir um desenvolvimento auto sustentado para a região. Embora perdendo a
hegemonia de centro nacional a Bahia pode, por uma conjunção de fatores, assegurar-se
uma relativa autonomia. No Piauí, as condições eram absolutamente incipientes e
precárias para frutificar um empreendimento industrial de vulto capaz de “arrastar”
outras iniciativas e deslanchar o desenvolvimento. O veio hidrográfico do Parnaíba,
desacompanhado do pólo portuário marítimo era impotente a dinamizar esta periferia.
Pode até ser que a construção do porto de Luis Correia não viesse a garantir um
desenvolvimento maior ao Piauí naquele então. A distância em que se encontrava do
pólo hegemônico do Sudeste39, lançou o esforço econômico estadual a dirigir-se para o
exterior, apelando para o extrativismo, que uma conjunção de outros fatores adversos
faria desmoronar mais tarde. Mas naquele momento, à entrada dos anos vinte, era uma
esperança que se viu abortada por uma decisão do governo central que se mostrou,
nesse aspecto, de um caráter mais “extrativo” do que “distributivo” em relação aquela
longínqua periferia.
Daí esboçar-se e talvez marcar a vida regional daquela dubiedade fatal das duas
faces de Janus40: a face interna, auto afirmativa individual e a externa integradora no
coletivo. Essa será marca indelével em nossa República onde uma federação mitigante e
postiça vê-se, daí por diante, a braços com rivalidades regionais quando não arroubos
“separatistas”.
A este propósito é bastante ilustrativo evocar aqui um episódio narrado pelo
Engenheiro Antonio Castelo Branco Clark, num artigo intitulado “O Piauí esse
Desconhecido”. Nesse artigo, entre vários problemas do desenvolvimento econômico do
Piauí – inclusive o crucial problema dos transportes onde ele se detem na morosidade da
implantação das ferrovias e o famoso caso do porto de Luis Correia – refere-se a uma

39
Ainda hoje o Sudeste hegemônico não admite qualquer favorecimento portuário ao Meio Norte, haja
vista a celeuma e o ridicularização que se emprestou ao projeto ferroviário lançado no Governo Sarney
de ligação ferroviária de Brasília ao Porto de São Luis.
40
A partir do mito grego Janus, explorado por Arthur Koestler: “Beyond Atomism and Holism – The
concept of the holon. In: BEYOND REDUCTIONISM. The Alpbach Symposium – Edited by
KOESTLER & SMYTHIES. London, Hutchinson, 1969.

39
correspondência entre o seu irmão, o Embaixador Frederico Castelo Branco Clark e o
ilustre deputado paulista Dr. Cincinato Braga.
Cumpre lembrar que a família Clark, originada da aliança entre um jovem inglês
que se fixara na Parnaíba, e seu matrimônio com uma filha do ramo Parnaíba dos
Castelo Branco. De funcionário da primitiva Casa Inglesa, ao tempo dos Singlehurt
passaria a sócio proprietário, quando se definiu a firma James Frederick Clark & Cia.
Ltda. (1917). James Clark foi o lutador que introduziu a cera de carnaúba nos mercados
europeus. Sua descendência ilustre constitui-se numa das mais tradicionais famílias da
Parnaíba. Irmão dos dois mencionados – Antonio e Frederico – o Sr. Septimus Clark
dirigiu a Casa Inglesa por muitos anos41. Dentre os netos do patriarca inglês encontra-se
o saudoso senador José de Mendonça Clark, que serviu o Piauí como Deputado e
Senador e faleceu precocemente.
A narrativa do Dr. Antonio Clark (conhecido na Parnaíba pelo apelido de Tó)
refere-se ao impacto que se produziu sobre o seu irmão Frederico, em 1929, quando
servia a nossa diplomacia como Ministro Plenipontenciário na Havana, após a leitura do
livro do Dr. Cincinato Braga intitulado “Magnos Problemas Econômicos de São
Pedro”42.
Deputado federal por São Paulo, desde 1893 o Dr. Cincinato Braga era um
destacado membro do parlamento que, dentre múltiplas atividades, escrevia alentados
artigos de caráter econômico no jornal “O Estado de São Paulo”. A obra em questão é o
resultado da junção de uma série de artigos editados pelo próprio jornal paulistano.
Embora indignando-se com a intensão de “separatismo” atribuída a muitos paulistas, e
advogando a unidade nacional, o tratamento da superioridade econômica de São Paulo é
exaltada não apenas no Brasil mas em relação à vários passes do globo, Embora os
critérios financeiros utilizados como base destas comparações não serem muitos claros
– e portanto, discutíveis – os resultados são reveladores de que São Paulo “é mais do
que um compartimento federativo comum”43.

41
O Sr. Septimus James Frederick Clark (1894-1971) principiou a trabalhar com o pai em 1913, passando
com a morte do pai a chefe da firma. Além dos três irmãos mencionados ainda havia os seguintes
irmãos: Dr. Oscar Castelo Branco Clark, médico no Rio de Janeiro, D. Maria (Senhora Celso Nunes) e
D. Ferry (Sra. M. Furtado Bacelar).
42
Cincinato Braga: “Magnos Problemas Econômicos de São Paulo” – 342pp. São Paulo, Secção de Obras
do “O Estado de São Paulo”, 1921.
43
Este é o título do primeiro artigo (capítulo) de um conjunto da série de XXXVI que compõe a obra.

40
A comparação preliminar das receitas dos Estados Brasileiros deixa isso bem
claro, conforme o quadro abaixo:
RECEITAS DOS ESTADOS – Segundo Cincinato Braga (1921)
(Rendas ordinárias, rendas extraordinárias e rendas com
applicação especial, arrecadas)
Piauhy 2.050:340$544
Goyaz 2.925:000$000
Maranhão 4.744:354$608
Parahyba 4.918:146$210
Mato Grosso 5.564:871$067
Rio Grande do Norte 5.678:659$448
Sergipe 5.714:000$000
Alagoas 5.909:424$812
Ceará 6.394:677$157
Santa Catarina 7.225:246$648
Amazonas 7.360:000$000
Paraná 8.617:591$390
Espirito Santo 10.026:664$631
Pará 10.153:313$750
Pernambuco 21.086:188$040
Rio de Janeiro 24.500:000$000
Rio Grande do Sul 29.498:607$882
Bahia 36.095:779$290
Distrito Federal 51.082:108$000
Minas Gerais 51.639:969$494
S. PAULO 115.446:800$000

Mas não é apenas no conjunto federativo brasileiro que São Paulo tem tal
destaque. Passando para o quadro dos Estados Unidos da América, São Paulo equivale à
Louisiana e só é superado por Massachusets, New York e Pensylvania. Os demais 44
são superados “em receita estadual” por São Paulo. Mas a superioridade não para por ai.
O autor, no segundo capitulo, põe “São Paulo em confronto com muitas nações”.
Tomando “o último exercício conhecido” e convertendo a libra esterlina ao câmbio de
15$000, demonstra que o principal estado brasileiro é superior a 26 nações. Por ordem
comparativa crescente e eliminando os 13 menores para simplificar o quadro ter-se-ía:
14 Bolivia 45.707:700$000
15 Dinamarca 54.256:735$000
16 Peru 59.594:955$000
17 Colombia 71.244:000$000
18 Reino de Sião 84.375:000$000
19 Uruguay 112.124:385$000
20 Suissa 136.680:000$000
21 Venezuela 151.670:880$000
22 Portugal 153.711:615$000

41
23 Grecia 117.768:480$000
24 Cuba 193.380:000$000
25 Chile 207.210:000$000
26 Mexico 218.955:000$000
São Paulo 243.637.004$000

Em relação ao comércio exterior (importação! exportação) o Estado brasileiro de


São Paulo supera 28 do total das 48 nações independentes da terra.
O balanço geral, em relação ao Brasil e ao mundo, é expresso pelo esclarecedor
confronto:

“As contribuições fiscaes annuaes do povo paulista, estaduaes e federaes


(não incluo as municipaes) são estas, como já vimos:
Rendas estadoaes 115.446:800$000
Rendas federaes 128.190:204$000
Somma 243.637:004$000
Quando o Brasil se constituiu em nação, sua receita total era apenas de
3.802:434$204 (arrecadação de 1823). E ainda não ha muito, quando se
proclamou a República, a receita geral do Brasil havia sido, no anno anterior,
de 145.896:141$105 (arrecadação de 1888). Estes algarismos já estão
excedidos por S. Paulo de hoje! Não contadas ainda as pequenas nações que
vão sahir do fracionamento dos Imperios Centraes e de todas as Russias, são
em número de 48 as nações independentes existentes sobre a superficie da
terra. – monarchias e republicas: a maioria dellas, note-se bem, a maioria
dellas, arrecada por anno receita inferior à que o povo paulista para aos
thesouro estadual e federal” (Cincinato Braga. Op. cit. p. 15).

O ufanismo do deputado paulista culmina no Capítulo XX (p. 141 a 146)


intitulado “Dívida da Alemanha a São Paulo” onde o seu confronto do empréstimo
contraído pelo Estado de São Paulo ao Dresdner Bank, antes da guerra (1914-1918) e a
divida contraída pela perda da guerra e seu quinhão referente ao Brasil, confere a São
Paulo o papei, de um verdadeiro Estado dentro de outro Estado.
O confronto das receitas estaduais no quadro da federação brasileira deixa bem
claro que à pujança de São Paulo – no topo da escala – sobressai a insignificância do
Piauí, no extremo oposto. E sem dúvida foi este o ponto chave na contestação do
Embaixador Castello Branco Clarck, que procurou objetivar ao deputado Cincinato
Braga os critérios monetários utilizados na sua argumentação. Advogava o Embaixador
que não somente São Paulo conduzia o progresso do Brasil. Apontava ele que mesmo o
humilde Piauí contribuía também para o saldo em ouro da nação e que:

42
“... bem guardadas as proporções, poderia, pois, também o Piauí alegar que
se fosse República Independente, teria circulação ouro tão forte como o
dólar americano.”

e, após tentar demonstrar a sua assertiva acrescenta que:

“... tal idéia (separatista) jamais passou pela cabeça dos humildes lavradores
e vaqueiros de minha terra natal, os quais, pelo contrário se ufanam de ser
apenas uma pequena família acampada num pedaço esquecido do território
da grande e gloriosa União Brasileira.”

Pretensões e ufanismos a parte, tais manifestações no final dos anos vinte (1929)
são bastante reveladoras de um estado de espírito reinante na Federação, já tão desigual
que uns se arvoram em locomotivas e outros se recusam a ser vagões vazios.
São estes sentimentos reprimidos ou manifestos em alguns momentos como a
República Farroupilha a Revolução “Constitucionalista” de São Paulo (1932) que o
desenvolvimento desigual alimenta lentamente e que nos dias que correm, ainda afloram
em nosso país44. Este episódio faz-me lembrar uma discussão a que presenciei no ano de
1951, num colégio do Rio de Janeiro onde lecionei45 entre dois colegas docentes: uma
pernambucana e a outra paulista, coincidentemente ambas pertencentes a famílias bem
representativas das tradições e cultura dos dois estados. Como a paulista retomasse o
tema da “locomotiva” e exaltasse a magnificência do parque industrial paulista, a
pernambucana, calmamente, evocou a arcaica e decadente cultura da cana-de-açúcar em
seu estado, acrescentando:

“Meu bisavô comprara as máquinas da Usina na Suécia. Meu avô e meu pai
atravessaram os tempos sem problemas. Meu irmão, que agora é obrigado a
comprar as máquinas feitas em São Paulo, vive com problemas e mais
problemas...”

Com isto a discussão foi encerrada. Hoje, quarenta anos após aquela discussão,
ao ver os sulistas propagando seus anseios separatistas sinto uma grande tristeza. À
minha infância e adolescência no Piauí junta-se quase meio século de Sudeste e Sul,
dentre os quais 25 anos vividos em São Paulo. Isso me faz sentir brasileiro, desprovido
de “bairrismos”. E tenho o maior orgulho em ser piauiense, o que – inda que distante –

44
Ao iniciar-se a década de noventa ressurge no Rio Grande do Sul um ridículo movimento separatista
por um grupo de neo-nazistas de origem alemã de Santa Cruz do Sul, que visa a formação de um novo
país no Sul do Brasil.
45
A minha única experiência no magistério secundário (ensino médio), antes de minha ida para uma bolsa
de estudos na França, no Colégio Maria José Imperial, da União das 0perArias de Jesus, à Praia de
Botafogo.

43
me conserva amante de minha terra natal. E a própria elaboração dessa crônica vem
demonstrando o quanto eu permaneci preso a terra onde o “meu boi morreu”.
A década de vinte sediou governos bastante proveitosos para o Piauí. Eurípides
de Aguiar, que, restaurara as finanças cambalidas do Estado conseguiu eleger seu
sucessor, o Engenheiro João Luiz Ferreira (1921-1924). Sendo de uma família de
políticos influentes: seu pai Gabriel Ferreira – 1º Governador Constitucional Eleito – o
tio Senador Teodoro Pacheco e o irmão jornalista deputado e chanceler Felix Pacheco.
Quando escolhido candidato estava empenhado na construção da primeira “rodovia” no
Estado. No seu governo uma das preocupações foi atacar o problema rodoviário e fez-se
o primeiro esforço significativo em prol da educação pública. Embora Teresina tivesse o
tradicional Liceu Piauiense e a Escola Normal estivesse preparando as professoras
primárias desde 1910, no Governo Antonino Freire, a situação do ensino público
primário era calamitoso.
Na última mensagem do seu governo à Assembléia Estadual, Eurípides de
Aguiar havia retratado o problema do ensino primário nos seguintes termos. Para uma
população total estimada em 400 mil habitantes a população em idade escolar (entre 7 e
12 anos) seria equivalente a 10% ou seja, 40 mil crianças para as quais o Estado atendia
apenas 6 mil estudantes, ficando, pelo menos 34 mil crianças desatendidas. Esta seria
uma estimativa otimista, anterior a revelação dos resultados oficiais do censo de 192046.
O governo seguinte, de Matias Olipio de Meio (1924-1928), continuará este esforço,
inclusive construindo, na capital e na Parnaíba os melhores prédios para instalar os
Grupos Escolares47. Das 78 escolas primárias da rede “estadual” servindo 3.068 alunos
de 1920 passar-se-á a 102 escolas servindo 10.488 em 1930. Se o número de escolas
não duplicou, pelo menos foi triplicado o número de alunos48.
O relativo surto de progresso experimentado nos anos vinte, devido ao aumento
das exportações e boa cotação comercial nas cera de carnaúba, em contrapartida, o
extrativismo teve influência negativa na agricultura e a decadência da pecuária, entregue

46
O Censo revelaria um total de habitantes bem superior: 609.027 habitantes. A população em idade
escolar refletia as precárias condições de saúde e uma alta mortalidade infantil
47
A construção dos prédios realizava as melhores instalações. Basta lembrar que os prédios dos anos 20
ainda hoje se mantêm como os melhores como alguns passaram a sediar Faculdades e Bibliotecas
Públicas, como foi o caso do Grupo Escolar Abdias Neves de Teresina.
48
Este número refere-se às escolas estaduais, havendo ainda as redes municipais que em 1930 acusava
um total de 4.316 alunos, um pouco menos da metade da rede estadual.

44
à evasão, ao roubo e ao contrabando. Isto passa a gerar sérios problemas no
abastecimento de gêneros alimentícios nas cidades, notadamente na capital. O ano de
1922 é aquele onde há um salto vertiginoso no preço da carne verde em Teresina.
Ficariam no passado os bons velhos tempos onde aqueles picos da carne oscilavam
entre 400 e 700 réis o quilo, deixando estabilizado em torno dos 500 réis. Em 1923 o
quilo da carne chega a 1.300 réis. Em 1926 chega-se a mobilizar a colaboração do
Exército. O 25º Batalhão de Caçadores impõe o tabelamento da carne verde a 1.400 réis
para cortar a ascensão que se manifestava seriamente incontrolável.
Ao longo dos anos vinte o Piauí pode ser esquematizado por uma forte
disparidade entre o Norte do Estado, onde a exploração de cera de carnaúba era mais
efetiva, e o Sul, mais entregue à pecuária decadente. Malgrado algumas manchas
agrícolas de certo destaque, como o Amarante e, sobretudo Picos, os grandes espaços do
Sul eram mais atrasados. E será nela que vamos encontrar a formação de bandos
armados a serviço dos coronéis latifundiários em disputa pelas terras, lutando uns contra
os outros. Contudo estes movimentos que caracterizarão o Sul do Estado, aproximando-
o do que vigorava no Nordeste verdadeiro, não degenerará no “cangaço” que proliferou
nesta parte do Brasil. Mais uma vez, esse traço cultural, com os bandos armados de
jagunços, a serviço de chefes locais, aproxima o Piauí do grande sertão de Guimarães
Rosa: Oeste da Bahia e Norte de Minas. Os movimentos desses grupos foram intensos
na primeira metade da década de vinte requerendo até aliança entre os governos do
Piauí, Bahia e Goiás. No Piauí não havia cangaço – grupos autônomos de rapina – e os
grandes cangaceiros do Nordeste verdadeiro jamais se aventuraram a transpor a moldura
das serras piauienses. Sua fama chegava até nós e era cantada nas feiras e nos serões
familiares. Todos acompanhavam as últimas façanhas do Capitão Virgulino Lampião,
que chegou a sitiar Mossoró e visitar o Padim Cícero no Cariri Cearense, tendo aí
deixado o marco de seus limites de incursões para o oeste.
O Governo João Luiz Ferreira, com o estimulante surto de progresso pela cera
de carnaúba, foi um momento de ilusória crença no federativismo. No seu governo
criou-se a bandeira do Estado e oficializou-se o hino do Estado do Piauí com versos do
poeta Da Costa e Silva e música da Professora Firmina Sobreira. Foram símbolos que
vigoraram por quinze anos até que a ditadura Vargas queimasse as bandeiras estaduais

45
em ato público solene e eliminasse todos os símbolos que não fossem os nacionais,
integrados no que se propunha ser o Estado Novo.
Os anos vinte e o Governo João Luiz Ferreira principiaram marcados pelos
festejos do Centenário da Independência, o que mobilizou a todos. Foi um momento de
raras festividades públicas e animação social. Aproveitamos estes festejos para retornar
à crônica da família, na cidade de Teresina.

46
47
48
TERESINA
Abastecimento (1894-1943)
Variações anuaias no preço da carne verde (Kg)
2. Teresina à Época do Centenário da Independência – Os Dois Lados
da Família

A turbulência dos anos vinte não será atenuada na longínqua capital do Piauí.
Além dos efeitos econômicos ocorrerão calamidades naturais e conturbações políticas.
Os invernos foram copiosos e o rio Parnaíba atacará a cidade nas duas cheias mais
memoráveis de sua história (1924 e 1926). Entre as duas calamidades naturais, deu-se a
passagem da coluna Prestes, vinda do sul do Estado e chegando às portas da capital.
Como se não bastasse a cidade seria ainda abalada por sérios conflitos na Intendência
Municipal, com a rumorosa oposição política movida contra o prefeito Manoel
Raimundo da Paz Filho, desde outubro de 1922 até abril de 1924, período em que
culminava a crise de abastecimento da cidade em gêneros alimentícios, principalmente
em carne verde.
O censo de 1920 declarara a população do município da capital nos seus 57.500
habitantes. A cidade, como se vê, não alcançara a aglomeração de 25/30. Na entrada dos
anos vinte passará a ocorrer uma séria rivalidade entre a capital administrativa e o
centro comercial mais efetivo desempenhado pela Parnaíba. Esta, merecera em 1922 a
criação do seu primeiro grupo escolar, batizado com o nome do condestável das lutas da
Independência contra Fidié e na Guerra dos Balaios: Miranda Osório. O seu prédio,
ainda hoje imponente, será inaugurado em 1926. Enquanto Teresina tem uma população
infantil freqüentando escolas primárias de 1.011 alunos, a Parnaíba já conta o
atendimento de 725. Teresina possui o velho Liceu, vindo de Oeiras desde a sua
fundação (1852), a Escola Normal (1910), a Escola de Aprendizes Artífices, do
Governo Federal, e o Colégio das Freiras (Colégio Coração de Jesus). Parnaíba, ao lado
do Colégio de Freiras – da mesma ordem de Santa Catarina de Siena – o Nossa Senhora
das Graças (1907) ao qual se juntavam 11 escolas particulares das quais 5 são
subvencionadas pelo Governo Federal. A Parnaíba era a porta de entrada de
mercadorias e novidades, vindas, sobretudo da Europa, pelos contatos comerciais da
exportação extrativa. E desta época que os teresinenses reclamam que os caixotes de

49
mercadoria são marcados ali “Parnaíba, Norte do Brasil”. Os parnaibanos caçoam ao
caipirismo da gente da capital ao que esta responde com epítetos desairosos49.
Na realidade, ao longo do eixo do Parnaíba eram o mesmo núcleo de um poder
bipartido em seus setores político e econômico. Parnaíba, para animar as festas do
Centenário, constituiu a Comissão Promotora do Centenário de Independência do Piauí
(1923) além de criar o “Jornal 19 de outubro”. Teresina empolgou-se para celebrar a
data nacional do centenário: o 7 de setembro de 1922. Desde o dia 4 iniciaram-se os
festejos50 com tríduos nas igrejas, desfiles escolares, préstito da Colônia Síria – da rua
Paissandu até ao Palácio do Governo – exposições escolares e folguedos na Praça
Marechal Deodoro.
As solenidades continuaram pelos dias 5, acontecendo no dia 6 um grande
desfile cívico pelas ruas da cidade, culminando com um carro celebrando a Deusa da
Liberdade, havendo sido escolhida, dentre as moças da sociedade local, a bela Osita
filha do Coronel Claro Holanda, para desempenhar aquele papel. Atrás do carro seguiu-
se um importante desfile de bandeiras dos Estados da Federação, conduzidas por
senhoras da sociedade e após, representações dos municípios piauienses feitas por
senhoritas. O dia 7 culminou com grandes desfiles militares pela manhã e na “Hora da
Independência – 16:30”, houve sessões cívicas em todas as escolas da cidade.
Inaugurações de logradouros públicos, recepções em palácio e festas populares. No dia
8 continuaram os festejos com missas e procissões. Sessão cívica no Teatro 4 de
setembro e competições esportivas constituíram a especial atração do dia 9. No dia 10
os festejos se encerraram com o Grande Baile oferecido pelo Governador do Estado, 6
em Palácio.
Para a ocasião a sociedade local, ainda desprovida de clubes recreativos,
resolveu organizar-se e fundar o Clube dos Diários, uma sociedade anônima que,
segundo os Estatutos e Regimento Interno, publicado em 1925, pretendia “aproximar a
família teresinense, por meio de um centro de convergência em que serão
proporcionadas diversões aos sócios e onde se formam, consolidam e conservam as
boas relações”51. Pelas três décadas seguintes este será o clube social mais importante

49
Dentre outros, aqueles de “terra de cornos e de frescos”. É uma rivalidade que se repete em quase todos
os Estados inclusive os grandes: São Paulo x Campinas; Porto Alegre x Pelotas, etc.
50
Os festejos encontram-se descrito na obra de A. Tito Filho “Memorial da Cidade Verde” (Intendentes e
Prefeitos de Teresina, Teresina, 1928. pp. 47-49.
51
O prédio sede do Club dos Diários será inaugurado em 1927.

50
da cidade, em sua sede da Rua Grande (Álvaro Mendes) a altura da Praça Aquidaban,
batizada de Praça da Independência (posterior D. Pedro II).
Além do tradicional “O Piauhy” funcionam por esta época os “O Jornal”, “O
Correio do Piauí” e a revista “A Renascença”, mistos de noticiosos e literários, nos
quais se publicam poesias em quantidade espantosa52. A Academia Piauiense de Letras,
instalada oficialmente em 1918, desempenha um relevante papel na vida cultural da
capital não só publicando trabalhos mas promovendo eventos, conferências, certames,
realizando uma benéfica agitação cultural.
À alguns médicos já conceituados nas décadas anteriores juntaram-se outros
novos, constituindo a lista de maior destaque composta (por ordem alfabética) pelos
Doutores: Anfrisio Lobão Veras, Antonio Crisipo de Aguiar (irmão do Dr. Euripedes),
Bonifácio de Carvalho, Francisco Freire de Andrade, João Virgílio dos Santos, Jarbas
Martins, Leonidas de Castro Melo, Manoel Afonso Ferreira e Manoel Sotero Vaz da
Silveira.
No ano do Centenário e seguinte, chegaram a Teresina os primeiros automóveis
particulares. É comum a disputa para o lugar do pioneiro, pois muitas famílias desejam
o privilégio de ter sido a “primeira a possuir automóvel”. Devem ter sido
concomitantes. Talvez o pioneirismo tenha sido aquele adquirido pelo Dr. Manoel
Afonso Ferreira. Mas logo apontam-se outros como aqueles do Dr. Heitor Castelo
Branco, filho do Barão. O Major Santídio Monteiro, diretor da Usina Elétrica, esteve
entre os primeiros.
O ano festivo de 1922 principia por um animado carnaval. Na capital federal,
caçoa-se do Marechal Hermes, cantando-se a marchinha53 cujo refrão dizia:

Ai seu Mé!
ai seu Mé
La no Palacio das Aguias
Olé
Nunca hás de por o pé.

52
Veja-se, por exemplo, o rol das poesias publicadas, por jornais, na CRONOLOGIA DO PIAUI
REPUBLICANO: 1889/1930. Teresina, Fundação CEPRO, 1988. pp. 270 e seguintes.
53
A primeira era de autoria de Freire Junior – um autor de revistas que estenderia sua fama na Praça
Tiradentes até os anos quarenta – de parceria com Carioca.

51
A este caráter político, da cúpula do poder, descia-se para o mundo dos
marginais, celebrando as proezas de um certo Sete Coroas, ban-ban-bam lá da Favela e
um certo “Pé de Anjo” com um pé tão grande, capaz de pisar Nosso Senhor54.
Enquanto isso em Teresina cantavam-se também músicas locais. “O Obuz” – um
irreverente pasquim carnavalesco, no seu Ano II, nº 2 caçoava de alguns homens
públicos e personalidades de projeção na sociedade local, atribuindo-lhes “fantasias”
para o carnaval do centenário:

Lulu Ribeiro – Sansão, com cabelos de papel de sêda


Arthur Freire– Tio Sam às avessas (acumulando vintens)
Mario Baptista – Chinês de Carregação
Christino Castello Branco – My baby
Ernesto Baptista – Zezinho Leone
Miguel Rosa – Exilado de Doorn
Mathias Olympio – Sol Nascente
Luis Ferraz – Barão de Rothchild
L.B. Correia – Garofalo
José Autran – José Maria Whitaker
Ney Ferraz – Fidalgo do Tempo de D. João VI
Cromwell Carvalho – Zelador do Sagrado Coração de Jesus.

2.1. O Major Santídio Monteiro e sua Família.


O início e primeiros anos vinte trarão grandes preocupações ao Major Santídio
que continua a dividir-se entre duas casas. A cegueira progressiva da esposa D. Sérgia,
que ainda lutava a procura de recursos, criara a necessidade de levá-la ao Rio de
Janeiro, onde ela esperava encontrar salvação graças ao renome do Dr. Moura Brasil.
Também será o momento de enviar o filho Mundico para a Alemanha. O rapaz era
peralta, vivia entregue a farras, com os primos ou sozinho, girando entre Teresina e o
Amarante, pelas fazendas e pelas cidades e povoados. Suas proezas já estavam, de tão
freqüentes, tomando vulto e andando de boca em boca. Cumpria remetê-lo, o quanto
antes, para a Alemanha que, malgrado a derrota na guerra, era o centro da admiração do
Major, sempre ligado nos progressos técnicos.
Havia feito bons contactos com engenheiros da Siemens durante a montagem da
Usina Elétrica, e estava esperançoso de que o filho devia dirigir-se a Hamburgo para
tornar-se um engenheiro mecânico. Já andava adquirindo libras na Casa do comércio do
Coronel Zés onde se podia adquirir a moeda inglesa, já que o marco alemão estava em

54
A segunda é de autoria do grande Sinhô. A terceira não consegui apurar a autoria.

52
franca desvalorização, como conseqüência da maldita guerra que perdera. Passadas as
festas do Centenário ele providenciaria estes dois problemas: a viagem do rapaz para a
Alemanha e a sua para o Rio de Janeiro, levando a esposa e a filha Edith.
Esta não desejava continuar os estudos para tornar-se professora na Escola
Normal. Era muito reservada, caseira. Entretinha-se com a prima Anisia e as afilhadas
do pai que vinham para estudar na capital, hospedadas na casa da Rua de Santo
Antonio. João Paulo era menos peralta que Mundico. Não quisera ficar no Rio
estudando mas já estava empregado. Era telegrafista dos Correios e Telégrafos
Nacionais. Zeca era ainda garoto. Apesar de muito inteligente não se aplicava nos
estudos. Gostava de uma rede, quando em casa, cercada pelas mucamas e moças da
casa. A noite já se soltava com a malta de primos e amigos para a farra.
A ligação de Edith com a cidade era sua vizinha e grande amiga Elisa, filha do
Sr. Gonçalves, morador da outra esquina da mesma quadra de sua casa na Rua de Santo
Antonio. A Família Bento Gonçalves era de gente distinta e conceituada na cidade.
Gente culta, tendo, dentre outros Mano Bento e aquela que será um notável poeta
piauiense: a Nenem, mais velhas que Elisa e mais moça que Belinha. Nenem foi notável
professora. Diretora da Escola Modelo, casada com um Vilhena, do lado do Maranhão
(Curralinho) um notório boêmio. Ficou consagrada na história piauiense como a poetisa
Maria Izabel Gonçalves de Vilhena.
O caso do Major com D. Inhá Veras (Pearce) já era coisa pública e notória para a
qual não se atraiam mais comentários. Era uma fatalidade aceita e tida entre os direitos e
poderes de que se investiam os “machos” da sociedade. No seio da família legítima do
Major os acontecimentos básicos ligaram-se a ida de Mundico para a Alemanha, a sua
viagem com a esposa para o Rio e o casamento da enteada Mariquinha Rocha.
Antes de apreciá-los cumpre focalizar os fatos importantes de sua vida
profissional que foram relevantes nesta primeira metade dos anos vinte: a questão na
Usina Elétrica e suas conseqüências; a sociedade entre os primos Monteiro e Oliveira na
formação de uma companhia de navegação no rio Parnaíba; a volta do amigo José
Faustino e o envolvimento dos dois no projeto do bonde.
Já foi narrada a participação do Major Santídio na instalação da luz elétrica em
Teresina e como – após a retirada do engenheiro da Siemens – ele assumiu a direção
técnica da Usina em 1915, no governo Miguel Rosa. Desde então ele foi o dirigente da

53
Usina, encarregando-se dos serviços técnicos do abastecimento d’água canalizada e
energia elétrica à capital, tendo sempre como auxiliar e lugar tenente o fiel amigo
Pombo (José Belisário da Cunha).
Desde as origens o fornecimento de energia elétrica (e água) constituiram-se
numa sangria aos cofres públicos pois o Estado, como se viu, foi forçado a recorrer a
empréstimos inclusive a particulares, dentre os capitalistas locais. A grande guerra
também repercutiu com uma carga de problemas, já superados. Contudo o uivei
econômico dos moradores da capital era ainda o de uma pequena cidade pobre, e a
manutenção dos serviços era sempre deficitária55. Embora não coubessem à Direção
Técnica da Usina os problemas financeiros, a não ser uma natural contenção de
despesas, tal situação não deixava de produzir um certo mal estar no Diretor.
Já agastado desde o incidente anteriormente havido com o Dr. Lulu Ribeiro, a
propósito do uso do óleo de babaçu como lubrificante das máquinas, o entusiasmo e a
dedicação do Major à Usina vinham declinando. Talvez isso explique, pelo menos
parcialmente, seu comprometimento no projeto do serviço do “bonde”, como se verá a
seguir.
No decorrer de 1923, após os grandes festejos, a situação financeira dos serviços
de eletricidade se foi agravando. A imprensa local publicou declarações – colhidas em
conversa e não em entrevista formalizada – do Diretor Santídio Monteiro nas quais ele
lamentava o fato de que a cobrança dos serviços de luz não se fazia de modo impessoal
e eqüitativo, beneficiando-se com tarifas pequenas e mesmo exíguas figuras de políticos
e autoridades. Apontava, como exemplo concreto e comprobatório, o caso do Dr.
Lucrecio Avelino, então Secretário da Fazenda, aquele ferrenho adversário do governo
Miguel Rosa, informante do Correio da Manhã do Rio de Janeiro, de oposição aquele
governo. Feia condição de Secretário da Fazenda, sabedor do déficit dos serviços de
eletricidade, ele não se eximia de consumir a energia “por preço inferior ao devido”. O
governador João Luiz Ferreira irritou-se com a notícia e aplicou uma suspensão de 10
dias ao Major Santídio em suas funções de Diretor Técnico da Usina Elétrica.
Os operários da usina – que queriam muito ao Diretor – declararam-se em greve.
A cidade ficou as escuras. O governo pressionava os operários a voltar ao serviço, ao

55
Veja-se, a propósito, tabela de dados referente ao período de 1911 a 1929, inserido na CRONOLOGIA
DO PIAUI REPUBLICANO, (1989-1930), à página 219.

54
que eles se negavam. Além do que declaravam que a Usina estava no “prego” e não
estava mais funcionando.
O Major Santídio não deu demonstração de agastar-se. Aproveitou os dez dias
de “folga”, apanhou a família e dirigiu-se ao Sítio de Santo Antonio. Era início de
outubro, e o Major foi entreter-se com o sítio que, naquela época, embora descuidado,
ainda plantava cana e fabricava rapadura e cachaça. Por uma ironia da sorte o Major,
que sempre estivera afastado da política, havia, contudo, sido um dos cidadãos
signatários do apelo ao lançamento e apoio à candidatura do Engenheiro Ferreira à
sucessão de Eurípides Aguiar. Não era homem de questões, muito menos políticas e
resolveu voltar às costas à tumultuosa situação. Como técnico havia tomado sua decisão
“técnica”. A Usina não funcionava. Estava parada. No “prego”.
Não é difícil imaginar-se o alvoroço que se abateu sobre Teresina naqueles dias,
ficando completamente sem energia, às escuras. Corriam os maiores boatos sobre o
caso. Um deles dizia que o Major Santídio fizera um feitiço e “fechara as máquinas” e
que só com a volta dele a cidade teria novamente luz. A “praga das trevas” estava
lançada sobre a cidade56.
Para tentar por as máquinas em funcionamento e testar se não era sabotagem
praticada pelos operários solidários ao diretor foi convocado o Cel. Antônio Cavour de
Miranda, um antigo “maquinista” ou mecânico da Companhia de Navegação que andara
pela Inglaterra. O Coronel Cavour era homem próspero que construíra para a família um
belo palacete na Rua da Glória57. Como o Coronel Cavour nada conseguisse, dando a
máquina por emperrada mesmo, sem que pudesse atinar com a causa, foi feito apelo a
um técnico que se encontrava na cidade montando um descascador de algodão: Sr.
Walter Lemmerts, que também nada conseguiu. Fez-se apelo ao 25º Batalhão de
Caçadores do Exército, através dos conhecimentos mecânicos do Tenente João
Holanda: nada feito. Os alunos do Liceu Piauiense aproveitaram o ensejo e realizaram
uma festiva passeata “de velas” enquanto o povo da cidade iluminava a Praça Rio
Branco com velas, reunindo-se a noite naquele ponto de encontro – espécie de “boca

56
Informes sobre o episódio podem ser encontrados, sob o aspecto político na obra de A. Tito Filho
“Memorial da Cidade Verde”, p. 39 e naquele de Orgmar Monteiro: “Teresina Descalça”, 3º Vol. p.
244-248, onde é explicado o problema técnico.
57
Este palacete, seria, no final dos anos quarenta ou início dos cinqüenta, a primeira sede social do “River
Club” de Teresina.

55
maldita” da cidade. O Governo manda buscar em São Luis um mecânico – Reimundo
Mendes – que nada entendendo de motores a “diesel” deu-se por incompetente.
Santídio Monteiro é procurado por emissários do Governo no Sítio de Santo
Antonio mas recusa-se a qualquer cooperação desde que o Governo não revogue a pena
que lhe fora imposta. O Governador se enfurece e aumenta a pena de suspensão de 10
para 90 dias.
O desfecho do caso tem versões variadas. A. Tito Filho assim se expressou:
“... A 13 de outubro a cidade padecia da 14ª noite de trevas. Contratou-se o mecânico
português Augusto Coutinho, mas nada se resolveu. Vieram, chamados da capital
maranhense, o engenheiro inglês John Frederich e o prático Jaques Vieira, que
acertaram nas providências e a luz voltou a 23 de outubro.”58
Talvez esta tenha sido a salda “honrosa” com que o Governo do Estado procurou
encerrar o caso. Para muita gente na cidade, corre a versão de que, ante o impasse, o
governo resolveu entregar os pontos e revogar a suspensão do diretor que, ao retornar,
com uma simples e misteriosa “manobra” fez as máquinas funcionarem.
Este mistério “técnico” de que tanto se ocupou, e por muito tempo se especulou
na cidade, foi um artifício tão difícil de descobrir quanto fora simples a intervenção
paralisadora. Meu primo Orgmar Monteiro – sobrinho e afilhado do Major Santídio,
meu avô paterno – narra o caso em sua trama técnica a qual não posso avaliar.
Submetendo a versão a pessoa categorizada59 para tal, ela foi considerada plenamente
possível de ser verdadeira.
Meu primo dedica um pequeno capitulo do 3o Vol. de suas saborosas memórias
ao caso e o faz apontando importantes antecedentes que o fundamentam.
Aconteceu que o técnico alemão, o Sr. Lemmerts, ao dar o seu parecer declarara:
“Se não for chamado o mecânico que alterou a combustão de querosene para gás, pode
comprar outro motor pois não há como descobrir o que aconteceu”.
Ora, esta importante e econômica alteração foi deliberadamente efetivada pelo
Major Santídio. Acontece que seu filho Mundico já chegara a Alemanha (final de 1922)
e enviara ao pai a novidade do advento da utilização do “gás pobre” como substituto do

58
A. Tito Filho. Op. cit.
59
O engenheiro eletricista José Cesar Lobo, formado na Universidade Mackenzie de São Paulo com
quase meio século de operação junto a General Eletric, no Brasil e nos Estados Unidos (Lousisville,
Kentucky) a quem dei a ler a explicação de Orgmar, diz que o caso tem fundamento, sendo muito
plausível.

56
querosene, inclusive com prospectos ilustrados. Santídio, sempre comprometido com a
navegação no rio Parnaíba, experimentara o processo em motores de lanchas e, com o
êxito obtido, resolveu adaptar ao novo processo o primitivo (1914) motor Deuttz de
fabricação alemã que movimentava a Usina. De certa forma isto era uma proeza que
ratificava a fama de que Santídio era um mecânico competente.
Em beneficio da exatidão técnica do caso transcrevo aqui a explicação que meu
primo Orgmar apresentou no seu livro, por meio dos fatos que “estão respaldados nas
conversas que ouvi quando criança e de que participei quando adolescente e adulto”.
Como engenheiro agrônomo e sobrinho é bem mais capacitado do que, o cronista, neto,
como geógrafo, não se atreve a dar.
Vejamos a explicação que Orgmar apresenta nessa intervenção ao motor anterior
ao advento do gás de madeira ou carvão:

“Entre o bloco e o tampão havia uma junta de asbeche com um oitavo de


polegada de espessura. Santídio aumentou essa junta sobrepondo-lhe outra
com uma polegada de espessura.
O querosene era um combustível nobre. Vaporizado no bloco do injetor para
incorporação do oxigênio do ar, tornava a mistura rica. A compressão de
pequeno volume e conseqüente inflamação acarretava forte explosão, capaz
de gerar a força nominal indicada pelo fabricante.
O gás-pobre, o próprio nome identifica-o como fraco.
Adaptando o motor para a queima desse combustível foram feitas outras
alterações da sua estrutura, como o injetor que foi retirado com o bico de
vaporização do querosene e substituído pela torneira de passagem do gás. A
câmara de compressão, na cabeça do pistão, foi aumentada de uma polegada
no comprimento com a junta superposta.
Para tornar o motor impotente ele retirou a placa que adaptara entre o bloco
e o tampão. Só isto.”

É assim, muito mais provável que tal artifício que passava despercebido por
tantos olhos profissionais só viesse a ser recomposto pelo seu próprio autor.
A vinda do inglês Frederick e do prático Vieira – o que certamente ocorreu –
prender-se-ia antes às obras de ampliação da Usina, planejadas pelo Secretário de
Obras, engenheiro Luis Mendes Ribeiro Gonçalves, o mesmo Dr. Lulu Ribeiro com
quem Santídio já entrara em conflito por ocasião da utilização do óleo de babaçu como
lubrificante das máquinas, no período da crise imposta pela primeira grande guerra. Em
realidade o serviço de iluminação pública da capital – malgrado seus problemas
deficitários específicos – e bafejado pelo surto de progresso que a cera de carnaúba

57
injetava no orçamento do Estado, estava em ampliação na cidade. Nesse mesmo ano de
1923, quando ocorreu o famoso episódio do “prego da Usina”, os postes de madeira da
iluminação urbana estavam sendo substituídos por postes de ferro.
Igualmente, o próprio sistema de abastecimento d’água exigia revisão,
reformulação e ampliação, o que acontecerá em 1926, uma vez que o sistema original
fora implantado para uma previsão de validade por 20 anos (1905-1925).
Orgmar refere-se a que o Major Santídio, só se aposentaria por ocasião da
revolução de 1930. É-me difícil estabelecer a verdade dos fatos pois estes antecedem ao
casamento de meus pais e minha pesquisa não foi tão profunda a ponto de elucidar estas
questões. Mas tenho a impressão que este episódio implicou na saída de meu avô da
direção da Usina. Se não o fez imediatamente, deve ter estado em licença pois que,
inclusive, empreendeu sua viagem ao Rio de Janeiro levando D. Sérgia ao Dr. Moura
Brasil.
O que é certíssimo é que em 1925 o noticiário da imprensa não se refere mais ao
Major Santídio. E a comprovação é dada por uma notícia inserida no Número Especial
do Jornal “O Piauhy” editado em 12 de outubro de 1925. Esse mesmo dava divulgação
das realizações do Secretário de Obras – o Dr. Lulu Ribeiro, sob o cabeçalho:
“Melhoramentos de Vulto – As Novas Instalações da Usina Elétrica – O Grupo Escolar
Demosthenes Avelino. Com referência as obras da Usina – seriamente atrasadas pela
grande enchente do ano anterior – explicava-se as grandes transformações. Construíra-
se um prédio para as ampliações que consistia principalmente na instalação de um grupo
eletrógeno de 300 HP e a construção de um galpão para colocar o gazogênio.
Percebe-se que, dez anos após a inauguração, estas reformas iniciavam uma
nova fase nos serviços de água e luz em Teresina. O noticiário teve elogios aos
competentes profissionais alemãs, o engenheiro mecânico Gustavo Breidenheichen e o
eletricista Guilherme Weichert. Este último permanecerá como dirigente da Usina. Era
um alemão loiríssimo e dele me lembro muito bem. Após o meu nascimento o papel do
Major Santídio na Usina, embora ainda marcante, era coisa do passado. O diretor da
Usina no meu tempo será sempre o Guilherme (o Alemão da Usina) que se radicou na
cidade, vindo a casar-se com uma das filhas do Dr. João Cabral (Elza). E até minha
saída de Teresina (1945) continuava o Guilherme.

58
Lembro-me que, nas conversas de família, sabia-se do ressentimento velado que
Santídio guardava do Dr. Lulu Ribeiro. Acontece que este se encontrava em seu período
áureo ou apogeu de sua produtividade e prestígio. Fora o construtor do palácio que era a
Escola Normal; seria, logo mais, o adaptador do palácio de Karnak, adquirido ao Barão
de Castelo Branco para tornar-se, oficialmente, Palácio do Governo (1926). Estas para
mencionar apenas as mais conhecidas, que realizaria nos governos Ferreira e Olimpio
de Meio. Estes anos vinte foram o alicerce obreiro do notável engenheiro que nele
assentaria sua carreira política futura como deputado e senador.
Era um sinal dos tempos. Um engenheiro diplomado, de prestigio político por
suas raízes familiares no Amarante, sua terra, e com obra relevante já construída, teria
que anular o mecânico autodidata. Isto – como que para comprovar a minha impressão
de que houve o seu afastamento da direção da Usina – vem juntar-se a divisão da
atenção do Major para outras atividades. Um deles é o seu comprometimento na
Companhia Fluminense de Navegação. O outro será o projeto do serviço de “Bondes”
implantado na cidade.
De qualquer modo o episódio do prego da Usina e um poderoso marco
referencial para o último registro comprovado da presença do Sítio de Santo Antonio no
vale do Berlengas na vida da família, vindo por dote de D. Sérgia, uma das herdeiras do
Alferes João Paulo de Areia Leão e que fora o “locus familiae” por tantos anos.
Só uma consulta à escritura de compra e venda do Sítio de Santo Antonio do
Berlengas pelo Dr. Francisco Aires, médico do Amarante, ao casal Santídio Monteiro
(cabeça de casal) e Sérgia Mendes Monteiro (herdeira) pode esclarecer a data desse
evento.
O sítio ficou em muito boas mãos. O Dr. Francisco Aires era um conceituado
médico do Amarante e sua esposa, D. Chiquinha era muito disposta e, durante sua vida,
tocou o sítio que continuou como “feitoria agrícola” cultivando cana e fabricando
rapadura e cachaça. Era uma família amiga, o que, para D. Sérgia, deve ter atenuado a
mágoa da perda do sítio no qual passara a infância e vivera todo o seu primeiro
matrimônio, acompanhando-a ao longo dos seus sessenta anos (1865-1925).
Tenho a impressão que a perda do sítio deve ter sido não muito após o episódio
do prego, por algumas razões. Por um lado o envio de Mundico para a Alemanha e sua
manutenção havia mobilizado, e exigia continuidade, numa extraordinária e vultosa

59
mobilização de capital. Por outro havia também a viagem ao Rio de Janeiro à procura de
recursos para a cegueira de D. Sérgia. Além disso havia também as habituais despesas
para manter a atualização técnica que garantia o epíteto de atualização de que tanto se
orgulhava o Major: as máquinas, instrumentos, cinema, fotografia. E agora às
motocicletas juntavam-se os dispendiosos automóveis.
Com o advento destes o Major desempenhou importante papel no ensino e
formação de muitos chauffeurs na cidade. Ainda no meu tempo de menino era comum
encontrar motoristas de caminhão e de carros de aluguel que declaravam haver
aprendido o ofício com o Major Santídio. Este fato é comprovável quando se lhe associa
o registro de que ele foi o primeiro presidente do Gremio dos Motoristas de Teresina
(1924)60.
Embora Santídio haja sempre estado afastado de pretensões sociais elevadas,
evitado insinuar-se nos meios políticos e nas altas esferas sociais o episódio do prego da
Usina grangeou-lhe alta popularidade. Principalmente no seio do povo, da arraia miúda,
que, por ser temente ao Governo, admira sempre aqueles que têm coragem de contrariar
o poder. Ao longo dos anos vinte ele será muito popular entre a classe média e os mais
humildes e alcançará até mesmo, algum destaque na sociedade da capital.
O caso da Companhia Fluminense de Navegação será, antes de tudo, a
continuação de um empreendimento familiar: dos tempos do velho José “Toma-
Chegada”, pai de Santídio.
Embora não dispondo de muitos informes e a despeito do interesse do tema –
interessante para uma outra pesquisa – atenho-me nesta presente crônica, a apontar
alguns dados colhidos na obra de meu primo Orgmar Marques Monteiro.
O relato do primo Orgmar deixa crer que a “empresa” era uma herança do velho
José Monteiro – o Toma-Chegada – após a morte do qual passará aos filhos Santídio,
que cuidava da parte técnica e mecânica e era administrada pelo Zuca, o filho mais
velho, que era um grande boêmio. Benjamim, o filho caçula, após credenciar-se
comandante de barcos na capitania do porto na Parnaíba (1911 ), juntara-se aos irmãos.
É bem provável que isso seja correto, mas os informes sobre essa fase são muito
imprecisos.

60
Segundo A. Tito Filho – Memorial da Cidade Verde – p. 49.

60
A Capitania do Porto em Teresina só seria instalada em 1919. Somente uma
pesquisa nos arquivos da hoje extinta capitania do porto de Teresina, poderia, talvez,
fornecer alguns dados seguros – quantitativos e qualitativos – sobre o que teria sido a
pomposamente designada Empresa Fluminense de Navegação. É sabido que, no início
do século, ao lado da grande Companhia de Navegação, que detinha o monopólio
subvencionado, o rio Parnaíba foi aberto a pequenas empresas. Naturalmente que estas
não dispunham de navios mas seriam detentoras de lanchas, rebocadores ou barcaças.
Mas estas eram, geralmente, propriedade das grandes firmas exportadoras da Parnaíba.
Parece-me contudo que, se o pequeno empreendimento possuía estas raízes
vindas do velho José Monteiro, ela deve ter sido “socialmente” reformulada em seu
“capital” por volta de, ou logo após 1922 – porquanto aos irmãos Monteiro juntaram-se
primos Oliveira e Souza.
Tenho a impressão que a “Fluminense” dos Monteiro devia constar de lanchas,
talvez algum rebocador e provavelmente botes de travessia entre Teresina-Flores, ou
para aluguel. Para as festas do centenário viera visitar a família o primo João (de
Oliveira e Souza) que havia anos estava radicado na Amazônia, instalado em Belém do
Pará e trabalhando como oficial de bordo nas gaiolas da navegação amazônica. Esse
primo juntou-se aos Monteiro.
João tinha migrado para Manaus onde vivera com sua irmã casada Sophia e se
comprometera na navegação do rio. Desposara em Belém uma filha do Senador Flexa
que após dar-lhe uma filha (Maria de Lourdes) falecera, havendo ele desposado uma
cunhada, por nome Emerenciana, mais conhecida pelo apelido de Santinha. O Coronel
Honoratinho Souza conseguira, em 1922, reunir todos os filhos para as festas do
Centenário. João veio com toda a família a esta altura já com outra filha: Maria Luiza
(Lulinha).
João Souza, para satisfação dos pais e irmãos reunidos em Teresina, resolveu
radicar-se em sua terra natal com a família de paraenses. E entrou na empresa dos
primos tomando o encargo de contador ou “Guarda-Livros” como se designava então.
Segundo o relato de Orgmar a sede da empresa instalou-se em prédio próprio, na beira
rio, entre as ruas São Pedro e Santo Antônio (Olavo Bilac), à esquina, próxima da Casa
Marc Jacob (filial da casa matriz da Parnaíba) aquela que foi o primeiro prédio de dois
pavimentos a ser construído no caís (atual Avenida Maranhão). João Souza passou a

61
residir com sua família no prédio da empresa. Ali nasceram-lhe os outros filhos Otto,
Marita (falecida em criança) e Marilita de cujo parto (1927) viria falecer a segunda
esposa de João.
Em 10 de dezembro de 1929 João Souza casar-se-ia com a prima Edith
Monteiro, filha de Santídio e Sérgia. Eram primos em segundo grau e compadres posto
que Edith era madrinha de batismo do garoto Otto, o seu único filho varão. Eram os
meus queridos tios Edith e João aos quais devo muito amor e carinho, de cuja
convivência e férias passadas em sua casa guardo recordações dentre as melhores de
minha infância e adolescência.
Não sei dizer até quando teria durado esse empreendimento. Mas parece que o
fim não foi dos melhores. Lembro-me bem que tio João me contava que os seus
“queridos primos”, inclusive Bela – além do primo, também cunhado – o haviam
“passado para traz”, o marcando com um enorme prejuízo. Este era um dos segredos de
família que, entre uma cachacinha com limão, ou outro aperitivo, ele deixava escapar.
In-vino-venitas. Podia ser um pouco mania de perseguição, mal do que meu tio João
Souza parecia atacado. Em parte a mágoa seria ampliada, acentuando as cores de um
insucesso talvez mais pela sensação de perda e nostalgia da vida deixada no rio
Amazonas entre Belém e Manaus. Tio João foi sempre um incurável apaixonado pela
Amazônia, cuja memória preservava em suas repetidas estórias e casos pitorescos e
realimentava em visitas que, felizmente, pode realizar com a terceira esposa e filho
primogênito – João Paulo – a sua querida Belém.
Em todo caso é muito provável que a grande cheia de 1924 tenha tido alguma
parte de responsabilidade no insucesso do empreendimento. As grandes cheias de 1924
e 1926 parecem representar um significativo marco no declínio da navegação a vapor no
rio Parnaíba.
Outro empreendimento do início dos anos vinte, no qual se envolveria o Major
Santídio Monteiro seria aquele da instalação dos “bondes” na capital. Nesta aventura
Santídio esteve associado a seu grande amigo de infância José Faustino (dos Santos
Silva).
A carreira Militar no Exército Nacional trouxera de volta ao Piauí (1921) o seu
ilustre filho, agora Capitão, casado e com um casal de filhos, para uma temporada
durante a qual sua competência de engenheiro militar realizou várias edificações que

62
marcaram a capital do Piauí e das quais, a maioria ainda hoje pode ser admirada. A
entrada dos anos vinte a presença do Exército Nacional, até então insignificante, já
propiciara que aquela modesta “Companhia” de Caçadores instalada em 1909 chegasse
a uma ampliação que merecera a instalação do 25º Batalhão de Caçadores, da arma de
infantaria. Fortaleza detinha o 23º e São Luis o 24º.
Um dos encargos de José Faustino foi a construção do complexo arquitetônico
para a instalação do batalhão, que é a base do que, de modo ampliado e reformado, está
de pé ainda hoje.
Também o conjunto da “gare” e armazéns da estação da Estrada de Ferro Central
do Piauí é obra sua. Igualmente dele são os edifícios dos dois grandes colégios
religiosos da cidade de Teresina: o Colégio Diocesano, à Praça de N.S. das Dores (Praça
Saraiva) e o Colégio Sagrado Coração de Jesus, das irmãs Catarinas na Avenida Frei
Serafim. Pontilhões, viadutos e aterros, espalhados pela rede viária da cidade, foram
também projetados e construídos por ele.
Igualmente uma residência em estilo neo-clássico, edificada na Avenida Frei
Serafim, à esquina da rua Des. Pires de Castro61, inicialmente residência do próprio José
Faustino (e posteriormente pelo Dr. João Pinheiro e Dr. Creso Oliveira) está entre as
suas realizações arquitetônicas.
No início dessa temporada José Faustino instalou-se com a família não longe do
seu Barrocão, próximo a casa de Santídio Monteiro. Enquanto a deste era na esquina de
Santo Antonio (Olavo Bilac) com a David Caldas, a de José Faustino era na mesma rua,
a esquina da 13 de maio, ou seja, mais próxima ao largo das Dores (Praça Saraiva).
Uma das lembranças que me ficaram da meninice era aquela da existência de um
considerável trecho de trilhos que, iniciado próximo ao rio Parnaíba a altura da ponte de
ferro, ganhava a direção do quartel. Imaginara eu que era uma antecipação da ferrovia
que naquele tempo ainda parava na estação da Vila das Flores, na margem maranhense.
Mas me explicaram que aqueles velhos trilhos eram do serviço de “bonde”, um serviço
urbano que, tal como o “telefone” já existira em Teresina e desaparecera. Dizia-se,

61
Orgmar Monteiro, no 4º volume da “Teresina Descalça” (p. 309) ao comentar a contribuição
arquitetônica de José Faustino à sua cidade natal, sugere o tombamento desse prédio residencial, uma
espécie de Casa de José Faustino já que ele a construiu para sua residência. A carreira o levaria a
edificar também outros quartéis como aquele do São Luis. Depois dessa longa temporada vivida em sua
terra e no Maranhão, nos anos 20 e 30, José Faustino continuaria sua carreira no Rio de Janeiro onde
viveu o resto de sua vida.

63
então, que nossa Teresina era a “terra do já teve”. Sabia que os telefones haviam sido
implantados pela iniciativa do Cel. Joca Broxado, mas só muito depois vim a saber da
participação do meu avô Santídio na existência do “bonde”.
O projeto desse serviço urbano era muito astucioso, conciliando, com grande
habilidade, as obras de engenharia – arquitetura e ferrovia – do Capitão José Faustino e
a reconhecida competência mecânica de Santídio, no planejamento do sistema do
bonde. José Faustino, que dispunha assim de trilhos e mão-de-obra, reuniu-se ao amigo
de infância Santídio e, juntos, elaboraram o astucioso plano. Não se tratava de um
arcaico bonde puxado a burros, embora não fosse um bonde elétrico. O veículo
planejado era projetado como os bondes elétricos mas seria impulsionado a percorrer os
trilhos por um motor de caminhão.
O eixo principal da linha seria perpendicular ao rio, percorrendo a cidade até o
quartel e estação. Preliminarmente devia ligar a ponta de trilhos onde estava sendo
construída a ponte de ferro sobre o Parnaíba. Daí seguia até o alto do platô, a leste, onde
– em locais próximos – estavam sendo construídas a estação ferroviária e o quartel. Esta
proximidade fora deliberadamente escolhida como estratégia para que o Capitão José
Faustino, pudesse acompanhar o andamento das duas obras ao mesmo tempo. O espaço
da estação estava livre mas para a construção do quartel teve que ser deslocado o antigo
matadouro ali mantido por um fazendeiro que se fizera marchante e se chamava João
Cabral62, transferido para o outro lado do Poti onde, futuramente, seria erigido o
Sanatório Meduna.
A linha do bonde na cidade tinha o trajeto que, guiado pela minuciosa descrição
de Orgmar Monteiro63, permitiu a elaboração do esboço ao lado.
O projeto foi apresentado pelos autores ao então intendente municipal Dr.
Anfrisio Lobão Veras (02.01.1925 a 02.01. 1929)64.

62
Que não deve ser confundido com o desembargador João da Rocha Cabral que deu nome a uma das
ruas paralelas ao rio Parnaíba, aquela em cuja esquina está o prédio da Imprensa Oficial (Velha), à
Praça Marechal Deodoro.
63
Orgmar Monteiro. Op. cit. 4º Vol. P. 302-304.
64
Orgmar menciona o Dr. Anfrisio como intendente municipal mas dá o serviço de bonde inaugurado em
1923 (01 de janeiro). Acontece que por essa época o Intendente Municipal era Manoel da Paz Filho em
plena crise de abastecimento e política adversária querendo afastá-lo do cargo. Tudo indica que tinha
sido 1925, 2 anos após o rumoroso caso do “Prego da Usina”.

64
Estação da Estrada de Ferro.
Projeto e Construção do Capitão JOSÉ FASUTINO

O BONDE DE TERESINA (1924-1929)


O itinerário entre a beira do Rio Parnaíba e a Estação Ferroviária, pelo eixo da Rua
Grande e Avenida Frei Serafim (Ida e Volta)

65
O plano era muito conveniente aos cofres municipais. A municipalidade seria a
proprietária do empreendimento, mas se beneficiaria da dispensa das despesas com a
linha férrea e à sua supervisão técnica já que ela advinha como um arranjo do
engenheiro José Faustino. A prefeitura arcaria com as despesas de construção do
veículo incluindo o motor de caminhão. Havia previsão de que as despesas de
combustível e manutenção adviriam do pagamento das passagens. Estimava-se o projeto
auto-sustentável.
O projeto foi aceito e levado a cabo. O “bonde” era um veículo a modo dos
bondes elétricos, deles sendo copiados os bancos, estribos, balaustres, etc. A estrutura
básica era uru vigoroso chassi montado sobre quatro rodas de “trolley” para assentá-lo
sobre os trilhos. O madeirame era local e a parte de metais foi adquirida em São Luis,
tendo, nessa parte, a colaboração do engenheiro americano-canadense da Companhia de
Força e Luz da Capital Maranhense.
Segundo testemunhos da época o motor de caminhão – equipado com amplo
silenciador para evitar o ruído das explosões que condicionavam o impulso ferro-carril –
era notavelmente mais silencioso do que os bondes elétricos das maiores cidades
brasileiras.
A novidade contou com a aprovação dos populares que a ele acorria
principalmente na parte da manhã quando o movimento dos colegiais era grande. Os
trabalhadores se interessaram mas havia dois obstáculos: o preço da passagem – que era
de 200 réis para adultos e 100 para crianças – e boa parte também pelo preconceito
“quanto a simplicidade das vestimentas dos obreiros e gente mais simples”. Logo
contornou-se o problema com a criação de um “reboque” ou seja uma espécie de vagão
de 2ª classe onde se pagava igual as crianças (100 réis).
No vagão principal exigia-se “traje completo” para os “cavalheiros” enquanto no
reboque, os operários poderiam estar a vontade em seus trajes de trabalho.
A julgar pelo depoimento de Orgmar, a época da inauguração um garoto de oito
anos (1917-1925), o grande movimento acontecia aos domingos, nos passeios familiares
e sobretudo pelo afluxo de crianças que não se incomodavam em se apertar no bonde ou
até no reboque que, para eles, tinha o mesmo preço e era mais divertido.
O “bonde” seria, assim, mais uma característica da capital piauiense nos anos
vinte. O sucesso inicial foi declinado lentamente, quando a limpeza inicial, que era

66
louvada, foi dando lugar a sujeira e a manutenção do motor foi decaindo com o
desgaste. Em 1929 a volta de Jose Faustino ao Rio de Janeiro fez entrar em crise o
sistema. Durante a sucessão de prefeitos no governo provisório da revolução de 1930 o
serviço foi desativado. Ficaram os trilhos por muitos anos ainda, marcando a lembrança
do pitoresco “bonde” da cidade.
Dentre os acontecimentos familiares do Major Santídio e sua esposa D. Sérgia,
além da viagem de Mundico para a Alemanha – o que será examinado mais adiante –
registrou-se também aquele do casamento de Mariquinha, a segunda filha do primeiro
casamento de D. Sérgia que a ela retornara por saudade e falta de adaptação ao frio do
Sudeste. No volume anterior relatei como o meu avô Santídio se afeiçoara e adotara
como auxiliar de confiança o Pombo (alcunha de José Belizário da Cunha) e do
romance que nascera entre o rapaz e D. Mariquinha. A ingênua carta do pedido de
casamento dirigida à D. Sérgia, acabara por ter o consentimento da mãe e oficializou-se
o noivado. Mas do noivado (1916) ao casamento produziu-se uma “novela” em vários
capítulos e lances caprichosos. A moça tinha um temperamento que não ficava muito
distante daquele da mãe. A teimosia aliada aos ciúmes foram entremeando o noivado de
arrufos, o que foi protelando o casório.
Provavelmente após a morte da sobrinha – filha da irmã Júlia e do Tenente
Antonio Marques – Mariquinha partira para o Rio de Janeiro, levando Edith, a passeio e
João Paulo para estudar na Capital. João Paulo, por desadaptação, falta de entusiasmo
para os estudos ou alguma paixão, acabou retornando a casa dos pais. Mariquinha ficou
no Rio.
Nesse entretempo Pombo casou-se e perdeu a esposa, de parto. O rapaz não
demorou muito e casou-se uma segunda vez. Embora não tenha ficado lembrança dos
nomes das primeiras esposas essa segunda tinha como nome de família aquele de Lira, o
que ficou registrado por uma jóia, um broche em formato de lira com que ele presenteou
a esposa e que ficou entre as jóias da família Belisário da Cunha.
Por um estranho capricho do destino a segunda mulher teve o exato destino da
sua antecessora. A essa altura, D. Mariquinha resolveu voltar do Rio e o noivado foi
reatado. Lembro-me que tio Pombo costumava provocar a tia Mariquinha dizendo: “Ela
veio correndo para não perder a terceira oportunidade”. Ao que ela retrucava. “Não seja

67
pretensioso. Voltei porque já se haviam passado quase quatro anos e eu nunca me
adaptei ao Sul. E assim dei esse mau passo, pra me trazer amolações...”.
É difícil precisar as datas mas entre 18 e 21 há espaço para encaixar esses “quase
quatro anos” nesse período. O que é certíssimo é que o casamento foi celebrado na
Igreja das Dores e registrado no cartório no dia 18 de abril de 1922, bem antes dos
festejos do centenário, mas naquele exato ano. Perante o juiz Justino Augusto da Silva
Moura, as testemunhas foram o Coronel Antonio Leôncio Burlamaqui Ferraz – o
marido da grande amiga da noiva, D. Elmira Ferraz – e o Major Santídio da Silva
Monteiro, padrasto da noiva e protetor do noivo65.
Em janeiro de 1924, num parto dificílimo, quase repetindo a funesta série de
esposas mortas de Pombo, entre forceps e luta dos médicos nasceu a primeira filha que
recebeu o nome de Maria José. No ano seguinte nasceria Paulo Francisco, último filho
do casal. Não sei dizer se a família morou em outra casa mas não demorou para que se
instalasse na casa da Estrada Nova, não muito distante do grande grotão que
desembocava, na Barrinha, no rio Parnaíba e cujo curso superior da ravina dera o nome
a rua (e bairro) do Barrocão. A casa, de calçada bem alta para a rua principal, ficava
numa esquina antes daquela que era a casa de D. Inhá Veras (Pearce). A segunda
residência do Major Santídio.
Com o casamento, José Belisário passou a condição de fazendeiro, cuidando da
parte de terras e gado que coube a D. Mariquinha e que seria centrada na famosa
fazenda O Bonito, no município de Alto Longá. E ele foi um bom administrador, não só
mantendo a acervo mas o aumentando, inclusive por compra das terras e gados das
outras herdeiras, ou seja, as irmãs que se radicaram no Rio de Janeiro.
Júlia e Otilia dirão depois, que se viram forçadas a vender suas partes, ante
dificuldades levantadas pelo cunhado. Mas não é difícil admitir-se que além de terras –
que eram vastas – havia o gadame e que para um fazendeiro residindo na capital,
embora atuante na sua fazenda, não era cômodo cuidar de gado e contabilizar lucros e
despesas em quatro partes diferentes. Judith, que sempre foi mais econômica e
conservadora, insistiu em conservar o seu quinhão, e a isto, o cunhado não se negou em

65
Registro no Livro de Casamento nº 10, assentamento nº 73. Segundo certidão exarada pelo Cartório
Dora Martins Vieira, oficial do Registro Civil, Zona Sul, de Teresina. É interessante notar que a relação
entre as idades dos nubentes revela-se verdadeira para o noivo (36 anos) e diminuída em 5 (cinco anos)
para a noiva (34 anos em vez de 39).

68
administrar a sua parte – que era a fazenda Bandarra – remetendo-lhe, anualmente, a
renda obtida.
A viagem ao Rio de Janeiro foi outro acontecimento importante o qual não posso
precisar a data, mas, muito provavelmente ocorrido entre 1924 e 1925. Com ida e volta
de navio, chegada até o porto marítimo (São Luis?) e a duração na capital federal não
pode ter sido rápida, mas deve ter durado de três a cinco meses.
Ainda hoje ponho-me a questão do que teria sido esta viagem e a atmosfera
psicológica de que se teria revestido. Passados embora já um quarto de século (1898-
1924) a oposição radical feita pelos irmãos, o trauma produzido nas filhas rejeitadas, era
um conjunto de circunstâncias de muito peso emocional. Mas, da parte do irmão
Antonio Martins e das filhas parece que os laços de sangue falaram mais alto. Antonio
Martins, afinal, no apogeu de sua vida, já vivendo na n1ansão da rua Gomes Carneiro
em Ipanema, não deve ter custado muito receber “o cabra” que lhe fora imposto por
aquela voluntariosa e desmiolada irmã, no momento em que ela se via condenada a
cegueira.
Antonio Martins que cuidava das sobrinhas Judith e Otilia, acolhera em sua casa
Júlia, que além da perda da filha Myrtes, perdera prematuramente o marido, falecido e
sepultado em Fortaleza. Vivia ela, sob a proteção do tio com os seus filhos Osmar e
Arabelia. Judith, sempre muito séria e reservada, estudara e se formara professora
normalista, trabalhando na rede escolar do antigo Distrito Federal. Julinha, depois de
viúva, aproveitara o apoio do tio e estudara também, tornando-se como Judith, também
professora primária do Rio de Janeiro. Osmar estudava no Colégio Militar e Arabelia
era menina-moça freqüentando colégio.
Acho que Chiquinha, filha de Adelia e José já havia casado com o militar Acyr
da Nobrega. Não sei se sua mãe Adelia, a filha mais velha de D. Sérgia, passara a morar
com a filha depois do casamento desta ou se permanecera em companhia do tio (e
cunhado) Antonio Martins. Em qualquer caso ela teria que enfrentar o problema da
deficiência ou perturbação mental do filho Joaquim, até que a família se decidisse pela
sua internação no Juqueri em São Paulo, onde faleceria adulto.
A única das moças que não quis tornar-se professora e permanecia desfrutando
frivolamente a acolhida e proteção do tio Antonio Martins era Ottilia, a caçula. Será ela,
bem mais tarde, a minha melhor informante sobre a “doce vida” que levara naqueles

69
bons tempos dos anos vinte, com muitas festas, muitas amigas, na novíssima Ipanema
dos anos loucos. Será ela que irá contar-me a animação da casa de Comes Carneiro, os
freqüentadores do Piauí e da Capital, as festas que o tio dava. E o esplendor das festas
do centenário as quais tinha comparecido. A magnificência dos bailes no Itamarati, a
recepção a que fora no vaso de guerra HMS Hood, molhado na baía de Guanabara. A
beleza da Grande Exposição do Centenário armada no desmonte do Morro do Castelo. E
os carnavais daqueles anos loucos com os automóveis decapotávis, excelentes para o
corso na Avenida Rio Branco, para o que o tio contratava carros de praça para os três
dias da festa popular, de fartura de lança perfume, confete e serpentina.
Enquanto isso Judith trabalhava e economizava. Teve o cuidado de adquirir, por
meio de módicas prestações, um terreno na restinga entre a praia do Ipanema e a Lagoa
Rodrigo de Freitas que seria o nº 12 da rua Barão de Jaguaripe, onde edificará (no início
dos anos quarenta) a sua casa. De todas as filhas seria aquela que – malgrado o trauma
de rejeição – guardou uma forte ligação sentimental com a mãe, com quem, fisicamente,
era a mais parecida das filhas. E para essa ida da mãe ao Rio, ela contribuiu, custeando
parte das despesas. Não sei se foram as despesas médicas ou a passagem mas o certo é
que ela deu sua contribuição.
Isto vem demonstrar que a situação financeira de Santídio Monteiro já se
encontrava abalada. A venda do Sítio de Santo Antonio, no Berlengas – uma posse tão
preciosa, pelo valor dos muitos atributos da terra, acrescida do valor estimativo – deve
ter sido um abalo para D. Sérgia. O seu consentimento em vendê-lo deve ter-se prendido
a motivações muito fortes. A pouco e pouco a dilapidação dos bens em terras e gados já
vinha ocorrendo, tanto mais que Santídio se dera ao luxo de manter duas casas. Não só a
ida de Mundico para a Alemanha havia mobilizado numerário alto como – o que era
pior – sua manutenção por lá estava sendo mais dispendiosa do que fora imaginado. O
rapaz não tinha meias medidas e as cartas chegavam sempre com reiterados pedidos de
remessa de dinheiro. Era um verdadeiro saco sem fundos. Mas não era difícil de
entender nem tampouco de se espantar, conhecendo-se o rapaz.

2.2. Perfil do Jovem Mundico


Raimundo, o terceiro filho do Major Santídio com D. Sérgia – (e o oitavo desta)
nascido por um complicado parto – perigo pelo qual D. Sérgia recorrera a São

70
Raimundo Nonato dando ao filho o nome do Santo – as 21,30 horas do dia 03 de junho
de 1903.
Muito peralta desde pequeno, fora o filho favorito, tanto do pai quanto da mãe.
Na adolescência tornara-se um rapazinho bonito. Se não possuía o porte elevado de
alguns dos primos, filhos do tio Cincinato, era muito bem proporcionado no seu 1,68 de
altura. Graças à prática do remo e canoagem, no rio Parnaíba, adquirira razoáveis
biceps. Era corado (como um alemão!) e, sobretudo possuía um nariz perfeito separando
uns expressivos olhos castanhos claro, quase cor de âmbar, dotando-lhe de um olhar
muito incisivo e penetrante. De cabelos castanhos claro, muito finos e revoltos, estes
durariam pouco. Por volta dos 25 anos já os tinha bem ralos e seria precocemente
careca. Como possuía um crânio ovalado, longe da cabeça chata que afetara o irmão
mais velho – João Paulo – a calva avermelhada não lhe ficaria mal.

RETRATO DO MUNDICO
Raimundo Leão Monteiro, aos 19 anos (1922)

71
72
..........................................................
..........................................................
Ao longo, um panorama se descerra
Sob o límpido céu, ao sol radiante:
Entre os rios, as árvores, a serra,
Branqueja a casaria de Amarante
.........................................................
“Sob outros céus – DA COSTA E SILVA

Da criança levada da breca passara a ser um mau-estudante. Inteligente e vivo


mas dispersivo e sem afinco nos estudos. Confiava em sua vivacidade para assimilar as
coisas e não se dava ao trabalho de debruçar-se sobre os livros. Completara os seus
preparativos ajudado pelo “salvador” decreto da “Gripe Espanhola” (1919). Aos 16 anos
era o orgulho do pai pela sua esperteza e habilidade mecânica. Isso agradava Santídio
que via que o filho “puxara para ele”. Apesar de não muito aficcionado junto aos livros,
esperava torná-lo o “engenheiro” que ele próprio não pudera ser. E desde a instalação da
Usina, nos seus contactos com os engenheiros mecânicos e eletricistas alemães,
alimentava a idéia de mandar o filho formar-se engenheiro mecânico naquele país que
admirava tanto.
Do final dos estudos preparatórios até sua ida para a Alemanha,
aproximadamente entre os seus quinze e dezenove anos ele teve tempo para as maiores

73
estripulias de rapaz Estas foram tantas e tão famosas que se torna difícil estabelecer um
levantamento completo. É até bem possível mesmo que o início da fama dos ‘Leões” –
incluindo-se os rapazes de tio Cincinato, repouse, em boa parte, em suas proezas.
Seu raio de atuação era entre Teresina e o Amarante, incluindo Regeneração
(que sempre foi uma espécie de apêndice do Amarante), e passando pelo circuito das
fazendas da família, do Berlengas ao Parnaíba. Este território foi o teatro de suas
façanhas, muitas das quais lembradas e. narradas ainda hoje pelos anciões. Não será
exagero admitir o rapaz como uma espécie de Pedro Malazarte ou Till Oilenspiegel das
chapadas do Piauí. Ele tornar-se-ia uma lenda viva. E isso o divertia imensamente.
Quando o inevitável exagero e o retoque a que estão sujeitas as estórias que, de boca em
boca se repetem, as tornava falsas ou inverossímeis, ele não fazia nada para restabelecer
a exatidão dos fatos ou escoima-los da carga de fantasia. Pelo contrário, ele acolhia as
novas versões com gargalhadas. Ele verdadeiramente era um “assumido” na sua
condição de arteiro, produtor de “malasartes”.
Para que se tenha uma idéia basta lembrar que, nos idos de 1944, quando minha
prima Vilma66 foi passar as férias escolares em casa de uma colega (Maria do Rosário)
da família Nunes na então pequeníssima Regeneração, algumas pessoas foram conhecê-
la e visitar porque souberam que chegara à cidade uma sobrinha do famoso Mundico
Leão. E perguntavam notícias dele, se ainda era o mesmo maluco ou se já “assentara o
juízo”. Isso significa que mais de vinte anos após, ainda não se havia apagado da
memória local as peraltices aprontadas pelo jovem Mundico.
O repertório de casos e “estórias” é imenso. A repetição deles em família faria
ficar na memória pelo menos algumas dos mais célebres. Durante minha pesquisa em
1990, anotei, em conversa com familiares, algumas outras esquecidas ou mesmo
ignoradas. E até de amigos contemporâneos, e mesmo testemunhas oculares dos
acontecidos.
Antes das peraltices maiores devo principiar por aquelas “de casa”, no seio da
família. Já vimos que na infância Mundico ia aos tapas com João Paulo, o irmão mais
velho, e tinha como principal distração atormentar a irmã Edith, quebrando-lhe as
bonecas, e outras provocações. Agora rapazinho deixara isso de lado. Edith vivia

66
A então garota de 12 anos Vilma de Figueiredo Rêgo – filha primogênita de minha tia Gersila, irmã
caçula de minha mãe, e João Teixeira Rêgo – tornar-se-ia a Senhora Engenheiro José Cesar Lobo, de
São Paulo.

74
rodeada da prima Anisia e das afilhadas ou filhas de coronéis do interior que vinham
para a casa da Rua de Santo Antonio para estudar, ou a tratamento médico. Isso dava
maior animação a casa, dominada pelos três filhos homens e uma só filha. Rapazes e
moças, reuniam amigos e assim a casa era uma agitação só.
Quando estava de boa veia Mundico sabia fazer-se gentil e acompanhava a irmã
e demais moças às festas, para o que elas contavam principalmente com a companhia de
João Paulo, mais acomodado, mais cavalheiro. Mundico ficava para “substituto”, isso
quando as moças estavam mais aliviadas das muitas peças que Mundico lhes pregava.
Seu divertimento favorito era amedrontar as garotas, principalmente aquelas que
temiam as “almas do outro mundo”. Uma vítima especial era a menina Lidia, afilhada
do Major Santídio, filha do Compadre Moraes, morador no Cantinho que se pelava de
medo de almas. Para ela Mundico preparava, com recursos de lençóis brancos, cabaças
recortadas e velas, as maiores fantasmagorias para assustá-la.
Mas a desenvoltura e irreverência do Mundico o tornara – malgrado esse lado
negativo – o advogado das causas difíceis e solucionador de problemas que as vezes
afligiam os irmãos e agregados de casa. Como filho favorito ele tinha mais facilidade
em convencer tanto a mãe quanto o pai, obtendo deles vantagens para si próprio e para
os irmãos quando lhe era conveniente. Não era raro que o advogado exigisse
“pagamentos” ou recompensas.
Era Mundico que tinha um geito especial para enfrentar as figuras mais difíceis
do clã, inclusive a avo Vicência que era temida por todos. Em relação a ela houve a
engraçada estória do “salvamento” da prima Anisia para brincar um Carnaval.
Num desses do início dos anos vinte, Edith e Anisia estavam arrumadas para
brincar o carnaval e já haviam preparado as fantasias e disfarces para os bailes e para o
“corso”. No sábado de manhã ocorreu a Anis ia que ela deveria ir à Vila das Flores
“pedir a bênção” à avó Vicência. Edith e os irmãos a desaconselharam vivamente mas
Anisia insistiu em que seria melhor ir antes do que durante os dias de carnaval. A avó
mudara-se, há tempo, para o outro lado do rio para ficar mais próxima da filha Lydia
que morava no Sítio Água Limpa, do lado Maranhense. E para tanto se instalara numa
casa, afastada do centro ria Vila e mais próxima ao cais. Ali era mais conveniente
receber a “Comitiva” – cavalos e burros de carga – da filha quando esta necessitasse vir
à Teresina, bem como receber os filhos moradores da capital. Numa casa ampla, de

75
vasto quintal, inclusive com espaço para acolher a comitiva a velha matriarca se
instalara. Como o filho mais velho – o Zuca – era um boêmio que nem sempre dormia
em casa, fora morar com a mãe o filho caçula – o Beja – cuja esposa era sobrinha de
Vicência, filha de sua irmã Maria José (Mariquinha) e Honorato. Sendo sobrinha era
mais fácil entender-se com a “sogra” que antes disso, já era “tia”.
Ao chegar a casa da avó, esta saudou Anisia com grande efusão, louvando-lhe o
caráter e o comportamento. “Muito bem minha neta. Você será recompensada por sua
virtude. Dizem que no céu há uma palma especial para recompensar as moças que em
vida, não brincaram carnaval, festa do demônio. Você está assegurando a sua palma,
minha filha”. Anisia ficou lívida e confusa. De nada adiantaram os seus protestos e
alegações de que havia prometido aos tios acompanhar a prima Edith aos bailes.
Desesperada e aflita, Anisia aproveitou-se de uma sesta da avó, redigiu um
bilhete ao Mundico e foi, sorrateiramente, entregá-lo ao barqueiro da travessia entre
Flores e Teresina, pagando-lhe para fazer, algum moleque desocupado, chegar aquele
bilhete à casa do Major Santídio. Edith recebeu o bilhete, viu que sua apreensão era
fundada e entregou-o ao irmão, pedindo-lhe que socorresse a prima. Mundico dirige-se
ao pai: Major, arranje algum agrado para mandar para sua mãe, nas Flores, pois há um
portador para lá. – Quem é que vai lá? Pergunta o pai. Sou eu mesmo. Tenho que ir
enfrentar a velha que prendeu com ela a Anisia para que ela não venha brincar o
carnaval. As fantasias já estão prontas e Edith não pode ficar sem companhia da prima
para as festas – “Preciso salvar aquela doida das garras de Nhá Vicência”. Só mesmo
Mundico tinha peito para resolver aquela difícil missão. E logo mais Anisia chegava,
ressabiada, debaixo da vaia dos primos e amigos reunidos para cair nos festejos. O
Carnaval de Anisia fora salvo.
Mundico vivia – com os irmãos e primos – rodeados de amigos. A eles eram
franqueadas as bicicletas, motos, e posteriormente, os passeios de automóvel. Sempre
tinha companheiros que, embora não o acompanhassem nos lances mais ousados,
testemunhavam as artes e as vezes ajudavam-no a safar-se. Não era rapaz de namoricos
decentes com as filhas da família. Suas pretensões eram diretas e as abordagens visavam
a cama. Seus domínios, além das mocinhas incautas do subúrbio (e das fazendas) eram
as casas de mulheres-da-vida e as “pensões”. Ali se produziram muitas farras
memoráveis, seguidas de quebra-quebra, na zona do meretrício, à beira do rio.

76
Dessas “pensões” que atravessaram os anos e chegaram até os meus dias de
Teresina, já havia aquela ria famosa Rosa Banco. Segundo alguns era uma dona de
pensão que aportara a Teresina, vinda de Manaus após a derrocada da borracha. A
alcunha de “Banco” era por que era mulher de economias e poupanças, agiotando
empréstimos complementarmente a sua atividade de cafetina.
Houve um quebra dos diabos noite passada na zona. Quem foi? – O Mundico
Leão. Quem? O Mundico do Major Santídio. Ali principiava a legenda do jovem que de
Mundico Leão, passaria progressiva e posteriormente a ser designado como Mundico
Santídio.
Se na capital se dava notoriedade às proezas do Mundico, o domínio rural das
fazendas, do Berlengas para o Parnaíba, era um domínio amplo e de população não só
rarefeita mas servil onde as notícias se diluíam. Mesmo assim, corriam não só lendas
mas notícias de muita paternidade reconhecida mas não assumida. Ao longo de sua vida
ele gabava-se em dizer que havia sempre, algum menino ou menina estendendo-lhe a
mãozinha, pedindo-lhe: “A benção, meu pai!” Houvesse níqueis para ele pingar-lhe às
mãos. Se reunisse todos, ficaria na miséria, dizia ele.
A maior repercussão era nas cidades pequenas. E o Amarante foi aquela que
respondeu pelo noticiário mais amplo na construção dessa legenda. O porto do
Amarante, como já se viu, era um lugar ancestral pois que acabou por capturar de
Valença a atração religiosa e comercial exercida sobre o Sítio da Fazenda Santo
Antonio do Berlengas. Ali vivera o primeiro marido de D. Sérgia. Ali batizaram-se suas
filhas do primeiro consórcio. Ali ela tivera sua casa “da cidade”. A transferência para
Teresina não eliminou os laços de relações e amizade, que foram encampadas pelo
Major Santídio. Uma das famílias amigas era exatamente aquela do médico Dr.
Francisco Aires, que compraria o Sítio de Santo Antonio. Os Aires acolhiam os filhos
de Santídio e respectivamente os rapazes Aires eram bem recebidos na casa de Santídio.
D. Chiquinha, embora uma matriarca muito respeitada, achava graça especial nas
loucuras do Mundico e não raro o recebia para passar temporadas de férias na casa do
Amarante. Uma das melhores e mais hospitaleiras da cidade portuária, belamente
enfeitada pela Serra de São Francisco, com seus taboleiros dispostos ao longo da
margem maranhense.

77
Eu ouviria, mais tarde, alguns desses casos do Amarante, narrados por uma filha
da terra, sobrinha de Monsenhor Aristeu Rêgo – D. Duquesa Franco, que veio morar,
nos anos quarenta, na esquina da Rua da Glória, próxima à nossa casa. Elas foram
confirmadas, na minha visita em 1990 pelo filho do Dr. Aires, o farmacêutico Antonio
já octogenário. Embora sendo uns oito anos mais moço que Mundico, ouvira contar uns
e mesmo testemunhara outros dos seus famosos casos, que contarei a seguir.
Como qualquer porto a cidade do Amarante, um dos principais centros agrícolas
e comerciais do rio Parnaíba, apresentava, em sua periferia, principalmente próxima do
cais de atracação de vapores, barcos, catraias e botes, o lote de mulheres-da-vida, ou
“raparigas”. Tanto pela pobreza dos habitantes da zona rural quanto pelos preconceitos
norteadores do conceito de “honra” feminina, a fome ou os impulsos sexuais mais
ousados das pobres meninas, acabava as conduzindo à prostituição e, fatalmente, ao
porto, onde passam os embarcadiços (“porcos d’água” no jargão pejorativo), clientela
renovável e sempre ávida de prazeres.
“Raparigueiro” como era, Mundico, teria um plantel a sua disposição. Durante o
dia procurava manter uma conduta familiar, condizente com a classe e fidalgura dos
hospedeiros. Juntava-se aos rapazes e moças “de família”. Mas quando caia a noite e se
acendiam os lampiões e lamparinas, Mundico se soltava rumo ao mulherio. E conseguia
ali – seja como rapaz da capital, seja pelos seus atributos pessoais – exercer um fascínio
dominador sobre aquelas coitadas mulheres da beira do rio. Conta-se que uma noite ele
se fez conduzir, pelado, sobre uma folha de porta, improvisado em “andor” de
procissão, pelas mulheres do cais. Talvez a mais famosa arte que ele praticou com as
raparigas foi numa famosa noite de lua cheia quando ele arrebanhou um punhado delas
e, depois de muita bebida, foi realizar um “banho” nas águas do belo riacho Mulato. No
auge do banho, com as mulheres todas ensaboadas (e bêbadas) ocorreu a Mundico que
seria ótimo que o grupo fosse enxaguar-se nas águas do rio Canindé, muito mais fartas
do que aquela humilde corrente.
O sítio urbano do Amarante, a beira do rio Parnaíba é emoldurado por outros
dois veios d’água: o Canindé, um dos principais afluentes daquele rio que nele
desemboca a jusante e o riacho do Mulato, um afluente direto a montante. Encaixado
num bem marcado “barranco”, o rio Parnaíba oferece à cidade para ter como sítio o

78
primeiro terraço aluvial a cavalheiro das águas. Naquela época ela deveria estar contida
nele, como se pode notar pela estrutura atual da cidade.
Deste modo, o grupo de banhistas, ou melhor, o seu condutor, para evitar o
barranco e a lama da beira rio, resolveu que para ir do Mulato ao Canindé, o melhor
meio era atravessar a cidade, àquela hora tardia supostamente mergulhada em sono.
Mas, no silêncio da noite o alarido do alegre bando denunciou o cortejo. Muitas janelas
foram entre abertas e na manhã seguinte a cidade, em polvorosa, comentava – com
pormenores picantes – o estranho desfile de raparigas peladas, ensaboadas e bêbadas
atravessando calmamente as ruas desertas do Amarante conduzidas pelo “rapaz de
Teresina” que igualmente pelado e com uma vara verde tangia – como se fora um
rebanho de vacas – e aboiando, como experiente vaqueiro, à inusitada assembléia.
A bondosa D. Chiquinha no dia seguinte, fingindo-se séria, conclamava o
hóspede a tomar juízo. – “Mundico, você é doido mesmo. Vir da capital fazer escândalo
no Amarante! Aqui é um lugar pequeno, tudo se vê e tudo se sabe”. – Mundico, de
ressaca, dizia unicamente “Não fui eu não D. Chiquinha. Só se foi outro. Não sei de
banho nenhum”. Mas aquele seria um “banho de lua” que foi comentado por muito
tempo.
Dr. Antonio, lembrou-se desse e de outros casos. Num deles Mundico, numas
férias de junho acercou-se, como que muito interessado, fazendo perguntas aos
participantes de uma folia do Boi, que atravessava a cidade, em meio de fogos e busca-
pés. Quem é esse? – Essa é a Catarina. – E esse? – Esse é o Chico que iria “tirar a
língua” do boi. E esse? – Esse é o Vaqueiro. E isso aqui? Isso é a chibata do vaqueiro
tanger o boi. – Pois é esse mesmo que eu quero! ajuntou Mundico. E brandindo a
chibata desandou a soltar golpes a torto e a direito, dispersando os espantados foliões.
Dr. Antonio também lembrou-se que Mundico juntava as raparigas à beira do Parnaíba,
entre o canal e a “coroa” que se formava na seca e promovia, entre elas, um concurso de
“fôlego” transformando-as em mergulhadoras. Queria ver qual delas tinha o maior
fôlego. Na beira do rio, dispunha as competidoras, a nado, no canal e dava o sinal para o
mergulho. Com um talo de buriti numa das mãos e um revólver na outra ameaçava
aquelas de fôlego mais curto a manter-se sob a água. Quando nadavam para a margem e
ameaçavam sair ele as fustigava com o talo de buriti na cabeça ou dava tiros para o ar.

79
E por aí seguiria o rosário desses eventos insensatos que divertiam uns e
chocavam outros naquele Amarante à entrada dos anos vinte.
O repertório de Regeneração não difere muito, é mais ou menos no mesmo
gênero. Vale registrar outro, deixando as pobres raparigas – as vítimas favoritas – e
passando a outro tipo. Houve um caso bem famoso de Mundico em dupla com o seu
primo Zezé Leão um pouco mais velho que ele. Ambos bebiam cerveja num botequim
da cidadezinha. Cerveja atrás de cerveja já haviam consumido várias garrafas. Mundico
sempre foi muito resistente para o álcool, mas a quantidade de cerveja ingerida (e
expelida também) fora considerável e ele já estava alto. Zezé não precisava de muita
coisa para ficar tonto e, sobretudo valente. Para provocar o primo, pediu mais uma
cerveja e pegando o chapéu - que todos os rapazes de família usavam, fosse de palheta
ou de feltro – de Mundico, encheu-o com a bebida. Mundico fez o mesmo com o chapéu
de Zezé. Em pouco se atracaram aos bofetões. Foi uma briga daquelas de “saloon” nos
filmes do “far-west” americano. Quebraram cadeiras e mesas; caíram garrafas das
prateleiras; o dono gritava pedindo ajuda para fazer os moços pararem com a luta.
Ninguém se atrevia. Quando os dois viram-se com os respectivos narizes sangrando,
pararam, olharam-se e um deles perguntou ao outro: – Por que a briga? Não somos
primos? Não somos amigos? – Somos muito primos e muito amigos, respondeu o outro.
Então vamos parar com isso, deixar de besteira e continuar a beber nossa cerveja.
“Compadre! Traga mais outra”. E continuaram a bebedeira.
Outras estórias mais curiosas e mesmo espantosas surgiram quando o nosso
herói foi para a Alemanha. Com a distância entre o Nordeste e a Europa Ocidental, com
o Atlântico de permeio, as imaginações foram aguçadas e as fantasias cresceram. Mas
estas estórias ficam para logo mais adiante.
Malgrado os desregramentos e a boemia, nosso rapaz era vaidoso e gostava de
cultivar o seu corpo. Embora sem muita disciplina, praticava, com outros rapazes da
sociedade teresinense um desporto masculino tradicional nas universidades européias,
principalmente as inglesas, e que entrara em voga junto com o futebol. As regatas a
remo.
O álbum de família documenta Fotos de Mundico, meu pai, em camiseta,
exibindo seus bíceps. Não poderei juntar muita coisa sobre a introdução desse esporte
do remo em Teresina e em que condições, em que clubes, ele era praticado. Mas, nas

80
descrições dos festejos do Centenário da Independência em Teresina, encontrei um
precioso trecho que comprova esta atividade desportiva de Mundico. No penúltimo dia
da seqüência de festejos encontra-se esse registro:

“... Dia 9. Festa nautica. Corrida de duas embarcações: ‘Teresina’ e


‘Ipiranga’. Mil metros. Eis os esportistas disputantes: Lourival Costa
(patrão) Geovani Martins, Raimundo Monteiro, João Borges e João Fortes
(‘Ipiranga’); Arthur Oliveira (patrão), Alvaro Pires, Agripino Oliveira,
Francisco Rêgo e João Marques (‘Teresina’). Verdadeira multidão
ovacionou os vencedores da Ipiranga...”67

MUNDICO – Atleta do Remo


Foto de Raimundo Leão Monteiro por volta do Centenário da Independência do Brasil (1922) aos
19 anos de idade

Não se fica sabendo se as “embarcações” seriam esquifes especiais para remo ou


se eram canoas nossas, o que parece ser o mais provável. Seria uma certa
“aproximação” cabocla daquilo que os ingleses praticavam debaixo de muitas regras.
Percebe-se que a “competição” náutica do caso aproximar-se-ia da prova chamada de

67
A. Tito Filho. “Memorial da Cidade Verde”. p. 49.

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“Seis Com”, ou seja, seis remadores com um patrão percutindo e marcando o ritmo das
remadas. O nome de Mundico está registrado parcialmente desde que se omitiu o Leão
de Raimundo Leão Monteiro. Mas, a relação dos competidores, contemporâneos e
amigos, inclusive os irmãos Oliveira – Agripino, mais forte para remador e Arthur, mais
moço e franzino para um bom “patrão” – leva-me a crer que se trata mesmo do
Mundico, nosso herói. Mais tarde, da Alemanha – mais precisamente de Hamburgo, ele
enviará fotos suas praticando remo no rio Elba com outros rapazes.
Durante os festejos do centenário a atenção do turbulento Mundico foi
despertada para uma mocinha morena, sempre rodeada de irmãs e primos. Ficou
impressionado com a moça e quis conhecê-la, pois nunca a havia visto.
A idéia da fugacidade do tempo é sempre acompanhada do correspondente e
concomitante percepção do espaço. Na entrada dos anos vinte o espaço edificado da
cidade de Teresina, embora pequeno, naquela época sem ônibus, onde apontavam os
primeiros automóveis e todas as distâncias eram percorridas a pé, a projeção espacial
separando as ruas de Santo Antônio, ao Sul, e a da Glória, ao Norte, criava uma
percepção espacial de uma distância bem ampliada. Eram quase dois sub-universos
diferentes no grande universo da Teresina nos seus setenta anos de existência (1852-
1922).
Mas Mundico estava no rol daqueles felizardos que se movimentavam
modernamente a poder das máquinas. Na sua possante moto DKW ele começou a
explorar o outro lado da cidade, os altos da rua da Glória, onde suas indagações
resultaram em encontrar a residência da moça, filha de uma senhora viúva daquele
Major da Polícia que fora assassinado no governo Miguel Rosa. E, assim, nas retretas da
Praça Rio Branco, nas festas em casa de família – às quais, até então não lhe haviam
despertado qualquer interesse – ele continuou sua procura, tentando aproximar-se da
garota que, para preocupá-lo mais ainda, atraia a atenção de não poucos rapazes.
Ao tempo dos preparativos para sua viagem a Alemanha ele já obtivera algum
sucesso. Conseguira aproximar-se dela e pensava, com habilidade e manobras ardilosas,
remover os outros rapazes de perto da moça. Estava certo de haver-se incluído no rol
daqueles a quem a garota dispensava atenção. Notava que a família da moça – mãe, tios
e primos – não aprovavam a aproximação. Também, perdera! Com uma tal fama! Podia
ser tudo menos o candidato ideal à filha mais velha de uma viúva pobre. Seu primo

82
Julio já encontrara dificuldades em aproximar-se de uma das irmãs. O Irmão João Paulo
– mercê de sua fama de bom dançarino, inclusive de valsas e tangos – conseguira
aproximar-se daquela irmã loira de olhos azuis, provocando senão aceitação da vigilante
mãe, pelo menos uma certa indiferença o que já era bem melhor do que a rejeição
recebida pelo primo Julio.
O cerco continuou. No momento de partir para a Alemanha, já podia considerar-
se um “namorado firme”. Embora sem segurança, pelo menos alimentava grandes
esperanças. Prometeu não esquecer a moça e dar-lhe notícias regularmente.
Mas deixem-me passar à viagem a Alemanha e a importância que ela teve na
vida do nosso personagem e na de sua família. Malgrado sua importância é um evento
bastante lacunário para o cronista. A estada de Mundico na Alemanha poderia ser bem
documentada, o que não veio a ser mediante a combinação de três fatores. Em primeiro
lugar pela perda ou extravio dos documentos escritos. Havia toda uma série de cartões
postais que foram, com alguma regularidade (sobretudo para um rapaz tão turbulento)
enviados aquela namorada que seria sua mulher e minha mãe. Lembro-me que daquele
pequeno acervo era cuidadosamente guardado em uma perfumada caixa de sabonetes,
junto com uma coleção de cromos68 que minha mãe permitia-me olhar quando eu
convalescia de alguma das doenças de criança (sarampo, catapora, etc.) ou em
momentos de recompensa a alguma ação boa. Pela viva lembrança que guardei dos
postais e até mesmo o texto de alguns deles – estou persuadido de que eles me teriam
fornecido o roteiro completo do itinerário percorrido por ele pelas cidades alemãs e
mesmo de outros países da Europa (Viena e Paris, por exemplo), acompanhado pela
precisão temporal das datas dos mesmos. Mas isto infelizmente veio a extraviar-se,
antes que minha antiga mania de guardar a memória de casa o permitisse. E a perda
ocorreu depois que eu deixei Teresina (1945). De volta a casa – após longos períodos de
três, cinco anos de ausência eu sempre procurava localizar os guardados preciosos. Mas,
com o tempo, muita coisa foi se perdendo.
A segunda razão é que meu pai era um homem que vivia o presente – e o fazia
intensamente – sem se preocupar em ruminar o passado. Embora tivesse muito boa

68
Os “cromos” eram algo precursor ou aparentado as “figurinhas” de mais tarde. Se bem que os “cromos”
– recortados coloridos representando arranjos de flores – fossem algo destinado a uma clientela
feminina, colegial, pois as moças os utilizavam para enfeitar seus cadernos escolares ou “diários
íntimos”.

83
memória, para relações de parentesco e, sobretudo para inconfidenciar os “segredos” de
família, ele não se detinha muito nas suas experiências passadas. A terceira – e mais
lamentável – é que o nosso relacionamento na minha adolescência, o período mais
marcante no relacionamento pai e filho, não foi a modo de permitir uma conversação
proveitosa e criadora de laços especiais entre nós. Para mim, que sempre fui um grande
indagador, crivando de perguntas os membros mais velhos da família – desde as tias
avós como Dinda, Yayá, tia Marocas, e os tios – jamais pude fazer o mesmo com meu
pai. O que consegui captar – e conservar graças a uma memória que felizmente é acima
da média das pessoas – foi colhido de falas dele com outras pessoas. De suas conversas
com os amigos nos bares, eventos relatados com mais pormenores (os picarescos ou
safados) ou simples menções que, com o passar do tempo eu ia relacionando uns aos
outros e compondo uma teia mínima que me capacita agora a compor, embora sem a
firmeza desejada, o que teria sido esta experiência.
O mais emocionante ou excitante para mim é que sua permanência na Alemanha
coincidiu com o período critico da efêmera mas marcante República de Waimar que,
nos anos 1923-24 chegou ao fundo da crise inflacionária, o que repercutia fatalmente
numa vida de turbulência criativa compensadora, que tornou os anos loucos alemães
talvez mais loucos do que em muitos outros países europeus.
Estimo que a viagem se deu após os festejos do Centenário, no final de 1922 ou
pelo menos início de 1923. A lembrança guardada me induz a acreditar que ele tomou o
navio para Hamburgo na Bahia. Lembro-me bem que ele se referia a uma viagem à
Bahia – a sua primeira fora do Piauí – com outros rapazes teresinense que se dirigiam ao
Rio de Janeiro. Um deles seria Jacob Gayoso, no final do seu curso na Escola Militar já
próximo a tornar-se o Tenente que seria famoso em Teresina inclusive como Chefe de
Polícia no Governo Mathias Olympio. Lembro-me que Mundico contava de sua
admiração pela “sujeira” da cidade do Salvador e que uma noite, em passeio pelas ruas,
na companhia de alguns daqueles rapazes, inclusive Jacob Gayoso, receberam aos pés
os muitos respingos de um jato de água “suspeita” lançados das janelas de um dos
sobrados – que era um “castelo” de mulher-dama – ao que eles subiram e baixaram o
pau. O jovem Gayoso era um rapaz alto e corpulento, havendo sido o braço forte na
reprimenda ao assustado gerente ou guarda costa do castelo da Bahia.

84
O nome e nacionalidade do navio em que embarcou para Hamburgo não sei, mas
é certo que o navio fez escala na Ilha da Madeira, pois lembro-me que Mundico dissera
sentir-se um completo estrangeiro pois não entendera nada do português falado na ilha,
que ele achara muito pitoresca. Mas caçoara muito da maneira pela qual os estivadores
locais deixaram a carga escorregar pelo barranco, puxadas e controladas por cordas.
Sua viagem para a Alemanha ocasionou uma das maiores de suas “artes”
aplicadas à família. Minha tia Edith havia me contado esta proeza do seu irmão, mas eu
me havia esquecido. Não há muito tempo meu irmão – que teve um relacionamento
paterno bem melhor do que o meu – a repetiu, acrescentando preciosos pormenores.
Preparando-se para a viagem do filho o Major Santídio foi adquirindo libras
esterlinas na casa de comércio do Coronel Zés, que disso fazia regulares anúncios nos
jornais da época. O rapaz sairia bem forrado. Mas apesar disso Mundico resolvera fazer
o seu próprio cabedal. E, em vez de papel moeda, resolveu fazê-lo em ouro. Como filho
predileto da mãe, chegava-se facilmente a ela em seus aposentos, a qualquer hora. Com
a cegueira de mãe ele deu de incursionar ao baú dos seus guardados preciosos, dentre os
quais havia uma famosa sacola de veludo azul onde ela guardava suas jóias. Como
única filha entre quatro irmãos herdara as jóias da mãe Guilhermina – a Branca Flôr.
Filha e mulher de fazendeiros de posses o número das jóias acumuladas não havia de ser
pequeno. Se ele já incursionava quando necessitado, agora para a viagem ao estrangeiro
– o que talvez produzisse nele um compreensível receio e insegurança – ele passou a
pilhá-lo mais efetivamente. Assim subtraiu pesados cordões de ouro, medalhas várias,
trancelins, pulseiras, braceletes, pandatifes, etc. etc. colocando o equivalente peso em
pequenas pedras. Longe da vista do pessoal de casa ia para os lugares mais remotos da
quinta e, a sombra das árvores, fundia o ouro em um cadinho. Enfiava um prego caibral
no solo de argila úmida no interior do qual despejava o ouro liquefeito. Após o
resfriamento, obtinha um bastão de ouro no formato do prego. Com esse procedimento,
assegurou-se uma considerável série de bastões os quais costurou num largo cinturão de
couro que, cuidadosamente, devia ser colocado sob a roupa, durante a viagem.
Agora há pouco, após o falecimento de minha prima Maria José, filha de minha
tia Mariquinha Rocha (da Cunha) em conversa com Conceição, filha dela, ela relatou-
me que sua mãe herdara algumas imagens de Santos do oratório pessoal de D. Sérgia.
Juntou que uma delas era uma preciosa imagem de madeira representando Santa

85
Efigênia, que continha espalhadas pelas vestes alguns minúsculos fragmentos de rubis.
Sua mãe passara a ela o que D. Mariquinha contava a todos da família. Esta bela
imagem possuía uma coroa de ouro e pedras mas o safado do Mundico a furtou antes de
ir para a Alemanha. Muito provavelmente a bela coroa foi juntar-se aos pregos de ouro
do “golden belt” do Mundico.
Quando contava essa proeza ele dizia com indisfarçável orgulho: “Quando a
velha morreu e Edith abriu o baú a sacola de veludo só continha algumas miudezas de
ouro, prataria, em meio a muita pedra. Além da perda, material para as filhas, muita jóia
antiga foi sacrificada, para Mundico esbanjar o dinheiro naqueles anos de papel moeda
desvalorizado da República de Waimar.
Reconstituir o que foi a vida do jovem Mundico na Alemanha, ou mesmo
apontar a sua exata duração é difícil. Minha tia Edith falava em quatro anos o que é,
certamente, uma ampliação exagerada. Naturalmente esse poderia bem ser o período
“previsto” para uma temporada regular de estudos mecânicos e de eletricidade numa
escola da Siemens em Hamburgo. O que não seria obedecido pelo rapaz. Mas há
registros certos da presença dele a 9 de setembro de 1922, na “competição náutica”, e
em março de 1925 ele já estava de volta segundo o registro de sua presença em uma
festa em casa do poeta Antonio Chaves, em março de 1925. Sua temporada na Europa
tem que ser relativa aos anos de 1923 e 1924.
Em sua chegada na Alemanha, Mundico deve ter aproveitado as ligações
estabelecidas por seu pai em 1912-1914 com os técnicos da Siemens. Não há dúvida de
que ele tenha visitado instalações, coletado prospectos ilustrativos de novidades, o que
se comprova no caso do “gás pobre” que conduziu Santídio ao episódio do “Prego da
Usina”. O problema da língua não deve ter sido sério pois o rapaz era bem inteligente e
logo apresentou algum desembaraço. Ele chegaria a ter um domínio razoável da língua
alemã a qual – com estudos complementares de gramática – chegaria a ensinar no início
dos anos quarenta. É possível que tenha freqüentado a escola como é muito provável
que seu temperamento dispersivo não se tenha enquadrado bem à disciplina escolar.
Fora da escola técnica, nas ruas, naqueles dias agitados havia outras solicitações bem
tentadoras para que ele não fosse experimentá-las.
Mesmo sem o apoio da longa série dos cartões postais para recompor o seu
roteiro europeu restaram algumas fotos, aqui reproduzidas. Não será impossível

86
imaginar o que teria sido sua vida. Felizmente, ficaram estas três fotografias enviadas da
Alemanha cujas datas comprovam sua passagem por aquele país. Sua passagem
coincide com o período mais crítico da inflação que marcou a República de Waimar
como o exemplo mais famosamente agudo desse fato econômico financeiro. Mas a
situação financeira da Alemanha de Waimar era muito complexa; pois:

“... gerou situações muito diferentes de acordo com os grupos sociais. De


região em região, por vezes de cidade em cidade, a situação econômica
apresentava diferenças. As imagens dessa época certamente se fixaram
demais sobre Berlim, onde os extremos se encontravam. A exibição de luxo
e desperdício convivia com a fome e a indigência. Geralmente os contrastes
eram menos marcantes nas cidades de província. Não faltavam ali a miséria
e riqueza insolente, mas elas saltavam muito menos aos olhos.”69

MUNDICO NA ALEMANHA
Foto tomada em Hamburgo (1923) em companhia de um amigo brasileiro

69
Lionel Richard – A República de Waimar (1919-1933) – Coleção A Vida Cotidiana – 2ª reimpressão.
São Paulo, Companhia das Letras, p. 106.

87
Numa praia, provavelmente na ilha de Helligoland (Ilhas Frísias)

Num Parque Público em Berlim

88
A agudez da crise, por sua vez, criaria as medidas drásticas de contenção,
firmadas em outubro de 1923 por ocasião da coalizão política entre Gustavo Stresemann
(Partido Populista) e Rudolf Hilferding (Social Democracia), a partir da idéia de
“hipotecar os bens alemães”70. Em 1924, no meio do ano, circulou uma dupla moeda: o
antigo marco papel e o marco-fundiário, equivalente a um marco-ouro. Era o esforço
máximo de revalorização. O dólar americano foi fixado em 4 trilhões de marco-papel
enquanto o marco ouro (ou “marco renda”) valia 1 trilhão de marcos-papel. A partir de
abril as moedas foram reunificadas em um marco novo. Logo após entrava em cena o
Plano Dawes, por meio do qual os americanos injetam milhões de dólares na economia
alemã. No final de 1924 havia nas caixas do Banco Nacional Alemão cerca de dois
bilhões de marcos ouro. Era o giro do ponteiro ou da roda da fortuna, que novamente
girava a favor da Alemanha, cuja situação financeira já se considerava equilibrada em
1925.
Antes da injeção de dólares oficiais pelo Plano Dawes, fluíram aqueles dos
turistas americanos que, cada vez mais, vinham à Europa e eram especialmente atraídos
pela boemia de Berlim, que rivalizava com aquela de Paris. Seria ridículo admitir que o
dinheiro convertido das libras e o “cinturão de ouro” do jovem piauiense, aportado
naqueles tempos turbulentos o tenham levado a um status de riqueza. Mas certamente
era superior a do alemão médio. E o rapaz – já predisposto a vida agitada e boemia – se
soltaria. Apesar disso o que levara e o que recebia mensalmente não supriam seu apetite.
A medida que aumentavam seus gastos e prazeres – e os pedidos de novas remessas –
diminuíam as notícias sobre o estudo e sobre as novidades mecânicas com que supria a
curiosidade do Major Santídio.
A situação foi se agravando até desembocar numa crise familiar. As relações
entre pai e filho ficaram tensas. O velho disse que sem relatório comprovável das
atividades as remessas de numerário seriam sustadas. E foi o que se deu, provavelmente
pela segunda metade de 1924. Mundico teve que “se virar” para manter-se e tomar o
rumo da casa. O que para o pai foi tomado como uma reprimenda ou merecido castigo
que faria o filho recobrar a razão foi para o rapaz um “rompimento” que seria
passageiro. Com o tempo o rompimento com o pai passará a ser definitivo.

70
Todas as empresas comerciais, industriais ou bancárias, assim como as propriedades agrícolas passaram
a ser onerados como uma dívida, criando-se para elas, “letras de garantia” das cédulas postas em
circulação.

89
Naquele momento histórico de grande agitação política e cultural, os grandes
acontecimentos talvez nem tenham sido percebidos pelo jovem brasileiro, provinciano,
mesmo em seus pais. A resistência passiva no Ruhr até a ocupação franco-belga, as
agitações proletárias, como o Congresso do Partido Comunista, em Leipzig, exigindo a
formação de uma “frente única operária” deviam soar como coisa européia tão distante
daquelas organizações puramente “mutualistas” que ainda continuavam a se formar na
Teresina dos anos vinte. Teria ele se dado conta da tentativa de Golpe em Munique, por
Hitler-Ludendof, aquela que antecedeu a formação do Gabinete de Wilhelm Marx? ou os
levantes populares na Turingia inclusive na Hamburgo onde estava (novembro de 1923).
Não lhe escaparia o movimento anti-semita pois que me lembro de ouvi-lo falar
do preconceito alemão contra os judeus. Isso, nos anos quarenta, quando à Teresina
começara a chegar número considerável dessa colônia, vinda do Recife. De alguns deles
ele seria amigo. De outros chamava-os, pilheriando, de “judeu-ladrão”. Era amigo de
muitos sinos. Não era homem de preconceitos.
Da agitação cultural na literatura – 1924 foi o ano de publicação da “A
Montanha Mágica” (Thomas Mann), e sobretudo nos meios musicais, de Paul
Hindemith, Hermann Scherchen e Arnold Schonberg não seria certamente afetado. Mas
teria seu gosto despertado para a ópera e concertos sinfônicos, dos quais ficou-lhe um
certo gosto e lembrança. Sobretudo – e disso lembro-me de que falava – das operetas
que assistiu muitas vezes, em Hamburgo, por Berlim, e até Viena. É fácil compreender-
se que, esse pequeno verniz seria insignificante ante o arcabouço fruído nos cabarés e
no “bas-fond”. E estes aspectos seriam aqueles mais atrativos e sobre os quais os
amigos teresinenses o argüiriam, quando de sua volta. Ainda em meados dos anos trinta,
quando eu o acompanhava, aos sábados ou domingos, nos bares e mercearias da cidade,
suas aventuras na Alemanha ainda despertavam muita curiosidade nos amigos e colegas
de cervejadas. É dessa época, dos meus oito a dez anos, que me ficaram alguns
“flashes” dessas conversas. Muitas delas eram, naturalmente picarescas, cujo conteúdo
escapava ao garoto ingênuo que eu era. Ficaram-me algumas estórias e comentários,
captados ao acaso.
Lembro-me de seus comentários sobre a liberdade das mulheres e que em
Hamburgo, mas sobretudo em Berlim, havia cabarés onde os rapazes vestidos de mulher
confundiam, pela beleza, os clientes. Recordo também o caso que contava de que numa

90
roda de alguns brasileiros, fizera piadas sobre uma bela moça que exibia as pernas na
cadeira de um engraxate71 e que, ao descer a moça falou-lhe num português carregado
no sotaque lusitano: tratava-se de uma lisboeta estudante de medicina em Berlim. Outro
caso que fazia muito sucesso era de sua visita à casa de uma dama muito rica onde
houvera um “fracasso” que dava margem a muitas gargalhadas, o que me era
incompreensível. Bem mais tarde eu viria a saber que ele havia sido atraído a casa de
uma dama “liberada”. Ante o luxo e riqueza da qual ele se vira tão deslumbrado, deu-se
um choque inibidor da libido necessária a consumar o objetivo da visita – essa primeira
– pois que, houve outras posteriores e bem sucedidas.
Hoje imagino que este episódio deve ter sido da fase final quando se viu sem as
remessas de dinheiro vindas do pai. Não é difícil admitir que na Berlim da época a
liberação feminina e a “extravagância’ dos anos loucos fomentasse esse tipo de
expediente para um jovem, sobretudo quando revestido do exotismo de uma
procedência tão longínqua. Embora seu tipo físico não fosse tão diferente, o fato de ser
“von den . . . . Brazilien” deveria produzir seu encanto.
Foram pequenos casos, episódios simples, pequenas safadezas que me ficaram
na lembrança. Muitos lugares e logradouros ficaram ressoando na minha memória e
que, muitos anos após eu procuraria visitar em Hamburgo e Munique – já que me faltou
conhecer Berlim – infelizmente desfigurada pela divisão imposta no após guerra e
sobretudo aviltada pelo “muro”.
Ficava-me uma curiosidade grande sobre o “Metropolitano” aquele misterioso
trem que corria embaixo das ruas e que, logo mais eu viria na tela do Cinema Olimpia,
num filme da Ufa, onde o soprano (húngaro) Marta Eggert fazia uma personagem que,
antes de tornar-se cantora famosa, trabalhava como bilheteira no metrô de Berlim.
Pelo meu posterior conhecimento pessoal e literário não será impossível
imaginar o jovem brasileiro, de sob o sol do equador, provinciano de Teresina,
encantado com a Alemanha que sempre fora o sonho e a admiração máxima do seu pai,
que, inclusive – malgrado o desconhecimento da língua – comprava revistas e catálogos
comerciais da Alemanha. E, inclusive, tinha estampas e gravuras alemãs nas paredes da
casa da rua de Santo Antônio.

71
Nos anos vinte europeus, de início da liberação feminina, as mulheres subiam também às cadeiras dos
engraxates, sobretudo no inverno, para limpar as botas.

91
Assim, além de vê-lo no registro fotográfico em Hamburgo, remando no Alster
com um companheiro, eu o imagino – guiado por frases soltas e anedotas que captei da
remota infância – no seu roteiro alemão.
Cinco anos após a primeira grande guerra e dezesseis antes da segunda a cidade-
porto de Hamburgo ainda não havia anexado Altona e Wandsbech para formar a grande
conurbação de hoje, mas já era o maior porto da Europa Continental. Da antiga fortaleza
e igreja fundada pelo Imperador Carlos Magno (811) nas elevações modestas da
planície glaciar do norte da Alemanha, entre os rios Elba e Alster, para defesa contra os
slavos do leste e baluarte da cristianização do norte (Jutlandia e Scandinavia) à sua
passagem para a condição de baluarte luterano após a reforma (1529) sua posição
estratégica a definisse, sobretudo como poderoso centro comercial, abrindo as nações
germânicas aos mares do mundo. Diferentemente de várias outras cidades germânicas,
de universidades antigas, aquela de Hamburgo seria estruturada apenas em 1919 como
uma extensão do Instituto Colonial (1909) com seis faculdades iniciais. Universidade
que seria mais famosa pelas suas escolas técnicas.
O jovem Mundico, brasileiro do sertão do Piauí, esteve curiosamente ligado à
mecânica e eletricidade mas certamente muito mais voltado ao divertimento e a vida
boêmia concentrada no Reeperbahn de Sankt Pauli. Não será difícil imaginá-lo, com uns
poucos compatriotas e alguns amigos locais, tomando o metrô e saltando na estação do
Freiheit, e descendo esta grande avenida em direção ao cais, a procura de Lokale
especiais. Não seria difícil que eles não se sentissem atraídos pelo Fochsel, um
minúsculo e abarrotado barzinho com jacarés empalhados caindo do teto, ao lado de
grandes morcegos de azas abertas pregados nas paredes, javalis empalhados, com
brilhantes olhos de vidro espalhados pelo chão entre as poucas mesas e o balcão. Tudo
isso, diminuídos em sua visão pelo par de enormes abóboras de bronze – os “colhões de
Hercules” tidos como provenientes das famosas colunas ... segundo informava a
etiqueta, em meio a várias outras espalhadas pelo ambiente, contendo obscenidades.
Dessa atmosfera turística poderiam deixar a Freiheit e procurar, pelas ruelas
perpendiculares e paralelas, perigosas, infestadas de ladroes e traficantes de drogas,
penetrando em outros Lokale famosos tais como “Die Drei Sterne” com uma banda de
jazz tocando para rapazes travestidos como um bando de cacatuas dançando na pista
olhados por operários e marinheiros ao redor ... entre pessoas de ar circunspecto,

92
comerciantes e bancários, turistas excitados... Ou voltando para as grandes cervejarias
onde, não raro saiam pancadarias violentas72.
Das outras cidades – Berlim, Viena – haveria também o que imaginar. O que não
deve ter faltado a todos aqueles a quem Mundico fez narrativas dessa temporada, o que
seria rememorado fartamente. Cada parente tinha um caso diferente para juntar ao já
amplo repertório. Minha tia Edith contava que ele mesmo dissera que havia casado, na
Alemanha, com uma moça belga e que a deixara com a promessa de retornar. Não é
uma estória a descartar, sobretudo quando o rapaz viu-se privado de mesada do pai.
Seu retorno da Alemanha, naturalmente por via marítima – o modo usual das
viagens intercontinentais da época – veio trazê-lo ao Rio de Janeiro, onde iria conhecer
as irmãs73 e o tio Antonio Martins com quem se hospedou. É quase certo que isto
ocorreu após a estada dos pais na capital.
Tia Otilia contou-me que gostara muito do irmão e que ele havia sido um bom
companheiro aos passeios e festas que eram freqüentes naqueles dias.
Mundico voltara rompido com o pai e não tencionava retornar à Teresina. Na
Alemanha fizera amizade com alguns rapazes brasileiros, inclusive paulistas.
Tencionava e estava mesmo decidido a ir tentar a vida na capital de São Paulo que,
naquela época, era a cidade de melhor infra-estrutura urbana do país e, embora bem
menor que o Rio de Janeiro, estava iniciando a arrancada industrial que lhe viria trazer a
hegemonia.
Depois da briga com o pai, relaxara a correspondência com a família e até
mesmo aquela com a “namorada”. No Rio encontrou-se com os rapazes piauienses de
sua idade que ali estudavam, e foi sabendo as novidades da terra. Pelo jovem cadete
João Henrique Gaioso soube que sua “namorada”, estava noiva ou quase noiva de um
rapaz moreno, bonitão, um comerciante na praça de São Luiz.
A pontada de ciúmes foi forte. A paixão renasceu e ele decidiu-se a abandonar –
ou pelo menos adiar – sua ida a São Paulo. Precisava ir resolver aquele caso em
Teresina. E, quem sabe, receber o apoio da mãe a despeito do mal estar com o pai.

72
Eu só iria conhecer Hamburgo em janeiro de 1968, em pleno inverno, o que não permitia muitas
explorações na cidade. No inverno de 1971, a caminho da Escandinávia fiz outra passagem rápida.
73
Além de Mariquinha, que voltara logo para junto da mãe e ajudara a criá-lo Mundico conhecia Julinha
que, acompanhando o marido militar, estivera no Norte e Nordeste, tendo tido em Teresina seu primeiro
filho e a caçula. Depois da visita de D. Sérgia ao Rio, em busca de recursos médicos, Adelia –
acompanhada do filho Joaquim - voltou a Teresina, em visita que não mais se repetiria.

93
Para este, o malogro do filho na Alemanha foi um tremendo golpe. Ele desejara
ardentemente que o filho viesse a realizar aquele sonho que não havia sido possível para
ele. Em vez de engenheiro militar no Brasil o filho voltaria engenheiro mecânico ou
eletricista formado na Alemanha, o maior centro especializado no mundo. Em vez disso
o irresponsável do rapaz pusera-se a gastar sem medida e em vez do curso regular, caíra
na esbórnia. Era um golpe profundo e difícil de curar. Mas era pai, e tudo dependia da
conduta do filho após a volta. Devia ter aproveitado alguma coisa de sua estada. E as
novidades, instruções e prospectos que lhe enviara de lá davam margem a que supusesse
que a viagem não houvesse sido de todo inútil. O rapaz era muito inteligente e,
certamente, teria aproveitado algo, embora não dentro de estudos sistemáticos ou
regulares.
Não sei dizer como foi essa volta do filho pródigo, em seus lances mais
decisivos. Teria retornado a casa da rua de Santo Antonio ou teria ido para a casa da
irmã Mariquinha? Dava-se muito bem com o cunhado Pombo, de quem sempre foi
amigo. Talvez ele tenha ficado em casa, mesmo rompido com o pai de vez que ele se
apoiava na mãe perante a qual o Major – devido a sua diversão em outra “casa” – não
dispunha de autoridade moral para determinar a “sua” norma. Acho que só mais tarde,
após o casamento, ele sairia de casa. Lembro-me de ouvir dizer que – talvez para irritar
o pai – aproximou-se do ex-governador João Luiz Ferreira, e chegou a envolver-se em
política numa época sob o Governo Matias Olimpio e mais adiante naquele de Joca
Pires.
Em pouco tempo corriam pela cidade de Teresina e se espalhavam pelo Piauí as
proezas do Mundico do Santídio, ampliadas e exageradas. Agora o Pedro Malazarte
sertanejo havia tido o seu batismo no exterior, na Europa, tornando-se assim um
“aventureiro internacional”.
Não demorou muito para que circulassem as estórias mais inverossímeis sobre o
Mundico na Alemanha. Uma delas ficou mais profundamente marcada, a força de
repetição. Ela é o tipo mesmo da estória bem característica desse disse-me-disse que
corre pela boca do povo. Fosse o Piauí um centro mais famoso em reuniões ou feiras,
como aquelas do Nordeste verdadeiro e elas teriam sido impressas em cordel e cantadas
pelos cegos mendigos.

94
Era, em verdade, a celebração daquele anseio de notoriedade que faz o povo
cantar e exagerar os feitos que lhe parecem necessários a celebrar a esperteza e a
astúcia, condimentos necessários a temperar um herói popular. E a estória que passo a
narrar, dá um exemplo fiel disso.
Conta-se que ao resolver sua volta ao Brasil, Mundico contatou industriais e
comerciantes alemães desejosos de colocar seus produtos no Brasil, país com o qual as
relações progrediam sensivelmente. Candidatou-se a ser representante comercial de
alguns produtos – essencialmente máquinas, motores, segundo sua área de interesse e na
qual atuara naquele país. Para tanto, a título de amostra, trouxe uma série de aparelhos,
máquinas, ferramentas modernas para instalar o escritório comercial e principiar o
intercâmbio.
Ao chegar ao Brasil – o jovem foi vendendo o material do Recife ao Rio de
Janeiro. Ganhou bom dinheiro e gastou tudo na boa vida. Os “parceiros” alemães
começaram a reclamar. Cartas e mais cartas, pedindo esclarecimentos e finalmente
exigindo o saldo do compromisso firmado. O nosso herói teria então escrito que o Brasil
era um país de muitas pragas e que, enquanto ele procurara instalar o escritório, a
maquinaria havia sido atacada por uns terríveis bichinhos – os cupins – que deram cabo
de tudo.
Os alemães responderam, horrorizados, pois os amais da ciência desconheciam
qualquer animal que fosse capaz de destruir material de aço. Ocorreu ao espertalhão
remeter “a prova”. Montou em um caixote bem feito, um conjunto de limalha de ferro,
heterogêneo, ao qual juntou uns restos de cupinzeiro, e madeira atacada pelos cupins e
despachou-o para a Alemanha num navio.
No meio do Atlântico o Comandante do navio, alarmadíssimo, constatou que seu
navio estava sendo atacado por terríveis animaizinhos. Procurando o foco e localizando
o famigerado caixote o comandante – ante o perigo fatal e a gravidade do caso –
ordenou o lançamento da perniciosa carga ao mar, responsabilizando-se perante o
destinatário. Assim os fabricantes tiveram o aval e prova do comandante de que tal
praga brasileira existia... E o esperto herói safou-se brilhantemente da dívida contraída.
Eu mesmo ouvi esta estória e, com constrangimento, vi-me inquirido por colegas
de escola, nos meus tempos de liceu, sobre a verdade do caso. Não sabia o que dizer ...
Meu pai, ao ouvi-la cada vez mais alterada, dava gargalhadas e deixava em suspenso a

95
estória. Nem confirmava nem negava. Dizia, são lendas, estórias desse povo
linguarudo... Não se zangava. Longe disso, divertia-se com a fama.
A quem interessar possa este tipo de estórias e, sobretudo a circulação de
“causos” populares desse tipo eu acrescento que esta estória especifica estava longe de
ser acompanhada de “censura” moral ou reprovação ética. Bem ao contrário, ela corria
seu curso revestido de uma aura de simpatia. Era a própria celebração da “esperteza” do
brasileiro. Ali estava a comprovação do que éramos capazes. Um jovem herói brasileiro,
ou melhor ainda, dos sertões do Piauí, que fora capaz de enganar até os alemães!
E ao lado disso posso indicar uma versão da mesma estória, narrada pelo
intelectual parnaibano – Alarico da Cunha que a expõe com riqueza de pormenores
numa crônica publicada no Almanaque da Parnaíba, relativo ao ano de 1941, a sua
página 371, sob o título: “Cupins para Inglês ver”. Ali a estória é apresentada como
tendo ocorrido com um comerciante de Manchester que, no princípio do século,
vitimado pela febre amarela, na Parnaíba, deixara um caixote com amostras de valiosas
ferramentas inglesas que viera colocar naquela praça. O hoteleiro, depois do enterro da
vítima, apossou-se das ferramentas e as vendeu por bom preço. Ante as reclamações que
lhe chegavam da Inglaterra recorreu ao truque dos cupins imputados ao Malazarte-
Mundico. Alarico chega a apontar até o navio onde o fatídico caixote teria sido
embarcado – o navio “Bourbom”, com destino a Liverpool.
Essa estória deve ter percorrido o vale do Parnaíba, tendo sido comentada e
esquecida. Até que renasceu no meio dos anos vinte, com outro herói da nossa “esperteza”.
Isso é um bom exemplo de como circulam os boatos, estórias e anedotas que
“correm na boca do povo” e com as quais as pessoas de certa notoriedade são
contempladas. As vítimas favoritas continuam em nossos dias, sendo os políticos.
Estórias de esperteza, malandragem, como também de “burrice” são, de modo geral,
transpostas de região para região, transferindo-se com acréscimos ou alterações a outros
personagens regionais74.
Não sendo possível precisar a data da volta de Mundico a Teresina – o que deve
ter ocorrido no final de 1924 ou princípio de 1925 – há meio de localizá-lo na sua
cidade natal em março deste ano. Isso é devido a uma crônica social veiculada pelo

74
Neste início dos anos noventa as anedotas que ouvi em Belo Horizonte a propósito do Governador
Newton Cardoso eram repetidas tais e quais em Florianópolis, aplicadas ao prefeito do município de
São José (Germano Vieira).

96
jornal “O Piauhy”, em sua edição de quarta-feita 11 de março de 1925. Esse tradicional
órgão de imprensa de Teresina, já no seu XXXVII ano estava sob a direção do Dr.
Pedro Borges e gerência do Sr. Heráclito Sousa. O Governo do Estado era conduzido
pelo Dr. Mathias Olympio de Melo e o país presidido pelo Dr. Arthur Bernardes.
A crônica refere-se, sob o rótulo “Uma Festa Encantadora” ao baile oferecido
sábado último – que seria a noite do dia 7 – ao jovem engenheiro Dr. Vieira da Cunha,
recém-nomeado Secretário de Obras do Governo do Piauí, realizado “no palacete do
nosso insigne poeta Antonio Chaves”. Segundo a crônica, as 9 horas os salões já estavam
repletos. E a crônica oferece uma relação dos participantes desse memorável baile.
A relação é preciosa por que – embora certamente incompleta como composição
da sociedade da capital – ela é bem representativa como amostra da mesma. Por isso
mesmo acho oportuno transcrevê-la aqui. Como se verá estão presentes os senhores
João Paulo e Raimundo (Mundico) Leão Monteiro e sua irmã Edith. A relação
publicada é a seguinte:

Relação dos Participantes ao Baile em homenagem ao Dr. VIEIRA DA


CUNHA realizado no palacete do Poeta ANTONIO CHAVES, em Teresina,
na noite de sábado 07 de março de 1925.
SENHORAS SENHORITAS
Xistinha Guapindaia Iracema Azevedo
Elmira Cunha Dilnah Baptista
Leonor Soares Olga e Dasmar Soares
Constança Paz Yara Neves
Ozita Oliveira Zilda e Zuleide Rocha Santos
Zizi Ferreira Ondina, Maria Dalva e Ada Castelo Branco
Rosamaria Ciarline Wamda, Onezina, Francisquinha, Cristina e
Celma Neves
Nodestina Campos Walmira Campos
Bilú Chaves Lourdes, Didila, Jarina e Dicosa Boavista
Sinde de Oliveira Neves Olinda e Quincas Couto
Zezé Chaves Maria do Carmo e Nair Sá
Sinhá Neves Guiomar Ribeiro
Leocadia Neves Dolores Holanda
Diva Campos
Edith Monteiro
Dolores Campos
Dulcides Moura
Araci e Rosila Neves de Meio
Cencinha Gomes de Souza
Carmelita Machado
Maria Romana Oliveira
Noemi Silveira
Mary Araripe
Palmira e Luiza G. das Neves
Altair Chaves

97
CAVALHEIROS
DOUTORES SENHORES
José Belleza Benicio Olympio de Mello
Benedito Furtado José Camilo da Silveira
Arthur Furtado Eduardo da Silveira
Pedro Borges Agripino Oliveira
Hygino Cunha João de Oliveira Souza
Floro Freire Thomaz de Aquino Soares Jr.
Teivelino Guapindaia75 Manuel S. Douro
Pedro Carline Modestino Soares
Antonio Celestino Filho Ragadasio Maranhão
Cromwell Barbosa de Carvalho Jorge Leite
Olavo Rebello Mano Bento
Raul Barata João Paulo Leão Monteiro
Wanderley Braga Raimundo Leão Monteiro
Francisco Parentes José Chaves
Vieira da Cunha (o homenageado) Alvaro Tito Castelo Branco
José Mello Samuel Cordeiro
José Firmino Paz Basilio Reis
Francisco Pires de Castro Arlindo Pires de Castro
Andre Monteiro
Henrique Monteiro
Arthur Furtado Filho
Acesio Monteiro
Umbelino Holanda
Antonio Neves
Ozires Neves
Pompom Martins
Lourival Martins
José K. Costa
Joaquim Santos
Luis Santos
Pedro Rocha Santos
Leopoldo Cunha
Jonathas Baptista (agitador cultural)
Djalma Baptista
José Paulo de Freitas
Luis Bastos
Antonio Cavour de Miranda
Pedro Christino Ferreira
Edson Soares
José Raimundo de Vasconcellos
Domingos Cordeiro
... e muitos outros cujos nomes nos escapam

Note-se que esta relação não inclui os nomes de D. Júlia Figueiredo nem de suas
filhas. Mostrando-a a minha mãe (1990) ela não se recorda deste baile. Diz ela que
havia muitas festas por esta época, pois desde os festejos do Centenário a vida social de
Teresina se animara. As filhas de D. Júlia não estavam presentes “em todas”. Nem se

75
Um engenheiro de São Luiz do Maranhão que se instalara em Teresina, dirigindo as obras de
construção da ponte de ferro sobre o rio Parnaíba, da “Estrada de Ferro São Luis – Teresina”.

98
lembra também se, neste mês de março, já estaria noiva de Mundico. Mas o
compromisso não tardaria a ocorrer pois antes do ano findar-se eles estariam casados.
Mas antes disso será preciso acompanhar a vida da viúva do Major Gerson e
seus filhos, especialmente, da primogênita Gracilde – a Graci.

2.3. A Viúva do Major Fiscal e seus Filhos


D. Júlia, à entrada dos anos vinte, continuava na casa da rua da Glória. Gracilde,
a filha mais velha, nos seus 15 anos já estava no primeiro ano da Escola Normal. No
final de 1922 estaria concluindo o curso que, naquela época, era de quatro anos. Dulce,
a segunda, não mostrara gosto pelo estudo. Como tinha grande habilidade manual, já
cosia e bordava, foi aprender corte e costura. Com isso a família escapava da carestia
que eram os feitios de vestidos cobrados por costureiras que, na maioria das vezes, não
mereciam o que cobravam. Zeneide, provavelmente seria professora também. Gersila
era menina (10 anos) e terminava a Escola Modelo. Gerson, também na escola – sob os
cuidados de D. Zefinha Ferraz, renomada mestra – dividia-se entre os livros e,
sobretudo a correr, com os amigos, atrás de uma bola no futebol que se tornava cada vez
mais popular. Na falta de campo próprio jogava-se na Praça Saraiva (Largo das Dores) e
já havia os times Therezinense, Artístico e o Militar, este último do 25º B.C..
Após a morte do Capitão Ludgero, Sinhá Moça – a Dinda – passara à dona de
casa e chefe da família. Assim resolveu doar metade do grande terreno da mesma para a
caçula viúva, aquela que, com a morte da mãe, havia sido criada por ela como filha. É
curioso como naqueles tempos os assuntos de família resolviam-se única e
exclusivamente pela vontade daqueles que se revestiam do direito de primogenitura.
Não se cuidava de testamento – muito provavelmente um fato pertinente a um nível de
renda como o dos Gonçalves Dias, onde havia poucos bens a distribuir. Dinda decidiu
doar o terreno à irmã mais moça, viúva pobre e assim o fez, sem qualquer contestação
das outras irmãs. Arthur já havia morrido com a gripe espanhola e José continuava em
Belém do Pará. Assim, pensava a Dinda – agora aos 64 anos – Júlia construiria uma
casa aqui, ao lado dela, e alugaria aquela que o governo lhe concedera como única
recompensa pelo assassinato do marido.
Com sacrifício Júlia fez erigir uma casa, uma meia morada de boa fachada de
beiral e pé-direito mais alto que o habitual. Talvez não tivesse podido erguer a casa se

99
não houve recebido uma enorme ajuda do seu grande amigo Arthur Freire – marido de
sua amiga de infância, a sua querida Zuzú. Arthur Freire possuía uma companhia
construtora capaz de levantar grandes prédios e belas residências como era a sua própria
casa, ali próxima, na esquina da rua do Amparo.
Devagar, a pouco e pouco as paredes foram subindo, as internas de adobe, as
externas da fachada, em tijolos com a cumiera armada em troncos de carnaúba. Era uma
meia morada com corredor, sala frontal com três janelas, seguida da alcova
desembocando em sala de jantar acoplada à “varanda” que se abria em peitoril para o
jardim. Da sala até a cozinha, outro corredor dava acesso aos dois quartos do “puxado”.
A cozinha, como o corredor do puxado, era aberta em peitoril, separado por colunas de
sustentação. Era ampla e na parede interna se apoiavam o fogão de lenha e o forno de
barro. O banheiro era uma edícula separada, também coberta de telha, tendo um tanque
para juntar água. A sentina era outra edícula no fundo do quintal servida por uma fossa.
Com a divisão do terreno por uma cerca de buriti, parte do pomar caprichosamente
plantado por Yayá (Raimunda) ficara para a casa de Júlia. Do lado da rua havia uma
concentração de goiabeiras. No fundo um grande pé de umbu cajá e no meio havia
mangueiras e laranjeiras. Esta seria a casa onde eu viria a nascer e que, na numeração
métrica do prefeito Lindolfo Monteiro, receberia o número 1467 que, ainda hoje,
identifica a casa, que se mantém de pé.
Mas, sendo nova a casa recém construiria daria melhor preço no aluguei e assim,
por alguns anos, D. Júlia ficaria na casa antiga e alugaria a nova. O primeiro inquilino
foi o sobrinho Zuca, o muito querido filho mais velho de Celé e Abílio que, ao voltar da
Europa, tangido pela guerra, casara-se e abrira o colégio 24 de Janeiro (1915).
No início de 1919 a primeira casa teve o seu imposto predial76 orçado em
27$600 (vinte e sete mil e seiscentos réis). Comparativamente as outras da relação
percebe-se que era uma casa típica da “média inferior” localizando-se entre os 75$000
das casas do Cel. João Maria Broxado e Jacob de Almendra Gayoso e herdeiros; dos
45$000 da casa do Dr. Evandro Rocha, na rua da Glória em frente ao Mercado, e a
modesta casinha de palhas da preta Beliza Moura – uma ex-escrava que vendia um

76
Segundo o edital de lançamento do Imposto Predial de Teresina – relação alfabética, entre as letras B e
J – publicada no jornal “O Piauhy”, Ano XXIX nº 245 (publicação bi-semanal) em sua edição de 1º de
janeiro de 1919, folha 2.

100
famoso doce de buriti – na vizinha rua do Amparo, já na subida para o Alto da
Moderação: 9$000 (nove mil réis).
Após a morte do Capitão Ludgero e com o crescimento do Colégio do Zuca,
para onde afluíam cada vez mais rapazes do interior, ele resolveu formar um internato
para hospedar os rapazes no próprio colégio. Não sei dizer se ele teve outra instalação
anterior em outro prédio. O que ficaria registrado na memória da família é que o famoso
“Colégio do Zuca” ou pelo menos em sua fase do internato – esteve localizado no
casarão encimado por um “sobradinho”, um sótão menor que o térreo, que ainda hoje se
vê na baixa Rua Grande, e que nos meus tempos de menino era ocupado pelo Grande
Hotel. O Colégio do Zuca, rivalizava com o “Colégio do Dimir”, outro primo, embora
mais distante, filho de Mocinha e Areolino de Abreu. Dimir era o diminutivo do nome
do Dr. Wladimir do Rêgo Abreu que fundara esse colégio a quem deu o nome do pai, o
ex-Governador Dr. Areolino de Abreu – também internato – em 1919. Na época eram
os melhores colégios particulares da cidade77 e houve rivalidade entre os alunos que
chegaram a se hostilizar em “batalhas” memoráveis nas ruas da cidade.
Muitos dos médicos, engenheiros e outros profissionais liberais da Teresina do
meu tempo haviam sido alunos desses dois colégios. Minha mãe e minhas tias os
identificavam pelo rótulo dos colégios “do Zuca” ou “do Dimir”. Eram alunos do Zuca,
os futuros Doutores Francisco Almeida (de Floriano), Mano Theodomiro de Carvalho
(das Barras). Mais Umbelino Salles, do Maranhão. Dentre os teresinenses, havia os
irmãos Zezinho e Jurandir Vasconcellos, netos do Cel. Sinval de Castro. Para o colégio
de Dimir afluíram principalmente parentes da União como por exemplo, o primo Zuca
Rêgo, filho do primeiro casamento de Benedito do Rêgo, outro dos filhos da tia Cetê.
Nota-se que a função cultural exercida pela capital do Piauí, apesar de bem
modesta ainda, já era capaz de atrair moças e rapazes do interior – estes certamente mais
numerosos que aquelas – o que, de certo modo, contribuía para animar a vida social da
cidade.

77
Além do Liceu Piauiense e do Colégio Diocesano São Francisco de Salles – a dos Aprendizes Artífices
(federal) e desses dois particulares havia ainda outro o Bento XV, que fora reaberto a 12 de fevereiro de
1919. Quando se examina o nome dos professores que compunham o corpo docente desses colégios
percebe-se que eram – com pequenas diferenças – os mesmos. Isto valia também para os dois
femininos: a Escola Normal Oficial e o Colégio Sagrado Coração de Jesus, das freiras da irmandade de
Santa Catarina de Siena.

101
Antes da criação e instalação do Clube dos Diários – por ocasião do Centenário,
a juventude reunia-se nas praças – a Rio Branco, principalmente – após as missas de
domingo no Amparo, nas festas religiosas – novenas, retretas de adro e procissões – e
em pequenos “bailes” ou festas dançantes, em casas de família.
Antes de apreciar o papel de D. Júlia nessas festinhas, acompanhando as filhas,
vejamos a parte mais socialmente efetiva que era aquela realizada no âmbito da própria
família. D. Júlia sempre cultivou as relações de família – não apenas um hábito
arraigado na organização social vigente mas como um natural “apoio” a sua condição de
viúva pobre, com filhos.
Com a transferência de Dinda e Yayá para cuidar do internato do Zuca, a Casa
da Dinda foi alugada à sobrinha Noca, filha de tia Marocas Fernandes, casada com o
funcionário dos Correios e Telégrafos, João Ferreira Gomes. O casal com a filha – e a
mãe viúva – ficavam mais perto. Embora Dinda e Yayá estivessem agora mais
afastadas, os laços não diminuíam. Elas se atarefaram muito com os encargos de
gerenciar o internato de rapazes mas não se afastaram. Numa época sem geladeira,
muito excedente de comida do internato era canalizado pelas irmãs para D. Júlia e seus
filhos, o que, apesar de incerto, era uma valiosa ajuda para uma casa onde não havia
“ganho certo”, ou seja, um ordenado vindo de emprego fixo ou pensão.
Com a ida de Dinda e Yayá para o internato a Casa da Dinda ficou sob a guarda
de tia Marocas Fernandes. De certo modo era um “retorno” porquanto ao ficar viúva,
vinda de São Luis, ela fora acolhida pelo pai, com seus filhos Justina (Noca),
Waldemar, João e Joaquim. Recordo que tia Marocas me confidenciaria um dia, que
naquela época de sua volta à casa paterna, ela havia passado maus pedaços com o
autoritarismo da Dinda. Eu que as via tão unidas na velhice não podia conceber que
tivesse havido atritos entre elas. Mas Marocas dizia-me que a velhice abranda as
pessoas e que Sinhá Moça a havia feito passar maus pedaços quando ela foi acolhida na
casa paterna, após a perda do marido e da fortuna. Queixava-se ela que Sinhá Moça
tinha grande implicância com seu filhinho menor – o Joaquim – que era doentinho e
chorão. Este garoto acabou morrendo.
Tia Marocas Fernandes sempre viveu com a filha Noca que era o seu arrimo. O
filho Waldemar casou-se cedo com uma mocinha pobre, suburbana. Era negra e de uma
rara beleza. Ele gostava muito da prima Gracilde, ainda garota, e deu-lhe em batizado o

102
seu primeiro filho – Walmir. O outro filho de Marocas, o João era um peralta e aprontou
poucas e boas. Dirigiu-se para o Maranhão de onde, após casar-se e radicar-se em
Pedreiras, acabou tomando outros rumos.
Um caso triste ocorreria na casa de D. Júlia Figueiredo, relativo àquela cria de
casa a Maria Pequena. Depois que o cabo Tuti e Comadre Maria se foram, morar numa
fazenda, nos Altos, ficou apenas Maria Pequena. A outra chamada Maria Grande, já não
estava mais, sem que haja lembrança de minha mãe, sobre o que aconteceu com esta.
Mas a Maria Pequei-ia foi uma grande companheira de toda a infância. Já mocinha,
Dulce e Graci costuravam vestidos para Maria. E se divertiam em enfeitá-la pois ela era
meio tímida e sem graça.
Um belo dia Maria Pequena amanheceu doente, gemendo, retorcendo-se de
dores. D. Júlia ficou aflita e já pronta para chamar um médico quando a Dinda chegou à
casa e foi ver o que acontecia. Voltou dizendo à Júlia: “Esta rapariga está é parindo. Vá
chamar a parteira”. D. Júlia ficou estarrecida. Como é possível? Não havia sinal de
barriga. Como ela pudera disfarçar tanto tempo? De tanto apertar o ventre para
dissimular a gravidez, a criança, muito raquítica, não sobreviveu.
Na casa de uma viúva com filhas solteiras, aquele acontecimento era uma
calamidade. Segundo os padrões vigentes, em vez de ser socorrida naquela hora, Maria
caiu na vida. Deu para beber e, não durou muito tempo. Apurou-se que o autor da
façanha havia sido o João, filho de tia Marocas Fernandes que, naquele tempo em que
Dinda e Yayá estiveram gerenciando o colégio do Zuca, e a pobre Maria ia prestar
alguma ajuda à Marocas, no pomar, deu-se o “pecado”. Sobre os ombros do João nada
deve ter pesado – no direito machista em vigor. Assim, não é sem razão que se dizia que
o irresponsável primo havia “desgraçado” a Maria.
Muitos anos após, minha mãe e minhas tias comentavam a maldade e falta de
caridade que pesava, em remorso, na casa da D. Júlia por não se haver tido coragem de
quebrar aquela cruel norma e sustentar a pobre rapariga.
Além de Madrinha Marocas, agora mais perto de Júlia, havia a outra Marocas
(Braga), prima e cunhada, viúva do irmão Antonio Dias que agora cuidava da casa e da
criação dos netos, após a morte de sua única filha, Didita, esposa do Dr. Evandro
Rocha. Morava também na rua da Glória, na parte baixa, em frente ao Mercado
Municipal. O Dr. Evandro continuava em suas funções de engenheiro agrônomo,

103
trabalhando no Fomento Agrícola, no campo experimental agrícola do Pirajá, que
organizara e dirigia. Possuía também uma propriedade particular, não distante do Pirajá,
que era o Acarape, lugar de muita fartura, à beira do rio. Com a morte prematura da
esposa. Dr. Evandro não se casaria mais. Permaneceu sempre viúvo tendo a sogra, D.
Marocas, como encarregada de casa – que era um palacete bem confortável – e da
educação de seus filhos. Àquela época os filhos bem mais moços que os de D. Júlia,
eram crianças: Helena, Zenon, Ceres e Iris. Tia Marocas tinha uma assessoria notável na
preta Felismina – a querida Mim-Mim dos garotos – companheira de toda uma vida a
eles dedicada.
Havia também tia Hortênsia Dias, irmã de Marocas e que era viúva do outro
Antonio Dias – filho de Avelino, irmão mais velho do Cap. Ludgero. Hortênsia vivera
na União, até enviuvar. O seu Antonio Dias falecera muito moço. Do mesmo modo que
o outro Antonio Dias (da Marocas), ou seja, do coração. Diz-se que por contrariedade
na política. Partidário do Governador Coriolano de Carvalho e Silva – governador
aclamado pela Assembléia após a promulgação da Constituição do Estado para o
período de 11.01.1892 a 01.07.1896 – que teve um final de governo tumultuado, em luta
aberta com a Assembléia. Antonio Dias ficara muito abalado com a “traição” que os
correligionários teriam infligido a Coriolano e teve um colapso. Agora, nos anos vinte,
Hortênsia vivia entre Teresina e Miguel Alves, após o casamento da filha Chiquinha
com o Comerciante Aderson de Castro, daquela cidade à margem do Parnaíba. Estas
primas – Júlia e hortênsia – também sempre foram muito amigas e as filhas de Júlia
passavam algumas férias em Miguel Alves com tia Hortênsia e prima Chiquinha.
Deste lado da família havia também a prima Benilde, sobrinha de Marocas e
Hortênsia – solteira, sem pais e que dividia o seu tempo entre Caxias, com o lado
Bittencourt da família da mãe e as tias Braga do Piauí. Embora circulante, a prima
Benilde seria sempre um membro querido da família, muito amiga de Júlia e seus filhos.
Seus dois irmãos – Odilon e João Antonio – eram ainda solteiros, à entrada dos anos
vinte. João Antônio casar-se-ia com Rufina (Finuca) Wall, filha de um engenheiro
inglês radicado no Maranhão e que, além desta, tinha outras filhas que se radicaram em
Teresina: D. Virginia, esposa do Dr. Cromwell Barbosa de Carvalho e D. Anita, esposa
do comerciante Raimundo (Mundinho) Ferraz. E um filho homem, Eduardo Wall.

104
CASA DO DR. EVANDRO ROCHA
À Rua da Glória, ao lado do Mercado Público

105
OS PRIMOS ROCHA
Filhos do Engenheiro Agrônomo Dr. EVANDRO ROCHA e sua esposa Benedita (Didita), filha da
Meria Amélia das Chagas (marocas Braga) e o Capitão Antonio Gonçalves Dias.
Da direita para a esquerda: Zenon, Helena, Ceres e Íris.

Mas a ligação mais estreita e permanente era ainda com a irmã Celé e o cunhado
Abílio Veras, cuja casa continuava sendo o centro de reuniões do clã Gonçalves Dias.
Mas agora este centro desdobrava-se com a casa dos sobrinhos Celsa – Santinho.
Assim, havia uma irradiação do cotidiano de D. Júlia e seus filhos da casa da rua da
Glória para a rua de Estrela – casa de Abílio –, e para a rua Paissandu – casa de
Santinho.
Celé e Abílio já haviam encerrado sua série de dezena de filhos na década
anterior. Mãe Celé continuava apaixonada e submissa a “Seu Abílio”, como sempre
tratara o marido e “Senhor”. Este, ainda em plena prosperidade, seguia a regra quase
geral dos maridos e tinha “outra casa”. Há tempo entretinha uma “teúda e manteúda”
que já lhe dera três filhos: um garoto e duas meninas. A “amasia” do Cel. Abílio era

106
uma antiga “pepira” da Fiação. Filha de uma antiga lavadeira de Mãe Celé, esta
resolveu proteger a rapariga pobre. Como Abílio tivesse interesse na Companhia de
Fiação e Tecidos, arranjou-lhe um emprego. Trabalhava como uma das muitas tecelãs.
Para facilitar a vida da moça, Mãe Celé oferecera-lhe o almoço para que ela não fizesse
o longo trajeto até sua casa, pobre e longínqua. Era uma mulata alta de tez clara e
cabelos grossos e fartos que se chamava Maria Benedita. Não demorou muito para que
o Cel. Abílio a tornasse sob sua “proteção” e a instalasse em casa confortável. Em
pouco nascia um garoto.
Na sua condição de “Senhor” o Cel. Abílio não fazia por esconder. Era coisa
natural. O garoto quando crescidinho, vinha à casa matriz apanhar frutas no pomar. Mãe
Celé fazia vista larga ao fato consumado. Nadando no Parnaíba o garoto afogou-se um
dia. Por obra do acaso o corpo foi dar na propriedade que Abílio e o genro Santinho
possuíam, não muito distante de Teresina – a Iracema. Como o corpo já estivesse
inchado um trabalhador da fazenda enterrou o garoto que, notara ele, tinha uma grande
semelhança fisionômica com os filhos do Cel. Abílio. Este, desesperado, procurava o
filho bastardo, rio acima. Consumou-se essa breve vida. Mãe Celé, desfiou as contas do
rosário em preces para a pobre vítima inocente. Maria Benedita – que era recebida pela
mãe e irmãos de Abílio – teve duas filhas que cheguei à conhecer. Chamavam-se
Hercília, Clara e Laudamia, morena. Não sei se casaram. No meu tempo de menino
moravam com a mãe. Na família de minha avó Júlia ninguém se dava com as bastardas
do tio Abílio. Mas alguns dos filhos de Mãe Celé tinham relações fraternas com esses
irmãos postiços.
Vê-se assim que o Cel. Abílio Veras tinha situação equivalente a do major
Santídio Monteiro, malgrado as diferenças de nível social das “amásias”. Enquanto a de
Abílio era uma operária pobre a de Santídio era uma irmã (separada do marido) do
próprio Abílio. Ambos estavam longe de ser figuras de exceção na sociedade local.
Mas a casa da rua da Estrela, esquina com o Largo do Pôço não perdera a sua
alegria, enchendo-se de parentes para o almoço aos domingos. Tio Abílio sempre
brincalh5o reunia todos e chamava os sobrinhos para ir ao pomar comer umas mangas.
Mãe Celé reprimia. – “Ora Seu Abílio, logo agora quando o almoço em pouco será
servido? – “Você é boba, minha mulher? Não está percebendo que é um modo de fazer
a comida render. Se a moçada já houver forrado a barriga de frutas...” E todos riam da

107
brincadeira. Comia-se bem. Havia muita fartura. Vinha muito abastecimento da
Iracema.
Minha mãe recorda que sempre se admirara da “dispensa”. Num dos quartos do
puxado, fazia-se depósito de alimentos. Havia varais de lingüiça, carne de sol, mantas
de toucinho, résteas de cebola e alho. Chamava, sobretudo a, sua atenção a quantidade
enorme de latas grandes – aquelas de transporte de gasolina ou querosene que, depois,
eram aproveitadas para depósitos de arroz, farinha e feijão. Os funileiros faziam tampas
de folhas de flandres (de que eram feitas) e nelas guardava-se muita coisa. As pesadas
em baixo, superpondo-se-lhe aquelas de coisas leves. Estes eram, sobretudo bolachas,
bolos e biscoitos salgados ou doces de polvilho – caridades, palmas, efes e erres, pêtas,
e outras especialidades da terra, cujas receitas passavam de geração em geração. Mamãe
admirava-se que a lataria encostada à parede subia até o teto. Pelas prateleiras, havia
frascos de doces de caídas e latas de doces de massa, e muita coisa mais. Pelos cantos
empilhavam-se frutas “de vez” para irem amadurecendo. Tudo isso supria a grande
mesa sempre farta.
Por volta do Centenário – além de Zuca e Celsa, os filhos mais velhos, já
estavam casados também Abelardo e Antonia (Doninha). Abelardo era um belo rapaz de
olhos verdes, moço simpático e muito engraçado que fazia rir a todos, especialmente a
Mãe Celé. Bem moço ainda, e farrista como era, casou-se com uma das filhas mais
velhas do Cel. Claro Holanda, da Estrada Nova. Nenem era seu apelido. Era bem mais
velha que Abelardo e apaixonada por ele, fazendo-lhe as vontades, inclusive cuidando,
com todo o esmero de suas roupas, que engomava pessoalmente para ele ir às festas e
bailes, enquanto ela ficava em casa à espera. Um belo dia Abelardo resolveu tentar a
vida na Amazônia e para lá se mandou deixando a família e a esposa esperando notícias
que de escassas, rarearam até se acabar... Nenem Holanda sempre a sua espera, Mamãe
recorda que era uma pessoa ótima que recebia os irmãos e primos do marido com
muitas gentilezas e atenções. Ficou-lhe gravada na memória um certo ensopado de
carne com caju que ela preparava e que era prato delicioso.
Nos meus tempos de menino, sabia que Mãe Celé tinha um filho na Amazônia,
coisa vaga, talvez Manaus pois que nem o tio José em Belém tinha notícias certas do
rapaz. Muito tempo depois, lá pelos anos quarenta a família veio a saber do falecimento

108
dele. Mãe Celé mandou avisar a Nenem Holanda que cobriu-se de luto fechado como
cabia a uma viúva. Fora sempre fiel a seu amor a despeito do abandono.
Doninha casou-se com um dos filhos de Sr. Cristiano Boavista da Cunha – José,
o Zezico Boavista. Residiu numa das casas de aluguel que o pai fizera em frente a sua
casa, também na esquina fronteira. Mas tarde passaria para outra, construída ao lado da
casa paterna. Do meio para o final dos anos vinte os negócios do Cel. Abílio foram
declinando e ele passou a construir, na grande quadra que possuía, uma outra série de
casas de aluguei, algumas das quais passariam as filhas que se casavam. O casal
Doninha e Zezito a exemplo dos pais, também estava iniciando a dezena de filhos que
teve, inciada pela menina Maria Lucy.
O primo Gerson – que recebera o nome do Major, cunhado de Celé e Abílio –
era um rapaz fortemente atraído pela vida de fazenda. Era o apoio do pai para tocar e
administrar as lavouras na Iracema. Passava, assim, sua vida entre a casa dos pais em
Teresina e na fazenda, nas épocas de plantio e colheita. Era muito amigo das primas,
filhas de tia Júlia, e tinha uma forte predileção pela Dulce. Ele e Maria do Carmo
nasceram na época de namoro e noivado de Gerson e Júlia. Daí que estes dois e mais
João Batista e Iracema eram mais parelhos em idade aos filhos do Major. Maria do
Carmo (1903) e Gracilde (1905) foram amigas inseparáveis muito ligadas na meninice e
início (ia mocidade. Iracema, a antepenúltima filha de Celé e Abílio – formou, com seu
irmão Gerson e sua prima Dulce, uma trindade muito unida, Os mais novos – Abilinho e
Hilda já eram parelhos com os mais velhos dos filhos de Celsa e Santinho. Abílio
regulava em idade com a pequena Gersila de D. Júlia e pelo Centenário teriam seus
doze anos. A caçula iluda era parelha com o pequeno Gersinho.
Por volta do Centenário, destacava-se na casa de Mãe Celé, o primo João Batista
(16 anos) que era estudante, terminando o Liceu. Era forte e bonitão, também muito
querido pelas tias e primas. A casa dos primos Celsa e Santinho era outro ponto de
encontro da família. Santinho continuaria prosperando no comércio da capital. Não
tinha mais a loja na rua Paissandu, onde o Major Gerson havia sido assassinado, e que
era mais acima, não distante do quartel. Agora residia na mesma rua, mais abaixo, à
altura da Assembléia Legislativa do Estado, numa casa de Esquina. Santinho havia se
voltado a outros interesses comerciais, parece que de maior vulto: importação-
exportação, além de experimentos industriais como aquele da fábrica de cigarros, já

109
referida. Até a grande enchente de 1924 ele seria um dos bem sucedidos comerciantes
da capital.
A série de filhos já devia andar – até o Centenário – pelos 8, ou seja, um pouco
além da metade do total de 14. Zuquinha, o mais velho, já era um garoto de 12 anos.
Seguiam-se Daura, Sinhozinho – que tinha o nome do pai – Dalva e Raimundo. Marieta
(Maria do Socorro), nascida em 1917, aos seus cinco anos, era a graça da casa, pela sua
beleza e vivacidade. Seria a mais bela das moças da família e o xodó do seu pai. A série
devia andar se fechando por Carmen Dolores e Jesus. Ainda faltavam seis para
completar todo o rol.
Embora D. Júlia e suas filhas mantivessem estreita relação com a casa da Celsa,
a maior presença era marcada pela Graci, a mais velha, pana o que muito contribuía sua
grande amizade com a prima Mania do Carmo. Celsa protegia muito aquela irmã,
enfeitando-a, dando-lhe cortes de fazenda – o que, se não era exclusivo para aquela
irmã, era mais acentuada. E a mesma atenção ela dispensava à prima Graci, a quem
também era muito afeiçoada, mesmo a despeito de ser madrinha de Zeneide. Mas esta
sempre teve o gênio mais caprichoso e arredio. Melindrava-se por qualquer coisa, tinha
um temperamento forte e difícil. Graci era mais suave, mais sociável e tranqüila.
Entre as casas de D. Júlia, na Glória, a de Celé na Estrela, e a casa de Celsa, na
Paissandu, havia o Colégio do Zuca, com as tias Dinda e Yayá cuidando dos rapazes
internos, o que era um atrativo para as sobrinhas que, assim, sempre que podiam,
procuravam as tias, o irmão e o primo Zuca.
A casa de Celsa era especialmente animada à noite. Concluída a pesada faina de
uma casa cheia de crianças, quando refrescava a calçada do sol abrasador do dia,
punham-se cadeiras e fazia-se uma grande roda a que se juntavam os vizinhos. Dentre
as amizades próximas havia duas n1arcantes. Ao lado havia as Burlamaqui – D.
Rosinha, viúva e suas filhas Anita, Doninha, Aurea e um rapaz, Milton. Do lado oposto
da rua havia o Sr. Vitalino, padeiro – pai do Dr. Francisco Freire de Andrade, médico
renomando na capital, e o outro filho, renomado músico e alfaiate. Era aquele mesmo na
casa de quem se escondera o assassino do major. Dessa roda sairia o namoro e o
casamento da moça Aurea com o Dr. Freire de Andrade e que seriam os padrinhos da
menina Marieta.

110
Este casamento – muito feliz por sinal – pode demonstrar bem como o
preconceito “racial” entre nós sinão eliminado, pode ser bem atenuado ou mascarado
pela condição social. O fato de ser um médico bem sucedido e de prestígio, com
passagem até pela Europa depois de sua formatura na Bahia, atenuava ou fazia eclipsar
o fato de que o rapaz, que era mulato, tivesse um pai negro. Um negro trabalhador e
respeitável que andava de alpercatas e dava duro dia e noite num forno para educar os
filhos. Um deles, tornara-se médico renomado na cidade. Esse fato teve bem maior peso
e não impediu o médico de casar-se com moça de uma das famílias mais tradicionais da
cidade. O prestigio de Dr. Freire de Andrade seria crescente até que, eleito deputado
federal, transferiu-se para o Rio de Janeiro, sendo ali muito dedicado a seu estado natal.
A outra irmã Burlamaqui – D. Anita foi esposa do famoso médico Dr. Manoel Afonso
Ferreira que, de Teresina, transferiu-se para Campinas, integrando-se naquela cidade
paulista e criando uma numerosa e ilustre família.
Mas as ligações das filhas de D. Júlia com a prima Celsa não se restringiam à
casa de Teresina. Havia as férias passadas na Iracema, fazenda que era uma sociedade
entre o Cel. Abílio Veras e seu genro Santinho que acabou, depois, ficando com a posse
do sogro. A beira do rio Parnaíba, do lado maranhense, a jusante de Teresina, a Iracema
deve ter sido uma bela propriedade agrícola do vale. A casa era enorme, rodeada de um
grande pomar, sobretudo mangueiras. Havia lavoura o ano inteiro, variando entre as
roças dos terraços e tabuleiros e as vazantes do rio. Plantava-se e moia-se cana. Fazia-se
rapadura e cachaça. Havia mandioca e farinhada. Além da pesca, no rio e lagoas
marginais. Nas férias escolares Mãe Celé levava os filhos e sobrinhos que se juntavam a
Celsa e sua meninada. Aconteciam – como em toda família grande – acidentes como
aquele da queimadura do pequeno Sinhozinho que encostou o camisolão de dormir na
chama da lamparina uma noite e ficou bem ferido na barriga. Mas havia muita
brincadeira e alegria, banhos no rio, caçadas para os rapazes, com os moradores e
agregados que não eram poucos. Para todos havia banhos no rio nas baixas águas
quando a correnteza era menos perigosa.
Minha mãe recorda, sempre com muita saudade, dessas férias ria Iracema. Do
bom humor e bondade de Celsa. Recorda ela que na hora de voltar para a casa, a prima
Celsa punha em sua mão um maço de notas que, para ela, eram pequenas fortunas para

111
mitigar a estreiteza em que vivia a mãe viúva, trabalhando incansavelmente, lutando
para sustentar e educar as filhas.
Malgrado a pobreza D. Júlia não aceitava colocar as filhas à margem da vida. E
procurava ocupar o lugar que lhe cabia, senão na alta sociedade, certamente na classe
média a que pertencia. Apesar de não faltar apoio do cunhado Abílio e de ter os
sobrinhos para acompanhar as filhas às festas ela não abria mão do seu duplo papei de
mãe e pai e acompanhava pessoalmente as filhas em todas as festas.
Além do Clube dos Diários, criado por ocasião dos festejos do Centenário e que
só inauguraria sua sede própria em 1927, havia outro clube – que teria duração efêmera
– que foi importante na Teresina dos anos vinte. Tratava-se do “Petit Club”, que
funcionou na bela vivenda do Coronel Joca Broxado, aquele proprietário da companhia
telefônica. Com a idade o velho Joca amasiou-se com uma cabocla. A esposa Marocas,
migrou para o Rio de Janeiro, onde já residia uma das suas filhas casada, em companhia
de algumas outras.
Mamãe relata que mais importante que as espaçadas grandes festas nos clubes, o
que animava a juventude da época eram aquelas realizadas em casas de família: tardes
dançantes, bailinhos à noite. Muitas vezes elas eram resolvidas quase de improviso.
Após a missa do Amparo, nas manhãs dos domingos, moças e rapazes, na Praça Rio
Branco, durante o “footing” matinal, escolhiam a casa de um deles – já consultados os
pais – e formavam uma “comissão organizadora” que se encarregava de ir às casas das
famílias dos jovens que não estavam presentes naquele momento e anunciavam a casa
onde seria o encontro, a tarde ou a noite. O dono da casa – geralmente recrutados dentre
as famílias de posses – se encarregava de servir refrescos, café com leite ou chocolate
com bolos e doces, o que era sempre disponível. Dançava-se com recurso a vitrola –
aquelas movidas a corda de manivela, quando não um piano. Noutros casos, menos
improvisados, contratava-se grupos de músicos – sanfoneiros, pequenos grupos. Nos
casos mais importantes contratava-se o “jazz band” da Polícia Militar ou do 25º B.C..
Uma das casas privilegiadas para essas inocentes reuniões dançantes era aquela
de D. Aninha Oliveira, à rua Paissandu. Era uma magnífica vivenda térrea, com balcões
de ferro batido, ladrilhos portugueses no piso, construída por um dos pioneiros da
navegação a vapor, o Sr. Pedro Thomaz de Oliveira – irmão de Manoel Thomaz. D.
Aninha tinha várias filhas moças. Umas delas, Alice, enviuvara e seria a segunda

112
mulher do nosso primo Luciano, filho de Lydia – Satiro Oliveira que também ficara
viúvo. Mas as solteiras eram Pedrina, Dinah e Eunice. Havia dois rapazes Salvino e
Petrônio. Este segundo era comandante de vapores no Parnaíba, tendo atuado até o fim
da navegação. Segundo o relato de Orgmar Monteiro, viria a morrer com seu uniforme
de comandante: o Comandante Petrônio de Oliveira.

Ainda no meu tempo de menino, lembro-me que ao passar em frente àquela casa
da Paissandu, era difícil obedecer o preceito da boa educação que me recomendavam
minha mãe e tias de que “não se devia olhar para o interior da casa dos outros”. O forte
calor de Teresina levava os habitantes a abrir portas e janelas de par em par o que
devassava as casas, muitas vezes da sala ao quintal. Mas a casa de D. Aninha Oliveira
era uma tentação. Num relance, com certo disfarce se podia vislumbrar o brilho dos
ladrilhos do piso, aquele dos grandes espelhos venezianos e um belo piano de armário,
negro com arandelas de metal rendado. Quando não havia moças nas janelas, valia a
pena ser “mal educado”. A quem hoje passar, pelo degradado “centro” de Teresina, e
olhar para o prédio do nº 1.116 da Rua Paissandu – ocupado pelas “Lojas Alencar-
Atacadistas” – jamais poderá imaginar que ele fora uma das mais belas residências da

113
capital piauiense. Juntando a foto dessa “ruma” com o retoque de minha memória ousei
reconstituir a bela vivenda no desenho ao lado.
Ali, no tempo de mocidade de minha mãe, havia belas festas e recebia-se com
muita fidalguia e hospitalidade. Mas havia outras casas acolhedoras como aquelas do
Cel. Edmundo de Oliveira – dos Tito Oliveira do Campo Maior, casado com D. Maria
Luiza Beleza. A estas casas, mais abastadas juntavam-se outras menores, espalhadas
pela cidade.
As vezes aconteciam episódios engraçados que ouvi contados e repetidos por
minha mãe e tias. Lembro o caso acontecido ali mesmo na rua da Glória, no mesmo
quarteirão da casa de D. Júlia, na residência do Sr. José Martins – alcunhado de Zé
Tabalão, apelido que lhe fora aposto pelo estropiamento que fizera da palavra
“tabelião”. Ele tinha filhas moças (Maria José, Alice e Toinha) e costumava realizar
festas. Numa delas ele contratou um conjunto de músicos da periferia, com sanfona,
zabunba, violão e cavaquinho. No meio da festa os músicos, depois de alguns goles,
puseram-se a baixar o nível do repertório e principiaram a atacar, animadamente, uma
toada sertaneja um tanto maliciosa que tinha como refrão:

“O pau rolou
– Caiu
Moça emprenhou
– Pariu!”

Ao ouvir isto o dono da casa enfureceu-se e gritou: – “Para! Para! Já e já. Onde
já se viu! Isso não é toque que se toque em casa de família...” Os músicos protestaram
inocência e procuraram advogar em favor da popularidade da toada, em grande voga
pela cidade. O anfitrião não consentiu. – “Em minha casa, não! Aqui não se toca esse
‘pau rolou’!” O caso do “pau rolou” ficaria famoso nos altos da rua da Glória.
Outras vezes eram os pais, vigilantes das filhas que criavam casos. Dona Júlia,
por ocasião mesmo das festas do centenário acabou com a alegria das filhas. A sua
presença nos bailes e sua vigilância tornava apta a viúva a julgar o comportamento dos
rapazes e ao dirigir-se a uma festa as filhas ficavam sabendo quais aqueles que deviam
ser recusados. Zeneide, por essa época, já namorava o moço Augusto Conde, neto do
Cel. Pedro Melquiades (de Piracuruca). D. Júlia gostava muito do rapaz e além de sua
censura pessoal, passou a ouvir as discriminações propostas pelo rapaz, principalmente

114
com respeito a Zeneide. Uma das implicâncias deles era dirigida ao Julio Leão, aquele
garboso filho do Cel. Cincinato de Arêa Leão (já falecido) e sobrinho de D. Sérgia.
Na programação do Centenário houve três bailes seguidos no prédio da
Prefeitura Municipal. Ao dirigir-se ao primeiro deles D. Júlia recomendou à Zeneide
que evitasse dançar com o Júlio Leão. No meio da festa ela pilhou os dois dançando.
Acabado aquele número, D. Júlia juntou as filhas, assustadas sem atinar com a causa, e
pôs-se a caminho de casa. As irmãs irritaram-se com a irmã por lhes haver feito perder
uma festa tão boa. Ao atravessarem a praça (Marechal Deodoro) emparelharam com o
Cel. Cavour Miranda que fizera o mesmo com suas filhas, porque uma delas dançara
com um rapaz fora do agrado do pai. As moças Figueiredo e Miranda juntaram-se no
pesar por haver perdido o baile, pondo na berlinda as irmãs responsáveis pelo fiasco.
D. Júlia não levou as filhas aos outros dois bailes, exceção feita a Graci deixada
ir aos outros bailes na companhia do jovem Nereu Bastos, vizinho e amigo em quem ela
depositava inteira confiança. Nereu será inclusive padrinho de formatura de Graci no
início do ano de 1923. Nereu era filho do Cel. João Bastos, do Campo Maior, cuja
esposa D. Olimpia (Saiáia) era aparentada ao Major Gerson. Nereu era funcionário dos
Correios e Telégrafos e mais tarde, já depois de casado com uma moça do Para – Maria
Raimunda (Cotinha) Albuquerque, formou-se em direito, quando se criou a Faculdade
no Piauí. Moradores no mesmo quarteirão, o Dr. Nereu Bastos seria sempre um grande
amigo de D. Júlia e pessoa de confiança a quem ela, não raro, pedia orientação. Era una
daqueles suportes como o sobrinho Zuca (que iria mudar-se em breve para o Pará) e
Arthur Freire, cine faleceu ainda moço.
A jovem Zeneide, enredou-se muito em seu namoro com o jovem Augusto
Conde. E quando, logo mais, o rapaz partiu para estudar no Rio de Janeiro, firmaram
um compromisso de esperar para tornar-se noivos. Por causa desse compromisso – e
afastar as tentações – deixou de ir às festas e não ingressou na Escola Normal. Sempre
me causara estranheza que minha tia Gersila, que era a caçula, tivesse se diplomado
professora antes de Zeneide entrar para a Escola Normal.
Na minha meninice não me lembro de tia Gersila como “normalista” mas sim,
de Zeneide. Com o tempo fiquei sabendo que a espera e compromisso com o moço
havia sido a causa do atraso. Deu-se aí um lance novelesco que atrapalhou o namoro à
distância e que vale a pena registrar, embora traindo um “segredo de família”.

115
Os namorados correspondiam-se com regularidade. Até que o rapaz passou a
reclamar da falta de cartas. Reclamações que se continuaram sem que a moça pudesse
atinar com a razão, pois continuava a escrever semanalmente como sempre o fizera. As
cartas do rapaz rarearam até desaparecer. Durante algum tempo permaneceu o mistério.
Só depois de decorrido algum tempo seria explicado.
Aconteceu que a prima Noca (Justina) filha de tia Marocas Fernandes, que ficara
viúva do Sr. João Ferreira Gomes, que era funcionário dos correios. Este senhor padecia
do coração e morreu após longo sofrimento. A título de ajuda, a viúva recebeu a
concessão de instalar em sua residência uma agência postal para recebimento de cartas.
Era uma prática vigente na época, essa concessão à particulares.
Noca passara a residir, à rua da Glória na esquina lateral fronteira à Casa da
Dinda e ali vivia com a mãe e a filha única – Julinha. As primas reuniam-se para
brincar, principalmente Gersila que era da mesma idade de Julinha. Um dia Dulce
estava em casa da prima quando esta pediu-lhe que apanhasse algo numa tal gaveta. Ao
fazê-lo Dulce percebeu um maço de cartas que, pela caligrafia e destinatário, percebeu
tratar-se de toda a série de cartas da irmã Zeneide endereçadas ao namorado. Ficando ali
na esquina a agência da prima Noca, Zeneide a ela recorria para postar as cartas. Em
confiança dava a tarifa dos selos sem preocupar-se em colá-los pessoalmente já que a
correspondência ficaria ali até a passagem do serviço de coleta das agências para o
Correio Central. Dulce observou que as várias cartas, sequer estavam seladas. Dulce
contou a mãe o que vira. Esta indagou de Zeneide se ela tivera o cuidado de selar as
cartas. Ela disse que as vezes nem ia a agência e aproveitava a passagem da prima e
pedia-lhe para postar a carta, para o que lhe dava os níqueis correspondentes à tarifa.
O caso era estranho. Difícil de explicar. Por que as cartas não haviam seguido?
Difícil era entender a razão. A tarifa era barata naquela época, sendo difícil admitir que
houvesse sido por causa do dinheiro. Por que motivo então? – Teria Dulce se enganado?
Seriam mesmo as cartas de Zeneide? Aquela dizia que estava segura do que vira. O que
fazer? Indagar da prima iria certamente criar um caso e provavelmente uma briga, o que
magoaria Madrinha Marocas – a quem Júlia estimava muito. Já se passara algum tempo
e até corria a notícia que o rapaz ficara noivo no sul. Melhor seria não dizer nada. Após
algum tempo juntou-se o outro lado da moeda. Diante da ausência de cartas o rapaz
pedira ao avô para que indagasse o que estava acontecendo. Este, que não via com bons

116
olhos um casamento do neto com moça pobre, filha de viúva, respondeu ao rapaz que o
melhor seria que ele esquecesse a moça pois fora informado de que ela estava noiva de
um sargento da Polícia...
Assim, sem combinação a prima da moça e o avô do rapaz desataram o laço que
os dois jovens haviam dado para unir os seus destinos. Zeneide, ingressou na Escola
Normal, depois da irmã caçula já estar trabalhando como professora. Além da perda de
tempo, os anos de espera, a desilusão foi o que restou. E esta frustração marcaria a moça
para o resto da vida. Zeneide seria, dentre as irmãs, aquela que seria marcada por um
“karma” que a acompanharia ao longo da vida.

2.4. Perfil da jovem Graci


A primogênita do Major Gerson e D. Júlia foi menina tímida e sensível, afligida
pela perda do irmãozinho78 aos seis anos e traumatizada pelo assassinato do pai aos sete.
Ao fazer-se mocinha desabrochou em sua beleza tipicamente brasileira, de
mescla lusitana (Gonçalves Dias) e mameluca (Figueiredo). Era de um moreno pálido,
com cabelos negros finíssimos e não muito fartos. Seus olhos eram negros, daqueles que
em vez de incisivamente brilhantes eram, antes, amortecidos por uma certa penumbra.
Ao ler a descrição do “olhar de mormaço” da Capitú de Machado de Assis não me foi
difícil entendê-lo pois que o associei, de imediato, ao olhar de minha mãe.
Desenvolveu-se em altura ao ponto de ultrapassar a média das moças
nordestinas, sendo considerada “alta” nos seus 1,68m79. Era bem delgada de talhe, tendo
sido magra até por volta dos quarenta anos quando começou a “tomar carnes”, sem
jamais ter sido gorda.
Segundo as irmãs era a favorita e protegida da mãe. Esta negava e dizia que o
seu afeto dirigido a ela era recíproca ao que a filha lhe dava. Talvez fosse mesmo a
preferida. No meu testemunho notava que D. Júlia tinha muito apego a Zeneide, que era
mais frágil e melindrosa. Mas certamente Dulce não merecia o mesmo tratamento.
Aquilo que se iniciara desde cedo, continuou pelos anos a fora. O relacionamento das
duas sempre foi meio difícil, o que traria problemas de rejeição para a segunda filha.
Gersila mereceu as graças de caçula das moças, protegida pela mãe e também pelas

78
Veja-se a carta de Gerson a Júlia, datada de 21.04.1911 e reproduzida no Volume AS ARMAS E AS
MÁQUINAS, à página 91-92.
79
Tinha a mesma altura de meu pai que, para estatura de homem, era mediano ou baixo.

117
irn1as. Era aquela de temperamento mais extrovertido e alegre. Gerson, o verdadeiro
caçula e além disso homem, tinha atenção diferente.

RETRATO DE GRACI
Gracilde Dias de Figueiredo, primeira filha de Gerson Edison de Figueiredo e D. Júlia Dias, em foto
tomada cerca de 1922, aos 17 anos de idade.

Da menina da Escola Modelo e de Dona Carlota passou a adolescente que


ingressou aos 14 anos na Escola Normal Oficial do Estado do Piauí (1920). Este
ingresso deu-se após a epidemia da gripe espanhola que grassou em Teresina, mas da
qual ela e as irmãs escaparam, para felicidade da aflita D. Júlia, que perdera, na ocasião,
o seu irmão Arthur.
Naquela época a Escola Normal vagava ainda por prédios particulares. Em sua
entrada e boa parte do curso ela funcionou no grande prédio da esquina da Rua do
Amparo com a Praça Marechal Deodoro, onde no meu tempo, funcionou o Teresina

118
Hotel. A sua foi a primeira turma de professoras a colar grau no prédio novo, o
imponente edifício que hoje é sede do Palácio de Cultura, da Prefeitura Municipal.
Naquela época o curso normal era de 4 anos. No meu tempo já era antecedido
por 2 anos do Curso de Adaptação, após os 4 anos do primário e tinha a duração seriada
de 5 anos. As turmas ingressavam com muitas candidatas, quase exclusivamente de
moças, e ao concluir-se o curriculum se achavam bastante reduzidas. Em parte por
reprovação, pois havia seriedade no ensino e rigor nos exames. Em parte também
porque o curso normal coincidia com o período “normal” de casamento das moças e
quase sempre, ao noivarem, as moças abandonavam o curso.
Gracilde foi uma aluna estudiosa e esforçada, classificando-se numa posição
mediana. As notas eram regularmente publicadas no Jornal “O Piauhy”. Pilhando-se, ao
acaso, as notas da disciplina de Francês das alunas do Segundo Ano, encontra-se o
seguinte:

ESCOLA NORMAL – Resultados dos Exames de 1ª Época


2º Ano – FRANCÊS
Aprovada com DISTINÇÃO:
Maria Antonieta Ferraz Burlamaqui ....................... 10
Aprovadas PLENAMENTE:
Ana Burlamaqui Nogueira Pieres de Castro ........... 9
Iracema Riba-Mar Costa ........................................ 9
Hylda da Paz Ribeiro .............................................. 8
Antonia Costa Basilio da Silva ............................... 8
Altina Couto Castelo Branco .................................. 7
Aprovadas SIMPLESMENTE:
Raimunda Castello Branco de Souza ..................... 6
Gracilde Dias de Figueiredo ................................... 6
Maria Eenriqueta Cruz ........................................... 5
Maria das Neves e Silva ......................................... 5
Zirza Boavista da Cunha ........................................ 5
Anna de Mello Falcão ............................................ 4
Alice Pires Sampaio ............................................... 4

Ao mostrar, agora (1992) esta relação de notas a minha mãe ela sorri e diz:
“Logo de Francês, meu filho! Era matéria em que eu tinha a maior dificuldade. Nosso
professor era o Dr. Hygino Cunha, já de certa idade, com um pigarro na voz rouca,
escondida atraz de espessos bigodes que lhe caiam sobre a boca. Não se ouvia direito as
explicações, sempre entremeadas de tosses e pigarros. Os “ditados” eram calamitosos.
Na escola, as alunas em dificuldade, eram ajudadas pela Antonieta Burlamaqui, colega

119
muito bondosa e prestativa. Fora dela eu recorria ao primo Zuca que, embora muito
ocupado com seu colégio, dava-me algumas lições.
Os professores naquela época e segundo a lembrança de minha mãe eram:

Português – Leopoldo Cunha, o mais jovem dos docentes, solteiro


àquela época.
Francês – Dr. Hygino Cunha
Matemática – Sr. José Amavel
Geografia – Dr. Celestino Franco de Sá
História – Dr. Anísio Brito
História Natural – Dr. Manoel Sotero Vaz da Silveira
Desenho – Sr. Alvaro Freire
Música – D. Firmina Sobreira
Pedagogia – D. Lelia Avelino.

Daquela relação de colegas do 2º ano, só concluíam o curso em 1923 apenas


quatro: Antonieta Burlamaqui, que se manteve sempre como a primeira aluna. Tinha
idade acima da média da classe e sua entrada para a Escola Normal deu-se para
“oficializar” uma instrução já bem cuidada, inclusive em colégios particulares fora de
Teresina. Ela seria depois professora da Escola Normal durante muito tempo.
Permaneceu solteira, era bonita e de aspecto fidalgo, muito distinta, segundo guardei na
lembrança. Outra concludente foi Anita Pires (Ana Burlamaqui Nogueira Pires de
Castro) filha do magistrado Pires de Castro e futura esposa do oficial do Exército Jacob
Manoel Gayoso e Almendra, importante chefe político e futuro Governador do Estado.
A terceira foi Antonieta l3asilio (Antonia Costa Basilio da Silva) que seria a grande
amiga de Gracilde. Era filha do tabelião José Basilio da Silva, do Campo Maior, do seu
primeiro matrimônio do qual foi única filha. Helena, sua madrasta, deu muitos outros
filhos a José Basilio e foi muito amiga da enteada. D. Júlia, minha avó, tinha grande
amizade a José Basilio e sua família. Antoninha e Gracilde foram colegas inseparáveis.
Estudavam juntas por ocasião dos exames, ora na casa de uma ora na casa de outra onde
se instalavam enquanto durassem os exames finais. Antoninha casou-se com o Sr. José
Burlamaqui, irmão de Antonieta. Era funcionário do Banco do Brasil, transferindo-se
após para São Paulo, onde viveu muitos anos na cidade de São Manuel, a terra de
Adhemar de Barros.

120
A quarta concludente de 1923 foi Gracilde. A cerimônia da Colação de Grau foi
presidida pelo então Governador Dr. João Luiz Ferreira e realizou-se a 13 de janeiro de
1924. Na solenidade, Gacilde teve como padrinho o Dr. Nereu de Figueiredo Bastos,
como já assinalei.
Diplomada, começaria a dificuldade para iniciar a “carreira” de professora
primária do Estado. Naquela época havia uma organização mediante a qual as
professoras primárias deveriam cumprir um circuito de atuações pelo interior do Estado,
segundo uma organização hierarquizada em “entrâncias” que se dispunham dos
municípios mais distantes ou menos desenvolvidos (1ª entrância) até atingir a capital,
que era a maior (4ª entrância).
Para D. Júlia o ingresso da filha mais velha no magistério primário estadual
representava algo de ansiosamente esperado. Nada mais nada menos do que o primeiro
dinheiro “certo” a entrar em casa desde que a pensão caridosa e palaciana do Governo
Miguel Rosa se extinguira na inauguração do Governo Euripedes de Aguiar (1916).
Como os salários eram baixos, segundo a entrância, não se afigurava a possibilidade de
que a moça partisse para um município distante onde teria que pagar hospedagem.
Surgiu, de início, uma perspectiva de que ela assumisse uma escola rural no
atual município dos Altos, mas o salário era tão irrisório que não valia a pena sair de
casa, pois não retornaria nada para a mãe.
Assim, nos primeiros anos, Gracilde viu-se forçada a permanecer na capital,
junto à mãe e para tanto só lhe apareceram duas possibilidades: uma seria aquela de
trabalhar na rede de escolas do município, cujo salário era bem inferior àquele da rede
estadual; a outra seria aquela de ser admitida como “substituta” das docentes efetivas da
rede estadual da capital nos seus afastamentos regulamentares, o mais frequentemente
em casos de licença para dar-a-luz.
Por esta época, sem que possa precisar a data, deu-se um fato interessante a
registrar. No bom espírito brasileiro de “pistolão” D. Júlia – no afã de conseguir
trabalho para a filha na capital – resolveu recorrer ao “compadre Miguel Rosa”, a essa
altura já refeito da impopularidade do final do seu governo, e, como membro da elite,
desfrutando de uma alta posição. Na época, se não me engano, seria juiz federal. Levou
cuidadosamente anotada a substituição que se anunciava próxima, entregando os dados
ao “protetor”. D. Júlia saiu esperançosa e ficou acompanhando a desejada nomeação na

121
coluna especializada do jornal “O Piauhy”. Um belo dia encontrou o provimento da
função indicada ao compadre designado para a filha deste, Dagmar, também professora
recém formada. “Mateus, primeiro os teus!”, já se encontra na Bíblia.
Assim o início do “curriculum-vitae” de Gracilde registra: uma nomeação – a
primeira – a 2 de setembro de 1924 para a Escola Municipal “Presidente Epitácio”, o
que durou pouco. O intendente municipal era o Dr. Manoel da Paz que teve sua gestão
conturbada por feroz oposição que acabou por destituí-lo do cargo. A segunda
oportunidade surgiu para substituir, na Escola Modelo “Arthur Pedreira”, a professora
Maria de Lourdes Abreu e Silva. Isso no ano de 1925 ao final do qual ocorrerá seu
casamento.
Antes desse importante evento, vejamos como decorreu a vida sentimental da
menina-moça Graci até a decisão de seu casamento com Mundico Leão.
Quando, por volta de 1934-35, eu era aluno recém entrado na Escola Modelo, e
residindo com minha avó lembro-me que ela hospedou uma moça da Parnaíba – Maria
de Lourdes Pires, irmã de Silvio e filha de D. Quetinha Pires que é nome de uma das
ruas centrais da cidade da Parnaíba. Era moça viajada, conhecera o Rio de Janeiro.
Tinha o cabelo cor de fogo, cortado a-la-garconne. Era muito simpática e espirituosa.
Lembro-me bem que com ela aprendi a pronúncia correta do nome “Shirley” pois
naquele tempo fazia furor a pequenina Shirley Temple do cinema americano. Certo dia
ouvi – as crianças estão sempre de antenas ligadas à conversa dos adultos – uma ponta
de conversa entre Lourdes e minhas tias. A certa altura aquela declarou – “Vocês são
uma ingênuas. Umas pobres coitadas. Nunca digam a ninguém que vocês “namoraram”.
O que vocês tiveram não passou de “flirts” pois namoro, namoro mesmo tem que ter
“beijo na boca”, que nem nos filmes... Minhas tias Dulce e Zeneide ouviram aquilo,
acharam graça e talvez tenham sentido uma certa frustração pelas oportunidades
perdidas. Aquela altura elas já se aproximavam dos trinta anos, limite fatal após o que
as solteiras irremediavelmente viam-se condenadas a condição de “tias”. Só as irmãs
das extremidades – Cracilde, a mais velha e Gersila, a caçula, haviam casado.
Fosse pela época, fosse pela vigilância permanente de D. Júlia, as filhas do
Major Gerson devem ter estado circunscritas aos “flirts”. Talvez a caçula, que ousou
dançar o “Charleston”, tenha rompido a barreira e experimentado algum namoro.

122
Sendo o caçula seu período de festas veio um pouco depois daquele das irmãs.
Um dia D. Júlia a pilhou “feito uma louca”, ciscando que nem galinha no meio do sótão.
“Que é isto? Está ficando doida? Já pra casa!” – Mamãe é o Charleton, uma dança nova
na ultima moda, explicou – sem êxito – a garota. Esta foi a mais expansiva, alegre e
namoradeira, das filhas de D. Júlia. Ao que esta mobilizava uma explicação: – “Puxou
para D. Lydia, a irmã do pai”.
O rol dos namorados da Graci não é difícil de recompor pois que ela não foi tão
namoradeira quanto sua prima Maria do Carmo, filha de Celé e Abílio Veras. Além de
muito bonita, morena de olhos verdes, Maria era bem solicitada e volúvel. Demorou a
entrar na Escola Normal, o que se deu quando Graci já estava adiantada no curso.
O primeiro namorado de Graci foi o jovem Nilson, filho do Senhor Antônio
Rodrigues Monteiro, falecido precocemente, e D. Júlia, uma das filhas do Coronel
Manoel da Paz, ex-prefeito e vice-governador. Talvez ela tivesse os seus 14 para 15
anos. Ele era um soldadinho guapo pois cedo ingressara no Exército. Ao contrário dos
seus primos Costa Araújo, que se dirigiram ao Rio para a Escola Militar, Nilson
principiou como praça, para só após ingressar na carreira e atingir o oficialato. Era
muito amigo do primo Gerson Veras que pôs o nome dele no seu segundo filho. Um
namorico de curta duração. O rapaz iria para o Rio de Janeiro. Mas tarde viria a casar-se
com uma das filhas do Cel. Cavour Miranda. Mas conservou-se uma amizade que já era
de família. Graci era amiga das irmãs – Alcy e Addy. Destas irmãs, a mais velha era
Clotilde, e os outros irmãos eram Antonio Júlio, (o primogênito), Armilo e Antonio
Monteiro Filho (Monteirinho). Nilson era o penúltimo dos homens. Depois de oficial
Nilson casou-se com Onesinda Cavour e teve filhos: Manha, Renato e Leticia. A
amizade com D. Júlia e suas filhas foi sempre mantida. Quando servia ao Exército no
Piauí, passava sempre pela Rua da Glória, vindo do quartel. Lembro-me do garoto
Renato, menor do que eu, pois minha mãe casou-se antes de Nilson. Muitos anos
depois, os dois se reveriam no Rio de Janeiro, ele já reformado: o General Nilson
Rodrigues Monteiro.
O segundo foi Henrique, filho do Major Domingos Monteiro – aquele do Campo
Maior, amigo de Gerson Edson e que foi prefeito de Teresina. Graci já era aluna da
Escola Normal. Ela recorda que ele foi, nessa época, gerente de um cinema que se
instalara na vizinha rua da Estrela e que dera uma entrada “permanente” para ela e as

123
irmãs. Henrique Monteiro migraria para o Sul, vivendo em São Paulo onde era fiscal de
rendas federais. Minha tia Zeneide, nos anos sessenta, de passagem por São Paulo, o
visitou, conhecendo-lhe a família.
Graci parecia ter atração pela farda pois no rol se incluem mais dois militares.
Um breve “flirt” com Almir Campelo, um rapaz de Teresina. Como os demais cadetes
da Escola Militar, quando em férias em sua cidade, apresentava-se ao 25º BC e
utilizavam-se dos cavalos para exercitar-se. Yayá Mundica, a tia, ao cair da tarde vinha
juntar-se às sobrinhas, filhas de Júlia, e sentar-se a calçada. Um dia, postada entre Graci
e Dulce ela assistiu a uma exibição daquele belo cadete, fazendo audaciosos saltos do
chão para a cela, e concluiu que o olhar do moço dirigia-se a Graci.
Houve também um namoro, que se transformaria em grande e duradoura
amizade, com o cadete Luis da Rocha Santos, que seria um grande amigo da família
para sempre. Luiz era filho de um Rocha Santos – tradicional família de Picos, que
faleceu precocemente. D. Zizi, a viúva, casou-se segunda vez com o Coronel Josino
Ferreira, irmão do Dr. Gabriel Ferreira – o construtor do Palácio de Karnak, pai de Felix
Pacheco e João Luis Ferreira. Tinha outros filhos – Pedro (o Pepê) e as moças Zilda e
Zuleide. A primeira casou-se com Dr. Othon do Rego Monteiro advogado e a segunda
com o Dr. Luis Pires Chaves, engenheiro, um dos grandes prefeitos de Teresina. Zilda
foi muito amiga de minha mãe e lembro-me de que eu a achava linda, pois era diferente,
um pouco ruiva. D. Zuleide, morena, de tez bem clara, como de porcelana, era um outro
tipo de beleza. Do casamento com o Cel. Josino, D. Zizi tinha um filho José de Ribamar
(o Ribinha).
Luiz Rocha Santos em suas visitas ou períodos de inspeção militar à Teresina,
sempre visitou a casa de D. Júlia, Casou-se com moça do Sul e teve filhos. Quando vim
para o Rio de Janeiro, mamãe recomendou-me ao então Coronel Rocha Santos, que me
recebeu com muita atenção e até procurou arranjar-me um emprego. Por esta época ele
era um notável professor na academia das Agulhas Negras.
A época do namoro de Graci e Luis Rocha Santos foi aquela em que Mundico
Leão a conheceu e a abordou. Insistindo em substituí-lo dizia a Graci que o militar era
comprometido com uma prima de Picos, moça muito rica, e que não se casaria com uma
moça pobre como era ela. Com a volta do cadete para o Rio ele insistiu no assédio.

124
Nesse meio tempo, deu-se a sua ida para a Alemanha e a remessa da série de cartões
postais.
Durante esse período de afastamento do Mundico, surgiu um moço do
Maranhão. Graci recorda que numa procissão religiosa que acompanhava com a prima
Iracema Veras, notou que um moço alto, moreno e muito bonito, as seguia à distancia.
As duas primas discutiam sobre para quem seriam os olhares insistentes do moço.
Iracema concluiu que seriam para Graci.
Dias depois, ao chegar ao salão de D. Aninha Oliveira, para uma das festas
dançantes Graci deu de olhos no rapaz que estava recostado ao piano. Era aquele da
procissão. Em pouco ele arranjou um conhecido para fazer as apresentações e
principiaram a dançar. Começou o namoro que seria comunicado ao Mundico, no Rio
de Janeiro, de volta da Alemanha como “noivado”. O rapaz maranhense, comerciante
em São Luiz, chamava-se Joaquim Carvalho. Sua permanência em Teresina foi breve.
Quando Mundico regressou ele estava saindo. Poucos anos depois soube-se em Teresina
do seu falecimento em São Luiz.
Graci admite que gostava das festas e sobretudo de dançar. Dentre os rapazes da
sociedade local havia alguns que – sem pretensões a namoro – eram parceiros muito
apreciados. Dentre estes, destacava-se o Marcelino, filho do Dr. Clodoaldo Freitas, uma
velha amizade na família.
Ainda havia aqueles rapazes que freqüentavam a casa, colocavam-se sob a
proteção de D. Júlia mas não conseguiam ultrapassar o nível de amigos. Tal foi o caso
do Castrinho Velloso. Um rapaz de quem D. Júlia gostava muito e até curou de asma,
graças a uma mesinha que ela sabia preparar à base de leite de pinhão branco e clara de
ovos. Minha mãe lembra que gostava dele mas não o namorava. Castrinho, funcionário
dos Correios e Telégrafos iria radicar-se mais tarde na Parnaíba onde casou-se com
moça de lá. Tendo, dentre os filhos João Paulo dos Reis Veloso, economista e futuro
Ministro do planejamento dos governos militares. O outro filho era Luiz Gonzaga, um
economista que faleceu, muito moço, num desastre aéreo na Paraíba. Este outro filho de
Castrinho Velloso foi colega de minha prima Vilma de Figueiredo Rêgo, na Faculdade
de Direito em Teresina, no início dos anos cinqüenta. Comentava-se na família que a
história se repetira, pois que Vilma – muito parecida com sua tia e madrinha Graci – era

125
muito amiga do Velloso. Mas foram apenas bons amigos. Tanto que Vilma o escolheu
para um dos padrinhos do seu casamento com o engenheiro paulista, José Cesar Lobo.
Os tempos de normalista (1920-1923) para a jovem Graci e suas irmãs foram
aqueles gloriosos anos dourados. Dulce, embora acanhada, achando-se feia, também
tinha os seus namoricos: um certo Dico Lago a quem ela rejeitava, Umbelino Sales – do
colégio do primo Zuca – e José Leão, irmão do Mundico. Zeneide, teve como
namorados João Paulo Leão Monteiro – com quem fazia um par de exímios dançarinos
de tangos – e o primo Julio Leão. A esse último concorrente veio disputar o lugar o
jovem Augusto Conde, que mereceu todo o apoio de D. Júlia, e passou a anular as
preterições dos outros rapazes.
A grande verdade é que na sociedade de Teresina daquela época – como talvez
por toda a região do Meio Norte e Nordeste – a passagem do namoro ao noivado, se
impregnava de um indisfarçável interesse, cujo jogo econômico presidia as normas para
se chegar ao contrato de casamento.
Embora “de boas famílias” era difícil para uma moça filha de viúva, sem renda e
posição de destaque político, encontrar um marido. Seria preciso um caso especial “de
amor” para que um rapaz viesse a superar essas barreiras.
O caso de Mundico Leão deve ter sido de amor. Ou pelo menos uma disposição
de teimosia. Acostumado a obter tudo o que desejava, deve ter-se dado conta de que o
único meio de chegar à cama com a filha de D. Júlia Figueiredo seria pela porta do
matrimônio. Ao mesmo tempo, como sempre fora um quebrador de normas não o
preocupara chegar ao matrimônio após alguma reflexão ponderada com previsão
planejada para o futuro. Para ele o que devia importar era a satisfação imediata de um
desejo ou um capricho.
E as dificuldades inicialmente encontradas desde antes da viagem a Alemanha
seriam, para ele, um desafio. O rompimento com o pai tornava necessário que
conseguisse um “emprego”. De preferência federal. Com seu relacionamento com os
políticos locais – inclusive com o Dr. João Luis Ferreira (para irritar o pai) – direta ou
indiretamente viu-se nomeado para um cargo na Diretoria de Obras Contra a Seca. Um
emprego, mais do que um “trabalho”, pois que a vida era bela, ele era jovem e devia
aproveitá-la.

126
D. Júlia via com apreensão o assédio do jovem Mundico. A volta da Alemanha
dava-lhe uma espécie de aura de “moço rico”, e inegavelmente de boa família. A mãe
era uma Arca Leão. O Major Santídio era muito bem conceituado e estimado na cidade.
Mas não havia dúvidas de que o rapaz era um doidivanas. As estórias que corriam sobre
ele eram bem conhecidas. A rua da Glória, de vez em quando, estremecia ante os
estouros da possante moto DKW do rapaz. Uma vizinha de frente, gritava da janela. “D.
Julinha, aí vem a peidona...” Era o sinal de que o moço estava chegando para recostar-se
à janela.
Nesse meio tempo surgiu um pretendente vantajoso – a antítese mesmo daquele
endemoniado Leão do Santídio. Tratava-se de um médico, filho da terra, radicado pelo
Sul e que voltara à terra prestando serviço à Secretaria da Saúde. Já estaria pelos trinta,
era sério e respeitador. Recorrera aos serviços de uma amiga da família para aproximar-
se da moça. Oferecia o seu automóvel – raridade na época – para que a senhora reunisse
moças, inclusive a Graci, para passear pela cidade.
A senhora em questão era um personagem das mais curiosas e interessantes, mas
sobretudo anti-convenciomais, quiçá exótica por excelência. Era D. Adelica Nogueira,
esposa do Sr. Leônidas Nogueira, filho do ex-Governador Dr. Arlindo Nogueira (1900-
1904). Após um desentendimento com o sogro Adelica enviou-lhe numa bandeja de
prata, coberta com fino pano bordado, uma compoteira de cristal cheia ... de merda!
Durante as festas de adro da Igreja de São Benedito ela divertia-se levando cartelas de
alfinetes, pregando as saias das senhoras de idade que, muito contritas, rezando, não
percebiam que estavam tendo suas longas e rodadas saias presas às vizinhas. Ao findar a
oração e ao levantarem-se para partir era aquele Deus-nos-acuda de saias rasgadas,
presas umas às outras, o que, não raro, acabava em brigas sérias.
Com o automóvel do médico a sua disposição D. Adelica punha-se a passear
com Graci e Lavinia – uma moça grandalhona sobrinha da esposa do Sr. Apolinário
Monteiro (irmão do major Domingos Monteiro) e mais sua filha Sinharinha e Gersila,
irmã de Graci, estas duas garotas ainda (11 e 12 anos).
Graci costuma dizer que não acreditava que o médico, de alta posição, quisesse
casar com ela. Imaginava que ele queria um passa-tempo enquanto estivesse servindo
em Teresina. Parece mais certo que para uma mocinha de 18 anos um pretendente
passado dos trinta não oferecesse atrativo. Assim, além dos divertidos passeios

127
promovidos por D. Adelica, não chegou a haver aproximação entre ela e o Doutor em
questão.
Tal pretendente serviu mais ainda para fazer ressaltar, aos olhos de D. Júlia, a
enorme diferença representada pelo desmiolado Mundico. Mas o rapaz era insistente e
perseverante. Acabou por ser recebido em casa para o namoro e apalavrado em
casamento.
A chegada da Coluna Prestes às portas de Teresina, no final de 1925, viria
apressar o enlace. Mas antes que cheguemos lá há um caso importante na família a ser
relatado.

2.5. Estória de Amor do Primo Zuca: com rapto, perseguição e fuga.


Ao concluir o curso na Escola Normal a turma de 1923 escolheu como Paraninfo
o Professor Anísio Brito. O fundador do Arquivo Público do Estado do Piauí era um
docente dos mais queridos pelas alunas que assim o homenagearam. O mestre, em
retribuição, organizou, antes da festa de colação, um pique-nique no Poti Velho. As
normalistas, professores e convidados partiram em lanchas, do porto fronteiro a Praça
Marechal Deodoro, onde ficava a Escola Normal.
O Poti Velho é um local muito aprazível. Na confluência do rio Poti com o
Parnaíba, o sítio da antiga vila do Poti que, transferida para o sítio novo por José
Antônio Saraiva, o futuro Conselheiro, daria origem a Teresina (1852), nunca se
extinguiu. Permaneceu sempre o Poti Velho.
A festa decorria animada, sob as mangueiras de uma quinta. Entre comes e bebes
a conversa fluía muito animada. Graci começou a perceber algo de muito estranho e
aproximando-se de sua grande amiga e companheira de estudos Antoninha Basilio
confidenciou-lhe:
Antoninha, eu estou ficando completamente sem graça. Não sei o que está
acontecendo aqui. Cada vez que me aproximo de um grupo que está conversando
animadamente, com a minha chegada, percebo que a conversa pára de repente. Há uma
desconversa, meio a contra gosto e, a pouco e pouco, se passa a outro assunto.
– Impressão tua! diz-lhe Antoninha.
– Não é impressão. É certeza. Veja só. Ainda há pouco o Ardrubal Martins
encabeçava animadamente uma conversa que parecia interessar enormemente a todos os

128
circunstantes. No que eu me aproximei, a conversa parou. Por último, aconteceu o
mesmo com o Agripino Oliveira, que eu estimo tanto, e parece tão amigo, fez o mesmo.
– Não sejas boba. Não é nada contigo. Para não te afligires vou contar-te o que é.
Todos sabem que tu és prima do Zuca Veras e está correndo, por toda a cidade, a notícia
que ele raptou a Nair de Castro. O Cel. Sinval pai dela, mais o genro Totonho Veloso,
estão, com a polícia, a procura dos dois. Estão percorrendo e vasculhando as casas de
todos os teus parentes a procura do Zuca, que está correndo perigo de vida.
Graci entendeu a razão. Mas estava completamente alheia ao caso. Passara estes
últimos tempos alojada na casa do Cel. José Basilio, estudando para os exames finais e
em preparativos para a colação de grau com a amiga Antoninha. Não sabia de nada. E
nem poderá sabê-lo, pois, como se verá, o rapto havia sido cuidadosamente planejado e
executado com maestria. Só o tempo iria deixar desvendar-se o mistério, mesmo no seio
da família.
Ao voltar para casa Graci encontrou D. Júlia aflita, preocupada com a irmã Celé,
com a casa cercada pela polícia, inclusive com o ressoar de patas de cavalo sobre sua
calçada. Os perseguidores do casal, com assessoria da polícia, já haviam estado em casa
de D. Júlia e na de todos os parentes. A única em que não entraram foi na casa da prima
Noca que armou um escarcéu dos diabos. Botou a boca no mundo e desacatou o velho
Castro e os Veloso. Prevaleceu-se da “agência dos correios” e disse: – “Aqui é uma
repartição federal e não entra ninguém! Nem a polícia! a não ser com ordem do Juiz
Federal!”
Mas afinal é verdade? Zuca roubou a Nair? Fugiam para onde? D. Júlia, nem
ninguém, sabia explicar. O que D. Júlia sabia é que há algum tempo o Zuca vinha
ministrando aulas de francês às moças do sobrado dos Velloso, na praça João Luiz
Ferreira. O Santinho, marido da Celsa, ouviu comentários sobre um namoro entre o
cunhado Zuca e Nair, filha do Cel. Sinval de Castro. Dirigiu-se ao sogro, Abílio Veras,
perguntando se este sabia de algo sobre a suposta atitude do seu filho mais velho, o
Zuca.
Pouco tempo após o seu retorno da Europa, por causa da guerra, Zuca casara-se
com Leonor Soares, um casamento de curta duração que acabou em briga, inclusive
com lance de uma série de golpes de relho, em praça público (Rio Branco) do Zuca em

129
seu sogro Thomas de Aquino Soares. Foi um escândalo, desses que se abafou, em
família, como um segredo de estado.
Para Santinho era inadmissível que o cunhado, um homem “casado”, se
atrevesse a engraçar-se com uma moça de ótima família como era a do seu amigo Sinval
de Castro. Avisou Santinho a Abílio que o seu dever de lealdade ao amigo Sinval exigia
que o avisasse do que ouvira. E assim o fez. O velho Sinval ficou alarmado. Botou a
filha Nair em confissão e esta, veementemente, negou tal envolvimento com o professor
de francês. Uma grossa e despropositada calúnia. O pai, arrependido ante o pranto da
filha, pediu-lhe perdão e deu o caso por encerrado.
E agora acontece! E da maneira mais misteriosa possível. Os Castro e os Velloso
vasculharam a cidade por todos os quadrantes. Entraram vistoriando casas de parentes
Veras e Gonçalves Dias. Como em tempo de guerra, mentira é como terra, corriam os
mais desencontrados boatos e avisos. Os fugitivos tinham sido vistos na Vila das Flores!
Não, tinham seguido para os Altos, ... Cada um ajuntava um informe contraditório.
Os moradores das vizinhanças da pracinha davam-se conta que na véspera da
fuga, a moça Nair tocara longo tempo o piano que ressoava ora alegre, ora tristonho
sobre o arvoredo. Ouviu-se nitidamente a bela voz da moça cantando um saudosa
cavatina:
Adeus, campinas, rios e fontes
Adeus, que em breve eu vou partir
A procura de outros ares
Transpor os teus horizontes...
Era um aviso! E ninguém percebera! Os familiares e a polícia revistaram o que
foi possível. Os dias foram passando, passando, ... e não se tinha a menor notícia do
casal fugitivo. Com o passar do tempo o falatório foi declinando, vez por outra rompido
por uma falsa notícia. Foram vistos no Rio de Janeiro, em Manaus...
D. Júlia e as filhas passaram a notar uma atmosfera estranha na casa de Mãe
Celé. Todos tinham um ar preocupado e abatido. Também não era pra menos. Logo o
Zuca, o filho favorito de Celé. Era um duro golpe para toda a família. Por onde andaria
ele?
Agora a família percebia a meticulosidade com que Zuca tomara todas as
providências para encerrar, em ordem, as atividades do Educandário 24 de Janeiro. A

130
documentação dos alunos, a remuneração dos docentes, as contas saldadas. Tudo
calmamente. Parecia uma decisão planejada. Mas do rapto não havia do que suspeitar.
Graci era amiga de Nair de Castro. A queria muito. E não sabia de nada entre a
amiga e o primo a não ser que tinha aulas com ele. Mas também as sobrinhas dela80
estudavam francês com ele. Nair era inseparável de Odineia Velloso, a sobrinha mais
velha.
Passado algum tempo – uns dois a três meses, relembra Graci – num domingo de
habitual reunião em casa de tio Abílio e Mãe Celé, Maria do Carmo chama Graci,
reservadamente, e diz ter uma surpresa para ela. A conduz a um dos quartos dos fundos
da grande casa e ali, estarrecida, Graci depara com a amiga Nair. As amigas se abraçam
comovidas. Nair diz que não podia deixar de dizer adeus a Graci. Ela e Zuca, passada
toda aquela confusão, aquietadas as buscas, iam partir. Graci despede-se, emocionada,
da amiga e do primo, também muito querido.
Ao voltar a sala, ainda não recuperada da surpresa, Graci procura demonstrar
naturalidade. A irmã Dulce aproxima-se dela e sussurra-lhe: “Maria foi te levar para
falar com o Zuca, não foi? – Vocês pensam que eu sou boba; há muito tempo que eu
desconfiava que eles estavam aqui o tempo todo”.
O esconderijo é algo de romance de capa e espada. Mostra bem que os lances da
vida real não devem nada as elocubrações mais astuciosas da ficção.
Com a mesma meticulosidade com que regularizara seus negócios Zuca preparou
também o seu plano de fuga, de acordo com Nair. Numa chácara muito grande como a do
pai, de uma quadra inteira, não chamou a atenção que ele mandasse cavar uma fossa
próxima a uma das edículas no pomar. Despachados os trabalhadores que escavaram o
buraco, ele mesmo, forrou-o com esteiras, atravessou a abertura com travessões de
madeira forte, sobre o que fez colocar pilhas de lenha. Numa casa grande não causa
admiração o armazenamento de lenha para fogão e forno. Uma pequena passagem
camuflada por feixes de lenhas, facilmente removíveis, servia de entrada ao esconderijo.
Somente após tudo planejar e executar Zuca comunicou ao pai a sua decisão
inabalável de recompor a sua vida com a filha do Cel. Sinval de Castro. Nas

80
Nas famílias muito numerosas não é estranho o fato de haver tias da mesma idade – e até mais moças
que os sobrinhos. Tal era o caso entre os Castro e os Velloso. O Cel. Sinval de Castro teve mais de
vinte filhos (de duas mulheres). Nair, uma das mais moças do primeiro casamento era de idade
aproximada a sua sobrinha Odineia, filha de sua irmã Izaura, esposa do Cel. Antonio (Totonho)
Velloso.

131
circunstâncias só cabia aos enamorados o pacto de fuga, bem planejado para enfrentar a
ira da família da moça. Tio Abílio ficou altamente apreensivo mas, ante a firmeza de
decisão do filho, decidiu-se a ajudá-lo. Mãe Celé de rosário na mão pôs a rezar para que
a felicidade do filho pudesse ser alcançada.
No auge da crise o casal fugitivo ficava escondido dentro do buraco, escapando
às vistorias dos perseguidores. Na calada da noite, quando tudo parecia calmo, os dois
saíam do fosso e iam dormir num quarto, confortavelmente. Com a diminuição da
procura o casal passou a permanecer em casa diretamente, evitando a sala,
permanecendo pelos cômodos mais fora das vistas da criadagem. Em caso de qualquer
surpresa ou imprevisto mais urgente, escondiam-se na famosa dispensa, por traz das
muitas latas de mantimentos empilhadas às paredes.
Decorrido aquele tempo todo, com o retorno a calma, cessadas as buscas, o casal
tentaria o último lance. Após aquele despedida da prima Graci, uma noite, recolhidos as
cadeiras das rodas que se formavam às calçadas, à rua da Estrela, três caboclos, de
chapéu de palha e alpercatas, surrão às costas e varas de pescar ao ombro se dirigiam
calmamente à beira do rio Parnaíba. Mais tarde três mulheres, saias rodadas ao chão,
mantilhas sobre os ombros e trouxas de roupa às costas, desceram também à beira rio.
Os caboclos eram Zuca, ladeado por um dos irmãos e um primo. As mulheres eram
Nair, Mãe Celé e sua filha Doninha. Reunidos à beira-rio, o casal tomou um bote
descendo o rio até a fazenda Iracema. No dia seguinte, de madrugada, à cavalo, foram
alcançar a estrada de ferro em estação bem distante daquela da Vila das Flores pegar o
trem para São Luiz. De lá tomaram o navio que os conduziu à Belém do Pará.
O casal Zuca e Nair radicou-se em Belém. Ali vivendo do início de 1924 até o
início dos anos quarenta. Ali nasceu uma numerosa prole: Sinval, Nelly, Neide, Nair,
Nilza, Stelio, Sidney, Syllas, Silvio e Simas. Uma boa dezena de filhos na tradição
habitual das famílias, tanto os Veras como os Castro.
O escândalo produzido naquela Teresina da primeira metade dos anos vinte foi
indescritível, traumatizando as famílias Castro e Velloso. Os preconceitos eram de tal
monta que moça da família Castro Velloso teve noivado rompido, algo de inconcebível
nos dias de hoje. O que ressalta o ato de coragem do casal que soube lutar pela sua
felicidade.

132
PRIMO ZUCA VERAS
No verdor dos seus 20 anos, em foto tomada em Londres, cerca de 1912.

Seu necrológio num jornal de Belém do Para

133
Difícil encontrar-se casal mais harmonioso e feliz. Zuca, além de Licenciado em
Letras pela Universidade de Liverpool, formou-se também em Direito pela Faculdade
do Pará. Mas sua atividade básica seria a de professor de inglês, atividade exercida por
longos anos no mais tradicional colégio de Belém – o Ginásio Paes de Carvalho e,
complementarmente, na Escola Prática de Comércio da Associação Comercial do Pará.
Difícil encontrar uma personalidade paraense que, estudando entre 1925 e 1945 não
tenha sido aluno do Professor José Veras.
Após sua transferência para o Rio de Janeiro em meados dos anos quarenta
também lecionou inglês na Escola Superior de Guerra e na Escola Naval.
Uns dez anos após sua ida para Belém, minha mãe, sua prima Graci, o visitaria.
Foi uma memorável viagem feita em companhia de Mãe Celé e da prima Maria do
Carmo. Eu só viria a conhecê-lo quando, por ocasião da colação de grau de Maria Lucy,
a primeira filha de Doninha e Zezito Boavista da Cunha, no início dos anos quarenta, o
primo Zuca veio a Teresina para ser o padrinho de formatura de sua sobrinha. Além de
sobrinha Lucy seria sua nora pois, logo depois, casar-se-ia com o filho mais velho, o
Sinval, formado em Medicina e que viria a morrer de um pavoroso desastre de
automóvel na cidade do Rio de Janeiro.
Para mim era a estória de uma legenda incrível. Em menino sempre me fascinara
a estória de amor de Zuca e Nair. Eu a misturava às estórias de fada e capa e espada.
“Mamãe, conta a estória do primo Zuca”, era um apelo que, muitas e muitas vezes eu
fazia. E guardei essa estória de família como se guarda o enredo de um filme ou de um
romance inesquecível.
No final do anos cinqüenta, pelos anos sessenta, com os filhos todos criados e
ajudando o casal, Zuca e Nair passaram a visitar, anualmente, Teresina, para felicidade
dos parentes. A esta altura Mãe Celé já falecera, mas havia ainda minha avó Júlia e
Yayá Mundica e o enorme bando de irmãos, primos e sobrinhos. A esposa legal de Zuca
viveu muitos anos, em Teresina. Mas com o falecimento desta, apos meio século de
vida em comum, bem realizada com muitos filhos, numa família invejavelmente tinida,
o casal pode celebrar a cerimônia religiosa das bodas.
Desde que se transferiu para o Rio, no meio dos anos sessenta a prima Graci
esteve sempre em contato com aqueles primos queridos. Zuca viveria até os 94 anos de
idade, falecendo rodeado pelo carinho da família na quarta-feira, 22 de janeiro de 1986,

134
em seu apartamento da Voluntários da Pátria, em Botafogo. Nair continua ainda viva
neste julho de 1992, quando escrevo a estória.

135
136
3. Piauí 1925: Teresina entre Enchentes Calamitosas do Rio Parnaíba e
a Passagem da Coluna Prestes

Antes de retornar à crônica da família, a partir do casamento dos meus pais,


cumpre retratar a situação geral do Piauí e sua capital no meio dos anos vinte. Se o
início dos anos loucos, fora marcado pelos festejos do centenário da Independência, o
meio o seria por uma superposição de importantes eventos convulsivos – naturais e
sociais. Os anos de 1924 a 1926 foram de “invernos” acentuadamente copiosos que
repercutiram em vigorosas enchentes no rio Parnaíba, com produção das calamitosas
inundações de Teresina em 1924, a maior, e outra menos intensa em 1926. Entre as duas
cheias o Piauí, do Sul para Norte, foi percorrido pela Coluna Prestes, um episódio
marcante na vida Nacional.
Além disso juntou-se também aquele outro fato representativo pelas agitações de
bandoleiros e jagunços que assolaram o Sul do Piauí e tiveram sua fase aguda e
repressão entre 1 923 e 1925. De certo modo este fenômeno social serve bem a
caracterizar o contraste entre as porções Norte e Sul do Estado: o primeiro sob o
“progresso” da extração da cera de carnaúba e sua exportação e o Sul, estagnado na
pecuária decadente. Paralelo que è um ponto de partida para caracterização desse
“momento”: o meado dos anos vinte no Piauí.

3.1. A Cera de Carnaúba no Norte e o Progresso da Parnaíba


A maior concentração de carnaubais ao Norte produzia, com a exploração da
cera, as mutações a que já nos referimos anteriormente. Em 1925 a produção atinge um
pique de 2.350 toneladas, no valor de 700 contos de réis81. Com isso a cidade da
Parnaíba – o grande centro coletor e exportador atravessava um período de franco
progresso, o que aumentava a rivalidade entre ela e Teresina. A prefeitura municipal
estava no período do Cel. José Narciso da Rocha Filho (1921-1928). O município em
progresso permitia-se certas medidas singulares como, por exemplo, fazer vir de São

81
Quase o dobro da produção do ano anterior. Em 1924 a produção de cera fora de 1.400 toneladas, no
valor de 450 contos. Como se vê houve uma boa cotação no mercado exportador. Este pique seria um
dos melhores momentos na história da carnaúba no Piauí.

137
Paulo, um técnico de educação – o Prof. Luis Galhanone82 cujo nome ficou batizando
uma das escolas municipais.
No final de 1923 surgiria o “Almanaque da Parnaíba”, publicação que, ao longo
de sessenta anos (1923-1983), constituiu-se não só num marco documental da cidade
mas do Estado do Piauí, com circulação regional bem significativa. Na minha pesquisa
de 1990 fiquei penalizado ao constatar a impossibilidade de encontrar naquela cidade
uma coleção completa dessa publicação. Na Biblioteca do “Palácio da Cultura” pode-se
encontrar não mais do que uma dezena de exemplares, incluindo duplicatas, de alguns
números dos anos trinta, quarenta e oitenta. Na Casa de Anísio Brito – o Arquivo
Público do Estado, em Teresina – dentre pouquíssimos números tive a felicidade de
encontrar o primeiro número, para o ano de 1924, a esta altura uma preciosidade.
O Almanaque da Parnaíba nasceu da iniciativa de um comerciante-jornalista
Benedito Santos Lima, por apelido Bembém, que o principiou como um brinde de sua
“Mercearia Bembém”, situada a rua Duque de Caxias nº 18.
Quem conhece o Norte, Nordeste e principalmente o Sertão, sabe avaliar a
importância que os “almanaques”83 tem na vida da população. Alguns produtos
farmacêuticos aproveitavam a elaboração desses calendários que, ao lado das datas e
efemérides, Santos do dia, fases da lua, etc., etc. e notícias sumárias de utilidades e
curiosidades, inseriam a propaganda dos seus produtos. O Almanaque do Capivarol, por
exemplo, era muito popular nos sertões Piauienses.
Principiando como “brinde” de uma mercearia, a veia jornalística de Santos
Lima foi, progressivamente, enriquecendo o conteúdo informativo do Almanaque da
Parnaíba que, assim, malgrado a dose de ingenuidade provinciana, foi enriquecido pela
propaganda comercial, inserção de valiosos dados estatísticos da produção (honesta e
corretamente reproduzidos das fontes oficiais), produção jornalística e literária local.
Tornou-se numa fonte informativa de inestimável valor para retratar a vida, não só da
Parnaíba, mas do Piauí, ao longo de seis décadas deste século.

82
Provável aportuguesamento do italiano GAGLIANONE. Nomeado Diretor da Instrução Municipal da
Parnaíba este pedagogo teve influência em todo o Estado do Piauí, uma vez que o programa por ele
elaborado para o município da Parnaíba, serviu de base à reorganização do ensino primário promovida
no governo Mathias Olympio. Veja-se “A Imprensa” de Teresina em sua edição de 14.01.1928.
83
Termo árabe que significa “calendário”.

138
Capa do primeiro Número do ALMANAQUE DA PARNAÍBA. Cópia do Exemplar (raríssimo)
existente no Arquivo Público do Estado do Piauí – Casa de Anísio Brito.

139
Preciosa foto do Porto Salgado na cidade da PARNAÍBA estampada no primeiro número do
ALAMNAQUE DA PARNAÍBA (1924).

Vale a pena reproduzir aqui o “editorial” de lançamento do primeiro número:

AO PUBLICO
O almanack constitui um repositório precioso de informações úteis,
passatempos, curiosidades e distrações, sendo, portanto, um livro de
necessidade em toda a casa. Para o sertanejo é, as vezes, o livro único que
guarda, cuidadosamente para orientação de sua despreocupada vida, durante
todo o ano. Notava-se a ausência, nesta cidade, de uma dessas publicações
annuais de tanto interesse e de incontestável utilidade. Sanando semelhante
lacuna, a MERCEARIA BEMBEN si propoz dirigir e iniciar a publicação do
presente ALMANACK DA PARNAIBA, mas o fez de modo a apresentar
uma publicação atraente, caprichando na multiplicidade das leituras, ao
mesmo tempo que contendo o mais completo serviço de toda espécie
sobretudo comerciais.
Este almanack é, portanto, uma promissora esperança. Nas edições seguintes
procurarão os seus dirigentes dar-lhe maior desenvolvimento, mas completo
serviço de informações.
Agradecendo ao honrado corpo comercial desta praça a solicitude com que
foi attendido o nosso apello, para a acquisição dos annuncios, entregamo-lo
ao publico, certos de que prestamos, assim, com elle, um excellente serviço.
MERCEARIA BEMBEM

140
As ilustrações são de alto valor iconográfico. Sejam aqueles desenhos ingênuos
da propaganda do comércio local84, sejam especialmente as reproduções fotográficas.
Num encarte entre as páginas 34 e 35 há um precioso flagrante de embarque de sacas de
babaçu no “Porto Salgado”, no cais da rua Grande, principal ancoradouro da navegação
no Parnaíba, pela qual se tem a idéia precisa da animação da estiva e da importância do
porto naquela época.
O exemplar referente ao ano de 1926 foi impresso em Belém do Pará e já
apresenta maior volume e sensível progresso85.
Com o tempo Benedito Santos Lima foi tomando cada vez mais jornalista e
editor do almanaque do que comerciante. E assim prosseguiu dedicado a edição do
mesmo até o ano de 1942 quando o Comerciante Ranulpho Torres Raposo (1900-1980)
assumiu a condição de “diretor proprietário”. Isso continuou-se até a morte do
comerciante, após o que sua filha Florice Raposo Pereira encarregou-se da edição dos
últimos números aparecendo como “editor responsável”. A última referência que me foi
dada apurar foi aquele exemplar de 1982 (59ª edição). No início dos anos oitenta
extinguiu-se aquela valiosa publicação. Ao chegar aos anos trinta o almanaque já era
obra consagrada, fazendo parte da vida da cidade e mesmo, do Estado, já que a
cobertura noticiosa era bem ampla sobre os seus vários municípios. “Já deu no
Almanaque da Parnaíba” era um sinal de notoriedade reconhecida, na expressão
popular.
Rastreando o primeiro número e outros poucos e esparsos desse início que me
foram dados a consultar pode-se extrair uma caracterização bem razoável daquele
principal centro de comércio Piauiense. Sobretudo no retratar de sua economia extrativa
e suas relações com o exterior.
O almanaque de 1924 apresenta uma relação, possivelmente completa, das casas
comerciais da Parnaíba dando o nome da firma, endereço telegráfico e ramo do negócio,
num total de 65 (sessenta e cinco). A pequena amostra que se segue, independentemente
da classificação pela ordem de importância financeira, visa demonstrar, ao lado da
tradição, sua vinculação de import-export, aproveitando a especificação dos produtos,

84
Veja-se o desenho da capa do número inaugural, aí reproduzido.
85
J.B. dos Santos & Comp. Livreiros Editores – “Livraria Clássica”. Rua Cons. João Alfredo, 59 e
“Livraria do Povo”, Rua 28 de setembro, 119, Belém-Pará.

141
sobretudo para mostrar a importância da atividade extrativa na economia do Estado do
Piauí.
Em matéria de tradição avultava a CASA INGLESA, cujo belo sobrado da Rua
Grande, próxima ao cais, ainda hoje é um monumento dos mais representativos da
história da Parnaíba.

CASA INGLESA
JAMES FREDERICK CLARCK & COMPANHIA
Importadores de: Tecidos, Estivas, Ferragens e Miudezas.
Exportadores de: Cera de Carnaúba, Algodão, Couros e Produtos do Estado.
Endereço Telegraphico: HERCULES
Agentes da STANFORD OIL CO, OF BRAZIL. Stocks permanentes de
Kerozene “Jacaré”, o que deixa maior lucro, o mais processado, o melhor.
Gasolina ‘motano Superior’ – é a mais conhecida, cesada e afamada no
Brazil NUJOL – Oleo lubrificante refinado, claro como cristal, sem cheiro
ou gosto, produz maravilhosos efeitos na cura da prisão de ventre – Oleos
para máquinas, graxas, lâmpadas, petroraz – substituto da água-raz –
TOURANO: Oleo bruto para combustão de motores.
DAVIDSON, PULLEN & CO.
Phosphoro de cêra, marca “Olho” – Idem de madeira – Outras marcas. De
madeira: ‘Pinheirinho’ ‘Dançarinas – ‘Algibeira’.
ANGLO SUL ANERICANA
Seguros terrestres e marítimos. Opera sobre taxas módicas offerecendo todas
as garantias aos seus segurados.
Banque Française & Ttalienne pour l’Amérique do Sul – The British Bank
of South America, Ltda – Banco Holandez pela América do Sul – The
National City Bank of New York.
Proprietários da ‘ILHA DO CAJÚ’
RUA GRANDE PARNAÍBA

A esta altura a tradicional Casa Inglesa já era brasileira. Os tempos do velho


Paul Singlehurst já iam longe. James Frederick Clark, o divulgador da cera de carnaúba
nos mercados europeus – casado com brasileira – já havia falecido. A firma estava na
segunda geração – os Castello Branco Clark – dirigida pelo filho Septimus James
Frederick Clark (1894-1971) que entrara na firma, após estudos no Ceará e na Europa,
em 1913. A partir de 1917, após a modificação da razão social da firma, tornou-se o
condutor da Casa Inglesa.

142
Continuando a linha das antigas casas européias, veiculadoras do extrativismo
dos recursos de flora e fauna, subsistiam ainda importantes firmas: Arthur Nordman,
Samuel Bompet mas o maior destaque era assumido por uma alemã e uma francesa.

WIRNEB SCHLUEPNANN
(Casa Alemã)
Compra e exporta: babassú, tucum, mamona, gergelim, goma, farinha de
mandioca, milho, cera de carnaúba, cera de abelhas, crinas, sementes de
algodão, jaborandy, jalapa, resinas de jatobá e angico e PELES
SILVESTRES.
CASA MARC JACOB
Roland Jacob
Comprador e Exportador em larga escala de: Cera de Carnaúba, algodão,
couros de boi, babassú, tucum, mamona, crina animal, polvilho, folhas
medicinais de jaborandy, batata de purga, fibras de paco-paco, cereais, etc.,
etc.
Empresa Parnaibana de Navegação no Rio Paranahyba
Vapor: PARNAHYBA
Lancha: Brasileira
Barcas: Magú, União, Providência, Protetora, Progresso, Parnahyba, Araci e
Confiança
Agente Geral para o Estado do Piauí da ANGLO ANERICAN
PETROLEUN CONPANY LINITED e UNITED STATES RUSBER
EXPORT CO. LTD.
Filiais
Brejo (Maranhão) – União – Teresina – Floriano

A primeira desapareceria, mas a segunda continuaria pois que Roland Jacob


radicou-se na Parnaíba , passando a terceira geração dos Jacob, ainda hoje atuando no
comércio local e mesmo ampliando para o pais, desde que Roland transferiu-se para o
Rio de Janeiro. Mas ainda hoje, embora modificada na sua condição inicial de
exportadora, a firma ainda mantem uma destacada loja na Parnaíba.
Dentre as firmas puramente autoctones havia muitas de destaque, com
especializações variadas, naquele meado dos anos vinte.
NORAES & CO.
EXPORTADORES DE ALGODÃO
Rua Cel. Ribeiro, nº 30 – Parnaíba, Piauí
Agentes da THE TEXAS CO. (S.A.) LTD.
Proprietários das:
Empreza de Navegação Fluvial
Usinas S. JOSÉ (Parnahyba) e MORAES (Amarante) para beneficiamento e
prensagem do algodão.

143
DELBÃO RODRIGUES & CIA
(Casa Fundada em 1890)
Empresa Salineira e de Navegação Fluvial
Vapores: PIAUHY, SANTA CRUZ
Rebocador: Brejo
Alvarengas: Gurgueia, Natal, Ceará, São Paulo, Argentina, Internacional,
Amarante, Vitória, etc.
Depósitos de SAL.

NARCISO, MACHADO & CIA


Armazem de Tecidos, Ferragens, Miudesas, etc.

Grandes compradores de:


Babassú, Cêra de Carnaúba, Couros de boi, Algodão e todos os demais.

Agentes da importante:
THE YORKSHIRE INSURANCE COMPANY

PONCION RODRIGUES & CIA


(Sucessores de Pinheiro, Comes & Cia)

Agência Gumes (Fundada em 1915)


Maiores Importadores de Farinha de Trigo
Unicos concessionários de
UNDERVOOD – Máquina de escrever
BERTHA – cofres e fogões

Malgrado a condição de porto interno, fluvial, a praça comercial da Parnaíba,


vinculada ao porto maranhense de Tutóia, mantinha ligações com a navegação
marítima. Dentre as firmas de navegação na época, destacava-se na Parnaíba a inglesa:
BOOTH LINE
(Liverpool)
Serviço regular de vapores para passageiros e cargas entre EUROPA – New
York – Norte e Sul do Brasil – Tocando em Barbados.

Booth & Co. (LONDON) Limited


Rua Dr. João Pessoa, 41 – Caixa Postal, 60
Parnahyba – Piauí

Agenciava-se também diversas companhias de navegação, atuando em várias


águas:
MAVIGNIER & CIA – Agência de Navegação
(Fundada em 1915)

WESTPHAL LARSEN CO. LINE – Passageiros e Carga. Brasil e Costa do


Pacífico nos USA THE NORTHERN PAN-AMERICA LINE AIS – Portos
Brasileiros e Costa Atlântica dos USA.

144
Carga e Passageiros.
COSULICH LINE – Sociedade Triestina de Navegação. Carga e Passageiros
para o Adriático – Mediterrâneo – Norte e Sul America.
LOYD NACIONAL S/A – CIA NACIONAL DE NAVEGAÇÃO
COSTEIRA (Organização Lage) – CIA SERRAS DE
NAVEGAÇÃO E COMÉRCIO.

Havia também muita vinculação com o Maranhão e a praça comercial de São


Luiz. Dentre as firmas maranhenses atuando na Parnaíba destacava-se a Chames Ahoud
& Cia, grandes compradores de algodão e arroz, os dois produtos fundamentais da
economia maranhense do Golfão.
O comércio do algodão sofria uma séria baixa nos preços, o que progrediu até o
final do ano. Em dezembro as noticias nos jornais ventilavam muito o tema. Na edição
do “O Piauhy” de 13 de dezembro (nº 287) encontra-se a inserção de um alentado artigo
sob o rótulo “A Importância do Algodão em Nosso Futuro Econômico”, focalizando-se
ali o papel da Inglaterra e os esforços em andamento no Sudão e no Egito, notadamente
a irrigação no reservatório de Aman e o grande projeto de Sir Murdock MacDonald para
aproveitamento de 125.000 ha de várzea entre o Nilo Azul e Nilo Branco, ao sul de
Khartum, bem como a progressão da via férrea até Kanolo.
Lia-se jornais de São Luiz na Parnaíba. O primeiro número do “Almanack da
Parnahyba” apresenta, na contracapa, um anúncio do “Diário de São Luis” cuja
assinatura anual era de trinta e a semestral de dezoito mil réis.
Embora predominassem ainda as relações com o exterior, vendendo matéria
prima e comprando máquinas, louças, etc. já se notava uma certa penetração de São
Paulo, nos produtos alimentares. Os chocolates e balas Falchi já eram anunciados e as
cervejarias Cia. Antártica Paulista e Cervejaria Brahma S.A. já dominavam o mercado.
Suponho que essas ligeiras pinceladas servem a esboçar o quadro não só da vida
comercial na Parnaíba como também ressaltar a importância da exploração extrativa dos
recursos naturais da biota a exportar para o exterior na economia Piauiense. Ai, avultava
o significado da cera de Carnaúba, cujo valor a conferia, naquele momento, o lugar de
produto básico da economia estadual.

3.2. O Sul e os Jagunços


A porção meridional do Estado do Piauí é consideravelmente grande para uma
generalização. Quando dizemos que ela divergia pela predominância da pecuária

145
decadente não estamos querendo ignorar as ilhas agrícolas do Amarante, no médio
Parnaíba, a oeste, e a mancha fértil de Picos. Mas estas, e outras menores, eram
manchas pontuais num amplo espaço de pecuária. Neste particular o extremo sul será
passível de uma caracterização espacial graças às graves lutas que ali se produziram
entre proprietários de terras.
Da virada do século até aproximadamente 1912 o sul do Piauí, como já se viu,
foi atraído pela exploração do látex da maniçoba. Os cerrados e carrascos daquela
região eram abundantes naquele recurso vegetal que, embora em caráter complementar,
integrava-se no ciclo amazônico da borracha. Essa riqueza do Sul do Estado, explorada
com animador sucesso, atraiu levas de nordestinos vindos da Bahia, Pernambuco e
Ceará, dentre os de maior destaque.
Numa terra de latifúndios criadores, em fazendas de sedes esparsas, a entrada
dos maniçobeiros foi aceita como mão-de-obra fácil à exploração de um recurso que
não conflitava com o gado. Assim, com a aquiescência dos proprietários, nos fundos das
fazendas, em lugares designados, foram se estabelecendo os “barracões” dos
maniçobeiros que encarregados dos seus respectivos “carreiros” – um dado trato de terra
tido como domínio de trabalho individual – eram admitidos “mediante contrato de um
quilo de maniçoba bruta por homem em trabalho e por semana”. Os donos dos
barracões – a arremedo dos seringais – encarregavam-se de sustentar os maniçobeiros
com viveres e mercadorias de necessidade, recebendo o pagamento em látex. Além
disso agiam como compradores do excedente da produção, ou seja, aquilo que sobrava
do pagamento assentado no caderno.
Esta situação pode ser bem ilustrada pelo que aconteceu na famosa Fazenda
Jacaré do Dr. Joaquim Nogueira Paranaguá, que pode servir não só de “modelo” ao
sistema de exploração da maniçoba, como, sobretudo pelas lutas subseqüentes que se
travariam naqueles sertões, acabado o curto ciclo da maniçoba.
Este caso está registrado num interessante informe intitulado “De Jacaré a Grilo
– História da Sesmaria do Jacaré nos sertões de Parnaguá” de autoria de Augusto
Weguelin Nogueira Paranaguá, no qual nos apoiamos para esta abordagem86. Durante a

86
Paranaguá, Augusto W.N. “De Jacaré a Grilo – história da sesmaria de Jacaré nos sertões de Parnaguá”.
Livreto de 15 x 22 cm – 104pp. Ilustrado com um mapa. Sem indicação de impressora e local. Provável
edição do autor – 1985. (Apresentação por carta de José Eduardo Pereira). Note-se que originários do
mesmo tronco toponímico o lugar, com o tempo, perdeu um a: Parnaguá; enquanto a família o manteve:
Paranaguá.

146
fase lucrativa da exploração do látex, os barracões estabelecidos nos Poços, na Vereda
do Jacaré, Poço Vermelho e Vereda do Curaçá, deram boa renda ao proprietário da
fazenda Jacaré, além do que a presença dos maniçobeiros, por um momento, afastou o
rebanho bovino da predação das onças, causadoras de sérios danos. Por cada onça morta
o maniçobeiro, mediante entrega da pele ao fazendeiro, recebia uma vaca “de
matolotagem”.
Enquanto a maniçoba deu lucro a situação esteve calma. Mas sua duração
efêmera viria revelar, em muito pouco tempo, sérios males que subjaziam sob a euforia
do lucro fácil da estração-coleta. De um lado mostraram-se os efeitos negativos na fauna
local. Além das onças – prejudiciais aos rebanhos – havia-se seriamente diminuído a
caça, até então abundante. O mais grave, contudo foi a presença de elevado número de
ex-maniçobeiros, armados de espingardas Winchester, perambulando ociosamente.
As tranqüilas localidades como Corrente e Parnaguá, isolados centros de
pecuária, domínio de poucas mas tradicionais e abastadas famílias, viram-se também
penetradas por alienígenas atraídos pela aventura da maniçoba. Dentre estes os
aventureiros pernambucanos José Honório e Deolindo Granja destacaram-se à frente
dos barracões prosperando e enriquecendo em pouco tempo. Estes forasteiros acabaram
sendo aceitos por famílias antigas de Parnaguá, até mesmo naquela dos Lustosa, das
mais antigas e tradicionais no criatório e na política regional. E até mesmo nacional já
que dela era saldo o famoso Conselheiro do Império, o Marquês de Paranaguá.
Os irmãos Granja, que ali chegaram procedentes de Casa Nova, na Bahia, foram
exemplo desses “arrivistas”. José Honório casou-se com Helena, filha do Major Virgilio
Fabio Lustosa e Deolindo, com Maria do Livramento, filha de outro importante
proprietário da Casa Grande do Buriti.
Esta mistura ou “contaminação” desagradou os membros mais aristocráticos da
família que, de numerosa que já era, passaria a gerar sérios atritos não apenas sociais
mas também concernentes à posse de terras.

“A entrada de simples plebeus, aventureiros, foi recebida com geral


desagrado por certos elementos de escol da família que, menosprezando e
hostilizando os seus parentes afins criaram um caldo de cultura cada vai
mais engrossado pela criadagem no leva-e-traz de casa em casa, mal dos
pequenos núcleos de povoação.”87

87
Augusto. W.N. Lustosa – Op. cit. p. 36.

147
Se já havia desavenças e lutas entre membros dos Lustosa antes da chegada dos
aventureiros alienígenas, agora engrossava ainda mais.
A famosa fazenda Jacaré, no princípio do século era dirigida pelo Dr. Joaquim
Nogueira Paranaguá, que em 1901 construiu-lhe ampla casa para a sede de uma fazenda
que era o core de uma antiga sesmaria, posteriormente partilhada em outras fazendas:
Curral Novo, Curaçá, Sete Lagoas, Araçás, etc., etc. Estes progressivos desdobramentos da
propriedade primitiva, ajudada por imprecisão de limites e querelas de parentes e herdeiros
é que geram estas confusões. Nos tempos de Dr. Joaquim, a fazenda Jacaré foi famosa pois
ele era um homem mais esclarecido que se preocupou em melhorar a qualidade do rebanho
vacum e cavalar. Chegou a principiar uma fábrica de laticínios. Como parlamentar,
inclusive Senador pelo Piauí, o Dr. Joaquim Nogueira foi um grande interessado no
desenvolvimento da região havendo empenhado-se inclusive na introdução da navegação a
vapor no rio Preto, afluente do Rio Grande, no território do Estado da Bahia.
Em meados dos anos vinte os sertões de Parnaguá viram exacerbar-se as lutas
pela posse de terras, avultando o duelo entre o Dr. Julio Lustosa (da tradição) e José
Honório Granja (da aventura arrivista).

“O Dr. Julio Lustosa, da janela da frente de sua residência em Parnaguá,


mostrando a caneta em punho, enquanto passava pela praça em frente à casa,
o Sr. José Honório Granja, ia dizendo: ‘Olha aqui maniçobeiro sem-
vergonha, com que eu faço tua cama’. E José Honório, levantando a aba do
paletó, e expondo a sua Parabellum na cintura, enquanto continuava a andar,
lhe respondeu: ‘E olha aqui, seu boca torta de uma figa, como eu lhe
respondo’ (Julio Lustosa sofrera um ataque de congestão e tinha o rosto
desfigurado.”88

Se o leitor fez atenção aos topônimos dos sertões do extremo sul Piauiense –
com referência a “veredas”, confirmará a analogia de paisagem com o Grande Sertão de
Guimarães Rosa. E não apenas na paisagem, mas, sobretudo nas lutas e convulsões
sociais que os percorreram nesta época, formando um conjunto solidário entre sul do
Piauí, Norte de Goiás, extremo Oeste da Bahia juntando-se ao Norte das Minas Gerais.
O vendaval de lutas entre senhores de terras e seus grupos de “jagunços” varreu
este “grande sertão” como um todo. A obra ficcional roseana retratando a luta entre os
Medeiro Vaz, José Bebelo e os Hermogenes pode ser estendida à realidade dos
exemplos regionais daquela unidade paisagisto-cultural brasileira.

88
Augusto W.N. Paranaguá. Op. cit. p. 38.

148
“A situação de Parnaguá não se apercebeu de que, do outro lado da Serra que
separa o Piauí da Bahia, os municípios do vale do tio São Francisco, exceto
o de Barra do Rio Grande, dominado pelos Mariani, se achavam eu poder
dos coronéis, por força das armas, do cangaço, portanto, mantido pelo fruto
da ‘cebaça’, roubo de gado e bens, dos vizinhos de perto e de mais distante.
Abilio Araújo encorraçava Miguel Cavalcante de Formosa do Rio Preto e
mais tarde penetrava Goiás a dentro saqueando os fazendeiros; Franklin Lins
de Albuquerque, em Pilão Arcado e suas cercanias, de um e de outro lado do
rio São Francisco, Francisco Leobas, em Pernambuco; Honório de Matos
dominando dezessete municípios nas caatingas do sertão baiano e elegendo
até deputado federal. Todos, para o sustento do poder, dependiam dos seus
jagunços. E estes, nos saques após um tiroteio em que afugentava ou
matavam algum proprietário desafeto do patrão, sempre recursado, levavam
a sua paga.
No começo da década de 1920 as constantes lutas nos sertões baianos havia
empobrecido a região.
Em Paranaguá, o abuso do poder havia aprofundado a divisão da família que
procurou, através da luta armada, solucionar desavenças.
A reação não se fez esperar, nem tampouco a interferência do cangacismo
baiano, forçando a evacuação da Vila, presa fácil da jagunçada.
Entre 1923 e 1925 a Fazenda Jacaré e seus retiros foram alvo de inúmeras
invasões de jagunções, ora penetrando em pequeno grupo em canoas, pela
Lagoa de Parnaguá, para matar a tiro e levar, para o abastecimento da
jagunçada, duas ou três rezes por vez, ora invadindo em grupo para
arrebanhar o gado e levá-lo, eu boiada, para a Bahia.”89

O exemplo da Fazenda Jacaré pode ser tomado como amostra de um fenômeno


regional, válido para o extremo sul do Piauí nas lindes com Bahia e Goiás – naquilo que
atualmente se centraliza na micro-região dita das “Chapadas do Extremo Sul” mas que
se espalhou, nos anos vinte, em mancha maior. Parnaguá e Corrente parece terem sido o
centro mais perturbado dos conflitos de jagunços, sobretudo este, que chegou a atrair a
atenção até do Embaixador dos Estados Unidos, Edwin Morgan, que, no início de
março de 1924 lançou denúncia de depredações causadas pelas hordas de bandoleiros
em Corrente, reclamando da omissão do Governo. Ainda apontava ao governo brasileiro
os riscos que corriam os seus patrícios missionários protestantes que ali haviam fundado
um colégio90.
Devo lembrar – um outro tema de interesse a ser estudado – que, no início do
século houve uma acentuada penetração de missionários evangélicos norte americanos

89
Augusto W.N. Paranaguá. Op. cit. p. 36 e 37.
90
Segundo noticiário da imprensa do Rio, transcrita pelo “O Dia” de Teresina, ano I nº 68, à página 1,
edição de 19 de março de 1924.

149
no sul do Piauí, criando colégios e fazendo um proselitismo catequético que respondeu
por mais uma característica diferenciada daquela parte meridional do Estado.
Em meio a uma população predominantemente católica os missionários norte-
americanos conseguiram alguma catequese, mediante a injeção de muitos recursos para
suas igrejas e colégios. Até em famílias de certo destaque, inclusive entre os Lustosa,
houve adesões aos cultos evangélicos.
Um dado dessa época – publicado no “O Piauhy” de Teresina, em sua edição de
28 de janeiro de 1925 apresenta o seguinte balanço para a religião Católica no Brasil:

NÚNERO DE IGREJAS (Por Estados)


Minas Gerais ............ 2.087 Paraná .................. 246
São Paulo .................. 1.506 R.G. do Norte ....... 217
Bahia ........................ 837 Pará ....................... 214
R.G. do Sul ............... 640 Santa Catarina ...... 200
Pernambuco .............. 626 Maranhão ............. 174
Rio de Janeiro ........... 524 Sergipe ................. 154
Ceará ........................ 448 * Piauí .................... 134
Paraíba ...................... 428 Goiás .................... 126
Alagoas ..................... 393 Amazonas ............ 123
Distrito Federal ......... 253 Mato Grosso ........ 54
Espírito Santo ........... 253 T. do Acre ............ 10

1 Cardeal
14 Arcebispos (4 titulares)
44 Bispos (7 titulares)
7 Prelados Educantes
3 Prefeitos Apostólicos

As perturbações no sul do Piauí não eram novidade, se nos lembrarmos da


missão do Capitão Gerson Edison de Figueiredo nos idos de 1910. A penetração de
jagunços de outros estados, aguçados pela exploração efêmera da maniçoba, se
acentuaria em 1914 quando o Governo Miguel Rosa enviou para lá uma Companhia da
Força Polícial. A partir de 1916, mercê dos interesses locais dos chefes políticos e das
questões de terras, fizeram necessárias várias incursões de oficiais da polícia destacados
como delegados de polícia e coletores de impostos. O contingente sulino chegou, por
aquela época, a ser aumentado de mais três oficiais e cinqüenta praças. Chegaram a
defrontar-se tropas de polícia e jagunços na ordem de duzentos homens de lado a lado.
Mas, nos anos vinte o contingente de jagunços aumentou consideravelmente, até que, se
chegou a situação clímax de 1923-1924 agravada, sobretudo, pela contenda entre os
Granja e os Lustosa.

150
A 27 de março, após a reclamação do embaixador americano partiu para o Sul
um destacamento da Força Polícial. O Corpo Militar de Polícia, que por esta época,
constituía-se de um batalhão de infantaria, denominado Força Militar do Estado
composto de um efetivo de 18 oficiais: 1 Tenente Coronel Comandante, 1 Major Fiscal,
5 Capitães, 4 Primeiros Tenentes, 7 Segundos Tenentes e 460 praças.
Os últimos meses do Governo João Luiz Ferreira foram atribulados com estes
deslocamentos de policiais para o Sul e noticias da violência das lutas, de volta daquela
região. O novo governador Mathias Olympio de Mello (01.07.1924 – 01.07.1928) toma
como Secretário de Estado da Polícia o Tenente do Exército Jacob Manoel Gayoso e
Almendra. E o jovem Chefe de Polícia dirige-se não apenas ao Sul mas é incumbido da
missão de dirigir-se até a Bahia, onde tratará com o Governador, Dr. Gois Calmon, da
formação de um convênio policial entre os Estados do Piauí, Bahia e Goiás para fazer
frente às lutas que afetavam as fronteiras dos mesmos.
Do entendimento entre os três Estados decidiu-se a seguinte estratégia de
combate a ação dos jagunços.

Bahia: Manterá na cidade de Barra do Rio Grande um destacamento de


força policial de 100 homens, servindo de apoio aos destacamentos
de Barreiras, Campo Largo, São Marcelo, Formosa, Sta. Rita do Rio
Preto e Pilão Arcado, cada um dos quais se comporá de 20 praças no
mínimo, sob o comando de um Delegado Regional.
Goiás: Manterá em São José do Duro a 4a Companhia de sua Força Pública
com um Delegado Regional e um destacamento de pelo menos 20
homens em Pedro Afonso, nos limites com o Piauí.
Piauí: Além dos destacamentos locais de pelo menos 15 homens, em
Philomena, no limite de Goiás; Gilbues, Corrente e Parnaguá –
fronteiros com a Bahia – manterá uma Força Polícial de 80 homens
em Bom Jesus de Gurgueia.

Mas no território Piauiense, urge terminar com a luta na comarca de Parnaguá


onde a contenda é séria. A denúncia do Dr. Procurador da República computa crimes
para ambas as partes: os Granja (Artigos 124 e 118, nº 2, 203 e 204) e Lustosa (119 nº
3.294 parágrafo 2º e 356) segundo o Código Penal.
Do Relatório do Tte. Gayoso, extrai-se aqui alguns trechos que dão uma idéia da
contenda que foi dada como terminada pela intervenção pessoal do Chefe de Polícia a
frente da força policial para lá destacada.

151
“... cessaram os roubos dantes tão comuns, cometidos, indistintamente, pela
massa campesina, que, a exemplo dos grandes senhores, não encontrou mais
fructuoso e honesto comerciar do que a contra-fera da propriedade alheia.
Restituiram-se a legítimos danos, acto sempre legalizado por declaração
excripta, diversos objetivos aprehendidos em mãos de saqueadores:
máquinas de costura, roupas, calçados, trens de cosinha, louças, ricas alfaias
cujo carinho, zelo e história se envolvem no passado de uma família,
Aprehenderam-se para mais de 600 (seiscentas) rezes. Foi aprehendida, em
poder de Deolindo Granja a fazenda “Traíra e restituida ao dono Deodeciano
Nogueira”.

A relação das armas tomadas aos contendores é bastante significativa para


retratar o teor da contenda:

Rifles ........................ 280 Rifles em mau estado...... 22


Comblain .................. 5 Revolveres ..................... 8
Mosquetões .............. 5 Pistolas ........................... 27
Manulichen ............... 10 Pistolas de fogo central ... 75
Fuzis Mauser ............ 7 Garruchas ....................... 3
Bacamartes ............... 12 Pistolas Mauser .............. 4
Outras armas ............. 18 Punhais ........................... 9

Juntando-se a esta relação os 100 rifles recolhidos na delegacia de Corrente e 20


naquela de Sta. Filomena, chega-se a um total heterogêneo de 595 peças de armas.
No seu retorno à Teresina o Tenente Jacob Gayoso foi recebido como um herói
sendo alvo das maiores homenagens, que se sucederam a uma efusiva recepção. Assim
o jornal “O Piauhy” em sua edição de 14 de maio de 1925 notícia este acontecimento:

“Tte. JACOB GAYOSO E ALHENDRA


– Sua chegada a esta capital
De volta do sul do Estado onde fora e esteve, por alguns meses,
commissionado pelo governo, para dar cabo do infreme e pernicioso
banditismo que assolava os importantes municípios de Corrente e Parnaguá,
chegou hontem a tarde ..........
.......................................................................
.......................................................................
A certa distância divisado o ‘Antonio Freire’ (vapor) um frêmito de
enthusiamo e de alegria sacudiu a todos os que iam na lancha ‘Curuny’,
ouvindo-se, então, grandes aclamações ao nome do querido e operoso
político, as quais se tornaram maiores quando a embarcação que o trazia se
aproximou da lancha, tendo sido executada, então, uma marcha de saudação
por uma orchestra de banda de musica da polícia.
Neste momento os passageiros da ‘Curuny’ se passaram para o ‘Antonio
Freire’ e deram-se, em seguida, os primeiros e afectusos cumprimentos ao
Tte. Jacob Gayoso. No porto desta capital já era grande a massa popular que
se apinhava á ‘Praça Marechal Deodoro’ onde estacionavam também

152
inúmeros amigos e admiradores do estimado oficial – figura de destaque na
administração deste Estado.
.......................................................................
.......................................................................

Recebido pelo próprio Governador do Estado, em pessoa, e autoridades


estaduais, após a chegada “formou-se um numeroso e luzido préstito” em direção ao
centro da cidade. E a notícia arremata assim:

.........................................................................
“Não cabe nos estreitos limites desta notícia dizer o que foi, neste sentido, a
acção benfeitora do Tte. Jacob Gayoso, desde a entabolação do convênio
com a Bahia e Goyas, até o golpe decisivo de extinção do banditismo
naqueles férteis rincões de nossa terra, fazendo com que a paz, a
tranquilidade, ajustiça e o trabalho a elles voltem para que possa o Piauhy,
integrado na harmonia de seu povo...”

Mas as homenagens não se limitaram a recepção festiva. Houve baile oferecido


pela sociedade ao bravo militar e uma homenagem especial do Governador Mathias
Olympio: um almoço de 50 talheres às 12 hs do dia 23 de maio, no Clube dos Diários.
Tal glorificação me faz lembra a diferença de destino entre o Tte. Gayoso e o
Major Gerson Edison, quinze anos passados. Sem comparação aos feitos militar-
polícias mas de personalidade. Gerson era um rapaz pobre que sentou praça na Polícia e,
com esforço, chegaria ao mais alto posto – o de Major Fiscal. Agora temos o jovem
Jacob, filho de uma das mais ilustres e abastadas famílias, com carreira feita no Exército
Nacional. Gerson era franzino, fraco do peito e casado com filhos. Jacob era um belo e
vigoroso atleta, ainda solteiro. Tinha assim, este último, todos os ingredientes de que,
habitualmente, se fazem os ídolos. Gerson não passaria da condição de “mártir”
explorado em proveito do poder político.
Nascia um herói. Aqui começa a glorificação de Jacob que, muito em breve vai
encontrar outra oportunidade de demonstração da bravura aqui inaugurada. Neste ano de
1925, enquanto se lutava no sul, contra os jagunços, aproximavam-se do Piauí, os
“revoltosos da Coluna Prestes”.
Mas antes deste episódio, vejamos – entre o progresso comercial da Parnaíba, no
extremo Norte e a jagunçada no extremo Sul – como estava Teresina, a capital, no
Médio Parnaíba. O ano de 1925 seria balizado pelas duas grandes enchentes que a
inundaram no ano anterior e no seguinte. E o próprio ano de 1925, o meio dos anos
loucos, seria marcado pela passagem da Coluna Prestes.

153
Vejamos, assim, a vida da cidade, seus principais eventos nesta época, em meio
às enchentes e aos revoltosos.

3.3. Teresina e as Enchentes Calamitosas


A memória da cidade guardara as grandes cheias de 1905 e 1908. Mas nada de
comparável a estas ocorridas em 1924 e 1926. A primeira foi aparecendo lentamente,
resultante de um inverno chuvoso onde o leito do rio foi subindo, subindo até extravasar
sobre a relativamente alta rampa do cais e espraiar-se por área considerável. Assim
lentamente como veio lentamente se prolongou. A área inundada foi considerável em
Teresina e na fronteira Vila das Flores. O centro comercial de Teresina, que por esta
época se localizava próxima ao rio, teve muitas lojas inundadas e danificadas. Uma das
conseqüências dessa grande inundação foi a migração do centro comercial que passou a
dirigir-se ao entorno da Praça Rio Branco.
As lojas “Paulistas” (designação anterior das “Pernambucanas” da Lundgren &
Cia.) que ficavam à beira rio, esquina da rua de São José, mudaram-se para a Praça Rio
Branco, esquina da rua do Fio (Coelho Rodrigues), passando-se posteriormente para o
prédio próprio, na mesma praça, entre as rua do Amparo (Areolino de Abreu) e dos
Negros (Eliseu Martins). Deixando o local para as lojas Casa Carvalho (Carvalho &
Carvalho) que insistira em permanecer no local atacado pela cheia de 1924 novamente
lastimado pela de 1926.
Minha mãe, que havia concluído a Escola Normal e colado grau em janeiro
daquele ano, lembra que as águas chegaram a atingir pontos nunca imaginados. Uma
das distrações ou preocupações dos habitantes das áreas não atingidas era ver a
enchente. Andava-se de canoas e botes socorrendo as vítimas que se aglomeraram em
considerável massa de flagelados. Se o comércio, edificado em casas de alvenaria foi
lastimado, fácil é imaginar o que aconteceu com as modestas casas erguidas em paredes
de adobes, ou os casebres de palha de babaçu. O grosso da enchente alongou-se por
cerca de duas semanas. Mas o rescaldo ocupou muito tempo.
O ano de 1925 foi insuficiente para sanear os males da cheia do ano anterior,
quando, passado o inverno sobreveio outra pavorosa inundação na cidade. A anterior
viera lentamente, no período das águas, no “inverno” de acordo com a progressão das
chuvas, acentuadas a montante, nas nascentes do rio. Embora a área inundada tenha sido

154
insuspeitada, houve um certo tempo para os atingidos – firmas e residências – salvar
alguma coisa, mercadoria e haveres domésticos. Houve o lado pitoresco que sempre
acompanha as desgraças e calamidades. Os meninos, principalmente a molecada solta
das ruas e da beira do rio, nadavam, improvisaram embarcações, percorriam as áreas
inundadas apoiados em “embonos”91 de talos de buritis. A cidade toda vinha apreciar a
enchente e comentá-la.
Aquela de 1926 foi um “repeteco” bem mais surpreendente e cruel. Sua
ocorrência foi bem diversa da anterior. Veio de repente. E já entrada no verão, ou seja,
ao sopro dos ventos gerais, em pleno mês de maio.
A arrendatária do serviço de passagens na travessia de botes entre Teresina e a
Vila das Flores, D. Josefa, assim comentava:

“– Ninguém sabe o que está havendo. Talvez seja apenas chuvas nas
cabeceiras. O certo é que de 2 para 3 horas da tarde a água começou a subir a
coroa. Aquela hora ainda havia alguns rapazes jogando bola. Não tiveram
tempo nem de atravessar para Flores, onde o rio estava dando vau. Gritavam
por socorro e quando as canoas os recolheram já tinham água pelos joelhos.
A coroa ficou toda coberta em menos de uma hora. Agora a senhora está
vendo como está, a água já vai cobrindo a rampa quase toda, do outro lado o
rio já vai cobrindo a ribanceira em muitos lugares. Estão dizendo que é
castigo por tanta guerra, perversidade dos maus. Fim do mundo. E pagarão
justos e pecadores”.

Este depoimento é extraído do diálogo havido entre D. Josefa e Sinhá Monteiro


– esposa de Benjamim e mãe de Orgmar – na tardinha do feriado de 1º de maio de 1924,
ao voltar para a Vila das Flores92. Aproveitando o feriado, Sinhá atravessara para
Teresina, visitar os pais, e agora era surpreendida pela súbita enchente, com tempo sem
chuva, aquele despropósito.
Segundo se apuraria posteriormente houvera, na noite de 29 para 30 de abril,
uma chuva fortíssima, um aguaceiro sem tamanho daqueles que o povo designa como
“tromba d’água” na fazenda Águas Belas, em terras do município de São Pedro,
rompendo um grande açude que lá havia e cujo topônimo explicava o nome da fazenda.

91
O verbo “embonar” significa: reforçar exteriormente o casco de um navio. O substantivo tem significações
variadas, mas sempre ligadas a “naútica”. O dicionário de Antenor Nascentes para a Academia Brasileira de
Letras (Rio de Janeiro, 1964) no seu tomo 2º – p. 151 acusa: EMBONO: “bojo ou saliência no costado de
embarcação embonada; madeiras que servem para embonar uma embarcação; pares que se fixam sobre o
costado de uma embarcação para facilitar o desembarque”. No caso dos meninos da beira do rio Parnaíba os
seus embonos são pequenos feixes de talos de buritis atados nos dois extremos, nos quais eles se prostram
debruçados para aprender a nadar ou soltar-se, brincando na correnteza.
92
Orgmar Monteiro. Teresina Descalça. 4º vol. p. 327-328.

155
A cheia que se seguiu foi fortíssima, ultrapassando o nível da enchente de 1924, e tudo
se passando vertiginosamente, num espaço de 72 horas. No dia 4 de maio procedia-se
ao balanço da calamidade. As casas da beira do rio escapadas da cheia anterior ruíram
fragorosamente. Paredes desabaram, alicerces cederam, paredes racharam, tetos
desabaram. Só os grandes edifícios como a Usina Elétrica e a Fiação, que ficara
totalmente ilhada em 1924, resistiram a correnteza voraz dessa cheia de 1926. A
prefeitura teve que arcar com a demolição dos perigosos escombros que restaram. Essa
calamidade ensejou que a antiga beira rio, um tanto caótica, fosse merecedora de melhor
arranjo e disposição, gerando assim o que é hoje a Avenida Maranhão93.
Este repeteco de inundação foi novo golpe no comércio local, implicando em
que o centro lojista se deslocasse definitivamente para os níveis mais elevados dos
terraços fluviais, como aquele da Praça Rio Branco, a salvo das águas.
As enchentes repercutiram na vida da família em foco nesta crônica. Se do lado
Monteiro ela atingiu aqueles moradores na Vila das Flores: Nhá Vicência, Benjamim –
com a casa e a vacaria inundadas – e desabada aquela do primo Guttemberg Sousa, na
época recém casado e comandante do rebocador “Godofredo Viana”, do lado dos
Gonçalves Dias foi bem mais sério.
Tio Abilio Veras teve um enorme prejuízo – sobretudo na grande fileira de casas
de aluguel que fizera construir à beira rio, para os lados da Fiação.
Prejuízo bem maior teria o seu genro Santinho. Com aquele advindo das enchentes
ele chegou a tentar estabelecer-se na praça de São Luis do Maranhão. Após as enchentes
estabeleceu-se com uma loja e para lá transferiu-se com toda a família. Mas a roda da
fortuna parecia ter desandado para o bondoso Santinho. Não passou muito tempo e a loja
foi totalmente destruída por um incêndio. O prejuízo foi enorme posto que nem
ressarcimento pelo seguro foi pago, por se haver alegado suspeita de incêndio provocado.
Santinho retorna ao Piauí, residindo por algum tempo em Teresina, após o que
passou a tentar recompor a fortuna perdida no comércio no vale do Parnaíba, ora do
lado maranhense – no Peixe, ora do lado Piauiense, em Miguel Alves. Embora sem ter
descido à pobreza, Santinho sofreu um grande golpe. De grande comerciante, e até
mesmo industrial que havia sido, passou a condição de médio comerciante de atacado e
retalho, comprador de babaçu, algodão e cereais. Por vezes a família se instalava em

93
O lado maranhense, do atual município de Timon, faz a recíproca com a sua correspondente Avenida Piauí.

156
casas alugadas na capital onde os filhos estudavam. Em outros momentos, para o
nascimento dos últimos filhos do casal, Celsa ficava em casa dos pais, na casa grande da
rua da Estrela, esquina do Largo do Poço.
Esse período funesto para Santinho registrou também a perda de sua mãe, D.
Cota. O jornal “O Piauhy” na sua edição de 6 de junho de 1925 publicava a nota:

D. MARIA VICTORIA DOS SANTOS E SILVA


AGRADECIMENTO
Mariano Gil Castello Branco, José Faustino, Santinho, Padre Benedito, Anna
e Archangela Victoria, Annica, Zezé, Filomena, Olinda, José Gonçalves e
demais membros da família, nimiamente penhorados agradecem os pêsames
pelo falecimento de sua saudosa irmã e mãe ocorrido a 26 de maio último
aqui em Teresina.

Outra morte de notável, ocorrida neste ano entre enchentes, foi aquela do Dr.
Clodoaldo Freitas, o grande jurista, jornalista, professor e intelectual emérito.
A primeira dama do Estado, esposa do governador Mathias Olympio de Mello –
D. Maria José Mendes de Mello (D. Zezé) também faleceu neste ano. Ela era prima de
D. Zuzú Freire, aquela amiga de infância de D. Júlia Figueiredo, minha avó. Faleceu
também, a 27 de fevereiro, na União, o Dr. Fenelon Catello Branco, aquele Secretário
da Polícia, na época do assassinato do Major Gerson.
Ocorreu também a “segunda” morte do Monsenhor Joaquim de Oliveira Lopes,
cujo “assassinato” em dezembro de 1912 arrancou protestos do Senador Ruy Barbosa
no Congresso Nacional. Depois de alguns tempos de permanência no Rio de Janeiro,
passado o Governo Miguel Rosa, do qual se dizia perseguido, o pároco retornou ao
Piauí, militando sempre na política. Sua verdadeira morte ocorreu a 24 de setembro de
1925. O jornal “O Piauhy” que à época do assassinato do Major Gerson o imputava a
qualidade de autor intelectual do crime, designando-o sempre de Pe. Lopes – “o
maligno”, tecia agora sentidos necrológios aquele que fora “a alma do Piauí católico
nestes últimos vinte anos”94.

94
O noticiário da morte do Pe. Lopes estende-se até 17 daquele mês quando se estampa um artigo assinado
A.L. que tem como fecho: “Bem feito seria que, homenageado o cidadão, o Conselho Municipal desta
Capital desse a uma das nossas ruas ou praças, sem denominação ainda, o seu nome aureolado, como
lembrança aos pósteros do muito que todos lhe devemos”.

157
Entre as duas calamidades o ano de 1925 foi um ano especialmente importante
em eventos, tanto no país como na capital Piauiense, numa amostra muito significativa
de sua ligação com o mundo no meio dos anos vinte.
A capital do Piauí vivia um momento de sua vida (73 anos) que malgrado as
calamidades fluviais que a afetavam era razoavelmente positivo. Após a acirrada
questão da deposição do Prefeito Manoel da Paz Filho, e da efêmera passagem do
Conselheiro Municipal João da Cruz Monteiro, inaugurava, à entrada desse ano, a
administração do Dr. Anphrisio Lobão Veras Filho (02.01.1925 a 02.01.1929) um
conceituado médico de Teresina, natural da União.
A Fiação e Tecelagem Piauiense, declinava. Sob a gerência do Major Antonio
Joaquim Leme de Almeida, havia sido muito diminuída nos seus lucros no segundo
semestre de 1924. Além de causas econômicas a cheia, que ilhou o seu prédio,
introduziu outros grandes gastos. No final do ano os dividendos auferidos pelos
acionistas havia sido de 6$000 por cada ação.
Além do jornal “O Piauhy”, em seu XXXVII ano, a imprensa da capital
dispunha dos seguintes: “O Dia”, “A Voz do Povo” órgão de oposição. Acompanhava-
se, com certa rapidez, o que corria pelo mundo. Da Inglaterra vinha a notícia de que, em
março, partia para uma longa visita a América do Sul, S.A.R. o Príncipe de Gales. O
Coronel Zés anunciava, em sua loja de Teresina, a venda de libras esterlinas. Dos
Estados Unidos, sob o Governo Calvin Coolidge, chegaram notícias da organização da
Grande Feira Internacional da Philadelfia, para o ano de 1926.
As notícias sobre a Alemanha tinham destaque. O falecimento e os funerais do
Presidente Ebert em fevereiro, seguido da eleição e posse do Marechal Hindenburg
(abril e maio) enquanto se especulava sobre a construção, em Berlim, do Hotel
Excelsior, destinado a ser “o maior do mundo”. Era a euforia da injeção dos dólares
americanos na economia alemã. Do Vaticano, na vigência de um “ano santo” sob o
pontificado de Pio XI, juntavam-se as notícias italianas sobre o progresso do fascismo.
Também dava-se a cerimônia de santificação de Soror Terezinha do Menino Jesus,
glorificada pelo povo desde a grande guerra. A partir daí verifica-se a proliferação
fantástica do nome da santa francesa nas meninas nascidas pelo Piauí e pelo Brasil. A
edição do “O Piauhy” de 27 de fevereiro estampava o clichê de uma foto de Mussolini
encimando um artigo sobre “O Malho e o Fascio”. As notícias focalizavam ainda as

158
proezas aviatórias do poeta – soldado Gabrielle d’Annunzio enquanto o suplemento
literário transcrevia produções suas.
Da Suíça chegavam notícias do sucesso que o foot-ball brasileiro alcançara
naquele país, derrotando os locais por 2 x 0. Após a introdução do esporte bretão em
São Paulo por Charles Miller (1892) o time “Paulistano” da capital paulista,
excursionaria triunfalmente pela Europa. De volta ao Brasil pelo navio “Flandria” antes
de chegar a Santos, a equipe vitoriosa foi ovacionada no Rio de Janeiro, onde o “player”
Fridenreich foi carregado pelo povo até à bordo. Os cabeçalhos, orgulhosos,
inauguravam o qualificativo que valeria até 1970: “os reis do futebol”.
Este esporte fazia furor em Teresina, no seio da juventude e começava a atrair
público. Os jardins e praças da cidade estavam sendo lastimados pela crescente prática
do futebol, o que levaria – ainda naquele ano – a que o prefeito proibisse a realização de
competições nas praças – públicas. O largo das Dores, estava sendo danificado pelo
jogo e pela grande torcida que já atraíra.
O jornal “O Piauhy”, em nota publicada na edição de 22 de abril, pede aos
desportistas para não esmorecer. E lança a idéia de que se procure um local apropriado,
acrescentando: “Para isso, basta a organização de alguns matches e, com a venda dos
bilhetes se adaptaria um terreno que, estamos certos, a Intendência lhes cederia para os
torneios”. Em outubro as equipes América e Tiradentes realizavam partidas cuja renda
seria dirigida à construção do Estádio da Liga Piauiense de Sports Teresinenses.
Cobrava-se, habitualmente, 1$000 (um mil réis) para os cavalheiros. As damas e
crianças não pagavam.
Da capital federal, na vigência do impopular governo de Arthur Bernardes, as
notícias não eram nada atraentes. O governo local exercia censura sobre os movimentos
rebeldes ao governo federal. Escapavam algumas notícias como aquela da prisão do
dramaturgo Oduvaldo Vianna95 efetuada no porto de Santos, quando o teatrólogo
regressava de Buenos Aires, sendo enviado, preso, para a capital federal.
As notícias visavam amenidades ou catástrofes. Ao final de 1924, demonstrando
que aquele ano fora de uma alta anomalia pluvial, a 30 de dezembro desabou um
memorável temporal sobre o Rio. As notícias revelavam que a rua do Catete vira-se

95
Pai do também dramaturgo do mesmo nome, conhecido na repressão dos regimes militares dos 60 e 70
como Vianinha, autor de muitos sucessos.

159
transformada numa torrente de lama. A cidade levou dias para se recompor. Passando
da água ao fogo, a capital federal fora sacudida por tremenda explosão no bairro do
Cajú, num depósito de explosivos que, dentre outras coisas, tinha três mil dinamites
(março de 1925).
A política estadual, na vigência dos estados de sítio da gestão Bernardes, era
tranqüila. O prestígio de João Luiz Ferreira, que antecedia a Mathias Olympio, era
ressaltado na imprensa local. O chamado do deputado José Auto de Abreu para vir
colaborar na administração estadual abriu uma vaga de deputado federal que foi
preenchida pelo ex-governador.
A atuação política do jovem astro do futebol local, na década anterior, foi
proveitosa ao governo estadual, sobretudo pelo respeito e prestigio de José de Abreu
junto aos obreiros, ou “artistas” da capital. Estes eram conclamados a vir em apoio ao
governo, em troca da obtenção de alguma ajuda para as escolas mantidas por essas
associações operárias que ainda permaneciam puramente mutualistas.
A administração do engenheiro João Luis Ferreira, esforçara-se para construir as
primeiras estradas pavimentadas no Piauí, procurando ligar os eixos mais importantes à
capital. Na navegação fluvial avolumaram-se os problemas enquanto a instalação das
ferrovias arrastava-se a passo de cágado.
A novela da ponte de ferro sobre o rio Parnaíba continuava a desenrolar
lentamente os seus capítulos. Viera do Maranhão um engenheiro especial para cuidar
daquela obra: o Dr. Teivelino Guapindaia. Em fevereiro de 1925 o engenheiro Charles
Pitet viera decidir sobre o assentamento daquela obra. Em maio noticiava-se que, ante a
morosidade da obra, a Companhia de Melhoramentos do Maranhão, havia interposto na
3ª Vara Federal (22.05.1925) um protesto contra ato do governo da União que impedia
fossem atacados os serviços de construção da ponte.
Malgrado as já nítidas influências do progressivo ataque à vegetação natural a
navegação a vapor no rio Parnaíba continuava seu papel de corredor fundamental de
escoamento das riquezas e penetração comercial no Estado. Atacava-se, naquele então,
a expansão da mesma pelo alto curso do rio. Mr. Thomas Pearce, que se havia instalado
em Uruçuí, no mês de abril, estivera em Teresina, em conferência com o Senhor
Governador do Estado, em Karnak, retornando pelo vapor “Joaquim Cruz” à aquele
porto, onde se vinha revelando um prestigiado chefe político.

160
Assim, em 1925, era possível encontrar notícias tão pitorescamente
“animadoras” quanto esta publicada no “O Piauhy” em sua edição de terça-feira, 13 de
maio:

“DE AMARANTE À TERESINA EM AUTO-CAMINHÃO


A progressista administração do egrégio Dr. João Luis Ferreira,
continua produzindo seus optimus fructus.
O habil “chauffeur” José Rufino, guiando um auto-caminhão do
adiantado negociante de Regeneração, Gonçalo Teixeira Nomes,
realizou optima viagem da cidade de Amarante a esta capital fazendo
escalas em Regeneração, Boa Nova, Água Branca, Cantinho e Natal,
percorrendo, portanto, cerca de 180 kilometros (38 lugares). E affirma
o nosso habil chauffeur: ‘a não ser duas rampas muito inclinadas,
nenhum impecilho existe mais na estrada’.”

Aos primeiros automóveis, chegados a Teresina em 1923, juntavam-se agora os


caminhões e até tratores. Uma exposição de uma semana de duração, a Exposição Ford,
de 22 a 29 de dezembro de 1924, exibia as prodigiosas máquinas. A presença
americana, via Henry Ford, fazia sua chegada. A firma Castello, Lobão Ltda.
estabelecia a primeira Agência Ford da Capital.
É muito interessante notar que a propaganda feita para atrair os clientes lançava
mão de expressões a que estavam acostumados os possíveis compradores com os termos
da navegação fluvial ou da tração animal. Assim os atributos do possante “trator” eram
referenciados à potência de um “rebocador”, enquanto o caminhão “faz, sozinho, o
trabalho de oito carroças”.
Em outubro de 1925 a Agência Ford, conclamava, pela imprensa local, os
interessados a visitar as grandes e últimas novidades em matéria de automóveis.
Ilustravam-se com desenhos os modelos “double phaeton”, “sedan” e “voiturette”. Os
preços dos automóveis, segundo o anúncio, giravam entre 750$000 e 1:300$000
(setecentos mil réis até um conto e trezentos mil réis). A agência Ford tinha como
endereço telegráfico o nome Manfri, composto por aquele dos dois sócios Mano e
Anfrisio, ou seja, os Drs. Manoel Castello Branco e Anfrisio Lobão Veras Filho.
Aliaram-se nesta sociedade um magistrado e o prefeito municipal. Enquanto o prefeito
conciliava as atividades de médico, político e comerciante, o magistrado afastou-se, por
um longo período, para dedicar-se a agência.

161
Se da América nos vinham os carros, a Alemanha, também provedora de outras
máquinas, exportava sua ciência. Se bem que houvesse uma grande diferença dessa
difusão, do centro para a periferia. Em maio de 1925 o meio cientifico do Rio de Janeiro
excitava-se com a visita do grande Albert Einstein. Tal notícia repercutia em Teresina
na edição do “O Piauhy” do dia 13:

“EINSTEN
Rio, 10. Einstein que por aqui se acha novamente, compareceu a Sessão da
Academia de Sciencias, sendo ali recebido. Presidiu a sessão o Dr. Morise.
Oraram os doutores Júliano Moreira, Lafayette Carvalho e Mario Ramos.
Einstein, agradecendo as saudações que lhe foram feitas, discursou sendo
aclamadissimo. O eminente scientista visitará amanhã, o Instituto
Manguinhos, tendo almoçado hoje com o Dr. Aloysio de Castro.”

Enquanto isto chegavam até o Piauí outra categoria de “homens de ciência”,


mais próximos do aventureirismo e charlatania. No início do ano passava por Teresina –
e far-se-ia presente, ao longo de algum tempo – um velhinho amalucado, um certo
Professor Ludovico Shwenhagen, que se proclamava “filólogo e historiador” com 25
anos de magistério na Europa e 10 anos dedicados a pesquisa, no Norte do Brasil, “ao
estudo da origem, as qualidades antropológicas e religião, a vida social e política dos
povos que habitavam o Brasil antes da entrada dos lusitanos em 1500 d.C.. Descobrira
“raças authoctones” e que os antigos brasileiros “nunca foram índios...” Será ele o
responsável pelo diagnóstico de que o monumento natural das Sete Cidades, entre
Piracuruca e Periperi, era uma antiga colônia fenícia.
O professor Schwenhagen, malgrado a bisonhice do seu “saber” deitou falação,
fez conferências públicas, uma delas realizada no saião nobre da Escola Normal, na
terça-feira, 7 de abril, honrada com a presença do Governador do Estado de quem
conseguiria subvenção para publicar seus escritos. ]~ uma divertida documentação que
merece ser apreciada...
Bem mais grave poderia ter sido a passagem do Professor Maximus Niemayer,
chegado a Teresina no final de janeiro de 1925 “para proferir conferências e curas
psycotherapicas”. O noticiário da imprensa não esclarece se o tal “professor” era da
Alemanha ou se provinha do Sul do País. A. Tito Filho, no seu “Memorial da Cidade
Verde”, à página 50, coloca esta memorável visita entre os acontecimentos de destaque
em 1925:

162
“Visita Teresina o professor Niemayer, de pretensos poderes de cura.
Realizou visitas em domicílios. Conseguiu melhora no Coronel Honorio
Parentes, paralítico da perna e do braço direitos e no Capitão Justino Batista,
paralítico da perna e do braço esquerdos. Grande multidão em frente ao
Teresina hotel, inclusive muitos doentes. Espalharam que o surdo-mudo
Sesóris Melo saíra falando e ouvindo perfeitamente. Nenhuma cura de
paralisia. A imprensa noticiou que o coronel Bertolino Filho, de Jerumenha
(PI), quase cego, saiu enxergando alguma cousa.”

O curandeiro já se encontrava, em maio, na capital federal. A edição de terça-


feira, 19 de maio do “O Piauhy”, publicava a seguinte notícia:

“O professor Niemayer
Rio 15. A polícia, por solicitação da saúde pública prohibiu o Prof. Maximus
Niemayer de efectuar tratamentos nesta capital. O professor Niemayer
requererá, por intermedio do Dr. Aristoteles Barbosa Lima, uma ordem de
habeas-corpus”.

Como se percebe o “professor” não se ateve apenas à província, ousou até


mesmo a capital federal.
Teresina, recebia pelo telégrafo as notícias da capital e do mundo. E havia o que
invejar, sobretudo em relação ao teatro que parece ter sido sempre uma paixão na
cidade. Naquele ano exaltava-se a grande Duse, nos palcos europeus e em visita a
América do Sul. Apolonia Pinto, celebrava o seu Jubileu. Comentava-se o rumoroso
casamento do armador Henrique Lage e a prima-dona Gabriella Bezzanzoni, a
inigualável intérprete da ópera “Carmen” de Bizet com sua extraordinária voz de
contralto. Em Teresina chegavam mambembes e saltibancos. Uma certa “Troupe
Chilena”, apresentou variados espetáculos em dezembro destacando-se “A Prisão
Chinesa”, trabalho de “resistência pelos cabelos
Mas neste setor os recursos teriam que ser regionais e locais. De São Luis do
Maranhão veio para uma ruidosa temporada, em outubro de 1925, o grupo “Thalma”
que levou à cena as comédias “Zuzú” de Viriato Correa e “O Dote” de Arthur de
Azevedo. Além da divulgação de peças desses teatrólogos maranhenses, transladados
para a capital federal, representavam-se atos variados e burlescos, como as revistas
“Jacarandá” e “Ora me agüente!”
Mas haviam esforços locais. Em abril de 1925 criava-se a sociedade “Amantes
da Cena Viva” cuja diretoria era a seguinte: Presidente – Anisio Veras; Vice-Presidente
– José de Oliveira Sousa; Primeiro Secretário – Jorge Nunes; Segundo Secretário – João
de Deus Mesquita; Tesoureiro – Hercyno Fortes; Ensaiador – Jonathas Baptista; Contra

163
Regra – José R. da Costa. Vemos que Jonathas Baptista continuava sua importante
atividade em prol do teatro e das artes cênicas em geral. Por esta época ele era o
representante da SBAT para o Piauí.
Por iniciativa de particulares ou sociedades beneficientes organizavam-se
também “festivais artísticos” tais como aquele organizado pelo Petit Club em benefício
da Santa Casa de Misericórdia, realizado no Teatro 4 de Setembro e composto da
comédia “O Capitão dos Lanceiros” e dois atos de “variedades” no qual senhoritas da
sociedade exibiam seus dotes de cantoras e dançarinas.
O cinema continuava sua penetração e cada vez mais atraia público. Mas
reclamava-se muito dos exibidores “locais”, pois as projeções ainda eram improvisados
em precárias salas. Havia até mesmo bares que exibiam, em suas paredes, películas
cinematográficas como aquele Bar Carvalho, que em 1925 anunciava-se como Cine-Bar
Carvalho. No domingo 22 de maio levava, em vesperal, às 18 hs. o filme “A Filha das
Neves” – “sucesso incomparável dos astros mais perfeitos da tela americana: Pauline
Starck e George Stanley, um monumental filme da Vitagraph”. Em dezembro daquele
ano uma matéria publicada na edição do dia 27, havia 17 tópicos abordando o cinema
norteamericano onde se mencionava os astros Mae Murray (The Merry Widow), John
Gilbert, Erich von Stroheim, Sessue Hayahawa e os diretores Arthur Loew, King Vidor
e o genial diretor e ator Charles Chaplin.
O cinema mais freqüentado na época, malgrado a precariedade, era o “Royal”,
próximo à Praça Rio Branco e um certo “Palace Cinema” (seria aquele da rua da Estrela
gerenciado pelo jovem Henrique Monteiro?) que exibia além de fitas americanas,
produções européias, notadamente italianas, dentre as quais se destacara o sucesso de
“Sacrifício de uma Filha”.
Dentre os jornais locais o “A Imprensa” ela aquele que dava mais cobertura ao
noticiário de cinema na capital do Piauí.
Aliás, a imprensa da capital Piauiense, neste ano de 1925 alcança um dos seus
melhores estágios. O nível do jornal “O Piauhy” é surpreendentemente bom.
Descontada a parcialidade natural de que se reveste um órgão que é porta voz do
governo, nota-se uma sensível melhoria tanto no noticiário – internacional e nacional –
mas até mesmo com a inclusão de uma secção “Vida Literária” usada na edição dos
domingos, inaugurada a 13 de outubro. Transcrevem-se trechos de D’Annunzio (A

164
Epifania do Fogo), de Oscar Wilde (O príncipe da Vida) do poeta Shelley e até do
filósofo Henry Bergson (A Obra de Arte). Os poetas locais, como Celso Pinheiro, têm
espaço para os seus sonetos. Aliás 1925 é o ano de consagração do poeta Da Costa e
Silva, ilustre filho do Amarante, e que, neste ano é proclamado “O Príncipe dos Poetas
Piauienses”. Um intelectual em crescente destaque é Martins Napoleão. Este poeta, a
modo do acadêmico Aloysio de Castro, no Rio de Janeiro, também verseja em francês.
Nesta edição inaugural do Vida Literária, estampa-se uma de suas produções intitulada
“Le Poete Eternel”, um soneto que principia assim:

“Le Poete, en rêvant, voit l’essence des choses.../ Cet Ange malhevreux,
dont les yeux sont des pleurs, / dévoile les sécrets et les métempsicoses / des
1armes en rosée, et des vierges en fleurs.../
.................................................................
.................................................................

A Academia Piauiense de Letras promovia eventos culturais. A promoção dos


antigos, já consagrados, acrescenta-se o entusiasmo dos jovens, rapazes do Liceu
Piauiense – acrescido agora do Diocesano São Francisco de Salles – e das moças da
Escola Normal. Neste ano as comemorações do aniversário do Liceu (4 de outubro) o
orador seria “o aplicado e inteligente quintanista Linneu da Costa Araújo” o futuro
brilhante e estimado médico em Teresina.
Não havia muita novidade entre o corpo médico e as farmácias da capital. No
que concerne ao primeiro registra-se as vindas freqüentes do médico Piauiense Dr. José
Belleza, radicado no Rio de Janeiro mas que mantinha clientela em sua terra natal, onde
comparecia, anualmente, para uma curta temporada. O Dr. Belleza tinha prática de
assistente nas Clínicas da Faculdade de Medicina, Hospital da Misericórdia, Policlínica
de Botafogo e Hospital da Gamboa. Mantinha consultório na Rua da Assembléia, 81
onde atendia às tardes, da 1 às 3 horas.
Quanto aos remédios anunciados pelas farmácias locais, malgrado a presença já
consagrada da Emulsão de Scott e do Dynamogenol, predominavam aqueles apoiados
na flora nativa. Proclamavam-se as virtudes do Elixir de “chapéu-de-couro”, da jalapa
(pílulas), da batata de purga, etc. Para emparelhar com a “Saúde da Mulher” o
regulador, lançava-se a “Saúde do Homem” ... para prevenir impotência.
Para os agricultores os jornais anunciavam, com insistência, o prodígio que era o
formicida alemão “Ideal”, o terror dos formigueiros.

165
As bandas de música da Polícia Militar e do 25º BC do Exército Nacional
revezavam-se no coreto da Praça Rio Branco onde eram realizadas animadas “retretas”
às quartas, quintas, sábado e domingos.
A cidade deliciava-se com os doces da negra Belisa Moura, na sua casinha de
palha da rua do Amparo ao iniciar-se a subida para o Alto da Moderação. Surgia uma
concorrente, senhora da sociedade:

DOCE DE BURIRI
Vende D. Barbinha Castello Branco à rua Areolino de Abreu defronte ao
palacete do Cel. Luis Ferraz. Preço. 1ª Qualidade 5$000 Kilo. Em lata a
6$000.

Com a enchente de 1924 e o princípio da transferência das lojas da beira do rio


para as proximidades da Praça Rio Branco – e reforçada pela cheia de 1926 – esta faixa
próxima ao rio será reestruturada como área portuária e boêmia da cidade. Os cabarés,
ainda incipientes, até essa época, com o pequeno surto de expansão da carnaúba vão
principiar a se organizar em moldes menos precários. Ocorre, a este propósito, um caso
que diz respeito a família, ligando-se a João de Oliveira Souza, o primo dos Monteiro,
vindo da Amazônia (1922) e associando-se a eles na Fluminense de Navegação. Com o
baque das duas enchentes, e sentindo-se prejudicado pelos primos, João retirou-se da
sociedade. Num ímpeto de otimismo e inspirado no período áureo da borracha na
Amazônia, ele tentou abrir um “cabaret” de classe, a que deu o nome de
“BATACLAN”, por influência da Cia. de Revista Francesa que deixara lembranças na
capital federal. Ficava do lado esquerdo da rua de São José com o travessa do Banco. O
“cabaret”, em pouco tempo decairia mesmo em “puteiro”, acabando com o sonho do
empresário.
Mas após a enchente do ano anterior, e a repressão ao cangaço no sul do Piauí,
perpassavam por Teresina, desde abril as mais controvertidas notícias sobre a marcha
dos revoltosos no sul do país. Mas, àqueles rumores contraditórios – o governo
apregoando o esmagamento da revolta e a oposição acompanhando-lhe a marcha
vitoriosa – foram aumentando progressivamente. Em novembro não era mais possível
negar. No último mês do ano a coluna estava às portas da capital. Chegavam OS
REVOLTOSOS!

166
3.4. A Passagem dos Revoltosos
É por esta designação que, no Norte e Nordeste do Brasil, ficou registrada a
passagem da famosa Coluna Prestes. Além de alguns estudos setoriais sobre o tema, ele
mereceu o alentado e primoroso estudo da Professora Anita Leocadia Prestes96,
professora da Universidade Federal Fluminense que produziu uma valiosíssima análise
interpretativa do movimento liderado pelo seu pai. Se este fato facilitou-lhe o acesso a
mais valiosa das fontes, por depoimento oral pormenorizado do pai, não atrapalhou a
apreciação da historiadora. Se a fundamentação teórica é marxista e o envolvimento
ideológico é flagrante, não há exagero na parcialidade por envolvimento de amor filial.
A análise parece compreender uma justa apreciação do “tenentismo” do qual a Coluna
Prestes é, sem dúvida, o seu coroamento.
Na longa trajetória da Coluna, sua passagem pelo Piauí é apreciada em sua justa
medida. E a autora considera:

“O episódio do ‘cerco’ de Teresina pelos revoltosos é um dos mais notáveis


de toda a Marcha da Coluna; nele se revelaram, por um lado, a
incompetência do comando governista e, por outro, a audácia e a perspicácia
dos revoltosos.”97

E a passagem dos revoltosos pelo Piauí e pelas cercanias da sua capital, foi uma
marca indelével. Dois anos antes do meu nascimento, a passagem dos revoltosos
produziu um repertório de estórias que perpassaram por toda a minha infância. O
próprio casamento de meus pais, ocorrido a 10 de dezembro de 1925, coincide com o
auge do “cerco”, no momento mesmo em que a população, assustada, debandava de
Teresina para escapar ao “combate”.
A abordagem de Anita Leocadia é concordante em muitos aspectos com o que
ouvi e sobretudo àquilo que, no âmbito da pesquisa realizada para esta crônica de
família, em 1990, nos arquivos da Casa de Anisio Brito, me foi dado compilar. Neste
ensejo descobri um material jornalístico de especial interesse para apreciar a dualidade
das versões dos acontecimentos, sobretudo no que diz respeito ao discurso “oficial”,
torcendo os fatos e desinformando a população. Material que, muito provavelmente não
escapou à autora da “A Coluna Prestes”. Mas, dentre os muitos méritos daquela obra o

96
Anita Leocadia Prestes. “A Coluna Prestes” – 500pp. Ilustrado com mapas e fotos. São Paulo, Editora
Brasiliense, 1990.
97
Op. cit. p. 236, 4º parágrafo

167
equilíbrio de dosagem do tratamento da Marcha da Coluna, ao longo de sua imensa
trajetória, é um deles. Assim, não teria sentido sobrecarregar de pormenores a passagem
pelo Piauí.
Por esta razão eu me permitirei aqui a apresentar alguma coisa desta matéria
que, além de poder complementar aquele episódio na obra citada, será muito apropriada
para ilustrar o momento histórico do Piauí nos anos vinte, sob o Governo Bernardes.
Antes que se desse o encontro entre os rebeldes do Rio Grande com aqueles de
São Paulo no oeste do Paraná, o célebre encontro de Porto Santa Helena, a 11 de abril
de 1925 e o início propriamente dito da Marcha da Coluna, houve o período
imediatamente anterior da formação ou nascimento da Coluna, sob a direta liderança do
Capitão Prestes (outubro de 1924) e aquele introdutório mediante as rebeliões de janeiro
de 1923 no Rio Grande e de julho de 1924 em São Paulo.
Embora contrária ao Governo Central a rebelião gaúcha foi uma questão interna
onde a arraigada posição de Borges de Medeiros, encontrou a oposição liberal de Assis
Brasil. Foi como que o renascimento das famosas lutas entre Chimangos (o velho
Borges) e Maragatos (Assis Brasil) do final do século passado. Mas a 12 de dezembro
daquele ano o Tratado de Pedras Altas (fazenda de Assis Brasil), estabelecia um acordo
entre as duas facções regionais. Mas remanescia um conteúdo rebelde em muitos
“tenentes” servindo nas guarnições do Exército no Rio Grande e que extrapolavam das
querelas locais para uma insatisfação manifesta a nível nacional.
Em São Paulo, as discordâncias internas no PR local, produziram um racha que
possibilitou uma viravolta contra o governo de Bernardes. A 5 de julho de 1924,
primeiro aniversário do episódio dos 18 do Forte de Copacabana (ainda no governo
Epitácio) estourou um levante que levou o Governador Carlos de Campos a abandonar a
capital. O movimento chefiado por Isidoro Dias Lopes teria que enfrentar a marcha das
forças legalistas do governo central, vindas do Vale do Paraíba, passando a capital a ser
bombardeada (11 de julho). As forças rebeldes paulistas, ante a superioridade das forças
federais, bateram em direção ao Rio Paraná, no Oeste.
Acumulavam-se, assim, as insatisfações do Rio de Janeiro (18 do Forte de 1922)
a esta de São Paulo (julho de 1924), tendo já o substrato daquelas do Rio Grande
(1923). Nesse estado a oficialidade jovem, descontente, conspirava um levante contra o
governo central. A 28 de outubro o Capitão Luis Carlos Prestes, no Comando do 1º

168
Batalhão Ferroviário (BF) empenhado na continuação do trecho ferroviário entre Santo
Angelo e Chiruá, subleva as tropas em Santo Angelo, a que vão aderindo os colegas nas
tropas de São Luis Gonzaga, São Borja, Uruguaiana e Alegrete. Em novembro os
rebeldes fazem o seu batismo de fogo, em busca de munição, contra as forças legalistas
em Tuparciretã. Embora mal sucedidos os rebeldes aglutinam-se em São Luis Gonzaga
para onde convergirão, de sete posições diferentes, as forças governamentais. A
estratégia nuclear de Prestes leva os rebeldes a romper o cerco, marchando na direção
de São Miguel (das Missões) para dai, num arco disposto de 8W a NE, passando por
São João Velho – Ijuí e Ramada, penetrar no Estado de Santa Catarina e até o Paraná
onde, no encontro de Santa Helena, se reuniu à coluna paulista.
Não cabe aqui o relato, já tão bem feito, da audaciosa coluna de rebeldes que a
esta altura, partiu para sua odisséia. Mas é absolutamente necessário enfatizar a
diferença fundamental entre as táticas militares das forças legalistas – que chegaram a
ser conduzidas por onze generais – e o pequeno grupo de rebeldes liderados por Prestes.
Enquanto os militares da legalidade perseguiam-nos numa “guerra de posição”
ou seja, a conquista de lugares geográficos supostos de mérito, pressupondo ocupação
organizada e domínio da situação, a estratégia dos rebeldes seguia a orientação traçada
pelo Capitão Prestes, de uma antagônica “guerra de movimento”, ou seja, aquele de
driblar o adversário, abrindo-se à espaços variados. O que era, além de eficaz, naquele
contexto, condizente com o objetivo de ser mais um chamamento, um pedido de adesão
dos compatriotas, do que uma feroz guerra civil. E esta, parece ter sido a razão
suficiente para que a Coluna Prestes, “alinhavasse o espinhaço” do Brasil, percorrendo
25.000 km, sem jamais ter sido esmagada, até o refúgio final em terras da Bolívia.
Mas, interrompamos o enfoque da marcha da coluna para apreciar o que
acontecia no outro extremo do país, no seu Meio Norte, no estado do Piauí.
Naquele julho de 1924, quando se desencadeava o levante paulista, no dia 1º,
tomava posse no governo do estado do Piauí, o Dr. Mathias Olympio de Meio, sucessor
de João Luis Ferreira. Deixava o poder local um engenheiro e entrava um seu
correligionário político, um juiz. A presença do ex-governador era exaltada, porquanto
sua administração fora considerada, por muitos, como sendo bastante eficiente. Tanto é
que em novembro – quando já havia ocorrido o levante de Santa Angelo no Rio Grande
–, ele era cogitado para prefeito da capital. Contudo, uma posterior barganha política

169
levava o Deputado José Auto de Abreu a renunciar a seu posto na Assembléia Nacional
possibilitando seu preenchimento pelo ex-governador. Auto de Abreu viria colaborar,
como Secretário de Estado, no governo Mathias Olympio.
Arthur Bernardes já era impopular antes de tomar posse. Desde o episódio das
“cartas falsas”98 que os militares, sobretudo a ala jovem – os “tenentes” – não viam com
bons olhos. Contrariando os peritos oficiais o Clube Militar, considerou as cartas
verdadeiras e o seu autor “um politiqueiro de baixa estofa”. O que não impediu a vitória
de Bernardes nas urnas, na eleição de 1º de março de 1922.
As rebeliões contra Bernardes, além das já apontadas, repercutiram também em
Mato Grosso, Sergipe, Pará e Amazonas. No Piauí a situação era diferente. Embora os
Piauienses tivessem Bernardes atravessados na garganta desde que, no início do seu
governo, cancelou as obras do porto de Luis Correia, transferindo o material já obtido
para Minas Gerais, a posição do governo estadual era de franca aproximação e apoio.
Aliás, não há nada de novo nessa disparidade, entre nós, onde dificilmente governo o
povo partilham dos mesmos sentimentos e aspirações.
Bernardes tinha em seu ministério um Piauiense ilustre, e num ministério
importante, o das Relações Exteriores: Felix Pacheco. Ainda a pouco, o “O Piauhy”, em
sua edição de 5 de março (1925) revelava que um telegrama do Rio, de 28 de fevereiro,
noticiava que o Deputado Leopoldo Collor publicara um artigo, a propósito da
assinatura do protocolo Brasil/Uruguai, altamente elogioso à política de Felix Pacheco
no Itamarati.
Assim interessava muito a Mathias Olympio aliar-se ao governo Bernardes,
apoiado no prestigio do chanceler e tendo o irmão – Deputado João Luis Ferreira –
como elo de ligação.
Não era, pois, sem motivos que o jornal oposicionista “A Voz do Povo”, à
página 2 do seu número 69, editado em 7 de março (1925) denunciava a séria censura
que se fazia na imprensa de Teresina, ao que dizia respeito aos movimentos
revolucionários em curso no país.
Assim, desde o início do ano as notícias publicadas pelo órgão oficial visavam
sempre ressaltar as perdas dos revoltosos. Assim, por exemplo, a 4 de fevereiro o “O

98
Manobra ardilosa urdida pelo “Correio da Manhã” de Edmundo Bittencourt, reproduzindo uma carta na
qual Bernardes se referia ao Marechal Hermes como “sargentão sem compostura”, seguida de outra, que
irritaram os militares. Tais cartas seriam, declaradas apócrifas ou falsas.

170
Piauhy” noticiava a morte, em combate, do Tenente Portella (Mario Portella Fagundes)
aquele colega e amigo do Cap. Prestes, junto com quem levantara o 1º Batalhão
Ferroviário de Santo Angelo. Este bravo tenente pereceu em combate a 27 de janeiro de
1925, ainda em território gaúcho.
A 22 de março, o mesmo jornal trazia uma noticia: “Na Terra de Ninguém – o
que é a luta nas trincheiras do sul”, um espécie de “curiosos e pitorescos informes de
um oficial legalista”, o Tte. Adauto Castello Branco. A 16 de abril anunciava-se que os
revoltosos haviam abandonado Foz do Iguaçú.
Uma carta, datada de 17 de abril – e publicada na edição de 27 de maio – no
momento mesmo em que se dava o encontro de Santa Helena (11 de abril), pintava a
situação dos revoltosos, com essas tintas:

“ECOS DAS TRINCHEIRAS


De uma carta, datada de 17 de abril, dirigida pelo nosso conterrâneo Antonio
Mello, Sargento do 12º RI que empunhou, com franqueza e lealdade, as
armas em favor da legalidade, transcrevemos os seguintes interessantes
tópicos:
‘Escrevo-te da legendaria Guayra, nos fins do Brasil, de onde estou ouvindo
o ruir das águas do Salto das Sete quedas.
Veja só onde me trouxe o destino!
Estamos vencendo a última etapa da famigerada revolução tramada por
Isidoro Dias Lopes e seus comparsas.
Daqui a 20 dias, no máximo, esperamos a completa victoria das forças
legais.
Os mashorqueiros em situação pessima que não se pode descrever estão
fugindo, covardemente, sem destino.
Ocupamos Guayra, a melhor situação deles, e temos forças em caminho do
Porto de Mendes, para os fazerem fugir de lá para Foz do Iguaçú, onde terá
lugar a completa victoria almejada.
O alimento deles tem sido carne de burro, e o vestimento – roupas de
mulher, que requisitam para não andarem nús. Não têm calçados’ ........”

Mas há ambigüidades e contradições no noticiário. No mesmo dia (21 de abril)


enquanto o órgão oficial – “O Piauhy”, publica:

“A REVOLUÇÃO AGONIZOU
Rio, 19 – O Embaixador Nabuco de Gouveia comunicou ao Itamaraty a
retirada dos ultimos rebeldes de Foz do Iguaçu, marcando a vitoria decisiva
da legalidade.”

171
o órgão da oposição – “A Voz do Povo” – faz caçoada do fato de que o voluntariado
aberto pelo 25º BC com o fim de seguir para o Rio de Janeiro, combater os revoltosos,
não teve nenhum candidato... E acrescenta: “É que ninguém quer tomar armas ao lado
do Governo, nesta luta de irmãos contra irmãos...”
A 23 de abril, a edição do “O Piauhy” é aberta com um retrato de João Luis
Ferreira, aniversariando naquela data. Publica-se ali um telegrama do Rio de Janeiro,
datado de 21, noticiando que o General Rondom telegrafara ao Governador Borges de
Medeiros e ao Marechal Setembrino de Carvalho dando a revolução como terminada. A
7 de maio, proclama-se “A Vitória da Legalidade”, com o fecho: “está completamente
extinta a revolução”.
Aquilo que era dado como agonizante e decisivamente acabado era na realidade
o princípio da grande marcha da Coluna, o que pode ser balizado pelo dia 27 de abril
quando, após deixar Foz do Iguaçú e penetrar no território paraguaio, a coluna vai
ressurgir em Mato Grosso e daí prosseguir o seu gigantesco périplo pelo território
nacional. Sob o comando geral de Miguel Costa, com Prestes a frente da coluna do Rio
Grande e Juarez Tavora daquela de São Paulo, havia cerca de 1.500 homens fadados à
perseguição de contingentes legalistas bem superiores que jamais foram capazes de
deter sua marcha.
Assim como acontecia no Piauí99 o noticiário pelo país, era também fantasioso,
pregando sempre os insucessos da coluna e a vitórias da legalidade.

“Esse noticiário falsificado veiculado pela imprensa governista revelava,


contudo, um outro lado da questão: o total despreparo dos generais legalistas
para compreender a tática de ‘guerra de movimento’ adotada pela Coluna
Prestes, Assim, toda vez que os rebeldes desapareciam da alça de mira do
adversário, o comando governista era levado a acreditar que eles tinham sido
desbaratados ou liquidados. Entrementes, os soldados da coluna ressurgiam
em algum outro lugar, de maneira inesperada e desconcertante para os
defensores da ‘legalidade’.”100

Deixemos a Coluna nesse período de maio a novembro de 1925 enquanto ela


atravessa Mato Grosso e Goiás, para retomar o seu trajeto a partir do meado de
novembro quando ela atinge o Maranhão e se organiza, visando o vale do Parnaíba.

99
A coleção do jornal “O Piauhy”, na Casa de Anisio Brito, referente ao ano de 1925 apresenta uma falha
para os meses de julho, agosto e setembro. De junho salta para outubro. Mas, graças a CRONOLOGIA
DO PIAUÍ REPUBLICANO – 1889/1930, é possível sanar esta lacuna.
100
Anita Leocadia Prestes. Op. cit., p. 155.

172
Enquanto isso a capital celebra festivamente a chegada do Deputado José Auto
de Abreu que vem colaborar com o Governo Mathias Olympio. Os jornais de 3 de maio
noticiam sua festiva chegada à capital a frente da Secretaria Geral.
O governo celebra a pacificação no sul do Estado, entregue até então à sanha da
jagunçada a serviço de litigiantes coronéis. É o momento de glorificação do Tte. Jacob
Gayoso que é alvo das festas e homenagens na capital. Os jornais de 6 de junho
noticiam que o jovem Secretário de Estado da Polícia recebera, do Rio de Janeiro,
enaltecedores telegramas de Felix Pacheco e João Luis Ferreira.
Em outubro a imprensa ressalta os melhoramentos de vulto, iniciados na
administração anterior e agora inaugurados por Mathias Olympio: as novas instalações
da Usina Elétrica e a inauguração do Grupo Escolar Demóstenes Avelino (12 de
outubro).
Do sul vêm reforços de confirmação da “derrota” dos revoltosos. Malgrado as
declarações de sua completa derrota, sempre restava algo a vencer.

“O ÚLTIMO REDUTO DOS REBELDES GAUCHOS EM PODER DOS


LEGALISTAS
Rio, 10 (Via Western) – O deputado Flores da Cunha derrotou, em Passo da
Conceição, município de Rosário, as tropas de Honório de Lemos, com seu
estado maior de 12 oficiais. Muitos soldados foram presos, perecendo,
outros, afogados.”

O Piauí viveria no embalo dessa ilusão até o meado de novembro. Aquilo que
estava morto “renascia” assustadoramente em Carolina, no Sul do Maranhão,
ameaçando o vale do Parnaíba.
Depois do período de calma, de “morte” da revolução no Sul o jornal “O
Piauhy” de 7 de novembro adverte a população de Teresina de que estava:

“... espalhando-se o boato alarmante de que se aproxima de Carolina no


Maranhão, os remanescentes do movimento revoltoso que vem internar-se
nos sertões brasileiros.”

Mas, apesar de ser “boato” o governo do Estado tomava suas providências. O


Secretário de Polícia, Tte. Jacob Gayoso e Almendra, a frente de una contingente de
força pública embarcava, pelo vapor “América”, subindo o rio até Uruçuí, de onde se
concentrariam os esforços para deter os revoltosos em sua pretensão de progredir pelo
Piauí.

173
174
Depois de uma longa e cansativa travessia de Mato Grosso e Goiás a Coluna
chegava ao Maranhão. Os rebeldes alimentavam grandes esperanças de apoio no
Nordeste. E no Maranhão, as condições pareciam bem propicias. Ao contrário do que
acontecia no Piauí o Governo do Sr. Godofredo Vianna era muito impopular e a
oposição em São Luis era vigorosa, tendo como destacados líderes o Dr. Tarquino
Lopes Filho e o Des. Dioclides Mourão. O Governo de Bernardes era, como por toda
parte, impopular e seu governo via com apreensão o Estado do Maranhão pois falava-se
até na possibilidade de deposição do Governador local pela oposição.
O território maranhense foi penetrado pela Coluna em Carolina, porto do
Tocantins, onde a recepção local foi bastante animadora para os rebeldes. Havia,
sobretudo, a aura de admiração pela coragem daquela gente que viera desde o Rio
Grande até ali. O jornal local “A Mocidade” do dia 7 de novembro noticiava a entrada
das Forças Revolucionárias na cidade e os números subseqüentes davam notícias e
publicavam os boletins dos revoltosos. O Dia da Bandeira (19) foi celebrado em
congraçamento da cidade com os revoltosos, com missas e solenidades. Agradou muito
à cidade a publicação do Auto de Apreensão dos Talões de Impostos Estaduais e
Municipais na cidade de Carolina, Estado do Maranhão assinado por Juarez Távora e
Lourenço Moreira Lima” convidando a população para assistir a queima dos mesmos
em frente ao edifício da Intendência Municipal, ao meio dia”, o que foi assistido pelos
carolinenses com a maior alegria101.
Malgrado as dificuldades das comunicações da época, as notícias e boatos
corriam céleres e assustavam os governos nas capitais de São Luis e Teresina. A coluna
avançava sobre a bacia do Parnaíba, orientada em três ramos: uma, ao longo do rio
Balsas – comandada por Prestes; outra mais avançada, ao Norte, sob Siqueira Campos e
outra mais para o centro, com João Alberto.
Se as adesões não ocorressem como se esperava, se não fosse possível sublevar
o Estado do Maranhão, interessava aos revoltosos alongar sua permanência no
Maranhão-Piauí (Vale do Parnaíba) para atrair as forças governistas enquanto eles
penetrariam no Ceará. Ali as esperanças de adesão eram mais fortes, fosse pela pobreza

101
Veja-se Anita L. Prestes – Op. cit. Cap. VI – A Coluna no Norte e Nordeste – A recepção calorosa no
Maranhão e Piauí e o “cerco” de Teresina – p. 224-258.

175
da população fosse, sobretudo pela aura do prestígio dos irmãos Távora102 três
expressivas figuras do tenentismo, filhos do Ceará.
A certeza da presença dos revoltosos no Sul do Maranhão, marchando para o
Norte, exigiu uma decisão rápida do Governador Mathias Olympio que se apressou em
enviar para o sul do Piauí uma tropa para sustar-lhes o avanço.
Ninguém melhor do que o Tte. Jacob Manoel Gayoso e Almendra, oficial do
Exército, colocado no comando da Polícia Militar e Secretário da Polícia que acabava
de exterminar as lutas no extremo sul, sob ação dos jagunços. Antes mesmo da decisão
do Governo Federal e da mobilização do 25º BC sediado em Teresina, partido de
Teresina desde o dia 7 de novembro, o Tte. Gayoso parou em Floriano,
Segundo seu depoimento pessoal a Orgmar Monteiro103 o comandante saiu de
Floriano, pelo vapor “15 de novembro” rebocando duas barcas e levando 80 homens, o
que era um diminuto contingente. Mas, segundo seu depoimento:

“... contava com a possibilidade de recrutar maniçobeiros e outros


trabalhadores rurais entre os fazendeiros da região. Eu conheci muito bem
aqueles sertões e os fazendeiros que la viviam, estivera antes numa missão
apaziguadora de pleno êxito. Navegavamos rio acima. Boatos em todos os
portos. Porem tudo calmo. Atracando em Uruçuí, chegava ao front.”

Uruçuí era o porto fundamental do Alto Parnaíba, já que daí para montante, até
Santa Filomena as condições de navegabilidade eram bem mais precárias. Era, portanto
um ponto estratégico, tanto para a legalidade quanto para os revoltosos que para ali se
dirigiam. Uruçuí tinha, como soe acontecer o seu “outro lado” maranhense na localidade
de Loreto, já rebatizada de Benedito Leite.
Fica-se sem saber o número exato dos homens a disposição do Tte. Gayoso em
Uruçuí. Teria ele conseguido muitos maniçobeiros ou trabalhadores rurais para anexar
aos seus 80 iniciais? Embora não mencionando os contingentes em números, é certo que
de Teresina, partiram seguidos “reforços” para Uruçuí, segundo o noticiário da
imprensa de Teresina.
“O Piauhy” na edição do dia 19, aquele dia da Bandeira quando os revoltosos
queimavam os Talões de Impostos em Carolina, declarava que “sob aclamações
entusiásticas do nosso povo às 5 horas da tarde de ontem, seguiu para o Sul do Estado

102
Além de Juarez, havia Joaquim – que fora abatido em São Paulo em julho de 1924 – e ainda um outro
cujo nome me escapa.
103
Orgmar Monteiro. “Teresina Descalça” – 4º vol. p. 356.

176
um contingente do 25º BC, esclarecendo que o mesmo segue sob o comando do Tte.
Pires de Camargo, auxiliado pelo Tte. Almir Campelo104. Por ocasião da partida o poeta
Martins Napoleão proferira um exaltado discurso enaltecendo o valor do soldado
brasileiro. E logo a seguir, na edição de 21 de novembro (nº 266) um outro reforço –
“nova companhia para juntar-se a Gayoso” – pelo vapor “Santa Cruz”, com o mesmo
destino e objetivo, sob o comando do Tte. Lemos Cunha, subindo o rio pelo vapor
“Santa Cruz”. Até o dia 8 de dezembro estes reforços seguiram para o Sul; desta vez
“mais uma companhia da Força Pública” havendo, na despedida, um discurso do Dr.
José Firmino Paz. Ao mesmo tempo seguiam também o Cap. Tte. Humberto de Arêa
Leão “comandante da flotilha de guerra em inspeção no rio Parnaíba” e o Sr. Major
Antonio da Costa Araújo Filho.
Tudo indica que os primeiros dias de dezembro de 1925 estiveram voltados para
o Sul, na expectativa de uma batalha entre legalistas e revoltosos em Uruçuí. Mas:

“O combate de Uruçuí entrou para a história do mesmo jeito que a batalha de


Itararé, quando da ‘Revolução de 30’ – um combate que não houve, ou
melhor, que aconteceu somente na imaginação do Tenente Jacob Manoel
Gayoso e Almendra, comandante da Polícia Militar do Piauí ...”105

Começam aqui as discrepâncias e contradições entre os dois lados. O Tte.


Gayoso insistia na inferioridade da tropa sob o seu comando, onde aos 80 iniciais e as
expectativas em arregimentar n1aniÇobeiros e trabalhadores das fazendas e os vários
reforços enviados de Teresina parecem não ter se incorporado.
Os revoltosos, por sua vez, marchando para o Norte, terão indicações
discrepantes quanto ao número de homens nas tropas legalistas concentradas em
Benedito Leite – Uruçuí – entre 2.300 e 1.500106 – mas sempre em estimativa bem
superior ao contingente de revoltosos, sobretudo pelo fato de estarem eles subdivididos
em três alas.
Segundo a visão legalista após um ferrenho combate, em vista da falta de
munição e da inferioridade numérica os legalistas, guiados pelo Tte. Gayoso,
resolveram que a melhor estratégia seria recuar as tropas e vir concentrar-se em defesa
da capital, que seria o objetivo visado pelos revoltosos.

104
Aquele mesmo que, quando aspirante, fora um dos namoradinhos da moça Graci Figueiredo.
105
Anita L. Prestes. Op. cit. 233.
106
Confrontar, em Anita L. Prestes, Op. cit., a narrativa de Luis Carlos Prestes à página 233 e a nota nº
28, à página 254.

177
Em sua narrativa prestada a Anita L. Prestes o Cap. Prestes, declara que,
marchando para o Norte, afastado do rio, dirigiram-se para Benedito Leite, onde os
habitantes informaram que a noite havia tido um tiroteio tremendo. O Cap. Prestes
caçoa e enfatiza um tiroteio havido por volta das quatro e meia da tarde no encontro de
piquetes de vanguarda das forças oponentes. Mas que durante a noite toda a munição
dos legalistas foi gasta por que estes “atiraram nas sombras”.
Este início e meado de dezembro foi gasto no recuo desabalado dos legalistas de
retorno à Teresina facilitando o progressivo e calmo avanço dos revoltosos para o Norte.
A ala do Capitão Prestes seria a primeira a chegar à Floriano, que foi ocupada.
Enquanto isso a situação em Teresina era grave. A capital vivia sobressaltada
pelos boatos e as notícias absolutamente divergentes entre o que corria de boca em
boca, e o que os boletins oficiais proclamavam.
Dizia-se, a boca pequena, que a tropa do Tte. Gayoso havia fugido de Uruçuí
sem ter enfrentado os revoltosos. Acrescentavam-se pormenores picarescos sobre as
circunstâncias. Que os praças saltaram sobre o vapor, cortando os cabos de amarra antes
que o foguista tivesse tido tempo de esquentar a caldeira ...; que muitos haviam caído
nàgua, que alguns morreram afogados...
O depoimento de Prestes confirma que foi isto que ele ouviu dos habitantes de
Benedito Leite – Uruçuí. Que Siqueira Campos, mais ao Norte que ele, viu passar o
vapor. E este, veio direto para Teresina sem parara em Floriano ou no Amarante.
Por outro lado falava-se em grande batalha no Uruçuí onde o Tte. Gayoso havia
sido de toda bravura. Outras vozes diziam que as forças legalistas haviam sido
massacradas.
No dia 10 de dezembro a capital estava entregue ao caos do noticiário divergente
e confuso e sua população, em pânico, começava a tropelia de uma evacuação em
massa. Os ricos ou remediados saiam para as fazendas ou cidades do interior onde
tinham parentes. Para os pobres era bem mais difícil sair, sem destino certo, mas
procurando pelo menos ultrapassar o rio Poti, para pequenos povoados com o São
Domingos ... enfim, sair da cidade que, mais cedo ou mais tarde, seria local de uma
batalha, no cruzamento de cujas balas adversárias estariam expostos os habitantes.

178
Exatamente nesse tumultuado dia 10 é que se realizou o casamento de Graci e
Mundico, conforme a cena introdutória a este volume e com os pormenores que se verá,
mais adiante.
Mas a marcha das forças, pelo rio ou por terra, não era tão rápida assim, e aquela
morosidade exasperava ainda mais os nervos daqueles que permaneceram na cidade e
daqueles que, havendo saldo, não sabiam quando poderiam voltar.
Felizmente em dezembro findava o ano letivo e a população escolar entrava nas
longas férias de fim de ano – até fevereiro.
Minha mãe lembra que o medo era grande na população, o que era ajudado pela
propaganda que o governo ensejava. Para uns, conscientes de que a revolta era “contra o
governo Bernardes” e de que os oficiais dissidentes “não eram bandidos” era difícil
acreditar nas atrocidades que lhes eram imputadas. Mas a população menos esclarecida
– a grande maioria – deixava-se influenciar pelos boatos negativos, tanto no sentido
material quanto moral. Dizia-se que, por onde passavam, os revoltosos matavam os
homens e estupravam as mulheres; que se os oficiais tinham razões políticas os
soldados, e a população de criminosos a eles associados, tinham maus instintos a deixar
extravasar ... Que os bandos de revoltosos eram seguidos, desde o a Rio Grande, por
mulheres de má vida e que, no grosso desses bandos reinava “a maior pouca-vergonha”.
Bem ilustrativa dessas preocupações reinantes é o depoimento do meu primo
Orgmar Monteiro, inserido no capitulo 12: “Os Revoltosos”, no sub capítulo “Fim do
ano”, à página 338 do 4º volume. Trata-se de um feliz retrato da situação exposta
segundo a recordação de alguém que tinha seus oito anos naquela ocasião e que residia
na fronteira Vila das Flores, à margem maranhense do Parnaíba, complemento sub-
urbano da capital Piauiense:

“Fim de ano
O ano de 1925 chegava ao fim e com o encerramento das aulas antecipado.
Aquele era o meu primeiro ano na escola. Corriam de boca em boca boatos
sobre os Revoltosos. O refrão mais ouvido depois de sair da escola era o
boato recém-propalado, com esta rima:
‘Tempo de guerra,
Mentira como terra.’
Pelo sim, ou pelo não, era melhor que as famílias se acautelassem contra
vexames que poderiam sofrer com a invasão das cidades. Esta era a palavra
de ordem do próprio governo. Da legalidade. A insinuação, sugestão ou

179
mesmo o conselho oficial ou oficioso era uma ordem de que cada um se
escondesse.
Eu estava freqüentando a aula de D. Laura, no primeiro ano do curso
primário. A escola era bem perto de nossa casa, em Flores. Naquele dia,
depois da chamada, para confirmação dada, de própria voz, pelo aluno: –
“presente” – a professora nos disse que voltássemos para as nossas casas,
pois os revoltosos estariam chegando. Haveria guerra. Tiroteio e mortes.
Eles iriam tomar Teresina. Mas a cidade de Flores, onde morávamos, sendo
defronte, eles a invadiriam logo, em primeiro lugar, depois é que
atravessariam o rio, indo para Teresina.
Muitas perguntas inocentes, descabidas ou acertadas se fizeram ouvir.
A professora pediu silêncio, enquanto batia num tímpano sobre a sua mesa.
Contidos os curiosos palradores, ela retomou a palavra para dar algumas
explicações: – ‘as famílias devem abandonar as cidades, tanto os que moram
em Flores como os de Teresina; o governo está trazendo muitos soldados
para combater os revoltosos; dizem que os revoltosos são numerosos
aumentando sempre com os presos das cadeias dos lugares onde vão
parando; nas cidades que ocupam roubam, saqueiam, matam, abusam das
mulheres, é o fim do mundo’. – Com esta peroração fomos dispensados da
aula daquele dia. Estava encerrado o ano letivo.
Chegando em casa a azáfama de arruma, arruma, embala o que fica; separa o
que vai, era um pandemônio. O estado geral era de alarma. Meu pai estava
na vacaria. Fui correndo lhe contar o que ouvira na escola. Ele dava as
últimas ordens aos vaqueiros e tratadores das vacas estabuladas. Aberta a
porteira do curral que dava acesso para a rua vacas e bezerros foram saindo.
Depois de irem embora, ficamos sós – eu e ele. Então ele me pediu que lhe
contasse aquilo que eu lhe dizia, quando ele estava ocupado sem poder me
dar atenção. Repeti-lhe como pude o que ouvira da professora. Ele riu.
Pediu-me que sentasse ao seu lado, no banco junto do qual ficavam as
vasilhas do leite, no momento da ordenha. Sentados, ele me contou:
– Alguns oficiais jovens de nosso Exército não aceitaram certos atos do
Presidente da República por isso são chamados revoltosos.
– Por que vão nos matar?
– Eles não estão matando o povo, porém na guerra muitas pessoas morrem.
Pode vir uma bala e matar uma pessoa que vai passando.
– Nas a professora disse que eles são bandidos, matam para roubar. Como é
que eles fazem isso?
– Os militares que comandam a Revolução são homens direitos, oficiais do
Exército. Pode haver entre os que lhes acompanham homens maus, sem
amor ao próximo e sem temor a Deus. Esses criminosos, quando são pegos,
são julgados pelo que fizeram e castigados.
– Por que a mamãe está mexendo em tudo lá em casa? Arruma e desarruma.
– Nós vamos para fora, já mandei o gado e depois do almoço iremos para a
casa da sua tia Lídia, lá no engenho da Água Limpa. Agora vá tirar a farda,
troque de roupa e não perturbe sua mãe que está muito ocupada.
Depois do almoço começou a chegar gente lá em casa: meu tio João, que
morava em Teresina, e família (esposa e filhos); a tia Herotildes e os seus

180
três filhos: o Dr. Serostris que era o farmacêutico da cidade, e duas famílias
(do seu lado e da esposa); mais alguns sobrinhos de meus pais se reuniram
ao crescido grupo. A cavalgada com 2 ou 3 sobre um animal ou até mais
com os miúdos (como se diz em Portugal) em jacás, um adulto pajeando-os
no meio da carga e de sobrecarga mais um contrapeso na garupa da
montaria. Ninguém podia ficar. Todos teriam de viajar montados, para maior
celeridade, não seria possível ninguém ir a pé. Chegamos era noite.
Ao clarear o dia via-se gente por todo lado.
Além dos habitantes da casa com 8 ou 10 crias (qualificativo de adotado sem
as formalidades legais) chegam uma leva de 30 ou mais retirantes.”

Este episódio de “retirada” ocorrido com a família de Benjamim Monteiro, deu-


se com várias outras em Teresina e na Vila das Flores, procurando safar-se do eixo do
rio Parnaíba, sobretudo da capital do Estado que, segundo se presumia, era o alvo
principal dos revoltosos.
Estes haviam entrado pacificamente naquele dia 10 na vila de Nova Iorque, do
lado maranhense do rio, a meio caminho entre Uruçuí e Floriano. AI neste ponto o 2º e
4º destacamentos da Coluna davam início à travessia do rio. A partir dai, desceriam o
Parnaíba por ambas as margens em direção à Teresina e a Vila das Flores107.
Ainda naquele 10 de dezembro, com os revoltosos descendo o eixo do rio, já em
Nova Iorque, o Governo do Estado lança uma proclamação à população da capital,
editada num boletim “volante” reproduzido na edição do “O Piauhy”, nº 285, da sexta-
feira 11 de dezembro.

“A POPULAÇÃO DE TERESINA
BOLETIN DE “O PIAUHY” – 10.12.1925
O Governador do Estado, para ciência da população de Teresina, a quem,
mais de perto, se dirige nesta ocasião, informa que não havendo sido
possível manter a posse de Urussuhy, por melhor orientada necessidade
militar, e, como todas as tropas rebeldes se aproximam de Floriano,
determinou a emergência que as nossas forças descessem o Parnaíba, com
destino a esta capital onde se concentrarão em defesa contra aquelas.
Não há razão de sobressalto nessa deslocação das forças legais, pois o
Governo, justamente ao par de nossa exata situação, promove todos os meios
eficientes ao seu alcance para a guarda da Capital Piauiense.
E é para afastar o natural pânico que a notícia dessa deslocação poderia
produzir no animo do povo, que ele lhe dirige o presente comunicado,
aconselhando a precisa e maior calma diante da situação, bem como espera
firme confiança nas medidas enérgicas de forte repressão, que está tomando,
desde o momento em que achou recomendável a conveniência da nova
orientação defensiva.”

107
Anita L. Prestes. Op. cit. p. 235.

181
É deste mesmo dia 10 a publicação, pelo Comandante do 25º BC, Capitão
Alvaro Peixoto de Azevedo do Boletim Regimental nº 290 pelo qual, de ordem do
Ministério da Guerra, faz-se a incorporação da Força Pública do Estado, bem como
passa a competência da organização de Batalhões Patrióticos os quais serão mantidos
pelo Governo Federal.
Estes últimos já haviam sido arregimentados por iniciativa do Governo Estadual,
principiando por um apelo aos “artistas ou artífices”, ou seja, à classe operária, numa
mobilização executada pelo Secretário de Estado José Auto de Abreu. Desde o mês
anterior, ou seja, a 24 de novembro que a imprensa oficial enaltecia a manifestação
operária, encabeçada por José de Abreu, que já arregimentara 107 ativos operários numa
falange que se denominaria Guarda Civil “Mathias Olympio” e que se reuniria no Tiro
de Guerra. Mencionava-se ainda que o distinto operário Francisco Gonçalves da Silva
telegrafara ao Tte. Gayoso dando-lhe o apoio da classe108.
Data de 24 de novembro o primeiro sintoma de que o Governo Federal tomara
consciência da gravidade da situação no Norte do País, penetrando pela Coluna Prestes.
Pelo decreto nº 17.122, fixava, a partir daquela data, as normas pelas quais “deverão ser
atendidas as requisições militares nos Estados do Pará, Maranhão e Piauhy”.
O Boletim do Exército (25º BC de Teresina) naquele dia 10 de dezembro
aparece no mesmo jornal em que se encontra uma referência à Guarda Nacional,
instituição decadente, exalando os seus últimos suspiros. O número inaugural do
Almanaque da Parnaíba, para o ano de 1924, inserira uma notícia sobre os emolumentos
a ser pagos pelos componentes daquela milícia e que eram: oficial general – 120$000;
oficial superior – 80$000; capitães e subalternos – 50$000. Neste momento de ameaça
de entrada dos revoltosos, um dos seus membros, remanescentes de algo do passado,
oferecia os serviços daquela milícia de coronéis:

“EM DEFESA DA LEGALIDADE


Rio, 10 – Agradeço muito penhorado o telegrama com que me distinguiu o
Sr. Raimundo Gonçalves das Neves offerecendo os seus serviços em defesa
da legalidade. A Guarda Nacional só aparentemente pode ter desaparecido.
Ella conserva intacta a sua tradição de abnegação e ha de ser sempre um
factor precioso de defeza da ordem em nossa terra – Saudações.

108
Parece tratar-se de um marceneiro, conhecido como “Mestre Chico” que possuía uma confortável casa
de alvenaria e telhas com um grande anexo para sua oficina, e que ficava situada à rua da Estrela,
fazendo fundos com a Casa da Dinda. Era um dos melhores marceneiros da cidade, fazendo móveis
domésticos por encomenda, no meu tempo de infância e adolescência.

182
(a) – Felix Pacheco”

Aquela instituição fundada na Regência (1831), reformada seriamente no


Segundo Império (1850), já estava aparentemente desaparecida no primeiro quartel
deste século, na vigência da República Velha.
No Piauí do final de novembro, ao mesmo tempo que aumentava a milícia
operária, acrescida a 29 de novembro de 107 para 133 membros, oficiais do Exército,
filhos da terra, servindo na capital, apresentavam-se ao Governador do Estado. Tais
foram os casos do Major Antonio da Costa Araújo e do Capitão Engenheiro José
Faustino dos Santos e Silva109. Talvez por isso o Governador Mathias Olympio tivesse
podido, embora apreensivo, apresentar algum otimismo. Um editorial do “O Piauhy”
daquele momento (28 de novembro) intitulado “A Caminho da Derrota Final” assinado
pelo Dr. Cromwell Barbosa de Carvalho, procurava difundir aquela expectativa oficial.
No início de dezembro, ao lado das proclamações de apoio dos parlamentares
Piauienses na Capital Federal: Felix Pacheco, Pires Rebello, Antonino Freire, Euripedes
de Aguiar, Armando Burlamaqui, Ribeiro Gonçalves, João Luis Ferreira e Pedro
Borges110 eram enviados os reforços na esperança de barrar os revoltosos em Uruçuí.
Ante o fracasso dessa iniciativa do governo estadual, o Governo Federal
determinava-se a sustar o movimento daquela demoníaca coluna que resistia a toda a
iniciativa legalista. E aquele Boletim Regimental do Comendo do 25º BC era o
testemunho dessa preocupação.
Aquele Boletim do “O Piauhy” lançado na cidade, no dia 11, sobre as dúvidas e
boatos do dia 10, juntava-se um outro Boletim que dava conta dos acontecimentos de
Uruçuí, no episódio da “batalha” realizada entre os dias 7 e 8.

“A POPULAÇÃO DE TERESINA
Boletim do ‘O PIAUÍIY’ – 11.12.1925
O Governador do Estado se apressa em informar que, felizmente, foram de
todo desfeitas as previsões de massacre de nossa força, que tantas
aprehensões trouxeram ontem à população theresinense. O Sr. Coronel
Gayoso e Almendra, comandante das forças estaduais, segundo
communicação directa, passou a bordo do ‘15 de novembro’ pelo porto de
Floriano, de onde partiu as 5 horas da tarde de ontem, trazendo officiais da
Polícia do Piauí e grande parte de sua valiosa tropa.

109
“O Piauhy” – Edição de 28 de novembro de 1925.
110
“O Piauhy” – Edição nº 275, de 10 de dezembro de 1925.

183
Disposto e forte, o Sr. Coronel Gayoso e Almendra, à frente da força
assinada, organizou um pelotão de cavalaria sob o comando do Tenente
Britto Freire que, pela estrada de Jerumenha, se encaminha com elle e os
seus soldados, para esta capital a receber ordens para a continuação intensiva
de nossa defeza, em que permanecerão empenhados, firmemente.
Essas novas confortadoras que o Governo transmite ao povo com
contentamento farão voltar a calma ao seio da nossa população aprehensiva
com o paradeiro incerto do querido Piauiense e brilhante official, sob cujo
comando se encontravam as forças em Urussuhy.
Só nos podem tranquilizar, neste momento, as notícias que o Governo dirige
à população da Capital, por este Boletim, em que aconselha a precisa calma
diante da situação, como espera a necessária confiança nas suas medidas.”

O povo precisava confiar nos seus “defensores” e à elite, sobretudo, repugnava


substituir a aura de honra de que se revestia o bravo Tte. Gayoso, na luta há pouco
realizada contra os perigosos jagunços do sul do Piauí, pela pecha de “fujão” com medo
dos revoltosos. Não foram poucas as crianças masculinas nascidas naqueles dias em
Teresina que foram batizadas com o nome de Jacob. Eu tive, na escola primária – a
Escola Modelo – de Teresina, uma graciosa e querida colega de turma que se chamava
Enid Jacobina, filha de Agripino Oliveira111 e D. Osita - a bela “Deusa da Liberdade”
dos festejos do Centenário da Independência – nascida naquele episódio.
A edição do “0 Piauhy” nº 286, do dia 12 de dezembro, acrescentava outros
informes sobre o episódio de Uruçuí:

..............................................................
“Para felicidade nossa, porem, chegou-se, afinal, à veracidade de todo o
ocorrido, sabendo-se de como se passou a tremenda luta em Benedicto Leite,
da qual, e tão somente por falta de munição, tiveram as bravas forças
Piauienses que recuar, cedendo o campo as hostes adversárias.
............ os que perderam a existência ou ficaram feridos, e foram poucos, à
vista do grande número que saiu ileso, terão, para sempre, a lhes prestar,
comovidos, o mais sincero culto de gratidão à terra que tanto amamos .......”

Enquanto as forças do estado recuam para Teresina, na capital, o Exército


prepara-se para a coordenação das forças legalistas:

“NOTA
De ordem do Major Benedicto Passos de Carvalho, convidam-se os
operários e artistas no batalhão patriótico “Mathias Olimpio” para uma

111
Agripino de Oliveira, que seria meu professor de inglês no Liceu, tinha quatro filhos: Clotinde, Enid
Jacobina, Carmelita e o caçula, um garoto que recebeu o nome do Avô Manoel Thomaz – um dos
líderes da navegação a vapor no Parnaíba. Manoel Thomaz também era o nome do mais gracioso
vaporzinho navegando no rio Parnaíba.

184
reunião hoje (domingo), às 8 hs da manhã na Secretaria do Governo, (“O
Piauhy” – nº 287 – Edição de 13 de dezembro de 1925).”

Os jornais de 15 de dezembro noticiavam que Floriano e Amarante ainda


permaneciam fora da ação dos rebeldes “dos quais não se sabe, até hoje o rumo tomado
e o lugar onde param”. Nesse mesmo dia o Tte. Britto Freire já se achava no Amarante,
pois dali enviara um telegrama a seu amigo Raimundo Gil da Silva Santos.
A essa altura, nesse meado do mês de dezembro, o Governo de Bernardes já
havia designado o General João Gomes Ribeiro Filho para o comando geral das forças
legalistas no Norte Nordeste, que estabeleceu o seu quartel general em São Luis do
Maranhão, enviando para Teresina o Coronel Gustavo Frederico Bentemuller com o
posto de Comandante das Forças em Operação no Estado do Piauí. Para a cidade de
Caxias (Ma) haviam sido enviadas tropas.
Embora a imprensa situacionista propalasse que o Coronel Bentemuller
estivesse “de mãos dadas com o Governador Mathias Olympio” havia uma séria
divergência entre os dois. A estratégia militar do General Gomes, preconizava atrair os
revoltosos para ocupar Teresina para, a seguir, concentrar forças e derrotá-los na capital.
Com isto não concordava, absolutamente, o Governador do Estado, que de nenhum
modo pretendia deixar o poder em mãos dos rebeldes, mesmo que fosse para “facilitar”
a sua derrota.
Assim, enquanto as notas e boletins do governo estadual visavam acalmar os
habitantes concitando-os a permanecer na cidade, o comando federal induzia a
população a evacua-la.
A publicação desses dois avisos, na mesma edição do “O Piauhy” – aquela de
sábado 19 de dezembro (nº 292) – dá margem a que se assinale um vestígio dessa
divergência:

COMMANDO DAS FORÇAS DE OPERAÇÃO NESTE ESTADO


– Aviso ao Público –
Declaro, para os devidos fins que as permissões para saída de vehiculos e de
pessoas, desta capital, são de alçada exclusiva deste Comando, a quem se
devem dirigir todos os interessados.
(a) Gustavo Frederico Bentemuller
Coronel Comnandante das Forças em operação neste Estado

185
SECRETARIA DE ESTADO DA POLÍCIA
– Aviso –
Os salvo condutos fornecidos pelas Forças de Operação devem ser
autenticados nesta Secretaria de Polícia, bem assim as licenças para saída de
vehiculos e embarcações.
(a) Joel de Andrade Serviu
Secretario de Polícia – Interino.

A 20 de dezembro chegava a Teresina o contingente vindo do Sul, da “retirada”


de Uruçuí com escalas em Floriano e Amarante. O noticiário do “O Piauhy” fala que ao
desembarque, “verdadeira multidão acclama, em delírio, os bravos deffensores da
legalidade” ... “Chegaram o vapor ‘Piauhy’ onde vinha o comandante da flotilha, Arêa
Leão e na lancha ‘Brejo’ o destemido Coronel Jacob Gayoso e Almendra, digno chefe
de Polícia. Também chegaram o Major Costa Araújo Filho, e os Tenentes Britto Freire,
Torquato Araújo, Arraes, Norberto Borges, José de Arêa Leão, Ozeas e Florencio
Freitas112.

“... coberto de applausos o intrépito e heroico conterrâneo, Coronel Jacob


Gayoso que, sorridente, a todos agradecia, cheio de fé na victoria definitiva
dos designios republicanos...”

A população chegava ao Dia de Nascimento, menos temerosa. Os revoltosos, já


se sabia, haviam ocupado o porto de Floriano.
Sua marcha para o norte, descendo o vale por terra, não era apressada, As
mensagens enviadas aos opocionistas maranhenses em São Luiz – pelo intermédio do
Sr. Manoel Moreira e do Tte. Cel. Paulo Cunha Cruz (preso em Grajaú) haviam sido
interceptadas. Nessas missivas, datadas de 21 de novembro, dirigidas pelo Cel. Juarez
Tavora, ao Dr. Tarquino Lopes Filho e Des. Dioclides Mourão, a coluna pedia apoio e
inclusive sugeria a destruição da ferrovia São Luiz-Teresina, cuja interrupção do tráfego
era considerada ação importantíssima. Enquanto não se soubesse do apoio maranhense
não urgia ocupar Teresina. Enquanto a estratégia militar do Gal. Gomes insistia na
guerra de posição – visando atraí-los para a capital Piauiense – para os revoltosos era

112
Foi visto atrás, no depoimento de Prestes, que Gayoso seguira desabalado de Uruçuí, sem parar nessas
cidades. O noticiário das forças estaduais menciona paradas tanto em Floriano quanto no Amarante.
Nesta ultima, ter-se-ia juntado, o Tte. Britto Freire, que vinha por terra com parte da tropa. O tenente
José de Arêa Leão parece tratar-se do “primo” Zezé Leão que tanto trabalho viria a dar a Força Pública,
mais tarde. Sabia e lembro de Júlio, seu irmão, como oficial da Força Pública. Parece que Zezé também
chegou a tenente tendo, posteriormente, abandonado a corporação.

186
mais prudente avaliar melhor a situação. Daí a ênfase na passagem por Floriano. E a
primeira tropa revoltosa a ocupar a cidade foi aquela comandada por Prestes.
Este relata a sua filha – historiadora – que na cidade de Floriano encontraram, no
telégrafo, o registro do telegrama passado por Gayoso ao Governador do Estado,
“narrando o combate que houve”. Encontrando na cidade Piauiense uma gráfica, os
rebeldes editaram ali o nº 9 do seu jornal “O Libertador”, datado de 25 de dezembro de
1925. Este número do “orgam da Revolução”, encimado pelo dístico “Liberdade ou
Morte” reproduzia, na página frontal, uma proclamação “Ao Povo Brasileiro” redigida,
em Porto Nacional, datada de 19 de outubro e assinada pelo General Miguel Costa,
Coronel Luiz Carlos Prestes e Coronel Juarez Távora113. Também ali está um informe
onde os rebeldes explicavam “A Situação”, na qual se principiava dizendo que:
“O Brasil atravessa uma época de gravidade excepcional” em que o povo se revolta
“contra a olygarquia nefasta que se apoderou dos altos cargos da Nação”. E esclarecia:

...............................................................
..............................................................
“A revolução que ha quasi dois anos convulsiona o país inteiro é uma
consequencia deste estado de espanto do povo.
Todos os esforços dos nossos adversarios para debelar o movimento armado
têem sido inuteis.
Organizando exercitos mercenarios, pagos com o dinheiro do povo, até hoje
os inimigos da democracia não conseguiram suffocar o grito de liberdade
que, soltado a 5 de julho, na famosa capital paulista, repercutiu por todos os
recantos do Brasil, despertando-o para a luta.
Os nossos adversários lançam não de todos os recursos e, agora, diante das
sucessivas derrotas dos exercitos mercenários que a nossa aproximação
fogem vergonhosamente, resolveram empregar a calumnia como arma de
combate.
E é assim que, para elles, somos um grupo reduzido sem ideias e nem
programa. O povo, porem, conhece o nosso programa, conhece as nossas
ideias, conhece os nossos intuitos. Queremos a liberdade, queremos o
imperio da lei e da justiça.
Liberdade – eis a synthese do nosso programa.
E é por isso que, do Rio Grande ao Piauhy recebemos o applauso da opinião
pública, dia a dia, em manifestações claras e positivas, demonstra sua
solidariedade e apoio ao movimento armado, como recurso supremo dos
opprimidos contra os oppressores.”

113
Note-se que as patentes eram aquelas que lhes passaram a ser atribuídas pelo Comando
Revolucionário, sendo progressivamente elevadas durante o movimento e muito além daquelas que
tiveram do Exército, do qual eram rebeldes afastados. Prestes, que era Capitão do Exército, em Sto.
Angelo, chegaria, pelas forças revolucionárias, ao generalato.

187
...............................................................
..............................................................

E, o que é mais importante: a narrativa da ação vitoriosa dos rebeldes contra os


legalistas em Uruçuí.

“FORMIDAVEL VICTORIA DAS ARMAS REVOLUCIONARIAS.


As forças revolucionárias conquistaram uma extraordinária victoria contra a
tropa bernardista que ocupava a villa de Urussuhy, na margem direita do rio
Parnahyba, em número de 1.500 homens.
No dia 7 do corrente, às 19 horas, a vanguarda do 4º Destacamento, do
comando do tenente coronel Djalma Soares Dutra, atacou o inimigo que se
achava fortemente entrincheirado.
Nesse momento, foi observado pelos nossos soldados um facto estranho que
os impressionou vivamente.
O Cruzeiro do Sul elevava-se no alto do ceo estando as suas estrellas de cor
vermelha, scintillando de maneira extraordinaria, assim permanecendo
durante todo o combate.
Os nossos guerreiros, persignando-se cheios de fé, murmuravam comovidos:
‘Deus nos protege’ e avançavam destemerosos e calmos contra o fogo
terrivel das metralhadoras.
Alguns pelotões carregavam as bayonnetas sobre as trincheiras, enquanto
outros empunhando facões, assaltavam as linhas inimigas levando o terror e
a confusão a todos que pretendiam embargar-lhes o passo.
A uma hora de 8 o inimigo começou a recuar, procurando embarcar em
navios que se achavam um pouco abaixo da villa e, quando amanheceu,
fugia desabaladamente, muitos em canoas e balsas de burityzeiros e outros
por terra, abandonando armas, munições, barracas, e tudo quanto pudesse
extorvar-lhes a formidável fuga bem como numerosos feridos e para mais de
200 mortos.
Fizemos muitos prisioneiros e recolhemos grandes despojos.
Sem nenhum exagero podemos affirmar que essa derrota foi superior ao
desastre de Moreira Cesar.
Na villa de Nova York, 22 leguas abaixo de llrussuhy, até onde foi feita
tenaz perseguição às tropas inimigas em fuga, o terror destas era tanto que,
um dos navios que os conduzia e que ali parara ao ser tiroteado por uma
patrulha nossa, tocou avante sem recolher o cabo.
Um dos fugitivos, vendo aquella atrapalhação, arrancou de uma vasta
‘parnahyba’ a, denodadamente, cortou a forte amarra, desligando, então, o
galhardo barco, em busca da bella cidade de Theresina.”

188
A leitura dessa descrição da batalha de Uruçuí, aquela que, em comentário de
Prestes114 “havia ocorrido na imaginação de Gayoso”, atirando “contra as sombras” é
aqui narrada com pormenores. Otimismo e fantasias não eram privilégio apenas do
Governo do Piauí. Os revoltosos também faziam seus esforços para conquistar a
população. Não faltando mesmo a evocação mística do Cruzeiro do Sul!
“A chacun sa verité” como dizem os franceses ou como dizem os italianos:
“Cosi e si vi pare” no título da famosa peça teatral de Pirandello. Cada um tem a sua
própria verdade. São percalços com que, desta divergência de estórias, flui a frágil
matéria com que se constrói a História.
Pode-se admitir que entre o Natal de 1925 até o final de fevereiro de 1926115
produziu-se o estado de tensão entre a concentração de forças legalistas em Teresina –
Vila das Flores e a aproximação cautelosa dos revoltosos para esse ponto. É o episódio
que se configurou como “O Cêrco de Teresina”.
Luiz Carlos Prestes analisa este episódio que e apresentado na obra de sua filha,
entre as páginas 235 e 238. O comandante da Coluna explica que na divergência de
estratégia militar – do Gal. Gomes a ser executada pelo Cel. Bentemuller – e a estratégia
política do Governador Mathias Olympio, este último, desesperado, telegrafa ao
Presidente Arthur Bernardes “apelando ... que não era possível entregar a capital do
Estado”. E, assim, foi obtida a ordem para defender Teresina.
Segundo Prestes o contingente de homens mobilizados para a defesa de Teresina
era de quatro mil (4.000). As forças dispuseram-se em arcos de trincheiras, circundando
a cidade, mais notadamente no arco da confluência do Poti no Parnaíba (vila do Poti
Velho) e com especial cuidado com a margem maranhense, da Vila das Flores, por onde
se deslocava boa parte da Coluna. Pelo lado maranhense vinha o próprio Prestes no
comando do 1º e 3º destacamento. Entre o Natal e o Ano Novo os revoltosos foram se
acercando da capital. Todas as noites, na incerteza das sombras e no nervoso da
expectativa, partia um grande tiroteio das trincheiras legalistas, quando os revoltosos
ainda não estavam ao alcance de seus tiros. E, assim, desperdiçava-se munição.

114
No livro de Anita L. Prestes, confronte-se – a este propósito – a narrativa feita por Luis Carlos Prestes,
mais o comentário da autora à página 233 e a descrição dessa vitória, na reprodução da página frontal
do nº 9 do “O Libertador”, inserida na página seguinte (234).
115
Se considerarmos aqui, o relatório do Gal. João Gomes datado de 28.02.1926 dando conta da fuga dos
revoltosos de Flores-Teresina.

189
Prestes chega com suas tropas e ataca a vila das Flores, conseguindo tomar
alguma munição do inimigo, mas evita atravessar o rio para tentar ocupar Teresina.
Sabe-a com contingente capaz de defendê-la. Apesar do reforço obtido a munição dos
revoltosos era estimada em apenas três tiros por soldado. Enquanto Juarez Tavora se
aproxima, na margem Piauiense, Prestes recua – lenta e cautelosamente – com bivaques
intermediários até poder, mais afastado de Teresina, atravessar também para o lado
Piauiense, onde atingirá a Vila de Natal (hoje Monsenhor Gil).
Neste interregno, acontecido na passagem do ano, ocorreram alguns casos
registrados na memória da família sobre os revoltosos.
Um deles, bem simples mas ilustrativo, era narrado pela tia avó Yayá Mundica,
irmã de minha avó materna – Júlia Figueiredo. Yayá contava que, os piquetes dos
revoltosos avançavam, sondando o ambiente, em vários pontos das cercanias. Um dia
chega a Teresina uma carga fúnebre: os cadáveres de dois revoltosos, que haviam sido
abatidos nas fazendas dos Leões, aqueles primos, filhos de Cincinato Área Leão, que
por esta época já eram famosos pela valentia.
Abatidos os dois “inimigos”, seus corpos foram enviados à capital para a polícia
tomar as necessárias providências. Os corpos dos rapazes foram levados para a porta da
cadeia pública e transferidos para o cemitério de São José, um pouco mais adiante,
enquanto a polícia providenciava... Os corpos dos revoltosos atraíram a curiosidade.
Juntou gente em torno deles. Muitas mulheres, de todas as idades, afluíram ao
cemitério, vindas de várias partes da cidade. Admiravam-se da juventude e beleza
daqueles guapos rapazes, claros, aloirados e barbudos. Penalizava-lhes sabê-los mortos
tão longe de casa (seriam do Rio Grande do Sul?) de suas famílias... Política, governos,
revoluções eram coisas más que só traziam aquilo: a morte. Algumas mulheres idosas
puxavam benditos.
É de imaginar-se a admiração que a diferença de tipo físico entre aqueles
sulistas, de sangue alemão ou italiano, provocava nos sertanejos nordestinos,
principalmente nas mulheres. Já havia uma considerável multidão em torno dos pobres
rapazes abatidos quando, de súbito, alguém informa: “Os revoltosos estão vindo
resgatar os cadáveres dos parceiros e vingar-lhes a morte...” Foi uma debandada geral;
corria gente por todo o lado, mulheres gritavam... O susto foi grande, informa Yayá que

190
estivera ali, juntando-se as curiosas que queriam ver e prantear os revoltosos. Meteu-se
em casa e não sabia informar o final da estória.
Mais interessante ainda é o episódio que diz respeito a visita que meu avô
Santídio Monteiro, em companhia de seu filho mais velho João Paulo, fez ao
acampamento dos revoltosos, no lado maranhense. Isto ocorreu após o ataque deles a
Vila das Flores e antes de sua chegada à Vila de Natal, no lado piauiense.
O Major nunca fora dado à política. O vimos anteriormente apoiar a candidatura
João Luiz Ferreira com quem, posteriormente, entraria em choque, no famoso episódio
do “Prego da Usina” o que lhe custara a saída do cargo que ocupara por cerca de uma
década. Será fácil compreender o seu ânimo naquele momento de Governo Bernardes
quando João Luiz e seu irmão Felix Pacheco estavam por dentro da situação auferindo
do maior prestígio.
Assim não é difícil compreender que, além de uma mente um pouco esclarecida
o Major Santídio visse com a maior simpatia a revolta dos tenentes e, sobretudo tivesse
uma grande admiração pelo General Prestes. E assim resolveu ir à sua procura para
cumprimentá-lo, pelo prazer de apertar-lhe a mão.
O Major Santídio esteve entre aqueles que resolveram não sair da cidade. Seria
confiança no bom senso dos revoltosos? Ou seria por que – a esta época já vendido o
Sítio de Santo Antonio do Berlengas – não tinha para onde ir? É mais provável que
fosse a primeira hipótese porquanto não seria nada difícil alojar a família nalguma
fazenda ou sítio de amigos e compadres. Poderia muito bem dirigir-se ao Cantinho
abrigar-se na fazenda do Compadre Moraes.
Tendo mãe e irmãos concentrados no engenho água Limpa, da irmã Lydia, e
sendo seu cunhado João Mendes profundo conhecedor da região, bem podia conduzi-lo
até o acampamento dos revoltosos, talvez não muito distante dali. Após a ruptura com o
Mundico – até há pouco o seu favorito – pelas loucuras cometidas na Alemanha e agora,
por último, casando-se sem ter juízo, o Major, quase quarentão, passara o seu afeto
especial ao filho mais velho. E talvez afetasse um pouco este sentimento para ver se
atingia o filho pródigo. E com João Paulo, realizou esta visita.
Não ouvi esta estória do meu avô. Além da timidez natural eu sempre tive muita
cerimônia do meu avô e padrinho de batismo. O que tinha de desembaraço junto às
mulheres da família – incluindo as mais velhas – tinha de inibição com os homens. E as

191
razões serão compreendidas mais adiante. Além disso meu avô queria sempre iniciar-me
na mecânica – sua grande paixão – coisa que sempre abominei. E assim, procurava
sempre manter-me a uma certa distância para não me ver envolvido com chaves-
inglesas, porcas e para-fusos... Mas, felizmente, o episódio desta visita foi captado pela
prodigiosa memória do meu primo Orgmar Monteiro que o relata em pormenores em
sua citada obra.
Páginas atrás já recorri a ela para ilustrar o conflito de opiniões e uma “retirada”
de família da cidade, fugindo dos revoltosos. A partir da chegada dos “retirantes”
Orgmar passa a narrar as providências e recursos de improvisação para instalar, no
engenho de tia Lydia, o contingente de cerca de vinte pessoas. Relata também sua
felicidade de menino no final das atividades de moagem e fabrico dos derivados de
açúcar. O fim da moenda propiciaria, inclusive, mais espaço físico, para alojar as
famílias refugiadas. A certa altura do seu capítulo sobre os “revoltosos” ele narra este
episódio que, pela sua riqueza de informações, vale a pena transcrever:

“Entrando o mês de dezembro o sentimento natalino levou os refugiados a se


movimentar na preparação do presépio. Uma idéia puxa outra. Organização
de um grupo folclórico de reizado. Desativando-se o engenho com o término
da moagem, serpentina, a cuba e outras peças do alambique foram
transformadas em instrumentos. Os apartamentos eram visitados pelos
músicos improvisados e cantores dos versos arranjados. Depois
excursionavam nas casas vizinhas.
Certa noite em que todos rezavam o terço na capelinha, entre uma Ave-
Maria e outra, a ceguinha disse: vem gente para cá.
Pararam as orações. Respirações suspensas. Ouvidos alertas.
– São dois cavaleiros. – Disse a ceguinha, falando pela segunda vez.
– Não ouço nada, é impressão dela, deve estar com medo por causa da
conversa do João Grande, que veio nos avisar que fizera os revoltosos
voltarem de sua casa.
O nosso vizinho próximo, Sr. João Borges de Oliveira, dono do Sítio antes
do engenho água Limpa, o qual também era chamado de água Limpa, em
decorrência de uma divisão de terras, anteriormente feita entre irmãos, não
só era assim chamado, mas, acima de tudo, ostentava a placa: ÁGUA
LIMPA. Por isso o volante que tinha segura informação de encontrar o gado
e muitos animais na Água Limpa, de lá voltara. Mas, à vista da precariedade
do sítio e pauperismo do homem de mais de dois metros de estatura que
afirmava peremptoriamente que era o dono da água Limpa, desestimulou-os
do propósito de obterem montarias para renovação da cavalaria. Andavam a
pé os revoltosos, mas, quando lhes era possível, confiscavam alimarias dos
matutos pra remonta.

192
A ceguinha, como carinhosamente era chamada a Maria, foi uma entre 26
crianças que a tia Lidia criou durante sua longa vida, como compensação
pela sua esterilidade. A ceguinha perdera a vista quando pequena e a
natureza compensara-lhe com maior acuidade na audição e olfato.
Encerradas as preces saíram todas as pessoas para o terreiro. Esperaram só
alguns instantes, um e outro foram confirmando o tropel. Até que dobrando
o canto do enredo, dois cavalheiros em suas alimarias rumaram diretos para
a casa. Não eram passantes. Buscavam-nos. Chegando, foram identificados:
meu tio Santídio e o seu filho, João Paulo. Desmontaram-se e entraram para
a ceia.
O motivo da visita era um encontro que pretendiam ter com os chefes
revoltosos. Souberam que estavam bivacados no engenho Banco de Areia,
do Sr. Antônio Lima, e queriam a companhia do tio Zé Mendes para lhes
servir de embaixador, face ao relacionamento que ele certamente teria com o
seu vizinho.
A madrugada ainda estava escura quando acordei pelo movimento. Conversa
e luz acesa no quarto. Despertei, rápido perguntei a meu pai:
– O senhor vai aonde?
– Vou com outras pessoas visitar o Capitão Prestes. Você quer ir também?
– Beija! não leve o menino! – ponderou minha mãe.
– Ele é homem. Deverá desde logo ir se preparando para saber os problemas
do país.
Saímos e encontramos os preparativos da viagem. Tomamos café com beiju
da farinhada e montamos. Me colocaram na garupa do cavalo do tio Zé
Mendes. Éramos 6 pessoas sobre 5 animais: meu pai, Dr. Serostris, tio
Santídio e João Paulo cada um na sua montaria além de Zé Mendes comigo.
Com coluna de um a uma, tendo a vanguarda o tio Zé Mendes. O dia foi
clareando e vimos a luz do sol quando íamos passando o riacho do Chupé no
lugar Barrinha. Seguindo daí além, por estrada larga, onde o Zé Mendes
chamou a atenção para os postes e fios do telégrafo derrubados no chão.
Todos os cavaleiros puderam emparelhar as suas montarias e comentavam a
estratégia de destruírem a linha telegráfica para impedir as comunicações
dos legalistas ou bernardescos como chamavam aos que defendiam o
governo de Artur Bernardes, Presidente da República.
Deixando a estrada do fio os animais refizeram a fila indiana. Pouco depois
o cavalo em que eu viajava parou bruscamente e só então, esticando-me de
lado, pude ver um soldado de arma-na-mão conversando com Zé Mendes.
Os outros cavaleiros que vinham depois se achegaram. Era uma sentinela
avançada. Apitou e logo outro soldado apareceu. Fomos acompanhados pelo
último até ao QG (Quartel General) onde estavam sob as mangueiras, à
frente do engenho. Outras sentinelas nos pararam no trajeto, mas apenas
trocavam palavras com o homem que nos escoltava.
Estacas enfiadas no solo e redes armadas entre cada par, com um homem
barbado sentado ou deitado em cada uma. Além da farda cáqui, comum a
todos eles, traziam, como ornamento ao pescoço, um lenço vermelho. Com a
chegada do nosso grupo a maioria levantou-se de suas redes. Apeando-nos
fomos cumprimentá-los, recebendo deles os votos de boas vindas. Aos

193
visitantes foi oferecido um banco longo em que nos sentamos. O chefe, sem
dúvida, o Cel. Prestes, dirigiu-se ao menino no que trocamos um aperto de
mão116 e meu pai lhe deu as razões da minha presença entre eles. A seguir
todos os outros oficiais, eu cumprimentei-os em primeiro lugar, com um
aperto de mão. Os homens ficaram conversando, eu fui brincar. Na volta
comentavam que Juarez estava fazendo reconhecimento para a tomada de
Teresina e Siqueira Campos tivera outra missão.
Chegamos à casa na hora do almoço.
Mas suas memórias o Mal. Juarez Tavora não se referiu ao episódio de sua
prisão pelo Tte. Costa Araújo, mas esse campomaiorense, quando Cel. da
Reserva, contava aos jovens o episódio da captura do Tte. Juarez e mais da
morte certa de que o livrou metendo o braço na arma que disparou desviada
do preso que se entregara.
A missão de Siqueira Campos fora aventurosa como outras que praticou
durante a sua vida efêmera. Silenciar o canhão à margem do rio próximo à
Gerência, o qual arremessava obuses sobre o território maranhense onde eles
se encontravam.

Regresso
Os homens voltaram às casas nas cidades de Flores e Teresina, logo que
tiveram notícias da retirada dos revoltosos que foram acampar na vila Natal,
atual cidade de Mons. Gil, recebendo ali Dom Severino, Bispo de Teresina,
como embaixador.
As famílias ainda permaneceram por algum tempo. As finas e a pândega de
nossos dias de revolução terminavam.
Os regressos em pequenos grupos para melhores acomodações n.as
montarias foram saindo daquele refúgio ao longo dos dias. Os quartos
tapados de palha iam sendo desmanchados. A casa voltava ao normal. Todos
retornaram, até minha mãe, eu ainda fiquei usufruindo o resto das minhas
férias escolares com alguns primos.”117

Pela menção feita à missão de Juarez Távora e o desconhecimento de que este


fora preso, pode-se colocar a realização desta visita nos momentos que antecederam a
sua prisão, ocorrida no dia 31 de dezembro de 1925118. Esta prisão foi comentada à
saciedade na Teresina não só naquele momento, mas por muitos tempos afora. Não
houve nenhum relato ventilando covardia daquele bravo militar. É certo que sua prisão
– conforme relata Prestes – foi um caso de descuido. O Cel. Costa Araújo jamais

116
No dia 27/07/87, entrando na Academia Piauiense de Letras, soube que aguardavam a visita do
General Prestes. Dr. Leão Marinho pediu-me para esperar. E repetimos o aperto de mão.
117
Orgmar Monteiro: “Teresina Descalça” – 4º Volume. pp. 346-352.
118
Fato confirmado de próprio punho de Juarez Távora, na carta por ele dirigida a Luiz Carlos Prestes.
Vide Anexo nº 36, à página 448, da citada obra de Anita L. Prestes.

194
tripudiou do seu “prisioneiro”, tratando-o com o respeito e consideração merecida por
um colega de farda, embora colocado em campo oposto àquele em que se encontrava.
Após a prisão e divulgação de fotos de Juarez não faltou na cidade quem
dissesse já o ter visto em trânsito e observação disfarçada pelas ruas da capital... Com
sua estatura bem elevada, e feições tão peculiares, seria difícil que ele, malgrado algum
disfarce, passasse despercebido.
O piquete em que Juarez foi aprisionado estava nas Areias – uma pequena
localidade já no município de Teresina, não muito distante da Vila de Natal, situada a
cerca de 20 quilômetros a SSE de Teresina. Esta vila seria o ponto de encontro em que
se juntariam os revoltosos vindos do lado maranhense com aqueles do território
Piauiense. Ali, nos primeiros dias de janeiro de 1926, dar-se-ia o célebre encontro entre
o bispo do Piauí – o pernambucano D. Severino Vieira de Mello – e o comandante
Prestes.
Este episódio também tem sua dualidade. Para o campo da legalidade D.
Severino – o pastor em defesa da segurança do seu rebanho – conseguiu dissuadir a
Prestes de invadir a capital, pondo em sério risco a vida de seus habitantes. Juntava-se
ao herói militar – Jacob Gayoso – o herói religioso.
Aproveitando o ensejo da captura do Coronel Juarez Távora, levado das Areias
para Teresina, o bispo foi procurá-lo e pedi-lo que escrevesse ao Comandante Prestes,
pedindo-lhe para desistir de atacar a capital. Ele mesmo seria o portador da missiva. E
assim aconteceu, o que é confirmado por Prestes em seu citado depoimento119.
Quando Prestes chegou a vila de Natal para reunir-se aos companheiros já
encontrou o bispo que o antecedera de um dia, e havia sido recebido por Cordeiro de
Farias. O encontro de D. Severino com Prestes realizou-se a 4 de janeiro (1926) junto
com os revolucionários Miguel Costa, Cordeiro de Farias e Lourenço Moreira Lima, o
cronista da Coluna.
O que se depreende dos depoimentos é que na realidade houve barganha. Os
revoltosos agiram simulando situação bem mais favorável a eles do que havia na
realidade e que, sua própria estratégia militar, habilmente ocultava-lhes as debilidades.
Tanto Juarez, em Teresina, quanto Prestes na vila de Natal, assim procederam. Levaram
o Bispo a acreditar que a intenção dos revoltosos era mesmo enfrentar os legalistas

119
O encontro com D. Severino está descrito, com relevância, na citada obra da filha de Prestes, pp. 237-238.

195
entrando na capital. E para desistir daquele intento os revoltosos receberam do
assustado bispo, em contrapartida, a promessa da soltura de Juarez e que as forças do
governo não viriam em perseguição aos revoltosos, que deixariam o Piauí.
E assim aconteceu. As forças governistas aceitaram o pacto, embora a situação
depois progredisse favoravelmente. No dia seguinte ao encontro famoso, chegavam a
Teresina reforços de tropas sob o comando do Cel. Tourinho e Major Sayão Lobato. No
dia 9, quando era relaxado o “cerco”, a capital noticiava fatos que expressam a
dualidade de que se revestiu, sempre, este episódio. O jornal teresinense “A Tribuna”,
de oposição, no seu nº 108, editado naquela data notícia, lado a lado estas contradições.
Enquanto ainda se fala de resistência ao “cerco” dos revoltosos, se informa sobe uma
campanha de levantamento de donativos para oferecer aos revoltosos. Por outro lado
registra-se a comunicação feita ao Governador Mathias Olympio de que a Associação
Comercial da Parnaíba fazia a doação de três contos de réis “que serão distribuídos em
forma de brindes aos valentes solddos deffensores da causa da legalidade, contra a
invasão da terra piauhyense”.
A 2 de fevereiro o Governador do Piauí já envia mensagem ao Presidente
Bernardes ponderando sobre que a vigência do estado de sítio no Piauí já não se faz
necessária.
Na sua estratégia de guerra “aberta” os revoltosos, ao se afastarem, marcavam
presença em vários pontos do Estado. No dia 10 de fevereiro eles entravam em Pedro II,
cujos habitantes haviam se evadido. Tratava-se de uma ramificação da Coluna que,
progredindo para o Norte, pelo território Piauiense, tomou a direção de Campo Maior,
Pedro II para penetrar no Ceará transpondo a Serra, atingindo Ipú e, daí, infletindo para
o sul, por Nova Russas e Crateús, ir juntar-se ao trono principal da coluna em Armeiróz.
No dia 13 desmente-se o boato de que o revoltoso Cabanas, à frente da “Coluna da
Morte”, estivesse marchando em direção à capital.
O grosso da Coluna, em realidade, marchava em direção sudeste, por Valença,
Picos, Riachão e Pio IX, com destino ao Ceará, por onde penetrariam no extremo
sudoeste daquele Estado, em Campos Sales, indo juntar-se aos outros em Armeiróz.
O resto de fevereiro a capital, entretida com as próximas eleições presidenciais,
vai esquecendo-se dos revoltosos, dos quais não se achavam totalmente livres. A 1º de

196
março é eleito Washington Luis Pereira de Souza. Ao mineiro Bernardes sucedia o
paulista (de Macaé). Continuava o Café com Leite.
A 16 de abril, para preencher uma vaga na Câmara Legislativa foi eleito, num
preito de gratidão ao herói, Jacob Gayoso e Almendra.
Em julho adveio a famosa enchente do Parnaíba, rapidamente inundando a
cidade capital, ao tempo em que ressurgem os revoltosos no território do Estado. No dia
14 chegam notícias de que há sinal deles no povoado Simões no município de Picos.
Seguindo-se a visita do Governador Magalhães de Almeida, do Maranhão, chega a
Teresina (15.07) um reforço de tropa do 24º BC para ajudar no combate aos rebeldes e
(22.07) do 26º BC de Belém, com a mesma finalidade. No dia 23 noticia-se que forças
rebeldes, chefiadas por João Alberto estão em Floriano, para, no dia seguinte registrar
que eles se afastam na direção de Jerumenha.
O presidente eleito está em visita ao Maranhão mas não poderia chegar até o
Piauí o que faz com que o Governador Mathias Olympio vá encontrá-lo em São Luiz
(28.07.1926). Ainda em agosto as tropas do Governo estão ocupadas contra os rebeldes.
O Coronel Bentemuller, agindo na direção de Caxias, no Maranhão, e o Coronel Costa
Araújo Filho, partindo para Floriano para, de lá, controlar o movimento dos
remanescentes no sul do Piauí.
Ainda em meio a estas pequenas seqüelas da ação dos revoltosos no Piauí, o
governo estadual sente-se seguro. Na noite de 20 de agosto o Governador Mathias
Olympio abre os salões dos Palácio de Karnak homenageando com um baile o Capitão
Jacob Gayoso e Almendra pela sua ação no combate aos revoltosos.
Em novembro encerra-se o tumultuoso quadriênio de Arthur Bernardes que
passa a Presidência da República a Washington Luiz. A população brasileira, anseia por
melhores dias.
A lembrança da Coluna Prestes ou a passagem dos Revoltosos pelo Piauí deixou
sua marca pelas duas gerações que a assistiram e pela terceira que muito ouviu falar
dela. Na presente crônica de família ela é um marco pela coincidência com o casamento
de meus pais, realizado no momento mesmo do cerco de Teresina.
A coluna continuaria sua marcha, sem ser batida até a Bolívia. Os resultados
imediatos foram poucos, mas o “tenentismo” – movimento do qual a Coluna Prestes foi
o ponto culminante – lançava a semente de um descontentamento fadado a germinar

197
outros frutos, como a Revolução de Trinta. Ao final da Coluna dar-se-ia o grande
divisor, separando Prestes de seus outros correligionários. Aquele no exílio adere ao
Marxismo e passa a crer na “revolução” plena, armada, geradora do comunismo. A
maioria permaneceu no país integrada no zig-zag da nossa cronologia histórica. Prestes
viveu sua longa existência ultrapassando os noventa e fiel aos seus ideais. Na análise de
sua trajetória, no que concerne a passagem das concepções teóricas à prática, não falta
quem chegue a assinalar sua “profunda inhabilidade política”. Quando, após o colapso
da ditadura Vargas, cheio de prestígio e iluminado pela aura de Cavaleiro da Esperança,
chega ao Senado da República, mordeu todas as iscas que seus adversários o lançaram
para anulá-lo e colocar o Partido Comunista na ilegalidade. Não faltará quem aponte, na
prática revolucionária, a sua crueldade como no episódio do assassinato de Elza
Fernandes. Nos últimos anos, foi relegado por parte dos seus próprios correligionários,
num sisma que dividiu os partidos comunistas. Mas tudo isso será, certamente, apagado
progressivamente com o passar do tempo, ressaltando-se, cada vez mais a luminosidade
de um homem decente, honesto, profundamente sincero no seu amor a sua pátria e sua
gente e que soube ser fiel a si mesmo.
Esta é a insuspeita opinião de alguém a quem, jamais, a idéia de revolução ou os
ideais marxistas, representaram algum papel no seu comportamento ou filosofia de vida.
Tive e, ainda tenho, grandes amigos esquerdistas, até mesmo alguns radicais, a quem
admiro e respeito. O meu afastamento desses ideais prende-se a uma premissa básica:
faltou-me, sempre, a indispensável ingenuidade para crer no predomínio das
componentes “boas” do homem, que o capacitem a criar uma sociedade fraterna, justa e
muito menos igualitária. O homem, acho eu, se encontra permanentemente no conflito
do bem e do mal, numa mistura que apresenta lampejos ou fases de predomínio desses
dois extremos mas sem que, jamais, algum deles venha a ser definitivo. A Comuna de
Paris durou dois meses. O sonho de Lênin na União Soviética não chegou a um século.
O nazismo vigorou por cerca de um decênio. A vertente ocidental que controla o globo,
na entrada do segundo milênio de cristianismo, está praticamente na estaca zero. A
ponto de esperar por um novo Cristo.
Quando, de volta da França na complementação dos meus estudos de geógrafo,
trabalhando no IBGE no meado dos anos cinqüenta, encontrei dois novos colegas muito
especiais. Um jovem estagiário, concluindo o Curso de Geografia e História na antiga

198
Faculdade Nacional de Filosofia da então Universidade do Brasil, onde eu me formara
em 1950. O outro era uma senhora, morena, gordinha e muito simpática que ingressara
na instituição após um bem sucedido curso de Aerofotogrametria120 e trabalhando, com
sucesso, naquela técnica.
O rapaz chamava-se Manoel Maurício de Albuquerque que logo me cativou pela
sua inteligência, seus conhecimentos profundos da história do Brasil, além de um bom
humor contagiante e, sobretudo, de uma bondade tal que, entre o expediente cumprido
no IBGE e as aulas que ministrava noite afora nos educandários do centro do Rio de
Janeiro, reunia os serventes da casa e ia dar-lhes aulas de alfabetização. Sabia-o ser
alagoano, sem pais, vivendo no Rio com umas tias – a quem tive o prazer de visitar,
uma vez, em Copacabana – e que havia interrompido uma carreira na Academia Militar.
Dificilmente poder-se-ia encontrar personalidade mais cativante cujo contacto, pela sua
erudição e bom senso, era muito enriquecedor.
A senhora chamava-se Lucia Brandão. Pouco se sabia dela, personagem
reservada. Mas sabia-se que era muito culta, bem informada e poliglota. Um velhinho
“suíço”, nutricionista comprometido com a Nestlé, a procurava, vez em quando para
traduzir-lhe uns textos em russo. Era um “russo branco” que se tornara suíço e estava
trabalhando no Brasil.
Por intermédio de Manoel Maurício, que já lhe abordara, também aproximei-me
dela. Passamos a sair juntos para o lanche e a conversar. Os assuntos eram sempre
fascinantes. D. Lucia – a quem Manoel Maurício passou a chamar carinhosamente
“Mama Lucia” pelo seu aspecto um tanto italiano... D. Lúcia sabia russo porque vivera
na União Soviética onde se casara com um engenheiro, morto na guerra e que lhe
deixara um filho. Casara-se pela segunda vez, ainda em Moscou, com um brasileiro
exilado Octávio Brandão, que lhe dera duas lindas meninas: Iracema e Maria da Glória.
O mistério se desvendava. O nome de solteira da amiga era Lucia Prestes. Filha de D.
Leocadia e irmã de Luiz Carlos, Clotilde e Lygia. Ela era a penúltima filha, sendo Lygia
a caçula.
Era por ocasião do governo Juscelino que havia sido eleito, inclusive, com apoio
dos comunistas. Havia liberdade. Juscelino desenvolvia suas metas, construía a nova

120
Análise e interpretação geográfica de fotografias aéreas.

199
capital... Haviam cessado as perseguições. Lucia retornara ao Brasil com os três filhos.
E podia trabalhar em paz.
Assim, nas horas de lanche nos reuníamos frequentemente para conversar.
Mauricio era um grande perguntador e estimulava D. Lucia a falar sobre sua vida na
União Soviética, seus estudos de metalurgia, sua experiência na guerra, ali vivida em
todo o seu desenrolar. Contava-nos sobre os ballets que assistira no Bolshoi, com as
grandes Galina Ullanova e Mia Plisetskaya... As férias na Criméia. E naturalmente
estórias da família, sobretudo do irmão – “o Velho”. A irmã Lygia interrompera uma
brilhante carreira de cientista para dedicar-se a educação da sobrinha Anita Leocadia. A
historiadora de hoje, autora do “A Coluna Prestes”. Por aquela época estavam, salvo
engano, na Tchecoslovaquia.
Foi um tempo interessante. Mas eu, em pouco interrompia minha atuação no
IBGE para principiar no Magistério Universitário, em Santa Catarina. Quando visitava o
Rio, nas férias, nos reuníamos em outros lanches, sempre que era possível. Manoel
Maurício ingressara no magistério universitário na própria Faculdade onde principiara
como auxiliar de ensino de História do Brasil com o Professor Helio Vianna. D. Lúcia
continuava no IBGE.
Hoje (1990) Manoel Maurício já está morto. Caiu fulminado por uma síncope
numa livraria no Rio, em 17 de março de 1981. Durante o período militar foi perseguido
e aposentado da UFRJ. Havia retornado ao seu posto pouco antes de falecer. D. Lúcia
está aposentada. Parece que vive ainda em seu apartamento no bairro da Urca. Guardei a
melhor lembrança dos dois. Em 1976 visitei a URSS num congresso científico em
Moscou, com uma excursão à Sibéria até o lago Baikal. Retornei, sempre em
congressos, em 1979 e 1987. Em todas essas visitas lembrava-me sempre das estórias de
D. Lúcia.
Hoje se notícia um projeto para erigir um memorial a Luiz Carlos Prestes no Rio
de Janeiro, planejado por Niemeyer. O que será de justiça. Ocorre-me ao pensamento o
fato de que Eça de Queiroz associou o seu personagem Gonçalo Ramires ao próprio
Portugal. Tenho receio de que se possa proceder do mesmo modo associando Luiz
Carlos Prestes ao Brasil. Assim como aquele se eternizou como “O Cavaleiro da
Esperança” não venha o Brasil cristalizar-se como “O País do Futuro”.

200
3.5. A Estória do Casamento
No repertório das superstições brasileiras o mês de agosto é temido pela
sobrecarga de atos violentos ou politicamente funestos. Para D. Júlia Figueiredo, minha
avó materna, era o mês de dezembro que a atemorizava. Nascera naquele mês, perdendo
a mãe e ficando no mundo “para sofrer”. Perdera o marido, assassinado naquele mês, na
véspera do seu aniversário. E aquele ano de 1925 já não vinha sendo um ano bom. No
início de abril perdera um grande amigo: Arthur Freire121 marido de sua melhor amiga
Zuzú. Esta casara-se com Arthur no ano em que Júlia enviuvara (1912). Sua amiga
ficava com cinco filhos menores: Carlos, Erla, Cleide, Antônio e Maria José. Além da
amizade de Zuzú o apoio de Arthur – inclusive na construção de sua nova casa ao lado
das irmãs – lhe era precioso. Felizmente a amiga não era pobre que nem ela. Tinha
recursos para criar os filhos.
Agora, chegado o aziago dezembro entre enchentes e revoltosos sua filha mais
velha, seu arrimo, “casara com um maluco”. Naquele tumultuado dia 10 de dezembro –
aniversário da pequena Gersila – quando chegaram o juiz e o escrivão ela fora para o
fundo do quintal e sob os galhos de um limoeiro chorou sua triste sina.
Um casamento realizado às pressas, com o povo da cidade fugindo dos
revoltosos sempre me causara admiração... e dúvidas. Um dia, já adolescente, aluno do
Liceu perguntei a minha mãe, de chofre: Mamãe, você casou grávida? Por que casar
numa situação daquelas, com os revoltosos às portas da cidade, o povo fugindo...
Ela sorriu e disse: entre 10 de dezembro de 1925 e 23 de março de 1927, conte
os meses... Foram, um, dois ... quatorze meses.
– E por que, então, a pressa?
– Tudo vinha sendo preparado para realizar o casamento no dia 8 de dezembro
que é o dia de N.S. da Conceição, segundo minha devoção. Você sabe. Tradição de mãe
para filha. A relíquia da imagem de ouro deixada pela Avó Celsa para minha mãe, que
esta destinou a mim... Mas os papéis, com a correria dos revoltosos, não ficaram
prontos. Pensamos em adiar mas sua avô na iminência de irmos todos para a fazenda de
sua tia Mariquinha Rocha, exigiu o casamento antes da retirada... Foi por isso. Ficou
convencido?

121
Nascido na Parnaíba a 18 de abril de 1883, filho do Sr. Antônio Alexandre Freire e D. Rosa Aguida
Rabello Freire, casou-se com Maria de Jesus Costa Pereira, a 27 de julho de 1912.

201
Esclarecido o episódio restava contudo compreender porque a filha mais velha
de D. Júlia, tão obediente a ela, havia casado contra sua vontade. Mas isso era uma
estória mais complicada.
– Já com vinte anos e professora você temia ficar para solteirona? Ou foi
paixão? Não entendo.
– Paixão não foi. Talvez tinha sido insistência. Eu até rezava pedindo a Deus que
o fizesse interessar-se por alguma outra moça e me deixasse em paz. Mas ele insistia.
Recorria a chantagem emocional e ameaçava matar-se... Ele sabia que minha mãe não
queria o casamento. Certo dia convidou-me até para um pacto de morte... Eu respondi-
lhe: – Você está louco? Mate-se sozinho... comigo não!
Mesmo assim era difícil entender. Eu insistia sempre na tese da “paixão” que é
quase privação de sentidos, insensatez, ... Mas minha mãe ia até certo ponto. Não
desvelava seus sentimentos mais íntimos, ... Eu sou filho. Não um padre confessor nem
tampouco um psicanalista.
Passados tantos anos eu me atrevo a interpretar a situação, a complexa
convergência de fatos e circunstâncias que possam explicar a realização de um tal
casamento.
Desistindo de tentar a vida em São Paulo, quando do seu retorno da Alemanha,
Mundico voltara a Teresina por causa da moça Graci. Havia rompido com o pai e nunca
fora afetuoso. Poderia deixar a mãe cega, irmãos, amigos, sua terra, enfim ... sem
sacrifício. Havia um desafio a enfrentar, um capricho a satisfazer. Tanto mais porquanto
contrariado pela mãe da moça. Seu irmão João Paulo estava vivendo os tormentos de
uma paixão contrariada. Amava perdidamente uma linda moça, morena de olhos negros,
chamada Nildes Boavista, cuja mãe, viúva, não consentia no casamento. D. Sinhazinha,
mãe de Nildes, era aparentada (talvez sobrinha) de tia Justina, viúva de Cincinato Arêa
Leão, os pais dos primos Leão, que, com os filhos de Sérgia e Santídio formavam o já
famoso clã. João Paulo não se conformava. Caíra na farra. Andava – ele que era tão
moderado – pelos cabarés, passava as noites fora de casa, fazia serenatas à amada...
Estava de pescoço ainda mais fino, com as orelhas ainda mais afastadas, aquela sua
característica física que fazia sua cabeça lembrar um açucareiro de duas alças.

202
Com ele, Mundico, aquilo não havia de acontecer. Haveria de mostrar àquela
velha ranzinza, viúva pobre, orgulhosa, metida a besta, que era D. Júlia, que casaria com
sua filha. Ela quisesse ou não!
De volta da Alemanha, todo bem vestido e elegante, substituíra a moto por um
automóvel, a novidade que fazia o maior sucesso, por serem ainda poucos na cidade. E
o Ford passava e repassava pela rua da Glória.
O primo João, filho de tia Marocas Fernandes perguntara a prima Graci, uma
certa tarde. Você está namorando este “chauffeur”? – Toda vez que o barulho do carro
se aproxima, você estremece e olha para a janela... Ela dissimulava. – Que carro? Você
está imaginando coisas... D. Júlia percebia e ficava apreensiva. Também Sinha Moça - a
Mamãe Dinda – e Yayá Mundica notavam o assédio do rapaz.
Um rapaz bonito, nos seus vinte e dois anos, deveria mexer com os sentidos da
moça de vinte – em plena idade de casar-se. Sendo pobre, suas oportunidades não eram
tantas de fazer um grande casamento segundo as normas sociais do local e da época: um
casamento de conveniência. Isso era coisa habitual na camada mais alta da sociedade,
onde os carnaubais e as cabeças de gado eram fatores importantes nos “contratos” que,
em realidade, eram os casamentos.
Quem sabe ele era sincero? Até se dispunha a matar-se... Embora já não o fosse,
aparentava – sobretudo em comparação a ela – ser um moço rico. Meio maluco, era bem
verdade mas, quem sabe, com o casamento, assentava a cabeça. Agora tinha até um
emprego no DNOCS...
Tudo isso e mais a atração ou apelo sexual, no qual o rapaz era dos mais
dotados, deve ter acabado por influenciar a moça em concordar em aceitá-lo.
Adeptos da tese de que “o casamento faz assentar a cabeça de um rapaz
doidivanas” eram a irmã Mariquinha e o cunhado Pombo, a quem, sobretudo após o
rompimento com o pai, o jovem Mundico se ligara mais ainda e neles se apoiara. A mãe
Sérgia, mergulhada em sua cegueira e amargando a infidelidade do marido, cada vez
mais voltado para a casa da Estrada Nova, não saia de casa. Vivia naquela casa da rua
de Santo Antônio, esquina com o Barrocão, em seu completo isolamento, rodeada por
suas negras e mucamas. Edith pensava retornar ao Rio de Janeiro, passar uma
temporada com o tio Antônio Martins e as meio-irmãs. Zeca, nos seus vinte anos,
principiava sua brilhante carreira de moço conquistador, por quem as damas suspiravam

203
e a quem ele não negava seu charme. A ligação maior de Mundico era ainda com João
Paulo, mantendo a mesma relação com os primos, os Leões, girando entre Teresina e as
fazendas deles.
Assim, decidido o casamento, na madrugada do dia 10, a noiva preparou-se com
seu melhor vestidinho e, na companhia da irmã Dulce e da prima Benilde Braga, que
passava uma temporada em casa da prima Júlia dirigiu-se à igreja do Amparo onde,
após a missa das seis horas o Padre Cyrilo Nunes, celebrou o sacramento do
matrimonio.
Os rapazes da cidade caçoariam logo depois. O casamento do doido do
Mundico, um herege confesso, transtornou o padre a ponto dele largar a batina. De fato
este conhecido pároco, homem de cultura, membro da Academia Piauiense de Letras,
escandalizaria a cidade, logo após, não só por abandonar a Igreja mas sobretudo porque,
feito isso, abriu um cabaret na rua da Estrela. Contam que ele sentava-se à uma
mesinha, à porta do “estabelecimento” batendo com o copinho na garrafa, conclamando
os boêmios – seus novos fiéis – a vir tomar uns bons goles de cana...
Após a missa os noivos voltaram para a casa da rua da Glória. O noivo foi
buscar escrivão e juiz para efetuar a cerimônia civil, em meio ao atropelo da ameaça dos
revoltosos, cercando a cidade. A cerimônia ocorreu conforme reza a certidão:

Registro de Casamento.
Nº 182.
Aos dez dias do mes de dezembro de mil novecentos e vinte e cinco, nesta
cidade de Therezina, capital do Estado do Piauhy, às nove horas, à rua
Lysandro Nogueira, cm casa de residência da senhora dona Júlia de
Figueiredo, ahi, perante o meretissimo Juiz de Direito dos Casamentos,
Doutor Ernesto José Baptista, comigo, escrivão do seu cargo, abaixo
assinado, receberam-se em matrimônio Raymundo Leão Monteiro e dona
Gracildes de Figueiredo, solteiros, piauhyenses, residentes nesta capital, o
primeiro de vinte e dois anos de idade, filho legitimo de Santídio da Silva
Monteiro e dona Sergia Mendes Monteiro, residentes nesta cidade; a
segunda de vinte anos de idade, normalista, filha legitima de Gerson Edison
de Figueiredo e Dona Júlia Dias de Figueiredo, aquele já falecido e esta
residente nesta capital. E para constar, eu, Antônio Pereira Vieira, Escrivão
dos Casamentos, lavrei este termo que fica assinado pelo juiz, contratantes e
as testemunhas abaixo assinadas residentes nesta capital.
Ernesto José Baptista
Raymundo Leão Monteiro
Gracildes de Figueiredo Monteiro
José Belisário da Cunha
Ercynio Parentes Fortes

204
Maria Rocha da Cunha
Benilde Braga
Dulceide Figueiredo

Após este casamento realizado no dia 10 o seguinte (nº 183), só iria ocorrer no
dia 22 daquele mês, o que demonstra bem a agitação da cidade “sitiada”.
Após a cerimônia, Mariquinha e Pombo partiram apressados para a casa da
Estrada Nova pois estavam de saída para o Alto Longá, para onde, rotineiramente, se
dirigiam para as fazendas, cuja sede era “O Bonito”, aquela que era um patrimônio de
família desde os tempos do Alferes João Paulo de Areia Leão. Para lá deveriam seguir
atrás, os noivos e a família de D. Júlia, refugiando-se ali enquanto a cidade estivesse sob
a mira dos revoltosos.
Mundico, conforme o combinado, fora deixar o Dr. Ernesto Baptista à beira do
Poty onde lhe aguardava a comitiva da família que também se retirava da cidade. Na
volta passou na casa da rua de Santo Antônio falar com a mãe. O irmão João Paulo
aceitou o convite para vir, com o irmão, almoçar em casa da noiva. Era aniversário da
pequena Gersila que, aos 15 anos estava entrando na Escola Normal. Nos dias de
aniversário a mesa de D. Júlia era melhorada com alguma galinha ao molho pardo, um
leitãozinho assado, enfim, algo que fugia a frugalidade habitual. Também ficou para o
almoço, uma das testemunhas – Hercynio Fortes que era das relações tanto do Major
Santídio e do noivo quanto da noiva, porquanto por essa época o rapaz já era candidato
a namorar a prima Iracema, filha de Mãe Celé e tio Abilio Veras e que se iriam casar
alguns anos depois.
Após o almoço e a conversa que se seguiu animadamente pela tarde afora, onde
o assunto principal era, sem dúvida o cerco de Teresina pelos revoltosos, antes que se
fizesse noite, os convidados recolheram-se às suas casas. Um dos quartos da casa foi
separado para os noivos. Malgrado a boataria e o corre-corre de tropas e os tiros ao
longe, os revoltosos ainda não haviam chegado à Teresina. Assim, a família preparou o
necessário para dirigir-se até o Alto Longá. O modo como foi feita a viagem, é um
ponto fraco ria memória da família (algo que, para mim é difícil de admitir). Segundo
minha tia Gersila, a viagem foi a cavalo pois ela se recorda que pela primeira vez vira
sela de montar “de banda” ou seja, aquelas destinadas às senhoras, ditas selas “de
amazona”. Lembra também que na comitiva ia uma garota mais ou menos de sua idade,

205
parenta do tio Pombo e que se chamava Delzuith. Já mamãe acha que a cavalo foi o
trecho dos Altos ao Alto Longá e daí até O Bonito.
Em menino, marcou-me muito o que se dizia sobre essa temporada passada no
“O Bonito” que viria a ser um daqueles lugares “mágicos” que eu tanto desejava
conhecer. Mas isso demoraria muito tempo. Só há pouco, em julho de 1990, quando da
minha pesquisa em Teresina, pude realizar este sonho. A fazenda, O Bonito, como as
anexas e vizinhas são hoje um condomínio familiar entre os herdeiros de Paulo
Francisco, já falecido e Maria José – naquele momento ainda viva. Graças a um dos
seus filhos – Fernando, que para lá me conduziu um fim de semana com sua esposa
Walmira, filho Paulo Fernando, mais os primos Salete e Arimateia Costa, pude realizar
esse velho sonho. Por ali andei, tirei fotografias, deslumbrado com a beleza rústica da
paisagem e da vida na fazenda de gado.
Naquela passagem de 1925-1926 a casa da fazenda era outra que, de velha, fora
substituída por outra, edificada por tio Pombo no início dos anos quarenta. Aqui, nesta
fazenda de gado, diferentemente do que acontecia ria “feitoria agrícola” que era o Sítio
de Santo Antônio do Berlengas, nunca houve uma casa confortável. Os proprietários
vinham por temporadas, nas férias (julho e final de ano). Meu tio Pombo nunca se
preocupou em ter conforto na fazenda. A família se instalava naquilo que era mais a
“casa do vaqueiro”‘ do que casa de fazenda.
D. Júlia e sua comitiva – incluindo os noivos – foram instalar-se na fazenda
vizinha ao Bonito, a Almécegas, que tinha a administrá-la um vaqueiro muito antigo ao
serviço daquele criatório e que era conhecido como Seu Chico da Almêcega. Tinha
mulher e poucos filhos e se instalara numa casa inteiramente de palha de carnaúba, com
três grandes quartos. O vaqueiro recolheu o seu pessoal a um deles, D. Júlia e filhos
ficaram no segundo e os noivos no terceiro. Naquela passagem dos anos 25 para 26
atravessava-se uma fase particularmente chuvosa, como já foi dito a propósito das
enchentes do Parnaíba. A paisagem estava verdejante, os riachos cheios - aproveitados
para banhos – muita fartura de leite. E havia fortes temporais.
A família de D. Júlia guardou um repositório variado e interessante de estórias
dessa temporada. Uma delas diz respeito a facilidade de Seu Chico lidar com o “tempo”.
Certo dia em que saíram a cavalo da Almécegas para o Bonito, havia sinais de que um
forte temporal estava para desabar. Seu Chico declarou: podemos ir que eu garanto. Os

206
cavaleiros saíram e em pouco, em meio a relâmpagos e trovões fortes, caia uma pesada
cortina dágua atrás da tropa de cavaleiros, com Seu Chico a frente. E assim, nesta
curiosa situação, prosseguiram até chegar ao Bonito. Após entrar na casa o aguaceiro
cobriu tudo. A partir de então os hóspedes passaram a ver Seu Chico como um homem
de estranhos poderes, um bruxo, quem saberia dizer...
Havia riachos bons de vadiar mas os melhores eram os banhos no Caiçára e
sobretudo naquele que ficava mais próximo à casa no O Bonito. Por ter o leito
atravessado por muitas lages de pedras, que nas águas ficavam escorregadias, era
conhecido como o Quebra-Bunda (E assim está ele registrado no Mapa Municipal de
1938). D. Mariquinha Rocha intervinha, moralizadora: – “Basta dizer ‘O Quebra’... pois
já se imagina o que ...”
Em fevereiro, época da volta às aulas, a cidade já estava mais aliviada e o
famoso cerco da capital lá havia sido levantado. Os revoltosos haviam partido e todo
mundo tinha variedade de casos e estórias para contar e repetir pelos anos afora.
A família de D. Júlia Figueiredo retorna á casa da rua da Glória, acrescida de
mais um membro. Nos primeiros tempos tudo vai bem. O rapaz mostra-se atencioso,
procurando agradar a sogra e aos cunhados. Destes os menores Gersila e Gerson são
mais facilmente atraídos. Dulce ó mais tímida e Zeneide reservada e um tanto fechada.
O genro, morando em casa da sogra, põe-se em brios e assume a conta diária do
mercado. Saia regularmente para a repartição em que trabalhava. Mas pouco a pouco,
vai faltando ao serviço, fica nervoso ao manter-se em casa e pega a sair às noites. Não
demora muito e se ausenta, em direção aos primos na Altamira... As vezes leva a
mulher, bem acolhida por tia Justina e sua filha Antonia (Toninha). Após aquela
substituição à professora gestante na Escola Modelo, com que se ocupou boa parte de
1925, Graci estava agora sem trabalho e podia acompanhar o marido. No seu
aniversário em agosto de 1926 lá tem certeza de que está grávida. O “marido” vai, cada
vez mais, se reintegrando aos hábitos de solteiro... Aparece e desaparece da casa da
sogra com a maior desenvoltura. Manda recados. Dia tal tem condução para a Altamira.
Graci deve vir em companhia de D. Sinhazinha Boavista e sua filha Nildes, passar uns
dias.

207
FAZENDA “O BONITO”
Localização no Município de Alto Longá, Piauí

FOLHA SB.23-X-D Primeira edição - DSG


MIR – 176 Primeira impressão - 1984

208
FAZENDA “O BONITO”
A Casa da Fazenda, no início dos anos noventa.

209
Para D. Júlia não há novidade. Ela já esperava por este tipo de vida a que se
decidira a filha. Insistia para que ela voltasse a lecionar. Não poderia ficar esperando
pelo irresponsável do marido... Tanto mais agora que um filho vinha a caminho...
Enquanto isso, na casa da rua de Santo Antônio, o casamento do Mundico era
tomado como mais uma no seu rol de loucuras. João Paulo e Zeca conheciam a família
de D. Júlia, dançaram com as moças nos bailes, estreitaram amizade. D. Sérgia não saia
de casa. O Major Santídio não se envolvia no caso pois o filho voltara-lhe às costas no
seu retorno da Alemanha... O nascimento do filho, mais tarde, virá a ser o elo de ligação
com a nora.
Enquanto isso vejamos o que acontecia com o ramo da família de D. Sérgia,
instalada no Rio de Janeiro, em torno de Antônio Martins. As professoras primárias
trabalhavam. Os filhos de Julinha estudavam. Osmar, no Colégio Militar – um direito de
filho órfão de oficial – talvez viesse a seguir a carreira do pai. Arabella estudava em
Ipanema, junto à mãe.
As novidades vinham do lado do tio Afro, que como se viu, migrara para o
interior de São Paulo, juntar-se ao filho mais velho o farmacêutico e módico Francisco
de Arca Leão. Isso em 1918. Mas, após alguns anos de sucesso em sua clinica no
interior de São Paulo, em Tabapuã (próximo a Catanduva) o Dr. Arca – como era
conhecido aquele que, em família era chamado de D ida –, resolveu vir para o Rio de
Janeiro onde prestou concurso e assumiu o posto de médico da Força Pública (Polícia
Militar). Talvez estivesse no Rio desde 1920 ou 1921. Nesse ano de 1925 aconteceriam
duas coisas marcantes em sua vida. O pai, tio Afro, que viera também para o Rio e
passara a trabalhar com o irmão Antônio Martins, engenheiro de construções, colocara
os dois filhos pequenos, do seu segundo casamento, Nilo e Dulce, num internato em
Niterói e morava numa “garçoniére” do irmão no Rio Cumprido, na Avenida Paulo de
Frontin. O irmão solteiro, que vivia em Gomes Carneiro, em Ipanema, com as
sobrinhas, tinha aquela residência secundária para seus ocasionais encontros. Afro se
instalara ria garçoniére. Um dia, nesse ano de 1925, ao descer ou subir a escada, caiu
fulminado por uma sincope cardíaca.
Além da morte súbita do pai Dida ver-se-ia forçado a retornar ao interior de São
Paulo para recomeçar sua vida de médico. Meu primo Nilo – a quem só recentemente
vim conhecer – contou-me que lamenta muito não haver se informado melhor junto ao

210
irmão sobre esse fato, do qual ele sabe apenas o sumário que me revelou. Dida, na
qualidade de médico da Força Pública, Leria sido acusado de facilitar a fuga do
poderoso jornalista Edmundo Bittencourt, proprietário do famoso “Correio da Manhã”
do Rio de Janeiro que fora preso no quartel daquela corporação por ordem de Arthur
Bernardes. Acostumado a criticar acerbamente os seus opositores – o que culminaria no
achincalhe que promoveu durante todo o Governo de Hermes da Fonseca, por exemplo
– topou com o autoritarismo do mineiro Bernardes que, governando sob estado de sítio,
não hesitou em mandar trancafiá-lo. Assim, com a perda sumária do seu cargo, o Dr.
Francisco de Arca Leão retornar ia ao interior de São Paulo. Agora para Taquaritinga
onde clinicou e tornou-se chefe político, prefeito reeleito algumas vezes naquela cidade.
Quando vim a conhecê-lo, em meados dos anos cinqüenta, ele militava ao lado de
Adhemar de Barros.

211
212
4. Um Princípio de Vida no Piauí Entre o Brasil da Revolução de
Trinta e o Advento do “Estado Novo”

Até aqui a crônica de família foi fundamentalmente pesquisa, foi revolvimento


da transmissão oral, recolhimento de memória do ouvir dizer dos mais velhos... Agora
ela começa a transpor a soleira da própria memória do cronista sobre sua própria vida.
Alguns psicólogos admitem, talvez com razão, que ninguém pode ter lembranças da
primeira infância, mas, em verdade, lembranças sobre ela.
Um dos traços de minha personalidade tem sido uma acentuada fixação na
infância, por problemas mal resolvidos na adolescência. Isso talvez me tenha dotado de
uma “memória” que está bem acima do normal das pessoas.
As primeiras impressões são, obviamente, uma mistura, um acervo de fatos de
“ouvir contar, repetidamente, mas que se juntam por certos lampejos (“flashes”), como
que fotos estáticas destacadas da seqüência do rolo dinâmico que constitui um filme. A
insistência desses lampejos, sua recorrência – aliada ao ouvir dizer, à narrativa dos
familiares – compõem pequenas cenas ou quadros avulsos, as vezes aleatórios o que
talvez constituam o repositório de lembranças ‘sobre” a primeira infância.
Por aqui principiará, nesta crônica, minha narrativa sobre tempos e espaços
“vividos” segundo a seqüência natural de minha capacidade de percepção e tomada de
consciência dos mesmos. A soldagem do conteúdo de “memória” do vivido vai se
apoiando ainda, no caso do alvorecer da infância, num suporte de pesquisa, fadada a
diminuir a medida que a lembrança vai deixando de ser “sobre” para tornar-se “da”
infância.

4.1. O ano de 1927: um nascimento na rua da Glória


Num efervescente decênio rotulado de os “anos loucos” o ano de 1927 foi
marcado por uma série de acontecimentos notáveis.
Talvez possam ser tomados como referenciais um fato da tecnologia, outro da
cultura e outra da política. No primeiro caso, dos Estados Unidos da América, de Nova
Iorque, em direção a Paris, Charles Lindbergh, voando no “Spirit of Saint Louis”,
atravessara o Atlântico Norte. Da velha Europa, mais precisamente da Alemanha, da

213
República de Waimar, o filósofo Martin Heidegger publicava o seu “Sein und Zeit” (O
Ser e o Tempo). Nos Estados Unidos o caso Sacco e Vanzetti abalava o mundo.
Washington Luis já era Presidente do Brasil. Procurava abrir estradas e sustentar
o café.
No Piauí, o governador Mathias Olympio entrava na reta final do seu quadriênio,
presidindo também (por reeleição) a Academia Piauiense de Letras. No ano anterior, no
rescaldo das enchentes e da passagem dos revoltosos, instalara a sede do Governo no
Palácio Karnak – a antiga residência do Dr. Gabriel Ferreira e do Barão de Castello
Branco – para o que o Eng. Lulu Ribeiro executara as obras de adaptação. A produção
estadual da cera de carnaúba estava no seu pique, com cerca de duas mil toneladas num
valor comercial de quase mil contos de réis e o correspondente rendimento em impostos
(958:712$609).
Continuando a política de complementar a navegação fluvial de vias terrestres,
seguindo os passos dados por J. L. Ferreira, o governador Mathias Olympio dispendera,
em 1927, cerca de vinte e seis contos de réis em estradas carroçáveis (25:626$650). O
“construir estradas” era meta federal, sob Washington Luis, no vastíssimo Brasil. Com
visão mais ampla criava-se no Rio Grande do Sul, a VARIG, primeira empresa de
navegação aérea no país de Santos Dumont. Na América do Norte a construção de
automóveis crescia vertiginosamente. Neste exato ano de 1927, Henry Ford, já
multimilionário, lançava na Broadway de Nova Yorque o seu revolucionário automóvel
modelo A, substituindo o velho modelo T, que eliminava, entre outras coisas, a
manivela.
O Nordeste Brasileiro, após o período copioso de aguaceiros e inundações de
1924 a 1926, as chuvas declinaram, a partir de 1927, afetando lavouras e pastes, num
crescendo que configurava um período de seca que culminaria no ano de 1932.
A capital Piauiense ao final da administração Anfrisio Lobão, tinha uma receita
de quase quatrocentos contos de réis que se igualava às despesas e era praticamente
igual a receita da Parnaíba. Enquanto em Tutóia penetravam 20 vapores da Booth Line e
9 da Norddeutsches em Amarração, a cabotagem nacional registrava 15 vapores da
Costeira e 8 do Lloyd. Criava-se em Teresina, o Banco Agrícola, que, muitos anos após,
se transformará no Banco do Estado do Piauí.

214
A Praça Rio Branco florescia como novo centro comercial e recreativo da
cidade. Muitas lojas da beira rio ou proximidades, com as enchentes, mudaram-se para o
seu entorno. As lojas Paulista (que passariam em 1932 a Casas Pernambucanas) ali se
instalaram. O Bar Carvalho, de Zecão e o Teresinense Bar, do Sr. Frazão eram os
pontos de encontro da sociedade para as cervejas dos homens, sorvetes das senhoras e
senhoritas e cafezinhos de todos. Servidos, como no Rio de Janeiro, sentado, às
mesinhas, com açucareiros permanentes e acompanhados de copo d’água gelada. Outra
inauguração do mesmo ano, naquela mesma praça fora, a do Palace Hotel, em prédio
residencial adaptado.
A praça recebera também a inauguração do Cinema Olympia, quase a esquina da
rua do Amparo, que cruzava com a Botica do Povo (1885). O cinema fazia furor pelo
mundo. Na América, neste 1927, o número semanal de freqüência às bilheterias atingia
a cifra de 60 milhões de espectadores122. O “star system” se havia instalado. A morte
prematura de Rodolfo Valentino no ano anterior ainda era pranteada. Brilhavam Theda
Bara, Pola Negri e muitas outras. O sucesso de Charles Chaplin era imenso. Teresina,
onde as salas de exibição eram improvisadas e precárias, inaugurava sua primeira sala
especial, instalada pela firma Martins & Omatti123. Além da projeção de filmes o
Olympia desempenhava também relevante papel cultural acolhendo a realização de
conferências, palestras e “festivais artísticos musicais”. “A Imprensa” em seu nº 301, de
6 de outubro de 1927, ou seja, no ano mesmo de sua inauguração, anunciava a
conferência de um Sr. Agripino de Santana sobre o palpitante tema: “O Valor da Mulher
Brasileira”. Parece que, até o “feminismo” principiava ali pela voz dos homens.
A capital Piauiense naquele 1927 receberia uma visita ilustre. Em meado de
junho S.A. o Príncipe D. Pedro de Orleãns e Bragança, herdeiro presuntivo do trono
brasileiro, acompanhado de sua esposa D. Elisabeth e de sua filha. D. Isabel (a futura
Condessa de Paris) foram alvo de grandes homenagens na capital. A 16, a família foi
homenageada pelo Prefeito Municipal que, em júbilo, decretou feriado. Houve almoço
de 50 talheres na casa do Dr. Vieira da Cunha e um jantar de gala no Palácio de Karnak.

122
Dobrando em 1929, com o advento da sonorização.
123
No meu tempo era do Sr. José Omatti um sírio da colônia já bastante significativa e próspera em
Teresina. Mundico, meu pai, era seu amigo e tinha franquia de entrada. Não sei por que, Mundico o
chamava de “Zé Budaque”.

215
Os ilustres membros da casa imperial brasileira mostraram-se à população da cidade,
acompanhando a procissão de Corpus Christi.
Após três décadas de “república”, e talvez mesmo por causa do desempenho
político vigente no regime, houve, em torno de 1925, um sensível saudosismo da
monarquia que, entre outras coisas, resultou no traslado dos restos mortais de D. Pedro
II e D. Thereza Christina de volta ao Brasil, homenageados em solenes exéquias. Esta
visita do herdeiro presuntivo vinha juntar-se a esta onda de saudosismo.
Mas o ano de 1927 seria marcado também, na cidade de Teresina, por dois
assassinatos que, pelas suas ocorrências em diferentes estratos sociais e por suas
repercussões e projeção futura na memória da cidade vale a pena relatar.
O primeiro foi um crime bárbaro exercido pelo chefe do destacamento de polícia
da União: Florentino de Araújo Cardoso sobre um motorista de caminhão, cujo nome de
batismo era Gregório. O caminhão do Gregório atropelou um filho pequeno do Tenente.
Diziam as testemunhas que a criança saíra correndo de casa para a rua sendo colhida
pelas rodas traseiras do caminhão. De vez que este não ia em velocidade alta mas, ao
contrário, devagar, o motorista não notara a criança. Esta ficou gravemente ferida e o
policial, em desespero, colocou a mulher e a criança no próprio caminhão dirigido por
Gregório, e seguiu rumo aos recursos médicos em Teresina. Ao chegar à margem do rio
Poti, já perto da capital, a criança não resistiu aos ferimentos e com a demora da
viagem, faleceu. O pai, alucinado e confirmando as ameaças feitas durante o trajeto,
amarrou o motorista no tronco de uma árvore, a beira do rio e o torturou barbaramente.
Foi tão forte o espancamento que o motorista ficou mutilado, em péssimo estado. Em
sua agonia final implorava por água ao que seu algoz não atendia nem permitia a
mulher, penalizada, atender. Assim Gregório morreu mutilado por pancadas e com sede.
O crime abalou a cidade. Não demorou muito para que a alma de Gregório
começasse a “obrar milagres”. E tanto a sua sepultura, na cidade, como especialmente o
local do seu sacrifício, a beira do rio Poti, passaram a receber “garrafas d’água” que se
empilhavam progressivamente como ex-votos daqueles que haviam recorrido às graças
da vítima.
Como a nossa “justiça” sempre andou a passo de jaboti, este fato, ocorrido no
ano do meu nascimento, arrastou-se kafkanamente entre processos, julgamentos e
apelações até que, já menino de escola (1935), pude dar-me conta do caso. Lembro-me

216
que um certo dia, em companhia de meu pai e amigos, na Praça João Luis Ferreira, em
frente ao Trianon Bar, comentava-se que, aguardando um novo pronunciamento do júri
popular, os motoristas de praça puseram-se em greve, em “vigília”. Mas logo voltariam
a circular pois o criminoso, que anteriormente havia sido condenado a 19 anos de
prisão, agora, no segundo júri, era então absolvido. Parece que se alegava para o réu
privação de razão pela dor da perda do filho, numa eficiente defesa do advogado Vaz da
Costa.
O outro assassinato produziu-se nas altas esferas. O Dr. Lucrécio Dantas
Avelino, Juiz Federal, havia sido esfaqueado e morto por três homens, em sua
residência. Ali naquela casa assobradada do Alto da Moderação, onde funcionou o
colégio batizado com o nome do pai da vitima: “Colégio Demóstenes Avelino”124. Certa
noite o magistrado vai conduzir até a porta de sua casa o visitante amigo Dr. Cromwell
Barbosa de Carvalho, naquela época promotor público da capital. Alguns instantes após
haver-se despedido do colega e fechado a porta o juiz ouve pancadas breves de chamada
à porta. Imaginando haver o amigo esquecido de algo, voltou, abrindo
despreocupadamente a porta pela qual penetraram os assassinos prostrando-o ali
mesmo.
A cidade ficou chocada com o crime mas os comentários e especulações sobre o
empenho tanto policial quanto judicial para a apuração do mesmo foram muitos. Não
faltou quem estabelecesse comparações entre o contraste que se fizera notório entre a
celeuma que se produziu após o assassinato do Major Gerson de Figueiredo, ocorrido
quinze anos atrás (1912) e este do Dr. Lucrécio Avelino. O governo Miguel Rosa, após
o assassinato do Major Fiscal – um simples oficial da Força Pública – fechara a cidade,
prendera o criminoso, movera céus. Agora, uma autoridade muito mais importante, um
juiz federal era assassinado e o governo Mathias Olympio revelava um “empenho” que,
nem de longe, lembrava o episódio passado.
Comentava-se o caráter oculto de indisfarçável conteúdo e motivação política
deste crime. Faziam-se acusações de suspeição a diferentes personalidades. Insinuações
de natureza política ao ex-governador Euripedes de Aguiar; de vingança por questões de
terra; ao Cel. Laurindo Rabelo, e a outros possíveis “mandatários”. Mesmo chegando a

124
Após ter sido colégio o prédio entrou em período de abandono e deterioração, tornando-se refúgio de
mendigos e pessoas sem teto. Quando de minha visita a Teresina em 1990 o prédio estava sendo
restaurado. Em verdade, trata-se de um interessante testemunho arquitetônico da capital.

217
prender três suspeitos, não se conseguiu obter informações e provas precisas. Não faltou
quem notasse a falta de empenho do próprio governador – também ele um magistrado e
ex-juiz federal – na apuração do crime.
Nestas tristes circunstâncias seria assassinado aquele bravo e inflamado defensor
de Francisco Falcão e acusador do Governo Miguel Rosa; daquele eficiente
correspondente do Correio da Manhã do Rio de Janeiro para quem enviara noticias
como aquela do “assassinato” do Padre Lopes, “injuriosamente” imputado como mentor
intelectual do assassinato do Major Fiscal... Este foi um cadáver que renderia ao
Governo Miguel Rosa (1912) alguns bons dividendos políticos. O do Dr. Lucrécio,
agora em 1927, nem isso.
Mas ao lado desses acontecimentos sombrios o ano de 1927 teve um aspecto alegre,
no seu início. Foi o ano de inauguração da sede do Clube dos Diários, na rua Grande125. Os
carnavais dos últimos anos vinham sendo muito animados e no ano anterior, uma
dissidência produziu-se entre os sócios daquele clube por não querer a diretoria fazer bailes
na segunda-feira de carnaval. Juntaram-se os descontentes para promover, no Teatro 4 de
Setembro, o baile da segunda noite do tríduo, patrocinado pelo grupo que se passou a
chamar “Os Fanfarrões”. Durante a minha infância já era uma tradição estabelecida e
firmada. Ainda recordo um trecho do seu “hino”, com o seu animado refrão.
.......................................................
.......................................................
A quinina cura a febre
Diz um doutor previdente
Quem fôr podre que se quebre...
Quem fôr forte que se aguente!

Os Fanfarrões, din-din
Bis { Os Fanfarrões, dão-dão
Os Fanfarrões vão abalar os corações!

Naquela época o carnaval brasileiro multiplicava-se e diversificava-se pelas


cidades com independência local ou pelo menos, um forte caráter regional. Ainda não
havia a hegemonia do Carnaval do Rio de Janeiro. Somente à entrada dos anos trinta a
capital federal passara sua produção musical carnavalesca para as outras regiões do país.
O que se firmará mais ainda com a “era do rádio”. Somente as áreas de patrimônio

125
Malgrado sua privilegiada posição central, de alto valor imobiliário, em 1990 notei o prédio em
questão próximo da condição de “ruína”.

218
cultural mais notório, como a Bahia e o Recife permaneceram autônomas, o que ocorre
ainda hoje. Especialmente agora, quando o Carnaval Carioca sofreu a tremenda mutação
que resumiu sua atração central aos desfiles (comerciais e fechados) das escolas de
samba, cujas músicas de enredo126 são a única produção especifica para a festa. Elas,
comercialmente, são produzidas e promovidas em gravações especiais e oferecidos à
“torcida” das diferentes escolas. A composição de músicas específicas: sambas, marcha-
ranchos, marchinhas extinguiu-se nos anos sessenta. Nos bailes carnavalescos dos
clubes ou de rua, se há “samba enredo” das escolas e sucessos do passado.
No ano de 1927 as composições carnavalescas na capital federal não foram
abundantes ou talvez os sucessos não tenham sido expressivos. Pode-se apontar127 como
sucesso o samba “Braço de Cera” do compositor Nestor Brandão que parece não haver
sido retido na memória. Sequer, talvez, tenha chegado ao Nordeste.
Segundo a Cronologia do Piauí Republicano (1889-1930) relativa ao ano de
1927 a revista “O Automóvel” editada em Teresina, em número lançado no início
daquele ano, “publica a relação de composições carnavalescas com seus respectivos
autores”. E tal relação é ali reproduzida128. Observando-se tal relação, que vale a pena
reproduzir abaixo, percebe-se claramente que se trata de uma tremenda caçoada, xiste
ou gozação com alguns cavalheiros da sociedade teresinense, atribuindo-lhes
composições carnavalescas cujos titules referem-se a algum fato jocoso a imputar-lhes.
Eis a relação de “músicas” e seus respectivos “compositores”:

“O Futuro a Deus Pertence’ – Cromwell Carvalho


“O Bico da Cama” – Mario Castello Branco
“Satyro na Zona” – Santídio Monteiro
“Manda Cortar teu Oityzeiro” – Heráclito Sousa
“Ella... Chicanas” – Pires de Castro
“Isto é que é Hotel” – Teivelino Guapindaia
“Deixa o Bonde Descançar” – Anfrisio Lobão
“Quem é o Chefe” – Giovanni Costa
“Ven cá Dió” – Laurindo de Castro

126
Até o epíteto de “samba enredo” perdeu o seu significado porquanto muitas delas, para obedecer os
postulados para o desfile – um “shou” televisionado para o mundo – fez com que estes viessem a
tornar-se em apressadas “marchas”
127
Segundo a matéria “62 anos de sucessos carnavalescos” organizada por Ary Vasconcelos e inserida na
revista SENHOR, ano 4, nº 48, Rio de Janeiro, fevereiro de 1963, às páginas 15 e 16. Nota-se, por esta
relação, que o período áureo em composição carnavalescas, principia a partir de 1930 quando aparecem
Ary Barroso, Ismael Silva, Francisco Alves, Noel Rosa, Lamartine Babo e muitos outros consagrados
autores carnavalescos.
128
Cronologia do Piauí Republicano (1889-1930) – Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais
do Piauí (CEPRO) – Teresina, 1988 – pp. 283-284.

219
“Conde Intelectual” – Daniel Paz
“Olha o Prado” – Raimundo Furtado
“Paulista Melo” – Joel Servio

A inclusão deste xiste na cronologia, certamente por um equivoco dos


compiladores, é extremamente feliz para a presente crônica de família pois que ela
inclui uma referência explícita a meu avô, o Major Santídio Monteiro e uma outra,
indireta. Ao lhe ser atribuída a musica carnavalesca “Satyro na Zona” há uma alusão
bem clara aos seus atributos de “atleta sexual” como se diz hoje em dia. Por outro lado a
caçoada com o prefeito Dr. Anfrisio Lobão em “Deixa o Bonde Descansar” é, sem
dúvida, uma referência crítica ao estado de conservação do bonde – criação de Santídio
Monteiro com seu amigo José Faustino – pois há referências (em outros jornais) de que
o Prefeito tenciona mandar buscar um bonde em São Paulo, para a ligação entre o porto
do Parnaíba e a estação ferroviária.
Há outra interessante nota, também contida na citada Cronologia, da fundação,
em 1927, de uma “Sociedade Operária Cooperativa e Beneficiente”, sociedade esta
criada por iniciativa de Ercynio Parentes Fortes e cuja diretoria seria a seguinte:

Presidente – Cel. Santiago Monteiro (sic)


Vice – Mestre João Paulo Gomes dos Santos
1º Secretário – Feliciano de Moura Rios
Sub-Secretário – Antonio José de Sonsa
1º Tesoureiro – Ganindo Freire de Andrade
Sub-Tesoureiro – Francisco de Paulo e Silva
Orador – Ercynio Parentes Fortes.

Na minha memória e naquelas de alguns parentes e teresinenses a quem


perguntei, não há registro do tal Cel. Santiago, o que deixa margem a que se suponha
que se trata de um erro tipográfico de revisão. Não seria improvável tratar-se de
Santídio Monteiro que inclusive, não fazia muito tempo, havia sido eleito presidente do
Grêmio dos Motoristas. Os demais membros são pessoas bem conhecidas. Lembro que
o 1º Tesoureiro é aquele irmão do médico Dr. Francisco Freire de Andrade, que era
alfaiate e em casa de quem, na rua Paissandu, vizinha aquela do seu pai – o padeiro
Vitalino – havia se escondido e foi encontrado o Dr. Francisco de Moura Falcão após
haver assassinado o Major Gerson de Figueiredo. O sub-tesoureiro parece tratar-se do
Sr. Chiquinho de Paula (Serra e Silva) que era figura de destaque entre os espíritas
(kardecistas) da cidade e que era amigo de D. Júlia Figueiredo, viúva do Major Gerson,
minha avó.

220
É interessante registrar a defasagem existente entre esta outra associação – ainda
de cunho nitidamente mutualista – e aquelas do Sudeste do país. Fundava-se em
Teresina em 1927, ano mesmo em que o Partido Comunista do Brasil, entraria no seu
primeiro episódio de “ilegalidade”, sob o governo de Washington Luis. Ano também
em que a União Soviética assistia a luta pelo poder onde Stalin vai tomando as rédeas e
vencendo os adversários Trotsky, Zinovev e Kamenev129. O período inaugural de
Lenine dava lugar aos negros tempos do stalinismo.
Nesse ano de eventos importantes, até mesmo na capital do Piauí, nasceriam
muitas crianças, puxando o fio natural da existência, em todos os segmentos da
sociedade. Eventos comuns e banais como são o nascer e morrer, extremos das
existências humanas. Sem relevo ou destaque especial.
D. Júlia Figueiredo fazia um grande rol de crianças nascidas naquele ano de
1927. Por coincidência havia uma predominância flagrante de mulheres, naquele rol
levantado no âmbito da família, bem como nos amigos e vizinhos. Principia aqui uma
constante na vida do menino: estar sempre cercado de mulheres. Na família, assinala-se,
no casal Celsa-Santinho, o nascimento de Maria de Nazaré, que sucedendo aos gêmeos
José e João já era o 11º filho da série de quatorze. Ainda na vertente dos Veras, de Celé
e Abílio, nasceria a menina Maria do Carmo do casal Doninha-Zezito Boavista. Dentre
os amigos contava-se o nascimento da menina Maria Helena filha de Helena e do
Compadre José Basílio. Na vizinhança, ali mesmo na rua da Glória, no mesmo
quarteirão nasceram mais duas meninas: Resina, filha do casal Adilia-Antonino Barros,
encerrando a produção deste casal de vizinhos, bons amigos, e Aldira a primogênita do
casal Maria Raimunda-Nereu Bastes.
A relação de D. Júlia era, certamente maior, ficando-me na memória aquelas
meninas que estavam mais próximas e cuja presença seria mais relevante. Para
completar a felicidade de poder juntar a um único filho homem – o Gersinho, o primeiro
neto de D. Júlia seria um menino.
Naquele março de 1927, quando Graci deu a luz a seu filho, D. Júlia já se havia
transferido para a nova casa construída junto a casa da Dinda. Após a sua construção D.
Júlia resolvera alugá-la e teve como primeiro inquilino o seu querido sobrinho Zuca
Veras que ali viveu o seu malogrado e curte casamento. Depois dele a casa seria alugada

129
Trotsky seria exilado em 1929 para, adiante, ser assassinado no México.

221
para um forasteiro, um cearense que logo se revelaria um mau inquilino, atrasando os
aluguéis. D. Júlia logo se deu conta de que se tratava de um pobre homem que parecia
nem mesmo ter com que alimentar os filhos, que não eram poucos. Assim ela teve que
resignar-se a esperar até que o inquilino achasse outra casa. Talvez a resolução de
transferir-se para a nova casa tenha sido um modo de livrar-se dele. Outras vezes eu me
pergunto se, ao transferir-se para uma casa com menor número de cômodos que a antiga
não seria também um estratagema para livrar-se da companhia incômoda do genro.

CASA DE D. JÚLIA FIGUEIREDO


Por ela construída, no início do anos vinte, no terreno ao lado da Casa da Dinda.
Existente ainda hoje à Rua Leandro Nogueira, 1467 – Centro de Teresina.

Durante a gravidez de Graci confirmara-se aquilo que já se prenunciava:


Mundico continuava o seu modo de vida de solteiro. Depois de poucos meses deve ter
se dado conta como era cerceante – e dispendioso – viver com a sogra: O mesmo
aborrecimento como era ter que ficar aprisionado ao expediente de uma repartição
pública, cujo serviço não lhe interessava de nenhum modo. Pouco a pouco foi tirando o
corpo dos dois. Passou a enredar-se em serviços de mecânica e sobretudo eletricidade,
que lhe rendiam boa paga e não eram muito demorados. É difícil traçar-se a cronologia
dos eventos que Mundico Leão viveu por esta época inicial do seu casamento.

222
Graci, mesmo no início de sua gravidez, continuou trabalhando como substituta
eventual de professoras gestantes na capital. É curioso que – segundo o seu “curriculum
vitae” – por ato de 14 de fevereiro de 1927 (já no oitavo mês de gravidez) ela houvesse
sido nomeada para substituir a professora adjunta da Escola Complementar “Antônio
Freire”, da Capital. D. Clarice Ferraz Burlamaqui. Tratava-se de uma questão de
necessidade, mesmo de premência, de vez que além de não ter garantia de sustento pelo
marido, ela ainda era o único salário na casa de D. Júlia. Mamãe conta que sua gravidez
foi absolutamente tranqüila, não havendo sentido nenhum achaque ou enjôo além do
que seu ventre não ficara muito protuberante. Ao final da gravidez ela aparentava estar
no meio.
Assim, ao entrar o mês de março, Graci estava trabalhando. A família de D. Júlia
Dias de Figueiredo instalada na casa nova, a meia morada ao lado da casa da Dinda, nos
altos da mesma rua da Glória. Passara a alugar a antiga – aquela que fora doada pelo
Governo Miguel Rosa após o assassinato do marido – e a residir naquela edificada no
terreno que lhe fora dado pela Mamãe-Dinda e que erguera com sacrifício, com ajuda ao
amigo Arthur Freire. Subia-se a rua da Glória em apenas uma centena de metros130
ficando ao lado das irmãs. Do outro lado ficava a bela residência do Coronel Antonino
Barros um próspero fazendeiro que, entre outros bens, possuía uma exploração de gado
leiteiro para o abastecimento da capital, numa de suas propriedades, chamada “Os
Torrões”. Era casado cora D. Adilia Borges, filha do Cel. Veridiano Borges, um
conhecido chefe político da Parnaíba131.
A casa nova, de pé direito mais alto e melhor iluminada, tinha (como meia
morada que era) menos cômodos que a outra. Uma sala de visitas, mais alcova, um
corredor levando à sala de refeições-avarandada e dois outros quartos no “puxado”, ao
longo do corredor que conduzia à cozinha132. Entre o casamento em dezembro de 1925
e o nascimento do neto em março de 1927 a mudança ocorreu em 1926.

130
Aplicando-se a diferença ente os números 1385 e 1467 que as duas casas receberiam pela numeração
métrica adotada mais tarde na administração do Prefeito Lindolfo do Rêgo Monteiro
131
D. Adilia era uma senhora finíssima e com o marido e filhos foram ótimos vizinhos, sempre amigos de
D. Júlia e seus filhos. Tinha uma outra irmã residindo na capital, D. Ermila, mulher do Dr. Julio Rosa
(irmão de Miguel Rosa). Na Parnaíba tinha uma irmã professora: Francisca (D. Chiquita Borges). Havia
também irmãos, dos quais me lembro de João (funcionário dos Correios e Telégrafos), e Cazuza, do
Banco do Brasil , que viveu entre São Paulo e Rio de Janeiro.
132
Mais adiante haverá um capítulo especial tratando de “casas” com ilustrações.

223
Inicialmente foi difícil alugar a outra casa. Por um período chegou a ser alugada
para eventos esporádicos como realização de bailes, o que não deu certo por incomodar
alguns vizinhos.
Dia 22 de março, seguinte ao aniversário de Zeneide (e também do Major
Gerson, no dia 21), Graci ainda trabalhou, tencionando continuar até quando fosse
possível. Naquela noite tia Marocas Fernandes trouxera uma quitute qualquer que ela
fizera em sua casa e lembrara de levar para a irmã e sobrinhas. Graci recorda que,
mesmo havendo jantado, comeu outra vez para provar do prato. Na madrugada acordou
sentindo-se mal e pensou que era do fato de haver comido demais e tão tarde. Era
inexperiente de todo. Ao ver-se “molhada” chamou a mãe que sabia do que se tratava.
Acordou Dulce para ficar com a irmã enquanto ela saiu, ainda com escuro, chamar,
umas três ruas atrás, a parteira, a Velha Comadre Serafina. Quando retornaram a velha
disse que a criança já estava quase nascendo. Ao clarear do dia, exatamente às 6 horas
do dia 23 de março nascia o filho de Graci e Mundico: um menino. Parto tranqüilo, sem
grandes padecimentos, quase em silêncio, pois nem a vizinhança percebeu. Correram,
curiosas, as irmãs, para assistir o primeiro banho do infante. Produziu-se o ritual da
queima da alfazema para perfumar o ambiente, impregnar as roupas, fraldas e cueiros. O
umbigo cauterizado, os primeiros afagos e o sono tranqüilo.
As irmãs ficaram ansiosas para divulgar a notícia pela vizinhança. Dulce
passaria à pequena Inah, filha de Antonino Barros, a notícia. D. Adilia – também ela
grávida – pôs em dúvida pois não ouvira nada, ali tão perto. A chegada do garoto fora
tranqüila.
Do pai não se sabia. Provavelmente andava pelas fazendas com os primos, talvez
na Altamira. Pelo seu gosto, continuava os hábitos de solteiro pouco se incomodando
com mulher e o nascimento do primeiro filho “legítimo” pois que já era pai de alguns
outros... Entre mãe, avó e três tias o garoto contava com cinco pares de mãos para
cuidá-lo. Disputavam-se prioridades, organizavam-se escalas... trocas de fraldas,
banhos, cantilenas para adormecer... A mãe quase sobrava apenas a amamentação. O
“resguardo” teve suas galinhas cevadas no quintal, os pirões de leite, as garapas de cana
e todos os cuidados pertinentes às parturientes.
Os cunhados João Paulo e Zeca vinham visitar o sobrinho e a cunhada,
especialmente o primeiro, sempre cordial e amigo – cada vez mais magro, curtindo as

224
penas de sua paixão proibida. João Paulo seria o intermediário do convite que Graci
fizera para que o Major Santídio fosse o padrinho do seu primeiro neto. Graci fora
afilhada do seu avô Ludgero e repetia a tradição. Para madrinha, seu desejo era convidar
a amiga Erina Costa Araújo, mas nem chegou a fazer o convite pois a mãe pediu-lhe
que a madrinha fosse D. Josefa (Zefinha) Ferraz, que fora professora do pequeno
Gerson, agora preparando-se, já aos 14 anos, para o Liceu. Graci satisfez a vontade da
mãe.
O nome, escolhido pela mãe foi Carlos Augusto, combinação que pertencia ao
personagem de um romance muito popular, intitulado “O Casamento e a Mortalha”133.
O garoto já estava a ponto de sentar quando compareceu à igreja de Nossa
Senhora do Amparo, envolto em cueiro rendado e faixa de seda azul, conduzido ao altar
pela preta Luiza Bernarda – uma das mucamas de D. Sérgia Monteiro – que foi, assim
“madrinha de apresentar”.
O avô conheceria o neto na igreja. Ficou encantado com o afilhado rosado, de
grandes olhos azuis, parecendo um “alemão” na opinião do padre José Zimmermann,
ele próprio um alemão, que celebrou o batismo.
Em julho Graci foi designada para nova substituição, desta vez para uma licença
que não era de gestante. Iria substituir, na Escola Modelo, a adjunta Maria Antonieta
Ferraz Burlamaqui, aquela colega de turma na Escola Normal em gozo de licença.
Ao final do ano letivo, o garoto, amamentado no peito materno, estava bem
forte. A mãe estava magra. Tia Hortência Braga, reclamara, em visita a prima Júlia: –
Isto não está direito. O menino enorme, forte e a mãe debilitada, deste jeito. Daqui uns
dias, quando descer para Miguel Alves vou levá-la comigo para fortificar-se um pouco.
– Não posso deixar meu filho, que, longe de mim, sem leite materno, ficará
fraco.
– Nem pensar. Ele está muito bem e ficará com a avó e tias cuidando dele. Já pode
comer papinhas e comida de sal; já está com nove para dez meses. Chiquinha minha filha,
já deixou comigo filho recém nascido para acompanhar o marido. Porque você não pode
deixar o garoto já engatinhando e comendo comida de sal? Virei buscar você.

133
Possuo uma edição bem antiga desse folhetim popularesco, sem indicação de editora percebendo-se o
nome do autor apenas pela encadernação, no dorso do livro: C. Leal. Estória de uma moça, paupérrima,
filha de um mendigo de rua do Lavradio que encontra no rico jovem Carlos Augusto o seu príncipe
encantado, comprovando que o casamento, – como a mortalha: “no céu se talham”.

225
Graci acabou acompanhando a tia mas os dois primeiros dias – o da viagem de
lancha pelo Parnaíba abaixo e o da chegada em Miguel Alves – passou-os chorando a
falta da cria. Mas ficou alguns dias com tia Hortência, prosseguindo até o Buriti de
Inácia Vaz, do lado maranhense, levada pelo amigo da família Sr. José (Zuza) Machado.
Seu Zuza e sua mulher D. Carmozina Vilhena, eram bons amigos de Hortência e
Marocas Braga, bem como de D. Júlia. No final de janeiro Graci retornaria do Buriti em
companhia de Maria Angélica, uma das filhas dos Machado que vinha prestar exames
na Escola Normal em Teresina.

A primeira foto do menino CARLOS AUGUSTO (6 meses)

A mãe Graci ficou toda emocionada quando o filho, após um instante de


hesitação, ao ouvir-lhe a voz, lançou-se de braços abertos do colo de D. Júlia para o seu.
Neste ano de 1928 o pai continuaria ausente, sem dar noticias. A mãe prosseguia
em seu interminável rodízio de substituições em escolas primárias da capital a saber:

226
14 de março – Grupo Escolar “Demóstenes Avelino”, substituindo a Profa.
Cecy Artemísia e Silva
2 de julho – Grupo Escolar “José Lopes”, substituindo a Profa. Maria Dina
do Nascimento Soares.
7 de agosto – Grupo Escolar “Demóstenes Avelino”, substituindo a Profa.
Maria Emilia Castello Branco.
Esta série de substituições eventuais já se estava tornando uma rotina o que
prejudicava a carreira de Graci no magistério primário estadual.
A 1º de julho de 1928, inaugurara-se o governo de João de Deus Pires Leal, o
Dr. Jóca Pires como era conhecido. Filho de família maranhense, ele próprio nascido no
Maranhão, mas com propriedades agrícolas por ambos os lados do rio Parnaíba. O seu
governo seria conturbado pelos acontecimentos que levariam à revolução de trinta,
quando acabaria sendo deposto. Um dos caracteres que marcaram a passagem do Dr.
Jóca Pires, bacharel em Direito, foi o prosseguimento na política educacional,
impulsionada por Mathias Olympio. Além de estradas – uma meta continuada –
construíram-se muitos prédios escolares, num programa educacional muito bem
conduzido pelo competente secretário daquela pasta que foi o Dr. Christino Castello
Branco, um ilustre magistrado, jurista e homem de letras do Piauí.
Com a entrada do Dr. Jóca Pires no governo do Estado, parece ter-se criado uma
oportunidade para que o jovem Mundico deixasse de “andar à malta”. O Dr. Jóca e seu
cunhado Pombo, marido de Mariquinha eram amigos e, como fazendeiros da mesma
região, mantinham relações de negócios freqüentes134. Eu próprio tenho lembrança de
ter ouvido meu pai comentar que freqüentou o Palácio de Karnak na época de Jóca Pires
e de fazer comentários (como sempre de safadezas) sobre o assédio que o jovem
governador recebia de uma certa dama, casada, da sociedade...
Assim “empistolado” – segundo o costume nacional – o rapaz pode receber
contratos para prestação de alguns serviços na sua área de mecânica e eletricidade.

134
Dentre os documentos por mim organizados e classificados no acervo de D. Mariquinha Rocha,
encontra-se uma carta do Dr. Jóca Pires, endereçada ao “amigo Pombo”, e datada em São Luis a 29 de
dezembro de 1938. O conteúdo da carta, sobre negócios de seu interesse, deixa supor que Pombo, se
não era “procurador” (lavrado em cartório) devia ser, pelo menos, encarregado dos negócios dele. Além
da menção é necessidade de “execução” de promissória de divida contraída com ele por um certo João
Pinga, bem como de transação de gado. Por exemplo: “Quando julgar oportuno, apure a boiada da
Fortaleza, pois não será demais o que me vier dahí, neste começo de ano próximo e véspera de feira...”

227
Assim a instalação do gerador que produzia a luz e energia elétrica no Livramento deu-
se no decorrer do ano de 1928. Não há dúvida de que foi o Mundico que instalou aquele
serviço no município que, alguns poucos anos, seria batizado com o nome de José de
Freitas. Tratava-se de um comerciante português, chegado ali bem moço e que
construíra um patrimônio como comerciante e chegou a ser um dos pioneiros na
exploração de cera de carnaúba e sua comercialização na Inglaterra. A cera no final dos
anos vinte, já era bem mais importante no município do Livramento que a lavoura e a
pecuária. A instalação da luz elétrica no Livramento, ainda hoje é lembrado pelos mais
velhos, bem como de algumas proezas do Mundico Leão. Neste período deu-se a
amizade dele com os filhos do velho José de Almendra Freitas135 especialmente com
Antônio (Tonho). Vinte anos após Mundico daria aulas particulares de inglês aos filhos
de Tonho Freitas – os jovens Ferdinand e Odilon – na casa da rua da Glória, quando eu
era aluno do Liceu.
Uma confirmação de que a estada de Mundico no Livramento ocorreu em 1928,
o ano seguinte a meu nascimento, é dada pelo fato seguinte.
Lembro-me perfeitamente que Mundico contava como uma de suas proezas que
uma noite, ao preparar-se para ir a um baile na cidade, veio um carteiro, apressado em
entregar-lhe um telegrama urgente. Interessado em não perder o baile, deu uma
gratificação ao mensageiro pedindo-lhe para só lhe entregar a missiva na manhã
seguinte. – “Diga que não me encontrou agora. Só amanhã de manhã”.
No outro dia, após o baile, Mundico abriria o telegrama com a notícia da morte
do seu irmão João Paulo. O falecimento ocorrera a 15 de novembro de 1928.
João Paulo que já era amigo de Graci, dos encontros nas festas e bailes da
cidade, após o casamento dela com Mundico, e sobretudo após o nascimento da criança,
estreitara muito mais os laços da amizade. Gostava da criança a quem sempre ia visitar,

135
José de Almendra Freitas nasceu em Lisboa a 7 de maio de 1856 chegando ao Livramento com 21
anos de idade a 3 de novembro de 1877. Fundou a firma Almendra, Irmão & Cia. em 1893, assumindo-
a diretamente entre 1900 e 1916, passando-a aos filhos: Almendra & Irmãos antecessora de Almendra
& Irmão Ltda. Casou-se em primeiras núpcias com D. Florência de Costa Freitas, do qual houve um
filho (Gentil) falecido. Em segundas núpcias desposou a cunhada D. Anna da Costa Freitas, tendo os
seguintes filhos: Matilde (Tidinha), casada com o Dr. Hugo Napoleão do Rêgo; Pedro, Antonio
(Tonho) José (China) e Maria Victoria (Marinheira) casada com José Cândido de Almendra Gayoso.
Foi um grande impulsionador do comércio de cera de carnaúba no Piauí. No Livramento, sérias
medidas para restringir o corte da palmeira e lutou contra a falsificação da cera. Faleceu a 1º de março
de 1931. O então governador – Joaquim de Lemos Cunha – mudou o nome do município de
Livramento para José de Freitas.

228
lamentando a situação da cunhada, com o marido solto pelo mundo, sem dar-lhe
assistência. Talvez sentisse necessidade de prestar-lhe um certo apoio. Era um rapaz
muito bom. As extravagâncias cometidas em nome da decepção amorosa que tivera
haviam minado sua saúde. Agora, com o apego do pai, procurava reabilitar-se e
esquecer o amor infeliz. Até ficara noivo. A moça era Dolores filha do Coronel Claro
Holanda, da Estrada Nova. Fazia planos para casar-se. Mas definhava a cada dia,
minado que fora por uma insidiosa e galopante tuberculose.
Graci, após o nascimento do filho, e sobretudo após o batizado, passara a receber
atenções do sogro e compadre que reclamava visitas. Assim, já por intermédio de João
Paulo, já por solicitação do sogro ela passou a freqüentar a casa da rua de Santo
Antonio, aproximando-se dos sogros e cunhados. Não era raro que, a prima Anisia
Luiza Bernarda, ou outra mucama da casa viesse buscar o garoto para passar o dia com
os avós. D. Sérgia, já completamente cega, passava a mão sobre as feições do neto
achando-o parecido com o pai ... o seu Mundico, tão desmiolado e irresponsável.
Minha mãe recorda que durante a noite de 14 para 15 de novembro dormira
muito mal, sacudida por sonhos e pesadelos anunciadores da morte do cunhado. Assim
naquele feriado de 15 de novembro, levantara-se cedo e após o café da manhã saiu para
a casa dos sogros visitar o cunhado. Ao aproximar-se da casa, notara, uma certa
agitação, um entra e sai de serviçais e vizinhos denunciando alguma coisa grave. Ainda
teve tempo de, ao lado do sogro e da prima Anisia, assistir o cunhado exalar o último
suspiro. Zeca estava na rua com o primo Julio Leão. D. Sérgia, sentada em sua rede,
junto ao oratório, no seu quarto, rezava. Providenciou-se telegramas para Edith que
estava no Rio de Janeiro, e para o Mundico, no Livramento.
O major Santídio, agora nos seus cinqüenta e um anos, ficou muito abalado com
a perda do filho mais velho, a quem ficara profundamente apegado após o rompimento
com Mundico, cuja ausência não o espantava. Mas reprovaria acerbamente a filha Edith
não ter voltado do Rio para assistir os últimos dias do irmão mais velho. Edith era muito
ligada ao irmão João Paulo (cujo nome daria, mais tarde a seu filho) mas as viagens de
navio eram demoradas. O irmão estava noivo, preparando-se para casar... nada parecia
indicar a gravidade do caso de saúde do irmão. Além do mais, aos 28 anos, ainda
solteira, a moça aproveitava sua temporada na capital, onde passaria ainda a maior parte

229
do ano de 1929, o ano do “crack” da bolsa de Nova Iorque, e no qual se fazia o primeiro
concurso de Miss Brasil.
Anos depois minha tia não se fazia de rogada em fazer longas narrativas de sua
feliz temporada em casa do tio Antonio Martins, em companhia das irmãs e, sobretudo
naquela Ipanema de uma cidade que principiava a ser designada como maravilhosa. E
dessa temporada ficou-lhe-ia também a lembrança de um grande amor... No Forte de
Copacabana, ali perto da rua Gomes Carneiro, estava servindo um jovem oficial gaúcho
de D. Pedrito. Desse namoro minha tia nunca se esqueceria pois tanto eu, como sua
filha Salete, ouvimos sua saudosa narrativa sobre esse amor do passado. Nunca esqueci
que o nome do namorado era bastante inusitado para o Norte. O gaúcho chamava-se
“Antar”.
Minha tia contava os desfiles das misses dos diferentes bairros do Rio e depois, a
chegada daquelas dos Estados. Venceria a gaúcha Yolanda Pereira. Mas a candidata do
Piauí não fizera má figura, obtendo uma boa classificação. Era a Sta. Antonia (Toinha)
de Arêa Leão, que foi bem acolhida pela colônia Piauiense, inclusive sendo
homenageada com um “garden party” na mansão do Senador Joaquim Pires Ferreira,
em Santa Teresa136. Quando aluno da Escola Modelo (1935-37) Toinha era ali
professora adjunta e ainda era de grande beleza, nos moldes clássicos de perfeição de
feições e belo porte. Apesar disso não se casaria. Nos anos quarenta, no Rio de Janeiro,
a reencontrei uma vez. Para lá se transferira como funcionária da fazenda federal.
Encontrei-a em companhia de sua sobrinha Maria de Lourdes filha de sua irmã
Lucrecia, casada com meu primo Acrisio (Monteiro Cantanhede) Lobão, filho de minha
tia avó Honorina, irmã de Santídio Monteiro.
Com a morte de João Paulo, chegou-se ao final de 1928. A situação de Graci era
preocupante, com o marido ausente e sua vida condicionada à licenciamentos de
professoras da capital. O governo continuava a criar várias escolas e grupos escolares
nas cidades do interior, abrindo perspectivas às carreiras das professoras primárias. Até

136
Meu primo Orgmar Monteiro, em sua obra “Teresina Descalça” (2º volume – pp.132-134) cometeu
um lamentável equívoco. No episódio “Deslumbrada” a anedota entre o Sr. Ignácio Costa, comerciante,
e uma senhorita Arêa Leão – que ficaria, realmente, famosa por muitos anos em Teresina – não se deu
com Toinha que, de nenhum modo era pretensiosa, muito menos pernóstica. A anedota era contada
como tendo se dado (nunca se sabe se verdade ou pilhéria) com a moça Iracema de Arêa Leão, filha
mais velha do comerciante Jeremias de Arêa Leão, que estudava em colégio interno no Rio de Janeiro e
voltava nas férias de fim de ano.

230
mesmo as cidades não muito distantes como o Campo Maior e a União – onde havia
parentes de ambos os lados – poderiam oferecer-lhe a ocasião de regularizar sua carreira
profissional. O governo passado havia contemplado aquelas cidades com grupos
escolares, o de Campo Maior batizado com nome do Dr. Valdivino Tito de Oliveira e
aquele da União, com o do Dr. Fenelon Castello Branco, aquele que fora chefe de
Polícia quando do assassinato do Major Gerson. Deu-se vaga neste segundo para o qual
foi nomeada Graci por ato de 25 de fevereiro de 1929. Meses depois seria designada
“diretora” daquele grupo escolar que fora instalado provisoriamente num prédio de uma
das grandes residências da praça central da cidade.
Minha mãe recorda que esta primeira etapa interiorana na União foi, antes de
tudo, uma missão especial pois estava havendo Um desentendimento entre a diretora e
uma das professoras daquele grupo sobre algum assunto pedagógico-administrativo.
Trabalhando na capital, inclusive com atuação na “Escola Modelo”, deu-se a
oportunidade de que ela fosse enviada para lá, aproveitando o treinamento já adquirido.
Resolvida a questão ela voltaria para Teresina.
No decorrer do ano de 1929, durante parte do qual Graci passou na União,
Mundico terminava o serviço de luz no Livramento e procurava outro serviço. Havia
esperança de obter um contrato para a Parnaíba, num serviço semelhante.
E, para isso, contaria, muito provavelmente, com a ajuda do cunhado, o Pombo.
O “Diário da Tarde”, de Teresina, em sua edição de 19 de janeiro de 1929 notícia que,
para preencher uma vaga que se dera no Conselho Municipal de Teresina o Partido
Republicano Piauiense apresentara o Sr. José Belisário da Cunha (o Pombo). A
apresentação do candidato – um fazendeiro no Alto Longá e do comércio leiteiro na
capital – fora assinada por um grupo político situacionista, da maior saliência, a saber:
Marechal Pires Ferreira, Euripedes Aguiar, Antonino Freire, Joaquim Pires Ferreira,
Wladimir do Rêgo Abreu, Chrisipo de Aguiar, Domingos Monteiro, José Pires de
Carvalho e Heitor Castello Branco.
Observe-se aqui o contraste entre a trajetória de vida desse homem – de origem
simples, de pouco estudo, mas extremamente inteligente e habilidoso, de enorme
simpatia pessoal – e aquelas dos filhos de Santídio Monteiro e até mesmo do Major
Santídio. Partindo do apoio que sua competência conquistara junto ao Major Santídio –
nas operações dos serviços de abastecimento de água e luz elétrica na capital – e seu

231
posterior casamento Com D. Mariquinha Rocha – tornara-se um próspero fazendeiro no
Alto Longá e no comércio leiteiro da capital. Enquanto o Major Santídio esbanjara
terras e gados da esposa D. Sérgia, e criara filhos sem a menor disposição para a vida
rural, o Pombo, a partir da “fração” herdada por uma das filhas de D. Sérgia, firmara-se
na vida e agora conquistava uma posição de prestigio na capital.
É muito provável que o prestígio crescente do cunhado junto ao Governador
Jóca Pires, tenha influído no contrato para o serviço de luz elétrica na Parnaíba – então
sob a administração Carlos Morais Picanço, o último “Intendente” em transição para
Samuel Antonio dos Santos, o primeiro “Prefeito” da Parnaíba, depois de implantada a
revolução de 1930.
Não sei bem ao certo e lamento a lacuna de exemplares do Almanaque da
Parnaíba naquele ano para esclarecer a exata situação. Se Teresina teve luz elétrica
desde 1915 é pouco provável que a Parnaíba demorasse tanto tempo para tê-la. É muito
mais provável que se tratasse de uma reformulação do sistema ou substituição do
mesmo, instalação de geradores novos, ampliação do serviço, coisas assim.
Entre o Livramento e a Parnaíba, com Graci indo e vindo da União para
Teresina, Mundico voltou ao assédio. Propunha-se a recompor a vida de casado, até
então ambiguamente interrompida. Com a perspectiva de trabalho na Parnaíba, ele
poderia instalar a família em uma casa e viver independentemente, longe da sogra, sem
o peso do encargo da família da mulher... criando o filho que nem o conhecia, a bem
dizer...
Embora não houvesse brigado, não tinha coragem de enfrentar diretamente D.
Júlia. Passou a recorrer ao prestígio da Dinda – a Sinha Moça, mãe de criação da sogra,
a quem ela dava ouvidos. . . Chegou a obter êxito e até mesmo chegou a hospedar-se por
uma temporada – antes de ir para Parnaíba – na Casa da Dinda. O rapaz era ladino,
insinuamente, e à matriarca da família – onde não havia casais separados, onde a norma
feminina era de passividade e conformação face aos anseios e desmandos dos maridos –
só poderia ver, com os melhores olhos, a recomposição da vida conjugal da sobrinha.
Começou assim, neste final de 1929, a tecer-se uma engenhosa teia de
envolvimento emocional para o reatamento da vida comum. Mas o depoimento de
minha mãe, neste particular é sempre, muito evasivo.

232
Minha mãe se enfurece quando minha tia Gersila, sua irmã caçula, que concluíra
o curso da Escola Normal, conta que D. Júlia – que não queria a reaproximação – a
vigiava e que ela, “namorava escondido” ... o marido!
– Invencionice da sua tia.
– E como você voltou para ele?
Embora não queira “dar o braço a torcer” era de todo natural que ela desejasse
uma vida normal de casada. Com o marido, ao lado do filho. Quem sabe, numa outra
cidade, longe da sogra, Mundico tomasse tento ... Era uma esperança a ser tentada.
Tia Edith, estava de volta do Rio de Janeiro, após uma longa temporada. Já
entrara nos trinta e permanecia solteira. Guardava lembranças de seu romance com o
oficial gaúcho no Rio e estava sendo assediada pelo primo – João Souza. Tendo
enviuvado pela segunda vez, João Sousa andava procurando novo matrimônio. Além de
prima em segundo grau, tia Edith era madrinha do Otto, o único filho varão dos dois
casamentos de seu compadre João.
Desta época de namoro ficou uma estória muito lembrada na casa do meu avô. A
corte que João Souza fazia à Edith era discreta e, como era moda naqueles tempos,
havia “serenatas” à porta da casa de meu avô que ignorava quem fosse o autor e para
quem. Uma noite em que passara dormindo lá, no quarto com tia Edith e prima Anisia,
acordei ouvindo música e comentário das duas moças que seria o João Souza. Na manhã
seguinte, à mesa do café eu faria a famosa delação: Esta noite a vitrolinha do João
Souza estava danada tocando, tocando...
Como o meu conhecimento de produção de música e cantoria prendia-se a
vitrola do meu avô eu imaginava que João Souza havia trazido sua vitrolinha para tocar
em frente de casa. Eu devia ser fascinado pela vitrola – aliás na casa do Major Santídio
havia de vários tipos, desde o gramofone até miniaturas alemãs, onde o disco rodava
sobre uma pequena peça de alumínio, como uma lata de goiabada. Meu avô sempre
estava disposto a satisfazer os meus pedidos para tocar a vitrola – um belo móvel de pés
e janela aberta, tocada a manivela, que ficava na varanda da sala de jantar. Tanto minha
tia Edith quanto prima Anisia, aproveitavam-se do meu prestígio junto ao Major para
me fazer de intermediário para ouvir as músicas de sua predileção.
Embora guardando a lembrança do oficial gaúcho, tão distante, e sem esperança
de casar-se com ele, tia Edith resolveu aceitar a proposta do primo viúvo. O casamento

233
ocorreu em simplicidade, na igreja das Dores, a 10 de dezembro de 1929. Por uma
coincidência era o dia do aniversário de minha tia Gersila. Após o casamento os noivos
em companhia do Major Santídio foram visitar Graci, na casa de D. Júlia, e acabaram
ficando para o almoço, festejando-se, assim, improvisadamente, as bodas junto ao
aniversário.
Voltando ao casal Mundico-Graci o certo é que, nestas férias de 1929, segundo
registra o curriculum vitae, Graci foi removida – a pedido – do Grupo Escolar Fenelon
Castello Branco da União, para o Grupo Escolar José Narciso, na Parnaíba. Mundico
veio buscar mulher e filho, conduzindo-os, de vapor, para a cidade da Parnaíba.
Ali a família instalou-se num dos sobradinhos gêmeos que havia pouco se
haviam erguido na rua Grande – aquela que seria sucessivamente João Pessoa e Getúlio
Vargas – e que ainda hoje (1990) estão de pé, sob os números 736 e 742. O nosso era
este último, o da esquina. Na mesma quadra, próxima à outra esquina, ficava o palacete
do Comerciante Roland Jacob.
O período da Parnaíba deu-se na passagem de 1929 para 1930 e este último ano,
aquele que seria de grande agitação nacional, sacudido pela “Revolução” produzida pela
Aliança Liberal.
Por isso, vejamos a terra e gente do Piauí na virada dos anos loucos (1920) para
a Revolução.

4.2. Tempo Brasileiro e Piauiense em 1929-1930


A passagem das décadas iniciais do século, sob o governo de Jóca Pires (João de
Deus Pires Leal) foi se apresentando mais conturbada que os per lodos anteriores. Se o
governo de João Luis Ferreira, conhecera um sensível aumento no saldo de pagamento
do Estado, o de Mathias Olympio se dera num acentuado contraste – negativo no início
para registrar uma pequena elevação no final. As obras com estradas e com a educação
haviam requerido grande numerário. Após o pique de 1929 a cera de carnaúba
continuava liderando a produção mas numa oscilação prenunciadora de sensível
declínio.
Em 1929 as 2.600 toneladas de cera, rendendo cerca de 8 mil contos de réis,
mantém-se quase a mesma (2,7 toneladas) mas rendendo 11 mil contos em 1930. É de
longe, o principal esteio da economia. O algodão decai em 1929 (1.200 toneladas

234
valendo 2,8 mil contos) onde é o segundo produto para ser substituído, em 1930, pelo
babaçú (7,3 toneladas) no valor de 7 mil contos de réis. Os municípios de Campo Maior
(cera de carnaúba), Picos (algodão) e União (babaçú), são os principais produtores.
A rede estadual do ensino primário era composta de 20 grupos escolares
(incluindo a Escola Modelo da Capital) e 82 escolas isoladas, mobilizando 57
professores para um total de 10.488 alunos A instrução primária completava-se, pela
rede municipal e particular, atendendo mais 4.316 alunos.
O rio Parnaíba contínua declinando nas condições de navegabilidade o que leva
o governo estadual a tentativas de verbas e convênios junto ao Governo Federal para
“restabelecer a regularidade” da navegação a vapor. O porto de Amarração continua
com as obras encalhadas, para desespero da Associação Comercial da Parnaíba que faz
freqüentes apelos ao governo do Estado ante a deficiência crônica de porto de Tutóia,
no deita maranhense137. As obras ferroviárias são sempre sustadas pelo governo federal,
enquanto os esforços estaduais para abrir estradas “carroçáveis” não ultrapassam a
linearidade de 2.733,22 km o que para uma superfície de quase 250 mil km2 é
praticamente irrisório.
A política intra-estadual agita-se em vários municípios, onde se desentendem as
oligarquias locais ora entre elas mesmas, ora com o Governo do Estado. Neste último
aspecto há destaque para o conflito no Livramento onde o grupo do comerciante José de
Freitas sente-se desprestigiado pelo governador Jóca Pires, o que resultou, dentre outras
questões, na renúncia do Intendente Municipal (Sebastião Portella). O governador vê-se
atacado na capital pelo jornal “O Denunciante” do jornalista Dondon Castello Branco.
Esse desentendimento, havido no meado de 1929, agrava-se em outubro do mesmo ano
quando Jóca Pires insiste em incorporar ao patrimônio estadual as Fazendas Nacionais,
ou seja, o antigo legado de Mafrense aos Jesuítas, incorporados a nação. Decadentes e
conduzidas a regime de “arrendamento” a particulares, dizia-se na época que o
agenciador desses arrendamentos no Rio de Janeiro, era o Deputado Hugo Napoleão –
genro de José de Freitas – que receberia comissão de 25 contos de réis. A passagem das
fazendas para o âmbito estadual (ou a perda da comissão) desagradaram o parlamentar
que alegou perseguição pessoal que lhe era movida por Jóca Pires.

137
Chegou-se mesmo a receber – pelo Decreto nº 5.751 de 27.12.1929 - verbas para as obras do Porto,
como outros, um simples papel que não foi obedecido. A verba federal não chegou ao Piauí.

235
Se isto acontecia em relação à pecuária estagnada, imagine-se o que não
ocorreria com a bem sucedida exploração de cera de carnaúba, na porção norte do
território. Em nota publicada no jornal “Estado do Piauhy”, de Teresina, na edição de 11
de outubro de 1929, o deputado Tertuliano Brandão, de Pedro II, queixa-se de que o
Cel. Clemente Pires Ferreira estava tramando o seu “assassinato”. No dia 21 do mesmo
mês, o referido jornal publica carta do Cel. Domingos Mourão Filho onde
responsabiliza os coronéis Clemente Pires, José Pires Ferreira Neto e Lauro Cordeiro
pelas violências cometidas em Pedro II. No último dia daquele mês o referido jornal
publica nota onde são feitas acusações de que o Cel. Clemente Pires, aliado ao
intendente do Campo Maior, Cel. Pergentino Lobão, estariam promovendo “grilagem”
em terras de carnaubais ocupadas por antigos posseiros.
Estes fatos revelam apenas uma amostra de lutas entre coronéis proprietários de
terra que, certamente, não se restringem ao caso do Cel. Clemente Pires no Campo
Maior e municípios vizinhos. Retenha-se aqui o fato da expulsão de antigos posseiros, o
que demonstra claramente que aquilo que era suspeitado para a primeira década do
século XX138 vê-se comprovado agora na passagem da segunda para terceira década,
quando a cera de carnaúba alcança o seu pique. Este é certamente um atraente tema que
merece ser pesquisado com atenção. Parece certo que, a medida que a exploração dos
carnaubais se afigura vantajosa, os proprietários de terra não só as disputam entre si mas
sobretudo expulsam aquelas populações rurais, que procuravam manter-se a base de
pequenas lavouras de subsistência. Talvez isso venha ajudar a compreender porque em
1931 o problema da mendicância em Teresina assume aspecto grave, a ponto de criar-se
em 1932 uma “Caixa Beneficiente dos Mendigos de Teresina”139.
Ao lado destas há outros problemas interioranos, promovidos por proprietários
de terras, alguns deles bem complexos. Talvez possam ser datadas do ano de 1929 o
início das famosas questões ligadas aos Leões, aqueles descendentes do Capitão
Cincinato de Arêa Leão, dizendo (de perto) respeito à crônica de família. Mas estas são
de tal magnitude que seriam merecedores de uma crônica especial. A quem se aventurar
fazê-la, sugeriria apenas que se atinasse para que a fama dos Leões resulta da

138
Hipótese aventada aqui – no Volume “As Armas e às Máquinas” – Cap. “De Tenente a Major Fiscal”,
página 80-81 a propósito da repressão a “banditismo” pelo Major Gerson de Figueiredo, no Norte do
Estado, inclusive em Pedro II.
139
Registro colhido na obra “Memorial da Cidade Verde” de A. Tito Filho, às páginas 25 e 50.

236
superposição de questões de naturezas diversas, das quais, pelo menos três níveis devem
ser distinguidos. De um lado, e inicialmente, trata-se de uma questão “familiar” de
desavença por partilha de terras entre os primos Leão e Araújo, conforme foi atrás
mencionado. Este foi o aspecto pelo qual elas iniciaram a fama e se projetaram através
dos tempos, perpassando por três gerações. Ela afeta a irmandade como um todo, dos
mais velhos aos mais moços. Houve matança de ambos os lados. Do lado dos Leões
perderam a vida – João Leão – o penúltimo dos filhos de Cincinato Leão e Justina
Pereira de Araújo e Jose Dutra, um dos filhos de Zezé Leão e, portanto neto de
Cincinato. Por coincidência os dois foram tidos como dos exemplares mais fisicamente
belos da família.
A este primeiro aspecto junta-se outro, que concerne apenas a um dos membros:
José de Arêa Leão – o famoso Zezé Leão. É um aspecto individual ligado ao caráter
beberrão e desordeiro do personagem, o que afligia os outros irmãos, principalmente
Miguel, o mais velho – e o mais sensato deles.
Uma notícia pinçada do “Diário da Tarde” de Teresina, de 14 de setembro de
1929 menciona que haviam sido “levados ao tribunal pelo Governo do Estado, acusados
de cometer vários crimes os “irmãos Leões” – José e Miguel que, protegidos pelos
desembargadores Vaz da Costa e Thomas de Arêa Leão, foram beneficiados por
“habeas corpos”. Diante destes vários crimes haveria, certamente, ligados a ambos os
aspectos. A associação de Zezé a Miguel, decorre da estreiteza dos laços familiares.
Embora discordando e mesmo reprovando – as vezes acerbamente – dos atos do irmão,
Miguel,na qualidade de chefe da família, jamais deixou de assistir, as vezes homiziar e
defender o irmão mais moço que ele. Depois de alguns casos, quando resolvidos,
Miguel “bania” o irmão e deixava de falar com ele. Até tornar a defendê-lo na próxima
enrascada em que se metesse o irmão. O sentido de clã familiar é muito forte nos
sertões. Quem a eles pertence pode até não justificar mas sempre explica.
As bebedeiras de Zezé levavam-lhe a cometer desordens. Ao ser reprimido – ou
algumas vezes, receber voz de prisão, ou tentativa veraz de prendê-lo por algum tenente
ou sargento da Polícia, Zezé até podia – dependendo da intensidade do porre – ser
preso. Mas depois de solto voltava para vingar-se da “autoridade” que, não raro, via-se
submetido por Zezé e seus capangas ao vexame da aplicação de um “clister de
pimenta”. Cenas comuns que assumiam ares de filmes “western” do cinema americano

237
e que eram comentados, espalhados, aumentados ou adulterados pela voz do povo, nas
estradas, feiras e povoados.
Um terceiro – e talvez não derradeiro – aspecto que, se superpondo aos
anteriores, amplia ainda mais a fama dos Leões. Era o aspecto político, que se
desenvolverá mais tarde, nos anos quarenta e início dos cinqüenta. Como senhores de
terra eles estarão ligados ao PSD em rivalidade e hostilidade com os adversários da
UDN. Mas também aqui o agravante será também Zezé. Julio, oficial da Polícia, casou-
se em Teresina e tornou-se urbanizado. João foi assassinado por meio de uma tocaia
feita por “Araujos”. Miguel foi chefe político pessedista, deputado estadual de prestígio.
Suas disputas políticas não chegaram a violências graves ou a assassinatos. Mas Zezé
não tinha meias medidas. Atingiu o ápice no famoso empastelamento – com morte do
vigia – do jornal da UDN, de apoio do Dr. Euripedes de Aguiar. Deste violentíssimo ato
resultaria sua prisão e subseqüente assassinato (por vingança de outro caso) no cárcere.
Pode-se dizer que os Leões foram tão violentos quanto os Araújo, em suas
“vendettas” de terras. Mas a fama dos Leões extrapolou de muito o horizonte da má
fama, por obra e graça de Zezé.
Sua fama, era tal que repercutia mesmo no seio da própria família, como ilustra
a verídica seguinte anedota. Ao nascer-lhe o primeiro filho varão – Altamiro – Miguel
chamou o irmão José para ser o padrinho. Altamiro casou-se com uma moça
extremamente gentil e delicada: Edna, de Miguel Alves, filha de Raimundo Freitas
Santos e sobrinha do Dr. Clidenor. Um dia bate à sua porta o padrinho. A esposa atende
à porta e comunica ao desconhecido (para ela) que Altamiro não se encontrava em casa
no momento. – “Então diga a ele que o padrinho dele passou para vê-lo. O padrinho e
tio Zezé Leão!”
Embora precedido dos créditos familiares a aura de “bandoleiro” do nome Zezé
Leão foi bem mais forte. E a delicada moça caiu estatelada ao chão, num desmaio...
Seriam preciso muitos volumes e muito talento para fazer a crônica dos irmãos
Leão, do Piauí.
Voltemos às questões e arengas do interior do Piauí a entrada dos anos trinta.
Nas Barras do Marataoan havia também disputas pelo poder. A 4 de dezembro de 1929,
o “Estado do Piauhy” notícia os atritos entre as alianças de Melos e Costas, de um lado,
opondo-se aos poderosos Pires, Motta e Castello Branco, uma tradicional aliança local.

238
A primeira facção era de comerciantes da cidade. Regino Melo (o pai do médico e
futuro interventor Leonidas de Castro Melo) e o Sr. Manoel Costa, o mais velho de uma
grande irmandade, disputavam o prestígio político local com membros de tradicionais
senhores de terra. Percebe-se aqui, neste exemplo Piauiense, o quanto a validade do
esquema teórico do referencial de apoio aqui adotado – as dualidades brasileiras de
Ignácio Rangel – sofre do atraso peculiar a região. A parceria entre senhores de terra
chegados a viver na cidade e os comerciantes locais ainda está numa formação que é
precedida, normalmente, por rivalidade e luta.
Isto serve bem à caracterizar o efeito limitante do desenvolvimento dos fatos
econômicos e sociais na periferia do grande território do Brasil. O Piauí, com seus 250
mil km2 tinha então uma população de cerca de seiscentos mil habitantes, número
correspondente a metade da população da cidade do Rio de Janeiro, em 1920, já
superior a um milhão (1.157.873). Embora o Rio de Janeiro ainda fosse a mais
populosa, o maior índice de crescimento ocorria na capital de São Paulo, consoante a
proliferação das indústrias.
O fragmentário arquipélago colonial que fora o Brasil marchava para
continentalizar-se, mercê da individualização de um “core” econômico estabelecido no
Sudeste, impulsionado pela exportação do café. Mas os mecanismos econômicos são
caprichosos e os teóricos da localização e centralidade tem suas complexas explicações
para explicar os estranhos mecanismos que regem as relações do “centro” com sua
“periferia”.
Em vez da riqueza gerada na região centro espalhar-se como uma prodigiosa
mancha de óleo pelo continente, criando o “bolo” e dividindo-o fraternalmente pelas
regiões periféricas, a estória é muito diferente. Neste aspecto é que se estabelece uma
sintonia entre uma crônica de família e estória (mereceria ser História?) do país, onde,
além da metáfora assentar nas relações entre o “todo” e as “partes” que compõem o
nacional, a estrutura social geradora da prática política também não passa de uma
crônica de famílias, de vez que não houve amadurecimento capaz de fazer o circulo
político transcender para a esfera do coletivo, da sociedade como um todo, deixando-o
amarrado aos estreitos e ambiciosos círculos dos interesses familiares. Aquilo que
Sergio Buarque de Holanda dirá no seu magistral Raízes do Brasil logo mais (1936) não

239
só é o retrato fiel da situação nos anos trinta como – com as naturais e relativas
diferenças de proporções – pode ser identificada ainda hoje nos anos noventa.
A inevitabilidade econômica de que o desenvolvimento dos países se processe
na vigência de desigualdades internas, agrava-se num país imenso e de composição
populacional tão complexa como a do Brasil, onde a empresa colonial apelou para o
escravismo. Assim, em vez de fugir, só poderia espelhar esta regra.
Se a dependência de um pólo externo – o centro econômico hegemônico do
quarto setentrional ocidental do globo – requereu, em nosso caso, a geração de um
centro interno capaz de estruturar “nacionalmente” uma economia organicamente
constituída, o processo de personalização independente não só tem se comprovado
impossível seja em relação a dependência do exterior seja na “homogeneização”
interior.
Assim a “família” como imagem da federação brasileira poderia associar-se à
metáfora da grande locomotiva (o Sudeste) puxando uma composição de vagões,
desigual e acentuadamente diferentes em sua carga (produção dos Estados), sendo
movida por um combustível (lenha para caldeira aspirando a óleo diesel – jamais a
eletricidade) que seria certamente o café. O compromisso da locomotiva com a sua
força motriz vinculava-os intimamente.
A política dos Governadores proposta por Campos Salles no início do século
acabara gerando a liderança da dobradinha café-com-leite (São Paulo e Minas Gerais)
uma fortificação da locomotiva que contrastava violentamente com a situação dos
vagões, em vez de personalizados individualmente nos seus liames com a locomotiva
(Poder Central & Governos Estaduais) se diluíam pelo estabelecimento ocasional de
ligações ou amarras, de diferentes graus de solidez ou confiabilidade, não com os
vagões mas com as suas rodas (Poder Central & Coronelismo ou seja oligarquias
regionais e locais). Assim, embora a fonte do combustível estivesse no “core” sua conta
era paga por todo o conjunto da composição.
O enorme “crack” da Bolsa de Valores de Nova Iorque, foi o acontecimento
símbolo dessa fase (b) depressiva da economia mundial (1921-1948) completadora do
3º ciclo longo. A restrição de importações bem como a super-produção abalaram
profundamente as exportações do nosso café. O Governo Washington Luis aferrara-se a
proteção do café (e dos cafeicultores) bem como a uma política financeira de

240
estatilização monetária. Uma das conseqüências disto foi que sua escolha para sucedê-lo
na Presidência, recaiu sobre Júlio Prestes, o bem sucedido no Governo de São Paulo.
Isto rompia o pacto do café-com-leite, já que o Governador das Minas Gerais, Antonio
Carlos de Andrada estava pronto para receber a faixa pois, no rodízio vigente, chegara a
sua vez.
A quebra deste pacto levou Minas Gerais a aliar-se ao Rio Grande do Sul,
sempre na oposição, sobretudo contra o bilateral rodízio. Assim, os prepostos de
Antonio Carlos (Francisco Campos) e de Borges de Medeiros (João Neves da Fontoura)
iniciaram, em janeiro de 1929, um novo pacto, pelo qual Minas apoiaria um candidato
do Rio Grande ao Palácio do Catete. Como as insatisfações com o regime, seriamente
agravadas no quadriênio Bernardes e continuadas pelo de Washington Luis, grassavam
por vários estados da federação, não foi difícil arregimentar estas forças discordantes
em torno daquela criação que seria a “Aliança Liberal”.
O candidato gaúcho seria um dos pupilos do velho Borges de Medeiros que, por
sua mão, fora indicado como elemento de compensação ao apoio dado por Borges a
Washington e viera a ser um dócil Ministro da Fazenda de Washington Luis a quem até
o último momento, protestaria fidelidade: Getúlio Dornelles Vargas. Nada mais
conveniente à Aliança Liberal do que contrapor ao esquema da dobradinha café-com-
leite, os extremos Sul e Nordeste. Assim João Pessoa – governador da Paraíba – foi o
escolhido para vice-presidente de Getúlio Vargas, governador do Rio Grande, desde
1928. A situação manteria Julio Prestes tendo como vice Vital Soares. Mas esta
definição só ocorreria em julho de 1928 pois interessava a Vargas, ex-Ministro da
Fazenda de Washington Luis, não romper com ele, mas, ao contrário, enganá-lo o mais
tempo possível para receber do governo federal verbas e favores para governar com
sucesso o Rio Grande, realizando obras e tapando a boca dos seus adversários do
Partido Libertador. Enquanto se armava a nacionalização da Aliança Liberal, Vargas
enviava sucessivas cartas de apoio e solidariedade a Washington Luis.
A projeção do Estado do Piauí no Governo Federal naquele momento era de
sintonia de vez que a oligarquia dominante no momento era aquela, já antiga, dos Pires,
que tanto apoiavam a Washington Luis quanto tinham um dos seus membros no
governo do Estado. Pela relação de apoio a José Belizário da Cunha à Câmara
Municipal de Teresina, ficou registrado que os Pires Ferreira estavam aliados aos

241
Aguiar (irmãos Euripedes e Chrisipo) quando, na década anterior estavam em campos
opostos, sobretudo no governo Miguel Rosa (1912-1916). Nesse meio tempo o Dr. João
de Deus Pires Leal, casara com uma irmã dos Aguiar – D. Maria Emilia. As relações e
laços de família explicam melhor a composição dos quadros políticos do que o ideário
cívico. No Brasil – e não apenas no Piauí – os interesses familiares sempre se
superpuseram ao interesse público. Não há nisso nenhuma novidade. É um fato “real”
sempre negado pela retórica fantasiosa do palavrório “político”.
A simpatia e adesão à Aliança Liberal chegaria ao Piauí, logo após sua
oficialização em julho. Assim, em setembro, o jornal “Estado do Piauhy” passava a ser
porta voz das forças oposicionistas ao governo local e federal. Em sua edição de 12 de
setembro (1929) publica um convite pelo qual “O Centro Liberal Getúlio Vargas,
convida a todos os seus elementos para uma reunião amanhã, as 7 horas da noite na
redação desta folha”. Na edição do dia 15 noticiou a realização de um comício aliancista
realizado na Praça João Luis Ferreira, sob repressão da Polícia Militar.
Os aliancistas recrutavam-se entre oposicionistas Piauienses: antigos aliados ao
governo João Luis Ferreira que, malgrado a morte deste, ocorrida no Rio de Janeiro (em
julho de 1927) recebera severas críticas do então governador Jóca Pires. Pelo interior
afora, os grupos oligárquicos locais contrários aos Pires Ferreira, segundo o seu estado
de ânimo em relação ao governo Jóca Pires, desencadearam-se durante as eleições
municipais de novembro de 1928. Havia um quadro que, sem pretender ser esgotante, se
esboçava em alguns municípios, do seguinte modo:
Livramento – O grupo dos Freitas associado, na capital, aos Napoleão do
Rêgo.
Campo Maior – Cel. Francisco Alves Cavalcanti, força emergente movida
pela exploração da cera de carnaúba.
Floriano – Os Marques da Rocha.
Oeiras – Os Nogueira-Tapety e Martins de Sá.
Parnaíba – Algumas figuras do alto comércio como José Narciso.

Aglutinados na capital, as forças conflitantes podem ser configuradas pelo


confronto:
Aliancistas: – Segundo a composição dos delegados do Piauí a convenção
nacional, divulgada pelo “Estado do Piauhy”, edição de 20 de setembro: Deputado

242
Hugo Napoleão, Comandante Humberto de Arêa Leão (Vice-governador do Estado)
Cel. José Narciso Filho e Dr. José Hygino.
Situacionistas: – Segundo o Manifesto de apoio à chapa presidencial Julio
Prestes – Vital Soares publicada pelo “Diário da Tarde” em sua edição de 17 de
outubro. Senadores: Marechal Pires Ferreira e Euripedes de Aguiar; Deputados:
Antonino Freire, Joaquim Pires Ferreira, Pedro Borges da Silva; Senhores: José Pires de
Carvalho, Wladimir do Rêgo Abreu, Chrisipo de Aguiar, Domingos Monteiro e Heitor
Castello Branco.
Mas a conjuntura das forças políticas no Piauí não chegava a ser ferrenha e por
vezes feroz e armada como aquelas de estados nordestinos, como o caso da Paraíba. Ali,
no Estado de João Pessoa, ficaram famosas as lutas que lhe foram movidas por coronéis
sertanejos contrariados em seus interesses por medidas econômicas tomadas pelo
Governo Estadual: os Dantas, de Teixeira e o clã de José Pereira, em Princesa140. É
sabido que a 28 de fevereiro de 1930, as vésperas das eleições de 1º de março, o
Governo da Paraíba enviou tropas policiais para aqueles municípios, para garantir o
pleito, as quais foram recebidas à bala pelas forças locais de cerca de dois mil homens
recrutados pelos coronéis.
No Piauí os sertões não foram abalados com “guerras” como naquele caso,
embora as eleições presidenciais tenham sido agitadas e seguidas de anulações em
vários municípios141. Aquelas eleições, além de presidenciais eram também para o
Senado e a Câmara Federal.
Como se sabe a vitória do pleito foi governista perdendo Vargas para Julio
Prestes, numa diferença de um milhão para o segundo e setecentos e poucos mil para
Vargas. Todas aquelas forças reprimidas no país, aglutinadas na Aliança Liberal não se
conformaram com o resultado. Apontava-se o caráter fraudulento e viciado do voto
nominal onde o governo nunca perdia eleição.
Aparece aqui um fato básico e caracterizador da política brasileira. Embora
sabendo-se disto, de longa data, desde o Império, pode-se dizer, em vez de corrigir o

140
“Eta! pau-pereira, que em Princesa já roncou... Eta! Paraíba, mulé-macho, sim sinhô” no refrão do
famoso baião cantado por Luis Gonzaga, nos anos quarenta.
141
Tiveram suas eleições presidenciais anuladas, os municípios Piauienses de: Barras, Bom Jesus do
Gurgueia, Boa Esperança, Batalha, Gilbués, Jaicós, Patrocínio e Porto Alegre (nomes vigentes naquela
época).

243
“erro” do processo (meio) passa-se a anular o resultado (fim). A “revolução” de 1930
que tinha acumuladas forças para efetivá-la, acaba sendo – a vista da lei – um “golpe”.
Os erros acumulados nos quarenta anos de vigência da República e mais outros
vícios a ela incorporados, vinham recebendo criticas e até mesmo levantes de
insatisfação como fora o “tenentismo” – inaugurado com o episódio dos 18 do Forte de
Copacabana (Epitácio Pessoa) e encerrada com a epopéia da Coluna Prestes (Arthur
Bernardes). Havia, assim, um amplo repertório de desagrados gerando uma causalidade
amplamente suficiente a revolucionar – no sentido de “reversão profunda” – mas, como
sempre, aceitaram-se as “regras” defeituosas para depois desmanchar o jogo, quando o
resultado não satisfez.
A soleira de separação da República Velha para a “Nova”, no costume
brasileiro, foi “sui-generis”, como as precedentes. O príncipe regente proclamou a
independência da metrópole; por pouco o Imperador não concedeu a República,
acionada por uma “quartelada”. Agora a importante mutação para corrigir os defeitos e
negativos da viciada República Velha, rotula-se de “revolução” aquilo que se
evidenciou, antes, como uma rebelião contra a “legalidade”. Daí este conceito, entre
nós, ser tão difuso. E isso se clarifica muito mais pelo que se seguiu a dita revolução. As
mudanças institucionais acabaram desembocando na mais deslavada das ditaduras.
No referencial teórico aqui adotado – as “dualidades brasileiras” – constatamos
que a cada fase descendente (b) na economia mundial impõe-se ajustamentos,
modificações e renovações, enfim “alterações” institucionais, internamente; momentos
tanscisionais de uma “dualidade” a outra. Enquanto àquela fase (b) do segundo ciclo
longo associaram-se os movimentos de Abolição e República, introdutória de nossa
segunda dualidade, na vigência desta fase descendente (b) do segundo ciclo (1921-
1948) ocorrerão aqueles que compõem a complexa série: tenentismo – Revolução de
1930 – Revolução Paulista de 1932 – Ditadura. Isto “ajustará” o pólo interno ao
externo, no qual o poder discricionário instalado nos estados totalitários – comunismo,
fascismo, nazismo – preconizava a geração de estados fortes e centralizados numa
época em que o “liberalismo econômico” se configurava como ultrapassado, e os
processos econômicos passavam a exigir uma forte intervenção estatal na economia.
A “revolução” de 1930 inaugura, entre nós, a era Vargas que – grosso modo –
teria uma vigência de nada menos que um quarto de século se considerarmos que,

244
adicionado ao “curto período de 15 anos” o governo Dutra foi face da mesma moeda
que se continuaria até 1954 com o retorno de Vargas e o “suicídio”.
No âmbito temporal dessa crônica de família (1850-1945) ela (era de Vargas)
compreende a formação básica do cronista que, nascido em 1927 terá toda sua infância (dos
3 aos 10 anos) marcada pelo “prelúdio” (1930-1937) que conduziu à plena ditadura (1937-
1945). Na vigência desta ocorrerá a sua adolescência (11 aos 18 anos). Nesta crônica – que
procurou acompanhar os diferentes ramos convergentes (bisavós, avós) para a composição
“strictu-senso” da unidade familiar (pais e filhos) é um momento capital posto que – a
medida que os diferentes ramos convergentes para este núcleo divergiram enormemente
pelos muitos desdobramentos (ressaltados sobretudo pela prevalescência de grande
proliferação, de 10 a 16 filhos) torna-se inevitável que a “memória” pessoal do cronista
passe a concentrar-se na unidade familiar. Embora sem abandonar os liames mais
significativos e consistentes com os outros ramos, mais próximos da unidade que se tornou
central, as relações de família ver-se-ão mais profundamente afetadas pelo contexto mais
abrangente do ambiente social e político do universo brasileiro e sua projeção mundial.
Talvez o cronista venha a incorrer numa aparente supervalorização do ambiente
sócio-econômico e político. Mas, devemos convir que ele será essencial para a formação
da personalidade do cronista, que deve ser compreendida, no mínimo para que se possa
aquilatar a própria natureza e qualidade da crônica aqui apresentada.
Assim é que o cronista se esforçará, a partir dessa soleira, a retratar com mais
cuidado, o “universo” em que vivera. Entendendo-se por “universo” todo aquele
ambiente ou meio em que estará inserido e que se escalona cm várias esferas desde a
casa paterna ou “o lar” até o “mundo”.
O ano da tomada do poder pela Aliança Liberal, finalizando a República Velha,
será aquele onde, na Parnaíba, no seu terceiro ano de vida, ele principiará a aperceber-se
do que o envolve, de onde proverão os primeiros “lampejos” – isolados, desconexos,
por vezes sem sentido142 – num espaço ainda disjuntivo, por não percebido.
Retomemos, pois, o fio da narrativa para retratar o restante de 1930 com os
acontecimentos que o marcaram sob os variados aspectos, sobretudo na vida de
Teresina – a capital – e na cidade da Parnaíba – a principal do Estado – para onde os
pais irão tentar principiar a vida “em família”.

142
A matéria mesma da exploração psicanalítica, coisa que nunca foi realizada.

245
A Teresina de 1930 no seu 78º ano de existência tem uma população de cerca de
65 mil habitantes, num complexo heterogêneo de casas das quais apenas 763143
possuem instalação elétrica. A arrecadação municipal é de um pouco menos de 150
contos de réis a qual é praticamente equivalente às despesas com pessoal (54) e material
(75). A receita da capital do Estado é praticamente equivalente àquela da Parnaíba, da
qual também não difere muito cm população.
Ao intendente Anfrisio Lobão, sucedera, na sua segunda gestão, o Major
Domingos Monteiro (02.01.1929 a 06.10.1930) que seria – com o Governador Jóca
Pires – atingido pela “revolução”144.
A narrativa dos eventos políticos antecedentes a revolução foi interrompida no
momento da realização das eleições presidenciais de 10 de março (1930).
No momento mesmo das eleições faz sua chegada a Teresina, a caravana da
Aliança Liberal chefiada por Batista Luzardo, um dos seus grandes articuladores. A
caravana segue, acompanhada pelo político local José Auto de Abreu, o colaborador de
Mathias Olympio.
Na capital Piauiense o candidato Julio Prestes recebeu 871 sufrágios contra os
654 de Getúlio Vargas. Para o Congresso Nacional seriam diplomados: Senador
Antonino Freire (659 votos) vencendo Mathias Olympio (618 votos). Deputados: José
Pires de Carvalho (12.359 votos), Hugo Napoleão (10.976 votos), Epaminondas
Castello Branco (10.971 votos) e Heitor Castello Branco (10.878 votos). Como se
percebe o único sucesso da oposição ao situacionismo local foi aquela de Hugo
Napoleão, do clã dos Freitas do Livramento.
Os aliancistas, como por todo o pais, ficaram inconformados. Os situacionistas
no Piauí, foram à forra. O jornal “Estado do Piauhy” foi interditado pela polícia e
proibido de circular pelo período de quase um mês, entre março e abril.
Enquanto a velha raposa dos pampas – Borges de Medeiros – fazia declarações
demonstrando aceitar a derrota da Aliança145 e Getúlio Vargas retomava o seu posto

143
Incluindo-se, naturalmente, os prédios públicos.
144
Convidado a permanecer no cargo, recusou. Havendo recusado também o Dr. Ney Ferraz foi escolhido
o Dr. Raimundo de Arêa Leão (Mundico Leão) irmão do Comandante Humberto de Arêa Leão que
assumira o cargo de Governador (04.10.1930 a 29.01.1931).
145
O jornal “A Noite”, do Rio, em sua edição de 10 de março (uma semana após a eleição) publicava
declaração de Borges segundo a qual ele e Getúlio reconheciam a legitimidade do pleito. O candidato
paraibano à Vice Presidência pela Aliança Liberal declarara “preferir 10 Julio Prestes” a uma única
Revolução.

246
junto ao governo do Estado do Rio Grande, do qual se licenciara. Nos bastidores a
Aliança, inconformada, iniciava as conspirações. Esta foi conduzida pelos “tenentes” no
seio dos quais iria produzir-se a grande ruptura. O “general” deles, o líder inconteste
Luis Carlos Prestes, da Bolívia, havia passado a Buenos Aires, de onde – em maio de
1930 – lançou um manifesto discordando do programa da Aliança e proclamando sua
opção pelo comunismo. Sua concepção da verdadeira “revolução” – pela via do
Marxismo-Leninismo – requeria a tomada do poder a partir dos trabalhadores das
cidades e dos campos com apoio nos soldados e marinheiros. A verdadeira revolução
deveria principiar pela distribuição das terras aos camponeses e o esquecimento da
dívida externa146.
O imenso circuito percorrido pela Coluna vivenciando os problemas das
populações do interior deve ter impressionado vivamente o líder na sua opção –
estudada e refletida – pelo Marxismo-Leninismo. E isto fundamentou a opção
inabalável pela qual lutou toda a sua longa e sofrida existência. Getúlio Vargas gostaria
de tê-lo tido como comandante da “revolução” pretendida pela Aliança Liberal. Mas sua
opção era mais radical e visava uma verdadeira revolução “liberadora”.
Nesse ponto crucial de nossa evolução histórica não há como fugir a reflexão
sobre semelhanças e contrastes entre figuras representativas do nosso caráter político.
Evitando-se preferencialmente os “presidentes” – da República Velha – beneficia-se do
confronto entre as figuras do baiano Ruy Barbosa e do gaúcho Pinheiro Machado,
senadores ambos, e figuras bem expressivas. No movimento de 1930 há que refletir
sobre o contraste entre esses dois filhos do Rio Grande. De um lado a pureza de caráter
e firmeza de convicções, o idealismo conduzido em prejuízo pessoal de Prestes; do
outro a dissimulação, o oportunismo, as viradas súbitas de posição, enfim, todo um
malabarismo que a propaganda do DIP da futura ditadura. E as bajulatorias figurações
cômicas dos teatros de revista do Rio de Janeiro iria forjar a imagem do “grande
estadista” acoplada a do “herói trapaceiro” imbatível, capaz de enganar a todos. Se
Vargas foi o “estadista” Prestes só poderia mesmo ser a própria “inabilidade política”,
capaz, até mesmo, de aliar-se ao outro.

146
De 1930 para 1990 são sessenta anos. A experiência do comunismo europeu desmoronou, a União
Soviética se fragmentou na diversidade composta à base do império colonial dos tempos de Catarina – a
Grande ... E a proposta de Luiz Carlos Prestes, o discurso comunista, entre nós, permanece o mesmo.

247
Naquela época, o operariado nos grandes centros urbanos do Sudeste já podia ser
considerado uma força emergente, segundo o desenvolvimento industrial crescente e as
correspondentes reivindicações e tomada de consciência operária. O Partido Comunista,
fundado desde 1922, era uma das facetas de um movimento variado a cuja evolução não
faltara os incentivos dos imigrantes europeus, como o dos anarquistas italianos em São
Paulo.
No Estado do Piauí, ao outro extremo, à escala de desenvolvimento nacional, a
energia urbano-operária era praticamente insuficiente. O próprio poder e a força das
oligarquias rurais eram limitadas pelo rendimento econômico composto por uma
pecuária estagnada, uma florescente mas incerta exploração extrativa dos recursos
vegetais, num Estado de circulação limitada pela ausência de um porto marítimo, sem
ferrovia is, rodovias apenas principiantes e uma navegação a vapor decadente pelo
impacto negativo da ocupação do solo nas condições fluviais.
A indústria na capital resumia-se praticamente a decadente Fiação, a fábrica de
cigarros Ipiranga147 e, na zona rural, a Usina Santana, de cana-de-açúcar e que, logo
após (1931) vai dar-se à produção de álcool motor148. Assim sendo o panorama operário
ainda era aquele de artífices ou “artistas” organizados em associações mutualistas. Mas
estará as vésperas de uma mudança. Logo mais não só em Teresina, mas, também na
Parnaíba e em Floriano. Ali, com maior destaque, surgirá o movimento reivindicatório a
que não faltarão os ecos do marxismo.
Retomando o fio da revolução de trinta, em marcha, a posição dissidente de
Prestes mobilizaria ainda a visita, que lhe fizeram, em Buenos Aires, os companheiros
Siqueira Campos e João Alberto que, sofrendo um acidente aéreo sobre o rio da Prata,
fronteiro a Montevidéu, custou a morte do primeiro.
A perda de Prestes à causa aliancista o destino reservaria algo de bem rentável:
O cadáver de João Pessoa, assassinado no Recife por um Dantas, por questão mista de

147
Sucessora dos empreendimentos pioneiros de Francisco José dos Santos e Silva e Modestino Soares a
fábrica Ipiranga era uma razoavelmente organizada indústria de manufatura de tabaco, pertencente ao
Sr. José Camilo. Dispensava até certo cuidado social com os operários que tinham um time de futebol.
148
A Usina Santana, era de propriedade do Cel. Gil Martins de uma tradicional família. Era pai do
futebolista Pompom, pessoa muito simpática e querida. No meu tempo ele possuía uma farmácia. O
outro filho era Edgard. Os demais filhos eram as Senhoras Dr. Raimundo Burlamaqui (Auristela), Dr.
Oseas Sampaio (Gilda) e Dr. Walter Alencar (Maria do Amparo). Este último era amigo do meu pai
que – sempre muito irreverente – caçoava dele dizendo: “Tu pensavas em dar o ‘golpe do baú’. No fim
só encontraste o ferro velho da Usina Santana...” Depois de um surto de progresso a usina entrou em
decadência.

248
política local mais divergências pessoais: um caso “de honra” como diria o criminoso.
Se o cadáver do Major Gerson de Figueiredo, no Piauí de 1912, rendeu bons dividendos
à exploração política a que foi mobilizado, imagine-se o que não seria, em 1930, o
rendimento daquele de João Pessoa. Embora filho da Paraíba seu cadáver foi trasladado
para a Capital Federal, onde foi submetido às maiores honrarias preparadas pelos
aliancistas. Chegou a ser proclamado “o cadáver da Pátria”149. Nos meus tempos de
menino ainda viria a ouvir o refrão “João Pessoa! João Pessoa! Bravo filho do sertão!”
No mês seguinte, os rebeldes conspiradores recebiam a adesão de Borges de
Medeiros. A revolução foi marcada para 3 de outubro e, embora com certa falta de
sincronia, estourava pelos diferentes quadrantes do país. No Piauí as articulações
aliancistas mostraram-se eficientes pois que no dia 4 o governador Jóca Pires era
deposto, assumindo o lugar o Vice-Governador (aliancista) Comandante Humberto de
Arêa Leão. Isto antecedera’ mesmo o Maranhão onde o governo local cairia no dia 9,
data em que partia de Porto Alegre o Trem da Vitória.
A composição ferroviária com os chefes revoltosos em marcha para o Rio de
janeiro era precedido pelas tropas aliancistas às quais as forças legalistas – partidas de São
Paulo sob o comando do Cel. Paes de Andrade – pretendiam barrar a passagem, postando-
se no encaixado vale do rio Itararé, em São Paulo, quase na fronteira com o Paraná. Tudo
fazia prenunciar uma grande batalha para o dia 25. Mas a Batalha de Itararé não viria a
acontecer. No dia anterior – após vinte dias de relutância em deixar o Catete –
Washington Luis havia sido deposto por uma “junta militar pacificadora” que, com a
ajuda do Cardeal D. Sebastião Leme, convenceram ao Presidente aceitar a perda do poder.
A Junta Governista fora articulada entre os chefes militares no Rio de Janeiro
que, independentemente da Aliança Liberal, também se articularam. Dentre eles
sobressaiam-se os Generais Tasso Fragoso, João de Deus Mena Barreto e Bertholdo
Klinger. Há quem defenda a tese de que a junta visava um “golpe pacificador” que
evitasse a radicalização do movimento revolucionário e uma guerra civil. Um dos
argumentos a favor dessa hipótese é aquela de que, enquanto corria o Trem dos
Revolucionários a Junta principiou a compor o seu ministério. Chegou mesmo a
escolher o General Leite de Castro para a pasta da Guerra e aqueles da Justiça e

149
Epíteto conferido pelo jornalista Mauricio de Lacerda, exortando o povo a vingar a morte do herói e
conclamando mineiros e gaúchos a cumprir o pacto firmado na Aliança Liberal.

249
Relações Exteriores para Afrânio de Mello Franco. Isto antes mesmo que Washington
Luis tivesse desocupado o Catete.
O movimento de trinta inaugurava, assim, um outro aspecto da política nacional.
Além da incerteza de que quem é eleito toma posse juntava-se o uso de intervenção dos
chefes militares no poder civil. Nas três décadas seguintes eles terão sucessivas
oportunidades até 1964 quando tomam o poder para conservá-lo pelas duas décadas
seguidas.
No dia 29 o trem chega, em triunfo, a São Paulo, com os revoltosos acolhidos
com entusiasmo na capital e no Porto de Santos. No dia 31 chegava ao Rio de Janeiro.
No trajeto trocavam eles telegramas com a Junta, declarando-lhe a impossibilidade de
entregar-lhe o poder. Que os membros da Junta seriam aceitos como “colaboradores”,
jamais como “chefes” do governo.
Getúlio Vargas esperou até o dia 3 de novembro, após um exato mês de
revolução, para receber o poder, o fazendo formalmente das mãos da Junta Pacificadora.
Estava inaugurada a era Vargas.
Em Teresina, o comando revolucionário era constituído por: Comandante
Humberto de Arêa Leão, Desembargador Vaz da Costa, Mathias Olympio de Melo e
Benedito Martins Napoleão.
Embora não incluindo no comando desempenhou papel de destaque o Dr. Leão
Marinho, um dos pioneiros do movimento de esquerda em Teresina.
O comandante do 25º BC Raimundo de Oliveira Pantoja e vários oficiais foram
presos. Bem com o chefe de Polícia Dr. José de Salles Lopes, e outras autoridades da
legalidade. A 22 de novembro foram postos em liberdade, dando-se-lhes oito dias de
prazo para deixar o Estado: o ex-Governador Jóca Pires, o Dr. Elias de Oliveira, Diretor
do “Diário da Tarde”, Sr. Lauro Breves, secretário do Tesouro Nacional no Piauí e o Dr.
Salles Lopes, secretário de Estado da Polícia150.
O final de 1930 em Teresina seria confuso, com substituições nos postos de
governança e espera de confirmações do novo poder central. Enquanto a facção
vitoriosa se aninhava no poder os perdedores eram exilados ou deixavam pesarosos o
ninho.

150
Uma narrativa “revolucionária” intitulada: “O Piauí na Revolução de 30” foi publicada no Diário
Oficial do Estado em seus numeres 268 e 269.

250
Na sua edição de 20 de julho o “Diário Carioca” fazia referencia a política
Piauiense, acusando os Senadores Antonino Freire e Euripedes de Aguiar de traírem a
família Pires após se haverem servido do seu apoio. No dia seguinte falecia o velho
Marechal Pires Ferreira, na idade de 82 anos. Para substituí-lo no Senado, entrou o seu
sobrinho deputado Joaquim de Lima Pires Ferreira. Em verdade, os Pires Ferreira, na
Capital Federal, enfrentaram problemas com o novo governo. A imprensa de Teresina
não ventilava muito os acontecimentos mas um jornal de Floriano – que ascendia no
panorama urbano do Piauí com sensível destaque – intitulado “O Popular”, em sua
edição de 16 de novembro noticiava que a Polícia do Rio de Janeiro havia localizado na
casa do Marechal munições e documentos comprometedores, com possíveis
implicações ao Deputado Joaquim Pires e Jurandyr, o filho deste151. Quem sabe estes
fatos tenham vindo a contribuir para a morte do marechal ocorrida no dia 21?
Mas deixemos agora os eventos políticos e vejamos como decorria a vida em
Teresina nessa agitada transição dos anos vinte para os trinta. A capital, dentro de sua
pequenez, mantinha uma ligação com o mundo. Se ali não chegavam os escândalos
literários como o do aparecimento do “O Amante de Lady Chatterley” de D.H.
Lawrence, algo dos modismos da “crise ressoavam por lá, como as maratonas de dança.
Não atraindo moças e rapazes em penosa disputa aos prêmios em dinheiro, como na
América, mas um reflexo disso. Um certo Edison Martins, que se arrogava ao título de
“campeão mundial de dança”, propondo-se a ultrapassar as cem horas continuas de
dança, balançou o corpo no Teatro 4 de Setembro durante cinco dias152.
O cinema, ainda mudo, continuava a crescer em audiência. Embora houvesse
preferência juvenil e popular masculina pelos senados – os “westerns” americanos –
como “Os Perigos da Selva”, “A Centelha Encarnada”, os mais sofisticados poderiam
apreciar, no Cinema Olympia, produções da UFA, de Berlim, como “A Ultima Valsa”,
“Os Filhos de Ninguém” e outros.
Passavam circos e “troupes” de saltimbancos tais como a “United Artist Troup”
de burletas e variedades e o “Circo Europeu” que se exibiram em junho e julho de 1929
no teatro 4 de Setembro e a “Troupe Moreninha” do Circo Pedro Dias, no mês de

151
O Dr. Joaquim Pires Ferreira, possuía um casal de filhos Jurandyr e Jacy. O primeiro, que é
mencionado nesta nota, continuaria a tradição política da família no Rio de Janeiro. Mais tarde, no
Governo Juscelino Kubitschek, será o diretor do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgão
criado pela Ditadura Vargas.
152
Segundo notícia publicada no “Estado do Piauhy’, nº 260, edição de 17 de novembro de 1929.

251
novembro153. Mas também, aquela casa acolhia artistas em trânsito, músicos exibindo-
se em concertos: o maestro francês Fernand Jouteux acompanhando o barítono Rudolph
Wyss (novembro de 1929), do violinista patrício Mario Rocha, acompanhado pela
musicista local D. Zila Paz. As vezes era o Clube dos Diários que acolhia os artistas
para seus concertos como aquele do cantor lírico João Cavaliere que se apresentou em
arias famosas, de óperas italianas, em junho de 1929.
O final dos vinte seria marcado ainda pela visita do poeta e jornalista Paschoal
Carlos Magno, homenageado pela Academia Piauiense de Letras e realizando
conferencia no salão do Cine Olympia sob o tema “Elogio da Bondade”.154
Além dos jornais da capital, onde se publicava muita poesia – da produção local
– havia lançamentos de revistas (geralmente de duração efêmera) onde a publicação de
poesia era um dos destaques. Na virada das décadas em foco, Teresina lançava “A
Lavadeira”, a qual se juntavam “A Propaganda” da Parnaíba e o jornal “O Rouxinol” de
Floriano. Mas naqueles tempos agitados além da poesia havia lugar para conferências
“cívicas” como aquela de tema “A Preparação Militar da Mocidade” pelo Capitão
Gualberto Cunha.
A população queixava-se da carestia e a cidade se enchia de mendigos,
aglomerados à porta das igrejas e perambulando pelas ruas da cidade.
Na casa da rua da Glória, D. Júlia Figueiredo vivia a preocupação com a partida
da filha mais velha para a Parnaíba, juntando-se ao marido e levando-lhe o neto e, ao
mesmo tempo, festejava a conclusão da Escola Normal pela filha caçula, a Gersila. Esta,
pesar de alegre e divertida era inteligente e estudiosa, nunca tendo s ido reprovada. Era
boa aluna até em matemática. Fizera muitas amizades, mas na Escola Normal firmara
uma trinca inseparável com as colegas Alba Serra e Silva e Ottilia Silva.
De um temperamento muito alegre e extrovertido, bem diferente das outras
irmãs Gersila – dançarina de “charliston” – preocupava mais D. Júlia que a trazia sob
maior vigilância. A vigilância era tanto maior porque o primeiro namorado era o
vizinho, o Antonio – um belo rapazinho moreno, filho do Cel. Antonino Barros e D.

153
Dentre essas peças havia uma burleta que, a partir daí será peça freqüente no repertório dessas
companhias mambembes que atingirão os meus tempos, mais adiante – que era a tal “Rosas de Nossa
Senhora” a qual lamento não haver assistido. Era algo que agradava muito ao público local.
154
Esta seria a primeira visita de Paschoal ao Piauí. Haverá outra mais adiante, ligada a “Cruzada pra
Casa do Estudante Pobre” do Rio de Janeiro.

252
Adilia. Família que ela prezava muito mas ... sendo os dois muito jovens e afoitos não
se podia facilitar.
Agora ao iniciar a carreira de professora primária teria a oportunidade de
começá-la fora da capital. Sua primeira experiência deu-se em Miguel Alves onde ficou
hospedado em casa do comerciante Aderson Soares, casado com a prima Chiquinha,
filha de tia Hortênsia Dias. Logo mais dar-se-ia a oportunidade dela poder transferir-se
ara a melhor cidade do Estado. Gersila iria ficar com a irmã Gracildes e o cunhado
Mundico, principiando a trabalhar na Parnaíba.
A saída de Gersila da Escola Normal coincide com a entrada de Zeneide que
interrompera os estudos por causa de um compromisso de casamento que fracassou.
Será o período de normalista de Zeneide que ficará na minha memória, porquanto
naquele de Gersila eu estava nascendo e era muito pequeno.
Na rua de Santo Antonio o Major Santídio, sofrendo a perda do filho mais velho,
preocupava-se com o caçula o Zeca, entregue a uma atividade amorosa de “atleta”
inclusive enredando-se num rumoroso caso com uma mulher casada, de grande destaque
na sociedade.
A presença de tia Gersila na Parnaíba (1929-30) e o caso do tio Zeca, quando de
nossa volta a Teresina (1930-31) estão ligadas aos primeiros lampejos que retive da
minha remota infância.

4.3. Primeiras imagens na Parnaíba. Descoberta do inundo na União e em Teresina


Devo ter completado os três anos de idade na Parnaíba, onde meus pais se
instalaram num sobradinho da Rua Grande. Minha tia Gersila, teve assim melhor
oportunidade de iniciar sua carreira de professora primária que sua irmã Graci. Depois
da boa estada em Miguel Alves veio, assim, juntar-se a irmã mais velha e lecionar no
Grupo Escolar José Narciso, que embora não sendo o melhor (Miranda Osório, na Rua
Grande) era mais conveniente que principiar numa cidade pequena sem parentes ou
ficar “substituta eventual” em Teresina.
Os lampejos mais remotos de minhas lembranças, sobre a infância mais recuada,
estão ligadas ao período da Parnaíba. Mas, naturalmente, são lampejos isolados,
envolvendo situações curtas, limitadas no tempo e sem nenhuma idéia de espaço que os
ponham em conexão uns com os outros.

253
Os mais antigos ligam-se a uma situação de medo. Um xixi ao pé de um móvel,
onde, no alto havia uma cara olhando para mim. As explicações de minha mãe vêm
ajudar que, embora tenha deixado, muito precocemente, de molhar as fraldas, voltei a
fazê-lo na Parnaíba por temor ao pai, a quem não estava habituado. A “cara” estranha
era um enfeite, de penteadeira, um busto de melindrosa, de cabelos de retroz e olhos
arregalados e realçados por longos duos. Parece que habituado a estar rodeado de
mulheres, a presença masculina me assustava. Minha tia Gersila, confirma que eu só
poderia ter medo da figura paterna, pois o comportamento do Mundico não era nada
daquilo que se convenciona admitir numa atitude paterna. Trabalhando na usina elétrica,
e dispersivo como era, não tinha horas regulares para as refeições. Quando chegava para
o almoço, o filho estava na sesta e para o jantar já dormia profundamente. Em ambos os
casos ele exigia que o garoto fosse acordado e colocado à mesa, a seu lado, fazendo
companhia a ele. Uma típica atitude de uma personalidade que sempre exigiu que os
outros se ajuntassem a ele, centro do mundo. Minha tia conta que uma noite, sentado
sobre almofadas na cadeira, sonolenta, a criança bateu com o queixo sobre a mesa, cheia
de pratos, copos e talheres, ferindo fortemente o lábio inferior. Não ê de admirar que a
figura paterna inspirasse medo, senão terror.
O pai ensinava o filho a chamá-lo “Mundico”, em vez de pai, para “não
envergonhá-lo perante as moças, as muitas namoradas”, dizia ele.
Um gosto de caramelo de café é outra lembrança ... que me vem ao recolhimento
dos primeiros lampejos. Morávamos em frente a casa de D. Quetinha Pires – que hoje ó
o nome de uma das ruas transversais à Rua Grande – e uma de suas filhas dava-me estes
doces que ela própria fazia e que, segundo parece, eu devia gostar muito.
Se as lembranças do interior da casa eram as vezes, penosas, havia outras alegres
e divertidas, ligadas a presença de minha tia Gersila. Uma cena bem fixada era aquela
em que ela e eu, na cama, virávamos “bunda canastra”, ou seja, cambalhotas. Ela me
ensinava e, como recurso didático, fazia para que eu repetisse a proeza. Uma
“professora” de 19 anos virando cambalhotas com o sobrinho era uma demonstração do
espírito lúdico que sempre caracterizou uma tia que, ao lado da timidez ou contenção
das outras irmãs, era um atraente contraste que levava o garoto à fascinação. Havia algo
melhor ainda, após a “performance” circence: um fascinante bauzinho rendado dentro
do qual havia o brilho colorido e variado de bombons de chocolate. Naquele momento

254
minha tia namorava um rapaz muito fino e educado que a brindava com aquelas delicias
que me ficaram na lembrança. Era ele um dos filhos do Cel. Delbão Rodrigues – o João
José, que era gêmeo de José João. Namoro passageiro, mas que me deixou aquela boa
lembrança. Com seu temperamento expansivo tia Gersila teria alguns outros namorados
até decidir-se em outubro do ano seguinte.
Saindo de dentro de casa, os lampejos passam para os jardins da casa de D.
Quetinha Pires onde havia um jaboti que me atraia pelo seu aspecto misterioso, escondido
no seu casco e que tinha a força de poder me transportar quando, apoiado nas mãos de
outras crianças, subia no seu casco. Aquilo foi algo que nunca esqueci. Os companheiros
daqueles folguedos eram Maria José (Zezé) e Alfredinho, netos da anfitriã, filhos do Sr.
Silvio Pires e sua mulher Iazinha que seria a grande amiga de minha mãe em sua
passagem pela Parnaíba. A presença daqueles dois amiguinhos e sua imagem foi
preservada no álbum de família, numa foto onde eu estou entre os dois, no paralama do
automóvel Ford que a prefeitura pusera a disposição do “Mundico da Luz”, como ficara
conhecido na cidade, o meu pai. Naquela época, ele aos 27 anos, interessava-se e
cultivava uma vida social. No carnaval daquele ano da “revolução” juntara-se com a
mulher, num animado cordão de casais jovens da sociedade local. Minha mãe relembra
que ela se sentiu um tanto constrangida pelos elogios que recebeu durante os festejos e
bailes carnavalescos. Aos 25 anos ela devia estar no auge de sua singela beleza.
A primeira idéia de distância espacial veio-me através do apito do trem, cuja
linha não ficava tão distante da rua Grande. Lembro-me que a passagem, e, sobretudo o
apito do trem, me atraiam. O paralelismo dos trilhos – que se juntavam à distância – era
outra descoberta. Mas vinha sempre o temor. Diziam-me que um homem surdo fora
esmagado pelo trem de ferro que, assim, tornou-se em algo perigoso...
Além da rua Grande nada mais ficou registrado. Nem a lembrança de pessoas
grandes. Minha mãe tinha suas colegas do “José Narciso” no bairro dos Tucuns e o
casal fez amizade com algumas famílias: Dentre estas principiou uma duradoura
amizade com o casal Fernando – Lina Pires Leal. Dr. Fernando era um jovem
agronon1o iniciando sua carreira. Era irmão do Governador Jóca Pires e talvez estivesse
na Parnaíba em alguma função ligada a Agricultura. Lina, era uma sua prima, num ramo
da família que havia migrado para o Sudeste. Ela era nascida em São Paulo. Lina seria,
através dos tempos, em Teresina, uma grande amiga de minha mãe.

255
Meu pai trabalhava na Usina, fazia amizades – o jornalista Bem-Bem do
Almanaque, alguns dos Rodrigues foram laços que remanesceram destes tempos, para
serem retomados mais tarde, nos anos quarenta, quando ele voltou a freqüentar a
Parnaíba. E continuava um ritmo de vida de solteiro, fazendo o que bem entendia,
namoriscando as moças, fazendo farras, e o mais. Mas aquela vida de casado que, após
três anos de oscilações, propusera-se a estabilizar-se não duraria muito. Aquele 1930 era
o ano da revolução que agitou o decorrer do ano para estourar em outubro.

CARLOS AUGUSTO na Parnaíba (cerca de 1929)


Foto tomada em companhia de Zezé e Alfredinho Pires, no paralama do automóvel a serviço da
Usina Elétrica da Parnaíba (Prefeitura Municipal).

O que é certo é que ao findar o ano letivo minha mãe tomaria comigo o rumo de
volta à casa materna em Teresina, embarcando a bordo do vapor “Parnaíba”. Houve
sempre uma discussão e incerteza nas causas que teriam determinado esse retorno de
minha mãe a Teresina. Segundo uns, a atitude “de solteiro” de Mundico namorando as
moças e freqüentando as mulheres “profanas” irritara Graci a ponto dela voltar para
casa da mãe. Sua versão é outra. Ela diz que o próprio Mundico aconselhara que ela,
acabado o ano letivo, retornasse a Teresina pois que ele se sentia na iminência de perder
o emprego. Mamãe não lembra a causa mas seria algo de bem provável posto que, com
as mudanças no governo “provisório” revolucionário, tanto no Estado do Piauí quanto

256
na prefeitura municipal da Parnaíba, ele viesse a perder o cargo de administrador da
Usina Elétrica. Tanto mais quanto era sabido que ele fora nomeado pelo deposto Jóca
Pires.
Mamãe subiu o rio, a bordo do vapor “Parnaíba” cuja roda d’água foi outro
lampejo de fascinação sobre mim. Num espaço mais restrito não me ficou imagem das
margens do rio, mas do vapor e da magnífica roda movendo, revolvendo as águas
barrentas em brancas brilhantes espumas. Parece que esta foi minha atração preferida
durante a viagem rio arriba... e um certo sabor de limão. Isto era devido à precaução
sanitária de um viajante alemão que, proclamado aos passageiros as virtudes profiláticas
dos limões, exprimia vários deles nos potes do convés, destinados aos passageiros. Roda
d’água e sabor de limão foram as lembranças desse evento ocorrido no final de 1930.
Teresina, além dos eventos políticos da revolução, tivera a eleição da 2a Miss
Piauí, desta vez Elisa Martins da Silveira, professora normalista, filha do Dr. Manoel
Sotero Vaz da Silveira, da sociedade da capital.
Tia Zeneide, aluna da Escola Normal, fez o discurso de saudação à Miss, aluna
da casa, numa homenagem prestada pelas colegas normalistas.
Graci volta à casa da mãe na Rua da Glória aguardando a atitude do marido. A
volta à Teresina ficaria marcada pelo meu primeiro carnaval. Aos 4 anos, eu e a vizinha
Rosininha Barros fomos ambos fantasiados de “futuristas”: uma roupinha leve, frente
única em cuja pala havia um grande ponto de interrogação. Há uma foto de Rosininha,
toda paramentada para a folia, com sacola de confete, serpentinas e lança perfume á
mão. O mais curioso era a pintura que nos fizeram: rouge, baton e – com recurso de
cortiça queimada – um “grain de beauté”, uma pinta entre o lábio inferior e o queixo.
Lembro-me da paramentação e de que, à nossa chegada à Praça Rio Branco, na esquina
da Botica do Povo, passava o animado corso de automóveis e caminhões enfeitados e
que uma orquestra, colocada num caminhão, todo enfeitado, tocava a música “Taí”155.
Ao chegar ao jardim, logo os futuristas foram atacados com jatos de lança perfume nos

155
“Pra você gostar de mim”, nome original da composição de Joubert de Carvalho, fora um enorme
sucesso de Carmem Miranda, produção fonográfica de 1930, que, embora não sendo produzida para o
carnaval (era música de meio de ano) foi incorporada a folia pela brejarice que Carmem deu à
marchinha. Além do “Taí”, em Teresina, os maiores sucessos em 1931 foram o “Com que roupa?” de
Noel Rosa, e “Se você jurar” de Ismael Silva e parceiros. Além dos dois sambas ficou marcado o
sucesso de Lamartine Babo “Uma andorinha não faz verão”. A esta altura a produção carnavalesca do
Rio de Janeiro, dominava a maioria do território brasileiro.

257
olhos e começou a tortura para o “folião” que, com os seus enormes olhos azuis, era
atração especial para os atacantes, armados daquela etílica, perfumada – mas sobretudo
ardida – munição.
Mundico, após uma temporada rompido com o pai e freqüentando a casa da rua
de Santo Antônio na ausência deste, de volta da Parnaíba, tendo falecido o irmão mais
velho, volta à casa paterna para reconquistar a amizade do pai. Arma um rumoroso
capítulo de uma novela para eximir-se da culpa de deixar mulher e filho. Diz ao pai que
a mulher era demais ciumenta e que na Parnaíba, o abandonara, trazendo o filho, após
armar um escândalo num baile no clube local onde o tirara dos braços de uma jovem
muito conhecida na sociedade local. Abandonado pela esposa, perdido o emprego,
apresentava-se o filho pródigo, à sujeição paterna.
A esta altura o Major Santídio afeiçoara-se ao neto e desenvolvera amizade pela
nora. Mandava buscar freqüentemente o neto para sua casa, passar dias, para contento
da avó Sérgia, cega, mas que tateava o rosto da criança procurando advinhar-lhe as
feições. Queria que o neto a chamasse de Mãe Sérgia. Um dia o garoto insistia várias
vezes em repetir-lhe o tratamento de vovó-vovó! Até que D. Sérgia ouviu espoucar a
gargalhada do filho Mundico que fazia o garoto repetir sempre “vovó”, quando esta
corrigia para “Mãe Sérgia”:
– Bem devia ter desconfiado que era este sem vergonha!
– Velha vaidosa! Não quer ser avó!
O menino brincava pela casa, entre os afagos dos tios e primos, aprendendo a
afeiçoar-se à Tia Edith a quem chamava “titiínha”, e das negras da casa tendo à frente a
dindinha Luiza. Mais a Mônica e a Clemência.
Tanto o Major quanto Edith e Zeca, visitavam a rua da Glória, procurando a nora
e cunhada. Numa dessas visitas o Major Santídio teve ocasião de presenciar uma cena
esclarecedora. Entra pela casa uma bela moça da Paranaíba, em visita a Teresina e que
viera procurar por Graci. Após efusivas manifestações mútuas de carinho e apreço a
moça pede para ver o Carlinhos, de quem dizia querer muito bem e sentir saudades.
Apresentada ao Major este reconheceu no seu nome a moça que havia sido o “pivot” da
separação e do “escândalo”. Quando a moça, após algum tempo de prosa, despediu-se e
retirou-se ele narrou o fato a minha mãe.

258
– Aquele rapaz não tem jeito. Mentiu para mim contando essa estória toda. E
agora eu vejo que não houve cena de ciúme, nem escândalo, pois testemunhei a amizade
que a moça tem por você, comadre.
Talvez tenha sido em 1931 que D. Sérgia veio a falecer. Além da cegueira vinha
definhando a olhos vistos. Recolhera-se a uma rede no seu quarto, febril e muito fraca.
O médico que a assistia atestou-lhe o óbito por tuberculose. Mas ao ser preparada no
banho, e colocação da mortalha, as mulheres da casa que procediam a àquele ritual
deram-se conta, com horror, de que ela estava consumida por hemorróidas terrivelmente
desenvolvidas e talvez gangrenadas. Talvez tenha morrido por uma septicemia. O
médico, notando-a febril e magra, com sinais do sangue no urinol imaginou – ajudada
pelo ainda recente (1928) morte de João Paulo – que ela sofresse do mesmo mal. Mais
uma vez D. Sérgia demonstrara o seu gênio forte e temperamento especial. Ela deixou
ao médico adivinhar o seu mal, sem jamais o ter exibido de moto próprio... Assim como
quanto a traição do marido e da própria cegueira ela continuou o seu jogo de não aceitar
a realidade adversa.

Minha mãe lembra que, durante o velório, Mundico – que fora chamado –
sentou-se ao lado dela e de tia Edith. Esta afastou-se para o interior e, percebendo o
constrangimento da cunhada, mandou chamá-la, sob algum pretexto. O casamento
estava interrompido e o seria por alguns anos, até 1936.
Do funeral de minha avó ficou-me a lembrança da saída do enterro, com minha
tia Edith chorando, agarrada à porta de entrada da casa. Naquela época a família – e
especialmente as mulheres – não acompanhavam os enterros, ficando em casa.
Além disso, lembro-me da missa de sétimo dia, na Igreja das Dores. Naquela
época, para a missa dos mortos usava-se colocar uma eça, com uma uma funerária no
meio da nave e, num certo momento da missa, os parentes, amigos e presentes,
aspergiam água benta sobre o esquife negro, o que tornava a cerimônia especialmente
lúgubre. Lembro-me que até eu, aos 4 anos, fui vestido de luto e conduzido também ao
ritual da água benta. Não ficou uma percepção da morte o que só se daria algum tempo
mais tarde na União mas uma profunda impressão causada pelo aspecto macabro das
pompas fúnebres.

259
Em 1931 Graci voltara à substituição de professoras, tendo a oportunidade de
trabalhar aquele ano no Grupo Escolar Mathias Olympio, no subúrbio do “Por
Enquanto”, à beira do rio Poti, na salda de Teresina para a União. Gersila, após a vinda
da irmã, ficara hospedada em casa da professora D. Raquel Magalhães na companhia da
qual demorou pouco pois que se mudara para residir na Parnaíba, sua madrinha
Doninha – filha dos tios Celé e Abílio – pois o marido, Zezico Boavista, instalara-se
naquela cidade. Depois de alguns namoros minha tia decidiu aceitar a proposta do Sr.
João Rêgo, funcionário da Casa Inglesa.
Aquele moço veio a Teresina fazer o pedido de casamento e deixou também
marcada na minha lembrança a cena de sua chegada, cerimoniosa e solene, recebido por
minha avó e filhas na sala de visitas, sentando-se na cadeira de balanço do lado interior.
Entre o ritual do doce, licor e café eu fui chamado à sala e recebi aquele que seria o
melhor brinquedo que receberia de presente: um belo paquete de mar, navio de
passageiros, “de verdade” pois que possuía hélice, tombadilho, chaminés e tudo o mais.
E, dada a corda, deslizava lindamente nas águas do tanque. Era um finíssimo brinquedo
inglês, fácil de adquirir-se, naqueles tempos, na Parnaíba. Lembro-me da figura do tio,
moço magro, todo de terno branco, chapéu de palhinha à mão.
João Teixeira Rêgo pertencia à família dos Moraes Rêgo de Oeiras, a velha
capital, com membros tão presentes nos eventos políticos dos tempos do Visconde da
Parnaíba. Seu pai, Abel de Moraes Rêgo era filho de uma abastado fazendeiro de
Oeiras. Casou-se com Affonsina Avelino do Rêgo que teve 21 partos, inclusive um par
de gêmeos o que aumentaria o total de filhos natos para 22. Nem todos criaram-se,
ficando aproximadamente a metade. João era o 21º filho, encerrando a vastíssima
produção. Mas Abel era dado ao jogo e perdeu o seu quinhão de fazendas e gado nas
mesas de baralho. Transferiu-se com a família para a cidade da Parnaíba, tornando-se
funcionário público. Com irmandade tão grande o menino caçula João viveu a infância
em Oeiras praticamente aos cuidados da irmã Rosa que desposou um fazendeiro por
nome Apolônio. Outra irmã, de nome Raimunda foi mulher de um dos ricos Ferraz,
fazendeiro e comerciante de Oeiras, proprietário de um belo sobrado com mirante, na
praça principal da cidade.

260
Na Parnaíba, João fez-se rapaz e tornou-se contador, “guarda-livros “ como se
dizia, na firma James Frederick Clark, ou seja, na tradicional Casa Inglesa. Na casa de
Zezito e Doninha realizou-se o casamento de Gersila e João a 31 de outubro de 1931.

Tio GERSON, adolescente


Gerson Edison de Figueiredo (filho), numa foto tomada em 1928, aos seus 15 anos.

O início dos anos trinta em Teresina foi marcado também pela grande
popularidade e crescimento do futebol. Após a “onda” inicial, de 1919, agora surgiam
vários clubes, a maioria deles repetindo os nomes daqueles do Rio de Janeiro. Em geral
era uma paixão das classes mais populares, presididas por alguém da classe operária ou
classe média, tendo por patrono algum personagem da classe mais elevada. Em 1931,
criaram-se o “Artístico” – presidido pelo farmacêutico Arthur Oliveira; o “Botafogo” –
com José Vieira da Silva como um dos fundadores; o “Flamengo” presidido pelo
operário Narciso Correia Lima. Estas duas últimas réplicas de times cariocas

261
conquistaram torcidas. O Flamengo seria protegido pelo Dr. Raimundo de Arêa Leão
(Mundico Arêa). O Botafogo teria o apaixonado apoio do Tte. José de Brito Freire, uma
pernambucano que se radicara no Piauí, onde se notabilizara na época dos “revoltosos”
nas forças legalistas. Casar-se-ia com uma moça dos Picos, filha do abastado fazendeiro
e chefe político local – Cel. Chico Santos. Esteve durante muitos anos, à frente da 26ª
Circunscrição do Recrutamento em Teresina.
A paixão pelo Botafogo aproximou o jovem Gerson Edison de Figueiredo Filho,
agora um adolescente de 18 anos, do Tenente Britto Freire que já conquistara a amizade
de D. Júlia Figueiredo. Pelos tempos afora haverá uma grande amizade entre eles.
Observando o traje usado na foto com os amiguinhos Pires, na Parnaíba vejo que
é o mesmo que aparece em outra foto, tomada em Teresina entre as minhas tias Dulce e
Zeneide. Estes fatos ajudam a avivar as lembranças sobre aquele tempo era o momento
em que os lampejos esparsos da Parnaíba vêm ser sucedidos por aqueles vividos em
Teresina. Antes de entrar para a escola, a vida corria em casa dos avós. Morando com a
avó materna e passando dias em casa do avô paterno. Minha avó Júlia dominava o
ambiente e eu era o centro dos seus cuidados. Minha mãe trabalhava como professora e,
separada do marido, tinha pouca vida social. Esta era feita por minhas tias. Zeneide,
aluna da Escola Normal, tinha muitas amigas. As mais íntimas eram as colegas Luzia
Couto e Maria Dalva Castelo Branco. Esta última, filha do Cel. Hugo Santana, que
morava no interior (Campo Maior?) vivia com a irmã casada em Teresina com um
médico paraense, da família Barata: D. Ondina.
Maria Dalva, mais tarde viria a casar-se com o Dr. Antônio Franco, médico
cardiologista, filho do Cel. Elizeu Franco e D. Zulmira, moradores a rua da Glória. Uma
das filhas deste casal – Heloisa Franco – seria outra grande amiga de minha tia Zeneide.
D. Zulmira era irmã de D. Angélica, viúva do Cel. Pedro Moura, aquele grande amigo
do Capitão Ludgero Gonçalves Dias, meu bisavô. Por analogia, na casa de minha avó
chamavam as duas senhoras de tia Angélica e tia Zulmira. A primeira tinha uma filha
Marieta, funcionária dos Correios e Telégrafos. Os Franco além de Antônio e Heloisa
tinham também Maria de Lourdes, José, Raimundo e Francisco das Chagas, o caçula.
Este formar-se-ia em odontologia no Rio de Janeiro, onde casou-se. Passaria uma
temporada clinicando em Teresina, com a família nos anos quarenta. Dr. Chagas e D.

262
Kerman Franco eram os pais do Governador Moreira Franco, do Estado do Rio de
Janeiro.

CARLOS AUGUSTO
Entre as tias Zeneide e Dulce Figueiredo, após a volta da Parnaíba (1930) entre 3 e 4 anos de idade.

Minha tia Dulce, costurava em casa. Viajava em férias com tia Hortência Dias
para Miguel Alves e de lá para e Buriti de Ignácia Vaz, fazendo amizades. Uma destas
foi com a família Alves da Silva que viria radicar-se em Teresina, por aquela época –
final dos vinte. Em 1931 fundava-se a Faculdade de Direito do Piauí, instalando-se num
grande prédio público da Praça Rio Branco, onde funcionaram muitas repartições
públicas, desde a fundação da cidade. José Alves da Silva foi aluno e futuramente seria
Secretário daquela Faculdade, e fiscal-federal do Ministério da Educação e Saúde.

263
José Alves era casado com D. Laura Farias, tetraneta da legendária Ignácia Vaz,
do Buriti maranhense. Antigos inquilinos passaram a compra da primeira casa de D.
Júlia Figueiredo na rua da Glória. Os Alves da Silva seriam grandes amigos da família
através de todos esses tempos. O casal tinha os filhos: Raimundo (o Dico), Maria
Celeste e Alair. Mais tarde nasceram José e Maria de Lourdes. Celeste e Alairzinha
foram meninas da rua Glória, que, por, estreitas relações de amizade, entram com
destaque nas lembranças desta crônica.
Na rua de Santo Antônio o universo da criança de quatro anos que eu era,
resume-se a casa do meu avô Santídio e vizinhança. Ali eu era também privilegiado pela
condição de primeiro neto e, durante algum tempo, o único.
Talvez um pouco antes daquele episódio da “vitrolinha do João Souza”,
certamente antes de ir para a Parnaíba houve o episódio da “Ramona”. Esteve muito em
voga a música “Ramona” a qual – não sei por que razão – se atribuía, a fama de trazer
“má sorte” ou “dar azar”.
Meu avô, surpreendia-se pelos freqüentes pedidos que eu vinha fazendo: Vovô,
Ramona! Toca Ramona, vovô!
– Como este menino gosta dessa música! admirava-se o Major dirigindo-se aos
outros da casa. Disso bem sabia a prima Anisia, de conluio com minha tia Edith. Anisia
nutria uma indisfarçável e aguda paixão pelo meu tio Zeca, o bonitão de 25 anos que
fazia enorme sucesso com a moçada. Acontece que Zeca estava vivendo um perigoso
caso com uma dama casada, da alta sociedade. Esta senhora tinha uma prima do seu
marido que servia de alcoviteira. Era uma solteirona moradora da rua do Barrocão que,
em sua ida para casa, passava pela esquina da rua de Santo Antonio. Apesar de solteira
– ou porque já solteirona, sem esperança de casamento – tinha também os seus casos.
Dizia-se até mesmo que era um dos muitos casos extra ou avulsos do Major Santídio.
Quando a dita vinha da casa do primo, na rua Grande, para sua casa no Barrocão,
passava sempre na casa de meu avô, ora falando com este mas, principalmente, com tio
Zeca a quem entregava os bilhetes da “casada infiel” marcando os encontros. Assim,
quando Anisia, que estava sempre a espreita, via aproximar-se a “entremeteuse” dizia ao
garotinho: – Pede ao vovô para tocar a Ramona! – A alcoviteira, ao fim de pouco
tempo, deu-se conta de que aquilo era um código, uma contra mensagem especialmente
dirigida a ela, mensageira e promotora daquele amor clandestino.

264
Quando o marido se ausentava, para as fazendas ou em atividades políticas a
ilustre dama expedia a mensageira solicitando os serviços de Zeca.
O “affaire” preocupava o Major e as pessoas de casa. O marido era pessoa da
maior projeção, seria eleito deputado federal... pessoa da “nobreza” local. O rapaz podia
levar um tiro qualquer noite... onde já se viu! Mas a mulher era afoita e reclamava cada
vez mais o jovem amante.
O seu ilustre marido a desposara com tal diferença de idade que a dama era mais
moça que os enteados mais velhos. Era uma portuguesa de rara beleza. O viúvo a
trouxera de Belém do Pará, filha de um comerciante falido a quem o genro arranjou
emprego em Teresina para toda a família. Diante de tal diferença de idades não tardou
que a dama começasse a enfeitar a testa do respeitável cavalheiro. Seu primeiro caso
notório foi com o marido de uma das enteadas. Provavelmente o jovem Zeca – livre e
desembaraçado – foi o sucessor daquele.
As entradas furtivas na casa – um magnífico palacete com imponentes colunas à
varanda de entrada – as noites passadas num cômodo do alto porão habitável, eram
acompanhadas (e reveladas) pelos vizinhos bisbilhoteiros. Quando Zeca chegava de
manhã em casa do pai, de olheiras... Anisia ficava aniquilada. O pai indagava. – Onde
você dormiu rapaz? – Não se preocupe, Major. Dormi em casa de telhas, ao abrigo da
chuva, bem seguro. Quando o rapaz saía Anisia e Edith corriam para o “quarto dos
rapazes” bisbilhotar os bolsos de Zeca. Não raro encontravam peças íntimas, fetiches e
lembranças... jarreteiras, “soutien”, calcinhas rendadas e perfumadas.
O resultado desses amores clandestinos foi o nascimento do terceiro – e último –
filho da ilustre dama, que saiu “a casa do pai”. Bem mais tarde quando já estava no Rio
eu enfrentaria o problema de ter um “sósia” em Teresina, com o qual era
frequentemente confundido. A propósito deste “affaire” do tio Zeca, cabe aqui uma
digressão.
Dizem que o diabo depois de velho fez-se ermitão. A ilustre dama em questão,
fez-se escritora e resolveu rememorar as “fases de sua vida” onde, dentre outros
objetivos, encontra-se o deliberado propósito de “limpar” o seu passado. Os dois casos
mais notórios de sua estória de alcova estão ali bem nitidamente focalizado através da
“explicação” (um tanto tardia e inócua) de álibis forjados. Apresenta-se como indefesa
vítima da maledicência da gente perversa de uma cidade atrasada.

265
Para o caso do marido da enteada ela arquiteta um comovente álibi. Malgrado
não dar muita importância a cronologia dos fatos, ela localiza o “affaire” em 1922, por
ela apontado como o maior choque a ser sofrido por um ser humano: a calúnia. Uma
filha de Maria, foi contar à sua sogra, uma senhora muito carola, que havia visto a
dama, em companhia do marido da enteada, entrar na casa vazia onde haviam residido
os pais da referida dama; “entraram as 7 e saíram às 10 da noite”. A ilustre dama explica
que, inconsolável com a perda da mãe, ia ali, à casa onde falecera sua mãe, postar-se no
seu quarto, orando por ela. Nessa piedosa penitência o admirável amigo que era o
marido da enteada, a acompanhava gentilmente...
O cavalheiro em questão, segundo pessoas que o conheceram, era um belo tipo
de homem, em cujo sangue e feições afloravam traços de beleza máscula dos árabes,
herdado pelo lado materno. O referido senhor foi um dos colaboradores do Governo
Jóca Pires, dirigindo o “Diário da Tarde” e foi um daqueles a quem os revolucionários
prenderam (em 12.11.1930) dando o prazo de oito dias para deixar o Estado.
O caso com o Zeca Leão não é mencionado diretamente. Sabedora de que o
Mundico, irmão do seu amante, era um personagem muito conhecido pelas suas proezas
ela resolveu, em seu livro de memórias, apresentar-se como vítima de uma extorsão de
dinheiro pelo famoso Mundico Santídio. E a este episódio dedica todo um capítulo de
sua obra narrando as fases de seu passado. Declara ela que, estando uma tarde podando
as roseiras do seu jardim, recebeu um bilhete trazido por um moleque de rua, de parte de
“Seu Mundico Santídio”. Embora a autora nunca se preocupe em datar os eventos de
sua narrativa é fácil localizá-lo no Governo Landri Salles Gonçalves (25.05.1931 a
03.05.1935), provavelmente no início – pois que ela evoca o Dr. Leônidas de Castro
Mello como Secretário de Estado.
O bilhete de extorsão, que a autora entregará a autoridade competente e que não
mais retornará as suas mãos é “transcrito” naquele livro nos seguintes termos:

“ ‘D. Fulana156. Desculpe, mas estou numa quebradeira infernal, preciso de


duzentos mil réis, urgente, e é a senhora, riquíssima, que tem de me tirar
dessa apertura. Vá deixar o dinheiro na minha mão, na esquina da Botica do
Povo, farmácia da Lili Lopes. Se não me atender, já me conhece, eu arrasarei

156
Deliberadamente omito aqui o nome da senhora em questão por uma consideração à família e
sobretudo a seus descendentes, filhos e netos. Não me move nenhum desejo de denegrir-lhe a imagem
que ela tanto se esforçou para “limpar”. Não sou moralista. O episódio é aqui tomado apenas como
meio de retratar o ambiente social e a crônica familiar.

266
seu nome, desmoralizando-a na cidade. Creia, só faço isso porque meu
dinheiro deu o prego. Mundico.’
Assinar um bilhete daqueles era prova de ousadia destemida, homem capaz
de tudo. Logo entrei, parecia-me agora que estava louca, trêmula, fria,
desesperada. E considerava:
– Ainda se eu tivesse essa importância lhe enviaria mas não tenho. Não
tenho de maneira nenhuma meu Deus, que faço? Não devo contar ao ...., esse
bandido deve ser perigoso e .... iria tomar-lhe satisfações. Não meterei o
homem a quem prezo tanto nesta sujeira.
Corri para o quadro de N.S. do Perpétuo Socorro.”

Ocorreu à dama aflita apelar para a amizade do Dr. Leônidas Mello levando-lhe
a carta. O Secretário de Estado a tranqüiliza:

“– Pode ir tranqüila, ele não terá essa coragem depois que eu lhe disser que
está cometendo um crime de extorsão, capaz de cadeia...
– Bem, vou levar a carta, é um documento que tem de ficar comigo, ele,
assina-a, não acha?
– Claro, ela deve ficar com você e lhe digo nem sei como ele caiu nessa de
assinar a carta, deve tê-lo feito por hábito. Mas agora preciso da carta, tenho
de usá-la junto a ele, para defendê-la. Depois lhe devolverei com certeza.
Nem me devolveu a carta nem tomou nenhuma medida contra o sujeito, que
abriu a boca a falar de mim para um lado e outro. Igual a um demônio, sem
receio de castigo, de nada, vingava-se de não lhe ter levado a importância
que me queria extorquir. Fiquei sentida, Leônidas notou-me o retraimento,
fez tudo para me tornar de novo a amiga que nele confiava. Nunca mais o
tratei com carinho, amizade que vinha de muito longe. Já depois de sua
morte contei por alto a Dacarmo, sua viúva, o caso, para ver se acharia no
arquivo dele, que guardava tudo, a tal carta mas não a encontrou. Deve tê-la
rasgado ou perdido. Mundico, já que ninguém faz o mal sem resposta sofreu
horrores, aleijou-se, separou-se da esposa, moça boa a aturá-lo com
paciência, desfeiteou-a com péssimo procedimento.”

Estava forjado o segundo álibi, imaginou a ardilosa dama. Mas porque será que
o Dr. Leônidas, tão amigo e poderoso, não tomou nenhuma providencia, quando havia
uma prova irrefutável e concreta, firmada pelo próprio chantagista? – É sabido que o
recurso da chantagem liga-se basicamente, a revelação de um “segredo”. No caso em
tela não havia segredo nenhum, pois havia o terceiro filho da dama, estampando o
retrato do Zeca Leão. O Secretário foi atencioso mas não se daria ao desfrute de cair no
ridículo. Toda a cidade sabia do caso.
Não satisfeita com a falta de providência a dama relata que recorreu,
desesperada, ao sogro e que este fizera vir, de uma de suas fazendas, uns capangas que
aplicaram uma tremenda surra no Mundico, que nunca mais falaria mal dela. O que é

267
uma injustiça para o seu sogro, um homem rico e poderoso, mas que fazia jus ao título
de fidalguia que, portava. O sogro, estava no final de sua longa vida, pois, nascido em
1848 viria a falecer em março de 1935. Aliás, numa cidade onde se sabia de tudo,
ninguém soube dessa tremenda surra aplicada no Mundico. Foi um reforço ficcional da
autora.
Não pretendo aqui isentar o meu pai de culpa no caso. Com o repertório de
“artes” de que foi capaz de fazer, um caso a mais ou a menos não mudaria o caráter do
personagem. Mas recorrer a uma “chantagem”, neste caso, seria uma demonstração de
burrice, e burrice foi coisa que nunca o afetou. A difamação que ele praticava era
comentar o que a cidade sabia. Era algo nos seguintes moldes, tomando como exemplo
um episódio ocorrido nos anos cinqüenta quando, já de volta da Europa, eu estava
instalado no Rio de Janeiro e vinha, algumas vezes, de férias a Teresina. No Café
Avenida, na praça Rio Branco, um amigo perguntava ao Mundico.
– “Eu vi o Carlos, passou por mim ontem mas não falou comigo. Está
importante, não conhece mais a gente.
– Não é o Carlos, ele está no Rio. Você viu um sobrinho meu, que meu irmão
Zeca fez na mulher do Dr. Fulano de Tal. É a cara dele e todo mundo confunde com o
meu filho”.
A difamação era esta. Certamente não era um procedimento de “cavalheiro”.
Mas Mundico jamais foi um cavalheiro, tanto quanto a ilustre “dama” não merecia este
qualificativo.
Eu, quando moço, era muito parecido com meu tio Zeca. A cor dos olhos, a
estatura, a calvice precoce... Vários parentes falavam-me da semelhança entre nós – eu e
o engenheiro, que nunca cheguei a ver.
E é comovedor como a ilustre dama, no seu livro, preocupou-se em acentuar os
pormenores da gestação, nascimento e enorme semelhança física daquele último filho
com o seu marido. Preocupação que, em nenhum momento, a afligiu em relação ao seu
outro filho homem. Esta senhora, além dessas memórias tem publicado seis livros de
caráter romanesco, pelos quais mereceu palmas acadêmicas. Na introdução daquelas
“memórias” ela declarou: “Encerrei minha atividade no gênio ficção...” Mas para quem
vivenciou a mesma época, na cidade de Teresina, onde ela teve a “infelicidade” de
viver, saberá que não é bem assim.

268
“Infeliz da criatura que cai nas malhas de uma cidade atrasada, gente
desocupada e maldosa, como Teresina dos anos 1922, que vivi...” (Cap. 31 –
p. 98 da citada obra).

Certamente aquela gente maldosa, pelo menos em grande parte, tinha pena de
uma moça tão nova e bonita ter desposado – por puro interesse pecuniário da sua
família – um senhor de idade avançada.
Esta mesma cidade e esta mesma gente, nos anos quarenta, quando a deixei,
acolheu um casal forasteiro que veio principiar sua vida em Teresina. Não demorou
muito para que os rapazes que estudavam em Fortaleza, pudessem identificar na esposa
uma conhecida proprietária de um bordel na capital cearense. Era uma belíssima mulher
que, apaixonando-se por um jovem viajante comercial, e após sustentá-lo no início da
carreira, resolveu abandonar a vida que levava e vir principiar vida nova em outra
cidade. Foi uma bela estória de amor, louvada por muitos em Teresina, onde o casal foi
bem acolhido e respeitado, vivendo honestamente e criando os filhos no meio da melhor
sociedade.
Agora nos anos noventa, a verdadeira estória da ilustre dama haveria de
despertar compreensão e até mesmo certa admiração dela haver sido uma precoce
pioneira da liberação feminina. Mas ela preferiu lançar a cortina de fumaça ou o
“diáfano manto da fantasia”. Talvez esteja no seu sangue a necessidade absoluta de
“enganar”. O que não resta dúvida é que a ilustre escritora, ao pintar o seu caráter,
relembrando as fases de seu passado, produziu sua mais legitima obra de ficção.
Ao relembrar os eventos e articulá-los no tempo noto que h~i uma sobrecarga
deles no ano de 1931 e sua transição para 1932.
Em junho de 1931 ocorreu em Teresina, a chamada “revolta dos cabos” também
conhecida pela figura do líder da rebelião – o cabo Amador (Vieira de Carvalho). Foi
um rescaldo da revolução de trinta, havendo os cabos do 25º BC dominado este quartel
e aquele da Polícia Militar, ocupado o Banco do Brasil, Delegacia Fiscal, Correios e
Telégrafos e o Palácio de Karnak onde chegou a ser deposto e preso o Interventor
Federal – Capitão Landri Salles Gonçalves. Prontamente ocorreram as tropas federais
do 23º BC de Fortaleza e 240 de São Luis sufocando o movimento e reconduzindo o
interventor a seu posto. Dizem que ao ocupar o Palácio de Karnak o cabo Amador
sentou à mesa do chefe do governo e pondo os pés sobre ela, declarou: – “hoje não há
mais expediente nesta joça!” – Foi um movimento do qual eu, nos meus quatro anos de

269
idade, não me dei conta a não ser pelo muito que se falou dele nos anos subseqüentes.
Mas, até hoje não tenho idéia do que realmente aconteceu. Isto é muito usual, entre nós,
esquecer todos os movimentos de rebeldia. Eis aí outro tema a ser investigado (se já não
o foi).
Talvez tenha sido nesta época da revolta dos Cabos que a casa de minha avó
acolheu uma menina loira e cacheada chamada Maria de Lourdes. Desde a gravidez de
Maria Pequena, minha avó se abstivera de ter novas “crias” em sua casa. Mas apareceu
um homem pobre, que ficara viúvo com uma fuinha e pretendendo migrar, procurava
um casa de família para cuidar da menina. Minha tia Dulce ficou penalizada e
intercedeu para que D. Júlia a recebesse “para criar”. Lembro-me da figura do homem
Anselmo, assim se chamava o pai, todo de preto, barba por fazer, chegar à casa da rua
da Glória com a menina maior do que eu, uns dois ou três anos, de vestidinho tingido de
preto. Os primeiros tempos da menina foram difíceis. Era triste, andava pelos cantos
chorando e tinha o vicio de comer terra e sabão. Eram sinais de verminose e a menina
foi tratada. Também tinha piolhos e a cura destes quase deixou cega de uma vista minha
mãe. Ao pisar, num almofariz, sementes de ata (fruta do conde) que contém um tóxico
fatal para os piolhos, caiu-lhe um fragmento na vista esquerda produzindo uma pequena
lesão na córnea. Deu trabalho ao Dr. Epifanio de Carvalho para cuidar da vista de minha
mãe. Aos poucos Lourdinha foi tomando corpo, ficando rosada e viçosa. Minha tia
Dulce esmerava-se em fazer-lhe vestidinhos, enfeites. Dentre os cuidados de
embelezamento havia aquele trabalho de colocar-lhe papelotes nos cabelos, a noite, que
no dia seguinte a deixavam cacheada. Lourdinha passaria a ser minha parceira de
brincar.
A 31 de outubro de 1931 ocorrera, na Parnaíba, o casamento de minha tia
Gersila com João Rêgo. Abria-se assim uma nova casa do lado dos Figueiredo. Com a
subseqüente gravidez de Gersila, Dulce iria juntar-se a irmã – a que sempre fora muito
ligada – para ajudá-la. A partir daí passará, praticamente, a morar com esta irmã.
Zeneide, ainda na Escola Normal, irá passar férias. Mais adiante, para o nascimento do
primeiro filho de Gersila D. Júlia irá assistir à filha. Mas isso ocorrerá em julho do
agitado ano de 1932. Agitado por uma grande seca no Nordeste e pela Revolução
Constitucionalista de São Paulo.

270
No Curriculun Vitae de Gracildes consta que em 1932, fora transferida, a
pedido, do seu cargo efetivo do Grupo Escolar José Narciso, da Parnaíba, para aquele
equivalente no Grupo Escolar “Fenelon Castello Branco” na União. Após uma
experiência naquela cidade, minha mãe, a essa altura certa de que o marido andava à
solta, da casa do pai para as fazendas dos primos, resolveu retomar sua carreira de
professora primária. Não sei quando chegamos à União, se no início do ano letivo de
1932 ou com ele já começado. O que é certo é que nos instalamos em casa de tia
Honorina, irmã do meu avô Santídio, casada com Affonso Lobão Cantanhede que era
guarda-fio dos telégrafos. Durante os três anos seguintes (1932 a 1934) estaremos na
União, na duração do ano letivo, retornando a Teresina durante as férias escolares de
julho e do fim do ano. Assim, dos 5 aos 7 anos passarei os anos despreocupados da
infância, que representam a verdadeira descoberta do mundo e o ingresso na escola.
Aí na União, vão se articular melhor as imagens em lembrança ao tempo em que
se configura a idéia de articulação no espaço. Os lugares e eventos entram em sintonia
no espaço da cidade que, embora se tratando de uma pequenina cidade à beira do
Parnaíba, não é completo, ao mesmo tempo que se verá colocado numa “escala”
condizente com a capacidade de percepção relativa àquela idade.
Desde que saí da União, no final de 1934, enquanto morei em Teresina, nunca
mais voltei lá. Somente em 1990 dei uma rápida passagem por lá, num domingo. Mas,
ao começar esta crônica, em Florianópolis, esbocei um “mapa mental” retido na
memória o qual, comparado com a realidade é impressionantemente próximo. A grande
diferença repousava na ordem de grandeza escalar pois, para a criança que eu era entre
os 5 e 7 anos, as distâncias, como as alturas, eram exageradamente ampliadas. Contudo
bem nítida em minha memória o caráter básico da topografia do sítio urbano, entre o rio
Parnaíba, com o arruado projetando-se perpendicularmente a ele, ao longo dos terraços
– no primeiro dos quais está a Igreja Matriz – até os morros testemunhos, pequeninos
fragmentos de uma baixa chapada fragmentada em muitos “morros”. Os limites eram os
morros “da Pedreira”, mais baixo e próximo do arruado157 e aquele “do Urubu” mais
alcantilado e distante.
No primeiro – que me parecia montanha elevada – íamos em excursões,
professores e alunos do grupo escolar apanhar pedras (calcárias) para limpar anéis de

157
Ver o desenho do sítio da União incluído no volume 1 – “Rumo à Cidade Nascente”.

271
prata e ouro. Hoje o tal morro, bem mais modesto – um outeiro na realidade – já está
metido na malha urbana, tendo no seu topo um clube recreativo. O segundo era mais
distante, ia-se em excursões mais raras e organizadas e só os mais afoitos se dispunham
a subí-lo.
Naqueles três anos moramos em três casas diferentes, as duas primeiras como
hóspedes, a última instalados em casa alugada, quando minha avó veio ficar conosco.
Talvez seja fastidioso e sem interesse para o possível leitor dessa crônica a
narrativa dessas lembranças da União mas para mim é importante fixá-las, de vez que
elas apresentam as primeiras emoções básicas da vida. A descoberta da morte, da
loucura, da religião e, sobretudo os primeiros contactos e relações sociais, talvez
capazes de esclarecer as diretrizes primeiras da minha personalidade. Embora
impossível de acuidade cronológica procurarei articular as lembranças facilitadas pelas
três diferentes moradas na cidade.
Na esfera política do país estes meus anos de descoberta do mundo coincidem
com o primeiro governo – o provisório, de Vargas, ocupados com a “salvação da
cafeicultura”, as protelações para a Constituinte, a revolução constitucionalista em São
Paulo, e a Constituição de 1934 que inaugurará o segundo período de Vargas. Enquanto
na Europa o socialismo da URSS se edificava sob o jugo de Stalin, e progrediam o
fascismo italiano e o nazismo alemão, os Estados Unidos ocupavam-se em debelar a
grande depressão com Roosvelt e o seu New Deal.
Mas, deixemos este período crucial no mundo e nos recolhamos à pequenina
União, á margem direita do rio Parnaíba onde o cronista principia a sua descoberta do
mundo. Aliás entre União e Teresina, alternando-se os períodos letivos na primeira e de
férias na segunda.
A casa dos tios Afonso e Honorina ficava na rua central, entre as praças do
Grupo Escolar e aquela do Mercado, cujo nome não retive. Era uma pequena mas inteira
morada, onde nós – minha mãe e eu – ocupávamos um dos quartos da frente, a direita
do corredor. Não havia luz elétrica na cidade, ou apenas principiava. Se me lembro de
lâmpadas elétricas na igreja matriz e em algumas casas e certo que naquela dos tios não
havia. Usava-se alguns candeeiros e muitas lamparinas de querosene.
A mais das vezes mamãe levava-me com ela para o Grupo Escolar onde eu
ficava por um canto desenhando, com lápis ou com giz, durante as aulas e, meio

272
acanhado, com as crianças, na hora do recreio. A posição de “filho da professora”,
merecendo o carinho das colegas de minha mãe não era muito cômoda perante as
crianças, sobretudo as menores e, especialmente, os meninos. As vezes ficava em casa
com tia Honorina. Havia na casa suas três netas. Eram filhas do primo Anésio que
falecera e a viúva, que fora viver no Rio de Janeiro. Creuza, a segunda ficara com os
avôs. Mas, naquele n1omento, as outras, Eunice, a mais velha, e Gracildes – a quem o
primo Anisio dera o nome da noiva do primo Mundico – a caçula. Tio Afonso ainda
trabalhava como guarda-fios do telégrafo o que o mantinha quase sempre em viagem.
Era um velho que devia estar a beira da aposentadoria. Tomava seus tragos e não raro
ficava bêbado, resmungando em seu quarto, arengando com tia Honoria. Quando
bêbado, chamada pela neta:
– Nha Creuza! Creuzinha! Vem cá.
– Não vou não, que você bebeu.
– Venha Nha Creuza.
– Não vou!
– Venha cá sua filha da puta ...
– Agora mesmo é que não vou. Você me xingou de nome feio. Não gosto de
você.
– Venha meu bem, me perdoe.
E aquilo continuava um tempão até que tia Honorina, zangada, viesse intervir na
arenga.
Eunice já era moça, e, por causa das viagens, se atrasara no estudo e ainda estava
no primário. Creuza era malandra na escola. Gracildes era esperta e muito aplicada.
Acrisio, o outro filho homem dos Cantanhede morava vizinho, era pequeno
funcionário. Sua mulher Lucrecia era irmã de Toinha, que havia sido a primeira Miss
Piauí e também ainda era bonita, de olhos claros. Tinham alguns filhos, homens e
mulheres. Lembro-me das meninas maiores que era Lourdes e Thereza, já grandinhas.
Os tios tinham ainda duas outras filhas – Noca (creio que era Ana pois todos os nomes
dos filhos principiavam pela letra A) casada com o Sr. Nereu Lobão, um abastado
fazendeiro e que tinham uma bela casa na praça, na esquina oposta ao Grupo Escolar
Fenelon Castello Branco. Tinham uma série grande de filhos, dos quais a mais velha era
a Myrtes, já mocinha. A outra filha de Honoria e Afonso era Amelia casada com Emilio.

273
Estes tinham um filho, um garoto, maior do que eu. Tio Emilio tinha um olho vazado e
uma perna estropiada pelo beri-beri, relíquias de sua passagem pela Amazônia para
onde havia emigrado como muitos homens do Piauí. Muitos morriam, ou ficavam por
lá. Tio Emilio voltara marcado fisicamente pelo “inferno verde”. O filho deles era
Raimundo, também chamado Mundico.
Eu gostava muito de tia Honorina, irmã mais velha de meu avô Santídio. Era
uma “toma-chegada” como dizia tio Afonso. Gostava de vê-la comer, pela mania que
ela tinha de só comer as refeições, acompanhadas de frutas. Geralmente eram cajus, pois
havia uns belos cajueiros no quintal. Admirava as rugas da papada da tia avó tremendo
quando ela mastigava, sofregamente. Era a última que comia, pois era ela que cozinhava
e fazia todo o serviço da casa, com ajuda das netas. Era mulher valente, capaz de tirar o
chinelo do pé e matar alguma cobra que entrasse pra dentro de casa.
A tardinha, depois de limpo e arrumado, ficava com as primas, na calçada ou às
janelas enquanto elas proseavam com as amigas passantes e falando nos namorados.
Lembro-me que Creuza, que era a mais sapeca, tinha um namorado Augusto a quem
elas apelidavam “Goiaba Branca”. Um dos quartos da casa, perto da cozinha era muito
estranho e exalava um forte cheiro. Tio Afonso e Creuza tinham ali uma criação de
preás do reino, uns bichinhos ariscos que roíam tudo, sendo necessário cercar as portas
de tijolos. O quarto era cheio de capim e canarana trazidos por tio Afonso da beira do
rio.
Mamãe pagava pensão. Todo mês ela dava a importância ao tio que a recusava.
Mamãe passava à tia Honorina que recebia. Mas nos tratavam com muito carinho.
Mamãe ficava constrangida pois tinha tudo a tempo e a hora, roupa limpa e passada, até
a pasta nas escovas de dentes nos já encontrávamos preparadas quando nos
levantávamos e íamos ao banheiro, atrás da casa. Um banheiro de palha de babaçu como
era costume. No quintal, entre os cajueiros, havia um poço de onde se apanhava água
para o banho e lavagem de louça e roupa. Para beber, vinha água do rio apanhada pelos
aguadeiros, trazendo em ancoretas carregadas pelos jegues. Um dia minha mãe, quando
tirava água do poço, deixou escapulir para dentro dele uma pulseira de ouro, dita “de
mistérios” pois que representava um segmento de um rosário. Tio Afonso mandou
imediatamente uns dois caboclos esvaziarem o poço e a pulseira foi encontrada no
fundo de uma argila bem branquinha. Eu fiquei espiando a operação e tive a curiosidade

274
satisfeita em saber como era o fundo do poço e ver como a água “minava” das paredes e
se acumulava ao fundo, quando estas passavam do arenito para a argila.
Na cidade pequena, além de colegas professoras havia parentes e amigos. Prima
Ciloca (Ormendina Gonçalves do Rêgo), casada com Orestes, onde mamãe se
hospedara da primeira vez que estivera na União. O Cel. Felinto do Rêgo, que era
também primo – irmão de Ciloca, ambos filhos de João do Rêgo Monteiro, por sua vez,
filho de Cesalpina (tia Cetê) irmã do Capitão Ludgero Gonçalves Dias. Felinto era chefe
político, prefeito municipal e era casado com a prima Jacira, filha de Mocinha
(Francisca Amélia) e Areolino de Abreu, o ex-governador falecido. A casa deles era um
casarão imponente na Praça do Mercado. Lembro-me bem que a saia de jantar,
avarandada, ficava bem alta em relação ao quintal. Havia também o Dr. Sezinando
Alencar, farmacêutico – que atuava como médico, pois não havia ainda um clínico na
cidade – que era casado com uma parenta, Consuelo. Acho que era do lado dos Rêgo, da
tia Cetê. Penso que estas foram as nossas primeiras ligações sociais, naquele primeiro
ano (1932) passado na União. Mas nos anos subseqüentes o circulo aumentaria muito,
com as professoras e muitas famílias da cidade.
Da seca que assolou o Nordeste nesse ano não me ficou nenhuma lembrança,
provavelmente porque seus efeitos no vale do Parnaíba não foram muito fortes. Mas
este ano as férias de julho, as passamos em Teresina, e neste mês, no dia 20, nascia na
Parnaíba a primeira filha dos tios Gersila e João Rêgo, que se chamou Vilma. Seria a
minha primeira prima, com a qual sempre tive uma relação muito estreita e muito maior
e ‘forte do que com todos os outros primos que viriam depois. Foi e tem sido mais que
uma prima, uma irmã de eleição, uma amizade de toda a vida.
Minha avó, D. Júlia, foi à Parnaíba assistir o primeiro parto de sua filha caçula.
Dulce já estava com a irmã. Zeneide, na escola Normal, deve ter ficado em casa com as
tias, ao lado.
Desse ano na União veio-me a primeira idéia da morte. Diferente daquela de
minha avó D. Sérgia, que foi uma impressão distante e acentuada apenas pela pompa do
ritual fúnebre. Agora, seria a morte de um garoto, mais próximo de mim, portanto, e,
com uma seqüência de sofrimento lento, pronunciado, até a morte. Um dos filhos dos
tios Noca e Nereu Lobão, o José de Arimatéia que era um garoto forte de uns 9 ou 10
anos. A família estava na fazenda, não muito distante da União, época de farinhada. O

275
garoto, brincando com os companheiros, filhos de moradores, resolveu fazer um bejú e,
inadvertidamente, o fez de uma polpa de mandioca não separada da venenosa
mandipueira. Comeu o bejú e envenenou-se. Não me lembro se outro garoto foi
vitimado também. É mais provável que não pois os meninos da fazenda estão
habituados a velha prática ancestral da farinhada. Deve ter sido arte de menino não
afeito. O que é certo é que o garoto envenenou-se. Formou-se a tropa de volta à União,
em busca de socorros médicos. Os pais e vaqueiros, a cavalo e o garoto carregado na
rede, armada numa vara, e conduzido por um homem em cada ponta, revezando-se
durante o trajeto. Aliás a mãe, veio ao lado do filho enxugando a sua fonte, assistindo-o
em sua lenta agonia. A comitiva chegou à beira da noite e a casa encheu-se de parentes
e amigos.
Já assinalei que naquela época só havia o farmacêutico Dr. Sezinando Alencar
que, por infelicidade, não estava na cidade.
Assim, produziu-se a cena que me ficou na memória. O garoto numa rede,
armada no canto do quarto; a família, parentes e amigos, sentados, em volta do quarto,
junto às paredes e pelos demais cômodos da casa. Aquela vigília impotente, enquanto o
garoto delirava... No delírio, afluíam suas brincadeiras... “Essa é minha! – Ganhei mais
uma! .. vivia ele o jogo das castanhas de caju158. Outros momentos referia-se ele a
baladeira (estilingue) e abate de avoantes, caçadas aos passarinhos com arapucas e
gaiolas... Minha mãe veio, naturalmente, para a vigília e eu fiquei por ali, vendo aquela
cena que dava pena, o garoto morrer envenenado... dando-me conta de que a vida
oferece muitos perigos às crianças, até para preparar um bejú de farinha de mandioca. E
ninguém podendo fazer nada, ninguém para salvá-lo, só preces e mais preces...
resignação ante a vontade de Deus. O chamado do garoto que, assim, ia para o céu,
longe de todos, dos seus brinquedos, da escola... “Viver é muito perigoso” como diz o
Riobaldo, do Guimarães Rosa. Desde então comecei a dar-me conta.
Outro contato dessa época foi com a loucura. Mas sob sua forma mais branda e
poética. Do outro lado, já fora da praça, e fronteira a casa do tio Nereu havia um terreno
baldio, coberto por um gramado e sem cerca, fazendo como que uma pracinha pequena,
atrás da qual havia a casa do Nande. Este era uma figura impressionante. Um homem

158
Um popular jogo infantil. Com uma castanha achatada (a rasteira) os garotos participantes procuram
acerta, em golpes rasteiros, o maior número possível de castanhas espalhadas pelo chão. Depois de
ganhar as castanhas de caju passam a ser assadas e comidas.

276
alto – pelo menos me parecia – de barba longa e cinza, parecendo um profeta bíblico.
Isso era mais acentuado ainda pela brancura das longas camisas que ele usava, em geral
alvas, para fora das calças. Não sei se o seu nome era Fernando, por apelido Nando ou
Nande. Sei que ele me fascinava, com seus passos lentos e voz cavernosa que, por
vezes, se elevava, anunciando o que ele, qual poderoso mágico .... “mandaria nascer”. –
Eu ficava à janela, com as outras crianças Lobão, ou sentado à calçada, mais perto do
“mágico” ouvindo as suas decisões: “Vou mandar nascer um castelo! Um lindo castelo
arrodeado de em pasto, cheio de carneirinhos...” – Isto me fascinava! Tamanho poder
naquele mágico! E ficava esperando que se produzisse o milagre daquela criação,
sobretudo quando ele prometia a nós, meninos, um carneirinho pra cada um... para os
bons, obedientes aos pais, e respeitadores dos mais velhos.
Nande era um louco manso. E tinha aquela vela poética de fazer nascer sempre
coisas belas. Pertencia a uma conhecida e prestigiada família local. Sua loucura era
lamentada e respeitada. Para mim foi a primeira manifestação de uma forma de
“debilidade” tímida e poética que me fascinaria pela vida afora. A capacidade de
fabulação e invenção lúdica. A loucura perturbadoramente sábia dos bobos de
Shakespeare como aquele do Rei Lear.
A idéia do perigo que é viver revelou-se-me também através da rapidez e
facilidade com que se pode produzir um incêndio. Isso veio-me através de uma
experiência que poderia ter resultado em algo muito sério.
A menina Gracildes Cantanhede, a neta de tios Affonso e Honorina, havia se
destacado no grupo escolar no jogo de argola. Principiava a moda da ginástica sueca,
repercutiam já as notícias da Olimpíada de Amsterdã. E as escolas públicas
principiavam a desenvolver os rudimentos de educação física. Naquele ano, na praça
fronteira ao grupo escolar, coberta por um pasto, as meninas jogavam as argolas. Com
dois bastões de madeira polida, elas arremessavam uma argola de madeira – que nada
mais era do que um bastidor de bordar à mão, coisa que as meninas tinham como prática
doméstica regular – que corria o círculo das moças. Eliminada cada uma que perdia, a
campeã era a última. Gracildes vencera a prova num dia de festa oficial. Seu prêmio
fora um bebê de celulóide, adquirido na loja de seu Protásio. Ficara felicíssima com a
vitória na competição e o prêmio.

277
Em agosto, na festa de São Raimundo, o bebê foi vestido de anjo – nuzinho com
uma enorme faixa de papel crepom – pendurado no meio da nave, como parte da
decoração da “noite das crianças”. De volta à casa o anjo foi colocado preso à cruz que
encimava o oratório de madeira, cheio de santos. A faixa de papel prendia sobre o
oratório e chegava quase ao chão.
O oratório estava no quarto da frente, onde minha mãe e eu, estávamos alojados.
Uma noite, minha mãe estava, com um pequeno grupo de vizinhos e amigos à calçada.
Entre os presentes estava o José Alencar, filho do Dr. Sezinando e Consuêlo. Eu senti
necessidade de ir ao penico e minha mãe levou-me ao quarto, colocando a lamparina de
querosene sobre a mesa do oratório. Em pouco o calor da chama atingiu o papel crepom
e o celulóide do boneco luziu com rapidez enorme em bela chama azul. O clarão atraiu
a atenção das pessoas na calçada e José Alencar, prontamente abafou o fogo com o
próprio paletó. Eu ficara paralisado no meu “trono”, os olhos esbugalhados, fascinado
com o espetáculo que, agora, passado o perigo, todos analisavam as possíveis
conseqüências. A menina Gracildes já dormia e nada percebeu. Na manhã seguinte
minha mãe foi a loja de seu Protásio comprar um bebê igual. Assim, a garota não teve
prejuízo. Para mim ficou a noção do perigo que é o fogo.
Mas o ano de 1932 representa também outro marco na minha vida, pois foi o de
minha entrada na escola. Diferentemente do que acontece com a maioria das crianças
não houve “choque” nessa ida de casa para a escola. Na qualidade de filho de
professora, a escola já era uma extensão de casa. Estava lá, frequentemente, no meio das
professoras e fazendo amizades com os alunos da classe de minha mãe. Naquele tempo
a primeira série da escola primária era subdividida em 1º ano A, B e C. Não sei se
isso correspondia ao que hoje é o jardim de infância, pré-primário e finalmente o
primário (1º ano C). Embora não saiba caracterizar bem a seqüência é certo que o 1º
ano. A era para as crianças completamente cruas, aquelas que precisavam aprender o
alfabeto e segurar o lápis na mão para principiar a escrever. Não era o meu caso pois,
desde os quatro anos eu já principiara a ler e a desenhar as letras e números. Fui precoce
a ponto de muita gente achar que isso era prejudicial. Que não deviam “puxar” por
criança tão pequena que precisava brincar. Mas, na realidade, a escola sempre me
fascinou e uma das minhas brincadeiras favoritas era “de escola”. Outra, adquirida na
União, seria brincar “de igreja”.

278
Naquele ano letivo de 1932 minha mãe achou que eu devia tornar-me um aluno
regular já que vivia no grupo escolar. Entregou-me aos cuidados da colega Maria
Castello Branco que logo se tornaria Medeiros, por casamento. Era uma moça
rechonchuda e alta, que usava óculos de fortes lentes para miopia. Era a diretora do
Grupo, muito simpática, bem quista pelas colegas e tinha o apelido de Bibi. Foi minha
primeira professora na classe do 1º ano B já que eu era alfabetizado e nada tinha a ver
com o 1º ano A. Assim, entrei para a escola aos 5 anos completos.
No final do ano, como sempre, havia a festa do encerramento das aulas para o
que se preparava um espetáculo teatral a que chamavam (descabidamente) de “drama”.
As instalações do Grupo Escolar eram precárias – tratava-se de improvisação em uma
residência – e assim o espetáculo era ensaiado e exibido numa casa de família mais
ampla, desocupada no momento, e, se não me engano, pertencente ao comerciante Sr.
Protásio Costa. Numa das extremidades da grande saia (avarandada) de refeições e de
estar, ergueu-se um palco – um estrado de madeira – com uma cortina improvisada, em
cima do que se apresentavam os números.
Recordo bem que o numero principal era uma representação musical das
meninas maiores, celebrando um encontro de bonecas de várias nacionalidades, em
torno da boneca... portuguesa. Mesmo para os meus seis anos era difícil entender o
porque da homenagem à boneca “portuguesa” e não a “brasileira”

Bonequinha da Inglaterra
Bonequinha de Paris
Eis aqui neste país
Bonequinha Espanhola e boneca Americana
Completando a genti1eza
Da boneca Portuguesa.

Tanto tempo depois da independência de Portugal! Por que não era a boneca
brasileira? Seria um livro antigo de representações teatrais escolares editado em
Portugal? Outro fato estranho era que em vez de vestirem trajes típicos dos seus países
todas elas vestiam-se igualmente. Talvez isso fosse uma medida de economia ou falta de
documentação para os trajes. A boneca Portuguesa era aquela neta de tia Honorina, xará
de minha mãe. A menina Gracildes que se destacara no jogo de bastidores, era

279
desembaraçada, já morara no Rio de Janeiro, e colhia, na União, o seu momento de
glória.
Esse número especial das meninas grandes merecia acompanhamento musical.
Juntaram-se as irmãs Ferreira tocando bandolim, violino e um piano de armário que
havia na casa.
Havia vários outros números com participações individuais ou agrupadas de
crianças. D. Bibi decidiu que eu devia fazer um numero solo. Tão engraçadinho, com
boa voz – demonstrada nos hinos patrióticos da escola e nos cânticos da igreja – devia
ser um sucesso. Começou o tormento. Eu morria de vergonha de subir no palco,
sobretudo sozinho. – Não quero! Não quero! – Mas começaram os pedidos, rogos,
chantagens sentimentais, promessas de presentes... Não havia jeito. E assim vi-me
improvisado de malandro carioca, de chapéu de lado e tamanco arrastando, lenço no
pescoço e navalha no bolso... Nada mais nada menos do que o sucesso que Wilson
Baptista lançara no Rio em 1932, que o rádio espalhava pelo Brasil e gerara a famosa
polêmica – um duelo musical famoso – entre Wilson Baptista e Noel Rosa159.
Eu devia cantar, gesticular, num solo sem acompanhamento musical. Isto, uma
medida para deixar-me mais solto... Os ensaios eram terríveis, e cada dia que passava
aumentava o meu terror. Na hora do espetáculo, chegando o meu momento, não vi nada,
entrei numa espécie de torpor, acelerei o andamento da música e na hora de puxar a
navalha – uma capa de celulóide de uma navalha de barbeiro sem a lâmina – ela
escapuliu de minha mão e atravessou o palco caindo no meio da assustada platéia. Sai
correndo enfiar o rosto na saia de minha mãe enquanto tapava os ouvidos para não ouvir
as palmas e risadas. Foi, assim, minha tempestuosa estréia no “teatro”.
Após o espetáculo D. Bibi entregou-me o presente, com efusivos cumprimentos
pelo sucesso. Uma cartela com uma série de ferramentas e utensílios compondo o
conjunto “O Pequeno Marceneiro”. Eu que esperava um livro de estórias, com belas
figuras, fiquei meio sem graça. Fiz de conta que gostara. Logo daquilo que me lembrava
a “oficina” que meu avô Santídio tanto queria que eu me interessasse... e que eu
detestava. Assim, mesmo, o serrotinho serviu para serrar uns talos de buriti, tentando
fazer alguma coisa para muitas brincadeiras “de escola” e “de igreja”.

159
Noel Rosa, ante aquele elogio da malandragem responderia.

280
Outra revelação que se veio juntar àquela da morte, da loucura e do teatro, foi a
religião ou antes o fascínio pela “liturgia”, o que há de ritual nos procedimentos do
catolicismo, que foram, talvez, à base do meu amor pelas representações teatrais e artes
cênicas, em geral. Mas isto foi um processo lento que principiara neste primeiro ano da
União mas que iria progredir pelos outros dois. Sobre isto falarei logo mais. Agora é
tempo de voltar, nas férias de fim de ano, para Teresina, para a casa de minha avó e as
visitas freqüentes à casa do meu avo. O meu universo teresinense entre as ruas da Glória
e a de Santo Antônio.
Ao lado do nascimento da prima Vilma, na Parnaíba, a família enlutou-se com a
perda de Sinhozinho, um dos filhos dos primos Celsa e Santinho. Estando fazendo o
serviço militar no Exército (ou talvez mesmo engajado na vida militar) o rapaz havia
sido enviado nos contingentes “legalistas” do Governo Provisório de Vargas para
sufocar a Revolução dos Paulistas, onde veio a ser morto em combate. Não sei precisar
a data mais é bem provável que tenha sido no decorrer do segundo semestre, pois que
eclodida em julho a revolução de 1932 terminou antes do fim do ano, O que me lembro
é que, ausentes de Teresina na época, logo que voltamos, nas férias de fim de ano,
fomos dar os pêsames aos primos. Embora não saiba localizar com precisão, lembro-me
que Santinho morava além da Avenida Frei Serafim, pois passamos por traz da Igreja de
São Benedito, para o outro lado da cidade. Enquanto os adultos conversavam fiquei com
os meninos – os gêmeos João e José e a menina Nazaré que era do mesmo ano que eu.
Tínhamos naquele então cinco anos.
Depois de Nazaré, nascera o Mano (22.10.1930) que, desde o nascer, foi uma
criança belíssima. O filho mais velho de Celsa e Santinho, o Zuquinha, já aos 22 anos se
não casara ainda estava prestes a fazê-lo com uma moça paraense, Euridice, filha do Sr.
Mascarenhas – um fiscal de rendas e D. Julita. Não tendo filhos no início do casamento,
acabaran1 ficando com o Mário a quem criaram como filho. A entrada dos anos
quarenta Zuquinha mudar-se-ia para o Pará onde Mano passou a viver, vindo a Teresina
em férias. Mario foi o antepenúltimo da longa série de filhos, após o qual viriam ainda
Maria Victoria (nome da avó paterna) e o último, que seria o segundo Sinhozinho, pois
recebeu o nome do pai, assim como do irmão morto na revolução paulista.
Uma lembrança que marcou esta visita â casa de Celsa foi que, no trajeto, numa
casa não muito distante daquela dos primos ouvira um barulho estranho, uns estouros

281
parecendo pipoca e uma voz apressada e fanha que aumentava e diminuía de
intensidade, entremeada de apitos e ruídos estranhos. Era o “rádio”, me explicaram. Um
aparelho que, ligado à luz elétrica, dava noticias do Rio de Janeiro e do mundo todo.
Nestas férias de 32 para 33 minha mãe teve um problema de saúde que, embora
não tendo sido grave implicou na nossa primeira separação, pelo menos aquela que já
foi percebida, pois a viagem dela para Miguel Alves com tia Hortência eu era um bebê.
Ela começou a sentir uma dor do lado que o médico diagnosticou como “apendicite”, ou
inflamação no apêndice biliar, sendo aconselhada uma “operação”.
Naquela época fazer uma cirurgia em Teresina não era fácil. De hospital havia a
velha Santa Casa de Misericórdia, no Campo de Marte, entre a Cadela Pública e ...
(dizia-se pilheriando) já próxima do Cemitério de São José. Embora já houvesse bons
clínicos a cirurgia não era praticada, ou pelo menos o era precariamente. Só a partir de
1933, com a chegada do Dr. José da Rocha Furtado, formado no Rio de Janeiro no ano
anterior, Teresina terá o seu primeiro – e grande – cirurgião. A “apendicite” estava na
moda, pois até as doenças passam por este circuito. No caso de Graci felizmente não era
aguda. Coincidiu que, por esta época o primo Zuca Veras, em Belém do Pará, estava
atravessando dificuldades, afastado que havia sido do seu cargo de professor do Colégio
Estadual pelo Interventor Magalhães Barata, uma cria da revolução de trinta que ficaria
legendariamente famoso no Norte pelas suas arbitrariedades. No Pará ou se era
“baratista” ou se pagava o ônus por ser anti-baratista. Tio Abilio, já por essa época, não
era mais o homem de fortuna que havia sido no início do século, mas foi organizada
uma missão familiar em ajuda ao filho. Partiriam por vapor, a ser tomado em São Luis,
Mãe Celé e Maria do Carmo. Surgiu, assim, uma ótima oportunidade para que Graci as
acompanhasse e pudesse ser operada em Belém, um centro médico já renomado. E
assim foi feito.
Esta viagem foi fácil a localizar com precisão no tempo pois quando Gracildes
chegou a casa dos primos Zuca e Nair eles já haviam celebrado (16 de março de 1933) o
nascimento de Syllas. Assim, minha mãe, saiu de Teresina após o meu sexto
aniversário, no dia 23 de março, e chegou a Belém em abril passando ali o resto daquele
mês e parte de maio, o que significa que o primeiro semestre de 1933 foi passado, em
gozo de licença médica, fora da União.

282
Graci teve a oportunidade de rever o primo Zuca e Nair, sua amiga. A essa época
a série de filhos já se compunha de Sinval, o maiorzinho, Nelly, Neyde, Nairzinha,
Nilza, Stelio (que é da minha idade) Sidney e terminava no Syllas, recém nascido.
Faltavam apenas Silvio e Simas que nasceriam depois. Graci foi operada com sucesso
pelo Dr. Dagoberto Salles, sem a menor crise, sequer a dor de cabeça produzida
geralmente pela anestesia geral. Assim, a viagem a Belém foi antes, um prazeroso
passeio. Com o carinho dos primos, Graci visitou ainda o velho tio José Gonçalves
Dias, já aposentado da Alfândega, com sua mulher Tita. O casal não teve filhos. Havia
uma expectativa de obter alguma notícia do tio Sinfrônio – irmão do Major Gerson –
mas não havia sinal dele, que há muitos anos atrás migrara para lá. Minha mãe
encantou-se com a cidade de Belém, de onde traria uma devoção à N.S. de Nazaré.
Conta ela que em sua visita a basílica “entregou-me” aos cuidados daquela que os
portugueses instituíram como padroeira dos paraenses. Voltou de lá com muitas estórias
sobre comidas, frutas típicas bem como da picada das “carapanãs” piores que nossas
“muriçocas”, e também os males que afligiam os pobres como a “elefantíase”, “feridas
brabas” e leishmaniose. Mas havia a superar estes males, a beleza da cidade, o bulevard
Castilhos França, o Vêr-o-Pêso, a praia do Mosqueiro... Coisas que somente muitos
anos após eu iria conhecer. De volta de uma viagem a Europa e Estados Unidos, troquei
de aeronave em Miami com destino a Belém onde cheguei ria madrugada da quarta feira
de cinzas, 17 de fevereiro de 1971, quando os últimos cordões e blocos andavam ainda
pelo centro da cidade. Passei alguns dias para conhecer aquela encantadora cidade,
hospedado em um grande e decadente hotel do centro da cidade, hoje demolido. Há uma
classe e um chame especial naquela cidade, remanescente da época da borracha.
Ainda hoje lembro-me do nome dos navios em que minha mãe -fez aquela
memorável e inesquecível viagem. A ida no “Comandante Ripper” e a volta pelo
“Almirante Jaceguay”. Do deck superior do primeiro, já em meio a travessia de São
Luis para Belém, minha mãe lançou ao mar o meu “umbigo”, até então guardado na sua
caixinha de jóias. Mamãe Dinda – a matriarca “Sinha Moça” dos Gonçalves Dias – a
aconselhara a proceder aquele ritual como propiciatório a abrir a seu filho os caminhos
do mundo, em muitas viagens. E viajar tem sido uma paixão em minha vida. E a cada
uma delas, por mar ou pelos ares, eu rendo graças a nossa querida Dinda pelo bom
conselho que deu a minha mãe, e a esta por lhe haver dado ouvidos.

283
De Belém, minha mãe trouxe um belo retrato que fizera em um dos bons
fotógrafos da cidade naquela época, e que registrou o auge da sua beleza, nos seus 28
anos.
Mas dessa viagem de minha mãe ao Pará ficariam para mim em Teresina duas
marcas. A primeira delas foi uma forte conjuntivite de que fui atacado e que trouxe
muito alvoroço para D. Júlia, minha avó. Foi uma crise seria, mas a primeira de uma
série que tem me acompanhado, de modo espaçado, ao longo da vida. Mas minha avó
supunha ser coisa mais grave. Acontece que, com a viagem de minha mãe – para a
realização da qual a ajuda financeira de minha tia Edith, meu avô Santídio e tio Zeca
tinham sido decisivas – eu passei a ser muito solicitado à casa da rua de Santo Antonio.
Nessa época o prefeito de Teresina era o Dr. Luis Pires Chaves (17.03.1933 a
17.05.1935) um engenheiro muito operoso e que realizou grandes obras na cidade.
Dentre elas as galerias de drenagem na rua Paissandu e Praça D. Pedro II. Quando a
prima Anisia vinha buscar-me da casa de D. Júlia para passar dias na casa do Major
Santídio, o trajeto mais curto requeria a passagem pela praça. Eu ficava admirado com a
profundidade da galeria e, para tormento da prima, pedia-lhe para me deixar espiar de
perto. Ficava, amedrontado, à beira da galeria e cuspia dentro para ver o trajeto, o tempo
de duração e finalmente o barulhinho da queda da saliva. E queria repetir a operação,
tantas vezes quanto o permitisse a paciência da boa Anisia. Quando meu avô já estava
apreensivo com a demora, chegávamos nós. Anisia explicava os meus caprichos.
Firmaram-se desta época, as imagens mais firmes da casa de meu avô paterno. O
forte cheiro de carambolas, já que um super carregado pé dessa fruta, fronteira a
varanda da sala de jantar dominava o pátio central da casa. As ferragens da “oficina” do
avô para onde ele insistia em me levar e de onde eu me esquivava. E a presença
masculina, com um movimentado “quarto dos rapazes” que não existia em casa da avó
materna, o meu verdadeiro lar. Aliás ficou-me sempre o contraste absoluto entre as
casas dos avôs – o androceu da rua de Santo Antônio e o gineceu da rua da Glória. Tia
Edith estava para a primeira como tio Gerson estava para a segunda. Eram as exceções.
Ao saber-me “doente dos olhos” D. Júlia desesperou-se imaginando que o
menino, incursionando pelo “quarto dos rapazes” tivesse se contaminado de algum

284
vestígio de “doença do mundo”160. Felizmente estava de visita à família em Teresina, o
Dr. Herminio Conde, um filho da terra161 e que era um grande oftalmologista. Graças a
ele fui prontamente curado. Mas lembro-me bem que essa violenta conjuntivite pregava-
me as pálpebras toda manhã ao despertar, a ponto de imaginar-me cego – que nem
minha avó Sérgia – o que me aterrorizava. Outra coisa eram as fortes dores de cabeça
que eu sentia e que minha avó, para aliviá-la, besuntava-me as têmporas de banha de
galinha162 cujo cheiro me nauseava.
A outra marca que me ficou foi a caçoada que meu tio Gerson fazia comigo
conjecturando sobre as conseqüências da viagem de minha mãe. Um rapazinho de seus
dezessete anos que se comprasia em me arreliar. Ora dizia que minha mãe arranjaria um
noivo e que ficaria morando em Belém. Ora dizia que ela voltaria toda chique, usando
chapéu e luvas e falando pernóstica, com o “chiado” dos paraenses. . . Isso me deixava
possesso. E eu ia perguntar a minha avó se aquilo seria possível.
– Um homem tão grande atormentando uma criança. Deixe-se disto, rapaz!
Ralhava D. Júlia com o impossível Gersinho. Mas esse tio, como fruta rara em casa, ao
mesmo tempo que me arreliava, me atraía e eu, passado o choro, estava de volta para
perto dele e sempre que podia, escapava para espiar o seu quarto, um misterioso lugar
que me era interditado pelas muitas mulheres da casa. Havia livros e revistas que eu
desejava ver e não me deixavam.
Mas, enfim, chegou o dia da volta de minha mãe. Fomos atravessar o rio para as
Flores, e recebê-la na estação do trem que vinha de São Luis. Mamãe voltava com Mãe
Celé e Maria do Carmo. Traziam a Nilza, uma das filhas de Zuca e Nair passar uma
temporada. Era uma linda garotinha que era sujeita a crises asmáticas e talvez o clima
seco de Teresina a fizesse bem.
Minha mãe estava de volta. Uma delas. A mãe Graci. Não tinha casado, estava
linda numa túnica de gorgurão bordeaux sobre uma blusa de cambraia branca.
Diferentemente dos anos vinte, ao chegar aos trinta as saias das elegantes haviam

160
Designação dada ao conjunto de “doenças venéreas”. Naqueles tempos anteriores aos antibióticos, os
rapazes, freqüentando os bordéis, eram vitimados o que implicava em que nas casas de família as
roupas intimas dos machos fossem completamente separadas daquelas das fêmeas, durante a lavagem.
E sabia-se que, vestígios delas nos olhos produzia cegueira.
161
Herminio era um irmão mais velho daquele Augusto que fora namorado de Zeneide.
162
O uso quase ritualístico da banha de galinha parece denotar uma herança de prática cultural judaica, o
que se ligaria à freqüência de “cristãos novos” nas famílias portuguesas do Brasil.

285
descido e a silhueta das mulheres era longa e esguia. A ditadura de Chanel havia sido,
em parte, eclipsada pela de Molyneux. E ativos perfumes, o nº 5 de ambos, disputavam
a preferência das mulheres.
Assim aquele ano de 1933, pela viagem a Belém, foi dividido para mim entre
Teresina e União. Em licença para tratamento de saúde, minha mãe acabou dispendendo
o restante do primeiro semestre em Teresina. Lembro-me que aproveitou o tempo para
realizar um curso de atualização de professores e participou de uma “semana ruralista”
onde agrônomos da Secretaria de Agricultura ministravam rudimentos de práticas
agrícolas – hortas e pomares – para as normalistas difundirem entre as crianças das
escolas primárias. Disso ficou um registro fotográfico, no álbum de família. Ali, entre as
normalistas uniformizadas e os agrônomos, minha mãe aparece com o traje com que eu
a vira chegar no trem de ferro, vinda de Belém.
Após as férias de julho voltamos à União. E dota vez, para nos hospedar na casa
do primo Antonio João Braga, irmão de Benilde, e marido de Rufina Wall. Antonio
João ora coletor das rendas estaduais e fora destacado para exercer o cargo na União.
Mamãe gostava muito deles – tanto do primo quanto de Finuca, como era conhecida,
sua mulher. O casal tinha dois filhos, já entrando na adolescência: José Wilson e
Roberto. A família morava naquela rua dos oitizeiros saindo da praça da Igreja Matriz
para aquela do Grupo Escolar.
Naquela época já havia a alternativa de ir-se a União, “de caminhão”. Embora as
estradas fossem precárias, já havia o serviço de transporte do senhor Zuca Lopes. Na
real idade era um caminhão, onde se improvisava, na metade frontal da carroceria, com
uns bancos em fileiras paralelas, coberta com madeira. A metade traseira ficava para a
bagagem e a carga. As vezes um passageiro de prestigio viajava na boléia, ao lado do
motorista. Uma viagem que atualmente, pela estrada asfaltada, faz-se em cerca de hora
naquela época levava o quarto de um dia. Saia-se bem cedinho para chegar para o
almoço. As vezes durava muito mais. O caminhão atolava no arreião grosso e era
preciso cortar palmas de babaçu para assoalhar os profundos sulcos cavados na areia
movediça. As vezes a operação levava tempo, quando não raro exigia a tração de bois
para retirar a viatura do atoleiro na areia. A chegada do caminhão do Zuca Lopes era um
acontecimento na cidade. Juntava gente para receber viajantes ou encomendas vindas da
capital. Havia linhas para Miguel Alvos, também, passando pela União.

286
Antonio João era muito simpático e bem relacionado. Reunia em casa grupos de
amigos que, quase todas as noites iam jogar gamão, dominó ou cartas. Falavam de
política, contavam casos, davam risadas. Finuca e minha mãe ficavam a parte, com
algumas outras senhoras que acompanhavam os maridos. Os homens de um lado, as
mulheres de outro.
A casa tinha um quintal cujo terreno se elevava progressivamente, tendo ao
fundo, a “vacaria”, ou seja, algumas cabeças de gado, vacas leiteiras com seus bezerros.
Era uma prática comum, ter-se suas próprias vacas leiteiras ao fundo do quintal.
Lembro-me ainda hoje do cheiro do estrume, do capim e do ruminar das vacas,
escoando baba de suas bocas. Gostava de ver os meninos, já grandinhos cuidar das
vacas, embora houvesse o empregado para aqueles serviços. Eu ficava trepado na
porteira, olhando aquela lida com o gado.
Depois da vacaria, havia uma vegetação frondosa, constituindo como que um
limite para algo de grande (e misterioso) que se designava como a chácara do Sr. José
Narciso. Muitas vezes eu me aventurava até a cerca imaginando o que poderia haver no
meio ou além daquele mato.
De nossa estada na casa de Antonio João, ficou-me outra revelação importante.
O casal que sempre me mimava, um dia na ausência de minha mãe, deu um balanço
analítico no meu comportamento. Em vez de achar graça em certas coisas que eu fazia,
muita coisa foi passada em revista e reprovada. Uma delas era a de chamar os rapazes
de casa de “bandidos” quando eles se juntavam para caçoar de mim ou me provocar em
brincadeiras. Aquilo foi um choque tremendo para os meus seis anos. Percebi que as
pessoas adultas nem sempre eram sinceras com as crianças, mudando suas atitudes
quando ao lado da mãe ou quando afastado dela... Eu jamais contei o caso desse
“julgamento” a minha mãe, mas modifiquei minha conduta, com o casal e os filhos.
Retrai-me e procurei estar sempre ao lado de minha mãe. Quando, eventualmente, eu
não podia acompanhá-la ia para a minha rede, ficando quieto ou dormindo. Disso
resultou que, quando adulto eu aprendi a ter muito cuidado no tratamento dispensado às
crianças. Elas não esquecem facilmente o que se lhes diz...
A casa de Antonio João era bem próxima à Igreja, o que facilitou minha
aproximação com o templo, em torno do qual girava a vida da cidade. Embora a igreja
fosse consagrada à Nossa Senhora dos Remédios a grande devoção da cidade e sua

287
região era com São Raimundo. Aquele Raimundo Nonato a quem recorrem as
parturientes que, naquela época, morriam com espantosa facilidade. A festa de São
Raimundo na União era celebrada no mês de agosto. Após os nove dias – a novena –
chegava-se à grande festa do dia 31 com missas solenes e a grande procissão. Havia
todas as noites a festa no adro da igreja. Montavam-se barraquinhas onde as senhoras e
moças da sociedade vendiam prendas. Mas, ao lado disso, as oferendas dos lavradores e
criadores era de tal monta que se edificavam currais e cercados para receber as
“criações” ofertadas para os leilões em benefício da Igreja. Montavam-se, em torno da
praça, no circuito mais externo, os currais ou chiqueiros para receber o gado – bois,
cavalos, jumentos e as míúnças – bodes, porcos, patos e galinhas em quantidade. Se no
circuito interno as barraquinhas de prendas eram o lado festivo, o externo representava,
pelo seu volume, uma verdadeira “feira”, arrematando-se por preços acima do valor de
mercado, as ofertas ao Santo e a sua igreja.
Como é habito nas festas de igreja do Piauí, cada noite de novena, tinha o patrocínio
de uma dada categoria: noite dos comerciantes, das professoras, das senhoras casadas, das
crianças, ... e sobretudo a dos vaqueiros, em geral a mais animada. Como área típica de
pecuária o Piauí em suas festas de igreja, privilegia o vaqueiro e sua noite é, em geral,
aquela derradeira dos festejos. De toda a redondeza afluem os vaqueiros, de várias gerações,
velhos, moços e jovenzinhos, que se paramentam com suas melhores vestes de couro163 –
aqueles de gala feitos com pele de veado – que, com suas montarias, enchem a cidade.
Na casa de Antonio João ficava mais fácil acompanhar a montagem da festa bem
como de estar mais perto da Igreja e suas cerimônias. Em 1990 quando de minha
pesquisa, tive a oportunidade de presenciar a festa de Nossa Senhora do Livramento em
José de Freitas. No dia mesmo de festa, à hora da missa solene, cheguei à cidade,
completamente tomada pelos vaqueiros, em seus melhores trajes, concentrados à praça
fronteira a igreja. Tive um momento de felicidade em poder constatar que, no meu velho
Piauí, ainda persiste a cultura local, tão preservada ainda, longe das -festas de “piões”
do Sudeste, tão americanizadas nos seus “rodeos” com “cow-boys” cujas vestimentas
são pastiches daqueles do Texas. E ali a música, dita “sertaneja”-, é tão vilmente
abastardada do “country”, fazendo a festa de Barretos (SP) parecer Nashville (Tenn).

163
Os vaqueiros do Piauí são, ainda hoje, aqueles que preservam a vestimenta tradicional e mais completa
em todas as peças do vestuário de couro, inclusive com colete e luvas.

288
Toda a vida da União era regida pelo calendário da Igreja. Além da festa de São
Raimundo outro acontecimento, mais breve mas mobilizador de toda a comunidade, era
a procissão de Corpo de Deus. O trajeto era dividido em setores, cada um deles
ornamentado pelos moradores. A passagem pela praça era encargo das professoras e
alunos do Grupo Escolar. Não havia o hábito de elaborar aqueles caprichosos tapetes de
flores que a tradição italiana, transferida pelos imigrantes, introduziu no Sudeste. A
ornamentação era bem local, mergulhada na cultura regional e usando os elementos da
flora nativa. O trajeto era atapetado de folhagens e flores mas a preocupação maior era
com as laterais. Arrancavam-se pequenas paineiras – principalmente o frágil e elegante
“pati” e faziam-se alamedas. Perfusão de bandeirinhas de papel de seda – usadas no São
João – também eram colocadas. As famílias enfeitavam as janelas das casas. Lembro-
me da beleza que eram aquelas da casa do Cel. Agnelo Sampaio, onde D. Santinha,
muito devota, colocava colchas bordadas ou chales coloridos e acendia belos lampiões
de porcelana.
A parte musical da igreja era cuidada pelas Ferreira que eram uma família de
negros extremamente prendados em dotes artísticos notadamente musicais. Havia
homens, um vivendo em Teresina e outro em Porto Alegre (hoje Luzilândia), mas
destacavam-se, sobretudo as mulheres: Mundica, Marocas e, se não me engano
Zequinha. Esta última, magrinha e mulata clara, tocava violino. Uma delas tocava o
harmônio do coro da igreja e outra regia o coral. Além da atividade religiosa eram elas
que iniciavam as moças da cidade nos rudimentos de teoria musical e tocar os
instrumentos: violino, bandolim. O violão naqueles tempos era instrumento de homens e
era pouco recomendável nas rodas de família. Embora fossem apreciados nas serenatas,
geralmente realizadas nas noites de luar.
As professoras do grupo escolar, algumas delas vindas da capital, ligavam-se
muito às Ferreira também requisitadas para as festas escolares. A casa das Ferreiras era
um ponto de reunião e ativo centro de programação de atividades festivas da União e
elas eram acolhidas nas casas das famílias mais notáveis da cidade. A casa delas, em
minha lembrança, era na rua detrás do Grupo Escolar Fenelon Castello Branco que,
naquela época, era uma casa residencial de esquina. Na esquina ao lado do Grupo
Escolar ficava a casa do Sr. Julio Barros que era o Sacristão. Casado com D. Zelinda
Medeiros, o casal tinha muitos filhos dos quais Estelita, Maria do Carmo e os rapazes:

289
Raimundo e Francisco. Maria do Carmo àquela época era aluna adiantada no grupo
escolar e destacava-se pela sua inteligência. Minha mãe a admirava muito e procurou
incentivar a família para que a moça fosse fazer a Escola Normal em Teresina. O que
foi feito com muito sucesso. Quando eu já era aluno do Liceu (se não me engano, a
entrada dos anos quarenta) ela foi eleita Rainha dos Estudantes, um “título” conquistado
pela inteligência, mais do que pela beleza.
Os Medeiros eram uma família numerosa com membros muito variados em
fortuna, havendo ricos e pobres. Seu Julio Barros era um homem de modestos recursos,
mas com filhos que alcançaram sucesso pelos dotes pessoais. Maria do Carmo
interrompeu uma carreira que poderia ter sido brilhante, recolhendo-se ao convento das
Carmelitas. Um dos Medeiros ricos era o Sr. Prisco, casado com D. Zoraide, que havia
sido moça da casa dos tios Satyro e Lydia. Possuía uma bela propriedade, chamada “O
Soares” com uma casa assobradada, onde se davam animadas festas. Recordo-me de
uma bela festa ali realizada e que durante a noite houve um baile onde se destacava uma
moça muito simpática amiga de minha mãe, a Julinha, sobrinha do Cel. Narciso, que
naquele baile firmou namoro com um belo pernambucano, fiscal de rendas federais, da
família Lins. Em pouco se casaram e transferiram-se para o Recife. Ficou-me daquele
baile a lembrança da metamorfose apresentada pelo vestido de Julinha que a noite, sob a
luz dos candeeiros e pretromaxes parecia branco e que de manhã com a luz do sol,
revelou-se amarelo vivo. Uma verdadeira mágica, a partir da qual minha atenção ficou
despertada pelo fascínio das cores, iluminação e movimento, que na escola iria revelar-
se na magia do disco de Newton e a decomposição das cores do espectro solar,
explicando o mistério do arco-íris.
É muito difícil estabelecer a relação exibida pelo presente ainda pacato da União
de hoje para o velho cronista experimentado em grandes cidades, algumas das maiores
do mundo, com a “animação representada para a criança que ele foi, descobrindo o
mundo, naquela União dos longínquos anos iniciais da década de trinta. A vida social
parecia intensa. Falava-se em “política”, rivalidades partidárias, eleições e lutas ou
ameaças delas. Minha mãe gostava do assunto, que era especialmente focalizado nas
visitas à casa do Cel. Felinto Rêgo, chefe político local, prefeito municipal algumas
vezes. Lembro-me da animação de minha mãe e das outras professoras ao saber que as
mulheres poderiam “votar”. Era o alvoroço das eleições para a constituinte, que a

290
revolução paulista cobrara do governo provisório do esperto Getúlio Vargas, cuja visita
do Piauí ocorreria no final de 1933 quando Teresina assistiria a primeira visita de
aviões. E felizmente eu já estaria lá para presenciar o acontecimento.
Mas, antes de chegar a Teresina, o final do ano letivo me reservava mais uma
penitência “teatral”. Desta vez, a coisa era ainda mais séria. Eu estava designado para
atuar num dueto onde eu seria um mascate “turco” tentando conquistar uma “baiana”:
Baiana – Eu sou a baiana do tabuleiro
Turco – Eu ser Nabi-Nabor
Baiana – Botando as mãos nas cadeiras
E gingando o corpo
Pra ver Yoyô
A menina assumia o canto e eu deveria apenas acompanhá-la fazendo o assédio,
pegando-a pela cintura, ela se esquivando... A menina que faria a “baiana” era uma
moreninha muito graciosa, lindinha mesmo, o que me deixava mais encabulado ainda.
Eu relutava, não queria. Lembravam-me o “sucesso” do ano anterior, o que era
pior... Conjecturava-se. Se eu não aceitasse teriam que recorrer a outra menina
travestida para fazer o “turco”. Eu achava ótima a idéia... Mas as professoras insistiam.
Estávamos nos ensaios quando a Providência Divina veio ao meu socorro. Um
telegrama da Parnaíba avisava que D. Júlia, minha avó, passaria de vapor pela União daí
a uns poucos dias. Uma luz de esperança brilhou no meu pensamento. Quando vi minha
avó no porto agarrei-me a ela e pedi para que ela me levasse. As aulas já haviam
terminado... Eu partiria com ela e Lourdinha que acompanhava. Mamãe iria logo mais
pelo caminhão do Zuca Lopes. Estava salvo!
Minha avó havia ido visitar tia Gersila na Parnaíba e recebera notícia das irmãs
de que o forte “inverno” que sucedeu a seca do ano anterior havia feito desabar o oitão
da sua casa. O primo Amandino havia passado a dormir na casa mas urgia que ela
voltasse para providenciar as obras de reparação. Assim ela obstinou-se em tomar o
primeiro vapor. Como este estivesse lotado ela veio numa das barcas do comboio, o que
me parecia mais excitante ainda. Viajar naquela barcaça, com as redes armadas sobre os
sacos de babaçu e caixas de mercadorias parecia bom para brincar.
De fato a viagem teve um duplo aspecto. Durante o dia era gostoso apreciar os
movimentos das barcas a reboque do vapor, zigzagueando de margem a margem do rio.

291
Agradava-me, sobretudo quando à margem havia aqueles morrotes avermelhados.
Quando a barca passava rente a eles podia-se ver aqueles sulcos e listras que a água do
rio escavava naquelas pedras (arenitos). Mas quando caia a noite, vinham as nuvens de
muriçocas que eram uma verdadeira maldição! Eram tantas que entravam pela boca,
além de picar e – o que era pior – aquele maldito zumbido. Desde então passei a ter ódio
mortal aos insetos picadores que, todos eles, tem-se mostrado sempre fortemente
atraídos pelo meu sangue.
Chegados a Teresina fomos para a Casa da Dinda. O oitão havia ruído, deixando
a casa desprotegida. Felizmente ele dava para o pomar onde havia as goiabeiras. Dinda
e Yayá tinham a companhia do sobrinho Amandino, jovenzinho ainda. Antonio já havia
par tido para o Rio de Janeiro. Minha avó providenciava para levantar a parede caída,
obra que era atrapalhada pelas chuvas ainda intensas. A noite sentávamo-nos a calçada
da casa da Dinda. Nesta época ainda não havia calçamento naquela parte da rua da
Glória e as águas das chuvas formavam largas poças dágua onde os sapos coaxavam.
Amandino distraia-se em improvisar, com tijolos e taboas, pinguelas para que os
transeuntes pudessem atravessar aquelas verdadeiras lagoas sem molhar os sapatos.
Mas, as vezes, ele montava verdadeiras “armadilhas” para pegar os incautos. Isto
acontecia nas noites de domingo, depois das nove horas quando as famílias e moças já
haviam tomado o caminho de casa e restavam apenas os rapazes que se retardavam
ainda na Praça Rio Branco ou provinham “da zona” das casas de mulheres da vida...
Para estes ele preparava, ardilosamente, tijolos em falsa ou precária posição que,
armados bem no meio da lagoa, lançavam os desprevenidos na lama... Enquanto isso
Amandino, se torcia de tanto rir.
Embora encontre referências que a visita de Getúlio Vargas à Teresina, deu-se
em 1933164 não consegui elementos para precisar a data. O que é certo é que eu estava
em Teresina o que significa que, se não foi nas férias de julho foi no final do ano. O
evento ficou marcado nem tanto pelo “Presidente” mas, acima de tudo, pela chegada de
aviões na capital. Desde 1929 Parnaíba já recebera hidroaviões de linhas comerciais
mas, para a capital, seria a primeira vez, o que ficou marcado na memória da cidade.

164
Não pude deter-me na coleção de jornais dos anos trinta em minha pesquisa na Casa de Anísio Brito
(1990).

292
Recordo a impaciência ante a expectativa, até o momento em que a esquadrilha
rasgou o céu. Havia-se preparado um campo de aterrissagem e um hangar onde, após,
seria localizado o primeiro aeroporto. Um dos pilotos dizia-se, era um Piauiense da
família Oliveira (Antonio Oliveira ?) do Campo Maior, que viria a falecer em desatre
aéreo não muito tempo depois da visita presidencial. Getúlio hospedou-se no palacete
de residência do Dr. Freire de Andrade165. Lembro-me que à noite, saímos para ver a
Avenida Antonino Freire engalanada e a bela iluminação em lâmpadas de cores dos
jardins do Palácio do Karnak onde houve recepção e banquete.
Há uma foto no álbum de família onde eu estou ao lado de minhas tias Dulce e
Zeneide, na Praça Rio Branco, onde elas estão portanto nas mãos calendários (folhinhas
como chamávamos) do ano novo, brinde das Casas Pernambucanas. Estas mudaram o
nome de Paulista para Pernambucanas, no ano de 1932.
A passagem de 1933 para 1934 foi agitada, culminando no Carnaval, um dos
mais animados de que se tem memória. No ano anterior havia feito o maior sucesso a
“Linda Morena”, marchinha de Lamartini Babo. A primeira metade dos anos trinta foi a
época em que o Carnaval Carioca conquistou o Brasil com as maiores safras de músicas
dos compositores mais notáveis. Ao lado da linda morena cujo olhar suplantava o brilho
da lua cheia, havia outras belíssimas: “Até amanhã” e “Fita Amarela” (Noel Rosa);
“Formosa” (Nasara & J. Rui); “Good by, boy (Assis Valente); “Segura esta Mulher”
(Ary Barroso); “Arrasta a Sandália” (Oswaldo Vasques).
Agora em 1934, o Braguinha (João de Barro) lançava a “Linda Loirinha”, cuja
introdução ficou marcada como uma espécie de hino carnavalesco repetido por muitos
anos afora.
Lourinha, lourinha!
De olhos claros de cristal
Desta vez em vez da moreninha
Serás a rainha do meu carnaval!
Esta marchinha era a marca de um numeroso e animadíssimo cordão
carnavalesco, composto por moças da sociedade, que animou loucamente os bailes do
Clube dos Diários. Lembro que nossa prima, Julinha (Gomes Ferreira) fez parte dele.

165
Que passaria ao Cel. Bartholomeu Vasconcellos quando o Dr. Freire mudou-se para o Rio, onde foi,
por muitos anos, deputado federal. Ainda hoje está de pé o palacete localizado à esquina da Avenida
Antonino Freire com a Praça D. Pedro II.

293
Este bloco, animadíssimo, contrastava e rivalizava com um outro bloco de moças mais
sofisticadas, bem menos numeroso, que era liderado pelas moças da família Paz, que
residiam numa bela casa na rua Grande, fronteira ao Clube dos Diários. Era um
contraste entre o aristocrático (ou pretenso) e o médio, mais popular. Também desse ano
foram as músicas “O Orvalho vem Caindo” (Noel Rosa) e o “Agora é Cinza”
(Alcebíades Barcelos & Armando Marçal).
A música “Ri de Palhaço” de Lamartine Babo teve especial significado para
mim. Eu que me safara de representar o “turco” na festa de fim de ano do grupo escolar
da União, não escapei da fantasia de palhaço, sugerida por esta música, e copiada de
modelo publicado na revista “Vida Doméstica”. Puzeram-me – minha mãe e tias – com
o traje colorido de palhaço, cheio de guisos barulhentos, com pintura na face, “grain de
beauté” e tudo o mais. Lá fomos nós para a matinê infantil do Clube dos Diários no
domingo. Como eu não me animava e permanecia macambuzio, envergonhado, ocorreu
a minha mãe colocar-me a frente de um bloco de meninas organizado por D. Yayá (Sra.
José Alves da Silva) juntando a suas filhas Celeste e Alair outras meninas da idade
delas. De repente vi-me envolvido no meio de um pandemônio, sem poder acompanhar
a animação e o ritmo do bloco. Perdi-me no meio do salão chorando, atordoado até ser
socorrido por uma das filhas do Dr. Tote e D. Reçú Carvalho. Suas filhas tinham nomes
de flores: Amarilis, Gardênia, Edelweiss ... acho que a minha salvadora foi a Eglantine.
D. Reçú Carvalho era uma senhora muito especial. Tocava Bandolim e sua casa,
cheia de moças e rapazes era muito animada. Era o que se poderia taxar de uma
“agitadora cultural” ou uma “locomotiva” da sociedade teresinense naquela época.
Organizava as quermesses da Igreja do Amparo, festas juninas na Praça Rio Branco,
Caravana de Reis, Blocos Carnavalescos e muitas outras atividades. Ao final dos anos
trinta a família Carvalho mudou-se para o Rio de Janeiro. Havia, se bem me lembro,
dois rapazes. Um deles o Tony, era promotor público em Porto Alegre onde foi
assassinado. Talvez esse fato tenha pesado para a decisão da mudança da família. O
outro era o João Tote que se casou no Rio, com uma carioca, o pai da cantora Beth
Carvalho.
Depois da fuga do “drama” na União e deste fiasco carnavalesco, ficou bem
claro que meu temperamento não tinha a necessária dose de extroversão para o palco ou
para a folia de momo. Fui dado como irremediavelmente tímido e acanhado e que não

294
se devia insistir. Fui, assim, liberado desses suplícios. Embora o teatro e o carnaval
tenham sido grandes paixões minhas pela vida afora... mas, na condição de espectador.
Talvez Lenha sido no final de 1933, com formatura no início de 1934, que
minha tia Zeneide tenha concluído o curso Normal. Após o que candidatou-se a
principiar a carreira de professora primária, com esperança de principiar pela Parnaíba,
para ficar com as irmãs que já estavam lá. Lembro-me bem que uma manhã, em seguida
a uma noite animada em que havíamos acompanhado a caravana de Santos Reis em sua
passagem por várias casas – finalizando nosso acompanhamento na casa das irmãs do
Dr. Miguel Rosa (Déa e Didita) – Zeneide saiu toda animada, cantarolando a música do
terno de Reis, e voltou chorando. Havia sido nomeada para Porto Alegre, uma pequena
cidade à beira do rio Parnaíba. Não conseguira sê-lo para a cidade da Parnaíba.
Minha avó procurou consolá-la, dizendo que Porto Alegre não era longe da
Parnaíba e foi logo tratar de resolver o problema do seu alojamento na cidadezinha.
Ocorreu-lhe recorrer ao Sr. Ferreira, o irmão das musicistas da União, que exercia ali
um cargo público não me lembro o qual, talvez coletor ou escrivão da justiça.
Assim o ano de 1934 apresentava-se com outras perspectivas para D. Júlia.
Considerando que Dulce estava com Gersila, na Parnaíba, e que Zeneide ia para Porto
Alegre, restava-lhe ficar só, embora perto das irmãs. Mas as despesas com o
levantamento do oitão da casa e outros reparos pesara muito nos seus já escassos
recursos. Assim, pareceu mais acertado, alugar a casa da rua da Glória e ir ficar com
Gracildes na União. Eu adorei a idéia pois além do Ler minha avó teria também a
companhia da Lourdinha, que também iria para o grupo escolar “Fenelon Castello
Branco”.
Depois da casa dos tios Afonso-Honorina e dos primos Antonio João-Finuca,
minha mãe resolveu alugar uma casa na União e o fez na própria rua dos oitizeiros
frondosos, na mesma quadra da casa de Antonio João e bem próxima ao Grupo Escolar.
A casa pertencia àquela prima de minha avó, a Herminia, filha do tio Avelino
Gonçalves Dias e irmã do Antonio Gonçalves Dias Primo, de quem tia Hortênsia era
viúva.
Herminia era viúva. Perdera a única filha que se chamava Celeste e que fora
casada com o Sr. Ditmar Corrêa. A morte da filha a perturbara muito e desde então ela
flutuava entre crises de depressão, quando emudecia, e fazes de grande excitação,

295
quando falava sem parar. Talvez fosse de uma idade mais avançada que a de minha avó,
contudo não muito. Ambas assemelhavam-se no pentear os longos cabelos em coque e
usar saias ao pé como na virada do século. A casa do Herminia era uma morada inteira,
não muito grande, com dois quartos fronteiros, sala de jantar avarandada e um pátio
interno onde havia um poço e um tanque. Nela nos arranjamos com nossas redes, baús
de minha avó, o número indispensável de móveis – comprados uns, emprestados outros
– e louças e utensílios trazidos de Teresina. Foi um tempo bom o da passagem por essa
casa, do qual retive muitas lembranças.
Aquela rua, a que eu chamo “dos oitizeiros” por não saber-lhe o nome, era muito
agradável pela sombra daquelas grandes árvores, cujos galhos e folhas farfalhavam ao
sopro da brisa que vinha do rio para os morrotes que rodeavam a cidadezinha. O chão
estava permanentemente coberto de pequenas folhas e, em certa época, pelos frutos de
polpa amarelo açafrão e odor um tanto doce e enjoativo.
Do outro lado da rua, daquele onde havia o renque dos oitis, e mais para o lado
da matriz, moravam uns irmãos celibatários da família Lobão. O Sr. Elmo vivia com
duas irmãs, cujos nomes não me recordo mas que eram conheci das na cidade como “as
Lobãozinhas”. Numa família de muitas tias avós, fui logo atraído por aquela casa, onde
as senhoras me apreciavam e me faziam agrados. Muito habilidosas, faziam “bichinhos”
com as folhas do oitizeiro, o que me encantava. Faziam também bonecas de canarana.
Aproveitavam um junco, um capim aquático da beira do rio Parnaíba, muito apreciado
pelo gado, que, mais ou menos semelhante à cana-de-açúcar, tem por dentro da casca
verde uma polpa macia e flexível, fácil de trabalhar. Aquelas bondosas senhoras faziam
com a polpa da canarana umas lindas bonecas, que pintavam de anilina, ou tinta, saída
do papel de seda molhado. As bonecas em vez de crianças eram “mocinhas” muito
enfeitadas e coloridas. Esse tipo de artesanato típico das margens do Parnaíba eu iria
rever, muitos anos depois nas Feiras da Providência do Rio e de Brasília, nas barracas
do Piauí, lá pelos anos sessenta. Mas desapareceram. Não sei se ainda existe quem faça
esse artesanato, muito decorativo, na própria União.
Na esquina da praça, e do mesmo lado das Lobãozinhas, havia a casa do Sr.
Mathias que era casado com uma senhora da família Rêgo Monteiro e onde havia muitas
crianças. Do lado oposto, que era o nosso, além da casa do Antonio João, havia a casa da
Herminia, que vivia com umas crias de casa e ia muito a nossa casa conversar com D.

296
Júlia, sua prima. Uma senhora viúva com uma neta moça, muito dengosa, chamada
América, que dava uns chiliques. Ao lado da nossa, na esquina emparelhada com aquelas
de Seu Mathias havia a casa de D. Loló Corrêa. D. Loló era mãe de uma série de homens,
alguns deles de destaque na vida pública, como o Sr. Syzifo Corrêa – casado com
Herotildes Costa Pereira, irmã de D. Zuzu Freire, a grande amiga de minha avó, e que era
alto funcionário da fazenda. Os Sr. Aribert e Ditmar eram comerciantes na praça da
União; o Sr. Estevam, tinha uma função pública mas era problemático por causa da
bebida, que resultou em sua separação da esposa D. Bella Rezende, da sociedade de
Periperi. O Sr. Estevinho era o pai do Dr. Antonio Maria Corrêa, um grande médico
obstetra da Teresina dos anos trinta e quarenta que foi também prócer político de destaque
deputado federal. Além do que, já amigo da casa de D. Júlia, quando estudante em
Teresina, foi um grande amigo de meus pais. D. Loló tinha duas filhas mulheres. Uma
delas, D. Cecy era esposa do Dr. Jóca (João Pires da) Motta, das Barras, radicado na
União, e que viria a falecer naquele ano. Uma outra filha, nervosa, vivia com ela.
Também D. Loló tornou-se outra velhinha amiga do menino Carlos Augusto a
quem ela agradava com bolos e guloseimas de sua casa. Quando eu me ausentava de
casa para algum passeio com minha mãe e as professoras do grupo escolar ela
perguntava a minha avó, por cima do muro. – “D. Júlia, a casa está tão silenciosa. O
“padre” está viajando? Ouço apenas a voz do “sacristão”. O que aconteceu?
O “padre” era eu e meu sacristão era a Lourdinha. Pelo avarandado ou no pátio
interno, perto do poço, eu armava o altar com caixas de sapatos, toalhas de papel
cortado, imagens de santinhos que o padre me dava no catecismo. E eu sabia de cor o
“Tantum ergo” e muitos outros cânticos da missa naturalmente em latim. Muitas partes
da missa eu sabia e ensinava ao “sacristão” para me dar a resposta. As cerimônias
religiosas, as celebrações litúrgicas me encantavam e eu procurava reproduzi-las em
casa. Ainda hoje, afloram à minha memória trechos inteiros das melopeas:

Tantum ergo Sacraméntum. Genitóri, genitóque


Venerémur cérnui Laus et jubilátio
Et antíquun documéntum Salus, honor, virtus quoque
Novo cedat rítui Sit et benedíctio
Praestet fides suppleméntum Procedénti ab utróque
Sénsum deféctui Comparsit laudátio
AMEN

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E, como um papagaio, eu repetia os versos latinos, sem saber o significado mas
encantado com a sonoridade. E estava longe de imaginar que o autor era Santo Tomás
de Aquino (as duas últimas estrofes de um longo poema).
O mês de maio era especialmente bonito pois havia a coroação de Nossa
Senhora, Um dos altares laterais, cheio de flores de papel crepom, com um grupo de
meninas (não sei porque os meninos eram excluídos) vestidas de anjo, cantavam
Aceita Maria, dos Anjos Senhora,
Esta grinalda de cravos e rosas
Com que nós queremos a fronte cingir-te...
Um dia, na hora do ensaio o altar pegou fogo com as flores de papel roçando nas
velas acesas. Foi uma correria... Mas felizmente extinguiu-se prontamente o incêndio e
a coroação teve lugar, mesmo com o altar sujo de fuligem e os anjos um tanto
atemorizados.
Triste era a via-sacra, onde se cantava:

“A morrer crucificado
Teu Jesus foi condenado
Por teus crimes pecador...”

E eu me assustava. Qual teria sido o meu crime e a minha parte na morte do


Cristo ocorrida há tantos séculos atrás? Explicavam-me que os “criminosos pecadores”
éramos todos nós, em todos os tempos, a humanidade toda. Um conceito difícil de
entender... sobrava apenas a minha parte, que eu esperava fosse pequena e pela qual
pedia perdão. A música era tão triste que dava um nó na garganta.
O melhor de tudo era a festa de São Raimundo Nonato que era tão bonita,
arrumada e alegre com música, bandeirinhas e foguetes. A novena dentro da Igreja com
os grandes rezando e a molecada, no adro, brincando. O leilão era animado, o leiloeiro
gritava a prenda e os arrematantes as disputavam aumentando os lances para ajudar a
Igreja.
Naquele ano (1934) a barraca das professoras fizera muito sucesso na quermesse
de São Raimundo. Ficou uma fotografia onde minha mãe, as outras professoras e
algumas moças da cidade, aparecem vestidas de “bonecas” em frente a barraca enfeitada
de palmas de babaçu e flores de papel.

298
O pároco da União, quando chegamos era o Padre Acelino Portela, de meia
idade. Mas naquele ano em que nos instalamos com minha avó, o vigário passara a ser
um padre mocinho: Pe. Cicero Santos, um belo moço de família importante dos Picos,
irmão do Coronel Chico Santos, um importante chefe político do sul do Estado. Logo o
Padre Cicero tornou-se muito bem quisto e muito popular, embora sua juventude e a
liberalidade de suas atitudes, tão diferentes daquelas do Padre Acelino, chocasse
algumas das pessoas mais velhas.
Minha mãe, integrava-se bem à vida da cidade pequena, fazia muitas amizades e
aderia à vida religiosa. Na União ela entrou para a irmandade de N.S. do Perpétuo
Socorro, que usava uma fita (se não me engano), verde e branca. Como era casada, com
filho, não poderia ser “filha de Maria”, privilégio das donzelas. Também, por não ter o
marido ao lado, não podia integrar-se com as senhoras casadas como Zeladora do
Coração de Jesus, como era a praxe. Era uma situação difícil a de minha mãe, nos seus
29 anos, criando um filho e com marido ausente. Era um meio termo difícil de conduzir
mas que ela, com seu temperamento afável e sua simpatia, conseguia superar. As
pessoas gostavam dela e lamentavam que uma moça tão boa, bonita e distinta se houve
casado com um maluco que não ligava nem para o filho...
Naquele ano, aos meus sete de idade, eu faria a primeira comunhão, que foi
seguida de uma segunda e se interrompeu para não mais se repetir. O catecismo – FTD,
de perguntas e respostas – era algo de difícil para uma criança, que se via a decorar sem
entender. Havia dogmas e mistérios. Mas não era esse o problema. Eu pressentia que o
“mistério” era algo que assentava bem ao divino e talvez lhe fosse até mesmo
indispensável. Eu não punha em dúvida o valor da confissão nem o sentido da
comunhão. Muito longe do conhecer o sentido antropológico da “transubstanciação”
praticada por várias culturas, incluindo as primitivas (canibalismo, por exemplo) eu
achava, naquela idade, que era algo de muito importante. O que me decepcionou foi a
ruptura produzida pelo atropelo e informalidade de que se revestiu o ato da confissão.
Naturalmente que, no atropelo da festa, com a participação de vários padres de
fora, que vinham colaborar batizando, casando e dando comunhão a tanta gente, fosse
ser dispensada uma atenção especial as crianças da primeira comunhão. Eu me havia
preparado com capricho para receber o “sacramento”. No exame de consciência, fiz o
rol mais completo possível de todas as “malcriações” que eu pudesse ter cometido...

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pois que naquele então eu ainda era absolutamente inocente e não podia ter “maus
pensamentos”... Cai no confessionário com um padre estranho que não me prestou
atenção, murmurou alguma coisa, me “absolveu” e me passou uma penitência que eu,
na decepção, esqueci qual fora. Tantas ave-marias no altar lateral... quantas seriam? Por
via das dúvidas rezei um número maior do que poderia me ter sido imposto... Na hora
de receber a hóstia consagrada, no dia seguinte, pareceu-me que eu o estava fazendo
indevidamente, que eu não me havia “purificado” para receber o corpo de Cristo. Mas
sabia que a culpa não havia sido minha... No dia seguinte, foi facultado aos primeiros
comungantes, recebê-la outra vez. Minha mãe me remeteu, com outras crianças para a
missa da comunhão e eu – mais constrangido ainda – recebi a comunhão pela segunda
vez.
A partir daí, achei que se a confissão fora tão mal feita – e até dispensada, da
segunda vez – não valia a pena comungar mais. Era até uma falta de respeito... Minha
mãe não insistiu. Eu contei a ela a minha razão. Ela disse que o Padre sabia que eu era
uma criança pequena não podia ter pecado grave, que era um bom menino, não era
ofensa a Deus comungar. Mas, daí por diante, sugeria mas não insistia. Minha avó, que
“não era muito chegada a padres” achava graça. A lembrança do “maligno” Padre Lopes
a afastaria definitivamente da igreja. Sua fé católica, mesclava-se ao espiritismo, e suas
orações a Deus e aos Santos eram feitas em casa. Ela me punha a rezar antes de dormir.
Um Padre Nosso seguido de Ave Maria eram do ritual, acompanhado de alguma
jaculatória infantil como esta:
Com Deus me deito
Com Deus me levanto
Com a graça da Santíssima Família
E do Divino Espírito Santo.
ou esta outra:
Jesus Menino, cordeiro manso
Fazei o meu coração brando e humilde
Semelhante ao Vosso!

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CARLOS AUGUSTO
Foto tomadas quando de sua entrada no grupo escolar, aos 5 anos (1932) e em sua primeira comunhão, aos 7 anos (1934) na UNIÃO.

301
Fotos tomadas em Teresina, no Estúdio Belga.
O anticlericalismo de D. Júlia Figueiredo não era radical. O Padre Cicero soube
conquistá-la. Ela não ia às missas. Ao chegar, visitara a igreja e fizera suas orações. Mas
não praticava os cultos. Ela expunha ao jovem sacerdote seu ponto de vista, a marca que
lhe deixara a questão religiosa contra a Maçonaria e o assassinato do seu marido. A
nossa casa não era longe da igreja e da casa paroquial. D. Júlia preparava chás e tizanas
para o Pe. Cicero quando ele estava gripado. Era um afeto pessoal, sem vínculo
religioso.
Na praça, havia várias famílias de nossas relações. Além do Cel. Nereu Lobão e
tia Noca, havia do lado de cá, a família do Sr. Fausto Costa. Irmão do Sr. Gervásio
Costa, um rico comerciante de Novo Nilo – um povoado próximo a União, entre esta e a
cidade de Miguel Alves e Walfrido Costa, também comerciante na União. Fausto era
casado com Onesina Mendes que tinha uma relação de parentesco com o Major Gerson,
que eu não sei bem qual fosse, mas da mesma pequena cidade, as relações familiares
são sempre imbricadas. Maria Mendes, irmã solteira de Onesina era muito amiga de
minha mãe. Era musicista e participante, com as Ferreira, da vida musical da cidade e da
Igreja. Tocava bandolim e era entendida em teoria musical, dando aulas também.
Não era raro que Maria viesse a nossa casa, com professoras do grupo, casadas e
solteiras, e que fizessem música. Minha mãe, por essa época estudava bandolim pois
dentre os presentes que o tio Sinhô mandava, anualmente, de Belém do Pará, viera, uma
vez, um belo bandolim para a sobrinha, filha mais velha de Júlia. E um violino para
Dulce. Esta não demonstrou o menor interesse e D. Júlia vendeu o instrumento.
Gracildes tentou o seu bandolim. Em Teresina ela tomava aulas com uma senhora D.
Alzira, que, por tocar bandolim nas festas, foi alcunhada de Alzira Forró, apelido que a
ofendia. Lembro-me da atenção que eu me via obrigado a ter para não deixar escapulir
para D. Alzira o seu detestado apelido. “Mamãe, D. Alzira chegou para a lição”, dizia
eu da porta da rua quando a professora chegava. E ficava imaginando o que poderia
acontecer se eu deixasse escapar o “Forró”. Seria certamente uma coisa muito má,
ofender a senhora e eu não tinha a audácia de fazê-lo. Na União, Maria Mendes dava
lições de bandolim à minha mãe que, na verdade, não era dotada para a música. Com
dificuldade arranhava uma valsa muito em voga que se chamava “Momentos Felizes”.
Maria Mendes sim é que tocava bem, com todos aqueles trinados do bandolim, que era

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o instrumento musical mais em voga junto às moças de família que não tinham recursos
para ter um piano, o mais nobre dos instrumentos.
Uma dessas reuniões musicais ocorreu no aniversário de minha mãe a 27 de
agosto, o seu 29º. Embora não me tenha ficado lembrança disto, ficou nos anais da
família a minha intromissão no meio da festa:
– Vocês estão tocando e cantando? – Hoje foi o sétimo dia da morte da filha de
D. Lol