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3.

2 Estudo dos referenciais de análise sobre a forma


arquitetônica: identificação das estruturas de saber

3.2.1. Conceitos sobre princípios da forma, do espaço e de sua ordenação

Nesta seção identifica-se a estrutura de saber que Francis Ching considera para analisar obras
de arquitetura. Este referencial de análise é tradicionalmente adotado em contextos de ensino /
aprendizagem de projeto de arquitetura, trazendo conceitos de percepção e organização da
forma arquitetônica.

Ching (2002) caracteriza a primeira fase de um processo de projeto como associada ao


reconhecimento de uma situação problemática e à decisão de solucioná-la, sendo o projeto um
ato de natureza intencional. Dessa maneira, considera que a natureza da solução estará
inevitavelmente condicionada ao modo de captar, definir e articular o problema, e que a
profundidade e alcance de seu vocabulário de projeto incidirá sobre a percepção do problema e
na maneira de solucioná-lo. O autor destaca que o seu estudo se centra em articular os
elementos do vocabulário de projeto e apresentar um amplo espectro de soluções aos
problemas arquitetônicos, com intenção de enriquecer o vocabulário pessoal de projeto através
da exploração, do estudo e da aplicação prática destes elementos do vocabulário.

Para o autor, a disposição e a organização dos elementos da forma e do espaço os que


determinam o modo como a arquitetura poderá promover esforços, fazer brotar respostas e
transmitir significados. Os elementos da forma e espaço se apresentam, em conseqüência,
como meios para resolver um problema em resposta aos condicionantes de funcionalidade,
intencionalidade e contexto, ou seja, se apresentam arquitetonicamente.

O autor destaca que se pode estabelecer a analogia da necessidade de saber e compreender o


alfabeto antes de formar palavras e de desenvolver um vocabulário, e que se podem
compreender as regras da gramática e a sintaxe antes de construir frases. Que se podem,
assim, compreender os princípios da composição antes de ser capaz de escrever ensaios,
novelas e similares. Sugere, ainda, que, analogamente, em termos de projeto de arquitetura, é
conveniente que o estudante avalie os elementos básicos da forma e espaço arquitetônicos,
compreenda como podem ser manipulados durante o desenvolvimento de uma idéia de projeto
e perceba suas implicações visuais na realização de uma solução de projeto.

No sentido de auxiliar neste processo de compreensão e construção de um vocabulário de


projeto, Ching (2002) identifica conceitos sobre a organização da forma arquitetônica. A
estrutura de saber que reflete a estrutura geral tratada pelo autor está ilustrada no mapa
conceitual da figura 3.13, em que são destacados os elementos primários da forma
arquitetônica, os conceitos relacionados a caracterização e constituição da própria forma, às
relações entre a forma e o espaço arquitetônico, a organização da forma arquitetônica, a
circulação, ao uso dos conceitos de proporção e escala como elementos reguladores da forma
e do espaço arquitetônico, e os princípios de composição.

Figura 3.13 – Mapa conceitual que organiza a estrutura geral de saber tratada por Ching (2002). Fonte: a
autora.

Ching (2002) inicia seu estudo apresentando os elementos básicos, sistemas e ordens que
constituem qualquer trabalho físico no marco arquitetônico, os quais se podem perceber e
experimentar. Destaca que alguns podem ser mais imediatos, e outros mais difusos para nossa
percepção, e que alguns serão dominantes e outros terão um papel de segunda ordem dentro
da organização total de um edifício. E que uns transmitem imagens e significados e outros
atuam como qualificadores e modificadores destas imagens e significados. No entanto, reitera
que estes elementos sempre devem estar inter-relacionados, serem interdependentes e
reforçarem-se mutuamente, a fim de formar um conjunto integrado (Ching, 2002). Para o autor
a ordem arquitetônica se estabelece no momento em que estes elementos e sistemas
enquanto partes constituintes tornam perceptíveis as relações entre os mesmos e o edifício,
como um todo, configurando assim uma ordem conceitual.

Destaca que cada elemento primário se entende, em primeira instância, como elemento
conceitual, e logo após, como elemento visual constitutivo do vocabulário empregado no
projeto arquitetônico. Desse modo, elementos não visíveis do ponto de vista conceitual, tal
como o ponto, a linha, o plano e o volume, se tornam visíveis sobre a superfície de papel ou no
espaço tridimensional, o que os converte em formas dotadas de características de essência,
contorno, tamanho, cor e textura, e torna possível perceber-se em sua estrutura a existência de
tais elementos primários.

A figura 3.14 apresenta um mapa conceitual que identifica a estrutura de saber relacionada aos
conceitos e características que Ching (2002) atribui aos elementos primários da forma
arquitetônica.
Figura 3.14 – Mapa conceitual que identifica a estrutura de saber relativa aos elementos primários,
tratados por Ching (2002). Fonte: a autora.

Segundo o autor, o elemento ponto, por exemplo, assinala uma posição no espaço, mas
conceitualmente não tem longitude, largura e profundidade, e é estático, central e não
direcional. No entanto, possui outros atributos importantes para a configuração da forma
arquitetônica, tal como ocorre quando se encontra no centro de um campo visual, situação em
que se torna estável e organiza os elementos que se encontram ao seu redor e, em
conseqüência, exerce um domínio sobre este campo.

Os atributos do elemento linha, segundo Ching (2002), têm significados particulares em um


traçado visual, do ponto de vista de orientação ou direção, como por exemplo, uma linha
vertical pode expressar um estado de equilíbrio com as forças de gravidade, ou a própria
condição humana, ou assinalar uma posição no espaço; no entanto uma linha horizontal pode
representar estabilidade, o plano de um terreno, o horizonte de um corpo em repouso.

Dessa maneira, em relação aos elementos primários tais como as linhas atuando como
definidoras de planos, o autor destaca que elementos lineares verticais e horizontais, ao
configurarem outros elementos tais como pérgulas e pilares construtivos arquitetônicos, de
maneira conjunta, são capazes de delimitar um volume de um espaço, determinando a sua
configuração.

Para Ching (2002), em vista que a arquitetura atende especificamente a formação de volumes
tridimensionais de massas e espaços, o plano passa a ser considerado um elemento
fundamental do vocabulário de projeto arquitetônico. A forma final de uma construção pode,
assim, destacar suas características volumétricas a partir da diferenciação entre planos
verticais e horizontais.

O autor destaca que, para o contexto de seu estudo, a forma sugere uma referência a estrutura
interna, ao contorno exterior e ao princípio que confere unidade ao todo. Inclui com freqüência
um sentido de massa ou de volume tridimensional. Assim, suas propriedades visuais, os seus
elementos básicos constituintes, a articulação entre estes elementos, e possíveis
transformações aplicadas a eles, são determinantes para sua configuração final.

A figura 3.13 apresenta um mapa conceitual que identifica a estrutura de saber atribuída por
Ching (2002) para conceituar e caracterizar a forma arquitetônica.

Figura 3.13 – Mapa conceitual que identifica a estrutura de saber relativa aos conceitos sobre a forma,
tratados por Ching (2002). Fonte: a autora.

Segundo o autor, os elementos básicos da forma, como perfis, também possuem


características particulares que devem ser explicitadas, neste caso, as de estabilidade,
racionalidade, pureza, neutralidade e dinamismo, para que possam, dessa maneira, vir a
compor o vocabulário projetual arquitetônico. Para Ching (2002) uma forma radial, por exemplo,
possui características de centralidade e de linearidade, possuindo um núcleo que é o centro
simbólico ou funcional da organização. As formas agrupadas caracterizam-se por congregar as
formas conforme exigências funcionais, tais como de tamanho, forma e proximidade.

O mapa da figura 3.14 apresenta a estrutura de saber referente aos conceitos de Forma e
Espaço. Segundo Ching (2002) quando um espaço começa a ser apreendido, encerrado,
conformado, e estruturado pelos elementos da forma, a arquitetura começa a existir, e a forma
arquitetônica, desse modo, se produz no encontro entre a massa e o espaço.
Figura 3.14 – Mapa conceitual que identifica a estrutura de saber relativa aos conceitos sobre a forma e
espaço, tratados por Ching (2002). Fonte: a autora.

Para as diferentes escalas da arquitetura o autor destaca que, na escala de implantação, a


relação entre a forma e espaço caracteriza estratégias que vinculam a forma de um edifício e
seu espaço envolvente. Na escala do edifício essa relação articulará o volume espacial
envolvente e gerará uma área de influência.
Para o autor os elementos horizontais e verticais da forma em suas distintas configurações e
orientações definem tipologias espaciais concretas.
Em relação a esta estrutura, Ching (2002) destaca, por exemplo, que o plano de cobertura,
pertencente à categoria de elementos horizontais, provavelmente é o elemento mais importante
para delimitar espaços de uma forma construtiva, e sobre ela se dispõe visualmente formas e
espaços, a partir de distintas configurações.
Para o autor a distribuição de uma forma é susceptível de ser manipulada para definir um
campo ou um volume espacial isolado, e a influência que tem a distribuição de maciços e
vazios nas características do espaço que se está definindo.

O mapa conceitual da figura 3.15 identifica os conceitos de Organização, considerados por


Ching (2002). Segundo o autor os espaços se relacionam entre si e se organizam segundo
modelos formais e espaciais coerentes aos distintos espaços de um edifício. Assim destaca
que o modelo de relação espacial mais freqüente é a continuidade, que permite uma clara
identificação dos espaços que estes respondem e as suas exigências funcionais e simbólicas.
E ressalta, assim, que o grau de continuidade espacial e visual que se estabelece entre os
espaços contíguos está condicionado às características do plano que os une e os separa.
Figura 3.15 – Mapa conceitual que identifica a estrutura de saber relativa aos conceitos sobre
Organização, tratados por Ching (2002). Fonte: a autora.

Nesta estrutura o autor caracteriza tipos de relações entre os espaços e classifica alguns tipos
de organizações espaciais, destacando suas características, tais como as de uma organização
do tipo central como composição estável e concentrada, composta de numerosos espaços
secundários que se agrupam em torno a um espaço central, dominante e de maior tamanho.
Diferencia ainda uma organização radial de uma central, referindo-se a que, em uma
organização centralizada, há um direcionamento até o interior do espaço central, e em uma
organização radial há um esquema em que braços lineares se estendem e acoplam-se por si
mesmo a elementos ou particularidades de localização.

O mapa conceitual da figura 3.16 identifica a estrutura de saber que Ching (2002) considera
para os conceitos sobre Circulação.
Figura 3.16 – Mapa conceitual que identifica a estrutura de saber relativa aos conceitos sobre Circulação,
tratados por Ching (2002). Fonte: a autora.
O autor define que a Circulação é o fio perceptivo que vincula os espaços de um edifício, que
reúne qualquer conjunto de espaços interiores ou exteriores, e que permite experimentarmos
um espaço com relação a outro quando nos movemos através de uma seqüência destes.
Apresenta os componentes fundamentais do sistema de circulação de um edifício, enquanto
elementos positivos que influem na percepção relativa a formas e espaços construtivos.
Para Ching (2002) os espaços de circulação constituem uma parte integral da organização de
qualquer edifício e ocupam uma quantidade importante do volume do mesmo. Assim, forma e
escala do espaço de circulação devem ser apropriados à locomoção do usuário, a um passeio,
uma breve parada, um descanso, e a contemplação da paisagem. Estas atribuições
influenciarão na determinação do tipo, forma e configuração dos espaços de circulação.

Na figura 3.17 está ilustrada uma estrutura de saber referente aos conceitos de Proporção e
Escala, aplicados na arquitetura, considerados por Ching (2002).
O autor ressalta o emprego destes conceitos na composição arquitetônica por teóricos da
arquitetura em diferentes épocas.
Para o autor a escala refere-se ao tamanho de um objeto comparado com um standard de
referência ou com as dimensões de outro objeto e a proporção se refere à justa e harmoniosa
relação de uma parte do objeto com outras ou com o todo. Esta relação pode não ser somente
de magnitude, senão também de quantidade ou de grau. O seu estabelecimento pelo projetista
pode se relacionar com a natureza dos materiais, com a reação dos elementos aos efeitos das
forças, e com o modo de fabricação dos objetos.
Figura 3.17 – Mapa conceitual que identifica a estrutura de saber relativa aos conceitos sobre Escala e
Proporção, considerados por Ching (2002). Fonte: a autora.

O autor destaca que os Sistemas de Proporcionalidade se referem ao controle da proporção


das formas e espaços de uma edificação. E que o propósito de todas as teorias da proporção é
criar um sentido de ordem entre os elementos de uma construção visual.
Segundo o autor, a proporção áurea, por exemplo, é um dos sistemas matemáticos de
proporcionalidade que surgiram do conceito pitagórico de que “tudo é número” e da crença de
que certas relações numéricas refletem a estrutura harmônica do universo. O sistema Modulor,
de Le Corbusier, é baseado na proporção áurea, e na idéia de um sistema de medidas que
poderia governar sobre as longitudes, as superfícies e volumes na arquitetura, e “manter a
escala humana em todas as partes” (Le Corbusier in Ching, pág. 303).
Ressalta ainda que a proporção corresponde a um conjunto ordenado de relações matemáticas
existentes entre as dimensões de uma forma ou de um espaço. E que a escala se relaciona a
maneira de perceber ou julgar o tamanho de um objeto em relação a outro. A escala humana
na arquitetura se apoiaria, dessa maneira, nas dimensões e proporções do corpo humano,
caracterizando assim os sistemas antropomórficos de proporcionalidade que surgiram.

Na figura 3.18 está ilustrada uma estrutura de saber referente aos conceitos sobre Princípios
Ordenadores na arquitetura, considerados por Ching (2002).
Figura 3.18 – Mapa conceitual que identifica a estrutura de saber relativa aos conceitos sobre Princípios
Ordenadores, considerados por Ching (2002). Fonte: a autora.

Para Ching (2002) a ordem não se refere somente à regularidade geométrica de uma
composição, mas também aponta àquela condição em que cada uma das partes de um
conjunto está corretamente disposta em relação às demais, e ao seu propósito final, desde que
dê lugar a uma organização harmoniosa.
Segundo o autor, o princípio de hierarquia implica que na maioria, senão na totalidade das
composições arquitetônicas, existem autênticas diferenças entre as formas e os espaços que,
em certo sentido, refletem seu grau de importância e tarefa funcional, formal e simbólica, que
se articula em sua organização.
O ritmo refere-se ao movimento que se caracterize pela recorrência modulada de elementos ou
de motivos a intervalos regulares ou irregulares. Implica a noção fundamental de repetição que,
como artifício, é possível empregar para organizar as formas e espaços em arquitetura, e
elementos recorrentes que criam também ritmos visuais.
O autor ressalta que a transformação é um princípio que faculta ao projetista selecionar um
modelo protótipo arquitetônico cuja estrutura formal e ordenação de elementos sejam
apropriadas e lógicas, assim como para modificá-lo através de uma série de manipulações
descontínuas, a fim de que cumpra resposta às condições e contexto específicos do projeto em
questão.

Ching (2002) destaca que estes elementos componentes da forma e do espaço arquitetônicos
se referem aos aspectos visuais de sua realidade física na arquitetura e que além de suas
funções visuais, de suas inter-relações e da natureza de sua organização, transmitem também
noções de domínio e lugar, de acesso e circulação, de hierarquia e de ordem. Apresentam-se,
assim, como os significados literais e indicativos da forma e espaço arquitetônicos.
Observa-se que esta estrutura de saber, delimitada por Ching (2002), objetiva relacionar os
conceitos geométricos com conceitos perceptivos sobre a forma arquitetônica, que segundo o
autor, tem o propósito de que o estudante adquira, simultaneamente, um vocabulário
geométrico e arquitetônico, dotado de sentido conceitual.