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Liga da Justiça

Deu liga
por Lucas Salgado
Já pedindo perdão pelo trocadilho, informo ao leitor que finalmente deu liga no
universo cinematográfico da DC. Não estamos diante do primeiro bom filme do
estúdio - Mulher-Maravilha já havia feito bonito neste sentido -, mas pela
primeira vez há de fato a sensação de que estamos diante de algo maior, de
algo que vale a pena ser mais explorado.

Após o irregular Batman vs Superman e o trágico Esquadrão Suicida, é muito


bom ver os personagens da DC ganhando destaque e profundidade em cena.
E este é justamente o ponto principal: desenvolvimento de personagens. A
Warner finalmente conseguiu fazer com que o público se interessasse por
todos os protagonistas, criando um cenário em que todos são importantes para
a história e todos ganham espaço para brilhar.

Seria um erro fazer um Liga da Justiça em que apenas Batman, Superman e


Mulher-Maravilha são importantes. Obviamente, são os nomes mais
reconhecidos, mas Flash, Aquaman e até Cyborg ganham espaço quase tão
importante em cena. Se a dinâmica e interação entre os heróis era algo que
não funcionava em BvS - como esquecer da conexão "Martha" -, aqui é um dos
destaques, graças a uma boa química e a um elenco talentoso e carismático.

Gal Gadot está cada vez mais confortável no papel de Diana Prince, mostrando
sensibilidade e, é claro, muita força e determinação. Já Batman tenta lidar com
a culpa pela morte do Superman, ao mesmo tempo em que lida
constantemente com sua própria mortalidade e humanidade em um time de
super-heróis. Ben Affleck segue bem no papel, passando de forma clara a
impressão de que estamos diante de um sujeito já cansado de tudo aquilo, mas
que sabe que deve continuar lutando. Os novos nomes (Ezra Miller, Jason
Momoa e Ray Fisher) não decepcionam, embora o primeiro pode incomodar
um pouco os fãs do tom sombrio da DC, uma vez que o Flash aqui é
praticamente o alívio cômico do filme. Há, de fato, um exagero, mas ele
entrega sim alguns momentos bem divertidos.

Para completar o time, como todo mundo já sabia, Henry Cavill retorna como
Superman e tem sua melhor participação no papel. O Homem de Aço, que
sempre foi um herói problemático, uma vez que o fato de ser praticamente
imbatível prejudica a criação de situações ameaçadoras, aqui surge de forma
imponente, mas também marcada por sua morte. O retorno do herói é o ponto
mais alto da produção, propiciando uma ótima cena de ação e um tocante
reencontro.

Se por um lado, a presença de Cavill é um destaque. Por outro, oferece um dos


momentos mais revoltantes do filme, que é a abertura, que lembra um pouco o
clima de Homem-Aranha: De Volta ao Lar. Mas este não é o problema, mas
sim o fato do ator surgir com o rosto bem deformado, consequência da retirada
digitalmente do bigode que não pôde tirar por causa das gravações de Missão
Impossível 6. Ficou tão artificial que gera o questionamento se realmente valia
a pena manter a cena.

Falando em cenas de ação, é importante destacar que tivemos uma grande


evolução com relação aos filmes anteriores, inclusive Mulher-Maravilha. A
opção por confrontos em ambientes claros valorizou o trabalho da equipe de
efeitos visuais e evitou aquele cenário borrado do final de BvS.

Sem querer despertar o ódio dos fãs da DC, é evidente que há uma clara
"marvelização" no que diz respeito ao tom do universo cinematográfico. Além
dos confrontos com luminosidade, Justice League (no original) investe
bastante no humor e nos momentos mais simpáticos, que ajudam a criar
empatia pelos personagens. Dentre as semelhanças com o universo Marvel,
agora negativamente, destaca-se a presença de um vilão pouco interessante e
nada desenvolvido. O Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) é uma figura pouco
ameaçadora e seus "ajudantes" são tão dispensáveis como os milhares de
alienígenas vistos no primeiro Vingadores ou os robôs comandados por Ultron
na sequência.

Embora incômodas para os fãs, as comparações entre DC e Marvel ficam


ainda mais inevitáveis diante da entrada de Joss Whedon no projeto. Ele é um
dos roteiristas do filme e também dirigiu parte das filmagens, após o
afastamento de Zack Snyder por causa de uma tragédia pessoal. O crédito de
diretor, no entanto, segue apenas com Snyder, enquanto Whedon divide o
roteiro com Chris Terrio (Argo e Batman vs Superman).

A chegada de Whedon no universo DC é positiva. Não apenas pelo bom


trabalho na Marvel, mas pelo fato de ser um nome criativo e talentoso. No
entanto, a entrada repentina em Liga da Justiça não foi o cenário ideal. O
filme conta com problemas claros de construção da narrativa, seja no roteiro,
seja na montagem. Há a clara impressão de que foi uma obra remontada, com
visões conflitantes trabalhando numa só produção. Sendo mais direto, o longa
é uma bagunça. As apresentações são jogadas de forma pouco naturais e o
vilão surge de forma aleatória e pouco impactante em diversos momentos. A
bagunça, no entanto, é suavizada por heróis realmente cativantes e por um
cenário geral que merece ser explorado.

Conhecido pelas trilhas dos filmes de Tim Burton, o compositor Danny


Elfman volta a trabalhar num filme da DC 25 anos após Batman: O Retorno.
Ele faz um trabalho realmente interessante, principalmente por unir a sua trilha
para Batman, a de Rupert Gregson-Williams para Mulher-Maravilha, e o
clássico tema de John Williams para Superman - O Filme. E as referências aos
filmes anteriores da DC (além do presente universo) não estão apenas na
trilha, mas em frases e até poses presentes no roteiro. É interessante ver Cavill
fazendo a clássica pose de Christopher Reeve.

Ao final, temos duas cenas pós-crédito, uma bobinha e uma realmente


importante. É fundamental que o espectador permaneça na sala até o último
segundo. Liga da Justiça não é o filme perfeito, mas é uma luz de esperança
no universo da DC. É a obra que consegue ser tudo aquilo que os fãs
de Batman vs Superman fingem que ele é.