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Anita Martins Rodrigues de Moraes

Renato Gonçalves Lopes

Literaturas africanas de língua


portuguesa: Cabo Verde,
Angola e Moçambique

Montes Claros/MG - 2012


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Maristela Cardoso Freitas Maria Narduce da Silva

Chefe do Departamento de Ciências Biológicas


Guilherme Victor Nippes Pereira
Autores
Anita Martins Rodrigues de Moraes
É mestre em Literatura Brasileira e doutora em Teoria da Literatura pela
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Desenvolveu, de 2008 a 2011,
pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), ocupando-se especialmente
da obra ficcional do escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho. Publicou, em
2009, sua tese de doutorado intitulada O inconsciente teórico: investigando
estratégias interpretativas de Terra Sonâmbula, de Mia Couto (co-edição
Annablume/Fapesp). Autora do presente Caderno Didático.

Renato Gonçalves Lopes


é mestre em Teoria e História Literária, com enfoque no ensino de literatura,
pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutorando na mesma
instituição, onde desenvolve pesquisa sobre dramaturgia. É professor de
literatura no nível médio de ensino desde 1999 e superior desde 2006, atuando
também como corretor de exames vestibulares. Autor do Caderno de Atividades.
Letras Português - Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Apresentação
Prezado(a) acadêmico(a):

Ainda que este Caderno seja intitulado Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: Cabo
Verde, Angola e Moçambique, destina-se ao estudo da disciplina Literatura Africana de Ex-
pressão Portuguesa, que será estudada neste oitavo período.
Este material não visa esgotar o conhecimento sobre o assunto, mas estimular a você na
constante busca da aprendizagem, confrontando ideias, sanando dúvidas e aumentando sua
capacidade argumentativa sobre o conteúdo abordado, com vistas a oferecer-lhe embasamento
teórico para discussões e aumentar seu acervo cultural sobre a Literatura Africana de Expressão
Portuguesa.
Saiba que este conteúdo é essencial na sua futura vida profissional. Em razão disso, estude-o
atentamente e faça as atividades propostas.

Bons Estudos!!
Sumário
Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

Unidade 1
Introdução aos Estudos das Literaturas Africanas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.1 Origem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.2 Oralidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12

1.3 Literatura e Identidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22

Unidade 2
Introdução à história das literaturas africanas de língua portuguesa . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26

Unidade 3
A literatura caboverdiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .29

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43

Unidade 4
A literatura angolana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

Unidade 5
Literatura moçambicana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72

Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73

Referências básicas, complementares e suplmentares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75

Atividades de aprendizagem - AA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Apresentação
Caro(a) acadêmico(a),

Neste caderno didático serão estudadas três literaturas africanas de língua portuguesa, as
literaturas de Angola, Moçambique e Cabo Verde. O objetivo do caderno é apresentar essas li-
teraturas numa perspectiva histórica, contextualizando-as e sugerindo a formação de tradições
literárias. Busca-se também o aprofundamento no estudo de questões particularmente impor-
tantes, como a questão da oralidade, a da identidade, a da presença da guerra na literatura e a
questão das relações entre as literaturas africanas de língua portuguesa e a literatura brasileira.
O caderno é composto por cinco unidades. A primeira unidade, de caráter introdutório, con-
tém capítulos dedicados a assuntos específicos: a origem das literaturas na África, a questão da
oralidade e a questão da identidade nas literaturas africanas. As unidades seguintes ocupam-se
da formação de cada uma das três literaturas africanas. A segunda unidade introduz aspectos
históricos gerais. A terceira unidade dedica-se à literatura caboverdiana, a quarta unidade se ocu-
pa da literatura angolana e a quinta unidade se volta para a literatura moçambicana. É importan-
te lembrar a ausência de muitos autores, pois a disciplina é breve diante da quantidade de escri-
tores e obras existentes. Tomamos a liberdade de selecionar alguns autores e temas que surgem
como mais relevantes no âmbito dos estudos dessas literaturas africanas atualmente, e sem os
quais um professor dessas literaturas não pode ir para a sala de aula. Contudo, continue pesqui-
sando, há muito mais o que conhecer!
Ao longo das exposições são introduzidos poemas, trechos de contos e romances, que per-
mitirão o contato direto com o texto literário. Pretende-se, também, que você, acadêmica(o),
possa se situar no âmbito da fortuna crítica dessas literaturas e de problemáticas africanas em
geral. Para tanto, serão trazidos para o debate escritores, pensadores e estudiosos das culturas e
sociedades africanas.

Bom proveito e bem-vindo às literaturas africanas de língua portuguesa!

Os autores.

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Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Unidade 1
Introdução aos Estudos das
Literaturas Africanas
Anita Martins Rodrigues de Moraes
Renato Gonçalves Lopes

1.1 Origem
Quando começa a literatura na África? O que se entende por literatura e por África? A ex-
pectativa de uma uniformidade cultural no continente africano, que está por trás desta pergunta
sobre uma só origem da literatura, merece ser, de início, repensada. Há uma diferença entre as
sociedades ao norte do Saara, que são de origem semítica, com relação às do sul.

◄ Figura 1: Mapa da
África.
Fonte: http://www.
suapesquisa.com/geo-
grafia/continente_afri-
cano.htm. Acesso em
24 de outubro de 2011

A chamada África negra corresponde à África ao sul do Saara, ou sub-saariana. As diferenças


entre as sociedades da África sub-saariana também são grandes, sendo a ideia de uniformidade
bastante ligada ao olhar de fora, do europeu, e ao conceito de raça, que também, na origem, faz
parte do pensamento colonial europeu. Portanto, vale a pena esperar uma diversidade cultural

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UAB/Unimontes - 8º Período

entre as sociedades africanas, o que não impede que possamos notar traços comuns, como a im-
portância da voz, da música, da dança, da contação de histórias, dos provérbios, como também
a importância do culto aos antepassados. Surge, aqui, mais uma pergunta: o contato com a es-
crita, com a técnica da escrita, acontece com a colonização do continente africano por parte dos
europeus? Lembremos que esta colonização tem origem com a expansão marítima na segunda
metade do século XV e adquire novo impulso em finais do século XIX. Primeiro: há somente uma
forma de escrita, a escrita alfabética? Não, há várias formas de grafia, e, nesse sentido, os hieró-
glifos do Egito podem ser considerados das mais antigas manifestações literárias na África. Mas
a técnica da escrita alfabética manteve-se desconhecida até o contato com os europeus? Cer-
tamente não. Vale lembrar que, ao norte do Saara e naquelas regiões ao sul que foram islamiza-
das há séculos, a escrita alfabética, de origem árabe, é uma atividade antiga, ligada ao estudo do
Alcorão. Sempre houve intensas relações comerciais entre as sociedades africanas, que incluíam
trocas culturais, sendo a técnica da escrita um bem a ser partilhado. Porém, no geral, a escrita
não destronou a voz. Paul Zumthor (1915-1995), importante estudioso europeu da poesia oral de
todo o mundo, considera que:

Embora, contrariamente a um preconceito muito difundido, as sociedades afri-


canas conheçam há séculos o uso da escritura, as culturas que elas elaboraram
no decorrer de sua história faziam da voz humana uma das molas do dinamis-
mo universal e o lugar gerador dos simbolismos cosmogônicos, mas também
de todo o prazer. (...) As culturas africanas, culturas do verbo, com tradições
orais de riqueza incomparável, rejeitam tudo que quebra o ritmo da voz viva;
em vastas regiões (no Leste e no Centro do continente), a única arte que se pra-
tica é a poesia e o canto. O Verbo, força vital, vapor do corpo, liquidez carnal
e espiritual, no qual toda atividade repousa, se espalha no mundo ao qual da
vida.” (Zumthor, 1997; p. 66)

Assim, se “literatura” quiser dizer “arte da palavra”, as origens da literatura na África remon-
tam a tempos muito antigos, pois sabemos que todas as sociedades africanas têm uma rica li-
teratura oral. Se “literatura” quiser dizer uma “atividade de expressão necessariamente escrita”
(em uma escrita alfabética), as origens são diversas, dependendo da região, sendo as regiões de
contato com o mundo islâmico aquelas que possuiriam uma literatura mais antiga. Se por “lite-
ratura” pensarmos na “escrita que faz uso do alfabeto de origem européia”, sua origem estará nas
relações coloniais, na história das relações entre as sociedades africanas e os colonizadores euro-
peus. Estas relações também são bastante diferentes de lugar para lugar, tanto pelas diferenças
que já existiam entre as sociedades africanas como pelas diferentes políticas coloniais (diferenças
entre o colonialismo português, britânico, francês, belga, holandês, etc.). Assim, podemos notar,
no continente africano, um forte vínculo entre a história colonial e a formação das literaturas em
línguas europeias.

1.2 Oralidade
Quando começamos a escrever, passamos a não falar mais? Certamente continuamos falan-
do, e a fala continua sendo uma atividade importantíssima em nossas vidas. Da mesma maneira,
não há nenhum povo que, fazendo uso da escrita, tenha resolvido parar de fazer uso da palavra
oral como forma mais importante de comunicação. Mesmo assim, podemos propor algumas dis-
tinções entre as culturas que fazem uso da escrita e aquelas que fazem uso apenas da voz. A es-
crita é uma técnica de reprodução e fixação, busca reproduzir e fixar o pensamento e a fala. Nas
sociedades de oralidade pura, sem escrita, são desenvolvidas estratégias de preservação, de me-
morização, que as sociedades de escrita tendem a perder. Mas todas as sociedades de escrita são
iguais? Não, certamente. Tampouco a escrita apenas manual tem o mesmo impacto cultural que
a imprensa, e a imprensa artesanal as mesmas consequências na vida das pessoas, se compara-
da à imprensa em escala industrial (que possibilitou os jornais, revistas, romances). De qualquer
forma, no desenvolvimento de técnicas de reprodução como a escrita, os indivíduos e as socie-
dades tendem a abandonar outras técnicas. Não se trata, assim, apenas de um ganho, mas de
transformações que incluem perdas. Gêneros das tradições orais, como os provérbios, os contos,
as epopeias, as canções, sofrem modificações, reinvenções, quando em contato com a escrita, se
esta técnica passa a ser adotada pela cultura.

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Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

As tradições orais africanas têm merecido grande atenção dos escritores africanos, que bus- PARA SABER MAIS
cam inscrevê-las e as reinventar em seus textos. O conto oral e o provérbio são gêneros da tradi- Procure, para conhecer
ção oral que aparecem bastante na literatura, como podemos notar na obra Things Fall Apart mais sobre esta prática
(título traduzido por O Mundo se despedaça), de 1958, do importante escritor nigeriano Chinua dos quiocos, o estudo
Achebe. O romance de Achebe nos conta como se dava, antes do colonialismo britânico, a con- de Mario Fontinha, in-
tação de histórias entre os Ibo (povo do qual o escritor se origina), quais histórias eram conta- titulado Desenhos na
Areia dos Quiocos do
das pelos homens aos jovens e quais eram contadas pelas mulheres às crianças. Para os jovens Nordeste de Angola
garotos, as histórias dos grandes feitos guerreiros; para as crianças, as histórias fabulosas, de bi- (Lisboa: Instituto de
chos que falam, de aventuras de crianças perdidas na mata, entre outras. Além da contação de Investigação Científica
histórias, vários escritores e intelectuais africanos destacam a importância dos provérbios nas e Tropical, 1983).
sociedades africanas. Segundo Ana Mafalda Leite, estudiosa das literaturas africanas em língua
portuguesa (professora da Universidade de Lisboa), “há gêneros de conversação, em África, que
consistem apenas em provérbios. (...) Este tipo de gênero revela‑se uma importantíssima forma
de educação, de filosofia (...)” (Leite, 2003; p. 45). Como exemplo de provérbio, um do povo ma-
cúa, que habita a região norte de Moçambique: “O barco de cada um está em seu próprio peito”.
Além da presença dos gêneros orais nas literaturas africanas escritas, presença que caracte-
riza também muito da literatura brasileira (pensemos nas obras de Mário de Andrade e de Gui-
marães Rosa, por exemplo), há a tentativa de registro escrito, especialmente por parte de mis-
sionários e antropólogos, das produções orais.
Esta passagem, do meio vocal/corporal, para o
meio escrito, carrega uma série de problemas.
Perde-se a performance, que é responsável por
muitos dos sentidos mais sutis das manifesta-
ções orais. Afinal, podemos imaginar a diferença
entre assistir e ler uma peça de teatro, não é? Os
quiocos, povo de Angola, costumam, inclusive,
desenhar pontinhos e linhas na areia enquanto
narram, compondo belos desenhos, obedecen-
do a padrões geométricos, que resumem a his-
tória narrada. Não seria esta uma bela forma de
grafia? Uma espécie de escrita/desenho que se
deixa apagar com o vento, como a voz...


Figura 2: Desenhando
na areia.
Fonte: http://portal-
doprofessor.mec.gov.
br/fichaTecnicaAula.
html?aula=28010. Acesso
em 24 de outubro de 2011

◄ Figura 3: Desenho que


acompanha história “A
cegonha e o leopardo”.
Fonte: http://portaldopro-
fessor.mec.gov.br/fichaTec-
nicaAula.html?aula=28010
Acesso em 24 de outubro
de 2011

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UAB/Unimontes - 8º Período

Em se tratando de gêneros puramente orais transcritos, perdemos o improviso, o movimen-


to, a modulação de voz, os gestos, a comunicação entre quem conta a história e quem ouve, a
alegria do encontro coletivo. Para não dizer da falta que faz a música, o som do tambor!

É uma das características originais das civilizações ao sul do Saara a importân-


cia da percussão em seu funcionamento social e seu comportamento lingüís-
tico. Outros povos, como os inuit [esquimós], certamente conferiram ao ‘tam-
bor’ um valor quase mágico: o gongô para os budistas e o sino para os cristãos
pertencem ao mesmo campo simbólico. Mas os dundun, cyondo, mudimba,
lunkumwu, nsambi, e outros ‘tambores’, com ou sem membrana, de todas as
formas e talhes, anunciam a palavra verdadeira, exalam o sopro dos ancestrais.
Uma tribo privada de seus tambores perde a confiança em si mesma e desmo-
rona. (...) Manipulado, como é a regra, de forma expressiva, o som do tambor
se enriquece de efeitos de intensidade, de conotações melódicas, o que às ve-
zes lhe permite, como entre os ioruba ou os akan, revezar o canto no decorrer
da perfomance. É nessa medida que ele assegura a conservação dos discursos
na memória. Ele constitui uma tradição oral específica e privilegiada no seio
da Tradição: vence a distância, estendendo-se por 5,20 km; sobretudo, abole o
tempo, protegendo de suas investidas. (ZUMTHOR, 1997, p. 177)

Além de superar distâncias, o ritmo do tambor auxilia na memorização, vencendo o tempo,


permitindo a transmissão da cultura pelas gerações. Como se complementasse os apontamentos
de Zumthor, Mia Couto lembra, no romance O outro pé da sereia (2006), que o som do tambor
remete à nossa vida dentro do útero materno: afinal, lá dentro, ouvimos o batuque do coração da
mãe, não é? Uma espécie “linguagem da vida”...
Nas sociedades tradicionais africanas, além da importância dos encontros festivos em que
se toca tambor, em que se contam e se ouvem histórias, todo trabalho costuma ser acompanha-
do de um canto. Cantar ajuda a dar ritmo ao trabalho, e produz um efeito interessante: o tra-
balho se torna parte de uma experiência maior, de integração do grupo e de relação do sujeito
com o mundo. Vale notar que é o sujeito, seu corpo e sua voz, que impõe um ritmo ao traba-
PARA SABER MAIS lho. Já numa fábrica, numa indústria, acontece o contrário: a máquina impõe um ritmo ao corpo
Leia, sobre este assun- do trabalhador. Com a industrialização, que teve início na Europa do século XVIII e XIX, muitas
to, o importante ensaio modalidades tradicionais de canto se perderam neste continente. Assim, podemos notar que as
de Walter Benjamin
mudanças nos modos de produção de uma sociedade tendem a interferir fortemente nas suas
intitulado “O narrador:
considerações sobre a manifestações culturais. O desenvolvimento da indústria e da imprensa em escala industrial mo-
obra de Nikolai Leskov”, dificou muito as relações de poder, as instituições, e as manifestações culturais nas sociedades
de 1936. europeias.
No século XX, a presença de carros altera mais uma vez a vida nas cidades, reduzindo so-
bremaneira os espaços públicos, de convívio. As declamações de poesia, as cantigas de feira, vão
perdendo espaço. Podemos notar, nesse mesmo sentido, grandes diferenças entre o modo de
vida nas cidades africanas e o modo de vida em suas áreas rurais, áreas que se mantêm quase
completamente de oralidade, com práticas culturais mais fortemente ligadas às tradições. Lem-
bremos que, na África, o impacto das transformações decorrentes do desenvolvimento do modo
de produção capitalista industrial chega com o colonialismo moderno. As produções literárias
africanas escritas em línguas europeias testemunham este processo. Como a literatura escrita é
uma prática relacionada à urbanidade, podemos notar que as literaturas africanas escritas trazem
em seu bojo as tensões entre tradição e modernidade, cultura rural e cultura urbana, identidade
nacional e identidade étnica ou regional.

1.3 Literatura e Identidade


O que é identidade e como esta questão se liga à literatura? A questão identitária é bas-
tante complexa, pois nós construímos nossas identidades ao longo de nossas vidas, sem nunca
chegarmos a concluí-la. Podemos pensar que nossa identidade pessoal consiste naquilo que nos
parece definir quem somos (posso ser ao mesmo tempo mulher, brasileira, mineira, católica, da
família Silva da Cunha, estudante, etc.). Podemos perceber que há vários âmbitos de nossa iden-
tidade, o familiar, o de classe social, de grupo social (religioso ou étnico, por exemplo), de gênero,
o âmbito profissional, o da idade, o da nacionalidade, entre outros. Algo que pode parecer mais
importante e permanente para definir a nossa identidade numa fase de nossas vidas pode não

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Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

ser mais tão relevante em outra fase, podendo também sofrer modificações, transformações. Um
exemplo: ser baiana na Bahia é diferente de ser baiana em São Paulo, os sentidos e valores deste
traço de identidade mudam. Em São Paulo, pode se tornar mais importante ser nordestino que
baiano, ou, se for o caso, ser negro pode ser mais importante que ser baiano ou nordestino, e,
assim, participar de eventos da comunidade negra de São Paulo destacaria este âmbito da iden-
tidade, em detrimento das outras.
Da mesma maneira que nossa identidade pessoal é múltipla e se transforma, as sociedades,
em seus processos históricos, oferecem maneiras diferentes de construção identitária, que tam-
bém se transformam. Assim, ser cristão na Europa nos séculos das cruzadas era dos traços mais
importantes de identificação; no século XIX, ser francês, alemão, belga, português, é que definia
mais fortemente a identidade das pessoas. A nacionalidade se torna, a partir de finais do sécu-
lo XVIII até meados do século XX, dos mais importantes traços identitários. É então que surge o
conceito de “Literatura Nacional”, atribuindo-se à literatura a função de apreender e expressar a
essência de uma identidade nacional. Quem quisesse saber o que significava ser alemão deveria
ler sua literatura, nela se expressaria o espírito da nação!
Esta ênfase na identidade e na literatura nacionais estava relacionada, no século XIX, às polí-
ticas coloniais. Terry Eagleton, em Teoria da Literatura: uma introdução, lembra que:

Chris Baldick chamou atenção para a importância da inclusão da literatura in-


glesa no exame para ingresso no serviço público vitoriano: armados dessa
versão comprimida de seus próprios tesouros culturais, os servidores do impe-
rialismo britânico podiam avançar para além mar, seguros no seu sentido de
identidade nacional, e capazes de demonstrar sua superioridade aos seus po-
vos colonizados. (EAGLETON, 1994, p. 31).

Assim, podemos notar que uma maneira violenta de afirmação identitária se dá pela des-
valorização do outro, daqueles que são diferentes, que não partilham da nossa identidade. Esta
violência caracteriza as situações coloniais, sendo que a desvalorização serve para justificar, con-
solidar e reproduzir formas de exploração e opressão. Temos que estar sempre muito atentos a
esse risco de forjar identidades a partir da negação do outro, pois muitas formas de violência se
desdobram daí. Primeiro, ficamos com uma imagem falsa de nós mesmos, achando-nos superio-
res; segundo, atrapalhamos os outros, ou até podemos participar de formas de violência e mes-
mo de eliminação (como no genocídio dos judeus pelos nazistas, no apartheid da África do Sul,
no genocídio de Ruanda, para ficarmos nesses exemplos extremos).
Muitas vezes esquecemos que as identidades são construídas, históricas, pois nos parecem
tão naturais! E esquecemos que um mesmo traço pode significar coisas muito diferentes, ou não
significar nada, em diferentes épocas ou lugares. Por exemplo, as sociedades indígenas do Bra-
sil passaram a se ver com uma identidade comum, indígena, ao longo das lutas contra a opres-
são dos colonizadores portugueses e do Estado brasileiro, não é mesmo? Esta identidade convi-
ve com outras, como ser kaiapó, panará, ianomami, guarani, etc. Da mesma maneira, pensar-se
como africano, como negro, como afro-americano ou afro-brasileiro, faz parte de uma história
de luta contra formas de exploração e opressão encabeçadas por europeus e, posteriormente,
americanos (tanto da América do Norte como do Sul). Neste processo, formas de diálogo intenso
ocorrem entre os grupos oprimidos, e surgem novas manifestações culturais, novas identidades,
que afetam, transformam e também convivem com as formas anteriores. No entanto, a diferença
entre as identidades afro-americanas e as identidades africanas precisa ser lembrada. Uma con-
sideração de Stuart Hall (importante representante dos Estudos Culturais, jamaicano radicado na
Inglaterra) pode ser de interesse aqui:

Na verdade, cada movimento social e cada desenvolvimento criativo nas artes


do Caribe neste século começaram com esse momento de tradução do reen-
contro com as tradições afro-caribenhas ou o incluíram. Não porque a África
seja um ponto de referência antropológico fixo – a referência hifenizada já
marca o funcionamento do processo de diasporização, a forma como a “África”
foi apropriada e transformada pelo sistema de engenho do Novo Mundo. A ra-
zão para isso é que a “África” é o significante, a metáfora, para aquela dimensão
de nossa sociedade e história que foi maciçamente suprimida, sistematicamen-
te desonrada e incessantemente negada e isso, apesar de tudo que ocorreu,
permanece assim. (HALL, 2003; p. 41)

Importa ter em mente, segundo Hall, que a “África” pode funcionar como metáfora em con-
textos americanos, envolvendo expectativas e projeções. Recorramos mais uma vez a Stuart Hall:

15
UAB/Unimontes - 8º Período

A África passa bem, obrigado, na diáspora. Mas não é nem a África daqueles
territórios agora ignorados pelo cartógrafo pós-colonial, de onde os escravos
eram seqüestrados e transportados, nem a África de hoje, que é pelo menos
quatro ou cinco ‘continentes’ embrulhados num só, suas formas de subsistên-
cia destruídas, seus povos estruturalmente ajustados a uma pobreza moderna
devastadora. A ‘África’ que vai bem nesta parte do mundo é aquilo que a África
se tornou no Novo Mundo, no turbilhão violento do sincretismo colonial, refor-
jada na fornalha do panelão colonial. (HALL, 2003; p. 40)

A África imaginada nas Américas não necessariamente coincide com as realidades do conti-
nente. Na África, a multiplicidade cultural e lingüística, que é imensa, muitas vezes fica apagada
pela ênfase na “identidade continental” comum. Alguns pensadores africanos criticam esta visão
uniformizante, entendendo que ela resulta do olhar de fora, do olhar do europeu. Este é o caso
do filósofo Kwame Anthony Appiah, de Gana, que em seu livro Na casa de meu pai: a África na
filosofia da cultura, considera:

Na verdade, (…), a própria África (como algo mais que uma entidade geográfi-
ca) deve ser entendida, em última instância, como um subproduto do racialis-
mo europeu; a idéia de pan-africanismo fundamentou-se na noção do africano,
a qual, por sua vez, baseou-se, não numa autêntica comunhão cultural, mas,
como vimos, no próprio conceito europeu de negro. (…) Dito de maneira sim-
ples, o curso do nacionalismo cultural na África tem consistido em tornar reais
as identidades imaginárias a que a Europa nos submeteu. (Appiah, 1992, p. 96)

Figura 4: Paulina ► Quando pensamos nas literaturas africanas, temos


Chiziane (1955- ), que considerar várias instâncias de identidade, como a
escritora moçambicana. racial, a continental, a nacional, a étnica, a de gênero,
Fonte: http://www.ikuska. todas historicamente construídas. Por vezes a identida-
com/Africa/Historia/
biografias/c/chiziane_pau-
de pensada em termos raciais sobressai, vemos poemas
lina.htm. Acesso em 24 de que afirmam a identidade negra e a luta dos negros de
outubro de 2011 todo mundo. Em Outras, afirma-se a identidade africa-
na, continental, destacando-se as especificidades do
continente. Nos períodos de luta contra o regime colo-
nial, a identidade nacional, mesmo que podendo estar
relacionada à identidade racial e continental, é que ga-
nha proeminência. Como estratégia para afirmar uma
identidade autônoma, distinta da do colonizador, o
recurso às tradições da oralidade foi muitas vezes im-
portante, como veremos. Mais recentemente, escrito-
ras africanas têm se colocado como produtoras de uma
literatura com características próprias, fruto do olhar
feminino sobre a realidade, como é o caso de Paulina
Chiziane (nascida em 1955), de Moçambique. Em seus
romances, a autora denuncia a opressão contra a mu-
Figura 5: Capa de seu ► lher, tanto no mundo tradicional como no âmbito das
livro Niketche: uma relações com o colonizador.
história de poligamia
(2002).
Quando refletimos sobre a questão da identidade,
Fonte: www.livrariacultura.
com.br/scripts/resenha/re- é importante pensar na convivência de identificações,
senha.asp?nitem=747541. e não em identidades únicas ou estanques (sobre este
Acesso em 24 de outubro assunto vale a pena ler, de Stuart Hall, A identidade
de 2011
cultural na pós-modernidade). Ruy Duarte de Carva-
lho (1941-2010), escritor e intelectual angolano, coloca-
-nos em contato com esta diversidade cultural africana
em Ondula, Savana Branca (1982), livro em que tra-
duz para o português, recuperando na escrita aspectos
da dimensão poética oral, vários textos recolhidos por
etnógrafos e missionários por todo o continente. Dos
Xhosa, da região sul de Moçambique e norte da África
do Sul, Ruy Duarte de Carvalho nos apresenta, numa
tradução livre, o seguinte poema:

16
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

As serras mais distantes separam-me de ti


as mais próximas sufocam-me.
Tivesse eu um martelo para esmagá-las
tivesse um par de asas como o pássaro
para voar sobre os caminhos longe.

Na construção das identidades nacionais africanas, da identidade africana e também da


identidade negra, as manifestações literárias tiveram (e ainda têm) um papel importante (inclu-
sive para reinventar, com apontamentos críticos, estas identidades, como em O outro pé da se-
reia, de Mia Couto). Podemos perceber como Noémia de Sousa (1926-2002), importante poeta
moçambicana, bastante tocada com a luta dos negros por direitos civis nos Estados Unidos, lida
com a questão da identidade negra e também com a moçambicana no seguinte poema de 1953:

DEIXA PASSAR O MEU POVO

Noite morna de Moçambique


e sons longínquos de marimba chegam até mim
– certos e constantes –
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar...
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os [nervos.
E Robeson e Marian cantam para mim
spirituals negros de Harlem.
“Let my people go”
– oh deixa assar o meu povo,
deixa passar o meu povo –,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
“Let my people go”.

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo...
(Dentro de mim, deixar passar meu povo,
“oh let my people go...”)
E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda – minha Irmã.

Escrevo...
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue da mesma seiva amada de [Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé – meu irmão – e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo,
noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso [do rádio
– “let my people go”.
oh let my people go.

E enquanto me vierem de Harlem


vozes de lamentação
e os meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insónia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:

17
“Let my people go”
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO
UAB/Unimontes - 8º Período

Este poema de Noémia de Sousa estabelece um diálogo muito revelador com um spiritu-
al norte-americano, “Let my people go”, que era cantado por Paul Robeson e Marian Anderson.
Enquanto ouve a música pelo rádio, alguém escreve. O poema fala de sua própria escrita, tendo,
assim, um caráter metalinguístico.
Também tratando da identidade negra como identidade ligada às lutas contra formas de ra-
cismo e opressão, o relevante poeta moçambicano José Craveirinha (1922-2002) escreveu o se-
guinte poema:

A MINHA DOR

Dói
A mesmíssima angústia

nas almas dos nossos corpos
Figura 6: Noémia
perto e à distância.
de Sousa, poeta
moçambicana (1926-
E o preto que gritou
2002), à esquerda.
é a dor que se não vendeu
Fonte: http://belanegra- nem na hora do sol perdido
raiz.blogspot.com/. Acesso nos muros da cadeia.
em 24 de outubro de 2011

Este poema de Craveirinha fala de formas de repressão, de violência, e da resistência do ne-


gro oprimido. Assim, a identidade negra vê-se associada à identidade do oprimido que resiste e
luta. Vale a pena ler, atentando para a convivência das identidades, os seguintes poemas do poe-
ta e primeiro presidente angolano Agostinho Neto (1922-1979):


Figura 7: José
Craveirinha (1922-2002),
poeta moçambicano.
Fonte: http://
mocambique.110mb.com/ ▲
paginas/literatura.html. Figura 8: Grafite do rosto de Agostinho Neto (1922-1979). Fotografia do artista angolano Jika Kissassunda
Acesso em 24 de outubro Fonte: http://www.buala.org/pt/vou-la-visitar/trimbiose-dna-cidadao-angolano. Acesso em 24 de outubro de 2011
de 2011.

ASPIRAÇÃO

Ainda o meu canto dolente


e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda
\o meu sonho de batuque em noites de luar

Ainda os meus braços


ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado


o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos


os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

18
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Ainda o meu espírito


ainda o quissange
a marimba
a viola Glossário
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco Marimba: instrumento
musical angolano se-
Ainda a minha vida melhante ao xilofone.
oferecida à Vida
ainda o meu desejo Quissange: instrumen-
to musical angolano,
Ainda o meu sonho espécie de pequeno
o meu grito xilofone.
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
no subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.

(AGOSTINHO NETO, 1974)

VOZ DO SANGUE

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem


ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto


a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas emaranhadas Áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

(AGOSTINHO NETO, 1982)

Podemos notar que o combate ao colonialismo participava da luta pelos direitos dos negros
de todo o mundo, oprimidos na África ou nas Américas. Na luta contra a opressão e a exploração
em geral, notamos que, no caso de Angola, Moçambique e Cabo Verde, a luta anti-colonial ga-
nhou contornos comunistas, de luta contra a exploração capitalista. O poeta angolano Antonio
Jacinto (1924- 1991) denuncia a situação de exploração no regime colonial/capitalista num belo
poema. Vejamos:

MONANGAMBA

Naquela roça grande não tem chuva


é o suor do meu rosto que rega as plantações;

19
UAB/Unimontes - 8º Período

Naquela roça grande tem café maduro


e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,


aos regatos de alegre serpentear
a ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?


Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
“porrada se refilares”?

Quem?

Quem faz o milho crescer


e os laranjais florescer
Glossário - Quem?
Monangamba: traba-
lhador, carregador Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
Tonga: trabalho de e cabeças de pretos para os motores?
limpeza das plantas de
café Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
Marufo: vinho de - Quem?
palmeira
E as aves que cantam,
Cabeça de pretos: o os regatos de alegre serpentear
nome de uma peça de e o vento forte do sertão
motor responderão:

- “Monangambééé...”

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras


Deixem-me beber marufo, marufo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

- “Monangambééé...”

Neste poema (incluído, mesmo não sendo seu autor negro, na importante antologia Poesia
negra de expressão portuguesa, organizada pelo poeta santomense Francisco José Tenreiro e
pelo intelectual angolano Mário Pinto de Andrade, publicada em 1953 em Lisboa – que incluía
também o poema “Deixa passar meu povo”, de Noémia de Sousa), a exploração do contratado
é denunciada por imagens que sugerem um corpo massacrado para a produção da riqueza do
patrão português. O poeta moçambicano José Craveirinha (1922-2003) recorre à estratégia se-
melhante em poema publicado no livro Xigubo (1964), mas com uma reviravolta surpreendente.
Vejamos:

GRITO NEGRO

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder, sim
e queimar tudo com a força da minha combustão.

20
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Eu sou o carvão
tenho de andar na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
Tenho que arder ATIVIDADE
queimar tudo com o fogo da minha combustão. Releia os poemas “Mo-
Sim! nangamba”, de Antonio
Eu serei o teu carvão, patrão! Jacinto, e “Grito negro”,
de José Craveirinha.
Neste poema, anuncia-se a luta, a resistência à opressão. O patrão sairia queimado... Tanto Primeiramente, analise
Antonio Jacinto como José Craveirinha foram presos por suas ideias, por sua literatura que bus- cada poema individual-
cava denunciar e combater a exploração e a opressão do colonizador português. mente, e, em seguida,
discuta suas seme-
No caso de Cabo Verde, a afirmação de uma identidade mestiça, crioula, consiste em traço lhanças e diferenças,
bastante permanente em sua literatura. Nesse sentido, destaca-se o seguinte poema de Manuel desenvolvendo uma
Lopes, importante claridoso (participante do movimento cultural que tinha na revista Claridade comparação.
seu principal veículo):

CRIOULO

Há em ti a chama que arde com inquietação


e o lume íntimo, escondido, dos restolhos,
– que é o calor que tem mais duração.
A terra onde nasceste deu-te a coragem e a [resignação.
Deu-te a fome nas estiagens dolorosas.
Deu-te a dor para que nela
sofrendo, fosses mais humano.
Deu-te a provar da sua taça o agri-doce da [compreensão,
e a humildade que nasce do desengano...
E deu-te esta esperança desenganada
em cada um dos dias que virão
e esta alegria guardada
para a manhã esperada
em vão...

(LOPES, 1964)

Vemos que a identidade crioula está associada fortemente à terra, ou seja, às condições cli-
máticas adversas das ilhas de Cabo Verde que teriam produzido um tipo humano com certas ca-
racterísticas particulares. Na opinião de José Carlos Gomes dos Anjos, professor de sociologia da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), esta construção identitária por vezes funcio-
nou para a afirmação de uma suposta superioridade dos cabo-verdianos com relação aos africa-
nos do continente. Em sua perspectiva,

O caso cabo-verdiano é mais uma demonstração do quanto as identidades (so-


bretudo as nacionais) são fluidas, de como se desmancham e se recompõem
no tempo, do quanto mudam, retornam e desaparecem. O que se pretende
evidenciar aqui é o caráter ideológico da identidade nacional, no sentido de
construto mental que visa legitimar construções e relações políticas. Sob esse
aspecto, as diferentes versões da identidade nacional adotadas pelas elites
politicamente dominantes buscam construir a “evidência” de que as principais
opções da governação estão fundadas nos “traços” mais sólidos da identidade
do “povo”.
Se o estudo da identidade nacional não pode ser reduzido ao seu aspecto ide-
ológico, certamente sua proclamação pelos “mediadores”, numa situação mar-
cada por certas relações de poder, exige da análise um enfoque privilegiado
sobre o quanto essas identidades mascaram, legitimam, justificam, servem de
modelo para ou de ações de poder. (Cf. “A condição de mediador político-cul-
tural em Cabo Verde: intelectuais e diferentes versões da identidade nacional”.
Revista Etnográfica, vol. VIII, 2004, http://ceas.iscte.pt/etnografica/docs/
vol_08/N2/Vol_viii_N2_273-296.pdf)

Ao estudarmos textos literários tendo em conta a problemática da identidade, é preciso


considerar os contextos sociais em que estão inseridos os textos, de maneira a pensarmos nos
usos e sentidos de certos traços identitários que vemos representados. Isto porque, como vimos,
os mesmo traços podem ter, em diferentes contextos, significados e efeitos distintos.

21
UAB/Unimontes - 8º Período

Referências
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lectuais e diferentes versões da identidade nacional”. Revista Etnográfica, vol. VIII, 2004, Lisboa.
Versão digital: http://ceas.iscte.pt/etnografica/docs/vol_08/N2/Vol_viii_N2_273-296.pdf

APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro:
Contraponto: 1997.

BENJAMIN, Walter. “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, in Obras escolhi-
das I: Magia e Técnica, Arte e Política. SP: Brasiliense, 1994.

CARVALHO, Ruy Duarte de. Ondula, Savana Branca. Luanda: UEA, 1989.

CHIZIANE, Paulina. Niketche: uma história de poligamia. SP: Companhia das Letras, 2004.

COUTO, Mia. O outro pé da sereia. SP: Companhia das Letras, 2007.

CRAVEIRINHA, José. Xigubo. Lisboa: Edições 70, 1980.

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma Introdução. SP: Martins Fontes: 1994.

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HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, UFMG; Brasília,
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__________. A identidade cultural na pós-modernidade. RJ: DP&A Editora, 2006.

LEITE, Ana Mafalda. Literaturas africanas e formulações pós-coloniais. Maputo: Imprensa Uni-
versitária - UEM, 2003.

LOPES, Manuel. Crioulo e outros poemas. Lisboa: Gráfica Eme Silva, 1964.

TENREIRO, Francisco; ANDRADE, Mário Pinto de. Poesia negra de expressão portuguesa
(1953). Lisboa: Editor África, 1982. Edição crítica organizada por Manuel Ferreira.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à literatura oral. São Paulo: Hucitec, 1997.

22
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Unidade 2
Introdução à história das
literaturas africanas de língua
portuguesa
Anita Martins Rodrigues de Moraes
Renato Gonçalves Lopes

A formação das literaturas africanas em línguas de origem europeia acompanha a história


colonial, de maneira a registrar as formas de resistência africanas aos regimes de opressão impos-
tos pelos países europeus. No caso específico de Portugal, uma nova política colonial se configu-
ra nos finais do XIX, após a Conferência de Berlim (1884-1885) e o Ultimatum inglês (1890), sendo PARA SABER MAIS
que as literaturas angolana e moçambicana, e parcialmente a cabo-verdiana, surgem como res-
A chamada Conferência
posta a esta nova, e brutal, investida colonial. de Berlim reuniu as
A ideologia que fundamentou a conquista mais efetiva dos territórios africanos (que se deu, no potências europeias in-
caso angolano, moçambicano e guineense, por meio das chamadas “Guerras de Pacificação”) prega- teressadas em colonizar
va que o homem negro era selvagem e inferior ao branco em termos raciais, devendo ser por este o continente africano
tutelado e civilizado. A mulher negra era alvo de uma desvalorização dupla, tanto porque a mulher de maneira efetiva,
tendo em vista explorar
era já vista como inferior ao homem, como porque esta nova política colonial era mais fortemente suas matérias primas.
racializada, havendo, por parte dos portugueses, um horror à mistura, à mestiçagem. De meados O Ultimatum inglês
do século XIX até a Segunda Guerra Mundial, o pensamento europeu era, em geral, avesso à mis- pôs fim às ambições
cigenação, considerando que o mestiço carregava todos os traços ruins das raças envolvidas. Este portuguesas de ocupar
pensamento, no caso português, foi formulado, entre outros intelectuais, por Teófilo Braga e Olivei- regiões entre Angola e
Moçambique. José Luís
ra Martins, companheiros de geração de Antero de Quental e Eça de Queirós. A geração de 1870, Cabaço trata destes
crítica da lamentável situação em que se encontrava Portugal, concebeu o projeto colonial como eventos em Moçam-
caminho para o engrandecimento do país. O poeta e historiador angolano Arlindo Barbeitos, inves- bique: identidade, co-
tigando este projeto colonial, aponta a depreciação da mulher negra na obra de Oliveira Martins: lonialismo, libertação.
Vale a pena conferir!
(...) cabe mostrar a opinião [de Oliveira Martins] acerca da mulher que se con-
serva em absoluto coerente com seu pensamento naturalista. Ela ‘é um ser
imundo, fraco e doente organicamente pelas regras periódicas e pela pre-
nhez... farrapo depois do uso, mísera, abjecta depois de reinar sobre a paixão
sensual humana: a mulher, perdida a proteção, a tutela e a sagração familiar,
é como foi antes que o casamento a tivesse levantado à dignidade de esposa.
A miragem da liberdade sedutora é uma ilusão: a liberdade natural que para o
homem pode ser império, é para a mulher servidão.’ Cinco anos mais tarde, ele
acrescenta em artigo de O Repórter que ‘a criação de uma burguesia de fême-
as é a coisa mais triste e mais desoladora desta nossa civilização (...) pobres cria-
turas fracas! Infelizes menores do gênero humano a quem a natureza deu a su-
ave e encantadora missão de nos engrinaldarem com rosas de carinho e amor
a vida atormentada!’. Esta atitude patriarcal mistificadora não diverge muito (...)
da do amigo António Enes que, como se disse, marcou toda uma escola de fun-
cionários coloniais que apenas finda com Marcelo Caetano. O seu fetichismo
racial potencia dramaticamente um ponto de vista antifeminino que culmina
em uma difamação da mulher negra, cujas sombras se pressentem na constan-
te condenação da mestiçagem. (Barbeitos, 2000, p. 603)

Na perspectiva de Barbeitos:

A obra martiniana corresponde para seu país quiçá a expressão mais bem arti-
culada, ou pelo menos mais prolífera, de um largo movimento filosófico, literá-
rio, artístico e político abrangendo todo o continente europeu e transbordan-
do para demais lugares que, entre outras coisas, desaguou no fascismo. Assim,
(...) a veia restauradora e elitista de Oliveira Martins, eivada de um romantismo
messiânico que recorda a memória de um Portugal valente, se concilia facil-
mente com o nacionalismo exacerbado, delirantemente racializado, e de pen-
dor fascista de um António Sardinha e de outros propagadores do Integralismo
Lusitano. (...) (Barbeitos, 2000, p. 606)
23
UAB/Unimontes - 8º Período

Ao estudar a formação das literaturas africanas de língua portuguesa (que são cinco, a mo-
çambicana, a angolana, a cabo-verdiana, a de São Tomé e Príncipe e a de Guiné-Bissau), devemos
lembrar que a ocupação do continente africano esteve, até meados do século XIX, restrita a faixas
litorâneas, não havendo ocupação efetiva do território por parte dos europeus. No caso de Cabo
Verde e de São Tomé e Príncipe, que são países insulares, devemos lembrar que eram desabitados
até a chegada dos portugueses, que criaram postos de comércio de pessoas escravizadas nessas
ilhas. Portanto, em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, o território foi ocupado por colonos portu-
gueses e por africanos escravizados; já nos territórios que hoje são Angola, Moçambique e Guiné-
-Bissau, havia muitos povos que se viram por três séculos também envolvidos no terrível comércio
de pessoas escravizadas e, em finais do século XIX, tiveram seus territórios invadidos e ocupados.

Em finais do século XIX, já tinham se formado elites urbanas luso-africanas em Cabo Verde,
Angola e Moçambique, resultantes dos séculos de tráfico de pessoas escravizadas (portanto, eli-
tes bastante ligadas ao Brasil, especialmente no caso angolano), muitos cargos importantes eram
ocupados por mestiços e mesmo por negros (desde que integrados ao modo de vida urbano). A
chegada dos novos colonos portugueses, intensificada a partir da década de finais do século XIX,
tende a marginalizar estas pessoas, particularmente em Angola e Moçambique, de maneira racis-
ta. Nas palavras do cientista social moçambicano José Luis Cabaço (autor da premiada tese Mo-
çambique: identidade, colonialismo, libertação, publicada em 2009 pela editora da Unesp),
em texto intitulado “Violência atmosférica e violências subjetivas: uma experiência pessoal”:

A sociedade colonial em Moçambique foi uma sociedade tendencialmente du-


alista, na qual a discriminação racial coincidia, reforçando-se, com a hierarqui-
zação econômica e a dominação. Após a ocupação territorial em finais de 1800
e a consequente migração de colonos de Portugal, a sociedade se foi polari-
zando em termos raciais e radicalizando os mecanismos de inclusão, coopta-
ção, marginalização e exclusão.
Nas primeiras duas décadas do século XX, a ação do governo colonial concen-
trou-se na eliminação dos chamados filhos da terra ou brancos da terra, a pe-
quena burguesia racial ou culturalmente mestiça, que se criara na fase do colo-
nialismo mercantil e escravista e que, na virada do século, detinha patrimônio,
ocupava importantes posições de segundo escalão no aparelho estatal e nas
empresas privadas operando no território e gozava ainda de um relativo capi-
tal simbólico nas sociedades urbanas. (CABAÇO, 2011; p. 214. Revista Brasileira
de Ciências Sociais, Vol. 26 n° 76; http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v26n76/13.pdf)
À medida que intelectuais e escritores de Angola, Moçambique e Cabo Verde passam a re-
agir à nova política colonial que os marginaliza, afirmando identidades próprias, que se diferen-
ciam da portuguesa, literaturas nacionais também começam a se formar. Assim, podemos flagrar,
na literatura, além dos inícios de uma reação ao novo colonialismo português, a formação de
consciências nacionais que levaria aos movimentos de libertação.

Figura 9: Territórios
invadidos e ocupados Ao longo do colonialismo português moderno, que dura por volta de um século (de 1875 a
por Portugal ao longo 1975), um marco importante é a ascensão de Antonio de Oliveira Salazar e, com ela, a instaura-
do período colonial ção de uma ditadura fascista em Portugal. Nesta ditadura fascista, que tem início em 1928 e se
Fonte: http://html.rin- encerra apenas em 1974 (com a Revolução dos Cravos ou Revolução de 25 de Abril), as colônias
condelvago.com/estudo-
-historico-e-filologico-do-
ocupam lugar de destaque. O seguinte mapa sugere a grandiosidade de Portugal (elaborado por
-portugues.html. Acesso Henrique Galvão, figura importante do período colonial português que se tornaria dissidente da
em 24 de outubro de 2011 política salazarista, vindo a falecer no Brasil; confira artigo de Alberto O. Pinto “Henrique Galvão
Em Terra de Pretos e em conflito com os brancos da Agência Geral das Colónias”, publicado na
revista Rascunhos Culturais, Campos de Coxim/Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
(UFMS), Volume 1, 2010, p. 123-144):
Desde 1926, a Agência Geral das Colônias (AGC) incentivou, por meio de prêmio anual, o de-
senvolvimento de uma literatura de louvor à política colonial portuguesa, produzindo-se, assim,
a chamada “literatura colonial portuguesa”. O estudioso moçambicano Francisco Noa, professor
da Universidade Eduardo Modlane, investigou a literatura colonial portuguesa relativa a Moçam-
bique em sua tese de doutoramento (publicada com o título Império, mito e miopia, em 2002).
Noa resume, recorrendo a Manuel Ferreira, as características dessa literatura:

Mais tarde, Manuel Ferreira define a colonialidade literária, a partir da análise


do romance O Vélo d’Oiro de Henrique Galvão, sustentando-se nos seguintes
critérios:
- Superioridade numérica das personagens brancas.

24
- Melhor tratamento estético dado a essas personagens.
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

- O estatuto a que têm direito: são normalmente protagonistas.


- O espaço físico é normalmente inóspito e que justifica acção do branco.
- O tom épico é dominante, numa espécie de “celebração colonial”.
- O ponto de vista dominante é europeu: visualização lusocentrista.
- O destinatário da ficção é o homem português vivendo em Portugal.
- O autor é português com vivência africana.
- O narrador apresenta uma “intencionalidade patriótica”. (NOA, 1999; p. 61; dis-
ponível em http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via03/via03_05.pdf)

As estratégias narrativas desenvolvidas pelas literaturas nacionais africanas buscam justa-


mente combater o paradigma colonial: se na literatura colonial o negro não passa de figurante,
sendo mesmo desumanizado (como vemos na capa de Antropófagos, de Henrique Galvão), nas
literaturas nacionais é protagonista; se a literatura colonial tem como destinatário o português,
as nacionais têm em vista um destinatário africano. O contato dos escritores africanos de língua
portuguesa com a literatura brasileira foi, nesse sentido, importante no período de formação das
literaturas nacionais. Algumas considerações de José Luís Cabaço, de caráter autobiográfico, são
reveladoras:
◄ Figura 10: Mapa da
superfície do império
colonial português
comparada com a dos
principais países da
Europa. Organizado por
Henrique Galvão, 1935.
Fonte Biblioteca Nacional
Digital (Portugal): http://
purl.pt/11440/1/P1.html.
Acesso em 24 de outubro
de 2011.

DICA
Sobre este assunto, co-
nheça o site organizado
por Diego Marques
como parte de sua
pesquisa de doutorado
desenvolvida na Uni-
camp: http://literatu-
racolonialportuguesa.
blogspot.com/2008/05/
feitio-do-imprio-parte-
-i.html

A reivindicação localista – a afirmação de éramos Moçambique e não Portu-


gal – transformava-se gradualmente em algo mais profundo, prenúncio, penso ATIVIDADE
hoje, do sentimento nacional. Tinha de conhecer a terra e as gentes a que me Redija uma reflexão
sentia pertencer. Comecei a ler autores norte-americanos e brasileiros. Jorge sobre as capas dos
Amado, com Jubiabá, deu-me a inédita experiência de um romance no qual o livros Antropófagos,
personagem principal era negro. Descobri a poesia de Craveirinha, Noémia, Rui de Henrique Galvão,
Nogar, os ritmos moçambicanos, a cultura popular e a arte tradicional. A ideia e Terra Conquistada,
de um Moçambique independente para todos ganhou forma nos decisivos de Eduardo Correia de
anos de 1959 a 1961. (CABAÇO, 2011; p. 216) Matos. Tenha em mente
as estratégias de repre-
A polícia política do regime fascista de Salazar, a PIDE, perseguirá os autores nacionalistas, sentação da literatura
“rebeldes”, de maneira dura, recorrendo a métodos escusos como a prisão sem justificativa e a colonial, como apresen-
tortura, tanto em Portugal como nas colônias. Vários escritores africanos foram presos ao longo tadas por Francisco Noa
das décadas de 1950, 1960 e 1970 por suas manifestações literárias de caráter crítico, nacionalis- no artigo “Literatura co-
lonial em Moçambique:
ta e combativo. Este foi o caso de escritores como Luandino Vieira (nascido em 1935), de Angola, o paradigma submerso”
e José Craveirinha (1922-2003), de Moçambique. Com a independência, muitos escritores se en- (Revista Via Atlântica,
volveram com a construção dos governos nacionais, ocupando importantes cargos públicos. Em n. 3. São Paulo: USP,
Angola, Agostinho Neto, poeta, torna-se presidente. Mesmo jovens estudantes, como era o caso 1999. Disponível em
do moçambicano Mia Couto (nascido em 1955), foram chamados a participar da consolidação http://www.fflch.usp.br/
dlcv/posgraduacao/ecl/
dos governos independentes. pdf/via03/via03_05.pdf)

25
UAB/Unimontes - 8º Período

Como muitas dificuldades se impuseram de maneira cada vez mais dura e o sonho de uma
sociedade mais justa e igualitária parecia se tornar cada vez mais distante, a literatura ganha gra-
dativamente um tom de crítica aos governos nacionais e de desencanto. Assim, enquanto a li-
teratura de pré-independências denuncia a violência da situação colonial e tem um caráter afir-
mativo, de conclamação à luta contra esta situação, a literatura de pós-independência critica os
desmandos da sociedade pós-colonial, abandonando o tom afirmativo dos discursos revolucio-
nários. A obra do escritor angolano Manuel Rui (nascido em 1941) é em grande medida marcada
por essa postura crítica (na novela Quem me dera ser onda, de 1982, Manuel Rui apresenta uma
dura crítica do governo comunista estabelecido pelo MPLA, sua burocracia e censura); a obra do
moçambicano Eduardo White (nascido em 1963) caracteriza-se pela busca de uma poesia de teor
mais pessoal, contrapondo-se aos imperativos coletivos da estética revolucionária (confira O país
▲ de mim, de 1989).
Figura 11: Capa do No caso de Angola e Moçambique, a brutal realidade das guerras civis contribui para o tom
romance Terra de desencanto na literatura. Grande parte da literatura produzida nestes países, tanto durante a
Conquistada (1946), guerra colonial como a partir da independência, estará marcada pela guerra. Em Moçambique,
Eduardo Correia de Matos a guerra de independência tem início em 1964 e termina em 1974; a guerra civil começa logo,
(1891-1971), vencedor
do Prêmio de Literatura em 1976, e dura até 1992. Em Angola, a guerra de independência começa em 1961 e termina
Colonial da AGC). em 1974; a guerra civil se instala de imediato, durando até 2001. Assim, mesmo com as indepen-
Fonte: http://literaturaco- dências, que em Angola se deu no dia 11 de novembro de 1975 e em Moçambique no dia 25 de
lonialportuguesa.blogs. junho de 1975, a guerra não termina por muito tempo nestes países. Os governos instaurados
sapo.pt/8503.html. Acesso tanto em Moçambique como em Angola são de orientação comunista, em plena Guerra Fria. Em
em 24 de outubro de 2011
Angola, havia mais de um movimento de libertação, o MPLA, a UNITA (União para a Independên-
cia Total de Angola) e a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola). Assim, após a indepen-
dência, em que o MPLA chega ao poder, ocorrem conflitos tanto internos ao MPLA como entre
estes diferentes movimentos.
Em Moçambique, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), chega ao poder, não
havendo outros movimentos. Porém, logo surge a RENAMO (Resistência Nacional Moçambica-
na), de início promovida por ex-colonos portugueses ligados à então Rodésia e ao regime do
apartheid da África do Sul (que termina apenas em 1994). Guerrilhas de desestabilização serão
encabeçadas por este país, com a intenção de derrubar os governos comunistas tanto angolano
como moçambicano. Em Cabo Verde não houve guerra dentro do território, tendo este país par-
ticipado da luta por sua independência em parceria com a Guiné-Bissau, onde muitos conflitos
armados se deram.


Figura 12: Capa
de livro pseudo-
científico de Henrique
Referências
Galvão, intitulado
Antropófagos (1947),
sobre a suposta prática BARBEITOS, Arlindo. Oliveira Martins, Eça de Queiroz, a raça e o homem negro. In Actas da III
do canibalismo em Reunião Internacional de História de África: A África e a Instalação do Sistema Colonial (c.
terras africanas. 1885-c. 1930). Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga do Instituto de Investigação
Fonte: http://www.livraria- Científica Tropical. Lisboa 2000.
ferreira.pt/4115/ANTROPO-
FAGOS. Acesso em 24 de CABAÇO, José Luiz. Moçambique: Identidade, Colonialismo e Libertação. São Paulo: Unesp,
outubro de 2011
2009.

__________. Violência atmosférica e violências subjetivas: uma experiência pessoal. Revista


Brasileira de Ciências Sociais. Vol. 26, n° 76; São Paulo, Junho de 2011; p. 214. http://www.scielo.
br/pdf/rbcsoc/v26n76/13.pdf

NOA, Francisco. Literatura colonial em Moçambique: o paradigma submerso. Revista Via Atlân-
tica, n. 3. São Paulo: USP, 1999. Disponível em http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/
pdf/via03/via03_05.pdf

____________. Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária. Lisboa: Editorial
Caminho, 2002.

26
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

PINTO, Alberto Oliveira. Henrique Galvão Em Terra de Pretos e em conflito com os brancos da
Agência Geral das Colónias. In Rascunhos Culturais. Campos de Coxim/Universidade Federal do
Mato Grosso do Sul (UFMS), Volume 1, 2010, p. 123-144.

RUI, Manuel. Quem me dera ser onda. Lisboa: Cotovia, 2001.

WHITE, Eduardo. O país de mim. Maputo: AEMO, 1989.

27
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Unidade 3
A literatura caboverdiana
Anita Martins Rodrigues de Moraes
Renato Gonçalves Lopes

◄ Figura 13: Mapa de


Cabo Verde.
Fonte: http://www.
biblioteca.ifc-camboriu.
edu.br/criacitec/tiki-index.
php?page=CABO+VERDE

PARA SABER MAIS


Atualmente, a popu-
lação de Cabo Verde é
de 500 mil pessoas. Há,
porém, em torno deste
mesmo número de
caboverdianos vivendo
no exterior, especial-
mente nos Estados
Unidos e em Portugal.

Ao estudarmos as literaturas africanas de ◄ Figura 14: Bandeira de


língua portuguesa, precisamos ter sempre em Cabo Verde.
mente as especificidades de cada literatura Fonte: http://www.
nacional, prestando atenção para a história da biblioteca.ifc-camboriu.
edu.br/criacitec/tiki-index.
formação de cada país. Isto porque, mesmo ha- php?page=CABO+VERDE.
vendo aproximações possíveis, devedoras da Acessos em 24 de outubro
experiência colonial portuguesa comum, as di- de 2011
ferenças são muito grandes.
As ilhas que compõem o arquipélago de
Cabo Verde foram, como vimos, paulatinamen-
te ocupadas por portugueses e africanos escra-
vizados.

29
UAB/Unimontes - 8º Período

DICA Situado a 650 km da costa senegalesa, todo o processo de construção da iden-


tidade nacional cabo-verdiana tem o continente africano como referência, seja
Visite a página de Simo- para uma afirmação de distanciamento, ou para uma afirmação de proximida-
ne Caputo Gomes, em de ou de pertencimento. Colonizadas por Portugal desde 1460, as ilhas foram
que estão disponibili- povoadas por diversas etnias da parte da costa africana então conhecida como
zados diversos artigos: Guiné. (ANJOS, p. 273)
http://www.simoneca-
putogomes.com
Na perspectiva de Simone Caputo Gomes, estudiosa da literatura e da cultura caboverdianas:

Apesar do peso da dominação cultural que durou cinco séculos, o cabover-


diano cedo começou a resistir, reivindicando a sua identidade. Essa resistência
expressava-se através da fala cabo-verdiana (o crioulo), das vozes entoando
mornas, das cantigas de trabalho, dos repiques do batuque, da euforia do funa-
ná dançado, dos poemas engajados, dos contos “di bóka i tardi”, que junto às
manifestações coletivas como a tabanca, se somavam à resistência organizada
que desencadeou as lutas de libertação nacional.
Em meio a esse processo, malgrado as marcas profundas que somente o con-
tinuado trabalho de gerações poderá apagar, o homem caboverdiano situa-
-se, tanto no contexto africano quanto no universal, como personalidade so-
ciocultural autônoma, singular, como enfatizam Manuel Ferreira (A aventura
crioula) e Gabriel Mariano (Cultura caboverdeana: ensaios). Para Mariano,
o processo aculturativo em Cabo Verde desabrochou no florescimento de ex-
pressões novas de cultura, mestiças desde as suas origens mais remotas. (GO-
MES, 2008; p. 127)

▲ Para a estudiosa, que adere à afirmação de uma identidade cabo-verdiana pela mestiçagem,
Figura 15: Poeta,
o grande nome da literatura de finais do século XIX em Cabo Verde seria Eugênio Tavares (GO-
escritor e compositor
cabo-verdiano Eugênio MES, 2008; p. 129).
Tavares (1867-1930) Este poeta foi dos primeiros que trouxe à literatura traços da cultura do povo caboverdia-
Fonte: http://liberal.sapo. no, fazendo uso do crioulo e compondo mornas. Vejamos um exemplo:
cv/noticia.asp?idEdicao=6
4&id=23953&idSeccao=51 Morna de Despedida (Hora di Bai)
8&Action=noticia
Hora di bai,
Hora di dor,
Ja’n q’ré
Pa el ca manchê!
De cada bêz
Que ‘n ta lembrâ,
Ma’n q’ré
Fica ‘n morrê!

Hora di bai,
Hora di dor,
Amor,
Dixa’n chorâ!
Corpo catibo,
Bá bo que é escrabo!
Ó alma bibo,
▲ Quem que al lebabo?
Figura 16: Capa do
livro Mornas: Cantigas Se bem é doce,
Crioulas, de 1932. Bai é maguado;
Fonte: http://www. Mas, se ca bado,
eugeniotavares.org/ Ca ta birado!
docs/pt/obra/mornas. Se no morrê
html. Acessos em 24 de Na despedida,
outubro de 2011.
Nhor Des na volta
Ta dano bida.

Dixam chorâ
Destino de home:
Es dor
Que ca tem nome:
Dor de crecheu,
Dor de sodade
De alguem
Que’n q’ré, que q’rem...

30
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Dixam chorâ
Destino de home,
Oh Dor
Que ca tem nome!
Sofrí na vista
Se tem certeza,
Morrê na ausencia,
Na bo tristeza!

Tradução:

Hora da partida
Hora de dor
É meu desejo
Que ela não amanheça [que não chegue a hora]
De cada vez
Que a lembro
Prefiro
Ficar e morrer.

Hora da partida
Hora de dor!
Amor,
Deixa-me chorar
Corpo cativo
Vai tu é escravo
Oh alma viva
Quem te há-de levar?

Sua chegada é doce


A partida é amarga
Mas se não partir [mas quem não parte]
Não se regressa [não regressa]
Se morrermos na despedida
Deus no regresso
Dar-nos-á a vida.

Deixa-me chorar
O destino do homem
Oh dor
Que não tem nome:
Dor de amor
Dor de saudade
De alguém
Que eu quero, que me quer...

Deixa-me chorar
O destino do homem
Oh dor
Que não tem nome!
Sofrer junto de ti
Sem ter a certeza
Morrer na ausência
Com a tua tristeza

(FERREIRA, 1975; p. 296-298)

Nesta morna, em língua crioula, ainda hoje cantada pelo povo caboverdiano, testemunha-
-se a dor da partida, tema recorrente na literatura. Lembremos que a emigração é fenômeno fre-
quente na história de Cabo Verde, buscando a população melhores condições de vida.
Simone Caputo Gomes também destaca, como pré-claridosos, José Lopes (1872-1962), Pe-
dro Cardoso (1883-1942), Januário Leite (1867-1930) e Guilherme Ernesto (pseudônimo de Félix
Lopes da Silva, 1889-1967). São estes chamados de pré-claridosos por antecederem o lançamen-
to da revista Claridade, de 1936. Para o pesquisador Benjamin Abdala Jr.,

A literatura de Cabo Verde pode ser dividida em dois períodos: antes e depois
da revista Claridade (1936-1960). A trajetória dessa revista corresponde a cir-
cunstâncias políticas, sociais, históricas e literárias que, a partir da década de
30, levaram os escritores caboverdianos a se preocuparem com a identidade
de sua literatura, uma identidade com marcas regionais que viriam a evoluir, a

31
UAB/Unimontes - 8º Período

partir da Segunda Guerra Mundial, para uma ruptura mais acentuada, de cará-
ter nacional, em relação aos padrões literários metropolitanos. (ABADALA Jr.,
2003; p. 209)

Segundo Manuel Brito Semedo, estudioso caboverdiano, o movimento cultural em torno da


revista Claridade manteve um diálogo estreito com a literatura modernista brasileira:

O movimento literário cabo-verdiano da revista Claridade não brotou como a


água da rocha de Moisés. Antes dos anos 30 desenvolveu-se em Cabo Verde
um ambiente propício a anseios literários.
Nos meados do séc. XIX foi iniciada a generalização da instrução e criada a
imprensa, a qual veio a conhecer o seu período áureo nos primeiros anos da
República Portuguesa [que começa em 1910]. É desse período que remontam

nomes de poetas e prosadores que angariaram audiência e prestígio, tais como
Figura 17: Foto do poeta
Guilherme Dantas, Guilherme Ernesto, Januário Leite, José Lopes, Eugénio Ta-
Jorge Barbosa (1902-
vares e Pedro Cardoso. Posteriormente, nos fins da década de 20, apareceram
1971).
em Cabo Verde alguns números da revista modernista portuguesa Presença
Fonte: www.antoniomiran- que foi a primeira força catalisadora do novo surto literário. Contudo, é o co-
da.com.br/poesia_africa-
nhecimento do modernismo brasileiro e do romance nordestino, nos anos 30,
na/cabo_verde/jorge_bar-
bosa.html que dinamiza o surgimento duma genuína literatura cabo-verdiana. É assim
que é comum falar-se, e sob os mais diversos aspectos, do quanto a geração da
Claridade deve a esse período da literatura brasileira. (SEMEDO, 2001; p. 254;
texto completo disponível http://www.fflch.usp.br/cea/revista/africa_022/af16.
pdf)

O diálogo com o modernismo brasileiro fica evidenciado, entre outros momentos, nos po-
emas de Osvaldo Alcântara (pseudônimo de Baltasar Lopes) que parodiam “Vou-me embora pra
Pasárgada”, de Manuel Bandeira. Vejamos:

Itinerário de Pasárgada

Saudade fina de Pasárgada...

▲ Em Pasárgada eu saberia
Figura 18: Capa da do onde é que Deus tinha depositado
primeiro volume da o meu destino...
revista Claridade, 1936.
Fonte: http://pt.wikipedia. É na altura em que tudo morre...
org/wiki/Claridade. (cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;
Acessos em 24 de outubro a vizinha acalenta o sono do filho rezingão;
de 2011 Tói Mulato foge a bordo de um vapor;
o comerciante tirou a menina de casa;
os mocinhos da minha rua cantam:
Indo eu, indo eu,
a caminho de Viseu...)

Na hora em que tudo morre,


esta saudade fina de Pasárgada
é um veneno gostoso dentro do meu coração.

(de 1946, publicado na revista Atlântico)

Baltasar Lopes (1907-1989), ao lado de Jorge Barbosa (1902-


1971) e Manuel Lopes (1907-2005), encabeçou o movimento cla-
ridoso. Sua prosa também foi fortemente influenciada pelo mo-
dernismo brasileiro, especialmente pelo chamado romance do
nordeste. Seu livro Chiquinho, de 1947, pode ser aproximado de
Menino de engenho (1932), de José Lins do Rego, por exemplo.

▲ Figura 20: Capa do Chiquinho,


Figura 19: Imagem de de 1947.
Baltasar Lopes Fonte: http://diasquevoam.blogs-
pot.com/2009_03_21_diasquevo-
Fonte: http://pt.wikipedia.
am_archive.html. Acessos em 24
org/wiki/Baltasar_Lopes_
da_Silva ◄ de outubro de 2011

32
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Manuel Lopes, também sob influência do romance do nordeste, escreveu, além de poemas, ro-
mances e contos. A pesquisadora Vima Lia Martin (professora da Universidade de São Paulo), com-
para o romance Os flagelados do vento leste (1959) a Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos.
Como lembra Martin,

Naquela altura, a literatura regionalista brasileira foi ao encontro das demandas


dos autores que buscavam afirmar a chamada “caboverdianidade”. E a similari-
dade climática existente entre o nordeste brasileiro a as ilhas de Cabo Verde –
espaços marcados por longas estiagens – favoreceu ainda mais a recepção das
obras brasileiras no contexto africano. (...)
Nas duas narrativas, a força dominadora da paisagem é apresentada de modo
determinante desde o início de suas páginas, num conjunto de situações que
realçam as inter-relações entre as personagens e o espaço. (...)

Nos dois casos, o drama da seca é anunciado como fator que gera a grande pri-
Figura 21: Fotografia de
vação das personagens miseráveis. E o imaginário da terra é esboçado, princi-
Manuel Lopes (1907-
palmente, a partir da perspectiva dos que dela dependem para sobreviver. Nos
2005)
romances de Graciliano Ramos e de Manuel Lopes, a variação do clima interfe-
re diretamente no estado de ânimo das personagens, determinando sentimen- Fonte: www.antonio-
miranda.com.br/poe-
tos de preocupação e esperança, conforme sua oscilação. (MARTIN, 2008a) sia_africana/cabo_verde/
manuel_lopes.html
Tratando da incorporação da língua crioula no romance de Manuel Lopes, Martin considera:

Rico em diálogos, o romance se vale de muitas onomatopéias e de farta pontu-


ação para simular uma dicção coloquial:

“- Também sinto a boca do estômago a doer – continuou a viúva num tom de


lamúria – como se eu tivesse engolido uma brasa de lume, ui!(...)
- Abrenúncio, mulher! O quê qu’ocê tá contando?!” (Os flagelados do vento
leste, p. 106-7)

Vale notar que a fixação literária de uma fala caboverdianizada encontra-se


melhor constituída em outros romances da época, como, por exemplo, em A
hora de bai, de Manuel Ferreira (1962). O próprio título dessa narrativa faz re-
ferência direta a uma das mornas mais tradicionais de Cabo Verde, “Morna de
despedida”, do poeta Eugênio Tavares, cujo primeiro verso é justamente “hora
de bai”, que significa “hora da partida”. No romance de Ferreira, o português-
-padrão, o português oralizado e o crioulo – a língua nacional caboverdiana –
coexistem tanto no discurso do narrador como na fala das personagens. Des- ▲
se modo, as raízes crioulas do povo caboverdiano ganham estatuto artístico e Figura 22: Capa de seu
acabam por dinamizar, de um modo mais orgânico, o sistema literário nacional livro Os flagelados do
que estava em formação. (MARTIN, 2008a) vento leste, de 1959
Fonte: http://www.caboin-
2. Vima Lia Martin elaborou, em parceria com Roberta Hernandes, material didático de lín- dex.com/os-flagelados-
-do-vento-leste/
gua portuguesa, para nível médio, que contempla todas as literaturas de língua portuguesa, in- Acessos em 24 de outubro
cluindo as africanas, trata-se do Projeto Eco Língua Portuguesa. Confira! de 2011
Vemos que Martin chama a atenção para a implícita hierarquia construída no romance de
Manuel Lopes entre a língua crioula, falada por personagens, e o português padrão, presente na
voz do narrador. Manuel Ferreira, com A hora de bai, ao incorporar traços do crioulo na fala do
narrador, subverteria a hierarquia entre as línguas, hierarquia que não deixa de ser um legado co-
lonial (Manuel Ferreira nasceu e cresceu em Portugal, tendo se envolvido com Cabo Verde e sua
literatura de maneira intensa, refletindo sobre a cultura caboverdiana em A aventura crioula, de
1967; tornou-se estudioso das literaturas africanas de língua portuguesa, tendo organizado im- DICA
portantes antologias críticas, como No reino de Caliban). Leia o artigo de Vima
O interesse dos claridosos pela literatura brasileira partia da percepção de afinidades en- Lia Martin “Ressonân-
tre Cabo Verde e Brasil. Para estes intelectuais, a mestiçagem seria fenômeno comum aos dois, cias do regionalismo
brasileiro na litera-
mesmo havendo particularidades em cada país. Gilberto Freyre foi, então, leitura obrigatória. tura de Cabo Verde”,
Lembremos que sua obra magna, Casa Grande e senzala, fora publicada em 1933, impactan- acessível em: http://
do fortemente não apenas a intelectualidade brasileira, mas também intelectuais portugueses e www.apropucsp.org.
africanos (dos países que então eram colônias de Portugal). Para Fernando Arenas (Professor de br/apropuc/index.
Estudos Culturais Lusófonos no Departamento de Estudos Espanhóis e Portugueses na Universi- php/revista-cultura-
-critica/41-edicao-
dade de Minnesota, EUA), -no08/545-ressonan-
cias-do-regionalismo-
As bases teóricas do que seria o lusotropicalismo estender-se-ão eventualmen-
-brasileiro-na-literatura-
te a praticamente todo o império colonial português a partir de uma série de
-de-cabo-verde
conferências proferidas [por Gilberto Freyre] na Europa em 1937 e reunidas na
obra O mundo que o português criou (1951), onde se exalta a miscigenação e
a mestiçagem, sobretudo relativamente ao Brasil, embora projectando-se para

33
o resto do império. (ARENAS, 2010)
UAB/Unimontes - 8º Período

Entre 1951 e 1952 Gilberto Freyre é convidado pelo governo português para viajar pelas ter-
ras do império. É preciso lembrar que após a Segunda Grande Guerra tornou-se internacional-
mente, e cada vez mais, condenável um regime de natureza colonial. O governo salazarista recor-
re, então, ao lusotropicalismo freyriano para reformular sua ideologia colonial, apelando para a
ideia do “bom colono português”. Arenas lembra, contudo, que:

As teses gilbertianas que celebram a miscigenação e a mestiçagem cultural,


porém, não foram de início bem aceites pelo regime de António de Oliveira Sa-
lazar, e quando foram entre os anos 50 e 60, foi de maneira pontual, uma vez
que ideologia e política colonial portuguesas assentavam em princípios os-
tensivamente eurocêntricos e racistas que se verificaram na prática, tal como
tem sido amplamente documentado por historiadores e críticos vários (Charles
Boxer, Roger Bastide, Cláudia Castelo, Maria da Conceição Neto). (...) A respos-
ta portuguesa à nova conjuntura mundial surgida do pós-guerra foi a revisão
constitucional de 1951, alterando o estatuto jurídico das colónias a “províncias
ultramarinas.” De tal maneira, Portugal e as províncias de ultramar formariam
um estado só, ou como diria simbolicamente Luís Madureira, “um corpo só,”
portanto, ludibriando (pelo menos teoricamente) o princípio do direito de au-
todeterminação dos povos proclamado pela ONU. Por outro lado, num plano
ideológico e simbólico, algumas vertentes do lusotropicalismo tornar-se-iam
úteis ao regime de Salazar e à defesa (na prática) do status quo do colonialis-
mo português. Como conclui Cláudia Castelo, o Estado Novo salazarista não se
apropriaria in totum do ideário lusotropicalista, mas só daqueles aspectos que
coadunassem com o seu projecto nacionalista e ao mesmo tempo colonialis-
ta, nomeadamente a suposta falta de racismo por parte dos portugueses ou a
sua empatia em relação a outros povos ou a fraternidade cristã praticada pelos
mesmos dentro e fora de Portugal. (ARENAS, 2010)

O olhar de Gilberto Freyre sobre a cultura caboverdiana frustrará fortemente os claridosos,


que o tinham, até então, como mestre. Segundo Arenas:

Esta visita [de Gilberto Freyre] era aguardada com grande expectativa por
parte da intelectualidade cabo-verdiana aglutinada em torno da revista “Cla-
ridade”, dado o impacto que teve a produção literária e intelectual nordestina
numa consciência nacionalista cabo-verdiana em gestação.
Como sugere Baltazar Lopes nos seus apontamentos emitidos pela Rádio Bar-
lavento após a visita de Gilberto Freyre (e posteriormente publicados sob o
título Cabo Verde visto por Gilberto Freyre (1956)), a intelectualidade cabo-
-verdiana esperava o aval científico do “mestre.” (ARENAS, 2010)

Gilberto Freyre avalia negativamente a mestiçagem caboverdiana, condenando inclusive o


crioulo. Produz-se, então, a ruptura por parte dos claridosos com Gilberto Freyre, fortalecendo-se
o desenvolvimento de uma reflexão propriamente caboverdiana acerca da cultura do arquipéla-
go, afirmativa do valor de sua cultura mestiça, negado pelo sociólogo brasileiro (leia, sobre a pre-
sença da cultura mestiça caboverdiana na literatura, artigo de Simone Caputo Gomes intitulado
“A poesia de Cabo Verde: um trajeto identitário”, disponível em sua página na internet e publica-
do em seu livro Cabo Verde: Literatura em Chão de Cultura, de 2008, pela Ateliê Editorial).
Na perspectiva de Anjos, o movimento dos claridosos reage à nova política colonial, de cará-
ter fascista:

O contexto é o da ditadura salazarista, instalada em 1926, que limita violen-


tamente as aspirações nativas e portanto atenua a tensão na disputa nativos-
-metropolitanos pelos cargos administrativos na província. Daí a necessidade
de reforço dos canais de mediação “cultural” (entre os quais se destaca a revista
Claridade) para a formulação das “demandas populares”. Processa-se a media-
ção das necessidades locais por meio de cartas de intercessão dirigidas à ad-
ministração e, sobretudo, por meio da criação de um poderoso imaginário da
seca e da fome por vias literárias. Não apenas cartas dirigidas à administração
– o que já era um canal para a geração do seminário [geração anterior, dos pré-
-claridosos, formada no liceu-seminário de S. Nicolau] – mas também romances
e poesias falando da “seca” e do “sofrimento” do “povo cabo-verdiano” consti-
tuíram a geração Claridade como um importante mediador cultural entre as
demandas locais e o sistema colonial. É nessa conjuntura de intensa produção
em nome da “cultura” e quase sem atividades exibidas como “políticas” que
emerge o imaginário de Cabo Verde como comunidade. (ANJOS, 2004; p. 289)

Vemos, portanto, que a literatura nacional caboverdiana se forma, como será também o
caso da angolana e moçambicana, como reação à nova política colonial (que se inicia em finais

34
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

do século XIX e se fortalece na ditadura de Salazar), que marginalizava as elites locais. Para Anjos, PARA SABER MAIS
contudo, na luta pela independência de Cabo Verde, o resgate e valorização da matriz cultural Leia capítulo “Presença
africana serão decisivos, e não propriamente a afirmação da mestiçagem. Vejamos: de Amílcar Cabral na
Literatura da África Por-
A naturalização da identidade cabo-verdiana na mestiçagem, até a primeira tuguesa e Crioula”, que
metade do século XX, não implicou numa postura nacionalista. Quando, na integra Cabo Verde:
década de 1960, emerge um movimento de reivindicação nacionalista – con- Literatura em Chão
formando o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde de Cultura, de Simone
(PAIGC) – é numa concepção contrária à ideologia da mestiçagem, isto é, no Gomes.
resgate à africanidade do arquipélago. (ANJOS, 2004; p. 286)

O principal teórico da libertação dos países africanos que se viam colonizados por Portugal
foi o guineense Amílcar Cabral, fundador do PAIGC.

Figura 24: Imagem


colorida: Amílcar Cabral
Fonte: http://www.vidaslu-
sofonas.pt/amilcar_cabral.
htm. Acesso em 24 de
◄ outubro de 2011.

Figura 23: Imagem branca e preta, Amílcar Cabral, à esquerda e o angolano Mário Pinto de Andrade, à direita.
Fonte: http://www.vidaslusofonas.pt/mario_pinto_andrade.htm

Cabo Verde esteve muito ligado a Guiné-Bissau ao longo do colonialismo português, sen-
do grande número dos administradores coloniais da Guiné-Bissau caboverdianos. Por causa
desta forte relação, a luta pela independência reuniu as duas colônias. Importa prestar atenção PARA SABER MAIS
na “distribuição de tarefas” entre Cabo Verde e Guiné-Bissau no período do colonialismo: Portu- Para conhecer a litera-
gal investiu na formação de caboverdianos para incluí-los como funcionários da administração tura da Guiné-Bissau,
colonial, e não investiu na formação dos guineenses. Portanto, enquanto em Cabo Verde havia leia O desafio do
escolas já no século XIX e, como consequência, uma camada letrada, em Guiné-Bissau não. O pri- escombro, de Moema
Parente Angel e a tese
meiro liceu em Bissau surge apenas em 1958, enquanto em Cabo Verde o liceu do Seminário de
de doutorado de Odete
S. Nicolau foi fundado em 1866 (sobre a história de Cabo Verde, vale a pena ler Os filhos da terra Semedo, defendida na
do sol: a formação do estado-nação em Cabo Verde, de Leila Maria Gonçalves Hernandez). PUC-Minas em 2010,
Estas informações são importantes para pensarmos a literatura: em Cabo Verde, em 1936, já As mandjuandadi:
havia um conjunto de produtores e receptores de literatura escrita, que proporcionou o surgimen- cantigas de mulher na
Guiné-Bissau, da tra-
to da revista Claridade; já em Guiné-Bissau a literatura escrita surge bastante posteriormente.
dição oral à literatura.
A noção de “sistema literário” tem sido importante no estudo das literaturas africanas de lín-
gua portuguesa. Antonio Candido propôs, na Formação da literatura brasileira (1959), que até
o arcadismo teríamos no Brasil “manifestações literárias”, tendo sido decisivos os momentos do
arcadismo e do romantismo na formação de nosso sistema literário. Para o teórico brasileiro, a
literatura enquanto “sistema” depende da formação de grupos de produtores e receptores orga-
nizados, preocupados em produzir e consumir uma literatura com características próprias. Como
propõe Simone Caputo Gomes:
Formação da literatura brasileira (1959), de Antonio Candido, estabeleceu-
-se como cânone em relação aos estudos sobre a Literatura Brasileira, no país e
no exterior. A obra de Antonio Candido tem constituído referência básica para
a área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na medi-
da em que possibilita refletir sobre a relação complexa literatura/sociedade e
sobre o desenho de uma literatura (no caso estudado por ele, a brasileira) no
tempo, sem dividi-la em escolas. Nos capítulos I – Manifestações literárias; II – A
configuração do sistema literário e III – O sistema literário consolidado, Candi-

35
UAB/Unimontes - 8º Período

do concebe a literatura como “sistema” que tanto contribui para a construção


identitária quanto para expressar identidades, regionais ou nacionais.
A vinculação da literatura à formação histórica do Estado e seus mecanismos
de poder, como proposta por Candido, é uma das reflexões rentáveis para o
estudo das literaturas africanas de língua portuguesa, impactadas pelo impé-
rio colonial português, tal como a literatura brasileira. A tese principal de An-
tonio Candido sobre o processo de consolidação da literatura brasileira como
um sistema pode ser estendida às jovens literaturas dos PALOP: a formação de
um sistema literário ocorre quando existem determinadas condições; são elas,
segundo o pensador: uma intenção de se produzir uma literatura específica,
a existência de um conjunto de produtores literários; um sistema imaginário
próprio (com mitologia, heroísmo, condições de efabulação), e um público re-
ceptor para essa produção simbólica. (GOMES, 2010; veja texto completo na
Revista Crioula, n. 8, http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/08/
Entrevista%20-%20Serie%20Antonio%20Candido%20e%20os%20Estudos%20
DICA de%20Lit%20-%20I.pdf)

Leia, também de O movimento literário claridoso consiste em momento decisivo na consolidação da literatu-
Manuel Ferreira, Lite-
raturas africanas de
ra caboverdiana enquanto sistema literário, produzida e recebida em Cabo Verde como uma lite-
expressão portugue- ratura própria, distinta da literatura portuguesa. Assim, podemos pensar, aproveitando o modelo
sa, de 1977, disponí- de Antonio Candido, que até a década de 1930 havia “manifestações literárias” em Cabo Verde,
vel em http://www. sendo que, a partir da publicação da revista Claridade, temos uma literatura organizada em sis-
casadasafricas.org.br/ tema (articulando produtores, receptores e obras).
img/upload/1.pdf
Manuel Ferreira, nas antologias de poesia que organizou das literaturas africanas de língua
portuguesa (intituladas No reino de Caliban, numa referência à peça The tempest, de Shakespe-
are), apresenta as revistas em que foram primeiramente publicados os textos. Esta organização é
bastante útil para pensarmos a formação dos sistemas literários, pois explicita os órgãos de vei-
culação da literatura. Em torno da revista Claridade, Ferreira nos informa que estavam os poetas
Jorge Barbosa (1902-1971), Manuel Lopes (1907-2005), Osvaldo Alcântara/Baltasar Lopes (1907-
1989) e Pedro Corsino Azevedo (1905-1942). Jorge Barbosa escreveu poemas expressando seu
afeto pelo Brasil. Vejamos:

Você, Brasil
(para o poeta Ribeiro Couto)

Eu gosto de você, Brasil,


porque Você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que Você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.
Eu já ouvi falar de suas cidades:
A Maravilhosa do Rio de Janeiro,
São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de
[Todos-os-Santos,
ao passo que as daqui
Não passam de três pequenas cidades.
Eu sei tudo isso perfeitamente bem,
mas Você é parecido com a minha terra.

É o seu povo que se parece com o meu,


é o seu falar português
que se parece com o nosso,
ambos cheios de um sotaque vagaroso,
de sílabas pisadas na ponta da língua,
de alongamentos timbrados nos lábios
e de expressões terníssimas e desconcertantes.
É a alma da nossa gente humilde que reflete
a alma da sua gente simples,
ambas cristãs e supersticiosas,
sentindo ainda saudades antigas
dos sertões africanos,
compreendendo uma poesia natural
que ninguém lhes disse,
e sabendo uma filosofia sem erudição
que ninguém lhes ensinou.

36
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

O gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas,


dos seus cataretês, das suas toadas de negros,
caiu também no gosto da gente de cá,
que os canta e dança e sente
com o mesmo entusiasmo
e com o mesmo desalento também.
As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos [cantares,
fazem lembrar as suas músicas,
com igual simplicidade e igual emoção.

Você, Brasil, é parecido com a minha terra.


As secas do Ceará são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
Mas há uma diferença no entanto:
é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar...

Nós também temos a nossa cachaça,


o grogue de cana que é bebida rija.
Temos também os nossos tocadores de violão
e sem eles não haveria bailes de jeito.
Conhecem na perfeição todos os tons
e causam sucesso nas serenatas,
feitas de propósito para despertar as moças
que ficam na cama a dormir nas noites de lua cheia.
Temos também o nosso café da ilha do Fogo
que é pena ser pouco,
mas – Você não fica zangado? –
é melhor do que o seu.

Eu gosto de Você, Brasil.


Você é parecido com a minha terra.
O que é é que lá tudo é à grande
e tudo aqui é em ponto mais pequeno...

Eu desejava fazer-lhe uma visita


mas isso é coisa impossível.
Queria ver de perto as coisas espantosas que todos [me contam
de Você,
assistir aos sambas nos Morros,
estar nessas cidadezinhas do interior
que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita [ternura,
queria deixar-me arrastar na onda da Praça Onze
na terça-feira do Carnaval.
Eu gostava de ver de perto o luar do Sertão,
de apertar a cintura de uma cabocla
– Você deixa? –
e rolar com ela num maxixe requebrado.

Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto


e Você veria como sou um bom camarada.
Havia então de botar uma fala
ao poeta Manuel Bandeira,
de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima
para ver como é que a Poesia receitava
este meu fígado tropical bastante cansado.
Havia de falar como Você,
Com um i no si
- “si faz favor” -
de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos
- “mi dá um cigarro?” -

Mas tudo isso são coisas impossíveis - Você sabe? -


Impossíveis.

(Caderno de um ilhéu, 1956)

37
UAB/Unimontes - 8º Período

O mesmo poeta claridoso redigiu poema em homenagem a Manuel Bandeira, atestando-


-se a importância do diálogo com a literatura brasileira na consolidação do sistema literário cabo-
verdiano. A geração seguinte teve como tônica a radicalização da crítica social. Ovídio Martins, au-
tor de “Anti-evasão”, foi um de seus expoentes.

Anti-evasão

Pedirei
Suplicarei
Chorarei

Não vou para Pasárgada

Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei!

Não vou para Pasárgada.

(FERREIRA, Manuel. No reino de Caliban I. p. 186).

Na perspectiva de Simone Caputo Gomes,

Com o grito “Não vou para Pasárgada” os poetas do Suplemento Cultural


(1958, um número) ou da Geração da Nova Largada (Gabriel Mariano, Ovídio
Martins, Onésimo Silveira, Aguinaldo Fonseca, Terêncio Anahory) negam o
mito e se propõem a resgatar a história, incitando à ação. Esta postura de en-
gajamento já vinha sendo semeada pela folha acadêmica de Certeza (2 núme-
ros), que surgira em plena Guerra Mundial (1944), pautando-se pelo realismo
socialista. Alunos do último ano do Liceu Gil Eanes como Nuno Miranda, José
Spencer, Arnaldo França, Guilherme de Rocheteau, Filinto Menezes, Tomaz
Martins agrupavam-se em torno do periódico.
▲ O tom protestário continua no Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes (1959),
Figura 25: Fotografia de com um só numero e a colaboração de Onésimo Silveira, Corsino Fortes, Felis-
Corsino Fortes (1933- ) berto Vieira Lopes e Rolando Vera-Cruz Martins.
Fonte: http://www.poe- Remanescente da geração da Nova Largada o grupo de Seló (1962, 2 números),
trytranslation.org/poets/ formado por Arménio Vieira, Oswaldo Osório e Mário Fonseca, entre outros,
Corsino_Fortes aborda um dos problemas cruciais do colonialismo, o do contratado, adotando
o discurso de revolta, como já retratava anteriormente Ovídio Martins. (GOMES,
2008; p. 135)

A radicalização da denúncia da exploração colonial relacionava-se à formação de movimen-


tos independentistas. Ovídio Martins (1928-1999), por exemplo, foi perseguido pela PIDE, tendo
que se exilar na Holanda. Após a independência, vários escritores, poetas e intelectuais envol-
vidos na luta de libertação assumem cargos públicos. Este é o caso de Corsino Fortes (1933- ),
importante poeta caboverdiano que continua escrevendo até a atualidade.
Recentemente, Corsino Fortes publicou no Brasil A cabeça calva de Deus, trilogia poética
que reúne Pão & fonema (1974), Árvore & tambor (1986), Pedras de sol & substância (2001).
Ana Mafalda Leite considera, em posfácio a A cabeça calva de Deus, que

A cabeça calva de Deus é uma imagem que condensa o universo caboverdia-


▲ no pela sua potência engendradora a partir das suas limitações geoclimáticas
Figura 26: Capa de seu e telúricas. Abandonadas pelos deuses no meio do Atlântico, as dez ilhas cabo-
livro A cabeça calva verdianas, a caminho da África, Europa e América, com a nudez mineral da se-
de Deus, publicado no cura, incorporam nelas a força poética e rítmica com que a poesia fundamental
Brasil em 2010. de Corsino Fortes as canta em tom épico e sagrado. (FORTES, 2010; p. 267)
Fonte: www.antoniomi-
randa.com.br/poesia_afri- Vejamos poemas que abrem a trilogia:
cana/cabo_verde/corsi-
no_fortes.html
Acesso em 24 de outubro
de 2011.

38
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

De boca a barlavento

I
Esta
a minha mão de milho & marulho
Este
o sol a gema E não
o esboroar do osso na bigorna
E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que g
o
t
e
j
a
De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
para dentro das violas

II
Poeta! todo o poema:
geometria de sangue & fonema
Escuto Escuta

Um pilão fala
árvores de fruto
ao meio do dia
E tambores
erguem
na colina
Um coração de terra batida

E lon longe
Do marulho á viola fria
Reconheço o bemol
Da mão doméstica
Que solfeja

Mar & monção mar & matrimónio


Pão pedra palmo de terra
Pão & patrimônio

Corsino Fortes articula elementos da paisagem e da vida caboverdiana ao fazer poético. Po-
demos notar que explora a disposição das palavras no papel, além da sonoridade, apresentando
uma poesia finamente trabalhada. Para Corsino Fortes,

A aventura de A cabeça calva de Deus é a aventura de um povo de coragem,


de esperança, que os portugueses ajudaram a formar historicamente. A lín-
gua portuguesa é uma herança que conduz os seus falantes à redonda mesa
de uma Pátria Emocional. Na leitura poética, traçam-se caminhos de partilha,
de irmandade, reforçam-se os laços de identidade mas igualmente o espaço de
cada povo desse universo lusófono. A partilha do espírito lusófono é prática,
é convite e um desafio. Temos de construí-lo em harmonia, e o poeta desem-
penha um papel preponderante nessa construção pois consegue dar beleza à
língua, mais beleza aos seus ritmos e tons. (FORTES, 2010; p. 17)

O poeta também dá seu testemunho sobre a poesia caboverdiana:

Sem dúvida a tradição lírica em Cabo Verde é rica e dada a conhecer precoce-
mente, desde os estudos dos Nativistas, nas composições de Eugénio Tavares,
Pedro Cardoso e outros, que anteciparam todo o esforço de recuperação e di-
vulgação levada a cabo pelo Movimento Claridoso e agora com outros cultores
a potenciar essa tradição.

39
UAB/Unimontes - 8º Período

Na Epopeia sentimental da cabo-verdianidade, marcada pelos ciclos de fome


e seca, há um eu colectivo que emerge não só na lírica mas principalmente nos
nossos trovadores, na tradição oral caboverdiana (finaçon, colá, tabanka, entre
outros). (FORTES, 2010; p. 18)


Da esquerda para a direita: Figura 27: Batuque (que pode ser acompanhando por Finaçon, canto sobre temas
do quotidiano); Figura 28: Colá; Figura 29: Tabanka.
Fonte:  http://portoncv.gov.cv/portal/page?_pageid=118,188559&_dad=portal&_schema=PORTAL&p_dominio=28#
Acesso em 24 de outubro de 2011

A geração de pós-independência teve sua poesia reunida em importante antologia organi-


zada por José Luis Hopffer Cordeiro Almada, intitulada Mirabilis: de veias ao sol (1991).


Figura 30: Capa da
antologia de poesia
Mirabilis: de veias ao
sol.
Fonte: http://livroditera.
blogspot.com/2006/10/
mirabilis-de-veia-ao-sol.
html


Figura 31: Fotografia da planta desértica Welwitschia mirabilis, que cresce no deserto do Namibe, em Angola.
Fonte: http://www.conifers.org/we/Welwitschiaceae.php. Acesso em 24 de outubro de 2011.

DICA Como argumenta Carmen Ribeiro Tindó Secco (professora de literaturas africanas de língua
Leia o artigo completo portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro):
de Carmen Ribeiro Tindó
Secco, intitulado “Algumas Após a euforia da independência, no final dos anos 80 e início dos 90, as no-
tendências da poesia vas gerações de escritores caboverdianos, em seus textos literários, começam
cabo-verdiana hoje”, em: a denunciar o vazio cultural no Arquipélago, além de constatarem que a fome
http://www.confrariado- e a miséria não foram extintas. Delineia-se um forte desalento em relação às
vento.com/revista/nume- ideologias que animaram a poética da Independência.
ro18/ensaio04.htm
Em 1991, a publicação de Mirabilis: de veias ao sol, antologia organizada por
José Luís Hopffer Almada, que reúne os “novíssimos poetas de Cabo Verde”, di-
vulga a produção poética caboverdiana pós-25 de Abril. O não cumprimento
das promessas de justiça social, depois da Independência, gera um clima de
decepção. Entretanto, lembrando-se de que, mesmo no deserto, cresce uma
planta chamada mirabilis, surge a geração mirabílica, oferecendo-se como re-
sistência poética a esses anos de “mau tempo literário”. (...)

Entre os poetas da geração mirabílica, há Dina Salústio, Vera Duarte e outras


que aprofundam essa vertente da poética feminina caboverdiana. O mar, en-
tre outros temas, é também recorrente na produção poética dessas mulheres.

40
(SECCO, 2008)
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Para Simone Caputo Gomes,

A antologia Mirabilis – de veias ao sol (Instituto Caboverdiano do Livro, 1991)


reúne a quase totalidade da poesia da novíssima geração. As questões conside-
radas como tradicionalmente ligadas à crioulidade ou cabo-verdianidade são
retomadas em outro contexto, sob novos ângulos, visando a conjugação de as-
pectos nacionais e universais. (GOMES, 2008; p. 138)

Destacam-se, como poetas desta geração, Filinto Elísio (1961-) e Vera Duarte (1952- ). Vera
Duarte, em Preces e súplicas, ou o canto da desesperança (2005), dedica poemas à luta pelos
direitos humanos. Um dos poemas deste volume é de 1975, mencionando o intelectual da liber-
tação Amílcar Cabral e a importante Conferência de Bandung (ocorrida em 1955). Este poema
nos deixa ver a esperança do período quanto às possibilidades de um futuro melhor aos povos
africanos. Vejamos:

Cantaremos

Ao longo de longos séculos da história


foste o continente do ouro e do sabão
e teus filhos os filhos da fome e do chicote

em tempos muitos que já lá vão


em tuas terras floresceram as riquezas
e teus filhos
(então filhos do tam-tam e do sol)
viveram a felicidade do não à exploração

então vieram caravelas


trazendo homens de cor estranha
(e estranhos pensamentos)
que cobiçaram a força simples
dos teus filhos perfeitos

e descendo um a um
os degraus do vicio da corrupção e da traição
começaram a comprar e vender teus filhos
não mais homens
não mais africanos
abjectamente escravos

barracões
navios negreiros
porões
sol suor chicote morte
e homens animais
(sub-homens)
é tudo o que de ti narra a história
nessa época de genocídio em solo africano

até que a escravatura passou


(os escravos porém ficaram)

ouro diamante petróleo


teu solo era rico
e homens cada vez mais abjectos
cada vez mais queriam possuir teus bens

e ficou-nos
(gravada a ferro e fogo)
a memória do colonialismo
abismo sem fim de miséria servidão e ultraje

os anos rolaram sobre ti


continente exangue
até que o vento da revolução
soprou forte sobre o mundo

por ti
bandung deu o sinal
anunciando grandes mudanças
para as terras martirizadas de África
41
UAB/Unimontes - 8º Período

depois
teus filhos foram quebrando
as amarras que os prendiam
e
um a um
voltaram para ti
destruindo à passagem
os mitos que os opressores criaram
para que os pudessem
impunes
dominar

eis-nos agora África


os povos da guiné e cabo verde
dos últimos dos teus filhos cativos

para nós a hora soou


quando o nosso povo gerou Cabral
e viu correr o sangue de pidjiguiti

eis-nos aqui África


e de joelhos sobre esta terra mártir
por ti
por nós
por todos
cantaremos hinos de súplica e esperança.

(In DUARTE, 2005; p. 57-59)

PARA SABER MAIS Neste poema, Vera Duarte inscreve Cabo Verde no contexto africano, reforçando os laços do
Leia, sobre a poesia de arquipélago com o continente. Como vimos, segundo Anjos (2004; p. 286), no período de luta
Vera Duarte, capítulos contra o colonialismo português, a africanidade do povo caboverdiano foi mais intensamente
11 e 12 do livro Cabo afirmada, distinguindo-se fortemente a nação caboverdiana da nação portuguesa.
Verde: Literatura em Como escritores contemporâneos, destacam-se Dina Salústio (nascida em 1941, é poeta,
Chão de Cultura, de
Simone Caputo Gomes cronista, ensaísta e romancista, que integrava já a geração mirabílica) e Germano de Almeida
(2008, Ateliê Editorial). (1945). Almeida teve seu romance O Testamento do Sr. Napumoceno (1989) publicado no Brasil
Estes capítulos são em 1996. Sua ficção caracteriza-se pela comicidade e pelo forte teor de crítica social. Sua visão
resenhas da estudiosa acerca da identidade caboverdiana é reveladora de uma continuidade:
sobre O arquipélago
da paixão (2001) e O discurso da Claridade, nas décadas de 1930 e 1940, sobre a identidade cabo-
Preces e súplicas, ou o -verdiana, cada vez mais retomado e prestigiado, abrigado e reproduzido por
canto da desesperan- meio do ensino a título de literatura, pretende que os valores africanos se di-
ça (2005). Sobre Dina luíram “na circunstância da terra, da pobreza, da seca”. Entrevistado por Laban
Salústio, vale a pena (1992: 676), nesses mesmos termos, Germano Almeida, que representa a mais
ler o capítulo 10 do nova geração de intelectuais cabo-verdianos já consagrados, reproduz o mes-
mesmo livro de Gomes, mo discurso citando a fonte: “Culturalmente, de fato, nós não somos africanos.
intitulado “Mulher com O Baltasar uma vez respondeu a uma pergunta desse tipo dizendo: ‘Isto aqui
paisagem ao fundo: não é África, é Cabo Verde!’ E é verdade”. (ANJOS, p. 293)
Dina Salústio apresenta
Cabo Verde”. Confira Podemos perceber, por estas considerações de Germano de Almeida, uma forte tendên-
também Cabo Verde:
antologia de poesia cia da literatura caboverdiana, desde o movimento da Claridade, para afirmar a especificidade
contemporânea, orga- cultural do arquipélago, distinguindo a “caboverdianidade” da “africanidade” e da “lusitanidade”,
nizada por Ricardo Riso, propondo-se como síntese nova, mestiça, crioula, de tradições lusas e africanas. No entanto, no
disponível em http:// período de luta pela independência, a matriz fortemente africana desta cultura mestiça ganhava
www.africaeafricanida- maior destaque.
des.com.br/documen-
tos/ANTOLOGIA-CABO-
-VERDE.pdf

42
Referências
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boverdiano do Livro/Caminho, 1991.

ALMEIDA, Germano. O testamento do senhor Napumoceno. São Paulo: Companhia das letras,
1996.

ANGEL Moema Parente. O desafio do escombro: nação, identidade e pós-colonialismo na Lite-


ratura da Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.

ANJOS, José Carlos Gomes dos. “A condição de mediador político-cultural em Cabo Verde: inte-
lectuais e diferentes versões da identidade nacional”. Revista Etnográfica, vol. VIII, 2004, Lisboa.
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44
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Unidade 4
A literatura angolana
Anita Martins Rodrigues de Moraes
Renato Gonçalves Lopes

PARA SABER MAIS


A população atual de
Angola é estimada em
18 milhões de pessoas,
sendo que 4,8 milhões
moram na capital,
Luanda.

◄ Figura 32: Mapa de


Angola.
Fonte: http://movv.
org/2008/09/12/da-situa-
cao-da-lingua-portugue-
sa-em-angola/

Em finais do século XIX, a im- ◄ Figura 33: Bandeira de


prensa angolana vê surgir manifes- Angola.
tações literárias afirmativas do valor Fonte: http://www.
da terra, da mulher e do homem portalsaofrancisco.com.br/
alfa/angola/bandeira-de-
angolanos. Lembremos que data -angola.php
deste período a nova investida co- Acesso em 24 de outubro
lonial portuguesa, que assumiria de 2011
um caráter extremamente racista,
pautando-se numa suposta supe-
rioridade dos brancos com relação
aos negros. Segundo Rita Chaves
(professora de literaturas africanas
de língua portuguesa na Universi-
dade Estadual de São Paulo),

45
UAB/Unimontes - 8º Período

A atuação jornalística assume, desde a segunda metade do século XIX, uma


impressionante importância no cenário da vida luandense. (...) A partir de de-
núncias de corrupção e abusos de autoridade, impressas nas páginas de perió-
dicos como A Civilização da África Portuguesa, O Comércio de Luanda, e O
Cruzeiro do Sul, emergem sinais de descontentamento com a situação sócio-
-política da colônia. Seus artigos criam condições para que se desenvolva toda
uma atmosfera de questionamento do poder estabelecido.
Esses jornais, onde se reuniam africanos e europeus também interessados em
mudanças, cumpriram o decisivo papel de canalizar insatisfações reinantes,
aglutinando representantes de uma elite crioula que tomava consciência da
necessidade de alterar os rumos seguidos pela administração colonial. (CHA-
VES, 1999; p. 33-34)

Valorizando Angola e os povos angolanos, os escritores, na sua maioria jornalistas, gestavam


um sentimento nacionalista, identificando-se entre si e distinguindo-se da metrópole. Como pre-
cursor deste sentimento, podemos lembrar-nos do poema “À minha terra”, de José da Silva Maia
Ferreira (1827-1881), publicado no volume Espontaneidades da minha alma, de 1849. O poeta
Maia Ferreira viveu parte de sua vida no Brasil, no Rio de Janeiro, tendo poemas que mencionam
nosso país e nossa literatura. Tendo este dado em conta, não poderíamos supor que haveria um
diálogo do seguinte poema “À minha terra!” com a “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias? Leia e
reflita:

À minha terra!
(No momento de avistá-la
depois de uma viagem)

Dedicação ao meu compatriota o ilustríssimo senhor


Joaquim Luís Bastos

De leite o mar – lá desponta


Entre as vagas sussurrando
A terra em que cismando
Vejo ao longe branquejar!
É baça e proeminente,
Tem da África o sol ardente,
Que sobre a areia fervente
Vem-me a mente acalentar.

Debaixo do fogo intenso,


Onde só brilha formosa,
Sinto na alma fervorosa
O desejo de a abraçar:
É a minha terra querida,
Toda da alma, – toda-vida, –
Que entre gozos foi fruída
Sem temores, nem pesar.

Bem-vinda sejas ó terra,


Minha terra primorosa,
Despe as galas – que vaidosa
Ante mim queres mostrar:
Mesmo simples teus fulgores,
Os teus montes têm primores,
Que às vezes falam de amores
A quem os sabe adorar!

Navega pois, meu madeiro,


Nestas águas d’esmeraldas,
Vai junto do monte às faldas
Nessas praias a brilhar!
Vai mirar a natureza,
Da minha terra a beleza,
Que é singela, e sem fereza
Nesses plainos de além-mar!

De leite o mar, – eis desponta


Lá na extrema do horizonte,
Entre as vagas – alto monte
Da minha terra natal;

46
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

É pobre, – mas tão formosa


Em alcantis primorosa,
Quando brilha radiosa,
No mundo não tem igual!

(FEREEIRA, 2002)

Como representantes de uma geração que veio a ser alcunhada de geração dos “Velhos
Intelectuais de Angola”, atuante na imprensa ao longo das décadas de 1880 e 1890, destacam-
-se Alfredo Troni (1845-1904), autor de Nga Muturi (Senhora Viúva), e Joaquim Dias Cordeiro da
Matta (1857-1894). Na opinião de Rita Chaves,

Um inventário dos nomes mais significativos na história das idéias m Angola


logo nos revelaria que muitos estão associados ao período de fundação e con-
solidação da imprensa no país. (...)
Com origem diretamente ligada ao espaço do jornal, encontramos dois escri-
tores cujo lugar na história literária e política de Angola só vem ratificar a vali-
dade do que acabamos de declarar. Alfredo Troni e Joaquim Cordeiro da Matta
foram dos intelectuais mais representativos desse momento histórico. O pri-
meiro – jornalista atuante – esteve ligado a vários jornais, como o Jornal de
Angola, Mukuarimi (palavra da língua quimbundo que significa falador, mal-
dizente) e Os Concelhos do Leste –, e é autor do texto considerado precursor
da escrita angolana em língua portuguesa: Nga Muturi, novela publicada em
forma de folhetim pela imprensa de Lisboa, em 1882. (...)
Por sua atuação como professor, filólogo, etnógrafo, poeta e ficcionista, Cor-
deiro da Matta costuma ser, legitimamente, apontado como um exemplo de
intelectual que pôs sua formação individual a serviço de um projeto de caráter
coletivo (CHAVES, 1999; p. 35)

É de Cordeiro da Matta o primeiro dicionário Kimbundo-Português, de 1893, utilizado até


hoje. Na perspectiva de Chaves, Cordeiro da Matta buscava a “redignificação dos chamados valo-
res culturais africanos”, procurando,

através de atos concretos, promover a divulgação de um patrimônio que vinha


sendo desprezado e destruído pelo pensamento dominante. (...) Ao publicar
Delírios, antologia poética situada nas origens da literatura angolana, Cordeiro
da Matta reforça a nota de ruptura em relação à lírica tradicional portuguesa,
uma vez que escolhe tematizar a questão racial, até então intocada pela poesia
angolana. (CHAVES, 1999; p. 37)

O poema “Uma quissama”, publicado em Delírios (1889), afirma a beleza e graça da mulher
africana, que se via depreciada pela nova ideologia colonial:

Uma quissama
(a Carlos d’Almeida)

Em manhã fria, nevada,


N’essas manhãs de cacimbo
Em que uma alma penada
Não se lembra de ir ao limbo;
Eu vi formosa, correcta,
Não sendo européia dama
A mais sedutora preta
Das regiões de Quissama.

Mal quinze anos contava


E no seu todo brilhava
O ar mais doce e gentil!
Tinha das mulheres lindas
As graças bellas, infindas,
D’encantos, encantos mil!...

Nos lábios – posto que escuros –


Viam-lhe risos puros
Em borbotões assomar...
Tinha nos olhos divinos
Reverbéros crystalinos
... e fulgores... de matar!...

47
UAB/Unimontes - 8º Período

Glossário Radiava-lhe na fronte


como em límpido horizonte
Hondo: fibra do em- Radia mimosa luz –
bondeiro Da virgem casta a candura
Que soe dar a formosura
A graça que brota a flux!...
ATIVIDADE
Embora azeitados pannos,
Desenvolva uma Lhe cobrisse os lacteos pómos
análise do poema “Uma denunciavam os arcanos
quissama”, de Cordeiro de dois torneados gomos...
da Mata, atentando
para seu ritmo, rima Da cintura a palmo e meio,
e métrica. Estabeleça Bem tecidinho, redondo,
comparações com Descia-lhe em doce enleio
poemas da literatura Um envoltório de hondo
brasileira e da literatura
portuguesa do mesmo Viam-se-lhe a descoberto
período (década de – com arte bem modeladas –
1890). Redija uma in- (e que eu mirava de perto)
terpretação do poema, umas formas cinzeladas.
apresentando a análise .........................................
e as comparações de- Co’o seu ar majestoso,
senvolvidas. Busque Co’o seu todo gracioso,
recuperar aspectos do Quando a quissama encarei;
contexto histórico da Eu possuir um harém
produção do poema. E n’elle ter umas cem
Para tanto, retome as – como o sultão – desejei!...
proposições de Arlindo
Barbeitos apresentadas (Tombo, Setembro de 1881)
na Unidade II.
Nota do poeta: Para não julgar-se que a filha do mato de que nos ocupamos é filha da nossa fantasia
e não filha de quissama, declaramos que ela se chama Kalangôlo e era um verdadeiro espécime da
beleza africana.

(In Delírios. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001; p. 109)


Figura 34: Homem e mulher quissama. Gravura em madeira (xilogravura), de 1888, desenhada por Ronjat e
gravada por Hildibrand. Aquarelada a mão.
Fonte: www.french‑engravings.com/advanced_search_result.php?keywords=quissama&osCsid=vavjkqa9diiudhfrkdfo
44bli5&x=5&y=17. Acesso em 24 de outubro de 2011.

48
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Este poema de Cordeiro da Matta, que sugere a beleza de uma moça quissama (da região
de Quissama, próxima a Luanda), combate a depreciação levada a cabo pelo colonizador por-
tuguês. Vemos que o poeta se vale da tradição lírica em língua portuguesa, dialogando com a
poética romântica e realista do período (pensemos, por um lado, no uso da redondilha maior,
praticada pelos românticos; por outro, na sensualidade da moça desejada, que remete à estética
realista). Contudo, Cordeiro da Matta adapta essa tradição lírica europeia à realidade angolana,
contribuindo, assim, para a gestação de uma literatura nacional.
N’A formação do romance angolano (1999), Rita Chaves seleciona romances que, em sua
perspectiva, paulatinamente se distanciam do paradigma colonial, considerando-as decisivas
na consolidação do sistema literário angolano. São elas: O segredo da Morta: romance de cos-
tumes angolenses (1936), de Assis Jr.; Noite de angústia (1939), Homens sem caminho (1941),

Terra morta (1949), Viragem (1957) e A chaga (1970), de Castro Soromenho; Uanga (Feiti-
Figura 35: Fotografia de
ço) (1951), de Óscar Ribas; A vida verdadeira de Domingos Xavier (1961; primeira edição em Assis Jr. (1887-1960)
1974), Nós, os do Makulusu (1974), João Vêncio: os seus amores (1979), de José Luandino Viei- Fonte: http://guineve-
ra. A estudiosa propõe que o romance de Assis Jr. seria inaugural do sistema literário angolano. reuniversidade.blogspot.
Chaves lembra que, na “Advertência” ao romance, o autor afirma que o livro se destina àqueles com/2009/06/antonio-de-
-assis-junior.html
que se interessam pelo “conhecimento das coisas da terra”, seu propósito sendo “divulgar tudo
aquilo ‘que o indígena tem de mais puro e são na vida’” (CHAVES; p. 68).
Rita Chaves lembra também que:

Informado de que se trata de uma história verdadeira, o leitor [de O segredo


da morta] é avisado, já no parágrafo de abertura, que a sua origem está ligada
à tradição oral, o que faz de quem escreve apenas um intermediário. (CHAVES,
1999; p. 84)
O testamento antes, e os rituais depois – envolvendo, além do sepultamento,
os ritos cuidadosamente preparados –, tudo é minuciosamente apanhado pela
mão do narrador, convertendo-se em dado precioso para a apreensão do perfil
daquela ordem social.” (CHAVES, 1999; p. 73)

Ao tratar da ficção de Castro Soromenho, a estudiosa destaca seu caráter neo-realista:



Transformando seus olhos em câmera, o escritor viaja pelas terras das Lundas Figura 36: Capa de seu
e, com os fotogramas acumulados nos cantinhos da memória e da sensibilida- livro O segredo da
de, criará as imagens de uma terra em combustão, (...).” (p. 99) Ao construir seus morta (1936).
romances, Soromenho elaboraria uma espécie de “narrador-fotógrafo” (p. 112).
Fonte: http://angolapoe-
A linguagem quer esquecer que narrar é inevitavelmente mediar, esteando-se tas.blogspot.com/2011/06/
por isso na intensidade mimética que nos faz recordar a proposta neo-realista. antonio-de-assis-junior.
(CHAVES, 1999; p. 119) html
Acesso em 24 de outubro
de 2011
Rita Chaves propõe que a literatura torna-se an-
golana à medida que escapa às representações por
exotismo e estereotipia próprias da literatura colonial ◄ Figura 37: Fotografia de
portuguesa. As soluções estéticas encontradas por Luandino Veira (1935- ).
Luandino Vieira serão avaliadas como as que comple- Fonte: http://bibliotecas-.
tamente se distanciam do paradigma colonial. Este blogspot.com/2006/05/
prmio-cames-2006-atribu-
escritor elaborou uma forma narrativa propriamente do-jos-luandino.html
angolana a partir da mescla: a mescla entre português
e kimbundo; entre romance/conto e gêneros tradicio-
nais africanos; em suma, entre escrita e oralidade.
Luandino Vieira nasceu em 1935. Como parcela
PARA SABER MAIS
importante de sua geração envolvida com a produ-
ção cultural em Angola durante o período colonial, Laura Padilha, profes-
sora da Universidade
Luandino Vieira viria a integrar o MPLA (Movimento Federal Fluminense,
Popular de Libertação de Angola). A luta pela inde- no importante traba-
pendência se gesta em movimentos político-culturais lho publicado com o
anteriores, como o de 1948 em torno do lema “Vamos título Entre voz e letra
descobrir Angola”, grupo que viria a editar uma revista (EdUFF, 2007) investiga
a presença das tradi-
literária chamada Mensagem. Neste movimento, es- ções orais africanas na
tavam envolvidos os poetas Antonio Jacinto (autor do formação da literatura
poema “Monangamba”, lido na unidade I), Viriato da Cruz e Agostinho Neto (autor dos poemas angolana, propondo a
“Aspiração” e “Voz do sangue”, comentados na Unidade I) que seriam os dirigentes do movimento noção de “ancestralida-
de libertação (MPLA), tornando-se, Agostinho Neto, após o advento da independência, o primei- de”. Confira!
ro presidente angolano.

49
UAB/Unimontes - 8º Período

No período de luta contra o colonialismo, Luandino Vieira foi preso, como também Antonio
Jacinto e muitos outros escritores. Foi no cárcere que Luandino Vieira redigiu grande parte de
sua obra. Podemos inferir, pelo fato de ter sido preso pela PIDE, a tônica de sua produção, sua di-
mensão crítica, de literatura militante, tornando-se um instrumento de denúncia da brutalidade
do colonialismo português instalado em Angola. Seus primeiros livros produzem-se nessa chave,
como o romance A vida verdadeira de Domingos Xavier (1961), que conta a história de um tra-
balhador preso e torturado pela PIDE.
Como sugere Tania Macêdo (professora da Universidade de São Paulo),

O movimento de registrar e denunciar as injustiças do regime colonial a partir


da focalização da cidade do colonizado realiza-se, sobretudo, a partir de duas
vertentes: em uma delas ocorre a denúncia da situação quotidiana do negro e
as humilhações pelas quais ele passa. É o que temos, por exemplo, em um tre-
cho de A vida verdadeira de Domingos Xavier, de Luandino Vieira, em que
Xico João, um revolucionário (sem deixar de ser grande farrista), presencia um
operário ofendido no ônibus em que entrara, apenas porque tinha a roupa suja
de cal e tinta de parede:
“Xico João já tinha visto muitas cenas destas. Todos os dias, em todos os sítios,
era o pão quotidiano de todos os irmãos. Mas muito embora ensinado por
Mussunda, sempre não podia ver essas conversas sem uma vontade de tomar
a defesa do irmão ofendido e insultado, só mesmo com muito custo refreava
o impulso natural contra injustiça de que era espectador. Por isso se virou na
frente, fugindo no olhar das duas senhoras que lhe miravam e procurou con-
centrar novamente nos seus problemas. Sabia que se ia falar, na discussão ia
nascer com certeza a pancada e daí a polícia e a prisão durante dias ou sema-
nas. Porque justiça da polícia é justiça de quem manda, ele e o operário iriam
de certeza pra a prisão.” (VIEIRA, 1977, p. 62)
Uma outra vertente recorre ao “antigamente” da cidade, como forma de, con-
trapondo passado a presente, denunciar as injustiças que acompanharam as
mudanças de Luanda. Trata-se da evocação de um tempo mais feliz. Um texto
paradigmático é o livro de contos A Cidade e a infância, do mesmo Luandino
Vieira. (Macêdo, 2004; p. 7)
PARA SABER MAIS
Leia, também de Tania Uma mudança importante na maneira de Luandino Vieira escrever dá-se em Luuanda, de
Macêdo, Luanda, cida- 1963. Enquanto escrevia este livro, na cadeia de Luanda, teve seu primeiro contato com a obra de
de e literatura, publi- João Guimarães Rosa. Segundo o escritor:
cado em co-edição pela
editora da Unesp e pela Eu estava a passar para um caderno escolar a versão final da ‘Estória do papa-
editora angolana Nzila, gaio’ [um dos três longos contos de Luuanda]. E, na visita desse dia, a família
em 2008. trouxe-me este livro, que não era uma oferta porque o dono do livro dizia: ‘Eu
só tenho este exemplar, mas é pra você ler’. Era o Sagarana de João Guimarães
Rosa, que eu li uns meses mais tarde. E então aquilo foi para mim uma revela-
ção. Eu já sentia que era necessário aproveitar literariamente o instrumento fa-
lado dos personagens, que eram aqueles que eu conhecia, que reflectiam – no
meu ponto de vista – os verdadeiros personagens a pôr na literatura angolana.
Eu só não tinha encontrado ainda era o caminho. Eu sabia qual não era o ca-
minho (...), que o registro naturalista de uma linguagem era um processo, mas
que não valia a pena esse processo porque, com certeza que um gravador fazia
melhor que eu. Eu só não tinha percebido ainda, e foi isso que João Guimarães
Rosa me ensinou, é que um escritor tem a liberdade de criar uma linguagem
que não seja a que seus personagens utilizam: um homólogo dessas perso-
nagens, dessa linguagem deles. Quero dizer: o que eu tinha que aprender do
povo eram os mesmos processos com que ele constrói a sua linguagem, e que
– se eu fosse capaz, creio que não fui capaz –, mas se fosse capaz de, utilizan-
do os mesmos processos conscientes ou inconscientes de que o povo se serve
para utilizar a língua portuguesa, quando as suas estruturas lingüísticas são,
por exemplo, quimbundas, que o resultado literário seria perceptível porque
não me interessavam só as deformações fonéticas, interessava-me a estrutura
da própria frase, a estrutura do próprio discurso, a lógica interna desse discur-
so. (LABAN, 1980; p. 27-28)

O impacto da leitura de Sagarana na produção de Luandino Vieira é por ele próprio apre-
sentado como decisivo. A lição aprendida com Guimarães Rosa parece ser a de aproveitar as
possibilidades criativas da língua, e também aproveitar o confronto de variantes linguísticas ou
mesmo de línguas (no caso angolano, as línguas africanas, especialmente o kimbundo, e o por-
tuguês), para inventar uma linguagem literária capaz de expressar a realidade própria. Como vi-
mos, além da invenção lexical e sintática, podemos notar, na escrita de Luandino Vieira, a pre-
sença de gêneros discursivos próprios das tradições orais africanas, como o conto tradicional

50
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

(mussosso ou missosso) e o provérbio. Depois de Luuanda, Luandino Vieira escreveu Nós, os do


Makulusu (1974) e João Vêncio: os seus amores (1979). A fragmentação, que marca especial-
mente Nós, os do Makulusu, e o tratamento inventivo dado à língua, radical em João Vêncio:
os seus amores, são traços que Rita Chaves destaca como produtores de maior polissemia.
Após longo período de silêncio, Luandino Vieira publica O livro dos rios, em 2006, e, pou-
co depois, O livro dos guerrilheiros (2009). Estes livros integram uma trilogia chamada De rios
velhos e guerrilheiros, cujo terceiro volume ainda não foi publicado. Nesta trilogia, Luandino
se volta mais uma vez ao período de luta pela independência, com foco, porém, na guerrilha do
interior do país. Assim, se anteriormente tratava especialmente dos musseques de Luanda, agora
se volta para as matas, os rios. O diálogo com a obra de Guimarães Rosa se mantém. Vejamos um
trecho do livro, em que Kene Nvua, narrador e protagonista de O livro dos rios, rememorando o
passado, discorre sobre a paisagem:

Três coisas maravilham na minha vida, a quarta desconheço: vôo da jamanta- Figura 38: Capa de
-negra no ar de chuva; rasto de jibóia no sussurro da pedra; sombra das águas seu livro O livro dos
em fundo do mar – o caminho do homem na morte... guerrilheiros (2009).
Fonte: http://africopoetica.
Porque era aquele dia. wordpress.com/category/
pessoas/luandino-vieira/
O céu estava como um rio, tinha o revoar de pássaros na corrente de nuvens Acessos em 24 de outubro
e me encolhi todo. Cabeça fora d’água, só essas sombras nos olhos de medo de 2011
me fizeram olhar. Eu sempre olho o céu desde criança, o mundo para mim é
muito vazio, nem meu peito enche de ar. Levanto os olhos sempre, mesmo ca-
minhando nas matas, tropeçar é mais melhor que arrastar os pés, xacato de em
frente marcha. Procuro os azuis do fundo para cima dos farrapos das nuvens,
para dentro do dia o mais cinzento fechava a teimosa luz da noite de lua. Que
era, ia ser. Eu sabia o azul por dentro daquela escuridão, não mentia. (VIEIRA,
2010; p. 27)

Na perspectiva de Rita Chaves, é traço comum à literatura angolana uma especial relevância
do “espaço” na composição narrativa. A razão desta predominância do espaço estaria na busca
dos escritores por representar (e, assim, contribuir para se inventar) a nação angolana:

Assumir a nação angolana significava, pois, envolver a terra como um todo, ati-
tude que se eleva se considerarmos a dimensão fraturada do país, povoado por
populações divididas em diferentes etnias, falantes de diversas línguas e enlaça-
das por distintas tradições. Assim, principalmente após os anos 60, com a agu-
dização do sentimento nacional, o acirramento das contradições ideológicas e
a deflagração da luta armada, deparamo-nos com obras que elegem diferentes
regiões do país para a realização de seus planos narrativos. Até mesmo nos títu-
los assinala-se o destaque do espaço enquanto dado de estruturação. Além dos
textos de Luandino, onde se reiteram as referências à cidade de Luanda, tem-
-se prática análoga em Pepetela, autor de Mayombe, nome de uma floresta da
região norte de Angola, situada na província de Cabinda. Se saímos da esfera
do romance e penetramos no reino dos contos, os exemplos se multiplicam. As
obras de Jofre Rocha, Arnaldo Santos e Boaventura Cardoso, para ficar apenas
com três, confirmam largmanete o fenômeno já relevante desde a década de
1930, nos nossos conhecidos Assis Jr. e Castro Soromenho. (CHAVES, 1999; p. 215)

Nos livros recentes de Luandino Vieira, podemos notar que o espaço se mantém fator de
estruturação narrativa: os rios, as matas, os canais (muíjes). Podemos perceber que, para Chaves,
além de Luandino Vieira, escritores um pouco mais jovens como Pepetela (1941- ) e Boaventura
Cardoso (1945- ) contribuíram também para a consolidação do sistema literário angolano. Am-
bos são escritores ainda vivos e atuantes que, como Luandino Vieira, ocupam lugar de relevo na
literatura angolana.

◄ Figura 39: Boaventura ◄ Figura 40: Pepetela


Cardoso (1945- ), à (1941- )à direita.
esquerda. Fonte: http://www.vidaslu-
Fonte: http://www.nexus. sofonas.pt/pepetela.htm
ao/kandjimbo/boaventu- Acesso em 24 de outubro
ra_cardoso.htm de 2011

51
UAB/Unimontes - 8º Período

PARA SABER MAIS Pepetela lutou, como membro do MPLA, na guerra de independência. A experiência da
1. Para conhecer mais guerrilha inspirou seu importante livro Mayombe (escrito entre 1970 e 1971, em campo de bata-
sobre a obra de Pepe- lha, e publicado em 1980; escreveu, também na luta, Aventuras de Ngunga, que serviria de car-
tela, confira o volume tilha de alfabetização do MPLA). Depois deste romance, sempre de maneira crítica e recorrendo
Portanto, Pepetela..., frequentemente à sátira, Pepetela tem tratado da história de Angola e denunciado os desman-
organizado por Tania dos da nova classe dirigente. Podemos destacar, de sua vasta obra, A geração da utopia (1992),
Macêdo e Rita Chaves,
publicado por Ateliê A gloriosa família (1997) e Os predadores (2005). Em A gloriosa família, o escritor angolano
Editorial em 2010; 2. narra, com muito humor, os conflitos entre portugueses e holandeses em Luanda, na primeira
Para conhecer mais so- metade do século XVII, conflitos que envolviam os reinos africanos, como o reino de Ngola, do
bre a obra de Boaven- Kongo, e os súditos da rainha Ginga. É interessante lembrar que estes eventos se deram no mes-
tura Cardoso, procure mo período da presença holandesa no nordeste do Brasil.
Boaventura Cardoso:
escrita em processo, Boaventura Cardoso, após a independência de Angola, tem ocupado importantes cargos,
volume organizado por como o de ministro da cultura (de 2002 a 2010). Sua obra inclui contos e romances: Dizanga Dia
Inocência Mata, Rita Muenhu (1977), O Fogo da Fala (1980), A Morte do Velho Kipacaça (1987), O Signo do Fogo
Chaves e Tania Macêdo, (1992), Maio Mês de Maria (1997) e Mãe Materno Mar (2001). Em Maio Mês de Maria aborda,
publicado em 2005 de maneira alegórica e figurada, a brutal repressão à tentativa de golpe de 1977 (golpe encabe-
pela editora paulistana
Alameda, em parceria çado por Nito Alves, importante líder do MPLA). A alegoria é recurso presente também em outras
com a UEA – União dos obras, como Mãe Materno Mar.
escritores angolanos. Gostaria de destacar que tanto Rita Chaves como Tania Macêdo entendem que o “espaço” é
elemento de construção narrativa privilegiado na literatura angolana, tendo em vista o empenho
dessa literatura em tratar da realidade do país, contribuindo para a construção da nação. Talvez
não apenas nos gêneros narrativos, mas também na poesia lírica, como no caso do poema de
Maia Ferreira, “À minha terra”. Nesse sentido, a obra de Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010) vem
contribuir decisivamente para a representação da pluralidade cultural e territorial angolana, tra-
zendo à cena literária o sudoeste do país.
Figura 41: Ruy Duarte ►
de Carvalho (1941-2010).
Fonte: http://www.buala.
org/pt/ruy-duarte-de-
-carvalho


Figura 42: Capa de seu livro Desmedida (2006), em que relata viagem pelo Brasil.
Fonte: http://cafecomlivros.com.br/diversos/7074-desmedida-.html
Acesso em 24 de outubro de 2011

Ruy Duarte de Carvalho, como Luandino Vieira, também travou diálogo fecundo com a obra
de Guimarães Rosa. No livro Desmedida, de 2006, o escritor relata como tomou contato com a
obra de Rosa:

Quando aí por 1965, numa tabacaria da Gabela, interior do Kwanza-Sul, dei en-
contro com o Grande sertão: veredas em edição, a 5ª parece-me, da Livraria
José Olympio, o facto foi, de facto e de várias maneiras, muito importante na
minha vida. Foi um daqueles livros que vêm, literalmente, ao nosso encontro
(...). (...) Defrontei-me então muito arduamente com as primeiras páginas do
Grande sertão e deixei-me depois entrar naquilo para tornar-me, a partir daí e
até agora, um leitor compulsivo, permanente e perpétuo, de Guimarães Rosa.

52
(...)
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Mas para o que talvez possa interessar agora, eu estava a encontrar ali, final-
mente, um tipo de escrita e de ficção adequadas à geografia e à substância hu-
mana que eu andava então, técnico da Junta do Café, a freqüentar e a fazer-me
delas por Angola afora. (...) E nas paisagens que Guimarães Rosa me descrevia,
eu estava a reconhecer aquelas que tinha por familiares. Já porque de natureza
a mesma que muitas paisagens de Angola – e em algumas das paisagens de
Angola eu reconhecia aquelas, enquanto o lia – já porque a gente que ele tra-
tava, gente de matos e de grotas, de roças e capinzais, era também em Angola
aquela com quem durante muitos anos andei a lidar pela via do ofício de viver.
(CARVALHO, 2006; p.85-86).

Podemos notar que Ruy Duarte de Carvalho sentiu uma profunda identificação com a obra
de Guimarães Rosa, percebendo nela um tipo de escrita e de ficção adequadas à realidade ango-
lana, humana e natural. Esta reação é bastante semelhante à de Luandino Vieira: ler Guimarães
Rosa parece ser encontrar algo que se buscava, descobrir caminhos para a constituição de uma
literatura propriamente angolana. No caso de Ruy Duarte de Carvalho, como ele mesmo diz e se
faz evidente em sua obra poética, ficcional e ensaística futura, a leitura de Guimarães Rosa não
conduziu a uma experimentação linguística, como se deu com Luandino Vieira.
Tanto como antropólogo como enquanto escritor e poeta, Ruy Duarte de Carvalho busca fa-
lar dos africanos aos não-africanos, e dos não-africanos aos africanos. Em Desmedida, o narrador
relata sua viagem pelo Brasil, pelo rio São Francisco, e, em determinado momento, explicita que
seu interlocutor é Paulino, kuvale do sul de Angola. Como vimos já, um de seus livros de poemas,
Ondula Savana Branca, consiste justamente na versão para o português de poemas orais africa-
nos, das mais diversas culturas e regiões. De sua vasta obra, que inclui uma interessante produ-
ção cinematográfica, aquarelas, desenhos, além de ensaios, poesia, romances, contos e trabalhos PARA SABER MAIS
acadêmicos em antropologia, tem destaque a trilogia Os filhos de Próspero, composta pelos ro-
mances Os papéis do inglês (2000), As paisagens propícias (2005) e A terceira metade (2009). Sobre Ana Paula
Tavares, leia o artigo
N’Os papéis do inglês (livro publicado no Brasil em 2007), há uma passagem que sugere, de ma- de Simone Schmidt,
neira metafórica, a busca pelo diálogo cultural que caracteriza a obra de Ruy Duarte de Carvalho. professora da Universi-
Vejamos: dade Federal de Santa
Catarina, intitulado
Toca violino. O Inglês toca violino, de tempos a tempos e ao cair da tarde. Repete “Mulheres e memória
quase sempre séries infindáveis de frases musicais, vira a pauta, ensaia um trecho da guerra nas crônicas
à frente, raramente executa uma qualquer apreciável extensão de música. (...). de Ana Paula Tavares”,
O fenômeno insinuou-se de forma subtil. O Ganguela, cozinheiro e carreiro do publicado em 2010, na
coice, calado sempre, passou a vir agachar-se aos pés do Inglês, quase encosta- Revista Mulemba, n.
do às pernas altas do branco. Da primeira vez veio com uma caixa de madeira, 2, UFRJ, Rio de Janeiro;
espécie também de rabeca, aparelhada em peças cortadas à catana. Esperou disponível em: http://
por uma das pausas, fez o gesto mas deteve-se, deixou passar mais três ou qua- setorlitafrica.letras.ufrj.
tro, e imediatamente a seguir à que lhe trouxe a coragem, plangeu um som de br/mulemba/artigo.
sua lavra. Ninguém reagiu. (...) php?art=artigo_2_2.
Da terceira vez, finalmente, foi de kissanje que o Ganguela se apresentou, um php
desses kissanges dos mais completos, com caixa grande de cabaça antiga.
Tomou a posição habitual, ensaiou o tom já na primeira pausa, verteu no ar o
choro das palhetas, prolongou a escorrência, deteve o fluxo com um remate Figura 44: Capa de seu
brusco. O Inglês endireitou o corpo, firmou-se com força na perna esquerda livro Como veias finas
para dar melhor apoio ao ombro do Ganguela, fixou-se na pauta e rasgou as da terra (2010).
horas, crepusculares, mornas ainda, do fim da tarde nos confins do Kwando. Fonte: http://blog-poetas.
Uma importante alteração ao programa viria a dar-se quando, na estação seguin- blogspot.com/2010/11/
te, o Inglês passou a vir acompanhar, na sanzala, os solos de kissange do Gan- fala-da-amada-paula-tava-
guela, surdina morosa em noites de lua e frias, e nos intervalos de alguns trechos res.html. Acesso em 24 de
mais sentidos era o lancinante contraponto do stradivarius que vinha dilacerar o outubro de 2011
peito de tantos homens, de tanta raça e tão sós. (CARVALHO, 2007; p. 77-79) ▼

Esta cena, que pode ser lida como uma metáfora do projeto literá-
rio e intelectual de Ruy Duarte de Carvalho, sugere a mescla, o diálogo,
como sendo uma possibilidade de criar algo novo. Este talvez seja o ho-
rizonte das literaturas africanas como um todo.
A poesia de Ana Paula Tavares, nascida na Huíla, sul de Angola, em
1952, também pode ser lida nessa chave, da busca por uma forma po-
ética que mescle modernidade e tradição. Vejamos um poema de livro
recente, Como veias finas da terra, de 2010:

◄Figura 43: Ana Paula Tavares (1952- ).


Fonte: http://coresepalavras.blogspot.com/2007/10/ana-paula-tavares.htm

53
UAB/Unimontes - 8º Período

Adorno

Toda a noite chorei na casa velha


Provei, da terra, as veias finas.
Um nome um nome a causa das coisas
Eu terra eu árvore eu sinto
todas as veias da terra
em mim e
o doce silêncio da noite.

Tratando do percurso da literatura angolana, Rita Chaves sugere, no já citado livro A forma-
ção do romance angolano, que as conquistas expressionais de Luandino Vieira, devedoras cer-
tamente das investigações de escritores anteriores (de Assis Jr. a Óscar Ribas), configuram uma
espécie de substrato ou solo literário que alimenta os novos escritores, que teriam já, portanto,
recursos de uma literatura propriamente angolana para elaborar suas obras. Tratando de A con-
jura (1989), de José Eduardo Agualusa (1960- ), considera:

Figura 45: José Eduardo Para além da temática, vive em sua narrativa uma atmosfera angolana, criada
Agualusa (1960- ). não só a partir das referências espacio-temporais que respondem pela verossi-
Fonte: http://fmanha.com. milhança. Angolanizando o seu texto organiza-se uma linguagem onde à sole-
br/blogs/michellemayrink/ nidade esperada do discurso histórico se sobrepõe um travo de ironia muitíssi-
category/educacao/ mo bem arranjada nas criações de Luandino. (CHAVES, 1999; p. 213)
Acesso em 24 de outubro
de 2011
Os escritores que produziram suas obras depois da independência, contam já com um siste-
ma de obras, com uma literatura nacional consolidada, ou seja, de referências literárias nacionais
das quais partir. Importa notar, contudo, que o desencanto diante dos problemas do país inde-
pendente dará à literatura um tom distinto daquele que marcara o período de luta anti-colonial.
Agualusa, por exemplo, em Estação das chuvas (1996), apresenta um romance histórico (mes-
mo que recorrendo à ficção na construção de sua protagonista) desencantado e extremamente
crítico quanto ao MPLA. Arlindo Barbeitos (1941- ), que desde seus primeiros livros de poemas
(Angola, Angolê, Angolema, de 1976, e Nzoji (sonho), de 1979) apresenta uma dicção própria,
distinta da estética revolucionária, na década de 1990 publica dois livros que tratam dos horrores
da guerra civil, Fiapos de sonho (1992) e Na leveza do luar crescente (1997). Ondjaki, escritor
da novíssima geração, apresenta um olhar novo sobre a história de seu país, em livros como Bom
dia, camaradas (2001) e Os da minha rua (2007), em que se vale de sua experiência pessoal,
de infância, como material para elaboração ficcional. Tanto Agualusa como Ondaki, e também
Ana Paula Tavares, mantêm diálogo fecundo com a literatura e a cultura brasileiras. No caso de
▲ Ondjaki, a influência de Manoel de Barros é bastante sensível, particularmente em seu livro de
Figura 46: Ondjaki poemas Há Prendisajens com o Xão (2002). Um dos poemas deste livro é dedicado ao poeta
(1977- ), à direita. brasileiro, vejamos:
Fonte: www.editorial-ca-
minho.pt/catalogo/deta- Poema Chão
lhes_produto.php?id=3193 palavras para Manuel de Barros
Acesso em 24 de outubro
de 2011
apetece-me des-ser-me;
reatribuir-me a átomo.
cuspir castanhos grãos
ATIVIDADE mas gargantadentro;
isto seja: engolir-me para mim
Assista ao filme “Oxalá poucochinho a cada vez.
cresçam pitangas: um por mais um: areios.
histórias de Luanda”, assim esculpir-me a barro
de Ondjaki e Kiluanje e re-ser chão. muito chão.
Liberdade. Trata-se apetece-me chãonhe-ser-me.
de um interessante
documentário sobre
a cidade de Luanda,
de 2005. Redija um
comentário sobre suas
impressões acerca
da cidade de Luanda
estabelecendo relações
entre o filme e os tex-
tos literários abordados
nesta Unidade.

54
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Referências
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__________. A renúncia impossível. Luanda: INALD, 1982.

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BARBEITOS, Arlindo. Angola, Angolê, Angolema. Luanda: UEA, 1976.

__________. Nzoji (sonho). Luanda: UEA, 1979.

__________. O rio, estórias de regresso. Luanda: UEA, 1985.

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CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ate-
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_________. A formação do romance angolano. São Paulo: FBLP, Via Atlântica, 1999.

CHAVES, Rita; MACÊDO, Tania; MATA, Inocência. Boaventura Cardoso: a escrita em processo. São
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55
UAB/Unimontes - 8º Período

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56
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Unidade 5
Literatura moçambicana
Anita Martins Rodrigues de Moraes
Renato Gonçalves Lopes

◄ Figura 47: Mapa de


Moçambique.
Fonte: http://equattoria.
blogspot.com/2011/02/
conheca-mocambique-
-atraves-de-noticias.html.
Acesso em 24 de outubro
de 2011.

PARA SABER MAIS


A população atual de
Moçambique é estima-
da em 20 milhões de
pessoas.

◄ Figura 48: Bandeira de


Moçambique.
Fonte: http://escudosy-
banderas.es/pt/Africa/
Mo%C3%A7ambique/
bandeira-y-bras%C3%A3o-
-de-Mo%C3%A7ambique.
htm
Acesso em 24 de outubro
de 2011

57
UAB/Unimontes - 8º Período

Em “Tópicos para uma história literária moçambicana”, Ana Mafalda Leite, professora da Uni-
versidade de Lisboa, recorre à distinção entre “manifestações literárias” e “sistema literário” pro-
posta por Antonio Candido para estudo da formação da literatura brasileira. Segundo a estudio-
sa,

O ensaísta [Antonio Candido] considera as obras isoladas das fases iniciais de


uma literatura como esboços, ou “manifestações literárias”, uma vez que não
estão ainda reunidas as condições equilibradas do triângulo produção-obra-
-público, e nessa medida não são representativas de um sistema; semelhantes
manifestações literárias estabelecem, no entanto, um começo e marcam posi-
ções para o futuro.
Julgamos muito úteis as considerações de Antonio Candido e a sua distinção
entre manifestações literárias e literatura como sistema para a análise e estudo
da Literatura Moçambicana, em língua portuguesa. Com efeito, os períodos an-
teriores ao século XX, naquele território, não configuram ainda uma literatura,
enquadrada na concepção triangular proposta pelo ensaísta brasileiro. (LEITE,
2008; p. 48)

Ana Mafalda Leite destaca, como primeiras manifestações literárias, as que surgem na anti-
ga capital, a Ilha de Moçambique (hoje, cidade insular situada na província de Nampula):

A Ilha de Moçambique é um cenário convidativo para uma reflexão sobre as


primeiras manifestações literárias moçambicanas. Foi nesta ilha que Camões
permaneceu durante dois anos, e em torno dela se teceram hipóteses de ter
sido o motivo inspirador para o episódio camoniano de “A Ilha dos amores”;
por lá passou Bocage em 1786 de regresso a Lisboa, e nessa mesma Ilha viveu
até a data do seu falecimento, em 1810, Tomás Antonio Gonzaga, deportado
do Brasil em 1792, por estar implicado na Inconfidência Mineira. O autor de
Marília de Dirceu acabou por casar em Moçambique com uma senhora da
Ilha. Exerceu advocacia e desempenhou funções de juiz da Alfândega. Aí terá
escrito o poema “A Conceição”, sobre naufrágio ocorrido perto da Ilha de Mo-
çambique do navio Marialva, em 1802, carregado de ouro vindo do Rio de Ja-
neiro. (...) Foi nesta ilha de sedutora e demorada memória histórica e cultural
que nasceu, no século XIX, o primeiro poeta e jornalista moçambicano, com
nome assinado em diversas publicações da época, José Pedro da Silva Campos
de Oliveira. (...) (LEITE, 2008; p. 59-60)

De ascendência goesa por parte de pai (Goa era então também uma colônia portuguesa),
Campos de Oliveira (1847-1911) desenvolve seus estudos primários e secundários na Índia, vi-
vendo em Goa até 1867. Voltando à Ilha, desempenha vários cargos públicos, como diretor do
correio e escrivão da capitania dos portos.

Colaborou em diversas publicações de Moçambique, tais como: O Progresso,


O Jornal de Moçambique, Noticiário de Moçambique, África Oriental. Foi
proprietário e redator (quase único) da primeira publicação moçambicana de
caráter literário, a Revista Africana [publicada entre 1885-1887]. (LEITE, 2008; p.
61)

Na perspectiva de Ana Mafalda Leite, os modelos literários de sua escrita são europeus, es-
pecialmente portugueses e franceses. Contudo, é possível perceber manifestações iniciais de
uma adesão à terra moçambicana. Para a estudiosa, o poema “O pescador de Moçambique” es-
colhe “o mar como tema de vinculação à terra”, o que será recorrente na literatura moçambicana
futura. Vejamos:

O pescador de Moçambique

– Eu nasci em Moçambique,
de pais humildes provim,
a cor negra que eles tinham
é a cor que tenho em mim:
sou pescador desde a infância,
e no mar sempre vaguei;
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei.

Antes que o sol se levante


eis que junto à praia estou;
se ao repouso marco as horas
à preguiça não as dou;

58 em frágil casquinha leve,


Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

sempre longe do meu lar,


ando entregue ao vento e às ondas
sem a morte recear.

Ter contínuo a vida em risco


é triste coisa – sei que é!
mas do mar não teme as iras
quem em Deus depõe a fé;
é pequena a recompensa
da vida custosa assim;
mas se a fome não me mata
que me importa o resto a mim?

Vou da Cabaceira às praias,


atravesso Mussuril,
traje embora o céu d’escuro,
ou todo seja d’anil;
de Lumbo visito as águas
e assim vou até Sancul,
chegou depois ao mar-alto
sopre o norte ou ruja o sul.

Só à noite a casca atraco


para o corpo repousar,
e ao pé da mulher que estimo
ledas horas ir passar:
da mulher doces carícias
também quer o pescador,
pois d’esta vida os pesares
faz quase esquecer o amor!

Sou pescador desde a infância


e no mar sempre vaguei;
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei;
e em quanto tiver os braços,
a pá e a casquinha ali,
viverei sempre contente
neste lidar que escolhi! –

Podemos notar, neste belo poema de Campos de Oliveira, que o espaço é elemento impor-
tante. Localidades próximas à Ilha – Mussuril, Cabeceira, Lumbo e Sancul – são mencionadas no
poema, “situando geograficamente a experiência do sujeito” (LEITE, 2008; p. 64). Ana Mafalda Lei-
te nota também que a cor da pele, a “cor negra”, é destacada. Ao dar voz a um pescador moçam-
bicano, o poeta se aproxima da terra/mar e começa a modificar as formas da literatura herdada,
europeia, para expressar uma realidade própria. Ao sugerir tanto a pobreza como a altivez e co-
ragem do pescador negro, o poeta apresenta uma representação positiva do africano, bastante
diferente daquela que seria veiculada pela literatura colonial.
Na opinião de Ana Mafalda Leite, a mudança da capital da colônia para o sul, Lourenço Mar-
ques (hoje, Maputo), em 1898, atrapalhou um pouco a continuidade do processo de formação de
uma literatura própria. Em sua perspectiva,

Entre os vários fatores condicionantes, deve tomar-se em consideração uma


política de assimilação cultural e de ensino, muito precária até o século XX, que
impediu a formação de elites letradas, capazes de estabelecerem uma conti-
nuidade ininterrupta de obras e autores, já cientes de integrarem um processo
de formação literária.
Por outro lado, a deslocação da capital de Moçambique para o Sul, no final do
século XIX (1898), impossibilitou a continuidade da formação isolada do peque-
no núcleo de cultura letrada que teve lugar na capital, a Ilha de Moçambique.
(...) (LEITE, 2008; p. 48)

Será apenas no início do século XX, na nova capital Lourenço Marques, que “se elaborou e se
desenvolveu uma consciência de grupo, aglutinada em torno de descendentes das velhas famí-
lias locais, mestiços, filhos e netos de caçadores, comerciantes e funcionários europeus ou india-
nos.” (LEITE, 2008; p. 64). Como sugere a estudiosa, a formação de uma camada letrada na colônia
está relacionada à política da assimilação. No colonialismo moderno português são definidas três
classes: a dos indígenas (nativos africanos), sem direitos e com muitas obrigações; a dos assimila-

59
dos (pequena camada da população africana que teria adquirido modos europeus – muitos dos
UAB/Unimontes - 8º Período

escritores que viriam a lutar pelas independências vêm deste grupo); e a dos colonos, com todos
os privilégios. Como lembra o sociólogo moçambicano José Luís Cabaço:

Em 1917, o governo português na colônia instituía um alvará do assimilado,


obrigando todos os cidadãos não brancos a requererem o estatuto de assimi-
lado, fazendo prova de que tinham abandonado a cultura tradicional e que
viviam segundo os valores e os princípios da cultura portuguesa. Instituía-se,
dessa forma, a condição de cidadãos de segunda classe, por oposição aos cida-
dãos plenos (os brancos) e os desprovidos de cidadania, a maioria da popula-
ção denominada como “os indígenas”. (CABAÇO, 2011; p. 214)

Os descendentes das famílias locais, que porque negros ou mestiços se viam cada vez mais
marginalizados, tornados “cidadãos de segunda classe”, farão uso da imprensa para lutar por seus
direitos. As manifestações mais sistemáticas de uma literatura nacional moçambicana surgem
envolvidas neste combate à discriminação e ao racismo que caracterizam o novo colonialismo
português. O jornal O Africano, de 1908, é o primeiro veículo de denúncia das injustiças do go-
verno colonial. Segundo Leite, sua “finalidade era defender os interesses do grupo e da popula-
ção negra contra as novas tendências discriminatórias” (p. 65). Em 1918, surge outro jornal, que
se tornaria extremamente importante na formação da literatura moçambicana, O Brado Africa-
no, cujos editores eram os irmãos Albasini.

Do grupo de jornalistas ligados ao jornal O Brado Africano, cuja importância li-


terária vai estender-se até aos anos cinqüenta, destaca-se o poeta Rui de Noro-
nha (1909-1943). Enquadrado no modelo de assimilação cultural em processo
na então colônia de Moçambique, a sua escrita é muito marcada pela estética
do segundo Romantismo português, nomeadamente a poesia de Antero de
Quental. Alguns de seus textos poéticos, a maior parte dos quais travejados
pelo tema amoroso, e que deixou dispersos pela imprensa, mostram todavia
outros aspectos de uma vertente nativista e pan-africanista, nomeadamente
o soneto Surge et ambula, que recupera de Antero a vertente revolucionaria e
a missão de despertar consciências adormecidas, no entanto reconfigurado e
ajustado ao espaço de África. (LEITE, 2008; p. 67)

O soneto mencionado por Ana Mafalda Leite, que antecipa algo do sentimento pan-africa-
nista (de luta conjunta entre os países africanos contra os colonialismos), é o seguinte:

Surge et ambula

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.


Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo...
O Progresso caminha ao alto de um hemisfério
E tu dormes no outro o sono teu infindo...

A selva faz de ti sinistro ermitério,


Onde sozinha à noite, a fera anda rugindo...
Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério
E tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo...

Desperta! Já no alto adejam negros corvos


Ansiosos de cair e de beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente em carne de sonâmbula.

Desperta! O teu dormir já foi mais do que terreno.


Ouve a voz do Progresso, este outro Nazareno
Que a mão te estende e diz-te: – África, surge et [ambula!

Segundo Fátima Mendonça, professora da Universidade Eduardo Mondlane (Maputo, Mo-


▲ çambique), este poema mantém uma relação de intertextualidade com o soneto “A um poeta”,
Figura 49: Rui de de Antero de Quental. Em sua perspectiva, o poema de Rui de Noronha, com as diferenças que
Noronha (1909-1943) traz em seu bojo, “permite o reconhecimento de algumas representações do protonacionalismo”
Fonte: http://gloriai- (MENDONÇA, 2006; p. 99). A estudiosa moçambicana complementa:
nacselsis.wordpress.
com/2008/03/21/em-bus- Dá-se o primeiro passo para que o texto moçambicano passe a ser entendido
ca-de-rui-de-noronha-
-escritor-mocambicano-
como distanciado do sistema literário que lhe serviu de referência, o da litera-
-revisitado/ tura portuguesa. Justifica-se assim o papel emblemático que passou a repre-
Acesso em 24 de outubro sentar para as gerações posteriores, como texto fundador da nacionalidade
de 2011 literária moçambicana. Surge et ambula adquire pois a qualidade de “moçambi-
canidade” pelo que de particular/diferente exibe, relativamente a sistema lite-

60
rário com que dialoga. (MENDONÇA, 2006; p. 99)
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Outro soneto de Rui de Noronha destacado tanto por Ana Mafalda Leite como por Fátima
Mendonça é “Pós da história”, publicado no jornal O Brado Africano em 1934:

Pós da história

Caiu serenamente o bravo Quêto


Os lábios a sorrir, direito o busto
Manhude que o seguiu mostrou ser preto,
Morrendo como Quêto a rir sem custo.

Fez-se silêncio lúgubre, completo,


No Kraal do vátua célebre e vetusto.
E o Gungunhana, em pé, sereno o aspecto,
Fitava os dois, o olhar heróico, augusto.

Então Impincazamo, a mãe do vátua,


Triunfando da altivez humana e fátua,
Aos pés do vencedor caiu chorando.

Oh dor de mãe sublime que se humilha!


Que o crime se não esquece à luz que brilha
Ó mães, nas vossas lágrimas gritando?

Gungunhana foi imperador de Gaza; Quêto e Manhude foram chefes guerreiros fuzilados
por ocasião da sua prisão. Seu império, nguni, localizava-se na região sul de Moçambique. Ape-
nas em 1895 os portugueses lograram conquistá-lo. Segundo Fátima Mendonça,

Quando “descobri” este soneto publiquei, em 1986, na revista África, artigo em


que chamo a atenção para a evidência de uma atitude de subversão da História
de Portugal, tal como era apresentada nos compêndios que circulavam na épo-
ca, segundo os quais a rendição de Gungunhana a Mouzinho de Albuquerque,
teria sido marcada por humilhação infligida ao Imperador de Gaza por Mouzi-
nho, ao obrigá-lo a sentar-se no chão”. (MENDONÇA, 2006; p. 71)

Será ainda em O Brado Africano, e também na revista literária Itinerários, que uma nova
geração de escritores moçambicanos publicará seus textos em finais da década de 1940 e come-
ço dos anos 1950. Em 1952, a revista Msaho, número único de 1952, é também marco importan-
te (msaho significa verso de composição musical executada pelos timbileiros chopes; timbileiros
são tocadores de timbila e chope é um povo que habita o sul de Moçambique). Para o historiador
e escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, trata-se ainda do primeiro momento da li-
teratura moçambicana, que se volta para a “construção do nacionalismo” (p. 61). Desta geração
destacam-se João Dias (1923-1949), autor do importante livro Godido e outros contos, Orlando
Mendes (1916-1990), Virgílio de Lemos (1929- ), Ruy Guerra (nascido em 1931; mudou-se para
o Brasil, tornando-se importante cineasta envolvido com o chamado Cinema Novo), Noémia de
Sousa e José Craveirinha. Para Borges Coelho, estes “novos poetas e escritores” produzem suas
obras “na margem entre o mundo africano e o mundo branco colonial”. (COELHO, 2009; p. 61) O
estudioso complementa:

(...) por um lado assumem e aprofundam a sua condição africana, que os afasta
das esmolas prometidas pelo regime colonial e os leva por caminhos da temá-
tica pan-africanista e nacionalista; por outro, procuram abertamente construir
uma modernidade local, abrindo-se ao jazz afro-americano e a influências es-
téticas das literaturas portuguesa, brasileira e norte-americana. No fundo, pro-
curam a “sua voz” pra fazerem da denúncia um ato simultaneamente de cida-
dania e literário. (p. 61-62)

A crítica à sociedade colonial, às injustiças e exploração que a caracterizam, marca a produ-


ção literária desta geração. No poema “Magaíça” (publicado na antologia Poesia negra de ex-
pressão portuguesa, 1953), Noémia de Sousa denuncia exploração do imigrante moçambicano
que era deslocado para trabalhar nas minas da África do Sul:

Magaíça

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda


engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
61
UAB/Unimontes - 8º Período

Tragou seus olhos redondos de pasmo,


seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.
Glossário E um dia,
Magaíca: moçambicano o comboio voltou, arfando, arfando...
que regressa de uma tem- oh nhanisse, voltou.
porada de trabalho nas e com ele, magaíça,
minas da África do Sul. de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.

Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, [magaía?


trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...
A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.

Figura 50: José ►


Craveirinha e Noémia
de Sousa
Fonte: http://mbila.blogs-
pot.com/
Acesso em 24 de outubro
de 2011

José Craveirinha, em “Hino à minha terra”, apropria-se simbolicamente da terra moçambica-


na, antecipando, pela palavra, a constituição da nação. Vejamos:

Hino à minha terra

O sangue dos nomes


é o sangue dos homens
Suga-o também se és capaz
tu que não os amas.

Amanhece
sobre as cidades do futuro.
E uma saudade cresce no nome das coisas
e digo Metengobalame e Macomia
e é Metengobalame a cálida palavra
que os negros inventaram
e não outra coisa Macomia.

E grito Inhamússua, Mutamba, Massangulo!!!


E torno a gritar Inhamússua, Mutamba, Massangulo!!!
E outros nomes da minha terra
afluem doces e altivos na memória filial
e na exacta pronúncia desnudo-lhes a beleza.
Chulamáti! Manhoca! Chinhambanine!
Morrumbala, Namaponda e Namarroi
e o vento a agitar sensualmente as folhas dos canhoeiros

62
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

eu grito Angoche, Marrupa, Michafutene e Zóbuè


e apanho as sementes do cutlho e a raíz da txumbula
e mergulho as mãos na terra fresca de Zitundo.
Oh, as belas terras do meu áfrico País
e os belos animais astutos Glossário
ágeis e fortes dos matos do meu País 1. As palavras autócto-
e os belos rios e os belos lagos e os belos peixes nes em letra maiúscula
e as belas aves dos céus do meu País são no geral topôni-
e todos os nomes que eu amo belos na língua ronga mos, com exceção de
macua, suaíli, changana, alguns nomes pró-
xítsua e bitonga prios, como Santaca e
dos negros de Camunguine, Zavala, Meponda, Chissibuca Nengué-ua-Suna;
Zongoene, Ribáuè e Mossuril. 2. cutlho: mafura;
- Quissimajulo! Quissimajulo!- gritamos 3. txumbula: mandio-
nossas bocas autenticadas no hausto da terra. ca;
-Aruángua! - Responde a voz dos ventos na cúpula das [micaias. 4. ronga, macua, sua-
íli, changana, xitsua e
E no luar de cabelos de marfim nas noites de Murrupula bitonga são algumas
e nas verdes campinas das terras de Sofala a nostalgia sinto das línguas nacionais,
das cidades inconstruídas de Quissico africanas, mais faladas
dos chindjiguiritanas no chilro tropical de Mapulanguene em Moçambique;
das árvores de Namacurra, Muxilipo, Massinga 5. Chindjiguiritanas:
das inexistentes ruas largas de Pindagonga pássaros tropicais;
e das casas de Chinhanguanine, Mugazine e Bala-Bala 6. chango: espécie de
nunca vistas nem jamais sonhadas ainda. gazela;
Oh! O côncavo seio azul-marinho da baía de Pemba 7. Impala, xipene,
e as correntes dos rios Nhacuaze, Incomáti, Matola, Púnguè egocero, inhacoso:
e o potente espasmo das águas do Limpopo. tipos de antílopes;
Ah! E um cacho das vinhas de espuma do Zambeze coalha ao [sol 8. sécuas: patos bravos;
e os bagos amadurecem fartos um por um 9. xidana-kata: Peixe
amuletos bantos no esplendor da mais bela vindima. vermelho;
10. mamba: serpente
E o balir pungente do chango e da impala venenosa;
o meigo olhar negro do xipene 11. timbila: instrumen-
o trote nervoso do egocero assustado to do sul, semelhante
a fuga desvairada do inhacoso bravo no Funhalouro ao xilofone; xipendana:
o espírito de Mahazul nos poentes da Munhuana instrumento musical
o voar das sécuas na Gorongoza unicórdio tocado com
o rugir do leão na Zambézia uma vareta e modulado
o salto do leopardo em Manjacaze com a boca;
a xidana-kata nas redes dos pescadores da Inhaca 12. nhantsuma,
a maresia no remanso idílico de Bilene Macia mampsincha, mavún-
o veneno da mamba no capim das terras do régulo Santaca gua: frutas tropicais;
a música da timbila e do xipendana 13. xigubos: danças;
o ácido sabor da nhantsuma doce 14. Xicuembo: feitiço;
o sumo da mampsincha madura 15. xipalapala: um tipo
o amarelo quente da mavúngua de corneta;
o gosto da cuácua na boca 16. quizumbas: hienas.
o feitiço misterioso de Nengué-ua-Suna.

Meus nomes puros dos tempos


de livres troncos de chanfuta umbila e mucarala
livres estradas de água ATIVIDADE
livres pomos tumefactos de sémen
livres xingombelas de mulheres e crianças Releia atentamente o
e xigubos de homens completamente livres! poema de José Cra-
veirinha e redija uma
Grito Nhanzilo, Eráti, Macequece análise interpretativa.
e o eco das micaias responde Amaramba, Murrupula,
e nos nomes virgens eu renovo o seu mosto em Muanacamba
e sem medo um negro queima as cinzas e as penas de corvos [de agoiro
não corvos sim manguavavas
no esconjuro milenário do nosso invencível Xicuembo!

E o som da xipalapala exprime


os caninos amarelos das quizumbas ainda
mordendo agudas glandes intumescidas de África
antes da circuncisão ébria dos tambores incandescentes
da nossa maior Lua Nova.

63
UAB/Unimontes - 8º Período

Neste belo poema de José Craveirinha, nomeia-se o território, nomeiam-se seus animais e
plantas, os instrumentos musicais tradicionais, as danças e rituais, com palavras das línguas afri-
canas. Recusando os nomes portugueses e afirmando os nomes africanos, o poeta se reapropria
de sua terra invadida, reafirma sua cultura aviltada pelo colonizador. Interessantemente, o poeta
sonha com uma modernidade africana, que surjam cidades em Quissico. Vemos, assim, que a lite-
ratura desta geração afirma o valor das culturas tradicionais, mas também procura construir uma
modernidade local, articulando modernidade e tradição na luta contra a opressão colonial. Rui
Knopfli, contudo, importante poeta nascido em 1932, não se ocupa da afirmação de uma litera-
tura nacional, desenvolverá uma poesia mais voltada para questões de forma. Desde a indepen-
dência de Moçambique, Rui Knopfli está radicado em Portugal. Na opinião de Fátima Mendonça,

Desde o seu primeiro livro, O País dos Outros (1959), até Mangas Verdes com
Sal (1969), pode-se observar em Rui Knopfli a constante preocupação em atin-
gir uma escrita depurada, palavra burilada e, tal como Craveirinha, criativa e
neologística. (...)
Inserida num permanente pessimismo, na angústia, no acirrado das palavras,
não cabe na sua poesia [de Knopfli] espaço para a esperança que a afirmação
nacional produz em Craveirinha. (MENDONÇA, 2002; p. 58-60)

O diálogo com a literatura brasileira, especialmente com a segunda geração modernista, foi
muito importante para esta geração de escritores. No seguinte poema, Noémia de Sousa home-
nageia um dos escritores mais lidos nos países africanos de língua portuguesa, Jorge Amado.

Poema a Jorge Amado

O cais...
O cais é um cais como muitos cais do mundo...
As estrelas também são iguais
às que se acendem nas noites baianas
de mistério e macumba...
(Que importa, afinal, que as gentes sejam moçambicanas
ou brasileiras, brancas ou negras?)
Jorge Amado, vem!
Aqui, nesta povoação africana
o povo é o mesmo também
é irmão do povo marinheiro da Baía,
companheiro de Jorge Amado,
amigo do povo, da justiça e da liberdade!

Não tenhas receio, vem!


Vem contar-nos mais uma vez
tuas histórias maravilhosas, teus ABC’s
de heróis, de mártires, de santos, de poetas do povo!
Senta-te entre nós
e não deixes que pare a tua voz!
Fala de todos e, cuidado!
não fique ninguém esquecido:
nem Zumbi dos Palmares, escravo fugido,
lutando, com seus irmãos, pela liberdade;
nem o negro António Balduíno,
alegre, solto, valente, sambeiro e brigão;
nem Castro Alves, o nosso poeta amado;
nem Luís Prestes, cavaleiro da esperança;
nem o Negrinho do Pastoreio,
nem os contos sem igual das terras do cacau
- terra mártir em sangue adubada -
essa terra que deu ao mundo a gente revoltada
de Lucas Arvoredo e Lampião!

Ah não deixes que pare a tua voz,


irmão Jorge Amado!
Fala, fala, fala, que o cais é o mesmo,
mesmas as estrelas, a lua,
e igual à gente da cidade de Jubiabá,
- onde à noite o mar tem mais magia,
enfeitiçado pelo corpo belo de Iemanjá -,
vê! igual à tua,
é esta gente que rodeia!
Senão, olha bem para nós,

64
olha bem!
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Nos nossos olhos fundos verás a mesma ansiedade,


a mesma sede de justiça e a mesma dor,
o mesmo profundo amor
pela música, pela poesia, pela dança,
que rege nossos irmãos do morro...
Mesmas são as cadeias que nos prendem os pés e os braços,
mesma a miséria e a ignorância que nos impedem
de viver sem medo, dignamente, livremente...
E entre nós também há heróis ignorados
à espera de quem lhes cante a valentia
num popular ABC...

Portanto, nada receies, irmão Jorge Amado,


da terra longínqua do Brasil! Vê:
Nós te rodearemos
e te compreenderemos e amaremos
teus heróis brasileiros e odiaremos
os tiranos do povo mártir, os tiranos sem coração...
E te cantaremos também as nossas lendas,
e para ti cantaremos
nossas canções saudosas, sem alegria...

E no fim, da nossa farinha te daremos


e também da nossa aguardente,
e nosso tabaco passará de mão em mão
e, em silêncio, unidos, repousaremos,
pensativamente,
olhando as estrelas do céu de Verão
e a lua nossa irmã, enquanto os barcos balouçarem
[brandamente
no mar prateado de sonho...

Jorge Amado, nosso amigo, nosso irmão


da terra distante do Brasil!
Depois deste grito, não esperes mais, não!
Vem acender de novo no nosso coração
a luz já apagada da esperança!

(22/5/49)

Por combater e denunciar as formas de opressão coloniais, esta geração de poetas e escri-
tores foi perseguida pela PIDE. Este também foi o caso de Luís Bernardo Honwana, escritor negro
nascido em 1942, que esteve preso pelo regime colonial por três anos. Publicou um só livro, Nós
matámos o cão Tinhoso, em 1964. Este livro de contos denuncia a violenta situação colonial em
Moçambique, marcada por racismo, exploração, violência, ódio e anseio por liberdade e justiça.
O segundo momento da literatura moçambicana inicia-se, na perspectiva de João Paulo
Borges Coelho, com a conquista da independência pela FRELIMO, em 1975. Ganha impulso, en-
tão, uma literatura fortemente voltada ao louvor da luta. Segundo Borges Coelho:

A FRELIMO entrou no país com uma grande desconfiança das cidades e, embo-
ra o movimento literário estivesse do lado certo da barricada, denunciando o
regime colonial e explorando diversas vertentes do nacionalismo, geografica-
mente estava, todavia, do lado errado.
Além disso, a FRELIMO trazia também uma perspectiva fechada da luta nacio-
nalista, literariamente representada por uma modesta “poesia de combate”.
Nessa perspectiva só parcialmente cabiam os intelectuais urbanos, de qual-
quer modo sempre subalternamente. Acima de tudo, essa versão fechada pro-
curava erigir-se como uma modernidade própria, na qual não cabia o fascínio
que a literatura nacionalista em espaço colonial desenvolvia pela africanidade
e tradição. Até porque parte dessa tradição viria a ser repudiada, enquanto
obscurantista, por uma estratégia que visava a construção do “homem novo”.
(COELHO, 2009; p. 63)

A hegemonia da “poesia de combate” só será parcialmente rompida com a publicação de


Raiz de Orvalho, de Mia Couto (1955- ), em 1983. De caráter intimista, não ocupada em louvar
a FRELIMO e anunciar o “homem novo moçambicano”, a poesia de Mia Couto abre uma brecha
de liberdade para a literatura, em meio a um ambiente um tanto fechado. Segue-se a formação
do grupo em torno da revista Charrua, vinculada à AEMO (Associação dos Escritores Moçambi-

65
UAB/Unimontes - 8º Período

canos, criada em 1982) que dará novo alento à produção literária. Ao longo da década de
1980, surgem novos poetas e escritores, alguns dos quais vinculados à revista Charrua,
como Eduardo White (1963- ), Luís Carlos Patraquim (1953- ), Ungulani Ba Ka Khosa (1957-
) e Suleiman Cassamo (1962- ), todos ainda hoje atuantes.
A realidade da brutal guerra civil que se instalou no país será tratada pela literatura.
Eduardo White, autor, entre outros, do livro de poemas O país de mim (1989), sugere, em
alguns de seus poemas, o horror que se passava. No vigésimo sexto poema deste livro,
Eduardo White formula uma interessante relação entre palavra e amor:

Porém, mal amanhece,


a caminho de emprego
e desamados já, todos,

o país real vai-nos dando a perceber como tarda esse [entendimento,


essa réstia de esperança que ainda alimentamos,
▲ porque, ao invés de palavras, ao invés do necessário [amor,
Figura 51: Capa do o que levamos em nossas silenciosas bocas
primeiro volume da são a fome e a raiva apertadas entre os dentes.
revista literária Charrua
(junho de 1984).
Em Ualalapi, de 1987, o escritor moçambicano Ungulani Ba
Fonte: http://ma-schamba.
blogspot.com/ Ka Khosa trata da consolidação do império de Gaza, abordando
Acesso em 24 de outubro os conflitos que tiveram lugar no sul de Moçambique em finais
de 2011 do século XIX. O romance, ao retomar o mito colonial português
(da subjugação do imperador Gungunhana por Mouzinho de
Albuquerque) e o mito revolucionário moçambicano (do forte
e corajoso imperador Gungunhane, que resistiu até o fim à con-
quista colonial), desvela o caráter ideológico de ambos. Ualalapi
coloca-se o desafio de buscar, entre as ideologias herdadas, uma
forma nova de tratar da história passada e presente de Moçam-
bique. O romance se estrutura como um conjunto de contos, ou
seja, seus capítulos são bastante independentes entre si. Trata de
guerras pregressas, da “guerra de pacificação/conquista” empre-
endida pelos portugueses contra o império de Gaza, e, especial-
mente, da guerra de dominação dos tsonga e chope pelos ngu-
▲ ni, e os eventos de violência praticados por Gungunhana para
Figura 52: Ungulani Ba Ka Khosa ocupar o trono. Podemos pensar que Ungulani Ba Ka Khosa, por
Fonte: http://www.leya.co.mz/ meio de uma engenhosa volta no tempo, reflete sobre a guerra
Acesso em 24 de outubro de 2011.
▲ presente em Moçambique no período da publicação do livro.
Figura 53: Capa Mia Couto também tratará em contos, crônicas e em seu primeiro romance dos horrores da
de Ualalapi (1987), guerra civil. Terra Sonâmbula foi publicado em 1992, ano em que se deu o acordo de paz em
contando com
fotografia do imperador
Moçambique, e trata justamente dos escombros desta guerra. O romance entrelaça duas narra-
Gungunhana tivas, a de Tuahir e Muidinga (que se encontram numa estrada devastada pela guerra, abrigados
Fonte: http://revide. num ônibus incendiado) e a que nos chega pela leitura dos cadernos de Kindzu (em que este es-
blogspot.com/2007/01/ creveu uma espécie de autobiografia, ou de diário). Muidinha e Tuahir encontram estes cadernos
ualalapi-ungulani-ba-ka- na mala de um homem morto a tiro, cujo corpo está próximo ao ônibus incendiado. Muidinga lê,
-khosa.html
Acesso em 24 de outubro para Tuahir, à noite, em volta do fogo, estes cadernos. O romance recorre bastante à construção
de 2011 de imagens. Algumas têm forte poder de condensação, configurando “metáforas” do real abor-
dado, de Moçambique arrasado pela guerra. Podemos destacar duas: a da baleia encalhada na
praia, que se situa na narrativa de Kindzu, e a do elefante ferido, presente na narrativa que trata
de Muidinga e Tuahir:

Ouvíamos a baleia mas não lhe víamos. Até que, certa vez, desaguou na praia
um desses mamíferos, enormão. Vinha morrer na areia. Respirava aos custos,
como se puxasse o mundo nas suas costelas. A baleia moribundava, esgoniada.
O povo acorreu para lhe tirar carnes, fatias e fatias de quilos. Ainda não morrera
e já seus ossos brilhavam no sol. Agora eu via o meu país como uma dessas
baleias que vêm agonizar na praia. A morte nem sucedera e já as facas lhe rou-
bavam pedaços, cada um tentando o mais para si. Como se fosse o último ani-
mal, a derradeira oportunidade de ganhar uma porção. De vez em quando me
parecia ouvir ainda o suspirar do gigante, engolindo vaga após vaga, fazendo
da esperança uma maré vazando. Afinal, nasci num tempo que não acontece. A
vida, amigos, já não me admite. (COUTO, 1995; p. 27)

66
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Então, por entre os altos capins, assoma um elefante. O bicho se arrasta, cansa- PARA SABER MAIS
do do seu peso. Mas há no demorar das pernas um sinal de morte caminhando.
E, na realidade, se vislumbra que, em plenas traseiras, está coberto de sangue. 1. conheça a disser-
O animal se afasta, penoso. Muidinga sente o golpe de agonia em seu próprio tação de Gilberto
peito. Aquele elefante se perdendo pelos matos é a imagem da terra sangran- Matusse, pesquisador
do, séculos inteiros moribundando na savana. (COUTO, 1995; p. 46) moçambicano, intitu-
lada A construção da
moçambicanidade em
A escrita de Mia Couto está marcada pela invenção de neologismos. Podemos entender que José Craveirinha, Mia
este trabalho com a linguagem constrói uma “liberdade” com relação à norma padrão da língua couto e Ungulani Ba
portuguesa. Esta “liberdade” associa-se ao interesse pelas culturas de tradição oral, relacionando- Ka Khosa, defendida
-se, assim, à inscrição de traços de oralidade no texto escrito – inclusive de palavras e constru- na Universidade Nova
ções sintáticas não reconhecidas pelo padrão do português escrito, marcadas pela influência das de Lisboa em 1993;
2. Conheça o livro de
línguas bantas. Podemos pensar que a invenção de novas palavras abala a norma linguística, pro- Terezinha Taborda
pondo novas formas de dizer o mundo, para além das formas estabelecidas, ou socialmente do- Moreira, professora da
minantes. O inesperado na escrita tem como desdobramento possível, ou desejável, a sugestão Pontifícia Universida-
de novas formas de dizer o real, portanto de novas formas de ver e entender o mundo. de Católica de Minas
Gerais, intitulado O vão
da voz: a metamorfose
do narrador na literatu-
ra moçambicana (Edito-
ra Puc-Minas, 2005), em
que estuda a recriação
da oralidade na lite-
ratura moçambicana,
propondo a noção de
narrador performáti-
co. A autora trata de
um variado conjunto
de obras e escritores,
tornando-se, o livro,
◄ Figura 54: Mia Couto uma referência impor-
Fonte: http://www. tante para o estudo da
substantivoplural.com.br/ literatura moçambicana
mia-couto-2/ em geral.

◄ Figura 55: Capa de


seu primeiro livro
de contos, Vozes
anoitecidas (1987)
Fonte: http://editora-ndji-
ra.blogspot.com
/2010/02/contos-e-nove-
las-de-mia-couto.html
Acessos em 24 de outubro
de 2011

67
UAB/Unimontes - 8º Período

Guimarães Rosa é um escritor bastante importante para Mia Couto. Foi a partir da obra do
escritor angolano Luandino Vieira que Mia Couto tomou contato com a obra de Guimarães Rosa.
Assim, foi a obra de Luandino Vieira, bastante marcada pela influência de Guimarães Rosa, que
impactou a escrita de Mia Couto inicialmente. Vale enfatizar, aqui, a importante repercussão da
obra de Guimarães Rosa entre escritores africanos dos países que, entre outras línguas, fazem
uso do português. Na verdade, como vimos já, a literatura brasileira da primeira metade do sécu-
lo XX influenciou amplamente as literaturas africanas de língua portuguesa (os escritores brasi-
leiros mais lidos foram Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João
Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado). Até 1975, o interesse
por parte dos escritores africanos pela literatura brasileira participava de um anseio de ruptura
com Portugal. Depois das independências, o diálogo com a literatura brasileira permanece, par-
ticipando ainda da intenção de produzir uma literatura própria, distinta da literatura portuguesa.
O seguinte poema de Luís Carlos Patraquim atesta a relevância deste diálogo em autores con-
temporâneos (publicado em O osso côncavo e outros poemas):

Drummondiana

Já não elido, fiel amante da enunciação,


O mundo durando. Carrego a mina no peito
Se abrindo – nenhuma dor maior –
Entre casuarinas que acenam a infância.
Meus versos se despiram. A noite,
A inenarrável, a que espera sem iludida
Elisão rasgar este poema, sorri dos muros
Circum-navegando a casa. Como plantei muros!
Como dou, sem pagamento, talvez um quark
Ou comburente de enzimas com alguma estória.
Protéicas idéias se metamorfoseiam
E a palavra escande e soçobra no silêncio.
José, Jacó, Macuácua, fazem um nome.
Porém me perco. Não trago escada
E nenhum anjo é maior do que o meu amor.
Ela estremece. Em seu rosto acrescento
A dissonante, vaga luz do lume, informulada
Poesia. Só ainda a funda música se estrutura,
Pura, líquida substância desde as veias,
Esgueirando-se de sílabas, de verbos, lívidas vogais.
Aqui, sem marketing para viagens lunares,
Componho esta planície infensa aos escrúpulos
Da morte. Uma árvore cortada apodrece!
Os sexos são só sexos não futuráveis
Mas como explodem os corpos, em sôfregos,
Misteriosos abraços de máscaras de caniço.
Como de granito pesam as barrigas dos meninos!
Escrevo, não obstante, um país solar,
Rouca a língua que soluça em sintagmas antigos.
Verde foi o pinho das gáveas com ferros
Para as Américas. A memória é isto.
Mas já não elido. Também tenho um quarto,
Nenhum S. Benedito. Algumas esporas me ferem
Animal e cavaleiro. Do mundo a máquina chegará
Com a máquina – este avião de trigo, sujeito
E objecto sem interrogações. Só ainda o mar
Espreita o meu desejo ondulante na areia.
A tua flor anuncio, orquestração, maravilha.
Com o meu sêmen, o frágil milagre.

Neste poema, Patraquim demonstra uma leitura acurada da obra de Carlos Drummond de
Andrade, aludindo a temas, motivos e formulações nela presentes – como “Do mundo a máqui-
na”, em alusão ao poema “A máquina do mundo”; a flor, como frágil milagre, aludindo à flor do

68
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

poema “A flor e a náusea”. Se procurarmos mais citações, encontraremos, certamente. Patraquim


menciona a leitura de Carlos Drummond de Andrade em outro poema, intitulado “Metamorfose”.
Vale a pena lê-los em conjunto:

Metamorfose
Ao Poeta José Craveirinha

quando o medo puxava lustro à cidade


eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem [vagens


e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher


e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não e a sete de Março
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia [dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas

falemos da madrugada e ao entardecer


porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos [grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo

enquanto os tocadores de viola


com que latas de rícino e amendoim
percutem outros tendões da memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
AOS GRITOS

Na perspectiva de João Paulo Borges Coelho, a partir de 1992, com o fim da guerra civil e a
abertura política, tem início um terceiro momento da literatura moçambicana, que chega até a
atualidade. Neste período, a literatura estaria em busca de “uma nova modernidade” (COELHO,
2009; p. 65).

69
UAB/Unimontes - 8º Período

O Acordo de Paz de 1992 acabou com a guerra e abriu espaço a uma transição
que ainda hoje se vive, baseada na instauração de uma democracia multiparti-
dária e uma ordem econômica neo-liberal. (...)
Nesse contexto, a literatura deparou-se com novos desafios. O passado ou a
utopia, por si sós, eram insuficientes para responder a esses desafios. Os hor-
rores da guerra tiraram-lhe a inocência. Surge uma nova geração de escritores:
Mia Couto (as suas obras do período anterior são ainda, parece-me, um afiar
da faca), Paulina Chiziane e Suleiman Cassamo. Instala-se novamente a perple-
xidade. Alguns falam em crise de uma literatura até então tão dependente de
uma história almejada e pela qual lutava (primeiro momento), ou que, de cer-
ta forma, lhe era oferecida “de bandeja” (segundo momento). (...) Muita água
correu debaixo da ponte. No mosaico de fragmentos que é a atualidade, (...) a
literatura é obrigada a afastar-se, a refractar, a sondar interpretações paralelas.
(COELHO, 2009a; p. 66)

PARA SABER MAIS João Paulo Borges Coelho sugere que a literatura do primeiro momento voltava-se para a
Sobre a obra de Paulina construção de uma história nacional, envolvendo-se, como vimos já, com a luta pela indepen-
Chiziane, leia o estudo dência (lembremos de José Craveirinha, Noémia de Sousa e Luís Bernardo Honwana). Já a lite-
“Paulina Chiziane: para ratura do segundo momento esteve, especialmente quando pensamos na poesia de combate,
ler Moçambique no vinculada à visão da Frelimo acerca da história do país – importa notar que, para Borges Coelho,
feminino” de Simone
Schmidt, professora de Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa foi uma importante exceção (COELHO, 2009a; p. 65). No ter-
literaturas africanas de ceiro momento, que chega até o presente, a literatura não se apresenta de maneira uniforme, é
língua portuguesa e de plural, seu conjunto é fragmentado e não coeso, compondo um mosaico, não uma imagem úni-
literatura portuguesa ca. Podemos entender, portanto, que, na perspectiva de Borges Coelho, a escritora Paulina Chi-
na Universidade Fede- ziane – que tem enfocado a experiência e o olhar da mulher em seus livros – e os escritores Mia
ral de Santa Catarina.
Este trabalho está pu- Couto e Suleiman Cassamo (1962- ), os três destacados como dos mais relevantes, experimen-
blicado no livro África tam diferentes maneiras de tratar da história do país. Podemos lembrar também de Nelson Saúte
& Brasil: letras em laços (1967- ), com seu livro de contos Rio dos bons sinais (2007).
(volume 2), capítulo 19, Integra esta pluralidade de propostas literárias a produção do próprio João Paulo Borges Co-
organizado por Carmen elho, historiador e escritor. Vejamos como o autor entende as relações entre literatura e história:
Tindó Secco, Maria do
Carmo Sepúlveda e
Maria Teresa Salgado

Figura 56: Capa do livro ►


O olho de Hertzog, de
2009.
Fonte: http://daliteratura.
blogspot.com/2010/03/
joao-paulo-borges-coelho.
html

70
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

◄ Figura 57: João Paulo


Borges Coelho.
Fonte: http://biblioteca-
riodebabel.com/geral/
premio-leya-2009-para-jo-
ao-paulo-borges-coelho/
Acessos em 24 de outubro
de 2011

Certamente que haverá traços da atividade de historiador na minha prática li-


terária: no talvez excessivo rigor na localização do espaço-tempo das tramas,
nas estruturas causais das explicações etc. Todavia, não vejo a literatura como
complemento do discurso histórico (“dizer pela ficção aquilo que a história não
seria capaz de dizer”), longe disso! Pelo contrário, procurei a literatura como
quem procura, não a complementaridade, mas o contraste. A história está su-
jeita ao paradigma da verdade, ao passo que a literatura está mais próxima da
imaginação e da intuição. (COELHO, 2009c; p. 152)

Em sua ficção, Borges Coelho tem tratado literariamente da história de Moçambique. Seu
primeiro romance, As duas sombras do rio, de 2003, assume, por exemplo, o desafio de tratar
da guerra civil. Em As visitas do Dr. Valdez, de 2004, diferentes épocas são visitadas. Sobre Cró-
nica da Rua 513.2, de 2006, o escritor comenta:

Esses anos, portanto os anos do pós-Independência, do ponto de vista abstra-


to e sensorial, foram momentos de grande alegria, muito efusivos, aos quais
se segue uma década (os anos 1980), que é como uma espécie de ressaca, que
tem a ver com um ambiente regional hostil. Moçambique suportou pressões
muito fortes, primeiro da Rodésia e depois da África do Sul. Durante toda essa
década a guerra se alastrou no país. Tivemos guerra às portas das cidades. Pas-
samos um período de muita escassez, momentos muito difíceis porque vive-
mos sem acesso às coisas mais simples. É um período que eu lembro contradi-
toriamente, com muitas dificuldades e problemas, mas também com grandes
alegrias. Escrevi até um livro sobre isso, tentando acertar a memória desse tem-
po. Parto de uma rua fictícia que, no fundo, talvez seja a minha rua. Trata-se
de um bairro relativamente periférico (que hoje se tornou central na cidade)
e que passou a ser um bairro fantasma depois da Independência, com a saída
dos portugueses. Pouco depois foi ocupado pela população moçambicana, um
pouco sem critério, não havia elites; portanto, não havia uma ocupação orga-
nizada, e digamos que o livro trata do ciclo em que essa população viveu ali,
até o fim dos anos 1980, altura em que as pessoas começaram a sair e a regres-
sar para as casas de madeira e zinco ou palha de onde tinham vindo (...). É um
período de grandes solidariedades, em que alguém, se tinha acesso a alguma
coisa, imediatamente convocava os vizinhos para dividir com eles. Hoje tudo
isso se alterou, os muros cresceram, e eu não faço idéia de quem são os meus
vizinhos. (COELHO, 2009b; p. 259)

Neste depoimento, o escritor recupera aspectos de um período decisivo da história mo-


çambicana, o pós-independência e os anos 1980. Deixa evidente que busca, em Crónica da Rua
513.2, recuperar esta época ficcionalmente, via literatura, recorrendo a sua experiência pesso-
al. Recentemente, Borges Coelho publicou O olho de Herzog (2010), romance que remonta aos
inícios do século XX, tendo como personagem o importante jornalista João Albasini. Podemos
pensar que, com esta obra, a literatura contemporânea de Moçambique se volta para seus pri-
mórdios, refletindo sobre sua condição num país africano, de extração colonial.

71
UAB/Unimontes - 8º Período

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Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Resumo
Na Unidade 1, você estudou:
• O problema da “origem” das literaturas africanas, considerando que, para pensá-lo, é preciso
definir com precisão o conceito de literatura.
• Como é importante estudar as literaturas africanas considerando a imensa pluralidade étni-
ca e cultural do continente africano.
• As diferenças entre literatura escrita e literatura oral.
• Certas características específicas da literatura oral, como a importância da performance e da
memorização.
• O fenômeno de perda de formas literárias orais em sociedades que desenvolvem a escrita e,
especialmente, a imprensa.
• A estratégia recorrente entre escritores africanos de recriação, pela escrita, de gêneros das
tradições orais, como o conto oral e o provérbio.
• O que é “identidade” e como podemos pensá-la em suas relações com a literatura, em parti-
cular as literaturas africanas.
• O caráter dinâmico e histórico das construções identitárias.

Na Unidade 2, você estudou:


• Algumas características do novo colonialismo português (de 1875 a 1975).
• A depreciação do negro e particularmente da mulher negra pela nova e racista ideologia
colonial portuguesa de finais do século XIX.
• Aspectos da literatura colonial portuguesa.
• A questão da origem das literaturas africanas de língua portuguesa, entendendo que sur-
gem como reação à ideologia colonial portuguesa.
• A repressão à produção cultural de caráter nacionalista nas então colônias de Portugal, leva-
da a cabo especialmente pela polícia política do ditador Salazar, a PIDE.
• Como as literaturas africanas de língua portuguesa incorporam problemas sociais como
seus temas, de maneira que é preciso contextualizá-las em seus respectivos contextos e pe-
ríodos (de guerra contra o colonialismo, de guerra civil, etc.).

Na Unidade 3, você estudou:


• As relações da literatura caboverdiana com a formação de uma consciência nacional.
• Aspectos da obra de Eugênio Tavares, poeta e compositor de mornas do começo do século
XX, que valoriza as especificidades culturais do arquipélago.
• A importância da revista Claridade na consolidação da literatura caboverdiana.
• Características da literatura dos poetas e escritores claridosos, com destaque para as obras
de Baltasar Lopes (cuja poesia assina como Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes.
• Aspectos da literatura produzida pelos pós-claridosos, com destaque para Ovídio Martins,
Corsinho Fortes e para a geração mirabílica.
• A importância da “mestiçagem” como traço identitário caboverdiano.
• O diálogo da literatura caboverdiana com a literatura, cultura e pensamento social brasilei-
ros.

Na Unidade 4, você estudou:


• O surgimento da literatura angolana, entendendo que está relacionado à valorização da ter-
ra angolana e de seus povos, depreciados pela ideologia colonial portuguesa.
• A importância da imprensa na atividade dos chamados “Velhos intelectuais de Angola”,
como Cordeiro da Matta.
• A formação do sistema literário angolano, com ênfase no gênero romance.
• A importância da geração da revista Mensagem para a consolidação de uma literatura na-
cional angolana e de uma consciência crítica do colonialismo.
• A importância do diálogo com a literatura brasileira na busca pela construção de uma litera-
tura nacional angolana, distinta da portuguesa.
• Aspectos da ficção de Luandino Vieira e de seu diálogo com a obra de Guimarães Rosa.
• Aspectos da obra de Ruy Duarte de Carvalho, que articula literatura e antropologia.

73
UAB/Unimontes - 8º Período

• A literatura de pós-independência e o desencanto diante das adversidades e horrores de


uma guerra civil.
• Aspectos da literatura angolana contemporânea.

Na Unidade 5, você estudou:


• O surgimento da literatura moçambicana, entendendo que está relacionado à valorização
da terra moçambicana e de seus povos, depreciados pela ideologia colonial portuguesa.
• A importância da imprensa na formação da literatura moçambicana, com destaque para o
jornal O Brado Africano, dos irmãos Albasini.
• A formação do sistema literário moçambicano, com ênfase na produção poética.
• Aspectos da obra de Rui de Noronha, que tem no soneto uma forma fixa privilegiada.
• Aspectos da poesia de Noémia de Sousa, que denuncia as injustiças do colonialismo.
• Aspectos da poesia de José Craveirinha, autor engajado na afirmação e na valorização da
autonomia e da cultura moçambicanas.
• Algumas características dos contos de Luís Bernardo Honwana.
• A literatura de pós-independência e a hegemonia da poesia de combate.
• O desencanto diante das adversidades e horrores de uma guerra civil, impactando a literatu-
ra das décadas de 1980 e 1990.
• Aspectos da obra de Mia Couto.
• A importância do diálogo com a literatura brasileira na obra de diversos autores moçambi-
canos.
• Aspectos da literatura moçambicana contemporânea e seu diálogo com a história.

74
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

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79
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Atividades de
aprendizagem - AA
1) Para se estudar uma “literatura africana” deve-se levar em conta que há:

I. Uma uniformidade cultural entre as diferentes sociedades que constituem o continente


africano.
II. Traços comuns entre diferentes sociedades africanas, como a importância da voz, da mú-
sica, provérbios, etc..
III. Um forte vínculo entre a história colonial e a formação das literaturas africanas em línguas
europeias.
IV. A impossibilidade em se dizer “literaturas africanas”, no plural, devido ao forte vínculo com
a oralidade presente em todas as etnias da África.

Estão corretas as afirmações:


a. I, II e III.
b. II e III.
c. I, III e IV.
d. I e IV.
e. II e IV

2) Sobre a literatura oral, importante traço de grande parte da literatura desenvolvida em África,
pode-se afirmar:

a. Provérbios e contos tradicionais, encontrados na memória do povo e retransmitidos oral-


mente para as novas gerações, foram irrelevantes para a formação das literaturas africa-
nas.
b. A performance narrativa – voz, música, dança, ritmo – conta muito pouco para o sentido e
significado do que se conta ao grupo de ouvintes.
c. Há estratégias específicas de memória, meios de se vencer o tempo e a distância, permi-
tindo a transmissão da cultura pelas gerações, como a marcação do ritmo pelo tambor.
d. A urbanização, advinda pela colonização europeia, tende a não se chocar com as culturas
tradicionais, de cultura oral, devido à necessidade de tecnologia em África.
e. Nas sociedades de oralidade pura, sem escrita, são desenvolvidas estratégias de preserva-
ção, de memorização, as quais as sociedades de escrita incorporam facilmente, manten-
do-as.

3) A questão identitária está presente nas literaturas em África porque as identidades se consti-
tuem:

a. de um aspecto fixo cultural, previamente estabelecido, que surge naturalmente em uma


etnia ou sociedade.
b. por uma unidade cultural continental, comum e uniforme, percebida pelo europeu coloni-
zador.
c. por uma noção racial, mas não de gênero – masculino e feminino –, pois este passa pelo
âmbito individual.
d. de diferentes identidades estanques, impossibilitadas de conviverem num mesmo perío-
do ou numa mesma região.
e. por diferentes construções identitárias, que se modificam conforme processos históricos e
novas necessidades.

81
UAB/Unimontes - 8º Período

4) Releia o poema abaixo para responder à questão.


Voz do sangue

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem


ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto


a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas emaranhadas Áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

(Agostinho Neto, in A renúncia impossível, 1982)

Com a leitura do poema, podemos notar que a identidade do escritor angolano pôde ultra-
passar as fronteiras geográficas nacionais, porque
I. participava da luta pelos direitos dos negros, ao combater oprimidos, seja na África seja
nas Américas.
II. é estabelecida uma visão ampla do problema local, como se a sua luta fosse contra a
opressão e a exploração em geral.
III. a luta anticolonial era uma luta contra a exploração dos descendentes de africanos na
América (do Harlem, Chicago, etc.).
IV. o poeta Agostinho Neto denuncia a situação de exploração no regime colonial dissocian-
do-a da luta contra o capitalismo.

Estão corretas as afirmações:


a. I e II.
b. I, II e III.
c. I, II, III e IV.
d. II, III e IV.
e. III e IV.

5) Uma identidade mestiça, crioula, é apontada como um traço marcante da literatura cabo-ver-
diana. Para analisar a questão, releia o poema abaixo, de Manuel Lopes.

Crioulo
Há em ti a chama que arde com inquietação
e o lume íntimo, escondido, dos restolhos,
– que é o calor que tem mais duração.
A terra onde nasceste deu-te a coragem e a resignação.
Deu-te a fome nas estiagens dolorosas.
Deu-te a dor para que nela
sofrendo, fosses mais humano.
Deu-te a provar da sua taça o agridoce da compreensão,
e a humildade que nasce do desengano...
E deu-te esta esperança desenganada
em cada um dos dias que virão
e esta alegria guardada

82 para a manhã esperada


em vão...
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

Sendo o poema ilustrativo da identidade do indivíduo cabo-verdiano, confirma-se isso pela


a. associação entre chão, paisagem, clima e o homem e mulher naturais de Cabo-Verde, que
vivem a dura experiência que a terra oferece.
b. verificada superioridade dos cabo-verdianos (“fosses mais humano”) em relação aos afri-
canos continentais.
c. maneira como se tem a identidade afirmativa cabo-verdiana como uma mera construção.
d. nomeada mestiçagem como crioula, ou seja, o negro associado ao português, visto como
superior.
e. revolta com a vida sofrida de quem passa por variadas adversidades subumanas, como a
fome.

6) Leia o trecho abaixo, extraído de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa (a), uma entrevista
de Luandino Vieira (b) e um trecho do conto “O ladrão e o papagaio” (c), de Luandino Vieira, para
responder à questão seguinte:

a. “Mas, melhor de todos – conforme o Reinaldo disse – o que é o passarim mais bonito e engra-
çadinho de rio-abaixo e rio acima: o que se chama o manuelzinho-da-crôa... Até aquela oca-
sião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera
deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação. Aquilo era para se pegar a
espingarda e caçar. Mas o Reinaldo gostava: - “É formoso próprio...” – ele me ensinou. Do outro
lado, tinha vargem e lagoas. P’ra e p’ra, os bandos de patos se cruzavam. – “Vigia como são
esses...” Eu olhava e me sossegava mais. O sol dava dentro do rio, as ilhas estando claras. – “É
aquele lá: lindo!” Era o manuelzinho-da-crôa, sempre em casal, indo por cima da areia lisa,
eles altas perninhas vermelhas, esteiadas muito atrás traseiras, desempinadinhos, peitudos,
escrupulosos catando suas coisinhas para comer alimentação. Machozinho e fêmea – às vezes
davam beijos de biquinquim – a galinholagem deles. – “É preciso olhar para esses com todo
carinho...” – o Reinaldo disse. Era. (Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1986, 37ª edição; p. 122)

b. Trecho de entrevista de Luandino Vieira concedida a Michel Laban, em 1977 (In Luandino:
José Luandino Vieira e sua obra. Lisboa: Edições 70, 1980):
“Um amigo mandou-me de Lisboa, em 1969, Grande sertão: veredas e nós lemos na cadeia o
Grande sertão: veredas porque o diretor começou a ler e não percebeu nada, e achou que ninguém
percebia, e disse: ‘Bom, isto pode entrar’. Recordo-me que isso foi uma experiência muito interessante,
que alguns angolanos com muito pouca formação literária leram, não só gostaram como compreen-
deram a quase totalidade da própria linguagem, ao ponto de alguns repetirem as frases que tinham
decorado, como ‘Soletrei ano e meio meante cartilha e palmatória’ quando o narrador descreve a sua
educação em criança. Havia alguns camaradas lá que diziam frases inteiras do livro, e depois, mais
tarde, fizemos algumas pequenas discussões sobre partes de Grande sertão: veredas, e a compreen-
são era tão grande, até o nível lingüístico. E isto angolanos com o segundo ciclo dos liceus [o que cor-
responderia à quinta série]. Depois, portanto li Grande sertão: veredas, e mais se confirmou aquela
idéia, aquele ensinamento que me tinha dado quando li Sagarana: a liberdade para a construção do
próprio instrumento lingüístico que a realidade esteja a exigir, que seja necessário. E sobretudo a idéia
de que este instrumento lingüístico não pode ser o registo naturalista de qualquer coisa que exista,
mas que tem que ser no plano da criação. Portanto, que o escritor pode, tem a liberdade, tem o direito
de criar inclusivamente a ferramenta com que vai fazer a obra que quer fazer... Portanto, ensinou-me
um sentido, que considero mais completo, da criação.” (p. 35)

c. Trecho do conto “Do ladrão e do papagaio”, que integra o volume Luuanda, de Luandino
Vieira, publicado em 1963.
“Dizia Xico Futa:
Pode mesmo a gente saber, com a certeza, como é um caso começou, aonde começou, porquê,
praquê, quem? Saber mesmo o que estava se passar no coração da pessoa que faz, que procura, des-
faz ou estraga as conversas, as macas? Ou tudo que passa na vida não pode-se-lhe agarrar no princí-
pio, quando chega nesse princípio era também o fim doutro princípio e então, se a gente segue assim,
para trás, para a frente, vê que não pode se partir o fio da vida, mesmo que está podre nalgum lado,
ele se emenda noutro sítio, cresce, desvia, foge, avança, curva, pára, esconde, aparece... (...)
É assim como um cajueiro, um pau velho e bom, quando dá sombra e cajus inchados de
sumo e os troncos grossos, tortos, recurvados, misturam-se, crescem uns para cima dos outros, nas-
cem-lhes filhotes mais novos, estes fabricam uma teia de aranha em cima dos mais grossos e aí é

83
UAB/Unimontes - 8º Período

que as folhas, largas e verdes, ficam depois colocadas, parece são moscas mexendo-se, presas, o ven-
to que faz. E os frutos vermelhos e amarelos são bocados de sol pendurados. As pessoas passam lá,
não lhe ligam, vêem-lhe ali anos e anos, bebem o fresco da sombra, comem o maduro das frutas, os
monandengues roubam as folhas a nascer para ferrar suas linhas de pescar e ninguém pensa: como
começou este pau? Olhem-lhe bem, tirem as folhas todas: o pau vive. Quem sabe diz o sol dá-lhe co-
mida por ali, mas o pai vive sem folhas. Subam nele partam-lhe os paus novos, aqueles em vê, bons
para paus-de-fisga, cortem-lha mesmo todos: a árvore vive sempre com os outros grossos filhos dos
troncos mais-velhos agarrados ao pai gordo e espetado na terra. Fiquem malucos, chamem o trator,
ou arranjem as catanas, cortem, serrem, partam, tirem todos os filhos grossos do tronco-pai e depois
saiam embora, satisfeitos: pau de cajus acabou, descobriram o princípio dele. Mas chove a chuva,
vem o calor, e um dia de manhã, quando vocês passam no caminho do cajueiro, uns verdes pequenos
e envergonhados estão a espreitar em todos os lados, em cima do bocado grosso, do tronco-pai. E
nessa hora, com a vossa raiva toda de não lhe encontrarem o princípio, vocês vêm e cortem e rasgam,
derrubam, arrancam-lhe pela raiz, tiram todas as raízes, sacodem-lhes, destroem, secam, queimam-
-lhes mesmo e vêem tudo fugir para o ar feito muitos fumos, preto, cinzento-escuro, cinzento-rola,
cinzento-sujo, branco, cor de marfim, não adiantem ficar vaidosos com a mania que partiram o fio da
via, descobriram o princípio do cajueiro... Sentem perto do fogo da fogueira ou na mesa de tábua de
caixote, em frente do candeeiro; deixem cair a cabeça no balcão da quitanda, cheia do peso do vinho
ou encham o peito de sal do mar que vem no vento; pensem só uma vez, um momento, um pequeno
bocado, no cajueiro. Então, em vez de continuar descer no caminho da raiz à procura do princípio,
deixem o pensamento correr no fim, no fruto, que é outro princípio e vão dar encontro aí com a cas-
tanha, ela já rasgou a pele seca e escura e as metades verdes abrem como um feijão e um pequeno
pau está nascer debaixo da terra com beijos da chuva. O fio da vida não foi partido. Mais ainda: se
querem outra vez voltar no fundo da terra pelo caminho da raiz, na vossa cabeça vai aparecer a cas-
tanha antiga, mãe escondida desse pau de cajus que derrubaram mas filha enterrada doutro pau.
Nessa hora o trabalho tem de ser o mesmo: derrubar outro cajueiro e outro e outro... É assim o fio da
vida. Mas as pessoas que lhe vivem não podem ainda fugir sempre para trás, derrubando os cajueiros
todos; nem correr sempre muito já na frente, fazendo nascer mais paus de cajus. É preciso dizer um
princípio que se escolhe: costuma se começar, para ser mais fácil, na raiz dos paus, na raiz das coisas,
na raiz dos casos, das conversas.” (pp. 69-72)

A partir da leitura dos trechos de textos selecionados podemos entender que


a. Xico Futa, como Riobaldo, de Grande sertão: veredas, utiliza-se de uma linguagem rica
e poética para expressar, por meio de imagens e comparações, conteúdos de sabedoria
profunda e humana, de valor tanto regional como universal.
b. o trecho do conto lido não se faz compreender porque, além da linguagem excessivamen-
te literária, trata-se de texto fragmentado, o que impede a noção de conjunto do que o
autor pretende demonstrar ao seu leitor.
c. apesar de informal, a linguagem do trecho lido é enviesada, poética, de modo que, para
compreendê-lo, é preciso ter um conhecimento mais preciso do modo de se falar em An-
gola, especialmente pelas pessoas do povo – caso de Xico Futa.
d. se Riobaldo, protagonista de Grande sertão: veredas, tem algum estudo e, assim, pode
passar ensinamentos ao doutor que o escuta e, consequentemente, aos leitores, Xico Futa
demonstra um conhecimento mais raso, devido a sua origem iletrada.
e. o modo de escrever de Xico Futa revela o seu grau de escolaridade, do mesmo modo que
Riobaldo, o personagem de Guimarães Rosa, portanto ambos podem passar ao leitor uma
forma de sabedoria advinda do povo combinada com um grau baixo de escolaridade, por-
tanto, de interesse restrito.

7) Leia três poemas de Arlindo Barbeitos:

1.

ao de leve amanhecendo
abrem-se a flor e o dia
e
meus dedos roçam suaves
tua face inda nocturna
de súbito
rebenta a bomba

84
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

na incandescência de luz e orvalho


de uma aurora indiferente

ao de leve amanhecendo
abrem-se a flor e o dia

2.
a sul do sonho
a norte da esperança

a minha pátria
é um órfão
baloiçando de muletas
ao tambor das bombas

a sul do sonho
a norte da esperança

3.
distraída na verdura
a garça branca
repousa sobre uma pata só

apodrecido na morte
o soldado preto
nem pernas tem

Pelos três exemplos lidos (os dois primeiros poemas são de Fiapos de Sonhos e o terceiro
de Na leveza do luar crescente), pode-se verificar uma referência comum a

I. bombas, citadas ou implícitas, já que no poema “distraída na verdura...” tal elemento é


pressuposto pela mutilação do soldado preto.
II. sonho, envolvendo noções relacionadas a uma visão mais melancólica da vida, como se
pode verificar pelo conteúdo dos três poemas.
III. elementos da natureza, perceptível por imagens como da aurora, orvalho, garça, etc.
IV. guerra – bomba, soldado, mutilação –, imagens advindas possivelmente da situação por
que passou Angola.
V. sono, ao citar noturno/ amanhecer, sonho, distraída, repouso, ideias todas ligadas ao
adormecimento ou seu despertar.

Estão corretas:
a. Todas.
b. II, IV.
c. II, III e IV.
d. I e IV.
e. II e III.

Para responder às questões 8 a 10, leia o conto abaixo:

“O viajante clandestino”

– Não é arvião. Diz-se: avião.


O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A
criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimônio entre as coisas e os no-
mes. Outros a elas se semelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de
poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra.
– Mãe: a avioneta é a neta do avião?
Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. Sala de esperar? Que o miúdo acreditava que
todas as salas fossem iguais, na viscosa espera de nascer sempre menos. Ela lhe admolestou,
prescrevendo juízos. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora apontou os passagei-
ros, seus ares graves, sotúrnicos. O menino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do
seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo materno, fez sua a sua mão e foi à vidraça. Espreitou

85
UAB/Unimontes - 8º Período

os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se arfogou no tro-
pel dos motores.
Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza
a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.
Seria aquele menino a fractura por onde, naquela frieza, espreitava a humanidade? No aero-
porto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância. Valha-nos nós.
O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas
dos instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços estendidos em asas. Descolava
do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçando as malas e
as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a
fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos.
– Arranja-te. Estamos quase a partir.
– Então vou despedir do passaporteiro.
A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava
assim o senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se subditava. Porque, em seu so-
nho, mais adiante, ele se proclamava:
– Quando for grande quero ser passaporteiro.
E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.
– Vou estudar para migraceiro.
– És doido, filho. Fica quieto.
O miúdo guardou seus jogos, constreito. Que criança, neste mundo, tem vocação para adulto?
Saímos da sala do avião. Chuviscava. O menino seguia seus passos quando, na lisura do al-
catrão, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o
espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de fu-
turos apressados?
O menino parou, observente, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão
do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda.
– Mãe: eu posso levar o sapo?
A senhora estremeceu de horror. Olhou vergonhada, pedindo desculpas aos passantes. En-
tão, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois teimavam. Venceu a secular
maternidade. O menino murcho, circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu lugar, ajeitou o cinto.
Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas em seu rosto. Fiz-lhe
sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grata bandeira de feli-
cidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho o mais clandestino de todos os
passageiros. (In Cronicando (1991), de Mia Couto)

8) O narrador em 1ª pessoa observa com respeito e encantamento os modos de um menino, am-


bos à espera de entrar num avião. Tal respeito e encantamento transparecem em

I. “Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos au-
toriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira creden-
cia os fortes.”
II. “Seria aquele menino a fractura por onde, naquela frieza, espreitava a humanidade? No
aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância. Valha-nos nós.”
III. “A senhora apontou os passageiros, seus ares graves, sotúrnicos. O menino mediu-se com
aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo mater-
no, fez sua a sua mão e foi à vidraça.”
IV. “Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas em seu ros-
to. Fiz-lhe sinal, ele me encarou de soslado.”

a. I, II e III.
b. II, III e IV.
c. II e IV.
d. III e IV.
e. I e II.

86
Letras/Português - Literaturas africanas de língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Moçambique

9) O narrador parece aprender e aplicar em seu relato algo que aprende com o menino. O que
seria?

a. A surpresa, de fazer coisas que os adultos, “gente séria e entediada”, condenariam, como
trazer um passageiro clandestino para dentro do avião.
b. A linguagem e o olhar poéticos, como uma “infância autorizada” ao adulto, um olhar sem-
pre renovado para o mundo, que nomeia as coisas com a lógica interna da poesia.
c. A recusa em se deixar moldar pelo mundo dos adultos, sempre angustiados, frios; prefere
ele, como o menino, observar o voo dos aviões e os trabalhadores do aeroporto.
d. A desobediência: o menino é incapaz de seguir as ordens da mãe, enquanto o narrador é
incapaz de obedecer às autoridades do aeroporto.
e. A observação, por ter de ficar analisando o menino em cada movimento, com o seu jeito
diferente de falar, às vezes errado.

10) O conto se encerra de modo a não explicitar o que de fato ocorre, deixando ao leitor, junto
com o menino, certo efeito de

a. surpresa e espanto, pois, agradecido ao que o menino lhe proporcionara, o narrador faz o
que o menino queria ter feito, pegado o sapo e trazido pra junto de si.
b. deslumbramento, o encanto de ver o menino feliz por ter feito uma má-criação.
c. revolta com o padrão de vida adulto, cheio de regras e proibições, pois o narrador, adulto,
enfrenta a todos.
d. dúvida, pois não se sabe com certeza o que o narrador parece mostrar ao menino, ficamos
sabendo apenas que ele fica feliz.
e. alívio, porque o narrador e mesmo a mãe ficarão sossegados durante a viagem, não mais a
criança vai ficar preocupada em se distrair.

87