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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

Flávio Alves Pereira de Andrade Filho

A GEMINAÇÃO DOS AMORES: CARITAS GEMINATA NAS “CONFISSOES”

São Paulo

2018
Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Flávio Alves Pereira de Andrade Filho
N° USP: 10329242
Disciplina: História da Filosofia Medieval I
Professor: Moacyr Novaes Filho
Tema: A Caridade Geminada nas Confissões

1. Introdução
Dentro da obra de Santo Agostinho há uma tríade que guia o individuo para a união
com Deus. Esses três itens seriam: a fé, a esperança e a caridade. É por meio delas
que o homem se apoia e assim estabelece sua união com o Salvador, no seu livro “A
Doutrina Cristã”, Agostinho escreve: “O homem que se apoia na fé, na esperança e na caridade,
e que guarda inalteravelmente essas três virtudes, não necessita das Escrituras a não ser para instruir
os outros. Eis porque muitos, graças a elas, vivem na solidão sem os manuscritos dos Livros santos. É
o que me leva a pensar que nele se realizou a sentença: ‘Quanto às profecias, desaparecerão. Quanto
às línguas, cessarão. Quanto à ciência, também desaparecerá’ (1Cor 13,8). Acontece que, com tal
apoio, levantou-se nesses homens tão grande edifício de fé, esperança e caridade, que, possuindo já
esse bem perfeito, não precisam buscar o que é parcial. Digo que eles possuem já o que é perfeito,
mas só enquanto pode ser possuído nesta vida mortal, porque comparado à perfeição da vida futura,
a do justo e santo neste mundo é imperfeita. Por tudo isso, diz o Apostolo: ‘Agora permanecem fé,
esperança e caridade, estas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade’ (1Cor 13,13), pois ao
chegar a cada um à vida eterna, cessarão a fé e a esperança, permanecendo, mais ardente e segura”
(Agostinho, Santo. A Doutrina Cristã. Trad. Nair Assis Oliveira. São Paulo: Editora Paulus, 2002, p.80) ,

nota-se que a caridade possui um papel principal em relação as outras duas. Dentro
dos seus escritos é possível notar que caridade e amor são sinônimos, é por meio
dela que homem consegue se unir a Deus.
No seu livro “Confissões” ela também está aparece possuindo uma função dentro do
texto, é isso o que será exposto nas próximas linhas, mais especificamente como se
dá a caridade geminada dentro das “Confissões”.
2.1 Caridade com o próximo
No seu livro “Confissões” Agostinho parece fazer um caminho de ascendência da
caridade. Em um primeiro ela aparece na relação da caridade entre os homens que
seguiriam assim o preceito de amar ao próximo como ama a si mesmo, sendo esse
um dos caminhos que leva a união com Deus.
Agostinho no livro III, escreve: “Com efeito, hoje também compadeço, mas naquela época, nos
teatros, me comprazia pelos amantes que gozavam um outro por atos desonestos, ainda que agissem
assim apenas na ficção da representação cênica, e, quando se separavam, eu me entristecia, como
por misericórdia. Ambas as situações, porém, me deleitavam. Hoje, ao contrário, sinto mais pena
daquele que goza na desonra do que daquele que a duras penas parece aguentar a privação de um
prazer pernicioso e a perda de uma felicidade miserável. Está certamente é uma misericórdia mais
verdadeira, mas nela a dor não agrada. Pois, mesmo aprovando por dever de caridade aquele que
compadece o infeliz, todavia quem é fraternalmente misericordioso preferiria que não houvesse de que
compadecer” (Agostinho, Santo. Confissões. Trad. Lorenzo Mammi. São Paulo: Companhia das Letras,
2017, p.78), no trecho, embora, ele esteja falando da diferença entre as situações que

são encenadas no teatro que geram um sentimento, diferente da realidade, em que,


não há prazer em ver a infelicidade do outro. Na verdade, por meio da caridade deve-
se ter compaixão, ou melhor, é necessário se colocar no lugar daquele que sofre para
assim entender esse. A caridade é responsável por fazer com que haja esse tipo de
relação entre aqueles que vivem no mesmo mundo, esse ato de amor com o próximo
deve ser genuíno sem qualquer tipo de pretensão, amar o outro é uma lei que foi
estabelecida por Deus. Étienne Gilson escreveu no seu livro “Introdução aos estudos
de Agostinho” o seguinte: “O amor que se dá sem reservas e que, ao dar-se assim, assegura para
si a posse do Bem, é precisamente a caridade” (Gilson, Étienne. Introdução aos Estudos de Agostinho.
Trad. Cristiane Negreiros Abud Ayoub. São Paulo: Editora Paulus, 2007, p.266), ou seja, só há

caridade se existir entre os indivíduos uma relação, em que, não haja nenhum desejo
particular envolvido.
Já no livro IV, a caridade aparece como a única opção para a existência de uma
amizade verdadeira, o autor diz: “Mas ainda não era tão meu amigo, naquela época – embora
também não fosse depois, no sentido da verdadeira amizade, que não é verdadeira senão quando tu a
estabeleces entre aqueles que aderem à caridade, derramada nos nossos corações pelo Espirito Santo
que nos foi dado.” (Agostinho, Santo. Confissões. Trad. Lorenzo Mammi. São Paulo: Companhia das
Letras, 2017, p.101), o importante do trecho em questão está nessa “verdadeira amizade”

que só por acontecer por meio da caridade. Essa é amizade que só pode se dá se
houver um amor mutuo entre os indivíduos, no entanto, esse amor estabelece a união
entre aqueles que se amam, dois torna-se um ou dez torna-se apenas um. “A partir de
então, cada uma prova um sentimento que faz querer para a outra quer para aquela; as vidas dos que
se amam tendem progressivamente a ser apenas uma.” (Gilson, Étienne. Introdução aos Estudos de
Agostinho. Trad. Cristiane Negreiros Abud Ayoub. São Paulo: Editora Paulus, 2007, p.264) , só por
meio da caridade é que torna-se possível compreender o outro e esse outro também
aderindo a ela é capaz de compreender reciprocamente, só a caridade faz com que
haja essa união genuína entre duas almas e com isso a compreensão mutua. No
quinto livro das “Confissões” ao falar sobre seus estudos com “livros de sabedoria
mundana” assim chamado por Agostinho, esse ao falar sobre o momento de sua
formação, não vê que esse conhecimentos é que levaria ao conhecimento de Deus,
esse escreve: “... qualquer um que saiba essas coisas já por isso te agrada? Com efeito, infeliz o
homem que conhece todas, mas não te conhece; feliz, ao contrário, quem te conhece, mesmo que não
as conheça. Mas quem conhece tanto a ti, quanto a elas, nem por isso é mais feliz, mas só é feliz por
ti se, conhecendo-te, te honra pelo que tu és, te rende graças e não se perde seus arrazoados.”
(Agostinho, Santo. Confissões. Trad. Lorenzo Mammi. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p.124),

um pouco mais a frente ele continua: “Quando ouço um irmão cristão qualquer que não conhece
tais matérias e confunde uma coisa com outra, escuto com paciência sua opinião e não me parece que
se prejudique ao ignorar a posição e o comportamento de criaturas corporais, contanto que não acredite
em coisas indignas de ti, Senhor criador de tudo. Prejudica-se, porém, se julga que aquele assunto faz
parte da própria constituição do da doutrina religiosa e ousa afirmar teimosamente aquilo que ignora.
Mas até tal fraqueza é tolerada no berço da fé pela mãe caridade, até que o homem novo se transforme
em varão feito e já não possa ser arrastado por qualquer vento de doutrina.” (Agostinho, Santo.
Confissões. Trad. Lorenzo Mammi. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p.126), nota-se,

portanto, o que realmente importa não são os conhecimentos sobre o mundo, mas
sim aqueles que remetem a Deus, só por meio desse é possível alcançar essa união
e talvez por isso aqueles que possuem menos conhecimentos mundanos, ou seja,
aquelas pessoas mais simples como o lavrador, Agostinho parece atribuir a essas
pessoas um maior pretensão a seguir os ensinamentos de Deus, do que aqueles que
possuem conhecimentos científicos de como funciona o mundo fazendo com que
esses sejam tomados por um orgulho e assim tomados por essa arrogância colocam-
se acima de Deus. A caridade parece ser bem mais seguida por aqueles mais simples
do que por aqueles que são tomados pelos conhecimentos que estão fora da doutrina
divina.
Dentro dessa primeira parte das “Confissões” quando Agostinho busca tratar da
primeira parte do preceito de Deus “amar o próximo como ama a ti mesmo”, o ele
parece dizer é: “Amar outro por ele mesmo, é trata-lo com uma igualdade tão perfeita que é
confundir-se com ele; ele é um bem para si e um bem para nós, portanto, é seu bem e o nosso que se
encontram envolvidos num mesmo amor” (Gilson, Étienne. Introdução aos Estudos de Agostinho. Trad.
Cristiane Negreiros Abud Ayoub. São Paulo: Editora Paulus, 2007, p.265).
2.2 Caridade e a união com Deus
A partir do livro VII a caridade para se relacionar mais com a primeira parte da lei que
diz “Amaras ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu
entendimento” (Mt22:37), Agostinho parece trocar o foco para a união do homem com

Deus que só pode dar-se por meio da caridade. Ele escreve no livro VII: “Mas, incitado
por aqueles livros a voltar para a mim mesmo, penetrei no meu intimo conduzido por ti, e consegui por
tu te tornaste meu auxilio. Penetrei e vi, pelo olhar de minha alma, pelo que vale, acima do próprio olhar
de minha alma, acima de minha mente, uma luz imutável, não está luz ordinária e visível por qualquer
carne, nem uma maior, mas do mesmo gênero, como se brilhasse com muito mais claridade e ocupasse
todo o espaço; não era assim, mas diferente, bem diferente de tudo isso. E não estava acima de minha
mente como o óleo está sobre a água ou o céu está sobre a terra, mas era superior, porque me fez, e
eu inferior, porque fui feito por ela. Quem conhece a verdade a conhece e quem a conhece conhece a
eternidade. A caridade a conhece.” (Agostinho, Santo. Confissões. Trad. Lorenzo Mammi. São Paulo:
Companhia das Letras, 2017, p.185), o autor entende que para alcançar a união com Deus

deve-se entrar em si mesmo, é na introspecção que se chega a Deus, mas isso só


pode se dá por meio da caridade, ou seja, por meio do amor há Deus. Hannah Arendt
em seu doutorado com título “O Conceito de Amor em Santo Agostinho”, ajuda a
entender um pouco melhor a passagem quando diz: “O desejo vive no divertimento – a fuga
de si, a vontade de se fixar ao que aparentemente tem permanência. Está perda caracteriza-se pela
curiosidade (curiositas), a concupiscência do olhar (concupiscentia oculorum), que procura um saber
inútil. Ela exprime de maneira, por assim dizer habitual, a dependência em relação ao mundo, a
insegurança e a futilidade do humano que vive longe de si próprio (a se), que foge de si mesmo. A esta
fuga perante si próprio, Santo Agostinho opõe o se quaerere, o procurar si mesmo (quaestio mibi factus
sum). Neste regresso a si, ele encontra Deus” (Arendt, Hannah. O Conceito de Amor em Santo
Agostinho. São Paulo: Instituto Piaget, 1997, p.28), enquanto, a união entre homens se dá na

relação de caridade de uma forma exterior, a união entre homem e Deus só pode se
dá no interior de cada um. O mundo só pode oferecer o distanciamento de Deus com
coisas que levam ao esquecimento de si, em Agostinho o mundo é a contingência do
espirito. Uma forma de entender melhor como se dá esse abandono do mundo terreno
em detrimento da Salvação e união com Deus, está em uma citação a Bíblia que
Agostinho faz no livro, tal passagem encontra-se em Mateus 19:21, que diz o seguinte:
“Jesus lhe respondeu: ‘Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um
tesouro nos céus. Depois, vem e seque-me.’”, ou seja, deve-se abdicar das coisas terrenas,

só por meio dessa privação é possível alcançar a Deus, a caridade está ligada
diretamente a isso. Ao se livrar das coisas materiais e oferecendo aos mais
necessitados, esse ato tanto tem relação com o amar ao próximo quanto ao amor a
Deus, pois se abdica das coisas do mundo para alcançar a salvação quando chegar
o momento, nota-se esses dois preceitos caminham junto.
2.3 Mônica e a representação do caminho da Caridade
O livro IX das “Confissões” tem como um dos focos do livro a figura da mãe de
Agostinho, em que, ele conta toda a sua trajetória de vida, falando sobre o alcoolismo,
a violência domestica que sofria e de como essa era extremamente devota a Deus,
no entanto, o que parece curioso são as algumas falas de Agostinho sobre ela, como
se essa fosse o grande exemplo do caminho seguido por aqueles que não se
distanciam da caridade. No capitulo nove e paragrafo vinte e um, ele diz: “Também deste
àquela tua boa serva, em cujo útero me criaste, meu Deus, minha misericórdia, esse grande dom: entre
quaisquer pessoas que estivessem em desentendimento e em conflito, ela se oferecia como
pacificadora, de maneira que, mesmo ouvindo as afirmações mais ásperas de ambas as partes – do
tipo que uma discórdia inchada e indigesta costuma vomitar quando, em presença de uma amiga, a
ferocidade dos ódios se manifesta em frases corrosivas -, ela nunca referia as falas de uma à outra, a
não ser naquilo que ajudaria a reconciliá-las. E isso me pareceria um bem menor, se não tivesse a triste
experiência de multidões inumeráveis que, por não sei que horrenda pestilência de pecados que se
alastra a perder de vista, não apenas referem aos inimigos em cólera os ditos de seus inimigos, mas
ainda acrescentam coisas que não foram ditas, enquanto, ao contrário, o homem deveria julgar
insuficiente para o homem não suscitar ou acrescer pela maledicência as inimizades dos homens, se
não se esforçar em extingui-las bendizendo. Assim era ela, aprendendo teu magistério interior na escola
do coração” (Agostinho, Santo. Confissões. Trad. Lorenzo Mammi. São Paulo: Companhia das Letras,
2017, p.243), um pouco mais a frente no parágrafo vinte e nove, ele escreve: “Da mesma
maneira, minha infância, que caía em prantos, era reprimida pela voz de um coração adulto, e se calava.
Com efeito, não considerávamos oportuno expressar aquele luto com queixas lacrimosas e gemidos,
porque com eles a maioria costuma lamentar a infelicidade dos que morrem, se não a sua extinção
total. Mas ela não morria infelizmente, nem morria completamente. Tínhamos, como provas certas
disso, as testemunhas de seu comportamento e sua fé não fingida.” (Agostinho, Santo. Confissões.
Trad. Lorenzo Mammi. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p.248), além desses trechos, no

final desse ultimo Agostinho faz uma referência a I Timóteo 1,5, que diz: “A finalidade
dessa admoestação é a caridade, que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma
fé sem hipocrisia.”. Pelo que foi dito até então Monica parece ser para Agostinho o grande

exemplo do caminho a ser seguido por aqueles que seguem o preceito da caridade e
só assim se estabeleceria a união com Deus. Ao viver uma vida, em que, amou o
próximo e amor ainda mais Deus, Monica completa o caminho que leva a conexão
com Deus, tornando assim eterna. Ou seja, a eternidade só pode ser alcançada por
aqueles que seguem a caridade, pois como visto no livro sete, só a caridade leva a
Verdade e assim a eternidade. Um trecho que ajuda a entender esse caminho, está
quando Gilson diz: “Se tal é o caráter absoluto de sua exigência, a caridade não tem um lugar em
particular na vida moral do homem, ela é essa vida moral. Um amor para com Deus que começa, é,
para com a alma, o começo de sua justificação: se seu amor progride, a justiça cresce
proporcionalmente; se o amor se torna perfeito de uma vez, a justiça da alma é perfeita. Entendemos
essa doutrina em seu sentido pleno: um amor para com Deus integralmente realizado confunde-se com
uma vida moral integralmente realizada. Assim, com efeito, amar absolutamente o Bem absoluto e,
consequentemente, possuí-lo sem reservas não é a beatitude e o termo mesmo de toda a vida moral?
Isso é tão verdadeiro que um amor por Deus que chegou a esse ponto de perfeição ocuparia e
preencheria completamente a alma inteira. Por definição, não haveria mais nenhum lugar nessa alma
para nada de outro; tudo o que ela faria, portanto, faria por pura caridade; cada um de seus atos,
qualquer que fosse, partiria de um amor perfeito e absoluto por Deus, de modo que tudo o que ela
fizesse seria bom, de uma bondade infalível.” (Gilson, Étienne. Introdução aos Estudos de Agostinho.
Trad. Cristiane Negreiros Abud Ayoub. São Paulo: Editora Paulus, 2007, p.268), tal explicação de

Gilson ajuda na compreensão dessa jornada de Mônica até a sua união com Deus.
Pode-se ainda dizer como o livro nove encerra a parte da narrada das Confissões, em
que, existe uma cronologia dos fatos narrados, ao falar da sua mãe como o ultimo
acontecimento e essa por parecer concentrar na sua figura a definição de caridade,
por fazer isso parece muito que ao falar da sua mãe é como se ele juntasse todas as
citações que ele fez no decorrer desses noves livros.
3. Conclusão
Do que foi dito até aqui, a caridade geminada dentro das “Confissões” está
diretamente relacionada a essa união que se dá tanto entre os indivíduos que seguem
o preceito de amar o próximo com o mesmo amor que o individuo se ama e também
o grande amor que se deve ter com para com Deus e como isso leva a união entre o
homem e o Divino.
Caridade e amor parece ser sinônimos para Agostinho como foi dito no início. E esse
amor parece ser tanto a fonte de força como de vida, o amor combina o amante e o
objeto amado, ou seja, uni os dois. Ele é movimento que impulsiona o individuo a sair
de si em direção ao amado (tanto outro individuo em comunhão com essa caridade
quanto o próprio Deus). Por isso a importância de amar a Deus, a si próprio e o outro.
Esse amor ou essa caridade é o grande centro da vida cristã.
Agostinho na “Doutrina Cristã” tem um fala que parece resumir tudo o que foi dito até
aqui: “Portanto, se não deve amar a ti por ti próprio, mas por aquele em quem está o fim retíssimo de
teu amor, que nenhum entre teus irmãos se aborreça se o amares por Deus. Porque a lei de amor
assim foi estabelecida por Deus: ‘Amarás ao próximo como a ti mesmo, mas a Deus com todo teu
coração, com toda tua alma e com todo teu espirito’ (Lv 19,18; Dt 6,5; Mt 22,37. 38). Em consequência,
consagra teus pensamentos e toda tua vida e toda tua mente àquele de quem recebeste estes bens.
Porque quando é dito “de todo teu coração, de toda tua alma e de toda tua mente”, não te é permitido
nenhuma parte de tua via ficar desocupada para que possas gozar de outro objeto. Exige, antes, que
qualquer outro objeto que venha à mente para ser amado seja arrastado naquela mesma direção do
caudal impetuoso do amor. Logo, quem ama retamente o seu próximo deve tratar que esse alguém
também ame a Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu espirito. Amando-
te assim se ama a si próprio, referirá todo o amor, próprio e alheio, naquela direção do amor de Deus
que não tolera que se extravase e perca nenhum arroiozinho que venha a diminuir o ímpeto.”
(Agostinho, Santo. A Doutrina Cristã. Trad. Nair Assis Oliveira. São Paulo: Editora Paulus, 2002, p.59),

a caridade geminada acontece por meio dos três amores: o próximo, amar si próprio
e o amor com Deus. Esses amores levam apenas a um único caminho sendo o único
oficio que o home como cristão deve ter, só por meio da sua obrigação conseguirá a
união com que mais deve ser amado.

Bibliografia
Agostinho, Santo. Confissões. Trad. Lorenzo Mammi. São Paulo: Companhia das
Letras, 2017;
Agostinho, Santo. A Doutrina Cristã. Trad. Nair Assis Oliveira. São Paulo: Editora
Paulus, 2002;
Arendt, Hannah. O Conceito de Amor em Santo Agostinho. São Paulo: Instituto Piaget,
1997;
Gilson, Étienne. Introdução aos Estudos de Agostinho. Trad. Cristiane Negreiros Abud
Ayoub. São Paulo: Editora Paulus, 2007;
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Editora Paulus,