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 A guerra na península ibérica contra os mouros já possibilitava o

cativeiro e o aprisionamento de escravos de guerra e o tráfico também já


estava acontecendo no norte da África e justificado por uma bula papal
em 1455, em nome da conversão dos gentios africanos capturados em
guerras justas.
 Dessa forma, a incorporação desses cativos aumentaria com a
justificativa de “guerra justa”, que podia ser decidida pelo rei,
aumentando o comércio com a justificativa de estarem salvando almas
pagãs.
 A autora demarca que entre os séculos XVI e XVIII, mais de um milhão
de pessoas viveram como escravos na península ibérica, até que
Pombal proibiu a entrada de novos escravos em 1761.
 Aí ela chega no seu argumento, de que nesse processo de expansão
portuguesa na África a escravidão se naturalizou na sociedade e se
integrou nessa concepção corporativa, demarcando ainda mais as
diferenças. E que apesar de não estar instituída em nenhuma legislação,
ela aparecia sendo regulada em diversas legislações, como as alforrias,
que estava inserida na parte que se referia ao direito a propriedade.
 A idéia de cativeiro justo e de guerra justa estavam a todo momento
sendo discutidas, entrando aí também o indígena, que apesar de
estarem em posição não tão inferior quanto os africanos, os
considerados bravios também podiam ser escravizados pela guerra
justa.
 Do ponto de vista teológico, ambas as escravidões foram
exaustivamente discutidas, sendo a de africanos quase sempre
justificada pelo seu paganismo, e pela obrigação católica de lhes
mostrar a fé verdadeira.
 O estatuto de limpeza de sangue que limitava o acesso a cargos
públicos, eclesiásticos e a títulos honoríficos somente aos cristãos-
velhos, é das Ordenações Afonsinas (1446/7), que impediam os
descendentes de mouros e judeus, sendo ampliado para restringir
também ciganos e indígenas pelas Ordenações Manuelinas (1514/21) e,
os negros e mulatos com as Ordenações Filipinas (1603). Pombal
extinguiu as restrições em 1776, salvo aos descendentes de africanos
que continuaram impedidos.
 Passando um pouco mais adiante, ela afirma que o estatuto do escravo
foi em muito aumentado ao produzir uma sociedade escravista de novo
tipo, com novas categorias sociais e hierarquizações, como os forros e
as diferenças de cor e de características físicas.
 Mas, a colônia possibilitava o acesso a alguns cargos e a limpeza de
sangue por prestação de serviço ao rei, principalmente no período de
conquista, com mercês concedidas tanto a cristãos-novos quanto a
lideranças indígenas.
 “A contínua incorporação de estrangeiros, como escravos ou índios
aldeados, assume caráter estrutural à sociedade que se formava na
América portuguesa. Nesse processo, a colônia brasileira se
diferenciava no âmbito do Império, constituindo-se enquanto sociedade
colonial e escravista com hierarquias sociais e classificações proto-
raciais específicas”. P. 150
 Daí ela chega ao caso do Lourenço da Silva Mendonça, apresentado em
um artigo por Richard Gray em 1987. Um pardo que chegou a Roma em
1682, recomendado por pessoas de distinção nas suas sociedades, de
Lisboa, um escrivão apostólico que o declarava procurador dos homens
pardos em Portugal, Castela e no Brasil; e de Madri, de um Giancinto
Rogio Monzon, que o declarava procurador geral de uma influente
irmandade de pretos, estando autorizado a abrir novos ramos da
confraria em qualquer lugar da cristandade. Junto a essas cartas de
recomendação, ele levou duas petições ao papa Inocêncio XI, em que
se dizia homem de sangue nobre dos reis de Congo e de Angola, e que
argumentava contra a escravidão perpétua dos africanos e seus
descendentes após a sua conversão ao catolicismo. Na outra petição,
tempos depois, pedia a favor dos pretos e pardos filhos de cristãos no
Brasil e em Lisboa, lembrando que os cristãos-velhos haviam recebido
uma bula na qual podia se escravizar os negros pagãos e lhes
converterem, mas que nada lhes imputava escravizar os descendentes,
uma vez que já são cristãos de nascimento. E ainda pedia a
excomunhão dos cristãos que continuassem a escravizar esses negros
nascidos sobre o catolicismo.
 A autora chama atenção para a emergência de categorias e hierarquias
proto-raciais na nova sociedade colonial escravista que estava em
processo de gestação.