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A bicicleta de Lévi-Strauss1

PATRICE MANIGLIER
TRADUÇÃO: DANIEL CALAZANS PIERRI, LUÍSA VALENTINI E RONALDO MANZI FILHO
REVISÃO TÉCNICA: RENATO SZTUTMAN

resumo1 Apontou-se freqüentemente na an- de uma forma de união civil para os casais de
tropologia simbólica a sua negação da política e a mesmo sexo poderia ser contrária à ordem sim-
sua maneira de reduzir as violências sociais e históri- bólica, isto é, suscetível de tornar os homens e
cas a restrições gramaticais. Este artigo mostra que, as mulheres do país que a permitisse simples-
pelo contrário, é pela mesma razão que o homem mente incapazes de dar sentido à própria exis-
é um animal simbólico e é um animal político. Se, tência, reduzindo-os seja à animalidade, seja
com efeito, a noção de sistema simbólico implica à vizinhança da loucura. Antropólogos de re-
um espaço finito de possibilidades determinadas nome como Françoise Héritier ou Marc Augé,
umas em relação às outras, podemos mostrar que numerosos psicanalistas quase anônimos, juris-
o tipo de sistematicidade que as caracteriza impli- tas heterodoxos como Pierre Legendre, e enfim
ca sempre uma possibilidade supranumerária, que toda uma corte de espíritos da fina flor das ci-
só pode ser atualizada por um “ato”. Que o sujeito ências humanas que se queriam esclarecidos e
não seja o mestre dos seus signos não significa que a informados, nutridos de Lacan e de estrutura-
liberdade seja apenas uma ilusão, mas sim que ela é lismo, puseram-se a opor o conceito de “função
real, inerente a essas realidades muito singulares que simbólica” às reivindicações por mais igualda-
são os signos e às operações que os fazem advir. Li- de e liberdade. Viu-se mesmo certos deputados
berdade objetiva que consiste antes em fazer advir as brandirem como as duas referências maiores
possibilidades do mundo que em realizar nele seus contra tais excessos da modernidade a Bíblia de
ideais, mas finita, pois é sempre a do deslocamen- um lado, e As Estruturas Elementares do Paren-
to de uma limitação de possibilidades a uma outra. tesco de Claude Lévi-Strauss, do outro.
Assim a antropologia se mostra como aquilo que Esses usos recentes da noção de “ordem
jamais deixou de ser: uma ciência moral. simbólica” pareceram retrospectivamente dar
palavras-chave Semiologia. Violência. Lévi- razão àqueles que, desde os anos 50, denun-
Strauss. Estruturalismo. Filosofia. ciavam na antropologia simbólica de Claude
Lévi-Strauss uma perigosa obliteração do polí-
tico2. A acusação é conhecida: Lévi-Strauss teria
Um fenômeno curioso se produziu na Fran- prolongado a denegação do caráter conflituoso
ça nos últimos anos. Um conceito profunda- da vida social, própria a toda tradição socioló-
mente especulativo, bastante obscuro, inclusive gica durkheimiana, ao apresentar, na linha de
aos especialistas, e ligado a um projeto ainda Mauss, a vida social como um jogo de reciproci-
incerto de redefinição das ciências humanas, dade, explicitamente fundado na solidariedade
ganhou destaque na cena política e midiática e não na luta. Mas ele teria ido ainda mais lon-
como uma resposta a questões cotidianas com ge na denegação do político ao considerar essa
as quais todos nos deparamos a respeito das reciprocidade como uma troca simbólica, e por-
formas legais do amor, do casal, da filiação e tanto, as regras sociais como quaisquer outros
da reprodução. Disse-se, assim, que a criação jogos de comunicação. O simples uso do mo-

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delo lingüístico recalcaria naturalmente toda a finito de possibilidades, sua delimitação não se
dimensão de coerção ou de violência própria faz menos equívoca, habitada por um tremor
à vida social por trás da máscara inofensiva da no qual o impossível se redefine. Além dis-
gramática. Se o parentesco é uma linguagem, a so, por esse duplo movimento não ser jamais
proibição do incesto, assim como todas as “re- automático, ele não pode ser efetuado senão
gras” do parentesco, freqüentemente tão bru- por um ato. Que o sujeito não seja o mestre
tais, não são apenas interdições ou obrigações: dos seus signos mas, ao contrário, que as res-
são antes de tudo, como regras lógicas, mate- trições da simbolização determinem o espaço
máticas ou lingüísticas, meios de se entender. A de suas possibilidades e mesmo o lugar de sua
proibição do incesto, posta como condição da irrupção, isso não significa que a liberdade seja
cultura, faria de um interdito particular a con- apenas uma ilusão. Muito pelo contrário, ela
dição de todo pensamento. Assim, tendo dene- é real, ou seja, inerente a essas realidades mui-
gado o caráter político dos “jogos simbólicos” to singulares que são os signos e às operações
que estudava, a antropologia lévi-straussiana que os fazem advir. Uma liberdade objetiva que
deveria necessariamente passar desse desconhe- consiste antes em fazer advir as possibilidades
cimento da coerção efetiva a uma justificação do mundo que em realizar nele seus ideais. Mas
desses dispositivos coercitivos, precisamente uma liberdade finita, que é sempre a do des-
em nome de sua função simbólica. Pobre con- locamento de uma limitação de possibilidades
dição humana, dizia Balzac, nenhuma de suas a uma outra. Liberdade arriscada, enfim, que,
alegrias deixa de lhe vir da ignorância. Eis en- por estar acompanhada de representações dos
tão que, de tanto desconhecer a dimensão po- seus próprios limites, se vê tentada a confun-
lítica de seu objeto, a antropologia simbólica dir o impossível sempre em deslocamento que
demonstraria ao contrário, pelo seu próprio a condiciona com o interdito que lhe permite
exemplo, o caráter imperioso daquela, já que representar, no seio de um sistema de signos,
o saber antropológico mostrava-se ele próprio suas próprias fronteiras – culminando nisso
como nada mais que um simples meio político, que reconhecemos como a violência. Assim, a
de eficácia aliás bastante frágil. Lévi-Strauss, no antropologia simbólica aparecerá talvez como
entanto, tomou distância com relação a alguns isso que ela é: não apenas um formidável ins-
de seus discípulos, muito apressados em dar trumento para conhecer melhor as operações
uma lição a seus contemporâneos. E a história constitutivas dessas entidades incertas que são
é edificante: como se diz, bem feito pra eles... os signos, mas também uma ética exigente do
Ora, eu gostaria de mostrar aqui que, longe saber, dotada de uma consciência aguda dos
de estar destinada a desconhecer – e portanto riscos inerentes a toda empresa de representar
a servir – à violência, a antropologia simbóli- esses espaços de liberdade instáveis que são os
ca nos permite compreender como a violência diversos sistemas simbólicos.
está profundamente ligada à própria possibili-
dade de apreender essas idealidades estranhas
que são os signos. É talvez pela mesma razão 1. A finitude dos signos
que o homem é um animal simbólico e é um
animal político. Com efeito, uma das maiores Acusa-se em suma o projeto “semiológico”
contribuições da antropologia lévi-straussiana de reduzir todo interdito a um impossível, de
à semiologia geral consiste em pôr em evidên- pretender que se, por exemplo, pais e filhos não
cia que, se um sistema de signos é um espaço podem se casar, não é porque seja interdito, mas

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porque isso seria tão impossível quanto escre- de um diferencial de correção num espaço de
ver “2+3=29” acreditando realizar uma opera- possibilidades:
ção aritmética, ou dizer em francês uma frase
reduzida a um artigo definido. A tradição que A diferença entre espécie permitida e espécie
vem de Wittgenstein distingue as “regras cons- proibida se explica [...] pela preocupação de in-
titutivas”, que definem um jogo, e sem as quais troduzir uma distinção entre espécie ‘marcada’
o próprio jogo simplesmente não seria possível, (no sentido dado pelos lingüistas a esse termo)
das “regras prescritivas”, que interditam certos e espécie ‘não-marcada’. Proibir determinadas
atos. Assim dizia Wittgenstein: “Não se faz um espécies não é mais que um meio entre outros
gol no tênis”. Não porque seria fisicamente irre- de afirmá-las como significativas, e a regra prá-
alizável ou moralmente proibido, mas porque é tica aparece assim como um operador a serviço
absurdo. Seria pela mesma razão que não se faz do sentido, dentro de uma lógica que, sendo
um gol no tênis que, por exemplo, um casal do qualitativa, pode trabalhar com o auxílio tanto
mesmo sexo não pode fazer filhos. Questão de de comportamentos quanto de imagens (Lévi-
gramática, gramática do sexo ou do parentes- Strauss, [1962] 2005, p. 119).
co, mas, de todo modo, gramática... Ora, Jean-
Claude Milner, na sua Introdução à Ciência da Entretanto, não é assim tão simples. Certa-
Linguagem mostra que o estruturalismo redefi- mente, a própria definição de um sistema sim-
niu o que os lingüistas chamam de “gramatica- bólico segundo Lévi-Strauss é a de constituir
lidade” ou “agramaticalidade”, não mais como um espaço de possibilidades em número finito.
uma aplicação de regras, mas como a repartição Não, contudo, porque ele interdiria os outros,
da distinção do possível e do impossível sobre mas unicamente porque, limitando seu espaço,
as performances verbais dos indivíduos: “P é e definindo as possibilidades de ação umas rela-
possível, *P’ não é possível” (Milner, 1989, tivamente às outras, ele faz de toda efetuação de
p.55, 83)... O gramático, ao pôr em evidência uma dessas possibilidades um signo, definível
as regularidades na distribuição desse “diferen- em relação aos outros. Tomemos dois exemplos
cial de correção”, atesta que existe o impossível muito esquemáticos: quando um casal deter-
na língua, ou seja, alguma coisa que em si mes- minado se casa, é porque eu conheço aqueles
ma escapa ao sujeito, ou ainda ao real. Milner que poderiam ter se casado em seu lugar que
sustenta que não existe real senão na língua, em esse evento que é o casamento tem um sentido
outras palavras, que todas as outras “ciências ou é “informativo”:
humanas” não são ciências:
A ‘informação’ de um sistema de casamento é
As ciências humanas têm de se haver tipicamen- função do número de alternativas de que dispõe
te com realidades cujo cerceamento é paródia o observador para definir o status matrimonial
do impossível – enquanto a linguística aborda (quer dizer o de cônjuge possível, proibido ou
um real e não é por metáfora ou por bricolagem determinado) de um indivíduo qualquer, com
que ela pode dizer formalizá-lo (Milner, 1978, relação a um pretendente determinado (Lévi-
p. 44-45)3. Strauss, [1958] 1975, p. 339).

Já Lévi-Strauss parece estender a tentativa Da mesma forma, quando alguém relata


de reduzir a dimensão normativa da cultura à diante de mim um mito, eu não compreende-
distribuição daquilo que J.-C. Milner chama rei absolutamente nada do que ele me diz, a

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seqüência das palavras sensatas que ele utiliza não digo no real) a possibilidade que substitui.
não terá mais sentido para mim do que um dis- Ele virtualiza a natureza, replicando-a sobre si
curso em língua estrangeira, se eu não dispuser mesma, fazendo de seus diversos aspectos ecos
do “sistema mitológico virtual” que me permi- uns dos outros: o conhecimento que o pensa-
te saber sobre quais diferenças particulares o mento simbólico toma do mundo
narrador joga, e de que maneira ele altera, sem
necessariamente estar consciente disso, uma se assemelha ao que oferecem num quarto espe-
versão anterior do mito, ou mesmo um outro lhos fixos em paredes opostas e que se refletem
motivo etc. De fato, esse relato particular que um ao outro (assim como aos objetos colocados
este indivíduo está, aqui e agora, elaborando no espaço que os separa) mas sem serem rigo-
diante de mim, não é identificável, a não ser a rosamente paralelos. Forma-se simultaneamente
partir da exclusão dos outros, dos relatos que uma multidão de imagens, nenhuma das quais
ele poderia ter feito: “contar não é mais que re- é exatamente parecida com as outras; por con-
dizer um conto, o que se escreve também como seguinte, cada uma delas traz apenas um conhe-
contradizer” (Lévi-Strauss, 1971, p. 576)4. cimento parcial da decoração e do mobiliário,
Toda a fineza estratégica dos jogos simbólicos mas seu agrupamento se caracteriza por proprie-
decorre disso. dades invariantes que exprimem uma verdade
Em sua aula inaugural no Collège de Fran- (Lévi-Strauss, [1962] 2005, p. 291).
ce, sabemos que Lévi-Strauss retoma a defini-
ção de Peirce: um signo é “aquilo que substitui Esse sistema virtual é, no entanto, finito,
alguma coisa para alguém”. Mas o exemplo que pois os elementos devem estar definidos uns
ele deu não deixava de ser desconcertante: um relativamente aos outros, e não têm outra de-
machado de pedra pode ser um signo na me- finição a não ser uma definição relativa. Um
dida em que sistema onde “tudo é possível” seria portanto
efetivamente um sistema onde nada tem sen-
num determinado contexto, ele ocupa o lugar, tido. As linguagens, como teria dito Foucault,
para o observador capaz de compreender-lhe o são por natureza mortais.
uso, da ferramenta diferente que uma outra so-
ciedade empregaria para os mesmos fins (Lévi-
Strauss, [1973] 1976, p. 19). 2. O impossível impossível

Tal é o princípio mesmo do método posto Mas isso não significa de modo algum que
em operação nas Mitológicas, nas quais, a partir se possa definir absolutamente aquilo que é
de um mito dado, Lévi-Strauss percorre todo possível e aquilo que é impossível, enunciar as
o espaço geográfico dos mitos ameríndios. O restrições a priori para todo sistema simbólico
sistema simbólico é, portanto, ao mesmo tem- possível, e ainda menos que se possa identificar
po o que relaciona umas às outras as diversas uma configuração simbólica determinada com
“mensagens” possíveis no seio de uma mesma as condições mesmas da vida simbólica (como
“língua” e o que relacionam entre si as línguas. se tentou muitas vezes e abusivamente com o
Uma mensagem é por natureza traduzível, disse parentesco e a diferença dos sexos). Isso por
Lévi-Strauss na mesma lição. O sistema sim- uma razão que se deve àquilo que Lévi-Strauss,
bólico permite compreendermo-nos na medi- sem dúvida, tem de mais profundo a nos en-
da em que permite apreender no atual (e eu sinar quanto ao funcionamento simbólico: o

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fato de os sistemas simbólicos serem finitos não Entretanto não se trata, para Lévi-Strauss, de
significa que eles são fechados. Aliás, eles são mostrar que a teoria matemática dos grupos nos
tanto mais finitos quanto mais buscam tapar permite descrever as “operações” realizadas desde
a própria abertura que eles tornam possível. O sempre pelo pensamento simbólico. Pelo con-
impossível é sempre singular, porque implica trário, trata-se de buscar, na confrontação entre
sempre ao menos dois sistemas simbólicos e, esses dois exercícios simbólicos que são a forma-
assim, a determinação de ao menos um outro lização matemática e o discurso mítico, um meio
impossível. Lévi-Strauss dizia muito firmemen- para colocar em evidência seu fundo comum: o
te numa de suas últimas obras: pensamento selvagem. Pois o “reencadeamento”7
em andamento nos mitos faz intervir uma opera-
quanto mais se restringe o campo, mais diferen- ção especial, uma “torção supranumerária”, que
ças se encontram e é às relações entre essas di- consiste em que não se pode
ferenças que se ligam significações. Um estudo
comparativo dos mitos indo-europeus, america- fechar um ciclo de transformações senão por
nos, africanos, etc. é válido; uma mitologia de meio de um estágio que não é dado nos mitos
pretensão universal, não (Lévi-Strauss, [1991] que ilustram os outros estágios (Lévi-Strauss,
1993, p. 173). [1985] 1987, p. 76).

Antropologia comparada, sim; antropolo- Os exemplos dados por Lévi-Strauss são


gia universal, não. Não se trata aí de um argu- inumeráveis8. Mas era já a originalidade desse
mento de autoridade, mas de uma exigência de “reencadeamento” (quer dizer, desse modo de
coerência com uma certa metodologia e com “fazer sistema” ou de “fazer grupo”) que, desde
as premissas que a sustentam na sua própria 1955, Lévi-Strauss tentou apreender na céle-
prática5. bre “fórmula canônica” do mito, enunciada no
Todo sistema de signos é, com efeito, um artigo “A estrutura dos mitos” (reimpresso em
sistema de transformação ou de permutação, Lévi-Strauss, [1958] 1975), a fim de contribuir
uma vez que o que define um signo é preci- para aquilo que ele denominou durante muito
samente aquilo que ele substitui. Lévi-Strauss tempo como seu “materialismo dialético”. Dito
pesquisa, portanto, grupos de transformação. de outro modo, o que é próprio de tudo que
Um grupo de transformações se define na ma- faz sentido é estabelecer ciclos ou circuitos de
temática por quatro permutações, que permi- elementos que só se fecham por uma espécie
tem retornar ao primeiro termo com a ajuda de passe de mágica, de torção, de forçagem.
de duas operações cruzadas. Da mesma forma, Isso vale também para as organizações sociais.
várias versões de um mesmo mito (ou várias Num artigo de 1956 intitulado “As organiza-
fórmulas de parentesco) podem ser integradas ções dualistas existem?”, Lévi-Strauss também
num grupo se pudermos ordená-las colocou em evidência aquilo que poderia ha-
ver de rebuscado e, por assim dizer, de torcido
em uma série, formando uma espécie de grupo nos procedimentos lógicos utilizados por uma
de permutações, onde as variantes situadas em sociedade para se mostrar como uma totalida-
ambas as extremidades da série oferecem, uma de complementar e fechada, enquanto ela era,
em relação à outra, uma estrutura simétrica e na verdade, instável e hierárquica. Lévi-Strauss
inversa (Lévi-Strauss, [1958] 1975, p. 258)6. falava então em “subterfúgios lógicos” (Lévi-
Strauss [1958] 1975, p. 179).

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Tal forçagem repousa sobre a introdução, ciclo de quatro: como por efeito de uma derra-
na constituição de uma estrutura, de uma ou- pagem, ou melhor, de uma ação análoga àquela
tra estrutura. É por essa razão que todo mito de um câmbio de bicicleta, a cadeia lógica sal-
é a transformação de outro mito, e que toda ta e se engrena sobre o termo inicial do grupo
cultura abre-se para as outras: encaixado de ordem imediatamente inferior, e
assim sucessivamente até o último (Lévi-Strauss,
Longe de estar isolada das outras, cada uma das 1971, p. 581)9.
estruturas contém um desequilíbrio que só pode
ser compensado utilizando um termo tomado à Lévi-Strauss está consciente de que se tra-
estrutura adjacente (Lévi-Strauss, [1968] 2006, ta aí de sua própria contribuição à semiologia:
p. 322). “Transformações desse tipo constituem o fun-
damento de toda semiologia” [idem]10. Só elas
Assim, a tentativa de estabelecer o sistema permitem dar conta do fenômeno do sentido.
de variantes de um mito, por exemplo, deve Com efeito, ao contrário de uma estrutura
necessariamente recorrer a um outro mito, no sentido propriamente matemático (desen-
cujo sistema de variantes é preciso reconstruir, volvida particularmente na teoria “semântica”
o que permite definir o sistema desses sistemas, das teorias11), uma estrutura simbólica não po-
mas se deparando com a mesma restrição etc... deria se separar de suas interpretações: ela não
Certamente reconhecemos aí o programa das é senão o que permite estabelecer entre essas
Mitológicas. Enquanto n’As Estruturas Elemen- interpretações relações de transformação, de
tares do Parentesco Lévi-Strauss recorria à teoria simetria e de inversão, a preço de um desequi-
dos grupos para formalizar as estruturas em líbrio que consiste no fato de que uma de suas
operação no pensamento simbólico, parece que interpretações pertence ao grupo apenas em
nas Mitológicas trata-se, em conformidade com virtude de uma outra estrutura. Algo que te-
o programa d’O Pensamento Selvagem, de bus- nha sentido é, portanto, algo que não se “basta
car uma formalização que permita dar conta do a si mesmo como um ser de pleno direito”, mas
pensamento matemático como uma transfor- que implica, para existir (quer dizer, para ser
mação singular do pensamento simbólico. O identificável), um outro ser. É dessa maneira
que é próprio de uma estrutura é ser sempre que se deve interpretar a definição de Peirce.
“multi-estruturada”, como havia notado mui- O sentido não é nada mais que esse próprio
to precisamente Gilles Deleuze [1972]. O fi- deslocamento. Também se compreende que
nal d’O Homem Nu precisava isso claramente: esse sentido não seja “nunca o bom” (Lévi-
tendo lembrado o uso feito, ao longo de todas Strauss, [1962] 2005, p. 282), e que as super-
as Mitológicas, da noção de “grupo de Klein”, estruturas sejam “atos falhos que socialmente
Lévi-Strauss acrescentava: ‘tiveram êxito’”. Eu não sou o depositário do
próprio sentido daquilo que faço. Lévi-Strauss
Mas sublinhávamos também que esses grupos retoma assim a tese central de Saussure, aquela
não eram independentes uns dos outros, que que Hjelmslev tinha chamado biplaneidade, e
cada um não se bastava a si mesmo como um ser da qual ele havia feito a propriedade definidora
de pleno direito, como ele apareceria se pudésse- dos sistemas semióticos (Hjelmslev, 1971, p.
mos vê-lo sob um ângulo puramente formal. De 140-142): não podemos construir uma estru-
fato, a série ordenada das variantes não retorna tura sobre o plano do significante sem cons-
ao termo inicial após ter percorrido o primeiro truir ao mesmo tempo uma outra estrutura,

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que não é sobreponível, no plano do signifi- da qual ela precisa para se fechar, mas de que
cado, e vice-versa. Lévi-Strauss dá entretanto não pode se dar conta. Em toda exploração de
um passo a mais, mostrando que essa relação um problema, existe uma “solução” que se deve
se aplica por extensão aos diferentes sistemas integrar para poder considerar as diferentes so-
simbólicos, culturas ou línguas, que em conse- luções como alternativas umas das outras (para
qüência se interpretam uns aos outros ou são, constituir isso que chamaríamos em psicologia
uns para os outros, ora plano de expressão, ora cognitiva “o espaço do problema”), mas que na
plano de conteúdo12. A condição de todo pen- verdade não é nada além de uma outra maneira
samento é, portanto, precisamente a de impli- de tratar o problema ou, antes, a eventualidade
car a constituição simultânea de ao menos dois de um outro problema. É ao mesmo tempo,
sistemas de pensamento. por assim dizer, que um problema se resolve e
Podemos dizer as coisas de outro modo. que ele se abre para ser criticado. Compreende-
Todo sistema de possibilidades não pode por- se em conseqüência que duas populações po-
tanto se fechar senão introduzindo uma pos- dem ter um modo de “comunicação” que não
sibilidade da qual ela não pode se dar conta, se reduz nem ao simples diálogo nem ao puro
ou que a ultrapassa. Em um artigo intitulado mal-entendido. Elas são antes como as tantas
(precisamente) “Da possibilidade mítica à maneiras de se problematizar umas às outras...
existência social”, Lévi-Strauss expunha essa
tese de uma maneira bastante expressiva. Re-
tomando uma idéia já antiga, ele nos sugeria 3. A Entropologia
ver, nesse campo de virtualidades que é um sis-
tema simbólico, uma maneira de colocar um Assim, o impossível que se faz marcar em
problema considerando diferentes soluções, as um sistema de signos é ao mesmo tempo local e
“mensagens” possíveis se reportando umas às aberto. O que não quer dizer, novamente, que
outras como tantas soluções consideráveis para tudo seja possível ou que a história seja o in-
um problema quantas caberia ao antropólogo finito reservatório de possibilidades humanas,
reconstruir. Mas ele acrescenta: pois o que se chama uma possibilidade humana
é apenas uma maneira de passar de uma de-
No entanto, gostaria de chamar aqui a atenção terminação singular do impossível a uma ou-
para um caso intermediário, em que uma popu- tra, de uma “casa vazia”, para retomar o termo
lação consagra diversas versões de um dos seus de Lévi-Strauss, a uma outra, ou ainda, de um
mitos ao exame de diversas eventualidades, salvo “indecidível” a um outro:
uma, que estará em contradição com os dados
do problema que a defronta. Deixa então uma O que é próprio a todo mito é impedir que se
lacuna no quadro dos possíveis, permitindo a pare nele: vem sempre um momento, no curso
uma população vizinha, a quem não se põe o da análise, em que um problema se coloca e que,
mesmo problema, apropriar-se do mito e preen- para resolvê-lo, ele obriga a sair do círculo que
cher o espaço em branco (Lévi-Strauss, [1983] a análise havia traçado. O mesmo jogo de trans-
1986, p. 232). formações que permite levar uma à outra as se-
qüências de um mito dado se estende de forma
Dito de outro modo, em todo sistema de sig- quase automática à seqüência indecidível, mas
nos existe uma possibilidade que está incluída, mesmo assim redutível fora do mito a outras se-
mas unicamente sob o modo de sua exclusão, qüências indecidíveis, vindas de mitos para cujo

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assunto o mesmo problema se colocava (Lévi- que antes se caracterizava por uma defasagem
Strauss, 1971, p. 538)13. de informação, portanto, por uma organização
maior. Mais do que antropologia, teria que se
Essas observações fornecem um primeiro es- escrever ‘entropologia’, nome de uma disciplina
clarecimento sobre o “pessimismo” confessado dedicada a estudar em suas mais elevadas ma-
de Lévi-Strauss14, sua célebre crítica da noção nifestações esse processo de desintegração.(Lévi-
linear de progresso (Lévi-Strauss, 1987; Lévi- Strauss [1955] 1996, p. 391).
Strauss, 1955a; Lévi-Strauss, [1983] 1986),
sua desconfiança face à “política” como reali- Com efeito, a experiência etnográfica, exer-
zação do “sentido da história”, forma moderna cício de compreensão ampliada dos outros,
do mito (Lévi-Strauss, [1962] 2005, p.260). leva o sujeito a experimentar que “a verdade
É verdade que esse “pessimismo” parece antes está numa dilatação progressiva do sentido”
de tudo repousar sobre a demonstração de que (Lévi-Strauss, [1955] 1996, p. 390). É essa,
o caráter cumulativo dos conhecimentos e das aliás, a razão pela qual os Trópicos são tristes:
técnicas depende de coalizões de culturas, mas compreender melhor os outros, longe de enri-
não pode senão minar suas próprias condições, quecer a experiência do etnólogo, na realidade a
a saber, a diversidade cultural ela própria (cf. o empobrece, pois se ele participa de um número
modelo de coalizão de culturas em Lévi-Strauss, maior de experiências humanas, ele participa
1987). Dito de outra forma, ele não parece se menos intensamente de cada uma:
apoiar sobre uma tese que concerne ao próprio
processo simbólico: pelo contrário, há progres- Por um paradoxo singular, minha vida aven-
so quando as realizações humanas são extraídas tureira mais me devolvia o antigo universo do
dos universos simbólicos nos quais elas apa- que me abria um novo, ao passo que este que eu
recem, para serem colocadas em uma série na pretendera dissolvia-se entre meus dedos (Lévi-
qual elas não valem mais como elementos de Strauss, [1955] 1996, p. 356).
um sistema, mas etapas de um processo trans-
cultural. Outros textos são testemunho de que O fragmento da experiência anterior que
esse pessimismo se enraíza já em uma terceira retorna não é, no entanto, aquilo a que o etnó-
tese semiológica fundamental de Lévi-Strauss, grafo aderia mais fortemente, mas “a expressão
a saber, que todos os processos simbólicos “se mais convencional de uma civilização contra a
esgotam”, que, por assim dizer, as margens de qual, precisava de fato me convencer, eu ha-
manobra simbólicas não são apenas finitas, mas via optado” (idem) – no caso, uma melodia de
também sempre mais frágeis. Em suma, que a Chopin. Assim, a recompensa da viagem é a
“dessimbolização” está na própria natureza do experiência de um deslocamento interno à sua
fenômeno simbólico... Assim, concluía ele nas própria experiência que é também uma esque-
últimas páginas de Tristes Trópicos – flamejante matização de si [cf. Debaene, 2002]. É que,
crepúsculo dos homens onde as civilizações gi- longe de lhe permitir aderir a mais universos
ram numa meditação ébria que evoca as mais humanos, a viagem o desprende um pouco
belas páginas de Malcolm Lowry – dizendo: mais de toda adesão fervente a uma experiência
humana particular: não há outro efeito sensa-
Cada palavra trocada, cada linha impressa es- to a não ser relativizar todo sentido. Em sua
tabelecem uma comunicação entre os dois in- resposta a R. Caillois, Lévi-Strauss usou estas
terlocutores, tornando estacionário um nível palavras célebres:

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[O etnógrafo] não circula entre o país dos sel- próprio desaparecimento. Mas se é verdade
vagens e o dos civilizados: em qualquer sentido que toda experiência vivida não é nada além da
que vá, ele retorna dos mortos. Submetendo à transformação de uma outra, ou seja, é alguma
prova experiências sociais irredutíveis à sua, suas coisa que se distingue de outra, se de fato as
tradições e suas crenças, autopsiando sua socie- significações são puramente diferenciais (Lévi-
dade, ele está verdadeiramente morto para seu Strauss, [1968] 2006, p. 269], então está claro
mundo; e se ele consegue retornar, após ter re- que reconstruir o sistema de transformações no
organizado os membros desconjuntados de sua qual nossa experiência se insere e se define só
tradição cultural, ele continuará ainda assim um pode implicar uma perda de sentido. “Todo
ressuscitado (Lévi-Strauss, 1955a, p. 1217)15. sentido”, dizia Lévi-Strauss a Sartre, “é jurisdi-
cionado de um sentido menor que lhe fornece
Mas esse fracasso fundamental do enrique- seu sentido mais alto” (Lévi-Strauss, [1962]
cimento de si pela viagem que conta Tristes 2005, p. 283). O que se ganha em extensão,
Trópicos é precisamente a condição de abertura se perde em compreensão. No fim das contas
ao programa da antropologia simbólica. De de- parece que a única coisa que é universalmen-
cepção em decepção, à medida que o sentido se te compreensível para todo ser humano numa
“dilata” e fica mais pobre, o antropólogo com- outra experiência humana, não será outra coi-
preende que, quanto mais compreendemos sa senão a forma da compreensão, quer dizer,
os outros, mais compreendemos que não há da transformação dos conteúdos estruturados
nada mais a compreender senão o fato de que uns nos outros, o “espírito humano” enquanto
nos compreendemos mais ou menos. “Não há conjunto de mecanismos puramente formais
sentido por trás do sentido”, dizia Lévi-Strauss ou “vazios” que sustentam a diferenciação cul-
a Ricoeur (Lévi-Strauss, 1963): não há outra tural em geral e, conseqüentemente, a produ-
tarefa para o antropólogo senão mostrar por ção do sentido. No belo artigo que Lévi-Strauss
que – ou, mais exatamente, como os homens consagrou a Rousseau, ele o homenageou por
fazem para se compreender uns aos outros e ter mostrado que a objetivação da subjetivida-
compreender o mundo. O próprio método de que buscam as ciências humanas acaba por
antropológico consiste em primeiro lugar em redefinir cada experiência subjetiva como uma
fazer variar os coeficientes determinantes de possibilidade objetiva, na medida em que cada
sua própria experiência a fim de se pôr no lu- uma descobre só ser definida em relação às ou-
gar dos outros e compreender aquilo que eles tras. Eu me experimento como um outro entre os
compreendem e, em seguida, em reconstruir outros. Minha própria experiência – tanto aqui-
o sistema das transformações graças ao qual lo a que estou ligado como aquilo que rejeito,
esses dois sistemas se tornaram “mutuamente ou seja, o que tem sentido para mim – parece
convertíveis” (Lévi-Strauss, [1964] 2004, p. então só poder ser definido como uma simples
30). A significação não é nada além do “ope- emergência sobre o fundo de um pensamento
rador da reoganização do conjunto”, quer di- impessoal, evento ou acidente que chega não a
zer, o operador da própria transformação. Ela um “eu”, mas a um “ele”, esse “ele que se pen-
não pertence a um sistema: ela está sempre en- sa em mim, e que me faz primeiro duvidar de
tre dois. Melhor, ela é a passagem, ou seja, o que sou eu quem pensa” (Lévi-Strauss, [1973]
evento da dessistematização-ressistematização 1976, p. 45). Assim, quanto mais uma experi-
em que consiste o processo semiótico. Ela se ência humana encontra em si mesma os recur-
confunde, portanto, necessariamente com seu sos de sua abertura a outrem, mais ela se esvazia

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de determinação, para se tornar a experiência suas labutas, suas penas, seus gozos, suas espe-
da condição de toda experiência, quer dizer, da ranças e suas obras tornar-se-ão como se eles
construção de sistemas simbólicos que articu- jamais tivessem existido, não havendo mais aí
lam ao menos duas subjetividades. Portanto, a nenhuma consciência para preservar nem que
viagem é verdadeiramente aquilo que os filóso- fosse a lembrança desses movimentos efêmeros,
fos chamariam de experiência transcendental. exceto, por alguns traços rapidamente apagados
Essa experiência não é só a do antropólogo: de um mundo de face doravante impassível, a
as Mitológicas mostram que à medida que o espa- constatação ab-rogada de que eles teriam existi-
ço de interpretação dos mitos se amplia, que se do, o que quer dizer, nada (Lévi-Strauss, 1971,
introduz neles não só mitos de duas populações p. 621)16.
vizinhas, mas também enormes grupos de mitos
de dois continentes americanos, a estrutura se Porque a antropologia simbólica permite
torna mais pobre, mais geral, mais vazia. O jogo fazer aparecer o sentido não como a finalidade
dos mitos uns contra os outros faz aparecer pro- dos sistemas simbólicos, mas como o efeito de
cedimentos cada vez menos determinados pelos suas transformações, ela reintegra o homem na
próprios conteúdos míticos, e cada vez mais cla- natureza, ou seja, sobretudo no silêncio onde
ramente formuláveis em termos puramente for- as coisas advêm e não são nada além do que
mais. O que é o “homem nu” senão o homem elas são, limitadas ao tempo de sua existência.
que, se abrindo aos outros, se empobreceu, mas É portanto do interior mesmo do sentido, e da
também se simplificou e se objetivou? Ele não sa- tentativa de compreender os efeitos de sentido
beria mais, dali em diante, tomar-se por império nos quais vivemos, que se desprende essa ex-
num império, mas se conhece e se experimenta periência seca do real, essa nova sabedoria que
como uma coisa entre as coisas – um simples Lévi-Strauss compartilha com toda uma épo-
fato. O sentido advém do fato de essa restrição ca, e à qual, num texto célebre, Foucault havia
própria ao pensamento simbólico não poder se dado o nome de “Pensamento do Exterior”:
fechar sem deslizar para um outro plano: não “O ser da linguagem só aparece para si mesmo
há outra necessidade senão aquela que resume, com o desaparecimento do sujeito” (Foucault,
como Lévi-Strauss concede a Sartre, aquela “lei 2006, p. 222). É na redução do sentido e da
contingente da qual se pode dizer apenas: é as- subjetividade à formula de sua “dispersão” que
sim, e não de outro modo” (Lévi-Strauss, [1962] toda época fará a experiência do real. É naquilo
2005, p. 283). O que resta das paixões huma- que os místicos chamariam uma “kénose”17, um
nas, de sua fé, de seus valores, todo esse barulho esvaziamento progressivo da experiência, que
e todo esse furor, se congela, por assim dizer, sob o sujeito, descobrindo suas próprias condições
o olhar antropológico na simples constatação assubjetivas, experimenta a eventualidade do
de seu advento, e se dispõe num vasto quadro ser por si mesma, a extensão branca e indife-
combinatório onde cada um coexiste com todos rente disso que é exatamente coextensivo a seu
os outros segundo uma fórmula determinada de ser, quer dizer, a seu próprio desaparecimento.
repartição. Não há nada mais a dizer, senão que
elas existiram. As Mitológicas se fecham com o
reconhecimento dessa contingência: 4. A coragem

com seu desaparecimento inelutável da superfí- “Ah! Eis aí”, pensar-se-á, “Lévi-Strauss con-
cie de um planeta também destinado à morte, fessa então que seu projeto teórico não pode

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chegar a um término, pelo próprio fato de seus A descoberta do não-sentido não desquali-
métodos e de seus pressupostos filosóficos; que, fica assim o engajamento, pois ela deve neces-
para decepção de Billancourt18, fazendo passar sariamente passar por ele, um pouco como o
toda ação, toda finalidade, toda implicação espírito deve passar na natureza, segundo He-
humana num combate, como um modo de gel, para se encontrar a si mesmo, com a di-
ilusão passageira que, do alto de sua sabedo- ferença de que ele não descobre aqui, no fim
ria, a antropologia não pode senão constatar e de seu curso, senão sua solidão, quer dizer, sua
jamais julgar”. Enganar-se-ão. Essa certeza de própria finitude.
sua própria finitude, dizia também o fim de O Há para essa situação uma explicação mais
Homem Nu, não impede de modo algum que profunda. Se é preciso, sobretudo, coragem, é
“cabe ao homem viver e lutar, pensar e crer, que o movimento que permite passar de um
preservar sobretudo a coragem” (Lévi-Strauss, sistema simbólico a outro – movimento sem o
1971, p. 621)19… Em primeiro lugar, porque qual não apareceria jamais a “lei contingente”
é somente do interior do sentido propriamen- do sentido – não é automático. Ele repousa,
te dito que ele pode aceder à verdade de sua como vimos, sobre uma possibilidade “inde-
própria contingência: a “dilatação” do sentido cidível”, e por isso ele exige necessariamente
só pode ser progressiva, isto é, ir de um senti- um ato, uma decisão sobre o indecidível. Lévi-
do mais rico a um outro sempre mais pobre. Strauss dizia isso claramente:
A etnografia não saberia fazer a economia des-
sa passagem, e deve tomar parte em todos os estados do pensamento que estão encadeados
modos pelos quais os homens se implicam no entre si não se sucederam espontaneamente e
mundo. Tudo do homem pode se tornar es- devido ao efeito de uma causalidade inelutável
trangeiro para ele, sob a condição de que nada (Lévi-Strauss, [1966] 2004, p. 445).
lhe tenha restado. O budismo que Lévi-Strauss
professa no fim de Tristes Trópicos é uma espé- É que, com efeito, a estrutura determina
cie de hegelianismo invertido, como destacou do interior de um sistema sua própria aber-
Pouillon (Lévi-Strauss, 1987, p. 121), no qual tura, sua própria instabilidade, o ponto onde
cada nova adesão ao mundo é uma etapa para ele joga, que é também aquele no qual ele é
dele se “desprender”, cada nova maneira de dar suscetível de reencontrar outros sistemas; mas
sentido ao mundo, um momento da marcha ela não lhe permite criar seu próprio fora. Re-
do espírito em direção à descoberta do não- construir uma estrutura não é reabsorver toda
sentido como verdade do sentido. a contingência, mas mostrar o ponto em que
a contingência se exerce, definir um campo de
De que serve agir, se o pensamento que guia a eventualidades que torna certas circunstâncias
ação conduz à descoberta da ausência de senti- pertinentes, do mesmo modo, acrescenta Lévi-
do? Mas essa descoberta não é imediatamente Strauss, que a expressão das potencialidades da
acessível: tenho que pensá-la, e não posso pensá- semente
la de uma só feita. Que as etapas sejam doze,
como na Bodhi, que sejam mais numerosas ou não deriva de sua estrutura, mas de um conjun-
menos, elas existem todas juntas e, para chegar to infinitamente complexo de condições que
até o fim, sou perpetuamente chamado a viver dizem respeito à história individual de cada se-
situações que, todas, exigem algo de mim (Lévi- mente e todos os tipos de influências externas
Strauss, [1955] 1996, p. 390). (idem).

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É nesse sentido que se pode compreender liberdade não é um direito abstrato outorgado
que a análise estrutural dos mitos não nega a “li- por princípio pelo Estado a todos os indivíduos
berdade de invenção” mas, pelo contrário, aqui indeterminados da espécie humana e somente a
como em qualquer outra parte, “demonstra a ne- eles, pelo único fato de eles pertencerem a ela.
cessidade dessa liberdade” (Lévi-Srauss, [1968] Só há liberdades, “concretas e históricas” (Lévi-
2006, p. 116). Essa liberdade, entretanto, não Strauss, [1983] 1986, p. 388), que aparecem
é um a priori, mas um resultado; ela tampouco como privilégios na medida em que são exerci-
é subjetiva – liberdade de um sujeito de realizar dos de modo particular e exprimem a diferença
aquilo que ele representa para si como seu desejo de determinados seres em relação a outros:
–, mas objetiva – possibilidade nova realmente
aberta; enfim, ela não é universal, mas local e nessas desigualdades talvez irrisórias que, sem
mesmo intrinsecamente limitada. infringirem a igualdade geral, permitem aos
Tal é, inclusive, o tema das “Reflexões so- indivíduos encontrar pontos de ancoragem. A
bre a liberdade”, texto ambicioso que não busca liberdade real é a dos longos hábitos, das pre-
nada menos que o fundamento de todo valor, ferências, numa palavra, dos costumes (Lévi-
dito de outro modo, a fonte da moral. O valor, Strauss, [1983] 1986, p. 396).
diz em resumo Lévi-Strauss, não está na con-
formidade de uma coisa a um ideal – assim o Liberdades que, pelo fato de sua própria
valor do homem não se deve à sua qualidade diversidade, são “contra-forças” não somente
moral –, mas, precisamente, no fato de que ela umas em relação às outras, mas, sobretudo, em
é real, quer dizer, também singular e efêmera, relação a um poder que pretenderia englobá-las
preciosa por essa razão. É na medida em que todas, atá-las e mesmo criá-las (Lévi-Strauss,
uma coisa é insubstituível que ela é respeitável, [1983] 1986, p. 396). Assim, a consciência da
infinitamente preciosa pela sua própria finitu- finitude, longe então de ser desencorajante é,
de. Assim, se as espécies vivas têm direitos en- ao contrário, suscetível de estar no princípio de
quanto tais, é “pela muito simples razão de que uma renovação dos fundamentos da moral e da
a desaparição de uma espécie qualquer cria um política, que deve reconciliar a moral com a es-
vazio, irreparável à nossa escala, no sistema de tética, o homem com a natureza, o ideal com
criação” (Lévi-Strauss, [1983] 1986, p. 390). o real, e encontrar na beleza desse mundo que
Do mesmo modo, se podemos pensar que os desdobra “os recursos de sua combinatória an-
indivíduos animais são, de certos pontos de vis- tes de involuir na evidência de sua caducidade”
ta, substituíveis (ainda que isso seja, na verdade, (Lévi-Strauss, 1971, p. 621)20, e não nas idéias
bastante contestável), cada indivíduo humano que fazemos dele, a única fonte de todo apelo
é, em compensação, constituído, pelo simples à responsabilidade de um sujeito – o respeito
fato de que a vida social é um jogo simbólico que se deve aos seres humanos não seria, por
fundado na diferenciação, como uma “síntese esse fato, senão um caso particular daquele que
única” (Lévi-Strauss, [1983] 1986, p. 392). Pro- se deve a tudo que é mortal.
fundo espinosismo de Lévi-Strauss, aqui como
freqüentemente, que afirma que o valor não está
na sua conformidade a um ideal, mas nas coisas 5. A violência
mesmas, na sua capacidade de desenvolver sua
irredutível singularidade, o que Espinosa tinha Mas podemos ir mais longe. Pois essa ar-
chamado sua “potência”. Do mesmo modo, a ticulação das figuras do impossível umas com

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as outras, não somente, do fato de seu caráter bre máxima, sobre a qual se conclui o Tractatus,
indecidível, convoca um sujeito que está na pode-se ouvir redobrar o impossível em inter-
responsabilidade de um ato a realizar, mas, por dito. Tudo se passa, com efeito, como se o fato
acréscimo, ela implica um estranho redobra- mesmo de existir o indizível ou o impossível
mento do qual é preciso falar agora e que nos sempre se redobrasse imediatamente no fato de
permitirá chegar à questão da violência. Com existir o interdito – pelo menos uma vez que se
efeito, o impossível se faz não somente marcar, busca nomear, definir ou delimitar, do interior
mas também ressaltar. Depois de ter afirmado de nossa própria prática, o ponto mesmo de
em O Pensamento Selvagem que a diferença en- impossibilidade. Como disse o último Freud,
tre o permitido e o interdito era um “operador aquele de O Mal-estar da civilização, a violência
a serviço da significação”, Lévi-Strauss acres- não é o ressurgimento, na cultura, de pulsões
centava: selvagens, mas, ao contrário, o deslocamento
das próprias pulsões, da energia libidinal, sobre
Proibições e prescrições alimentares aparecem, a repressão.
portanto, como meios teoricamente equiva- Mas se é verdade que a tarefa desses que se
lentes para ‘significar a significação’, dentro de dedicam a produzir um saber a respeito do que
um sistema lógico cujas espécies consumíveis somos nós (e o que mais seria a antropologia,
constituem, no todo ou em parte, os elementos. a sociologia, a psicologia, o direito, em suma,
(Lévi-Strauss, [1962] 2005, p. 120). tudo o que ainda chamamos, sem dúvida por
falta de imaginação, de “ciências humanas”?) é
Dito de outro modo, o fenômeno da inter- a de dizer esse real que é o nosso, compreende-
dição resulta do fato de que esse espaço finito mos que esses “saberes de nós mesmos” sejam
de distribuição de possíveis que é um sistema confrontados a um problema epistemológico
simbólico se representa, no interior dele mes- e ético perigoso: esses saberes não redobram
mo. A delimitação dos limites de uma prá- necessariamente aqueles dos quais querem dar
tica ou de um discurso ou de uma vida não conta? A própria violência do significante cons-
se contenta em separar o “dentro” do “fora”, trange sempre aqueles que falam desses saberes
aquilo que faz parte do jogo e aquilo que não sob o risco de não fazer nada além de produzir
faz parte; o limite se redobra no interior, in- os significantes da violência. É, assim, toda a
cluindo certas possibilidades precisamente para questão de uma ética dos saberes do sujeito que
as excluir, não mais entretanto sob a forma do está em questão. O problema não é que o sa-
impossível ou do impensável, mas sob a forma ber esteja nas mãos dos poderosos, mas apenas
do interdito. Assim, não mais que o fato de ser que ele seja imanente à relação de forças para
expulso no futebol, o fato de que duas pessoas a qual ele queria dar a solução. Mais profun-
do mesmo sexo se casarem não é “impensável”, damente, se a violência for essa zona instável,
ao contrário, é mesmo de tal modo pensável entre o impossível e o interdito, compreende-
que se pode não parar de falar disso para se remos que todo discurso sobre a violência, na
excluir essa possibilidade, quer dizer, precisa- medida em que tende naturalmente a desenhar
mente, para interditá-la. É bem difícil resistir uma figura clara da repartição do possível e
à tentação de retomar os termos de Wittgens- do impossível, corre o risco não de descrever
tein: não há somente aquilo que não se pode di- o limite que se impõe aos sujeitos, mas de, ao
zer, porque isso não tem sentido (sinnloss), mas contrário, produzi-lo. Não se trata de dizer que
também aquilo que é preciso calar. Nessa céle- tudo é possível – que basta querer para poder,

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que tudo o que se apresenta aqui e agora sob o Deve-se escapar à alternativa do fora e do den-
modo de necessidade é apenas o resultado con- tro; é preciso situar-se nas fronteiras. A crítica
tingente da brutalidade humana, e que o que é certamente a análise dos limites e a reflexão
foi feito por César pode ser desfeito por Antô- sobre eles. Mas, se a questão kantiana era saber
nio, ou vice-versa – mas de se dar os meios para a que limites o conhecimento deve renunciar a
escapar precisamente da cilada da violência que transpor, parece-me que, atualmente, a questão
ameaça todo discurso que trata do que há de crítica deve ser revertida em uma questão posi-
real na experiência. Esse perigo não é outro tiva: no que nos é apresentado como universal,
senão o de fazer face à própria violência, com necessário, obrigatório, qual é a parte do que é
o redobramento do impossível e do interdito. singular, contingente e fruto de imposições arbi-
Conhecemos exemplos nos quais o saber do trárias. Trata-se, em suma, de transformar a crí-
etnólogo é solicitado pelos “indígenas” para va- tica exercida sob a forma de limitação necessária
lidar as pretensões de uns contra os outros em em uma crítica prática sob a forma de ultrapas-
nome de uma tradição calcificada. O dilema é sagem possível (Foucault, 2008, p. 347).
profundo: o antropólogo certamente não pode
abandonar a ambição de descrever os sistemas Produzir um saber sobre o que somos não é
simbólicos particulares para se dedicar unica- falar de uma coisa, é falar de uma ação se fa-
mente à teoria da função simbólica, abandonar zendo, é falar de uma liberdade. Isso já foi re-
os conteúdos em proveito da forma, já que ele petido muitas vezes, mas em geral para excluir
não pode elaborar esta última senão empirica- a possibilidade de uma ciência do homem. É
mente, apoiando-se sobre a reconstrução de precisamente dessa alternativa que devemos
sistemas simbólicos singulares. nos livrar: existe um saber possível sobre o que
Mas talvez baste, para sair desse dilema, re- somos, mas se trata sempre de um diagnóstico
nunciar à interpretação que Lévi-Strauss dá de que se refere à forma finita tomada por uma
seu próprio trabalho. Michel Foucault, num liberdade que jamais se exerce sem seu próprio
belo texto de 1984, inscrevia seu procedimen- risco... Não dizia Lévi-Strauss, justamente, que
to numa redefinição da crítica que nos parece a antropologia não permitiria ao sujeito fazer a
muito próxima de uma problemática antropo- economia da ascese à qual ele teria sido coagido
lógica. O texto de Kant “O que são as Luzes?” a se submeter para realizar o “processo ilimi-
é lido ali como o lugar histórico de articulação tado de objetivação do sujeito” (Lévi-Strauss,
do procedimento crítico e do procedimento [1950] 2003, p. 27) se as outras sociedades não
histórico. Lá onde Kant buscava “deduzir da lhe oferecessem de saída a imagem daquilo que
forma do que somos o que para nós é impos- ele poderia ter sido, e portanto o meio de re-
sível fazer ou conhecer”, o procedimento que cuperar aquilo que ele é suscetível de se tornar,
Foucault chama “genealógico” “deduzirá da por assim dizer as linhas de fragmentação em
contingência que nos faz ser o que somos a que consiste a sua própria subjetividade?
possibilidade de não mais ser, fazer ou pensar o No momento em que o projeto mesmo das
que somos, fazemos ou pensamos” (Foucault, ciências da cultura parece mais do que nunca
2008, p. 348). A tarefa de saber tudo sobre ameaçado pelo retorno de problemáticas estri-
o que somos suporá portanto um diagnóstico tamente ideológicas, uns confundindo a des-
sobre a maneira pela qual o que nós podemos crição das normas com a de seus preconceitos,
determina também os limites de nosso próprio outros a “crítica” com a denúncia dos “usos so-
poder, sempre singularmente: ciais” dos saberes, não será talvez inútil lembrar

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que um saber rigoroso, ainda que talvez apa- Notas


rentemente um pouco árido, nos oferece uma
chance – talvez a última – de descobrir que 1. [N. T.:] Este artigo é uma versão de “La condition
nossa liberdade não se assemelha a nós, e que será symbolique”, publicado em Philosophie, n°98 (“Clau-
de Lévi-Strauss: Langage, Signes, Symbolisme, Na-
tanto mais intensa quanto mais formos capazes
ture”, dir. Marcel Hénaff, juin 2008, Editions de
de renunciar a reencontrar incansavelmente no Minuit). Algumas modificações foram feitas pelo
saber a imagem familiar que fazemos de nossos autor especialmente para o público brasileiro.
interesses face àqueles de nossos semelhantes, 2. Para a repetição desse mesmo tema com fins diversos,
para descobrir as possibilidades do mundo que com estratégias bem diferentes, e por meios incompa-
se buscam através de nós, tão frágeis como ravelmente desiguais, ver por exemplo Lefort, 1978;
Lefebvre, 1975; Bourdieu, 1980; e Clastres, 1980.
as outras, mas talvez mais perigosas para elas
3. [N. T.:] No original: “les sciences humaines ont
mesmas assim como para o mundo, pois não typiquement affaire à des réalités dont la con-
podem se realizar sem ser acompanhadas de trainte est parodie de l’impossible – tandis que
sua própria representação, e portanto natural- la linguistique aborde un réel, et ce n’est pas par
mente esquecidas daquilo que as fundamenta: métaphore ni bricolage, qu’elle peut dire le for-
a esgotável diversidade do real. maliser”.
4. [N. T.:] No original: “conter n’est jamais que
conte redire, qui s’écrit aussi contredire”. .
Lévi-Strauss’ bycicle
5. Desenvolvi essa análise mais longamente em Mani-
glier (2000).
abstract Symbolical anthropology has often 6. No que concerne ao parentesco, nos referiremos
been accused of denying politics and reducing social ao Pensamento Selvagem, capítulo 3, sobre os
and historical violence to grammatical constraints. “sistemas de transformação”.
7. [N. T.:] Embora nas traduções disponíveis os
This article demonstrates the opposite, that is, it is
termos boucler e bouclage venham sendo tra-
for the same reason that man is a symbolical animal
duzidos por “fechar”e “fechamento”, o texto de
and a political animal. If in fact the notion of sym- Maniglier, cuja argumentação gira em torno de
bolical system implicates a finite space of possibili- uma diferença entre fermer e boucler, nos levou
ties determined one by another, we can show that a optar por traduzir fermer por “fechar”, e bou-
the type of systematicity that characterizes them cler por “reencadear”.
8. Encontrar-se-á uma exposição particularmente
implicates always an outnumbered possibility, whi-
detalhada disso em A oleira ciumenta (1985).
ch can only be actualised by an “act”. That the sub-
9. [N. T.:] No original: “Mais on remarquait aussi
ject is not the master of its signs does not mean that que ces groupes n’étaient pas indépendants les
freedom is but an illusion, but, quite on the contra- uns des autres, que chacun ne se suffisait pas à lui-
ry, that it is real and inherent to the very singular même comme un être de plein droit, ainsi qu’il
realities that are the signs and to the operations that apparaîtrait si l’on pouvait l’envisager sous un
cause them to supervene. An objective freedom, angle purement formel. En fait, la série ordonnée
des variantes ne revient pas au terme initial après
which consists rather in causing the world’s possibi-
avoir parcouru le premier cycle de quatre : comme
lities to supervene than to carrying out one’s ideals par l’effet d’un dérapage ou, mieux, d’une action
in it. A finite freedom, though, which results always analogue à celle d’un dérailleur de bicyclette, la
from the deplacement of a limitation of possibles to chaîne logique saute et s’engrène sur le terme ini-
another. Thus anthropology appears as what it has tial du groupe emboîté de rang immédiatement
always been: a moral science. inférieur, et ainsi de suite jusqu’au dernier”.
10. [N. T.:] No original: “Des transformations de ce
keywords Semiology. Violence. Lévi-Strauss.
type constituent le fondement de toute sémiolo-
Structuralism. Philosophy. gie”.

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11. Cf. Van Fraassen, 1994, p. 335-354. 19. [N. T.:] No original: “il incombe à l’homme de
12. Além disso, encontra-se aí a essência da bricolagem: as- vivre et lutter, penser et croire, garder surtout
sim como o bricoleur recupera objetos manufaturados courage”.
para fazer deles partes de objetos manufaturados novos, 20. [N. T.:] No original: “les ressources de sa com-
assim também, para o pensamento selvagem, “os signi- binatoire avant de s’involuer dans l’évidence de
ficados se transformam em significantes e vice-versa”. leur caducité”.
13. [N. T.:] No original: “ le propre de tout mythe
est d’interdire qu’on s’y enferme : un moment
vient toujours, au cours de l’analyse, où un pro-
blème se pose et qui, pour le résoudre, oblige
Referências Bibliográficas
à sortir du cercle que l’analyse s’était tracé. Le
même jeu de transformations qui permet de ra- BOURDIEU, Pierre. Le sens pratique, Paris: Minuit,
mener l’une à l’autre les séquences d’un mythe 1980. 475p.
donné s’étend de façon quasi automatique à la CLASTRES, Pierre. Archéologie de la violence. In:
séquence indécidable, mais tout de même ré- _____.Recherches d’anthropologie politique. Paris: Seuil,
ductible en dehors du mythe à d’autres séquen- 1980. p. 197-250.
ces indécidables, provenant de mythes au sujet DEBAENE, Vincent. L’adieu au voyage. A propos de
desquels le même problème se posait”. Tristes Tropiques. Gradhiva, n° 32, p. 12-26, 2° semes-
14. “Minha concepção é pessimista”, “ Diogène couché”, tre 2002.
p. 1200. Ver também o fim do discurso de recepção DELEUZE, Gilles.. A quoi reconnaît-on le structuralis-
na Academia Francesa. me?. In : Histoire de la philosophie, t. VIII : le XX° siècle,
15. [N. T.:] No original: “[L’ethnographe] ne cir- Hachette, 1972. p. 299-335.
cule pas entre le pays des sauvages et celui des _____. L’île déserte et autres textes, 1953-1974, Paris: Mi-
civilisés: dans quelque sens qu’il aille il revient nuit, 2002. 416p.
d’entre les morts. En soumettant à l’épreuve FOUCAULT, Michel. Ditos & escritos I. Problematiza-
d’expériences sociales irréductibles à la sienne ção do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise.
ses traditions et ses croyances, en autopsiant sa Organização e seleção de textos de Manoel Barros da
société, il est véritablement mort à son monde; Motta. Tradução de Vera Lucia Avellar Ribeiro. Rio de
et s’il parvient à revenir, après avoir réorganisé Janeiro: Forense Universitária, 2002. 354p.
les membres disjoints de sa tradition culturelle, _____. O Pensamento do Exterior. In: _____. Ditos &
il restera tout de même un ressuscité”. Escritos III. Estética: literatura e pintura, música e
16. [N. T.:] No original: “avec sa disparition inélucta- cinema. Organização e seleção de textos de Manoel
ble de la surface d’une planète elle aussi vouée à la Barros da Motta. Tradução de Inês Autran Dourado
mort, ses labeurs, ses peines, ses joies, ses espoirs Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
et ses œuvres deviendront comme s’ils n’avaient p. 219-242.
jamais existé, nulle conscience n’étant plus là pour _____. O que São as Luzes? In: _____. Ditos & Escritos
préserver fût-ce le souvenir de ces mouvements II. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de
éphémères sauf, par quelques traits vite effacés pensamento. Manoel Barros da Motta. Tradução de
d’un monde au visage désormais impassible, la Elisa Monteiro. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
constat abrogé qu’ils eurent lieu, c’est-à-dire rien”. 2008. p. 335-351.
17. [N. T.:] Kénose é um termo derivado do verbo HJELMSLEV, Louis. Prolégomènes à une théorie du lan-
grego kénoô, que pode ser traduzido como “es- gage, Paris: Minuit, 1971. 231p.
vaziar”, “se esvaziar”. A história deste termo se LEFEBVRE, Henri. L’idéologie structuraliste, Paris: Seuil,
origina nas escrituras bíblicas e tem uma longa 1975. “ Points”. 251p.
tradição na teologia (ver verbete de Emilio Brito LEFORT, Claude. Les formes de l’histoire, Essais d’anthro-
in Dictionnaire Critique de Théologie. Publié pologie politique, Paris: Gallimard, 1978. Rééd. “ Fo-
sous la direction de Jean-Yves Lacoste. Paris: lio-Essais”. 329p.
PUF, 1998. p. 630-633). LÉVI-STRAUSS, Claude. Introdução à obra de Marcel
18. [N. T.:] “Billancourt” refere-se ao subúrbio ope- Mauss. In: MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropolo-
rário de Bologne-Billancourt, cujo nome foi as- gia. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify,
sociado à causa dos militantes de maio de 68. [1950] 2003. p. 11-46.

cadernos de campo, São Paulo, n. 17, p. 275-292, 2008


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_____. . Tristes trópicos. Trad. Rosa Freire d’Aguiar. São MANIGLIER, Patrice. L’humanisme interminable de
Paulo: Companhia das Letras, [1955] 1996. 400p. Claude Lévi-Strauss. Les temps modernes, 609, p. 216-
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1187-1220, 1955a. MAUSS, Marcel. Sociologie et anthropologie. Paris: PUF,
_____. Antropologia Estrutural. Trad. Chaim Samuel Katz 1950. “Quadrige”. 389p.
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_____. O pensamento selvagem. Trad. Tânia Pellegrini (5ª _____. Introduction à une science du langage. Paris: Seuil,
ed. 1ª ed 1989). Campinas: Papirus, [1962] 2005. 1989. Coll. “Des travaux”. 702p.
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_____. Mitológicas*, O Cru e o Cozido. Trad. Beatriz Per-
rone-Moisés. São Paulo, Cosac & Naify, [1964] 2004.
442p.
Agradecimentos
_____. . Mitológicas**, Do Mel às Cinzas. Trad. Carlos
Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac & A tradução e a publicação deste texto não
Naify, [1966] 2004. 500p. teriam sido possíveis caso o Laboratório de Es-
_____. . Mitológicas***, A Origem dos Modos à Mesa. tudos em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise
Trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac & da USP e a Professora Débora Mourato, da
Naify, [1968] 2006. 524p.
UFSCAR, não houvessem convidado o Profes-
____. Mythologiques ****,L’homme nu, Paris: Plon, 1971.
688p. sor Maniglier para fazer uma conferência sobre
_____. Antropologia estrutural dois. Trad. Maria do o tema deste artigo na Faculdade de Filosofia,
Carmo Pandolfo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, Letras e Ciências Humanas da USP, em julho
[1973] 1976. 366p. de 2008. Agradecemos ao Professor Maniglier
_____. O Olhar Distanciado. Trad. Carmen de Carvalho. pela autorização para a publicação da tradução,
Lisboa: Edições 70, [1983] 1986. 416p.
e pela disponibilidade ao longo do trabalho.
_____. A Oleira Ciumenta. Trad. Beatriz Perrone-Moisés.
São Paulo: Brasiliense, [1985] 1987. 215p. Contamos nesta tradução com a valiosa contri-
_____. Race et histoire, suivi de L’œuvre de Claude Lévi- buição do Professor Marcio Silva com relação
Strauss, par Jean Pouillon, Folio-Essais, 1987. 127p. a alguns termos da teoria estruturalista e com a
_____. . História de Lince. Trad. Beatriz Perrone-Moi- revisão cuidadosa de Renato Sztutman, a quem
sés. São Paulo: Companhia das Letras, [1991] 1993. agradecemos.
249p.

cadernos de campo, São Paulo, n. 17, p. 275-292, 2008


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autor Patrice Maniglier


Professor do Departamento de Filosofia/Universidade de Essex
Doutor em Filosofia/ Paris X Nanterre University

tradutor Daniel Calazans Pierri


Graduado em Ciências Sociais/USP

tradutora Luísa Valentini


Mestranda em Ciência Social (Antropologia Social)/ USP

tradutor Ronaldo Manzi Filho


Doutorando em Filosofia/USP

revisor Renato Sztutman


Professor do Departamento de Antropologia/USP
Doutor em Ciência Social (Antropologia Social)/USP

Recebido em 09/07/2008
Aceito para publicação em 14/07/2008

cadernos de campo, São Paulo, n. 17, p. 275-292, 2008