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23/09/2019 Folha de S.

Paulo - Alencar, o escravista - 08/10/2008

Alencar, o escravista
Cartas do autor a d. Pedro 2º, nas quais defendia o cativeiro no país, são pela 1ª vez publicadas em
livro, 140 anos depois

Reprodução

Quadro "Loja de Rapé", aquarela inacabada em que o pintor Jean-Baptiste Debret retrata escravos urbanos no Brasil do século 19

RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

"A escravidão caduca, mas ainda não morreu; ainda se prendem a ela graves interesses de um povo. É quanto
basta para merecer o respeito."
Quem vinha a público, em 1867, desejoso de ser ouvido na defesa do cativeiro no país era o romancista José
de Alencar (1829-1877). A memória histórica no Brasil, no entanto, silenciaria seus argumentos no século
seguinte.
A frase aparece numa das sete cartas públicas em que, naquele ano, o autor de "Iracema" criticou o
imperador d. Pedro 2º por propor que o país começasse a pôr fim gradual à escravidão. Só agora, 140 anos
depois, elas ganham uma edição em livro, "Cartas a Favor da Escravidão" (ed. Hedra), que chega nesta
semana às livrarias.
Embora diversos pesquisadores tivessem conhecimento de sua existência -que era citada em alguns
trabalhos- e das posições políticas de Alencar, o conteúdo das cartas não chegou a ser reimpresso. O conjunto
não aparece, por exemplo, nas obras completas do autor romântico, organizadas em 1959 pela editora José
Aguilar (hoje Nova Aguilar).
No final dos anos 90, a historiadora Silvia Cristina Martins de Souza encontrou as cartas na Biblioteca
Nacional, no Rio.
Republicou parte delas numa revista especializada da Unicamp. "Elas não haviam sido reproduzidas no
século 20", diz a pesquisadora, que atribui o "esquecimento" do material ao "desconhecimento e
desinteresse" sobre a obra de Alencar.
O organizador do livro que vem agora a público, Tâmis Parron, tem opinião diferente.
Ele escreve na introdução aos textos de Alencar que se trata de uma "provável tentativa de expurgar sua
memória artística de uma posição moralmente insustentável para os padrões culturais hegemônicos desde o
final do século 19".
"É um expurgo? Pode ser. É provável, mas não tenho acesso a documentos que provem essa hipótese", disse
o historiador, em entrevista à Folha.
Procurada, a Nova Aguilar não respondeu aos questionamentos sobre a lacuna e sobre a possibilidade de
inclusão das cartas em edições futuras (a última, esgotada, saiu em 1965).
As "Novas Cartas Políticas de Erasmo", como foram denominadas, numa referência ao pensador holandês,
apareceram num momento de crise internacional da escravidão. Com o fim da Guerra Civil Americana
(1861-1865) e da servidão nos EUA, aumentaram as pressões internacionais para que o Brasil, como último
país independente da América a mantê-la, pusesse fim à instituição.
No princípio de 1867, o imperador pede que seu gabinete encaminhe ao Legislativo uma proposta de
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0810200808.htm 1/2
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discussão que resulte num prazo para o fim da escravidão.

Instituição necessária
É em reação a essa movimentação de d. Pedro que Alencar argumenta, em suas cartas, contra a extinção por
lei de uma instituição que, para ele, deveria acabar como resultado de um processo "natural" de maturação -
processo que na Europa, ele diz, levou séculos.
O escritor e político -falava como integrante do Partido Conservador- reconhece que a escravidão já se
apresentava "sob um aspecto repugnante", mas completava que "ainda mesmo extintas e derrogadas, as
instituições dos povos são coisa santa, digna de toda veneração". "Nenhum utopista, seja ele um gênio, tem o
direito de profaná-las. A razão social condena uma tal impiedade." As "razões sociais" do cativeiro no Brasil
eram muitas, segundo o autor. Em primeiro lugar, de ordem econômica, já que era pelo trabalho escravo que
se mantinha a produtividade das unidades agro-exportadoras do século 19. Depois, política, já que era daí
que o Estado tirava recursos para existir.
Mas também "social", já que, segundo Alencar, a instituição no Brasil trazia a promessa de inserção, como
cidadão (ainda que parcial), do escravo alforriado e de seus filhos.
Finalmente, num raciocínio pouco usual na época, Alencar, de certa forma prefigurando Gilberto Freyre,
autor de "Casa Grande & Senzala", afirmava que a escravidão permitia a existência de uma cultura original
no Brasil, fruto da "miscigenação" de costumes entre "brasileiros" e negros africanos.

CARTAS A FAVOR DA ESCRAVIDÃO


Autor: José de Alencar
Organizador: Tâmis Parron
Editora: Hedra
Quanto: preço a definir (160 págs.

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