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DOI: 10.4025/reveducfis.v23i3.

15381

ARTIGO DE OPINIÃO

PSICOLOGIA DOS TALENTOS EM DESPORTO: UM OLHAR SOBRE A


INVESTIGAÇÃO

PSYCHOLOGY OF SPORTS TALENTS: A GLANCE INTO THE RESEARCH

Sílvio Ramadas∗
*
Sidónio Serpa
**
Ruy Krebs(†)

RESUMO
O talento caracteriza-se por um nível de mestria superior que resulta de um desenvolvimento sistemático de competências
numa ou várias áreas de atividade humana (GAGNÉ, 2009). No contexto desportivo, para que se verifique a prossecução
deste nível de mestria é necessário que os atletas indiciem um bom desenvolvimento, antropométrico, fisiológico, técnico,
tático e psicológico (ELFERINK-GEMSER et al, 2004). Face à diversidade e complexidade de fatores envolvidos, o
processo de desenvolvimento de talentos requer um acompanhamento dinâmico e holístico, característico das abordagens
interaccionistas que consideram o indivíduo, a sua herança genética e a influência de variáveis psicossociais (BAKER;
DAVIDS, 2007). Este trabalho tem como objetivo efetuar uma análise de literatura científica relevante na área dos talentos
desportivos de forma a, por um lado, compreender as principais dificuldades sentidas pelos autores que se dedicam a esta
temática e, por outro, identificar novas variáveis de estudo e linhas metodológicas de investigação passíveis de serem
exploradas no futuro.
Palavras-chave: Talentos. Desporto. Desenvolvimento. Elite.

INTRODUÇÃO Todavia, este incentivo constitui somente uma


imagem de um longo e complexo processo que
A história tem sido marcada por tem mobilizado a comunidade científica que se
personalidades que se distinguiram nos mais dedica a temas como a deteção, identificação,
diversos domínios contribuindo, em alguns dos seleção e desenvolvimento de talentos.
casos, de forma decisiva para a evolução da Da investigação desenvolvida até ao
espécie humana. Atualmente assistimos com momento, dois aspetos parecem constituir
frequência à valorização de feitos e prestações requisitos essenciais neste domínio,
excecionais, facto que assume uma relevância nomeadamente a qualidade do treino e um
considerável pois o reconhecimento elevado compromisso com o desporto numa
sociocultural constitui um requisito para o perspetiva de longo prazo (BLOOM, 1985). Por
desenvolvimento do talento esta razão, um dos conceitos mais considerados
(CSIKSZENTMIHALYI; RATHUNDE; no âmbito do desenvolvimento de talentos é o de
WHALEN, 1993). No âmbito do desporto, prática deliberada (ERICSSON; KRAMPE;
várias entidades reforçam os atletas que se TESCH-ROMER, 1993) que pressupõe uma
destacam a nível local, nacional e internacional. prática estruturada e orientada com o objetivo de

∗ Doutor. Professor da Universidade Técnica de Lisboa, Faculdade de Motricidade Humana, Lisboa, Portugal.
** Doutor. Professor da Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Ciências da Saúde e do Esporte,
Florianópolis-SC, Brasil.

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melhorar prestações. Apesar da indiscutível programas que continuam a valorizar a


pertinência deste conceito, não podemos falar identificação e seleção precoce do talento, numa
propriamente de uma lineariedade entre o tempo perspetiva de sucesso em curto prazo em
de prática e o sucesso alcançado em detrimento de um verdadeiro processo de
determinado domínio, pois neste caso a desenvolvimento longitudinal, na medida em
prossecução da mestria passaria seguramente que são os resultados desportivos pontuais que
por uma especialização precoce. Na realidade, proporcionam as oportunidades de treino e os
dependendo do tipo de desporto e apoios financeiros (MARTINDALE; COLLINS;
condicionantes psicossocioculturais envolventes, DAUBNEY, 2005). Neste sentido, a pressão
é expectável que o trajeto desportivo rumo à para descobrir precocemente o talento poderá
elite possa, em alternativa, estar igualmente desencadear a emergência de outros fatores
alicerçado num percurso mais flexível. Este enviesadores. Por exemplo, a literatura
percurso considera, numa face inicial, o demonstra que a identificação de talentos em
envolvimento em atividades informais adaptadas diversos desportos tende a discriminar de forma
e reguladas pelas próprias crianças ou por positiva os que nasceram mais cedo no seu
adultos – jogo deliberado –cujos objetivos respectivo escalão etário (MEDIC; STARKES;
passam essencialmente pela busca do prazer no YOUNG, 2007; SHERAR et al, 2007; VICENT;
âmbito da atividade física (CÔTÉ; BAKER; GLAMSER, 2006), com especial incidência em
ABERNETHY, 2007). Estas e outras possíveis modalidades em que a maturação física precoce
trajetórias rumo à elite desportiva deixam por é considerada uma vantagem, ainda que
definir muitos fatores potenciadores do talento, transitória, o que, por sua vez, impede que
quer de ordem intrapessoal, quer de ordem potenciais talentos tenham oportunidade de
interpessoal e, sobretudo, a forma como estes usufruir de recursos humanos e materiais mais
poderão interagir. qualificados (HELSEN et al., 2000).
A esta dificuldade em detetar as Apesar destas limitações há evidências de
componentes-chave não é alheia a enorme que tanto atletas de subelite (ELFERINK-
complexidade do tema. Com efeito, apesar de se GEMSER et al, 2007) como praticantes que
tratar de uma minoria de indivíduos que recusaram a especialização desportiva precoce
consegue atingir elevados níveis de mestria, é conseguem atingir o nível de elite (ALFONSO;
percetível que o desenvolvimento do talento ORTEGA; PALAO, 2009; BAKER; CÔTÉ;
depende de inúmeros fatores entre os quais os DEAKIN, 2005; NOCE; SAMULSKI, 2002).
antropométricos, fisiológicos, técnicos, táticos e Estes casos sugerem que a oportunidade e
psicológicos (ELFERINK-GEMSER, et al, qualidade de estímulos proporcionados pelo
2004). meio envolvente podem proporcionar o
Face a esta diversidade de fatores, são desenvolvimento do talento. Na realidade,
compreensíveis as dificuldades sentidas no que aspetos como a quantidade e segurança de
concerne à identificação de talentos, pois não foi espaços disponíveis para a prática desportiva,
ainda possível detetar a natureza dos critérios assim como o maior suporte social, típicos das
determinantes e, consequentemente, cidades com uma população, por exemplo, entre
fundamentar a predição da mestria desportiva 50000 e 99999 habitantes podem ter um impacto
com base numa medida específica (HELSEN et bastante consistente na prossecução do nível de
al, 2000; LAVANDERA, 1999; WILLIAMS; elite – “birthplace effect” – (CÔTÉ et al., 2006).
REILLY, 2000). Na realidade, a tentativa de Estes cenários de incerteza, caracterizados
estabelecer uma ligação funcional entre o por atletas que apenas se diferenciaram numa
suporte científico e o terreno não tem levado à fase mais avançada do seu processo de
determinação de métodos válidos e fiáveis desenvolvimento – “late bloomers”
passíveis de identificar e selecionar (SIMONTON, 1999) – mas conseguem alcançar
precocemente atletas de elite, o que facilitaria a o alto rendimento, e por outros que
gestão dos recursos (FALK et al, 2004). demonstraram capacidades excecionais numa
Um dos fatores que poderá dificultar o fase precoce da sua carreira – “early bloomers”
avanço neste domínio relaciona-se aos (SIMONTON, 1999) – mas não conseguem

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atingir o nível sénior, justificam as preocupações talento há uma clara dominância dos fatores
de alguns autores com a possível eliminação do ambientais (ERICSSON, 2007). Estas duas
talento (MARTINDALE; COLLINS; concessões são, no entanto, consideradas pouco
DAUBNEY, 2005; SÁENZ-LÓPEZ et al., consensuais por uma larga maioria dos
2005). Com efeito, questiona-se se o trabalho investigadores, sendo mesmo classificadas como
desenvolvido no terreno não estará a extremas (ABERNETHY; CÔTÉ, 2007),
desencorajar e a deixar pelo caminho alguns dos reducionistas (HRISTOVSKI, 2007) ou
melhores e levantam-se questões sobre os dualistas (ARAÚJO, 2007; MALINA, 2007),
fatores que efetivamente interferem com o pelo que atualmente parecem ser as perspetivas
desenvolvimento do talento. Perante estes interaccionistas a obter maior reconhecimento
factos, as tendências ou orientações mais no âmbito da comunidade científica. As
recentes têm encarado este fenómeno numa posições críticas destes autores refletem
perspetiva dinâmica, multidimensional e igualmente a evolução lógica ao longo das
holística (STAMBULOVA, 2009), e alertam últimas décadas na investigação sobre a
para a existência de um sistema aberto e sobredotação. Partindo de uma perspetiva
complexo que requer uma análise contínua. analítica marcada pelas características inatas
Este artigo tem como objetivo rever preconizadas por Termam (1925), outras
modelos que se têm dedicado ao estudo do variáveis foram progressivamente consideradas,
desenvolvimento de talentos. nomeadamente de cariz social e cultural
(STERNBERG, 1986; TANNENBAUM, 1986)
Modelo de Estudo dos Talentos - Perspetivas de que, por sua vez, surgem claramente
Desenvolvimento contempladas em teorias contemporâneas que
A escolha de um modelo de estudo encaram o tema numa perspetiva complexa,
funcional no âmbito desta temática e a adoção multidimensional e holística
da correspondente definição de talento (BROFENBRENNER, 1979).
constituem decisões determinantes no processo A crescente relevância atualmente atribuída
de investigação. Neste sentido, torna-se aos aspetos ambientais tem contribuído para a
pertinente compreender os fundamentos que reconhecida complexidade do tema, criando na
estão na origem de modelos que se dedicam ao comunidade científica um verdadeiro desafio em
estudo da sobredotação e obter respostas sobre nível da investigação, pois parece não existir um
algumas das questões fundamentais que têm modelo completo, sem fragilidades e capaz de
preocupado ciclicamente os investigadores da quantificar ou explicar todas as variáveis que
excelência nas mais diversas áreas do interferem no processo de desenvolvimento dos
conhecimento. O talento será inato ou talentos no desporto. A importância dedicada à
adquirido? ou qual o contributo dos aspetos influência ambiental consubstancia na teoria de
genéticos e ambientais no processo de Ericsson, Krampe e Tesch-Romer (1993) uma
desenvolvimento do talento? das posições mais extremadas, pois, segundo
Após a publicação de um artigo, por Howe, estes autores, o desenvolvimento do talento
Davidson e Sloboda (1998), que originou uma depende quase exclusivamente da qualidade e
discussão controversa sobre a prevalência dos quantidade dos recursos materiais, humanos e
aspetos inatos ou ambientais, este tópico temporais disponibilizados, defendendo-se que
continuou a interessar a comunidade científica, após 10 anos de uma prática deliberada é
tendo o International Journal of Sport possível alcançar elevados níveis de mestria.
Psychology publicado um número temático Durante este período de prática estruturada,
(2007; No. 38; Vol. 1) sob o título “Nature, organizada e direcionada para o respetivo
nurture and sport performance”. Neste desenvolvimento de capacidades, as tarefas
confronto de ideias, os apologistas de que a desenvolvidas nem sempre são agradáveis de
mestria está predominantemente alicerçada num desempenhar uma vez que, por um lado,
pré-determinismo genético (KLISSOURAS; requerem dedicação, esforço e concentração e,
GELADAS; KOSKOLOU, 2007), opõem-se aos por outro, não estão necessariamente associadas
defensores de que no desenvolvimento do

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a recompensas sociais ou financeiras de curto relacionados com a especialização precoce,


prazo. salientando que esta não constitui um requisito
Apesar da relevância que o tempo para atingir elevados níveis de prestação. Este
dispendido na prática específica de uma último aspeto surge particularmente evidenciado
atividade ou área do conhecimento tem no no Modelo de Desenvolvimento de Participação
aprimoramento de competências, alguns Desportiva proposto por Côté, Baker e
argumentos credíveis parecem contrariar os Abernethy (2007) ao salientar que para atingir o
pressupostos subjacentes à teoria da prática nível de elite não é necessária uma
deliberada, em particular a relação linear entre especialização desportiva precoce. Em
tempo de prática deliberada e o nível de alternativa, os jovens praticantes poderão
prestação atingido, pois à medida que se vivenciar três etapas de participação desportiva
registram melhorias nas prestações dos atletas, a (CÔTÉ, 1999), ou fases de desenvolvimento
progressão dos mesmos é cada vez mais difícil (BLOOM, 1985), que caracterizam funções
(BAKER; CÔTÉ; DEAKIN, 2005). Para além diferenciadas para os atletas e respetivos pais e
disso, parece existir a preocupação com aspetos treinadores (Tabela 1).
Tabela 1 - Características de jovens talentos, respetivos pais e treinadores de acordo com as diferentes fases de
desenvolvimento.
Fases de desenvolvimento
Iniciação Desenvolvimento Aperfeiçoamento

- Progride nas - Demonstra elevado - Demonstra autonomia na análise das


aprendizagens. compromisso desportivo. suas prestações e na sua motivação.
- Demonstra motivação e - Motivado para aprender. - Demonstra autonomia na definição
empenho. - Demonstra levada motivação de objetivos e participa nas tomadas
Atleta - Diverte-se durante a intrínseca. de decisão determinantes.
aprendizagem. - Demonstra sentido de - Dedica-se ao aprimoramento de
- Identifica-se com a responsabilidade. pormenores das suas prestações.
modalidade. - Desenvolve amizades com os - Demonstra elevado sentido de
colegas de equipa. responsabilidade no cumprimento de
tarefas.

- Dedicam-se à educação - Disponibilizam tempo para - Acompanham carreiras e mantêm


dos filhos. acompanhar os filhos nos treinos apoio emocional.
- Transmitem valores (e.g. e competições. - Mantém apoio financeiro sempre que
responsabilidade). - Alteram rotinas familiares em necessário.
Pais - Disponibilizam tempo e função dos treinos e competições.
recursos. - Demonstram elevado
- Incentivam a participação compromisso.
desportiva. - Fornecem apoio financeiro e
- Constituem modelos de emocional.
trabalho ético

- Demonstram prazer em - Experts. - Experts.


trabalhar com crianças. - Exigem dos atletas elevado - Estipulam expectativas e objetivos
- São encorajadores e compromisso. exigentes.
Treinadores entusiastas. - Exigem elevado tempo de - Exigem elevado compromisso e
- Proporcionam ambiente prática e rápidos progressos. grande investimento de tempo.
agradável. - Definem objetivos específicos. - Desenvolvem envolvimento
- Proporcionam reforço emocional/afetivo com atletas.
positivo.
Fonte: Bloom, 1985.
Nas etapas de experiência e especialização permite acolher e envolver a criança, criando
desportivas, um dos aspetos mais importantes é assim situações em que esta se sinta reforçada
o ambiente encorajador, motivador e lúdico que numa atividade que lhe dá prazer. Neste período,

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não obstante a seriedade e exigência que devem psicológicas e comportamentais ou estratégias


estar subjacentes ao processo de treino de autorreguladoras, em particular quando se
crianças, adolescentes e jovens, deve haver a verificam transições entre etapas (ABBOTT;
preocupação essencial de desenvolver a COLLINS, 2004), pois são estes os períodos de
motivação intrínseca, a orientação para a tarefa e mudança em que as crianças e jovens poderão
a consecução de objetivos pessoais. Deverá registar instabilidade psicológica e estar mais
igualmente fundamentar-se em situações de vulneráveis ao abandono desportivo.
divertimento e bem-estar (SERPA, 1998). Apesar da pertinência das pesquisas
anteriormente referenciadas, as funções
De fato, antes da prática deliberada, as
desempenhadas pelos atletas e outros
crianças têm necessidade de se envolver em
significativos raramente foram estudadas de
atividades lúdico-desportivas agradáveis, típicas
forma integrada no mesmo estudo, tendo em
das etapas iniciais de aprendizagem, o que nos
consideração a relevância da tríade atletas-pais-
leva a reconhecer a existência de dois conceitos
treinadores. No sentido de combater esta lacuna,
bem distintos e que evoluem de forma inversa.
Wolfenden e Holt (2005) tentaram compreender
Por um lado, um conceito de jogo deliberado e,
a perceção destes protagonistas no
por outro, o conceito de prática deliberada.
desenvolvimento dos talentos na etapa de
Segundo Côté e Hay (2002), o processo de
especialização. Segundo estes autores, o
experimentação associado ao divertimento é
desenvolvimento de talentos deriva de um
característico da etapa de experiência. Na etapa
trabalho de equipa em que todos assumem
de especialização deverá manter-se um número
funções específicas. Em particular, no que
considerável de atividades agradáveis de forma a
concerne aos pais dos atletas, tal como foi
que os adolescentes se mantenham no desporto,
mencionado nas investigações clássicas
pelo que deverá existir um equilíbrio entre os
(BLOOM, 1985; CSIKSZENTMIHALYI;
dois conceitos. Finalmente, na etapa de
RATHUNDE; WHALEN, 1993), é reconhecida
investimento é dada primazia à prática
a importância do seu apoio tangível e emocional
deliberada, pelo que os atletas irão melhorar as
assim como dos sacrifícios que têm de fazer. No
suas prestações de acordo com os meios mais
entanto, alguns aspetos continuam a constituir
eficientes e específicos.
uma fonte de preocupação para atletas e
Na mesma linha de investigação, o estudo
treinadores, nomeadamente nos casos em que se
desenvolvido por Durand-Bush e Salmela
verificam elevadas expectativas por parte dos
(2002), para além de corroborar as pesquisas
pais, hiperenvolvimento dos mesmos ou ainda a
anteriores, salienta a existência de uma nova
sua interferência na orientação técnica em fase
etapa a considerar neste processo de
avançada de desenvolvimento. Estes fatores
desenvolvimento, nomeadamente os anos de
podem desencadear tensões negativas nas
manutenção, conceito que estabelece uma clara
relações pais-atletas e pais-treinadores
distinção entre “getting there” e “staying there”
(WOLFENDEN; HOLT, 2005).
(KREINER-PHILLIPS; ORLICK, 1993). Neste
Quanto ao papel do treinador, nesta etapa de
período, os atletas sentem maior pressão por
especialização, este deverá centrar-se no
parte dos adversários, bem como a necessidade
domínio técnico. Apesar das relações serem
de corresponder às expectativas neles
vulgarmente caracterizadas por uma enorme
depositadas. Características pessoais como a
abertura, os atletas conhecem com precisão os
persistência, motivação, autoconfiança,
limites dessa interação (WOLFENDEN; HOLT,
autonomia, compromisso, assim como o recurso
2005). Já na etapa de investimento, a influência
a estratégias de coping aliadas à inovação e
dos treinadores deve estender-se a domínios
qualidade do treino, são alguns dos aspetos
como o sucesso académico ou domínio
mencionados pelos atletas para lidar com este
socioafectivo, em particular quando os atletas se
nível de rendimento (DURAND-BUSH;
encontram longe das suas famílias.
SALMELA, 2002).
A compreensão da perspetiva que têm os
As características inerentes às etapas
treinadores de jovens atletas de elite sobre
anteriormente descritas salientam a importância
indicadores de talento e ambientes favoráveis ao
do desenvolvimento contínuo de competências

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desenvolvimento dos praticantes constitui as estruturas que influenciam o treinador.


igualmente uma área passível de ser explorada Finalmente, o macrossistema é o envolvimento
de forma mais consistente. Martindale, Collins, geral que contém os anteriores em que emergem
e Abraham (2007) referem que os treinadores de a cultura, valores, costumes e políticas
jovens atletas de elite devem dar prioridade à determinantes do comportamento.
criação de objetivos e métodos a longo prazo, à Outro componente do modelo é o Tempo
valorização do desenvolvimento de organizado em microtempo, mesotempo e
competências em detrimento do sucesso na fase macrotempo que está associado à história, ao
inicial de aprendizagem, assim como à presente e ao futuro da pessoa.
promoção de um desenvolvimento KREBS (2009) sugere que este modelo
individualizado, sistemático e contínuo. responde às necessidades da investigação do
Esta perspetiva de análise integrada que desenvolvimento de talentos no desporto, já que
envolve os mais diversos intervenientes, fatores se estudam processos proximais que ocorrem ao
e instituições que, por sua vez, poderão interagir longo do tempo e dependem da interação mútua
com o indivíduo numa perspetiva mais estrita ou e progressiva dos atributos da pessoa e das
mais abrangente, induzem um incremento características dos contextos em que ela se
substancial da complexidade de análise desta insere. Propõe duas variáveis determinantes da
temática. mudança que são (i) a organização, relativas à
A investigação relacionada com talentos foi interdependência dos elementos, e (ii) a
também estimulada pela Teoria Bioecológica de complexidade das atividades experienciadas
Bronfenbrenner (KREBS, 2009; KREBS et al., pela pessoa. Nesta perspetiva, Krebs et al.
2008) que partiu do pressuposto de que o fator (2008) estudaram o processo de envolvimento e
Desenvolvimento é função da relação entre a permanência de jovens tenistas no contexto de
Pessoa e o Envolvimento. O Desenvolvimento é rendimento, focando a análise nos atributos da
aqui entendido como um fenómeno de pessoa e recolhendo os dados por meio de
continuidades e mudanças nas características entrevistas semiestruturadas. A comparação de
biopsicológicas dos seres humanos. Para resultados dos atributos pessoais, tanto numa
explicar, Brofenbrenner propõe o modelo direção intrafactorial, como interfactorial,
teórico Pessoa-Processo-Contexto-Tempo permitiu o estudo do fator de interação dos
(PPCT) (BROFENBRENNER, 1995; elementos do modelo PPCT.
BROFENBRENNER, 2005; O PPCT, no seu todo, representa um desafio
BROFENBRENNER; MORRIS, 2006). O quase impossível, já que dificilmente o
Processo proximal representa a interação perquisador poderá controlar todas as variáveis
dinâmica e indissociável dos restantes elementos do modelo num só delineamento de pesquisa.
e é o constructo central. A Pessoa é estudada por No entanto, o mais importante é saber
via de um conjunto de atributos biopsicológicos exatamente o que se está controlando para que
que foram identificados como disposições, sejam possíveis conclusões coerentes.
recursos e exigências/demandas. O Contexto é Ainda no âmbito das correntes ecológicas,
explicado pela metáfora das “bonecas russas”, as teorias de sistemas dinâmicos têm sido
em que uma menor é contida numa maior, utilizadas para sugerir que o desenvolvimento
denominando-se microssistema o contexto mais dos atletas é suportado pela existência de
imediato que contém a pessoa em sistemas não-lineares, complexos e
desenvolvimento e aquelas com as quais neurobiológicos, sendo, por este motivo,
interagem. Por outro lado, o mesossistema é a incompatíveis com as abordagens quantitativas
ligação entre dois ou mais microssistemas em tradicionais que se baseiam na avaliação de
que participa a pessoa em desenvolvimento. O tarefas fechadas para fundamentar diferentes
exosistema é definido como o sistema social níveis de desempenho, particularmente no que
mais alargado no qual o indivíduo não funciona concerne à avaliação de skills específicos de
directamente, mas cujas estruturas exercem diversas modalidades (PHILLIPS et al., 2010).
impacto sobre ele, interagindo com algum Estes autores defendem que as baterias de testes
elemento do microssistema como, por exemplo, fornecem informação limitada no que se refere

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ao potencial do atleta e à sua adaptabilidade a catalisadores intrapessoais (físicos,


diferentes contextos, e em alternativa motivacionais, volitivos, de autorregulação,
preconizam que a conceptualização de um personalidade) e ambientais (meio social,
modelo deve ter em consideração que cada pessoas, suporte, eventos), ou até situações
indivíduo reflete no contexto na sua prestação aleatórias que no seu conjunto potenciam a
uma dinâmica intrínseca própria, previamente interação entre a natureza e o envolvimento
moldada pelos genes, os constrangimentos (GAGNÉ, 2009).
dinâmicos específicos que limitam e moldam o O Modelo Diferenciador da Sobredotação e
seu comportamento, assim como todo o processo Talento (GAGNÉ, 2004, 2009) trouxe
de desenvolvimento vivenciado ao longo do seu importante contributo para o conhecimento neste
trajeto de vida. Neste sentido, a estabilidade e domínio. Em primeiro lugar porque, à
instabilidade dos sistemas em diferentes escalas semelhança de contributos como de Marland
de tempo associados a conceitos como (1972) e de Gardner (1983), este autor manifesta
“affordances”, “constraints”, “emergence”, clara intenção de destacar a sobredotação no
“meta-stability”, “creativity” e “degeneracy” contexto desportivo, nomeadamente pela
assumem particular relevância para a importância que dá aos aspetos inatos relativos
investigação contemporânea e permitirão, em ao domínio sensoriomotor, assim como às
última instância, modelar a dinâmica ecológica competências sistematicamente desenvolvidas
das ações técnico-táticas em envolvimentos inerentes ao contexto do desporto, mostrando,
complexos e dinâmicos, em particular no que dessa forma, uma abertura a um estreitamento de
concerne às interações entre os múltiplos relações entre aqueles que têm centrado as
intervenientes de um desporto (ARAÚJO; atenções no desenvolvimento do talento no
DAVIDS; HRISTOVSKI, 2006; PHILLIPS et contexto académico e os que têm dedicado
al., 2010). atenção ao desenvolvimento de talento no
As abordagens interacionistas parecem desporto (GAGNÉ, 2009).
ganhar aceitação junto à comunidade científica, Em segundo lugar, porque existe uma
baseando-se na premissa de que o papel preocupação prévia em clarificar a terminologia
desenvolvido pelos genes e pelo envolvimento de suporte à teoria. Este aspeto assume uma
são indissociáveis (ABERNETHY; CÔTÉ, importância considerável neste domínio, uma
2007). Na realidade, a multiplicidade e a vez que termos como sobredotação e talento têm
complexidade de interações possíveis que sido caracterizados de forma relativa e imprecisa
ocorrem ao longo do processo de denotando alguma falta consenso quanto à sua
desenvolvimento do talento requerem uma definição (SCHNEIDER, 1998; SERRA, 2004).
abordagem holística que considere o indivíduo, Neste sentido, embora opte por uma
a sua herança genética e a influência das classificação própria, o autor consegue definir e
variáveis psicossociais (BAKER; DAVIDS, organizar os conceitos determinantes para o seu
2007). modelo de uma forma lógica, percetível e
É igualmente nesta linha de pensamento funcional.
interaccionista que surge o modelo diferenciador Finalmente, porque se enquadra claramente
da sobredotação e talento proposto por Gagné na perspetiva interaccionista, dado que se por
(2004, 2009). Neste modelo, o autor começa por um lado considera a existência de características
deixar bem clara a distinção entre sobredotação geneticamente determinadas e potenciadoras da
e talento, mantendo uma relação de emergência de talento, por outro salienta que só
interdependência entre ambas. Para este autor, a é possível atingir esse nível superior de mestria
sobredotação consiste num conjunto de após o desenvolvimento sistemático de
capacidades inatas acima da média que, após um competências em longo prazo. Este aspeto
processo de desenvolvimento, originam assume enorme relevância, uma vez que ao
prestações excecionais numa ou várias áreas da deixar bem claro que os aspetos inatos não
atividade humana (talento). Ao longo desse salvaguardam a emergência do talento, alerta
processo complexo de desenvolvimento para a possibilidade de existirem percursos
emergem como fatores determinantes inúmeros melhor e pior sucedidos. O destaque dado à

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noção de potencial passível de ser desenvolvido défice de suporte social (GUSTAFSSON et al.,
deixa, assim, em aberto a necessidade de 2007) ou (x) a ansiedade (GOODGER et al.,
compreender os aspectos que facilitam o 2007), poderão igualmente explicar porque
desenvolvimento, mas igualmente os fatores que jovens com potencial não conseguem atingir o
poderão estar em déficit e que dificultam a sua alto rendimento.
evolução. Apesar de ser aceitável a crítica de que este
Esta influência ambivalente dos modelo de Gagné não é suficientemente
catalisadores contribuiu significativamente para detalhado no que concerne à estruturação de
um avanço do conhecimento neste domínio, uma conceção teórica racional sobre o estudo do
dado que os modelos mais citados, e desenvolvimento de talentos no desporto numa
legitimamente valorizados no contexto perspetiva dinâmica e multidimensional
desportivo, enquadram-se numa perspetiva (PHILLIPS et al., 2010), também não é menos
retrospetiva e ajudam a compreender verdade que a perspetiva ecológica e dinâmica
essencialmente o processo percorrido pelos ainda carece de investigação mais profunda, pois
atletas que atingiram a elite desportiva a exigência do tema requer seguramente uma
(BLOOM, 1985). Este aspeto constitui assim um evolução tecnológica que permita encontrar
ponto de reflexão fundamental face às elevadas meios sofisticados capazes de fundamentar
taxas de abandono registadas em jovens atletas formulas matemáticas passíveis de explicar
de elite em consequência da perda da motivação fenómenos desportivos que, na sua essência,
para continuar envolvidos no treino, indiciando consubstanciam uma enorme complexidade
estados de “burnout” (KENTTÄ; HASSMÉN; (ARAÚJO; DAVIDS; HRISTOVSKI, 2006).
RAGLIN, 2001). De facto, o potencial do atleta Efetivamente tem sido possível, por
assume pouca relevância em casos em que, por exemplo, analisar o ponto crítico de estabilidade
exemplo, o interesse, o compromisso, os valores, da díade atacante-defesa como um sistema
o suporte social ou até as oportunidades não dinâmico numa subfase do jogo de basquetebol
estão presentes. Alguns autores têm procurado (ARAÚJO et al., 2002), ou a forma como o
entender as razões do insucesso de jovens ambiente interfere nos comportamentos
caracterizados como potenciais talentos. Os dinâmicos de seleção dos locais de partida na
dados sugerem, por exemplo, que a condição vela (ARAÚJO; DAVIDS; SERPA, 2005), sem
socioeconómica da família, as cargas de treino desvirtuar a natureza dos respetivos desportos.
durante a etapa de especialização motora, o No entanto, ainda há um longo caminho a
relacionamento com o treinador, a inexistência percorrer até que se consiga explicar nesta
de recursos suficientes para promover talentos mesma perspetiva ecológica e dinâmica um
por parte de entidades estatais, ou a participação conjunto bem mais abrangente de variáveis que
em atividades alternativas que concorrem com a é parte integrante das diferentes modalidades e
dedicação ao desporto (e.g. universidade; que interferem nas respetivas tomadas de
emprego), são fatores que explicam o abandono decisão.
desportivo (VIEIRA, 1999). Outros aspetos O modelo de Gagné (2009) surge como uma
como (i) a ausência de estratégias de coping referência consistente e organizada, podendo
(HOLT; MITCHELL, 2006), (ii) a falta de constituir um ponto de partida fundamentado no
capacidade de sacrifício, maturidade e que se refere ao estudo do desenvolvimento de
autoconfiança por parte do atleta (SÁENZ- talentos. Apesar de generalista, na sua essência,
LÓPEZ et al., 2005), (iii) a amotivação partilham conceptualmente os princípios e
(GOODGER et al., 2007), (iv) o perfecionismo fundamentos ecológicos preconizados nos
negativo (GUSTAFSSON et al., 2007) (v) a desenhos metodológicos mais modernos e
diminuição da autodeterminação (LEMYRE; fiáveis da ciência contemporânea, em particular
TREASURE; ROBERTS, 2006), (vi) a variação no que concerne à variabilidade e interferência
do humor (GOODGER et al., 2007; LEMYRE; de inúmeros fatores que atuam em contextos
TREASURE; ROBERTS, 2006), (vii) o stress dinâmicos. Considerando a especificidade do
(GOODGER et al., 2007), (viii) a falta de contexto desportivo e a interferência dos
autonomia (GUSTAFSSON et al., 2007), (ix) o catalisadores, ponderados por este autor,

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Psicologia dos Talentos em Desporto: Um olhar sobre a investigação 339

poderão ser melhor compreendidos se A composição das amostras constitui outra


associarmos à estrutura deste modelo a das limitações que surge frequentemente citada
orientações propostas por teorias ecológicas na literatura, uma vez que de uma forma
valorizadas atualmente (BROFENBRENNER, generalizada estamos perante grupos muito
1979) assim como ao conteúdo dos modelos restritos ao nível dos atletas (BLOOM, 1985;
específicos do desporto (ABBOTT; COLLINS, CRESSWELL; EKLUND, 2006;
2004; BLOOM, 1985; CÔTÉ, 1999; GOULD; TORREGROSA; SANCHEZ; CRUZ, 2004),
DIEFFENBACH; MOFFETT, 2002; pais (COTÉ, 1999; WOLFENDEN; HOLT,
MARTINDALE; COLLINS; DAUBNEY, 2005; 2005; TEQUES; SERPA, 2009) e treinadores
WOLFENDEN; HOLT, 2005), tendo como (MARTIDALE; COLLINS; ABRAHAM, 2007;
denominador comum o desenvolvimento do WOLFENDEN; HOLT, 2005), facto que deve
potencial numa perspetiva interaccionista. consciencializar os investigadores para as
possíveis dificuldades e limitações quanto à
comparação de atletas praticantes de diferentes
PROBLEMAS METODOLÓGICOS E FUTURAS modalidades ou provenientes de diferentes
ABORDAGENS culturas (ANSHEL; EOM, 2002).
Por outro lado, devemos ainda considerar
A investigação desenvolvida no domínio da que cada atleta constitui uma realidade própria
psicologia dos talentos desportivos tem-se
demonstrando uma certa unicidade (DURAND-
deparado com algumas dificuldades que
BUSH; SALMELA, 2002; GOULD;
constituem pontos de reflexão para os respetivos
DIEFFENBACH; MOFFETT, 2002), o que
autores aquando da análise e discussão dos
dificulta a deteção de padrões de resposta e
resultados obtidos. Como podemos verificar,
respetiva categorização, dada a grande
uma parte significativa do conhecimento baseia-
diversidade de opiniões (WOLFENDEN;
se em abordagens qualitativas que obtiveram o
HOLT, 2005). Também a disponibilidade de
justo reconhecimento científico pois servem de treinadores, atletas e respetivas famílias para
suporte aos modelos teóricos frequentemente participar nas entrevistas é apontada como fator
citados na literatura internacional (BLOOM, limitador. Na realidade, as agendas preenchidas
1985; CÔTÉ, 1999). Foi com base neste vasto dos atletas de elite não permitem, por vezes, a
conhecimento que foi possível caracterizar, por realização de entrevistas múltiplas, um requisito
exemplo, as fases de desenvolvimento inerentes para que se possa recolher informação de forma
aos trajetos desportivos dos talentos no consistente (DURAND-BUSH; SALMELA,
desporto. 2002; GREENLEAF; GOULD;
Apesar do inquestionável contributo DIEFFENBACH, 2001). Este cenário agrava-se
científico destes estudos retrospetivos, não deixa quando entre dois momentos de avaliação as
de ser aconselhada alguma ponderação na amostras ficam substancialmente reduzidas
análise dos relatos dos atletas. Na realidade, (WUERTH; LEE; ALFERMANN, 2004). De
embora os atletas não tenham manifestado facto, as entrevistas múltiplas deviam ocorrer
dificuldades em relembrar experiências repetidamente ao longo de várias épocas de
passadas, considera-se que neste tipo de forma a possibilitar a aferição das alterações de
abordagem metodológica possa existir uma diversos aspetos psicológicos ao longo do
influência do fator tempo (CRESSWELL; tempo, assim como do respetivo impacto no
EKLUND, 2006; GUSTAFSSON et al., 2007; rendimento (GOULD; EKLUND; JACKSON,
JACKSON; DOVER; MAYOCCHI, 1998) ou a 1992b). Os estudos desenvolvidos com base
tendência para exacerbar os aspetos positivos ou neste pressuposto tornar-se-iam assim mais
negativos das suas prestações globais (GOULD fiáveis, pois uma entrevista singular não dá ao
et al., 1999; GREENLEAF; GOULD; atleta a oportunidade de expandir, reforçar, ou
DIEFFENBACH, 2001). No entanto, estas
ajustar o seu relato (JACKSON; DOVER;
desvantagens não inviabilizaram a compreensão MAYOCCHI, 1998). Se esta sugestão é
das características e grau de exigência em cada
pertinente para constructos estáveis (traços),
etapa, assim como os requisitos temporais e
assume particular relevância quando estamos
financeiros para o atleta e respetiva família.

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340 Ramadas et al.

perante fatores como o “burnout” avaliação de forma a compreender a evolução


(CRESSWELL; EKLUND, 2006) ou “coping”, dos padrões de desenvolvimento psicológico
em que as estratégias variam perante diferentes inerente a cada etapa (MORRIS, 2000); (x)
fontes de “stress” (NICHOLLS et al., 2006). Por considerar o processo de desenvolvimento de
este motivo, seria importante acompanhar os talentos no contexto desportivo de forma
atletas diariamente (CSIKSZENTMIHALYI; multidimensional com base numa abordagem
RATHUNDE; WHALEN, 1993; PENSGAARD; interdisciplinar (MARTINDALE; COLLINS;
DUDA, 2003) ou, pelo menos, com maior DAUBNEY, 2005) que permita estudar mais
frequência (WUERTH; LEE; ALFERMANN, pormenorizadamente os diferentes fatores que
2004). interferem no desenvolvimento do talento; (xi)
Também a diversidade parece constituir encarar o processo de desenvolvimento do
uma base metodológica determinante com talento como um sistema não-linear,
repercussões em várias vertentes. Torna-se multidimensional, complexo e único e
assim importante (i) ampliar a quantidade de consequentemente identificar a dinâmica
variáveis, considerando o estudo de constructos intrínseca de cada indivíduo assim como os
como a criatividade, o compromisso constrangimentos específicos que moldam o seu
(DURAND-BUSH; SALMELA, 2002), a comportamento (PHILLIPS et al., 2010).
resiliência ou a esperança/”hope” (GOULD;
DIEFFENBACH; MOFFETT, 2002); (ii)
considerar diferentes contextos (GOULD; CONCLUSÕES
EKLUND; JACKSON, 1992a); (iii) considerar
diferentes culturas (PARK, 2000); (iv) Face às dificuldades de predição dos
considerar vários tipos de suporte, talentos em longo prazo por fenómenos como o
nomeadamente dos pais (WUERTH; LEE; da compensação (BARTMUS; NEUMANN; de
ALFERMANN, 2004), dos treinadores MARÉES, 1987) ou à existência de “late
(BLOOM, 1985) dos colegas de equipa, do bloomers” (SIMONTON, 1999), a comunidade
psicólogo do desporto (MORGAN; GIACOBBI, científica tem realçado a importância do
2006) e efetuar o respetivo cruzamento de conceito de desenvolvimento no âmbito desta
informação entre estes intervenientes focando temática. Na realidade, o sistema atual continua
datas específicas (DELFORGE; LE SCANFF, a ser alvo de críticas na medida em que valoriza
2006); (v) conciliar abordagens de natureza a prestação em curto prazo em detrimento do
qualitativa e quantitativa (GOULD; potencial e margem de progressão dos jovens e
DIEFFENBACH; MOFFETT, 2002; crianças. Este facto tem consequências diretas
MALLETT; HANRAHAN, 2004); (vi) estudar sobre os valores vigentes no desporto, mas
os atletas que foram bem sucedidos, mas igualmente sobre as pesquisas desenvolvidas
também aqueles que não conseguiram neste domínio.
ultrapassar as adversidades, em particular em Da investigação desenvolvida até a data,
períodos críticos das suas carreiras (HOLT; podemos salientar o reconhecimento obtido por
DUNN, 2004; HOLT; MITCHELL, 2006; diversas abordagens qualitativas. Para além das
MORGAN; GIACOBBI, 2006; WOLFENDEN; entrevistas direcionadas para atletas de elite,
HOLT, 2005); (vii) incluir nas amostras atletas uma quantidade significativa de “grouded
praticantes de vários desportos (CRESSWELL; theories” tem vindo a assumir relevância,
EKLUND, 2006; GREENLEAF; GOULD; (HOLT; DUNN, 2004, MORGAN; GIACOBBI,
DIEFFENBACH, 2001; LEMYRE; 2006), o que nos leva a depreender que na
TREASURE; ROBERTS, 2006); (viii) realidade existe um longo caminho a percorrer
considerar a análise de temas de ordem até se saber o suficiente sobre o
económica, social ou outros, que não sendo desenvolvimento de talentos no desporto. De
centrais ajudam a compreender este fenómeno facto, na sua essência, estas teorias tentam
(GOULD et al., 1999; WOLFENDEN; HOLT, definir modelos, identificar relações e
2005); (ix) desenvolver uma abordagem estabelecer hipóteses de estudo que ajudem a
longitudinal com diversos momentos de explicar o fenómeno, criando dessa forma
rampas de lançamento, ou pontos de partida,

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Psicologia dos Talentos em Desporto: Um olhar sobre a investigação 341

para que as investigações futuras tenham uma psicologia do desporto, sempre que os objetivos
base de trabalho passível de ser examinada, estão direcionados para o desenvolvimento de
aprimorada ou modificada. talentos, parece ser mais proveitosa a obtenção
Até ao presente, o enfoque metodológico de conhecimento relativo a vários constructos,
centrado nas entrevistas a atletas de elite, pois dessa forma é possível identificar quais as
normalmente campeões olímpicos, mundiais ou variáveis que têm maior e menor valor preditivo,
talentos em fase de formação, permitiu fazer assim como compreender a relação entre as
uma retrospetiva do trajeto psicossociocultural mesmas.
dos talentos e, consequentemente, apurar as Apesar dos avanços registados, quer nas
diferentes etapas que caracterizam uma carreira abordagens qualitativas, quer nas pesquisas
desportiva de sucesso e o grau de exigência de quantitativas, vários aspetos continuam sem
cada uma para o atleta e respetiva família resposta, nomeadamente os ambientes mais
(CÔTÉ, 1999). Foi ainda possível conhecer favoráveis ao desenvolvimento do talento, a
características, estratégias e recursos evolução dos padrões de desenvolvimento
potenciadores das prestações de alto rendimento, psicológico inerentes a cada etapa, a dinâmica
assim como aspetos em défice que alguns jovens da relação entre atletas, treinadores e família no
apresentam e que os impedem de prosseguir um desenvolvimento do talento com base no
trajeto rumo à elite desportiva (HOLT; cruzamento dos respetivos relatos, a
MITCHELL, 2006). Neste domínio, compreensão com maior profundidade de
catalisadores intrapessoais como estratégias de aspetos em défice em jovens talentos que os
regulação mental, motivação, compromisso, impeçam de permanecer nos grupos de elite e a
perfecionismo e resiliência parecem centrar as identificação de diferenças entre grupos de
atenções dos investigadores. talentos muito específicos (e.g. elite e subelite).
No que se refere aos catalisadores ambientais, O conhecimento atual não nos permite
salientamos a importância da tríade atleta-pais- explicar este fenómeno com o rigor necessário,
treinador, assim como dos inúmeros fatores que de pelo que um avanço significativo neste domínio
forma direta ou indireta interferem no processo de poderá estar dependente de estudos
desenvolvimento do talento numa perspetiva longitudinais, interdisciplinares e que
dinâmica, multidimensional e complexa. conjuguem abordagens qualitativas e
Em consequência desta complexidade, têm quantitativas. As abordagens em diferentes
surgido, na literatura científica, várias regiões e culturas podem também dar um
abordagens multidimensionais que se centram na contributo no sentido de considerar a relevância
avaliação de talentos em diversos parâmetros dos fatores ambientais.
(ELFERINK-GEMSER et al., 2004; FALK et al, Face ao exposto e perante a necessidade de
2004; REILLY et al., 2000; SÁENZ-LÓPEZ et optar por uma orientação conceptual adequada
al., 2005). Nesta perspetiva, interessa salientar ao estudo deste tema, os modelos mais
que enquanto os estudos retrospetivos reconhecidos pela comunidade científica
questionam de forma mais aberta os “experts” direcionam-se para uma abordagem
(treinadores, pais, atletas, dirigentes), detetando interacionista que contempla a indissolubilidade
e discutindo uma diversidade de fatores, por entre o papel dos genes e do ambiente numa
vezes difíceis de categorizar, os estudos perspetiva longitudinal.
quantitativos tendem a centrar as atenções na O modelo de Gagné (2009), apesar do seu
avaliação de tarefas fechadas sem oposição e caráter geral, surge como uma das mais
em ambientes estáveis, desvirtuando desta importantes referências neste âmbito, dada a
forma a natureza dinâmica das respetivas forma como estrutura a interferência dos
modalidades (PHILLIPS et al., 2010). catalizadores interpessoais e ambientais, em
Por outro lado, a investigação, com algumas consonância com uma definição de talento.
exceções (GOULD; DIEFFENBACH; Constitui, assim, um ponto de partida
MOFFETT, 2002), tem estudado um número fundamentado e organizado no que se refere ao
reduzido de constructos psicológicos no âmbito estudo desta temática requerendo, no entanto, a
da mesma amostra. No que concerne à conjugação com outros modelos e conteúdos

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342 Ramadas et al.

específicos do desporto, em particular aqueles que interaccionista e dinâmica. Neste âmbito a


partilham princípios comuns relacionados com o perspectiva de Brofennbrenner (2005) e Krebs
desenvolvimento do potencial numa perspetiva (2009) pode fornecer uma importante contribuição.
PSYCHOLOGY OF SPORTS TALENTS: A GLANCE INTO THE RESEARCH

ABSTRACT
Talent is characterized by a higher level of mastery resulting from a systematic development of skills in one or more fields of
human activity (GAGNÉ, 2009). In the context of sports, to achieve this level of mastery, athletes must demonstrate well-
developed anthropometric, physiological, technical, tactical and psychological characteristics (ELFERINK-GEMSER et al,
2004). Given the diversity and complexity of factors involved, the development process of talents in sport requires a holistic
and dynamic monitoring, typical of interactionist approaches which consider the individual, his/her genetic inheritance and
the influence of psycho-social variables (BAKER; DAVIDS, 2007). This study aims at conducting an analysis of the relevant
scientific literature in this area, in order to understand, firstly, the main problems encountered by the experts who study this
subject, and secondly, to identify new variables of study and methodological approaches of research that may be explored in
the future.
Key words: Talents. Sport. Development. Elite.

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Endereço para correspondência: Sidónio Serpa, Universidade Técnica de Lisboa, Faculdade de Motricidade Humana
Estrada da Costa, CEP 1495-688, Cruz Quebrada, Lisboa, Portugal. E-mail:
sserpa@fmh.utl.pt

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