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Pe.

Raul Plus

Identificar-se com Cristo na Cruz


Por Raul Plus, “A reparação – Crucificados com Cristo”, p. 13-22.

Para que veio Cristo ao mundo? Para reparar. Não veio com outro fim. Veio para restaurar a obra divina que o
pecado tinha devastado; para restituir ao homem a vida sobrenatural que ele tinha perdido; para compensar, pelos
seus merecimentos, a injúria feita a seu Eterno Pai no paraíso terrestre, e as outras injúrias que a malícia dos
homens renova e centuplica todos os dias; para expiar pelos seus sofrimentos — recordemos o presépio, a vida
oculta, a cruz — os egoísmos que se ostentam desde a origem dos tempos.

Esta obra da Reparação, Nosso Senhor podia realizá-la sozinho. Mas não quis que assim fosse e por isso escolheu
associados; esses associados somos nós, cada um de nós, cada cristão.

É isto o que temos de compreender, porque constitui a base de toda a doutrina da Reparação. S. Paulo, explicando
aos primeiros cristãos a supereminente dignidade que lhes era conferida pelo fato de terem sido chamados a
compartilhar da própria vida do Filho de Deus, dizia-lhes: “A mesma vida, a vida do Pai, circula em Jesus e em vós;
em Jesus, por natureza: ele é a cabeça, o chefe; em vós, por adoção: vós sois membros, participantes da vida da
cabeça que, em virtude do seu sacrifício, vos naturalizou divinos. A unidade só é perfeita se os membros estiverem
unidos à cabeça e a cabeça aos membros. A pessoa de Cristo é a cabeça; vós sois os membros, o seu corpo místico”.

Portanto, segundo a doutrina católica, segundo o ensinamento de S. Paulo, e o do próprio Salvador quando diz: “Eu
sou a videira e vós os ramos”, a pessoa humano-divina de Nosso Senhor, tal como viveu outrora em Belém, em
Nazaré, em Jerusalém, tal como vive agora na Eucaristia, tal como vive e viverá até ao fim dos séculos no céu, não
constitui — foi ele que assim o quis — o Cristo total.

Cristo total é ele, Cristo em pessoa, o chefe, a cabeça, e “mais” nós, o seu corpo místico. E esta união tão estreita
com a sua vida explica o motivo pelo qual Nosso Senhor nos associou tão intimamente à sua obra, a Redenção.

Mais uma vez repetimos, o Salvador podia muito bem executar tudo por si só. Não precisa de nós para acrescentar
seja o que for aos seus merecimentos, mas quer servir-se de nós para acrescentar alguma coisa aos nossos. Ele é o
Cristo; e nós, cristãos, somos outros Cristos — alter Christus. Temos de trabalhar em colaboração. A Redenção só se
efetuará pela vontade do Salvador, o primeiro Cristo, e pela de todos os cristãos, os outros Cristos. É fora de dúvida
que a nossa participação nessa obra está longe de ter uma importância igual à sua, a qual, possuindo por si mesma
um valor infinito, é infinitamente suficiente; a nossa podia ser dispensada; se Deus a exige, é só pelo amor que nos
tem.

No ofertório da missa, o padre enche primeiro o cálice de vinho. E depois, obrigatoriamente, junta-lhe uma gota de
água. Isto simboliza o papel de Nosso Senhor e o nosso, e o valor proporcional da nossa intervenção e da sua. O
vinho, só por si, bastaria para a consagração. Contudo, requer-se obrigatoriamente a gota de água e, pela força das
palavras divinas, essa gota é mudada pouco depois, como o vinho, em Sangue de Cristo.

A nossa parte no resgate do mundo é, se assim quiserem chamar-lhe, infinitesimal — o que é uma gota de água? —,
mas Deus exige-a e vai transubstanciar essa coisa ínfima, unindo-a à sua própria oferenda. Esse nada torna-se então
onipotente, com a onipotência que Deus lhe comunica. Graças a esse “nada”, que agora é alguma coisa, as almas
serão resgatadas.

Sem o oferecimento desse nada — por si mesmo insignificante, é verdade, mas preciosíssimo pelo fato da nossa
união com Cristo —, muitas almas irão talvez perder-se. O mundo precisa de todos os seus salvadores: de Jesus, o
primeiro de todos, o Salvador por excelência, e de cada um de nós, chamados a colaborar com ele no resgate da
humanidade. “O gênero humano, diz Lacordaire, tinha perecido unicamente por via de solidariedade, isto é, por
efeito da sua comunidade substancial e moral com Adão, seu autor; portanto, era justo que pudesse ser salvo na
medida e segundo o modo da sua perdição, isto é, por via de solidariedade... Onde a solidariedade do mal tudo
perdera, a solidariedade do bem tudo restabeleceu”.

Não reconhecer este dever da nossa participação na obra redentora é ignorar quase tudo da nossa dignidade de
cristãos. Procurar subtrair-se a ela é faltar à mais nobre, à mais imperiosa das obrigações.
Examinemos mais de perto esta questão. De que meio se serviu Jesus para reparar? Do sacrifício.

Há aqui um enigma. O Filho de Deus, para repor a sua obra no estado primitivo, para tudo restaurar —instaurare
omnia — não precisava ter escolhido esse caminho de uma vida trabalhosa, humilde e dolorosa, mas esse foi o que
escolheu; não quis reparar por outro meio, senão pelo sofrimento.

E nós, associados obrigatoriamente à sua missão pela nossa solidariedade com ele na unidade do Corpo Místico,
estamos, por isso, obrigatoriamente associados à sua Paixão. É por isso que S. Paulo, quando demonstra a
necessidade de colaborarmos na obra redentora do Salvador, querendo ir logo ao ponto capital, não diz: “completar
a missão de Cristo”, mas sim: “completar a sua paixão”. É impossível uma coisa sem a outra; elas se confundem.
Temos de reparar com Cristo, e não devemos pensar em reparar de outra maneira que não seja pelo nosso sacrifício
unido ao seu.

“Jesus Cristo, diz Bossuet, para ser o salvador dos homens, quis ser vítima por eles. Mas, por efeito da unidade do
Corpo Místico, se o chefe é imolado, todos os membros devem também ser hóstias vivas”.

Logo, é esta a progressão ou, mais exatamente, a equação — ser cristão, ser salvador, ser “hóstia”. E não nos pareça
estranha esta palavra: “hóstia”. Não é novidade. Trata-se de uma doutrina que é tão antiga como o Evangelho e que
constitui o próprio fundo da pregação de S. Paulo, dos primeiros cristãos e de toda a Igreja através dos tempos,
pregação que o Apóstolo resumia nesta frase bem clara dirigida aos fiéis de Roma: Exorto-vos, rogo-vos que
ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus (Rm 12,1).

Ninguém pense que é cristão se procura levar uma vida toda feita de suavidade, no fim da qual tenciona passar
desta terra, onde estava muito bem, para o céu onde vai estar melhor ainda, para o céu merecido por uma
existência cujo fim principal foi, na prática, deixar aos outros o laborioso cuidado de trabalhar com Cristo na
Redenção do mundo. O Evangelho do Mestre não admite semelhante programa, e é em outra coisa muito diferente
que consiste, para nos servirmos de mais uma expressão de Bossuet, “a pavorosa seriedade da vida humana”.

(...)

Sim, há abismos que nos cercam: o abismo do pecado dos homens e o abismo do amor do Salvador, o segundo
colocado por Deus ao lado do primeiro. E nós encontramo-nos entre ambos, com uma missão imperiosa, urgente,
nitidamente definida. Por esse sinal se conhece o verdadeiro discípulo de Cristo: ele descobriu esses abismos e
desde então vive perturbado, sob o império de uma inquietação sem remédio, motivada pelo problema da salvação
do mundo, pela pouca eficácia do sangue de Cristo e pela parte de responsabilidade que lhe toca na história da vida
divina na terra.

Precisamos reparar com Nosso Senhor, que veio ao mundo unicamente para esse fim, e com quem nós formamos
uma unidade.

É necessário reparar pelo meio que ele escolheu, isto é, pelo sacrifício.

Dir-se-ia que grande parte dos cristãos nem sequer suspeitam da existência desta dupla obrigação da vida cristã e
persuadem-se, ao menos na prática, de que há duas doutrinas do Salvador, ou duas maneiras de interpretar a sua
lei: uma que aceita a abnegação, e outra que se esforça por evitá-la; uma que se decide a praticar a mortificação, e
outra que se põe na defensiva contra tudo o que incomoda. Numa palavra: de um lado um cristianismo fácil,
burguês, confortável, para a maioria; do outro lado, um cristianismo austero e crucificador, para poucas almas, para
certas pessoas de caráter mais sombrio ou que um atrativo especial — aliás extravagante — seduz.

O Santo Cura d’Ars escrevia: “Tudo nos traz a cruz à memória. Nós mesmos somos feitos em forma de cruz. A cruz
destila bálsamo e transpira doçura; quanto mais nos unimos a ela e a apertamos nas mãos e ao coração, tanto mais
dela fazemos escorrer a unção de que está cheia. É o livro mais sábio que se pode ler; os que não conhecem este
livro são ignorantes, ainda que conheçam todos os outros; não há verdadeiro sábio além dos que o amam,
consultam e aprofundam. Amargo como é, nada alegra mais a alma que afundar-se em suas amarguras. Quanto mais
frequentamos aquela escola, tanto mais desejamos ali ficar, como num lugar onde se passa o tempo
agradavelmente”. Parece muito natural que o Cura d’Ars assim falasse: era um santo!

(...)
É evidente que a vida perfeita [religiosa] comporta um luxo de abnegação que a vida cristã ordinária não exige. Mas
julga-se acaso que a vida cristã, mesmo ordinária, desde que seja inteligente e sincera, pode harmonizar-se com essa
preocupação inquieta e absolutamente pagã das comodidades que o materialismo moderno pretende impor — e
que, desgraçadamente, consegue impor com bastante facilidade — a tantos discípulos de Jesus?

Porventura estará Cristo dividido? Haverá dois Cristos? Um Cristo crucificado que só os que se crucificam podem
seguir, e outro Cristo mais condescendente, que pode muito bem ser seguido por quem procura todos os gozos e
todos os prazeres? S. Paulo dizia: Não conheço dois Cristos. Conheço um só: Cristo crucificado.

As coisas já não são o que eram no tempo de S. Paulo. Hoje se conhecem dois. O primeiro, o verdadeiro, não
bastava. Inventaram outro: um Cristo sem cruz nem doutrina crucificadora, um Cristo sem esses dois paus grosseiros
que projetam uma sombra impertinente e aflitiva, um Cristo cujas exigências se resumem nestas palavras: — “Vivei a
vossa vontade... e eu garanto-vos a eternidade inteira com a condição de me concederdes, no termo da vossa
existência, a adesão de um pensamento obscurecido, o arrependimento de uma vontade que desfalece e a esmola
do vosso último suspiro”.

Esse Cristo, para cristãos que não querem sacrificar-se, não existe. O discípulo não é mais do que o seu Mestre. Se o
Salvador sofreu, o cristão, sob pena de atraiçoar o seu nome ou de faltar à sua missão, tem de ser, de alguma forma
— como iremos explicar — mas sempre, e necessariamente, amigo do sacrifício.

Um grande estadista belga tinha tomado por divisa esta frase: “Fora o descanso”. O dia da felicidade virá, e esse dia,
que talvez já esteja próximo, não terá fim. Até então o tempo nos é concedido para merecermos “a alegria do
Senhor”. Mas só entraremos na alegria do Senhor se tivermos tido coragem de compartilhar, na terra, a imolação do
Senhor. Cristo foi o primeiro a querer padecer para entrar na glória. “O Gólgota não é uma figura de retórica”. E para
nós a regra é a mesma: é preciso sofrer para entrar na glória (Lc 24,26).

Se quisermos triunfar com ele, temos de combater com ele. Laborare mecum (trabalhar comigo), são as palavras que
Santo Inácio põe na boca de Jesus na “Contemplação do Reino”.

Pizarro, um dos conquistadores da América do Sul, ao desembarcar na praia, atira a espada ao chão para traçar uma
linha divisória: “Os que têm medo fiquem desse lado: os valentes sigam-me”.

É austera esta linguagem e, por mais clara que seja a doutrina, há muitos que retrocedem diante da abnegação que
se impõe como consagração obrigatória de toda a vida cristã.

— “Como me assustam aquelas duas vigas em cruz, erguidas no alto do Calvário! E antes queria esconder-me atrás
delas que pregar-me nelas.

— “Sim, o lenho é duro, se se olhar só para ele. O lenho é uma coisa morta, mas nele está pregado um ser vivo. Se se
olha bem — como se deve olhar — já se não veem as duas vigas cujo contorno desapareceu, ou pelo menos se
esbate, e o que prende a atenção é o corpo que ali está cravado, e no meio desse corpo, irradiando por uma chaga
aberta, o coração. Diz-se geralmente: “o crucifixo”. Esse termo não fica bem; parece que se quer designar uma coisa.
Deve-se dizer: “o Crucificado”, indicando assim uma pessoa”.

— “Uma pessoa? É certo: uma pessoa humana e ao mesmo tempo divina... Sois vós, meu Deus, que estais aí
cravado!...

— “Sim, sou eu”.

— “Parece-me que já compreendo melhor, que compreendo quase tudo. Padecerei convosco, Senhor, mas vós
padecereis comigo. Convosco terei força, caminharei resoluto”.

— “Para que o teu ânimo cresça mais ainda, lança, a partir da minha cruz, um olhar sobre o mundo. Vê aqueles
homens que descem do Calvário, os meus verdugos, e lá embaixo, na cidade adormecida, a multidão que não
adivinha nada e de nada suspeita. Preciso dos teus sacrifícios para que a minha Redenção chegue até aquelas almas.
É a minha vez de te chamar em meu auxílio, porque eu quis precisar de ti. Contigo posso tudo, e sem ti não posso
nada. Queres que salvemos o mundo? Ou preferes ir-te embora, também tu, como a maioria, como todos?”.

— “É a mim que falais, Senhor? Pois não sabeis o que sou?”.


— “És um dos meus. Não basta isso para eu te pedir que trabalhes comigo, que te fadigues e sofras comigo? A obra
é de tal importância que bem merece, eu te asseguro, o esforço que nela hás de empregar, ainda que esse esforço
corresponda — na condição em que te encontras e no estado de vida em que a minha Providência te colocou — à
oblação de ti mesmo como hóstia viva... comigo...”.

— “Se vos parece que sou capaz... Convosco, Senhor, como hóstia viva... Oh! sim! de todo o coração! Aceitai-me”.

http://www.cultor.com.br/2018/03/identificar-se-com-cristo-na-cruz.html

Causas da ruína da paz


Por Raul Plus, “A paz interior”, pág. 35-37.

São muitas as causas que podem perturbar a paz interior.

A primeira é a própria natureza do homem ou as condições históricas em que ele se encontra.

Deus criara-nos para a paz interior. Feitos para vivermos na sabedoria e na virtude, devíamos seguir em tudo a razão
esclarecida pela fé. Mas, infelizmente, deu-se a desobediência original. O homem revoltou-se contra Deus; a partir
desse momento, a criação tornar-se-á hostil, e, no próprio homem, as potências inferiores (a imaginação, a
sensibilidade) tenderão a dominar. “Se tivesses andado pelo caminho de Deus, diz o profeta Baruc (3,13), viverias
sempre em paz”.

Logo após a queda, felizmente, foi-nos anunciado que o Messias viria trazer à terra a vida divina que havíamos
perdido.

Ele será o Príncipe da Paz. Mas não nos restituirá, com a vida sobrenatural propriamente dita (a graça santificante),
os dons preternaturais[1], e particularmente o favor inteiramente gratuito, dado no princípio, de sermos
preservados da má concupiscência. Haverá em nós uma sinistra inclinação para o mal; em vez de centralizarmos
tudo em Deus, tornar-nos-emos nós o centro de tudo, e reinará o egoísmo. Será a luta contínua entre o dever e a
paixão. Deus criara-nos para praticarmos o bem na tranquilidade interior; por nossa culpa não podemos praticar o
bem senão debatendo-nos contra as tentações e à custa de esforços por vezes duríssimos.

É certo que teremos sempre a graça necessária para triunfar. É uma verdade de fé, e seríamos heréticos se a
negássemos.

Mas é preciso que a nossa vontade entre em ação e saiba dominar as paixões.

Do mesmo modo que a morte e o sofrimento entraram no mundo em consequência do pecado, como dizia São
Paulo aos Romanos, assim também, em consequência do pecado, a má concupiscência entrou no coração do
homem. Não mais será senhor de si senão à custa de muitos e difíceis combates. Só à custa de generosas conquistas
sobre si mesmo, haverá na terra paz interior.

***

Outra causa que pode perturbar a paz é a ação possível do demônio. É o pai da perturbação, o anjo da falsa luz, que
incitou à revolta os nossos primeiros pais. E quanto a cada um de nós, não deixará de desempenhar a sua missão.

Quando não pode fazer-nos cair em pecado, procura lançar-nos na inquietação, certo de que assim a alma se
imobiliza em ninharias, perde ou esfria o seu entusiasmo, entra em si mesma para examinar indefinidamente os seus
defeitos, e praticamente nada adianta.

Surgem preocupações incessantes relativas à vida passada, e procura-se fazer reviver os estados de consciência de
outrora para dosear as culpabilidades, medir a conta-gotas as advertências, os consentimentos, o que é
psicologicamente impossível, inoperante e geralmente prejudicial. Se, às vezes, as confissões gerais podem ser úteis,
aconselhadas em alguns diretórios de comunidades religiosas para uma festa, um tríduo, ou um retiro, não se devem
permitir senão às pessoas perfeitamente equilibradas, de modo algum sujeitas a exames excessivamente minuciosos
ou inclinadas ao escrúpulo. Em muitos casos, será melhor desaconselhá-las.
O passado tem contra si o passado: caiu na eternidade de Deus. Os mais belos sentimentos de hoje não impedirão
que ele tenha sido o que foi. Querer ressuscitá-lo, não equivale a poder modificá-lo.

Os exames do passado podem ter duas vantagens: esclarecer a consciência acerca da origem das nossas faltas, e
conduzir à humildade. Mas estas duas vantagens são em geral contrabalançadas pelo inconveniente de levarem ao
desalento, diminuírem a confiança, criarem um certo egoísmo, quando um ato de amor de Deus, uma fé viva na Sua
misericórdia, seriam singularmente mais operantes. A maior parte das almas generosas não têm espírito centrífugo:
em vez de pensarem em si, pensam muito mais em Deus. Isto não quer dizer que o exame seja inútil, mas ajuda a
situá-lo no seu verdadeiro lugar: deve ser um exercício leal, perspicaz, rápido. Mal compreendido, pode, como todos
os instrumentos de manejo delicado, em vez de estimular, imobilizar.

[1] Há três conceitos de “dom”: o Dom Natural, o Preternatural e o Sobrenatural. Dom Natural é o que faz parte da
natureza do ser, de sua essência específica ou estrutura ontológica. Por exemplo, é da natureza do homem, a razão;
do anjo, a imaterialidade. Dom Preternatural é o que excede a natureza de um ser, aperfeiçoando-o. É um dom que
liberta a natureza de seus defeitos. Dom sobrenatural é o que não pertence à natureza do ser.

http://www.cultor.com.br/2018/05/causas-da-ruina-da-paz.html

A dificuldade de ser simples


Raul Plus, “Simplicidade”, p. 64-70.

A simplicidade, em qualquer sentido, não é fácil para ninguém. Padre Faber identifica-a, na sua acepção mais
compreensível, com a sinceridade cristã, e a faz consistir em três coisas: verdade para com nós próprios, verdade
para com os outros, verdade para com Deus. E observa: “Cada uma destas três coisas é mais rara do que o cisne
negro da Austrália”.

A simplicidade é difícil por três razões, além de outras: primeira, porque originariamente somos dualidade; segunda,
porque o mundo em que a nossa vida se passa é artificial e complicado; terceira, porque a educação espiritual,
muitas vezes acanhada, leva mais ao atrofiamento do que à expansão.

Por natureza, somos compostos de corpo e alma, de matéria e espírito. Nascidos da mistura, temos grande
dificuldade em sair dela; mais facilmente somos duplos do que simples; ao lado de tendências elevadas, temos
aspirações banais. O anjo é, por natureza, puro espírito; nós somos espírito mergulhado em muita coisa que não é
espírito. Podíamos converter-nos em anjos, mas nota-se que não convém fazê-lo indevidamente nem
continuamente. Aliás, à falta de alguém que de fora nos informe, qualquer coisa dentro de nós nos avisa que “o
animal” não está longe, como diz Pascal. Não dizemos “o animal” no sentido usado por Taine, o gorila feroz ou
lúbrico, mas simplesmente o desejo animal, as inclinações egoístas, o egocentrismo, tudo o que é contrário às
aspirações dos serafins e dos arcanjos.

E não somos somente “mistura”, mas também «campo de batalha». Além da dualidade, matéria e espírito, convém
notar este fato tão dramaticamente gravado no mais íntimo do nosso ser: o pecado original com a sua cruel
consequência, a concupiscência para o mal. A nossa natureza, tão bela quando saiu das mãos de Deus, porque era
sobrenaturalizada e preternaturalizada, revoltou-se contra Deus. Em outras palavras: não éramos destinados a ser
simplesmente humanos; Deus tinha-nos tornado participantes da sua própria vida, e para que esta vida divina fosse
enxertada em nós com mais arte, fosse adaptada à nossa vida (se assim podemos dizer) com mais suavidade, havia-
nos isentado não só da morte e do sofrimento, mas também da luta em nós entre as potências do bem e as do mal,
coexistindo tudo em perfeita harmonia, obedecendo as faculdades inferiores (imaginação, sensibilidade)
exclusivamente às faculdades superiores, a reta razão esclarecida pela graça. Mas veio a desobediência a Deus e,
como consequência, o homem deixou de ser senhor de si mesmo. A imaginação e a sensibilidade tentarão dominar a
razão, e esta luta será quase contínua. Mesmo que o homem chegasse a tornar-se senhor de tudo, faltaria ainda ser
senhor de si próprio. Como dizia Jacques Rivière: “Tenho de me haver sempre comigo”.

Há temperamentos mais frios, mais equilibrados, menos apaixonados; e, em qualquer dos casos, Deus lá está com a
sua graça. Mas adivinha-se o esforço que, a não ser que haja dons especiais, será preciso fazer para viver sempre
com uma conduta absolutamente reta, evitar terrores inúteis, interpretar para o bem as atitudes do próximo, ter em
Deus inteira fé, não fazer juízos, nem se deixar desnortear pelas pessoas ou acontecimentos, nem se fechar num
constante “Assim seja”,

“Está bem”, “Que O Senhor seja louvado, e o resto não me interessa”...

Em segundo lugar, a simplicidade é difícil porque tudo à volta de nós é artifício, complicação, convenção.

Nos primeiros anos, conserva-se, durante mais ou menos tempo, conforme as almas e os meios, alguma coisa da
candura da infância. Pouco a pouco, vem a adaptação ao ambiente em que se vive. Ouve-se a criada responder: “A
senhora saiu”, e, todavia, há a certeza de que a dona está em casa. Depois duma visita, ouve-se criticar este e
aquela, sendo que, há pouco, na conversa com as referidas pessoas, o pai e a mãe eram só açúcar e mel. No colégio
veem-se companheiros que trapaceiam, tentam copiar, pedem significados para a tradução e a solução dos
problemas; e os que não se prestam a este jogo são considerados maus companheiros. Na Universidade, para, nos
dias proibidos, regressar do cinema à meia-noite ou à uma hora da madrugada, os mais viciados subornavam o
porteiro de sua casa; nas aulas, passavam-se livros em segredo, e fingia-se que se tomavam notas, quando apenas se
desenhava ou escreviam cartas. Isto são somente alguns de entre muitíssimos exemplos.

Como será possível comportar-se, na vida, de maneira diferente daquilo que foi vivenciado no período de formação?
Os hábitos estão criados e a tentação é mais forte. Ainda que não haja grandes crimes, o que está
irremediavelmente perdido, salvo algumas exceções, graças a Deus, é a perfeita retidão, a completa transparência
da alma, a lealdade, a virginal simplicidade.

(...)

O mundo está sendo reconstruído. Procuremos a perpétua novidade na simplicidade. Não se trata de abolir as
convenções prudentes e a polidez, infelizmente muito esquecida, mas unicamente o que é artificial. Que cada um se
examine, e basta.

Reconheçamos que é preciso uma especial têmpera de alma para resistir ao ambiente; mesmo aqueles que, a
princípio, tentaram lutar, mais cedo ou mais tarde deixam-se vencer, e depressa se nivelam com os outros. “A maior
parte dos seres capazes de opinião independente, pôde escrever um autor, ultrapassam bem depressa o campo em
que o convencionalismo é aborrecido e conformam-se, a princípio com repugnância e depois com satisfação, com o
código das conveniências mundanas, que Steele definiu: ‘um meio de igualar sábios e tolos’”.

(...)

Há ainda uma terceira razão que explica como é relativamente rara a simplicidade, e por que se torna proveitosa
sobretudo para alguns meios de piedade.

Dizem-nos os Atos dos Apóstolos (2, 46) que os primeiros cristãos serviam a Deus com alegria e simplicidade de
coração. Tinham encontrado Deus; possuíam a fórmula autêntica da verdadeira vida; as riquezas do sobrenatural
abriam-se copiosamente diante deles – viático insubstituível no meio dos sofrimentos deste vale de lágrimas. Tudo
era céu: na terra, céu de graças; lá em cima, céu de glória, porque havia sempre a posse de Deus três vezes Santo.
Reinava entre todos a caridade. Dizia-se: “vede como eles se amam!”

Animavam-se mutuamente à pureza que o batismo exigia, à paciência quando se expunham ao martírio e, se era
preciso darem o seu sangue pela fé, iam alegres. Nunca tiveram a ideia de conceber o serviço de Deus como coisa
complicada, uma sobrecarga de exercícios múltiplos; iam diretamente a Deus, aos seus irmãos, à autoridade, ao céu.

Certamente que eles dispunham de graças especiais, a que podemos chamar “os carismas do começo”. O “espírito”
era tudo; quanto à “letra”, nem sempre determinada com exatidão e nem sempre a mesma em todas as
comunidades, observava-se o melhor possível. Com o andar dos tempos, compreende-se, fixaram-se normas, não
porque o dogma fosse acrescentado, mas porque, aumentando o número dos fiéis, foi preciso adaptar a vida
espiritual às diferentes almas. Onde há multidão, baixa necessariamente o nível do escol; quando aumenta a
quantidade, a qualidade corre o risco de baixar.

Alguns fiéis tornaram-se medíocres, outros contentaram-se com um cristianismo frouxo; algumas alterações à lei
divina foram consideradas, aqui e ali, como uma consequência inevitável da fraqueza humana. (...) Quando se pensa
que foi preciso um mandamento expresso para que os batizados recebessem, ao menos uma vez por ano, o Salvador
na Eucaristia!...

Já não se falava ao povo cristão como se ele desejasse ser fervoroso, mas para que se esforçasse por sê-lo ao menos
um pouco. Insistia-se nos temas temíveis: a salvação, a morte, o inferno, a tentação, convidando as almas a
entrarem em si mesmas; para que se pudessem conter no meio da confusão do mundo, foi preciso insinuar
métodos, multiplicar práticas e devoções. As almas fervorosas, que tinham menos necessidade desta pregação,
tomaram para si o que era dito para o povo. Algumas compreenderam mal: do exame, que é coisa excelente quando
praticado com inteligência e se mantém em certos limites, caíram no exagero da introspecção. Aqui e além,
começou a grassar o escrúpulo, resultado da lamentável e ridícula complicação. Alguns, até muito equilibrados e
generosos, viveram mais tempo sob o império do terror do que sob o regime do amor, e houve no mundo das boas
almas uma quase revolução quando Santa Teresa do Menino Jesus restabeleceu o espírito de ampla confiança, a que
ela chamava “o seu pequeno caminho”, e que deveria ser o grande caminho triunfal de todos os amigos de Deus.

Não se trata de pregar um cristianismo fácil, do qual seriam amputadas as exigências divinas; trata-se de dar ou
restituir aos cristãos de boa vontade o verdadeiro espírito do Evangelho – espírito de paz, de abandono, de santa
alegria, que liberte da máquina burocrática, das complicações embaraçosas e supérfluas.

Se a todos se pretende mostrar o cristianismo como ele realmente é, quer dizer, como qualquer coisa de
esplendidamente atraente; se se pretende mostrá-lo principalmente às massas populares inimigas do artificial e do
confuso, como uma mensagem vinda do céu para atrair as almas descristianizadas, é preciso sobretudo mostrar-lhes
um desenho claro, de linhas arquitetônicas que subam alto no azul, não prejudicadas por construções posteriores;
uma catedral de flechas esguias a apontar o céu, não estragada por ornatos inúteis ou remendos arbitrários de
artistas de segunda categoria.

Tratando-se de almas mais perfeitas, não lhes façamos esquecer, com explicações complicadas, a beleza da
verdadeira espiritualidade. Pensando certamente na palavra de São Paulo (Fp 2): “A característica dos filhos de Deus
é a simplicidade”, dizia Mons. Ségur: “Nada é tão simples como a verdadeira piedade e a vida interior. É muito
simples porque é divina, e os santos não são mais que filhos de Deus perfeitamente simples”.

Tenhamos como certo isto: só possui virtude completa aquele que, sobrenaturalmente, chegou a praticar com
perfeição diante de Deus, do próximo e de si mesmo, a perfeita simplicidade.

Seguir o chamado à Cruz


Raul Plus, “A reparação – crucificados com Cristo”, p. 61-65.

Existem no mundo certas estradas cujo nome nunca se esquece.

Uma delas era chamada a Rainha das Estradas, Regina Viarum. Através de Capua, Benevente e Brindisi e pelo Mar
Jônio, punha Roma em comunicação com a Grécia e servia de laço entre os dois polos do mundo. Era o caminho dos
artistas e dos poetas.

Outra chama-se a Via Sagrada. Seguia pela orla do Palatino e, atravessando o Forum, subia ao capitólio. Era o
caminho dos triunfadores.

Há uma terceira estrada: a Via Dolorosa. Começa na cidadela Antônia, residência de Pilatos em Jerusalém, e conduz,
passando pela casa de Anás e pela de Caifás, ao alto do Calvário. Foi e é ainda por esse caminho que enveredam
todos os dias os seus discípulos ávidos de porem os pés nas pegadas do Crucificado... a Via Dolorosa, ou, como diz
a Imitação, a Estrada Real, a Estrada Real de Santa Cruz.

Porventura o fundo de toda e qualquer vocação não consiste num chamamento à alma para que se una a Jesus de
uma maneira especial? Pela graça santificante, já Deus nos permite uma intimidade maravilhosa com ele. Mas, se
convém a Deus o título de esposo quando vive em qualquer alma batizada, com maior propriedade se poderá
empregar essa expressão quando se trata, não de uma alma que apenas segue o caminho dos mandamentos, mas
daquela que Deus escolheu desde toda a eternidade para o seu serviço particular, que distinguiu desde o princípio
dos tempos, que elegeu, atraiu e consagrou!
A aliança está posta no dedo, os compromissos estão firmados. Ora, a regra é que a esposa deve compartilhar tudo
com o esposo, alegrias e sofrimentos, inquietações, dores, perplexidades, angústias, desejos. Aqueles dois corações
formam um só coração.

Se a alma for sincera, dirá a Nosso Senhor: “Amor por amor, vida por vida, sangue por sangue, hóstia por hóstia;
tudo é uma só coisa entre nós.

“Já não podeis sofrer, mas confiastes a mim a vossa missão, e a ela hei de dedicar-me sem reserva. Para vos
indenizar e para salvar convosco os pecadores pelos quais vos entregastes à morte, quero sofrer pelos que gozam,
quero amar pelos que blasfemam, quero humilhar-me pelos que se exaltam, quero chorar pelos que riem, quero
dar-vos todo o meu coração para morada pelos que vos rejeitam, pecando.

“Ouço vosso queixa: — O meu amor perseguido, que os homens não querem reconhecer, procura um lugar para
descansar, e escolhi o teu coração... E quero, como a vossa Carmelita, Soror Isabel da Trindade, ‘oferecer-vos
morada e abrigo na minha alma e fazer-vos ali esquecer, à força de amor, todas as abominações dos maus’.
Compreendo que é dentro de mim, neste ‘templo’ onde habitais pela graça santificante, que quereis ver erguido o
altar do sacrifício em que se hão de operar as substituições divinas. Eu fornecerei a matéria do holocausto, e vós a
transformareis, tornando-a divina pela vossa presença e pela vossa ação. Vós, Senhor, sois o sacerdote que em mim
há de oferecer o sacrifício ao Pai; e haveis de oferecer tudo, sem nada deixar de lado. Não façais caso das minhas
resistências nem das repugnâncias que eu sentir. Cortai sem piedade o que puder ser obstáculo aos vossos projetos.
Eu devo ser “consumada em unidade a fim de poder trabalhar de modo eficaz para que “todos sejam uma mesma
coisa”. Se não estiverdes plenamente em mim, como poderei alcançar que sejais tudo em todos?”

“Ó meu Divino Mestre, vós já estais em mim pela vossa graça que recebi no batismo; daqui em diante, pelos meus
votos, mais se intensificará essa presença. Neste lugar escolhido para o sacrifício haveis de destruir tudo o que não
for vós. A vós sujeito todas as minhas potências. E o meu destino para o futuro é bem claro. Não terei outro fim que
não seja o de reparar os ultrajes que vos dirigem tantos ingratos, e, pobre enfermeira inábil, mas que quer ser
dedicada, pobre Verônica que tem só a sua toalha e o seu coração, passarei a vida a consolar a vossa tristeza e tratar
as vossas feridas. Tomo com ambas as mãos o crucifixo dos meus votos, dos nossos compromissos recíprocos, e
atrevo-me, já que mo consentis, a pousar os lábios nas vossas divinas chagas. Beijo as chagas das mãos, a fim de
reparar pelos que praticaram o mal; beijo a fronte traspassada de espinhos a fim de reparar por aqueles que não
pensam em vós, ou que só pensam em vós para vos insultar; beijo a chaga do coração a fim de reparar pelos que não
amam e pelos que amam mal. E queria ir mais longe, já que os verdadeiramente dedicados não são os que dizem:
‘Senhor, Senhor’! Queria provar-vos a minha generosidade pelas minhas ações e imprimir na minha vida, senão no
meu corpo, os sagrados estigmas da vossa Paixão.

“Decerto vos parece mesquinha a oferta que vos peço que aceiteis, mas consola-me a ideia de que, para fazer uma
hóstia, basta um pouco de trigo, sim, um pouco de trigo moído... Da hóstia quero imitar tudo: a pequenez — e a
minha divisa será, na prática de uma vida pobre e humilde, ‘diminuir eu para que Ele cresça’; a brancura, — o meu
ideal será a pureza dos anjos; a imobilidade — a hóstia deixa-se levar para onde querem, eu obedecerei sem
resistência”.

Há almas que querem especializar-se mais, e, fora ou além dos votos de religião — que já supõem o oferecimento
dessas almas a uma vida crucificada — elegem para pensamento dominante de cada uma das suas ações o sacrifício
sem tréguas e na mais alta dose, a imolação constante, radical, perpétua, com Cristo, pelas almas.

Tivemos ocasião de descrever a história destas doações em que se pede a Deus o favor de participar da imolação
redentora, não com uma aproximação mais ou menos rigorosa, mas à letra e o mais que for possível, seja no fundo
de um claustro, seja no meio do mundo.

Deixemos, porém, esses chamamentos especiais. Estamos tratando da vocação em geral, e dizemos: toda vocação
pode e deve ser uma vocação reparadora. De si mesma ela o é, embora se pense nisso mais ou menos
explicitamente.

Diante das ruínas que se amontoam e da necessidade de obreiros para restaurar, restabelecer, “reparar tudo o que
se desmorona”, há muitos que murmuram: “Sim, alguém deveria fazer esse trabalho, mas por que hei de ser eu?”
Outros, alguns, poucos, humilde mas resolutamente declaram: “Alguém deveria fazer este trabalho, por que não hei
de ser eu?” E lá vão elas. É a vocação inspirada pelo desejo da reparação.

Almas enérgicas, lá vão elas apesar dos obstáculos. “O mestre está aí. Ele te chama”. Partem. É preciso quebrar laços
muito queridos. Que importa? Podemos quebrá-los com o auxílio de Deus. “Ainda que tivesse cem pais e cem mães,
dizia Joana d’Arc, teria partido”. Há mais gente que diz a mesma coisa. Cem mães! ... Já é tão cruel naqueles
momentos ter uma! Partem, a despeito de tudo; mas a firmeza não suprime o sofrimento. “Que levas para entrar
para o convento?” — “Nada. Ah! sim, levo... levo doze lenços para chorar à vontade.” Os menores “nadas” prendem
nessas ocasiões.40 Partem mesmo assim. — “É preciso que eu vá ter com o Rei”. Tal é a última palavra de todas as
almas que ouviram o chamamento: — Vai, filha de Deus, vai, vai! — e às quais Deus dá coragem para lhe obedecer.

O mundo não compreende; nada compreende. Ao ver este espetáculo, qualifica-o de loucura, se é que se digna dar-
lhe atenção.

Loucura? Pois bem, aceitamos a expressão. Um dia, na Câmara francesa, o Pe. Gayraud, deputado pelo Finistère,
para defender as Congregações a quem queriam expulsar, exaltava a grandeza das almas de eleição que se separam
do mundo e lhe servem de para-raios, vivendo crucificadas com Jesus Cristo.

E o orador falava dos Irmãos de São João de Deus, que consagram a vida ao serviço dos alienados, das Irmãzinhas
dos Pobres, que têm por sustento as sobras das refeições dos “velhos”, e vivem, assim como os asilos, de esmolas
que mendigam... “Essa gente é louca!”, gritou alguém da extrema esquerda. — “Sim, retorquiu o Pe. Gayraud,
empertigando-se para medir melhor a pequenez moral de quem o tinha interrompido, “sim, essa gente é louca!
Sofre de uma loucura que está classificada há muito tempo; chamava-lhe S. Paulo: a loucura da Cruz”!

Quando a lógica da razão e a da fé, confundindo-se com a lógica do coração, chega aos últimos limites, o mundo a
chama loucura! A loucura existe, de fato, mas não está do lado que ele julga.

A loucura da Cruz!

Tempo de reparar
Por Raul Plus, “A reparação – crucificados com Cristo”, p. 91-102.

Muitos acham que, para se dedicarem à Reparação, têm necessariamente de se entregar, no silêncio de um claustro
e na austeridade de um mosteiro, às práticas mais torturantes da penitência cristã. É um erro.

A Reparação não consiste tanto em um conjunto de práticas observadas dentro de um determinado quadro, mas
antes em um espírito que pode amoldar-se facilmente a qualquer forma de vida, com a condição de que essa vida
seja profundamente cristã.

Um espírito. Em consequência, convém, antes de tudo, saber, ter consciência de que há um Deus crucificado,
crucificado por nós, e a quem devemos ajudar; convém descobrir que há almas que se perdem ao nosso redor, e que
essas almas são em grande número. Isto parece muito simples. Contudo, quantos cristãos há que o ignoram! Quem
vive dominado por estas duas grandes ideias possui o espírito de reparação.

E este espírito manifesta logo as suas exigências. Uma alma cristã dominada pela ideia da reparação compreende
que, antes de mais nada, tem de ser fiel às promessas do batismo, aos mandamentos de Deus e da Igreja. Não
dizemos fiel de qualquer maneira, como todo mundo, mas integral e rigorosamente fiel, sem rodeios nem
transigências, quer na vida pessoal, quer na vida social e familiar. Quantas perspectivas se entreveem já!

(...)

Aos corações generosos não faltam ocasiões de praticar a fé até o sacrifício. Já estigmatizamos a tendência de
muitos cristãos para inventar uma religião que não seja muito desconfortável. Escrevia o cardeal Manning: “Vivemos
num tempo de comodismo. Quem jejua hoje?” Sem dúvida, continua ele, a Igreja manifesta uma grande indulgência.
No entanto, “lembremo-nos de que, ainda, hoje, três vezes por ano, os israelitas não tomam alimento algum desde o
nascer até ao pôr-do-sol: censura amarga para nós que somos discípulos de Jesus crucificado”.

(...)
A cruz do Salvador é uma cruz que crucifica. Por isso, que contrassenso o cuidado com que os cristãos, que
pretendem seguir a Jesus Cristo, fogem das penitências mais comuns ordenadas pela Igreja! O cardeal Manning
interroga-os com finura: “Deixai que vos pergunte se acreditais no vosso próximo quando o ouvis dizer que não pode
jejuar, nem observar as abstinências de preceito, que lhe faz mal à saúde, etc...”. E acrescentava: “Se eu conseguisse
perturbar algumas consciências, não teria pena, convencido como estou de que vivemos numa época que tende a
apagar a doce severidade das leis da Igreja”.

Por aqui se vê que, sem ir muito longe, limitando-nos a praticar à letra — ou ao menos em seu espírito — os
mandamentos, encontramos muitas ocasiões de oferecer a Deus sacrifícios bem meritórios com o fim de reparar.

Primeiro, aceitar as mortificações impostas pela Igreja. Em segundo lugar, aceitar as mortificações impostas pelas
circunstâncias. São muitos reveses de fortuna, faltas de saúde, lutos, fatalidades, desgostos de todo tipo. A vida é
cheia deles e pode ser simbolizada numa lira de sete cordas, seis para a dor e uma para a alegria. Bossuet comparava
os nossos minutos de verdadeira felicidade àqueles pregos de ouro que adornam uma porta: de longe parecem
milhares; mas, ao chegar perto, vemos que mal chegam a uma mão cheia. As nossas alegrias são como as pedras de
um vau, instáveis e espaçadas. Precisamos pôr o pé em cima de uma e saltar depressa para outra, e assim por
diante. “Quem és tu?” pergunta Beatriz a uma personagem que está olhando passar a barca de Dante. — O meu
nome? Não vês que sou “um que chora”?

“Um que chora”. Não é esta, mais ou menos, a definição de todo homem nesta terra, sobretudo em certos dias? Que
pena, por conseguinte, ver como são tão poucos os que sabem aproveitar as lágrimas que derramam! Cada um de
nós, com o número de sofrimentos que a nossa vida contém, poderia ganhar inúmeros merecimentos. E a maioria
não os aproveita, não pensa neles; em vez de utilizar as suas cruzes para o céu e para as almas, desperdiça-as, não as
aproveita, não encontra nelas, pela sua revolta, senão ocasião de pecado.

O que se diria de um homem que, possuindo uma fortuna em moedas de ouro, em vez de as levar ao Banco para
ajudar na obra da restauração nacional, as atirasse uma por uma do alto de uma ponte, dentro do rio?

A primeira coisa que fazemos, logo que o sofrimento nos visita, é reclamar, acusar Deus. “Eu bem queria, dizia Nosso
Senhor a Santa Gertrudes, que os meus amigos me julgassem menos cruel. Deviam fazer-me a justiça de pensar que,
se por vezes os obrigo a servirem-me com trabalho e como que à sua custa, é para seu bem, para seu grande bem.
Queria que, em lugar de se irritarem contra as suas dores, vissem nelas instrumentos da minha bondade paternal...”.

(...)

Assim fala o Pe. Ramière. E o Pe. de Ponlevoy diz: “Sem dúvida, a consolação mais suave desta vida e o maior recurso
da nossa alma consiste em nos unirmos a Jesus Cristo. Contudo, há melhor ainda: é nos conformarmos com a
vontade de Deus e sermos pregados à Cruz com Nosso Senhor, ou unidos a Nosso Senhor pela sua Cruz”.

No dizer de todos os autores espirituais, as “cruzes” que nos são impostas são as melhores. “As melhores são as mais
pesadas, e as mais pesadas são as que mais contrariam a nossa vontade, as que não escolhemos: as cruzes que
encontramos na rua, e ainda mais as que achamos em casa... São melhores do que os cilícios, as disciplinas, os jejuns
e tudo o que a austeridade inventar. As cruzes que nós escolhemos são sempre mais leves porque há nelas alguma
coisa de nós próprios, e por isso não crucificam tanto como as outras. Humilhai-vos, pois, e recebei com alegria as
que vos são impostas contra a vossa vontade”. Certamente já reconhecemos que é São Francisco de Sales que assim
fala.

Quererá isto dizer, como pensa talvez a maioria dos cristãos, que as penitências voluntárias são reservadas para uso
exclusivo dos claustros e dos mosteiros?

Nada mais falso. Depois do ponto em que recomenda a fidelidade, pelo menos às mortificações aconselhadas pela
Igreja, o cardeal Manning acrescenta: “Vou mais longe. Há atualmente alguém que tenha coragem para levar a vida
dos Santos? Lemos essas vidas e as admiramos. Sabemos as austeridades que praticaram, a pobreza em que viviam.
Louvamos tudo isso, que nos faz estremecer. Mas, de que somos nós capazes? Quais são as nossas penitências? E
em que nos parecemos com Cristo? Fazemos tudo para que o mundo nos inclua no rol dos que lhe pertencem. E
pretendemos ser cristãos!”
O cardeal Manning falava aos seus compatriotas ingleses, grandes amadores do conforto, como se sabe. Mas o
conselho serve para todos. Muitos cristãos, nos últimos momentos, hão de dirigir a si próprios a censura que, num
retiro, e por humildade, Paulina Reynolds fazia a si mesma: “Não há meio de dilatar mais este vaso do meu coração,
destinado a receber até transbordar a vida divina. Acabou-se. Teria podido dispor-me, por uma correspondência
mais fiel à graça, a receber cem mil vezes mais durante a eternidade. Não quis. Não quis oferecer-me senão em certa
medida”.

Quantos merecimentos poderíamos levar ao tesouro da comunhão dos santos se, em vez de uma fidelidade vulgar,
de uma fidelidade em dose moderada, quiséssemos ser generosos sem medida!

Eis como se deveria reparar, diz também o autor da Mission du Saint-Esprit dans les âmes. “Primeiro, pela nossa
prontidão em seguir as inspirações do divino Espírito; depois, por uma fidelidade proporcional à sua graça e na
medida dos seus dons, e não de uma maneira mesquinha, enterrando o talento que nos foi confiado. Seria preciso
fazê-lo produzir de modo que cada mil talentos rendessem dez mil... Finalmente, seria preciso servi-lo com grande
pureza de coração, e por estas palavras entendo duas coisas: não só o afastamento de tudo o que pode manchá-lo,
mas também o sacrifício de tudo o que o divide”.

Como se vê, não faltam meios de reparar. O que é que falta então? Almas que queiram utilizar esses meios; almas
dispostas a lutar, não só contra o pecado, mas também contra os pequenos defeitos; almas que se dediquem
resolutamente, não a práticas extraordinárias, mas sim, na monotonia da vida quotidiana, ao cumprimento dos
mínimos deveres, com intenção de reparar. Sonhamos muitas vezes com façanhas impossíveis; no entanto, “é pelas
pequenas coisas que se avalia um grande amor; fazer coisas grandes não é difícil: arrasta-nos para elas a inclinação.
Mas as coisas ordinárias, insignificantes e fastidiosas necessitam de um esquecimento de nós próprios, do qual nem
todos somos capazes”.

Com o seu bom senso e finura habituais, dizia Mons. De Ségur: “A nossa santificação é um edifício formado de grãos
de areia e gotas de água; um olhar desviado, uma palavra retida, um sorriso que se deixa em meio, uma linha
interrompida, uma recordação abafada, uma carta agradável lida rapidamente sem depois se reler; um pequeno
movimento natural moderado com coragem; uma importunidade, uma contrariedade, levadas com mansidão; um
ímpeto de gênio, um movimento de mau humor reprimidos imediatamente; a privação de uma despesa inútil; uma
nuvem de tristeza suavemente afastada; uma alegria natural temperada por um movimento para o Hóspede divino
do coração; uma repugnância vencida; enfim, uns nadas imperceptíveis ao olhar humano, mas admiravelmente
visíveis ao olhar interior de Jesus Cristo: eis o que é preciso vigiar; eis as fidelidades muito pequenas e muito grandes
que granjeiam à alma torrentes de graças...!”.

(...)

Por nós mesmos, para a reparação, somos iguais a zero; seja! Mas com a graça de Deus, alcançada pela humildade,
pelos bons desejos, representamos uma força, um valor mais considerável do que se pensa. Com que sustentou
Nosso Senhor cinco mil pessoas no deserto? Com cinco pães e dois peixes.

Também aqui não há proporção. E a seguinte frase talvez convença mais ainda. É de uma profissional da Reparação:
“Não é o ouro, nem a prata, nem as pedras preciosas que Deus escolhe para fazer uma hóstia, mas sim um
pedacinho de pão, uma coisa muito vulgar e sem valor algum”.

Descontemos a parte da humildade naquela que a si própria se animava desta maneira. Mesmo assim, a frase é
verdadeira e, para todos nós, consoladora.

A coragem diante da vida


Por Raul Plus, “Virtudes raras”, p. 51-56.

Há duas formas de coragem: uma que consiste em agir, outra que consiste em sofrer. Resta saber qual delas é mais
meritória.

Em tempo de guerra, pode-se discutir entre regimentos ou batalhões o que uns ou outros preferem: tomar de
assalto uma posição, ou organizar bem e defender uma posição tomada. Louvor àqueles que enfrentam o perigo e
louvor também àqueles que, não podendo enfrentá-lo, não o temem quando ele ameaça a todo o instante desabar
sobre eles. A primeira forma de coragem é mais brilhante e, talvez por isso mesmo, mais fácil. A segunda é mais
humilde; supõe uma virtude, não menor, mas de outra qualidade. É magnífico arrojar-se, avançar para o perigo,
apesar dos tremores da sensibilidade ou das hesitações que a razão posta ao serviço de uma covardia disfarçada,
que nunca deixa de sugerir. Isto é a coragem: “A arte de ter medo sem o mostrar” e de parecer bravo, apesar das
recalcitrações interiores.

Mas manter-se firme na provação, sobretudo quando é longa e cada dia que passa lhe aumenta o peso, que valentia
isso não representa! Manter-se firme, apesar do tempo prolongar-se indefinidamente, das privações redobrarem, da
situação que se agrava, das perplexidades que crescem e da incerteza do dia de amanhã. Manter-se firme, quando a
pátria nos chama, não de braços cruzados à espera que ela seja salva sem o nosso esforço, mas para nos encorajar e
para darmos todo o nosso esforço à obra comum. Manter-se firme, para que o nosso exemplo encoraje o vizinho.
Manter-se firme, sem frases, mas com decisão, sem nos deixar-se iludir pelas novidades que lisonjeiam as nossas
esperanças. Manter-se firme, ainda que a noite venha mais negra e a tempestade mais horrorosa. Manter-se firme
até ao despontar da aurora.

Eis a carta de um oficial de artilharia dirigida à sua esposa, no princípio da guerra de 1939. O valente encontrará a
morte ao proteger a sua divisão em retirada. Naquele momento (13 de setembro de 1939), escreve: “Sejamos
francos: o pensamento do sacrifício que talvez seja preciso fazer para a felicidade e para a paz da humanidade não
tem sido motivo de alegria. Não posso ocultar-te que tenho tido períodos, felizmente breves, de desalento”. Vê-se
que o oficial não quer fingir de valente, manifestar sentimentos que não tem; é leal, humilde. E depois, tendo rezado
e refletido melhor, acrescenta: “Agora, com a ajuda de Deus que tenho — como tu — a felicidade de receber todos
os dias, aceito integralmente o sacrifício. Antevi os seus diferentes aspectos, olhei-os de frente, e não tenho medo,
com a graça de Deus”.

Que dizer desta linguagem? Enquanto houver na nossa terra homens capazes de falar assim, de vibrar assim, de se
sacrificarem assim, como não havemos de nos sentir animados das mais belas esperanças? É certo que se trata de
uma alma seleta. Mas, nos tempos que correm, não deveriam todas as almas ser ou tornarem-se almas seletas?

Não exageremos as nossas forças, nem nos julguemos mais fortes e capazes de maior valentia do que somos.
Façamos o nosso exame de consciência e, se ainda somos covardes, não receamos confessá-lo: “O pensamento do
sacrifício não tem sido motivo de alegria”. Mas não queiramos permanecer nesse estado. Compreendamos os
grandes interesses que estão em jogo, o que de nós exige a pátria, o que Deus nos pede. Rezemos, porque, para
aceitar o sacrifício, é precisa a graça — e a graça é de graça. Peçamo-la para os que não têm a felicidade de crer, ou
cuja fé é tíbia. Que todos cheguem a poder dar este testemunho: “O sacrifício foi aceito integralmente. Olhei-o de
frente e nunca mais tive medo, com a graça de Deus”.

Ir devagar

O provérbio italiano “quem vai devagar, vai com segurança”[1] desagradava ao grande Lyautey[2]. Não porque ele
desprezasse a lentidão prudente, mas, a lentidão pela lentidão, como se ela fosse virtude, isso o irritava, pois a sua
divisa era: agir, agir, agir. Não acrescentava “agir tão rapidamente como a situação exige”, mas isso estava implícito
no gesto com que acompanhava as suas palavras. Gostava de alguns provérbios franceses que parecem inculcar o
menor esforço: “Pedra que rola não ganha musgo”: condenação dos que querem andar por toda a parte para
enriquecer a experiência. “Tudo vem a tempo para quem sabe esperar”: quando, pelo contrário, é preciso mais
vezes ir ao encontro das circunstâncias do que elas vêm ao nosso. “De nada serve correr, é preciso partir a tempo”: o
que, dizia ele, muitas vezes é uma desculpa, não para partir a tempo, mas para não correr!

Para ele o provérbio fatal entre todos era: “O ótimo é inimigo do bom”; O provérbio italiano diz: “Piano piano si va
lontano” (N. do R.). desculpa de toda a inércia. Tinham-lhe muitas vezes respondido com este provérbio, quando
tendo solicitado das repartições uma solução rápida para qualquer caso urgente, lha retardavam nos subterfúgios de
formalidades indefinidas ou já gastas. As grandes almas, onde quer que estejam e qualquer que seja a profissão a
que pertencem, raciocinam da mesma maneira.

Ouçamos como o eminente cirurgião Gosset falava do seu professor Terrier e da sua maneira de proceder segundo
os exemplos que recebera em outros tempos. Por várias vezes se encontrou diante de problemas angustiantes e de
casos extremamente difíceis em que era preciso, mais que a intuição, espírito de iniciativa e audácia. Naqueles
momentos, perguntava a si mesmo: “que faria o meu professor Terrier?”. Feita a pergunta, já não tinha hesitações.
Sabia claramente que, na dúvida, ele não se teria omitido: num caso desesperado, ainda que tivesse só uma
possibilidade entre mil, tentaria essa possibilidade. Perante uma grave responsabilidade, não procuraria fugir-lhe,
ainda que tivesse maneira galante de o fazer; e que, finalmente, depois de um insucesso, nunca se queixaria e
aceitava todas as consequências, quaisquer que fossem.

Como nos afasta disso a acanhada filosofia com que todos os dias e a respeito de tudo nos enchem os ouvidos!
Valha-nos Deus! Em vez de repetirmos constantemente estribilhos já gastos, que só servem para levar ao desânimo,
de nos lamentarmos e gemermos, de apelarmos para falsas prudências, conselhos inúteis, covardias deprimentes e
paralisações sem dignidade, em vez disso, lucraríamos todos ao mostrarmos uma confiança invencível, ao
prepararmo-nos, pela audácia no cumprimento diário do dever, para os duros golpes e para os acontecimentos
dolorosos da vida.

Em tudo, a serenidade

“Tenho tido muitas provações na minha vida, a maior das quais nunca chegou”, dizia um humorista.

Sofremos de três coisas. Primeiro, do que objetivamente nos causa sofrimento. Depois, do que nos vai causar dor,
daquilo que precede a chegada efetiva do sofrimento (por vezes a expectativa é mais cruel do que o próprio mal).
Por exemplo, a perspectiva de uma intervenção cirúrgica iminente custa-nos mais do que a própria operação e os
sofrimentos que lhe seguem. E por último, o que entristece ainda mais a nossa vida são os sofrimentos
que imaginamos ter de suportar. Nesse sentido, o nosso humorista mostra-se bom psicólogo, considerando como as
suas mais duras provações os males que receou, mas que nunca lhe sobrevieram. Os nossos mais cruéis sofrimentos
são as apreensões.

Ouvi um episódio da vida no deserto que dizia que se enxergava lá longe, a perder de vista, alguns destroços, mas
que não se prestavam para uma emboscada. Podia-se caminhar sem medo. Mas o que eram, todavia, aquelas
pontas de lanças que lá estão a brilhar, imóveis, por detrás daquele rochedo? Certamente homens escondidos que
espreitam o viajante para o roubarem. O que fazer? Avançar? Um só contra três é muito perigoso... Mas no fim,
eram apenas três lanças abandonadas.

Da mesma forma, não são muitas vezes imaginários os perigos que divisamos nos caminhos da vida? Não é já muito
que temos realmente de sofrer, sem lhe acrescentarmos sofrimentos ilusórios? Para que andarmos continuamente a
compor ladainhas com todos os “o que acontecerá se...?”. O futuro nunca é o que hoje imaginamos.
Ordinariamente, quando ele se torna presente, é menos sombrio do que tínhamos imaginado. Em todo o caso, nós,
os cristãos, sabemos que ele traz consigo a sua graça. No minuto que passa, não tenho o auxílio necessário para
aceitar tal ou tal minuto do futuro. Se agora mesmo, amanhã, daqui a um ano, daqui a dez anos, Deus me pedir um
sacrifício, dar-me-á o auxílio necessário para suportá-lo. E não vai concedê-lo hoje, porque a provação a suportar só
virá mais tarde.

A graça acompanha o curso do tempo. Vivamos uma hora de cada vez. A cada dia bastam as suas próprias aflições e
a paciência para suportá-las. A expressão “Não vivemos, esperamos viver” poderia muito bem modificar-se em: “Não
sofremos, receamos sofrer”. E isso é infecundo, desalentador, inoperante.

Que a tigela do leite quebre, pouco importa! Pega-se outra e enche-se novamente de leite; coloca-se outra vez sobre
a cabeça bem levantada e olha-se para frente, sorrindo. Lamenta um viajante que as mulheres do nosso país, a
França, não tenham, como as suas congêneres de alguns países quentes, o hábito de levar os objetos à cabeça; não
há nada que dê a elas, parece, um porte mais majestoso. Talvez. Mas é verdade sobretudo no ponto de vista moral.

Caminhemos na vida corajosamente e de rosto levantado. Aconteça o que acontecer, não permitamos que a alegria
deixe de ter a primazia. E se a imaginação fizer das suas, que seja mais para embelezar a vida do que para torná-la
triste.

[1] O provérbio italiano diz: “Piano piano si va lontano” (N. do R.).


[2] Louis Hubert Gonzalve Lyautey (1854-1934), militar francês que se destacou nas guerras coloniais e durante a
Primeira Guerra Mundial (N. do R.).

UM PAI QUE NÃO REZA


"Ao pé do leito, Pedrinho (quatro anos e meio) faz a sua oração que parece bem comprida.

- Então não acabaste ainda a oração? - pergunta a senhora.

- Já - responde a criança embaraçada.


- Mas então que estás aí a fazer?
A criança cora e murmura timidamente:
- É que eu faço duas à cada noite: a minha e a do Papai; ouvi-o dizer à mamãe que não estava disposto para rezas;
faço-a eu por ele."

Pe. Raul Plus, Cristo no lar

Náufrago em alto mar


O veleiro conseguiu vencer a tempestade. O mar ainda estava um pouco agitado, mas era preciso desfazer várias
medidas, necessárias para a tempestade, mas agora indispensáveis para retomar velocidade. Nessa etapa
intermediária entre o perigo e a bonança a vigilância costuma diminuir.

— Homem ao mar!

A tripulação, na quase totalidade, estava na proa, de onde caíra o marujo. Jogam-lhe duas boias salva-vidas mas não
notam que na outra ponta do navio um outro marujo — Jean —, excelente nadador, pulara ao mar para socorrer o
que caíra.

Não demorou muito, para o primeiro (o “homem ao mar”) ser resgatado e o veleiro retomar a velocidade… deixando
o segundo homem para trás. Não o haviam percebido, uma vez que pulara da outra extremidade do navio.

Não ouviram os seus brados e o navio afastou-se.

Dirigiu-se para a boia que ficara. Aí, pode ver toda a situação em que estava: sua ausência não seria notada, pois
naquela noite não teria nenhuma função.

Fez-se noite, e as horas foram passando. Em certos momentos Jean chegava à beira do desespero. Mas, como um
raio de luz, veio-lhe a lembrança o que aprendera no ensino religioso: Nossa Senhora é a verdadeira Estrela do Mar
— Stella Maris — e a oração: nunca se ouviu dizer que alguém fosse por Ela abandonado. Rogou pois à Maria
Santíssima e o ânimo voltou-lhe, apesar na noite escura pois o céu estava inteiramente coberto de densas nuvens.

Às primeiras e tênues luzes do alvorecer percebe o vulto de um veleiro que se aproximava. Mais de perto vê bem
claro: era o “seu” veleiro. Içaram-no para bordo: estava salvo. Nossa Senhora não faltara à promessa da oração.

(Condensado de “Maria em nossa história”, Pe. Raul Plus, União Gráfica, Lisboa, 1943, p. 127.)

http://montesclaros.blog.arautos.org/2014/01/10/naufrago-em-alto-mar/#more-1923

Um pai que não reza


Ao pé do leito, Pedrinho (quatro anos e meio) faz a sua oração que parece bem comprida.

- Então não acabaste ainda a oração? - pergunta a senhora.

- Já - responde a criança embaraçada.

- Mas então que estás aí a fazer?

A criança cora e murmura timidamente:


- É que eu faço duas cada noite: a minha e a do Papai; ouvi-o dizer à mamãe que não estava disposto para rezas;
faço-a eu por ele.

Precocidade? Sim. E as crianças não têm perspicácias destas que nos desnorteiam?

Ah! esses pais que julgam poder ser incoerentes diante dos filhos! Como eles ignoram as exigências desses
cerebrozinhos, desses corações infantis!

E como sabem também os filhos aproveitar-se do que se diz diante deles!

Uma protestante convertida ao catolicismo, Lady Baker, conta no seu livro La Maison de Lumière, como criança
ainda, - tinha onze anos aproximadamente, e, claro esta, pertencia como seus pais a Religião Reformada - lhe
acontecera surpreender uma conversa entre seu pai e sua mãe. Dizia o pai: "Ouvi hoje um bom sermão;
demonstrava-se que as Reformas fora um erro e que a Inglaterra teria passado muito bem sem ela."

"Psiu! interrompe a mãe escandalizada, cuidado que as crianças podem ouvir!".

"Retiraram-se da sala de estudos, escreve Lady Baker, e não ouvimos mais nada. Mas comecei logo a maturar sobre
essas estranhas palavras". Nessa mesma tarde, em passeio, pedia ela à criada para entrar numa igreja católica. A
partir dessa data germinara nela o desejo de estudar as origens da peseudo-Reforma, e, no caso em que seu pai
tivesse dito a verdade, de mudar mais tarde de religião.

Graças a Deus, não perdi o hábito da oração. Mas talvez, por qualquer pretexto, eu não mostre bastante a meus
filhos que oro. São efetivamente duas coisas distintas: orar e deixar perceber aos filhos que se ora. Não me basta,
pois, orar só para mim. O meu dever de chefe de família é orar em nome da família, diante da família e com a
família. É necessário que os meus filhos saibam que o seu pai honra a Deus, e aprendam, a exemplo seu, o grande
dever da adoração e do culto. A oração, e da noite pelo menos, deve ser feita em comum.

Em muitos lares onde no fim do dia todos se reúnem para honrar a Deus, é a mãe quem preside à oração, o que mais
tarde fará cada filho, por ordem. Melhor seria que fosse o pai. É uma função que lhe pertence, uma função em certo
modo sacerdotal, falando num sentido lato...

Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição,
Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur

Fonte: Antigo blog Educação e Família Cristã

Créditos ao excelente blog catolicosribeirao.blogspot.com

http://www.catolicostradicionais.com.br/2011/11/um-pai-que-nao-reza.html

Mães sobrenaturais
"Honra a essas mães, verdadeiras educadoras!"

Felicitava-se um inglês (Chesterton) de que a educação fosse toda ela confiada a mulheres até ao momento em que
se torna ínútil educar, – porque “uma criança não é mandada à escola para se instruir, senão quando já é tarde para
aprender qualquer coisa“.

Por outras palavras: a formação depende da educação da primeira infância, e em segundo lugar a educação da
primeira infância pertence às mulheres. Esta é a verdade. E grave. Porque surge imediatamente o problema: as mães
encarregadas de educar estarão todas elas à altura dessa missão?

Algumas, sim, e distinguem-se. Para a primeira infância. E depois também, quando os filhos já são adultos.

Quando os filhos eram pequeninos, com que atenção não velavam elas não só pelo seu corpo, mas sobretudo pela
alma, deviando tudo o que mais tarde pudesse vir a ser para eles ocasião de tentação.

Com que amor de Deus, logo desde o primeiro desabrochar da razão, lhes não juntaram elas as mãozinhas para
rezarem, com o coração erguido para o céu. E por ocasião da primeira comunhão particular, com que ternura lhes
não ensinaram as maravilhas da Eucaristia, os não animaram à generosidade, lhes não falaram de Cristo crucificado.
“Coração de Jesus, dê sabodoria para as mães educares seus filhos”.

Sem jamais se buscarem a si mesmas, com que alegre e sobrenatural austeridade ensinaram a criança a sacrificar-se,
a pensar nos outros, com que habilidade divina lhes não mostraram as necessidades imensas do mundo e os não
fizeram pensar nos pagãozinhos privados da felicidade de terem mamãe cristã, papai cristão, irmãs e irmãs
batizados.

“As crianças são sérias; e conservar-se infantil a sua alma significa precisamente continuar a encarar a vida com
seriedade“. Este pensamento de Joergensen – conhecido, ou desconhecido – tem servido de regra a mães que
sempre ajudaram os filhos a conservar, depois de crescidos, a profundeza juvenil da sua seriedade em face da vida.

E quando eles são grandes, como essas mães os ajudaram a desenvolver essa seriedade, a evitar que se extraviem,
que se dissipem na atmosfera do mundo e da frivolidade…vivendo elas próprias na familiaridade divina, aprenderam
o grande mistério de “Deus pertinho”, de Deus que mora no fundo da alma em graça e que só deseja chamar-nos à
Sua intimidade.

Honra a essas mães, verdadeiras educadoras!

(Excertos de Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J.
; 2ª Edição, Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

http://www.catolicostradicionais.com.br/2012/01/maes-sobrenaturais.html

O salmo das novas mães

O SALMO DAS NOVAS MÃES


Certa mãe ainda nova – toda ela dada ao seu mister de mãe, e ao mesmo tempo boa artista, teve a idéia de
comparar a sua missão com a de “suas irmãs do claustro”. Entre a barrela, a panela e o seu último berço, tentou ela
compor “O salmo das novas mães”. Publicou-o um número das revistas do “Mariage chrétien” (Novembro de 1938).

Muito amor, muito frescor. Qualquer mãe se verá aí retratada.

Eis algumas passagens:

“Ó meu Deus, como nossas irmãs do claustro,

Nós deixamos tudo por Vós,

Não encarceramos dentro da alvura duma touca e sob um véu, a juventude do nosso rosto,

E, se acaso cortamos os cabelos, não foi em espírito de penitência...

Dignai-Vos, contudo, Senhor, lançar um olhar de complacência

Sobre os humildes e pequeninos sacrifícios

Que Vos oferecemos no longo decorrer do dia,

Desde que a nossa carne lamuriante deu a vida a todos estes cristãos pequeninos

Que para Vós educamos.

A nossa liberdade, ó meu Deus, está nas mãos desses tiranos que a toda a hora gritam por nós:

A casa torna-se o nosso claustro.

A nossa vida tem sua regra, imutável,

E cada dia o seu ofício, sempre o mesmo:

A hora das toilettes e dos passeios,

A hora dos biberões e as horas de aula.


Presas assim às mil pequeninas exigências da vida,

Desprendidas, à força, a todo o instante da nossa vontade própria,

Vivemos na obediência.

Nem sequer a nossa noite nos pertence.

Também nós temos o nosso ofício noturno,

Quando temos de nos levantar depressa, depressa, para um filho doente,

Ou quando, entre meia-noite e duas horas,

Em pleno sono, de que tanta necessidade temos,

Um chantrezinho intempestivo

Canta Matinas...

Vivemos quase retiradas do mundo:

Há tanto que fazer em casa.

Nada de saídas, aliás, sem que junto das crianças fique postada uma guarda fiel.

E medimos parcimoniosamente o tempo das visitas.

Não temos, ó meu Deus, irmãs conversas.

E quando em casa a crise do serviço nos afoga,

Temos de varrer, de lavar a louça, de raspar as cenouras para a panela, fazer um purê bem polidinho e
desembaraçar-nos sem demora,

Entre o quarto das crianças e a cozinha.

Fazemos grandes barrelas, esfregamos e lavamos

Aventais e camisas, meias e camisolas,

E a roupa das crianças.

Por este caminho de sacrifício, ah! Vinde em nosso auxílio, Jesus!

(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição,
Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2010/12/o-salmo-das-novas-maes.html

Diante do espelho
DIANTE DO ESPELHO

Uma senhora sensata escreveu o seguinte:

"Muitas vezes tenho feito este raciocínio: gastar alguém três ou quatro horas a toucar-se, ou gastar só meia hora,
que diferença poderá haver no fim do dia, se não é a diferença do tempo perdido? De ordinário nem fica melhor
toucada, nem mais bela, nem mais estimada. Se é para atrair olhares indiferentes ou maliciosos, para ser aplaudida
quando a toucagem saiu bem, que mesquinho resultado! E, quando à noite volta a casa, toca a tirar todos esses
aprestos, despir a indumentária, descalçar os sapatos, buscar de novo a própria estatura, numa palavra, adaptar de
novo a sua postura normal, mesmo que seja desajeitada ou desengraçada".

"A mulher de boa fé há de concordar que três quartos dos seus gastos de tempo e de dinheiro foram perdidos; com
atavios menos rebuscados teria sido tão bem ou melhor sucedida; ninguém se pôs a examinar as minúncias dos seus
enfeites, ninguém reparou neles senão talvez para se rir. É verificação que pode parecer amarga, pensar que tantos
esforços não tiveram outro resultado senão torná-la ridícula".

Afinal o que é que ela busca, desperdiçando tantas horas com a sua toucagem?

Agradar.

Sem dúvida. Mas a quem?

Às outras mulheres? "Não o conseguirá, pelo contrário, provocará os seus sarcasmos ou ciúmes, far-se-á criticar a
mais não pode ser".

Aos outros homens? "E para quê, se não é com um fim inconfessável?"

Ao marido? "Pode consegui-lo sem gastar todo essse tempo precioso". E o marido que se compraz na beleza da
esposa, deve também, se não é tolo, desejar que essa beleza se consiga com a maior economia possível - economia
de dinheiro, economia de tempo.

Se se empenha em que a esposa vista com gosto, o marido sensato não se empenha em que ela seja frívola.
Lamentará que a sua casa não ande mais bem arranjada, que a esposa não seja mais solícita em cultivar o espírito,
em se aformosar o intelectual ou espiritualmente, em se ocupar dos filhos, em lhes fazer recitar as lições, em lhes
ensinar o catecismo. E é possível, quanto há tantas coisas que fazer, tão úteis e tão urgentes, gastar miseravelmente
o tempo em vaidades ridículas?

O necessário. Não mais do que o necessário. Na medida do necessário. Essa é a regra.

Que personagem lendária que se vê a um espelho e que recua apavorada ao descobrir, não uma silhueta viva, mas
uma figura cadavérica de carne carcomida e esverdeada? - O que ela há-de ser a poucos anos.

Isso lê-se, mas ninguém aprende; ou então acham que é mau gosto: "Ora vejam lá! Fazer-nos agora pensar na
morte! A todo o tempo é ocasião de pensar na derradeira toilette. Assuntos tristes deixemo-los para amanhã!" E
retiram-se a gracejar.

Consentir que o espelho me mostre o que um dia hei-de ser.

(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição,
Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

PS: Grifos meus.

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2010/12/diante-do-espelho.html

A arte de estragar as crianças


A ARTE DE ESTRAGAR AS CRIANÇAS

Há dois grandes meios: o mau exemplo e os mimos.

1º- O mau exemplo. Todos os homens se imitam entre si. As crianças mais do que ninguém estão expostas a
macaquear os grandes, e, antes de quaisquer outros, os da sua imediata convivência, sobretudo os pais, que lhes
aparecem como seres privilegiados em que nada há de condenável.

A mãe é arrebicada? A filha será vaidosa. Falará, agirá, adornar-se-á, não por ideal de beleza conforme com a sua
condição, com a sua posição, mas para que dela se tenha uma opinião levantada, há-de passar adiante de todas as
suas companheiras, das amigas, pelo corte ou pela singularidade dos seus vestidos, ligará uma importância
considerável, exagerada, a ínfimos pormenores do trajar, despertará crises de terrível ciúme quando se julgar
desbancada.

O pai é orgulhoso? Procura acaso encarecer as suas qualidades, rebaixar as dos outros, ou não as querer
reconhecer? O rapaz há-de ser presunçoso, desdenhoso, gabarola, pretensioso, arrogante, obstinado, dará mostras
de incompreensão com relação aos outros.
Os pais são faladores, questionadores, picantes nas suas palavras? Os filhos hão-de ser intemperados em palavras,
bulhentos, ciumentos.

Os pais são fingidos? Os filhos arriscam-se a tornarem-se mentirosos. Há indiscrições nas conversas, julgando-se a
torto e a direito as ações alheias? Os filhos, já inclinados a julgarem de tudo do alto da sua grandeza, farão
apreciações indiscretas, injustas, inoportunas.

Os pais manifestam gosto pelas comodidades, pela riqueza, ambição até de adquirirem por todos os meios? Os
filhos arriscam-se a fazerem-se egoístas, apegados ao bem-estar, e se a ocasião se proporcionar, a serem
fraudadores.

2º- Mimos. – Certos pais são demasiados duros, não animam. Outros – é o maior número – são bonacheirões,
lisonjeiam os filhos, condescendem com todos os seus caprichos.

Amimar os filhos não é querer-lhes bem, não é amá-los por eles mesmos. É antes um retorno dos pais sobre si
mesmos. Buscam-se a si nos filhos. Assim não poderão dar firmeza à educação, nem castigar quando for necessário,
nem prevenir extravagâncias, nem fazerem-se obedecer. Deixarão de censurar qualquer fantasia.

Mas se não somos bondosos, a criança foge-nos; nas horas difíceis deixará de desabafar, ficaremos privados das suas
confidências. Se, pelo contrário, multiplicarmos as nossas atenções, será sempre franca e teremos mãe nela.

Não se trata de faltar à bondade, trata-se de não ser fraco. Se dois criteriosos firmes, longe de perderdes a confiança
dos vossos filhos, mais confiança terão eles ainda, porque sois prudentemente fortes. Se eles vêem que nas provas
de afeição que lhes dais não vos buscais a vós mesmos, mas unicamente o bem deles, compreenderão que nas
vossas atitudes de severidade não há vestígios de capricho, mas só o interesse deles. É precisamente isso que os
educa, esse contato com uma alma forte e desprendida.

(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição,
Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

PS: Mantenho os grifos do autor.

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2010/12/arte-de-estragar-as-criancas.html

Um pai que não reza


UM PAI QUE NÃO REZA

Ao pé do leito, Pedrinho (quatro anos e meio) faz a sua oração que parece bem comprida.

- Então não acabaste ainda a oração? - pergunta a senhora.

- Já - responde a criança embaraçada.

- Mas então que estás aí a fazer?

A criança cora e murmura timidamente:

- É que eu faço duas cada noite: a minha e a do Papai; ouvi-o dizer à mamãe que não estava disposto para rezas;
faço-a eu por ele.

Precocidade? Sim. E as crianças não têm perspicácias destas que nos desnorteiam?

Ah! esses pais que julgam poder ser incoerentes diante dos filhos! Como eles ignoram as exigências desses
cerebrozinhos, desses corações infantis!

E como sabem também os filhos aproveitar-se do que se diz diante deles!

Uma protestante convertida ao catolicismo, Lady Baker, conta no seu livro La Maison de Lumière, como criança
ainda, - tinha onze anos aproximadamente, e, claro esta, pertencia como seus pais a Religião Reformada - lhe
acontecera surpreender uma conversa entre seu pai e sua mãe. Dizia o pai: "Ouvi hoje um bom sermão;
demonstrava-se que as Reformas fora um erro e que a Inglaterra teria passado muito bem sem ela."
"Psiu! interrompe a mãe escandalizada, cuidado que as crianças podem ouvir!".

"Retiraram-se da sala de estudos, escreve Lady Baker, e não ouvimos mais nada. Mas comecei logo a maturar sobre
essas estranhas palavras". Nessa mesma tarde, em passeio, pedia ela à criada para entrar numa igreja católica. A
partir dessa data germinara nela o desejo de estudar as origens da peseudo-Reforma, e, no caso em que seu pai
tivesse dito a verdade, de mudar mais tarde de religião.

Graças a Deus, não perdi o hábito da oração. Mas talvez, por qualquer pretexto, eu não mostre bastante a meus
filhos que oro. São efetivamente duas coisas distintas: orar e deixar perceber aos filhos que se ora. Não me basta,
pois, orar só para mim. O meu dever de chefe de família é orar em nome da família, diante da família e com a
família. É necessário que os meus filhos saibam que o seu pai honra a Deus, e aprendam, a exemplo seu, o grande
dever da adoração e do culto. A oração, e da noite pelo menos, deve ser feita em comum.

Em muitos lares onde no fim do dia todos se reúnem para honrar a Deus, é a mãe quem preside à oração, o que mais
tarde fará cada filho, por ordem. Melhor seria que fosse o pai. É uma função que lhe pertence, uma função em certo
modo sacerdotal, falando num sentido lato...

(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição,
Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

PS: Mantenho os grifos do autor.

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2010/12/um-pai-que-nao-reza.html

Testamento do chefe de família


Testamento do chefe de família

O célebre industrial do Val-des-Bois, Léon Harmel, cristão excelente a quem os operários chamavam: "O bom pai", e
que sempre procurava uma perfeita união com os seus operários quis, antes de morrer, deixar aos filhos o
testamento seguinte:

"Meus bons filhos, quando lerdes estas linhas já eu não serei vivo. Já a morte terá comparecido diante do supremo
juiz. Que Ele se digne continuar a prodigalizar-me nesse momento terrível a misericordiosa bondade que me
dispensou em todos os instantes da minha vida.

Não vos deixo órfãos; encarrego-vos à melhor e à mais poderosa das mães. Todos sois filhos de Maria, lembrai-vos
disso. Foi o primeiro nome que recebestes todos no batismo. Quisemos assim consagrar-vos a essa Mãe por
excelência. Não vos abandonará se A invocardes sempre. Amai-A; por meio dEla amareis a Jesus. Toda a lei se
resume numa só palavra: amor! Amai-vos uns aos outros; seja a caridade a vossa regra absoluta! Dai, e Deus vos
restituirá, mesmo neste mundo. A caridade não arruína ninguém, e não vos contenteis com dar dinheiro, dai-vos a
vós mesmos.

Evitai o luxo. Além de arruinar as famílias, o luxo seca a alma. Suportai pacientemente os contratempos, as injúrias;
são outras tantas pérolas que o bom Mestre vos envia.

Procurem os meus filhos religiosos ser melhores, porque, no caminho de Deus, ou avançamos ou recuamos. Não
podemos estacionar. Mas os que vivem no mundo, não se julguem dispensados de coisa alguma. Também para eles
há um céu a ganhar e um inferno a evitar. O caminho do céu é estreito e áspero. É mais difícil para eles do que para
os religiosos.

Organizai para vós alguns regulamentos de vida simples, não muito carregado, mas procurando a sério ser-lhe fiéis.
Meditai todos os dias, nem que seja pelo espaço de um quarto de hora apenas. Será o tempo mais bem empregado
do dia. Santa Teresa diz que se responsabiliza pela salvação de quem medita todos os dias. Finalmente, mortificai-
vos, imponde-vos alguns sacrifícios de vez em quando. Tendes tanto que pagar e a vida é tão curta!

Não me esqueçais depois da morte; não esqueçais a vossa mãe quando ela vier juntar-se a mim. Diante de Deus
lembrai-vos algumas vezes daqueles que tanto vos amaram na terra e continuarão a amar-vos no céu..."
(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição,
Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/01/testamento-do-chefe-de-familia.html

Oração de Madame Elizabeth


(irmã do Rei Luis XVI)

Oração de abandono à confiança absoluta em Deus

O que vai acontecer comigo hoje, ó meu Deus?

Eu não sei. O que sei é que nada vai acontecer que não o tenhais previsto desde toda a eternidade.

Isto me basta, ó meu Deus, para ficar tranquila.


Adoro Vossos eternos e impenetráveis juízos e de todo meu coração a eles me submeto por Vosso amor. Eu quero
tudo, eu aceito tudo, de tudo eu Vos faço um sacrifício; e uno este meu sacrifício ao de Vosso amado Filho, meu
Salvador, pendindo-Vos, pelo Seu Sagrado Coração e pelos Seus infinitos merecimentos, a paciência em minhas
penas e a perfeita submissão que Vos é devida, para tudo que Vos quiserdes e permitirdes.

(MEDITAÇOES PARA RELIGIOSAS – Pe. Raul Plus, SJ – Edição da União Gráfica, Lisboa, Portugal – 1ª. edição, 1946, p.
57).

Relíquias da Santa Cruz


“O Calvário é o lugar mais perto do Céu”

- Santa Madalena Sofia Barat –

Um dia em que Santa Gertrudes procurava com ardor obter qualquer relíquia da Vera Cruz, a fim de a venerar e
atrair sobre si maior ternura da parte do Senhor, Ele lhe disse:

“Queres relíquias que atraiam irresistivelmente o meu coração para aquele que as possui? Esta bem! Lê a récita da
minha Paixão e atende bem as palavras que eu disse, com tanto amor… Escreve-as, conserva-as como relíquia, e
medita-as muitas vezes… Crê-me; as relíquias mais preciosas, que se podem possuir sobre a terra, são as minhas
palavras, que exprimem a profunda ternura do meu coração.”

N.B. : Meditemos nós também as palavras de Nosso Senhor, e teremos por certo as melhores e mais santas relíquias
em nosso coração.

(Meditações para religiosas – Pe. Raul Plus S.J. – Edição da União Gráfica – Lisboa, Portugal – Ia edição 1946, p. 139)

Nosso Senhor está lá…


Coragem, dizia Santa Tereza a suas filhas, coragem! Quando a obediência vos ocupar em coisas exteriores, não vos
aflijais; se for na cozinha, lembrai-vos de que Nosso Senhor está lá no meio das marmitas.

Que singular tema de contemplação e de reflexão: Jesus no meio das marmitas! Oh! Sim. Como no meio dos
espanadores, vassouras, etc…

Qualquer que seja o oficio a que me aplique, Jesus está lá. Assim, jamais desejar, por insensato orgulho, sair do meu
ofício, aspirar a posição mais vistosa…

(MEDITAÇOES PARA RELIGIOSAS – Raul Plus SJ – Edição da União Gráfica, Lisboa, Portugal – 1ª. edição, 1946, p. 323).

FANTASMAS DE RELIGIOSOS
São Francisco de Sales, falando de religiosos que não observam a sua regra, e não seguem senão de muito longe o
ideal da vida que abraçaram, tem esta expressão:
“São gente enclausurada, sem dúvida; mas de religiosas não tem nada.”

O Pe. Lallemant, falando dos jovens sacerdotes da Companhia de Jesus, usa de uma expressão análoga. Exortava-os
a não serem apenas “fantasmas de religiosos”: quer dizer, homens de batina, mas cuja alma não é totalmente de
Deus. Mais “sombras ambulantes” do que verdadeiros santos, que queriam traduzir na realidade de sua vida o ideal
de sua vocação.

Examinar-me seriamente: Eu sou alguém do mosteiro; o meu nome está sobre uma porta, ando pelos corredores,
vestido como os demais. Mas isto é o que se vê, o que aparece. Na realidade, que sou eu? Se neste mesmo
momento devesse comparecer ao tribunal de Deus, qual seria a minha sentença?

Pensar e corrigir-me. E, para ter a necessária coragem, intensificar a minha oração.

(MEDITAÇÕES PARA RELIGIOSOS — Raul Plus, S.J. — Edições da União Gráfica — Lisboa, Portugal — 1a edição, 1946,
p. 390)

Quem são os maiores inimigos do Cristianismo?


"Já meditei ontem em que é que ele consistia e compreendi bem a sua nocividade.

Um motivo ainda − e dos mais graves − desta nocividade é que o espírito do Mundo insinua-se sem se dar por isso.
Não são falhas de verdade estas palavras de quem prudentemente observou a invasão de costumes mundanos em
pessoas que se julgam cristãs.'A maior parte das pessoas piedosas não julgam o espírito do Mundo tão mau como ele
é; não compreendem a sua universalidade, a sua sutileza, o seu poder de infiltração em quantidade bastante para
despojar do seu mérito o bem que fazemos, a sua particular habilidade em dominar as pessoas que se julgam
inacessíveis ao seu alcance'. O grande mal do Mundo está nos homens se persuadirem que ele não é tão mau como
o pintam... Esta persuasão é que é o seu triunfo. Quem o não julga perigoso é já sua vítima. Quando Pregadores ou
Moralistas creem oportuno desmascarar os perigos da mundanidade, levantam-se geralmente os mundanos a
protestar contra tal exagero: 'Invenções quiméricas de gente aborrecida, julgam eles. Que inconveniente haverá em
eu ter na igreja um genuflexório chique de pelúcia ou de veludo, em trabalhar para os pobres em... cortar um pouco a
casaca ao vizinho, em seguir a Moda, em não me privar de nenhum prazer legítimo, em querer estar ao corrente do
último romance, da última película, da última peça de teatro... Se se vai a cortar por tudo, acabaremos por já não
poder viver'.

Muito bem! É exatamente assim. E tal é de fato o espírito do Mundo. Nenhum perigo? De fato; menos precisamente
o de o espírito do Evangelho se tornar antipático. E é pouco? E com tais ideias como é que se vão formar os filhos
para austeridades generosas, para o ideal do apostolado? Como constituir um lar perfeitamente cristão? O grande
mal de muitos cristãos não é o pecado − ao menos falando em geral − mas o entibiamento do espírito de Jesus
Cristo, a arte de esquecer a Cruz, o desejo, implícito pelo menos, de não se imporem nenhuma mortificação, de
darem a parte menos avantajada às realidades invisíveis.

Quanto menos exigentes nos mostramos em matéria de espírito cristão e de vida cristã, menos cristãos nos
tornamos, e insensivelmente chegaremos a uma extenuação quase completa da nossa religiosidade. Fica ainda a
moldura, fica a rotina, fica a fachada. E nada mais. A Religião foi esvaziada da sua substância, o Evangelho foi
dulcificado, as Bem-aventuranças esquecidas.

E ao que fica pode-se ainda chamar Cristianismo? Não é esse o grande escândalo? Por que é que os incrédulos não
abraçam em massa a Fé de Jesus Cristo? É tão belo o Evangelho; todos deviam ser atraídos para ele! Ai! Entre o
Evangelho e os olhos dos incrédulos há essas silhuetas sem graças de cristãos de descorado Cristianismo. É atraente
uma tal Religião? Ah! Não, mil vezes não! Se foi uma doutrina e uma prática como essa a que Cristo nos veio trazer,
muito obrigado, não me satisfaz! Assim raciocinam os que não compartilham a nossa Fé. Os maiores inimigos do
Cristianismo são os maus cristãos.

Que espécie de cristão sou eu? Que impressão devo produzir no meio em que vivo? Que pensam de mim os que me
rodeiam, no meu lar, na oficina, no armazém, na fábrica? Discípulo de Cristo? Ou quê?
Com Deus não se brinca, diz a Sagrada Escritura. E vamos julgar agora que Deus se contenta com um Cristianismo só
de fachada? Não, mil vezes não. Os verdadeiros fiéis são os fiéis em espírito e verdade. Ocultar-se, quem não é
cristão, sob as aparências de uma vida pseudo-cristã, isso pode enganar os homens: Deus não se engana.

Com que é que se parece o meu Cristianismo? Vida, ou, simples fachada? Rótulo, ou, verdadeira alma? Convenção,
ou, crença sincera, coerente, integral, da qual não resultam só atitudes postiças, mas uma prática perseverante,
substanciosa, que vivifique a existência toda, dinâmica, avassaladora? Meu Deus, a vossa Religião é vida. Fazei que
eu viva!”

(R. Pe. Raul Plus, S.J., "Cristo no Lar", Liv. II, c, p. 207)

De "Reminiscências sobre a Modéstia no vestir", p. 9-10.

Fonte: http://intendevociorationismea.blogspot.com.br/2012/12/quem-sao-os-maiores-inimigos-do.html.

Fonte:

http://campograndecatolica.blogspot.com.br

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