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Curso de Graduação a Distância

Evangelhos
Sinóticos e Atos
dos Apóstolos
(4 créditos – 80 horas)

Autores:
João Inácio Wenzel
José Edmilson Schinelo

Universidade Católica Dom Bosco Virtual


www.virtual.ucdb.br | 0800 647 3335
Missão Salesiana de Mato Grosso

Universidade Católica Dom Bosco


Instituição Salesiana de Educação Superior

Chanceler: Pe. Gildásio Mendes dos Santos


Reitor: Pe. Ricardo Carlos
Pró-Reitora de Graduação: Profª. Rúbia Renata Marques
Diretor da UCDB Virtual: Prof. Jeferson Pistori
Coordenadora Pedagógica: Profª. Blanca Martín Salvago

Direitos desta edição reservados à Editora UCDB


Diretoria de Educação a Distância: (67) 3312-3335
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CEP 79117-900 Campo Grande – MS

Wenzel, José Inácio; Schinelo, José Edmilson.


Disciplina: Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos.

José Inácio Wenzel. José Edmilson Schinelo. Campo Grande: UCDB, 2016. 130 p.

Palavras-chave:
1. Bíblia 2. Evangelhos Sinóticos 3. Atos dos Apóstolos 4. Teologia

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APRESENTAÇÃO DO MATERIAL DIDÁTICO IMPRESSO

Este material foi elaborado pelo professor conteudista sob a orientação da equipe
multidisciplinar da UCDB Virtual, com o objetivo de lhe fornecer um subsídio didático que
norteie os conteúdos trabalhados nesta disciplina e que compõe o Projeto Pedagógico do
seu curso.

Elementos que integram o material


Critérios de avaliação: são as informações referentes aos critérios adotados para
a avaliação (formativa e somativa) e composição da média da disciplina.
Quadro de Controle de Atividades: trata-se de um quadro para você organizar a
realização e envio das atividades virtuais. Você pode fazer seu ritmo de estudo, sem
ultrapassar o prazo máximo indicado pelo professor.
Conteúdo Desenvolvido: é o conteúdo da disciplina, com a explanação do
professor sobre os diferentes temas objeto de estudo.
Indicações de Leituras de Aprofundamento: são sugestões para que você
possa aprofundar no conteúdo. A maioria das leituras sugeridas são links da Internet para
facilitar seu acesso aos materiais.
Atividades Virtuais: atividades propostas que marcarão um ritmo no seu estudo.
As datas de envio encontram-se no calendário do Ambiente Virtual de Aprendizagem.

Como tirar o máximo de proveito


Este material didático é mais um subsídio para seus estudos. Consulte outros
conteúdos e interaja com os/as outros/as participantes. Portanto, não se esqueça de:
· Interagir com frequência com os/as colegas e com o professor, usando as
ferramentas de comunicação e informação do Ambiente Virtual de Aprendizagem – AVA;
· Usar, além do material em mãos, os outros recursos disponíveis no AVA: aulas
audiovisuais, vídeo-aulas, fórum de discussão, fórum permanente de cada unidade, etc.;
· Recorrer à equipe de tutoria sempre que precisar orientação sobre dúvidas quanto
a calendário, atividades, ferramentas do AVA, e outros;
· Ter uma rotina que lhe permita estabelecer o ritmo de estudo adequado a suas
necessidades como estudante, organize o seu tempo;
· Ter consciência de que você deve ser sujeito ativo no processo de sua
aprendizagem, contando com a ajuda e colaboração de todos/as.

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Objetivo Geral
Propiciar noções gerais acerca dos Evangelhos Sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) e
Atos dos Apóstolos, a gênese dos textos, a época histórica, social, econômica e política do
tempo da redação, seus/suas destinatários/as e mensagem.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO – SUMÁRIO

UNIDADE 1 - INTRODUÇÃO GERAL AOS EVANGELHOS SINÓTICOS E ATOS DOS


APÓSTOLOS ........................................................................................................ 10
1.1 A experiência com Jesus Ressuscitado .................................................................... 11
1.2 Do anúncio à redação do Evangelho ....................................................................... 13
1.3 Informações sócio-históricas .................................................................................. 15

UNIDADE 2 – EVANGELHO SEGUNDO MARCOS .................................................. 17


2.1 Aspectos gerais do Evangelho de Marcos ................................................................ 17
2.2 Testemunho do Reino e formação do discipulado (Mc 8,22 – 10,52) .......................... 25

UNIDADE 3 – EVANGELHO SEGUNDO MATEUS ................................................... 42


3.1 Aspectos gerais do Evangelho de Mateus ................................................................ 42
3.2 A nova justiça do Reino no sermão da montanha ..................................................... 57
3.3 Os trabalhadores da vinha e a justiça do Reino (20,1-16) ......................................... 73

UNIDADE 4 – EVANGELHO SEGUNDO LUCAS ...................................................... 78


4.1 Aspectos gerais do Evangelho Segundo Lucas ......................................................... 78
4.2 “[...] Moveu-se de compaixão” ............................................................................... 93

UNIDADE 5 – ATOS DOS APÓSTOLOS ............................................................... 114


5.1 Aspectos gerais do livro de Atos dos Apóstolos ...................................................... 114
5.2 A comunidade cristã modelo de relações ............................................................... 116

REFERÊNCIAS ................................................................................................... 119


EXERCÍCIOS E ATIVIDADES ............................................................................. 123

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Avaliação

A UCDB Virtual acredita que avaliar é sinônimo de melhorar, isto é, a finalidade da


avaliação é propiciar oportunidades de ação-reflexão que façam com que você possa
aprofundar, refletir criticamente, relacionar ideias, etc.
A UCDB Virtual adota um sistema de avaliação continuada: além das provas no final de
cada módulo (avaliação somativa), será considerado também o desempenho do aluno ao longo
de cada disciplina (avaliação formativa), mediante a realização das atividades. Todo o processo
será avaliado, pois a aprendizagem é processual.
Para que se possa atingir o objetivo da avaliação formativa, é necessário que as
atividades sejam realizadas criteriosamente, atendendo ao que se pede e tentando sempre
exemplificar e argumentar, procurando relacionar a teoria estudada com a prática.
As atividades devem ser enviadas dentro do prazo estabelecido no calendário de
cada disciplina.

Critérios para composição da Média Semestral:

Para compor a Média Semestral da disciplina, leva-se em conta o desempenho


atingido na avaliação formativa e na avaliação somativa, isto é, as notas alcançadas nas
diferentes atividades virtuais e na(s) prova(s), da seguinte forma: Somatória das notas
recebidas nas atividades virtuais, somada à nota da prova, dividido por 2. Caso a disciplina
possua mais de uma prova, será considerada a média entre as provas.
Média Semestral: Somatória (Atividades Virtuais) + Média (Provas) / 2
Assim, se um aluno tirar 7 nas atividades e 5 na prova: MS = 7 + 5 / 2 = 6
Antes do lançamento desta nota final, será divulgada a média de cada aluno, dando
a oportunidade de que os alunos que não tenham atingido média igual ou superior a 7,0
possam fazer a Recuperação das Atividades Virtuais e/ou a Segunda Chamada. Após a
Segunda Chamada, será feito o lançamento definitivo da Média Semestral.
Se a Média Semestral for igual ou superior a 4,0 e inferior a 7,0, o aluno ainda
poderá fazer o Exame Final. A média entre a nota do Exame Final e a Média Semestral
deverá ser igual ou superior a 5,0 para considerar o aluno aprovado na disciplina.
Assim, se um aluno tirar 6 na Média Semestral e tiver 5 no Exame Final: MF = 6 + 5
/ 2 = 5,5 (Aprovado)

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FAÇA O ACOMPANHAMENTO DE SUAS ATIVIDADES

O quadro abaixo visa ajudá-lo a se organizar na realização das atividades. Faça seu
cronograma e tenha um controle de suas atividades:

AVALIAÇÃO PRAZO * DATA DE ENVIO **

Atividade 1.1
Ferramenta: Tarefa

Atividade 2.1
Ferramenta: Tarefa

Atividade 3.1
Ferramenta: Tarefa

Atividade 4.1
Ferramenta: Tarefa

Atividade 5.1
Ferramenta: Tarefa

Atividade 5.2
Ferramenta: Questionário

* Coloque na segunda coluna o prazo em que deve ser enviada a atividade (consulte o calendário
disponível no ambiente virtual de aprendizagem).
** Coloque na terceira coluna o dia em que você enviou a atividade.

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BOAS VINDAS

Olá!
Neste módulo, você é desafiado/a estudar os Evangelhos Sinóticos e Atos dos
Apóstolos. Os textos bíblicos, com certeza lhe serão mais familiares. Isso não significa,
entretanto, que suas novas descobertas serão menores.
Ao mesmo tempo que você irá adquirindo uma compreensão geral sobre os livros
de Marcos, Mateus, Lucas e Atos dos Apóstolos, também ampliará seu conhecimento sobre
a vida de cada comunidade onde os textos surgiram. Ao mergulhar nas experiências
fundantes das primeiras comunidades cristãs, você perceberá a riqueza da diversidade que
acompanhou o cristianismo primitivo. Essa mesma diversidade, fruto do sopro do Espírito
em cada realidade específica, nos acompanha até os dias de hoje.
O presente material conta com a grande colaboração do biblista João Inácio
Wenzel, responsável pela maioria dos textos. Nosso agradecimento também a Ana Luiza
Cordeiro, pela leitura atenta e pelas sugestões.
Que a radicalidade com que os/as primeiros/as cristãs/ãos testemunharam sua fé
seja inspiração para seu aprendizado e para se compromisso de fé. Um bom estudo!
Um abraço!

Edmilson Schinelo

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Pré-teste

A finalidade deste pré-teste é fazer um diagnóstico quanto aos conhecimentos


prévios que você já tem sobre os assuntos que serão desenvolvidos nesta
disciplina. Não fique preocupado/a com a nota, pois a atividade não será
pontuada.

1. Assinale a alternativa INCORRETA sobre os Evangelhos Sinóticos:


a) Sinóticos é o termo utilizado para falarmos dos livros de Marcos, Mateus e Lucas.
b) Os evangelhos sinóticos compartilham muitas histórias em comum.
c) Sinóticos é o termo utilizado para falarmos dos livros de Marcos, Mateus, Lucas e João.
d) Os evangelhos sinóticos preservam a pluralidade de experiências de fé em Jesus Cristo.

2. A fonte “Q”, ou Quelle, se refere a:


a) Possível coleção dos ditos populares de Jesus.
b) Didáque.
c) Conjunto de leis.
d) Carta de Paulo que se extraviou.

3. Assinale a alternativa correta sobre os Evangelhos Sinóticos:


a) O evangelho de Marcos foi o segundo a ser escrito, possivelmente em Jerusalém.
b) Mateus e Lucas copiaram muita coisa de Marcos, mas também fizeram uso de material
próprio.
c) Mateus foi escrito por volta dos anos 80, destinando-se principalmente aos cristãos de
origem helênica.
d) A obra lucana (Lucas e Atos) destina-se primeiramente aos cristãos de origem judaica.

4. Assinale a alternativa INCORRETA em relação aos Atos dos Apóstolos:


a) É o segundo volume de uma única obra, juntamente com o Evangelho de Lucas.
b) Possui os mesmos autores, destinatários, local e data do Evangelho de Lucas.
c) Descreve a vida das primeiras comunidades cristãs.
d) Restringe a mensagem de Jesus a Jerusalém.

Submeta o Pré-teste por meio da ferramenta Questionário.

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INTRODUÇÃO

Estimado/a acadêmico/a,

Nesta disciplina apresentaremos um panorama geral sobre os Evangelhos Sinóticos


e Atos dos Apóstolos. É importante que você leia os textos, assista aos vídeos, participe e
interaja nos fóruns e chats das unidades.
O material se estrutura em cinco unidades. Na primeira, “Introdução Geral aos
Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos”, abordamos aspectos gerais sobre a experiência
fundante das primeiras comunidades cristãs e sua pluralidade de experiências de fé.
A segunda unidade é dedicada ao “Evangelho Segundo Marcos”. Fazemos uma
introdução geral ao livro, apresentando o contexto histórico da narração, suas fontes,
objetivos, possíveis enfoques, destinatários/as e mensagem. Você descobrirá em Marcos um
Jesus divino, mas ao mesmo tempo humano, solidário, comprometido com a defesa da vida
em oposição a tudo que gera morte, propondo um Reino diferente das expectativas
messiânicas da época.
O “Evangelho Segundo Mateus” é objeto de estudo da terceira unidade. Da mesma
forma, você também encontrará: introdução geral, contexto histórico, fontes, objetivos,
possíveis enfoques, destinatários/as e mensagem. Mas enquanto o texto de Marcos foi
escrito em tempos de guerra, o texto de Mateus, bem como o texto “Segundo Lucas” (tema
da quarta unidade), foram escritos um pouco mais tarde, por e para grupos diferentes.
Na quinta unidade, apresentaremos uma visão geral dos “Atos dos Apóstolos”,
segunda parte da chamada obra lucana.

Desejamos a todos/as um bom estudo!


Um abraço!

José Inácio Wenzel


José Edmilson Schinelo

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UNIDADE 1

INTRODUÇÃO GERAL AOS EVANGELHOS


SINÓTICOS E ATOS DOS APÓSTOLOS
OBJETIVO DA UNIDADE: Abordar aspectos gerais sobre os Evangelhos Sinóticos e
Atos dos Apóstolos, a experiência fundante das primeiras comunidades cristãs e sua
pluralidade de experiências de fé.

Ao fazermos uma leitura corrida dos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas nos
damos conta que ambos seguem o mesmo roteiro de fundo, falam do mesmo assunto:
quem é Jesus de Nazaré e o que
significa ser discípulo. Há textos
comuns aos três e há textos
exclusivos em cada um. Há textos
comuns entre Mateus e Marcos,
ausentes em Lucas, e outros textos
comuns entre Lucas e Marcos,
ausentes em Mateus. Mas, há
também textos comuns entre Mateus
e Lucas, ausentes em Marcos. Como
se explica isso? Esta e outras
perguntas surgem ao largo da leitura Fonte: http://migre.me/s06tO

dos evangelhos:
 Por que tantas narrativas do evangelho de Jesus, o Cristo?
 Por que apenas quatro foram acolhidas no cânon da Bíblia?
 Por que até hoje ninguém fez uma síntese plausível dos evangelhos?
 É verdade que existiu um evangelho escrito em aramaico do qual derivaram
os evangelhos sinóticos?
 Ou teria existido outro texto conhecido como ditos populares de Jesus ao
qual Marcos não teve acesso?
 Por que em alguns destes textos comuns aos três evangelhos sinóticos são
omitidos, alterados ou acrescentados aspectos que alteram significativamente o
significado do mesmo?
Muita coisa entra em jogo para responder estas questões: o contexto histórico, a
formação das primeiras comunidades com tradições, culturas, locais e épocas diferentes; a

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distância entre o movimento de Jesus e de João Batista e a redação dos evangelhos. A
realidade e os problemas específicos de cada povo e comunidade.
Ao realizar a leitura dos evangelhos sinóticos, nos daremos conta de que há uma
pluralidade de experiências de fé na caminhada do seguimento de Cristo desde o começo.
Eles são o testemunho escrito de diferentes comunidades cristãs sobre a experiência que
tiveram em partilhar a vida e a missão com Jesus de Nazaré. Havia autonomia na forma de
viver e celebrar a fé. O que unia as comunidades era o seguimento da pessoa de Jesus, o
Cristo, que brota do evento da Páscoa, morte e Ressurreição de Jesus.
Faremos um breve percorrido desde a experiência fundante do cristianismo até a
redação do primeiro evangelho. As perguntas são respondidas ao longo do estudo,
acompanhando o processo da redação dos evangelhos. Por ser o primeiro, propomos
mergulhar fundo no caminho proposto pelo evangelho de Marcos, sem ainda fazermos
comparação com os outros evangelhos. Em seguida focaremos Mateus. Aí sim não nos
cansaremos de comparar um e outro. A mesma metodologia iremos propor para
empreender a caminhada de seguimento de Cristo descrito por Lucas.
O objetivo do nosso estudo será criar um espaço de estudo, reflexão e conhecimento
dos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e suas repercussões hoje. Especificamente nos
propomos estudar o contexto sociocultural e religioso no qual foram escritos os evangelhos,
descobrir neles quem é Jesus e seu anúncio do Reino e, à luz do estudo do evangelho,
refletir sobre nosso compromisso cristão hoje no seguimento de Cristo.

1.1 A experiência com Jesus Ressuscitado

A morte de Jesus provocou uma profunda crise entre os seguidores e seguidoras de


Jesus: fuga e desespero (Mc 14,27.50); medo, portas trancadas (Jo 20,19); volta ao seu
trabalho (Jo 21,2-4); perda da fé: não acreditam nelas (Mc 16,11; Lc 24,11 Jo 20,1-10);
morte da esperança (Lc 24, 21); dúvidas (Mt 28,1; Mc 16,14) e demora em crer (Jo 20,25).
Confira algumas destas citações.
A experiência fundante do dinamismo missionário e o reencontro entre os/as
discípulos/as foi a experiência com Jesus Ressuscitado. É atestado pelas quatro narrativas
(Mc, Mt, Lc e Jo) que a primeiras testemunhas da Ressurreição são as mulheres. Discípulas
de Jesus desde Galileia (Lc 8,1-3), subiram com Ele para Jerusalém e não desistiram dele
nem mesmo depois de crucificado (Mt 28,1-8; Mc 16,1-8; Lc 24,1-11; Jo 20,1-2).
Analisando os relatos da ressurreição, podemos chegar à conclusão de que o mais
provável é de que a rearticulação do movimento de Jesus tenha ocorrido na Galileia. Mateus

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e Marcos situam nesta região o encontro dos/as discípulos/as com o ressuscitado (Mt
28,7.10.16; Mc 14,28; 16,7). Também o acréscimo ao quarto evangelho (Jo 21) fala de uma
aparição no lago de Tiberíades (Jo 21,1). Apenas Lucas situa todos os relatos da
ressurreição em Jerusalém, mas sabe-se que sua intenção teológica é mostrar que
Jerusalém é ponto de chegada para Jesus e ponto de partida para as comunidades (At 1,8).
No entanto, Lucas confirma que os/as primeiros/as discípulos/as de Jesus eram todos/as
galileus (At 2,7).
Relendo as escrituras, seus corações ardiam e encontravam luzes para retomar a
caminhada (Lc 24,25-27). Reúnem-se nas casas onde continuam a vivenciar novas relações
de partilha e solidariedade. Seus olhos foram se abrindo e o sentimento da presença viva de
Jesus na comunidade foi crescendo sempre mais (Mt 18,20). Ao partilhar o pão, veio a
certeza de sua presença (Lc 24,28-32).
Discípulas e discípulos fizeram a experiência de que o Ressuscitado é o mesmo
Jesus. Isso é atestado pelas chagas (Lc 2,39-40; Jo 20,20.27), pelas refeições (Lc 24,41-
42), pelos gestos de partilha (Lc 24,30.35; Jo 21,13) e pela mesma voz (Jo 20,16). Mas ao
mesmo tempo é diferente: Jesus entra em casa totalmente fechada (Jo 20,19.26), é
confundido com um jardineiro (Jo 20,29) ou forasteiro (Lc 24, 13s). Foi exaltado junto do
Pai (Mc 16,19; Lc 14,51; At 1,9), mas continua presente no Espírito, como advogado e força
para quem o segue pelo caminho (Jo 14,16; Mt 28,20; Lc 24,49).
O Espírito prolonga e continua a missão de Jesus. Segundo Mt 28,16-20, o Espírito e
a missão foram dados às igrejas da Galileia um tempo depois dos acontecimentos de
Jerusalém. Em Jo 20,20-23, Jesus recria a humanidade, doando em Jerusalém o Espírito no
mesmo dia da ressurreição. Lucas também situa a doação do Espírito na capital, cinquenta
dias depois, durante a festa judaica de Pentecostes. Com isso quer deixar claro de que não
é mais a Lei quem conduz o “novo Israel”, mas a força que vem de Deus.
O surpreendente é que, apesar de sua morte, Jesus continua guiando seu
movimento através do Espírito de Deus (2Cor 3,17-18). Em outros movimentos populares,
quando um líder morre, é substituído por outro. No movimento de Jesus, Ele mesmo
continuou sendo o líder e a inspiração de seus seguidores.
O primeiro anúncio das comunidades foi a proclamação (kerygma) da Boa Nova da
presença atuante de Jesus ressuscitado e de seu Espírito no movimento cristão. O núcleo da
profissão de fé era a afirmação da morte na cruz e ressurreição de Jesus, como podemos
ver na primeira carta de Paulo aos Coríntios (1 Cor 15,3-4) e no primeiro discurso de Pedro
nos Atos dos Apóstolos (At 2,14-36).
O anúncio central de Jesus foi a pregação da vinda do Reino de Deus (Mc 1,15),
bem como a realização de sinais de que o Reino já está em marcha (Lc 7,22; 11,20). Depois
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da Páscoa, o movimento cristão tinha como tema fundamental a proclamação do Reino
realizado em Jesus como “Cristo” e “Senhor”, realizador do Reino pela sua morte e
ressurreição. Chamá-lo de Cristo, ungido de Deus, era, por um lado, reconhecer nele a
realização da esperança profética na vinda do Messias como servo sofredor, e, de outro, era
uma contestação da divindade do imperador, que se dizia filho de Deus. Jesus é o Senhor
que liberta (em hebraico YHWH, lido Adonai), em oposição ao Deus manipulado pela
religião oficial do templo, e pelo imperador de Roma que se apresentava como o único
senhor do mundo (kyrios). Significa, também, que ninguém pode pretender ser senhor de
outro, pois todas as pessoas da comunidade são servas do mesmo Senhor, Jesus Cristo.
As escrituras do Primeiro Testamento, relidas agora à luz da experiência pascal da
ressurreição, ajudam os “do caminho” do seguimento de Jesus a compreender que Jesus é
o Messias anunciado na perspectiva do servo sofredor do 2º Isaías. A experiência da
ressurreição dá um novo sentido à Escritura. Podemos verificar isso facilmente nos
primeiros discursos de Pedro - At 2,14-36; 3,12-26 e 10,34-43 – nos quais ele descreve os
últimos acontecimentos a respeito de Jesus, o que Ele fez, como foi entregue e morto, e
afirma: “mas Deus o ressuscitou...” (At 2,24; 3,15; 10,40). Em sua argumentação mostra
que, o que está acontecendo, é o cumprimento do que fora anunciado na Lei (Pentateuco),
pelos Profetas e Escritos.
Deste modo, as escrituras e o evento Jesus se iluminam mutuamente. A releitura das
escrituras joga luzes para compreender e superar o drama da paixão, morte e ressurreição
de Jesus, e, ao mesmo tempo, a vida de Jesus e sua irrupção pascal passam a ser o critério
para reler as Escrituras. É que Estevão faz em seu discurso (At 7,2-53), mostrando
historicamente como seus executores rejeitaram e “mataram os que anunciavam a vinda do
Justo”, de quem eles, agora, se tornaram “traidores e assassinos” (cf. At 7,52).
A mesma metodologia será utilizada nos relatos dos evangelhos. Insiste-se em dizer
que aquilo que se realizou em Jesus foi para “cumprir as Escrituras” (Mt 26,54.56; Lc 4,21;
Jo 13,18; 17,12) ou ainda para “cumprir o que fora dito pelo profeta...” (Mt 1,22;
2,15.17.23; 4,14; 8,17). Na experiência da transfiguração (Mc 9,2-8; Mt 17,1-8; Lc 9,28-36)
há um diálogo com as escrituras, simbolizadas na figura de Moisés (Pentateuco) e Elias
(Profetas). E a voz da nuvem confirma o ensinamento de Jesus sobre a paixão: “Este é meu
Filho amado. Escutai-o!”.

1.2 Do anúncio à redação do Evangelho

Há uma distância muito grande entre o acontecimento histórico da vida, morte e


ressurreição de Jesus e os primeiros escritos sobre este. Durante os primeiros 20 anos o
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anúncio da prática e da mensagem de Jesus praticamente é de forma oral. Não havia
necessidade de colocá-lo por escrito por duas razões. A primeira: a memória do que Jesus
fez e ensinou estava muito viva. As comunidades se reuniam ao redor das pessoas que
conviveram com Ele; A segunda: Jesus e os/as primeiros/as cristãos/ãs também esperavam
a irrupção do Reino em breve, como podemos ver no evangelho de Marcos (Mc 9,1; 13,26-
32) e nas cartas de Paulo (1 Ts 4,13-5,11).
Aos poucos foram se constituindo pequenas coleções de sentenças e milagres de
Jesus para servir de subsídio para os/as novos/as evangelizadores/as, como Paulo e
Barnabé. As sentenças de Jesus, decoradas em aramaico na região da Judeia, foram
traduzidas ao grego em Antioquia e copiadas para novos/as missionários/as. As coleções de
milagres passaram por um processo semelhante, respondendo a necessidades locais.
Na medida em que os/as cristãos/ãs da primeira geração sofriam o martírio e
morriam, as igrejas sentiram a necessidade de escrever os evangelhos. Razões: para que a
memória a respeito de Jesus não fosse perdida, e para iluminar a vida das comunidades que
passaram a viver num novo contexto.
Havia, porém, uma razão a mais: a necessidade de criar uma identidade própria em
relação à religião judaica. Até então os cristãos e as cristãs se reuniam à parte, mas
mantinham a mesma estrutura de base: usavam as mesmas escrituras. Não passava pela
cabeça de Paulo, por exemplo, a ideia de substituí-las. O que fazia em suas pregações e
cartas era interpretar as escrituras comuns a todos os judeus, tendo a experiência do
Ressuscitado como centro.
O que demarcava a fronteira entre judeus e pagãos era a circuncisão e os sacrifícios
oferecidos no Templo. Paulo e Barnabé conseguiram o reconhecimento dos gentios cristãos
incircuncisos usufruírem dos mesmos direitos de pertença à comunidade do que os judeus
cristãos. Mas se exigia deles renunciar a todos os ritos pagãos. Como não podiam
frequentar o templo por serem incircuncisos, fez-se necessário desenvolver uma linguagem
simbólica própria. A circuncisão, como rito de admissão e pertença ao povo de Deus, foi
substituída pelo rito do Batismo. As refeições sacrificiais foram substituídas pela Eucaristia
como rito de integração.
As igrejas abertas à cultura grega (helenistas) são as principais protagonistas do
anúncio da Boa Nova de Jesus a toda Palestina e Síria, chegando à Ásia Menor, África (At
8,26,40) e Síria Oriental. Eram bem diferentes das comunidades de Jerusalém. Os helenistas
eram críticos ao templo e à Lei, como podemos ver no discurso de Estevão, no livro dos
Atos dos Apóstolos (At 6,8-15; 7,44-50). Com esta forma crítica de anunciar o Evangelho
defrontaram-se diretamente com os que controlavam a Lei no templo (At 6,12.15; 7,1).

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As comunidades de Jerusalém eram fiéis às tradições e ao templo de Israel. As
principais lideranças eram Pedro, Tiago e João, a quem Paulo chama de “notáveis, tidos
como colunas” (Gl 2,9). Paulo encontra-se com eles na sua primeira subida a Jerusalém em
torno do ano 38 d.C. (Gl 1,18-19), e pela segunda vez por ocasião do Concílio de Jerusalém,
pelo ano 49 d.C. (Gl 2,9), quando Tiago tem participação decisiva (At 15,13-21). Toma-se
uma decisão crucial neste concílio: não é necessário aos de origem grega se submeter à
circuncisão da tradição judaica para ser aceito na comunidade cristã.
O monoteísmo judaico foi posto em questão pelos/as cristãos/ãs da primeira
geração. Para Paulo, por exemplo, a exaltação de Jesus ao status divino é obra exclusiva de
Deus para o Crucificado. Mas este monoteísmo começa a ser ameaçado quando se insinua
que o próprio Jesus terrestre é reconhecido como Deus em suas obras. Esse assunto é
tratado pela segunda geração dos cristãos e das cristãs. Até então, eles se reuniam em
separado, tinham desenvolvido uma organização própria, mas sempre se esperava um
reencontro. A ruptura definitiva com o judaísmo se dá somente na segunda geração dos/as
cristãos/ãs, e a narrativa dos Evangelhos foi um passo decisivo (cf. G.Theissen 2009, p.
233ss). Nestes se permite colidir numa única narrativa a fé no Exaltado que devia sua
condição divina exclusivamente a Deus e às tradições individuais de Jesus terrestre,
compreendidas como palavras de um profeta judeu.

1.3 Informações sócio-históricas

No quadro a seguir apresentamos alguns dados que resumem os grandes momentos


da história do cristianismo primitivo para visualizar a distância entre o evento Cristo e a
redação dos evangelhos: período apostólico, subapostólico e pós-apostólico.1

Até o ano 30
Dos anos 30 a 67 d.C. Período Dos anos 67 a 97 d.C.. Período
d.C. - Época de
apostólico – 1ª geração subapostólico – 2ª geração
Jesus
* Movimento * Até a destruição do templo de * Guerra judaica, exílio e destruição de
profético de Jerusalém e o arrasamento do Jerusalém;
João e de Jesus; Israel bíblico pelo império romano; * Período da institucionalização das
* Jesus, o * É o período do Espírito Santo, das igrejas;
nazareno, o missões evangélicas; * Surge a preocupação pela
Galileu; * É a primeira geração de cristãos: continuidade do movimento;
* Jesus antes do os primeiros discípulos e discípulas * É a segunda geração de cristãos,
cristianismo. que viram e viveram Jesus e sua que não conheceram a Jesus

1 WENZEL, João Inácio. Pedagogia de Jesus. São Paulo: Ed. Loyola, 2005, p. 15. O quadro foi
atualizado. Na primeira parte do livro apresentamos um estudo sobre o contexto histórico de Jesus e
da comunidade de Marcos. Um estudo mais completo encontramos em: GASS, Ildo Bohn. As
comunidades cristãs da primeira geração (Uma introdução à Bíblia, vol. 7). São Leopoldo: CEBI,
2002.
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ressurreição; Nazareno, apenas os discípulos;
* Ainda não havia igrejas, templos, * Surgem os textos escritos, dentre os
mas apenas a sinagoga dos judeus. quais muitos serão assumidos como de
O cristianismo é uma corrente revelação divina e incorporados no
dentro da comunidade da sinagoga; Novo Testamento;
* Há reuniões, "assembleias" à * Evangelho de Marcos pelos anos 70;
parte, de cristãos, reúnem-se nas * Textos escritos à sombra de um dos
casas, mas se consideram apóstolos:
separados do judaísmo; - os evangelhos de Mateus e de Lucas
* Ainda não há uma por volta do ano 85;
institucionalização do movimento; - os Atos dos Apóstolos, por volta de
* Aparecem as primeiras cartas de 85, refletindo o que aconteceu durante
Paulo (52-64): 1 Ts, Fl, 1-2 Cor, Gl, o período de 30 a 58;
Fm, Rm. - Cartas aos Ef, Cl, Tg e 1 Pd;
- o evangelho de João foi escrito por
volta dos anos 95;
- Apocalipse 4,1-22,6; carta de Judas.

Dica de Aprofundamento

Para aprofundamento sugerimos a leitura do artigo “O


porquê das diferenças entre os evangelhos”, de
Edmilson Schinelo. Disponível em: <
https://cebi.org.br/2017/02/15/o-porque-das-diferencas-
entre-os-evangelhos-edmilson-schinelo/>. Acesso em: 17
Fonte: http://migre.me/m9Qhh
abr. 2017.

Antes de continuar seu estudo, realize os Exercícios 1 e 2 e


as Atividades 1.1 e 1.2.

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UNIDADE 2

EVANGELHO SEGUNDO MARCOS


OBJETIVO DA UNIDADE: Apresentar uma introdução geral ao livro de Marcos, seu
contexto histórico, fontes, objetivos, possíveis enfoques, destinatários/as e mensagem
central do evangelho.

Neste tempo de pluralismo religioso, vemos a importância de nos aproximar mais da


pessoa de Jesus. O evangelho de Marcos nos apresenta Jesus humano, solidário,
comprometido com a defesa da vida em oposição a tudo o que gera morte, propondo um
Reino que contradiz as expectativas messiânicas da época. Nele buscamos luzes de uma
espiritualidade que nos alimente e comprometa para responder aos desafios do tempo
presente.
Recolhemos algumas informações sobre o contexto histórico da narração, para então
buscar as fontes de Marcos, seus objetivos e possíveis enfoques de sua narrativa.

2.1 Aspectos gerais do Evangelho de Marcos

2.1.1 O contexto histórico da redação

a) Datação
Há muita discussão entre os especialistas sobre a data exata da redação do
Evangelho. O certo é que em Marcos encontramos a forma mais antiga da catequese da
Igreja. Confirma-o o fato de que ele segue exatamente o esquema do querigma primitivo, o
qual inicia a narrativa com a pregação de João e conclui com o arrebatamento de Jesus (At
1,22). Não há reflexões catequéticas sobre a infância de Jesus, nem detalhes sobre as
aparições do Ressuscitado. Também não encontramos em Marcos as grandes composições
de discursos de Jesus como em Lucas e, sobretudo, em Mateus e João.
A definição da data gira em torno da discussão se o evangelho foi escrito antes ou
depois da destruição do Templo de Jerusalém, no ano de 70 d.C. Autores como Wellhausen
(1844-1918), Brandon, Belo e G. Pixley pensam que Marcos pressupõe um conhecimento da
destruição do templo (cf. Mc 13). Por isso, datam a redação do Evangelho um pouco depois
de 70. C. Myers e outros, fazendo uma análise da ideologia política e econômica na
narrativa de Marcos, defendem como mais provável uma data antes de 70, durante a

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guerra. A tese conciliatória é de que o evangelho foi elaborado durante a revolta judaica, no
final da década de 60, e a redação final realizada logo após a destruição de Jerusalém. Há
ainda autores que datam a primeira elaboração do evangelho pelos anos 50, na Síria,
reelaborado por volta de 67 a 70. A tese se baseia num fragmento encontrado em
Antioquia, que se presume tenha sido de Marcos. Como é muito pequeno, não convenceu,
pois poderia ser simplesmente um fragmento de uma das fontes de Marcos.
De qualquer forma, o surgimento do texto de Marcos está relacionado a três fatos
importantes: o desaparecimento da primeira geração de discípulos e discípulas; a acolhida
de gentios que não conheciam a cultura judaica, motivo de crise e conflito; a guerra contra
Roma que marcou a comunidade de Marcos e seu evangelho, quer tenha sido escrito
imediatamente antes, durante ou logo depois da guerra.
Portanto, o texto surge a partir de um contexto marcado por intenso conflito externo
(Judaísmo - Roma) e por profunda crise interna (judeus – gentios). Os conflitos externos
foram gerados pelos tributos pesados e pela política da “pax romana” que arrasava
violentamente qualquer oposição que se fizesse. A crise interna foi gerada pela perda da
identidade solidária e pelas excludentes leis da pureza que marginalizavam as mulheres, as
crianças, os estrangeiros, os doentes, os possessos, os mutilados, os publicanos e
pecadores (CRB, 2006, p. 24).

b) Local
Devido à tradição dos Padres da
Igreja, muitos autores pensam que
Marcos teria escrito o Evangelho em
Roma, quando lá esteve a convite de
Paulo (Cf. 2 Tm 4,11). Argumenta-se
também o fato de no texto se
encontrarem vários termos latinos. Os
argumentos contrários são de que as
expressões latinas como legião (5,9),
quadrante (12,42), centurião (15,39.44s)
se explicam pela forte presença
econômica e cultural na Palestina. Fonte: http://migre.me/s2a44

Outros autores localizam as comunidades de Marcos no norte da Palestina, na


Galileia, devido à importância dada pelo autor à geografia e, principalmente, pela
importância teológica atribuída à Galileia, terra helenizada, de cujo seio nasce o movimento

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de Jesus, e da qual as portas se abrem para a evangelização do mundo greco-romano
(GAMELEIRA SOARES, 2002, p.14).
Mas poderia também ter sido num local próximo à Galileia, na fronteira leste do lago
de Genesaré, na Decápole, onde viviam povos de outras culturas (cf. Mc 5,1-20), ou em
Cesareia de Filipe, ao norte, local de diversidade étnica, onde Marcos localizou a profissão
de fé (Mc 8,27-30).

c) Autoria
A opinião comum difundida desde o século II d.C. por pessoas como Papias (séc II),
Santo Irineu (140-202), Clemente de Alexandria (150-215) e outros, atribui o evangelho a
“João, cognominado Marcos”, intérprete, discípulo, companheiro de Pedro (SICRE, 1999, p.
57). Dados da Escritura confirmam que em sua casa se reunia uma igreja doméstica na
cidade de Jerusalém (At 12,12-13). Primo de Barnabé (Cl 4,10), João Marcos foi com ele a
Antioquia (At 12,25) e integrou a primeira equipe missionária de Paulo, mas separou-se logo
em seguida (At 13,5.13). Mais tarde o encontramos novamente na companhia de Paulo (Cl
4,10 e Fm 24). Teve também forte vínculo com o apóstolo Pedro (relação de pai e filho, cf.
1 Pd 5,13). Como Pedro frequentou sua casa, não é estranha a antiga tradição sobre
Marcos como ouvinte e redator da pregação do apóstolo. Por outro lado, a forte ênfase que
o evangelho de Marcos dá ao seguimento da cruz nos faz pensar que a influência de Paulo
seria bem maior do que a de Pedro.
Contudo, estudos críticos sobre a autoria de textos bíblicos mostram que autor final,
pessoa (no caso Marcos), ou grupo de pessoas, já trabalha a partir de tradições orais e
tradições escritas anteriormente. Os textos sistematizam a tradição catequética da Igreja,
transmitida e codificada ao longo de quarenta anos, são o resultado de um processo
coletivo de recolhimento das tradições orais e das coletâneas escritas. Por fim, uma ou mais
pessoas fizeram a redação, deixando, a seu modo, também o seu estilo e as suas marcas.

d) Destinatários
Pela análise do Evangelho podemos deduzir que os destinatários são pessoas cristãs
de origem estrangeira (“pagã”), integrada possivelmente também por cristãos de origem
palestina. Percebem-se resistências internas para aceitar os não judeus com os mesmos
direitos que os de origem judaica. São os próprios pagãos que ajudam a comunidade a dar
esse passo, como podemos perceber na cena da mulher de origem siro-fenícia que
consegue, por seus argumentos, fazer com que Jesus mudasse de opinião (7,24-30). Mas
não há dúvida de que os destinatários são os de origem pagã (SICRE, 1999, p. 59). Caso
contrário os autores do evangelho não teriam necessidade de explicar vários termos
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aramaicos como Talíta kum (5,41), Effatha (7,34), Corban (7,11), Abba (14,36), Gólgota
(15,22), Eloí (15,34) e costumes judeus como comer com mãos impuras (7,3).
Comparando-o ao evangelho de Mateus, percebemos que Marcos evita termos ofensivos
aos pagãos, como no caso da mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30 e Mt 15,21-28) e temas que o
auditório não teria entendido como a contraposição da lei antiga e lei nova, e o
cumprimento das escrituras.
Tratam-se, portanto, de comunidades perseguidas, de origem não judaica, pobres,
em crise, e que estão sendo chamadas a dar as razões de sua fé no Messias Crucificado e
de construir relações novas em comunidades novas (CRB, 2006, p. 26).

2.1.2 As fontes de Marcos


Marcos é independente de Mateus e de Lucas. É breve e imprime ao material da
tradição sua própria perspectiva catequética e teológica. Seu evangelho serve de roteiro
sobre o qual se constroem os outros dois evangelhos.
A velha teoria de que um só evangelho escrito em aramaico estaria na raiz dos três
evangelhos sinóticos não explica suficientemente as variantes. Tornou-se mais popular a
teoria de Schleiermacher (1832) do surgimento de dois documentos contemporâneos:
Marcos, que vem do evangelho oral; e o documento dos ditos de Jesus, que ele chamou de
fonte (em alemão Quelle, abreviado pela inicial Q), que contém uma coleção de palavras,
ditos (Logia) de Jesus (Mt 8,11-12, cf. Lc 13,28s; Mt 6,9-13, cf. Lc 11,2-4).
Marcos tinha a sua disposição: (a) a tradição oral que se mantinha viva nas igrejas
desde o início, com o anúncio de Jesus como o Cristo/Messias e Salvador; (b) as cartas de
Paulo, escritos ocasionais que pressupõem a tradição oral, embora deixem transparecer
ocasionalmente a tradição recebida (1Cor 15,3-5; 1Cor 11,23-25; 1Cor 7,10); (c) coleções
sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus, sobre suas parábolas (Mc 4), sobre o
discurso escatológico (Mc 13) e sobre sua atividade terapêutica.
Se, por acaso, teve acesso à fonte Q dos Ditos Populares, não quis fazer uso dela,
pois estava mais interessado em destacar a prática de Jesus do que seus discursos. Há,
contudo, autores que creem que Marcos teria conhecido e usado também esta fonte. Mas
se a conheceu, por que teria omitido textos como as bem-aventuranças?
A partir da análise da estrutura do texto de Marcos, estudiosos (cf. GAMELEIRA
SOARES; CORREIA JÚNIOR, 2002, p. 16 e 17) apontam três grupos de materiais: (a)
Narrativas e ditos formados com base nas tradições existentes (1,1-13; 9,30-50; 10,1-31;
10,32-52; 11,1-25); (b) narrativas baseadas no testemunho pessoal (1,21-39; 4,35-5,43;
6,30-56; 7,24-37; 8,27-9,29; 14,1-16,8); (c) narrativas sistematizadas por tema, para

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ressaltar um dito particular de Jesus (2,1-3,6; 3,19b-35; 4,1-34; 7,1-23; 11,27-12,44; 13,5-
37).
A especificidade de Marcos consistiu no modo de reagrupar as narrativas
encontradas e nos resumos e ligações entre uma parte e outra (1,14-15; 3,7-12; 6,7-13;
8,22-26; 10,46-52; 13,33-37; 15,40-41).

2.1.3 Objetivos de Marcos


Encontramos no evangelho, por um lado, a mensagem e os gestos de Jesus e, por
outro, a mensagem, a prática e os conflitos das comunidades dos anos 60. Há um forte
compromisso com a militância em favor do Reino.
Os objetivos fundamentais de Marcos são mostrar quem é Jesus de Nazaré e como
ser discípula, discípulo de Jesus de Nazaré.

a) Quem é Jesus de Nazaré?


Ao todo são quinze títulos atribuídos a Jesus, desde seu nome próprio até os títulos
mais sublimes (SICRE, 1999, p. 41). Marcos, o narrador, no começo o chama de “Messias”
(1,1), “o Cristo/Ungido”, no qual alguns manuscritos antigos acrescentam também “Filho de
Deus”; depois passa a chamá-lo de “Jesus” ou simplesmente pelo pronome “ele”. Uma vez o
chama “Jesus, o Nazareno” (10,47). O acréscimo final, que não é de Marcos, os títulos “o
Senhor Jesus” (16,19) e “o Senhor” (16,20).
Deus Pai o chama de “meu Filho amado” (1,11; 9,7); o anjo que aparece às
mulheres o chama simplesmente de “Jesus de Nazaré” (16,6). Os demônios e espíritos
impuros também o chamam com títulos sublimes: “Santo de Deus” (1,24), “Filho de Deus
(3,11) e “Filho do Deus Altíssimo” (5,7).
As pessoas da multidão quase todos/as o chamam de “Mestre” (5,35; 9,7; 10,17.20;
12,32), “Jesus Nazareno” (14,67), “Filho de Davi” (10,47.48) e “Rabbuni” (10,51), e
“Profeta” (6,4.15; 8,28). Somente a mulher siro-fenícia o chama de “Senhor” (7,28).
Os discípulos também o chamam de “Messias” (4,38; 9,38; 10,35; 13,1) ou a forma
hebraica “Rabbi” (9,5; 11,21; 14,45). Uma vez Pedro o chama de “Messias” (8,29). Os
adversários igualmente o chamam de “Mestre” (12, 14.19) e se escandalizam com o título
de “Filho de Deus” (14,61) e zombam com o título “Rei dos judeus” (15,2.9.12.18.26;
15,32).
Ele é o Filho de Deus, conforme diz o título (1,1), confirmado no Batismo (1,11) e na
Transfiguração (9,7). Os espíritos impuros o reconhecem como tal (3,11; 5,7). O ponto alto
se dá quando o oficial romano professa a fé: verdadeiramente ele era o Filho de Deus
(15,39).
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Jesus mesmo prefere o título de Filho do Homem (2,10.28; 8,31.38; 9,9.12.31), para
designar a missão de concretizar o Reino de Deus, de vida plena em meio às criaturas
humanas. O título é tirado do livro de Ezequiel e significa criatura humana (Ez 2,1-8), e do
livro de Daniel, com o significado de povo fiel a Deus (Dn 7,13-27). Poderia designar
simplesmente “este homem”. Uma vez se autodenomina “Mestre” (14, 14), uma vez Messias
de forma indireta (9,41), “o Filho” (13,32) e “Senhor” (11,3).
Há uma pergunta que permanece no ar: O que é isso? Um ensinamento com
autoridade! (1,21-22,17; 11,17). Quem é esse que perdoa pecados (2,5-10), cura doentes
(1,32-34), vence as forças do mal (1,27; 3,27) e acalma o mar (4,41)?
Marcos vai respondendo ao mistério de “quem é Jesus” paulatinamente, ao longo do
Evangelho. Sinal de que isto não estava tão claro assim, o que não é de estranhar, pois a
discussão cristológica se estendeu até o Concílio de Calcedônia, em 451 d.C., e continua a
nos desafiar hoje.
Não encontramos a resposta simplesmente nos títulos cristológicos, mas também por
meio de sua prática libertadora que cria novas relações de comunhão com os gentios,
pecadores e excluídos da comunidade judaica. Ele expulsa demônios e liberta as pessoas de
sua alienação (1,21-28; 5,1-20); perdoa pecados sem a mediação do templo e de
sacerdotes (2,5-10); toca os “leprosos” (1,40-45) e ergue doentes, paralíticos e crianças
adormecidas (1,31; 2,11; 5,41); resgata a dignidade das pessoas (5,25-34), é sensível aos
apelos de mulheres estrangeiras e rompe as fronteiras de discriminação étnica (5,24-30);
reinterpreta a lei da pureza e a lei do sábado (7,14-23; 2,27); pede ajuda aos discípulos
para atender os famintos (8,1-10), partilha o pão e dá sua própria vida.
Por isso, o fim do evangelho (16,7) remete ao “começo do evangelho” (1,1), a ser
vivido e atualizado pelos seguidores e seguidoras de ontem e de hoje.

b) Como ser discípulo, discípula de


Jesus de Nazaré?
Jesus inicia a missão convidando
pessoas para o seguimento. Eram
homens (1,1-20, 2,14) e mulheres
(1,31;15,40-41).
Chamar discípulos e discípulas é
a primeira e última ação de Jesus
(1,16-20; 16,7.15). São chamados para
Fonte: http://migre.me/s2azO
estarem com ele e serem enviados a
pregar o Reino e colocá-lo em prática (3,14). Aprendem, inicialmente, pela convivência.
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Vendo a dureza de seus corações em entender a dinâmica do Reino e da prática de Jesus
(8,14-21), passa a ensiná-los a segui-lo pelo caminho do serviço e da doação da vida. O
caminho da cruz-ressurreição, que tem como moldura duas curas da cegueira: o cego de
Betsaida (8,22-26) e o cego Bartimeu, de Jericó (10,46-52). Com o ensino e a prática
libertadora de Jesus passam a ver pessoas que nem árvores andando (8,24), mas com a fé
na presença de Jesus ressuscitado, passam a ver tudo claramente (8,25). Na prática, Pedro
(8,32-33), os Doze (9,32-34), Tiago e João (10,35-40) continuam a negar este caminho.
Mesmo assim Jesus não desiste deles. Prepara-os para o momento decisivo (14,26-31),
para que pudessem compreender o messianismo que passa pela cruz-ressurreição.
No primeiro resumo que Marcos nos faz (1,14-15) o discípulo e a discípula aprendem
o que fazer: completou-se o tempo, o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede
na Boa Nova; e no último resumo (15,40-41) Marcos nos dá uma síntese de como fazê-lo:
seguir, servir, subir com Ele para Jerusalém como as discípulas o fizeram.

2.1.4 Diferentes enfoques estruturais do Evangelho


O roteiro da narrativa de Marcos segue a estrutura do querigma nos discursos de
Pedro, nos Atos dos Apóstolos (At 2,14-36; 3,12-26; 10,34-43). Marcos também nos dá a
“espinha dorsal” dos evangelhos sinóticos: pregação de João, Batismo, deserto, Galileia,
subida para Jerusalém, paixão, morte e ressurreição.
A linguagem é simples, em forma de narrativa, e dramática. O drama tem um
crescendo de suspense, tanto em relação à morte que se aproxima, e a falta de
entendimento dos doze. À primeira vista pode parecer que o narrador não segue um
esquema de fundo, mas podemos encontrar várias referências que nos ajudam a nos
localizar na caminhada.
Uma primeira referência é o espaço geográfico, como destaca a tradução da
Bíblia de Jerusalém: preparação do ministério de Jesus (1,1-13), ministério de Jesus na
Galileia (1,14-7,23), viagens de Jesus fora da Galileia (7,24-10,52), o ministério de Jesus em
Jerusalém (11,1-13,37) e a paixão e ressurreição de Jesus (14-16).
Uma segunda referência são dois cenários bem delimitados: O primeiro se dá na
Galileia e nos seus arredores. As cenas se dão ao redor do Mar da Galileia, sinagoga, casa,
lugares desertos, multidão, barco, curas e controvérsias. Ocupa a primeira parte do
evangelho (1,1-8,21). Na segunda parte (8,27-16,8) o cenário muda totalmente: Tudo
acontece na grande viagem de Cesareia de Felipe até Jerusalém. Jesus se dedica a
ensinar os discípulos para o que eles estavam com o coração endurecido. Por três vezes
Jesus repete o ensinamento (8,31; 9,31-32; 10, 33-34) e por três vezes os discípulos
resistem fazendo o contrário. Há poucas curas. Em vez de casas e sinagogas as cenas
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decorrem no caminho. O destino é Jerusalém, mas passa as noites em Betânia, exceto a
noite em que é preso. Todos o abandonam, exceto José de Arimateia, que pede o corpo de
Jesus (15,42), e algumas mulheres presentes na crucifixão e que observam onde o corpo é
colocado (15,40).
Uma terceira referência é o drama ou enredo do Evangelho em torno do
personagem central, Jesus, e as relações que os outros personagens terão com ele:
discípulos (seguidores, os doze, os três, Levi), discípulas, multidão, espíritos impuros,
escribas, fariseus, saduceus, o sumo sacerdote, herodianos, Herodes, Pilatos, as crianças...
Tudo começa com o anúncio de João Batista, que diz que, depois dele vem alguém mais
forte do que ele (1,7), mas o que vemos é Jesus que vem de Nazaré, é batizado por João e
recebe uma revelação de ser o Filho amado de Deus (1,11). O/a leitor/a já o sabe, mas os
seguidores ainda não. Os espíritos impuros também o sabem, mas são obrigados a se calar
e sair (1,25). A multidão se pergunta: “Que é isto”? (1,27) e os discípulos: “Quem é este
que até o vento e o mar obedecem?” (4,40). Os escribas o julgam um blasfemo (2,7), os
fariseus se articulam com os herodianos para matá-lo (3,6) e Herodes o confunde com João
Batista ressuscitado (6,16).
Finalmente, na metade do evangelho, quando alguns ainda o confundem com Elias
ou um dos profetas (8,28), Pedro finalmente responde: “Tu és o Cristo” (8,29), mas é
proibido de divulgá-lo. Parece que ainda não sabia o que dizia (9,6). Precisava superar as
expectativas messiânicas de Israel e ouvir a voz que vem da nuvem: “Este é meu Filho
amado; ouvi-o” (9,7). Ouvir de Jesus que não há outro caminho a não ser o seguimento da
cruz. E é justamente ao ver o modo de Jesus expirar, que o centurião, um pagão, diz:
“Verdadeiramente este homem era filho de Deus!” (15,39). Mas ele usa o verbo no
passado: era. A derradeira revelação se dá às mulheres que não temem ir ao túmulo. Um
jovem sentado à direita, vestido de túnica branca, lhes diz: “Ressuscitou, não está aqui...
Ele vos precede na Galileia” (16,6-7).
O que faríamos nós? O que fazemos? Ficamos também com medo e caladas/os
como as mulheres (16,8)? Saímos chorando pesarosamente como Pedro, depois de tê-lo
negado (14,66-72)? Ou proclamamos por toda a região o quanto o Senhor fez por nós na
sua misericórdia, como o fez o geraseno liberto dos demônios (5,19-20) e o homem curado
da lepra (1,45)? Melhor recomeçar do “Início da Boa Nova...” (1,1).
Uma quarta referência é o rompimento definitivo com a fronteira judaica,
substituindo a circuncisão e o culto sacrificial pelo batismo e pela eucaristia, ancorados no
começo e no fim da vida pública de Jesus. João Batista anunciara que viria alguém mais
forte do que ele e “que vos batizará com o Espírito Santo” (1,6-7). Esse alguém mais forte
veio e, em vez de batizar, como era de se esperar, se deixa batizar e sobre ele repousa o
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Espírito Santo (1,10). Como Marcos diz - “Ele vos batizará” - presume-se que está se
referindo a todos os cristãos e as cristãs, que serão batizados por meio dele com o Espírito
Santo. No relato da eucaristia (14,22-25), embora não apareça, como em Paulo o “fazei isso
é minha memória” (1 Cor 11,17), o caráter etiológico da narrativa é evidente.
Nestes dois ganchos – o batismo e a eucaristia narrados no início e no fim da vida
pública de Jesus – podemos dependurar, como numa rede, toda narrativa de base do
Evangelho, que reconhece Jesus terrestre como humano e divino ao mesmo tempo. Deste
modo, os cristãos se distinguem dos judeus e se aproximam dos pagãos em condições de
igualdade. Longe do templo, Jesus perdoa pecados (2,1-12), transgride a lei do sábado
(2,23-27), multiplica pães e caminha sobre as águas (6,35-52), rompe com a lei da pureza
(7,14-23) e reinterpreta os ritos sacrificiais com a primazia da lei do amor (12,28-34).
A abertura aos de origem pagã se deu de forma conflitiva. Havia resistências
externas, pois Jesus é expulso da região dos gerasenos depois de um exorcismo bem-
sucedido (5,17), e resistências internas, como se pode supor na cena dos discípulos que não
conseguem avançar, pois os ventos lhes eram contrários (6,48). Uma mulher siro-fenícia
vence Jesus no debate sobre a participação dos pagãos na mesa dos seus seguidores e,
deste modo, Marcos convida a comunidade a mudar de opinião e aceitar os pagãos em pé
de igualdade. Na ocupação do templo, Jesus recorre a Isaías (Is 56,7) e declara-o como
casa de oração para todos os povos (11,17). Com sua morte o véu do templo se rasgou de
alto a baixo e o centurião romano reconhece que este homem era filho de Deus (15,38-39).
Uma quinta referência é o resumo que Marcos nos oferece após cada bloco
temático2: 1,14-15 – Mudança de paradigma; 3,7-12 – Toques que geram nova vida; 6,7-13
– Passos que muda a história; 8,22-26 – Busca da visão integral; 10,46-52 – Com Jesus
rumo ao confronto; 13,33-37 – Vigilância e cuidado contemplam o discípulo; 15,40-41 –
Serviço permanente no caminho de Jesus.
Vamos nos guiar por estas pegadas deixadas por Marcos para fazer o nosso estudo,
sem deixar de lado os outros enfoques. Assim, pretendemos conhecer melhor quem é Jesus
e como fazer para nos assemelhar a Ele em nosso seguimento.

2.2 Testemunho do Reino e formação do discipulado (Mc 8,22 – 10,52)

Jesus começa uma nova etapa na realização do tempo que se cumpre e do Reino
que se aproxima (1,15). Uma etapa que Marcos assinala geograficamente como um

2
Reproduzimos aqui os sumários, que ligam as sete unidades do evangelho, proposto pela Equipe de
Reflexão Bíblica da CRB: Reconstruir relações num mundo ferido. Uma leitura de Marcos em
perspectiva de relações novas. Publicações CRB, 2006.
25
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caminho que Jesus começa a percorrer em companhia dos/as discípulos/as desde o extremo
norte, Cesareia de Filipe (8,27) até Jerusalém, extremo sul e centro do poder econômico,
político e religioso do mundo judaico. Didaticamente, Marcos introduz a seção com a cura
de um cego que recupera a vista de modo gradual (8,22-26) e a termina com outro relato
de um cego que está à beira do caminho e, graças à sua fé e insistência, recupera a vista e
começa a seguir a Jesus no caminho (10,46-52). Estas duas curas são paradigmáticas: a
cegueira dos discípulos que gradualmente abrem os olhos para compreenderem quem é
Jesus até verem nitidamente para segui-lo no caminho da cruz.
O seguimento dos discípulos e das discípulas é dramatizado pela exigência do
seguimento da cruz, anunciado três vezes como algo necessário ou inevitável, e três vezes
rejeitado pelos discípulos. Esta estrutura interna é de particular importância, tanto para o
entendimento do ensino especial aos discípulos nesta parte (8,22-10,52) quanto para o
conjunto do evangelho,3 pois a primeira parte de evangelização que teve lugar na Galileia e
arredores (1,14-8,22) remetia à teologia da cruz, desenvolvida a partir de agora. O
entendimento desta é fundamental para compreender o enfrentamento da morte de cruz
em confronto com as autoridades de Jerusalém (11,1-16,8).
Atentos à ótica do discipulado e à linguagem dramática do evangelista, podemos
observar a seguinte estrutura interna4, presente praticamente nos três ciclos, conforme
podemos observar no seguinte quadro:

1º Ciclo 2º ciclo 3º ciclo


a) Confrontação da prática de fé em Jesus
8,27-30 9,14-29 10,1-31
e no Reino;
b) Anúncio da paixão, morte e
8,31-32a 9,30-31 10,32-34
ressurreição;
c) Rejeição do caminho da cruz 8,32b 9,32 10,35-37
d) Paradoxo 8,35 9,35 10,43
e) Ensinamentos a partir da correção e 9,33-49;
8,33-9,1 10,38-45
avaliação da prática dos discípulos 10,13-15
f) Sinais expressivos que confirmam e 9,2-13; 9,36-37;
10,46-52
explicam a nova prática 9,14-29 10,16

O esquema nos pode ajudar a visualizar uma dinâmica interna presente no texto
com uma forma didática de repetir e aprofundar o mesmo assunto com novos enfoques. A

3
"A seção 8,27-10,50 constitui o centro hermenêutico do evangelho segundo são Marcos"
(MURDOCK, s/d, p. 101).
4
C. Myers apresenta o ciclo tríplice desta forma: Local: Cesareia de Felipe, da Galileia para a Judeia;
previsões: 8,31; 9,31; 10,32-34; cegueira: 8,32ss.; 9,35ss; 10,35-39; ensinamento: 8,34-37; 9,45ss.;
10,40-45; paradoxo: salvar a vida/perder a vida; primeiro/último; grande/menor (MURDOCK, s/d, p.
289). W Murdock apresenta algo semelhante: a) a proclamação da cristologia da cruz por Jesus, b) o
rechaço dessa cristologia pelos discípulos e c) o ensinamento de Jesus sobre o discipulado da cruz
(MURDOCK, s/d, p. 102).
26
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divisão não é rígida, nem é a única possível, estruturalmente. Quer apenas destacar melhor
os passos metodológicos deste período destinado especialmente ao ensinamento dos
discípulos. Não são aulas separadas entre um e outro anúncio da paixão, mas dadas em
momentos precisos para marcar a centralidade do ensinamento de Jesus.
O ponto central é responder a pergunta: quem é Jesus? Não a partir do que outros
dizem, mas a partir do que Jesus diz de si mesmo sobre seu insistente ensinamento sobre a
paixão, morte e ressurreição. Percorramos o caminho e estejamos atentos para perceber os
pontos centrais e a progressividade do drama.
Daremos particular atenção ao primeiro ciclo do ensinamento e as duas curas que
formam a moldura do ensinamento de Jesus.

2.2.1 Quem é Jesus? O que significa segui-Lo? (Mc 8,22-9,29)

Os discípulos estavam tão confusos no barco, que tinham olhos e não viam, ouvidos
e não escutavam (8,14-21). Até o/a leitor/a se sente incomodado/a com tanta cegueira. O
cego de Betsaida (8,22-26) representa essa situação dos discípulos que veem algo, mas
mal. A esperança é que possam chegar a ver nitidamente e de longe.
O caminho passa a ser o lugar privilegiado para o ensinamento dos/as discípulos/as.
No caminho começa o primeiro processo de avaliação dos peregrinos e das peregrinas em
torno de sua identidade (8,27-29), a qual segue uma dupla correção não aceita pelo
representante do grupo dos doze. Jesus, então, o recrimina duramente, com os olhos
voltados aos discípulos (8,29-33), e, publicamente, deixa claro quais são as exigências do
seguimento (8,34-9,1).
Essa prática do seguimento da cruz é confirmada na transfiguração, explicada em
detalhes para os três do círculo mais íntimo (9,2-13) e pela força da fé alimentada pela
prática da oração (9,14-29).

a) A esperança de ver nitidamente (8,22-26)


É notável a mudança de Jesus na forma de realizar a cura: tomando o cego pela
mão, levou-o para fora do povoado e, cuspindo-lhe nos olhos e impondo-lhe as mãos,
perguntou-lhe: "Percebes alguma coisa?" Antes as curas eram imediatas, graças à fé do
pedinte ou de outros que as solicitavam. Aqui há um ritual que se realiza gradualmente e no
qual Jesus pergunta ao paciente como vai indo o processo de recuperação. Necessita uma
segunda imposição de mãos para que comece a ver nitidamente e de longe.
Chama atenção a passividade do cego. “É levado pelos amigos, é conduzido e
tratado por Jesus. Só responde ao que Jesus pergunta e, curado, toma o caminho de casa.
27
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(...) Da cegueira total passa à visão desfocada e finalmente à boa visão. A cura exige tempo
e aplicação para reconstruir na pessoa os elementos que vão garantir a libertação da
cegueira para sempre”.5
Como o cego é anônimo e as pessoas que rogam para que o toque são
indeterminadas, esse "milagre" certamente possui um significado simbólico. Representa a
situação dos discípulos,6 com muita dificuldade para entender, mas nos quais Jesus continua
depositando toda a sua confiança. Passará a investir mais tempo neles, dedicando-se
especialmente à sua formação.
A ação de Jesus com o cego simboliza o que ele fará com os discípulos ora em
diante: irá levá-los para fora dos povoados e lhes dedicará um tempo especial de formação
pelo caminho. Perguntará a eles o que estão entendendo (8,27-29) e o que estão discutindo
(9,16.33), e lhes "cuspirá" duras advertências acerca das práticas equivocadas (8,33ss;
9,19; 9,38ss; 10,13ss).
Cuspir no rosto de alguém, em nossa cultura, significa um ato de máximo desprezo.
Este, porém, não é o significado do gesto de Jesus de passar cuspe nos olhos do cego. Na
cultura de então, saliva era símbolo de poder, assim como na cultura de alguns povos
africanos o cuspe significa bênção.

b) Quem é Jesus e o que significa ser o Cristo (8,27-31)


Na narrativa, o lugar do discipulado é definitivamente retomado, não mais no barco,
deixado para trás, mas no caminho anunciado por Isaías por meio de João Batista no
deserto (1,3ss.), assumido por Jesus.
A caravana de Jesus, com destino a Jerusalém, se inicia no extremo norte da
Palestina, na tetrarquia de Filipe, em Cesareia, uma importante cidade helenista, que
Marcos opõe ao caminho inaugurado por Jesus. E é no caminho que Jesus faz a dupla
pergunta, dirigida aos discípulos e aos leitores: Quem dizem os homens que eu sou? E vós,
quem dizeis que eu sou?
A expressão eu sou recorda-nos o diálogo de YHWH com Moisés, na sarça ardente
(Ex 3,3), em que o profeta Moisés recebe a missão do eu sou aquele que é para enfrentar o
faraó e exigir-lhe a libertação do povo escravizado.
A resposta à primeira pergunta — João Batista, Elias ou um dos profetas — revela a
enorme confusão existente em torno da identidade de Jesus, tanto por parte dos inimigos

5
CRB Nacional. Reconstruir relações num mundo ferido. Uma Leitura de Marcos em perspectiva de
relações novas. Publicações CRB/2006, p. 105.
6
Segundo o evangelho de João, três dos discípulos são nomeadamente de Betsaida: André, Pedro e
Filipe.
28
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(2,7; 6,16) como por parte da multidão (1,27) e, inclusive, dos discípulos (4,41). Sur-
preendente é a reação de Jesus à resposta de Pedro: Tu és o Cristo. Se Pedro respondeu
certo, conforme a informação que Marcos nos antecipara (1,1.11), por que proibiu-os
severamente de falar a alguém a seu respeito?7 Faltaria algo à profissão de fé?
Pedro entendia por Messias algo completamente diferente de Jesus. Para Pedro, o
Messias não era um simples profeta, mas a figura real que viria restabelecer os objetivos
políticos de Israel. Pensava que a revolução estava prestes a acontecer. O primeiro corretivo
de Jesus foi pedir silêncio. O segundo foi não aceitar o título de Messias e sim o de Filho do
Homem, o Humano, tomado da visão apocalíptica e oposto à brutalidade das bestas.
Terceiro, que ele deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes
e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar. Não há outro caminho a não
ser enfrentar a cruz. É esta a única cristologia aceita pelo evangelho de Marcos. Somente a
cruz faz com que Jesus seja o Cristo. Jesus não se assume como o Messias triunfalismo que
pretende restabelecer a realeza de Israel, mas como o Humano sofredor, na perspectiva do
servo de YHWH, descrito por Isaias.8
Dois novos atores aparecem no enredo de Marcos: os anciãos e os sumos
sacerdotes. Integrarão o time dos inimigos de Jesus.

c) Os discípulos erram e recebem dura repreensão (8,32-33)


Jesus assume de fato a cristologia da cruz, pois dizia isso abertamente. Pedro não
estava de acordo. Em sua compreensão do Cristo, não cabia cruz. Chamando-o de lado,
começou a recriminá-lo. Ele, porém, voltando-se e vendo seus discípulos, recriminou Pedro,
dizendo: "Afasta-te de mim, satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos
homens!" Literalmente o texto diz: “para trás de mim, satanás”. Em vez de seguir Jesus
estava querendo tomar a dianteira e assessorar Jesus sobre o que convém dizer.
Dois fatos chamam imediatamente a atenção. O primeiro é a recriminação mútua:
Pedro recrimina Jesus, e Jesus recrimina Pedro. Estão em debate duas cristologias: a
cristologia da cruz, que é de Deus, e a cristologia sem cruz, que é humana e de inspiração
satânica.9 As palavras duras de Jesus lembram sua luta contra satanás (1,13), o embate
ideológico contra os escribas (3,22ss) e aqueles que estão à beira do caminho: escutam a
palavra, mas vem satanás e imediatamente arrebata a palavra neles semeada (4,4.14). Não

7
"Marcos usa a mesma ordem enérgica (epetimesen) com que Jesus anteriormente silenciara os
demônios (1,25; 3,12) e o vento (4,39), preparando-nos para a sombria acusação de 8,33" (MYERS,
1992, p. 295).
8
Isaías 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13-53,12.
9
"Se anteriormente os discípulos não entenderam que Jesus era o Cristo, agora o entendem, mas o
entendem mal, porque não reconhecem que a cruz é constitutiva de seu ser Cristo" (MURDOCK, s/d,
p. 103).
29
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aceitar a cruz significa não se comprometer com a vida nova que necessariamente implica
rupturas com a atual situação e um compromisso de vida. Jesus não quer discípulos que
fiquem assistindo ao espetáculo dos que dão testemunho, mas que sejam capazes de lutar
sem temer a morte.
O segundo fato que chama a atenção são as atitudes de Pedro e de Jesus. Pedro
chama Jesus à parte para “convencê-lo de seu possível erro”. Jesus se volta para os
discípulos e recrimina Pedro publicamente. A pedagogia de Pedro consiste em querer
resolver as diferenças em conchavos, à parte; a de Jesus, em dizer as coisas abertamente e
corrigir o erro imediatamente. Não fecha o olho, nem, adia o conflito, mas o enfrenta e faz
com que o outro assuma seus atos. Diz o que deve ser dito, nem que doa. Desta forma
possibilita que os companheiros cresçam e se tornem maduros.
Portanto, duas coisas se exigem no seguimento de Jesus: a) opção e opinião própria
em relação a Jesus e b) coerência de vida, para que esta opção corresponda a sua própria
realidade. Não dá para seguir Jesus e querer ficar somente com o que agrada. Seguir Jesus
significa enfrentar e superar os conflitos, e os sofrimentos inerentes de quem entrega a sua
vida.

d) As exigências do seguimento de Jesus (8,34-9,1)


Como se não bastasse a repreensão a Pedro, Jesus chama para junto de si a
multidão, ou seja, todos/as os/as seguidores/as, e lhes expõe as condições do seguimento:
Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.
Trata-se de um segundo chamado dirigido aos/às discípulos/as e aos/às leitores/as.
O imperativo é o mesmo — vinde após mim (1,17); segue-me (2,14) —, mas agora é
antecedido por outros dois: negue-se a si mesmo e tome a sua cruz. Duas exigências difíceis
de cumprir, pois "tomar a cruz" significava ser condenado à morte, enfrentar a vergonha de
ter de carregar publicamente a cruz até o lugar da caveira, ser despido e torturado até a
morte. Algo nada atraente, mas factível. Se isto sucedeu ao mestre,10 também poderá
suceder aos discípulos, como de fato estava acontecendo. Por isso, a primeira condição para
o seguimento de Cristo é a autorrenúncia, negar-se a si mesmo, correr o risco de ter de
perder a própria vida.
O paradoxo — aquele que quiser salvar a sua vida irá perdê-la, mas o que perder a
sua vida por causa de mim e do evangelho irá salvá-la — se situa no contexto de
perseguição em que os discípulos e leitores deverão escolher entre envergonhar-se no
julgamento do tribunal do estado e, então, envergonhar-se no tribunal divino, ou ser fiel a

10
Tenhamos presente que Marcos escreve no contexto da guerra judaica contra o império romano.
30
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Jesus e ao evangelho até a morte e obter a vida
Atualização do texto:
por recompensa. Quem vive com terror da morte já Quem é Jesus para mim?
Se Pedro respondeu certo, por que
está morto, pois não é ele que vive e sim o seu
logo em seguida é duramente
medo. Ser discípulo/a é coisa de vida e morte.11 repreendido por Jesus?
Tem-se a vida morrendo. Quem quiser controlá-la
irá perdê-la. Ela é um dom que pode ir-se a qualquer momento.

e) A voz da nuvem e as escrituras confirmam o projeto de Jesus (9,2-13)


Jesus proporciona aos três companheiros de maior confiança testemunhar a
manifestação de YHWH a respeito de seu Filho. Pedro não consegue compreender o
momento, propondo construir um memorial de três tendas. Pela segunda vez, distorce as
palavras de Jesus e é repreendido, desta feita pela voz da nuvem: Este é o meu Filho
amado; ouvi-o. Uma confirmação da voz que se ouvira no batismo do Jordão (1,11) e que
agora confirma o projeto de Jesus e sua proposição do caminho para a cruz, com uma
recomendação especial: ouvi-o. Deste modo eles são desafiados a crescerem na intimidade
com Jesus e de irem além das aparências e do momento presente.

f) A luta pela fé (9,14-29)


Os discípulos que haviam recebido autoridade sobre os espíritos impuros e já haviam
expulsado muitos demônios (6,7.13) não puderam expulsar um espírito mudo que
atormentava a vida de um menino (9,14-29) por sua falta de fé no Cristo da cruz e no
caminho por ele proposto. Ó geração incrédula! — reage Jesus desapontado, mas disposto
a fazer algo: Trazei-o a mim. Encoraja a fé do pai, como também o fizera com Jairo na
"ressurreição" de sua filha (5,36s): Se tu podes!... Tudo é possível para aquele que crê!
Sentindo-se desafiado, o pai expressou sua fé em forma de oração sincera: Eu creio! Ajuda
a minha incredulidade!
Há uma relação entre a experiência e instrução que os três discípulos receberam na
montanha e a experiência e instrução dada aos discípulos durante o exorcismo. Os
primeiros, surdos ao ensinamento de Jesus sobre a necessidade de negar-se a si mesmo, de
tomar sua cruz e segui-lo, ouvem uma voz da nuvem e a explicação das Escrituras que

11
As condições do discipulado estão imbuídas da visão apocalíptica do julgamento do Filho do
Homem. São contrapostos os tribunais do estado romano e o tribunal “descrito em Daniel". “Marcos,
porém, não incentiva os discípulos a pôr em prática o heroísmo militar; ele introduz o paradoxo
central do evangelho. A ameaça de punir com a morte é o ponto máximo do poder do Estado. O
medo diante dessa ameaça conserva intacta a ordem dominante. Resistindo a esse medo e buscando
a prática do Reino, ainda que a custa da morte, o discípulo contribui para destruir o reinado da morte
imposto pelos poderes na história. Aceitar a soberania do Estado sobre a morte equivale a recuperar
sua autoridade sobre a vida" (MYERS, 1992, p. 300).
31
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confirmam essa opção; os outros, incapazes de expulsar o espírito surdo-mudo que
ameaçava a vida da criança, por não acreditarem que tudo é possível àquele que crê,
recebem o exemplo do pai do menino que foi encorajado a fortalecer sua fé pela oração.

2.2.2 O significado do seguimento da cruz (9,30-10,16)

Jesus voltou a insistir no mesmo ponto, ensinando-lhes que a cruz era inevitável
(9,30s), mas eles não compreendiam, nem aceitavam este caminho. Rejeitaram-no
discutindo quem seria o maior (9,32-34). Tendo apontado a contradição da prática dos
discípulos com o verdadeiro seguimento, Jesus os corrige ensinando-lhes o que significa ser
o primeiro no caminho proposto por ele, com palavras e expressões simbólicas (9,35-37), e
como devem ser as relações com outros seguidores e entre os membros da própria
comunidade (9,38-50).
Quando a caravana de Jesus chega à região da Judeia, Marcos chama a atenção
para o fato de que a multidão não está ausente nesta caminhada e que os inimigos estão
vigilantes (10,1-2). No embate com os fariseus, Jesus ensina que tornar-se o último e o
servo de todos significa criar relações de igualdade entre homem e mulher (10,3-12) e dar
atenção prioritária às crianças (10,13-16).

a) Ensinamento e rejeição do caminho da cruz (9,30-34)


Marcos sinaliza com insistência a caminhada simbólica de Jesus do extremo norte a
Jerusalém. Atravessam a Galileia e não queria que ninguém soubesse, pois ensinava com
exclusividade aos seus discípulos sobre sua entrega, morte e ressurreição. Para haver
ressurreição precisa haver entrega.
Os discípulos não compreendiam e tinham medo de interrogar. Jesus espera o
momento oportuno, em casa, na cidade de Cafarnaum, onde havia iniciado sua primeira
caminhada evangelizadora (1,21), e arranca deles a causa de sua incompreensão: Pelo
caminho vinham discutindo sobre qual era o maior. Enquanto Jesus discute a entrega, eles
discutem a apropriação.

b) Fazer-se o último e o servo de todos (9,35-37)


O paradoxo segue a mesma direção do anterior: o que perder a sua vida... irá salvá-
la (8,35). Entregar a vida é fazer-se o último, assumir a mentalidade de servo e não de
mandante; de empregado que se solidariza e não de mandachuva que dá ordens a
subordinados. Para não deixar dúvida tomou uma criança, colocou-a no meio deles e,

32
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pegando-a nos braços, explicou-lhes visualmente que quem acolhe uma criança acolhe a ele
e realiza a vontade de Deus.

c) Acolhimento aos "de fora" e o cuidado da paz interna (9,38-50)


João apresenta outro problema da prática equivocada do grupo dos doze: impedir
um estranho de expulsar demônios. A razão de tê-lo proibido: pois ele não nos seguia, o
que até parece uma ironia.

d) Voltar às origens para superar a opressão no sistema familiar (10,1-12)


Coerente com o ensinamento anterior, Jesus toma posição do lado das últimas, as
mulheres. O caminho da cruz implica criar novas relações familiares, não mais baseadas no
androcentrismo, mas em condições de igualdade e respeito mútuo.

e) O acesso das crianças: confrontação da prática dos discípulos (10,13-16)


Jesus reage energicamente e corrige as atitudes dos discípulos, viciadas pela prática
de se considerarem as pessoas mais importantes. Lembra-lhes que as crianças, que ocupam
os últimos lugares, são as que devem ser destacadas, pois delas é o Reino de Deus.

2.2.3 Deixar tudo e fazer-se o servo de todos/as (10,17-52)


Cumprir os mandamentos não é suficiente para obter a vida eterna. É preciso deixar
tudo, como o fizeram os/as discípulos/as, e partilhar os bens com os/as pobres (10,17-31).
Quem o fizer terá o cêntuplo, mas com perseguições. O caminho da cruz é inevitável
(10,32-34). Os discípulos continuam rejeitando o seguimento da cruz, pela prática da
disputa pelo poder. Jesus lhes mostra como deve ser exercida a liderança no caminho que
estavam inaugurando (10,35-45). O cego de Jericó dá o exemplo de verdadeiro discipulado
(10,46-52).

a) As implicações econômicas para o seguimento (10,17-31)


Por três vezes Jesus se vale da janela dos olhos (10,21.23.27), para responder a
uma questão vital: O que é preciso fazer para herdar vida eterna. A questão é proposta por
alguém que guardava piedosamente os mandamentos de Deus e possuía muitos bens, num
contexto de retomada do caminho. O texto diz explicitamente: Fitando-o o amou.
Diante da recusa do jovem em deixar os bens, o olhar penetrante de Jesus
perpassou os/as discípulos/as que estavam ao seu redor: Como é difícil a quem tem
riquezas entrar no Reino de Deus, repete por duas vezes!

33
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Diante da perplexidade dos/as discípulos/as Jesus os/as fita de novo com o brilho da
esperança do profeta Zacarias: o que parece impossível aos olhos do que resta deste povo,
não o é para Deus (Zc 8,6-8). Ele pode mudar a disposição do coração humano amarrado
às riquezas. Quem deixar tudo herdará a vida desde agora. Quem deixar tudo... receberá
cem vezes mais desde agora com sofrimento...

b) A inevitável consequência de uma vida de entrega (10,32-34)


A descrição detalhada do cenário dramatiza o caminho do seguimento da cruz. Por
duas vezes é lembrado que estavam subindo a Jerusalém. Jesus ia à frente, e os discípulos
acompanhavam-no com medo. Não era à toa. Iriam confrontar-se com os anciãos, escribas
e chefes dos sacerdotes.
Jesus não poderia ser mais realista. Prevê tudo o que vai acontecer: entrega do Filho
do Homem por traição, o duplo julgamento, a condenação à morte, a humilhação, tortura e
execução. Mas três dias depois ele ressuscitará, termina o refrão, pela terceira vez.

c) O papel da liderança no caminho da cruz (10,35-45)


Os discípulos, porém, ignoravam o que Jesus lhes estava falando. Embora o
acompanhassem, faziam seu próprio caminho. As disputas pela liderança na comunidade
geraram mal-estar em todo o grupo.
Mostrou-lhes que estavam sendo reincidentes no erro (9,34) e aplicou o mesmo princípio
de ser o último (9,35) ao conflito interno do grupo: Aquele que dentre vós quiser ser
grande, seja o vosso servo, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o escravo de
todos. O exemplo é dado pelo próprio mestre que não veio para ser servido, mas para servir
e dar a sua vida em resgate por muitos.

d) A luta do cego e dos discípulos para recuperar a visão (10,46-52)


O exemplo de como se deve seguir a Jesus é dado por Bartimeu, um mendigo cego
que estava sentado à beira do caminho. Ao perceber que era Jesus que estava passando,
faz o que lhe é possível: gritar a plenos pulmões para que ele tenha misericórdia. Reprimido
por muitos, grita com mais força ainda. Assim que lhe anunciam que Ele o chamava,
deixando a sua capa foi até ele. A única coisa que queria era ver.
Cada termo empregado por Marcos está imbuído de significados que recuperam a
caminhada realizada até o momento, e a luta dos/as seguidores/as para deixar a beira
(“descer do muro”, diríamos hoje) e entrar no caminho.
Sua condição social contrasta com a do homem que perguntara sobre o que fazer
para possuir a vida eterna (10,17-22). Em ambos os casos, Jesus é interrompido ao retomar
34
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o caminho para Jerusalém. Bartimeu, limitado pela falta de visão, reprimido por muitos, não
pode correr e ajoelhar-se diante dele, mas também não espera sentado: “perturba” a
caminhada gritando. O homem rico queria impressionar a Jesus pelo cumprimento dos
mandamentos; Bartimeu, por seu apelo insistente à compaixão. O rico chamou a Jesus de
bom mestre, um título bajulador; Bartimeu o chama de Rabbúni, termo aramaico para
designar "meu mestre" ou simplesmente "mestre", de coração. O rico estava preocupado
com a outra vida; Bartimeu, simplesmente ver novamente! O rico saiu pesaroso porque
tinha muitos bens; o cego deixou sua capa, tudo o que tinha antes de recuperar a vista.
Assim que a recuperou, seguia-o no caminho.12
A luta do cego para recuperar a visão contrasta também com a cegueira e a
resistência dos discípulos em colocar-se realmente no caminho. Em vez de deixarem cair a
palavra em terra boa, estavam deixando que as palavras semeadas por Jesus fossem
desperdiçadas à beira do caminho, sujeitas a serem arrebatadas por satanás (4,4.15). Por
terem rejeitado o Cristo e o caminho da cruz, haviam sido repreendidos duramente por
Jesus, porque estavam fazendo o jogo do diabo (8,33).
O tema do exorcismo aparece também nas entrelinhas, à sombra do título — Jesus,
o Nazareno. É a segunda vez que ele aparece nesse texto. Na outra ocasião, foi
pronunciado pela boca de um homem possuído (1,24) que se sentiu ameaçado com a
presença de Jesus. Possivelmente Marcos esteja aludindo implicitamente à luta interna do
discipulado para vencer a tentação do triunfalismo messiânico. Bartimeu chamou a Jesus
com o título messiânico de Filho de Davi, mas quando se realiza o encontro com Jesus ele o
chama de Rabbúni, que revela intimidade e confiança. Para os bons entendedores, isso
significa que para seguir na aventura do discipulado é preciso exorcizar os demônios
internos que não permitem reconhecer nossa cegueira.
O cego de Jericó, assim como o cego de Betsaida (8,22-26) não nasceram cegos. O
que aconteceu para que chegassem a este ponto? O de Betsaida é passivo, é conduzido por
outros e responde estritamente o que lhe é perguntado. O de Jericó, pelo contrário, tem
nome, Bartimeu, e sobrenome, filho de Timeu, e é altamente ativo. Pergunta, grita,
enfrenta a multidão, salta, joga a veste, vai ao encontro de Jesus, recebe a cura e torna-se
seu seguidor. O que nos faz perguntar: O que é necessário jogar, abandonar para abrir os
olhos e seguir decididamente Jesus?

12
"0 significado da composição social, econômica e política da narrativa do cego Bartimeu, inserida
às vésperas da campanha de Jerusalém, deveria ser claro. Os pobres se unem no ataque final contra
a ordem ideológica dominante, e os ricos se afastam abatidos. Os primeiros se tornaram os últimos, e
os últimos os primeiros" (MYERS, 1992, p. 341).
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2.2.4 A pedagogia da cruz
Se nos oito primeiros capítulos foi narrado o constante movimento de Jesus pelas
aldeias, pelo mar da Galileia e pouco ou quase nada sobre o que ele ensinava exceto pelo
capítulo quarto, aqui temos uma situação inversa: uma única caminhada, interrompida
várias vezes, com ênfase na palavra de Jesus que ensina, explica, corrige e exemplifica a
prática do seguimento.
Marcos escreve para sua comunidade em tempo de guerra, marcada pela
perseguição, dúvida e insegurança. Responde a suas questões organizando didaticamente
os ensinamentos de Jesus. Atualiza o evangelho de Jesus Cristo. Podemos captar traços da
pessoa de Jesus e de sua pedagogia, bem como nas correções de rota das atitudes tomadas
pelos discípulos.

a) Ensinamento no caminho para a cruz


1. A mudança do cenário e a do modo de organizar o texto revela também uma
mudança de Jesus na forma de anunciar o Reino. Não ensina mais prioritariamente à
multidão, como o fazia na primeira parte, mas aos/às discípulos/as; realiza poucas curas
(8,22-26; 9,14-29; 10,46-52), e estas assinalam o processo educativo para aprender a ver,
ouvir, acreditar e segui-lo no caminho; a cruz aparece no horizonte como uma certeza.
Compreende, então, sua missão como Messias, segundo a profecia, de Isaías, do servo que
triunfa pela resistência (Is 50,4-9; 53,1-12).
2. Jesus fundamenta sua missão em uma releitura do Antigo Testamento. Os
discípulos e os fariseus também (9,11; 10,4), mas as conclusões são opostas. A diferença é
que Jesus as interpreta sob o critério da maior fidelidade ao projeto de Deus, que se
expressa na vida e dignidade das pessoas, na igualdade de condições, no acesso das
crianças (os últimos)... A palavra escrita não é letra morta, ainda que seja de Moisés (10,5),
mas palavra contextualizada e mesmo suscetível de concessões por causa da dureza dos
corações. Também não é mera repetição e cumprimento restrito das leis, e sim um
compromisso de solidariedade com o povo (10,21), o que exige o aperfeiçoamento da lei,
conforme o acréscimo introduzido na citação dos mandamentos (10,19).
3. Ao iniciar a caminhada, Jesus avalia o pulso do grupo, contrastando o que dizem
os outros com o que dizem os discípulos a respeito dele. Sua pergunta — o que dizem, e o
que dizeis quem eu sou — evoca a revelação de YHWH a Moisés, na sarça ardente, onde se
selou o compromisso de libertar o povo oprimido. Para segui-lo, não basta o que dizem os
outros. É necessária uma convicção pessoal, um compromisso efetivo de seguimento até as
últimas consequências, na autenticidade de se ser o que se é. Portanto, vamos descobrir

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quem é Jesus não pelo que dizem os outros ou pelo que Ele faz, mas pelo que Ele diz de si
mesmo em seu insistente tríplice anúncio da paixão, morte e ressurreição.
4. A vitória é antecipada no momento místico da transfiguração. Seu ensinamento é
confirmado pela Escritura no diálogo com Moisés e Elias e pelo próprio Deus que o nomeia
Filho amado que deve ser ouvido em seu ensinamento novo sobre o caminho da cruz. O
que, talvez, melhor resume o que Ele diz de si mesmo é: “O Filho do Homem não veio para
ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (10,45).
5. O ensinamento de Jesus é diferenciado. Dedica tempo especial ao ensino dos
discípulos, revela-lhes sua identidade, mas exige que mantenha segredo até que seja
compreendido o que significa ser o Cristo (8,30). Há outros segredos que só revela a um
grupo mais íntimo, e exige o mesmo silêncio até o momento oportuno (9,9). Jesus,
portanto, confia seus segredos a seus amigos, mas sabe a quem, quando e como confiá-los.
6. O local de ensinamento não é sentado, como o faziam os rabinos judeus e os
gregos, mas andando pelo caminho. A metodologia de Jesus era de ensino através da
prática. Para aprender é preciso colocando-se a caminho por inteiro.
7. Jesus não abre mão de seus princípios básicos. Denuncia publicamente a prática
das pessoas que querem desviá-lo do verdadeiro caminho, mesmo que seja a maior
liderança. Não fecha os olhos, nem ajeita as coisas, mas diz a verdade, mesmo que doa,
pois esta liberta. Da mesma forma, convoca todos/as para expor seu projeto e as condições
do seguimento (8,34-38). Suas relações são claras; sua proposta, transparente.
8. Os conflitos são o ponto de partida para as instruções, sejam eles de ordem
interna (8,32ss; 9,34ss; 10,35ss) ou provocados por outros (9,14ss; 10,1ss; 10,17ss).
9. Jesus é duro na crítica à teimosia dos discípulos que persistiram no erro, mas
reconhece os passos e lhes promete a recompensa possível desde agora (10,28-31).
10. O chamado de Jesus é radical, realista, total, coisa de vida e morte. Ele nada
esconde, não consola nem passa uma tinta no medo e na tremedeira dos discípulos,
enquanto sobem para o confronto derradeiro (10,32). Ele apenas vai à frente deles/as.
11. Jesus toma a atitude de quem sabe o que se passa entre eles e assume uma
posição crítica diante dos conflitos. Está atento e não se omite diante do silêncio que
esconde problemas sérios a serem resolvidos (9,33).

b) O catecismo do seguimento da cruz


1. Tendo acompanhado cuidadosamente a caminhada de Jesus desde o começo, a
primeira coisa que nos chama a atenção é a centralidade da teologia da cruz, anunciada
como algo necessário (8,31; 9,12), e como consequência de sua subida a Jerusalém (9,31;
10,33). Em todas as explicações que Jesus dá aos discípulos, a única vez em que Marcos
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diz explicitamente que ele lhes ensinava (didáskein) é no momento em que Jesus anuncia
seu destino político (8,31; 9,31). Em outras ocasiões, sempre emprega o verbo "dizer"
(legein). Um sinal de que o objetivo de todo esse catecismo do seguimento era fazer com
que os discípulos entendessem o Messias como o Cristo da cruz e não como o rei poderoso
esperado.
2. Marcos organiza didaticamente o ensinamento de Jesus sobre o seguimento da
cruz, por meio de uma estrutura de repetições que mostram, por um lado, a dificuldade e a
resistência dos discípulos para andar nesse caminho e, por outro, a evidência de que esse é
o único caminho correto e que precisa afetar todos os níveis das relações humanas. Em
diversos momentos e de formas diferentes, são corrigidas tanto as pretensões triunfalistas
dos discípulos, imbuídas das malhas satânicas (8,34-38; 9,35-37; 10,45), como sua prática
de seguimento equivocada, que fazia vacilar ante a possibilidade de mudança (9,18),
abafava o trabalho dos concorrentes (9,38), impedia o acesso dos últimos (10,13) e repetia
a mesma estrutura política de dominação (9,34; 10,37). Tinham muita dificuldade em
entender a lógica de Jesus que declarava direitos iguais na família (10,10) e desmistificava
a riqueza como bênção divina (10,23-27).
3. O ensinamento de Jesus não é somente racional, com argumentos lógicos e
frases de efeito, como o são os paradoxos de vida/morte, primeiro/último, maior/servidor,
nem somente de correção de atitudes equivocadas e contrárias à dinâmica do caminho do
seguimento de Cristo, mas também de expressão mística, simbólica e sensível, como a
experiência no alto da montanha (9,2-8) ou o simples gesto de abraçar, abençoar e impor
as mãos sobre as crianças (10,16). São expressões simbólicas que, na verdade, confirmam
em nível profundo o ensinamento teórico de tomar a cruz e segui-lo, ou de colocar as
crianças no centro das atenções (9,36).
4. O caminho do seguimento é o palco do ensino e das instruções. Todo
ensinamento é dado no caminho que começa em Cesareia de Felipe, no extremo norte da
geografia conhecida pela comunidade de Marcos, rumo a Jerusalém, lugar de confronto
definitivo com as autoridades judaicas. Não é um estudo teórico à parte para depois ser
aplicado na prática, mas um ensinamento que se dava no caminho do enfrentamento de
um conflito de vida ou morte. Só aprende quem se põe a caminho.
O caminho é o lugar privilegiado do ensinamento. O texto faz alusão várias vezes
explicitamente (8,27; 9,30; 10,32.52), ou durante a caminhada (9,9), ou ainda ao ser
interrompido por alguém (10,1.17.46). No entanto, ao chegarem em casa, são esclarecidas
as dúvidas e questionadas as distorções do ensinamento (9,28.33; 10,10). A casa é
também uma concretização da promessa de Jesus de receberem o cêntuplo. Em todo lugar
a que chegam, chegam em casa.
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5. O sofrimento redentor é necessário, e a cruz é inevitável. No primeiro anúncio
da paixão, Jesus afirma que deve sofrer muito antes de ser morto (8,31), e o confirma aos
três, ao descer da montanha (9,12). Nas outras vezes, apenas diz que será entregue aos
inimigos (9,31; 10,33), portanto traído pelos seus, e executado. Do terceiro anúncio se
deduz nitidamente que seu grande sofrimento pela traição, rejeição dos judeus e execução
política é consequência da entrega de toda a sua vida pelos excluídos, os últimos da socie-
dade, por fazer-se o servo de todos. Em ambos os anúncios aparece a figura do Humano,
que sofrerá, será morto, mas três dias depois ressuscitará. Marcos, dessa forma, mostra
que o Cristo é o servo sofredor anunciado por Isaías (Is 42) e o Humano que triunfa sobre
as forças da morte (Dn 7).
6. A dificuldade em aceitar o Cristo da cruz está no problema da aceitação das
consequências para o discipulado. A um determinado tipo de profissão de fé em Cristo,
segue um determinado tipo de discipulado. A um Cristo glorioso sem cruz segue um
discipulado sem entrega de si mesmo, sem autocrítica e sem se diferenciar do velho
esquema excludente, discriminador e dominador.
7. O caminho da cruz deve se expressar em todas as relações humanas. Longe de
ser ascetismo religioso, consideração piedosa da angústia humana, ou malogro trágico, o
caminho da cruz é um exercício da prática da não violência em todas as esferas da vida: na
teimosia da fé de poder expulsar as forças do mal (9,22s), na oração e no discernimento
(9,28s), nas conversas pelo caminho (9,33s), no respeito aos concorrentes (9,38s), no
tratamento criterioso dos conflitos internos (9,42-50), nas relações familiares de igualdade
(10,1-10), na atenção aos sem-importância (9,37; 10,13-16), no desapego e na partilha
dos bens (10,17-31) e, finalmente, nas relações políticas (10,44).
8. O intento de corrigir a expectativa messiânica dos discípulos, desde o começo
da caminhada (8,30), não deu resultado positivo. Eles continuavam cegos, esperando até o
fim um golpe messiânico de força (10,35-45). Mesmo assim, não são excluídos ou expulsos
do discipulado.
9. Marcos articula dialeticamente os ensinamentos de Jesus entre o ensino
exclusivo aos discípulos (9,9-13) e o ensino público (9,14-29; 10,1); entre as instruções
dadas no caminho (8,27; 9,30; 10,32) e as explicações específicas em casa (9,33); entre o
anúncio de algo novo e a concretização disto na prática. Há momentos em que os
confronta teoricamente, ora questionando-os (9,33) ou respondendo a suas perguntas
(9,11-13; 10,35-40), ora em público, confrontando a prática deles com a de outras pessoas
(10,2-9.17-31), ou ainda com as atitudes que ele mesmo toma (9,29; 10,16). O horizonte
teológico do discipulado não se fecha com os discípulos. A multidão, embora introduzida
artificialmente em momentos cruciais, serve de contraponto para desmascarar a tendência
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exclusivista dos discípulos (8,34; 9,14; 10,1). Por outro lado, isso também indica que não
se pode seguir o caminho da cruz sem estar relacionada com a problemática existencial da
população enganada pelos grupos dirigentes.
10. Além do resgate essencial da vida de seguimento, Marcos expõe os problemas
de sua comunidade à luz do caminho da cruz, tais como o da apostasia e traições, que se
agravavam por estarem em guerra e ameaçavam a unidade dos grupos ou das
comunidades (9,42-50). Marcos reconhece que há "filhos das trevas" dentro das
comunidades e "filhos da luz" fora delas (9,38s.).
11. E qual teria sido o interesse de Marcos em deixar tão mal os discípulos que
rejeitam sistematicamente o ensinamento de passar pela cruz? Os que mais decepcionam
são justamente os três líderes que recebem instruções privilegiadas: Pedro, Tiago e João.
Na época da redação, Tiago e João estavam dirigindo a Igreja de Jerusalém. Ao apresentá-
los desta forma, Marcos está estimulando a responsabilidade crítica tanto dos que
assumem a direção da comunidade como dos demais integrantes. Dos dirigentes, para que
assumam esse cargo de fato como um serviço, e dos membros das comunidades, para que
tenham suficiente distância crítica e se preparem para possíveis decepções que podem
ocorrer em todos os grupos, devido ao exercício do poder.
12. As mulheres estão presentes no ensinamento de Jesus. Elas são as que ocupam
o último lugar em nível de importância na escala de valores, num contexto patriarcal da
cultura judaica. Não se pode continuar a caminhada se não se enfrenta o problema da
dominação que perpassa todas as relações humanas. Se alguém quiser ser o primeiro, seja
o último de todos e o servo de todos (9,15). E, até o momento, a única pessoa que
apareceu assumindo esse papel de serva (diakonia) foi uma mulher no começo da
narrativa, curada de sua febre (1,31).

Dica de Aprofundamento

Para aprofundar as reflexões sobre o Evangelho de


Marcos, sugerimos que leia o artigo: “Marcos 1,29-39:
A Cura da sogra de Pedro”, de Ildo Bohn Gass.
Disponível em:
<https://cebi.org.br/2012/02/01/a-cura-da-sogra-de-

pedro-ildo-bohn-gass/>. Acesso em: 17 abr. 2017.


Fonte: http://migre.me/lQMBG
* Depois poste no fórum da unidade suas reflexões.

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Antes de continuar seu estudo, realize os Exercício 3
e 4 e as Atividades 2.1 e 2.2.

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UNIDADE 3

EVANGELHO SEGUNDO MATEUS


OBJETIVO DA UNIDADE: Apresentar uma introdução geral ao livro de Mateus, seu
contexto histórico, fontes, objetivos, possíveis enfoques, destinatários/as e mensagem.
Este é um livro que marca a passagem das promessas para a realização em Jesus Cristo.

O Evangelho segundo Mateus é o livro mais lido pelas comunidades e mais


comentado pelos exegetas. Ele marca a passagem das promessas antigas para a realização
em Jesus Cristo. Está colocado como primeiro livro da biblioteca do segundo testamento
porque faz a ponte entre os testamentos. Esta ponte é formada por cinco colunas que são
os cinco discursos de Jesus que correspondem aos cinco livros de Moisés, unidos e cobertos
O Evangelho segundo Mateus é o livro mais lido pelas comunidades e mais
comentado pelos exegetas. Escrito desde a perspectiva judaica, marca a passagem das
promessas antigas para a realização em Jesus Cristo. Colocado como primeiro livro da
biblioteca do Segundo Testamento faz uma espécie de ponte entre os testamentos. Esta
ponte é formada por cinco colunas que são os cinco discursos de Jesus que correspondem
aos cinco livros de Moisés, unidos e cobertos por onze expressões repetidas: “para cumprir
as escrituras”, por 60 citações bíblicas explícitas e inúmeras alusões ao Primeiro
Testamento.
O Evangelho estabelece uma síntese entre os ditos populares de Jesus, conhecidos
como fonte Q, e o evangelho segundo Marcos, destinada a judeus cristãos, exilados ou
dispersos pelo império romano. O exílio se deu com a guerra judaica contra o império nos
anos 66-70 d.C. que resultou na destruição de Jerusalém com seu templo.
Este Evangelho teve uma importância muito grande nos dois primeiros séculos do
cristianismo, justamente quando se estabeleceram os alicerces das comunidades cristãs.

3.1 Aspectos gerais do Evangelho de Mateus

3.1.1 O contexto sócio-histórico da Comunidade de Mateus

a) Lugar e data de redação


As comunidades que deram origem a esse Evangelho certamente procederam da
Judeia, onde Pedro teve uma atuação marcante. Não por menos, Pedro recebe maior
destaque, como podemos ver no texto de Mt 16,13-19.
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Com a guerra judaico-romana, muitos membros destas comunidades migraram para
outras regiões, levando consigo seu legado. Essa migração se intensificou com a
perseguição sofrida por parte das lideranças das sinagogas dos anos 80 a 90 d.C.
Há um debate entre autores/as, sugerindo lugares como Jerusalém ou Palestina,
Cesareia Marítima, Séforis ou Tiberíades na Galileia, Pela, na Transjordânia, ou Síria. Mas,
há boas razões para pensar na cidade de Antioquia, entre os anos 80 e 90 (com toda
certeza depois de 70 e antes do ano 100 d.C.):
 Inácio de Antioquia, em suas cartas escritas entre os anos 100 a 110 para todas as
Igrejas, utiliza material só encontrado em Mateus.
 A Didaqué (8,1-3), escrita na mesma época, cita a oração do Senhor, o Pai Nosso, na
versão de Mateus.
 Em Mt 4,24, diferente do que se lê na fonte utilizada (Mc 1,28.39), o evangelho dá uma
cor local, referindo-se à fama de Jesus espalhada “por toda Síria”.
 O Evangelho destaca o papel proeminente de Pedro: ele é o primeiro a ser chamado, o
único que confessa Jesus como “Cristo, o filho de Deus”, presente no Getsêmani e na
crucifixão. Isso poderia ser um reflexo de sua importância na Igreja de Antioquia, como
podemos perceber na carta de Paulo aos gálatas (Gl 2,11-14).

b) O autor (ou autores) e língua original


O cobrador de impostos chamado para o seguimento de Jesus é nomeado Levi em
Marcos (2,13-14) e em Mateus (Mt 9,9), mas não lhe é dada maior relevância neste
evangelho. Ele figura como o oitavo da lista dos discípulos (10,2-4). Além disso, o conjunto
da obra depende muito de Marcos. No entanto, o evangelho foi atribuído a ele. Não é de
estranhar. Os cobradores de impostos sabiam contar, ler e escrever.
A atribuição do Evangelho a Mateus se dá no século II d.C. O primeiro a fazê-lo foi
Papias, que escreveu nos anos 100-120 d.C. com um texto enigmático: “Mateus escreveu
na língua hebraica as frases/logia [de Jesus], e cada pessoa as interpretou segundo sua
capacidade” (SICRE, 1999, p. 167). Na mesma direção segue a tradição com Irineu,
Clemente, Orígenes e Jerônimo. Contudo, se existiu um texto do evangelho em hebraico ou
aramaico, o que teria sido feito com ele? O fato é que temos o texto grego. “O Antigo
Testamento é citado às vezes pelo Texto Massorético e outras pelos LXX, o que indica não
ser mera tradução. O vocabulário, a gramática e a sintaxe são conformes ao grego” (SICRE,
1999, p. 168).
O que podemos deduzir é que, certamente, Mateus foi uma figura significativa para
a comunidade à qual o Evangelho é endereçado. Dessa forma, ele é homenageado e a
autoria da obra recebe a força de um discípulo do grupo de Jesus. O nome Mateus significa
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presente de Deus. E em grego, o termo é
parecido com a palavra discípulo: mathetés =
aprendiz.
Seu estilo revela ser um escriba judeu-
cristão helenista (fala e cultura grega), versado
em semitismos. Conhece o aramaico, mas pensa
em hebraico (no evangelho são encontrados 329
casos de semitismos: expressões tomadas das
sinagogas e do templo); é possível que o livro
tenha sido fruto da escola de rabinos e escribas

cristãos de Antioquia, “discípulos” de Mateus.


Fonte: http://migre.me/s3yH6
Com certeza, os autores eram profundos
conhecedores das Escrituras judaicas e usam a versão grega, a septuaginta, para fazer
transcrições para a composição de sua narrativa, como, por exemplo, em Mt 1,23;
2.6.15.18. Tiram destes textos verdadeiros “tesouros” e acrescentam a novidade do
Nazareno (“coisas novas”, cf. Mt 13,52).
O estilo é semítico e mais intelectual, dado a repetições e sumários, estribilhos e
duplicatas. O tom é de ensinamento. Os personagens perdem vitalidade. Por exemplo, a
cena tensa, de tom profético e de indignação com os seus adversários (Mc 3,2-5), Mateus
converte numa cena em que Jesus aparece como mestre que ensina (Mt 12,10-12).
Compare os dois textos.

c) Destinatários/as
O evangelho de Mateus se destina a cristãos e cristãs de origem judaica, como o
confirma a tradição e a análise do Evangelho: usa expressões tipicamente hebraicas e não
traduz os semitismos, dá por conhecidos os costumes judaicos e importância a temas caros
a eles como a lei antiga e a nova. São judeus/judias cristãos/ãs nascidos/as na Palestina e
espalhados/as pela Galileia e Síria, expulsos/as de suas terras e fiéis às suas tradições (6, 1-
6.16-18; 10,17-21; 13,10-16; 16,1-12; 21,33-46; 22,1-14; 12,1-29). Dentre eles
encontramos pessoas sem terra (5,1-5), desempregados (20,1-16), migrantes (2,13-27;
4,13-16.24-25; 19,1), perseguidos (5,10-12; 23,13-32), pobres (11,25-26; 25,34ss...).
Segundo Warren Carter (2002, p.23), o Evangelho é orientado para aqueles/as que
já são discípulos e discípulas de Jesus. Trata de nutrir e fazer crescer a “pequena fé” dos
seguidores e seguidoras em uma forma de vida ativa e leal. Legitima assim uma
identidade e um estilo de vida. Ainda de acordo com Carter, audiência de Mateus não

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consistia predominantemente de “marginais involuntários” de nível social baixo, mas de uma
amostra da sociedade urbana. Transparecem várias características de prosperidade e
riqueza urbana:
 Uso de um estilo do grego que revela um ambiente urbano;
 Ênfase à palavra “cidade”, citada 24 vezes (8 em Mc), enquanto a palavra “aldeia” é
citada só 4 vezes (7 vezes em Marcos);
 O texto supõe um pouco mais de familiaridade com a riqueza ou de conhecimento
do contraste entre pobres e ricos. Enquanto os discípulos em Mc não devem pegar
moeda de cobre na jornada da missão (Mc 6,8), os discípulos em Mt não devem
pegar o dinheiro de primeira qualidade “ouro, prata ou cobre” (10,9); Refere-se a
“prata, ouro e talento” 28 vezes, ao passo que Mc uma única vez e Lc 4 vezes.
O final do evangelho nos dá um retrato da comunidade de Mateus (28,16-20): É a
assembleia dos convocados sobre o monte, como povo em marcha. Alguns adoram Jesus,
outros duvidam. É uma comunidade enviada em missão, preocupada com a fidelidade ao
ensinamento de Jesus, mas vivendo um forte conflito: como se trata de um texto escrito por
e para judeus, transparece em vários textos a ideia de que Jesus veio para os judeus (“não
tomem o caminho dos gentios, não entrem na terra dos samaritanos”; ver Mt 10,5). Por
outro lado, é preciso entender que a missão é universal (“ide a todas as nações”; magos
vindos do Oriente, ou seja, “pagãos”, são os primeiros a visitar Jesus).

d) As Fontes de Mateus e suas razões


Além das coletâneas de parábolas, de curas, de relatos da paixão, morte e
ressurreição de Jesus que circulavam pelas comunidades da primeira e segunda geração de
cristãos e de cristãs, a comunidade teve suas próprias fontes de informações, oriundas da
tradição das comunidades judaicas de cristãos e de cristãs. Os autores também tiveram
acesso à possível “coleção de ditos de Jesus” (Q), também utilizada por Lucas.
O acesso ao evangelho de Marcos, por ser uma primeira síntese das atividades e da
mensagem de Jesus, deve ter gerado ânimo nas comunidades. Ao mesmo tempo, deve ter
brotado o desejo de enriquecer o esquema de Marcos com novos materiais, respondendo ao
novo contexto das comunidades dispersas e perseguidas pelo império romano.
Por mais que gostassem do evangelho de Marcos, ele não se adaptava plenamente à
comunidade de Mateus, formada em grande parte por pessoas de tradição judaica, ao
passo que o evangelho de Marcos fora escrito para pessoas procedentes de fora do
judaísmo. Por uma parte sobravam as explicações sobre os costumes judaicos, pois as
sabiam de memória, e por outra, convinha mostrar que as antigas profecias se cumpriram
em Jesus. Faltava também uma exposição mais detalhada do ensinamento de Jesus. Em
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Marcos encontramos apenas dois capítulos. Em Mateus eles crescem em tamanho e em
quantidade: cinco grandes discursos.
Sicre apresenta ainda outros motivos que levaram a comunidade de Mateus a
escrever nova narrativa:

Os conflitos com as autoridades religiosas judaicas tinham aumentado nos


últimos anos, até se converterem numa luta mortal. É certo que Marcos
deixava clara a animosidade dos fariseus contra Jesus. Porém era
necessário insistir mais nisso, desmascarar mais claramente a hipocrisia
farisaica, as falsas acusações que dirigiam contra os cristãos. Finalmente, é
forçoso dizer, Mateus não estava muito de acordo com a forma com que
Marcos às vezes apresentava Jesus. Parecia-lhe demasiado humano.
Mateus tinha uma imagem mais grandiosa e soberana de Jesus. Tudo isto
influi no aparecimento de uma nova obra, que coincide em muitos aspectos
com a anterior, mas com um enfoque às vezes muito diferente (SICRE,
1999, p. 123).

Muita coisa havia mudado no cenário político e religioso depois de quinze anos da
narrativa de Marcos, com os acontecimentos da guerra judaica. A religião judaica, agora
sem templo e sem sacerdotes, se recompôs com um sinédrio formado por rabinos fariseus,
em torno da cidade de Jâmnia os quais passaram a atacar e perseguir os cristãos
expulsando-os das sinagogas. Era necessário dar uma resposta mais contundente às
perseguições sofridas pelas autoridades religiosas judaicas que se converteram em batalhas
mortais. Era necessário desmascarar a hipocrisia farisaica, as falsas acusações que dirigiam
contra os cristãos.
A nova narrativa de Mateus responde, portanto, à polêmica criada com a
comunidade judaica, conduzida agora pelos fariseus (7,15-19; 23,1-36), e reconstrói a
tradição de Israel a partir da fé em Jesus de Nazaré como o Messias e Filho de Deus. Dá,
assim, uma identidade ao novo Israel, formada por comunidades cristãs hegemonicamente
de origem judaica. A imagem de Jesus profundamente humana apresentada por Marcos, de
certa forma, chocava a sensibilidade religiosa judaica. Além disso, a cristologia também se
ampliava nas comunidades. Por isso será modificada para uma imagem de Jesus mais
soberana e divina, relacionada ao próprio nome de YHWH, Deus presente (Ex 3,14). “Ele
será chamado Emmanuel, Deus conosco” (1,23), presente na comunidade reunida em seu
nome (18,18) até o fim dos tempos (28,20). Na relação com ele se prima o respeito e a
reverência.
Tudo isso explica porque Mateus não copia todo o evangelho de Marcos:
aproximadamente 510 versículos dos 678, o que equivale a 75,22% do total, conforme
quadro sinótico das fontes oferecido por BOHN GASS (2005):

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Além do evangelho de Marcos, Mateus conhecia os ditos de Jesus, fonte Q, dos
quais utiliza cerca de 230 versículos, e de Material exclusivo (ME), aproximadamente 330
vv.

e) Ênfases
Jesus é apresentado como novo Moisés, mais que profeta, mestre da Justiça. Por
isso, ao longo de todo o texto a insistência de que Ele veio para “cumprir toda justiça”
(3,15; 5,6.10; 6,33; 20,1-16) e para realizar a “vontade de Deus” (6,10; 7,21; 12,50; 21,28-
31). A narrativa quer ensinar a Igreja a seguir as pegadas do Mestre, estimulando o espírito
de serviço (20,26-28), o amor aos fracos e pecadores (18,6.10-14), a correção fraterna
(18,15-18), denunciar a hipocrisia (7,5.13.23; 22,14), fortalecer e questionar a fé (6,30;
8,26; 14,31; 16,8; 12,20), vigiar sem temer a longa espera (24,42; 25,12; 26,38) e ser “luz
para as nações” (5,13-16).
A eclesiologia do evangelho de Mateus é de reconciliação e de solidariedade. Insiste
na vivência fraterna, especialmente no primeiro e quarto discurso (5-7; 18). É o único
Evangelho a denominar as comunidades de ekklesia, que significa tanto a Igreja universal
(16,18) quanto a assembleia local (18,17).
Recebem importância particular os conflitos em torno da Lei: havia os que buscavam
no ensinamento de Jesus uma legislação que desse segurança, e havia os que eram
tentados a não dar valor nenhum à Lei (12,1-14). Refletem-se ali as tensões entre os/as

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cristãos/ãs vindos/as do Judaísmo e os/as cristãos/ãs vindos/as de outras culturas (5,17-
48).13
O evangelho de Mateus responde também às situações específicas:
 Acento demasiado nas curas e exorcismos (7,21-23) e o esfriamento da caridade
(24,12). Não fazem as obras que deveriam fazer (23,2-3.25-27)
 Comunidades cada vez mais heterogêneas (13,36-43.47-50);
 Farisaísmo: fazem somente para serem vistos (6,1-18; 23,23; 22,34-40);
 Cansaço por causa da demora da vinda do Senhor (25,31-46);
 O ideal da perfeição se havia atenuado (5,48; 19,21);
 Prepotência de pessoas que buscam a Deus e ao dinheiro (6,24-34).

3.1.2 A estrutura literária

Quanto à estrutura literária do evangelho os comentaristas seguem diversos


modelos: o modelo dos cinco livros, o modelo quiástico e o modelo geográfico marcano que
divide o evangelho em duas partes.

a) Modelo dos cinco livros


O ponto de partida são os cinco discursos de Jesus antecedidos por uma parte
narrativa. Esse conjunto é introduzido pela narrativa do nascimento e infância de Jesus e
concluída pela narrativa da paixão, morte, ressurreição e ascensão, formando ao todo sete
partes. Copiamos a seguir a estruturação proposta por Ildo BOHN GASS.14

1ª Parte (1-2): Narrativas a respeito do nascimento e da infância de Jesus,


que o apresentam como o Rei que vai fazer justiça.
2ª Parte (1º livro): A justiça do Reino (3-7):
3-4: Parte narrativa: João Batista, o batismo e as tentações de Jesus,
chegada do Reino.
5-7: Discurso: A nova justiça do Reino no sermão da montanha.
3ª Parte (2° livro): A justiça do Reino liberta os pobres (8-10):
8-9: Parte narrativa: Libertação das doenças e da opressão (dez milagres).
10: Discurso: Envio dos missionários do Reino.
4ª Parte (3° livro): A justiça do Reino produz conflitos (11,1-13,52):
11-12: Parte narrativa: Os mistérios do Reino geram conflitos.
13,1-52: Discurso: As parábolas sobre a justiça do Reino que vencerá.
5ª Parte (4° livro): Comunidade, sinal do Reino (13,53-18,35):
13,53-17,27: Parte narrativa: A Igreja como seguidora do Mestre da justiça.
18: Discurso: Relacionamento entre os filhos do Reino na comunidade.
6ª Parte (5° livro): A parusia próxima do Reino (19-25):
19-23: Parte narrativa: No Reino tem lugar para todos.

13
Marcelo Barros (1998), em “Conversando com Mateus”, aprofunda este aspecto estabelecendo um
diálogo entre os dois irmãos: judeus e cristãos. Eles têm uma missão comum: viver e testemunhar a
boa nova para todo ser humano.
14
A mesma estrutura com alguma variação aparece também em Storniolo (1991).
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24-25: Discurso escatológico: A vinda definitiva do Reino vence as
injustiças.
7ª Parte (26-28): Narrativas sobre a paixão e ressurreição de Jesus. Lutar
pela justiça leva à morte, mas também gera vida e justiça plenas.

Este modelo põe em relevo os cinco discursos de Jesus, mas dá menor importância
aos relatos da infância de Jesus e aos relatos da paixão, morte e ressurreição. Há também o
problema de os capítulos 8 e 9 estarem mais relacionados ao discurso do sermão da
montanha (5-7) do que ao discurso da missão (10).

b) Modelo quiástico
A estrutura em forma de quiasmo é comum na prosa e na poesia do primeiro
testamento. Consiste em estruturar o texto em partes que se correspondem, colocando em
relevo o assunto de maior importância. Sicre propõe uma estrutura tendo como centro as
parábolas do reino (13) em que se alternam as narrações (N) e os discursos (D)15:

1) N 1-4, Nascimento – começo da atividade de Jesus;


2) D 5-7, bem-aventuranças – promulgação do Reino;
3) N 8-9, autoridade do Messias e convite ao Reino;
4) D 10, discurso da missão;
5) N 11-12, o Messias rejeitado;
6) D 13, parábolas do Reino;
5) N 14-17, o Messias reconhecido pelos seus;
4) D 18, discurso eclesial;
3) N 19-22, autoridade do Filho do Homem e convite ao Reino;
2) D 23-35, maldições – realização do Reino;
1) N 26-28, morte, ressurreição, novo começo.

c) Modelo geográfico marcano


O ponto de partida é o corte programático existente depois da afirmação de Pedro
que Jesus é o Messias, que se dá em 16,21: “A partir dessa época, Jesus começou a
mostrar aos seus discípulos...”. A mesma expressão aparece em 4,17: “a partir desse
momento começou Jesus a pregar...”. Desta forma fica claro que Mateus segue de perto a
estrutura do evangelho de Marcos organizado em torno do percurso de Jesus, em duas
grandes partes: Depois de sua apresentação (1,1-4,16), Jesus percorre a Galileia onde ele
se revela, é rejeitado pelos dirigentes de Israel e constrói a Igreja (4,17-16,20), parte para
Jerusalém, onde se dá a confrontação, morte e ressurreição (16,21-28,20). Pablo Richard16

15
Sicre (1999, p. 171). O comentário da CNBB, Ele está no meio de nós! O Semeador do Reino,
1998, segue uma estrutura parecida mostrando a correspondência da introdução e a conclusão e os
cinco livros.
16
RICHARD, P. Evangelho de Mateus: uma visão global e libertadora. In: revista RIBLA n. 27 –
1997/2, pp. 7-28. Disponível em: <http://www.claiweb.org/ribla/ribla27/contenido.html>. Acesso
em: 01 nov. 2015.
49
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e Warren Carter17 seguem esta estrutura. Carter faz um comentário sociopolítico e religioso
a partir das margens. Lê o evangelho de Mateus como contranarrativa: um trabalho de
resistência contra o status quo dominado pelo poder dominante e o controle da sinagoga; e
um trabalho de esperança que constrói uma cosmovisão e uma comunidade alternativa.

3.1.3 A estratégia literária


A narrativa do evangelho apresenta ao mesmo tempo a memória de Jesus histórico
e de que modo esta memória é vivida nas comunidades. Em cada passagem estão Jesus e a
Comunidade-ekklesia que valorizam a herança deixada pela tradição de Israel. As
comunidades são o verdadeiro Israel e Jesus é o novo Moisés que traz a herança de Israel
(1,1-17), realiza o novo êxodo (2,1-15) e pronuncia cinco discursos como os cinco livros da
Lei de Moisés.
Galileia é o lugar da esperança: Fogem de Herodes para o Egito; de Arquelau para a
Galileia. Jesus vive ali a maior parte do tempo. Sai apenas para o Batismo e para subir a
Jerusalém. De lá volta à Galileia como ressuscitado. Jesus mais que Moisés: atravessou o
deserto da morte.
Embora siga de perto a narrativa de Marcos, mantenha o mesmo itinerário, responda
as mesmas perguntas de Marcos – Quem é Jesus e o que significa ser discípulo dele –
Mateus não o copia ipsis literis. Omite detalhes importantes para Marcos, outras
informações ele amplia enormemente. E, por fim, o que é mais difícil de entender, modifica
alguns textos profundamente. Qual terá sido o critério?

a) Passagens que Mateus omite ou altera18


É raro que Mateus omita textos de Marcos por inteiro, mas há algumas situações
peculiares compreensíveis se tivermos em conta a mudança de destinatários e do contexto.
Em Marcos, a parábola da semente que cresce por si só (Mc 4,26-29) tem relevância para
explicar que a força do reino cresce de forma gradual e de que é necessário paciência
histórica. Mateus omite esse texto, como também omite a cura do surdo-mudo (Mc 7,32-37)
e do cego de Betsaida (Mc 8,22-26), porque podem ser interpretados como se Jesus fosse
um mago ou um curandeiro (SICRE, 1999, p. 125).

17
Carter (2002).
18
Seguimos aqui de perto e resumimos em forma de quadros o estudo de Sicre (1999, p. 124-139).
Para fazer este estudo será de muita ajuda uma sinopse dos evangelhos sinóticos como a de Datler
(1986) ou de Konings (2005). Bohn Gass (2005) oferece um quadro sintético das parábolas de Jesus,
da estrutura dos evangelhos sinóticos e dos textos da fonte “Q” comuns a Mateus e Lucas.
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E é claro, omite as explicações dos costumes judaicos (Mc 7,1-5), pois o seu público
os conhece de coração e os detalhes anedóticos do “jornalista” Marcos. Compare os
seguintes textos:

Marcos Mateus
Cura do endemoninhado 5,1-20 8,28-34
Assassinato de João Batista 6,14-29 14,1-12
Curo do menino endemoninhado 9,14-29 17,14-21
Fuga do jovem no horto 14,51-52 -

Mais difícil é entender por que omite a intervenção de João e a resposta de Jesus
(Mc 9,38-39). Possivelmente está relacionado à perspectiva de Mateus em dar uma imagem
mais positiva dos discípulos, pois aquela intervenção demonstra resistência ao ensinamento
de Jesus sobre o seguimento da cruz.
Em outras circunstâncias Mateus altera profundamente passagens de Marcos para
proporcionar uma nova imagem do protagonista Jesus (como por exemplo, na cura do
surdo-mundo - Mc 7,32-37; Mt 9,32-34) e dos seus discípulos e suas discípulas (como, por
exemplo, o final dramático do evangelho de Marcos em que as mulheres, por medo, não
contaram nada a ninguém - Mc 16,8). Mateus dirá que “correram para anunciá-lo aos
discípulos” e que o próprio Jesus lhes apareceu e repetiu a mesma ordem (Mt 28, 8-10).
Alguns temas Mateus trata com mais amplitude:

Marcos Mateus
Tentações 1,12-13 4,1-11
Instruções aos doze 6,6-13; 13,9-13 10,5-42
Pedido de um sinal 8,11-12 12,38-45

b) Abundância nas citações das escrituras

Não falta a Marcos a compreensão de que Jesus veio cumprir as escrituras. Mateus,
no entanto, trata desse assunto de maneira insistente e largamente ao longo de todo
evangelho. Sicre explica que: Mateus

[...] deseja sublinhar que a pessoa de Jesus, sua mensagem e sua atividade
não supõem um corte com o antigo, mas pelo contrário, são o cume de
todas as promessas. Isto se nota desde os relatos da infância. Neles se
cumprem cinco profecias. Que o Messias nasceria de uma virgem (Isaías),
que nasceria em Belém (Miqueias), que seria chamado do Egito (Oseias)
junto com o pranto de Raquel por seus filhos (Jeremias). Além disso, uma
profecia enigmática sobre “se chamará nazareno”.
O fato de que começa a pregar na Galileia, no território de Zabulon e
Neftali, não é indiferente; nessa passagem cumpre-se o anunciado por
Isaías 8,23-9,1 (Mt 4,12-16). Quando cura enfermos e impõe silêncio, está
realizando o ideal do Servo de Yahweh (Is 42,1-4 citado em Mt 12,18-21).
O destino de Jonas se repete no do Filho do Homem (Mt 12,40). E quando
entra em Jerusalém sentado num burrinho, cumpre-se a profecia de Zc 9,9
51
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(ver Mt 21,4). Até na atitude do povo, incapaz de compreender as
parábolas, cumpre-se o que foi dito por Is 42,18 (ver Mt 13,14-15) (SICRE,
1999, p.127).

Além de cumprir as escrituras, Jesus é um profundo conhecedor delas. Cita-as para


responder ao tentador no deserto, refuta as interpretações dos escribas (5,21-48) e, com a
citação de um salmo (Sl 8,3) silencia os protestos dos sacerdotes e escribas na entrada
triunfal em Jerusalém (Mt 21,15-16).

c) Textos que Mateus acrescenta

A infância de Jesus 1-2


O sermão da montanha 5-7
Cura do servo do centurião 8,5-13
Casos de seguimento 8,18-22
Cura de dois cegos 9,27-31
Não paz, mas espada 10,34-11,1
Emissários de João Batista 11,2-19
Condenação de algumas cidades 11,20-24
galileias
“Vinde a mim" 11,18-30
O Servo escolhido 12,15-21
As parábolas do trigo e do joio 13,24-30+13,36-43
Parábola do fermento 13,33
Parábola do tesouro e da pérola 13,44-46
Parábola da rede 13,47-50
Parábola do pai de família 13,51-52
O primado de Pedro 16,17-19
O imposto do templo 17,24-27
Parábola da ovelha desgarrada 18,12-14
O perdão das ofensas 18,15-35
Parábola dos trabalhadores 20,1-16
Parábolas dos dois filhos 21,28-32
Parábola dos convidados às bodas 22,1-14
Lamento por Jerusalém 23,37-39
Parábola das dez virgens 25,1-13
Parábola dos talentos 25,14-30
Parábola do juízo final 25,31-46
Morte de Judas 27,3-10
Informação dos soldados 28,11-15
Missão dos discípulos 28,16-20

3.1.4 Nova imagem de Jesus

Mateus repete tudo o que Marcos já nos havia informado desde o começo, que Jesus
é o Messias, Filho de Deus e o Filho amado do Pai, mas o faz com maior clareza e
dramaticidade. Começa com a genealogia onde informa que ele é “filho de Davi”, portanto,
digno de aspirar ao cargo de Messias, e “filho de Abraão”, um autêntico israelita.

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A genealogia, com seu complicado jogo numérico, demonstra que em Jesus
culmina a história de Israel e ele abre a etapa definitiva, a sétima série de
gerações. Mas não é um Messias encerrado no estreito marco de Israel;
também é luz para o mundo inteiro, como demonstra a visita dos Magos; se
se deve esperar alguma rejeição, será, por desgraça, a de seu povo.
(SICRE, 1999, p. 128).

Ele é o “Novo Moisés” muito superior a ele, como veremos no sermão da montanha
e o “novo Israel” que vence o adversário no deserto. Em comparação ao Jesus apresentado
por Marcos, a imagem que Mateus apresenta é um Jesus soberano, mais divino que
humano.

a) Imagem diferente por omissão ou por acréscimo


Ao utilizar a fonte do evangelho de Marcos, Mateus omite alguns detalhes que,
tomados em seu conjunto, formam outra imagem de Jesus, mais sublime e com menos
insistência na humanidade. Omite a expressão dos sentimentos de Jesus, tão abundantes
em Marcos: na cura do leproso (Mc 1,41), Mateus omite o “movido de compaixão” (Mt 8,2-
3); não faz referência à ira (indignação) de Jesus (Mc 3,4 // Mt 12,12), nem à admiração de
Jesus diante da incredulidade dos conterrâneos (Mc 6,6a), ao carinho com o jovem rico (Mc
10,21 // Mt 19,21), à irritação com os discípulos que afastam as crianças (Mc 10,14) e sua
relação afetuosa e humana com elas.
Mateus omite também detalhes que poderiam ser interpretados como ignorância de
Jesus (Mc 5,21-43 // Mt 9, 18-26) ou que dessem a ideia de que Jesus exercia artes
mágicas. Por isso, revisa o texto da cura do surdo-mudo (Mc 7,32-37 // Mt 9,32-34) e omite
a passagem do cego de Betânia (Mc 8,22-26). Uma imagem de Jesus que toca a orelha dos
surdos e, com saliva, a língua do mudo, e que cospe nos olhos do cego para curá-lo, não
cabe na imagem que a comunidade de Mateus faz de Jesus.
Mateus omite, igualmente, detalhes que pudessem dar a impressão de impotência
de Jesus, como poderia parecer a cena da visita de Jesus a sua comunidade de Nazaré.
Marcos diz que “Jesus não podia fazer ali nenhum milagre” por causa da incredulidade
deles. (Mc 6,5-6). Mateus dá outra informação: “E não fez ali muitos milagres, por causa da
incredulidade deles” (Mt 13,58).
De outra parte, Mateus acrescenta cenas ou frases que ressaltam a importância de
Jesus. Uma cena típica é o batismo de Jesus (Mc 1,9-11 // Mt 3,14). Em Mateus, João
Batista tenta dissuadir Jesus, mas ele dá as suas razões: ... nos convém cumprir toda
justiça. Fica claro que Jesus não é um pecador nem um homem como outro qualquer. Não
tem necessidade de se submeter a um batismo de penitência, e vem para cumprir a nova
justiça. Outra alteração que Mateus introduz é que a voz do céu não se dirige a Jesus como
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em Marcos (Tu és o meu filho amado...), mas aos presentes (Este é meu filho amado...).
Com isso Mateus sublinha que o batismo para Jesus não significa uma experiência nova de
Deus.
Mais intrigante e difícil de entender é o silêncio de Jesus diante da mulher cananeia
que pede a cura de sua filha (Mc 7,24-30 // Mt 15,21-28). Em Marcos Jesus responde logo
argumentando ser uma questão de prioridade, mas a mulher o vence pelo argumento. Em
Mateus Jesus silencia, obrigando os discípulos a intervirem para tentar resolver a situação
embaraçosa que se havia criado. A resposta de Jesus surpreende: eu não fui enviado senão
às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 15,24). Com isso Mateus estaria respondendo à
acusação dos fariseus da época que diziam que Jesus só se dedicou aos pagãos e que,
portanto, não é o Messias nem se deve dar atenção à sua doutrina (SICRE, 1999, p. 130).
Contudo, a atitude da mulher com sua argumentação, faz Jesus mudar de opinião, não
devido ao argumento, como afirma Marcos, mas por causa de sua fé.

b) Detalhes significativos sobre os títulos de Jesus


Os títulos empregados por Mateus são praticamente os mesmos que Marcos, mas as
formas e os personagens que os
pronunciam mudam. Em Marcos o
título mais usual é “mestre” e em
Mateus “Senhor”. Ressalta-se uma
atitude de respeito para com a
pessoa de Jesus. Embora o título
“Senhor” seja também usual na
relação do filho com o pai (Mt
21,30), era usado também para se
dirigir às autoridades (27,63), e
Fonte: http://migre.me/s3yYk
pelos servos da parábola dos
talentos (25,20.22.24)
Procuramos resumir em forma de tabela o estudo de Sicre (1999, p. 130-132) para
ressaltar a diferença:

Título Em Marcos Em Mateus


(na boca de) (na boca de)
Mestre Jesus (14,14), Jesus (Mt 26,18), escribas (8,19; 12,38; 22,36), fariseus
(didáskale) discípulos (4,38; (9,11; 22,16), saduceus (22,24), jovem rico (19,16),
13,1), João (9,38) coletor do imposto do templo (17,24)
Tiago e João (10,35)
Senhor (Kyrie) Mulher siro-fenícia Leproso (8,2), centurião (8,6.8), pai do menino

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(7,28) epiléptico (17,15) dois cegos (20,31.33). Pedro
(14,28.30; 16,22; 17,4; 18,21), discípulos (8,25; 26,22).
Rabi Pedro (9,5; 11,21) e Judas (25,25.49)
Judas (14,45)
Filho de Davi Bartimeu (10,47.48) Apresentação de Jesus (1,1), cegos (9,27), multidão
(12,23), cananeia (15,22), dois cegos (20,30.31),
multidão e crianças (21,9.15)
Santo de Deus Espírito imundo
(1,24)
Filho de/do Maria (6,3) Carpinteiro (13,55)
O Filho 13,32 11,27; 24,36; 28,19
Messias (Cristo), Frequente Menos frequente
Filho do
Homem, Filho
de Deus.

3.1.5 Nova imagem dos discípulos e de outras personagens

a) Imagem positiva dos discípulos


A imagem que Marcos apresenta e dos doze, particularmente Pedro, Tiago e João, é
muito dura. Eles têm dificuldade em entender a dinâmica do Reino inaugurada por Jesus e
recebem fortes críticas, principalmente quando querem interferir em pontos fundamentais
de seu anúncio. A tensão entre os discípulos e Jesus se dá desde o começo, quando Jesus
joga um balde de água fria no entusiasmo fácil de Pedro quando diz “todos te procuram”
(Mc 1,37) até a deserção total dos discípulos no Getsêmani, exceto algumas mulheres que o
seguiam e serviam desde a Galileia (Mc 15,40-41), passando pela negação sistemática do
seguimento da cruz. São duros de entendimento, resistentes ao novo aprendizado,
desconfiados e por vezes querem tomar a frente (Mc 8,32-33). Recebem duras repreensões.
Mateus apresenta uma imagem mais positiva dos discípulos. São mais
compreensíveis, tratam Jesus com respeito, confiam nele e não recebem repreensões.
Vejamos alguns exemplos:
Na parábola do semeador, os discípulos, quando estão sozinhos com o mestre,
interrogam a respeito da parábola e Jesus lhes pergunta com ironia: se não compreendeis
essa parábola, como podereis entender todas as parábolas? (Mc 4,10.13). Em Mateus, em
vez de confessarem sua ignorância, os discípulos perguntam inteligentemente: por que lhes
falas em parábolas (Mc 13,10), e Jesus não expressa o que sente. Simplesmente diz: ouvi,
portanto, a parábola do semeador.
Pela mesma razão Mateus omite algumas frases irônicas ou de duras repreensões no
evangelho de Marcos: Mc 4,40; 5,31; 6,37. Ou então, suaviza a dura crítica. Compare Mc
8,17-18 com Mt 16,8.

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Para sublinhar a relação respeitosa dos discípulos para com Jesus, Mateus altera ou
omite algumas situações, destacando a iniciativa de Jesus e a confiança no poder absoluto
de seu “Senhor”. Vejamos alguns exemplos:

Deixando a multidão, eles o levaram, do modo (Jesus) entrou no barco e os seus discípulos o
como estava, no barco (Mc 4,36) seguiram (Mt 8,23)
Mestre, não te importas que pereçamos? (4,38) Senhor, salva-nos, estamos perecendo (Mt 8,25)
...no seu íntimo estavam cheios de espanto, pois Os que estavam no barco prostram-se diante dele
não tinham entendido nada a respeito dos pães, dizendo: “verdadeiramente, tu és o Filho de
mas o seu coração estava endurecido (Mc 6,51b- Deus!” (Mt 14,33)
52)

b) Imagem positiva da família de Jesus


Mateus apresenta também outra imagem da família de Jesus. Suprime a informação
de que a família achou que Jesus tinha enlouquecido (Mc 3,21). Apenas diz que a mãe e os
irmãos estavam fora procurando falar com ele. Suprime os tons polêmicos e se fixa apenas
no ensinamento sobre a verdadeira família de Jesus (Mt 12,46-47).

c) Polêmica com as autoridades religiosas judaicas


Em Marcos, a polêmica com as autoridades está presente de maneira velada na
primeira parte do evangelho, quando Jesus manda o leproso curado se apresentar ao
sacerdote (Mc 1,4) e pelos fariseus que se aliam aos herodianos para montar uma
estratégia de matar Jesus (Mc 3,6) e não o deixam em paz (Mc 8,11); e de confronto e
enfrentamento direto nas atividades de Jesus em Jerusalém, na segunda parte, em que
vence os chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos, fariseus, saduceus e escribas (Mc 11 e
12). Termina com um escriba simpático a Jesus que o elogia e é elogiado. Mateus não
consegue imaginar um escriba de boa fé. Do começo ao fim, o tom é polêmico e cerrado:
 Inteirados do seu nascimento pelos magos, os sacerdotes e doutores sabem que ele
nascerá em Belém, mas não movem uma palha para lhe render homenagem (Mt
2,5);
 João Batista os denuncia como raça de víboras (Mt 3,7-10);
 Jesus denuncia os fariseus como cegos conduzindo cegos (Mt 15,12-14);
 A breve invectiva de Jesus em Marcos contra os escribas (Mc 12,38-40) se converte
em trinta e seis versículos que começam assim: Os escribas e fariseus estão
sentados na cátedra de Moisés e continua com sete ais terríveis (Mt 23,1-36).
 Os fariseus não deixam Jesus em paz nem depois do enterro. Vão pedir a Pilatos que
vigie o túmulo de Jesus (Mt 27,62-66) e subornam os soldados para que dissessem
que os discípulos tinham roubado o cadáver de Jesus (Mt 28,11-15).

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3.2 A nova justiça do Reino no sermão da montanha

Para a finalidade de nosso estudo, seria exaustivo propor uma análise sistemática de
todo evangelho de Mateus. Vamos nos ater a alguns textos da fonte própria de Mateus,
dando um destaque à apresentação de Jesus como mestre da justiça.
Daremos destaque ao primeiro dos cinco discursos de Mateus, o sermão da
montanha, e à parábola dos trabalhadores da vinha no contexto da narrativa do quinto livro
do evangelho de Mateus.
O anúncio da chegada do reino dos céus é o cerne da pregação de João Batista
(3,2), de Jesus (4,17), dos doze quando enviados em missão para as ovelhas perdidas da
casa de Israel (10,7). Jesus o fará desde a Galileia (4,12) que é reconhecida como terra
estrangeira, de refugiados e marginais, o que dá ao anúncio um caráter universal.
Cafarnaum é terra da promessa (Dt 34,1-4) e luz para os não judeus (Is 42,6; 49, 1-7).
O modo como Jesus o faz Mateus resume neste versículo: Jesus percorria toda a
Galiléia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda
e qualquer doença ou enfermidade do povo (4,23; 9,35). Esta prática o evangelista
desenvolve a seguir: O ensinamento como atividade educativa no alto da montanha (5-7),
a pregação no envio dos doze (10) e a atividade curativa em dez sinais (8-9).
A primeira palavra que sai da boca de Jesus, conforme a apresentação de Mateus, é
o esclarecimento do significado de Jesus receber o batismo de João Batista, sendo que Ele
não é pecador: Deixa estar por agora, pois nos convém cumprir toda justiça (3,15).
Este será o tema central do ensinamento da montanha. Ele vem cumprir toda justiça (5,17-
20), numa nova perspectiva de fidelidade à lei e à aliança. O que acontece em Jesus é
vontade de Deus.
O discurso da montanha tem lugar quando os primeiros discípulos e as multidões se
reúnem ao redor dele. Segundo Sicre,

[...] é um discurso programático, que delimita a postura cristã diante de


outras opções religiosas da época. Antes de instruir seus discípulos para a
missão, antes de revelar-lhes o mistério desconcertante do Reino ou de
instruí-los sobre os possíveis problemas e tensões comunitárias, Jesus
expõe a forma de vida que espera e exige de seus seguidores (SICRE,
1999, p. 141).

O discurso é marcado claramente por um começo que descreve o público e o


ambiente recheado de simbolismos (5,1-2) e um fim (7,28-29) que descreve a reação do
público, colocando em destaque o diferencial em relação ao ensinamento dos escribas.
O discurso começa com a proclamação das bem-aventuranças que descrevem as
atitudes diante da justiça do reino que liberta todos os que estão oprimidos e esmagados,
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apesar dos riscos que assumem (5,3-16) e termina com um epílogo que descreve os
requisitos para manter uma atitude cristã coerente com o novo ensinamento no horizonte
escatológico (7,13-27). No corpo central do texto uma advertência preliminar sobre o
cumprimento da lei compreendida normalmente como vontade de Deus (5,17-20); a atitude
diante da Lei em contraposição aos escribas (5,21-48), a atitude diante das obras da
piedade, também chamadas de práticas de justiça, promovidas pelos fariseus (6,1-18), a
atitude diante do dinheiro e da providência (6,19-34) e a atitude diante do próximo (7,1-
12).
O conteúdo de seu ensinamento é o Reino, semente da justiça que liberta,
fundamento da prática de Jesus, e, consequentemente, da prática dos seguidores e das
seguidoras.

3.2.1 As bem-aventuranças: Jesus apresenta seu programa de vida (5,1-16)

a) Ambientação (5,1-2)
Vendo as multidões... descritas nos
dois versículos anteriores como pessoas
acometidas por doenças diversas e
atormentadas por enfermidades, bem
como endemoninhados, lunáticos e
paralíticos... vindas da Galileia, da
Decápole, de Jerusalém, da Judeia da
região além do Jordão (4,24-25). Não era
gente importante e poderosa, não se diz
nada de seu interesse pela libertação de
Roma, mas que estavam à procura da cura
Fonte: http://migre.me/s3zd1
de suas enfermidades. Mateus diz que Ele
os curava. Mas Jesus quer oferecer algo mais: a possibilidade de formar o novo povo de
Deus. Por isso vai proclamar seu programa do Reino de Deus (cf. SICRE, 1999, p.143).
...subiu à montanha, o que contrasta com o monte mais alto (4,8-10) onde Jesus
venceu o adversário e demonstrou que é possível ser fiel ao único Deus. A montanha é uma
referência ao Sinai, onde Moisés subiu nove vezes, e ao Sião, onde as nações, na nova era
messiânica chegam para aprender os caminhos.
Jesus sobe o monte como Moisés subiu ao monte Sinai para receber as tábuas da
aliança. Mas, há uma grande diferença:

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 Moisés subiu sozinho e o povo não podia nem tocar a montanha (Ex 19,12-21).
Jesus sobe com as multidões e elas se aproximam dele;
 Antes de Moisés receber as leis, há uma teofania com trovões, relâmpagos, nuvens
espessas, o Sinai fumegando e YHWH desceu sobre ele no fogo e o povo pôs-se a
tremer. Jesus se senta como mestre que ensina e os discípulos se aproximam dele.
 Moisés recebe as tábuas da lei. Jesus como Filho de Deus se pôs a falar e ensinava a
torá messiânica que cria a nova aliança (cf. Mt 26,28).
O contraste entre as duas cenas é particularmente significativo se tivermos em conta
que Mateus escreve para pessoas de tradição judaica. O contexto da relação com o divino
não é de medo, fogo e relâmpagos, mas de familiaridade. Os discípulos sobem com ele e se
aproximam sem serem necessariamente convidados e Jesus não precisa esperar que Deus
lhe fale. Ele mesmo toma a palavra e ensina e sua autoridade suprema é conferida pelas
multidões no final do discurso (7,28-29).

b) As bem-aventuranças (5,3-12)
O gênero literário de bem-aventuranças é conhecido no primeiro testamento. Por
exemplo: Há nove coisas que considero felizes em meu coração e uma décima que declaro
com a língua... (Eclo 25,7-11).
Jesus declara felizes os pobres, caracterizados de oito maneiras: neles o Reino de
Deus se faz presente como dom de Deus em meio de nós e apesar de nós. Três grupos
provêm da fonte Q: os pobres, os que têm fome e os que choram. Estão na segunda pessoa
do plural, como aparecem em Lucas 6,20-23. E cinco categorias novas, na terceira pessoa
do plural, de caráter mais universal: os pobres de todas as épocas.
A palavra grega é makárioi, geralmente traduzido por felizes, bem-aventurados,
ditosos ou, literalmente, benditos. André Chouraqui traduz com a expressão em marcha, em
pé, que caminha. Como quem diz: levante-se! Ergue a cabeça! “Sacode a poeira e dá volta
por cima”. Segundo W. Carter,19 em seu grande comentário bíblico, “bem-aventurado
exprime o favor e a bênção de Deus não sobre a pobreza, mas sobre ‘as pessoas que’ são
pobres”. Ele distingue dois grupos de quatro bem-aventurados: 5,3-6, com 36 palavras e
5,7-10, também com 36 palavras. Ambos concluem com uma referência à justiça: 5,6 e
5,10. Os versículos 3 a 6 descrevem situações opressoras de aflição ou infortúnio, que são
honradas, porque o Reino de Deus as revoga. Criticam a tribulação política, econômica,
social, religiosa e pessoal, consequência do império romano aliado à elite judaica. Os

19
Carter (2002, p. 178) faz um estudo aprofundado buscando o sentido de cada bem-aventurança a
partir de referências do primeiro testamento. Seguimos de perto o comentário deste autor nesta
parte.
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versículos 7 a 10, por sua vez, expressam ações humanas, inspiradas pela experiência do
Reino de Deus (5,3-6) que são honradas, porque expressam o reinado transformante de
Deus.
No centro das menções à felicidade está a misericórdia (5,7). Com certeza, os
ouvintes familiarizados com os Escritos, devem ter recordado o Salmo 1 que descreve os
dois caminhos: o caminho dos justos e o caminho dos ímpios. É necessário optar. Jesus
acentua a gratuidade do Reino (3 vezes) e abre a felicidade do Reino a todos. Pela vinda do
Reino se acabarão as injustiças que marginalizam.
Felizes os pobres em espírito porque deles é o Reino dos Céus (5,3). Esta bem-
aventurança é a que mais discussões exegéticas têm gerado devido à expressão pobres em
espírito.
O problema não está na palavra espírito cujo termo para os judeus indica força e
atividade vital - presença de Deus na pessoa (CNBB, 1998, p. 47), mas em saber a quem o
termo pobre designa. Daí as várias traduções possíveis em nossas versões em português.
Tradicionalmente a expressão vinha sendo traduzida como pobres de espírito (primeiras
edições da Bíblia Ave Maria - AM), tradução abandonada porque em português significa
“mesquinho” ou “insignificante”. Não há convergência entre os tradutores: Pobres em
espírito (BJ), pobres no espírito (CNBB), pobres de coração, lit. pobres pelo espírito ou em
espírito (TEB), pobres com espírito (P. Richard), humildes de espírito (Almeida - revisada e
atualizada), espiritualmente pobres (NTLH), os que têm coração de pobre (M. Barros)...
A quem se refere Mateus ao usar a categoria pobre em espírito? Aos pobres reais, os
mesmos a quem se refere Lucas, ao simplesmente dizer felizes os pobres sem nenhum
adjetivo? Ou espiritualmente pobres como sugere a nova tradução na linguagem de hoje
(NTLH)? O que entenderiam os ouvintes de Jesus, gente pobre e simples que veio de toda
parte?
Sicre (1999) concordando com Juan Mateus que dá como chave de leitura a
interpretação de Jesus em 6,24, a opção entre Deus e o dinheiro, explica que

[...] no contexto nacionalista e revolucionário da Galileia, não era estranha


a exaltação dos pobres, típica do Antigo Testamento. O que chama a
atenção é que se acrescente ‘em espírito’. Quer dizer que o importante não
é somente a pobreza material, mas também a atitude interior. Jesus não
proclama feliz o pobre, sem motivo aparente, mas o pobre que não quer
ser como os ricos.

Já para Strack/Billerberck, aqui estaria sendo traduzida a expressão rabínica usual no


tempo de Jesus para designar o povo simples do campo, que não tivera acesso maior aos
círculos sinagogais e por isso eram tidos como ignorantes e rudes (RIBLA 27, p. 51).

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Para os autores do “Semeador do Reino”, os interlocutores de Mateus são os
empobrecidos de suas comunidades; Os pobres indigentes, pobres da terra, os fracos (Am
8,4-6); Os anawim (israelitas submissos à vontade divina); oprimidos que reclamam justiça
para os fracos, pequenos e indigentes (Sf 2,3); os que colocam sua esperança somente em
Deus (Sl 40,18). Os que não seguem outros deuses (Mt 6,24; Dt 5,7). “Eles são felizes não
por serem pobres, mas porque estão recebendo a missão de construir o Reino” (CNBB,
1998, p.48).
Para W. Carter (2002), Mateus ao se referir aos pobres em espírito, se refere

[...] aos pobres literais, físicos, os despossuídos carentes de recursos,


explorados e oprimidos, aqueles que vivem na dificuldade social e
econômica, carecendo de recursos adequados, explorados e oprimidos
pelos poderosos (Lv 19,10.13; Pr 14,31; 28,15) e desprezados pela elite.
Eles incluem o estrangeiro, o órfão, a viúva, o necessitado, os aleijados
fisicamente (cego, coxo) e os impotentes (cf. Dt 34,19; Jó 29,12-16); (...)
São aqueles economicamente pobres e cujos espíritos ou seres são
esmagados pela injustiça econômica. (...) Até Deus parece ter-se esquecido
deles (Sl 10,1-3; Sl 34,17.22-23; 68, 1-2; 82; Jó 24); (...)

Sicre (1999) segue na mesma direção, lembrando o público que o próprio Mateus
menciona imediatamente antes das bem-aventuranças:

[...] Quem são tais pessoas? São os nomeados em Mt 4,18-22, encerrados


em um sistema econômico explorador (tributação e dívida) com nenhum
controle sobre seus próprios destinos. São os enfermos, os possuídos por
demônios, os epilépticos e os lunáticos (4,24) cuja doença significa que eles
carregam nos seus próprios corpos os efeitos terríveis do sistema imperial
(...) (SICRE, 1999, p. 179-180).

Somente lhes resta uma esperança: que Deus intervenha como acontece na prática
de cura descrita em Mt 4,23 e nos capítulos 8 e 9, sinais de que o Reino está em marcha.
Portanto, tratam-se dos pobres reais, empobrecidos e injustiçados, que colocam em
Deus sua esperança e que são perseguidos por causa da justiça (5,10). Deles é o Reino dos
Céus (5,3b.10b).
Felizes os aflitos, porque serão consolados (5,4).20 Esta bem-aventurança e as que
seguem são como que um detalhamento da primeira. Dos muitos textos referenciais do
primeiro testamento para compreender o alcance do que Jesus está proclamando é o texto
de Is 61,1-3, citado por Lucas como programa de Jesus na proclamação do Reino (Lc 4, 18-
19). Os que deploram ou lamentam o impacto destrutivo dos impérios (Babilônia, Roma)
que oprimem o povo. Deus escuta o clamor dos que sofrem humilhação, cativeiro, prisão

20
Alguns manuscritos invertem a ordem do versículo 4 e 5.
61
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(Ex 3,7; Jr 14,2). Uma ação divina acabará com a opressão e transformará a tristeza em
alegria (Js 3,26-4,1; Is 60,20; 61, 1-3; 66,10; Is 16,9).
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra (5,5). Os mansos são os
pacifistas, os não violentos. Esta bem-aventurança é de particular importância tendo-se em
conta que a época de Jesus e das comunidades de Mateus era de muita violência. Os
pacifistas que se recusavam usar da mesma violência em suas lutas revolucionárias
poderiam ser mal vistas pelo povo. No entanto, Jesus os proclama felizes. A inspiração
parece vir do Salmo 37 que reflete o problema das pessoas honradas e justas espoliadas de
suas terras pelos poderosos. Em vez de responder na mesma moeda e se vingar com as
próprias mãos (37, 8-11) o salmo propõe defender o que é seu sem usar de violência.
Quem coloca a esperança em YHWH terá a terra por herança, estribilho que se repete por
sete vezes (37, 3.9.11.18.22.29.34), pois a terra pertence a Deus (Cf. Lv 25,23; Dt 4,1) e
significa liberdade e independência.
A bem-aventurança perpassa também a dimensão da não violência religiosa. Em
várias circunstâncias Jesus se sensibiliza pela situação de pessoas simples subjugadas e
oprimidas pelas autoridades religiosas que amarram fardos pesados e os põem sobre os
ombros dos homens, mas eles mesmos nem com um dedo se dispõem a movê-los (23,4).
Diante disso, Jesus mesmo se apresenta como manso e humilde de coração e convida a
virem a ele todos os que estão cansados sob o peso do fardo e lhes promete dar descanso
(cf. 11,28-30).
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados (5,6). Esta bem-
aventurança resume as anteriores. Também aqui o sentido não se esgota na injustiça social,
e sim na busca coerente de cumprir a vontade de Deus como o denuncia o profeta Isaías no
texto clássico que expressa o jejum que agrada a Deus (Is 58,1-10). Sicre (1999, p. 148),
afirma que o termo utilizado no Evangelho tem uma conotação diferente e poderia ser
traduzido: “bem-aventurados os que têm fome e sede de serem fiéis a Deus, de cumprirem
a vontade de Deus”. Ele fundamenta a afirmação citando a experiência do batismo em que
Jesus aceita a vontade misteriosa de Deus, embora tenha de aparecer publicamente como
um pecador a mais. O termo utilizado por Mateus para dizer “cumprir toda justiça”
(dikaiosyne - 3,15) é o mesmo empregado na bem-aventurança. E o faz porque tem fome e
sede de justiça.
Várias referências do primeiro testamento dão também este sentido, tanto os
salmos: vagueiam com fome e sede a busca do caminho (Sl 107,5-6; Sl 42, 1-2.9), como os
profetas: fome de ouvir a Palavra, de procurar a justiça e buscar o Senhor (Am 8, 11-12; Is
51,1-8).

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Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (5,7). Ser misericordioso é
de importância tradicional (Pr 14,21; Os 6,6; Tb 4,5-7). Parece fácil, mas não é, porque não
se trata de uma ajuda passageira, mas de colocar a vida a serviço dos outros. Os que
sentem na pele o problema do outro e prestam ajuda; fornecem os recursos econômicos
necessários (5,42; 6,2-4; 25,31-46); perdoam (6,12-15); estendem o amor aos inimigos
(5,38-48), aos marginais, estrangeiros e mulheres (15,22); solidarizam-se pelos laços da
justiça e misericórdia (Mt 25, 31-46). Misericórdia é o que quero, e não sacrifício (9,13;
12,7); por isso ela não deve ser negligenciada (23,23). Quem a vive terá sorte. Encontrá-la-
á.
Felizes os puros de coração, porque verão a Deus (5,8). A bem-aventurança se
inspira no salmo 24: pode ver Deus quem tem mãos inocentes e coração puro (Sl 24,4), que
transpiram integridade e retidão. O coração é o âmago, o lugar de tomar as decisões, de
querer decidir e atuar de acordo com a experiência da libertação de todas as escravidões
(Dt 6, 4-19). Portanto, o que caracteriza a vida dos puros de coração é a sua postura de
amor a Deus, que exclui toda forma de idolatria, e o amor ao próximo, que exclui toda
forma de injustiça.
A promessa é ver Deus: imagem de encontro íntimo face a face com Deus. É algo
prometido ao justo (Sl 11,7; 15,2; 17,15), embora isso pareça impossível ao ser humano
(Ex 3,6; 19,21).
Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus (5,9).
Fazedores de paz. Paz sem derramamento de sangue; promovem a paz e tranquilidade, o
direito e a justiça; paz cósmica de Deus em que todas as coisas estão em justa relação
entre si e com seu criador. Opõe-se à pax romana. Paz do reinado de Deus: defesa do
pobre e necessitado (Sl 72,4.7.12-14); O fruto da justiça será a paz (Is 32,17) que
compreende muitos aspectos, como o explica Sicre:

Não se trata somente de paz política entre as nações, ou de paz social,


dentro do próprio país. Inclui também a paz com Deus, a paz na família, as
boas relações de todo tipo. E, junto com isto, o conceito judeu de paz inclui
também a ideia do bem-estar individual e social (SICRE, 1999, p. 151).

A promessa é que serão chamados filhos de Deus: viver como Deus faz (5,48) e
como Jesus. Agir como Deus é ser um dos filhos de Deus agora (5,45; 6,9); formados não
por origem étnica (cf. Dt 14,1), mas pela imitação de Deus (cf. Mt 3,9).
Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos
Céus (5,10). A última bem-aventurança se liga à primeira. Ambas estão no presente. O
reinado de Deus já está no meio das comunidades dos pobres que lutam por justiça a partir

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da prática da misericórdia, e, bem por isso, mexe com os interesses dos poderosos, daí a
perseguição. O justo incomoda, mas Deus virá em seu auxílio (cf. Sl 54,5-6; Sb 2,10) .21
Mateus reforça a última bem-aventurança referindo-se diretamente à perseguição,
termo repetido duas vezes, por causa do seguimento de Jesus (5,11-12). Como na tradição
do justo perseguido (Sl 35,37; Sb 2,12-24), o império contra-ataca como Mateus já havia
relatado com a perseguição de Herodes (2,13-23). A felicidade prometida como recompensa
não se dará pelo merecimento, mas como resposta justa de Deus à fidelidade, pois foi
assim que perseguiram os profetas (Ne 8,26; 1Rs 18,4.13; 19,10.14).

c) Sal da terra e luz do mundo (5,13-16)


As comunidades corriam dois riscos: perder a força do sal e esconder a sua luz. O sal
é polivalente22: é um artigo de primeira necessidade (Eclo 39,26), tempera alimentos (Jó
6,6), purifica a água (2Rs 2,19-23), é relacionado ao sacrifício (Ez 43,24) e é partilhado
como sinal de lealdade (Esd 4,14) e aliança (Lv 2,13; Nm 18,19) ou como símbolo da
Sabedoria e da Lei. Na Palestina conduzia as ovelhas de volta ao rebanho.
A comunidade dos discípulos deve ser como sal da terra: vida temperadora,
purificadora e sacrificial, comprometida com o bem-estar do mundo e fiel aos propósitos de
Deus. Ela deve ser portadora da Sabedoria de Jesus (11,25). Ela perde sua identidade como
sal quando cessa de viver no mundo conforme o reinado de Deus descrito em 5,3-12.
A comunidade de Mateus não poderia concordar com Cícero que descrevia Roma
como uma “luz para o mundo todo”.23 Sua perspectiva é a missão do servo de YHWH,
Israel, luz e salvação para todos os povos (Is 42,6; 49,6). A Luz de Deus brilha e aponta
onde estão as injustiças. No evangelho de João, Jesus proclama eu sou a luz do mundo (Jo
8,12). Aqui Jesus dá essa missão aos seguidores e às seguidoras de iluminar a humanidade
com a luz do Reino, que não pode ficar escondida, o que é ilustrado por dois exemplos.
Quando os discípulos e as discípulas vivem as bem-aventuranças sua luz desmascara
as injustiças. As boas ações serão descritas em 5,21-48.

3.2.2 A justiça na tradição dos escribas e fariseus e a do Reino dos céus (5,17-
48)
A partir de 5,17, Mateus apresenta a postura de Jesus diante dos escribas e fariseus.
Sua proposta poderia parecer em desacordo com a tradição de Israel. Por isso o alerta
inicial: Não penseis que vim revogar a leis e os profetas... mas dar-lhes pleno cumprimento.

21
Cf. CNBB (1998, p. 49 e 50).
22
Cf. Carter (2002, p. 187).
23
Citado por Carter (2002, p. 188) (In Cat 4,11).
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À primeira vista, ao se referir a não omitir uma vírgula sequer, poderia parecer que está
defendendo o cumprimento legalista da lei, o que estaria em desacordo com o que segue.
Na realidade, Jesus não está defendendo a letra da lei, mas o seu espírito, como ensina
logo em seguida: a justiça dos seus seguidores e de suas seguidoras deve exceder a dos
escribas e a dos fariseus. Ele reconhece a lei escrita e a tradição oral, só que não de
maneira fundamentalista. A lei apenas aponta a Vontade de Deus. O essencial da lei é a
prática da justiça e da misericórdia (23,23). Jesus usa as Escrituras para exigir algo mais: a
reconciliação, a fidelidade conjugal, a veracidade, tolerância, o amor universal. O rigor de
5,17-18 é equilibrado com a ética do amor em 5,43-46.
O contexto é de comunidade perseguida e em diáspora, o que implica constante
desinstalação (5,25; 6,2-4; 6,25-33). A dinâmica de assumir a perspectiva do Reinado de
Deus vivida em comunidade cristã se contrapõe à prática da sinagoga e da academia de
Jâmnia, dirigida pelos escribas e fariseus.

Com as inúmeras observâncias e costumes, eles transformaram a lei em


observância mecânica e lucrativa para os bolsos das elites religiosas. O
Essencial da Lei é a prática da justiça e da misericórdia (23,23) é essa
prática que possibilita aos discípulos e discípulas de Jesus ultrapassarem a
justiça dos escribas e fariseus (5,20) (CNBB, 1998, p. 49).

Para deixar mais claro em que consiste esta justiça, dá seis exemplos de retidão e
vida que o Reino de Deus exige (5,17-48).24
Sobre ira e relacionamento (5,21-26): O quinto mandamento é claro: não matar.
Porém, não se trata apenas de respeitar a vida física, mas toda a sua pessoa e evitar todas
as formas que geram morte: fome, guerra e ódio. Segundo o livro do eclesiástico, quem
priva o pobre de pão é assassino (Eclo 34,25). Portanto, neste caso Jesus leva a lei às suas
consequências mais radicais.
Sobre adultério e libido masculina (5,27-30): Também aqui Jesus vai além do ato
físico do cumprimento da lei. Exige que os homens se esforcem para eliminar seu desejo de
posse.
Sobre o divórcio e os maus tratos masculinos às mulheres (5,31-32): Jesus
combate os privilégios dos homens e revoga a lei que dava a eles o direito de despedir a
mulher por qualquer motivo, cf. 19,3-9, como explica Carter:

[...] Deuteronômio 24 reconhece que um homem poderia repudiar sua


mulher se encontrasse nela “algo censurável”. Esta expressão foi
interpretada como referindo-se a vários comportamentos incluindo
impropriedade pré-matrimonial (Dt 22,13-21), adultério (Jr 3,8) ou
simplesmente desgosto (Dt 22,13). No primeiro século, a escola de

24
Cf. Carter (2002, p. 194-211).
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Schammai restringira a causa de adultério (m. Git. 9,10), mas a posição
mais dominante sustentada pela escola de Hillel a interpretava muito mais
amplamente para referir-se a qualquer coisa que desagradasse ao marido
(CARTER, 2002, p. 199).

Jesus denuncia assim o machismo presente nas relações humanas e aponta para a
reciprocidade nas relações entre homens e mulheres.
Sobre a integridade de palavra e ação (5,33-37). Jesus anula a lei em vigor. As
relações de comunidade baseadas na veracidade e na integridade dispensa o juramento.
Sobre a resistência não violenta ao mal (5,38-42). Jesus muda a lei da equivalência
entre delito e infração, conhecida como lei do talião, para romper o círculo da violência com
uma norma mais exigente, em conformidade com as bem-aventuranças que rompem a
cadeia da violência pela resistência não violenta ao malfeitor. As exemplificações de não
revidar ao agressor, de se dispor a andar duas milhas com quem impõe andar uma milha,
provavelmente para carregar o armamento de um soldado, surpreendem e questionam:
mas por que ele faz isso? Assim, vai se rompendo o círculo vicioso da violência.
Sobre o amor aos inimigos (5,43-48). Nenhum texto bíblico fala de ódio aos inimigos,
mas aparecem afirmações similares (cf. Dt 20,1-18; Sl 139,21-22; Eclo 12,4-7, e nos textos
de Qumrã 1 QS 1,10-11). Jesus muda a lei e estabelece uma norma mais existente.
Inimigos devem se tratados como o próximo na perspectiva proposta pelo livro do
Levítico (cf. Lv 19,18; Ex 23,4-5) o que não é fácil, pois inclui os que estavam perseguindo
os seguidores e as seguidoras de Jesus. Isso não significa, porém, se acomodar
“gentilmente” aos conflitos, mas desafiar as injustiças e a opressão pela não violência
afetiva, criativa e ativa.

O objetivo de tal amor indiscriminado e ativo é pra que possam ser filhos
de vosso Pai que está nos céus . Isto tem dimensões presentes e futuras
(escatológicas). Agindo agora como promotores de paz (cf. 5,9), orando
pelos próprios inimigos, fazendo o bem etc., marca a comunidade como
filhos de Deus, em relação de aliança com Deus como Pai (ver 5,16; 23,9),
constituída não pela etnicidade (cf. Dt 14,1), mas por seguir a Jesus na sua
imitação de Deus (cf. Mt 3,9) e participando na consumação dos propósitos
de Deus (CARTER, 2002, p. 209).

Segundo Paulo Lockmann,

Trata-se da ética do amor (Mt 5,43-46), a qual é a síntese da nova lei do


Evangelho. Está presente em todo o texto do Sermão do Monte, resgatando
com justiça o direito dos pobres, das mulheres, enfim, dos marginalizados
(LOCKMANN, 1997, p.50).

O fundamento deste amor indiscriminado está no Criador (Gn 1 e 2) que faz nascer
o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos.

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O versículo final (5,48) recapitula os seis exemplos anteriores. A justiça maior (5,20)
necessária para entrar no Reino dos céus se alcança imitando a Deus em sua plenitude.
Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito, o que implica em coração indiviso,
íntegro, que conhece e lealmente faz a vontade de Deus (Dt 18,13). Lucas, em outro
contexto, irá destacar a misericórdia de Deus: sede misericordiosos...

3.2.3 Um novo modo de ser e de se relacionar com o Pai (6,1-18)

O tema abordado na parte anterior, sobre a prática da justiça diante da Lei, continua
agora na explicação da prática diante da justiça do Reino diferenciando a prática divulgada
pelos fariseus em dar esmola, orar e fazer jejum em relação ao modo como os seguidores e
as seguidoras de Jesus devem praticá-la. O termo “justiça”, que tem vários significados na
tradição bíblica, aqui é aplicado como “piedade verdadeira”.
Já havia ficado claro que o espírito com que se deve vivenciar a lei é buscar imitar o
Pai sendo, perfeito, íntegro como Ele (5,48). Mas como fazê-lo? Como conhecer a vontade
do Pai e ser íntegro como Ele? A discussão não está em praticar ou deixar de praticar as
obras da justiça, mas em como praticá-las: não para serem vistos diante dos outros, o que
seria mero marketing de promover-se a si mesmo, como adverte o versículo primeiro,
demarcando, assim, a fronteira com as sinagogas. Seria transformar o culto em teatro ou
espetáculo para impressionar os outros. A esmola, a oração e o jejum devem ser praticados
em segredo, na intimidade com o Pai, a serviço da vida, com integridade e plenitude. Os
discípulos devem pescar pessoas, não impressioná-las (4,19) e serem testemunhos não de
si mesmos, mas da luz de Deus (4,16). São duas posturas bem distintas: a dos hipócritas e
a dos e das seguidoras de Jesus.
Dez vezes Jesus cita a palavra PAI nestes dezoito versículos (6,1-18) o que
demonstra que ele define sua prática da justiça em função do plano de salvação dele. No
coração do texto, a oração do “Pai Nosso” que, mais do que uma oração, é um programa de
vida que perpassa e revoluciona todas as dimensões e relações da vida: a solidariedade
para com os mais pobres, a partilha do pão cotidiano, o perdão das dívidas e a gratuidade.
Primeiro ato de justiça: dar esmola (6,1-4). Deus é Pai que não aceita subornos. Ele
conhece nossos pensamentos (Sl 139, 2-3); quer justiça e misericórdia (Mq 6,8; Pr 21,27;
22,22-23; Eclo 34,18ss).
Segundo ato de justiça: oração (6,5-15). A comunicação com o Pai acontece no mais
profundo do ser humano.

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Para indicar esse espaço de intimidade, Mateus usa imagens como:
quarto, fechar/chave, porta para enfatizar a reação do Pai à nossa
oração. O Pai que está “escondido” (v.6), invisível, fora de nosso controle,
recompensará ampliando seu reinado em nossa vida (CNBB, 1998, p. 54).

O “Pai Nosso” é modelo de oração, resumo do ensinamento sobre o Reino, programa


de vida para as cristãs e os cristãos. Visa colocar-nos na sua relação de intimidade com o
Pai.
Os três primeiros pedidos referem-se à restauração do relacionamento com o Pai:
louvor a Deus e seu Reino, a primeira coisa a ser buscada na oração; Dimensão gratuita e
contemplativa da fé. O contexto é o do Êxodo (Ex 4,22) e da Aliança (Dt 32,6; Os 11,1-2; Jr
31,9; Eclo 23,1-4; Sb 14,3)
Quatro pedidos relacionados ao cotidiano que apontam nova base social para que
todos os filhos e filhas de Deus vivam com igual dignidade: O pão de cada dia lembra o
maná (Ex 16,4) como exigência de partilha; o perdão das dívidas que lembra a Lei do ano
sabático (Dt 15,1-2) e do ano jubilar (Lv 25,1-22); não repetir o comportamento do povo no
deserto (Ex 32,1-6; Dt 9,7-29), e imitar Jesus que venceu a tentação (4,1-17); livramento
do maligno e de seu poder que procura desviar do Reino de Deus.
Tanto o “Pai nosso” quanto o “pão nosso” referem-se à gratuidade do Reino: Deus
vem ao nosso encontro e, ao mesmo tempo, quer ser procurado (Is 55,6-9; Jr 29,12-14; Sl
34,4).
No centro dos sete pedidos está o pão partilhado, a convivência fraterna. Voltaremos
à oração no capítulo quinto, ao comparar a versão de Mateus com a de Lucas.
Terceiro ato de justiça: Jejum (6,16-18). Igualmente deve ser praticado em segredo,
na intimidade com o Pai. Jejum temporário faz bem para a saúde, porque proporciona
descanso aos órgãos digestivos. A partilha dos alimentos é um gesto de solidariedade com
quem passa fome, para que todas as pessoas tenham vida.

3.2.4 O Reino e sua Justiça (6,19-34)

A vida é feita de opções, sejam pequenas decisões cotidianas, sejam opções


fundamentais. As pequenas opções são consequência da opção fundamental. Daí a
importância de se perguntar: Com que meu coração realmente se ocupa? Em acumular
tesouros na terra ou juntar tesouros nos céus. O que estou acumulando e para quê? Que
consequências trazem: preocupações porque podem estragar, enferrujar ou serem
roubados, ou paz e confiança? Pois onde está o teu tesouro aí estará também teu coração.
Na explicação de Ildo Bohn Gass,

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Jesus vai ao ponto central da nossa condição humana: deixar-se levar pela
cobiça e servir à riqueza, ou deixar-se conduzir pelo dinamismo do amor e
servir a Deus? São dois modelos econômicos, duas formas de organizar a
sociedade. Uma tem como base o poder da riqueza, que gera angústia,
fome, preocupações e injustiças. A outra prioriza uma estrutura social que
privilegia a justiça do reinado de Deus, gera dignidade, alegria e vida
cidadã (BOHN GASS, 2013, p. 196).

a) O compromisso de coração
O coração é o centro das decisões, iluminado pelos olhos. Olho sadio, para os
judeus, significa um olhar generoso, liberto do desejo ardente de acumular sem repartir;
olho doente significa mesquinhez.25 Tobias já havia alertado para isso ao argumentar a
favor de esmola como prática de partilha do que se tem (Tb 4,8-9). O profeta Ezequiel
havia falado do coração novo, de carne (Ez 36,26), liberto da cobiça.

b) Servir a Deus ou ao dinheiro


Portanto, é preciso escolher entre Deus e o dinheiro. Jesus pede para não acumular
bens, pois o acúmulo de uns é causa de empobrecimento de muitos, como já havia
denunciado o profeta Miqueias (Mq 2,1-5). Escolher entre acumular bens, que causam uma
série de preocupações para não perdê-los, quer seja por desastre natural ou por roubo, e
entre tesouros nos céus, investimento que ninguém pode tirar.
Não há meio termo: não dá para servir a dois senhores. É preciso escolher: servir a
Deus ou ao dinheiro, idolatrado como bem absoluto, acima de Deus e do próximo,
justificando até mesmo roubo, assassinato e indiferença em relação às necessidades dos
outros. Remeto-me mais uma vez à explicação de Bohn Gass:

Nosso texto usa a palavra mamona, aqui traduzida por dinheiro, como
símbolo máximo da riqueza. Mamona é todo o poder econômico que produz
morte. É a riqueza acumulada, endeusada. É o olho que cobiça, que deseja
bens pra guardar em celeiros. Do aramaico, Mamona é uma referência a
toda riqueza idolatrada, tornada fetiche. O Dicionário de Houaiss, fetiche é
qualquer objeto a que se atribui poder sobrenatural ou mágico e se presta
culto. É claramente o caso do dinheiro. (...) Torna-se um ídolo que
adoramos como nosso Deus. Temos a ilusão de que possuímos riquezas,
quando na verdade são elas que nos possuem e nos governam. Não foi por
acaso que as comunidades pós-paulinas escreveram: Porque a raiz de todos
os males é o amor ao dinheiro (1Tm 6,10). A cobiça é a mãe de todos os
males. A cobiça é idolatria (cf. Cl 3,5). (BOHN GASS, 2013, p. 199).

c) Aprender da vida e buscar o Reino e sua justiça.


A preocupação e ansiedade pelo dinheiro como prioridade reflete total falta de fé na
providência de Deus, tema que Mateus desenvolve a seguir. O texto é uma verdadeira obra
de arte a favor da confiança na provisão da criação (Gn 1; Sl 24,1) e na bênção da aliança

25
Cf. Sicre (1999, p. 156); Bohn Gass (2013, p. 198).
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(Dt 28,4-14). É a concretização da primeira bem-aventurança: ser pobre em espírito (5,3)
livre para aderir ao projeto de Deus, desapegado/a, que tem gosto em partilhar e liberto/a
das preocupações consumistas.
Seis vezes aparece a palavra preocupação, em forma de substantivo ou verbo, no
presente e no futuro. Contrário a esta ansiedade pelo acúmulo de riqueza estão dois
imperativos: aprendei da natureza, das aves do céu, dos lírios do campo, e buscai, em
primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça. As preocupações, a ansiedade em acumular
para o dia de amanhã, são superadas pela confiança na providência divina. É essa a
essência do Pai Nosso / pão nosso de cada dia. O dia de amanhã, o futuro, se preocupará
consigo mesmo.
Esta é a atitude fundamental: confiar na providência divina e ao mesmo tempo
buscar o Reino e sua justiça. Além da luta diária de satisfazer as necessidades básicas, há
uma luta maior: de uma parte, romper com as estruturas injustas que geram concentração
de renda e desigualdade social; romper com a ganância que leva à exploração dos bens
naturais até a exaustão, ameaçando a sobrevivência das gerações futuras, pois estes são
bens para todos os seres vivos; e de outra parte, construir estruturas econômicas, sociais e
políticas baseadas nos princípios de bem-viver, de felicidade humana, de convivência
fraterna, de comunhão com a natureza e o cosmos. Estamos todas, todos na mesma
embarcação, o planeta terra. Há vários furos abertos no barco principalmente pelos países
desenvolvidos, e muitos outros sendo abertos pelos que se acham com o direito de também
se desenvolver e abrir novos buracos na única embarcação. Não há meio termo: ou
mudamos o nosso jeito de viver e concertamos os furos, ou perecemos todos no fundo do
mar.

3.2.5 Fazei aos outros tudo o quereis que eles vos façam (7,1-12)

A atenção se volta agora para a prática de justiça nas relações sociais entre os
membros da comunidade: o papel da correção fraterna sem prejuízo do outro (7,1-6), a
busca de Deus na vida e na oração (7,7-11) e a regra de ouro de fazer ao outro o que
desejaria que ele lhe fizesse (7,12).

a) Não julgueis (7,1-5)


Em geral somos muito duros ao fazer juízo dos outros. Pior ainda quando o fazemos
a partir da nossa medida, causa do fundamentalismo religioso. Daí o imperativo não julgues
para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais sereis julgados... O verbo
utilizado aqui quatro vezes em sentido proibitivo refere-se ao julgamento escatológico (cf.
70
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19,28). Não compete agora aos discípulos usurpar o papel de Deus, como se fosse seu
representante, e condenar alguém ao inferno. Do jeito como nós medimos o outro, ou do
jeito que nós o perdoamos ou não, seremos perdoados ou não (6,14). A falta de amor
impede a objetividade dos fatos. O contraste – cisco e trave – enfatiza a incapacidade de
ver as próprias faltas e a habilidade de ver as faltas dos outros, por menores que sejam.
Denota arrogância e hipocrisia, típica dos escribas e fariseus que classificam as pessoas em
boas ou más a partir da prática da Lei (6,2.5.16), perigo do qual os membros da
comunidade cristã não estão livres.
Mas isto não quer dizer que podemos ficar indiferentes diante da conduta errônea
dos outros. Cabe a correção, só que a partir de outra base de relacionamento: amar o
próximo como a si mesmo (cf. Lv 19,17-18). Tendo tirado a trave do próprio olho, verás
bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. O tema da correção fraterna entre os irmãos e
irmãs da comunidade será retomado no capítulo 18, 15-18, começando com um diálogo a
sós.

b) Discernir a realidade (7,6)


No entanto, não dá para ser ingênuo. O contexto é de conflito e perseguição. Por
isso, é preciso discernir bem a quem entregar o que é santo, as pérolas, tesouros preciosos.
Cães e porcos, na tradição judaica, são animais impuros. Representam “os impuros de
coração”, capazes de praticar injustiças com os irmãos quando seus interesses estão em
jogo. Perigo que a comunidade pode e deve evitar.

c) A busca de Deus na vida e na oração (7,7-12)


Os três imperativos – pedi... buscai... batei... – indicam tenacidade na oração e, ao
mesmo tempo, disposição fiel, progressiva e um modo de vida centralizada em Deus.
Embora não seja uma linguagem exclusiva para oração26, a atitude de pedir abre a
consciência da necessidade e dos limites e nos dispõe a acolher o dom de Deus. O que
sustenta a vida da comunidade – pão e peixe - o Pai concederá a quem o pedir. Porém,
estas palavras, interpretadas ao pé da letra, podem ser mal interpretadas ou gerar crises de
fé por não ser atendido em seu pedido, por mais justo que seja. Talvez por isso Lucas altere
o final: ... o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem! (Lc 11,13). A única vez
que os evangelhos registram um pedido de Jesus a seu favor é no horto das Oliveiras: Meu
Pai, se é possível, que passe de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas

26
A linguagem é usada, por exemplo, na exortação da busca para obter filosofia. (Cf. citação de
CARTER, 2002, p. 244).
71
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como tu queres (26,39). Há duas condições: se é possível, e como tu queres. Jesus não é
liberto da morte, mas recebe força para enfrentá-la.

d) A regra de Ouro (7,12)


A regra de Ouro (7,12) não é exclusiva de Jesus. Aparece tanto de maneira positiva
quanto negativa na cultura grega, no confucionismo e em mestres judaicos.27 Jesus o aplica
ao seu ensinamento.Tudo aquilo, portanto, que quereis que os outros vos façam, fazei-o
vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas. A regra não está referida a qualquer circunstância
ou interesse egocêntrico, mas circunstanciada ao ensinamento de Jesus que a precede,
desde 5,17 que afirma que Jesus veio completar a Lei e os Profetas, e propor uma justiça
maior (5,20), dando um espírito novo a uma prática antiga. Desta forma, a regra pode ser
compreendida como um princípio ético que dá uma direção de como discernir todas as
circunstâncias da vida. No fundo, é o que todo pai deseja: ver que seus filhos se amam.

3.2.6 A prática de justiça no horizonte escatológico (7,13-29)

Como manter esse novo espírito de vida? Em forma de conclusão, Mateus relaciona
o modo de vida esboçado no discurso com o horizonte escatológico: as duas portas, dois
caminhos (7,13-15), o discernimento dos falsos profetas (7,15-23), ouvir e fazer a vontade
de Deus (7,24-27).

a) Escolher a porta estreita e o caminho da vida (7,13-14)


O tema não é novo. É referencial no primeiro testamento: Dt 11,26; 30,19; Sl 1. A
porta estreita opõe-se a grupos pagãos que buscam a felicidade a qualquer preço. No
evangelho de João, Jesus diz: eu sou o caminho (Jo 14,6); eu sou a porta (Jo 10,7).
Escolher o caminho de Jesus, a porta estreita é fazer uma opção difícil, dura porque não
segue a rotina da grande massa. Não é fácil romper com a estrutura consumista que nos é
imposta hoje, mas as mudanças climáticas provocadas pela ação depredatória dos seres
humanos indicam, através da reação da natureza, a urgência de escolher a porta e o
caminho de Jesus.

b) Discernir os falsos profetas (7,15-23)


O cuidado com os falsos profetas infiltrados na comunidade será retomado no
discurso escatológico para que os eleitos não se deixem enganar com sinais e prodígios

27
Ibidem p. 246.
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(24,4.5.24). Pelos seus frutos os conhecereis. O critério é observar o que fazem, pois elas
revelam o que está em seu interior. Os que aceitam a proposta do Reino só na aparência
dão frutos ruins. Serão cortados, como já havia profetizado João (3,10).
Não basta falar Senhor, Senhor, é preciso colocar em prática a vontade de meu Pai
que está nos céus. É a primeira vez que Jesus se refere a meu Pai. Das outras vezes Jesus
se referia a vosso Pai.28 Duas vezes até aqui Deus tem se referido a Jesus como Filho (2,15;
3,17). Portanto, Jesus fala como representante e agente do julgamento de Deus. Não
reconhecerá os que atuam em seu nome profetizando, operando curas ou exorcismos, mas
em vez de promover a justiça do Reino, praticam iniquidade. No Sl 6,9 o termo é usado
para designar aqueles que oprimem o justo. A palavra iniquidade vem do grego anomia,
significa não lei. Uma acusação forte.

c) Ouvir e fazer a vontade de Deus (7,24-27)


Duas pequenas parábolas comparativas descrevem a situação da pessoa
sensata/insensata que constrói sua casa sobre a rocha/a areia. O tema será retomado na
palavra das dez virgens no discurso escatológico (25,1-13). Aqui o recado é claro: A
comunidade deve ser construída sobre alicerces sólidos, o que se dá quando as palavras de
Jesus ouvidas são colocadas em prática. Então os membros da comunidade se tornam rocha
para fortalecer os seus irmãos e irmãs na fé, como Pedro (Mt 16,18) ou as comunidades
locais (Mt 18,18) chamadas a se unir a Jesus e se tornarem pedras vivas pela escuta e pela
prática da Palavra (1 Pd 2,4-10; Ef 2,19-22).

d) Conclusão (7,28-29)
Os ouvintes admiram a autoridade de Jesus e constatam que seus ensinamentos
trazem justiça e vida. A autoridade será uma característica do ministério de Jesus expressa
em suas palavras e ações (caps. 8 e 9; 28,18) que é debatida e disputada por seus
adversários, os líderes religiosos (21,23-24.27), e é delegada aos discípulos (10,1).29

3.3 Os trabalhadores da vinha e a justiça do Reino (20,1-16)

3.3.1 Contextualização
O texto se situa na grande viagem da Galileia para Jerusalém dedicado ao
ensinamento dos discípulos e das discípulas. Mateus assinala a passagem com a expressão -

28
Mt 5,16.45;48; 6,1.4.6.8.9.14.15.18.26.32; 7,11; 10,32-33; 11,27; 12,50; 16,17; 23,9 (citado por
CARTER, 2002, p. 253)
29
Cfr. CARTER, 2002, pp. 258-259.
73
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A partir desse momento / dessa época... - que assinala tanto o ministério na Galileia (4,17),
como o momento crucial em que Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era
necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito..., e que fosse morto e ressurgisse ao
terceiro dia (16,21).
Os capítulos 19 e 20 narram os acontecimentos e os ensinamentos dessa viagem
demarcados claramente com um ponto de partida (19,1-2) e um ponto de chegada (21,1).
A coerência destes dois capítulos reside nas compreensões culturais predominantes
de famílias. As discussões sobre as tradições domésticas estavam presentes na tradição
aristotélica, no estoicismo, entre neopitagóricos, e no judaísmo helenístico. Consideram a
família ideal como unidade básica de um estado, reino ou cidade, e um microcosmo da
sociedade imperial, como explica Warren Carter:

Eles entendiam que a família constituía-se de quatro dimensões, isto é, três


relações (marido-esposa; pai-filhos; senhor-escravo) e a tarefa do homem
de ganhar riqueza. A dinâmica do poder controlava as relações nas quais o
marido/pai/senhor dominava a mulher/filhos/escravos. A família era
hierárquica e patriarcal, de modo que o homem mantinha sob controle
mulheres e crianças. Era marcada pela diferenciação rígida de gênero. A
mulher devia ocupar-se das tarefas domésticas, enquanto o homem
representava o grupo familiar na sociedade (CARTER, 2002, p. 473).

Os capítulos 19-20 refletem este padrão doméstico, como se pode verificar no


esquema abaixo, mas subvertem essa estrutura hierárquica patriarcal instruindo os
discípulos a assumirem um padrão mais igualitário (cf. 20,12), enfim, uma família
alternativa.
Resumidamente, temos a seguinte composição estrutural:
o 19,1-2 Viajem da Galileia para Judeia
Tema / Relações familiares Instrução para relações familiares
diferenciadas a serem assumidas pelos
discípulos/as
19,3-12 Matrimônio e divórcio Maridos não devem dominar as esposas, mas
Marido-esposa participar da relação de “uma só carne”
19,13-15 Crianças Todos os discípulos são crianças, e não há
nenhum pai.
19,16-30 Obtenção de riqueza Ser discípulo/a = seguir Jesus sem procurar
riqueza, nem status
20, 1-16 Parábola do chefe de Métodos diferentes e distintos de Deus
família ordenar a vida e viver a justiça do Reino
20, 17-28 Ser escravos Todos os discípulos são escravos/servos, como
Jesus. Não há nenhum senhor.
20,29-34 Cura de dois cegos Esperança de que os discípulos e as discípulas
serão capacitados/as pelo poder de Jesus para
viver essa experiência alternativa
o 21,1 Chegada a Jerusalém

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Ao se opor às normas da sociedade, esta família encarna o caminho da cruz (16,21-
28).

3.3.2 Exercício de exegese da parábola dos trabalhadores da vinha (19,30-20,16)

Exercício preliminar:

1) Procure ver o que há no texto: destaque as palavras chaves e seu significado; possíveis
subdivisões do texto; realidade do povo em sua época.

2) Por que os atendidos por último se frustram?

3) Que luzes o texto traz para nossa realidade?

A reversão dos últimos que serão primeiros e dos primeiros que serão últimos
aparece no começo (19,30), no meio (20,8) e na conclusão do texto (20,16). Forma uma
espécie de moldura do texto e o subdivide em duas cenas: o chamado para trabalhar na
vinha (20,1-7) e o acerto de contas (20,8-15).
Porque o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que saiu de manhã
cedo para contratar trabalhadores para a sua vinha. O porquê mostra a relação com o
texto anterior; o verbo no tempo presente é semelhante, indica de que não se trata do
julgamento final. Pai/chefe de família deveria ser homem de bens. Possuía uma vinha,
contava com um administrador e tinha condições de investimento para contratar
trabalhadores. A figura de chefe de família aparece também em outras parábolas (13,27.52;
21,33; 24,43). Em 10,25 o termo se refere ao próprio Jesus e aos discípulos como
familiares. A vinha é símbolo do povo de Deus (Is 5,7). A palavra é citada cinco vezes nos
oito versículos.
O chefe de família sai cedo de casa para contratar os trabalhadores, algo pouco
comum, pois isso seria trabalho do administrador. Há, portanto, um envolvimento direto
que proporciona uma resposta no desfecho final. Somente com os da primeira hora é
combinado o preço de um denário, o que corresponde atender às necessidades diárias de
uma família. O mesmo pai de família sai ainda às 9h, ao meio dia, às 15h e às 17h e
encontra pessoas desocupadas, esperando na praça, chamada de ágora, a espera de um
trabalho. Sua vida era imprevisível, marcada pelo desemprego. Chama todos para trabalhar
na vinha. Aos chamados na hora terceira (9h) promete pagar o que for justo.
Chegou a hora do acerto. A iniciativa é novamente do chefe de família que chama o
administrador para fazer o pagamento, cumprindo o que diz a lei: dá-lhe no mesmo dia o
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salário, para que o sol não se ponha sobre a dívida, pois ele é pobre, e o salário significa o
seu sustento (Dt 24,15; Lv 19,13). O que não era comum é começar pelos últimos até os
primeiros, e pagar a estes o mesmo que havia sido combinado com os da primeira hora que
suportaram uma jornada de sol a sol, de doze horas, igualando-os na remuneração. O
combinado com os primeiros era uma jornada de trabalho por um denário. Aos outros, a
promessa de pagar o que for justo. Receberam por igual, o que causou tumulto. O texto diz
que murmuraram contra o pai de família, o que lembra a situação do povo de Deus no
deserto murmurando contra Moisés e Aarão por falta de comida (Ex 16,2; Nm 11,1;
14,27.29). Eles estão bravos com o chefe de família porque ele não agiu conforme as
práticas consideradas normais, seja de merecimento, seja superioridade de uns em relação
a outros, como aparece nas pretensões dos filhos de Zebedeu (20,20-28). Esquecem o que
havia sido combinado e não se conformam em serem igualados aos últimos. Foram
surpreendidos.
A primeira resposta do chefe de família é lembrá-los de que não os trapaceou. Pagou
no final do mesmo dia, conforme recomenda a lei, o salário previamente combinado. A
segunda, embora possa parecer de cunho elitista, tipo “o dinheiro é meu eu faço o que eu
quero”, revela algo muito significativo, como explica Carter:

Ele afirma que, pagando a todos eles o mesmo e os tratando como iguais,
não só fez o que é justo, mas fez algo bom (...). A sua pergunta final: É
teu olho mau?, desafia os trabalhadores e a audiência para reconhecer o
tratamento ‘igual’ como uma coisa boa, divina. (...) A pergunta deixa em
aberto a resposta dos trabalhadores e da audiência, enquanto solicita
seu/nosso consentimento (CARTER, 2002, p. 500).

A parábola também desestrutura o pensar teológico, como explica o comentário da


CNBB:
A salvação de Deus é pura gratuidade. O paradoxo dessa parábola quebra a
lógica da teologia da retribuição que é a equivalência: a cada delito a sua
pena. Jesus diz: a todos os delitos o perdão. Só consegue ultrapassar a lei
da equivalência e da retribuição quem vive a lei do amor (CNBB, 1998, p.
112).

Deste modo, a inversão de valores do reinado proposto por Jesus desafia as


estruturas hierárquicas e patriarcais a criar novas estruturas onde as relações de trabalho
que proporcionem igualdade, dignidade e satisfação para todos e todas, como propõe o
livro do Eclesiastes (cf. Ecl 3,13) e a filosofia dos povos indígenas de criar relações de bem-
viver, de convivência, de partilha dos bens e dos dons.

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Dica de Aprofundamento

Para aprofundar as reflexões sobre o livro de Mateus,


sugerimos a leitura do artigo: “Mt 22,15-22: O que é
de César a César... O que é mesmo de César?”, de
Edmilson Schinelo (2014). Disponível em:
<https://cebi.org.br/2014/10/13/mt-2215-22-o-que-e-de-
cesar-a-cesar-o-que-e-mesmo-de-cesar-edmilson- Fonte: http://migre.me/lQMBG

schinelo/ >. Acesso em: 17 abr. 2017.


* Depois poste no fórum da unidade suas reflexões.

Antes de continuar seu estudo, realize os Exercícios 5


e 6 e as Atividades 3.1 e 3.2.

77
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UNIDADE 4

EVANGELHO SEGUNDO LUCAS


OBJETIVO DA UNIDADE: Apresentar uma introdução geral ao livro de Lucas, seu
contexto histórico, fontes, objetivos, possíveis enfoques, destinatários/as e mensagem.

O Evangelho de Lucas é contemporâneo ao evangelho de Mateus, mas os públicos


são diferentes. O primeiro escreve para os/as
de origem grega, em continuidade à obra
missionária de Paulo, ao passo que o
segundo escreve para cristãos/ãs de origem
judaica. As fontes são praticamente as
mesmas, Marcos e “Q”, exceto o material
próprio de cada um. Embora ambos tenham
muitos textos em comum, cada um tem o
seu enfoque, objetivos e problemática a
responder à luz da experiência pascal de Fonte: http://migre.me/q4F8L
Cristo.

4.1 Aspectos gerais do Evangelho Segundo Lucas

4.1.1 O contexto sócio-histórico e cultural da comunidade de Lucas

a) Quem é Lucas?
Lucas inicia o seu Evangelho com uma apresentação do horizonte do seu projeto de
evangelização, suas preocupações e interesses, a janela pela que está olhando o mundo, a
manifestação do Reino de Deus e a realização do projeto eclesial. Com um pouquinho de
imaginação conseguiremos também vislumbrar quem é essa pessoa que está olhando pela
janela enquanto nos escreve.
Ele mesmo deixa a entender no seu prólogo que ele não é uma testemunha ocular
da vida de Jesus, mas um cristão da segunda geração. Visto que muitos já tentaram compor
uma narração dos fatos que se cumpriram entre nós – conforme no-los transmitiram os
que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da Palavra... Sabe-se, pela

78
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tradição30 que ele é de origem semita, procedente de Antioquia, talvez o único autor do
Novo Testamento que não é filho de Israel. Sabe-se, também, que ele estava muito ligado a
Paulo, integrava sua equipe missionária como atestam as próprias cartas de Paulo, que era
médico de profissão (Cl 4,14; Fm 24; 2 Tm 4,11) e profundo conhecedor da cultura bíblica.
Por isso, os pais da Igreja quiseram homenagear um dos seus colaboradores mais próximos
atribuindo-lhe a autoria do evangelho.
Várias passagens em Atos dos Apóstolos parecem confirmar a hipótese de que
Lucas, a quem se atribui a autoria, é companheiro de Paulo em sua jornada missionário,
pelo fato de várias vezes empregar o verbo na primeira pessoa do plural (nós partimos, nos
detivemos...16,11-12; 20,6-28,16). No entanto, críticos a esta posição argumentam que isso
é mero recurso literário para tornar o texto mais provável e mais vivo. Baseiam-se em dois
argumentos: primeiro porque as informações contidas em Atos não conferem com as cartas
de Paulo. Basta analisar as conclusões a que chega o primeiro concílio de Jerusalém (At 15)
comparando-as com o que Paulo diz em Gl 2 e 1Cor 8-10; segundo, porque a teologia
contida em Atos, como podemos perceber no discurso do Areópago, não confere com a
teologia paulina que o homem pecador não se salva fora de Cristo (Rm 1). Além disso, não
dá importância ao título de Apóstolo, tão caro para Paulo, nem à espera escatológica.
Portanto, para estes, o autor de Atos não é Lucas, companheiro de Paulo. Os argumentos
têm fundamento em ambos os casos. Ou seja, a única certeza que temos é que ele era
gentio.
Da mesma forma incerta é o lugar da produção literária. Apenas se tem certeza
igualmente de que foi fora da Palestina. Poderia ser Antioquia ou Éfeso, uma vez que Atos
dos Apóstolos faz a memória destas igrejas (At 11,19-26; 13,1-3; 14,24-15,2; 19-20). Mas
poderia ser também a Grécia, uma vez que a obra de Lucas foca a sociedade altamente
estratificada e o apelo à solidariedade (cf. BOHN GASS, 2011, p. 40-41).
Quanto à data o mais provável que seja no final dos anos 80 d.C.

b) A quem ele escreve?


Lucas dirige a obra a Teófilo, um ilustre cidadão provavelmente com grande poder
econômico e com muita influência na sociedade, para que ele a divulgue e torne conhecida
nos mais diversos meios. Escreve com o capricho de uma obra clássica, digna de
reconhecimento no mundo da cultura greco-romana. A experiência de fé, esperança e amor

30
São Jerônimo 347-419, por exemplo, dá a informação seguinte: “Lucas, médico antioqueno, como
o indicam seus escritos, não foi desconhecedor da língua grega; seguidor do apóstolo Paulo e
companheiro de toda a sua peregrinação, escreveu o evangelho...” (SICRE, 1999, p. 247).
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que estava surgindo entre os pobres habitantes das cidades do império romano não poderia
mais passar despercebida aos olhos do mundo.
Pelo fato de explicar aos leitores as tradições judaicas (22,1.7) e omitir a relação
entre a lei antiga e a nova, tão frequente em Mateus (Lc 6,27-29 // Mt 5,38) podemos
deduzir que não escreve para judeus. Isto se confirma se tivermos em conta o fato de ele
omitir coisas duras ditas aos não israelitas (Mt 10,5; 15,24) como o texto da mulher grega,
siro-fenícia, onde Jesus diz priorizar o povo de Israel (Mc 7,24-30); pelo fato de elogiar os
samaritanos (10,33-27; 17,18-19), o centurião (7,10) e de afirmar que estes precederão a
Israel (13,29-30), deixa claro que ele se dirige às comunidades helenistas espalhadas pela
Grécia, Macedônia e Ásia Menor. São as comunidades paulinas da segunda geração de
cristãos e de cristãs.
Confirma-o ainda a insistência de Lucas no universalismo da missão de Jesus
estendendo a genealogia até Adão. Deixa a entender, assim, que ele veio para toda
humanidade. Lucas é o único evangelista que fala do envio dos setenta e dois discípulos
(10,1-16), uma possível referência aos setenta e dois povos citados em Gênesis 10.
Se em Marcos encontramos uma configuração mais rural do evangelho, em Lucas o
caráter é predominantemente urbano, mais uma pista que estamos no percalço das
comunidades paulinas espalhadas pelas cidades do império romano. Segundo Ildo Bohn
Gass:

Cerca de 40 vezes Lucas faz referência a ela [a cidade] (1,26.39;


2,3.4.11.39; 4,9.31.43; etc.). Os destinatários, portanto, são comunidades
urbanas, onde há ricos e pobres de várias culturas. O Evangelho quer trazer
luzes sobre dois problemas fundamentais, consequência dessa diversidade
de classe e de cultura. Por um lado, quer confirmar a abertura da boa-nova
a todos os povos. Quer confirmar a prática de equipe de Paulo. Por outro
lado, quer questionar as comunidades que reproduzem as relações de
opressão da sociedade escravocrata que legitima a divisão entre ricos e
pobres (BOHN GASS, 2011, p. 41-42).

O nome Teófilo significa amigo de Deus. O Evangelho destina-se, portanto, a


todos/as os/as que buscam sinceramente a Deus, independente de sua cultura. É escrito
para gente de cultura não hebraica, como você, com seus traços indígenas, afro-ameríndios,
europeus, orientais, migrante, que sofreu grande influência da cultura ocidental, mais
técnica e prática, para que a sua vida seja animada pelo Espírito do Senhor Jesus.

c) Por que escreve o Evangelho?


Lucas conhece outras narrações, conforme anuncia em seu prólogo. Entre estes
textos são, com certeza, o Evangelho de Marcos e a fonte comum a Mateus e Lucas,
denominada Q. Além disso, Lucas tem também sua fonte própria de informações.
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Suas razões para escrever nova narrativa nós encontramos facilmente na sequência
de mesmo prólogo: ...a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de
tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiqueis a
solidez dos ensinamentos que recebeste.
Em primeiro lugar, muita coisa havia mudado desde a primeira narrativa de Marcos,
situada no final dos anos 60, em plena guerra dos judeus contra o império romano. Ainda
que o espaço de tempo não seja tão grande, apenas uns 15 a 20 anos, muita coisa havia se
modificado na caminhada dos primeiros cristãos. A primeira grande diferença é que as
expectativas messiânicas anunciadas no evangelho de Marcos e na evangelização de Paulo
não se realizaram. A segunda, com a destruição do Templo o povo judeu perdeu a sua
grande referência política e religiosa. Perder o Templo era o mesmo que perder a sua
identidade. As religiões cananeias, asiáticas e greco-romanas, que estavam em plena
vitalidade, agora aparecem com mais evidência, questionando o judaísmo e o cristianismo.
Muitas perguntas colocam em xeque as pretensões missionárias dos primeiros cristãos.
Acusam os cristãos e as cristãs de que eles têm por “Senhor” um terrorista e de que o
cristianismo é um messianismo anti-imperial.
Questões que as comunidades da herança paulina não encontram respostas
suficientemente claras nas obras anteriores: a grande desigualdade social, provocando um
abismo entre ricos e pobres. Os ricos são considerados cidadãos e os pobres não cidadãos.
Como conciliar isso quando essas pessoas participam da mesma comunidade? O fato da
participação ativa das mulheres nos serviços da comunidade, revolucionando, na prática, as
sinagogas, onde a participação é exclusiva dos homens, e na cultura grega, onde a mulher
é considerada inferior ao homem. A questão dos soldados romanos que pedem também o
batismo; a admissão ou não de fariseus e escribas convertidos ao cristianismo. Por fim, o
problema da interpretação equivocada da pessoa e da obra de Jesus. Qual é o caminho
certo? Esta e outras perguntas levaram Lucas a fazer uma acurada investigação.
Em segundo lugar, na investigação, viajando e entrevistando testemunhas oculares,
encontrou muitos dados novos: passagens e parábolas esplêndidas, exclusivas em Lucas.
Muitas coincidem com Mateus, mas o que mais chama atenção são as diferenças. No
evangelho da infância coincidem praticamente só os nomes dos personagens; o sermão da
montanha de Mateus é pronunciado, segundo Lucas, numa planície de forma breve. O que
mostra que tanto a investigação de Lucas como a de Mateus, não se prezam pelo rigor
histórico, como o entendemos hoje, mas no rigor evangélico do caminho de seguimento de
Cristo.

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Em terceiro lugar, toda esta riqueza de informações – evangelho de Marcos, ditos
populares Q, cartas de Paulo e novos dados - precisavam ser organizados de modo
ordenado numa nova narrativa que desse
solidez à catequese iniciada pelos/as
cristãos/ãs da primeira e segunda geração.
Ele quer ordenar catequeticamente a
experiência do seguimento de Jesus, falando
dos acontecimentos numa obra literária
didática. Porque há tantos problemas sérios
Lucas acentua, particularmente, o aspecto do
perdão, da misericórdia e do amor aos
inimigos, único jeito para quebrar o círculo Fonte: http://migre.me/s4aqo

vicioso da vingança e do ódio provocado, sobretudo, pela intolerância religiosa.

4.1.2 Estrutura literária

Lendo o Evangelho, facilmente podemos perceber que é versado na arte das letras.
Faz introduções, liga uma parte com a outra, tem conclusões, tudo para facilitar a
compreensão do/a leitor/a. Nada menos que 180 do total de 1.149 versículos são utilizados
para isso, muitas vezes com traços bem pessoais.
A estrutura literária da obra de Lucas é bastante clara e há uma concordância entre
os/as comentaristas. Mudam os títulos, mas a subdivisão é praticamente a mesma. Em
nosso comentário – O caminho do seguimento no evangelho de Lucas – procuramos
perceber quatro grandes momentos (WENZEL, 1998):
1. A esperança do povo que luta (1,5-4,13), que nos prepara para um novo começo
de nossa história.
2. O chamado para integrar o programa de vida (4,14-50), dispondo-nos a
responder ao chamado do Senhor para seguir as suas pegadas.
3. A difícil caminhada para a liberdade (9,51-19,28), que nos prepara para enfrentar
e superar os obstáculos da vida que impedem de sermos autênticos seguidoras e
seguidores de Jesus.
4. O êxodo de Jesus e o resgate dos discípulos (19,29-24,53). A nossa opção precisa
estar fundamentada pela experiência de aceitação da cruz redentora que nos liberta
de todas as amarras, a fim de que possamos ser livres para amar.
Para uma compreensão mais acurada com uma chave interpretativa, é importante
ler a obra como um conjunto, conforme pontua Pablo Richard. Ele propõe uma estrutura e
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chaves para a compreensão global do evangelho (RIBLA 44, 2003, p. 8). A obra foi
separada possivelmente por ocasião da definição com a unidade dos quatro evangelhos pelo
final do século II d.C. Com a separação da obra houve um acréscimo no final de Lucas
(24,50-53) e no início de Atos (At 1,1-5). Reproduzimos aqui sua chave de leitura
(RICHARD, 2003, p. 8):

Prólogo histórico (Lc 1,1-4) a toda a obra Lc-At


Prólogo teológico (Lc 1,5-4,13) a toda a obra Lc-At
A) Ministério de Jesus na Galileia (Lc 4,14-9,50)
B) Subida de Jesus da Galileia a Jerusalém (Lc 9,51-19,44)
C) Ministério de Jesus no Tempo de Jerusalém (Lc 19,45-21,38)
CENTRO: 1. Paixão e morte de Jesus (Lc 22-24)
2. Ressurreição de Jesus (Lc 24,1-49)
3. Testamento de Jesus (Lc 24,44-49 + At 1,6-8)
4. Exaltação de Jesus: ascensão (At 1,9-11)
C) O movimento de Jesus em Jerusalém (At 1,12-5,42)
B) O movimento de Jesus de Jerusalém a Antioquia (At 6,1-15,35)
A) O movimento de Jesus de Antioquia a Roma (At 15,36-28,31)

4.1.3 Estratégia literária

a) Horizonte universal
O Evangelista tem por objetivo tornar o cristianismo aceito dentro de um horizonte
mais amplo, procurando ligar a experiência do povo hebreu à problemática de toda a
humanidade. Por isso, relaciona a origem de Jesus não somente a Davi ou Abraão, mas a
Adão, ao começo da história humana. Defende a tese de que o cristianismo não é uma
tendência política para derrubar o império romano. Por isso omite tudo o que é polêmico a
este respeito. Não responsabiliza, por exemplo, Pilatos pela morte de Jesus, mas as
autoridades judaicas, especialmente os chefes dos sacerdotes e os anciãos. Nem mesmo o
povo e os fariseus, a quem critica duramente, mas não lhes fecha as portas. Ressalta que
Jesus vai seguidamente à casa dos fariseus.
Da mesma maneira bate duro na riqueza, pois “não se pode servir a Deus e ao
dinheiro” (16,13b), e nos ricos (6,24), mas não os exclui nem fecha as portas a eles.
Também a eles, no personagem Zaqueu, Jesus visita e realiza sua conversão (19,5).

b) Projeto pastoral
A finalidade de sua obra é claramente pastoral. Prima pela clareza e pelo sentido das
palavras de Jesus, e não tanto pelos dados históricos. Interessa-lhe apontar, sobretudo, a
história da salvação de Jesus trazida a todos os povos. Por isso, também, o projeto eclesial
deve ser universal, atingindo a todos os povos e culturas. Tudo começa em Jerusalém,
especificamente no Templo, onde se anuncia o nascimento do grande profeta João que irá
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preparar o caminho do Senhor. Ali Jesus pronuncia as suas primeiras palavras (Lc 2,49) e as
últimas, fora dos muros de Jerusalém (23,46), como pedra rejeitada que se tomou pedra
angular.
Segundo Lucas, Jesus ressuscitado aparece aos discípulos e às discípulas em
Jerusalém, e não na Galileia como dão testemunho Marcos e Mateus. Para Lucas Jerusalém
não é mais uma referência geográfica, mas uma referência teológica. O ponto de chegada e
o ponto de partida do mistério da salvação. Nele se realizou o êxodo definitivo de Jesus, a
sua Páscoa. E lá se inicia o êxodo dos apóstolos e das apóstolas, impulsionados/as pelo
Espírito Santo para irem a todos os povos levar a Boa Nova libertadora de Jesus.
Percebe-se neste esquema de construção literária o projeto eclesial de Lucas.
Jerusalém é o lugar referencial para a realização do projeto missionário de evangelização de
todos os povos. Lá se consumou o mistério da salvação. De lá partem as primeiras missões
para além das fronteiras da Palestina, lá se realiza o primeiro conflito (At 15), de lá partem
as viagens de Paulo, que terminam tragicamente em Roma, onde o grande apóstolo entrega
a sua vida. E Roma representa os confins do mundo.

c) Dois olhares: a vida de Jesus e a vida das comunidades


Lucas divide a obra em dois volumes, distinguindo claramente o tempo de Jesus
(Evangelho) e o tempo da Igreja (Atos dos Apóstolos). O prólogo do evangelho (1,1-4,13) é
a introdução aos dois livros.
A vida de Jesus e a vida da comunidade são como as duas pernas, que caminham se
cruzando constantemente, mantendo o equilíbrio e o ritmo. A primeira parte da jornada é
dedicada à história de Jesus, e a segunda parte à história das comunidades. Uma está se
refere à outra. Descreve a vida de Jesus (Evangelho) olhando a vida das comunidades, e
escreve a história das comunidades (Atos dos Apóstolos) olhando para a vida de Jesus.
Bem por isso Lucas não copia todo o relato de Marcos. Deixa fora um terço, dá um
novo sentido a outros e acrescenta textos inéditos. Omite, por exemplo, todos os episódios
contidos em Mc 6,45-8,26. Possivelmente o faz porque alguns episódios lhe parecem
tradições repetidas; algumas cenas e detalhes poderiam ser ofensivos aos helenistas ou
incompreensíveis para eles ou porque lhe parecem desnecessários ou anedóticos.
Além disto, Lucas não encontra dificuldades em propor uma ordem diferente da
ordem proposta por Marcos. O chamado das primeiras pessoas ao seguimento é precedido
por toda a parte introdutória e pela visita de Jesus à casa de Simão, onde cura a sogra dele.
Deste modo, o chamado ao seguimento fica mais natural. Da mesma forma a cena da
sinagoga em Nazaré (4,16-30) vem antes com uma apresentação programática da missão
de Jesus. É rejeitado pelos seus e se abre aos de fora. Qual terá sido a razão? Será por que
84
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Jesus omite na leitura do profeta Isaías a segunda parte da frase que diz: enviou-me para
[...] anunciar o dia da graça do Senhor e o dia da vingança do Senhor? (Is 61,1-2) Dia de
graça para uns e dia de vingança, desforra para outros.
Lucas muda também a ordem de outras cenas: a chegada da família de Jesus
sucede depois das parábolas da semente (8,19-21); o anúncio da traição vem depois da
eucaristia (22,21-23); o anúncio das negações de Pedro é antecipado (22,31-34), bem como
as negações, como introdução à paixão. Deste modo inculca a atitude cristã do pecador
convertido (SICRE, 1999, p. 253).
A narrativa da subida de Jesus a Jerusalém (Mc 8,27-10,52), é ampliado para dez
capítulos com muitos textos inéditos (9,51-19,28). Ele terá tido suas razões pastorais para
fazê-lo, a fim de encantar as pessoas para seguir a Jesus.
Os textos comuns a Lucas e Marcos, comuns a Lucas e Mateus e os textos inéditos
são facilmente identificáveis31 com a indicação de várias traduções da Bíblia para o
português, como a Bíblia de Jerusalém, da TEB, da CNBB e do Peregrino.
Chama também atenção que o longo discurso de Jesus na montanha (Mt 5-7), Lucas
o situa numa planície, e o faz de forma breve (Lc 6,20-49), bem a gosto do seu público
helenista.

d) Novos personagens e paralelismos


Dois aspectos chamam a atenção no evangelho de Lucas, comparado às outras
narrativas: os novos personagens e a forma como são apresentados, muitas vezes traçando
paralelos entre pares ou contraposições.
Em relação ao primeiro, Sicre faz uma leitura do evangelho de Lucas imaginando uma
pinacoteca organizada em quatro andares.

Os quadros de Lucas nos colocam em contato com personagens


desconhecidos até agora: Zacarias, Isabel, Gabriel, os pastores, Simeão,
Ana, a viúva de Naim, Simão, o fariseu, e a pecadora anônima, Joana,
mulher de Cuza, Susana, Marta e Maria, a mulher que louva Jesus (“bendito
é o ventre que te gerou...”), a mulher encurvada, Zaqueu, Herodes Antipas,
as mulheres de Jerusalém que choram por Jesus, os dois ladrões
crucificados com ele, os discípulos de Emaús. Também conhecemos
personagens fictícios, que chegaram a ser tão reais ou até mais que
qualquer outro: o bom samaritano, o filho pródigo, o rico e Lázaro, o
fariseu e o publicano. Aliás, personagens conhecidos adquirem em Lucas
um relevo especial: Maria, João Batista (SICRE, 1999, p. 233).

Se ficássemos apenas com a versão de Marcos e Mateus, a imagem de Maria seria


muito negativa. Lucas lhe dá um destaque especial na anunciação – eu sou a serva do

31
Em Bohn Gass (2011, p.34-39) encontramos uma lista comparativa que facilita a visão de
conjunto.
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Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. Com isso, ela se tornou modelo para todas
as cristãs e os cristãos. Seu protagonismo se faz sentir em toda a sua obra, especialmente
no evangelho da infância, e na retomada do discípulo após a dispersão (At 1,14).
Lucas traça um paralelo entre João Batista, o precursor, e Jesus, o Salvador,
enfatizando a missão do primeiro em função do segundo. Mas é curioso que introduza
solenemente João Batista no início de sua ação profética e não o faz no início da ação de
Jesus. Faz parte de sua estratégia literária. Em vez de citar constantemente as escrituras e
os profetas, faz os personagens falarem e agirem como profetas (Zacarias e Isabel, Ana,
Simeão, Maria), de modo especial João Batista. Os profetas atuaram fortemente no período
dos reis de Israel. Por isso cita os “reis” de época de João e Jesus: o imperador e os
governadores (3,1-2).
O segundo aspecto que chama atenção é o paralelismo de personagens ou figuras
contrapostas: o rico e Lázaro; o fariseu e o publicano, o samaritano e o sacerdote e levita; o
leproso samaritano e os outros nove; Zacarias e Maria, Marta e Maria, do filho pródigo e do
filho “aplicado”... Chama atenção, sobretudo, os pares feminino e masculino. Adela Ramos,
em artigo publicado na revista RIBLA, cita 16 pares, presentes em toda narrativa de Lucas,
que copio sem a estruturação original:

Dois anúncios de nascimento: a Zacarias (1,5-28) e a Maria (1,26-38); dois


cânticos: o de Maria (1,46-56) e o de Zacarias (1,67-79); dois profetas
falam do menino Jesus, o Messias: Simeão (2,25-35) e Ana (2,36-38); dois
pagãos tomados como exemplo por Jesus: a viúva de Sarepta (4,25-26) e o
sírio Naamã (4,27); duas curas/libertação: a do homem com espírito impuro
(4,31-37) e a da sogra de Pedro (4,38-39); duas listas de discípulos de
Jesus: a dos doze (6,12-19) e a das mulheres que seguem Jesus desde a
Galileia (8,1-3); dois pais provados e dois filhos arrebatados da morte: a
viúva de Naim e seu filho (7,11-17) e Jairo e sua filha (8,40-42.49-56); dois
perdoados: o paralítico (5,17-26) e a mulher que unge Jesus (7,36-50);
dois pedidos feitos a Jesus: ao de Marta (10,38-42) e o do discípulo
anônimo (11,1-4); duas parábolas sobre o reino de Deus: a do grão de
mostarda (13,18-19) e a do fermento (13,2-21); duas parábolas sobre a
alegria de encontrar o perdido: a da ovelha perdida (15,3-17) e a da moeda
perdida (25,8-10); duas imagens sobre “o dia do Filho do Homem”: dois
(homens) numa cama (17,34); duas (mulheres) moendo (17,35);
testemunhas que reconhecem Pedro: uma serva (22,56-57) e dois homens
(22,58-60); discípulos/as que seguem Jesus no caminho para o “Crânio”:
Simão de Cirene (23,26) e algumas mulheres de Jerusalém (23,27b-29);
testemunhas da sepultura de Jesus: José de Arimateia (23,50-53) e as
mulheres da Galileia (23,55-56); discípulos relacionados com a ressurreição
de Jesus: as mulheres da Galileia (24,1-8.10) e os “Onze e todos os outros”
(24,9.11-12). (RAMOS, 2003, p. 81-83).

Este paralelismo não é um mero acaso, mas faz parte da estratégia literária de
Lucas, como ela mesma explica:

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A formação destes pares é parte desse trabalho lucano de composição que,
aplicando a técnica do balanceamento e do paralelismo (synkrisis), propõe-
se a harmonizar, combinar, opor e/ou contrastar elementos estilísticos,
estruturais, temáticos, conceituais ou os personagens de um relato. E tudo
isto com o fim de servir de suporte à mensagem teológica cujo núcleo
fundamental é: Jesus Cristo Senhor e salvador do mundo. (RAMOS, 2003,
p. 81).

4.1.4 O Jesus de Lucas32

Vimos que Mateus pintou um quadro bem diferente da imagem profundamente


humana de Jesus apresentada por Marcos. Omitiu detalhes importantes para suprimir a
manifestação dos sentimentos de Jesus, tanto de admiração quanto de indignação para
apresentar um Jesus sóbrio a quem se deve respeito e reverência, tal como a tradição
judaica fazia em sua relação com a divindade.
Lucas também apresenta o seu quadro idêntico em muitos aspectos, mas com
características próprias conjugando tanto a humanidade de Jesus quanto a sua filiação
divina. Nasce no desconforto de uma viagem por causa de um senso exigido pelo império
dominador, um menino de carne e osso, pobre, indefeso, envolto em panos, mas que é
tomado nos braços por um profeta e uma profetiza que dizem coisas grandiosas a seu
respeito; anjos anunciam seu nascimento a pastores no meio da noite cantam a sua glória.
Estes o visitam e saem glorificando e louvando a Deus (cf. 2,20). Enfim, é estimado por
Deus e todas as pessoas. Assim, crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de
Deus e diante dos homens (2,52).33 É obediente ao Pai e ao mesmo tempo submisso aos
pais em Nazaré (2,51).
No entanto, ainda menino, Jesus desconcerta os seus pais que, ao invés de pedir
desculpas pelo transtorno e preocupação causada a eles, declara sem meias palavras: Por
que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai (2,49)?
Esta mesma polaridade entre o Jesus profundamente humano e um Jesus rigoroso e
exigente também se dá em sua vida pública. Sua grande humanidade sensível com a viúva
que enterra seu filho único e sofre com ela, capaz de imaginar parábolas como a do filho
pródigo e a do samaritano que faz tudo que está ao seu alcance para socorrer a vítima, que
perdoa, que acolhe quem é pregado ao seu lado na cruz... tensiona com o rigor de quem
afirma sem meios termos: Mas, ai de vós, ricos... Ai de vós que agora estais saciados... Ai
de vós, que agora rides... (6,24-5), e até mesmo com o rigor das exigências para com os/as

32
Resumimos aqui de forma livre a apresentação de Sicre (1999, p. 234-237).
33
Há um paralelismo com o menino Samuel (1 Sm 2,26) que, segundo Flávio Josefo, tinha doze anos
quando se lhe manifestou o Senhor em Silo (SICRE, 1999, p. 236)
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seus/suas seguidores/as (9,57-62); contrasta também seu argumento mordaz que
ridiculariza o sacerdote e o levita, na comparação da ação deles com a do samaritano
(10,29-37); e com a sua atitude provocadora em Nazaré, justamente em sua primeira ação
pública, enfrentando os seus conterrâneos em Nazaré, negando-se a realizar milagres (4,23-
30).
Outra característica da personalidade de Jesus sublinhada por Lucas é o seu caráter
profético. Ele mesmo se concebe assim (4,24; 13,32-33), o povo o reconhece assim ao
presenciar a ressurreição do filho da viúva de Naim (7,16) e essa era a forma como a
população o via (9,8.19). Os discípulos e as discípulas viam nele um profeta poderoso em
palavras e obras, diante de Deus e diante do povo (24,19b), que iria libertar Israel do jugo
do império romano, expectativa presente no hino de Zacarias e na profetiza anciã Ana.
Quantos aos títulos, Lucas tem certa predileção pelo título “Senhor” (Kyrios). O
utiliza como narrador; está na boca dos discípulos e de diversos personagens, não só como
título de respeito, como aparece uma única vez em Marcos (Mc 7,28), mas com a dignidade
sublime de Jesus, como o podemos perceber na expressão de Isabel (1,43), do anjo (2,11)
e de Pedro depois da pesca milagrosa (5,8). Jesus mesmo se atribui este título (19,31),
como o mostra Sicre:

Lucas, como narrador, usa treze vezes “Senhor” em vez de “Jesus” (7,1.19;
10,1.39.41; 11,39; 12,42; 13,15; 17,6; 18,6; 19,8; 22,61; 24,3); também
coloca o título na boca dos discípulos (9,54; 10,17; 11,1; 12,41; 17,5.37;
22,33.38.49; 24,34); e o usam o leproso (5,12), o centurião (7,6), dois
possíveis seguidores (9,59.61), Marta (10,40), um personagem anônimo
(13,23), um cego (18,41), Zaqueu (19,8). Jesus mesmo o aplica (19,31),
logo Lucas contraria o didáskalos de Marcos e Mateus (SICRE, 1999, p.
236).

Outros títulos:
 Mestre: Assim é denominado pelos estranhos e pelos discípulos. Para os estranhos
Lucas emprega a palavra didáskalos: (9,38; 10,25; 11,45; 13,13) e para os discípulos a
palavra Epistates (do hebraico rabi): (5,5; 8,24.45; 9,33.49). Também os dez leprosos
(17,13).
 Filho do Altíssimo / Filho de Deus: Gabriel (1,32.35), o diabo/demônios (4,3.9;4,41) e
por este título é interrogado pelo sinédrio (22,70).
 Messias (Cristo): assim o chama o anjo (2,11) Simeão (2,26) e Pedro (9,20), mas
também os demônios (4,41); faz parte do interrogatório do Sinédrio (22,67), parte do
povo o qual exige demonstração (23,35.39). Mas Jesus o aplica a si mesmo com um
sentido novo (24,26 e 24,46).

88
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 Salvador: embora apareça uma vez só (2,11) o tema da salvação é desenvolvido
amplamente no evangelho.
 Santo de Deus: pelo demônio (4,34).

4.1.5 Ênfases em Lucas

Além dos aspectos já sinalizados até aqui – o universalismo, importância dos pobres
e da pobreza, a importância de Jerusalém, o paralelismo de gênero, o ensinamento do
caminho do seguimento da cruz – há outros aspectos que queremos destacar, uma vez que
não teremos espaço para uma análise de todo evangelho de Lucas, para perceber o fio da
meada de alguns temas que sempre voltam à baila, e que são um desafio para as
seguidoras e os seguidores de hoje.

a) O Espirito Santo como dinamizador do Caminho


Ao comparar as três tradições sinóticas,34 percebe-se um crescendo na importância
dada ao papel do Espírito Santo. Marcos o menciona seis vezes como princípio dinâmico de
ação e como inspirador (Mc 1,10.12; 3,29; 12,36; 13,11; 1,8). Mateus amplia o quadro com
onze citações. Em destaque o fato de no começo apresentar Jesus como gerado pelo
Espírito Santo (Mt 1,18), e no final, Jesus ordena batizar em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo (28,19).
Lucas menciona dezessete vezes a ação do Espírito e dá um passo adiante: A ação
do Espírito não começa com Jesus. Ele preenche o coração das pessoas que preparam a
chegada de Jesus (Lc 1-2) e desce sobre Ele para se manifestar em suas palavras e ações
(Lc 3-24). Antes de sua ascensão, promete enviá-lo (Lc 24,49), o que se realiza no dia de
Pentecostes sobre todos/as os/as que estavam reunidos/as (At 2,4).
Nos dois primeiros capítulos do Evangelho, o Espírito Santo é citado sete vezes. Ele
age na comunidade que prepara o caminho, gerando vida, alegria, esperança e paz. Rompe
as portas da profecia que estavam trancadas há séculos, visita o povo (1,68.78), abre a
boca de mulheres e homens para profetizar e cantar benditos, glórias e cantos de ação de
graças. Sua presença é eficaz (1,35). O medo (1,13.30) cede lugar à paz (1,79; 2,1-4). A
dúvida (1,20) perde espaço para a resposta da fé (1,38). O Espírito preenche tanto as
pessoas, que já não há espaço para a tristeza. A esperança é tão grande que até as
crianças em gestação pulam de alegria no ventre materno (1,44) e o seu nascimento é
motivo de alegria para toda a vizinhança (1,58).

34
Cf. Sicre (1999, p. 244). Para um estudo do tema: ROBERTI, Carlos. O Espírito Santo na obra de
Lucas, Estudos Bíblicos, n. 45, 1995, p. 46-54.
89
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Ele continua a agir, sobretudo, nas palavras e na ação de Jesus (Lc 3-24). O Espírito
desce sobre Ele em aparência corporal (3,23), dá força e sabedoria para vencer as
tentações (4,1-13), unge-o com sua força e seu poder (4,18). Nele o Espírito se manifesta
para escolher parceiros (5,10), expulsar os demônios (4,35), realizar curas (5,13) e perdoar
pecados (5,20). Nele e por ele continua a visitar o seu povo (7,16), suscita a partilha (8,3;
9,16-17), explicita a fé (8,48), provoca o discernimento da prática (9,10), do que é essencial
na vida (12,22-31) e o discernimento dos sinais dos tempos (12,54-13,9). Quando os
setenta e dois voltam da missão, Jesus se enche de gozo do Espírito Santo (10,21), etc.
Antes de partir, Jesus lhes promete a força do Espírito Santo para ser suas
testemunhas desde Jerusalém até os confins da terra (At 1,8). É derramado sobre todos os
que estavam reunidos (At 2,1) e permanece na ação dos apóstolos e das comunidades
missionárias: em Pedro (At 4,8), na comunidade (At 4,31), em Estêvão (At 6,5; 7,55), em
Saulo (At 9,17)... ao todo, 51 vezes se menciona em Atos o Espírito Santo como motor de
toda atividade missionária da Igreja.
O Espírito sopra quando e onde ele quer. É Vento. É liberdade. Ninguém consegue
se apropriar dele. Deve ser pedido e invocado (Lc 11,13), e nos surpreende agindo em nós
e na vida do povo, como defensor dos que são arrastados diante dos tribunais por causa
dele (Lc 12,11). Como isso é possível? Segundo Mateus, eles recebem a força de Jesus que
diz: Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos! Lucas o interpreta
assim: Eu estarei convosco através do Espírito Santo.

b) A oração de Jesus e da comunidade cristã35


Lucas insiste num tema talvez pouco familiar para o seu público helenista: a oração.
Os personagens do evangelho da infância (Zacarias, Isabel, Maria, Simeão, Ana) oram,
louvam a Deus, dão graças. Suas orações passaram a fazer parte da liturgia cristã:
Benedictus, Magnificat, Glória e Nunc Dimitis, e as palavras de Isabel ditas a Maria que
passaram a fazer parte da oração da Ave Maria.
O exemplo vem de Jesus que rezava em Voz alta. O modo como se dirigia a Deus e
a força que encontrava na oração para enfrentar as situações de conflito chamou muito a
atenção dos discípulos, que chegaram, inclusive, a pedir que lhes ensinasse a rezar. A
oração que lhes (e que nos) ensinou não é uma fórmula, e sim, um paradigma que deve
inspirar toda e qualquer oração.
Antes de tudo vemos Jesus inserido na vida de seu povo, rezando do jeito que o
povo judeu rezava. Ia às sinagogas, nos dias de sábado, como costume. Rezava

35
Para um aprofundamento deste tema, bem como o da compaixão: CASTELLANOS, René. O amor
subversivo no Evangelho de Lucas, RIBLA, n. 12, Vozes/Sinodal, 1992, p. 61-88.
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abençoando os alimentos, como podemos perceber na partilha dos pães (9,16), na última
ceia (22,17) e na casa dos discípulos de Emaús (24,30). Sabia salmos de cor. Na paixão da
cruz, segundo Marcos, Jesus recitou o salmo 22, e segundo Lucas, o salmo 31, também de
confiança, e menos trágico.
Além disso, Jesus tinha sua vida de oração pessoal. Gostava de rezar. Passava
madrugadas (Mc 1,35) ou noites de vigília em oração (Mc 6,46). Enquanto rezava, recebeu
a sua missão (Lc 3,21). Retirava-se constantemente para lugares desertos para estar a sós
com o Pai (Lc 4,1; 5,16) e para tomar decisões importantes (6,12). Orava antes de propor
aos outros e às outras novas opções ou questões importantes (9,18). Em certos momentos
rezava com tanta intensidade que seu rosto se alterava (9,29). Rezou por Pedro para que
permanecesse firme na fé (22,32), e pelos que o assassinavam, para que o Pai os
perdoasse (23,34), sendo coerente com o seu ensinamento.
A oração também faz parte de seu ensinamento, nas parábolas do amigo inoportuno
(11,5-8) e do juiz iníquo (18,1-8). Exorta os discípulos a orar quando estão no horto
(22,40).
Segundo Lucas, em dois momentos Jesus expressou na oração todo o seu ser.
Primeiro, por ocasião do êxito da missão dos discípulos. Exultou sob a ação do Espírito
Santo (10,21) em uma oração filial de louvor e ação de graças, porque constatou que a
graça de Deus estava atuando. Um segundo momento foi a oração difícil no monte das
Oliveiras (22,39-46). Jesus foi tentado uma última vez e venceu o combate, sem abrir mão
da condição humana. Foi necessário gritar e insistir, num ato de coragem e entrega
confiante à vontade do Pai.
Segundo Marcos, foi na hora da morte que Jesus deu o seu grande grito, na certeza
de que Deus escuta o clamor dos oprimidos (Mc 15,37), e, segundo Lucas, dizendo: Pai, em
tuas mãos entrego o meu espírito (23,46).
Há alguns elementos que se repetem na oração de Jesus: é uma oração filial, que se
dirige a Deus como uma criança se dirige ao Pai; é uma oração totalmente voltada à
missão; e uma oração de submissão dolorosa, obediente, de abandono total nas mãos do
Pai. No seu ensinamento insistiu na constância (11,5-13), na perseverança (18,1-8) e na
vigilância (21,36).
Para os apóstolos, depois da experiência da ressurreição de Cristo, a referência à
oração de Jesus era tão grande que eles rezaram a Jesus (At 1,24; 7,59) e pelo nome de
Jesus (At 4, 28-30). A oração era uma constante nas primeiras comunidades (At 1,14.24;
2,42; 3,1; 4,23-31; 6,4.6; 8,15; 9,11.40; 10,4.9.31; 11,5; 12,5.12; 13,1; 14,23; 16,25;
20,36; 21,5; 28,8).

91
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c) Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso (6,36)
Antes de Jesus realizar o seu êxodo ao Pai, deixou aos discípulos e às discípulas a
missão de em seu nome pregar a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações
(24,47). Deveriam continuar o seu trabalho de exercer o ministério da reconciliação, assim
como Ele o fazia.
No capítulo 15, Lucas nos revela o coração do Deus de Jesus que não condena os
seus filhos, mas usa de sua compaixão. A alegria de ter encontrado o que estava perdido é
o estribilho desta canção de amor. Um amor que é ágape, que transcende a razão e vai em
busca da paz. Um amor que se integra e integra os outros plenamente. Amor que aceita o
outro na sua diferença, que o reabilita por inteiro e que vai em busca daquele que não se
quer integrar. Amor que é compaixão, de colocar o seu coração em sintonia com os outros.
Três vezes e em três situações diferentes ocorre a palavra “compaixão”: para revelar
a pedagogia de Deus (15,20), para revelar o coração de Jesus que se solidariza com o
sofrimento do povo (7,13) e para mostrar a verdadeira atitude dos discípulos missionários
em relação ao povo, na parábola do samaritano (10,33).
O perdão não é algo humilhante, mas o encontro de duas vontades. É reconhecer o
infinito amor de Deus para com as suas criaturas, que nos acolhe por mera graça, e
manifestar, agradecido, este amor (7,36-50).
Perdoar pecados é o mesmo que fazer o paralítico se levantar (5,24), amar de todo
o coração (7,11-17), integrar os excluídos ao convívio social (8,46), acolher os que vivem
segundo o espírito de Jesus (9,50), cortar relações com os adversários da paz sem carregar
mágoa consigo (10,11), criar relações de gratuidade (6,32-34; 14,31-34; 17,1-10),
reconhecer o erro, doer-se e chorar amargamente, confiando no amor integrador de Jesus
(22,54-65), e, finalmente, reconhecer a realeza de Jesus quando está agonizando (23,35-
40).
Mas não nos esqueçamos: o perdão é graça a ser pedida (11,4). Se você ainda
carrega mágoa de alguém ou não consegue perdoar, não desista. Pedir a graça é um bom
começo. Perseverar no pedido é o caminho.

d) A mesa lugar de encontro e do conhecimento de quem é Jesus


Embora Lucas dê importância ao templo, pois é lá que se dá anúncio do anjo a
Zacarias, é lá que se profetiza a respeito dele e de sua mãe, e é lá que Jesus pronuncia as
primeiras palavras, o lugar do encontro e do reconhecimento de Jesus é a mesa da partilha,
como o mostra o texto paradigmático dos discípulos de Emaús, no final do evangelho. Ali se
sintetizam dois elementos centrais do evangelho que se dão no testemunho do

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ressuscitado: o caminho do seguimento e a mesa da partilha do pão que substitui os
sacrifícios de animais oferecidos no templo. Ildo Bohn Gass cita os seguintes textos:

5,29-32: Jesus come com publicanos, pecadores e impuros na casa de Levi.


7,36-50: Jesus está à mesa na casa do fariseu e ali defende a mulher
pecadora.
9,10-17: Jesus promove a partilha do pão, um verdadeiro milagre
10,38-42: na casa de Marta e Maria, o Mestre indica o caminho do
seguimento.
11,37-54: Na mesa do fariseu, Jesus desmascara sua hipocrisia, seu
legalismo.
14,1-6: Estando à mesa com o fariseu, Jesus cura um hidrópico no sábado.
15,11-32: Deus misericordioso oferece um banquete ao pecador convertido.
16,19-31: Quem come o pão não partilhado, come sua própria condenação.
19,1-10: Na casa de Zaqueu, a presença de Jesus promove partilha.
22,14-22: Comer o pão repartido é fazer comunhão com o próprio Deus.
22,28-30: A mesa do Reino de Deus pertence a quem for fiel ao projeto de
Jesus.
24,13-35: Na casa e no pão partilhado, Deus mesmo se revela em Emaús.
24,41-43: Ressuscitado, Jesus continua participando da partilha na mesa
com seus discípulos de ontem e de hoje. (BOHN GASS, 2011, p. 43).

Além destas mesas, há ainda a mesa do senhor que serve os escravos (12,35-37) e
a menção à exclusão da mesa do Reino de Deus por causa das injustiças cometidas (13,22-
29), citados também por Sandro Galazzi em seu artigo “Eu estou no meio de vocês como
aquele que serve à mesa! (Lc 22,27)”:

São 14 referências a mesas, comidas e banquetes: destas, só as memórias


da mesa de Levi, da partilha dos pães e da ceia pascal são comuns aos
outros dois sinóticos. As demais narrativas são exclusivas de Lucas.
Este dado, também, nos confirma que a interação permanente entre
caminho e mesa é o fio condutor do evangelho de Lucas em sua dinâmica,
seja literária ou de conteúdo. Neste contexto, o que acontece ao redor da
mesa à qual Jesus está sentado torna-se o elemento crítico que ajuda a
comunidade em sua ação de discernimento para que, à luz da memória de
Jesus, possa continuar sendo testemunha de seu projeto de vida.
(GALAZZI, 2003, p. 115).

4.2 “[...] Moveu-se de compaixão”

Não teremos tempo suficiente para fazer uma leitura de todos os textos inéditos de
Lucas, como gostaríamos. Para não fazermos uma escolha aleatória, tomamos como
referência a chave de leitura da compaixão presentes três vezes com a expressão - “movido
em suas entranhas”- presente na atitude em Jesus (7,11-17), do samaritano (10, 29-37) e
no Pai (15,11-32). Veremos estes textos dentro de seu contexto literário, analisando

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também o que vem antes e o que vem depois. Assim estudaremos respectivamente os
capítulos 7, 10 e 15.36
Teremos presente também outras chaves de leitura nesta abordagem, de modo
particular o caminho do seguimento e a mesa da misericórdia, da palavra e do perdão.

4.2.1 A visita misericordiosa de Deus (7,1-8,3)

Depois do sermão da planície o cenário se desloca para as aldeias. As cenas


acontecem na intercessão pela saúde de um escravo em Cafarnaum (7,1-10); na compaixão
de Jesus para com uma viúva, em Naim, que ficara totalmente desamparada por perder seu
filho único (7,11-17); na perplexidade de João Batista diante da perspectiva diferente de
Jesus evidenciar a visita misericordiosa de Deus através de vários sinais, acolhidos por uns e
rejeitados por outros (7,18-35); e no perdão acolhido em meio a lágrimas de alegria, amor
e fé (7,36-50), que prepara o resumo do anúncio da boa nova pelas cidades e povoados da
Galileia, acompanhado pelos doze e por um grupo de mulheres (8,1-3).
Apontando o exemplo da fé do centurião, o testemunho do povo que vê em Jesus a
visita de Deus, a novidade da prática de Jesus em relação à expectativa de João e a
humildade da mulher pecadora que crê no amor misericordioso de Deus, Lucas nos mostra
que o programa de Jesus anunciado na planície já está acontecendo na vida do povo.

a) O centurião: exemplo de fé e de novas relações humanas (7,1-10)


A boa nova de Jesus proclamada na Galileia chega aos ouvidos dos pagãos que
conviviam com os judeus. Os personagens e a cena são pouco comuns e, por isso mesmo,
um exemplo significativo. Os centuriões eram chefes de um destacamento militar dos
romanos. Mas este centurião é diferente. Teme a Deus, como Cornélio em Atos dos
Apóstolos (At 10,1-2). Reconhece a autoridade da palavra de Jesus e intercede por um
escravo a ponto de recorrer à religião dele para salvá-lo.
O escravo faz lembrar a triste situação que vivia esta gente, provocada pelo sistema
escravista do império romano, que subjugava e escravizava os povos dominados. O
centurião o apreciava muito. Chega ao ponto de pedir a judeus idôneos que intercedam por
ele diante de Jesus, outra raridade na época.
Os intercessores do centurião argumentam que ele merece o favor de Jesus, mas o
centurião mesmo se acha indigno de receber a visita de Jesus. Acredita piamente na palavra

36
Transcrevemos os textos de WENZEL, 1998, revisados, atualizados e ampliados em 2015.
94
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salvadora de Jesus, a ponto de impressioná-lo: Eu vos declaro que nem mesmo em Israel
não encontrei tamanha fé.

b) A compaixão de Jesus restitui a vida do filho da viúva (7,11-17)


Juntamente com os órfãos, as viúvas representam as pessoas mais necessitadas (cf.
Tg 1,27). Deus é o pai dos órfãos e o protetor das viúvas (cf. Sl 68,6). Se os maltratares,
eles clamam a mim, e eu ouvirei o seu clamor (Ex 22,22).
Lucas tem um carinho especial para com as viúvas. Elas aparecem em nove cenas. A
viúva de Naim, pelo fato de perder o filho único, ficou totalmente desamparada. A mulher
não pede nada a Jesus, mas ele percebe o seu grito silencioso e sua dor profunda
manifestada pelo choro. Ele toma a iniciativa. Ao vê-la, o Senhor foi tomado de compaixão
por ela e lhe disse: ‘Não chores mais’.
A cena é tão forte que transcende a tudo. Jesus fica comovido internamente até as
entranhas. Lucas chama a Jesus pela primeira vez de Senhor. Antes de devolver a vida ao
jovem, Jesus toca a padiola, quebrando o tabu religioso de tornar-se impuro por tocar um
cadáver (Nm 19,11). Os preconceitos prejudicam tanto que causam a morte das pessoas.
Quando parou a marcha fúnebre, Jesus disse: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te”. Este
mesmo verbo – levantar-se – é empregado depois para designar a ressurreição de Jesus.
Então Jesus o entregou a sua mãe, como o fez Elias com a viúva de Sarepta (1 Rs 17,23) e
Eliseu ressuscitando o filho da sunamita (2Rs 4,17-37), com uma diferença: Jesus não
precisa orar a Deus, nem realizar respiração boca a boca como o fizeram os profetas.
Pela primeira vez, também, o povo tira conclusões sobre o que estava acontecendo:
Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo, fazendo ecoar o cântico
profético de Zacarias (1,68-69), bendizendo e glorificando a Deus, porque com a ação de
Jesus Ele está visitando o seu povo.
O que estaria acontecendo nas cidades e aldeias do império romano, que jovens
perdessem a vida? O que faz com que hoje os/as adolescentes e jovens sejam as principais
vítimas, corpos cheios de energia e de sonhos, roubados pela morte? O corpo do jovem de
Naim foi recuperado pela compaixão de Jesus. Como fazer o mesmo diante da violência a
qual são submetidos particularmente os jovens e as jovens?

c) Jesus é um Messias diferente que o esperado pelo profeta João (7,18-35)


Entender o messianismo de Jesus é difícil até para João Batista. Interroga-se a
respeito de Jesus, que age de modo diferente que o Messias esperado. Em vez de realizar a
vingança de Javé dos exércitos, revela um Deus misericordioso. O Messias esperado por
João deveria separar os bons dos maus, recolher o trigo em seu celeiro e a palha no fogo
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que não se apaga (3,17). O Messias não deveria julgar separando os malvados dos que se
arrependeram?
Jesus responde apontando os sinais: os cegos recuperam a vista, os coxos andam,
os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é
anunciado o evangelho. Sabe da dificuldade do povo em aderir a este messianismo e o
convida a crer proclamando feliz aquele que não ficar escandalizado por causa de mim!
Jesus também sabe que seu tempo é diferente do tempo de João. João teve o papel
de ser aquele que prepara o caminho de Jesus, alguém que é mais do que um profeta. O
precursor. Atuou no plano de denúncia e no apelo à conversão. Jesus atua no plano do
anúncio da Boa Nova de Deus. João Batista não podia imaginar que os pequenos e os
excluídos, com quem Jesus se solidariza, poderiam participar da grandeza do Reino de
Deus.
Todos acolheram a missão de João Batista, menos os fariseus e os legistas, também
chamados de escribas ou doutores da lei. São apáticos: não dançam, nem choram. Não
aceitaram a espiritualidade de vida de penitência e ascese, praticada por João Batista, nem
a espiritualidade alegre e festiva de Jesus. São pessoas sem vida espiritual, pois são
incapazes de se deixar tocar e mudar de opinião. Mas os/as que acolhem Jesus pela fé,
reconhecem nele a justiça de Deus e respondem aos seus apelos, estes/as são
verdadeiramente os/as seus/suas filhos/as.

d) A mesa da misericórdia (7,36-50)


Os fariseus não acolhem a mensagem de Jesus, mas o convidam para sentar-se à
mesa com eles. Jesus aceita o convite. Ele está aberto a todos/as, aos ricos e aos pobres,
pessoas religiosas ou sem fé, mas não deixa de apontar as contradições, nem que ele atinja
em cheio o dono da casa, anfitrião da festa, chamado Simão.
O evangelho de Lucas apresenta três refeições em casas de fariseus (7,76-50;
11,37-54 e 14,1-24). São refeições sociais que seguem rituais como deitar-se à mesa, com
lugares marcados e destaque ao convidado especial, no caso Jesus, considerado profeta e
mestre. Uma mesa de varões servidos por mulheres.
A estrutura da narrativa é concêntrica. No centro está a parábola. À luz dela as
ações da mulher na primeira parte são retomadas passo a passo contrapondo-as com as
não ações do fariseu na segunda parte.37
Uma mulher que não é chamada pelo nome, mas pela sua condição de pecadora
irrompe na sala, correndo o risco de ser expulsa dali. Na versão de Lucas, a palavra

37
Para uma estrutura detalhada veja Conti (2003, p. 65).
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pecadores (amartoloi) pode significar pagãos ou gentios (15,1) e não necessariamente
prostituta, como em Mateus 21,31-32. Em Lc 5,29-32, e no respectivo texto paralelo de
Marcos, encontramos publicanos e outras pessoas. Isso nos deixa concluir que não se trata
de uma mulher meretriz, mas de uma mulher não judia, o que explica melhor a repulsa do
fariseu.38 A tradição da igreja ocidental de fala latina a identificou com Maria Madalena,
desde Gregório Magno (540-604)39, mas não na igreja oriental de fala grega. Essa
identificação se deve a repressão à liderança das mulheres a partir do século II, e uma das
formas de desautorizar a liderança delas era inventar para a sua liderança principal um
passado de pecadora.
Ela, colocando-se por detrás, em lágrimas, aos pés de Jesus, se pôs a banhar os
seus pés de lágrimas; enxugava-os com os seus cabelos, cobria-os de beijos e derramava
perfume sobre eles. As razões de suas atenções se concentrarem nos pés de Jesus parece
ser uma alusão a Isaías que diz: como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro
que anuncia a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação (Is 52,7). Sua atitude
lembra, também, por uma parte, a atitude corajosa de Judite, que tirou o pano de saco com
o qual se vestia, arrumou-se, ungiu seu corpo com óleo perfumado e vestiu roupa de festa
para assumir a luta da libertação (Jd 10,3), e por outro uma atitude de profunda humildade
e agradecimento. Ela entende o amor de Deus através de Jesus. Sabe que um “coração
contrito e humilhado” não será rejeitado.
O gesto da mulher demonstra profundo afeto, criando para Jesus, aos olhos dos
convidados, uma situação constrangedora.

Pode-se perceber quatro ações da mulher, expressas numa linguagem


carregada de erotismo e amor: regar os pés com as lágrimas, secar com os
cabelos, beijar intensamente e ungir com perfume. São ações que seriam
bem adequadas se feitas por um judeu, pois pertence à sua tradição, mas
não por uma mulher de origem suspeita. Uma travessia inusitada! (ERP,
2008, p. 55).

Um escândalo! Jesus se deixa amar por ela. E o mais importante: não se deixa
constranger pelos julgamentos. Para ele a verdadeira pureza não está em tocar ou ser
tocado por pessoas consideradas impuras, mas em acolher os/as excluídos/as que ninguém
respeita.
O fariseu a julga pecadora. Julga também a Jesus que, por uma questão de honra,
deveria afastar a mulher. Duvida que Jesus seja verdadeiramente um profeta, pois deveria
sabê-lo. Porém, na resposta explicativa de Jesus não só mostra que é um profeta que não

38
Cf. ERB (2008, p. 53).
39
“Em culturas como a mediterrânea do século I, as pessoas costumavam classificar os demais por
arquétipos. A mulher podia ser uma destas três coisas: virgem, mãe/esposa ou pecadora. Toda
mulher caía dentro de alguma destas três categorias” (CONTI, 2003, p. 63).
97
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julga pelas aparências (cf. Is 11,3s), mas faz o fariseu ver a mulher não como pecadora
desprezível, mas como mulher que ama e honra o convidado, justamente o que o fariseu
deixou de fazer ao não oferecer água, não lhe dar o beijo da paz e não ungi-lo com óleo na
cabeça. Aponta a contradição maior, vivida no nível da fé e espiritualidade. Quem recebe
perdão da dívida de quinhentas moedas de prata amará mais, pois recebe e aceita a
salvação por graça de Deus. A quem se perdoa cinquenta moedas de prata amará menos,
pois se sentirá agradecido por mérito e esforço próprio.
Jesus e a mulher ofereceram uma lição de amor e perdão a todos os convivas. Com
grande demonstração de amor a Jesus, que no tempo de Lucas significa amor à
comunidade das pessoas que seguem a Jesus, a mulher mostrou ter acolhido o perdão que
Jesus lhe ofereceu. Seu amor é sua gratidão. Ela sai do episódio com sua dignidade
completamente reabilitada. Ao contrário de Simão, que apesar de ter convidado Jesus não
demonstrou nenhuma afeição por ele e muito menos de misericórdia para com a mulher,
evidenciando que não acolheu a proposta de perdão de Jesus e que não estava preparado
para a comunidade.
Os convidados à mesa se
perguntam: “Quem é este que até perdoa
pecados?” ele, porém disse à mulher:
“Tua fé te salvou; vai em paz”. Fica assim,
a fé como lição desta mesa da
misericórdia: Fé não significa ausência de
pecado, e sim muito amor. A mulher que
ungiu os pés de Jesus saiu dali ungida. É
discípula plena, que muito ama e rompe
fronteiras.
Fonte: http://migre.me/s4aE3
Mais uma vez cumpre-se a
profecia de Maria: Dispersou os homens de pensamento orgulhoso... e exaltou os humildes
(1,52b.53b).

e) Homens e mulheres, discípulos e discípulas (8,1-3)


Jesus caminhava através de cidades e aldeias, pregando e anunciando a Boa Nova
do Reino de Deus com homens e mulheres. Um sumário da ação de Jesus, preparado pela
unção dos pés de Jesus pela mulher excluída.
Ser seguido por mulheres era algo excepcional no contexto judaico, pois o
seguimento era algo reservado para o mundo masculino. A sogra de Pedro foi a primeira a
se colocar a serviço (4,39), antes de Pedro e seus companheiros serem chamados. O
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serviço caracteriza, sem dúvida, o verdadeiro seguimento. Agora Lucas nos informa que
eram muitas, e cita três pelo nome, o que significa que elas representam este grupo dos
marginalizados de Israel, assim como Pedro, Tiago e João representam o grupo dos doze, o
novo Israel. Ao todo o evangelista cita 41 vezes o vocábulo mulher, o que mostra a
importância das mulheres nas comunidades primitivas.
O grupo de mulheres devia ser um grupo muito livre, pois tinham sido curadas de
espíritos maus e de doenças. Quer dizer que estavam livres de ideologias, fanatismos e
doenças, sem fronteiras nacionalistas e religiosas, como a mulher rotulada por Simão
pecadora, mas que se tornou testemunha contra a falsidade dele (7,44-48). A expulsão de
demônios é apontada como sinal de que o Reino de Deus já está no meio de vós (11,20).
De Maria Madalena foram expulsos sete demônios. Sete representa a totalidade. E
alguém excepcionalmente livre, conhecida pela tradição da igreja como mulher de
personalidade forte, corajosa, enérgica e inesquecível. Encabeça a lista de mulheres, é
testemunha privilegiada da ressurreição, e exerce um papel de grande liderança nas
primeiras comunidades.
De Joana se diz que é mulher de Cusa, um funcionário de Herodes; o que confirma
que elas integram e representam o grupo de discípulas e discípulos marginalizados pela
religião judaica, como Levi, um coletor de impostos.
De Suzana não há referências. Deve ser uma pessoa muito conhecida na
comunidade de Lucas. E muitas outras, que os ajudavam com seus bens. Não só deixaram
tudo para segui-lo, mas colocam os seus bens a serviço da atividade missionária.
Ser sustentado por mulheres pode ser constrangedor para o contexto machista
latino-americano, mas não o é para uma
Jesus é reconhecido como profeta
comunidade de iguais onde não há varão nem maior do que os grandes profetas
mulher, pois todos são um em Cristo Jesus (Gl bíblicos como Elias e Eliseu, acolhe e
perdoa pecadores e pecadoras,
3,28cd). “Era uma grande família, tal como se vê exerce um messianismo que põe em
claramente na descrição que Lucas faz da dúvida a visão messiânica do profeta
João, inova aceitando mulheres no
organização da primeira comunidade cristã de
discipulado de iguais. Quem é este
Jerusalém” (At 4,32-35) (CONTI, 2003, p. 62). que age assim?

4.2.2 O caminho da Vida (9,51-10,42)


As raposas têm tocas e os pássaros do céu, ninhos; o Filho do Homem, porém, não
tem onde recostar a cabeça (9,58). Sua casa é o caminho e a caminhada, com mesas que
realizam encontros profundos. Aceita o convite de tomar refeição na casa dos fariseus, e é
questionado por eles porque faz o mesmo com os pecadores e publicanos. E um caminho

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contestado, exigente. Jesus o deixara claro: Se alguém quiser vir em meu seguimento,
renuncie a si mesmo e tome sua cruz cada dia, e siga-me (9,23).
O destino da viagem é Jerusalém, onde se dará o êxodo definitivo de Jesus. Pelo
menos em sete situações diferentes da viagem, Lucas lembra seus leitores do significado
desta viagem, a provação da cruz (9,51.58; 11,30; 12,40.50; 13,22.33; 14,27; 17,22.33.37;
18,31-34).
Jesus toma a firme decisão de ir a Jerusalém (9,51-56), passando por Samaria, onde
realiza novo chamado ao seguimento, sem aceitar desculpas ou condicionamentos (9,57-
62). Em seguida envia 72 discípulos para onde ele mesmo deveria ir para realizarem o
projeto de vida (10,1-16), se alegra com a alegria dos missionários e das missionárias pelo
trabalho bem feito (10,17-20), exulta de alegria porque os pobres evangelizam (10,21-22) e
proclama bem-aventurados os que acolhem os sinais do Reino (10,23-24). Um escriba quer
saber se este programa corresponde aos mandamentos da lei de Deus (10,25-28) e é
convidado a alargar o seu horizonte, para passar da teoria do amor ao próximo ao
compromisso com as vítimas sociais (10,29-37). O exemplo também alarga o horizonte dos
discípulos, que devem continuar o trabalho missionário de serviço aos irmãos e irmãs, sem
cair no ativismo, mas colocando-se a escuta do que é mais importante na ação
evangelizadora (10,38-42).
O conjunto do texto, visto a partir da ótica do caminho do seguimento em contexto
de missão, podemos perceber uma estrutura em forma de quiasmo que tem como centro o
magnificat de Jesus.

a) Preparação do caminho (9,51-56)


Como chegasse o tempo em que ele ia ser arrebatado do mundo, isto é, de sua
morte e ascensão, Jesus tomou resolutamente a estrada de Jerusalém. Sua decisão é firme,
irrevogável, estando disposto a proferir um oráculo profético contra a cidade (cf. Ez 21,7).
Enviou mensageiros à sua frente para preparar a sua vinda. A missão que lhes é
confiada equivale à de Joao Batista, sendo destinada agora aos samaritanos, para prepará-
los a receberem o Senhor. No entanto, a missão fracassa. Não o acolheram, porque ele
viajava para Jerusalém.
Tiago e João, representantes dos doze, querem aplicar a essa aldeia de Samaria o
castigo de Elias (cf. 2 Rs 1,10), fazendo cair sobre eles fogo do céu para consumi-los, mas
Jesus os repreende em seus interesses vingativos. O Filho do Homem não veio para perder
a vida do povo, mas para salvá-la. Este é o objetivo central de sua vinda e, igualmente,
condição para o seguimento.

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b) Condições para o seguimento (9,57-62)
Durante a caminhada realiza-se um novo chamado, dirigido aos samaritanos. Na
verdade, um chamado que acontece em três situações diferentes, constituindo um novo
grupo de seguidores a partir de uma oferta, um convite e uma oferta condicionada. As duas
primeiras são da fonte Q e a última da fonte própria.
Ao que se oferece para segui-lo para onde quer que ele vá, Jesus deixa claro que o
Filho do Homem não tem onde reclinar a sua cabeça. Daquele que ele convida, exige
disponibilidade total. Ser seu discípulo não é simplesmente uma questão de escolher entre o
bem e o mal, mas de discernir entre o bom e o melhor. Ao que se oferece amarrado ao
passado, Jesus exige ruptura total: Quem quer que ponha a mão no arado e olhe para trás
não é feito para o Reino de Deus. Neste ponto, Jesus é mais radical que Elias, que permitiu
que Eliseu se despedisse dos seus (cf. 1 Rs 19,19-21).

c) Envio dos setenta e dois para realizarem o projeto de vida (10,1-16)


Tendo como paradigma o envio dos doze (6,13), o Senhor designou setenta e dois
outros discípulos e os enviou, dois a dois, adiante de si, a toda cidade e localidade para
onde ele próprio devia ir. Envia-os como grupo, dois a dois, formando comunidade,
mostrando com fatos o que anunciam com palavras. Seguiam a Jesus, mas agora irão à sua
frente, fazendo caminho, tendo Jesus na retaguarda. São 72 (alguns manuscritos dizem que
são 70). Uma possível referência aos descendentes de Noé (Gn 10) que simbolizam as
nações pagãs destinatárias deste evangelho. O motivo do envio é que a messe é
abundante, mas os operários pouco numerosos.
Não deverão levar nada pelo caminho. Sua confiança não deverá ser colocada em
meios humanos, mas na providência de Deus e na hospitalidade do povo. Não deverão nem
mesmo perder tempo com as intermináveis saudações judaicas, e sim, transmitir a benção
de paz, o desejo de que o Deus da justiça e da misericórdia reine.
O anúncio da paz deverá ser realizado com dignidade. Se não forem acolhidos,
deverão sacudir contra essas pessoas a poeira que se colocou a seus pés, o que significa
cortar relações sem guardar mágoa, ódio ou desejo de vingança.
O envio não tem nada de eufórico. São enviados como cordeiros no meio de lobos.
Encontrarão oposição sistemática pelos interesses da sociedade vigente, mas sua defesa
será assumida por Jesus através do Espírito Santo. Portanto, a tarefa missionária é da maior
grandeza. Quem vos ouve a mim ouve, e quem vos rejeita a mim rejeita.

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d) Alegria de ser missionário (10,17-20)
Quando os doze voltaram (9,10) não se disse nada de sua alegria, mas agora, na
volta dos setenta e dois, se esbanja alegria. Até mesmo os demônios se submeteram, outra
façanha da qual não se fez menção na volta dos doze. Em vez de querer provocar um fogo
destruidor que consome a população, como queriam Tiago e João (9,54), eles provocaram a
cura dos fanatismos, das ideias fixas e sectárias.
Jesus os confirma em seu trabalho aberto, universal, libertador, dizendo que este é o
começo do fim para o reino de Satanás. Ele dera aos discípulos o poder de calcar aos pés os
princípios da sociedade baseada na falsidade (serpentes e escorpiões) e toda a potência do
inimigo. Mas o verdadeiro motivo de sua alegria não deverá ser pelo fato de terem recebido
tal poder, mas porque seus nomes estão inscritos nos céus. Fizeram a experiência de se
sentirem amados por Deus e de serem instrumentos de sua paz. O nome deles estará
igualmente inscrito no coração deste povo simples e discriminado. São queridos de Deus.
Fazem parte do “livro da vida”.

e) O “Magnificat” de Jesus (10,21-22)


Nessa hora, Jesus exultou sob a ação do Espírito Santo, expressando o seu
“Magnificat”, como o fez Maria, ou como o fez Zacarias, em seu bendito. Neste bendito
Jesus revela a sua intimidade com o Pai, sua experiência de oração. O Pai entregou tudo ao
Filho, e seu amor agora é revelado aos pequeninos, aos samaritanos desprezados por sua
origem étnica e religiosa. Os Valores do Reino são compreendidos pelos simples. Tudo isso
faz Jesus entrar literalmente em êxtase, experiência que se repetirá em forma de agonia no
Getsêmani (22,24).

f) Felizes os que se dão conta dos sinais do Reino (10,23-24)


Em seguida, Jesus retoma o tema da alegria e propõe aos discípulos, aos doze em
particular, que também experimentem a felicidade de se deixarem amar por Deus, dando
uma volta de 180 graus em relação a sua atitude de seguimento, a fim de que possam
assimilar o que estavam vendo. Muitos profetas e muitos reis quiseram ver o que vedes e
não viram, ouvir o que ouvis e não ouviram.

g) Verificação da solidez do entusiasmo missionário (10,25-28)


Um escriba quer “testar” a fidelidade de Jesus aos mandamentos da lei de Deus, e
se observa os 613 mandamentos da tradição oral da lei de Moisés. Por isso pergunta sobre
o que fazer para receber em herança a vida eterna. Em Marcos e Mateus a pergunta é

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sobre qual é o maior dos mandamentos. Lucas desloca a discussão para o início da subida
para Jerusalém, com um novo enfoque, o tema da vida eterna.
Jesus devolve a questão ao especialista que fez a pergunta, o qual responde:
Amarás o Senhor, teu Deus, e o teu próximo como a ti mesmo. Este é o caminho da vida
autêntica. Ao que Jesus lhe recomenda: Faze isto e terás a vida. O que vale dizer: tens a
teoria, o saber religioso. Falta a prática.

h) A exigência do compromisso com o próximo (10,29-37)


Ele, porém, querendo se justificar, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?” Jesus
apresenta, então, sua convicção religiosa, enraizada na experiência misericordiosa do amor
de Deus que acaba de ser revelada aos humildes. O faz através de uma parábola de tipo
narrativa exemplar. Uma história fictícia, com personagens fictícios com a finalidade de
compreender o amor ao próximo. A estrutura da narrativa é simples:
 Os assaltantes e o homem maltratado (10,30);
 O sacerdote, o levita e o homem abandonado (10,31-32);
 O samaritano e o homem socorrido (10,33-35)
Estejamos atentos ao cenário e aos personagens para captar mais de perto a
mensagem de Jesus.
Um homem descia de Jerusalém a Jericó. O tempo é indeterminado, como nas
histórias fictícias, mas as circunstâncias do lugar são bem precisas e correspondem à
realidade.40 Quem? Um homem, poderia ser qualquer um. Representa o comum da
humanidade, vítima da violência. O sacerdote e o levita são homens ligados ao templo,
responsáveis, respectivamente, pelo sacrifício e pela leitura da sagrada escritura. Passam ao
lado. Não se diz nada dos motivos. Não queriam “sujar-se” ou se comprometer? Seria por
causa da pureza ritual? Mas eles não estavam indo a Jerusalém, e sim descendo de lá.
Certamente eles figuram ali porque a forma de se designar a sociedade religiosa
judaica em sua diversidade, depois do exílio, era dizer: “sacerdotes, levitas e filhos de
Israel”. O surpreendente é que em vez do terceiro personagem ser um “israelita”, “filho de
Israel” ou “povo”, como era de se esperar, é apresentado um samaritano41, um estrangeiro,
povo excluído da comunhão judaica. Reflexos da discriminação e do ódio contra eles, como
vimos no começo da caminhada, quando João quis se vingar deles jogando fogo sobre eles,
por não terem sido acolhidos, e foi duramente repreendido por Jesus (9,54-55). Agora,

40
Cf. Gourgues (2005, p.19). Uma estrada que tinha fama de perigosa, tanto que os romanos
julgaram conveniente estabelecer nela postos de vigilância.
41
Cf. Gourgues (2005, p.21-23).
103
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Jesus apresenta justamente um samaritano como exemplo de amor ao próximo pela
compaixão.
Certo samaritano em viagem, porém, – note que ele não diz “bom” samaritano,
como encontramos normalmente nos subtítulos das traduções – chegou perto dele, viu-o e
moveu-se de compaixão. Fez do sofrimento dele o seu sofrimento e colocou a sua
disposição tudo o que tinha: óleo, vinho, montaria, tempo, dinheiro... As circunstâncias são
as mesmas. Ambos passam e o veem. O sacerdote e o levita não fizeram nada. O
samaritano fez tudo. Confirma-o a descrição detalhada do cuidado que dispensa com o
homem maltratado e abandonado. Nada menos que sete verbos em cascata descrevem os
procedimentos do primeiro dia e, se isso não bastasse, mais sete verbos descrevem
novamente sete procedimentos realizados ou ordenados por ele. “Duas vezes sete: seria por
acaso? Ou, ao contrário, contém um simbolismo que merece atenção?” (GOURGUES, 2005,
p. 25). O fato é que Lucas repete a mesma dinâmica de sete verbos e procedimentos na
parábola do pai pródigo (15, 20), e tem grande familiaridade com o número sete: caso ele
peque sete vezes e sete vezes retornar... (17,4), sete demônios (8,2), sete maus espíritos
(11,26), sete maridos (20,29-33, sete diáconos (At 6,3;21,8)...
Na devolução da pergunta, Jesus desloca a preocupação etérea sobre quem é o
próximo para quem realmente se aproxima da vítima da injustiça social. O escriba entende
bem o alargamento da fronteira do amor: Foi aquele que usou de misericórdia para com
ele. Ao sentir compaixão, deu prova da compaixão que Deus dispensa aos seus amados.
Desta forma Lucas recorda a profecia de Oseias, sem mencioná-lo explicitamente: Quero
misericórdia e não sacrifícios (Os 6,6; Lc 6,36).
Jesus lhe disse: Vai, e também tu, faze o mesmo. Na vida é que se decide a vida
eterna.
Há aqui uma nova inversão, do próximo como objeto para o próximo como sujeito,
conforme explica Gourges:

A narrativa inverte os papéis, e coloca o próximo não do lado daquele que


deve ser amado, mas daquele que deve amar. Do próximo-objeto passa-se
ao próximo-sujeito. Já implicada na parábola, essa reversão torna-se
explícita na questão posta na continuação por Jesus. “Quem é o meu
próximo?”, tinha perguntado o legista (10,29). “Quem se mostrou o
próximo?”, pergunta agora Jesus (10,36). (GOURGUES, 2005, p. 26).

[...] Tudo se passa como se Jesus se recusasse a entrar em uma


problemática demasiada estreita e um tanto mesquinha, preocupada
demais em pôr fronteiras e em delimitar um campo bem preciso ao
exercício do amor. [...] É essa problemática que Jesus faz detonar situando
o próximo do lado dos que amam e não do lado daqueles que se deve
amar. O campo do amor ao próximo não se define em função do exterior,

104
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mas em função do interior. Da identificação do objeto exterior do amor,
somos enviados às disposições do sujeito. (GOURGUES, 2005, p. 27).

Dão-se, assim, vários deslocamentos apresentados pelo autor citado que passamos a
resumir:
1) Passa-se da ordem do saber quem é meu próximo, para a ordem do fazer. Não faz
sentido discutir as fronteiras sobre quem deve ser amado ou excluído. Como diria
agostinho: “Cabe a ti fazer teu próximo aquele que está em necessidade”.42
2) Quem era excluído como objeto do amor ao próximo torna-se sujeito modelo desse
amor, da mesma forma como o evangelho de Mateus apresenta a parábola do juízo final:
Estive com fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e
me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e vieste ver-me (Mt
25, 35-36). Aqueles que estão fora podem viver melhor o ideal do amor do que os
privilegiados que estão dentro. Assim, os que estão “fora”, vivendo o amor aos outros como
o samaritano, também tem acesso à vida eterna.
3) A narrativa exemplar está em função de explicar ao mesmo tempo o amor a Deus e o
amor ao próximo. Lucas não menciona explicitamente Deus na parábola, mas as atitudes
dele revelam alguém que a ama como Deus ama. O verbo utilizado ser comovido em suas
entranhas (10,33 – splanchnizomai) é o mesmo utilizado por Jesus na cura do filho da viúva
de Naim (7,13) e na parábola do Pai pródigo (15,20). A narrativa supera as fronteiras e o
seu amor se estende inclusive aos inimigos (Lc 6,35). O que o samaritano propriamente faz
não é amar Deus no próximo, mas amar o próximo como Deus.
4) Amor ao próximo individual e estrutural. Assim como em Marcos se valoriza qualquer
copo d’água dado ao menos de todos (Mc 9,41) e o dar de comer, beber... em Mateus
(25,31-46), a narrativa do bom samaritano descreve uma forma exemplar de amor ao
próximo, seja em nível individual ou em nível estrutural.
Por fim, é importante destacar que Lucas tenha colocado essa temática
precisamente em meio à temática missionária, que
Tendo presente as atitudes do
será retomada em seguida. Ser discípulo ou discípula samaritano que se comove em suas
não é simplesmente dar mensagens bonitas, mas entranhas e faz tudo para salvar a
pessoa maltratada, e a parábola do
praticar o amor ao próximo, considerando o próximo juízo final em Mateus em que Jesus
como sujeito de amor e não como objeto de caridade. diz: tudo o que fizestes a um destes
meus irmãos mais pequeninos foi a
Amar não é simplesmente uma questão de provocar
mim que o fizestes (Mt 25,40), até
sentimentos, mas traduzir os sentimentos em atos que ponto se pode afirmar que o
samaritano é uma espécie de
que fazem viver aquele/a que é deixado/a
autorretrato da pessoa de Jesus?

42
De doctrina christiana, I, 30, citado por Gourgues (2005, p. 28).
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semimorto/a. Implica desenvolver o desejo de que os/as outros/as vivam, sem exclusão, e
aprender do amor e da acolhida calorosa que os/as excluídos/as são capazes de dar.

i) A mesa da palavra, a melhor parte da caminhada de seguimento (10,38-42)


Estando em viagem, entrou num povoado, e certa mulher, chamada Marta, recebeu-
o em sua casa. Ela assume o papel de responsável pela família. Preocupa-se em oferecer e
dar do melhor ao hóspede, conforme o costume da época. Sua irmã, chamada Maria, em
contraste, ficou sentada aos pés do Senhor, escutando a sua palavra.
Marta se afobava no serviço. Literalmente falando, ela chegava a reter o fôlego para
alcançar o objetivo de servir bem. O serviço, palavra citada duas vezes no texto, é uma
característica essencial no seguimento de Cristo, necessário, portanto. O que teria
acontecido para que ela perdesse o ponto de equilíbrio? A preocupação pela eficiência, o
êxito, o afã de fazer porque era preciso fazer, o que, na verdade, é o ideal que se propõe o
mundo masculino? Ela queria honrar o hóspede como um príncipe, mas acabou se
complicando ao censurá-lo, dando-lhe ordens para inculcar em sua irmã a sua obrigação de
ajudar: Senhor, não te importa que a minha irmã me tenha deixado sozinha a fazer todo o
serviço? Dize-lhe, pois, que me ajude.
De fato, era grande a preocupação em conseguir comida e pouso para tanta gente,
pois eram muitas as pessoas que seguiam Jesus no caminho para Jerusalém. Maria, a irmã
menor, deveria colaborar, mas ela, tendo se assentado aos pés do Senhor, escutava a sua
palavra. Com este simples gesto, Maria estava realizando aquilo que Marta queria alcançar
com os muitos serviços. Maria honra Jesus como Mestre, em atitude de discípula. Com isso
ela ouve a palavra e a põe em prática. Ela é a imagem da comunidade que se tornou
“ouvinte da palavra” para compreender a amplitude de sua missão.
A resposta de Jesus a Marta não é tanto de censura, mas mais de alerta. Marta,
Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas. Uma só é necessária. Maria quem
escolheu a melhor parte: ela não lhe será tirada.
Teria Marta feito a mesma exigência se, em vez de sua irmã, tivesse sido seu irmão?
Na interpretação de Sandro Galazzi provavelmente não.

Era e é tão normal o homem ficar conversando na sala enquanto a mulher


trabalha na cozinha. Marta censura Jesus que deixa Maria assumir o papel
próprio de um homem. Em poucas linhas polêmicas, Lucas reafirma o
direito da mulher a ser discípula.
Maria é que escutava e obedece à voz do Pai: “Este é o meu filho amado.
Ouçam-no”. Todas as palavras de Jesus, mesmo que estranhas, mesmo
quando duras e exigentes, são a parte melhor! Ele é o filho amado de Deus
que devemos escutar, mesmo quando nos fala de cruz (GALAZZI, 2003, p.
122).

106
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Sem dúvida, os dois modos de servir o Senhor não se opõem, mas se
complementam. O serviço de acolher os migrantes, cuidar da saúde, de servir bem a todos,
partilhar os alimentos, de socorrer a pessoa violentada, como o fez o samaritano... são
sinais do Reino, do amor ao próximo, aos quais nos devemos empenhar de todo o coração,
sem esquecer-nos de dar o tempo devido para servir o Senhor do Reino, em ouvi-lo e
adorá-lo, como o fez Maria. O serviço ao Reino não nos deverá afobar a ponto de tornar-nos
pessoas amargas na relação com as outras, mas levar-nos a descobrir a alegria de servir e
de ouvir o que o Senhor tem a dizer, a melhor parte da caminhada que Maria soube
escolher e que não lhe será tirada.

4.2.2 A alegria de ser encontrado/a e amado/a (15,1-32)


O capitulo 15 é um dos capítulos centrais no Evangelho de Lucas. Nele Jesus revela
o coração de Deus, a fonte de sua espiritualidade, o seu poço cavado na experiência de
sentir-se amado incondicionalmente por Deus. Amor, que na cultura grega é ágape, que
inclui o outro e está totalmente voltado ao amado, com o impulso de ajudá-lo. O que é
diferente do amor que é Eros, empregado para se referir ao amor sexual e emotivo, que
tem sua origem fora da pessoa que ama e que é exclusive.43
O cenário e os personagens são praticamente os mesmos que nos dois capítulos
anteriores, onde os adversários de Jesus não se cansam de criticá-lo, porque dá boa
acolhida aos pecadores e come com eles. De um lado, temos os coletores de impostos e os
pecadores que se aproximam de Jesus para ouvi-lo, e, de outro, os fariseus e escribas que
ficam resmungando. A eles é que Jesus conta estas parábolas, que explicam sua atitude de
acolhida e bem-querer aos/às excluídos/as, e convida seus adversários a participarem desta
alegria.
A parábola da ovelha perdida é da fonte Q e as da moeda perdido e do filho pródigo
são de Lucas. Ligam-se ao gênero das controvérsias, como se pode notar facilmente na
introdução (15,1-2): publicanos e pecadores estavam se aproximando para ouvi-lo. Os
fariseus e os escribas, porém, murmuravam porque acolhe pecadores e come com eles. O
mesmo verbo murmurar Lucas utilizara em 5,30 no chamado de Levi e voltará a ser
utilizado em 19,7, no contexto da refeição com Zaqueu e seus amigos.
A estrutura e a ênfase das três parábolas é praticamente idêntica. Nas duas
primeiras: perder (ovelha/moeda), buscar, encontrar e festejar com amigos e vizinhos ou
amigas e vizinhas. Na terceira: perder, voltar, reencontrar festa ou, então, como propõem

43
Veja o excelente artigo: CASTELLANOS, René. O amor subversivo no Evangelho de Lucas, RIBLA,
n. 12, Vozes/Sinodal, 1991/1, p. 61-68.
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outros, em três tempos: a degradação (15,11-16), a reintegração (15,17-24) e a
contestação (15,25-32).

a) O capricho de Deus pela vida dos excluídos (15,1-10)


Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (Ez 33,11). Ele
não se conforma em perder os seus filhos. Persevera na busca e faz de tudo para recuperar
a unidade perdida.
Cem e dez são duas unidades. Quando esta se perde, tudo está perdido. Sob o
ponto de vista econômico é apenas um ou dez por cento de perda, respectivamente, mas
que é muito para quem é pobre. Sob o ponto de vista do relacionamento humano
frequentemente se culpa a própria vítima por ter caído na desgraça. Não faltam exemplos
no caso do tráfego, humano adolescentes são seduzidos para um programa e se tornam
vítimas de exploração sexual.
Costuma-se dizer: “Deus não mata, mas castiga”, porém não é assim o modo de
proceder do Deus que Jesus nos revela. Ele não mata nem castiga. Bem que os escribas e
fariseus gostariam que Deus agisse assim com os faltosos/as, mas não é essa a pedagogia
do Pai. Ele age como aquele que deixa as noventa e nove ovelhas para ir à busca daquela
que estava perdida, ou como aquela que acende uma lâmpada, varre e vasculha a casa
para encontrar a moeda perdida. Quando a encontra ele reúne os seus amigos e vizinhos, e
ela reúne suas amigas e vizinhas para festejar e compartilhar sua alegria. Assim, Deus a
compartilha com os seus anjos, sempre que um pecador se converte. A alegria do céu e dos
anjos, comparada com a alegria do pastor e da mulher que reencontra a ovelha/moeda
perdida, contrasta ainda mais na parábola do pai pródigo que se alegra tanto a ponto de
realizar a maior festa, o que provoca espanto e raiva no irmão mais velho.

b) O amor do Pai resgata seus filhos (15,11-32)


Os dois filhos são uma caricatura dos ouvintes. O filho mais moço representa todos
os excluídos, particularmente os coletores de impostos e os pecadores. O filho mais velho
representa os “justos e impecáveis" escribas e fariseus. O Pai ama os dois e faz tudo para
integrá-los e fazê-los participar de sua comunhão e alegria.
Quando o mais moço pede a parte da herança, o pai fez a partilha dos seus bens.
Aceita o pedido de seu filho, respeitando a sua maneira única de ser, sem lhe impor
condições. Ele está aberto ao diferente, confia no filho e espera por ele.
Há um paralelo entre o filho mais jovem e o filho mais velho. A parábola descreve a
situação de ambos (15,13-16 / 15,25-26), a tomada de consciência (15,17-19 / 15,27) e as
respectivas reações (15,20a / 15,28a). Há também um paralelo da reação do pai com cada
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um dos filhos: A iniciativa do pai em ambos (15,20b / 28b), a atitude dos filhos (15,21 /
15,29-30) e a reação do pai nos dois casos (15,23-24 / 15,31-32). A cena central é a
acolhida calorosa e desmedida do pai para celebrar a volta do filho mais jovem (15,20b-24).
O que vem antes e o que vem depois está remetido a esse acontecimento.
Quais teriam sido os motivos para o filho mais jovem pedir a parte da herança e
partir para bem longe? Uma relação difícil com o irmão mais velho? Alguma discordância
com o modo de ser do pai? Havia algo nele mesmo que o tornava insatisfeito ou não aceito
em sua diferença? Seria ele homoafetivo? Buscava ele um sentido para a sua vida? Atração,
fascínio pelo mundo? Seria ele uma caricatura da rebeldia de Israel que rejeita a aliança de
YHWH? Quanto mais eu os chamava, mais eles se afastavam de mim (Os 11,2).
O texto da parábola nada informa sobre os motivos. Não importa. Apenas informa
que partiu para uma região longínqua e ali dissipou sua herança numa vida devassa,
vivendo como um louco, desregrado44. Porém, descreve a sua situação embaraçosa, de
estrangeiro e sem dinheiro, em três etapas de decadência:

Primeiro vem uma fome agravar a situação, e o jovem, para sobreviver,


tem de buscar emprego. E logo fica reduzido a guardar animais, e além
disso porcos, considerados pelos judeus impuros e repugnantes. Para
coroar tudo, o desgraçado é forçado a constatar que as pessoas para quem
trabalha se preocupam mais com a alimentação dos porcos do que com a
dele mesmo (GOURGUES, 2005, p. 124).

Deste modo cai em si, disposto a voltar e confessar a sua situação: Pai, pequei
contra o céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos
teus diaristas. O único que lhe restou foi a memória do amor de seu pai que o respeitara e
que trata bem seus empregados. O que propõe, ao cair em si, é razoável, mas o pai não
quer nem saber. Quando vê o filho voltar abatido, desolado e destroçado, foi tomado de
compaixão: correu, se lhe lançou ao pescoço e o cobriu de beijos.
O termo compaixão significa comover-se até as entranhas, colocar o coração em
sintonia com a paixão do outro. E a terceira vez que Lucas emprega o termo: para
expressar os sentimentos de Jesus, solidário com a viúva de Naim que havia perdido seu
único filho (7,13); para exemplificar como deve ser o amor ao próximo (10,33); e agora,
para revelar o amor do pai para com os seus filhos (15,20).

44
Exprime a “prodigalidade” do Filho: “vida asotos”. Este advérbio, único no novo Testamento,
significa “de maneira louca, desordenada, como libertino, como pródigo” e não implica
necessariamente a ideia de devassidão, como o irmão mais velho vai proclamar raivosamente no v.
30 (GOURGUES, 2005, p. 124). Nas traduções encontramos vida devassa (Bíblia de Jerusalém),
desregrada (TEB), vivendo dissolutamente (Almeida).
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A ênfase está na iniciativa do pai que corre ao encontro e a acolhida. O amor do pai
pelo filho que estava perdido é tão grande que o reabilita por inteiro: como verdadeiro filho,
recebendo-o com carinho e beijos; como herdeiro, com direito aos seus bens, vestindo-o
com a mais bela roupa; como pessoa digna, pondo-lhe um anel no dedo e sandálias nos
pés; como alguém integrado ao convívio social, fazendo-lhe festa com comes e bebes,
música e dança. Nada menos que sete procedimentos expressos em sete verbos destacando
o que há de melhor: não simplesmente uma roupa limpa, mas a melhor túnica; não um
novilho qualquer, mas o novilho cevado reservado para uma festa especial.
Com tal novidade, o filho mais velho, fiel e responsável que estava no campo
realizando o trabalho da família, quando volta se espanta com música e dança em dia
comum de trabalho. Ao ser informado do motivo da festa, da celebração com o novilho
cevado pela volta de seu irmão, ele se encheu de cólera e não quis entrar.
Na verdade, pródigo é o pai, que
gasta sem mesura. “Tudo bem em aceitar
este seu filho de volta, mas cadê a
reparação? Em vez de castigo, uma festa
de arromba, e tudo fica por isso mesmo?”
– poderia ele dizer e acertaria de cheio o
que muitos de nós pensamos dois mil anos
depois em relação aos que erram. Errou?
Pagou! De algum modo tem de sofrer
castigo! Como o irmão mais velho,
dizemos: “isso não é justo”.
Fonte: http://migre.me/s4bqQ
O pai, porém, do mesmo modo que
o fez com o filho mais jovem, toma a iniciativa e vai ao encontro do filho. Insiste para que
entre dando as suas razões de alegria e festa: Meu filho, tu estás sempre comigo e tudo o
que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-se, porque este teu irmão tinha
morrido, e está vivo; estava perdido, e foi reencontrado. São os mesmos motivos
que havia dado aos servos no v. 24: a retomada de uma relação cuja ausência era tão dura
de suportar como se seu filho ausente estivesse morto. Mais uma vez vem à mente a
imagem de um pai que se comove nas entranhas, que acolhe com laços de bondade e
cordas de amor (Os 11; Jr 31,18-20; Sl 103).
O contraste é que os motivos de festa do pai são justamente as razões da raiva do
filho mais velho. Protesta sua justiça afirmando a sua fidelidade e obediência e reclama o
reconhecimento. Sem este, vive ressentido e queixoso. Considera-se o único que está certo,
julga o irmão possivelmente com suas próprias fantasias sexuais, condena-o e não o aceita
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mais como irmão. A expressão – esse teu filho – lembra atitude do fariseu na parábola do
fariseu e do publicano, em que o fariseu fala com desprezo este publicano (Lc 18,11) e se
gaba dos seus méritos e de suas virtudes.
O protesto do filho mais velho pela sua justiça é comparável também com a parábola
dos trabalhadores da vinha, contada por Mateus (20,1-16). Os trabalhadores que
trabalharam suportando o sol doze horas reclamam porque foram igualados aos que
somente trabalharam uma hora. “Esses, ao menos, receberam o mesmo tanto; o filho mais
velho se queixa de receber ainda menos...” (GOURGUES, 2005, p. 128), pois terá de
partilhar tudo de novo.
O amor do pai é incansável na busca de encontrar a sua plenitude, o Shalom, a paz.
Um amor que aceita o outro assim como ele é, o reabilita por inteiro, e que procura conciliar
as relações humanas para que os que estão fora se integrem e tornem plena a sua alegria.
No entanto, deseja que o filho mais velho também participe desta alegria. O pai deixa claro
que nada mudou na sua relação para com ele. Delicadamente lembra-lhe que o filho mais
jovem continua sendo seu irmão. O diz com palavras de ternura. Chama-o de “meu menino”
(teckon), um termo mais familiar do que “meu filho”.

c) Conclusões
A imagem de Deus revelada nas três parábolas é de Deus misericordioso que “não
mata nem castiga”. Não exclui ninguém da salvação oferecida a todas e todos, e dá
prioridade aos pecadores, como conclui a primeira parábola: Eu vos digo que do mesmo
modo haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa
e nove justos que não precisam de arrependimento (15,7). Isso choca a nossa compreensão
de justiça e a imagem que nos fazemos da justiça divina. Muitos de nós queremos um deus
neutro, imparcial, que anota tudo no livro da vida e no dia do juízo premia os “justos” e
castiga os faltosos. O Deus de Jesus, revelado nestas parábolas, não é assim. Não é neutro.
Quer apaixonadamente a vida de todos e todas as suas filhas, e de modo especial, a vida
dos pecadores e das pecadoras. Esse agir de Deus explica as atitudes de Jesus de sentar-se
à mesa dos pecadores e pecadoras, porque a mesa do Reino de Deus é a mesa da
misericórdia.
Aceitar este Deus implica necessariamente em mudança de vida e de atitude. O filho
mais jovem, passado os dias de festa, terá de enfrentar e conviver com seu irmão dia a dia,
e viver com seu pai tendo parte da vida dele em tudo que lhe pertence. Essa felicidade o
irmão mais velho nunca perdeu, embora, pelo que parece, não a tivesse assimilado até
então.

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Não sabemos se o filho mais velho acabou entrando ou não. Mas uma coisa ficou
clara: o jeito misericordioso do pai não vai mudar. Se o filho aceitar entrar, terá de aceitar
também o seu modo misericordioso de ser. De duas uma: ou ele resiste amargurado, e aí
ele terá que sair de casa, ou ele também muda de atitude e descobre o jeito gostoso de ser
assim: misericordioso como o pai é misericordioso (Lc 6,36).
Como a parábola fica aberta, a resposta cabe a nós: aproximar-nos para ouvir o que
Jesus tem a ensinar como os publicanos e pecadores, ou continuar murmurando como os
fariseus e os escribas (15,1-2) contra os direitos humanos.
Aceitar o jeito misericordioso do Pai e o modo de ser de Jesus implica
necessariamente em renúncia e desapego do que consideramos “nosso”, “conquista nossa”.

Renúncia significa crer que o nosso irmão, mesmo quem nos abandonou e
traiu, vale mais do que a “nossa” mesa. [...] Não precisa esperar pela morte
do Pai para receber a herança. Ela está aí sempre. Não é herança: é a
nossa casa! Nossa e de todo nosso irmão que nela vive ou que a ela quiser
voltar (GALAZZI, 2003, p. 128-9).

Perguntar-se a si mesmo/a é preciso: será que mudaria de humor, entraria e


aceitaria? Estou disposto, disposta a aceitar esse
Que luzes dão estas parábolas sobre
Deus parcial que ama apaixonadamente a vida de o perdão e recuperação de pessoas
todos os irmãos e irmãs, incluindo nessa irmandade o perdidas (seres vivos ou coisas de
valor) em relação à política prisional
respeito e o direito à vida de todos os seres vivos?
e à redução da maioridade penal?
De aceitar que indígenas e pessoas da rua, gays,
lésbicas e transexuais sejam igualados a nós com os mesmos direitos e compartilhem da
mesma mesa em condições de igualdade? Tenho ao menos o desejo de ser assim,
misericordioso como o Pai?

Dica de Aprofundamento

Para aprofundar as reflexões sobre o livro de Lucas,


sugerimos a leitura do artigo: “No Caminho de
Emaús– Ele está no meio de nós! (Lucas 24,14-
31)”, de Mercedes Lopes e Carlos Mesters (2014).
Disponível em: <https://cebi.org.br/2014/05/02/no-
caminho-de-emaus-ele-esta-no-meio-de-nos-lucas-2414-
Fonte: http://migre.me/lQMBG
31-mesters-e-lopes-2/>. Acesso em: 17 abr. 2017.
* Depois poste no fórum da unidade suas reflexões.

112
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Antes de continuar seu estudo, realize o Exercício 7 e
as Atividades 4.1 e 4.2.

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UNIDADE 5

ATOS DOS APÓSTOLOS


OBJETIVO DA UNIDADE: Apresentar uma introdução geral ao livro de Atos dos
Apóstolos, segunda parte da obra lucana.

Nesta unidade estudaremos brevemente o livro de Atos dos Apóstolos, que forma
com o Evangelho segundo Lucas uma única obra. Como vimos na unidade anterior o
Evangelho segundo Lucas aborda a vida de Jesus Cristo, já Atos dos Apóstolos trata da vida
das primeiras comunidades cristãs. Uma vez que
já estudamos o contexto, os/as destinatários/as e
a mensagem do Evangelho segundo Lucas, nesta
unidade nos deteremos apenas em algumas
questões mais específicas de Atos. Por isso,
tenha sempre presente a contextualização
estudada no Evagelho segundo Lucas.
Fonte: http://migre.me/s79Cs

5.1 Aspectos gerais do livro de Atos dos Apóstolos

O livro de Atos dos Apóstolos forma com o Evangelho segundo Lucas, uma obra
única, possuindo assim os mesmos autores, destinatários/as, local e data. Bohn Gass (2005,
p. 44-45), destaca que Atos dos Apóstolos fala do começo das comunidades cristãs, mas o
faz numa perspectiva a partir dos apóstolos e de Jerusalém, sendo assim uma “teologia das
igrejas helenistas” que quer mostrar Jerusalém como ponto de partida, de onde Paulo leva a
Boa Nova, até os confins do mundo, ou seja o mundo greco-romano, por meio da força do
Espírito (At 1,8).
Podemos destacar quatro objetivos centrais do livro de Atos (BOHN GASS, 2005, p.
45-46):
1. Declarar a superação da Lei da pureza e impureza presente na tradição judaica, de modo
que as pessoas judias compartilhem da comunhão de mesa com pessoas de outras culturas
(At 10,34-35);
2. Mostrar a casa como principal espaço de vivência. O santuário é valorizado (At 2,46),
mas relativizado (At 6,8-7,53). As comunidades cristãs são a parte fiel à Lei e aos profetas,
já as autoridades são consideradas infiéis (At 21,20; 25,8);
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3. Auxiliar pessoas funcionárias do Império Romano a entenderem que podiam integrar as
comunidades cristãs, amenizando o conflito entre cristãos e o império, tanto que os autores
de Atos acusam as autoridades judaicas pela morte de Jesus (Lc 22,1-6.66-71);
4. Apontar como condição para as pessoas ricas serem cristãs a partilha dos bens com os/as
pobres (cf. Lc 12,16-21; 16,19-31; 19,1-10; At 4,32-5,11).
O livro de Atos dos Apóstolos pode ser estruturado na seguinte proposta (GASS,
2005, p. 46):

1-7: As igrejas de Jerusalém testemunham Jesus:


1-5: As comunidades-modelo lideradas pelos apóstolos;
6-7: Conflitos de mesa e de coordenação: helenistas X Jerusalém.

8-14: O testemunho do Messias nas igrejas helenistas de Antioquia:


8-12: De Jerusalém a Antioquia: Deus não exclui nenhuma pessoa.
13-14: Antioquia inaugura a mesa aberta a todos na Ásia Menor.

15,1-35: A Igreja de Jerusalém avaliza a missão para além dos judeus.

15,36-21,14: O testemunho da equipe de Paulo, o apóstolo modelo:


15,36-18,22: A segunda viagem missionária chega até a Europa;
18,23-21,14: Terceira viagem missionária.

21,15-28,31: O testemunho sobre Cristo é levado por Paulo até os


confins da terra:
21,15-26,32: Paulo preso em Jerusalém e Cesareia.
27,1-28,31: Paulo é levado a Roma, onde anuncia o Reino de Deus.

Enquanto o Evangelho segundo Lucas procura relatar os acontecimentos da vida de


Jesus (Lc 1,3), Atos dos Apóstolos quer mostrar a vida das comunidades cristãs como
realização das promessas por meio da ação do Espírito Santo, mesmo Espírito de Jesus
Ressuscitado. Pedro e Paulo são os apóstolos que recebem maior enfoque no livro,
enquanto que outros nem são mencionados (CRB, 1995, p. 65).
O livro de Atos pode ser lido e estudado a partir de diversas chaves de leitura (CRB,
1995, p. 69-73):
1. A caminhada da Palavra – quer mostrar como a Boa Nova de Jesus se espalhava,
tanto que um refrão dá unidade ao livro “a Palavra se expandia...” (cf. At 5,42; 6,7; 8,4.25;
9,31; 12,24; 13,49; 15,36; 19,20; 28,31);
2. O verdadeiro sentido da história – este sentido é a Ressurreição de Jesus, realização de
todas as promessas (cf. At 2,16.30.39; 3,13.22-25; 8,30-35);

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3. Irrupção do novo – um novo que surge fora do Templo, nas comunidades reunidas em
torno da fraternidade, oração, partilha do pão e dos bens, de um testemunho da Palavra
que vai aos confins do mundo (At 19,20);
4. O novo gerado em meio a conflitos – conflitos
com as autoridades que querem sufocar a
novidade (At 4,1-23) e na própria comunidade
por parte de pessoas que retêm as coisas para si
mesmas (At 5,1-11);
5. O desafio da inculturação – a Palavra que se
expandia rompe diversas barreiras culturais,
como as entre judeus e samaritanos (At 8,5-
Fonte: http://migre.me/s791g
8.25), com a evangelização e batizado de um
negro escravo, eunuco servo da rainha da Etiópia (At 8,26-40), com a conversão de
Cornélio, centurião romano, que acabou levando ao Concílio de Jerusalém (At 10,1-47), com
Paulo pregando no Aerópago de Atenas, a partir de textos da cultura grega (At 17,28),
entre outros;
6. A difícil convivência com o Império – transparece no livro o medo que as comunidades
cristãs têm da perseguição, mas ao mesmo tempo mostra-se que o Império não precisa
temer os/as seguidores/as de Jesus (cf. At 13,12; 18,14-17; 16,35-40; 19,40);
7. Paulo, o apóstolo modelo – apresenta Paulo como missionário-símbolo, com poderes
extraordinários (At 20,4), trabalhando junto com Pedro e os Doze (At 9,26-29), que age
sempre por delegação da comunidade (At 13,3) e trabalha para seu próprio sustento (At
18,3).

5.2 A comunidade cristã modelo de relações

Primeiramente faça a leitura de Atos 2,42-47; 4,32-37; 5,12-16. Esses textos não
descrevem tanto como foram as primeiras comunidades cristãs mas principalmente como
devem ser as comunidades cristãs, o modelo de comunidade, de relações.
O questionamento de fundo é: “Como deve ser uma comunidade para que seja sinal
de vida nova?”. Lucas propõe frente aos desafios de sua época, como vimos na
contextualização na unidade anterior, um modelo de vida para os/as primeiros/as
cristãos/ãs, sustentado por quatro colunas: “Eles perseveravam no ensinamento dos
apóstolos, na comunhão, na fração do pão e nas orações” (At 2,42), conforme veremos
detalhadamente a seguir (CRB, 1995, p. 93-96):

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1ª Coluna: Ensinamento dos apóstolos
O ensinamento dos apóstolos refere-se à nova interpretação da Vida e da Bíblia feita
a partir da experiência fundante da ressurreição de Jesus. Os/as cristãos/ãs romperam com
o ensinamento dos escribas, seguindo o ensinamento ‘dos doze pescadores’ sem instrução
(At 4,13), que vem dos sinais feitos na comunidade (At 2,43; 4,33; 5,12.15-16) e das
orientações que Jesus ressuscitado deu à Madalena, aos doze apóstolos, aos 120 díscipulos,
às mulheres e à multidão no Monte das Oliveiras (Mt 28,18-20; Mc 16,15; Lc 24,44-49; Jo
20,23; 21,17).

2ª Coluna: Comunhão
Os/as primeiros/as cristãos/ãs colocavam tudo em comum, de modo que não havia
pessoas necessitadas entre eles/as (At 2,44-45;
4,32.34-35). A partilha era de bens, mas também de
sentimentos e experiências de vida, tornando-os/as
um só coração e uma só alma (At 4,32; 1,14; 2,46).
O relato de Ananias e Safira (At 5,1-11)
mostra que essa comunhão é sagrada e que quem
abusa dela em benefício próprio “morre” para a
comunidade.
Fonte: http://migre.me/s78M6
3ª Coluna: Fração do Pão
A fração do pão, realizada nas casas (At 2,46; 20,7), fazia memória das tantas vezes
que Jesus partilhou o pão com os discípulos e entre os pobres (Jo 6,11), de quando o gesto
da partilha abriu os olhos dos discípulos de Emaús (Lc 24,30-35).

4ª Coluna: Orações
Atos dos Apóstolos aponta uma dupla missão: “Permanecer assíduos à Oração e ao
ministério da Palavra” (At 6,4). A oração criava o elo entre os/as cristãos/ãs e com Deus (At
5,12b) e dava força nos momentos de perseguição (At 4,23-31).

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Dica de Aprofundamento

Para aprofundar as reflexões sobre o livro de Atos dos


Apóstolos, sugerimos a leitura do artigo “Pentecostes:
ouvindo as maravilhas de Deus em nossa própria
língua!” de Edmilson Schinelo (2015). Disponível em:
<https://cebi.org.br/2015/03/01/pentecostes-ouvindo-
Fonte: http://migre.me/lQMBG
as-maravilhas-de-deus-em-nossa-propria-lingua-
edmilson-schinelo/>. Acesso em: 17 abr. 2017.
* Depois poste no fórum da unidade suas reflexões.

Antes de continuar seu estudo, realize o Exercício 8 e


a Atividade 5.1.

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REFERÊNCIAS
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EXERCÍCIOS E ATIVIDADES

EXERCÍCIO 1

Analise os enunciados a seguir:


I. As diferenças entre os evangelhos sinóticos decorrem da diversidade de
experiências que as comunidades fizeram, bem como do local e época da redação, e
ainda da intenção dos autores e dos destinatários de cada livro.
II. Analisando os relatos da ressurreição, podemos chegar à conclusão de que o mais
provável é de que a rearticulação do movimento de Jesus, após a sua morte e
ressureição, tenha ocorrido primeiro na Judeia, uma vez que todos os evangelhos
relatam o encontro de Jesus com os discípulos em Jerusalém.
III. Os evangelhos sinóticos são unânimes em atestar que as primeiras testemunhas
da Ressurreição são as mulheres. João, por sua vez, prefere insistir que Jesus
apareceu primeiramente a Pedro e aos Onze.
IV. Depois da Páscoa, o movimento cristão tinha como tema fundamental a
proclamação do Reino realizado em Jesus como “Cristo” e “Senhor”, Atribuir esse
título a Jesus, siginifcava reconhecer nele a realização da esperança profética na vinda
do Messias como servo sofredor. Ao mesmo tempo, era uma contestação da
divindade do imperador, que se dizia “Senhor” (Kyrios) e filho de Deus.

a) Apenas os enunciados I e IV estão corretos.


b) Apenas os enunciados I, II e III estão corretos.
c) Apenas os enunciados I, II e IV estão corretos.
d) Apenas os enunciados II, III e IV estão corretos.

Verifique seu aprendizado realizando o Exercício no Ambiente Virtual de


Aprendizagem.

EXERCÍCIO 2

Analise os enunciados a seguir:


I. Antes da redação dos evangelhos, é possível que tenham se constituído pequenas
coleções de sentenças e milagres de Jesus para servir de subsídio aos novos
evangelizadores, como Paulo e Barnabé. As sentenças de Jesus, decoradas em
aramaico na região da Judeia, podem ter sido traduzidas ao grego e copiadas para
novos missionários.
II. As igrejas abertas à cultura grega (helenistas) foram as principais responsáveis
pelo anúncio da Boa Nova de Jesus fora da Palestina. Mais críiticas ao templo e à Lei,
defrontaram-se diretamente com os que controlavam a Lei judaica e devem ter
sofrido as primeiras perseguições.
III. Para o Judaísmo monoteísta, o fato de Jesus ter sido tratado como divino não se
constituiu como problema. O que os judeus não aceitaram é que Jesus fosse o
Messias esperado.

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IV. Os evangelhos nasceram a partir dos anos 70 e foram fruto da necessidade de
criar uma identidade própria em relação à religião judaica. Até então os cristãos se
reuniam à parte, mas mantinham a mesma estrutura de base, as mesmas escrituras.
a) Apenas os enunciados I, II e III estão corretos.
b) Apenas os enunciados I, III e IV estão corretos.
c) Apenas os enunciados I, II e IV estão corretos.
d) Todos os enunciados estão corretos.

Verifique seu aprendizado realizando o Exercício no Ambiente Virtual de


Aprendizagem.

ATIVIDADE 1.1

Leia os textos paralelos do relato da transfiguração de Jesus (Mc 9,2-8; Mt


17,1-8; Lc 9,28-36), depois responda as seguintes questões:
 O que está no texto? (o lugar geográfico e seu significado; os personagens e o que
representam)
 Que diferenças ou particularidades se encontram no relato sinótico?
 O que significa a afirmação de que Jesus é o Filho amado do Pai a quem devemos
escutar ao dialogar com Moisés e Elias que representam a Lei e os Profetas?
 Em que sentido Jesus é o critério para interpretar toda a Escritura?

Submeta a atividade por meio da ferramenta Tarefa.

EXERCÍCIO 3

Assinale a alternativa correta:


a) No evangelho de Marcos encontramos a forma mais antiga da catequese da Igreja.
A redação final desse evangelho, portanto, com toda certeza se deu antes dos anos
60, como afirmam Papias e Inacio de Antioquia.
b) No evangelho de Marcos, há reflexões sobre a infância de Jesus, e ricos detalhes
sobre as aparições do Ressuscitado. Estão ausentes, porém, as grandes composições
de discursos de Jesus como em Mateus e João.
c) O surgimento do texto de Marcos está relacionado a três fatos importantes: o
desaparecimento da primeira geração de discípulos e discípulas; a acolhida de gentios
que não conheciam a cultura judaica, motivo de crise e conflito; a guerra contra Roma
que marcou a comunidade de Marcos e seu evangelho, quer tenha sido escrito
imediatamente antes, durante ou logo depois da guerra.
d) Sobre o local da redação de Marcos, há quem afirme que o texto tenha sido escrito
em Roma. Outros sugerem algum local próximo à Galileia, na fronteira leste do lago
de Genesaré, na Decápole, onde viviam povos de outras culturas. Mas nenhuma
dessas hipóteses tem qualquer fundamento.

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EXERCÍCIO 4

Assinale a alternativa INCORRETA:

a) Os destinatários do Evangelho de Marcos devem ter sido comunidades de origem


não judaica. Reforça essa hipótese a necessidade que o texto tem de explicar vários
termos aramaicos como Talíta kum, Effatha, Corban, Abba, Gólgota, Eloí, e costumes
judeus, como não comer com mãos “impuras”.
b) Para a redação do evangelho, os autores de Marcos possivelmente tiveram à sua
disposição: a tradição oral que se mantinha viva nas igrejas desde o início, com o
anúncio de Jesus como o Cristo/Messias e Salvador; algumas cartas de Paulo, a fonte
Q e o evangelho de Mateus; coleções sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus,
sobre suas parábolas e sobre sua atividade terapêutica.
c) Os objetivos fundamentais de Marcos são mostrar quem é Jesus de Nazaré e como
ser discípula, discípulo de Jesus de Nazaré. Os títulos atribuídos a Jesus ajudam a
mostrar quem é ele. Ponto alto se dá quando o oficial romano professa diante da
cruz: “verdadeiramente ele era o Filho de Deus”.
d) Marcos apresenta uma visão mais crítica em relação aos discípulos, que muitas
vezes não conseguem superar a “cegueira” da espera de um messias glorioso. Os
discípulos têm dificuldade de entender a proposta do Mestre, que passa pela cruz. A
um Cristo glorioso sem cruz segue um discipulado sem entrega de si mesmo.

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Aprendizagem.

ATIVIDADE 2.1

1. As parábolas não são ilustrações de ideias, mas uma forma narrativa para
abrir os olhos e ver o mundo de modo diferente e assim criar um novo jeito
de ser. São experiências únicas que, em si, não carecem de explicação,
importa o sentido geral. Leia Marcos 4,1-34 e responda:
 Por que Jesus fala em parábolas?

2. A fé dos pequenos e das pequenas viabiliza o projeto do Reino. Leia


Marcos 5,21-43 e responda:
 Que aspectos da relação de Jesus com as personagens do texto e das personagens
do texto entre si chamam sua atenção?
 Que relações nós precisamos revolucionar hoje?

3. Faça uma pesquisa sobre o Sínodo de Jâmnia (85-90 d.C.), o Judaísmo


rabínico, e seu papel na construção do canôn dos livros sagrados para os
judeus e na exclusão definitiva dos judeus-cristãos das sinagogas. Após
elaborar uma síntese (máximo 20 linhas) submeta-a aqui na tarefa e
partilhe-a com seus/suas colegas no fórum da unidade, ambas as
postagens (ferramenta de tarefas e fórum) fazem parte da atividade.

Submeta a atividade por meio da ferramenta Tarefa.

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EXERCÍCIO 5

Analise os enunciados a seguir:


I. Escrito para cristãos provenientes do judaísmo, o evangelho segundo Mateus
marca a passagem das promessas antigas para a realização em Jesus Cristo. Como
primeiro livro do Novo Testamento, faz a “ponte” com o Antigo. Sua estrutrura
contém cinco discursos de Jesus, como que correspondendo aos cinco livros da Lei.
II. Os autores do evangelho de Mateus tiveram acesso à possível “coleção de ditos de
Jesus” (Q), também utilizada por Lucas. Mas fizeram a opção de não utilizá-la, exceto
no caso do texto do sermão da montanha, que também se encontra em Lucas.
III. As comunidades que deram origem ao evangelho de Mateus certamente
procederam da Judeia, onde Pedro teve uma atuação marcante. Não por menos,
Pedro recebe maior destaque: ele é o primeiro a ser chamado e o único que confessa
Jesus como “Cristo, o filho de Deus”.
IV. Se o evangelho de Marcos foi marcado pelo contexto de guerra, a narrativa de
Mateus responde a outro contexto: a polêmica criada com a comunidade judaica,
conduzida pelos fariseus depois da destruição do templo. Por isso, Mt dá identidade
ao novo Israel, formado agora pelas comunidades cristãs.
a) Apenas os enunciados I, II e III estão corretos.
b) Apenas os enunciados I, III e IV estão corretos.
c) Apenas os enunciados II, III e IV estão corretos.
d) Todos os enunciados estão corretos.

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Aprendizagem.

EXERCÍCIO 6

Assinale a alternativa INCORRETA:


a) Em Mt, Jesus é apresentado como o novo Moisés, mais que um profeta, o mestre
da Justiça. Por isso, ao longo de todo o texto, observa-se a insistência de que Ele veio
para “cumprir toda justiça”.
b) Dos três sinóticos, Mateus é quem mais destaca que Jesus veio cumprir as
escrituras. Assim deseja sublinhar que Jesus, sua mensagem e sua atividade não
supõem um corte com o antigo, mas são o cume de todas as promessas.
c) Se para Marcos os discípulos são duros de entendimento, resistentes ao novo
aprendizado, Mateus apresenta uma imagem mais positiva dos discípulos. São mais
compreensíveis, tratam Jesus com respeito, confiam nele e não recebem do Mestre
muitas repreensões, como acontece em Marcos.
d) Diferentemente de Marcos, Mateus apresenta imagem não tão positiva da família
de Jesus. Diante da afirmação “sua mãe e os irmãos estão lá fora e procuram falar
com você”, Mateus afirma que Jesus responde: “Minha mãe e meus irmãos são
aqueles que fazem a vontade do meu pai, que está nos céus”. Mas Mateus
acrescenta: “Saíram para detê-lo, por que diziam: enlouqueceu”.

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ATIVIDADE 3.1

1. Em relação à apresentação que Marcos faz do protagonista do evangelho


(Mc 1,1-15), Mateus introduz uma série de alterações (Mt 3,1-4,11) que
ressaltam a continuidade entre João Batista e Jesus, e uma nova imagem
de Jesus que se faz igual a todos, que não se impõe pela força e não se
aproveita de sua filiação em benefício próprio.
 Que aspectos novos traz Mateus em relação a Marcos?
 Como você se situa diante da imagem de Jesus apresentada por Mateus?

2. Retome o conteúdo da unidade e elabore um texto (máximo 15 linhas)


apontando qual era o contexto social em relação às mulheres, na época do
Evangelho segundo Mateus, e cite pelo menos três aspectos de como este
evangelho avança/ enfrenta essa realidade?

Submeta a atividade por meio da ferramenta Tarefa.

EXERCÍCIO 7

Assinale a alternativa INCORRETA:

a) O Evangelho de Lucas é contemporâneo ao evangelho de Mateus, mas os públicos


são diferentes. Lucas escreve para pessoas de origem grega, em continuidade à obra
missionária de Paulo. E embora ambos tenham muitos textos em comum, cada um
tem o seu enfoque, objetivos e problemática a responder à luz da experiência pascal
de Cristo.
b) O Evangelho segundo Lucas insite no universalismo da missão de Jesus: Na
genealogia de Mateus, Jesus é apresentado como descendente de Abraão. Lucas
estende a genealogia até Adão, deixando a entender que Jesus veio para toda
humanidade. Lucas é ainda o único evangelista que fala do envio dos setenta e dois
discípulos, possível referência aos setenta e dois povos citados no livro do Gênesis.
c) Segundo Lucas, Jesus ressuscitado aparece aos discípulos e às discípulas em
Jerusalém, e não na Galileia, como afirmam Marcos e Mateus. Para Lucas Jerusalém
não é mais uma referência geográfica, mas uma referência teológica. O ponto de
chegada e o ponto de partida do mistério da salvação. Nele se realizou o êxodo
definitivo de Jesus, a sua Páscoa.
d) Se em Marcos encontramos uma configuração mais rural do evangelho, em Lucas
o caráter é predominantemente urbano. Entretanto, Lucas faz questão de insistir que
a salvação se destina em primeiro lugar às ovelhas perdidas de Israel, divergindo,
neste aspecto, da autêntica teolologia paulina.

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ATIVIDADE 4.1

Leia o coração do Evangelho segundo Lucas, capítulo 15, e responda as


questões a seguir:
 Se subdividirmos Lucas 15 teremos: Lc 15,1-3 – Introdução; Lc 15,4-7 – Parábola
da Ovelha Perdida; Lc 15,8-10 – Parábola da Moeda Perdida; Lc 15,11-32 – Parábola
do Pai Bondoso. Essa estrutura é chamada de quiasma, no centro encontra-se o
mais importante. Leia cada subdivisão e procure identificar qual a imagem de Deus
em cada uma delas? A que Deus é comparado?
 Qual a implicância da comparação utilizada em Lc 15,8-10, naquela época? E
hoje? Por que quase não utilizamos essa imagem de Deus?

Submeta a atividade por meio da ferramenta Tarefa.

EXERCÍCIO 8

Analise os enunciados a seguir:

I. Lucas e Atos dos Apótolos formam uma obra única em dois volumes, possuindo,
portanto, os mesmos autores e destinatários/as. O Livro de Atos dos Apóstolos fala do
começo das comunidades cristãs, mas a partir dos apóstolos e de Jerusalém. Como
“teologia das igrejas helenistas”, quer mostrar Jerusalém como ponto de partida.
II. De acordo com o livro de Atos, a Palavra se expandia rompendo diversas barreiras
culturais. São exemplo a relação entre judeus e samaritanos, a evangelização e o
batizado de um negro, servo da rainha da Etiópia, e com a conversão de Cornélio,
centurião romano. Aliás, de acordo com Atos, antes de ser batizados, os “pagãos” já
tinham o Espírito Santo e falavam em línguas.
III. O livro de Atos afirma que os/as primeiros/as cristãos/ãs colocavam tudo em
comum, de modo que não havia pessoas necessitadas entre eles/as. O relato de
Ananias e Safira, que esconderam dos apóstolos a verdade sobre seus bens, mostra
que nem todos conseguiam viver esse ideal.
IV. Uma leitura atenta do livro de Atos nos faz perceber que também era intenção do
autor auxiliar pessoas ligadas ao Império Romano a entenderem que podiam integrar
as comunidades cristãs. Entretanto, o conflito entre os cristãos e o império é
acentuado nas narrativas, de tal forma que os romanos são apresentados como
únicos culpados pela morte de Jesus e os judeus são totalmente isentados.
a) Apenas os enunciados I, II e III estão corretos.
b) Apenas os enunciados I, III e IV estão corretos.
c) Apenas os enunciados II, III e IV estão corretos.
d) Todos os enunciados estão corretos.

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ATIVIDADE 5.1

1. Leia Atos 3,1 – 4,22 e depois responda:


 Quais são as divisões, ou blocos, presentes no texto e que elementos criam a
unidade entre eles?
 Qual a situação do povo (econômica, política, social, religiosa, etc.), que aparece
no texto?
 De que forma o anúncio feito pelos apóstolos responde a situação?

2. Leia Atos 13,1-12 e depois responda:


 Que fatos são relatados no texto, pessoas, lugares e roteiro da primeira viagem
missionária?
 Qual o contexto em que nasce, cresce e se realiza o envio missionário?
 Que obstáculos precisam ser superados no anúncio do Evangelho?

3. Faça uma pesquisa e redija um breve texto (máximo 15 linhas) sobre o


que foi o Concílio de Jerusalém (At 10,1-47), apontando que questões
estavam em debate e como isso nos ajuda a compreender diversas
questões que ainda hoje precisamos ultrapassar.

Submeta a atividade por meio da ferramenta Tarefa.

ATIVIDADE 5.2

1. Leia o artigo “Messias Crucificado? Que loucura!”, de Mercedes Lopes, e


selecione abaixo a alternativa INCORRETA. (Disponível em: <
http://cebi.org.br/2016/03/21/morte-e-ressurreicao-so-ressuscita-quem-morre-
primeiro-lucas-2344-2412-mesters-e-lopes-2/>. Acesso em: 17 abril. 2017
a) Homens e mulheres de diferentes posições sociais e situações pessoais podiam
sentar-se juntos e compartilhar o pão com Jesus.
b) Paulo foca sua pregação na loucura da Cruz, que é loucura de Deus (1cor 1,25),
expressão do seu amor sem limites.
c) O projeto de Jesus da “mesa comum” ia de encontro à visão legalista da religião do
tempo dele.
d) Paulo descobriu que não se pode falar de ressurreição sem falar da Cruz e que a
Cruz não tem lógica, nem existem discursos capazes de explicá-la! (At 17,33).

2. Leia o texto “Acolhendo as/os excluídos/as – A mulher Cananeia ajuda


Jesus a descobrir a vontade do Pai”, de Carlos Mesters, e selecione abaixo a
alternativa incorreta. (Disponível em: <http://cebi.org.br/2015/08/31/acolhendo-
asos-excluidasos-a-mulher-cananeia-ajuda-jesus-a-descobrir-a-vontade-do-pai/.>.
Acesso em: 17 abril. 2017.

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a) A atitude da mulher cananeia abriu um novo horizonte na vida de Jesus pois,
através dela, ele descobriu melhor que o projeto do Pai é para todos/as os/as que
buscam a vida.
b) Era observando as reações e as atitudes das pessoas que Jesus descobria a
vontade do Pai nos acontecimentos da vida.
c) A atitude de abertura de Jesus era um estímulo para as comunidades não se
fecharem em si mesmas.
d) Os judeus não tinham problemas em conviver com pessoas estrangeiras.

3. Com base no conteúdo da unidade, assinale a alternativa incorreta sobre


o Evangelho segundo Mateus:
a) Contém cinco discursos de Jesus que correspondem aos cinco livros de Moisés.
b) Destaca o papel proeminente de Tiago.
c) Faz a ponte entre o Primeiro e Segundo Testamento.
d) Apresenta Jesus como o novo Moisés, mestre da Justiça.

4. Com base no conteúdo da unidade, assinale a alternativa incorreta sobre


o Evangelho segundo Lucas:
a) Provavelmente sua redação ocorreu em torno dos anos 70 d.C.
b) Primeira parte de uma obra única, da qual Atos dos Apóstolos é a segunda parte.
c) No prólogo do livro evidencia-se que o autor não foi testemunha ocular de Jesus.
d) Endereçado a Teófilo que significa ‘amigo de Deus’.

5. Sobre as ênfases do Evangelho segundo Lucas, aponte a alternativa


correta:
a) Oração, Misericórdia, Lei e Espírito Santo.
b) Espírito Santo, Oração, Misericórdia e Templo.
c) Mesa da Partilha, Misericórdia, Pureza e Serviço.
d) Espírito Santo, Oração, Misericórdia e Mesa da Partilha.

Submeta a atividade por meio da ferramenta Questionário.

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