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Pe.

Rohrbacher

São Raimundo Nonato o pregador da Cruzada com a boca encadeada


“São Raimundo Nonato veio à luz em Portel, diocese de Urgel, na Espanha, cerca do ano de 1200, e recebeu no
batismo o nome de Raimundo.

“Nonato, non natus, foi o apelido que lhe deram porque a mãe sofreu operação cesariana e por isso seu nascimento
não foi normal.

“Quanto ao pai, era pastor, segundo uns, segundo outros seria membro da família Cardona, uma das mais
conhecidas na Espanha.

“Desde muito jovem, Raimundo manifestou especial devoção à Santíssima Virgem.

“Todos os dias rezava o Rosário ante sua imagem na ermida de São Nicolau de Mira. Um dia Nossa Senhora
apareceu-lhe, prometendo-lhe especial proteção.

“Certa vez em que fortemente tentado, conseguiu afastar o demônio, foi agradecer à divina libertadora e em sua
honra consagrou a virgindade.

“Maria testemunhou-lhe grande satisfação e o aconselhou a entrar na Ordem da Redenção dos Cativos, cuja
fundação tinha inspirado, havia pouco, a São Pedro Nolasco. Raimundo obedeceu.

“Recebida a ordenação sacerdotal, consagrou-se, até 1231, ao resgate dos cativos. Libertou 140 em Valença, 250 em
Argel e 28 em Tunis.

“Foi nessa cidade que teve ocasião de cumprir o voto especial em virtude do qual os mercedários se obrigavam a
entregar-se e a oferecer a vida, se fosse necessário, para resgatar os cristãos prisioneiros dos infiéis.

“Não tendo em seu poder a soma exigida pelos mercadores de escravos de Tunis, Raimundo ofereceu-se para os
substituir.

“O cativeiro foi extremamente árduo. A fim de impedi-lo que falasse de Cristo aos carcereiros, fechavam-lhe a boca
com um cadeado de ferro, que lhe perfurava os lábios, e só era aberto por ocasião das refeições.

“Depois de oito meses de tão cruel tratamento, acudiram da Espanha alguns mercedários com a importância
necessária para o resgatar.

“Os últimos dez anos de sua vida passaram-se ora em Roma, onde foi procurador de sua Ordem, ora em diferentes
países onde o levavam as funções de pregador de Cruzada.

“Foi assim que se deslocou até a França, encarregado por Gregório IX de insistir com São Luís para que partisse para
a Terra Santa.

“Essa expedição, como se sabe, só se efetuou dez anos depois.

“Entretanto, Raimundo morreria no castelo de Cardona no dia 31 de agosto de 1240, tendo adoentado voltando de
uma viagem a Roma. Tinha apenas 37 anos de idade”.
Lemos estes dados na obra monumental Histoire Universel de l'Eglise Catholique, (ed. Guillaume XII, Paris, 1885), do
grande hagiógrafo Pe. Réné François Rohrbacher (1789 – 1856).

Santa Joana Francisca de Chantal: fundadora da Ordem da Visitação, mosteiro de


estrita clausura

Author : Padre Rohrbacher

Li este texto no site dos Arautos do Evangelho(http://www.arautos.org.br/view/show/7083-santa-joana-francisca-


de-chantal ) e fiquei encantada com a profundidade da espiritualidade dessa Santa e a determinação com que ela
fundou a ordem da Visitação, um mosteiro de estrita clausura, bastante austero. A propósito, foi num mosteiro
dessa Ordem que a irmã de Santa Teresinha , Leônia, professa os votos perpétuos… É incrível a santidade dessa
família ( de Santa Teresinha), a filha que era conhecida por dá muito trabalho aos pais e de caráter difícil, terminou
num convento de clausura e tão austero quanto o Carmelo!

É … Deus tem seus mistérios… Não é por acaso que dessa família abençoada saísse tantas ou melhor , todas almas
santas. Acredito que Deus nos quer dizer algo… Devemos ficar atentos aos Seus apelos.

SANTA JOANA DE CHANTAL

No ano de 1604, a pedido do parlamento de Borgonha, São Francisco de Sales pregava a quaresma em Dijon

No ano de 1604, a pedido do parlamento de Borgonha, São Francisco de Sales pregava a quaresma em Dijon. No
auditório estava seu amigo, o arcebispo de Bourges; ele notou, ainda, uma senhora que lhe tinha já sido mostrada
numa visão, como devendo ajudá-lo na instalação de uma obra santa. Ao sair do púlpito, ele perguntou ao arcebispo
se conhecia aquela pessoa. O amigo respondeu: É minha irmã, a baronesa de Chantal. Efetivamente era ela.

Era filha de Benigno Frémiot, presidente do parlamento de Borgonha e de Margarida de Berbizy. Sua irmã,
Margarida, esposa do conde de Effran; seu irmão, André, foi arcebispo de Bourges. Nasceu em Dijon a 28 de janeiro
de 1572. Recebeu o nome de Joana no batismo e a ele acrescentou o de Francisca, na confirmação. Seu pai,
enviuvando muito cedo, teve grande cuidado em sua educação: ninguém correspondeu melhor que Joana a tal
cuidado; também o pai teve por ela uma ternura particular.

Um herege permitiu-se diante dela falar contra a Santa Eucaristia; Joana, que tinha então somente cinco anos,
censurou-o asperamente. Mais tarde recusou desposar um fidalgo muito rico, unicamente porque era calvinista.
Quando chegou aos vinte anos, seu pai casou-a com o barão de Chantal, o mais velho da família de Rabutin. Era um
oficial de vinte e sete anos, que servia com distinção e que Henrique IV honrava com seu favor. Pouco depois do
casamento, levou a esposa ao castelo de Bourbilly, onde tinha sua residência ordinária e confiou-lhe o cuidado da
casa. A primeira ordem que ela deu foi dizer todos os dias a missa e de a ela fazer todos os domésticos assistir e
instruí-los com cuidado, ocupá-los com discrição e ajudá-los com caridade em suas necessidades. Ela pôs em seus
afazeres toda a ordem que exigia uma longa negligência, que antes se tivera.

Nas festas e nos domingos ouvia a missa na paróquia. Ocupava-se em fazer panos e pequenas alfaias para os altares
e em ler bons livros; mas a obra de piedade onde se mostrou mais atenta foi a caridade para com os pobres. Durante
a ausência do marido, obrigado a passar uma parte do ano na guerra ou na corte, não saía de casa; não se falava
então nem de jogos, nem de prazeres, nem conversas. Quando ele voltava, a alegria de o rever, o amor que tinha
por ele, a vontade de lhe falar e de se regozijar, atraíam outras pessoas à sua casa; tudo isso lhe fazia diminuir
insensivelmente as práticas de devoção, que tomava, na primeira ausência; enfim, no ano de 1601, seu marido foi à
corte, e ela resolveu firmemente jamais se dispensar de seus exercícios de piedade.

O barão de Chantal caiu doente em Paris e fez-se levar ao castelo aonde chegou nas últimas. A virtuosa esposa
passava os dias à cabeceira de seu leito, e as noites, na capela. Mas ele se restabeleceu milagrosamente e a alegria
foi perfeita. Um parente e amigo da vizinhança veio visitá-los, nessa ocasião, e propôs uma caçada ao barão; para lhe
ser agradável ele aceitou e vestiu um hábito marron. Seu amigo, vendo-o através de alguns arbustos, tomou-o por
um animal, disparou a arma e o feriu na coxa. – Estou morto! Gritou o barão, caindo; meu amigo, meu primo,
disparaste imprudentemente e eu te perdôo de todo o meu coração! Depois mandou quatro criados a quatro
paróquias diferentes para ter mais certamente um padre. Entretanto, levaram-no a uma casa da aldeia mais
próxima, onde sua mulher veio, embora tivesse dado à luz há quinze dias. Quando a viu disse: Senhora, o decreto do
céu é justo; devemos amar e morrer! – Não, senhor, devemos viver! – Ah, senhora, replicou ele, respeitemos a
ordem da Providência! – Depois, com espírito tranqüilo, perguntou se o padre tinha chegado; e tendo sabido que
havia um, mandou-o vir ao quarto e confessou-se. Um momento depois, vendo de longe aquele que o tinha ferido,
que lhe parecia desesperado, exclamou: Meu primo, meu amigo, esse golpe me veio do céu; antes de partir deste
mundo, eu te rogo, não peques e roga a Deus por mim.

Morreu nove dias depois, tendo recebido todos os sacramentos, com singular piedade; rogou à esposa, ordenou ao
filho, que jamais pensassem em vingar-lhe a morte e disse-lhes que ele perdoava de novo àquele que o tinha
matado, sem pensar, e fez escrever esse perdão nos registros da paróquia, com a ordem que dava à família, de
conter os ressentimentos. Um momento depois, expirou nos braços da esposa, cuja desolação foi inenarrável.

Ficando viúva aos vinte e oito anos, com um filho e três filhas, sentiu ela a desgraça. Mas bem depressa conheceu os
desígnios de Deus sobre si e correspondeu-lhes com tanta fidelidade, que, em suas maiores amarguras dizia não
poder compreender como se podia estar tão contente e sofrer tanto, Nesse estado de dor e de alegria fez a Deus o
sacrifício de si mesma, pelo voto de castidade e por uma resignação tão perfeita às ordens do céu, que não viveu
mais vida humana; e para marcar publicamente o perdão que tinha concedido àquele que lhe matara o marido, quis
ser madrinha de um de seus filhos. Viveu depois, para o futuro, segundo as regras de São Paulo e os padres traçaram
para a santificação das viúvas. Passava uma parte das noites em oração, aumentou as esmolas, distribuiu aos pobres
as roupas preciosas, fez voto de usar somente vestes de lã. Despediu a maior parte dos criados, depois de os ter
recompensado liberalmente. Seus jejuns eram freqüentes e rigorosos. Retirada do mundo, dividia o tempo entre a
oração, o trabalho e a educação dos filhos, Faltava-lhe um diretor que a pudesse levar pelas vias em que devia
caminhar. Não deixava de o pedir a Deus com muitas lágrimas. Um dia, durante o fervor de sua oração, ela viu um
homem de batina preta com um roquete e uma murça.

Passado o ano de luto, dirigiu-se à casa do pai, em Dijon. Aí continuou o mesmo gênero de vida e não quis receber
visita de algumas senhoras virtuosas e idosas. No ano seguinte, os negócios da família obrigaram-na a se retirar com
seus filhos junto do velho barão de Chantal, seu sogro, em Montelon, diocese de Autun. Teve que sofrer muito por
causa do mau humor do velho, bem como de uma governante que o dominava, e que tinha adquirido tal ascendente
sobre seu espírito, que toda a casa era forçada a lhe obedecer. A jovem baronesa suportou a provação com
paciência: jamais a ouviram lamentar-se, não dava nem mesmo o menor sinal de descontentamento. Prestava-se
com o maior prazer a tudo o que era agradável ao sogro e à governante. Consagrava à piedade a maior parte do
tempo e dirigia-se, aos domingos, a Autun, para assistir às instruções dos pregadores.

Em 1604, foi a Dijon, à casa do pai, para ouvir São Francisco de Sales pregar. Desde a primeira vez que o viu no
púlpito, julgou reconhecer nele o homem que lhe tinha sido mostrado na oração, como seu pai espiritual. Convidou-
o muitas vezes a ir à casa de seu pai; e não ficava menos maravilhada com sua conversação familiar do que com seus
sermões. Desejava ardentemente abrir-lhe a alma; o santo prelado inspirava-lhe toda confiança, mas ela não o
ousava, porque um religioso que a dirigia lhe tinha feito prometer, por voto, reservar a ele unicamente a sua direção
espiritual. De outro lado, os discursos do bispo de Genebra tocavam-na vivamente; conformava-se com seus
conselhos mesmo nas coisas mínimas; e sua docilidade era sempre seguida de extraordinárias consolações.

Finalmente, revelou-lhe a causa de sua perplexidade; ficou determinado que o voto que a tinham feito fazer era
indiscreto e que ela podia ser dispensada. Então, confessou-se com o santo bispo de Genebra e fez-lhe uma
confissão geral de toda a vida. Mas, logo a paz de alma foi perturbada por desolações interiores; teve inquietações
alarmantes sobre seu proceder. Francisco de Sales disse-lhe que aproveitasse aquela provação, de sorte que a luz
tomou o lugar das trevas e a calma sucedeu à tempestade. Disse-lhe, ainda, que regulasse de tal modo seus
exercícios de piedade, que seu exterior parecesse depender da vontade dos outros, sobretudo quando estava em
casa do pai ou do sogro. Seu proceder reunia o costume de dizer: A Senhora reza em todas as horas do dia, mas isso
não incomoda a ninguém.
Levantava-se às cinco horas, vestia-se sozinha e sem aquecimento, em toda a estação e fazia uma hora de oração
mental. Depois, fazia levantarem-se os filhos, bem como os domésticos; cumpriam os exercícios da manhã e iam dar
bom dia ao sogro; levava-o à missa, por voto, feito à Santa Virgem. Lia, depois do almoço todos os dias, por meia
hora, a Escritura Sagrada; dava lições de catecismo a seus filhos, aos empregados e aos da aldeia que queriam
também instruir-se. Antes da ceia, fazia um pequeno retiro espiritual de um quarto de hora e dizia o terço. À noite,
retirava-se às nove horas e fazia o exame de consciência e a oração, com os filhos e os criados; dava a todos água
benta e a benção e ficava ainda uma meia hora rezando sozinha; por fim terminava o dia, com a leitura da meditação
para o dia seguinte.

Tinha adquirido um hábito tão grande da presença de Deus, que nada a afastava dele e conservava-se sempre
tranqüila na diversidade das criaturas e dos fatos Depois de ter regulado o interior, pensou em reformar o que lhe
parecia ainda muito vão em sua pessoa. Cortou o cabelo; vestia-se somente de um pano fino e unido. Tinha grande
cuidado de mortificar o gosto e fazia de modo que as iguarias que deixava no prato fosse dadas aos pobres. Jejuava
todas as sextas-feiras, usava cilício nos outros idas e muitas vezes disciplinava-se; adquiriu pela prática dessa vida
santa, tão grande ascendente sobre suas paixões que não parecia mais uma criatura mortal.

Todos os domingos e festas ia aos lugares da paróquia onde sabia que havia doentes; arrumava-lhes a cama e nada
lhes deixava faltar de alimento nem de remédios.

Tinha sempre em casa um pobre, coberto de feridas, que ela cuidava muitas vezes, de joelhos, com respeito,
considerando com fé viva a Jesus Cristo, na sua pessoa. Velava em seus extremos, assistia-lhes à morte e os
sepultava, ela mesma, com uma coragem que causava pasmo a todos os que não eram animados de uma perfeita
caridade.

Em 1606 ela foi obrigada, pelo interesse de seus filhos, a fazer uma viagem a Bourbilly. Mas seus negócios não lhe
impediram, pondo-lhes toda a ordem possível, de socorrer os enfermos de sua terra, que eram em tão grande
número, que sepultava muitas vezes quatro num dia, depois de os ter assistido em sua doença, com todo o cuidado,
ajudando-os com dinheiro, com orações e instruções. Mas, não podendo resistir a tantas fadigas, caiu doente com
disenteria que a levou aos extremos. Nesse estado, escreveu ao pai e ao sogro, para lhes pedir a benção e para lhes
recomendar os filhos. O presidente estava inconsolável, o barão de Chantal mesmo ficou muito aflito, pois, apesar
das penas que lhe tinha causado e dos maus tratos que tinha sofrido e recebido dele, ela era considerada como
santa que lhes trazia toda espécie de bênçãos. Depois que ficou curada, voltou a Montelon, onde foi recebida pelo
sogro e pelos filhos, com uma alegria proporcionada ao temor que tinham de a perder.

À medida que se desapegava das criaturas, o desejo de ser toda de Deus aumentava em sua alma. Mas como seu
santo diretor lhe tinha ordenado viver santamente em seu estado, sem pensar na vida religiosa, ela teve escrúpulo
de o ter desejado e escreveu ao santo bispo. Ele respondeu-lhe nestes termos:

Oh! Não, minha filha! Eu não vos tinha dito que não tivésseis nenhuma esperança de ser religiosa, mas, que com isso
não vos preocupásseis, nada havendo que nos impeça tanto de nos aperfeiçoarmos em nosso estado do que aspirar
a outro, Os filhos de Israel não puderam cantar em Babilônia, porque pensavam em seu país; mas eu quisera que
cantássemos por toda parte. Eu vejo vosso desejo de ser religiosa. Oh! Doce Jesus! Que vos direi, minha mui querida
filha? Sua bondade sabe que eu muitas vezes implorei sua graça no santo sacrifício; não somente isso, mas
empreguei a devoção e as orações de outros melhores que eu. E que vim a saber, minha filha! Que um dia deveis
deixar tudo, mas que seja para entrar na religião, não me aconteceu ainda ser dessa opinião; o sim não se deteve
ainda no meu coração e o não aí se encontra com muita firmeza, mas dai-me um pouco a ocasião para rezar e fazer
rezar.

No dia de Pentecostes, quando tinha vindo a Annecym para tratar com ele de sua vocação, o santo prelado, para
experimentar sua submissão propôs-lhe ser religiosa de Santa Clara, depois irmã do Hospital de Beaune e depois
Carmelita. Ela consentia a cada proposta com uma docilidade que o santo bispo admirou; por fim, deu-lhe conta do
projeto que tinha de fundar uma nova Congregação sob o nome da Visitação de Santa Maria. Ela ficou radiante de
alegria a essa notícia e sentiu uma atração de Deus, tão poderosa para esse empreendimento que não duvidou de
que era essa a vontade de Deus. Previam ambos grandes obstáculos a esse intento; o pai, o sogro e os filhos da santa
viúva, uns mais velhos, outros muito jovens; como deixar tudo isso para se estabelecer fora do reino? O santo Bispo
dizia: Vejo um caos em tudo isso, mas a Providência saberá deslindar tudo, quando chegar o tempo. E isso não
tardou. A principal dificuldade era a educação das crianças, para o que parecia necessário que a mãe ficasse no
mundo. O santo fez ver que lhe seria possível velar por eles num claustro e que ela o faria mesmo de maneira mais
útil para elas. Essa dificuldade dói superada e seu pai e seu sogro consentiram que ela se retirasse, não sem
derramar muitas lágrimas. Como ela tinha o coração muito sensível teve rudes combates a sustentar: mas o amor
divino elevou-a acima dos sentimentos da natureza. Seus outros parentes e amigos deixaram ao mesmo tempo de se
opor à sua resolução.

Antes de deixar o mundo a baronesa de Chantal casou a mais velha de suas filhas com o barão de Thorens, sobrinho
do bispo de Genebra e esse casamento teve a aprovação das suas duas filhas. Uma morreu pouco tempo depois, a
outra desposou o conde de Toulonjon, que unia ao nascimento, muita sabedoria e virtude. A mãe mesma tinha
recusado um partido importante de Bourgogne e para selar com o sangue sua promessa que ela renovou de ser de
Deus unicamente, ela tinha gravado em seu coração o nome de Jesus. Quanto ao jovem barão de Chantal, então
com quinze anos de idade, o presidente Fremiot, seu avô, encarregou-se de terminar sua educação e a
administração de seus bens, foi confiada a tutores inteligentes e de reconhecida probidade. Assim a presença da
mãe não lhes era mais necessária.

O dia da partida chegou e a santa viúva despediu-se do barão de Chantal, seu sogro, pôs-se de joelhos, pediu-lhe
perdão, se lhe tivesse desagradado em alguma coisa e rogou-lhe que lhe desse sua benção e recomendou-lhe ainda
o filho, O bom velho, com oitenta e seis anos, parecia inconsolável, abraçou ternamente a nora e desejou-lhe toda
sorte de felicidade. Os habitantes da terra de Montelon, sobretudo os pobres, julgando tudo perder, perdendo-a,
demonstraram-lhe a dor com lágrimas e gritos. Em Dijon ela fortificou-se com a santa Comunhão, contra a fraqueza,
que previa na separação de tudo o que tinha de mais caro. Enfim, chegou também aquele momento, e ela disse a
deus aos parentes, com firmeza; depois, atirando-se aos pés do pai, suplicou-lhe que a abençoasse e tivesse cuidado
do filho que ela lhe deixava. O presidente sentiu o coração partido; parecia-lhe morrer de dor; banhado em lágrimas,
abraçou a filha e disse: Oh! Meu Deus! Não posso desdizer o que ordenastes, cortar-me à vida; no entanto, Senhor,
eu vo-la ofereço, essa querida filha, recebei-a e consolai-me! Depois abençoou-a e a ergueu. O jovem Chantal, seu
filho, de quinze anos, correu para ela, atirou-se-lhe aos braços e não a queria deixar, esperando enternecer-lhe o
coração e detê-la com tudo o que de comovente lhe poderia dizer. Não conseguindo o que desejava, deitou-se no
=limiar da porta, por onde ela devia sair e disse-lhe: Sou muito fraco, Senhora, para vos deter, mas pelo menos dirão
que passastes por cima do corpo de vosso filho único para o abandonar! A santa viúva ficou comovida e chorou
amargamente, passando por cima do corpo daquela querida criança, mas, um momento depois, tendo receio de que
se lhe atribuísse i pesar arrependimento de sua decisão, ela voltou-se e disse-lhes com rosto sereno: Perdoai-me a
fraqueza, deixo meu pai e meu filho para sempre; mas encontrarei Deus por toda a parte.

A 6 de Junho de 1610, dia de São Cláudio, que era da Santíssima Trindade, a senhora de Chantal, com a senhorita
Jaqueline Fabre, filha do presidente da Sabóia e a senhorita de Bréchard, sob a direção do santo bispo de Genebra,
começou em Annecy, a fundação da ordem da Visitação, tão útil ao povo porque aí se recebem as viúvas e os
enfermos e tão honrosa para a Igreja pelo fervor com o qual se mantém a regularidade com que essas santas filhas
edificam ainda hoje todo o mundo, dez outras mulheres vieram logo aumentar a comunidade nascente. O santo
bispo pensava fazer apenas uma simples congregação, onde não se fosse obrigado à clausura, a não ser durante o
ano de noviciado, depois do que se podia sair para o serviço dos enfermos. Mas o cardeal de Marquemont,
arcebispo de Lião, tinha estabelecido uma de suas casas em sua cidade e escreveu ao santo bispo de Genebra e à
mãe de Chantal, para lhes propor erigir o instituto em título de religião por clausura e fazerem as jovens os votos
solenes.

Sua grande humildade fê-las rejeitar tudo isso, a princípio; mas depois de instantes preces a Deus, para que as
iluminasse, consentiram-no e o santo prelado escreveu à madre Favre, superiora da comunidade de Lião: Se S. Excia.
O arcebispo minha querida filha, voz diz que me escreveu sobre o assunto de vossa clausura e de vossos votos, dir-
lhe-eis que eu teria tido grande suavidade para o título simples de congregação, sob o qual lhe parece que nossas
filhas teriam tido menos motivo de amor próprio do que sob outro, onde somente o temor e o amor do esposo
sagrado lhes teria servido de clausura e de votos; entretanto, não somente minha vontade, mas ainda meu juízo,
bem facilmente prestam homenagem que devem ao sentimento desse grande e digno prelado. Consinto, pois, de
todo o coração que façamos uma religião formal pois não pretendo outra coisa, minha filha, se não que Deus seja
glorificado. Seja isso, por outras luzes que não, pelas minhas, tanto melhor; estarei mais a salvo desse espírito de
orgulho que tudo estraga: nossa boa mãe é do mesmo sentir. Viva Jesus! Minha filha, sou nele todo vosso! (…)

Alguns anos depois de sua profissão religiosa, a madre Chantal quis ligar-se por votos a fazer sempre o que julgasse
mais perfeito. São Francisco que ela consultou, permitiu-lho, porque lhe conhecia o fervor e não duvidava de que
não cumprisse com fidelidade o compromisso que tinha contraído. Muitas vezes ela foi atormentada por doenças
dolorosas. Os médicos nelas não viam uma causa natural: um deles, tendo-a observado vários dias: está doente de
amor de Deus; não sei curar esses males. (…)

Depois da morte do pai, fez uma viagem a Dijon. Passou alguns meses naquela cidade para ajustar os negócios do
filho, antes de o colocar na academia. Casou-o depois com Maria de Coulanges, que reunia grande virtude à origem,
riquezas e beleza: desse casamento veio a única filha, a célebre marquesa de Sevigné. A madre Chantal foi ainda
obrigada a deixar Annecy, muitas vezes, para ir fundar casas de sua ordem em diversas cidades, especialmente em
Grenoble, Bourges, Dijon, Moulins, em Nevers, em Orleans e em Paris. Excitou-se contra ela violenta perseguição,
nesta última cidade; ela, porém, venceu, por sua confiança em Deus. Ademais sua doçura e paciência atraíram-lhe a
admiração daqueles que tinham sido seus maiores inimigos. Governou a casa que tinha fundado em Paris, no
subúrbio de Santo Antonio, desde o ano de 1619, até o ano de 1622. (…)

Em 1622, outra aflição veio surpreender a madre Chantal: Deus levou-lhe o bem-aventurado pai, o bispo de
Genebra. Essa perda foi seguida de outra. Em 1627, o barão de Chantal, foi morto combatendo contra os
huguenotes, na ilha de Rhé; mas tinha-se preparado para a batalha, recebendo os sacramentos.Contava trinta e um
anos e deixava uma filha que ainda não tinha um ano. Quatrio anos depois, a santa viu ir-se também a baronesa de
Chantal, sua nora. Mal tinha sabido dessa notícia, anunciaram-lhe a morte do conde de Toulonjon, seu genro, que
ela amava ternamente e que era governador de Pignerol. Esqueceu sua pena para só pensar na da condessa sua filho
e tudo fez para a consolar.

Assim Deus provava essas grandes almas, para tornar mais semelhantes ao modelo de seu Filho.

Em 1638 a duquesa de Sabóia, Cristina de França, rogou insistentemente à madre de Chantal que viesse a Turin
fundar um convento da Visitação. Ela o fez e conseguiu ainda mais, trazendo também os missionários de Vicente de
Paulo, na diocese de Genebra. Perdeu, depois, de repente, os dois amigos íntimo,os, seu irmão, o arcebispo de
Borges e o virtuoso governador de Sillery, que se tinha feito sacerdote. Obrigada a ir a Moulins, para os assuntos de
sua ordem aí contraiu estreita amizade, com a duquesa de Montmorency, princesa dos Ursinos, viúva do duque
Henrique de Montmorency, decapitado sob Luís XIII, por ter seguido o partido do duque de Orleans, irmão do rei. A
princesa, inteiramente dedicada às boas obras, acabou por entrar na Ordem da Visitação; recusou aí ser superiora e
viveu como a mais humilde das religiosas. De Moulins, Santa Chantal foi chamada a Paris, pela rainha Ana da Áustria,
que a honrou com sua confiança.

Chegando a 4 de Outubro , a santa partiu a 11 de Novembro, atônita com a estima e os aplausos de que se via
objeto. Voltando a Moulins, foi tomada de febre, e morreu santamente a 13 de Dezembro de 1641, depois de rude
agonia, pronunciando o nome de Jesus. Antes de receber o viático, rogou ao confessor que escrevesse, como sua
última vontade, as recomendações seguintes às recomendações seguintes, às suas religiosas: Rogo a nossas irmãs
que observem suas regras, porque são suas regras, e não porque poderiam ser segundo seus gostos – Que viam em
grande união entre si, com simplicidade , retidão e humildade; que nenhum desejo lhes perturbe o espírito; que
tenham grande respeito por seus superiores e uma perfeita submissão e obediência. – Que a confiança em Deus não
lhes deixe outro desejo que o de lhe agradar; e, enfim, que as superiores governem segundo o espírito da regra, que
é todo doçura e caridade.

Santa Chantal foi assistida em seus últimos momentos pelo Padre Claudio de Lingendes, jesuíta, célebre por suas
pregações, publicadas em três volumes. Muitos milagres operadoss por sua intercessão foram constatados
juridicamente e ela beatificada por Bento XIV em 1751 e canonizada em 1767 por Clemente XIII.

Fotos: santiebeati.it

(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume, XV, p.117 à 135)


São Cristovão, padroeiro dos motoristas e viajantes
São Cristóvão é o padroeiro dos motoristas e, por extensão, dos viajantes. Segundo a lenda grega, São Cristóvão era
um bárbaro antropófago, da tribo dos cinocéfalos - homens com cabeça de cão - que se converteu, foi engajado nos
exércitos imperiais e se recusou a apostatar, morrendo sob inomináveis torturas.

A lenda ocidental, apresenta-o diferentemente: um gigante com mania de grandezas. Servindo um rei poderoso,
que, supunha, fosse o maior da terra, deixou-o, quando soube que Satanás era maior e mais poderoso.

Ouvindo qualquer coisa a respeito de Jesus, muitíssimo superior a Satanás, Cristóvão procurou informar-se. Buscou
elucidações com um ermitão, e ficou sabendo que Nosso Senhor era absolutamente o reverso do demônio,
apreciando os homens pela bondade para com o próximo, não pela grandeza.

Tendo-se fixado à beira de um rio caudaloso, para fazer bem aos semelhantes, propôs-se atravessar de uma margem
a outra aqueles que disso necessitavam, valendo-se da força imensa de que era dotado.

Uma noite, um belo menino solicitou os préstimos do gigante. Cristóvão tomou-o nos ombros e iniciou a travessia da
corrente.

À medida que avançava pelas águas, mais aquela tenra criaturinha lhe pesava assustadoramente. Que significava
aquilo? Como pesava! Era de derrear! Dir-se-ia que levava aos ombros o peso do mundo! E o gigante, arfando e
bufando, arrimado no bordão que arcava ao estranho peso, depois de lutar contra a fadiga, todo cansaço, conseguiu
atingir a margem oposta, que levara um tempo infindo para ser alcançada.

Limpando o suor do rosto afogueado, Cristóvão, de narinas dilatadas, sorvendo sofregamente o ar que lhe fugia dos
pulmões, exclamou ao menino, já em terra firme:

- O mundo não é mais pesado do que tu!

E o menino, sorrindo-lhe muito docemente, retrucou:

- Tu levaste sobre os ombros, mais do que o mundo todo - levaste o seu Criador! Eu sou o Jesus que tu serves!

Mais tarde, por aquele Jesus que teve a sublime ventura de transportar às costas, o bom gigante inabalavelmente
daria a vida, sem se importar com a crueldade dos algozes.

São Cristóvão, logo, passou a ser invocado pelos condutores de veículos e pelos viajantes, E a fórmula
Christophorum videas, postea tutus eas tornou-se comum através dos tempos. E aos que iam viajar, para que o
fizessem com segurança e sem atrapalhações, aconselhava-se:

- Olha São Cristóvão e vai tranqüilo!

Diz o martirológio, numa síntese:

Na Lícia, São Cristóvao, mártir, que, sob o imperador Décio, tendo sido ferido com varas de ferro e preservado da
violência do fogo pelo poder de Jesus Cristo, foi, afinal, atravessado de flechas e recebeu o martírio, pela
decapitação (III Século?) (Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XIII, p. 341 à 343)

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no linkhttp://www.gaudiumpress.org/content/49085-Sao-


Cristovao--padroeiro-dos-motoristas-e-viajantes#ixzz2sTASn6FH

Santo Agostinho
Quem não conhece Santo Agostinho? Quem não conhece as Confissões, onde deplora os desvarios da
juventude? Quem não conhece sua mãe, Santa Mônica, chorando noite e dia aquele filho, seguindo-o por toda a
parte e implorando sem cessar ao céu, em seu favor?

Nasceu a 13 de novembro de 354, na pequena cidade de Tagaste, perto de Madaura e de Hipona, na Numídia, a
Argélia atual. Seus pais era, de condição honesta; o pai, membro do corpo municipal, chamava-se Patrício, a mãe
Mônica.
Tiveram grande cuidado em o fazer instruir nas letras humanas e todos notavam nele um espírito excelente e
disposições maravilhosas para as ciências. Tendo caído doente na infância, em perigo de morte, pediu o batismo
sendo logo catecúmeno, pelo sinal da cruz e pelo sal. Sua mãe, piedosa e fervorosa cristã, dispunha tudo para a
cerimônia. Mas de repente ele melhorou e o batismo foi adiado.

Estudou primeiro, em Madaura, gramática e retórica até a idade de dezesseis anos, quando o pai o fez voltar a
Tagaste e aí ficou um ano, enquanto se preparavam as coisas necessárias para que fosse terminar os estudos em
Cartago; a paixão de mandar esse filho estudar obrigava o pai a esforços superiores à sua fortuna, que era medíocre.

Durante a permanência em Tagaste, o jovem Agostinho, desprezando os sábios conselhos de sua mãe, começou por
se deixar levar a amores desonestos, convidado pela ociosidade e pela complacência do pai, que ainda não era
cristão. Mas o foi antes da morte, que aconteceu pouco depois. Agostinho chegou a Cartago e afundou-se cada vez
mais no amor das mulheres, que fomentava com espetáculos dos teatros. Não deixava de pedir a Deus a castidade,
mas, acrescenta, que não seja agora. Entretanto caminhava com grande êxito nos estudos, que tinham por objetivo
chegar a cargos e à magistratura, pois a eloquência lhes era então o caminho.

Entre as obras de Cícero, que estudava, leu o Hortensius que não temos mais e que era uma exortação à filosofia. Ele
ficou encantado e começou então, na idade de dezenove anos, a desprezar as vãs esperanças do mundo e a desejar
a sabedoria e os bens imortais. Foi o primeiro movimento de sua conversão.

A única coisa que o desgostava nos filósofos é que neles não encontrava o nome de Jesus Cristo que tinha recebido
com o leite de mãe e que tinha causado profunda impressão em seu coração. Quis então ler as Sagradas Escrituras,
mas a simplicidade do estilo desagradou-lhe, habituado como estava à elegância de Cícero. Depois, caiu nas mãos
dos maniqueus que, falando somente de Jesus Cristo, do Espírito Santo e da verdade, o seduziram com seus
discursos pomposos, deram-lhe o gosto por suas ilusões e aversão pelo Novo Testamento.

Entretanto, sua mãe, mais aflita do que se tivesse visto morto, não queria mais comer com ele; veio consolá-la este
sonho: Ela estava num bosque e um jovem resplandecente vinha a ela, sorrindo, perguntando-lhe a causa de seus
penas; ela respondeu-lhe que chorava a perda do filho. Vede, disse ele, está convosco! De fato, viu-o junto de si, no
mesmo lugar. Contou depois o sonho a Agostinho, que lhe disse: Vós vereis o que eu sou. Mas ela respondeu sem
hesitar: Não! Porque não me disseram: Tu estarás onde ele está mas ele estará onde tu estás. Desde aquele tempo,
viveu e comeu com ele, como antes.

Dirigiu-se a um santo bispo e rogou-lhe falasse ao filho. O bispo respondeu: ainda é muito indócil e está muito cheio
daquela heresia, que lhe é nova. Deixai-o, e contentai-vos de rogar por ele, ele verá, lendo, qual é seu erro. Eu que
vos falo, na minha infância fui entregue aos maniqueus por minha mãe, que tinham seduzido; não somente li, mas
transcrevi quase todos os seus livros e eu mesmo me enganei. A mãe não se contentou com as palavras do santo
bispo; chorando abundantemente, continuou a insistir que falasse ao filho; o bispo respondeu com certo humor: Ide,
é impossível que o filho de tantas lágrimas pereça! O que ela ouviu como um oráculo do céu. Seu filho, todavia, ficou
nove anos maniqueu desde os dezenove anos até os vinte e oito.

Tendo terminado os estudos, ensinou, na sua cidade de Tagaste, gramática e depois retórica. Um arúspice se
ofereceu para fazê-lo ganhar o prêmio numa disputa de poesia, por meio de alguns sacrifícios de animais; mas ele
rejeitou-o com horror não querendo ter relação alguma com demônios. Todavia, não fazia dificuldade em consultar
os astrólogos e ler-lhes os livros. Mas disso foi dissuadido por um sábio ancião, chamado Vindiciano, médico famoso,
que tinha reconhecido, por experiência, a vaidade desse estudo. Agostinho tinha então um amigo íntimo, que ele
também fizera maniqueu, pois cuidava de seduzir os outros. O amigo caiu doente e ficou muito tempo fora de si:
como se perdera a esperança de o salvar, deram-lhe o batismo. Quando voltou a si, Agostinho quis zombar do
batismo que tinha recebido naquele estado: mas o doente repeliu as palavras com horror e disse-lhe, com
inesperada liberdade, que, se queria ser seu amigo, não lhe devia nunca mais falar daquele modo. Morreu poucos
dias depois, fiel à graça. Agostinho, que o amava como a si mesmo, ficou inconsolável com a morte. Tinha mais ou
menos vinte e seis anos, quando escreveu dois ou três livros: - Da beleza e da Decência - que não chegaram até nós.

Descobriu, nesse tempo, que sob a máscara de piedade os maniqueus, que se chamavam de santos e eleitos,
ocultavam os costumes mais depravados. Cita vários escândalos públicos. Ao mesmo tempo começava a se
aborrecer com as lendas que contavam, principalmente sobre o sistema do mundo, a natureza dos corpos e dos
elementos. Tais conhecimentos, dizia, não são necessários à religião: é preciso não mentir e não se vangloriar de
saber o que não se sabe, principalmente quando se quer passar, como Manés, por ser guiado pelo Espírito Santo.
Gostava muito mais das razões que os matemáticos e os filósofos davam dos eclipses, dos solstícios e do curso de
astros.

Naquele tempo persuadiram-no a ensinar em Roma, onde os alunos eram mais razoáveis que em Cartago. Embarcou
contra a vontade de sua mãe e a enganou sob o pretexto de acompanhar um amigo até o porto. Chegando a Roma,
caiu doente de febre que o levou às últimas; mas não pediu o batismo. Morava em casa de um maniqueu e
continuava a frequentá-los, preso pelos laços de amizade; não mais esperava encontrar a verdade entre eles e não
se decidia a procurá-la na igreja católica, tanto tinha prevenções contra tal doutrina. Começou então, a pensar que
os filósofos acadêmicos, que duvidavam de tudo, poderiam bem ser os mais sábios e repreendia o hospedeiro por
sua excessiva fé nas fábulas dos maniqueus. Entretanto, a cidade de Milão mandou pedir a Símaco, prefeito de
Roma, um professor de retórica e pelo prestígio dos maniqueus, Agostinho obteve lugar, depois de ter feito prova de
sua capacidade, com um discurso. Assim veio a Milão, no ano 384, tendo trinta anos de idade.

Santo Ambrósio, recebeu-o com tão paterna bondade, que começou por lhe ganhar o coração. Agostinho ouvia-lhe
assiduamente os sermões, somente pela beleza do estilo e para ver se sua eloquência correspondia à fama. Estava
encantado com a sua suavidade da linguagem, ma sábia que a de Fausto,, mas com menos graça na recitação. Não
prestava, a princípio, atenção às coisas que dizia Santo Ambrósio; mas insensivelmente e sem que tomasse cuidado,
as coisas entravam-lhe no espírito com as palavras e viu que a doutrina católica era pelo menos sustentável.
Resolveu então, de repente, deixar os maniqueus e ficar na qualidade de catecúmeno, como era, na Igreja, que seus
pais lhe tinham recomendado, isto é, na Igreja Católica, até que a verdade lhe aparecesse mais claramente.

Santa Mônica tinha vindo procurá-lo com tal fé, que passando o mar consolava os marinheiros, mesmo nos maiores
perigos, pela certeza que Deus lhe tinha dado de que muito em breve estaria junto do filho. Quando ele lhe disse
que não era mais maniqueu, mas que ainda não era católico, ela não ficou admirada; respondeu tranquilamente que
tinha certeza de o ver fiel católico antes de sair desta vida. Entretanto, continuava suas orações e ouvia os sermões
de Santo Ambrósio que ela amava como um anjo de Deus, sabendo que tinha levado o filho àquele estado de
dúvida, que devia ser a crise do mal.

Santo Ambrósio, amava, por sua vez, Santa Mônica pela piedade e boas obras e muitas vezes felicitava Agostinho
por ter tal mãe, pois toda sua vida tinha sido virtuosa. Ela tinha nascido numa família cristã, onde tivera boa
educação. Tinha sido perfeitamente sujeita a seu marido, sofrendo mau proceder e mais tratos com paciência que
servia de exemplo a outras mulheres e ela o ganhou a Deus, no fim da vida. Tinha um talento particular em reunir
pessoas divididas. Depois que enviuvou, deu-se às obras de piedade; fazia grandes esmolas, servia os pobres, jamais
deixava de levar sua oferta ao altar, nem de ir duas vezes a igreja, pela manhã e à noite, para ouvir a palavra de Deus
e fazer as orações, que eram toda sua vida. Deus comunicava-se a ela por visões; sabia distinguir sonhos e
pensamentos naturais. Assim era Santa Mônica, com relação a Santo Agostinho. (...)

Santo Agostinho foi batizado por Santo Ambrósio com seu amigo Alípio e seu filho Adeodato, de mais ou menos
quinze anos. Foram batizados na Vigília da Páscoa que naquele ano, 387, foi o dia 25 de abril, como Santo Ambrósio
tinha determinado, sendo consultado pelos bispos da Província da Emília. Foi, como se crê, nessa ocasião que Santo
Ambrósio fez aos recém-batizados a instrução que compõe seu livro - Dos mistérios, - ou daqueles que foram
iniciados.

Santo Agostinho, depois do batismo, tendo examinado em que lugar poderia servir a Deus mais utilmente, resolveu
voltar à África com a mãe, o filho, o irmão e um jovem chamado Evódio. Este era também de Tagaste; sendo agente
do imperador, converteu-se, recebeu o batismo, antes de Santo Agostinho e deixou o emprego para servir a Deus.
Quando chegaram a Óstia, descansaram da longa viagem que tinham feito desde Milão e prepararam-se para
embarcar.

Um dia, Santo Agostinho e sua mãe, apoiados a uma janela com extrema doçura, esquecendo todo o passado e
levando os pensamentos para o futuro, indagaram qual seria a vida eterna dos santos. Elevaram-se acima de todos
os prazeres dos sentidos; percorreram por graus todos os corpos o céu mesmo e os astros. Chegaram até às almas e
passando por todas as criaturas mesmo espirituais, chegaram às sabedoria eterna, pela qual existem e que existe
sempre, sem diferença e tempo. Atingiram, por um momento, a ponta do espírito e sentiram ser obrigados a voltar
ao rumor da voz, onde a palavra começa e termina. Então sua mãe disse: Meu filho! Quanto ao que me concerne,
não tenho mais nenhum prazer nesta vida. Não sei o que ainda faço aqui agora, nem por que cá estou. A única coisa
que me fazia desejar ficar aqui era ver-vos um cristão católico antes de morrer. Deus me concedeu mais do que isso,
eu vos vejo consagrado a seu serviço, tendo desprezado a felicidade terrestre.

Mais ou menos cinco dias depois, caiu doente de febre. Durante a enfermidade desfaleceu, um dia; quando voltou a
si, olhou Agostinho, e seu irmão Navígio, e disse-lhes: Onde estava eu? Depois, vendo-os tomados de dor,
acrescentou: Deixareis aqui vossa mãe. Navígio desejava que ela morresse em sua terra natal. Mas ela olhou
severamente para ele, como para o repreender e disse a Agostinho: Vedes o que diz! Enfim, dirigindo-se a ambos:
Ponde este corpo, disse ela, onde vos aprouver, não vos inquieteis. Rogo-vos somente que me lembreis no altar do
Senhor, em qualquer parte onde estiverdes. Morreu no nono dia da doença, na idade de cinquenta e seis anos e aos
trinta e três de Santo Agostinho, isto é, no mesmo ano de seu batismo, 387.

Logo que passou à eternidade, Agostinho fechou-lhe os olhos. O jovem Adeodato soltava gritos de dor; mas todos os
assistentes o fizeram calar, não vendo motivo algum de lágrimas naquela morte e Agostinho reteve as suas, fazendo-
se muita violência. Evódio tomou o saltério e começou a cantar o salmo 100: Cantarei em vosso louvor, ó Senhor, a
misericórdia e a justiça: Todos respondiam e logo se reuniu grande quantidade de pessoas piedosas de um e outro
sexo. Levaram o corpo; ofereceu-se pela falecida o sacrifício de nossa Redenção; fizeram´se ainda orações junto do
sepulcro, segundo o costume, na presença do corpo, antes de o enterrar. Santo Agostinho, não chorou durante toda
a cerimônia, mas por fim, de noite, deixou correrem as lágrimas para aliviar a dor. Rogou por sua mãe, como fazia
muito tempo depois, escrevendo todas as circunstâncias daquela morte no livro de suas - Confissões - ele roga aos
leitores lembrarem-se no santo altar, de Mônica, sua mãe e sei pai, Patrício.

Depois da morte de sua mãe, Santo Agostinho voltou de Óstia para Roma, onde ficou o resto do ano 387 e todo o
ano 388. Seus primeiros trabalhos, depois do batismo, foram para a conversão dos maniqueus, cujos erros acabava
de deixar. Não podia tolerar a insolência com a qual aqueles impostores elogiavam a pretensa continência e
abstinências supersticiosas, para enganar os ignorantes e caluniar a Igreja. Compôs então dois livros: - Da Moral e
dos Costumes, Da Igreja Católica, e Da Moral e dos Costumes dos maniqueus. (...)

Sua aflição tornou-se ainda bem maior quando viu a cidade de Hipona sitiada. Entretanto, tinha a consolação de ver
consigo vários bispos, entre outros Possídio de Cálamo, um dos mais ilustres de seus discípulos, o mesmo que nos
deixou sua biografia. Uniam seus penares, seus gemidos e suas lágrimas. Santo Agostinho pedia a Deus, em
particular, lhe aprouvesse libertar Hipona dos inimigos que a cercavam, ou que pelo menos, desse aos servos a força
de suportar os males de que estavam ameaçados, ou enfim de os retirar do mundo e de os chamar a si. De fato caiu
doente de febre no terceiro mês do cerco e viu-se logo que Deus não tinha rejeitado a oração de seu servo.

Durante a doença mandou escrever e colocar junto da parede, perto de seu leito, os salmos Davi sobre a penitência;
lia-os derramando lágrimas. Dez dias antes da morte, rogou aos amigos mais íntimos e aos mesmos bispos, que
ninguém entrasse em seu quarto, senão quanto viesse o médico para o ver, ou lhe trouxessem o alimento;
empregava todo o tempo em oração.

Enfim, chegou seu último dia; Possídio e os outros amigos vieram juntar orações às suas, que ele só interrompeu,
quando adormeceu em paz.. Até então, tinha conservado o uso de todos os membros e nem o ouvido, nem a vista se
tinham debilitado. Como tinha abraçado a pobreza voluntária, não fez testamento; nada tinha a deixar, mas
recomendou-se se conservasse com cuidado a biblioteca da igreja e todos os livros que podia ter em casa, para
aqueles que viessem depois dele. Possídio conta que tendo sido a cidade de Hipona incendiada algum tempo depois,
essa biblioteca foi conservada no meio do saque dos bárbaros. Põe-se a morte de Santo Agostinho a 28 de agosto de
430. Vivera setenta e seis anos, e servira a Igreja perto de quarenta na qualidade de padre e de bispo.

Com Santo Agostinho morreu de algum modo a África cristã e civilizada. Depois desse tempo, até que espirou sob os
ferros dos muçulmanos, sua existência foi somente uma longa agonia. Hoje pareceria que a Providência a quer
ressuscitar e ressuscitá-la pela mesma província que Santo Agostinho ilustrou por sua vida e morte, o país da Argélia
e de Bone.

Quem não conhece Santo Agostinho? Quem não conhece as Confissões, onde deplora os desvarios da juventude?
Quem não conhece sua mãe, Santa Mônica, chorando noite e dia aquele filho, seguindo-o por toda a parte e
implorando sem cessar ao céu, em seu favor? Foi somente na idade de trinta e dois anos que esse filho de tantas
lágrimas se livrou inteiramente da heresia maniquéia e da escravidão das paixões corrompidas e recebeu o batismo
das mãos de Santo Ambrósio. Mas quem poderia dizer quanto sua conversão foi perfeita! Com que amarga trsiteza
chorou faltas passadas, embora tivesse sido apagadas inteiramente pelo batismo; com que ardor amou a Deus; com
que zelo trabalhou para sua glória! Ai de nós; se o imitamos mais ou menos nos seus desvarios, quando o
imitaremos na santidade de vida?

Mas que nos impede chorar nossas faltas como ele, amarmos a Deus como ele, sermos humildes como ele? Pois ele
também, esse grande santo, foi religioso. Pouco depois da conversão, renunciou a tudo o que possuía de bens e
viveu em comunidade religiosa, com os amigos. E quando foi feito bispo de Hipona, fez de sua casa episcopal um
mosteiro, onde vivia em religião, com seus padres e diáconos. Como o exemplo desse grande santo, depois do de
tantos outros nos deve fazer estimar e amar a vocação religiosa. Desejamos saber de Santo Agostinho mesmo qual é
a verdadeira fonte de santidade? Escutemos o que diz: a primeira coisa para se chegar à verdadeira sabedoria é a
humildade; a segunda é a humildade; a terceira é a humildade e tantas vezes quantas me fizésseis essa pergunta,
tantas vezes vos daria a mesma resposta. Não, que não haja outros preceitos, mas se a humildade não preceder, não
acompanhar e não seguir, o orgulho tirará de nossas mãos tudo o que fizermos de bem. (Vida dos Santos, Padre
Rohbacher, Volume XV, p. 268 à 305)

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no linkhttp://www.gaudiumpress.org/content/50164-Santo-


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Nossa Senhora das Dores


Redação (Sexta-feira, 13-09-2013, Gaudium Press) - A compaixão da Virgem Imaculada foi que alimentou a piedade
dos fiéis.E continua a alimentar até hoje. Para relembrar esses "passos ' dolorosos de Maria e tendo em vista o dia da
festa de Nossa Senhora das Dores -celebrado no próximo dia 15- transcrevemos as considerações que se seguem:

É impossível não sentir profunda emoção ao contemplar alguma expressiva imagem da Mater Dolorosa e meditar
estas palavras do Profeta Jeremias, que a piedade católica aplica à Mãe de Deus: "Ó vós todos que passais pelo
caminho, parai e vede se há dor semelhante à minha dor" (Lm 1, 12). A esta meditação nos convida a Liturgia do dia
15 deste mês, dedicado a Nossa Senhora das Dores. Antes de fazer parte da liturgia, as dores de Maria Santíssima
foram objeto de particular devoção.

Os primeiros traços deste piedosa devoção encontram-se nos escritos de Santo Anselmo e de muitos monges
beneditinos e cistercienses, tendo nascido da meditação da passagem do Evangelho que nos mostra a dulcíssima
Mãe de Deus e São João aos pés da Cruz do divino Salvador.

Foi a compaixão da Virgem Imaculada que alimentou a piedade dos fiéis. Somente no século XIV, talvez opondo-se
às cinco alegrias de Nossa Senhora, foi que apareceram as cinco dores que variariam de episódios:

1. A profecia de Simeão

2. A perda de Jesus em Jerusalém

3. A prisão de Jesus

4. A paixão

5. A morte

Logo este número passou para dez, mesmo quinze, mas o número sete foi o que prevaleceu. Assim, temos as sete
horas, uma meditação das penas de Nossa Senhora, durante a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo:

Matinas - A prisão e os ultrajes

Prima - Jesus diante de Pilatos

Terça - A condenação

Sexta - A crucifixão
Nona - A morte

Vésperas - A descida da cruz

Completas - O sepultamento

As chamadas Sete Espadas desenvolvem-se por circunstâncias escolhidas dentre as da vida da Santíssima Virgem:

Primeira Espada: Outra não é que a da profecia de Simeão.

Segunda Espada: O massacre dos inocentes, a mandado de Herodes.

Terceira Espada: A perda de Jesus em Jerusalém, quando o Salvador então contava doze anos de idade, feito
homem.
Quarta Espada: A prisão de Jesus e os julgamentos iníquos, pelos quais passou.

Quinta Espada: Jesus pregado na Cruz entre os dois ladrões e a morte.

Sexta Espada: A descida da Cruz.

Sétima Espada: A sepultura de Jesus

As sete tristezas de Nossa Senhora formam uma série um pouco diferente:

1. A profecia de Simeão

2. A fuga para o Egito

3. A perda de Jesus Menino, depois encontrado no Templo

4. A prisão e a condenação

5. A Crucifixão e a morte

6. A descida da Cruz

7. A tristeza de Maria, ficando na terra depois da Ascensão.

Este total de sete, que os simbolistas cristãos tanto amam, impunha uma escolha entre os episódios da vida da
Santíssima Virgem, por isso que se explicam certas diferenças. A série que acabou por dominar é a seguinte:

1. A profecia de Simeão

Havia então em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem (era) justo e temente (a Deus), e esperava a
consolação de Israel; e o Espírito Santo estava nele. Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não veria a
morte, sem ver primeiro Cristo (o ungido) do Senhor. Foi ao templo (conduzido) pelo Espírito de Deus. E levando os
pais, o Menino Jesus, para cumprirem as prescrições usuais da lei a seu respeito, ele o tomou em seus braços, e
louvou a Deus, dizendo:

- Agora, Senhor, podes deixar partir o teu servo em paz, segundo a tua palavra; Porque os meus olhos viram tua
salvação. A qual preparaste ante a face de todos os povos; luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo.

Seu pai e sua mãe estavam admirados das coisas que dele se diziam. E Simeão os abençoou, e disse a Maria, sua
Mãe:

- Eis que este Menino esta posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição. E
uma espada trespassará a tua alma, a fim de se descobrirem os pensamentos escondidos nos corações de muitos.
(Lc. 2, 25-35)

2. A fuga para o Egito

Então Herodes, tendo chamado secretamente os magos, inquiriu deles cuidadosamente acerca do tempo em que
lhes tinha aparecido a estrela; e, enviando-os a Belém, disse:
- Ide e informai-vos bem acerca do menino, e, quando o encontrardes, comunicai-mo, a fim de que também eu o vá
adorar.

Eles, tendo ouvido as palavras do rei, partiram; e eis que a estrela que tinham visto no Oriente. Ia adiante deles, até
que, chegando sobre onde estava o menino, parou. Vendo (novamente) a estrela, ficaram possuídos de grandíssima
alegria. E, entrando na casa, viram o Menino com Maria, sai mãe e, prostrando-se o adoraram; e abrindo os seus
tesouros, ofereceram-lhe presentes, ouro, incenso e mirra. E, avisados por Deus em sonhos para não tornarem a
Herodes, voltaram por outro caminho para a sua terra. Tendo eles partido, eis que um anjo do Senhor apareceu em
sonhos a José, e lhe disse:

- Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar
o menino para lhe tirar a vida. E ele, levantando-se de note, tomou o menino e sua mãe, e retirou-se para o Egito; e
lá esteve até a morte de Herodes, cumprindo-se deste modo o que tinha sido dito pelo Senhor, por meio do profeta
que disse: Do Egito chamei o meu Filho (Mt. 2. 7-15)

3. A perda de Jesus em Jerusalém

Seus pais iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando chegou aos doze anos, indo eles a Jerusalém
segundo o costume daquela festa, acabados os dias (que ela durava), quando voltaram, ficou o Menino Jesus em
Jerusalém, sem que seus pais o advertissem. Julgando que ele fosse na comitiva, caminharam uma jornada, e
(depois) procuraram-no entre os parentes e conhecidos. Não o encontrando, voltaram a Jerusalém em busca dele.
Aconteceu que, três dias depois, encontraram-no no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e
interrogando-os. E todos os que ouviam, estavam maravilhados da sua sabedoria e das suas respostas. Quando o
viram, admiraram-se. E sua Mãe disse-lhe:

- Filho, por que procedeste assim conosco? Eis que teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição. Ele lhes disse:

- Para que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai? Eles, porém, não entenderam o
que lhes disse (Lc. 2, 41-50)

4. O encontro de Jesus no caminho do Calvário

Quando o iam conduzindo, agarraram um certo (homem chamado) Simão Cireneu, que voltava do campo; e
puseram a cruz sobre ele, para que a levasse após Jesus. Seguia-o uma grande multidão de povo e de mulheres as
quais batiam no peito, e o lamentavam. Porém, Jesus, voltando-se para elas, disse:

- Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. Porque eis que
virá tempo em que se dirá: Ditosas as estéreis, e (ditosos) os seios que não geraram, e os peitos que não
amamentaram. Então começarão (os homens) a dizer aos montes: Cai sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos (Os. 10,
8): Porque, se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco: (Lc. 23, 26-31)

5. A crucifixão

Então, entregou-lhe para que fosse crucificado. Tomaram, pois Jesus, o qual, levando a sua cruz, saiu para o lugar
que se chama Calvário, e em hebraico Gólgota, onde o crucificaram, e com ele outros dois, um de um lado, outro de
outro lado, e Jesus no meio. Pilatos escreveu um título, e o pôs sobre a Cruz. Estava escrito nele: JESUS NAZARENO,
REI DOS JUDEUS.

Muitos dos judeus leram este título, porque estava perto da cidade o lugar onde Jesus foi crucificado. Estava escrito
em hebraico, em latim e em grego. Diziam, porém, a Pilatos, os pontífices dos judeus:

- Não escrevas reis dos Judeus, mas o que ele disse? Eu sou o Rei dos Judeus. Respondeu Pilatos:

- O que escrevi, escrevi.

Os soldados, pois, depois de terem crucificado Jesus tomaram os seus vestidos (e fizeram dele quatro partes, uma
para cada soldado) e a túnica. A túnica, porém, não tinha costura, era toda tecida de alto a baixo, Disseram, pois, uns
para os outros:

- Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver a quem tocará.
Cumpriu-se deste modo a Escritura, que diz: Repartiram os meus vestidos entre si, e lançaram sortes sobre a minha
túnica (S. 21, 19). Os soldados assim fizeram. Entretanto, estavam de pé junto à cruz de Jesus, sua Mãe, a irmã de
sua Mãe, Maria, mulher de Cleofas, e Maria Madalena. Jesus, vendo sua Mãe, e junto dela o discípulo que ele
amava, disse a sua Mãe:

- Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo:

- Eis aí a tua Mãe. E, desta hora por diante, levou-a o discípulo para sua casa.Em seguida, sabendo Jesus que tudo
estava consumado para se cumprir a Escritura, disse:

- Tenho sede.

Tinha sido ali posto um vaso cheio de vinagre. Então (os soldados), ensopando no vinagre uma esponja, e atando-a a
uma cana de hissopo, chegaram-lha à boca. Jesus tendo tomado o vinagre, disse:

- Tudo está consumado. E inclinando a cabeça, rendeu o espírito (Jo 19, 16-30)

6. A descida da Cruz

Então um homem chamado José, que era membro do Sinédrio, varão bom e justo, o qual não tinha concordado com
a determinação dos outros, nem com os seus atos, (oriundo) de Arimatéia, cidade da Judéia, que também esperava
o reino de Deus, foi ter com Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus: e, tendo-o descido (da Cruz), envolveu-o num
lençol. (Lc 23, 50-53).

7. O sepultamento

Ora, no lugar em que Jesus foi crucificado, havia um horto e no horto um sepulcro novo, em que ninguém ainda
tinha sido sepultado. Por ser o dia da Parasceve dos Judeus, visto que o sepulcro estava perto, depositaram aí Jesus
(Jo 19, 41-42)

No século XV, o século que conheceu a grande cintilação da devoção a Nossa Senhora das Sete Dores, foi que
surgiram os mais tocantes testemunhos daquela devoção nas artes. E os artistas, sempre a procura de episódios que
mais tocassem a sensibilidade dos cristãos, acabaram por trazer, com predileção, o que deveria ser o mais doloroso
da vida de nossa Mãe Bendita - o momento, pungente em que, desligado da Cruz, o Salvador, inerte, pousara sobre
os puros joelhos da Senhora. (Vida dos Santos, Padre Rohbacher)

São Lucas, Apóstolo e Evangelista


Redação - (Sexta-feira, 18-10-2013, Gaudium Press) - São Lucas começa o Evangelho nos seguintes termos: "Visto
que muitos já empreenderam por em ordem a narração das coisas que entre nós se cumpriram, como no-las
referiram os que, desde o princípio, as viram, e foram ministros da palavra; pareceu-me bom também a mim,
excelentíssimo Teófilo, depois de ter investigado diligentemente tudo desde o princípio, escrever-te por ordem a sua
narração para que conheças a verdade daquelas coisas em que foste instruído.

O Evangelho de São Lucas é como que o primeiro livro de sua história; os Atos dos Apóstolos constituem o segundo.
Por isso, diz no prefácio dos Atos:

"Na primeira narração, ó Teófilo, falei de todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, até ao dia em que,
tendo dado preceitos por meio do Espírito Santo aos Apóstolos que tinha escolhido, foi arrebatado ao céu; aos quais
também se manifestou vivo, depois da sua Paixão, com muitas provas de que vivia, aparecendo-lhes por quarenta
dias, e falando do reino de Deus. E, estando à mesa com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém,
mas que esperassem a promessa do Pai, a qual ouvistes da minha boca; porque João na verdade batizou em água,
mas vós sereis batizados no Espírito Santo."

Tal é, de acordo com o próprio São Lucas, o conjunto dos dois livros da sua autoria. Quanto ao primeiro, que
compreende a história de Jesus Cristo até à sua Ascensão, nem a todos os fatos testemunhou, mas deles ouviu a
narração da boca das pessoas que viram Jesus Cristo com os próprios olhos e viveram na sua intimidade. Entre essas
testemunhas oculares, inclui-se a Santa Virgem em relação à vida privada do Salvador, e os apóstolos em relação à
sua vida pública. Na vida oculta do Salvador se encontra a aparição do anjo Gabriel ao sacerdote Zacarias no
santuário do Templo; a revelação de que nasceria de sua mulher Isabel um filho que seria o precursor do Messias; a
aparição do anjo do Gabriel a Maria, na casa de Nazaré; a comunicação que ela conceberia do Espírito Santo e daria
à luz o próprio Messias, que seria chamado Jesus: a visita de Maria à sua prima Isabel, que nela reconheceu a Mãe
do seu Senhor; o Magnificat ou Cântico de Maria para bendizer Deus pelas grandes coisas que operaria nela e por
ela; o nascimento de João Batista, o milagre de seu pai Zacarias, que recobrou a palavra para celebrar no Benedictus
as misericórdias de Deus de Israel sobre os homens, em particular sobre a criança que acabava de nascer; a viagem
da santa família de Nazaré, o nascimento do Salvador num estábulo; os anjos que o anunciam aos pastores e cantam
a Glória in Excelsis; os pastores que vem adorá-lo no presépio; o nome de Jesus, que lhe foi dado no dia da
Circuncisão; a apresentação ao templo, onde é resgatado por duas rolas e reconhecido pelo santo velho Simeão, que
canta o Nume Dimitris; a peregrinação ao templo de Jerusalém com a idade de doze anos; sua permanência no
templo, a volta a Nazaré, onde está sujeito a Maria e a José. São Lucas teve conhecimento pela própria boca da santa
Virgem de todos esses divinos mistérios, cuja contemplação transporta de júbilo os anjos. É como se ela mesma os
narrasse.

Quanto à vida pública do Salvador, nem os evangelistas, nem os apóstolos a relataram inteiramente. O próprio São
João diz no fim do seu Evangelho: "Muitas coisas há que fez Jesus, as quais, se fossem descritas uma por uma, creio
que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever. O que cada um dos evangelistas
escreveu basta, não simplesmente para fazer-nos conhecer, mas, de acordo com a expressão do texto original de
São Lucas, para fazer-nos super conhecer a verdade, a exatidão das coisas que já conhecemos de maneira certa
através do ensinamento oral da Igreja. Eis alguns tocantes episódios que devemos a São Lucas:

A história da pecadora que vai à casa do fariseu Simeão prosternar-se aos pés do Salvador, regá-los em lágrimas, e a
quem é concedida a remissão dos pecados; a cura de Hemorroisse por haver tocado a fímbria do seu vestido, e a
ressurreição da filha de Jair; a caridade do Samaritano; a parábola do filho pródigo; a história do mau rico e do pobre
Lázaro; a oração do fariseu e a do publicano, a conversão pública de Zacarias, que o recebeu na sua casa, e que dá
aos pobres a metade de seus bens.

São Lucas conhecia esses episódios por intermédio daqueles que os tinham testemunhado com seus olhos e ouvidos;
pois não pertencia ao número dos primeiros discípulos do Salvador, nem mesmo era judeu de origem, e sim, grego
de Antioquia. Foi em grego que escrevei o Evangelho e os Atos dos Apóstolos; seu estilo lembra a elegante
simplicidade de Xenofonte e Heródoto. De resto, um escritor inglês demonstrou que muitas locuções da Bíblia, em
particular do Novo Testamento, consideradas hebraísmos, barbarismos, solecismos por certos críticos, são locuções
próprias dos poetas e historiadores clássicos dos gregos. Teófilo, a quem São Lucas dedica seus dois livros, e ao qual
dá o título de Excelente ou Excelência, parece ter sido cristão de alta posição social.

Os Atos dos Apóstolos, iniciados por São Lucas com a Ascensão de Jesus Cristo, mostram-nos os discípulos e os
apóstolos reunidos no cenáculo, cm Maria, Mãe de Jesus; São Pedro fazendo, pela primeira vez, uso da sua
autoridade de Vigário de Jesus Cristo e de Chefe da Igreja, na eleição de um novo apóstolo para substituir Judas, o
traidor; o Espírito Santo descendo sobre os apóstolos e os discípulos no dia de Pentecostes; São Pedro convertendo
três mil almas com uma única pregação, curando um coxo de nascimento, e convertendo cinco mil almas; Pedro e
João encarcerados; sua perseverança; nova efusão do Espírito Santo; vida edificante dos primeiros cristãos; Barnabé
vende seu campo e dá o dinheiro aos pobres; punição de Ananias e Safira por terem mantido a São Pedro; curas
operadas pelos apóstolos, a popularidade dos mesmos apóstolos; a prisão e conseqüente libertação dos apóstolos
por um anjo; discurso de Gamaliel no sinédrio; os apóstolos espancados com varas; eleição dos sete diáconos; zelo e
poder de Estevão, seu martírio; perseguição dos fiéis; o diácono Filipe na Samaria; Simão, o mágico; o eunuco da
rainha Candança batizado por Filipe; conversão de São Paulo; paz na Igreja; Pedro cura o paralítico Enéias, ressuscita
a viúva Tabita e batiza o centurião Cornélio, primícias dos gentios; martírio de São Tiago; Pedro libertado da prisão
por um anjo; primeiro concílio de Jerusalém, presidido por São Pedro. Na continuação dos Atos São Lucas fala quase
só de São Paulo, de quem foi companheiro inseparável, e termina o livro com a prisão desse apóstolo, em Roma.

São Paulo, refere-se várias vezes a São Lucas como a seu fiel cooperador. Saúda os cristãos de Colosso da parte de
Lucas, médico, que lhe é muito caro. Alguns escritores antigos também atribuem a este último a qualidade de pintor.
São Paulo enviou-o com Tito a Corinto. Depois da morte do Apóstolo, São Lucas pregou o Evangelho em diversos
países, entre outros, na Gália. Um antigo martirológio lhe confere os títulos de evangelistas e de mártir. Encerrou a
longa carreira na Bitínia, ou, de acordo com outros, na Acaia. Suas relíquias foram transportadas para
Constantinopla, e de lá para Pádua.

(Padre Rohrbacher, Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XVIII, p. 300 à 306)

Os fiéis da Igreja sofredora e paciente


Redação - (Quinta-feira, 31-10-2013, Gaudium Press) Igreja militante, fiéis da Igreja padecente, bem aventurados da
Igreja triunfante. Três situações em que uma alma batizada pode estar ligada, como membro, ao corpo que é Jesus
Cristo. Aqui estão considerações sobre o Purgatório, lugar de espiação, onde está a Igreja Padecente.

A caridade, mais forte do que a morte, uniu-as do céu à terra, e da terra ao purgatório, e é pelo mesmo sacrifício que
nós agradecemos a Deus, a glória com a qual cumula os santos do céu, e imploramos a misericórdia para os santos
do purgatório, santos ainda não perfeitos.

A Igreja triunfante do céu, a Igreja militante da terra e a Igreja sofredora do purgatório, paciente, nada mais são que
uma só e mesma Igreja; que a caridade, mais forte que a morte as uniu do céu à terra, e da terra ao purgatório. São
como três partes duma só e mesma procissão de santos, procissão que avança da terra ao céu.

As almas do purgatório participarão daquela procissão um dia. Sim, porque ainda não tem, bem brancas, as
vestimentas de festa, a roupa nupcial ainda guarda nódoas, aquelas nódoas que somente o sofrimento limpa.

Então, como os contemporâneos de Noé, aqueles que não fizeram penitência senão no momento do dilúvio foram
encerrados em prisões subterrâneas, até que Jesus Cristo lhes aparecesse, anunciando-lhes a libertação, quando de
sua descida aos infernos.

Como os fiéis da Igreja triunfante, os fiéis da Igreja militante e os fiéis da Igreja sofredora e paciente, são membros
dum mesmo corpo - que é Jesus Cristo - e tanto uns como outros participam, interessam-se, condoem-se da glória,
dos perigos, dos sofrimentos duns e doutros, tal qual os membros do corpo humano. Vejamos um exemplo: o pé
está em perigo de saúde ou sofre dores: todos os membros do corpo jazem em comoção. Os olhos olham-no, as
mãos protegem-nos, a voz chama por socorro, para afastar o mal ou o perigo. Uma vez afastado o mal, regozijam-se
todos os membros. É o que acontece com o corpo vivo da Igreja universal. E vemos os heróis da Igreja militante, os
ilustres Macabeus, assistidos pelos anjos e santos de Deus, especialmente pelo grande sacerdote Onias e pelo
profeta Jeremias, rogar e oferecer sacrifícios por esses irmãos que estavam mortos pela causa de Deus, mas
culpados desta ou daquela falta.

No dia seguinte, depois duma vitória, Judas Macabeu e os seus surgiram para retirar os mortos e depositá-los no
sepulcro dos antepassados e encontraram sobre as túnicas dos que estavam mortos coisas que haviam sido
consagradas aos ídolos de Jamnia, que a lei proibia aos judeus tocar. Foi, pois, manifesto a todos que era por isso
que haviam sido mortos. E todos louvaram o justo julgamento do Eterno, que descobre o que está escondido, e
suplicaram-lhe que fosse esquecido o pecado cometido.

Judas exortou o povo a que se preservasse do pecado, tendo diante dos olhos o que viera pelo pecado dos que
haviam sucumbido. E, depois de ter feito uma coleta, enviou a Jerusalém duas mil dracmas de prata, para que fosse
oferecido um sacrifício pelo pecado dos mortos, agindo muito bem, pensando que estava na ressurreição. Porque se
não tivesse esperança de que os que vinham de sucumbir ressuscitassem um dia, seria supérfluo e tolo rogar pelos
mortos.

Judas, porém, considerava que uma grande misericórdia estava reservada aos que estão adormecidos na piedade.
Santo e piedoso pensamento! Foi por isso que ofereceu um sacrifício de expiação pelos defuntos, para que fossem
livres dos pecados. Tais são as palavras e reflexões da Escritura santa, segundo o texto grego, e as mesmas, mais ou
menos, no latino.

Nosso Senhor mesmo adverte, bastante claramente, que há um purgatório, quando nos recomenda em São Mateus
e São Lucas: "Conciliai-Vos com vossos inimigos (a lei de Deus e a consciência) enquanto estais em caminho para
irdes ao príncipe, não seja que este inimigo vos entregue ao juiz, o juiz ao executor, e que sejais metido numa prisão.
Em verdade vos digo, dela não saireis, enquanto não pagardes o último óbolo."
Segundo essas palavras, está bem claro que há uma prisão de Deus, onde se é arrojado por dívidas para a com sua
justiça, e donde não se sai - senão quando tudo estiver pago.

Nosso Senhor, em São Mateus, disse-nos ainda: "Todo pecado e blasfêmia será perdoado aos homens, porém, a
blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada, nem neste século nem no futuro". Onde se vê que os outros
pecados podem ser perdoados neste século e no futuro, como o livro dos Macabeus diz expressamente dos pecados
daqueles que estavam mortos pela causa de Deus.

Do mesmo modo, no sacrifício da missa, a santa Igreja de Deus lembra os santos que com Ele reinam no céu, a fim
de lhes agradecer pela glória e nos recomendar à sua intercessão. Doutro lado, suplica a Deus que se lembre dos
servidores e servidoras que nos precederam no outro mundo com a chancela da fé, dignando-se conceder-lhes a
estadia no refrigério na luz e na paz.

A crença do purgatório e a oração pelos mortos acham-se em todos os doutores da Igreja, bem como nos atos dos
mártires, notadamente nos atos de São Perpétuo, escritos por ele mesmo.

Todos os santos rogaram pelos mortos. Santo Odilon, abade de Cluny, no século XI, tinha um zelo particular pelo que
dizia respeito ao refrigério das almas do purgatório. Foi movido pela compaixão, pensando no sofrimento das almas
do purgatório que, adiantando-se à Igreja, ordenou se rogasse pelas almas, tendo, destinado para isso um dia
especial. Eis como Santo Odilon animou tal instituição, começando pelas terras que lhes estavam afetas ao
sacerdócio. (...)

Quanto ao purgatório, nada de certo se sabe. Eis porém, o que se lê nas revelações de Santa Francisca de Roma,
revelações que a Igreja autoriza a crer, sem, entretanto, a elas nos obrigar.

Numa visão, a santa foi conduzida do inferno ao purgatório, que, igualmente está dividido em três zonas ou esferas,
uma sobre a outra. Ao entrar, Santa Francisca leu esta inscrição:

Aqui é o purgatório, lugar de esperança, onde se faz um intervalo. A zona inferior é toda de fogo, diferente do
inferno, que é negro e tenebroso. Este do purgatório tem chamas grandes, muito grandes e vermelhas. E as almas.
Ali, são iluminadas, interiormente, pela graça. Porque conhecem a verdade, assim como a determinação do tempo.
Aqueles que tem pecado grave são enviados a este fogo pelos anjos, e aí ficam conforme a qualidade dos pecados
que cometeram.

A santa dizia que, por cada pecado mortal não expiado, naquele fogo ficaria a alma por sete anos. Embora nessa
zona ou esfera inferior as chamas do fogo envolvam todas as almas, atormentam, todavia, umas mais que as outras,
segundo sejam mais graves ou mais leves os pecados.

Fora esse lugar do purgatório, à esquerda, ficam os demônios que fizeram com que aquelas almas cometessem os
pecados que agora expiam. Censuram-nas, mas não lhes infligem quaisquer outros tormentos.

Pobres almas! Fá-las sofrer mais, muito mais, a visão desses demônios do que o próprio fogo que as envolve. E, com
tal sofrimento, gritam e choram, sem que, neste mundo, consiga alguém fazer uma ideia Fazem-no, contudo,
humildemente, porque sabem que o merecem, que a justiça divina está com a razão. São gritos como que afetuosos,
e que lhes trazem certa consolação. Não que sejam afastadas do fogo. Não, a misericórdia de Deus, tocada por
aquela resignação, das almas sofredoras, lança-lhes um olhar favorável, olhar que lhes alivia o sofrimento e lhes
deixa entrever a glória da bem-aventurança, para onde passarão.

Santa Francisca Romana viu um anjo glorioso conduzir aquele lugar a alma que lhe havia sido confiada, à guarda, e
esperar do lado de fora, à direita. É que os sufrágios e as boas obras que os parentes, os amigos, ou quem quer que
seja, lhes fazem especialmente por intenção da alma, movidos pela caridade, são apresentados, pelos anjos da
guarda, à divina majestade. E os anjos, comunicando às almas o que por elas fazemos nós, aliviam-nas, alegram e
confortam. Os sufrágios e as boas obras que fazem os amigos, por caridade, especialmente pelos amigos do
purgatório, aproveita principalmente a quem os faz, por causa da caridade. E ganham as almas e ganhamos nós.

As orações, os sufrágios e as esmolas feitos caridosamente pelas almas que já estão na glória, e que já não
necessitam, revertem às almas ainda necessitadas, aproveitando a nós também. E os sufrágios que se fazem às
almas que jazem no inferno? Não os aproveita nem uma nem outra - nem as do inferno, nem as do purgatório, mas
unicamente a quem os faz.

A zona ou região média do purgatório está dividida em três partes: a primeira, cheia duma neve excessivamente fria;
a segunda, de pez fundido, misturado a azeite em ebulição; a terceira, de certos metais fundidos, como ouro e prata,
transparentes. Trinta e oito anjos aí recebem as almas que não cometeram pecados tão graves que mereçam a
região inferior. Recebem-nas e transportam-nas dum lugar a outro com grande caridade: não lhe são os anjos da
guarda, mas outros que, para tal, foram obrigados pela divina misericórdia.

Santa Francisca nada disse, ou não a autorizou a dizê-lo o superior, sobre a mais elevada região do purgatório.

Nos céus, os anjos fiéis tem sua hierarquia: três ordens e nove coros. As almas santas, que sobem da terra, ficam nos
coros e nas ordens que Deus lhes indica, segundo os méritos. É uma festa para toda a milícia celeste, mais
particularmente para o coro onde a alma santa deverá regozijar-se eternamente em Deus.

O que Santa Francisca viu na bondade de Deus a deixou profundamente impressionada, sem que pudesse falar da
alegria que lhe ia no coração. Frequentemente, nos dias de festa, sobretudo depois da comunhão, quando meditava
sobre o mistério do dia, o espírito, arrebatado ao céu, via o mesmo mistério celebrado pelos anjos e pelos santos.

Todas as visões que tinha, submetia-as Santa Francisca de Roma à Mãe, Santa Igreja. E, pela mesma mãe, a Igreja, foi
Francisca canonizada, sem que nada de repreensível se achasse nas visões que tivera.

Nós, pois, vos saudamos, ó almas que vos purificais nas chamas do purgatório. Compartilhamos as vossas dores, os
sofrimentos, principalmente daquela dor imensa e torturante de não poderdes ver a Deus. Ai de nós! Sem dúvida
que há entre vós parentes nossos e amigos: sofrerão, talvez por nossa culpa. Quem dirá que não lhes demos, nesta
ou naquela ocasião, motivos de pecar? Falta-lhes pouco tempo para que se tornem inteiramente puras. Que nos
acontecerá, a nós que tão pouco velamos por nós mesmos? Almas santas e sofredoras, que Deus nos livre de vos
esquecer jamais!

Todos os dias, à missa e às orações, lembrar-nos-emos de vós todas. Lembrai-vos, pois, também de nós. Lembrai-
vos, principalmente, quando estiverdes no céu. Como lá vos desejamos ver! Como no céu desejamos ver-nos
convosco! Assim seja.

Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XVIII, p.111 à 118 e 129 à 137
Revista Arautos do Evangelho, Nov/2006, n. 59, p. 34 a 37

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no linkhttp://www.gaudiumpress.org/content/52396-Os-fieis-da-Igreja-


sofredora-e-paciente#ixzz2sG4cqn39

Um local misterioso entre o Céu e a Terra


Redação - (Quinta-feira, 31-10-2013, Gaudium Press) - Já estando nas proximidades do dia de finados, surge uma
boa ocasião para caminharmos juntos na consideração do que venha a ser aquele local misterioso situado entre a
terra e o Céu, cujos "habitantes" pedem veementemente nossa ajuda e também podem nos beneficiar:

Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás em caminho com ele, para não suceder que te
entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao seu ministro e sejas posto em prisão. Em verdade te digo: dali não sairás
antes de teres pago o último centavo" (Mt 5, 25-26).

Jesus estava falando aos Apóstolos a respeito das punições que esperam os pecadores após a morte. Antes se
referira ao fogo da geena - o Inferno -, uma prisão perpétua, eterna. Mas aqui Ele fala de um cárcere do qual se
poderá sair, desde que seja pago o débito, até o último centavo.

Essa prisão temporária, um estado de purificação para os que morrem cristãmente sem terem atingido a perfeição, é
o Purgatório. Lugar misterioso, mas onde reina a esperança e os gemidos de dor são entremeados por cânticos de
amor a Deus.

Caro leitor, eis um assunto do qual se fala pouco, mas cujo conhecimento é vital para nós e para nossos entes
queridos que já partiram desta vida. Convido-o a repassar comigo diversos aspectos desse importante tema.
A festa de Finados

No dia 2 de novembro, a sagrada Liturgia se lembra de modo especial dos fiéis defuntos. Depois de ter celebrado -
no dia anterior, festa de Todos os Santos - os triunfos de seus filhos que já alcançaram a glória do Céu, a Igreja dirige
seu maternal desvelo para aqueles que sofrem no Purgatório e clamam com o salmista: "Tirai-me desta prisão, para
que possa agradecer ao vosso nome. Os justos virão rodear-me, quando me tiverdes feito este benefício" (Sl 141, 8).

A gênese dessa celebração está na famosa abadia de Cluny, quando seu quinto Abade, Santo Odilon, instituiu no
calendário litúrgico cluniacense a "Festa dos Mortos", dando especial oportunidade a seus monges de interceder
pelos defuntos, ajudando-os a alcançarem a bem-aventurança do Céu.

A partir de Cluny, essa comemoração foi-se estendendo entre os fiéis até ser incluída no Calendário Litúrgico da
Igreja, tornando- se uma devoção habitual, em todo o mundo católico.

Talvez o leitor, como milhares de outros fiéis, tenha o costume de visitar o cemitério nesse dia, para recordar os
familiares e amigos falecidos, e por eles orar. Muitos cristãos, porém, não prestam ouvidos aos apelos de seu
coração, que os move a sentir saudades de seus entes queridos e a aliviá-los com uma prece. Talvez por falta de
cultura religiosa, ou por falta de alguém que as incentive ou oriente, muitas pessoas nem vêem a necessidade de
rezar pelas almas dos falecidos. A inúmeras outras, a existência do Purgatório causa estranheza e antipatia.

Seja como for, tanto por amor às almas que esperam ver-se livres de suas manchas para entrarem no Paraíso,
quanto para estimular em nós a caridade para com esses irmãos necessitados, como também para nosso próprio
proveito, vejamos o "porquê" e o "para quê" da existência do Purgatório.

Purificação necessária para entrar no Céu

Sabemos que a Igreja Católica é una. É o que rezamos no Credo. Entretanto, os membros da Igreja não estão todos
aqui, entre nós, mas em lugares diversos, como diz o Concílio Vaticano II. Alguns "peregrinam sobre a terra, outros,
passada esta vida, são purificados, outros, finalmente, são glorificados" (Lumen Gentium, 49).

Entre a terra e o Céu não é raro acontecer, no itinerário da alma fiel, um estágio intermediário de purificação.
Segundo nos ensina o Catecismo da Igreja Católica, por aí passam "os que morrem na graça e na amizade de Deus,
mas não estão perfeitamente purificados".

Por isso "passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria
do Céu" (nº 1030). Esse estado de purificação nada tem a ver com o castigo dos condenados ao Inferno, pois as
almas do Purgatório têm a certeza de haver conquistado o Céu, mesmo que sua entrada ali tenha sido adiada por
causa de seus resíduos de pecado.

A primeira epístola aos Coríntios faz referência ao exame a que serão submetidos os cristãos, os quais, havendo
recebido a Fé, devem continuar em si a obra de sua santificação. Cada um será examinado no respeitante ao grau de
perfeição que atingiu: "Se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas,
com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá.

O dia (do julgamento) demonstrá- lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um.
Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo,
porém passando de alguma maneira através do fogo" (1Cor 3, 12-15). "Ele será salvo", diz o Apóstolo, excluindo o
fogo do Inferno, no qual ninguém pode ser salvo, e se referindo ao fogo temporário do Purgatório.

Comentando este e outros trechos da Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja nos fala do fogo destinado a limpar a
alma, como explica São Gregório Magno em seus Diálogos: "Com relação a certas faltas leves, é necessário crer que,
antes do Juízo, existe um fogo purificador, como afirma Aquele que é a Verdade, ao dizer que, se alguém pronunciou
uma blasfêmia contra o Espírito Santo, essa pessoa não será perdoada nem neste século nem no futuro (Mt 12, 31).
Por essa frase, podemos entender que algumas faltas podem ser perdoadas neste século, mas outras no século
futuro".

Por que existe o Purgatório?


Será Deus tão rigoroso a ponto de não tolerar nem mesmo a menor imperfeição, limpando-a com penas severas?
Esta pergunta facilmente pode nos vir à mente.

Em primeiro lugar, devemos nos lembrar desta verdade: depois de nossa morte, não seremos julgados segundo
nossos próprios critérios, pois "o que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o
coração" (1Sm 16, 7). Estaremos diante de um Juiz sumamente santo e perfeito, e em seu Reino "não entrará nada
de profano" (Ap 21, 27). Com efeito, na presença de Deus, de sua Luz puríssima, a alma percebe em si mesma
qualquer pequeno defeito, julgando- se, ela mesma, indigna de tal majestade e grandeza. Santa Catarina de Gênova,
grande mística do século XV, deixou uma obra muito profunda sobre a realidade do Purgatório e do Inferno.

Explica ela o seguinte: "Digo mais: no concernente a Deus, vejo que o Paraíso não tem portas e ali pode entrar quem
quiser, pois Deus é todo misericórdia e seus braços estão sempre abertos para nos receber na glória; mas a divina
Essência é tão pura - infinitamente mais pura do que podemos imaginar - que a alma, vendo nela mesma a menor
das imperfeições, prefere atirar-se em mil infernos a aparecer suja na presença da divina Majestade. Sabendo então
que o Purgatório está criado para a purificar, ele mesma se joga nele e encontra ali grande misericórdia: a destruição
de suas faltas".

Essas manchas, a serem purificadas na outra vida, o que são? São os restos de apego exagerado às criaturas, ou seja,
as imperfeições, e os pecados veniais, bem como a dívida temporal dos pecados mortais já perdoados no
Sacramento da Reconciliação. Tudo isso diminui na alma o amor de Deus.

Por causa dessas afeições desregradas se estabelece um estado de desordem em nosso interior, afastando- nos do
Mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas. Essa é a causa pela qual, antes de permitir a uma alma subir até
a glória celestial, "a justiça de Deus exige uma pena proporcional que restabeleça a ordem perturbada" (Suma
Teológica, Supl. q. 71, a. 1) E a alma se sujeita ao castigo do Purgatório com alegria, em plena conformidade com a
vontade do Senhor.

Seu único desejo é ver-se limpa, para poder configurar-se com Cristo. As almas nesse estado "purificam-se", diz São
Francisco de Sales, "voluntariamente, amorosamente, porque assim Deus o quer" e "porque estão certas de sua
salvação, com uma esperança inigualável".

A pena do Purgatório

As dores infligidas nesse local de purificação são "tão intensas que a menor pena do Purgatório ultrapassa a maior
desta vida" (Suma Teológica, Supl., q. 71, a. 2). Mesmo assim, pondera São Francisco de Sales, "o Purgatório é um
feliz estado, mais desejável que temível, pois as chamas nele existentes são chamas de amor".

Mas como entender que esse terrível sofrimento seja transpassado de amor? Na verdade, o maior tormento das
almas do Purgatório - a "pena de dano" - é causado precisamente pelo amor. Essa pena consiste no adiamento da
visão de Deus. Criado para amar e ser amado, o homem, ao abandonar esta terra, descobre a inefável beleza da Luz
Divina e deseja correr para Ela com todas as suas forças, como o cervo sedento corre em direção à fonte das águas.
Contudo, vendo em si o defeito do pecado, fica privado temporariamente daquela presença tão pura. Afastada,
assim, d'Aquele que é a suprema e única felicidade, a alma sente um padecimento incalculável.

Para nós, que ainda somos peregrinos neste vale de lágrimas, é difícil entender a imensidade dessa dor. Vivemos
sem ver a Deus, embora n'Ele creiamos. Somos como cegos de nascimento, pois nunca vimos o Sol de Justiça, que é
Deus; embora sintamos seu calor, não podemos fazer idéia de seu resplendor e grandeza.

Entretanto, as almas benditas do Purgatório, logo após terem abandonado o corpo inerte, discerniram a inefável e
puríssima beleza de Deus, mas não podem possuí-la imediatamente. Santa Catarina de Gênova usa uma expressiva
metáfora para explicar essa dor: "Suponhamos que, no mundo inteiro, exista apenas um pão para matar a fome de
todas as criaturas, e que basta olhar para esse pão para ficarem satisfeitas. Por sua natureza, o homem saudável tem
o instinto de se alimentar.

Imaginemos que ele seja capaz de se abster dos alimentos sem morrer, sem perder a força e a saúde, mas
aumentando cada vez mais a fome. Ora, sabendo que só aquele pão pode saciá-lo e que não poderá matar sua fome
enquanto não o alcançar, ele sofre sacrifícios insuportáveis, os quais serão tanto maiores quanto mais longe ele
estiver do pão".
Apesar de tudo, as almas do Purgatório têm a certeza de que um dia poderão se saciar de modo pleno com esse Pão
da Vida, que é Jesus, nosso amor. E por isso seu sofrimento é em tudo diferente do tormento dos condenados ao
Inferno, os quais nunca poderão se aproximar da Mesa do Reino dos Céus. Esperança e desespero, eis a diferença
fundamental entre esses dois lugares.

Disposição das almas no Purgatório

Por isso, há nas almas do Purgatório um matiz de alegria no meio da dor. De forma brilhante, explica- o o Papa João
Paulo II, na alocução de 3 de julho de 1991: "Mesmo que a alma tenha de sujeitar-se, naquela passagem para o Céu,
à purificação das últimas escórias, mediante o Purgatório, ela já está cheia de luz, de certeza, de alegria, pois sabe
que pertence para sempre ao seu Deus".

E Santa Catarina de Gênova afirma: "Estou certa de que em nenhum outro lugar, excetuando o Céu, o espírito pode
achar uma paz semelhante à das almas do Purgatório". Isso ocorre porque a alma se fixa na disposição em que se
encontra na hora da morte, ou seja, contra ou a favor de Deus, pois a liberdade humana termina com a morte. E
tendo falecido na amizade de Deus, a alma do Purgatório se adapta com docilidade à sua santa vontade. Daí
conservar a paz em meio a terríveis sofrimentos.

Dos lábios do suavíssimo São Francisco de Sales ouvimos dizer que "entre o último suspiro e a eternidade, há um
abismo de misericórdia". Todos acham melhor fazer um esforço para evitá-lo. Outros, porém, sem se oporem aos
anteriores, enfrentam o problema com uma ousada confiança no amor misericordioso do Senhor.

Santa Teresa de Jesus, por exemplo, diz com veemência: "Esforcemo- nos, fazendo penitência nesta vida. Como será
suave a morte de quem a tiver feito por todos os seus pecados, e assim não precisar ir para o Purgatório!" Já sua
discípula, Santa Teresinha do Menino Jesus, formula de modo surpreendente sua atitude, se nele caísse: "Se eu for
para o Purgatório, ficarei muito contente; farei como os três hebreus na fornalha, caminharei entre as chamas
cantando o cântico do amor".

Uma atitude não contradiz a outra, mas ambas se completam, e, mesmo se tivermos de passar por esse lugar tão
doloroso, tenhamos uma confiança sem limites na bondade divina.

De qualquer modo, a Santa Igreja coloca maternalmente à nossa disposição as indulgências, para nos poupar das
penas do Purgatório. Mas este tema pode ficar para outro artigo.

Ajudemos as almas benditas

Não devemos pensar só no nosso destino pessoal, mas também nos perguntarmos como podemos ajudar aquelas
almas que já estão à espera da libertação. Elas não podem fazer nada por si, pois estão impossibilitadas de alcançar
méritos, e dependem de nós. Interceder por elas é uma belíssima e valiosa obra de misericórdia: de certo modo, não
há ninguém mais carente do que elas. O costume de rezar pelas almas dos falecidos vem do Antigo Testamento

Também diversos Padres da Igreja promoveram essa prática, como São Cirilo de Jerusalém, São Gregório de Nissa,
Santo Ambrósio e Santo Agostinho. No século XIII, o Concílio de Lyon ensinava: "As almas são beneficiadas pelos
sufrágios dos fiéis vivos, quer dizer, o sacrifício da Missa, as orações, esmolas e outras obras de piedade, as quais,
segundo as leis da Igreja, os fiéis estão acostumados a oferecer uns pelos outros".

Como é bela a devoção às benditas almas do Purgatório! É agradável a Deus e nos beneficia também, levando-nos à
verdadeira dimensão cristã da existência, fazendo-nos viver em contato e comunhão com o sobrenatural, e com o
futuro, no sentido mais pleno da palavra. Como essas pobres almas nos ficarão agradecidas ao receber nosso auxílio!
Poderão ser nossos parentes, ou até mesmo nossos pais. Poderá ser alguém que não conhecemos, e que nos dará
uma afetuosa acolhida na eternidade. No Céu, e enquanto ainda estiverem no Purgatório, elas rezarão por nós, com
todo o empenho, pois Deus lhes dá essa possibilidade.

Concluindo, gostaria de fazer ao prezado leitor uma proposta: reze por essas almas necessitadas, ofereça- lhes
Missas, dê esmolas por elas, faça sacrifícios e consiga que outras pessoas se tornem devotas fervorosas das almas
benditas. Sabe quem será o maior beneficiado? Você mesmo!

Fontes documentais sobre o Purgatório


A doutrina católica sobre o Purgatório foi definida em especial no Concílio de Florença (1438-1445) e no de Trento
(1545-1563), com base em textos da Escritura (2Mc 12,42-46; 1Cor 3,13-15) e da Tradição, conforme nos ensina o
Catecismo da Igreja Católica (n.1030-1031).

A Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, aborda a questão em seu número 50: "Orações
pelos defuntos, culto dos santos". Em sua solene profissão de fé intitulada Credo do Povo de Deus, feita em 30 de
junho de 1968, o Papa Paulo VI inclui as almas "que se devem ainda purificar no fogo do Purgatório" (n. 28).

O Papa João Paulo II refere- se ao Purgatório em vários documentos: - Mensagem ao Cardeal Penitenciário-Mor de
Roma, 20/3/98; - Carta ao Bispo de Autum, Châlon e Mâcon, Abade de Cluny, 2/6/98; - Audiência Geral de 22/7/98; -
Audiência Geral de 4/8/99; - Mensagem à Superiora Geral do Instituto das Irmãs Mínimas de Nossa Senhora do
Sufrágio, 2/9/2002.

Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XVIII, p.111 à 118 e 129 à 137 Revista Arautos do Evangelho, Nov/2006,
n. 59, p. 34 a 37

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no linkhttp://www.gaudiumpress.org/content/52369-Um-local-


misterioso-entre-o-Ceu-e-a-Terra#ixzz2sG4r0tgs

Enfrentou o martírio aos 13 anos de idade


Não tinha Santa Inês mais do que doze ou treze anos, quando sofreu o martírio. Segundo velhos arquivos,
voltava da escola, quando o filho do prefeito de Roma dela se enamorou. Após informar-se acerca dos pais da jovem,
ofereceu-lhe vestidos mais esplendidos, valiosas pedrarias, e prometeu-lhe outras coisas, riqueza, casas, todas as
delícias do mundo, no caso dela consentir em desposá-lo. Inês repeliu com desprezo os presentes, e disse ao jovem
que estava noiva de um varão muito mais nobre que ele, o qual já lhe dera presentes muito mais inestimáveis. O
filho do prefeito, desesperado, caiu doente. Os médicos descobriram-lhe a causa do mal e advertiram o pai, o
prefeito Sinfrônio, que mandou renovar à virgem as ofertas e os pedidos. Respondeu-lhe Inês que nunca faltaria ao
compromisso com o noivo. Achou o prefeito bastante estranho que houvesse outro preferido e tratou de indagar
quem seria.

Um dos seus seguidores disse-lhe, então, que a jovem era cristã desde a infância, e que, enfeitiçada por
artes mágicas, chamava a Cristo seu esposo. Radiante com o descobrimento, mandou o prefeito a conduzissem, com
aparato, ao seu tribunal. Inês foi igualmente insensível às lisonjas e às ameaças. Chamou o prefeito os pais da jovem,
e não podendo maltratá-los, por serem nobres, apresentou a acusação do cristianismo.

No dia seguinte, pois, em seguida a novos e inúteis esforços para a persuadir, disse-lhe: "- É a superstição
dos cristãos, de quem te gabas de conhecer as artes mágicas, que te impede seguir bons conselhos. É preciso,
portanto, que vás imediatamente para a deusa Vesta, a fim de que, se te apraz a virgindade perpétua, cuides noite e
dia dos seus augustos sacrifícios." Respondeu a santa: "- Se, por amor a Cristo, recusei vosso filho o qual, embora
torturado por um amor sem regra, não deixa de ser homem vivo, capaz de raciocinar e de sentir, como poderei,
ultrajando o Deus supremo, adorar ídolos mudos, surdos, insensíveis, inanimados, pedras inúteis numa palavra."
Retrucou o prefeito: "Escolhe de duas uma: ou sacrificarás à deusa Vesta com as suas virgens, ou te prostituirás, num
péssimo lugar, com as filhas de má vida."

Disse-lhe Inês com segurança: " Se soubésseis qual é o meu Deus, não falaríeis dessa maneira. Eu, que sei
qual a força de meu Senhor Jesus Cristo, desprezo as vossas ameaças, certa de que me não poluirão as impurezas
alheias, como não sacrificarei aos vossos ídolos; tenho comigo, como guarda do meu

corpo, o anjo do Senhor." Com efeito, tendo sido levada a um antro de prostituição, lá se lhe deparou a anjo do
Senhor, que a circundou de uma luiz tão esplendorosa que ninguém a podia ver.

Tendo começado a orar, percebeu na sua frente uma túnica branca com a qual se cobriu, abençoando a Deus.
O lugar de infâmia tornou-se, assim, lugar de prece e piedade. Quem quer que lá entrasse, sentia-se tocado por um
aspecto religioso à vista daquela luz inesperada, e saía mais puro do que quando entrava. O filho do prefeito,
chamando a todos de covardes, atirou-se ao meio da luz, mais caiu cegado e até, segundo os atos, sem vida. Um dos
seus companheiros, ao vê-lo morto, pôs-se a gritar: "Socorro! Uma prostituta, por artes mágicas, matou o filho do
prefeito!" O povo atirou-se ao recinto, gritando: - "É uma feiticeira! - É inocente! - É um sacrilégio!" O prefeito,
sabedor da morte do filho, acorreu precipitadamente, aflito, dizendo à santa que era a mais cruel dentre todas as
mulheres, e perguntando-lhe de que modo havia matado o filho. Respondeu ela que o rapaz fora sufocado pelo
impuro demônio cujos desígnios tratava de levar a efeito.

Era manifesta a prova, pois os que haviam respeitado a luminosa presença do anjo, tinha saído são e
salvos. O prefeito respondeu-lhe que acreditaria nas suas palavras, se ela rogasse ao anjo devolver-lhe o filho. "Se
bem que o não mereça a vossa fé, retrucou a jovem, sendo tempo de manifestar-se o poder de meu Senhor Jesus
Cristo, saí todos, para que eu lhe ofereça a prece habitual." Saíram todos,, e ela se prosternou, e rogou ao Senhor,
com lágrimas, que ressuscitasse o jovem. O anjo, aparecendo, devolveu-lhe a vida. O jovem começou a bradar: "Só
há um Deus no céu e na terra, e é o Deus dos cristãos."

Àquelas palavras, todos os arúspices e pontífices dos templos estremeceram, e instigaram o povo à
sedição. Todos gritam: "Abaixo a feiticeira, que muda opiniões e transtorna!" O prefeito diante de tão grandes
maravilhas, ficou estupefato. Mas temia a proscrição, no caso de agir contra os pontífices e defender Inês contra a
sua própria sentença. Assim, tristemente, deixando no seu lugar o substituto, afastou-se. O substituto, chamado
Aspásio, mandando que se acendesse uma grande fogueira, a ela atirou a santa. Mas as chamas, afastando-se para
um lado e outro, queimaram vários dos espectadores. Inês, de braços estendidos, abençoava a Deus pelas suas
maravilhas, quando o fogo se apagou de súbito. Os pagãos mais ainda bradavam contra a feitiçaria. O substituto, não
encontrando outro meio para apaziguar os ânimos enfurecidos, deixou que a santa morresse pelo gládio.

(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume II, p. 73 à 77)

MARTÍRIO DE SÃO JOÃO BATISTA


João, cujo nascimento celebramos a 24 de Junho, deixa o mundo desde sua primeira infância; deixa mesmo a casa
paterna que era todavia uma casa de santos e retira-se para o deserto, longe do bulício dos homens, para só
conversar com Deus. Tem como veste apenas um rude cilício de pele de camelo, um cinto também tão espantoso
sobre os rins; como alimento, gafanhotos e mel silvestre; e na sede, água pura. Exposto às intempéries e não tendo
outro retiro que os rochedos, sem recurso, sem servidores, e sem outra manutenção; essa a vida que leva João
Batista, desde a infância. Queixamo-nos ainda agora!

Mas eis aqui uma privação bem mais surpreendente. João Batista tinha sentido sobre a terra o Verbo Encarnado,
desde o seio de sua mãe; o pai tinha-lhe predito que ele seria o profeta e devia preparar-lhe o caminho. Entretanto,
ele não deixa o deserto para o ir ver entre os homens; ele o conhece tão pouco, que será necessário que o Espírito
Santo lhe dê um sinal, para o conhecer, quando chegar o tempo de o manifestar ao mundo. Todavia, ele ocupa-se
sem cessar de Jesus, sem cessar ele medita em sua grandeza, sem cessar ele o adora em silêncio, sem cessar o
escuta dentro de si. Ele não tem curiosidade de o ver com os olhos do corpo: é que ele sabe que Jesus opera
invisivelmente, de longe como de perto. Eis quem deve servir e amar a Jesus, não mais como criança, que é preciso
nutrir de leite, de consolações sensíveis, mas como homem feito, que se nutre de alimento sólido, que se nutre de
privações e de sofrimentos. Somos assim?

Morrei, delicadeza no beber e no comer, delicadeza nas vestes, delicadeza no dormir; morreu, orgulho humano;
morrei, curiosidade, ambição, desejo de aparecer. Se, como João Batista, queremos preparar os caminhos para
Jesus, introduzi-los nos nossos corações e nos corações dos outros, como João Batista, morramos a toda vista
humana, a todo afeto da carne e do sangue.

Há quinhentos anos não aparecia mais profeta. Mas uma grande novidade se espalha: um profeta veio do deserto e
prega nas margens do Jordão. É o filho de Zacarias e de Isabel; seu nome é João; seu nascimento foi maravilhoso; sua
vida é ainda mais maravilhosa. Não come, não bebe, por assim dizer; vive de gafanhotos e de mel silvestre. Seu
vestuário é um rude cilício com um cinto de couro. Fazei frutos dignos de penitência, diz, porque o reino de Deus
está próximo e o Messias vai aparecer. Toda a Judéia, toda Jerusalém para lá acorre e recebe o batismo de
penitência, confessando os pecados. Corramos nós também à pregação desse admirável missionário; nós também
confessemos os pecados e recebamos o batismo da penitência, para nos prepararmos à vinda de Jesus Cristo, a
nossos corações.
Que multidão de pecadores abraça a penitência! João dizia-lhes: Já o machado está posto à raiz das árvores; toda
árvore que n]ao der bons frutos será cortada e atirada ao fogo. Que faremos então? Perguntava a multidão do povo.
Mestre, que faremos? Perguntavam os publicanos. E nós também, perguntavam os soldados, que faremos? E ele
dizia a cada um o que devia fazer, e todos o faziam. Os maiores pecadores, as mulheres de má vida, acreditavam na
pregação, convertiam-se e ganhavam o céu. Os fariseus ao contrário, os escribas, aqueles que se consideravam
sábios e justos, não acreditavam e não se convertiam.

Temamos que, em nos ocupando de ciência, observando uma regularidade exterior, nos não enchamos de orgulho,
como os escribas e os fariseus, e não percamos, como eles, o espírito de penitência e de compunção. Talvez os
pecadores do mundo, cujos escândalos deploramos, se convertam e nos precedam no céu, ao passo que, árvores
cheias de flores e de folhas, mas sem bons frutos, seremos cortados e atirados ao fogo. Deus nos livre de tal
calamidade!

A admiração que se teve pelo santo precursor foi logo tão grande, que o povo tinha o espírito suspenso e todos
pensavam se João não seria Cristo. Mas João respondeu a todos: Eu vos batizo na água para a penitência; mas
aquele que deve vir depois de mim é mais poderoso que eu e não sou digno de lhes desatar as correias das sandálias
(como faria um escravo ao senhor). Não, não sou digno de me prostrar diante dele, para lhe desatar a correia da
sandália. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Tem o abano na mão e limpará a eira; ajuntará o trigo no
celeiro e queimará a palha num fogo que jamais se extinguirá.

Não somente o povo tinha de João tão alta idéia. A cidade de Jerusalém manda-lhe uma solene delegação de padres
e de levitas, para lhe perguntar se era o Messias. Ele respondeu claramente: Não sou Cristo. - Como então? Sois
Elias? - Não. - Sois um profeta? - Não. - Que sois, então? Que dizeis de vos mesmo? - Eu sou a voz daquele que clama
no deserto: Endireitai os caminhos do Senhor, como disse o profeta Isaías. - Mas, se não sois nem Cristo, nem Elias,
nem profeta, porque, então, batizais? - Eu vos batizo, respondeu ele, na água, mas há no meio de vós quem não
conheceis; deve vir depois de mim; e não sou digno de lhes desatar os cordões das sandálias. - Esse era João Batista.
Quanto mais o elevam, mais ele se abaixa, mais atribui a Jesus somente toda sua glória.

Entretanto, como o Senhor mesmo nos afirma, João era Elias em espírito e em virtude, se não o era em pessoa, era
profeta e mais que profeta, porque devia não somente anunciar o Cristo futuro, mas mostrá-lo já vindo, batizá-lo
com suas mãos. E com isso se julga indigno de lhes prestar os mais humildes serviços, de desatar-lhe as sandálias. Ó
minha alma, ousaremos ainda glorificarmo-nos de alguma coisa? Orgulhamo-nos de vãos louvores que se nos dão,
cobiçar os que nos não dão! Quem somos, perto de João Batista?

No meio dessa multidão de pecadores, que se apresentam a João para receber o batismo de penitência, há um que
ele recusa receber e admitir ao mesmo. Quem é? É Jesus, que vem da Galiléia ao Jordão e se apresenta a João para
ser batizado. O senhor apresenta-se ao servo, o criador à criatura. Deus ao homem? O Santo dos Santos, confunde-
se entre os pecadores, o Juiz entre os culpados. João o tinha reconhecido e adorado desde o seio de sua mãe,
reconhece-o de novo e o adora. Eu, diz ele, inclinando-se diante de Jesus, eu é que tenho necessidade de ser por vós
batizado; e vós vindes a mim! - Ó bem-aventurado João, obtende-me de Jesus vossa humildade.

Que vais fazer Jesus? Que dirá? Deixai-me agir agora, pois convém que cumpramos toda a justiça. Jesus, tendo
tomado sobre si as iniqüidades de todos, era justo, era conveniente que se misturasse aos pecadores. Tendo vindo
principalmente para nos curar do orgulho, da vaidade, da rebelião para com Deus, era conveniente que nos desse o
exemplo de humildade, de abaixamento. Admiremos essa maravilhosa questão entre o senhor e o servo. Quem se
colocará mais abaixo do outro? Ai! Nossas discussões são da mesma natureza? Entre nós não é quem mais se eleva
acima do outro? Quão pouco nos assemelhamos a Jesus e a João Batista! Ó Divino Mestre, tende piedade de nós,
tende piedade de mim! Dai-nos, dai-me ser doce e humilde de coração, como vós e vosso santo precursor.

A humildade de João era sincera e ele obedeceu à ordem de Jesus. Ambos descem ao Jordão. O rio, que se tinha
detido outrora diante da arca da aliança, para deixar passar o povo de Deus, sob o comando de Josué ou Jesus; o
Jordão estremece de alegria desconhecida: suas águas rodeiam, com respeito, a carne adorável do Filho de Deus
feito homem; correm com pesar; correm, santificadas por aquele contato a santificar todas as águas do universo e
comunicar-lhes a virtude de apagar os pecados pelo batismo. Entretanto, o bem-aventurado João põe sobre a
cabeça sagrada de Jesus uma mão agitada pelo respeito e pela alegria e batiza seu Senhor e seu Deus; Jesus está
imerso nas águas; afoga os pecados do mundo e delas sai para criar um mundo novo, um homem novo.
Ao sair do deserto, aonde tinha ido depois do batismo e triunfado do demônio, Jesus caminhava ao longo do Jordão.
João viu-o vir para seu lado e disse: Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tora os pecados do mundo. Todos os dias,
de manhã e de noite, imolava-se no templo um cordeiro e a isso se chamava o sacrifício perpétuo. Como se São João
tivesse dito: Não acredites que esse cordeiro, que se oferece dia e noite, seja o verdadeiro cordeiro, a verdadeira
vítima de Deus; eis aquele que se pôs, entrando no mundo, no lugar de todas as vítimas; também ele é a vítima
pública do gênero humano, e somente pode expirar ou tirar aquele grande pecado que é a fonte de todos os outros
e que por isso pode ser chamado de pecado do mundo, isto é, pecado de Adão, que é o pecado de todo o universo.

Esse cordeiro já foi imolado em figura; e pode-se dizer, na verdade, que foi morto e posto à morte desde a origem do
mundo. Foi massacrado em Abel, o Justo: quando Abrão quis sacrificar o filho, começou em figura o que devia ser
terminado em Jesus Cristo. Vemos também cumprir-se nele o que começaram os irmãos de José, Jesus foi odiado,
perseguido até à morte por seus irmãos; foi vendido na pessoa de José, atirado a uma cisterna, isto é, entregue à
morte; esteve com Jeremias no lago profundo, com os moços na fornalha ardente, com Daniel na cova dos leões. Era
imolado em espírito em todos os sacrifícios. Estaca no sacrifício de Noé, oferecido ao sair da arca, quando viu no céu
o arco-íris como sacramento da paz; no que os patriarcas ofereceram nas montanhas , no que Moisés e toda a lei
ofereciam no tabernáculo e depois, no templo; e não tendo jamais deixado de ser imolado em figura, vem agora, sê-
lo em verdade.

Cada dia, assistimos ao sacrifício adorável onde esse cordeiro de Deus, continua a se imolar pelos pecados do
mundo. Cada dia mesmo, podemos aí comer a carne adorável dessa vítima. O padre diz-nos como outrora São João:
- Ecce agnus Deu, ecce qui tollit peccata mundi; - eis o cordeiro de Deus, eis aquele que tora os pecados do mundo.
Creiamos, adoremos; mas creiamos, adoremos com a fé dos patriarcas e dos profetas, com a fé de São João Batista.

Um dia os discípulos de João lhe vieram dizer: Mestre, aquele que estava convosco além do Jordão e a quem destes
testemunho, batiza e todos vão a ele. Julgavam que tendo ele também vindo a João, para ser por este batizado, não
se devia abandonar a João por ele. Escutemos a resposta de João: "O homem nada pode receber, se não lhe for dado
pelo céu. Vós me prestais testemunho de que eu disse: Aquele de quem é a esposa é o esposo; mas o amigo do
esposo que assiste e escuta é transportado de alegria pela voz do esposo. E por isso minha alegria completa-se. É
preciso que ele cresça e que eu diminua". Meditemos bem nestas últimas palavras.

Os discípulos de João viam, com uma espécie de inveja, que o mestre era abandonado para ir a Jesus. Seu mestre, ao
contrário, estava no auge da alegria, por isso. Tinha vindo anunciar Filho de Deus feito homem, anunciá-lo como
esposo da natureza humana, esposo da Igreja, esposo de nossas almas. Esse divino esposo tinha começado a fazer
ouvir sua voz e João com isso ficou fora de si, pela alegria: está no auge de seus desejos. É preciso, diz, que cresça e
que eu diminua. Palavras admiráveis! Quem nos dera imitá-lo? Quem nos dera procurar a glória de Jesus, às custas
da nossa?

Os discípulos de João ficaram com inveja por causa de seu mestre. Algo de semelhante nos pode acontecer. Pode
acontecer que no mesmo bem sejamos invejosos uns dos outros, que vejamos com pesar que outro faça melhor que
a nossa. Ah! Meus irmãos ou irmãs, sejamos invejosos pela glória de Jesus, nosso mestre único. Que todos nos
abandonem para ir a Jesus; que a glória de Jesus aumente, sem cessar e que a nossa diminua: como São Jão
deveremos por isso estar no auge da alegria.

Quando João estava na prisão, soube dos discípulos as obras do Cristo;mandou dois deles dizer-lhe: "Sois vós quem
deveis vir, ou devemos esperar outro?" O fim de João era curar os discípulos da má disposição em que estavam, com
relação a Jesus e dar-lhe ocasião de reconhecer, por eles mesmos, que era verdadeiramente o Messias, que
esperavam, segundo o testemunho que lhes tinha dado. Esses homens foram ter com Jesus e disseram-lhe: "João
Batista mandou-nos . dizendo: sois o que deve vir ou devemos esperar outro?" No mesmo instante ele curou vários
doentes de suas chagas, bem como libertou alguns possessos do demônio e grande número de pessoas e deu a vista
aos cegos. E respondendo disse: "Ide, contai a João o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos andam, os
leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e o Evangelho a boa nova, é anunciada aos
pobres. E bem-aventurado o que não se escandalizar de mim".

Sua resposta mostrava a realização destas palavras de Isaías: Eis que deve vir Deus mesmo e ele vos salvará. Então
serão abertos os olhos dos cegos, os ouvidos dos surdos; então curvar-se-á como um cervo coxo e será livre a língua
dos mudos. Jeová enviou-me para pregar o Evangelho aos pobres. Acrescenta uma advertência para eles e para os
judeus de não se escandalizarem, se se chocarem nele, pedra angular, fundamento de salvação para uns, mas pedra
de escândalo para outros.

Depois que os enviados partiram, Jesus se pôs a falar de João à multidão: "A quem fostes ver no deserto? Um caniço
agitado pelo vento? Mas a quem fostes ver? Um homem molemente vestido? Eis que os que se cobrem de vestes
preciosas e vivem nas delícias estão nos palácios dos reis. Mas a quem fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos digo e
mais que um profeta. Pois dele está escrito: eis que envio meu anjo, diante de tua face, o qual preparará a estrada
por onde deves caminhar. Na verdade, eu vos digo, entre os que nasceram de mulher não há profeta maior do que
João Batista; mas aquele que Oe menor no reino de Deus é maior do que ele. Era Jesus mesmo menor que João na
idade, mas maior em tudo o mais. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus sofre
violência e os violentos o arrebatam. Pois até Jesus, todos os profetas e a lei profetizaram; mas ele mostrou a
realização. E se o quereis ouvir, é ele, Elias, que deve vir. Quem tem ouvidos, para ouvir, ouça.

Herodes, o Tetrarca, tinha mandado prender João e o acorrentar na prisão, por causa de Herodíades, mulher de
Filipe, seu irmão, a quem tinha desposado; porque João disse a Herodes: Não vos é permitido ter a mulher de vosso
irmão. Herodes queria fazê-lo morrer; mas temia o povo, porque se tinha a João por grande profeta. Entretanto,
armava-lhe ciladas e o queria matar, mas não podia, porque Herodes, que temia João, sabendo que era homem
justo e santo, fazia-o conservar, agindo mesmo em muitas coisas por seu conselho e escutando-o de boa vontade.

Por fim, chegou um dia favorável: o do nascimento de Herodes, no qual ele deu um banquete aos príncipes, aos
tribunos militares e aos principais da Galiléia. A filha de Herodíades dançou diante de Herodes e de tal modo lhe
agradou e aos que estavam à mesa, que ele lhe disse: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. E jurou: Eu te darei
tudo o que me pedires, meso que seja a metade de meu reino. Ela saiu e foi falar com sua mãe. Que pedirei? Sua
mãe respondeu-lhe: A cabeça de João Batista.

Voltando imediatamente com grande ânsia para a sala, onde o rei estava, ela fez-lhe o pedido, dizendo: "Quero que
me deis agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Batista." O rei ficou muito aflito; entretanto, por causa do
juramento que tinha feito e daqueles que estavam à mesa, com ele, não aquis contristar, com uma recusa. Assim,
tendo chamado um de seus guardas, ordenou-lhe que trouxesse a cabeça de João numa bandeja. E o guarda cortou-
lhe a cabeça na prisão e a trouxe numa bandeja; deu-a à moça e a moça a entregou à mãe.

Os Apóstolos viam na sorte de São João um comentário falante do que Jesus lhes acabava de dizer sobre os
obstáculos que encontrariam no mundo. João tinha vindo anunciar a paz, reconciliar os pais com os filhos e prepará-
los para a vinda de Cristo. O povo crê na sua palavra e o reverencia como a um profeta; mas os fariseus dizem que
ele é possesso do demônio. O tetrarca da Galiléia Herodes Antigas, considera-o um justo e um santo, mas tem medo,
porque aquele santo repreende-o de seus crimes, em particular de seu incesto. Herodes tinha desposado a filha de
Aretas, rei dos árabes, mas tendo visto Herodíades, mulher de seu irmão. Herodes Filipe, concebeu por ela uma
paixão criminosa e prometeu-lhes despedir a primeira mulher para desposá-la. A lei de Moisés ordenava ao irmão
desposar a viúva do irmão falecido, sem filhos. Mas Herodíades não era viúva, o marido ainda vivia, e tinha, dentre
outras, uma filha, Salomé a dançarina. Era então, sob todos os aspectos, um enorme escândalo. Ademais, uma
guerra surgiu entre Arestas e Herodes, onde os judeus sofreram sangrenta derrota. João defendia a causa de Deus e
a causa da humanidade, quando disse: Não vos é permitido ter a mulher de vosso irmão. O justo é posto na prisão
pelo culpado. Herodes teria querido fazê-lo morrer imediatamente: uma coisa, porém, lhe impedia, o temor do
povo. Chegou a festa de seu aniversário, dia de regozijo e de graças: estava sentado no banquete, entre prazeres;
uma moça, a mesma cuja honra as censuras de João tendiam a vingar, recebeu a promessa de obter tudo o que lhe
pedisse. Pedirá talvez a liberdade de João, seu vingador, seu benfeitor. Ela quer sua cabeça, entre outras iguarias da
mesa. Ao público, teve-se o cuidado de dizer, como vemos no historiador Josefo, que isso se tinha feito por razões
de estado, por medidas de alta política, para a segurança do reino, ao passo que era apenas um assassínio em favor
do adultério e do incesto. E eis a história de todas as oposições, que o Evangelho ou a verdade encontram no
mundo.

Os discípulos de João, tendo sabido de sua morte, vieram buscar-lhe o corpo e o puseram num túmulo, Depois,
foram contar a Jesus o que tinha acontecido.

Fotos: santiebeati.it
(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XV, p. 324 à 335)
Fonte:

http://www.arautos.org/noticias/39916/Martirio-de-Sao-Joao-Batista.html

São Francisco de Assis - 4 de Outubro


No início do décimo-terceiro século, havia na cidade de Assis, um homem oriundo de estirpe nobre, mas que se
fizera mercador e dispunha de avultada fortuna. Tinha um filho, que se chamava João. Como o seu comércio
obrigava a constantes contatos com os franceses, fez questão que o filho aprendesse francês.

João chegou a falar tão bem essa língua, que recebeu a alcunha de François (Francisco), sob a qual é conhecido.
Unicamente preocupados como os negócios, os pais do jovem Francisco haviam negligenciado a sua educação.

Este, a princípio, mostrava-se muito inclinado aos vãos divertimentos mundanos e a adquirir riquezas. Entretanto,
obrigara-se a dar esmola a todo e qualquer pobre que a pedisse pelo amor de Deus.

Certa vez em que, muito ocupado, se recusara a atender um mendigo, arrependeu-se, e correu atrás dele para
entregar-lhe o óbulo solicitado.

Outra vez, recuperando-se de grave moléstia, mandou fazer roupas luxuosas e montou a cavalo, disposto a divertir-
se um pouco.

De súbito, porém, no meio de uma planície, apeia-se, despoja-se das vestes, troca-as pelos andrajos de um mendigo,
cuja miséria lhe comovera o coração.

Essa fidelidade às primeiras graças é recompensada por Deus com graças ainda maiores.

Certo dia, ao dar com um leproso que se aproximava, o primeiro impulso de Francisco foi recuar, horrorizado,
Recuperando-se, porém, beija o leproso e dá-lhe esmola, Era assim que aquele filho de mercador fazia seu
aprendizado na virtude. Finalmente decidido a chegar à perfeição, Francisco só achava prazer na solidão e pedia a
Deus, incessantemente, que lhe desse a conhecer a vontade.

Muitas vezes visitava os hospitais, onde carinhosamente se punha a serviço dos enfermos; chegava a beijar-lhes as
úlceras, sem dar atenção às fraquezas e repulsas da natureza. Quando não dispunha de dinheiro para distribuir entre
os pobres, dava-lhes suas próprias roupas. Irritado com as suas prodigalidades, o pai fê-lo comparecer perante o
bispo de Assis para que renunciasse aos seus bens.

Francisco devolveu-lhe até mesmo as roupas que usava, e cobriu-se com um surrado capote de camponês, que
alguns dias mais tarde, substituiu por um manto de eremita.

Dois anos depois, durante uma missa a que assistia, ficou extremamente impressionado com as palavras do
Evangelho: "Não queirais possuir ouro nem prata, nem tragais dinheiro em vossas cinturas, nem alforge para o
caminho, nem duas túnicas, nem calçado, nem bordão".

Obedeceu-lhe literalmente e aplicou-as a si mesmo; e, depois de jogar fora seu dinheiro, de tirar os sapatos e
abandonar o cajado e o cinto de couro, vestiu um pobre hábito, que amarrou com uma corda.

Era o traje habitual dos pastores e dos pobres camponeses daquele cantão da Itália.

Foram esses os primórdios de São Francisco; como seriam os dias que viriam depois? Possa eu terminar por onde ele
começou!

Meu Deus, quando medito na vida de vossos santos, cada vez mais me convenço de que nada valho e de que nada
faço. E assim mesmo chego a imaginar muitas vezes que sou qualquer coisa, que faço qualquer coisa! Meu Deus,
tende piedade da minha miséria e do meu orgulho. Concedei-me a graça de fazer com que me despreza e me
aborreça, mas sem impaciência, e sem desconfiar da vossa misericórdia.

São Francisco tronou-se o patriarca de uma ordem religiosa que se espalhou pela terra inteira. Deu ao seus monges
o nome de "Irmãos Menores", ou "Irmãozinhos", para distingui-los dos religiosos de São Domingos, denominados
"Irmãos Pecadores".

No decorrer do tempo, receberam também as alcunhas de "franciscanos", e de "Cordeleiros", porque cingiam a


cintura com uma corda. Dividiram-se em várias famílias, das quais a dos Capuchinhos é a que mais estritamente
observa a pobreza. Francisco dizia que o espírito da pobreza era o fundamento da sua ordem. Seus religiosos nada
possuíam que lhes pertencesse exclusivamente. Também não permitia que recebessem dinheiro, apenas as coisas
necessárias à subsistência diária.

Chamava a pobreza sua dama, sua rainha, sua mãe, sua esposa, reclamava-a insistentemente de Deus, como seu
quinhão, seu privilégio: "Ó Jesus, vós que vos comprouvestes em viver na extrema pobreza, fazei-me a graça de
conceder-me o privilégio da pobreza. Meu desejo mais ardente é ser enriquecido com esse tesouro, Peço-o para mim
e para os meus, a fim de que para a glória do vosso santo nome nada possuamos, nunca, sob o céu, para que
devamos nossa própria subsistência à caridade dos outros e por isso mesmo sejamos muito moderados e muito
sóbrios".

O amor de Francisco pela obediência não era menos digno de admiração.

Com freqüência era visto consultando os últimos de seus irmãos, embora fosse dotado de rara prudência e até
mesmo do dom da profecia. Nas suas viagens costumava prometer obediência ao religioso que o acompanhava.

Considerava a propensão que tinha para a obediência uma das maiores graças que Deus lhe concedera, pois com a
mesma facilidade e presteza obedecia tanto um simples noviço como ao mais antigo e prudente dos frades; dizia,
justificando-se, que devemos considerar não a pessoa a quem obedecemos, mas à vontade de Deus manifestada
através da vontade dos superiores.

Vemos como São Francisco amava a pobreza e a obediência. E, nós, será que amamos? E, nós, será que as
praticamos?

Quanto à milagrosa impressão dos estigmas de São Francisco, é comemorada no dia 17 de setembro.

Tinha particular afeição pelas cotovias. Comprazia-se em admirar na plumagem desses pássaros o matiz pardo e
acinzentado que escolhera para a sua ordem, a fim de dar aos frades freqüentes ocasiões para meditarem na morte,
na cinza do túmulo. Ao mostrar aos seus discípulos a cotovia que se erguia nos ares e se punha a cantar, depois de
ter apanhado alguns grãozinhos no chão, dizia alegremente: "Vede, elas nos ensinam a dar graças ao Pai comum que
nos proporciona alimento, a comer apenas para a sua glória, a desprezar a terra e a elevar-nos ao céu, onde
devemos nos entreter."

Certa vez, quando pregava no povoado de Alviano e não conseguia ser ouvido por causa da algazarra das andorinhas
que tinham construído o ninho naquele lugar, a eles se dirigiu nestes termos: "Irmãs andorinhas, já falastes
bastante, chegou agora a minha vez de falar. Escutai a palavra de Deus e ficai em silêncio enquanto eu pregar".

As avezinhas não soltaram mais um único pio, e não se mexeram do lugar em que se encontravam. São Boaventura,
que narra o fato, acrescenta que, sentindo-se um estudante de Paris incomodado com o chilrear de uma andorinha,
disse a seus condiscípulos: "Devem ser uma das que perturbavam o bem-aventurado Francisco no seu sermão e à
qual mandou calar-te".Depois disse à andorinha: "Em nome de Francisco, servo de Deus, ordeno-te que te cales e que
te chegues a mim". Imediatamente o pássaro se calou e pousou-lhe na mão. Surpreso, ele a deixou ir, e não foi mais
importunado. Era assim que Deus se comprazia em honrar o nome do seu servo.
Um dia, quando São Francisco se preparava para tomar a refeição em companhia do irmão Leão, sentiu-se
intimamente confortado ao ouvir o canto de um rouxinol.

Pediu a Leão que também cantasse os louvores de Deus, alternando sua voz com a do pássaro.

Como o religioso se desculpasse, alegando falta de voz, o santo pôs-se a responder ao rouxinol, e assim continuou
até à noite, quando foi obrigado a interromper-se, confessando com santa inveja que o passarinho o derrotara. Fê-lo
pousar na sua mão, louvou-o por ter cantado tão bem, deu-lhe de comer, e só depois de ter recebido a sua benção,
e com a sua permissão, foi que o rouxinol voou.

Quando, pela primeira vez, visitou o monte Alvergue, viu-se rodeado por uma multidão de pássaros que lhe
pousaram na cabeça, nos ombros, no peito e nas mãos, batendo as asas e demonstrando com o movimento de suas
cabecinhas o prazer que lhes causava a chegada de seu amigo. "Vejo, disse Francisco a seu companheiro, vejo que
devo permanecer aqui, pois meus irmãozinhos estão contentes."

Durante uma estada sua nessas montanhas, um falcão, aninhando nas proximidades, afeiçoou-se ao santo homem;
anunciava-lhe com um grito que chegara a hora em que costumava rezar; e, se Francisco se encontrava doente,
dava-lhe o aviso uma hora mais tarde a fim de poupá-lo; e quando, ao romper do dia, sua voz, como um sino
inteligente, tocava as matinas, tinha o cuidado de atenuá-la e suavizar-lhe a sonoridade.

Era, afirma São Boaventura, o divino presságio dos grandes favores que o santo receberia nesse mesmo lugar.

Se isso nos surpreende é por nunca termos suficientemente meditado no mistério a que se refere São Paulo, ao
dirigir-se aos cristãos de Roma: "A natureza inteira, criada para glorificar a deus, está sujeita, embora a contragosto,
à vaidade do homem; sofre, e espera que os filhos de Deus a libertem. Pois a própria criação só será libertada dessa
servidão corrupta por uma certa participação na glória dos filhos de Deus, na glória dos santos." É o que ensina o
Apóstolo.

Não deve surpreender aos cristãos, pois, o fato de sofrerem as criaturas com a sujeição em que as mantém os
pecadores, de se alegrarem à vista dos santos que lhes iniciam a libertação, lhes testemunharem à sua maneira um
respeito religioso e lhes obedecerem à voz, como muitas vezes vimos fazer os leões e os ursos dos anfiteatros, que
se deitavam familiarmente aos pés dos mártires, e os animais do deserto, que obedeciam à voz de Santo Antão.

Entre os animais, São Francisco amava particularmente os que podiam simbolizar a mansuetude de Jesus Cristo, ou
figurar qualquer virtude.

O cordeiros evocavam-lhe o dulcíssimo Cordeiro de Deus, que se deixava conduzir à morte para remir os pecados do
mundo. Quando passava ao longo das pastagens, saudava amigavelmente os rebanhos, e as ovelhas aproximavam-
se dele e festejavam-no à sua maneira. Mais de uma vez resgatou cordeiros a caminho do matadouro.

Ao mesmo tempo dominava a ferocidade dos lobos e fazia pactos com eles. Certo dia, quando viajava de Grécio a
Cotannelo com um camponês, os lobos achegaram-se e acariciaram-no como fazem os cães.

Testemunhando o prodígio, os habitantes dos arredores suplicaram a São Francisco que os livrasse dos dois grandes
flagelos que os atormentavam, os lobos e o granizo. Disse-lhes São Francisco: "Pela honra e pela glória de Deus
Todo-Poderoso, dou-vos minha palavra que, se crerdes em mim e tiverdes piedade de vossas almas fazendo uma boa
confissão e dignos frutos de penitência, o Senhor vos considerará favoravelmente, vos livrará dessas calamidades e
tornará vossa terra abundante em toda a espécie de bens. Mas também vos declaro que, se fordes ingratos, se
fizerdes como o cão que retorna ao vômito, Deus ainda mais irritado ficará contra vós, e dobrará vossas dores e
tribulações".
Enquanto os habitantes do vale de Grécio permanecerem fiéis a Deus, os lobos não comerão seus rebanhos, e a
nuvem, pesada de saraiva e de tempestade, desviar-se-á de suas terras para desfazer-se noutro lugar.

No tempo em que São Francisco morava na cidade de Eugúbio, um lobo assolava aquela região, e cidadãos armados
andavam à sua procura como se fosse um inimigo público.

Não obstante as súplicas dos irmãos, São Francisco dirigiu-se, sozinho, ao encontro do lobo. Assim que avistou,
ordenou-lhe, em nome de Deus, que não fizesse mais devastações, e o feroz animal, que se tornou manso como um
cordeiro, foi deitar-se aos pés do santo.

Este assim lhe falou: "Meu irmão lobo, tu atacas e matas as criaturas de Deus, és um assassino, e toda a região tem
horror a ti. Mas quero, irmão lobo, que falcas a paz com ela. Como é a fome que te conduz ao mal, quero que me
prometas não mais praticá-lo, se te alimentarem". Em sinal de consentimento, o lobo inclinou profundamente a
cabeça. "Dá-me um penhor da tua palavra", continuou o santo homem, estendendo-lhe a mão.

O lobo ergueu com naturalidade a pata dianteira e pousou-a na mão de seu amigo e senhor, e depois o acompanhou
à cidade. São Francisco disse ao povo que se reunira para admirar tão grande maravilha: "Entre outras coisas, Deus
permitiu esse flagelo por causa dos pecadores; mas as chamas eternas do inferno são bem mais temíveis aos
condenados do que a ferocidade de um lobo, que só pode matar o corpo. Meus irmãozinhos, convertei-vos a Deus, e
fazei penitência, e Deus vos livrará do lobo, no tempo, e do inferno, na eternidade. Meu irmão lobo, aqui presente,
prometeu-me fazer um pacto convosco, se do vosso lado prometerdes dar-lhe todos os dias o alimento necessário." O
povo, por aclamação, comprometeu-se a fazê-lo.

O lobo novamente deu mostras do seu consentimento e, durante dois anos consecutivos, veio à cidade, de casa em
casa, reclamar alimento, como fazem os animais domésticos; e os habitantes ficaram muito pesarosos quando
morreu, pois representava para eles um memorial da virtude e da santidade de Francisco.

Por amizade para com as abelhas, Francisco mandava levar-lhes, durante o inverno, mel ou bom vinho para
alimentá-las e aquecê-las. Amava a água por ser símbolo da penitência e por ter lavado nossa alma no batismo.
Também reverenciava as pedras, lembrando-se da pedra angular do Evangelho. Recomendava aos irmãos que iam
cortar lenha na montanha para deixarem rebentos vigorosos em memória de Jesus Cristo que quisera morrer pela
nossa salvação no lenho da Cruz.

Fazia questão de que o jardineiro conservasse, no centro do jardim principal, um jardinzinho composto de flores
suaves, fragrantes e belas ao olhar, a fim de que com sua beleza convidassem a todos para louvar a Deus.

As flores elevavam sua alma a essa flor brotada da haste de Jessé, e cujo perfume alegre o mundo.

Essa fraternidade na piedade e na afeição, Francisco estendia-se até mesmo aos elementos. Um dia em que os
médicos iam aplicar-lhe um ferro em brasa nas têmporas, primeiro o abençoou e depois lhe disse:"Meu irmão fogo,
o Senhor te fez antes de todas as coisas, e te fez belo, útil e poderoso; se, pois, cauteloso hoje, e digne-se Deus
suavizar-se de tal maneira que eu possa suportar-te". O ferro foi-lhe aplicado e o santo exclamou: "Meus irmãos,
louvai comigo o Altíssimo; o próprio fogo não queima, e não sinto a menor dor".

Quando o amor transbordava no coração de Francisco, ele se punha a andar pelo campo; convidava as colheitas, as
vinhas, as árvores, as flores do campo, as estrelas do céu, todos seus irmãos da natureza, a juntarem-se a ele na
exaltação ao Criador, e sua ingênua e radiosa ternura, erguendo-se de grau em grau até o sol, um hino ascendia de
sua alma. (...)

Havia já dois anos que São Francisco recebera os estigmas, e sua saúde declinava dia a dia; e tendo aumentado os
pregos de seus pés, não podia mais caminhar. Pedia que o levassem às cidades e às aldeias para animar os outros a
carregarem a cruz de Jesus Cristo.
Numa dessas excursões, curou uma criancinha de Bagnara que, mais tarde foi São Boaventura. Francisco tinha um
grande desejo de voltar às primeiras práticas de humildade, servir os leprosos, e obrigar o corpo a servir-lhe, como
no início da conversão. O fervor do espírito compensava a fraqueza do corpo; mas as enfermidades de tal modo se
agravaram que eram raros os lugares nos quais não sentia dores muito fortes; e, tendo as suas carnes se consumido
inteiramente, só lhe restavam pele e ossos.

Os frades acreditavam defrontar outro Jó, tanto por causa dos sofrimentos como da paciência com que os
suportava. O santo pediu-lhes que o levassem à Nossa Senhora dos Anjos, a fim de entregar a alma a Deus no
mesmo lugar onde recebera o espírito da graça.

Nos seus últimos momentos, ditou uma carta dirigida a todos os superiores, sacerdotes e irmãos da ordem,
recomendando-lhes respeito para com o santíssimo sacramento do altar. Chegou a ditar seu testamento, no qual
recomendou particularmente o respeito para com os sacerdotes, a observação da regra e o trabalho manual.

Sentindo aproximar-se a última hora, mandou que deitassem na terra nua, tirou a túnica, a fim de tornar mais
sensível o seu perfeito despojamento; depois, erguendo os olhos ao céu, cobriu com a mão esquerda a chaga do
lado direito e disse a seus irmãos:

"Fiz o que me cabia: Nosso Senhor vos ensinará o que deveis fazer".

Eles se desfaziam em lágrimas; e um dos religiosos, a quem denominava seu guarda, adivinhando a intenção do
santo, levantou-se prontamente, apanhou uma túnica e uma corda que lhe apresentou, dizendo: "Empresto-vos este
hábito como a um mendigo, aceitai-o por obediência."

O santo homem ergueu as mãos para o céu e bendisse a Deus por ter sido aliviado de todos os cuidados. Em seguida
mandou chamar todos os irmãos que se encontravam na casa e exortou-os a perseverarem no amor de Deus, na
paciência, na pobreza, na fé da Igreja Romana; depois, estendendo sobre eles os braços colocados um sobre o outro
em forma de Cruz, deu sua benção tanto aos ausentes como aos presentes.

Satisfazendo-lhe a um desejo, Frei Leão e Frei Ângelo cantaram em coro o cântico do irmão sol e da irmã morte.
Terminado o cântico, pediu que lhe lessem a Paixão de Nosso Senhor, segundo São João. Depois dessa leitura,
começou a recitar com voz agonizante o salmo de Davi:
Com minha voz, clamei ao Senhor; com minha voz supliquei ao Senhor.

Depois de pronunciar as últimas palavras, sua boca fechou-se para sempre: Francisco não mais pertencia a este
mundo. Era a noite do sábado para domingo, no dia 4 de Outubro de 1226, quadragésimo-quinto da sua vida,
vigésimo da sua conversão, décimo-oitavo da instituição da sua ordem. (...)

(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XVII, p. 303 à 319)

www.arautos.org.br

http://redemptionis-sacramentum.blogspot.com.br/2011/10/sao-francisco-de-assis-4-de-outubro.html

Santo André, Apóstolo - 30 de Novembro


Eis que envio o meu anjo ante a tua presença, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Voz do que clama no
deserto; Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. E apareceu João Batista no deserto, pregando o
batismo de penitência, para remissão dos pecados.

Um dia, João, com dois discípulos, eis o que tira os pecados do mundo.

Ouvindo aquelas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus. O Senhor, voltando-se para trás, e vendo que o
seguiam, perguntou-lhes:
- Que buscai vós? - Responderam-lhe, perguntando:

- Mestre, onde habitas? - Disse-lhe Jesus:

- Vinde ver.

Foram e viram onde habitava, e ficaram com Ele aquele dia.

Ora, André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que haviam ouvido o que João Batista dissera e seguira Jesus.

André, encontrando-se com o irmão Simão, disse-lhe:

- Encontramos o Messias.

E levou-o ao Senhor Jesus.

Nosso Senhor, ficando em Simão o olhar, disse-lhe:

- Tu és Simão, filho de Jonas. Serás chamado Cefas.

Eis como André levou o irmão a Jesus, aquele sobre o qual seria edificada a igreja do Mestre. E que belo par de
irmãos! Eram eles então discípulos de Jesus, mas não o seguiam ainda habitualmente. Ora, diz o Evangelho que,
passando Jesus ao longo do mar da Galiléia, viu Simão e André que lançavam a rede, pois eram pescadores.
Aproximando-se dos dois, Jesus disse-lhe:

- Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens.

No mesmo instante, abandonaram ambos as redes e seguiram o Senhor. E, tendo passado um pouco adiante donde
então estiveram, viram Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam também numa barca, consertando
as redes. Chamou-os, e eles, deixando na barca o pai, Zebedeu, com os jornaleiros, seguiram o Senhor.

Depois foram a Cafarnaum e à Sinagoga.


Logo que deixaram a Sinagoga, foram à casa de Simão e André com Tiago e João.

Ora, a sogra de Simão estava de cama, com febre. A Jesus falaram a respeito dela. Aproximando-se, o Senhor tomou-
a pela mão e levantou-a. Imediatamente, deixou-a a febre e pôs-se a servi-los, solícita e lépida.

De tarde, sendo o sol já posto - porque era um dia de sábado e os judeus nada faziam antes desta hora - trouxeram a
Jesus todos os enfermos e possessos.

Toda a cidade estava reunida diante da porta. O Senhor, impondo as mãos ora neste, ora naquele, já naquele outro,
ia a todos curando e expelindo muitos demônios, de maneira que cumpria o que fora dito pelo profeta Isaías: Tomou
para si as nossas fraquezas, e está carregado de nossas enfermidades.

Os demônios, saindo do corpo de muitos, gritavam, dizendo:

- Vós, sois o Cristo, o Filho de Deus.

Mas o Senhor, ameaçando-os, não lhes permitia dizer que o conheciam, porque, sendo o diabo o pai da mentira,
Jesus não lhe queria o testemunho, mesmo verdadeiro.

No dia seguinte, levantando-se o Mestre muito antes do amanhecer, saiu, e foi a um lugar solitário. E lá fazia
orações.

Simão e os demais foram procurá-los. E, tendo-o encontrado, disseram-lhe:

- Todos te procuram.
Respondeu-lhes Jesus:

- Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de que eu também lá pregue, pois para isso é que vim. E
andava pregando nas sinagogas e por toda a Galiléia. E pregando o Evangelho do reino de Deus, curava todas as
enfermidades entre o povo.

A fama espalhou-se por toda a Síria; traziam-lhe todos os que tinham algum mal, possuídos de vários achaques e
dores, e os possessos, os lunáticos, os paralíticos: a todos curava-os Jesus.

Grandes multidões de povo, da Galiléia, e da Decápolis, e de Jerusalém, e da Judéia, e do país de além do Jordão, o
seguiam.

Ora, comprimindo-se as multidões em volta do Senhor para ouvir a palavra de Deus, como estavam junto ao lago de
Genezaré, viu Ele duas barcas que estacionavam à margem. Os pescadores haviam saído e lavavam as redes.
Entrando numa dessas barcas - que era a de Simão - rogou-lhe se afastasse um pouco da terra. E, estando sentado,
ensinava o povo, da barca.

Quando acabou de falar, disse a Simão:

- Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar.

Respondendo Simão, disse-lhe:

- Mestre, tendo trabalhado toda a noite, não apanhamos nada. Mas, sobre a tua palavra lançarei a rede.

Tendo feito aquilo, apanharam tão grande quantidade de peixes, que a rede se rompia. Então, fizeram sinal aos
companheiros que estavam na outra barca, para que lá fossem ajudá-los. Assim foi, e encheram tanto ambas as
embarcações que quase se afundavam.

Simão Pedro, vendo aquilo, lançou-se aos pés de Jesus, dizendo:

- Retira-te de mim, Senhor, pois eu sou um homem pecador.

Porque, tanto ele como todos os que se encontravam com ele ficaram possuídos de espanto, por causa da pesca que
haviam feito.

O mesmo acontecera a Tiago e a João, filhos ambos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão.

Jesus olhou-os, e disse a Simão:

- Não tenhas medo: desta hora em diante serás pescador de homens.

E, trazidas as barcas para terra, deixando tudo, seguiram a Jesus.

Antes, como viviam da pesca, às vezes à faina do mar retornavam. Talvez pescassem à noite e seguissem o Mestre
durante o dia.

Depois daquela pesca miraculosa, porém, deixaram-na definitivamente, e não só ao labor, mas a tudo - o que dá a
entender a vocação última e definitiva: ligar-se ao Mestre inseparavelmente.

Mais tarde, tendo convocado os doze discípulos, deu-lhes Jesus poder sobre os espíritos imundos, para os expelirem,
e curarem todas as doenças e todos os achaques. E eram os doze Simão, chamado Pedro, e André seu irmão; Tiago,
filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem entregou o Mestre.

Jesus instruindo-os, disse-lhes:

- Não vades agora para entre os gentios, nem entreis nas cidades dos samaritanos. Ide antes às ovelhas perdidas da
casa de Israel. E, pondo-vos a caminho, pregai, dizendo: "Está próximo o reino dos céus."

Continuando, disse-lhes:
- Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expedi os demônios. Daí graça o que de graça
recebestes.

E dizia mais:

- Não queirais trazer nas vossas cinturas bem curo, bem rata, nem dinheiro, nem alforje para o caminho, nem duas
túnicas, nem sandálias, nem bastão - porque o operário é digno do seu alimento.

E acrescentou:

- Em qualquer cidade ou aldeia, logo ao entrardes, informai-vos de quem há nela digno de vos receber, e ficai aí até
que vos retireis. Ao entrardes na casa, saudai-a, dizendo: A paz esteja nesta casa. Se aquela casa for digna, descerá
sobre ela a vossa paz. Se não for digna, a vossa paz retornará para vós. Se não vos receberem nem ouvirem as vossas
palavras, ao sair para fora daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo: será
menos punida no dia do juízo a terra de Sodoma e Gomorra, do que aquela cidade. Eis que eu vos mando como
ovelhas no meio dos lobos. Sede pois prudentes como serpentes, e simples como pombas.

Antes de enviar os apóstolos por toda a terra, Jesus enviou-os à Judéia, para que ali fizessem uma espécie de
noviciado, como num seminário.

De volta daquela missão, reunidos a Ele, contaram-lhe o que haviam feito e ensinado. E Jesus lhes disse:

- Vinde à parte, a um lugar solitário, e descansai um pouco.

Porque eram muitos os que iam e vinham, e nem tinham tempo para comer. Entrando, pois, numa barca, retiraram-
se à parte, a um lugar solitário.

Muitos, porém, os viram partir e souberam para onde iam. E para lá foram, ao solitário lugar, a pé. Antes de Jesus e
dos Apóstolos mesmo chegarem, já uma grande multidão os aguardava. E era gente de todas as cidades.

Jesus teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas.

Fazendo-se tarde, chegaram a Ele os discípulos e disseram-lhe:

- Este lugar é solitário e a hora é já adiantada: despede-os, a fim de que possam ir às quintas e povoados próximos e
comprem alguma coisa para comer.

Perguntou Jesus a Filipe:

- Onde compraremos nós pão, para dar de comer a esta gente?

O Mestre, porém, assim dizia para o discípulo experimentar, porque sabia o que havia de fazer. Respondeu-lhe
Filipe:

- Senhor, duzentos dinheiros de pão não bastam para que cada um receba um pequeno bocado.

Um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse:

- Está aqui um jovem, que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas que é isso para tanta gente?

Jesus, porém, disse:

- Mandai sentar essa gente.

Havia muita erva naquele lugar. Sentaram-se, pois, os homens, em número de cinco mil. E Jesus, tomando os pães
do jovem que os trazia, dando graças, distribuiu-os entre os que estavam recostados e igualmente os peixes, quanto
eles queriam.

Estando assim todos saciados, disse o Senhor aos discípulos:

- Recolhei os pedaços que sobejaram, para que nada se perca.


Eles os recolheram, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobejaram aos que haviam
comido. E aqueles homens, vendo o milagre que Jesus fizera, diziam:

- Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo.

Durante as últimas festas da Páscoa estava Jesus em Jerusalém. Ora, havia alguns gregos, daqueles que tinham ido
adorar a Deus no dia da festa: aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e fizeram-lhe este pedido,
dizendo:

- Senhor, desejamos ver a Jesus.

Foi Filipe e disse-o a André. André e Filipe disseram-no a Jesus. E Jesus, respondeu-lhes:

- Chegou a hora em que o Filho do homem será glorificado. Em verdade, em verdade vos digo que se o grão de trigo,
que cai na terra, não morrer, fica infecundo. Mas, se morrer, produz muito fruto. O que ama a sua vida, perde-la-á, e
quem aborrece a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me. E onde eu
estou, estará ali também o que me serve. Se alguém me servir, meu Pai o honrará. Agora minha alma está turbada. E
que direi eu? Pai, livra-me desta hora. Mas é para isso que eu cheguei a esta hora. Pai glorifica o teu nome.

Então veio do céu esta voz: Eu glorifiquei e glorificarei novamente.

Ora, o povo que ali estava e ouvira, dizia:

- Foi um trovão!

E outros:

- Um anjo lhe falou.

Jesus respondeu:

- Esta voz não veio por amor de mim, mas veio por amor de vós. Agora é o juízo deste mundo. Agora será lançado
fora o príncipe deste mundo. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim.

Dizia isto para designar de que morte havia de morrer.

Nos gentios que o queriam ver, Jesus fixou imediatamente o pensamento: devia ser o fruto de sua morte. Os
grandes profetas e as grandes profecias estão lhe presentes. O pequeno foi o grande. O que os magos haviam
começado na sua infância, no presépio, que era a conversão dos gentios em suas pessoas mesmas, continuava ainda
pelo tempo de sua morte.

E o Salvador, notando nos gentios o desejo de o ver, com o dos judeus em o perder, via, ao mesmo tempo, naquilo, o
principiar do grande mistério da vocação de uns, pela cegueira e reprovação de outros. Por isso disse: Chegou a hora
em que o Filho do homem será glorificado.Vem os gentios, e seu reino estender-se-á por toda a terra.

E via mais, e mais longe. Via, segundo os profetas antigos, que seria pela morte que devia conquistar novo povo e a
numerosa posteridade que lhe fora prometida. Foi depois de ter dito:Perfuraram meus pés e minhas mãos, que Davi
acrescentou: Todas as nações converter-se-ão ao Senhor. E Isaías: Se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer,
fica infecundo. Mas se morrer, produz muito fruto.

É assim que vemos nas palavras de Jesus o verdadeiro comentário e a verdadeira explicação das profecias.

Agora minha alma está turbada: eis o começo da agonia, daquela agonia que devia sofrer no Jardim das Oliveiras; do
combate interior que devia combater contra o suplício, contra o Pai, por assim dizer, contra si mesmo.

E que direi eu? Pai, livra-me desta hora. Mas não, era para isso que chegara aquela hora. Pai, glorifica o teu nome. É
pelo devotamento ao Pai que lançará fora o príncipe deste mundo, e que, do alto da cruz, atrairá todas as coisas.

Jesus, saindo do templo onde havia pregado dizendo-lhe alguns, a respeito do templo, que estava ornado de belas
pedras e de ricas ofertas, disse

- De tudo isto que vedes, virão dias em que não ficará pedra sobre pedra, que não seja demolida.
Quando estavam sobre o Monte das Oliveiras, descortinando-se o templo, abordaram-nos os discípulos em
particular, e Pedro, Tiago, João e André perguntaram-lhe:

- Mestre, quando acontecerão estas coisas, e que sinal haverá, quando estiverem para acontecer?

Os apóstolos, na pergunta, confundiam a ruína de Jerusalém, a de todo o universo e o fim dos séculos, o que levou a
Jesus a lhes falar:

- Quando ouvirdes falar de guerras e de tumultos, não vos assusteis. Estas coisas devem suceder primeiro, mas não
será logo o fim.

De resto, havia para tal uma razão profunda, uma vez que Jerusalém e o templo eram imagem do universo. A ruína
de um era naturalmente a figura da ruína de outro.

Depois da ressurreição, estando Jesus com os apóstolos à mesa, ordenou-lhes se não afastassem de Jerusalém. Que
esperassem a promessa do Pai:

- A que ouvistes, disse Ele da minha boca. Porque João na verdade batizou em água, mas vós seres batizados no
Espírito Santo, dentro de poucos dias.

Então, os que se tinham congregado interrogavam-no dizendo:

- Senhor, porventura chegou o tempo em que ides restabelecer o reino de Israel?

Ele lhes disse:

- Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai reservou ao seu poder. Mas recebereis a
virtude do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e me sereis testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia, na
Samaria e até as extremidades da terra.

Levou-os para fora, e até perto de Betânia. E, levantando as mãos, abençoou-os. Ora, aconteceu que, enquanto os
abençoava, separou-se deles, e elevava-se ao céu. E uma nuvem ocultou-o do olhar de todos. Como estivessem
olhando para o céu, quando Ele ia subindo, eis que se apresentaram junto deles dois personagens vestidos de
branco, os quais lhe disseram:

- Homens da Galiléia, porque estais aí parados olhando para o céu? Esse Jesus que, separando-se de vós, foi
arrebatado ao céu, virá do mesmo modo que o vistes ir para o céu.

Então voltaram para Jerusalém, do monte chamado das Oliveiras que está perto de Jerusalém, à distância da jornada
de um sábado, cheios de júbilo.

Logo que chegaram, subiram ao cenáculo, onde permaneciam habitualmente Pedro, João, Tiago, André, Filipe,
Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago.
Todos estes perseveraram unanimemente em oração, com as mulheres, e com Maria, Mãe de Deus, e com os irmãos
dele.

Quando se completaram os dias do Pentecostes, estavam todos juntos no mesmo lugar.


E, de repente, veio do céu um estrondo, como de vento que soprava impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam
sentados.

E, apareceram-lhes repartidas uma como línguas de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Foram todos cheios
do Espírito Santo, e começaram a falar várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.

Viera-lhes prometido. Agora era ir e ensinar a todas as nações, batizando em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo. Deus estaria com eles todos os dias, até a consumação dos séculos.

Segundo os esclarecimentos dos Doutores da Igreja, o apóstolo Santo André pregou o Evangelho na Cítia, na
Sogdiana, na Cólquida, na Grécia, particularmente no Épiro, e terminou a vida pelo martírio em Patras, na Acaia. A
igreja conta-nos as circunstâncias:
Assim como o irmão, o chefe dos Apóstolos, teve a glória de ser crucificado, como o mestre fora. Como pregava em
Patras o mistério da cruz e convertia multidões, o procôncul Egéias, encolerizado, disse-lhes:

- Cessa de louvar Cristo, porque discursos semelhantes não o impediram de ser morto na cruz pelos judeus.

André replicou, calmamente:

- Cristo ofereceu-se livremente para ser crucificado, senhor. Morreu para salvar o gênero humano, a todos nós
resgatando.

O procônsul sorriu:

- Trata mas é de salvar a vida, sacrificando aos ídolos.

- Só sacrifício, e todos os dias, respondeu o apóstolo ao Deus Todo-poderoso, que é um só e verdadeiro. Sacrifico
sobre o altar, não a carne dos touros, nem o sangue dos bodes, mas o Cordeiro sem mancha, o Cordeiro que, depois
de ter sido imolado e comido por todo o povo, pelos fiéis, continua sempre inteiro e vivo.

Egéias, encolerizadíssimo, chamou alguns homens da guarda e gritou:

- Agarrai este homem que me não dá sossego! Masmorra com ele!

O povo, facilmente, tê-lo-ia livrado tão exaltado estava, mas André suplicou-lhe, todo doçura. Não, que não o
privassem do martírio, da glória do martírio!

O procônsul, diante do qual André novamente exaltara o mistério da cruz, condenou-o à crucifixão. Para imitar o
Cristo. Levado ao lugar do suplício, André gritou, todo êxtase, assim que viu o madeiro:

- Ó Cruz belíssima que foste glorificada pelo contato que tivesse do corpo de Cristo, cruz longa, docemente desejada,
ardentemente querida, sempre procurada, e enfim preparada para o meu coração apressado, de ti desejoso!
Recolhe-me , abraça-me, retira-me dentre os homens, leva-me depressa, diligentemente ao Mestre querido! Por ti Ele
me receberá, Ele que, por ti, a mim resgatou!

Foi, pois, levado à cruz o Apóstolo. E nela ficou por dois dias. Foram dois dias maravilhosos para André. André do alto
do lenho, não cessava de pregar a fé em Cristo, aquele Cristo a quem desejara imitar na morte.

E, levantando os olhos para o alto, para o céu, naquele céu em que o Mestre o aguardava, dizia:

- Senhor, réu eterno da glória, recebei-me, assim pendido como estou ao madeiro, à cruz tão doce! Vós sois meu
Deus! Oh, vós, a quem vi! Não permitais me desliguem da cruz! Fazei isto por mim, por mim, senhor, que conheci a
virtude de vossa santa cruz!

Foi nessa maravilhosa disposição que o Apóstolo entregou a alma ao Senhor.

As relíquias de Santo André foram transferidas, primeiramente para Constantinopla e mais tarde para Amalfi. O
chefe, o irmão, descansa na basílica que lhe tem o nome - São Pedro de Roma.

(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XX, p. 320 à 335)

http://redemptionis-sacramentum.blogspot.com.br/2011/12/santo-andre-apostolo-30-de-novembro.html

São Nicolau, Bispo - 6 de Dezembro


Um dos biógrafos de São Nicolau, bispo de Mira, foi São João Damasceno. Nas nove odes em honra do santo,
encontradas pelo Cardeal Mai, das quais as duas primeiras faltam, o poeta de Damasco resume a tradição comum
dos gregos e dos latinos sobre o ilustre Pontífice de Mira.

"Nem a areia que se encontra à beira-mar, diz ele, nem a multidão de vagas, nem as pérolas do orvalho e os flocos de
neve, nem o coro dos astros, nem as gotas da chuva e as correntes dos rios, nem o murmúrio dos das fontes jamais se
igualarão, ó Pai, ao número de teus milagres (1). Todo o universo tem em ti um pronto socorro nas aflições, um
encorajamento nas tristezas, uma consolação nas calamidades, um defensor nas tentações, um remédio
salutaríssimo nas enfermidades".(2)

O Padre Croiset, jesuíta, resume assim esta mesma vida no seu Ano Cristão:

"São Nicolau, bispo de Mira, na Lícia, tão celebrado em todo o mundo pelo clarão das virtudes, pelo número de
milagres e pela confiança do povo, pela qual intercedia sempre, nasceu em Patares, cidade da Lícia, na Ásia Menor.
Os pais eram riquíssimos; mais ainda, piedosos. Quando já se encontravam desesperançados de ter um filho, nasceu-
lhes Nicolau, que lhes foi um presente do céu."

Tais presságios de futura santidade do jovem Nicolau animaram os virtuosos pais a redobrar de cuidados. E a
educação que o menino teve foi toda ela cristã, esmeradamente cristã.

Aplicando-se às ciências, em breve tornou-se sábio, mas, ao mesmo tempo, mais santo. A doçura, a mansidão, a
modéstia eram nele coisas tão características que o impunham como modelo aos moços. Todos lhe admiravam a
regularidade, a meiga devoção, a sabedoria, numa idade em que a vivacidade e o amor ao prazer dominam, onde as
paixões são, ordinariamente, a grande impulsionadora das ações.

Era São Nicolau bastante jovem quando perdeu os pais. Sentiu a perda grandemente, mas não foi obstáculo às
virtudes. A morte do pai e da mãe, lhe legaram bens enormes, serviu para mais piedoso torná-lo, mas arredio e
retirado, mais caridoso do que já era.

Um dia, ao saber que um gentil-homem da cidade, pobre, muito pobre, estava a ponto de fazer prostituir as três
filhas, porque não tinha nada de seu para casá-las, São Nicolau ficou tremendamente emocionado.

Depois de pensar, esperou que a noite caísse, e, enchendo de moedas de ouro uma grande bolsa, saiu em demanda
da casa do desolado pai. Então, quando percebeu que estava só, defronte à casa, diante duma janela
providencialmente aberta, atirou a bolsa e deixou o local às carreiras, furtivamente, rente à parede das casas, para
que a escuridão mais o ocultasse.

No dia seguinte, quando o gentil-homem deu a bolsa, febrilmente pôs-se a contar o dinheiro, certificando-se de que
continha uma grande quantia. Dando graças a Deus, pode dotar a filha mais velha, procurando casá-la
imediatamente, certo, de que a Providência se ocuparia de outras duas.

E assim foi, porque, logo na noite seguinte, sempre à socapada, o nosso bom santo arremessou pela janela outra
bolsa, que continha a mesma soma da anterior.

O pai, no auge da alegria, pressentiu que quem assim fazia faria ainda uma terceira vez. E um grande, insopitável
desejo de conhecer o benfeitor o levou a emboscar-se, nem bem caíra a noite.

São Nicolau, de fato, com uma terceira bolsa, protegido pela escuridão, rumou para a casa do gentil-homem. E, nem
sequer saíra ainda a bolsa no cômodo costumeiro, já era efusivamente abraçado pelo pais das três jovens que saíra
da sombra suma porta, onde se ocultara e tudo vira.

São Nicolau, surpreso e, ao mesmo tempo, grandemente constrangido por ver-se descoberto, calou, sem saber o
que dizer. Afinal, recuperando-se, ordenou, com veemência:

- Isto deve ficar absolutamente em segredo - absolutamente!

O gentil-homem prometeu-lhe que assim seria, categoricamente. Mas, no dia seguinte, já de manhã, toda a cidade
sabia, encantada, daquela liberalidade, daquela caridade imensa.
Virtude tão resplandecente e tão pura não era para o mundo. Com efeito, São Nicolau pensava em deixar o século.
Deus escolhera-o para dele fazer um dos mais belos ornamentos da Igreja. E foi com a aprovação pública que o
viram integrar o clero.

O bispo de Mira, conhecendo-lhe a grande piedade e a não menor sabedoria, apressou-se em fazê-lo padre. Tal
dignidade deu um novo lustre à santidade de Nicolau, e o sacerdócio, encontrando meios tão puros e alma tão
cristã, comunicou-lhe um novo brilho à virtude, imprimindo novo rigor ao seu zelo.

O tio, pronto para fazer uma viagem de devoção à terra santa, deixou a direção da diocese ao sobrinho. E Nicolau
governou-a com tanta sabedoria e edificação geral, que todos passaram a desejá-lo para bispo.

Falecendo o tio pouco depois do regresso, Nicolau, que nada temia mais do que o episcopado, aproveitou-se para
deixar o país e demandou à Palestina.

Após visitar os lugares santos, retirou-se ele a uma caverna onde se diz que o Menino Jesus, Nossa Senhora e São
José, ao fugirem da Judéia, passaram uma noite, em demanda do Egito. Desejava ali ficar para o resto da vida, mas
Deus deu-lhe a conhecer que devia retornar a Mira. E assim fez o Santo.

Chegando a Mira, enfurnou-se num mosteiro aspirando à obscuridade, para dar-se aos exercícios da mais austera
penitência.

No entanto, o bispo João, que sucedera ao tio de Nicolau, vinha a falecer. Os bispos da província reuniram-se em
Mira para dar à Igreja um novo bispo. A escolha ia difícil, não se chegava a um acordo, quando um dos mais
veneráveis da assembléia por um movimento do Espírito Santo, disse que Deus desejava que se escolhesse para
bispo de Mira o santo homem que primeiro entrasse na igreja para orar, no dia seguinte.

São Nicolau foi o eleito de Deus, porque, sem nada saber do que se passava, certo dia, que era o que o velho bispo
dissera, saiu do mosteiro, o que raramente fazia, para rezar na igreja.

Todos ficaram agradavelmente surpresos quando viram que era Nicolau aquele que devia preencher a vaga deixada
pelo bispo morto.

Bem que o Santo quis fugir, mas não houve alternativa, e foi, em meio à ruidosa alegria do povo e do clero, sagrado
bispo.

Nem bem findara a cerimônia, e uma mulher, saindo do meio da multidão, carregando um menino nos braços,
chegou até o novo bispo e se lhe atirou aos pés, a suplicar:

- Daí vida ao meu filhinho! Meu filhinho caiu no fogo e não suportou as horríveis queimaduras! Morreu! Vêde,
pobrezinho, todo queimado e morto! Tende pena de mim! Dai-lhe a vida!

São Nicolau, emocionado, sentindo as dores daquela mãe alucinada, levantou-se, fez o sinal da cruz sobre o corpinho
morto e ressuscitou-o na presença de toda a gente e dos prelados.

Elevado ao episcopado, preparou-se para cumprir todos os deveres que se lhe impunham, e conquistar na perfeição
todas as virtudes dum santo bispo. Passava quase toda a noite ao pé dos altares a pedir por si e pelo povo. Quando
rezava a missa, um clarão lhe iluminava o rosto, tão repleto lhe estava o coração dum fogo sagrado. O fervor crescia-
lhe dia a dia, e a solicitude pastoral estendia-se por todas as necessidades do povo. O que recebia, dava-o
imediatamente aos pobres.

Para encontrar o Santo, bastava procurá-lo em três lugares: na igreja, a orar, nas prisões, confortando os detentos, e
nos hospitais, procurando saber dos doentes e das suas necessidades.
Encarregado de distribuir o pão da palavra de Deus ao povo, fazia-o Nicolau com tanto fruto e sucesso, que muita
gente passou a mudar de opinião sobre a religião. As austeridades cresciam com o trabalho. Jejuava duas vezes por
semana, desde o princípio da vida. Na juventude, aos dois juntou mais um. Quando bispo, então passou a jejuar
todos os dias.

O imperador Licínio, tendo renovado a perseguição a Diocleciano, enviou oficiais a Mira para restabelecer a idolatria.
E São Nicolau mostrou que um santo jamais é maior que nos combates pela religião. O zelo para com o povo foi
incansável, e o desejo que tinha do martírio levava-o a desprezar as ameaças dos oficiais pagãos.

Foi, afinal enviado para o exílio, carregado de cadeias, pelo amor que votava a Jesus Cristo. E passou por toda a sorte
de maus tratos. Todos os dias era chicoteado.

Derrotado Licínio pelo grande Constantino, regressou a Mira, triunfante, o grande Nicolau. A viagem de volta foi
toda ela dum sem-número de insignes conversões e de milagres sem conta.

Se São Nicolau testemunhou tanto zelo contra os idólatras, não o testemunhou menos contra os arianos. Assistiu ao
primeiro concílio de Nicéia, onde brilhou como um dos meias generosos confessores de Jesus Cristo, e como um dos
maiores prelados da Igreja. O número de milagres, que Deus se dignou fazer por sua intercessão, é prodigioso: é com
razão que é chamado o taumaturgo do seu século.

Tantas maravilhas tornaram o nome de Nicolau célebre por todo o Universo.

Quis o Senhor, então, recompensar todos os trabalhos do servidor fiel, e deu-lhe a conhecer o dia e a hora da morte.
Ta revelação o encheu de alegria pouco conhecida dos homens.

Depois de ter dito adeus ao povo, ao fim duma missa pontifical, retirou-se São Nicolau ao mosteiro de Sião. Ali,
depois de curta enfermidade, administrados que lhe foram os últimos sacramentos, entregou a santa alma a Deus.
Era a 6 de Dezembro de 327. Ignora-se-lhe a idade.

Enterrado na igreja do mosteiro, do túmulo logo principiou a correr líquido miraculoso, que tinha a virtude de curar
todas as doenças.

Erigida em sua honra uma soberba igreja por Justiniano, reparou-a Basílio com magnificência, em 1087.

Pilhando os turcos toda a Síria, o corpo foi transportado para Bari, na Apúlia, Itália, onde se conservou com grande
veneração numa igreja magnífica em que o túmulo veio a ser dos mais célebres pelo número de milagres prodigiosos
que se deram.

(Livro Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XXI, pgs. 56 à 66)

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Santos Inocentes - 28 de Dezembro


Há poucos dias atrás, ouvimos em Belém o cântico dos anjos: "Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos
homens de boa vontade". E vimos a alegria dos pastores, adorando a Jesus Menino na manjedoura.

E hoje? Ah, hoje, que diferença! Da alegria, eis a tristeza. Do riso, que pranto! É o ruído das armas, das espadas que
afoitamente se desembainham e se tingem de sangue, do sangue de inocentes crianças. É o grito inconsolável das
mães que atroa os ares, ao verem os filhos mortos, degolados nos próprios braços amorosos, que esboçam vãs
tentativas de defesa. É o grito, a lágrima, o horror, o desespero.

Herodes, o Grande, descendente de Esaú, idumeu, notabilizou-se pela crueldade.


Aterrorizou a Palestina por trinta e seis anos, e desposou dez mulheres. Corroído pelos vermes, morreu em 750 da
fundação de Roma, logo depois do nascimento de Jesus, que se deu em 749 da mesma era. Nascia um rei. Perigava-
lhe a estabilidade?

Jesus nasceu em Belém. Era no tempo do rei perverso. Que era aquilo que diziam dos magos que vinham do Oriente:
Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? E que significava viemos adorá-lo? Nascera mesmo um rei? E a
estrela que lhes aparecera? Que era aquilo?

Então Herodes, tendo chamado secretamente os magos, inquiriu deles cuidadosamente acerca do tempo em que
lhes tinha aparecido a estrela. E, enviando-os a Belém, disse:

- Ide e informai-vos bem acerca do menino, e, quando o encontrardes, comunicai-me a fim de que também eu o vá
adorar.

Não mais foram ter os três magos com Herodes. E Herodes desconfiava. Fora enganado? O tempo passava. Sim, fora
enganado. Haviam-no iludido.

Então, vendo que havia sido enganado pelos magos, irou-se em extremo, e mandou matar todos os meninos que
havia em Belém e em todos os arredores, da idade de dois anos para baixo, segundo a data que havia averiguado
dos magos. Então, cumpriu-se o que estava predito pelo profeta Jeremias: "Uma voz se ouviu Ramá, pranto e grande
lamentação: Raquel chorando seus filhos, sem admitir consolação, porque já não existem. Estais a chorar, ó mães
infortunadas, porque vossos filhos já não mais existem? Não choreis, ó mãe felizes, porque vossos filhos existem!"

Estão, não no mundo enganador e perverso como o rei Herodes, mas num mundo melhor e que jamais se acaba.
Morreram, sim, mas para o século. Morreram, mas, olhai, vede que sublime: deram a vida por aquele que é a Vida.
São as primícias dos mártires do Senhor Jesus Cristo.

***

A festa de hoje, instituída pelo Papa São Pio V, ajuda-nos a viver com profundidade este tempo da Oitava do Natal.
Esta festa encontra o seu fundamento nas Sagradas Escrituras.

Quando os Magos chegaram a Belém, guiados por uma estrela misteriosa,"encontraram o Menino com Maria e,
prostrando-se, adoraram-No e, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes - ouro, incenso e mirra. E, tendo
recebido aviso em sonhos para não tornarem a Herodes, voltaram por outro caminho para a sua terra. Tendo eles
partido, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: 'Levanta-te, toma o Menino e sua mãe e
foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para o matar'. E ele,
levantando-se de noite, tomou o Menino e sua mãe, e retirou-se para o Egito. E lá esteve até à morte de Herodes,
cumprindo-se deste modo o que tinha sido dito pelo Senhor por meio do profeta, que disse: 'Do Egito chamarei o meu
filho'. Então Herodes, vendo que tinha sido enganado pelos Magos, irou-se em extremo e mandou matar todos os
meninos que havia em Belém e arredores, de dois anos para baixo, segundo a data que tinha averiguado dos Magos.
Então se cumpriu o que estava predito pelo profeta Jeremias: 'Uma voz se ouviu em Ramá, grandes prantos e
lamentações: Raquel chorando os seus filhos, sem admitir consolação, porque já não existem'" (Mt 2,11-20)

Quanto ao número de assassinados, os Gregos e o jesuíta Salmerón (1612) diziam ter sido 14.000; os Sírios 64.000; o
martirológio de Haguenau (Baixo Reno) 144.000. Foram muitas as Igrejas que pretenderam possuir relíquias deles.

Na Idade Média, nos bispados que possuíam escola de meninos de coro, a festa dos Inocentes ficou sendo a destes.
Começava nas vésperas de 27 de dezembro e acabava no dia seguinte. Tendo escolhido entre si um "bispo", estes
cantorzinhos apoderavam-se das estolas dos cônegos e cantavam em vez deles.
A este bispo improvisado competia presidir aos ofícios, entoar o Inviatório e o Te Deum e desempenhar outras
funções que a liturgia reserva aos prelados maiores. Só lhes era retirado o báculo pastoral ao entoar-se o versículo
do Magnificat: Derrubou os poderosos do trono, no fim das segundas vésperas. Depois, o "derrubado" oferecia um
banquete aos colegas, a expensas do cabido, e voltava com eles para os seus bancos. Esta extravagante cerimônia
também esteve em uso em Portugal, principalmente nas comunidades religiosas.

A festa de hoje também é um convite a refletirmos sobre a situação atual desses milhões de "pequenos inocentes":
crianças vítimas do descaso, do aborto, da fome e da violência. Rezemos neste dia por elas e pelas nossas
autoridades, para que se empenhem cada vez mais no cuidado e no amor às nossas crianças, pois delas é o Reino
dos Céus. Por estes pequeninos, sobretudo, é que nós cristãos aspiramos a um mundo mais justo e solidário.

Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XXI, p. 122 à 124


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As Dores de Nossa Senhora


Rememorando com piedade os sofrimentos que por nossa salvação padeceu a Virgem Maria, recebemos de Deus
grandes graças e benefícios. E cumprimos um preceito do Espírito Santo: "Não te esqueças dos gemidos de tua
mãe"

É impossível não sentir profunda emoção ao contemplar alguma expressiva imagem da Mater Dolorosa e meditar
estas palavras do Profeta Jeremias, que a piedade católica aplica à Mãe de Deus: "Ó vós todos que passais pelo
caminho, parai e vede se há dor semelhante à minha dor"(Lm 1, 12). A esta meditação nos convida a Liturgia do dia
15 de setembro, e também na Semana Santa. Antes de fazer parte da liturgia, as dores de Maria Santíssima foram
objeto de particular devoção.

Os primeiros traços deste piedosa devoção encontram-se nos escritos de Santo Anselmo e de muitos monges
beneditinos e cistercienses, tendo nascido da meditação da passagem do Evangelho que nos mostra a dulcíssima
Mãe de Deus e São João aos pés da Cruz do divino Salvador.

Foi a compaixão da Virgem Imaculada que alimentou a piedade dos fiéis. Somente no século XIV, talvez opondo-se
às cinco alegrias de Nossa Senhora, foi que apareceram as cinco dores que variariam de episódios:

1. A profecia de Simeão

2. A perda de Jesus em Jerusalém

3. A prisão de Jesus

4. A paixão

5. A morte

Logo este número passou para dez, mesmo quinze, mas o número sete foi o que prevaleceu. Assim, temos as sete
horas, uma meditação das penas de Nossa Senhora, durante a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo:

Matinas - A prisão e os ultrajes

Prima - Jesus diante de Pilatos


Terça - A condenação

Sexta - A crucifixão

Nona - A morte

Vésperas - A descida da cruz

Completas - O sepultamento

As chamadas Sete Espadas desenvolvem-se por circunstâncias escolhidas dentre as da vida da Santíssima Virgem:

Primeira Espada: Outra não é que a da profecia de Simeão.

Segunda Espada: O massacre dos inocentes, a mandado de Herodes.

Terceira Espada: A perda de Jesus em Jerusalém, quando o Salvador então contava doze anos de idade, feito homem.

Quarta Espada: A prisão de Jesus e os julgamentos iníquos, pelos quais passou.

Quinta Espada: Jesus pregado na Cruz entre os dois ladrões e a morte.

Sexta Espada: A descida da Cruz.

Sétima Espada: A sepultura de Jesus

As sete tristezas de Nossa Senhora formam uma série um pouco diferente:

1. A profecia de Simeão
2. A fuga para o Egito
3. A perda de Jesus Menino, depois encontrado no Templo
4. A prisão e a condenação
5. A Crucifixão e a morte
6. A descida da Cruz
7. A tristeza de Maria, ficando na terra depois da Ascensão.

Este total de sete, que os simbolistas cristãos tanto amam, impunha uma escolha entre os episódios da vida da
Santíssima Virgem, por isso que se explicam certas diferenças.

Pecadores redimidos,
Com o sangue do Senhor,
Atendei, Olhai se existe
Dor igual a minha dor.

A série que acabou por dominar é a seguinte:

1. A profecia de Simeão

Havia então em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem (era) justo e temente (a Deus), e esperava a
consolação de Israel; e o Espírito Santo estava nele. Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não veria a
morte, sem ver primeiro Cristo (o ungido) do Senhor. Foi ao templo (conduzido) pelo Espírito de Deus. E levando os
pais, o Menino Jesus, para cumprirem as prescrições usuais da lei a seu respeito, ele o tomou em seus braços, e
louvou a Deus, dizendo:

- Agora, Senhor, podes deixar partir o teu servo em paz, segundo a tua palavra; Porque os meus olhos viram tua
salvação. A qual preparaste ante a face de todos os povos; luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo.

Seu pai e sua mãe estavam admirados das coisas que dele se diziam. E Simeão os abençoou, e disse a Maria, sua
Mãe:

- Eis que este Menino esta posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição. E
uma espada trespassará a tua alma, a fim de se descobrirem os pensamentos escondidos nos corações de
muitos. (Lc. 2, 25-35)

Dolorosa, aguda espada


Transpassou-me o coração
Quando a morte do meu Filho
Me predisse Simeão!

2. A fuga para o Egito

Então Herodes, tendo chamado secretamente os magos, inquiriu deles cuidadosamente acerca do tempo em que
lhes tinha aparecido a estrela; e, enviando-os a Belém, disse:

- Ide e informai-vos bem acerca do menino, e, quando o encontrardes, comunicai-mo, a fim de que também eu o vá
adorar.

Eles, tendo ouvido as palavras do rei, partiram; e eis que a estrela que tinham visto no Oriente. Ia adiante deles, até
que, chegando sobre onde estava o menino, parou. Vendo (novamente) a estrela, ficaram possuídos de grandíssima
alegria. E, entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe e, prostrando-se o adoraram; e abrindo os seus
tesouros, ofereceram-lhe presentes, ouro, incenso e mirra. E, avisados por Deus em sonhos para não tornarem a
Herodes, voltaram por outro caminho para a sua terra. Tendo eles partido, eis que um anjo do Senhor apareceu em
sonhos a José, e lhe disse:

- Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar
o menino para lhe tirar a vida. E ele, levantando-se de note, tomou o menino e sua mãe, e retirou-se para o Egito; e
lá esteve até a morte de Herodes, cumprindo-se deste modo o que tinha sido dito pelo Senhor, por meio do profeta
que disse: Do Egito chamei o meu Filho (Mt. 2. 7-15)

Junto ao Filho para o Egito

Eu fugi, com dor Atroz


Quando Herodes O buscava
Para dá-lo ao vil algoz

3. A perda de Jesus em Jerusalém


Seus pais iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando chegou aos doze anos, indo eles a Jerusalém
segundo o costume daquela festa, acabados os dias (que ela durava), quando voltaram, ficou o Menino Jesus em
Jerusalém, sem que seus pais o advertissem.

Julgando que ele fosse na comitiva, caminharam uma jornada, e (depois) procuraram-no entre os parentes e
conhecidos. Não o encontrando, voltaram a Jerusalém em busca dele. Aconteceu que, três dias depois,
encontraram-no no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que ouviam,
estavam maravilhados da sua sabedoria e das suas respostas. Quando o viram, admiraram-se. E sua Mãe disse-lhe:
- Filho, por que procedeste assim conosco? Eis que teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição. Ele lhes disse:

- Para que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai? Eles, porém, não entenderam o
que lhes disse (Lc. 2, 41-50)

Quem dirá meu sentimento,

Desolada me encontrei
Vendo o Filho perdido
Por três dias O busquei

4. O encontro de Jesus no caminho do Calvário

Quando o iam conduzindo, agarraram um certo (homem chamado) Simão Cireneu, que voltava do campo; e
puseram a cruz sobre ele, para que a levasse após Jesus. Seguia-o uma grande multidão de povo e de mulheres as
quais batiam no peito, e o lamentavam. Porém, Jesus, voltando-se para elas, disse:

- Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. Porque eis que virá
tempo em que se dirá: Ditosas as estéreis, e (ditosos) os seios que não geraram, e os peitos que não amamentaram.
Então começarão (os homens) a dizer aos montes: Cai sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos (Os. 10, 8). Porque, se isto
se faz no lenho verde, que se fará no seco. (Lc. 23, 26-31)

Que martírio na minh'alma


Encontrando o meu Jesus
No caminho do Calvário
Arquejando sob a Cruz

5. A crucifixão

Então, entregou-lhe para que fosse crucificado. Tomaram, pois Jesus, o qual, levando a sua cruz, saiu para o lugar
que se chama Calvário, e em hebraico Gólgota, onde o crucificaram, e com ele outros dois, um de um lado, outro de
outro lado, e Jesus no meio. Pilatos escreveu um título, e o pôs sobre a Cruz. Estava escrito nele: JESUS NAZARENO,
REI DOS JUDEUS.

Muitos dos judeus leram este título, porque estava perto da cidade o lugar onde Jesus foi crucificado. Estava escrito
em hebraico, em latim e em grego. Diziam, porém, a Pilatos, os pontífices dos judeus:

- Não escrevas reis dos Judeus, mas o que ele disse? Eu sou o Rei dos Judeus.Respondeu Pilatos:

- O que escrevi, escrevi.

Os soldados, pois, depois de terem crucificado Jesus tomaram os seus vestidos (e fizeram dele quatro partes, uma
para cada soldado) e a túnica. A túnica, porém, não tinha costura, era toda tecida de alto a baixo, Disseram, pois, uns
para os outros:

- Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver a quem tocará.

Cumpriu-se deste modo a Escritura, que diz: Repartiram os meus vestidos entre si, e lançaram sortes sobre a minha
túnica (S. 21, 19). Os soldados assim fizeram.

Entretanto, estavam de pé junto à cruz de Jesus, sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cleofas, e Maria
Madalena. Jesus, vendo sua Mãe, e junto dela o discípulo que ele amava, disse a sua Mãe:
- Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo:

- Eis aí a tua Mãe. E, desta hora por diante, levou-a o discípulo para sua casa. Em seguida, sabendo Jesus que tudo
estava consumado para se cumprir a Escritura, disse:

- Tenho sede.

Tinha sido ali posto um vaso cheio de vinagre. Então (os soldados), ensopando no vinagre uma esponja, e atando-a a
uma cana de hissopo, chegaram-lha à boca. Jesus tendo tomado o vinagre, disse:

- Tudo está consumado. E inclinando a cabeça, rendeu o espírito (Jo 19, 16-30)

Mas, ó céus, ó terra, vede:

Dor maior não pode haver


Vendo a morte do meu Filho
Foi milagre eu não morrer!

6. A descida da Cruz

Então um homem chamado José, que era membro do Sinédrio, varão bom e justo, o qual não tinha concordado com
a determinação dos outros, nem com os seus atos, (oriundo) de Arimatéia, cidade da Judéia, que também esperava
o reino de Deus, foi ter com Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus: e, tendo-o descido (da Cruz), envolveu-o num
lençol. (Lc 23, 50-53).

Contemplai meu sofrimento,


Minha angústia ao pé da Cruz:
Pela lança transpassado
Vi meu Filho, o meu Jesus.

7. O sepultamento

Ora, no lugar em que Jesus foi crucificado, havia um horto e no horto um sepulcro novo, em que ninguém ainda
tinha sido sepultado. Por ser o dia da Parasceve dos Judeus, visto que o sepulcro estava perto, depositaram aí Jesus
(Jo 19, 41-42)

Oh! Que dor mais cruciante,


Que suprema solidão,
Ao levarem-no ao sepulcro,
Invadiu-me o coração.

No século XV, o século que conheceu a grande cintilação da devoção a Nossa Senhora das Sete Dores, foi que
surgiram os mais tocantes testemunhos daquela devoção nas artes. E os artistas, sempre a procura de episódios que
mais tocassem a sensibilidade dos cristãos, acabaram por trazer, com predileção, o que deveria ser o mais doloroso
da vida de nossa Mãe Bendita - o momento, pungente em que, desligado da Cruz, o Salvador, inerte, pousara sobre
os puros joelhos da Senhora.

A devoção às sete dores de Maria teve origem de modo especial na ordem dos servitas, ou servos de Maria.
Compõe-se de sete partes ou séries de grãos, cada uma formada de um Pai Nosso e sete Ave Marias em honra das
Sete Dores da Santíssima Virgem.
Santo Afonso M. Ligório, Doutor da Igreja, em seu livro "Glórias de Maria Santíssima", diz: "Se é certo que todas as
graças que Deus nos concede, como eu tenho por certo, passará pelas mãos de Maria, também tenho por certo que
só por meio de Maria poderemos esperar e conseguir a sublime graça da perseverança final. E certamente a
conseguimos, se confiadamente a pedimos sempre a Maria suplicando-lhe por intermédio de suas benditas dores.
Pobres daqueles que se afastam desta defesa e deixam de ser devotos de Maria e de se encomendar e Ela em todas a
suas necessidades. Perca uma alma a devoção a Maria e logo ficará em trevas. Ai daqueles que desprezam a luz
deste sol."

Dom Frei Alexandre da Sagrada Família, bispo de Málaga, em seu livro "A Devoção das Dores a Maria", diz: Virgem
Doloríssima, eu seria um ingrato se não me esforçasse em promover a memória e o culto de vossas dores. Vosso
Divino filho tem vinculado a devoção de vossas dores, particulares graças para uma sincera penitência, oportunos
auxílios e socorros em todas as necessidades e perigos e particularmente na hora da morte. Vinde todos que tendes
sede, vinde fartar-vos neste manancial de abundantes graças".

São Germano chamava a Virgem Maria de a "respiração dos cristãos", porque assim como o corpo não pode viver
sem respirar também a alma não pode viver sem recorrer e sem se encomendar a Maria, por cujo meio seguramente
se adquire e se conserva em nós a vida da divina graça.
É a caridade, de um modo particular, a virtude que aprendemos de Maria em suas Dores.

Vida dos Santos, Padre Rohbacher


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Santo Inácio de Loyola: Soldado de Cristo - 31 de Julho


Ele será um dia o defensor, o sustentáculo, o ornamento da Igreja; será reformador do mundo. Por ele, a luz
do Evangelho será levada às mais longínquas nações" (testemunho do primeiro confessor de Santo Inácio).

Santo Inácio de Loyola: Fundador da Companhia de Jesus

Havia várias semanas que Inácio de Loyola, oficial espanhol, nascido em Biscaia, no ano 1491, esperava sua perfeita
cura da perna, que tinha sido quebrada em 1521, por uma bala de canhão, no cerco de Pamplona. Já fora curada,
mas mal; foi preciso quebrá-la de novo e consertá-la uma segunda vez.

Por fim, ficou curada; mas ele percebeu um osso que avançava demais, abaixo do joelho e lhe causava deformidade
notável. Como queria conservar, a todo custo, uma perna bonita, mandou cortar o osso. Teve então que ficar de
cama ainda várias semanas, embora gozasse de boa saúde. Com isso, ficou enfadado.

Pediu romances para se distrair. Mas não o encontraram.

Deram-lhe uma Vida dos Santos. Ele a leu, primeiro, para passar o tempo; mas pouco a pouco, tomou gosto pela
leitura e a ela se dedicou inteiramente, de tal sorte, que passava assim dias inteiros.

Não se cansava de admirar nos santos o amor da solidão e da cruz. Dizia para si mesmo: Como! E se eu fizesse o que
fez São Francisco? E então? Se eu fizesse como um São Domingos?

Aspirava sempre a coisas difíceis e grandes e parecia-lhes que tinha força para isso, por este único motivo: São
Domingos o fez, então eu o farei também. Depois, a esses pensamentos de Deus, sucediam pensamentos do
século. Mas notou uma grande diferença entre uns e outros: os pensamentos do século alegravam apenas por um
momento, para depois o deixarem de novo triste e árido; ao passo que quando pensava na peregrinação a
Jerusalém, em comer somente ervas, em praticar outras austeridades que tinha lido na Vida dos Santos, não
somente tais pensamentos o alegravam no momento, mas o deixavam ainda alegre.
A única resolução que tomou, então, foi após sua cura, ir a Jerusalém e praticar toda sorte de austeridades para
fazer penitência.

Pensando no que faria ao seu regresso de Jerusalém, veio-lhe à mente na ordem dos cartuxos de Sevilha, sem se dar
a conhecer, para ser menos estimado, e comer apenas ervas; mas lembrando-se das penitências que se propunha a
fazer, temia não poder, entre os cartuxos, praticar o ódio que tinha concebido contra si mesmo.

Um de seus criados, indo a Burgos, recomendou-lhe tomasse informações sobre a vida desses religiosos. A narração
causou-lhe prazer, mas ele ficou lá, preocupado com sua próxima partida.

Tendo-se despedido da família, sem dar a conhecer seus projetos, foi sozinho a Monte-Serrat.

É um mosteiro de beneditinos, a um dia de Barcelona, construído sobre uma montanha toda coberta de rochedos e
famoso pela devoção dos peregrinos, que, de todos os lugares do mundo, vem implorar socorro da Virgem e honrar-
lhe a imagem milagrosa.

Inácio fez uma confissão geral a um religioso do mosteiro. Foi o primeiro confessor ao qual manifestou seu plano de
vida.

Com seu conselho, deu a mula ao mosteiro, as vestes preciosas, a um pobre mendigo, vestiu o hábito dos
peregrinos, pendurou a espada e o punhal a uma pilastra, perto do altar de Nossa Senhora, diante do qual passou
em oração a noite que precedeu a Anunciação da Santa Virgem, em 1522.

Ao despontar o dia, recebeu a Santa Comunhão e pôs-se a caminho para Manresa, pequena cidade, a três léguas,
que só tinha de importante um mosteiro de São Domingos e um hospital para os peregrinos e enfermos.

Inácio foi diretamente ao hospital. Lá teve grande alegria de ser posto no número dos pobres e em estado de fazer
penitência sem ser conhecido. Começou a jejuar toda a semana a pão e água, exceto no domingo, quando comia um
pouco de ervas cozidas ainda misturando-lhes um pouco de cinza.

Cingiu a cintura com uma corrente de ferro e tomou um cilício sob as vestes de pano, de que se cobria. Castigava
severamente o corpo três vezes ao dia, dormia pouco e por terra. Maltratando-se assim, não teve outra vista no
começo que imitar os santos penitentes e expiar suas desordens passadas. Concebeu, depois, um desejo ardente de
procurar a glória de Deus, em suas ações; e o desejo tornou o motivo de sua penitência mais puro e nobre.

Refletindo sobre seu proceder, julgou que as macerações da carne o fariam adiantar pouco nas estradas do céu e se
não procurasse sufocar em si os movimentos do orgulho e do amor próprio.

Por isso, mendigava o pão de porta em porta, apresentando um exterior grosseiro e sujo. Também, quando
apareceu em Manresa, as crianças o apontavam, atiravam-lhe pedras e o seguiam pelas ruas com forte assuada.

Entretanto, corria o boato de que um gentil-homem desconhecido tinha dado as vestes a um pobre, que esse pobre
tinha sido preso como ladrão, até que o cavalheiro desconhecido tivesse declarado à polícia que lhe tinha dado
aquelas vestes.

A essa notícia, os habitantes de Manresa começaram a suspeitar de que o peregrino mendigo, de quem todos
zombavam, poderia bem ser um homem ilustre que fazia penitência.

Inácio, percebendo que o olhavam com vistas diferentes, retirou-se a uma caverna quase inacessível, nos arredores,
e deu-se a penitências extraordinárias; aí foi provado por tentações diversas, como Nosso Senhor no deserto.

Algumas pessoas que descobriram seu retiro, à força de o procurar, encontraram-no um dia desmaiado à entrada da
caverna e o levaram, contra vontade, ao hospital de Manresa, onde logo se perdeu a esperança de que vivesse. Os
religiosos dominicanos que lhe dirigiam a consciência, tiveram piedade dele e o levaram a um mosteiro por
caridade.

Os sofrimentos do corpo não eram os únicos nem maiores. O espírito das trevas atormentava-lhe a alma com
tentações horríveis de desânimo e de desesperação. Por fim, entretanto, Deus restituiu-lhe a saúde do corpo e a
tranquilidade da alma, deixou-lhe mesmo entrever os mistérios do céu.

Até aí, Inácio só tinha pensado em glorificar a Deus, por sua prórpia santificação.

Compreendeu então, que Deus seria muito mais glorificado se trabalhasse também para a santificação de outros.
Não é muito, dizia, que eu sirva o Senhor; é preciso que todos os corações o amem e que todas as línguas o
bendigam.

Saiu da solidão, moderou as austeridades, tomou um exterior menos repelente e pôs-se a falar aos homens das
coisas do céu. Aquelas conversas produziam grande fruto de salvação; muitos pecadores se converteram.

Inácio aproveitou a experiência para redigir a continuação e o conjunto dos seus exercícios espirituais, próprios para
tirar o homem do pecado e guiá-lo para a perfeição.

Como aquela obra de Inácio lhe granjeasse novos louvores e admiração do povo, deixou Manresa, do mesmo modo
como tinha deixado Monte-Serrat, e fez uma peregrinação a Jerusalém, como peregrino dos mais pobres, passando
por Barcelona, Roma e Veneza.

Seu desejo não era mais somente honrar os santos lugares mas também trabalhar pela salvação dos cismáticos e dos
infiéis.

Durante a viagem, teve tempo de fazer muitas reflexões. Pensou que para trabalhar na conversão das almas, era
preciso ter conhecimentos que lhe faltavam, e que jamais poderia fazer algo de sólido, sem o fundamento das letras
humanas. Voltou, então, a Barcelona para estudar, a começar a gramática latina.

Tinha trinta e três anos quando se pôs a frequentar todos os dias a classe com os meninos. Como fazia para a maior
glória de Deus e pela salvação das almas, nenhuma dificuldade o detinha. Para se manter sempre no espírito de
piedade, lia frequentemente a Imitação de Cristo que considerava, depois do Evangelho, o mais piedoso do Espírito
de Deus.

Depois de dois anos, foi estudar filosofia nas universidades de Alcalá e Salamanca.

Continuava, ao mesmo tempo, a trabalhar pela salvação das almas, catequizando as crianças, exortando os
enfermos.

Como a heresia de Lutero e de Calvino mandava então, por toda parte seus emissários, Inácio também foi suspeito
de ser um deles; mas as autoridades, reconheceram que era fiel filho da Igreja.

Tendo vindo de Salamanca para aperfeiçoar-se em Paris nos seus estudos, aí comunicou seu zelo a uma meia dúzia
de companheiros com os quais se consagrou a Deus, no dia da Assunção da Santíssima Virgem, em 1534, na capela
subterrânea da Igreja de Montmartre.

Foi essa origem da Companhia de Jesus que tanto bem fez a Igreja de Deus, para a conversão dos infiéis, dos
hereges, dos pecadores e para o progresso dos justos nas vias da perfeição.

Apresentada a Paulo III as Constituições, o Papa as acolheu com estas palavras: "O dedo de Deus está aí".
A nova Ordem foi erigida em 27 de setembro de 1540 e em 19 de abril de 1541 Santo Inácio foi aclamado Superior
Geral da Companhia.

Entre os primeiros discípulos de Santo Inácio, admiramos sobretudo São Francisco Xavier, apóstolo da Índia! Oh!
Quem poderia dizer os frutos incontáveis de salvação, que produziu aquela leitura casual da Vida dos Santos?

A resolução de Inácio e dos companheiros era ir a Jerusalém, trabalhar pela salvação dos almas, ou então, se a
Providência pusesse obstáculo à viagem, ir oferecer-se ao Papa para servir à Igreja, sob suas ordens. Com tal fim
determinaram encontrar-se em Veneza, para de lá ir ao Oriente.

Inácio, para regular os negócios, viajou para a Espanha, onde suas instruções operaram um grande bem. Passando
da Espanha a Veneza, lá viu companheiros chegar a 8 de janeiro de 1537. Era onze ao todo e, esperando navegação
favorável, entregaram-se a toda sorte de boas obras, como catequizar os ignorantes, e servir os enfermos nos
hospitais.

Passando o ano e não havendo nenhuma probabilidade de que a navegação fosse livre, ficou resolvido que Inácio,
Lefébvre e Laynez, iriam a Roma expor ao Santo Padre suas intenções e de todo o grupo; que os outros, entretanto
se distribuiriam pelas universidades mais famosas da Itália, para inspirar a piedade aos jovens que estudavam e
recrutar ainda alguns deles.

Antes de se separarem, determinaram uma maneira de viver uniforme e comprometeram-se a observar as regras
seguintes:

1°) Que se hospedariam nos hospitais e viveriam de esmolas;

2°) Que aqueles que estivessem juntos, seriam superiores por sua vez, cada um uma semana, para que o fervor não
os levasse muito longe, senão marcassem limites uns aos outros, para as penitências e o trabalho;

3°) que pregariam nas praças públicas e em outros lugares onde lhes fosse permitido fazê-lo que em sua pregação
eles falariam da beleza e das recompensas da virtude, da feiura e do castigo do vício; mas que o fariam de uma
maneira conforme à simplicidade do Evangelho e sem os vãos ornamentos da eloquência;

4°) que ensinariam às crianças a doutrina cristã e os princípios dos bons costumes;

5°) que não receberiam dinheiro por suas funções e que servindo o próximo, procurariam unicamente a Deus.

Inácio disse-lhes ainda que, estando todos reunidos para combater as heresias e os vícios, sua sociedade tinha
somente o nome de Companhia de Jesus.

O Papa Paulo III recebeu com alegria o oferecimento de Inácio e de seus companheiros. Para começar a servir-se
desses novos operários, desejou que Laynez e Lefébvre ensinassem teologia no colégio da Sapiência; aquele, a
escolástica, e este, a Escritura Sagrada.

Inácio, empreendeu, sob sua autoridade apostólica, a reforma dos costumes, por meio dos exercícios espirituais e
das instruções cristãs. Entretanto, os novos apóstolos em Veneza e em Roma, mais de uma vez foram acusados e
caluniados, especialmente por um emissário da heresia; mas sua inocência foi sempre constatada e a calúnia,
confundida.

Finalmente o Papa Paulo III confirmou o instituto de Inácio, sob o nome de Companhia de Jesus, por sua bula de 27
de setembro de 1540.

Essa bula contém o elogio dos dez primeiros Padres e traz em termos formais, que só há coisas boas e santas nesse
novo instituto de que ela apresenta o plano e o conjunto.
O Papa permitiu-lhes, pela mesma bula, estabelecer as constituições tais como eles julgassem mais próprias para sua
perfeição particular, para a utilidade do próximo e para a glória do Senhor.

É verdade, que ele limitou o número de professos, e os restringiu a sessenta. Mas tirou aquela restrição dois anos
depois, por outra bula; e foi o interesse da cristandade que o obrigou a assim fazer, como ele mesmo declarou.

Depois que a Santa Sé aprovou a Companhia de Jesus, Inácio julgou que devia começar por escolher um chefe. Ele
mesmo foi o escolhido.

Seu confessor, que era um religioso de São Francisco, declarou-lhe claramente que resistia ao Espírito Santo,
resistindo à sua escolha e ordenou-lhe, da parte de Deus, aceitar o cargo de superior-geral.

Inácio rendeu-se e no dia de Páscoa, 17 de abril de 1541, aceitou o governo da Companhia de Jesus. A primeira
função do novo geral foi dar o catecismo às crianças de Roma, durante a quarenta e seis dias; então para lá
acorreram toda espécie de pessoas, mesmo homens e mulheres de posição, teólogos e canonistas; os frutos foram
maravilhosos; a seu exemplo, os superiores da Companhia dão quarenta dias de catecismo, quando assumem o
cargo.

Antes disso, já o embaixador do rei de Portugal, tinha pedido seis de seus companheiros para evangelizar as Índias
orientais. Meu Deus, respondeu Inácio, se dos dez que somos, seis forem para as Índias, que restaria para os outros
países do mundo? O embaixador levou somente Simão Rodrigues e Nicolau Bobadilha, o qual, tendo caído enfermo
foi substituído por Francisco Xavier: dois homens para conquistar a Índia e o Japão. Ainda para lá, foi um somente,
por que o outro ficou em Portugal.

Inácio continuava suas obras em Roma. Assistindo aos enfermos nos hospitais e alhures, constatou que a maior
parte só se confessava nos últimos momentos da vida. Obteve então de Paulo III se renovasse a decretal de
Inocêncio III que ordena que o médico só veja os doentes, depois de eles se terem confessado.

O novo Papa trouxe a isso uma modificação: permitiu duas visitas do médico, antes da confissão do doente, e proibiu
a terceira sob penas rigorosas. Uma prática tão cristã se observa ainda na Itália.
Inácio converteu muitos judeus e procurou vários estabelecimentos e determinações em favor dos neófitos.

Trabalhava ao mesmo tempo na conversão das moças e mulheres de má vida e reuniu um grande número delas e as
colocou num estado conveniente, onde, sem serem obrigadas a fazer votos religiosos, podiam, a salvo do perigo,
levar vida cristã.

Diziam-lhe às vezes que perdia o tempo e que aquelas infelizes não se converteriam jamais, de coração. Quando lhe
impedisse somente ofender a Deus uma noite, respondia ele, julgaria meu trabalho bem empregado.

Fundou um mosteiro para moças ainda não perdidas, mas expostas a esse perigo; ainda mais, duas casas para
órfãos, uma para meninos e outra para as meninas que ele mesmo dirigiu, e que subsistiram por muito tempo.

O processo que mantinha, nessa espécie de boas obras, era nelas incluir o mais possível pessoas ricas e devotas,
escolher um cardeal, homem de bem, que lhe fosse o protetor, e estabelecer administradores para o temporal e
diretores para o espiritual, que governassem sabiamente as casas segundo os estatutos que ele combinava. Mas,
quando a coisa estava bem firme e tudo já caminhava por si mesmo, tinha o costume de se retirar, para não causar
inveja a ninguém e para empreender outra coisa útil ao público.

Esse era o espírito de Santo Inácio: preparar o terreno, semear o bom grão, depois deixar-lhe a cultura e a messe a
outros; fundar boas obras, fundar novas igrejas e de todas as obras, a mais excelente; depois, o mais depressa
possível, confiar-lhe a administração a um clero indígena, para correr a novos desbastamentos, a novas construções.
O mundo não conhecia aquele espírito.
É o espírito de Jesus, que semeia o bom grão, rega-o com seu sangue e deixa a colheira aos apóstolos; é o espírito de
São Paulo, que funda, por toda a parte igrejas, para as confiar a padres e bispos e ir fundar outras igrejas em outros
lugares.

Bendito seja para sempre o cristão, o missionário, a ordem religiosa que cuidar e conservar esse espírito de São
Paulo e de Santo Inácio!
Jesus, Deus eterno, fez-se homem, entregou-se à morte por amor à sua Igreja, a fim de a santificar e de a apresentar
a si mesmo, como uma esposa sem mancha; afirma estar com ela todos os dias até à consumação dos séculos,
manda-lhe o Espírito Santo, para ficar com ela eternamente.

Jesus, Deus eterno, diz ao apóstolo que ele chamou de Pedro: Tu és o Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha
Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; e eu te deu as chaves do reino dos céus e tudo o que
ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado no céu.

Apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas. E somente um rebanho e um só pastor.

- Dizer agora que Jesus, Deus eterno, Jesus a mesma verdade, não manteve sua palavra, que abandonou sua Igreja e
que o inferno prevaleceu contra ela ... Viva Deus! ... é uma mentira dessa velha serpente, que seduziu uma parte dos
anjos, que seduziu nossos primeiros pais, que seduziu as nações pagãs nos ídolos: é uma blasfêmia desse rei do
orgulho, que não se tendo podido tornar semelhante ao Altíssimo, quer tornar o Altíssimo semelhante a ele, falso e
mentiroso.

- Cristãos, soldados de Cristo, alerta! Eis o inimigo! - Para refutar essa mentira do inferno, para destruir seus
perniciosos efeitos deveis trabalhar, a exemplo de Inácio. Deus o suscita com sua companhia, não para fazer tudo,
mas para servir de modelo, a todo o exército cristão, a fim de que todos, homens, mulheres, crianças façam o
mesmo.

Levar a Deus todo o homem e todos os homens unidade da fé, da esperança e da caridade, sem distinção de grego,
nem de bárbaro, é esse o fim da Igreja Católica, esse o fim da Companhia de Jesus, esse o voto de todo cristão fiel.
Para esse objetivo tendem as constituições de Santo Inácio, à sua companhia. Como a mesma Igreja, ele abraça a
vida contemplativa e a vida ativa, todas as ciências e todas as boas obras.

Como meio de chegar a esse fim, Santo Inácio fundou colégio por toda parte; para a educação cristã da juventude,
fundou em Roma o colégio Germânico, para a restauração católica da Alemanha, fundou ainda o colégio romano,
para a regeneração cristã e científica do inteiro universo.

Havia muito tempo a saúde de Santo Inácio, minada pelo trabalho ininterrupto, ameaçava ruína. Ele via aproximar-se
o fim; não deixava porém, de se ocupar dos cuidados que a companhia reclamava; por fim o mal foi mais forte que
sua coragem.

Embora suas enfermidades, que aumentavam todos os dias com a idade, não lhe permitissem agir por fora, queria
que lhe dessem conta das boas obras de vulto, que se faziam na Itália e alhures...

Sentindo-se um dia mais fraco que de costume e considerando que a obediência era a alma e o caráter de sua
ordem, mandou chamar o companheiro de seu secretário, e depois de lhe ter dito que não poderia viver por muito
tempo, acrescentou: Escreverei. Desejo que a companhia saiba os meus últimos pensamentos sobre a virtude da
obediência e ditou-lhe o que segue:

1°) Desde que eu entrar na religião, meu primeiro cuidado será abandonar-me inteiramente ao governo de meu
superior.
2°) Seria de se desejar que eu caísse nas mãos de meu superior que determinasse dominar meu juízo e que se desse
todo a isso.

3°) Em todas as coisas onde não há pecado, é preciso que eu siga o juízo de meu superior, e não o meu.

4°) Há três maneiras de obedecer: A primeira, quando fazemos o que nos é mandado em virtude da obediência e essa
maneira é boa; a segunda, que é melhor, quando obedecemos a simples ordens; a terceira, e a mais perfeita de
todas, quando não esperamos a ordem do superior, mas a prevenimos e adivinhamos sua vontade.

5°) Devo obedecer indiferentemente a toda espécie de superiores, sem distinguir o primeiro do segundo, nem mesmo
do último; mas deve considerar em todos igualmente, a Nosso Senhor, de quem eles ocupam o lugar, e lembrar-me
de que a autoridade se comunica ao último por aqueles que estão acima dele.

6°) Se o superior julga que o que manda é bom e eu creio não poder obedecer sem ofender a Deus, a menos que isso
me seja evidente, devo então desobedecer. Se, entretanto, tenho dificuldade, por algum escrúpulo, consultarei duas
ou três pessoas de bom senso e ater-me-ei ao que me disserem; e se não me render depois disso, estou muito longe
da perfeição que a excelência do estado religioso pede.
7°) Não devo ser para mim mesmo, mas para meu Criador e para aqueles sob cujo governo me pôs. Devo estar nas
mãos de meu superior como a cera mole, que toma a forma que se quer e faz tudo o que agrada: escrever cartas ou
não escrever, falar a uma pessoa ou não lhe falar, e outras coisas semelhantes.

8°) Devo considerar-me um corpo morto, que, de si mesmo não tem movimento algum e como o bastão de quem um
velho se serve, segundo julgar que lhe serei útil.

9°) Não devo rogar ao superior que me ponha neste ou naquele lugar, ou que me de este ou aquele emprego: posso,
no entanto, declarar-lhe meu pensamento e minha inclinação, contanto que eu me entregue a ele de todo, e que o
que ordena me pareça melhor.

10°) Isso não impede que não se peçam coisas que não tem consequência, como seria visitar igrejas ou fazer outras
devoções para se obter de Deus alguma graça. Todavia, com a condição que, estejamos numa igual situação de
espírito, seja que o superior nos conceda ou recuse o que lhe tivéssemos pedido.

11°) Devo depender sobretudo do superior no que se refere à pobreza, não tendo nada de próprio e usado de tudo,
como uma estátua, que se pode despojar sem que ela se oponha nem se queixe.

Esse testamento de Santo Inácio de Loyola, que morreu na sexta-feira, 31 de julho de 1556, às cinco horas da manhã,
pronunciando o nome de Jesus.

Tinha sessenta e cinco anos.

Havia desejado três coisas sobre a terra: ver os soberanos Pontífices confirmar seu instituto, ouvi-los aprovar o livro
dos Exercícios espirituais e saber que as constituições da ordem tinham sido promulgadas por toda parte, onde
trabalhavam alguns de seus discípulos.

Seus três desejos se haviam realizados: Inácio morreu feliz. Foi beatificado em 1609, por Paulo V e canonizado em
1622, por Gregório XV.

Enterraram Santo Inácio na pequenina igreja dos jesuítas, colocada sob a invocação da Mãe de Deus.

Em 1587, transportou-se seu corpo para a igreja professa, chamada Jesus que o cardeal Alexandre Farnese tinha
feito construir; puseram-no em 1637 sob o altar da capela, que tem o nome de Santo Inácio.
Está encerrado numa caixa rica e muito preciosa.

(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XIII, p. 461 à 481)

Santo Agostinho - 28 de Agosto


Quem não conhece Santo Agostinho? Quem não conhece as Confissões, onde deplora os desvarios da juventude?
Quem não conhece sua mãe, Santa Mônica, chorando noite e dia aquele filho, seguindo-o por toda a parte e
implorando sem cessar ao céu, em seu favor?

Nasceu a 13 de novembro de 354, na pequena cidade de Tagaste, perto de Madaura e de Hipona, na Numídia, a
Argélia atual. Seus pais eram, de condição honesta; o pai, membro do corpo municipal, chamava-se Patrício, a mãe
Mônica.

Tiveram grande cuidado em o fazer instruir nas letras humanas e todos notavam nele um espírito excelente e
disposições maravilhosas para as ciências. Tendo caído doente na infância, em perigo de morte, pediu o batismo
sendo logo catecúmeno, pelo sinal da cruz e pelo sal. Sua mãe, piedosa e fervorosa cristã, dispunha tudo para a
cerimônia. Mas de repente ele melhorou e o batismo foi adiado.

Estudou primeiro, em Madaura, gramática e retórica até a idade de dezesseis anos, quando o pai o fez voltar a
Tagaste e aí ficou um ano, enquanto se preparavam as coisas necessárias para que fosse terminar os estudos em
Cartago; a paixão de mandar esse filho estudar obrigava o pai a esforços superiores à sua fortuna, que era medíocre.

Durante a permanência em Tagaste, o jovem Agostinho, desprezando os sábios conselhos de sua mãe, começou por
se deixar levar a amores desonestos, convidado pela ociosidade e pela complacência do pai, que ainda não era
cristão. Mas o foi antes da morte, que aconteceu pouco depois.

Agostinho chegou a Cartago e afundou-se cada vez mais no amor das mulheres, que fomentava com espetáculos dos
teatros. Não deixava de pedir a Deus a castidade, mas, acrescenta, que não seja agora.

Entretanto caminhava com grande êxito nos estudos, que tinham por objetivo chegar a cargos e à magistratura, pois
a eloquência lhes era então o caminho.

Entre as obras de Cícero, que estudava, leu o Hortensius que não temos mais e que era uma exortação à filosofia. Ele
ficou encantado e começou então, na idade de dezenove anos, a desprezar as vãs esperanças do mundo e a desejar
a sabedoria e os bens imortais. Foi o primeiro movimento de sua conversão.

A única coisa que o desgostava nos filósofos é que neles não encontrava o nome de Jesus Cristo que tinha recebido
com o leite de mãe e que tinha causado profunda impressão em seu coração. Quis então ler as Sagradas Escrituras,
mas a simplicidade do estilo desagradou-lhe, habituado como estava à elegância de Cícero.

Depois, caiu nas mãos dos maniqueus que, falando somente de Jesus Cristo, do Espírito Santo e da verdade, o
seduziram com seus discursos pomposos, deram-lhe o gosto por suas ilusões e aversão pelo Novo Testamento.

Entretanto, sua mãe, mais aflita do que se tivesse visto morto, não queria mais comer com ele; veio consolá-la este
sonho: Ela estava num bosque e um jovem resplandecente vinha a ela, sorrindo, perguntando-lhe a causa de seus
penas; ela respondeu-lhe que chorava a perda do filho. Vede, disse ele, está convosco!

De fato, viu-o junto de si, no mesmo lugar. Contou depois o sonho a Agostinho, que lhe disse:Vós vereis o que eu
sou. Mas ela respondeu sem hesitar: Não! Porque não me disseram: Tu estarás onde ele está mas ele estará onde tu
estás. Desde aquele tempo, viveu e comeu com ele, como antes.
Dirigiu-se a um santo bispo e rogou-lhe falasse ao filho. O bispo respondeu: ainda é muito indócil e está muito cheio
daquela heresia, que lhe é nova. Deixai-o, e contentai-vos de rogar por ele, ele verá, lendo, qual é seu erro. Eu que
vos falo, na minha infância fui entregue aos maniqueus por minha mãe, que tinham seduzido; não somente li, mas
transcrevi quase todos os seus livros e eu mesmo me enganei.

A mãe não se contentou com as palavras do santo bispo; chorando abundantemente, continuou a insistir que falasse
ao filho; o bispo respondeu com certo humor:Ide, é impossível que o filho de tantas lágrimas pereça! O que ela ouviu
como um oráculo do céu. Seu filho, todavia, ficou nove anos maniqueu desde os dezenove anos até os vinte e oito.

Tendo terminado os estudos, ensinou, na sua cidade de Tagaste, gramática e depois retórica. Um arúspice se
ofereceu para fazê-lo ganhar o prêmio numa disputa de poesia, por meio de alguns sacrifícios de animais; mas ele
rejeitou-o com horror não querendo ter relação alguma com demônios.

Todavia, não fazia dificuldade em consultar os astrólogos e ler-lhes os livros. Mas disso foi dissuadido por um sábio
ancião, chamado Vindiciano, médico famoso, que tinha reconhecido, por experiência, a vaidade desse estudo.
Agostinho tinha então um amigo íntimo, que ele também fizera maniqueu, pois cuidava de seduzir os outros.

O amigo caiu doente e ficou muito tempo fora de si: como se perdera a esperança de o salvar, deram-lhe o batismo.
Quando voltou a si, Agostinho quis zombar do batismo que tinha recebido naquele estado: mas o doente repeliu as
palavras com horror e disse-lhe, com inesperada liberdade, que, se queria ser seu amigo, não lhe devia nunca mais
falar daquele modo.

Morreu poucos dias depois, fiel à graça. Agostinho, que o amava como a si mesmo, ficou inconsolável com a morte.
Tinha mais ou menos vinte e seis anos, quando escreveu dois ou três livros: - Da beleza e da Decência - que não
chegaram até nós.

Descobriu, nesse tempo, que sob a máscara de piedade os maniqueus, que se chamavam de santos e eleitos,
ocultavam os costumes mais depravados. Cita vários escândalos públicos. Ao mesmo tempo começava a se
aborrecer com as lendas que contavam, principalmente sobre o sistema do mundo, a natureza dos corpos e dos
elementos.

Tais conhecimentos, dizia, não são necessários à religião: é preciso não mentir e não se vangloriar de saber o que não
se sabe, principalmente quando se quer passar, como Manés, por ser guiado pelo Espírito Santo. Gostava muito mais
das razões que os matemáticos e os filósofos davam dos eclipses, dos solstícios e do curso de astros.

Naquele tempo persuadiram-no a ensinar em Roma, onde os alunos eram mais razoáveis que em Cartago. Embarcou
contra a vontade de sua mãe e a enganou sob o pretexto de acompanhar um amigo até o porto.

Chegando a Roma, caiu doente de febre que o levou às últimas; mas não pediu o batismo. Morava em casa de um
maniqueu e continuava a frequentá-los, preso pelos laços de amizade; não mais esperava encontrar a verdade entre
eles e não se decidia a procurá-la na igreja católica, tanto tinha prevenções contra tal doutrina.

Começou então, a pensar que os filósofos acadêmicos, que duvidavam de tudo, poderiam bem ser os mais sábios e
repreendia o hospedeiro por sua excessiva fé nas fábulas dos maniqueus. Entretanto, a cidade de Milão mandou
pedir a Símaco, prefeito de Roma, um professor de retórica e pelo prestígio dos maniqueus, Agostinho obteve lugar,
depois de ter feito prova de sua capacidade, com um discurso. Assim veio a Milão, no ano 384, tendo trinta anos de
idade.

Santo Ambrósio, recebeu-o com tão paterna bondade, que começou por lhe ganhar o coração. Agostinho ouvia-lhe
assiduamente os sermões, somente pela beleza do estilo e para ver se sua eloquência correspondia à fama. Estava
encantado com a sua suavidade da linguagem, mais sábia que a de Fausto, mas com menos graça na recitação.
Não prestava, a princípio, atenção às coisas que dizia Santo Ambrósio; mas insensivelmente e sem que tomasse
cuidado, as coisas entravam-lhe no espírito com as palavras e viu que a doutrina católica era pelo menos
sustentável. Resolveu então, de repente, deixar os maniqueus e ficar na qualidade de catecúmeno, como era, na
Igreja, que seus pais lhe tinham recomendado, isto é, na Igreja Católica, até que a verdade lhe aparecesse mais
claramente.

Santa Mônica tinha vindo procurá-lo com tal fé, que passando o mar consolava os marinheiros, mesmo nos maiores
perigos, pela certeza que Deus lhe tinha dado de que muito em breve estaria junto do filho. Quando ele lhe disse
que não era mais maniqueu, mas que ainda não era católico, ela não ficou admirada; respondeu tranquilamente que
tinha certeza de o ver fiel católico antes de sair desta vida.

Santo Ambrósio, amava, por sua vez, Santa Mônica pela piedade e boas obras e muitas vezes felicitava Agostinho
por ter tal mãe, pois toda sua vida tinha sido virtuosa.

Ela tinha nascido numa família cristã, onde tivera boa educação. Tinha sido perfeitamente sujeita a seu marido,
sofrendo mau proceder e mais tratos com paciência que servia de exemplo a outras mulheres e ela o ganhou a Deus,
no fim da vida.

Tinha um talento particular em reunir pessoas divididas. Depois que enviuvou, deu-se às obras de piedade; fazia
grandes esmolas, servia os pobres, jamais deixava de levar sua oferta ao altar, nem de ir duas vezes a igreja, pela
manhã e à noite, para ouvir a palavra de Deus e fazer as orações, que eram toda sua vida.

Deus comunicava-se a ela por visões; sabia distinguir sonhos e pensamentos naturais. Assim era Santa Mônica, com
relação a Santo Agostinho. (...)

Santo Agostinho foi batizado por Santo Ambrósio com seu amigo Alípio e seu filho Adeodato, de mais ou menos
quinze anos. Foram batizados na Vigília da Páscoa que naquele ano, 387, foi o dia 25 de abril, como Santo Ambrósio
tinha determinado, sendo consultado pelos bispos da Província da Emília.

Foi, como se crê, nessa ocasião que Santo Ambrósio fez aos recém-batizados a instrução que compõe seu livro - Dos
mistérios, - ou daqueles que foram iniciados.

Santo Agostinho, depois do batismo, tendo examinado em que lugar poderia servir a Deus mais utilmente, resolveu
voltar à África com a mãe, o filho, o irmão e um jovem chamado Evódio. Este era também de Tagaste; sendo agente
do imperador, converteu-se, recebeu o batismo, antes de Santo Agostinho e deixou o emprego para servir a Deus.
Quando chegaram a Óstia, descansaram da longa viagem que tinham feito desde Milão e prepararam-se para
embarcar.

Um dia, Santo Agostinho e sua mãe, apoiados a uma janela com extrema doçura, esquecendo todo o passado e
levando os pensamentos para o futuro, indagaram qual seria a vida eterna dos santos. Elevaram-se acima de todos
os prazeres dos sentidos; percorreram por graus todos os corpos o céu mesmo e os astros.

Chegaram até às almas e passando por todas as criaturas mesmo espirituais, chegaram às sabedoria eterna, pela
qual existem e que existe sempre, sem diferença e tempo. Atingiram, por um momento, a ponta do espírito e
sentiram ser obrigados a voltar ao rumor da voz, onde a palavra começa e termina. Então sua mãe disse: Meu filho!
Quanto ao que me concerne, não tenho mais nenhum prazer nesta vida. Não sei o que ainda faço aqui agora, nem
por que cá estou. A única coisa que me fazia desejar ficar aqui era ver-vos um cristão católico antes de morrer. Deus
me concedeu mais do que isso, eu vos vejo consagrado a seu serviço, tendo desprezado a felicidade terrestre.

Mais ou menos cinco dias depois, caiu doente de febre. Durante a enfermidade desfaleceu, um dia; quando voltou a
si, olhou Agostinho, e seu irmão Navígio, e disse-lhes: Onde estava eu?
Depois, vendo-os tomados de dor, acrescentou: Deixareis aqui vossa mãe. Navígio desejava que ela morresse em sua
terra natal. Mas ela olhou severamente para ele, como para o repreender e disse a Agostinho: Vedes o que diz!

Enfim, dirigindo-se a ambos:Ponde este corpo, disse ela, onde vos aprouver, não vos inquieteis. Rogo-vos somente
que me lembreis no altar do Senhor, em qualquer parte onde estiverdes. Morreu no nono dia da doença, na idade de
cinquenta e seis anos e aos trinta e três de Santo Agostinho, isto é, no mesmo ano de seu batismo, 387.

Logo que passou à eternidade, Agostinho fechou-lhe os olhos. O jovem Adeodato soltava gritos de dor; mas todos os
assistentes o fizeram calar, não vendo motivo algum de lágrimas naquela morte e Agostinho reteve as suas, fazendo-
se muita violência. Evódio tomou o saltério e começou a cantar o salmo 100: Cantarei em vosso louvor, ó Senhor, a
misericórdia e a justiça. Todos respondiam e logo se reuniu grande quantidade de pessoas piedosas de um e outro
sexo.

Levaram o corpo; ofereceu-se pela falecida o sacrifício de nossa Redenção; fizeram-se ainda orações junto do
sepulcro, segundo o costume, na presença do corpo, antes de o enterrar. Santo Agostinho, não chorou durante toda
a cerimônia, mas por fim, de noite, deixou correrem as lágrimas para aliviar a dor.

Rogou por sua mãe, como fazia muito tempo depois, escrevendo todas as circunstâncias daquela morte no livro de
suas - Confissões - ele roga aos leitores lembrarem-se no santo altar, de Mônica, sua mãe e sei pai, Patrício.

Depois da morte de sua mãe, Santo Agostinho voltou de Óstia para Roma, onde ficou o resto do ano 387 e todo o
ano 388. Seus primeiros trabalhos, depois do batismo, foram para a conversão dos maniqueus, cujos erros acabava
de deixar.

Não podia tolerar a insolência com a qual aqueles impostores elogiavam a pretensa continência e abstinências
supersticiosas, para enganar os ignorantes e caluniar a Igreja.

Compôs então dois livros: - Da Moral e dos Costumes, Da Igreja Católica, e Da Moral e dos Costumes dos maniqueus.
(...)

Sua aflição tornou-se ainda bem maior quando viu a cidade de Hipona sitiada. Entretanto, tinha a consolação de ver
consigo vários bispos, entre outros Possídio de Cálamo, um dos mais ilustres de seus discípulos, o mesmo que nos
deixou sua biografia. Uniam seus penares, seus gemidos e suas lágrimas.

Santo Agostinho pedia a Deus, em particular, lhe aprouvesse libertar Hipona dos inimigos que a cercavam, ou que
pelo menos, desse aos servos a força de suportar os males de que estavam ameaçados, ou enfim de os retirar do
mundo e de os chamar a si. De fato caiu doente de febre no terceiro mês do cerco e viu-se logo que Deus não tinha
rejeitado a oração de seu servo.

Durante a doença mandou escrever e colocar junto da parede, perto de seu leito, os salmos Davi sobre a penitência;
lia-os derramando lágrimas. Dez dias antes da morte, rogou aos amigos mais íntimos e aos mesmos bispos, que
ninguém entrasse em seu quarto, senão quanto viesse o médico para o ver, ou lhe trouxessem o alimento;
empregava todo o tempo em oração.

Enfim, chegou seu último dia; Possídio e os outros amigos vieram juntar orações às suas, que ele só interrompeu,
quando adormeceu em paz... Até então, tinha conservado o uso de todos os membros e nem o ouvido, nem a vista
se tinham debilitado.

Como tinha abraçado a pobreza voluntária, não fez testamento; nada tinha a deixar, mas recomendou-se se
conservasse com cuidado a biblioteca da igreja e todos os livros que podia ter em casa, para aqueles que viessem
depois dele. Possídio conta que tendo sido a cidade de Hipona incendiada algum tempo depois, essa biblioteca foi
conservada no meio do saque dos bárbaros. Põe-se a morte de Santo Agostinho a 28 de agosto de 430. Vivera
setenta e seis anos, e servira a Igreja perto de quarenta na qualidade de padre e de bispo.

Com Santo Agostinho morreu de algum modo a África cristã e civilizada. Depois desse tempo, até que espirou sob os
ferros dos muçulmanos, sua existência foi somente uma longa agonia. Hoje pareceria que a Providência a quer
ressuscitar e ressuscitá-la pela mesma província que Santo Agostinho ilustrou por sua vida e morte, o país da Argélia
e de Bone.

Quem não conhece Santo Agostinho? Quem não conhece as Confissões, onde deplora os desvarios da juventude?
Quem não conhece sua mãe, Santa Mônica, chorando noite e dia aquele filho, seguindo-o por toda a parte e
implorando sem cessar ao céu, em seu favor?

Foi somente na idade de trinta e dois anos que esse filho de tantas lágrimas se livrou inteiramente da heresia
maniquéia e da escravidão das paixões corrompidas e recebeu o batismo das mãos de Santo Ambrósio. Mas quem
poderia dizer quanto sua conversão foi perfeita! Com que amarga tristeza chorou faltas passadas, embora tivesse
sido apagadas inteiramente pelo batismo; com que ardor amou a Deus; com que zelo trabalhou para sua glória! Ai
de nós; se o imitamos mais ou menos nos seus desvarios, quando o imitaremos na santidade de vida?

Mas que nos impede chorar nossas faltas como ele, amarmos a Deus como ele, sermos humildes como ele? Pois ele
também, esse grande santo, foi religioso. Pouco depois da conversão, renunciou a tudo o que possuía de bens e
viveu em comunidade religiosa, com os amigos. E quando foi feito bispo de Hipona, fez de sua casa episcopal um
mosteiro, onde vivia em religião, com seus padres e diáconos.

Como o exemplo desse grande santo, depois do de tantos outros nos deve fazer estimar e amar a vocação religiosa.
Desejamos saber de Santo Agostinho mesmo qual é a verdadeira fonte de santidade?

Escutemos o que diz: a primeira coisa para se chegar à verdadeira sabedoria é a humildade; a segunda é a
humildade; a terceira é a humildade e tantas vezes quantas me fizésseis essa pergunta, tantas vezes vos daria a
mesma resposta. Não, que não haja outros preceitos, mas se a humildade não preceder, não acompanhar e não
seguir, o orgulho tirará de nossas mãos tudo o que fizermos de bem.

(Vida dos Santos, Padre Rohbacher, Volume XV, p. 268 à 305)

São Mateus, Apóstolo - 21 de Setembro

Quando o Filho de Deus se fez homem e veio a este mundo, tomou o nome de Jesus ou Salvador, porque viera para
salvar-nos e não para perder-nos.

O primeiro aos quais fez anunciar pelos anjos a boa nova da sua vinda, foram alguns humildes pastores de Belém.
Quando escolheu seus doze apóstolos, ou doze enviados, para espalharem a boa nova a todos os povos da terra,
escolheu-os entre os humildes e os pequenos. Primeiramente foram dois irmãos, Pedro e André, que viviam da
pesca, assim como dois outros, Tiago e João.

Mais extraordinário ainda é não ter Jesus escolhido seus apóstolos precisamente entre os santos, nem no interior do
templo, mas nas praças públicas, entre a classe operária e mesmo entre os empregados da alfândega.

Saía da cidade de Cafarnaum e dirigia-se para o mar da Galiléia, onde costumava pregar à multidão, quando ao
passar, avistou um publicano, Levi, filho de Alfeu, também chamado Mateus, sentado à mesa de cobrança de
impostos, e disse-lhe: Segue-me.

E aquele, tudo abandonando, levantou-se e seguiu-o. E Levi ofereceu a Jesus um grande banquete em sua casa.
Estando este à mesa, chegaram muitos publicanos e pecadores que se sentaram à mesa com ele e com os discípulos,
que em grande número o tinham acompanhado.
Mas os fariseus e os escribas, vendo que Jesus comia com os publicanos e os pecadores, murmuraram e disseram
aos discípulos: Por que motivo come o vosso Mestre com os publicanos e os pecadores e vós com ele? Malgrado a
aparente piedade, de que se jactavam, aqueles homens estavam cheios de desprezo pelos outros. Respondeu-lhes
Jesus: Os sãos não tem necessidade de médico, mas sim os enfermos. Ide, e aprendei o que vos digo: quero
misericórdia e não sacrifício; porque não vim chamar os justos e sim os pecadores.

Quão grande é a bondade de Jesus Salvador! Quem ainda poderá desesperar, seja por causa de seus pecados, seja
por causa de suas más inclinações? Aí está um médico capaz, não apenas de curar os doentes, mas de ressuscitar os
mortos; um médico caridoso, que se sobrecarregará com as nossas doenças e as nossas iniqüidades; um médico tão
bom que se transmuda em remédio para os nossos males.

Mas o publicano Mateus também não merecerá que o amemos e imitemos? Era um homem de negócios e de
dinheiro, um burocrata, um financista. Contudo, mal Jesus o chama, levanta-se, tudo abandona e segue-o,
testemunha-lhe publicamente a gratidão com um grande banquete.

E nós, que talvez nos julguemos muito melhores do que os publicanos, o Senhor chama-nos, o Senhor diz-nos há
muito tempo: Vinde e segui-me! E ficamos surdos ao seu apelo. Ah! Roguemos ao bem-aventurado publicano, cuja
festa celebramos, que nos seja dado seguir o Senhor, tal como o fez.

De publicano transformado em apóstolo. São Mateus perseverou até o fim. Depois de receber o Espírito Santo com a
abundância de suas graças, no dia de Pentecostes, pregou durante vários anos na Judéia às ovelhas perdidas da casa
de Israel: em seguida, levou o Evangelho às nações longínquas, Pérsia e à Etiópia, e confirmou com o sangue as
verdades que pregava.

Além de um dos doze apóstolos, escolhidos para pregarem o Evangelho por toda a terra, São Mateus também foi um
dos homens inspirados para gravá-lo por escrito. Há quatro evangelistas: São Mateus, São Marcos, São Lucas e São
João; assim como há quatro grandes profetas: Isaías, Ezequiel, Jeremias e Daniel; e quatro grandes impérios:
Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma e quatro querubins acima dos quais se eleva o trono de Deus, no qual está sentado
o Filho do homem.

O conjunto dos quatro querubins com o trono de Deus suspenso acima deles, não tem a sua representação na terra
no conjunto dos quatro grandes impérios, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma, a cujas lutos e a cujos destinos vemos
outros tantos espíritos celestes presidir; espíritos que serviram de carro do Filho de Deus para que descesse à terra e
nela estabelecesse seu império espiritual, e dos quais tirou seus instrumentos de vingança, pois no capítulo X, de
Ezequiel, não vemos um dos querubins apanhar os carvões ardentes, que seriam espalhados sobre a criminosa
Jerusalém?

Na Igreja Cristã, não viram os Padres os quatro evangelistas? Na face do homem, São Mateus, que inicia seu
evangelho pela genealogia de Cristo enquanto homem; na face do leão, São Marcos, que inicia o seu pela voz de
deus clamando no deserto; na face do touro, vítima principal dos antigos sacrifícios, São Lucas, que começa pelo
sacerdote Zacarias no ato de desempenhar as funções do sacerdócio num templo; na face da águia, São João que. De
início, eleva-se como uma águia acima das nuvens até o seio de Deus.

São quatro, mas cada um deles é encontrado nos três outros, e os quatro são encontrados em cada um em
particular; há quatro evangelhos, e só há um Evangelho. É o mesmo espírito que os inspira, que os alenta, que os
inspira, que os alenta, que os dirige. São cheios de olhos; em tudo, até num ponto e vírgula, cintila a verdade.
Contém como que um fogo divino de onde saem as fagulhas, as correntes elétricas da graça, que iluminam os
espíritos, toam os corações e renovam a face da terra.

No Evangelho de São Mateus há um belo consumo de todo o Evangelho: é o Sermão da Montanha de todo o
Evangelho, que reproduz inteiramente, enquanto os outros evangelistas só citam alguns trechos. É o sermão que se
inicia com as oito bem-aventuranças.

O único objetivo do homem é a felicidade. Jesus Cristo veio unicamente proporcionar-nos os meios de realizá-lo.
Colocar a felicidade onde deve estar é a fonte de todo bem; e a fonte de todo mal é colocá-la onde não deve estar.
Digamos, pois: Quero ser feliz. Vejamos, porém, de que maneira; vejamos em que consiste a felicidade; vejamos
quais são os meios para alcançá-la.
A felicidade está em cada uma das oito bem-aventuranças; pois, em todas, sob várias designações, é sempre da
felicidade eterna que se trata. Na primeira bem-aventurança, como um reino; na segunda, como a terra prometida;
na terceira, como a verdadeira e perfeita consolação; na quarta, como a satisfação de todos os nossos desejos; na
quinta, como a última misericórdia que suprime todos os males e concede todos os bens; na sexta, sob seu legítimo
nome, que é a visão de deus; na sétima, como a perfeição da nossa divina adoração; na oitava, mais uma vez como o
reino dos céus.

Eis, pois a felicidade em todas; mas há vários meios de alcançá-la e casa bem-aventurança assinala um; juntos,
completarão a felicidade do homem.

Se o Sermão da Montanha é o resumo de toda a doutrina cristã, as oito bem-aventuranças são o resumo de todo o
Sermão da Montanha.

Se Jesus Cristo ensina que a nossa justiça deve sobrepujar a dos escribas e fariseus, o ensinamento está contido na
seguinte sentença: Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça. Pois se a desejarem como único alimento,
se dela estiverem verdadeiramente famintos, com que abundância a receberão, pois que de todos os lados se
apresentará para saciar-nos?

Então também seguiremos os seus mínimos preceitos, como homens famintos que nada deixam, nem mesmo, por
assim dizer, uma migalha de pão.

Se vos recomendam não maltratardes com palavras o vosso próximo é por efeito da brandura, do espírito pacífico ao
qual foi prometido o reino e qualidade de filho de Deus. Não olhareis uma mulher com más intenções: Bem-
aventurados os puros de coração; e o vosso coração só será inteiramente puro, depois que o tiverdes purificado de
todos os desejos sensuais.

São mais felizes os que passam a vida em lutas e numa tristeza salutar do que no meio de prazeres que embriagam.
Não jureis; digais: É verdade, não é verdade. É ainda um efeito da brandura: quem é manso e humilde não se apega
excessivamente aos sentidos, o que faz o homem afirmar com muita facilidade; diz simplesmente o que pensa,
dentro do espírito de sinceridade e de mansidão.

Perdoaremos facilmente todas as ofensas se estivermos possuídos por esse espírito de misericórdia, que atrai para
nós numa misericórdia bem mais ampla. Mansos e pacíficos, não resistiremos à violência, deixar-nos-ermos mesmo
levar além do que prometemos.

Amamos nossos amigos e inimigos, não apenas porque somos mansos, misericordiosos, pacíficos, mas também
porque somos famintos de justiça e queremos vê-la reinar dentro de nós mesmos, melhor do quo reina no coração
dos fariseus e dos gentios. Essa fome de justiça também nos leva a desejá-la por necessidade e não por ostentação.

Amamos o jejum quando encontramos nosso principal alimento na verdade e na justiça. Por meio de jejum, nosso
coração se purifica e nos livramos dos desejos dos sentidos, Temos o coração puro quando reservamos para os olhos
de Deus o bem que praticamos; quando nos contentamos em ser vistos apenas por ele; e quando não nos servimos
da virtude como de uma máscara para iludir o mundo e atrair os olhares e o amor das criaturas.

Quando nosso coração é puro, temos o olhar luminoso e a intenção reta. Evitamos a avareza e a busca dos bens,
quando somos verdadeiramente pobres de espírito, Não julgamos, quando somos mansos e pacíficos; porque a
mansidão expulsa o orgulho.

A pureza de coração faz com que nos tornemos dignos da Eucaristia, e que nunca recebamos sem unção o pão
celestial.

Quando temos fome e sede de justiça, rezamos, imploramos, suplicamos: pedimos a Deus os verdadeiros bens e
confiamos em que nos atenda, quando só aspiramos ao seu reino e à mansão dos vivos.

De boa vontade entramos pela porta estreita quando nos consideramos felizes na pobreza, no pranto, nas
tribulações que sofremos pela justiça. Quando temos fome de justiça, não nos contentamos de dizer a boca: Senhor,
Senhor! Mas nos alimentamos intimamente com a sua verdade. Então edificamos sobre o rochedo e o achamos
suficientemente firme para servir de apoio à nossa construção.
As bem-aventuranças constituem, pois o resumo do sermão inteiro, mas um resumo aprazível, porque a recompensa
está ligada ao preceito; o reino dos céus, sob vários nomes admiráveis, à justiça; a felicidade, à prática.

No ano de 1080, Santo Alfano, arcebispo de Salerna, lá descobriu as relíquias de São Mateus, apóstolo e evangelista.
Apressou-se em comunicar o achado ao Papa Gregório VII, que o felicitou, e com ele a toda a Igreja Católica, numa
carta datada do dia 18 de Setembro, na qual recomenda ao bispo as preciosas relíquias sejam dignamente
veneradas.

(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XVI, p. 350 à 357)

Biografia do Papa São Leão Magno (../../395 - 10/11/461)


Sumo Pontífice
Santo Padre da Igreja
« Doutor da Igreja »

O papa São Sixto III morreu pelo ano de 440, no mês de agosto. Após um conclave que durou 18 anos, foi eleito para
suceder-lhe, São Leão, seu arqui-diácono, natural da Toscana, mas nascido em Roma. Estava ele nas Gálias, onde
acabara de reconciliar os generais Aécio e Albino. Tão alto era o conceito em que a Igreja o tinha, que preferiu ficar
quarenta dias sem pastor a nomear outro. E o que houve de admirável nisso, foi que, durante tão longo tempo, não
se formou nenhuma perturbação na cidade. Enviaram-lhe emissários para convidá-lo a vir tomar conta de sua pátria
e de sua Igreja. Ele veio e foi ordenado bispo, num domingo, dia 29 de setembro do mesmo ano. Sentiu-se menos
alegre com a sagração do que com a obrigação de servir aos outros. Não foi sem receio que se deixou investir de tão
alto ministério, sabendo que poderia causar frequentes quedas. Mas a afeição que o povo lhe testemunhou à sua
entrada, deu-lhe esperança de conduzi-lo com facilidade e levá-lo ao bem, sem restrições. E não se enganou. O povo
teve por ele grande submissão.

Reconheceu, pelos efeitos, que seus conselhos eram recebidos com alegria. Pregava muitas vezes, sobretudo nas
grandes solenidades, e no dia em que se comemorava mais um aniversário de sua ordenação. Não se sabe onde
Sozômenes soube, que, em Roma, nem o Papa nem outra pessoa pregava na igreja. Os sermões que ainda nos
restam de São Leão são uma prova em contrário e ele mesmo diz no elogio ao predecessor, no dia da festa dos sete
irmãos Macabeus, que tinha o costume de instruir publicamente o povo. Em grande número desses discursos, fala
da pregação como de um dever ligado ao ministério dos Papas, como aos dos demais bispos. Um dos cuidados que
teve foi trazer para Roma as pessoas que mais se distinguiam pelo saber e pela integridade dos costumes, para delas
se servir no governo da Igreja. Entre essas pessoas, cita-se São Próspero da Aqüitânia, que o ajudou a escrever as
cartas mais importantes.

A Igreja e o império tinham igual necessidade de um homem tal como São Leão, com justiça cognominado o Grande.
Entre os povos que invadiam o império de todos os lados, havia muito poucos católicos. Quase todos eram arianos
ou idólatras. Os vândalos arianos pilhavam as igrejas da África com furor de arianos e de vândalos. Os maniqueus
fugitivos de Cartago afluíam à Itália, e ameaçavam infestar Roma. Os priscilianistas inquietavam a Espanha, os
pelagianos a Venecia e os nestorianos o Oriente. Uma nova heresia sairá de Constantinopla, que, por inépcia do
imperador Teodósio, revolucionará ao mesmo tempo a Igreja e o império — Átila marchará sobre Roma, Genserico a
tomará e Leão se mostrará maior do que todas as calamidades.

Devastada pelos vândalos a Sicília, São Leão enviou a Pascásio, bispo de Lilibeu, socorros com cartas de consolação.
Ao mesmo tempo, consultava-o sobre o dia de Páscoa do ano seguinte, 444, como já havia consultado São Cirilo de
Alexandria. Pascásio respondeu-lhe que, após ter examinado a questão e calculado exatamente, havia chegado à
conclusão de que a Páscoa, no ano seguinte, deveria ser o dia 23 de abril, um domingo. E dava as razões em que se
apoiara.

No dia 10 de outubro do mesmo ano, 443, São Leão escreveu uma decretal aos bispos da Itália, para coibir vários
abusos que se tinham introduzido na disciplina eclesiástica. Escreveu igualmente ao bispo de Aquiléia, metropolitano
da Venecia, para lá extirpar algum resto do pelagianismo. Nomeou Anastasio, bispo da Tessalônia, seu vigário na
Ilíria, dizendo-lhe: "Consultar-nos-eis em todos os casos de maior importância que não puderem ser resolvidos nos
lugares, bem como as apelações". A Mauritânia Cesareana, província da Argélia, pertencia ainda ao império do
Ocidente. Mas sofrera imensamente com a guerra dos vândalos. São Leão, cientificado pelos que de lá vinham de
que ordenações irregulares estavam sendo feitas, deu comissão ao bispo Potêncio, que de Roma para lá se dirigia,
para se informar da verdade. Baseado em relatório desse bispo, São Leão escreveu uma carta decretal que termina
com estas palavras: "Se outras questões se levantarem, as quais possam interessar o estado da igreja e a concórdia
dos bispos, queremos que sejam examinadas no próprio lugar, dentro do espírito de temor a Deus, e que todas as
decisões tomadas ou a serem tomadas nos sejam comunicadas, em um relatório completo, para que o que tenha
sido definido com justiça e racionalmente, segundo o costume da Igreja, seja também confirmado por minha
sentença". Essa decretal é das mais importantes, pelo fato de nos apontar o direito, o uso e os efeitos das apelações
a Roma, particularmente da África.

Entre os que passaram para a Itália, dada a desolação da África e por causa do temor aos vândalos, havia grande
número de maniqueus que se refugiaram em Roma e lá permaneceram escondidos durante algum tempo. Mas São
Leão os descobriu e, em vários sermões, advertiu o povo a respeito do fato, exortando-o a denunciá-los aos
sacerdotes e aos curas. Os priscilianistas, que não se distinguiam absolutamente dos maniqueus, dos quais, aliás, se
originavam, se multiplicaram novamente na Espanha, o que provocou distúrbios. Informado da situação por São
Turíbio, bispo de Astorga, São Leão lhe escreveu em 21 de julho de 447, longa carta. Descreve a heresia dos
priscilianistas como a sentina de todas as heresias anteriores. Insiste particularmente no fato de negarem eles o livre
arbítrio do homem e atribuírem todas as ações a uma necessidade fatal, a influência dos astros. É de boa nota que
nossos Pais, desde o começo, tudo fizeram para banir esse furor ímpio do seio da Igreja. Ainda mais que os príncipes
do século tiveram tanto horror por essa sacrílega demência, que abateram o autor e vários dos seus discípulos com o
gládio das leis públicas. Viram eles que seria arruinar o zelo pela honestidade dissolver todas as uniões conjugais,
deturpar todas as leis divinas e humanas, permitir que pessoas semelhantes continuassem vivendo e professando
semelhantes princípios. São Leão acentuou a conformidade dos priscilianistas com os maniqueus e enviou a São
Turíbio as atas dos processos que havia formulado em Roma, contra eles.

Nesses processos, particularmente contra os maniqueus de Roma, vê-se o nome e a forma do que mais tarde se
chamou inquisição. O santo Papa, que lhe dá o nome de inquisição mais de uma vez, a ela preside, assistido de
bispos, sacerdotes, senadores e outras personagens ilustres. Declara aos fiéis que são obrigados pela consciência a
denunciar os hereges. Faz com que pessoas suspeitas lhe sejam trazidas à presença e procura obter que se retratem.
Os que se voltavam para a igreja recebiam a penitência; os que se obstinavam eram entregues às mãos seculares,
para receberem a punição, de acordo com as leis do império, minando que estavam, pela adoção de tais princípios,
as próprias bases da moral e da sociedade.

Entre os santos bispos das Gálias, o principal foi Santo Hilário de Arles. Exercia este uma espécie de supremacia
sobre as igrejas desse país. Havia mais de uma razão para tanto. Vários Papas, notadamente São Zósimo, haviam
designado os predecessores na sede de Arles, como seus vigários nas Gálias. Além disso, talvez por causa da amizade
por sua pessoa ou veneração por seu mérito, metropolitanos lhe cediam os direitos. Enfim o patrício Aécio e o
prefeito do pretório, que lhe dedicavam particular afeição, deram-lhe uma escolta de soldados para as viagens. Tudo
isso, se não tivesse sido reprimido, teria provocado consequências desagradáveis. Um dos sucessores de Hilário teria
podido abusar desse exemplo, assim como do pretexto de que a cidade de Arles era a metrópole civil das Gálias para
a residência do prefeito, para se arrogar domínio secular sobre todas as igrejas gálicas. Já pecara Hilário por um zelo
pouco sério, falta em que podem incorrer até os santos. Chegado a Besançon, no curso das viagens, denunciaram-
lhe Celidônio, bispo dessa cidade, como ordenado contra as regras, por ter sido casado com uma viúva e por ter
condenado à morte, durante o tempo em que fora magistrado. Hilário reuniu um concílio e depôs o bispo Celidônio,
taxando-o de bígamo. Um outro foi nomeado para substituí-lo. Celidônio recorreu ao Papa e chegou mesmo a ir a
Roma. Ao mesmo tempo, Hilário soube que Projecto, bispo de outra localidade que não Arles, estava doente,
nomeou imediatamente e ordenou outro bispo, como se o bispado estivesse vacante. Restabelecendo-se, Projecto
se queixou igualmente desse procedimento ao papa São Leão.

Hilário, ao saber que Celidônio fora a Roma, para lá também se dirigiu apesar dos rigores do inverno. São Leão
reuniu um concílio para julgar os acontecimentos. Celidônio produziu testemunhas que o declararam inocente
perante a irregularidade com que fora condenado. Hilário nada opôs às testemunhas. Interrogado, não deu
nenhuma resposta razoável, chegando mesmo a confundir-se completamente. Disse até coisas que um leigo não
podia dizer, nem um bispo ouvir. Por fim, citado em processo, fugiu vergonhosamente de Roma. Tal é o julgamento
de São Leão e do concílio. De volta a Arles, aplicou-se inteiramente a apaziguar o Papa. E nesse sentido, escreveu
várias cartas.

Quatro ou cinco meses após a partida precipitada de Hilário, São Leão dirigiu uma decretal a todos os bispos das
províncias interessadas no caso.

Inicia por estabelecer a autoridade da Santa Sé a respeito das prerrogativas concedidas a São Pedro, "Jesus Cristo,
diz, instituiu de tal forma a economia de sua religião para iluminar pela graça todos os povos e todas as nações, que
desejou que a verdade, anunciada anteriormente pelos profetas, aproveitasse a todos os povos, para salvá-los por
meio dos apóstolos. Mas, querendo que esse ministério pertencesse a todos os apóstolos, centraliza-o em São
Pedro, chefe de todos os apóstolos, e quis que fosse dele, na qualidade de chefe, que se espalhasse para todo o
corpo; de sorte que, quem quer que se afaste da solidez de Pedro, deve saber que não tem mais parte nesse
ministério divino". O Papa declara aos bispos que absolveu Celidônio, baseado em depoimento de testemunhas; que
manteve Projecto na sua sede, e censura Hilário por haver dado a um bispo doente o desagrado de nomear-lhe um
sucessor, e por haver feito a mesma coisa em outra província na qual não tinha direito algum, tendo a Igreja
revogado o privilégio que concedera durante algum tempo a Pátroclo, e finalmente, por ter feito essa ordenação
sem ter tomado o voto do clero e do povo. Dá aos metropolitanos o direito de ordenações com os mais antigos
bispos da província. “Não é permitido a um metropolitano, diz, transferir seu privilégio a outro. Se o fizer, apesar dos
decretos apostólicos, o direito de ordenação voltará aos mais antigos bispos da provincia”. Por fim, o Papa tira a
Hilário o direito de metropolitano. Feliz, acrescenta, de conservar sua própria sede por indulgência da sé apostólica.
Ao enviar essa decretal às Gálias, São Leão juntou a ela uma constituição do imperador Valentiniano III, datada de 8
de julho de 445. O imperador, ao se referir à sentença pronunciada pelo Papa, que chama de irreformável, diz: "Essa
sentença não tinha necessidade de nossa sanção imperial para ser executada nas Gálias; porque, que é que não
pode nas igrejas a autoridade de tão grande pontífice?".

Enquanto São Leão mantinha a disciplina eclesiástica no Ocidente, foi chamado a manter a fé cristã no Oriente.
Como já vimos, na vida do papa São Celestino, Nestório, bispo de Constantinopla, ignorando os principais mistérios
da fé que devia ensinar, avançara demais e afirmava que em Jesus Cristo havia duas pessoas, a de Deus e a do
homem; que o Verbo não se uniu hipostaticamente à natureza humana; que não a tomou senão como um templo no
qual habita, e que, por conseguinte, a santa Virgem não é mãe de Deus, mas somente mãe do homem ou do Cristo.
Eutíquio, monge de Constantinopla e abade de um mosteiro tão ignorante quanto Nestório, caiu no erro oposto e
ensinava que em Jesus Cristo as duas naturezas estavam confundidas em uma, e que, dessa forma, não existia nele
senão uma só natureza, como também uma só pessoa. Essa herética opinião foi condenada por São Flávio, bispo de
Constantinopla; mas, encontrando proteção em um eunuco da corte, favorito do imperador Teodósio, o Jovem,
obteve a condenação de Flávio, por uma assembléia, conhecida pelo nome de pilhagem de Éfeso. Dióscoro, bispo de
Alexandria, que a presidiu por ordem do imperador, ou melhor, do eunuco, não somente depôs o santo, mas tratou-
o tão brutalmente, que alguns dias depois, Flávio morreu. São Leão, o quadragésimo-quarto sucessor de São Pedro,
de acordo com o imperador Marciano, sucessor de Teodósio, convocou um concílio em Calcedônia, no qual Dióscoro
foi deposto, a heresia condenada, e a fé católica afirmada. Por isso, sempre veremos às portas os poderes do inferno
insurgir-se contra a Igreja, mas jamais prevalecer contra ela, porque a Igreja está construída sobre pedra e é sempre
dessa pedra que parte o golpe que quebra todas as heresias. Com relação a Eutíquio, como também a Nestório,
todas as partes se dirigiram à Santa Sé de Roma: São Flávio de Constantinopla, o imperador Teodósio, o próprio
Eutíquio. São Leão respondeu a todos. Uma de suas cartas a Flávio decidia questão de doutrina e devia servir de
regra ao concílio ecumênico. Quando foi lida em Calcedônia, todos os membros do concílio exclamaram: “Pedro
falou por Leão!" Nesse mesmo concílio, composto de seiscentos bispos, Dióscoro não foi admitido como bispo, mas
tão somente como acusado. Um dos presidentes lhe deu a causa: "Deve dar ele as razões do modo de raciocinar,
porque, não tendo autoridade de juiz, a usurpou e ousou reunir um concílio sem a autorização da Sé apostólica, o
que jamais aconteceu, dado que não é permitido." Tendo terminado os assuntos referentes à fé, o concílio de
Calcedônia estabeleceu um vigésimo-oitavo cânone, que concedia ao bispo de Constantinopla a prioridade logo após
o Pontífice romano, ao passo que anteriormente vinha depois dos bispos de Alexandria e de Antioquia. Esse cânone,
como todas as outras decisões, foram submetidas à apreciação do Papa. E o concílio, o imperador e o bispo de
Constantinopla suplicaram-lhe que os aprovasse. São Leão aprovou o que se fizera com relação à fé; "mas, disse em
uma carta à imperatriz, no que diz respeito às convenções dos bispos, contrárias aos santos cânones de Nicéia, em
consonância com a vossa piedade, nós as anulamos; e, com a autoridade do bem-aventurado apóstolo Pedro,
cassamo-las, por uma definição absoluta". Essa decisão do Papa liquidou com todas as dúvidas. Não se encontrou
nenhum meio de suplicar-lhe a aprovação. E, apesar do voto de grande peso de um concílio geral, apesar do
interesse vivo que o imperador e o bispo Anatólio de Constantinopla tinham no engrandecimento do bispado, foi
necessário ceder à autoridade, à qual todas as sés estão submetidas. É o que depreendemos de São Leão e do
próprio Anatólio.

Algo mais notável ainda, talvez, é o que se lê no sínodo de Constantinopla, ou seja, no registro dos atos dessa igreja.
Embora Cismático, o autor desse registro diz, a respeito do vigésimo oitavo cânone do quarto concílio: "Parece-me
que esse cânone não foi nem sequer aceito no princípio, mas abolido imediatamente, porque é sabido que Leão de
Roma não aprovou a decisão do concílio, nesse particular, como também censurou a absurda novidade com
indignação, nas cartas que escreveu, tanto ao imperador como ao concílio. De onde vem, penso, o fato de nenhum
dos dois concílios seguintes, o quinto e o realizado sob Justiniano, nem mesmo o de Pogonat, terem escrito nada a
respeito de cânones. Diz o sexto concílio: Estatuímos, renovando (e não, confirmando). O que mostra que desde o
começo esse cânone do quarto concílio não fora posto em prática, nem recebido, mas ficara sem nenhum efeito.
Refiro-me ao cânone no tocante à prerrogativa e à preeminência nas coisas eclesiásticas; porque o que não teve
consistência na origem, mas foi anulado imediatamente, é renovado; ao passo que aquilo que subsiste e se pratica é
confirmado e aprovado. Assim é que cada concílio fala dos concílios anteriores".

Todavia, os povos bárbaros que deviam punir a Roma idólatra e desmembrar-lhe o império, avançavam uns após
outros. Depois dos godos, vieram os hunos, com Átila, o terrível Átila à frente, intitulando-se o flagelo de Deus. Ele
era digno desse nome. Por toda parte onde passava, abria alas a ferro e sangue. Entrou na Itália, reduzindo as
cidades pilhadas a cinzas. Roma, abandonada pelos imperadores romanos, estaria perdida, se não fosse o papa São
Leão. Foi ao encontro do conquistador, o qual, contra toda a expectativa, o recebeu com todas as honras,
concedendo-lhe a paz e retirando-se para seu país. Foi em 453. Dois anos depois, Genserico, rei dos vândalos, outro
povo bárbaro, que se apossara da África, marchou sobre Roma com um exército temível. São Leão, ainda, foi-lhe ao
encontro e obteve que as tropas se contentassem com pilhar a cidade, sem derramar sangue e sem atear-lhe fogo.
Roma foi, assim, duas vezes, salva por esse santo Papa, que morreu em 10 de novembro de 461 em Roma e foi
declarado doutor da igreja por Bento XIV em 1754.

Sua festa é celebrada em 11 de abril e são conservadas 432 cartas e quase cem sermões de sua autoria, expondo
sua teorias e doutrinas..

A humildade, a doçura e a caridade eram as virtudes principais de São Leão. Imitemo-lo. Escutemos o que nos
recomenda. É uma máxima do cristianismo que as únicas e verdadeiras riquezas consistem nessa bem-aventurada
pobreza de espírito tão fortemente recomendada pelo Salvador, isto é, a humildade e o completo desprendimento
de toda afeição terrestre. Quanto mais humildes formos, maiores seremos; quanto mais pobres de espírito, mais
ricos. Nosso progresso nessa pobreza de espírito será a medida da parte que teremos na distribuição da graça e dos
dons celestes.

Fonte: Padre Rohrbacher, Vida dos Santos, Tomo VI.

As Almas do PURGATÓRIO !!!


Que bela festa! É como se Todos os Santos e Finados fosse uma só festa. Dum lado, a Igreja militante, sobre a
terra, roga à Igreja triunfante do céu, e doutro lado, roga pela Igreja sofredora e paciente do purgatório. E as três
Igrejas são uma única Igreja.

“A caridade, mais forte do que a morte, uniu-as do céu à terra, e da terra ao purgatório, e é pelo mesmo sacrifício
que nós agradecemos a Deus, a glória com a qual cumula os santos do céu, e imploramos a misericórdia para os
santos do purgatório, santos ainda não perfeitos.
A Igreja triunfante do céu, a Igreja militante da terra e a Igreja sofredora do purgatório, paciente, nada mais são que
uma só e mesma Igreja; que a caridade, mais forte que a morte as uniu do céu à terra, e da terra ao purgatório. São
como três partes duma só e mesma procissão de santos, procissão que avança da terra ao céu.

As almas do purgatório participarão daquela procissão um dia. Sim, porque ainda não tem, bem brancas, as
vestimentas de festa, a roupa nupcial ainda guarda nódoas, aquelas nódoas que somente o sofrimento limpa.

Então, como os contemporâneos de Noé, aqueles que não fizeram penitência senão no momento do dilúvio foram
encerrados em prisões subterrâneas, até que Jesus Cristo lhes aparecesse, anunciando-lhes a libertação, quando de
sua descida aos infernos.

Como os fiéis da Igreja triunfante, os fiéis da Igreja militante e os fiéis da Igreja sofredora e paciente, são membros
dum mesmo corpo - que é Jesus Cristo - e tanto uns como outros participam, interessam-se, condoem-se da glória,
dos perigos, dos sofrimentos duns e doutros, tal qual os membros do corpo humano. Vejamos um exemplo: o pé
está em perigo de saúde ou sofre dores: todos os membros do corpo jazem em comoção. Os olhos olham-no, as
mãos protegem-nos, a voz chama por socorro, para afastar o mal ou o perigo. Uma vez afastado o mal, regozijam-se
todos os membros.

É o que acontece com o corpo vivo da Igreja universal. E vemos os heróis da Igreja militante, os ilustres Macabeus,
assistidos pelos anjos e santos de Deus, especialmente pelo grande sacerdote Onias e pelo profeta Jeremias, rogar e
oferecer sacrifícios por esses irmãos que estavam mortos pela causa de Deus, mas culpados desta ou daquela falta.

No dia seguinte, depois duma vitória, Judas Macabeu e os seus surgiram para retirar os mortos e depositá-los no
sepulcro dos antepassados e encontraram sobre as túnicas dos que estavam mortos coisas que haviam sido
consagradas aos ídolos de Jamnia, que a lei proibia aos judeus tocar. Foi, pois, manifesto a todos que era por isso
que haviam sido mortos. E todos louvaram o justo julgamento do Eterno, que descobre o que está escondido, e
suplicaram-lhe que fosse esquecido o pecado cometido.

Judas exortou o povo a que se preservasse do pecado, tendo diante dos olhos o que viera pelo pecado dos que
haviam sucumbido. E, depois de ter feito uma coleta, enviou a Jerusalém duas mil dracmas de prata, para que fosse
oferecido um sacrifício pelo pecado dos mortos, agindo muito bem, pensando que estava na ressurreição. Porque se
não tivesse esperança de que os que vinham de sucumbir ressuscitassem um dia, seria supérfluo e tolo rogar pelos
mortos.

Judas, porém, considerava que uma grande misericórdia estava reservada aos que estão adormecidos na piedade.
Santo e piedoso pensamento! Foi por isso que ofereceu um sacrifício de expiação pelos defuntos, para que fossem
livres dos pecados. Tais são as palavras e reflexões da Escritura santa, segundo o texto grego, e as mesmas, mais ou
menos, no latino.

Nosso Senhor mesmo adverte, bastante claramente, que há um purgatório, quando nos recomenda em São Mateus
e São Lucas: "Conciliai-Vos com vossos inimigos (a lei de Deus e a consciência) enquanto estais em caminho para
irdes ao príncipe, não seja que este inimigo vos entregue ao juiz, o juiz ao executor, e que sejais metido numa prisão.
Em verdade vos digo, dela não saireis, enquanto não pagardes o último óbolo."

Segundo essas palavras, está bem claro que há uma prisão de Deus, onde se é arrojado por dívidas paraa com sua
justiça, e donde não se sai - senão quando tudo estiver pago.

Nosso Senhor, em São Mateus, disse-nos ainda: "Todo pecado e blasfêmia será perdoado aos homens, porém, a
blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada, nem neste século nem no futuro". Onde se vê que os outros
pecados podem ser perdoados neste século e no futuro, como o livro dos Macabeus diz expressamente dos pecados
daqueles que estavam mortos pela causa de Deus.

Do mesmo modo, no sacrifício da missa, a santa Igreja de Deus lembra os santos que com Ele reinam no céu, a fim
de lhes agradecer pela glória e nos recomendar à sua intercessão. Doutro lado, suplica a Deus que se lembre dos
servidores e servidoras que nos precederam no outro mundo com a chancela da fé, dignando-se conceder-lhes a
estadia no refrigério na luz e na paz.

Maria, Mãe de Misericórdia, intercede por aquelas almas, que estão à espera da liberação.
A crença do purgatório e a oração pelos mortos acham-se em todos os doutores da Igreja, bem como nos atos dos
mártires, notadamente nos atos de São Perpétuo, escritos por ele mesmo.

Todos os santos rogaram pelos mortos. Santo Odilon, abade de Cluny, no século XI, tinha um zelo particular pelo que
dizia respeito ao refrigério das almas do purgatório. Foi movido pela compaixão, pensando no sofrimento das almas
do purgatório que, adiantando-se à Igreja, ordenou se rogasse pelas almas, tendo, destinado para isso um dia
especial. Eis como Santo Odilon animou tal instituição, começando pelas terras que lhes estavam afetas ao
sacerdócio. (...)

Quanto ao purgatório, nada de certo se sabe. Eis porém, o que se lê nas revelações de Santa Francisca de Roma,
revelações que a Igreja autoriza a crer, sem, entretanto, a elas nos obrigar.

Numa visão, a santa foi conduzida do inferno ao purgatório, que, igualmente está dividido em três zonas ou esferas,
uma sobre a outra. Ao entrar, Santa Francisca leu esta inscrição:

Aqui é o purgatório, lugar de esperança, onde se faz um intervalo. A zona inferior é toda de fogo, diferente do
inferno, que é negro e tenebroso. Este do purgatório tem chamas grandes, muito grandes e vermelhas. E as almas.
Ali, são iluminadas, interiormente, pela graça. Porque conhecem a verdade, assim como a determinação do tempo.
Aqueles que tem pecado grave são enviados a este fogo pelos anjos, e aí ficam conforme a qualidade dos pecados
que cometeram.

A santa dizia que, por cada pecado mortal não expiado, naquele fogo ficaria a alma por sete anos. Embora nessa
zona ou esfera inferior as chamas do fogo envolvam todas as almas, atormentam, todavia, umas mais que as outras,
segundo sejam mais graves ou mais leves os pecados.

Fora esse lugar do purgatório, à esquerda, ficam os demônios que fizeram com que aquelas almas cometessem os
pecados que agora expiam. Censuram-nas, mas não lhes infligem quaisquer outros tormentos.

Pobres almas! Fá-las sofrer mais, muito mais, a visão desses demônios do que o próprio fogo que as envolve. E, com
tal sofrimento, gritam e choram, sem que, neste mundo, consiga alguém fazer uma idéia. Fazem-no, contudo,
humildemente, porque sabem que o merecem, que a justiça divina está com a razão. São gritos como que afetuosos,
e que lhes trazem certa consolação. Não que sejam afastadas do fogo. Não, a misericórdia de Deus, tocada por
aquela resignação, das almas sofredoras, lança-lhes um olhar favorável, olhar que lhes alivia o sofrimento e lhes
deixa entrever a glória da bem-aventurança, para onde passarão.

Santa Francisca Romana viu um anjo glorioso conduzir aquele lugar a alma que lhe havia sido confiada, à guarda, e
esperar do lado de fora, à direita. É que os sufrágios e as boas obras que os parentes, os amigos, ou quem quer que
seja, lhes fazem especialmente por intenção da alma, movidos pela caridade, são apresentados, pelos anjos da
guarda, à divina majestade. E os anjos, comunicando às almas o que por elas fazemos nós, aliviam-nas, alegram e
confortam. Os sufrágios e as boas obras que fazem os amigos, por caridade, especialmente pelos amigos do
purgatório, aproveita principalmente a quem os faz, por causa da caridade. E ganham as almas e ganhamos nós.

As orações, os sufrágios e as esmolas feitos caridosamente pelas almas que já estão na glória, e que já não
necessitam, revertem às almas ainda necessitadas, aproveitando a nós também. E os sufrágios que se fazem às
almas que jazem no inferno? Não os aproveita nem uma nem outra - nem as do inferno, nem as do purgatório, mas
unicamente a quem os faz.

A zona ou região média do purgatório está dividida em três partes: a primeira, cheia duma neve excessivamente fria;
a segunda, de pez fundido, misturado a azeite em ebulição; a terceira, de certos metais fundidos, como ouro e prata,
transparentes. Trinta e oito anjos aí recebem as almas que não cometeram pecados tão graves que mereçam a
região inferior. Recebem-nas e transportam-nas dum lugar a outro com grande caridade: não lhe são os anjos da
guarda, mas outros que, para tal, foram obrigados pela divina misericórdia.

Santa Francisca Romana

Santa Francisca nada disse, ou não a autorizou a dizê-lo o superior, sobre a mais elevada região do purgatório.
Nos céus, os anjos fiéis tem sua hierarquia: três ordens e nove coros. As almas santas, que sobem da terra, ficam nos
coros e nas ordens que Deus lhes indica, segundo os méritos. É uma festa para toda a milícia celeste, mais
particularmente para o coro onde a alma santa deverá regozijar-se eternamente em Deus.

O que Santa Francisca viu na bondade de Deus a deixou profundamente impressionada, sem que pudesse falar da
alegria que lhe ia no coração. Frequentemente, nos dias de festa, sobretudo depois da comunhão, quando meditava
sobre o mistério do dia, o espírito, arrebatado ao céu, via o mesmo mistério celebrado pelos anjos e pelos santos.

Todas as visões que tinha, submetia-as Santa Francisca de Roma à Mãe, Santa Igreja. E, pela mesma mãe, a Igreja, foi
Francisca canonizada, sem que nada de repreensível se achasse nas visões que tivera.

Nós, pois, vos saudamos, ó almas que vos purificais nas chamas do purgatório. Compartilhamos as vossas dores, os
sofrimentos, principalmente daquela dor imensa e torturante de não poderdes ver a Deus. Ai de nós! Sem dúvida
que há entre vós parentes nossos e amigos: sofrerão, talvez por nossa culpa. Quem dirá que não lhes demos, nesta
ou naquela ocasião, motivos de pecar? Falta-lhes pouco tempo para que se tornem inteiramente puras. Que nos
acontecerá, a nós que tão pouco velamos por nós mesmos? Almas santas e sofredoras, que Deus nos livre de vos
esquecer jamais!

Todos os dias, à missa e às orações, lembrar-nos-emos de vós todas. Lembrai-vos, pois, também de nós. Lembrai-
vos, principalmente, quando estiverdes no céu. Como lá vos desejamos ver! Como no céu desejamos ver-nos
convosco! Assim seja.

Que local misterioso é esse entre a terra e o Céu, cujos "habitantes" pedem veementemente nossa ajuda e também
podem nos beneficiar?

Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás em caminho com ele, para não suceder que te
entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao seu ministro e sejas posto em prisão. Em verdade te digo: dali não sairás
antes de teres pago o último centavo" (Mt 5, 25-26).

Jesus estava falando aos Apóstolos a respeito das punições que esperam os pecadores após a morte. Antes se
referira ao fogo da geena - o Inferno -, uma prisão perpétua, eterna. Mas aqui Ele fala de um cárcere do qual se
poderá sair, desde que seja pago o débito, até o último centavo.

Santo Odilon instituiu no calendário litúrgico cluniacense a "Festa dos Mortos"

Essa prisão temporária, um estado de purificação para os que morrem cristãmente sem terem atingido a perfeição, é
o Purgatório. Lugar misterioso, mas onde reina a esperança e os gemidos de dor são entremeados por cânticos de
amor a Deus.

Caro leitor, eis um assunto do qual se fala pouco, mas cujo conhecimento é vital para nós e para nossos entes
queridos que já partiram desta vida. Convido-o a repassar comigo diversos aspectos desse importante tema.

A festa de Finados

No dia 2 de novembro, a sagrada Liturgia se lembra de modo especial dos fiéis defuntos. Depois de ter celebrado -
no dia anterior, festa de Todos os Santos - os triunfos de seus filhos que já alcançaram a glória do Céu, a Igreja dirige
seu maternal desvelo para aqueles que sofrem no Purgatório e clamam com o salmista: "Tirai-me desta prisão, para
que possa agradecer ao vosso nome. Os justos virão rodear-me, quando me tiverdes feito este benefício" (Sl 141, 8).

A gênese dessa celebração está na famosa abadia de Cluny, quando seu quinto Abade, Santo Odilon, instituiu no
calendário litúrgico cluniacense a "Festa dos Mortos", dando especial oportunidade a seus monges de interceder
pelos defuntos, ajudando-os a alcançarem a bemaventurança do Céu.

A partir de Cluny, essa comemoração foi-se estendendo entre os fiéis até ser incluída no Calendário Litúrgico da
Igreja, tornando- se uma devoção habitual, em todo o mundo católico.

Talvez o leitor, como milhares de outros fiéis, tenha o costume de visitar o cemitério nesse dia, para recordar os
familiares e amigos falecidos, e por eles orar. Muitos cristãos, porém, não prestam ouvidos aos apelos de seu
coração, que os move a sentir saudades de seus entes queridos e a aliviálos com uma prece. Talvez por falta de
cultura religiosa, ou por falta de alguém que as incentive ou oriente, muitas pessoas nem vêem a necessidade de
rezar pelas almas dos falecidos. A inúmeras outras, a existência do Purgatório causa estranheza e antipatia.

Seja como for, tanto por amor às almas que esperam ver-se livres de suas manchas para entrarem no Paraíso,
quanto para estimular em nós a caridade para com esses irmãos necessitados, como também para nosso próprio
proveito, vejamos o "porquê" e o "para quê" da existência do Purgatório.

Purificação necessária para entrar no Céu

Sabemos que a Igreja Católica é una. É o que rezamos no Credo. Entretanto, os membros da Igreja não estão todos
aqui, entre nós, mas em lugares diversos, como diz o Concílio Vaticano II. Alguns "peregrinam sobre a terra, outros,
passada esta vida, são purificados, outros, finalmente, são glorificados" (Lumen Gentium, 49).

Entre a terra e o Céu não é raro acontecer, no itinerário da alma fiel, um estágio intermediário de purificação.
Segundo nos ensina o Catecismo da Igreja Católica, por aí passam "os que morrem na graça e na amizade de Deus,
mas não estão perfeitamente purificados".

As almas nesse estado "purificam-se", diz São Francisco de Sales, "voluntariamente, amorosamente, porque assim
Deus o quer" e " porque estão certas de sua salvação, com uma esperança inigualável".

Por isso "passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria
do Céu" (nº 1030). Esse estado de purificação nada tem a ver com o castigo dos condenados ao Inferno, pois as
almas do Purgatório têm a certeza de haver conquistado o Céu, mesmo que sua entrada ali tenha sido adiada por
causa de seus resíduos de pecado.

A primeira epístola aos Coríntios faz referência ao exame a que serão submetidos os cristãos, os quais, havendo
recebido a Fé, devem continuar em si a obra de sua santificação. Cada um será examinado no respeitante ao grau de
perfeição que atingiu: "Se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas,
com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá.

O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um.
Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo,
porém passando de alguma maneira através do fogo" (1Cor 3, 12-15). "Ele será salvo", diz o Apóstolo, excluindo o
fogo do Inferno, no qual ninguém pode ser salvo, e se referindo ao fogo temporário do Purgatório.

Comentando este e outros trechos da Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja nos fala do fogo destinado a limpar a
alma, como explica São Gregório Magno em seus Diálogos: "Com relação a certas faltas leves, é necessário crer que,
antes do Juízo, existe um fogo purificador, como afirma Aquele que é a Verdade, ao dizer que, se alguém pronunciou
uma blasfêmia contra o Espírito Santo, essa pessoa não será perdoada nem neste século nem no futuro (Mt 12, 31).
Por essa frase, podemos entender que algumas faltas podem ser perdoadas neste século, mas outras no século
futuro".

Por que existe o Purgatório?

Será Deus tão rigoroso a ponto de não tolerar nem mesmo a menor imperfeição, limpando-a com penas severas?
Esta pergunta facilmente pode nos vir à mente.

Em primeiro lugar, devemos nos lembrar desta verdade: depois de nossa morte, não seremos julgados segundo
nossos próprios critérios, pois "o que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o
coração" (1Sm 16, 7). Estaremos diante de um Juiz sumamente santo e perfeito, e em seu Reino "não entrará nada
de profano" (Ap 21, 27). Com efeito, na presença de Deus, de sua Luz puríssima, a alma percebe em si mesma
qualquer pequeno defeito, julgando- se, ela mesma, indigna de tal majestade e grandeza. Santa Catarina de Gênova,
grande mística do século XV, deixou uma obra muito profunda sobre a realidade do Purgatório e do Inferno.
Explica ela o seguinte: "Digo mais: no concernente a Deus, vejo que o Paraíso não tem portas e ali pode entrar quem
quiser, pois Deus é todo misericórdia e seus braços estão sempre abertos para nos receber na glória; mas a divina
Essência é tão pura - infinitamente mais pura do que podemos imaginar - que a alma, vendo nela mesma a menor
das imperfeições, prefere atirar-se em mil infernos a aparecer suja na presença da divina Majestade. Sabendo então
que o Purgatório está criado para a purificar, ele mesma se joga nele e encontra ali grande misericórdia: a destruição
de suas faltas".

Essas manchas, a serem purificadas na outra vida, o que são? São os restos de apego exagerado às criaturas, ou seja,
as imperfeições, e os pecados veniais, bem como a dívida temporal dos pecados mortais já perdoados no
Sacramento da Reconciliação. Tudo isso diminui na alma o amor de Deus.

Por causa dessas afeições desregradas se estabelece um estado de desordem em nosso interior, afastando- nos do
Mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas. Essa é a causa pela qual, antes de permitir a uma alma subir até
a glória celestial, "a justiça de Deus exige uma pena proporcional que restabeleça a ordem perturbada" (Suma
Teológica, Supl. q. 71, a. 1) E a alma se sujeita ao castigo do Purgatório com alegria, em plena conformidade com a
vontade do Senhor.

"Quem morrer com o Escapulário não padecerá o fogo do inferno". Não obstante, para beneficiar-se deste
privilégio, é preciso usar o Escapulário com reta intenção.

Seu único desejo é ver-se limpa, para poder configurar-se com Cristo. As almas nesse estado "purificam-se", diz São
Francisco de Sales, "voluntariamente, amorosamente, porque assim Deus o quer" e "porque estão certas de sua
salvação, com uma esperança inigualável".

A pena do Purgatório

As dores infligidas nesse local de purificação são "tão intensas que a menor pena do Purgatório ultrapassa a maior
desta vida" (Suma Teológica, Supl., q. 71, a. 2). Mesmo assim, pondera São Francisco de Sales, "o Purgatório é um
feliz estado, mais desejável que temível, pois as chamas nele existentes são chamas de amor".

Mas como entender que esse terrível sofrimento seja transpassado de amor? Na verdade, o maior tormento das
almas do Purgatório - a "pena de dano" - é causado precisamente pelo amor. Essa pena consiste no adiamento da
visão de Deus. Criado para amar e ser amado, o homem, ao abandonar esta terra, descobre a inefável beleza da Luz
Divina e deseja correr para Ela com todas as suas forças, como o cervo sedento corre em direção à fonte das águas.
Contudo, vendo em si o defeito do pecado, fica privado temporariamente daquela presença tão pura. Afastada,
assim, d'Aquele que é a suprema e única felicidade, a alma sente um padecimento incalculável.

Para nós, que ainda somos peregrinos neste vale de lágrimas, é difícil entender a imensidade dessa dor. Vivemos
sem ver a Deus, embora n'Ele creiamos. Somos como cegos de nascimento, pois nunca vimos o Sol de Justiça, que é
Deus; embora sintamos seu calor, não podemos fazer idéia de seu resplendor e grandeza.

Entretanto, as almas benditas do Purgatório, logo após terem abandonado o corpo inerte, discerniram a inefável e
puríssima beleza de Deus, mas não podem possuí-la imediatamente. Santa Catarina de Gênova usa uma expressiva
metáfora para explicar essa dor: "Suponhamos que, no mundo inteiro, exista apenas um pão para matar a fome de
todas as criaturas, e que basta olhar para esse pão para ficarem satisfeitas. Por sua natureza, o homem saudável tem
o instinto de se alimentar.

Imaginemos que ele seja capaz de se abster dos alimentos sem morrer, sem perder a força e a saúde, mas
aumentando cada vez mais a fome. Ora, sabendo que só aquele pão pode saciá-lo e que não poderá matar sua fome
enquanto não o alcançar, ele sofre sacrifícios insuportáveis, os quais serão tanto maiores quanto mais longe ele
estiver do pão".

Apesar de tudo, as almas do Purgatório têm a certeza de que um dia poderão se saciar de modo pleno com esse Pão
da Vida, que é Jesus, nosso amor. E por isso seu sofrimento é em tudo diferente do tormento dos condenados ao
Inferno, os quais nunca poderão se aproximar da Mesa do Reino dos Céus. Esperança e desespero, eis a diferença
fundamental entre esses dois lugares.
Disposição das almas no Purgatório

Por isso, há nas almas do Purgatório um matiz de alegria no meio da dor. De forma brilhante, explica- o o Papa João
Paulo II, na alocução de 3 de julho de 1991: "Mesmo que a alma tenha de sujeitar-se, naquela passagem para o Céu,
à purificação das últimas escórias, mediante o Purgatório, ela já está cheia de luz, de certeza, de alegria, pois sabe
que pertence para sempre ao seu Deus".

E Santa Catarina de Gênova afirma: "Estou certa de que em nenhum outro lugar, excetuando o Céu, o espírito pode
achar uma paz semelhante à das almas do Purgatório". Isso ocorre porque a alma se fixa na disposição em que se
encontra na hora da morte, ou seja, contra ou a favor de Deus, pois a liberdade humana termina com a morte. E
tendo falecido na amizade de Deus, a alma do Purgatório se adapta com docilidade à sua santa vontade. Daí
conservar a paz em meio a terríveis sofrimentos.

Dos lábios do suavíssimo São Francisco de Sales ouvimos dizer que "entre o último suspiro e a eternidade, há um
abismo de misericórdia". Todos acham melhor fazer um esforço para evitá-lo. Outros, porém, sem se oporem aos
anteriores, enfrentam o problema com uma ousada confiança no amor misericordioso do Senhor.

Santa Teresa de Jesus, por exemplo, diz com veemência: "Esforcemo- nos, fazendo penitência nesta vida. Como será
suave a morte de quem a tiver feito por todos os seus pecados, e assim não precisar ir para o Purgatório!" Já sua
discípula, Santa Teresinha do Menino Jesus, formula de modo surpreendente sua atitude, se nele caísse: "Se eu for
para o Purgatório, ficarei muito contente; farei como os três hebreus na fornalha, caminharei entre as chamas
cantando o cântico do amor".

Uma atitude não contradiz a outra, mas ambas se completam, e, mesmo se tivermos de passar por esse lugar tão
doloroso, tenhamos uma confiança sem limites na bondade divina.

"Mesmo que a alma tenha de sujeitar-se, naquela passagem para o Céu, à purificação das últimas escórias,
mediante o Purgatório, ela já está cheia de luz, de certeza, de alegria, pois sabe que pertence para sempre ao seu
Deus". (Beato João Paulo II)

De qualquer modo, a Santa Igreja coloca maternalmente à nossa disposição as indulgências, para nos poupar das
penas do Purgatório. Mas este tema pode ficar para outro artigo.

Ajudemos as almas benditas

Não devemos pensar só no nosso destino pessoal, mas também nos perguntarmos como podemos ajudar aquelas
almas que já estão à espera da libertação. Elas não podem fazer nada por si, pois estão impossibilitadas de alcançar
méritos, e dependem de nós. Interceder por elas é uma belíssima e valiosa obra de misericórdia: de certo modo, não
há ninguém mais carente do que elas. O costume de rezar pelas almas dos falecidos vem do Antigo Testamento.

Também diversos Padres da Igreja promoveram essa prática, como São Cirilo de Jerusalém, São Gregório de Nissa,
Santo Ambrósio e Santo Agostinho. No século XIII, o Concílio de Lyon ensinava: "As almas são beneficiadas pelos
sufrágios dos fiéis vivos, quer dizer, o sacrifício da Missa, as orações, esmolas e outras obras de piedade, as quais,
segundo as leis da Igreja, os fiéis estão acostumados a oferecer uns pelos outros".

Como é bela a devoção às benditas almas do Purgatório! É agradável a Deus e nos beneficia também, levando-nos à
verdadeira dimensão cristã da existência, fazendo-nos viver em contato e comunhão com o sobrenatural, e com o
futuro, no sentido mais pleno da palavra. Como essas pobres almas nos ficarão agradecidas ao receber nosso auxílio!
Poderão ser nossos parentes, ou até mesmo nossos pais. Poderá ser alguém que não conhecemos, e que nos dará
uma afetuosa acolhida na eternidade. No Céu, e enquanto ainda estiverem no Purgatório, elas rezarão por nós, com
todo o empenho, pois Deus lhes dá essa possibilidade.

Concluindo, gostaria de fazer ao prezado leitor uma proposta: reze por essas almas necessitadas, ofereça- lhes
Missas, dê esmolas por elas, faça sacrifícios e consiga que outras pessoas se tornem devotas fervorosas das almas
benditas. Sabe quem será o maior beneficiado? Você mesmo!

Fontes documentais sobre o Purgatório


A doutrina católica sobre o Purgatório foi definida em especial no Concílio de Florença (1438-1445) e no de Trento
(1545-1563), com base em textos da Escritura (2Mc 12,42-46; 1Cor 3,13-15) e da Tradição, conforme nos ensina o
Catecismo da Igreja Católica (n.1030-1031).

A Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, aborda a questão em seu número 50: "Orações
pelos defuntos, culto dos santos". Em sua solene profissão de fé intitulada Credo do Povo de Deus, feita em 30 de
junho de 1968, o Papa Paulo VI inclui as almas "que se devem ainda purificar no fogo do Purgatório" (n. 28).

O Papa João Paulo II refere- se ao Purgatório em vários documentos: - Mensagem ao Cardeal Penitenciário-Mor de
Roma, 20/3/98; - Carta ao Bispo de Autum, Châlon e Mâcon, Abade de Cluny, 2/6/98; - Audiência Geral de 22/7/98; -
Audiência Geral de 4/8/99; - Mensagem à Superiora Geral do Instituto das Irmãs Mínimas de Nossa Senhora do
Sufrágio, 2/9/2002.

Indulgência plenária no dia de finados

- Pode-se aplicar só para as almas do purgatório: No dia 2 de novembro, quando a Igreja comemora o dia de finados,
os fiéis católicos que visitarem piedosamente uma igreja ou um oratório podem aplicar indulgência plenária às almas
do purgatório.

A indulgência poderá ser conseguida no próprio dia de finados ou, ou com o consentimento do Bispo, no domingo
anterior ou posterior, ou na solenidade de Todos os Santos. Esta indulgência está incluída na Constituição apostólica
Indulgencia doctrina, na norma número 15.

Para se obter qualquer indulgência plenária são necessárias algumas condições: rezar um Pai Nosso, um credo, uma
ave-maria e um Glória pelas intenções do Santo Padre. Além dessas orações pelo Sumo Pontífice, deve ser feita
ainda uma confissão sacramental e a comunhão eucarística.

Com uma só confissão sacramental, podem-se ganhar várias indulgências plenárias. Com cada comunhão eucarística
e cada oração pelas intenções do Sumo Pontífice pode-se obter uma indulgência plenária.

As três condições podem ser cumpridas alguns dias antes ou depois da execução da obra prescrita: mas convém que
a comunhão e a oração pelas intenções do Sumo Pontífice se realizem no mesmo dia em que se cumpre a obra. O
fiel poderá acrescentar em suas orações qualquer outra fórmula, segundo sua piedade e devoção.

Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XVIII, p.111 à 118 e 129 à 137

Revista Arautos do Evangelho, Nov/2006, n. 59, p. 34 a 37

São Jerônimo
Biografia de
São Jerônimo
(../../347 - 30/09/420)
Presbítero, Confessor
Santo Padre da Igreja
Doutor Máximo nas Sagradas Escrituras

Seu verdadeiro nome era Eusébio, en latín, Eusebius Sophronius Hieronymus, que havia herdado de seu pai.
Jerônimo é somente um sobrenome, o qual ficou mais tarde sendo designado ao ilustre sábio.

Nasceu em Estridão, cidade localizada entre a Dalmácia, e da Panônia, de uma família cristã.

Na segunda metade do quarto século, enquanto nas Gálias surgiam dois grandes homens. Hilário e Martim, surgiam
outros dois na África: Santo Optat, bispo de Mileva, e Agostinho, que acabara de nascer em Tagasta, em 354.
Ambrósio, futuro bispo de Milão, que deveria um dia receber Santo Agostinho na Igreja, tinha então quatorze anos,
e estudava em Roma as línguas: grega e latina. Nessa mesma ocasião. Roma viu chegar dos confins da Dalmácia e da
Panônia, outro futuro doutor da Igreja, Jerônimo; nascido em cerca do ano de 331 de pais ricos e distintos. Viera
para identificar-se com a língua de Virgílio e de Cícero, sob a direção do orador Vitorino e do gramático Donato,
célebre comentador de Virgílio e de Terêncio. A Igreja tinha que sustentar acirradas lutas de doutrina, e a
Providência suscitava-lhe por toda a parte grandes doutores.

Depois de ter estudado em Roma e viajado pelas Gálias. São Jerônimo permaneceu algum tempo na Aquiléia, e em
seguida dirigiu-se a Antioquia em companhia do sacerdote Evrágio; de lá, retirou-se para um deserto, nos confins da
Síria e da Arábia. Foram seus companheiros de retiro dois amigos, Inocêncio e Heliodoro, e um escravo chamado
Hilas. O sacerdote Evrágio, que era rico, forneceu-lhe tudo de quanto precisava, pagava escribas para auxiliá-los nos
estudos, que continuava a fazer, e remetia-lhe de Antioquia as cartas que lhe eram dirigidas de vários lugares. São
Jerônimo perdeu dois de seus companheiros: Inocêncio morreu, Heliodoro não tardou a partir, prometendo
retornar. O próprio santo foi acometido por repetidas doenças e o que ainda mais o fatigava, assaltado por violentas
tentações impuras, que provinham da lembrança dos prazeres de Roma. Como os jejuns e outras austeridades
corporais não o libertassem, empreendeu, para dominar a imaginação, um estudo espinhoso: aprender a língua
hebraica, sob a direção de um judeu convertido. Depois da leitura de Cícero e dos melhores autores latinos, era-lhe
penoso voltar ao alfabeto, e exercitar-se nas aspirações e nas pronúncias difíceis. Muitas vezes abandonou o
trabalho, irritado com as dificuldades: muitas vezes o retomou e finalmente adquiriu um profundo conhecimento
daquela língua.

Até mesmo no seu deserto da Síria. São Jerônimo foi perturbado pela discórdia que irrompera entre três bispos, um
ariano e dois católicos. Queriam saber com qual deles permanecia, se com Vital. Melécio, ou Paulino. O bispo dos
arianos e dos católicos do partido de Melécio perguntou-lhe se considerava tais hipóstases na Trindade. Farto dessas
perguntas, escreveu São Jerônimo ao Papa São Damaso nos seguintes termos:

"Como o Oriente, agitado por suas antigas violências, dilacera as vestes sem costura do Senhor, julguei meu dever
consultar o trono de Pedro, e a fé louvada pela boca do apóstolo, procurando alimento para a minha alma no
mesmo lugar onde revesti Cristo por intermédio do batismo. Vossa grandeza me enche de temor, mas vossa
bondade me atrai: cordeiro, peço socorro ao pastor. Para trás, pois, inveja: para trás, dignidade e grandeza de Roma!
dirijo-me ao sucessor do Pescador e ao Discípulo da Cruz! Não tendo outro senhor a não ser Cristo, estou unido em
comunhão à vossa beatitude, isto é, ao trono de Pedro. Sei que a Igreja foi construída sobre essa Pedra. Quem
comer o cordeiro fora dessa casa é profano: quem não estiver na arca de Noé, perecera no dilúvio. Como nem
sempre posso consultar Vossa Santidade, procuro os confessores egípcios, vossos colegas, como uma barquinha se
coloca sob a proteção dos grandes navios. Não conheço Vital, rejeito Melécio. ignoro quem seja Paulino. Quem não
se reunir a vós, está disperso; isto é, quem não é por Cristo, é pelo Anti-cristo.

"Perguntam-me se admiti três hipóstases: pergunto o que significam tais palavras. Respondem-me que são três
pessoas subsistentes; digo que assim o creio; argumentam que não é suficiente e insistem em que eu pronuncie a
palavra. Dizemos em voz alta: "Se alguém não confessar três hipóstases, no sentido de três pessoas subsistentes,
que seja anátema". E por não termos pronunciado a palavra sem explicação, tratam-nos como a heréticos. De outro
lado, também dizemos: "Se alguém compreendendo por hipóstase essência, não confessa uma hipóstase em três
pessoas, é estranho a Cristo", e acusam-nos, tal como a vós, de confundir as três pessoas numa só. Decidi, pois,
conjuro-vos; se me aprovardes, não recearei mais dizer três hipóstases; se assim ordenais, será feito um novo
símbolo de acordo com o de Nicéia e professada a fé ortodoxa quase nos mesmos termos em que os arianos
professam seu erro".

Ê que os arianos diriam três hipóstases no sentido de essência, segundo costumavam fazer os autores profanos; o
que aumentava a desconfiança de São Jerônimo. Foi por causa disso que novamente suplicou ao Papa que o
autorizasse em suas cartas a dizer, ou a não dizer, hipóstases. Também lhe pede para acordar com ele sobre o que
deveria comunicar a Antioquia; pois todos os partidos se gabavam da comunhão de Roma.

Como a essa primeira carta não fosse dada resposta, escreveu uma segunda, onde dizia ao Papa: "De um lado os
arianos praticam violências, apoiados pelo poder secular; de outro, a Igreja, dividida em três partes, quer atrair-me:
os monges que me rodeiam exercem sobre mim a sua antiga autoridade. Contudo, exclamo: "Quem estiver unido ao
trono de Pedro é dos meus!" Melécío, Vital e Paulino dizem que estão unidos a vós. Poderia acreditá-lo se apenas
um deles assim o afirmasse; mas há dois que mentem, ou talvez três. Ê por isso que conjuro Vossa Beatitude, pela
cruz do Senhor, a designar-me, por intermédio de vossas cartas, com quem deverei comunicar-me na Síria. Não
desprezeis uma alma pela qual Jesus Cristo morreu.

O Papa São Damaso servia a Igreja de mais de uma maneira: não apenas a governava com sabedoria: nela fazia
florescer as ciências sagradas. Tendo São Jerônimo ido a Roma com Paulino de Antioquia, que o ordenara sacerdote,
o Papa reteve-o; fez dele seu amigo e secretário, a fim de que o ajudasse a responder as consultas sinodais do
Oriente e do Ocidente. Profundamente versado nas literaturas Sagrada e profana. Jerônimo já escrevera várias obras
sobre as Escrituras; Damaso lia-as avidamente e até mesmo as copiava, insistindo para que o santo escrevesse
outras, propondo-lhe nessa intenção várias questões. Bem depressa fez-lo empreender uma obra de mais ampla
serventia: uma edição correia do Saltério. Jerônimo executou-a, mas com o menor número possível de alterações,
pois os salmos, traduzidos pelos Setenta, andavam nas mãos e na memória de todos os fieis, que os cantavam na
igreja. Mais tarde fez outra edição, na qual intercalou, sob a forma de sinais característicos, as diferenças entre
grego e hebraico. Finalmente fez uma versão literal do próprio hebraico.

Desde tempos imemoriais, era utilizada no Ocidente uma versão latina do Novo Testamento, conhecida sob a
denominação de Itálica, Latina, Vulgata ou Vulgar. Supõe-se que tenha sido feito na própria Roma no tempo dos
apóstolos, ou pouco depois; pois cerca da metade do Novo Testamento foi redigida em Roma, ou de Roma: o
Evangelho de São Marcos, os Atos dos Apóstolos, as duas Epístolas de São Pedro, e as sete Epístolas de São Paulo.
Mas como antes da invenção da imprensa era preciso copiar tudo a mão, inevitavelmente uma boa quantidade de
erros de copistas eram inseridos nos diferentes exemplares, erros que algumas vezes outros corrigiam, cometendo
novos erros. Às vezes, também, o intérprete não reproduzia fielmente o sentido do original. Além disso, cada fiel não
possuía a coleção inteira do Novo Testamento, apenas uma ou outra parte em separado, nas quais se permitia às
vezes acrescentar ou intercalar trechos de outras. Tudo isso tinha como resultado variantes, diferenças mais ou
menos acentuadas entre os vários exemplares. Para remediar esse inconveniente, o Papa insistiu para que São
Jerônimo organizasse uma edição correta dos quatro Evangelhos, e de todo o Novo Testamento, de acordo com o
texto original, que era grego. Ele assim o fez, acrescentando-lhe um índice de concordância entre os quatro
Evangelhos. Mais tarde, empreendeu e levou a cabo o mesmo trabalho com relação ao Antigo Testamento inteiro,
que traduziu do hebraico. Como o povo estava habituado à antiga Vulgata, a versão de São Jerônimo encontrou
certa oposição. Numa igreja da África, onde era lida, o povo amotinou-se por ter ele chamado aboboreira, e não
hera, à planta que deu sombra ao profeta Jonas. Mas foram certas pessoas invejosas e ciumentas que não se
consideravam povo, que lhe opuseram as maiores resistências. Contudo, com o decorrer do tempo, a versão de São
Jerônimo, que os gregos consultavam desde o seu aparecimento, foi adotada por toda a Igreja Latina, e o Concílio de
Trento acabou por declará-la autêntica. Com efeito, jamais pessoa alguma se encontrou em melhores condições
para bem executar semelhante obra. Não apenas aproveitou tudo quanto já fora realizado, trabalhos exaustivos de
Orígenes e de outros; porem, possuindo grande conhecimento do hebraico, do siríaco, do caldaico, interrogava os
doutores das sinagogas, visitava, estudava na companhia deles os próprios lugares referidos pelas Escrituras.

Mas surpreendente ainda é, depois do Pontífice Romano, terem sido as primeiras damas de Roma, descendentes
dos Cipiões, dos Paulo-Emílios, dos Fábios, dos Marcelos, dos Júlios, filhas, esposas, viúvas de prefeitos e de
cônsules, as pessoas que mais insistiram com São Jerônimo para que levasse a efeito a obra projetada e que nela
participaram de alguma forma, pois chegaram a aprender o hebraico.

Realmente uma das mais absorventes ocupações do santo doutor durante a sua permanência em Roma era dar
resposta às damas romanas que o consultavam sobre as Sagradas Escrituras. Malgrado as precauções ditadas pela
sua modéstia no sentido de evitar encontrar-se com elas, era constantemente procurado. Santa Marcela, Santa
Asela, sua irmã, e Santa Albina, mãe de ambas, incluíam-se no número das que lhe solicitavam os pareceres. Marcela
assimilou prontamente tudo o que são Jerônimo conseguira aprender a custa de muito esforço, tal como se
depreende de suas cartas. Tendo ficado viúva no sétimo mês apôs as suas núpcias, Marcela recusou-se a desposar
Cerealis, homem idoso, mas de alta nobreza e muito rico, tio de César Galo e que, sob Constâncio fora prefeito de
Roma, e Cônsul em 358. Não obstante a sua longa viuvez, nunca a pureza do seu comportamento foi manchada pela
menor suspeita. Retirou-se para uma casa de campo, junto a Roma, onde durante muito tempo praticou a vida
monástica em companhia de sua filha espiritual, a virgem Princípia, e esse exemplo fez surgir em Roma um grande
número de mosteiros para ambos os sexos. Santa Marcela tomara gosto pela piedade e pela vida monástica
quarenta anos antes, quando Santo Atanásio fora à Roma, sob o papa Júlio, em 341. Ele lhe deu a conhecer a vida de
Santo Antônio, que ainda vivia, e a disciplina dos mosteiros de São Pacômio para homens e mulheres.

Paula, amiga de Marcela, inclui-se entre as mais ilustres patrícias romanas doutrinadas por São Jerônimo. Era filha de
Rogato e de Belsila. Seu pai, grego de origem, faria chegar a sua genealogia até Agamenon: sua mãe descendia dos
Cipiões, dos Gracos e dos Paulo Emilios. Paula desposou Júlio Toxótio, da família Júlia, e, conseqüentemente,
descendente de Lulo e Enéias: teve com ele quatro filhas e um filho. A mais velha das filhas, chamada Blesíla, nome
de sua avó, permaneceu casada apenas sete meses, tal como Santa Marcela, ficando viúva com a idade de vinte
anos. São Jerônimo explicou-lhe o livro do Eclesiástico, a fim de incitá-la ao desprezo do mundo. Ela lhe pediu que
lhe fizesse um pequeno comentário da obra, que lhe possibilitasse compreende-Ia sozinha. Porém, quando São
Jerônimo se preparava para satisfazer-lhe o desejo, ela faleceu, rapidamente vitimada por uma febre. Santa Paula,
sua mãe, mostrou-se pesarosa em extremo, e São Jerônimo consolou-a numa carta, onde refere que Blesila falava
tanto o grego como o latim, que aprendera o hebraico em poucos dias, e que tinha sempre na s mãos as Sagradas
Escrituras.

A segunda filha de Santa Paula, Paulina, desposou Pamáquio, primo de Santa Marcela, da família Fúria, e que
contava vários cônsules entre os ante passados. Era velho amigo de São Jerônimo. que estudara com ele, e lhe
dedicou várias de suas obras. Paulina precedeu-o na morte e, viúvo e sem filhos, consagrou-se inteiramente ao
serviço de Deus, e às boas obras; ingressou na vida monástica e empregou toda a fortuna para socorrer os pobres,
particularmente os estrangeiros, recebendo-os num hospital que fundou em Porto, nas imediações de Roma. A
terceira filha de Santa Paula, Júlia Eustóquia, nunca a deixou, e permaneceu virgem: a quarta. Rufina, desposou mais
tarde Alêtio, da categoria dos claríssimos. O filho de Santa Paula, o mais moço de todos, recebeu o nome do pai,
Toxótio. Desposou Leta, filha de Albino, pagão e pontífice dos ídolos, mas que se converteu na velhice, persuadido
pela filha e pelo genro. Do casamento de Toxótio e Leta nasceu a jovem Paula: Leta, então viúva, recebeu de São
Jerônimo uma carta com instruções sobre a maneira de educar cristãmente a filha. Era essa a família de Santa Paula.

São Jerônimo também nos legou a apologia de duas viúvas. Léa e Fabiola, e da virgem Asela. Léa dirigia um mosteiro
de virgens, às quais instruía mais com exemplos do que com palavras: passava as noites rezando: seu hábito e sua
alimentação eram muito pobres, embora não o fosse ostensivamente. Era tão humilde que mais parecia a serva das
outras, ela que antes possuíra um grande número de escravos. A Igreja cultua-lhe a memória no dia vinte e dois de
março. São Jerônimo soube de sua morte uma manhã, quando escrevia a Santa Marcela, explicando-lhe o salmo 72:
o que lhe deu oportunidade para tecer o elogio da morta. Dois dias depois também lhe fez: o do Santa Asela, irmã da
própria Marcela, e que ainda vivia. Fora consagrada a Deus desde a idade de dez anos. Aos doze, fechou-se numa
cela. dormindo no chão, só se alimentando de pão e água, jejuando o ano inteiro, e muitas vezes passando dois ou
três dias sem comer; na quaresma, passava semanas inteiras em jejum. Já completara cinqüenta anos e suas
austeridades não lhe tinham alterado a saúde. Trabalhava com as mãos, nunca saia, a não ser para ir às igrejas dos
mártires, mas sem que ninguém a visse. Jamais dirigira a palavra a homem algum; somente sua irmã a via. Sua vida
era simples e uniforme e em plena Roma, permanecia em completa solidão. A Igreja reverencia-lhe a memória no
dia seis de dezembro. Fabíola pertencia à ilustre família dos Fábios. Desposara um homem de costumes tão
desregrados que achando impossível suportá-lo, abandonou-o: mas como ainda era jovem, usou da liberdade que
lhe concediam as leis civis, e tornou a casar-se. Depois da morte do segundo marido. Fabiola caiu em si e
reconhecendo que com aquele casamento infringira a lei do Evangelho, fez penitência pública; apresentou-se na
Basílica de Latrão, na véspera da Páscoa, de mistura com os penitentes, de cabelos soltos, e nas mesmas lamentáveis
condições em que os outros se encontravam, arrancando lágrimas ao bispo, aos sacerdotes e aos assistentes.
Permaneceu fora da igreja até que o bispo a chamasse, depois de tê-la expulso. Em seguida, vendeu todos seus bens
e foi a primeira a fundar em Roma um hospital para doentes, onde os servia com suas próprias mãos. Mostrava-se
extremamente generosa para com os clérigos, os monges, as virgens, não apenas em Roma, mas em toda a Toscana,
onde já existiam vários mosteiros.

Enquanto São Jerônimo assim entretinha, em Roma, juntamente com o amor à virgindade, o amor às letras
sagradas, certo Helvídio, discípulo do ariano Auxêncio, escreveu um livro em que pretendia provar, pelas Escrituras,
que a Santa Virgem, depois do nascimento de Nosso Senhor, tivera outros Filhos com São José e passando à tese
geral, sustentava que a virgindade não oferecia vantagens sobre o casamento. São Jerônimo desdenhou durante
algum tempo o tratado de Helvídio, tanto por causa da obscuridade do autor, dele desconhecido, embora ambos
residissem em Roma quanto por causa do escasso mérito da obra. Enfim. persuadido a refutá-la, mostrou
claramente que nada há nas Escrituras a desfavor da crença estabelecida na Igreja de que Maria se conservou
sempre virgem, tendo em São José apenas o guarda da sua virgindade. Sustenta mesmo que esse santo permaneceu
virgem: enfim, enobrece a virgindade, sem reprovar o casamento. Porém, embora erguendo tão alto a virgindade a
viuvez, e o celibato religioso. São Jerônimo nem por isso poupava as pessoas que satisfeitas por fazerem a profissão
exterior do citado estado, desejosas de serem respeitadas perante os homens, continuavam a viver, não somente no
mundo, mas como no mundo. É uma prova disso a longa carta por ele enviada à virgem Eustóquia, que versa sobre a
maneira de conservar a virgindade. Nela lamenta a queda cotidiana de muitas virgens, de tantas viúvas que depois
de terem professado, levam uma vida indolente e sensual, amantes do bom passadio e dos adornos, mostrando-se
em público para atrair os olhares dos jovens e, mais tarde, para escapar à desonra do crime cometido, a ele
acrescentam outros crimes sacrificando a criança ainda por nascer. Lamenta o escândalo dos agapetas, a praga
daquelas virgens falsamente devotas, que deixavam irmãos para procurar estrangeiros, com eles ocupando a mesma
casa, o mesmo quarto, e muitas vezes a mesma cama, e protestando que são caluniadas quando se tornam objeto
de suspeita: mulheres sem casamento, concubinas de nova espécie, prostituídas a um só homem, e não virgens
cristãs.

Quanto a Eustóquia, foi advertida para fugir daqueles hipócritas de ambos os sexos. Falando dos clérigos em
particular, disse: "Existem uns que disputam o sacerdote ou o diaconato para mais livremente se avistarem com
mulheres. Só se preocupam com suas vestes, com terem o calçado limpo, com estarem perfumados. Encrespam os
cabelos com ferros; anéis lhes brilham nos dedos: andam na ponta dos pés, mais parecem noivos do que clérigos.
Existem outros, cuja única ocupação é saber os nomes e as moradas das mulheres de categoria, e ficar a par de suas
amizades. Poderia citar um que é mestre em tal ofício. Levanta-se com o sol, e como a ordem de suas visitas já está
preparada, procura os caminhos mais curtos: esse velho importuno quase entra nos quartos onde elas dormem. Se
vê um travesseiro, um guardanapo, ou qualquer outro objeto a seu posto, elogia-o, gaba-lhe a limpeza, apalpa-o,
queixa-se de não possuir coisa semelhante, e mais o arranca do que o obtém: pois todos temem esse correio da
cidade. Inimigo da castidade, inimigo do jejum, aprova, isso sim, um bom jantar, um prato apetitoso".

São Jerônimo também apontava a avareza daqueles clérigo interesseiros que sob o pretexto de dar sua bênção,
estendiam a mão para receber dinheiro, e tornavam-se dependentes das mesmas pessoas a quem deveriam dirigir.
Também se queixa, alhures, dos que se apegavam a pessoas idosas e a seus filhos, e lhes prestavam assiduamente os
mais baixos e indignos serviços a fim de serem incluídos na sucessão.

Servindo-se de linguagem tão crua e tão severa, naturalmente São Jerônimo fazia muitos inimigos. Assim sendo, a
princípio consideravam-no um santo, um homem ao mesmo tempo humilde e eloqüente; a cidade inteira estimava-
o, julgava-o digno do soberano pontificado e atribuía-lhe tudo quando o Papa São Damaso fazia. Porém, quando se
atreveu o verberar os vícios dos romanos, taxaram-no de patife impostor: os que lhe beijavam as mãos.
achicalhavam-no por trás; censuravam-Ihe até mesmo o andar, o riso, a expressão do rosto: a simplicidade que o
marcava tornou-se suspeita. Nada o assustava; no contrário, divertia-o. "Então! escrevia ele, por que não ousaria
dizer o que os outros não se envergonham de fazer? além do mais, de que falei com tão grande liberdade? descrevi,
por acaso, os ídolos esculpidos na baixela dos festins? relembrei que no correr das refeições cristãs são oferecidos
aos olhares das virgens os amplexos dos sátiros e das bacantes? externei desgosto pelo fato de mendigos se
tornarem ricos? achei errado que enterrem aqueles de quem herdarão? por ter tido a desgraça de fazer uma
observação, isto é que as virgens de preferência deveriam conviver mais freqüentemente com mulheres do que com
homens, com isso ofendi a cidade inteira, todos me apontam. E julgais que nada mais direi?

Havia em Roma, entre outros, um indivíduo de nariz disforme e fala empolada, que se julgava belo homem e
formoso espírito. Ora. esse homem tomava para si. pessoalmente, tudo quanto São Jerônimo dizia acerca de vícios e
de extravagâncias, e se queixava a toda gente. Depois de tê-lo ridicularizado por assim se trair, Jerônimo acabou por
dar-lhe este conselho: "Faze com que teu nariz desapareça do rosto, e depois conserva a boca bem fechada; a esse
preço poderão acreditar que és um belo homem e que sabes falar bem”.

No mesmo ano de 385, em que Santo Agostinho se convertia em Milão, São Jerônimo deixava Roma para retornar
ao Oriente. No momento de embarcar, em Porto, escreveu a Santa Asela uma carta na qual lhe comunicava as
razões da sua partida: calúnias de invejoso, principalmente. Avistou-se, de passagem, com Santo Epifânio, na Ilha de
Chipre, com Paulino em Antioquia, e encontrou em Alexandria um novo bispo, Teófilo, sucessor de Timóteo, que
acabava de falecer. São Jerônimo foi à capital do Egito encontrar-se com um cego, o famoso Dídimo, e aprender com
ele embora (á tivesse os cabelos brancos, e fosse considerado um dos mais sábios doutores da Igreja. Durante um
mês inteiro expôs a Didimo as dificuldades em relação às Escrituras, e foi a seu pedido que Didimo compôs três
volumes de comentários sobre Oséías, e cinco sobre Zacarias, a fim de suprir as lacunas deixadas por Orígenes.

Durante essa viagem, São Jerônimo visitou os mosteiros do Egito: em seguida, retornou à Palestina e retirou-se para
Belém. Acreditavam que, depois de ter ouvido Dídimo, nada mais teria para aprender; mas ainda tomou como
mestre um judeu que mediante determinado salário, ia dar-lhe lições, à noite, temeroso dos outros judeus. Foi
então que São Jerônimo resolveu explicar as Epístolas de São Paulo. Por esse tempo faleceu São Cirilo de Jerusalém,
depois de ter sido muitas vezes expulso da sua igreja, e muitas vezes nela restabelecido, e de tê-la governado
pacificamente durante oito anos, sob Teodósio. Teve por sucessor João, que praticara a vida monástica. Uma das
últimas tarefas de São Jerônimo, foi escrever contra a heresia de Pelágio. Esse inovador fora à Palestina e,
encontrando o bispo João de Jerusalém, em desacordo com o santo doutor, disso se aproveitou para depreciar este
último, e assim mais facilmente espalhou a própria heresia. Paulo Oroso veio do Ocidente e apontou-a aos bispos.
Num concilio de Jerusalém foi decidido que entregariam a questão ao Pontífice Romano. Noutro concílio, o de
Dióspolis, Pelágio disfarça seus sentimentos e os condena de boca, a fim de infiltrá-los mais facilmente, de fato. Logo
depois do concilio de Dióspolis, talvez mesmo durante o concílio, São Jerônimo publicou em três volumes o seu
Diálogo entre um católico, a quem chama Ático, e um pelagíano, a quem chama Critóbulo. Emprega contra a nova
heresia, abundantemente, as mesmas provas que Santo Agostinho, a quem cita na parte final, nos seguintes termos:
"O santo e eloqüente bispo Agostinho escreveu, há muito tempo, em Marcelino, dois livros sobre o batismo das
crianças, contrários à vossa heresia; e um terceiro contra aqueles que dizem, tal como vós, que podemos ser isentos
do pecado, se quisermos; e, há pouco tempo, um quarto, em Hilário. Dizem que escreve outros especialmente
contra vós; mas ainda não chegaram às minhas mãos. É por isso que sou de opinião que devo interromper este
trabalho; pois repetirei inutilmente as mesmas coisas, ou se pretendesse dizer novas, aquele brilhante espírito me
anteciparia dizendo as melhores".

Não tardou que o caráter da heresia fosse percebido. Depois de iludir, como vimos, o concílio de Dióspolis, e
julgando-se bastante forte sob a proteção de João de Jerusalém. Pelágio resolveu vingar-se daqueles que na sua
opinião mais se opunham às suas idéias. Enviou, pois, um bando de desordeiros a Jerusalém, atacar os servos e
servas de Deus, que viviam sob a direção de São Jerônimo. Alguns deles foram espancados com bárbara crueldade:
um diácono foi morto: os edifícios do mosteiro foram reduzidos a cinzas: e São Jerônimo só evitou os maus
tratamentos daqueles ímpios, refugiando-se numa sólida torre. As virgens Eustóquia e Paula, sua sobrinha, mal
puderam livrar-se do fogo e das armas que as ameaçavam, depois de terem visto os irmãos espancados ou mortos.
Queixaram-se, assim como São Jerônimo, ao Papa Santo Inocêncio, sem contudo citar nomes. O Papa escreveu uma
carta a Jerônimo, na qual assim se expressou: "Tocados pela narrativa de tantas atribulações, apressamo-nos a
empunhar a autoridade do Trono Apostólico para reprimir qualquer espécie de atentados. Mas como ninguém foi
citado ou acusado em vossas cartas, não sabemos a quem nos dirigir. Fizemos aquilo que está em nosso poder, isto
é, lamentar vossos contratempos. Mas se depuserdes uma queixa precisa contra certo número de pessoas, darei
juízes competentes, ou, se for possível, ordenarei pronto remédio. Contudo, escrevi a meu irmão, o Bispo João,
recomendando-lhe que seja mais cuidadoso, a fim de que semelhante desordem não mais se repita numa igreja que
lhe foi confiada”.

Essa carta é notável por quanto mostra a autoridade do Papa sobre toda a Igreja. Cabia-lhe o direito de nomear
juízes na própria Palestina, e num caso criminal. Sua carta a João de Jerusalém é extremamente severa. Nela se
refere às queixas que lhe foram dirigidas pelas virgens Eustóquia e Paula, sem contudo designar nem pessoas, nem
motivos. Censura-lhe a negligência não prevenindo semelhante desordem. A possibilidade de tal atrocidade ser
levada a efeito numa igreja condenava um pontífice. Censura-lhe a sua indiferença depois da ocorrência. "Onde
estão vossas consolações para com aquelas que foram as vítimas? pois dizem que mais temem pelo futuro, do que
sofreram no passado. Se me tivessem comunicado algo mais preciso sobre esse caso, eu falaria mais alto e agiria
mais severamente."
O Bispo João faleceu algum tempo depois, no dia dez de janeiro de 417. Sucedera a São Cirilo e resistira ao cerco de
Jerusalém durante mais de trinta anos. Seu sucessor foi Prayle, cujos costumes estavam de acordo com o seu nome,
que significa doce. Resistiu ao cerco quase treze anos. O próprio São Jerônimo pouco sobreviveu a essa perseguição.

Morreu em trinta de setembro de 420, com a idade de noventa e um anos. Seu corpo, gasto pelos trabalhos, pelas
austeridades, pelos anos e pelas moléstias, foi sepultado em Belém, na gruta pertencente ao seu mosteiro. Malgrado
seu temperamento um pouco veemente. São Jerônimo foi um desses homens raros, e a simples enunciação do seu
nome é mais expressiva do que qualquer elogio.

Mais tarde, seu corpo, transportado para Roma, foi colocado na Basílica de Santa Maria Maior.

.Fonte: Pe. Rohrbacher, Vida dos santos, Tomo XVII.


.Obs: foram feitos alguns acréscimos!

Fonte: Volta Para Casa

Foto: Retirada do blog br-patriciabelo

http://www.santamaeddeus.blogspot.com.br/2011/09/sao-jeronimo.html#more

São Lourenço, mártir


Em 258, a perseguição do imperador Valeriano, já violenta, tornou-se ainda mais furiosa; Valeriano, que
estava no Oriente, ocupado com a guerra contra os persas, escreveu ao senado uma arta

ordenando que os bispos, os padres e os diáconos fossem executados sem demora; que os senadores, as pessoas de
qualidade e os cavaleiros romanos seriam antes privados de suas dignidades de seus bens, e que depois disso, se
perseverassem no cristianismo, teriam a cabeça cortada, que as damas romanas seriam privadas de tudo o que
possuíam e condenadas ao exílio; que os oficiais e domésticos do imperador, que já tinham confessado ou que
confessassem serem cristãos seriam mandados, carregados de cadeias, a trabalhar nas fazendas do príncipe como
seus escravos.

Valeriano tinha acrescentado uma cópia das cartas que mandara aos governadores das províncias. Suas
ordens foram logo executadas em Roma. Era a maior ocupação dos prefeitos da cidade e do pretório.

Todos os que lhes caíam nas mãos eram supliciados sem demora e seus bens confiscados. Um dos
primeiros, talvez mesmo o primeiro, foi o Papa São Sixto. Foi preso com alguns de seu clero quando estava no
cemitério de Calisto, para celebrar os santos mistérios, quando o levaram ao suplício.

Lourenço, o primeiro dos diáconos da Igreja romana, seguia-o chorando e dizendo-lhe: aonde ides, meu
pai, sem vosso filho? Aonde ides, Santo Pontífice, sem vosso diácono? Não estais acostumado a oferecer o sacrifício
sem ministro; no que vos desagradei? Experimentai se sou digno da escolha que fizestes de mim, para me confiar a
dispensa do Sangue de Nosso Senhor. Sixto respondeu-lhe: Não sou eu que te deixo, meu filho, mas um combate
maior te está reservado; poupam-nos, a nós velhos; mas tu me seguirás dentro de três dias. O Papa Sixto teve a
cabeça cortada a 6 de Agosto no cemitério de Calisto e com ele quatro diáconos. Tinha ocupado a Santa Sé por onze
meses e seis dias.

Entretanto, o prefeito de Roma, julgando que os cristãos tinham grandes tesouros escondidos e querendo
disso certificar-se, mandou chamar Lourenço, que lhes era o custódio, como o primeiro dos diáconos da Igreja
romana. Vendo-o em sua presença, disse: Vós vos queixais ordinariamente de que vos tratamos com crueldade; não
há aqui tormento algum; eu vos pergunto com suavidade o que depende de vós. Diz-se que, em vossas cerimônias,
os pontífices oferecem libações com vasos de ouro; que o sangue da vítima é recebido em taças de prata e que, para
iluminar vossos sacrifícios noturnos, tendes círios ficados em candelabros de ouro. Diz-se que, para fornecer essas
ofertas, os irmãos vendem suas propriedades e reduzem muitas vezes seus filhos à pobreza; mostrai-nos esses
tesouros escondidos; o príncipe tem deles necessidade para restaurar as finanças e pagar as tropas. Também eu sei
que, segundo vossa doutrina, o imperador reconhece por sua a moeda sobre a qual está impressa sua imagem: daí
portanto a César o que sabeis que é de César. Nada vos peço de mais justo. Se não me engano vosso Deus não faz
cunhar moedas; não trouxe dinheiro quando veio ao mundo; trouxe somente palavras: restitui-nos o dinheiro e sede
ricos de palavras.

Lourenço respondeu, sem se agastar: Confesso que nossa Igreja é rica e o imperador não tem tesouros tão grandes.
Mostrai-vos-ei o que tem de mais precioso; dai-me somente um pouco de tempo para por tudo em ordem e colocar-
me em condições de fazer o cálculo. O prefeito, contente com a resposta e crendo já estar de posse dos tesouros da
Igreja, concedeu-lhe três dias de prazo. Durante esses três dias Lourenço percorreu toda a cidade para procurar em
cada rua os pobres que a Igreja sustentava e que ele conhecia melhor que ninguém; os cegos, os coxos, os
estropiados, os que tinham úlceras e feridas. Reuniu-os, escreveu-lhes os nomes, e colocou-os em fila, diante da
igreja. No dia marcado, foi falar com o prefeito e disse-lhe: Vinde ver os tesouros de nosso Deus; vereis um grande
pátio cheio de vasos de ouro e talentos amontoados em galerias. O prefeito seguiu-o, mas vendo aquela multidão de
pobres, de aspecto horroroso que soltavam gritos pedindo esmolas, voltou-se contra Lourenço com olhares
ameaçadores. De que estais aborrecido? Perguntou-lhe o santo. O ouro que ambicionais é um simples metal, tirado
da terra, e serve de móvel de todos os crimes; o verdadeiro ouro é a luz de que esses pobres são os discípulos. A
fraqueza de seus corpos é uma vantagem para o espírito; as verdadeiras doenças são os vícios e as paixões; os
grandes do século são os pobres verdadeiramente miseráveis e desprezíveis. Eis os tesouros que vos prometi; a eles
acrescento as pérolas e as pedrarias: vedes as virgens e as viúvas; é a coroa da Igreja. Aproveitai essas riquezas para
Roma, para o imperador e para vós mesmo.

Portanto, assim gracejas? Disse o prefeito. Eis como insultas os machados e os feixes? Sei que desejas a
morte; o martírio é o ideal de tua crença vã. Mas não imagines morrer agora; prolongarei tuas torturas; morrerás
devagar.

Imediatamente fez levá-lo para um leito de ferro e estender por baixo brasas semi-acesas, para queimar o
mártir mais lentamente. Despiram-no e estenderam-no sobre a grelha. O rosto pareceu, aos cristãos recém-
batizados, rodeado de um resplendor extraordinário e o cheiro do corpo assado agradável; mas os infiéis não viram
essa luz, nem sentiram o cheiro.

Depois de o mártir estar deitado sobre um lado, por muito tempo, disse ao prefeito: Fazei-me virar, já
estou bastante assado deste lado. Depois que o viraram disse ainda: Está assado, podeis comer. Olhando então, para
o céu, rogou a Deus pela conversão de Roma e morreu.

Senadores, convertidos pelo exemplo de sua constância, levaram-lhe o corpo nas costas e o enterraram no
campo Verano, perto do caminho de Tivoli, a 10 de agosto do mesmo ano, 258.

Valeriano, por fim, recebeu a paga. Aprisionado pelos persas, perdeu ao mesmo tempo o império e a
liberdade, viveu escravo e morreu esfolado, sem que o filho Galieno fizesse o menor gesto em seu favor.

(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XIV, p. 302 à 307)

São Cornélio, Papa e São Cipriano – 16 de setembro


São Cornélio foi eleito Papa no mês de junho de 251, aproximadamente. Eis em que termos escreveu mais tarde São
Cipriano a um bispo da África:

O que muito eleva nosso mui querido irmão Cornélio diante de Deus, diante de Jesus Cristo, diante da sua Igreja, e
diante de nossos colegas, é não ter ele ascendido ao episcopado de uma só vez: pois só chegou a esse supremo grau
do sacerdócio galgando todos os degraus requeridos pela disciplina, depois de ter exercido todos os ministérios
eclesiásticos e de ter muitas vezes atraído as graças de Deus sobre a sua pessoa pelos serviços prestados nesses
postos divinos. Ademias, não solicitou tal dignidade, nem a ambicionava. Não se emprenhou para obtê-la, como
fazem aqueles possuídos pelo orgulho e pela ambição. Só encontraram nele um espírito calmo e modesto, como
devem possuir aqueles designados por Deus para serem eleitos bispos; o pudor tão natural à consciência pura das
virgens; a humildade de um coração que ama singelamente a castidade e que sempre a guardou com desvelo.

Assim, não lutou para tornar-se bispo, como tantos outros; mas violentou-se para consentir em sê-lo. Foi eleito bispo
por vários colegas que então se encontravam em Roma, e que nos escreveram as mais dignificantes cartas sobre a
sua ordenação. Sim, Cornélio foi feito bispo pelo julgamento de Deus e de Cristo, pelo testemunho presente, e pelos
mais antigos e santos ministros do altar, quando ninguém ainda o fora antes, e o posto de Fabiano, isto é, o posto de
Pedro, o Trono Pontifício, estava vazio.

Tendo este cargo sido preenchido pela vontade de Deus, e a eleição confirmada pelo consentimento de todos nós,
quem quiser aclamar-se bispo seja quem for, será necessariamente excluído e não receberá a ordenação da Igreja,
em cuja unidade não mais se inclui. Seja quem for, gabe-se do que quiser, será um profano, um estranho, estará
excluído. E como depois do primeiro não pode existir um segundo, quem tiver sido feito depois do primeiro, que
deve ser o único, não é o segundo, é nada. Além disso, depois de ter sido assim elevado ao episcopado, sem intriga,
sem violência, só pela vontade de Deus, a quem cabe escolher os seus pastores, de quanta virtude, decisão e fé não
deu provas ao sentar-se intrepidamente na cadeira pontifícia, num tempo em que um tirano inimigo dos pontífices
de Deus lançara contra eles fogo e chamas e, mais com mais tolerância aceitava um competidor no império do que
um pontífice de Deus em Roma.

Um sacerdote ambicioso, chamado Novaciano, ofendido por não haver sido eleito Papa, transformou-se no primeiro
antipapa, e no chefe do primeiro cisma na Igreja Romana. Ao cisma, juntava a heresia, sustentando que a Igreja não
podia conceder absolvição aqueles culpados de perseguição, fossem quais fossem as penitências por eles feitas; e
que não lhe era permitido comunicar-se com tais pessoas. O Papa São Cornélio, secundado por São Cipriano e por
São Dionísio, de Alexandria, teve a felicidade de deter o cisma e de reconduzir à unidade a maioria dos cismáticos.
Finalmente, coube-lhe a glória do martírio.

Uma perseguição irrompeu subitamente em Roma sob o Imperador Gallus. O Papa São Cornélio foi o primeiro a
confessar o nome de Jesus Cristo. Seu exemplo de tal modo animou os fiéis que, ao terem notícia do seu
interrogatório, acorreram às pressas para confessar com ele; e, informados, todos os outros também teriam
acorrido. Grande número dos que tinham caído, levantaram-se nessa ocasião. Enfim, tal era a coesão, que se diria
ter a Igreja Romana inteira confessado. Quando a notícia chegou a Cartago, São Cipriano e sua Igreja
experimentaram uma alegria inexprimível. Imediatamente, este último escreveu a São Cornélio, felicitando-o. E
também à Igreja Romana, a que denomina povo confessor. Assim encerra a sua carta: Já que a Providência divina
nos adverte que o dia da nossa luta se aproxima, dediquemo-nos sem interrupção juntamente com todo o povo, aos
jejuns, às vigílias e às orações. Como só possuímos um coração e uma alma, lembremo-nos de um e de outra, e que
seja dentre nós que saia o primeiro pela misericórdia divina; que a nossa caridade mútua se mantenha ao seu lado e
que nossas orações por nossos irmãos e irmãs nunca sejam interrompidas. Desejo-vos meu mui querido irmão, que
continueis a passar bem.

Foi a última carta de São Cipriano a São Cornélio, que foi exilado e consumou o martírio no dia 14 de setembro de
252, depois de ter ocupado a Santa Sé durante um ano e cinco meses aproximadamente.

(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XVI, p. 218 à 222)

De Maistre à uma senhora protestante


Senhora,

A senhora exige que eu lhe dirija minha opinião sobre a máxima, tão forte na moda, de que um homem honesto
jamais muda de religião. Encontrar-me-á sempre disposto, senhora, para dar-lhe provas de uma deferência sem
limites, e me apressarei ainda mais para obedecer-lhe nesta ocasião, que, se não me engano infinitamente, não
resta mais entre vós e a verdade senão essa sombra inútil de honra que é muito importante suprimir.

Joseph de Maistre

Ter-me-ia sido muito mais agradável conversar com a senhora de viva voz; mas a Providência não quis isso. Eu lhe
escreverei, portanto, visto que estamos separados por muitíssimo tempo, talvez mesmo para sempre; e tenho a
firme esperança de que esta carta produzirá sobre um espírito tão honesto como o vosso o efeito que espero.

A questão não saberia ser mais importante, pois, se nenhum homem honesto deve mudar de religião, não há mais
interrogação sobre a religião. É inútil e mesmo ridículo se reportar de qual lado se encontra a verdade. Todo mundo
tem razão, ou todo mundo está errado, como lhe agradar; isso é uma pura questão de polícia, da qual não vale a
pena se ocupar.

Mas pense bem, eu lhe suplico, na seguinte alternativa: para que todo homem honesto esteja obrigado a conservar
sua religião, independente de qual ela seja, é preciso necessariamente que todas as religiões sejam verdadeiras, ou
que todas as religiões sejam falsas. Ora, dessas duas proposições, a primeira só pode ser encontrada na boca de um
insensato, e a segunda na de um ímpio. Assim, estou, pois, dispensado, com uma pessoa tal como a senhora, de
examinar a questão em sua relação com um ou outra das duas suposições; e devo me restringir a uma terceira,
quero dizer, àquela que admite uma religião verdadeira e rejeita todas as demais como falsas.

Devo ainda mais isso, porque é precisamente desta suposição que se parte para afirmar que cada um deve guardar a
sua. Com efeito, dizem, o latino diz que ele tem razão, o grego diz que ele tem razão, o protestante diz que ele tem
razão: entre eles, quem será o juiz? Minha resposta seria muito simples se esse aqui fosse o estado da questão.
Diria: É Deus quem será o juiz; é Deus que examinará se o homem não enganou a si mesmo; se ele estudou a
questão com toda a atenção da qual ele é capaz, e, sobretudo, se ele não se deixou cegar pelo orgulho; pois não
haverá graça para o orgulho.

Mas não é absolutamente disso de que se trata; muda-se o estado da questão para confundi-la. Não se trata de
forma alguma de saber o que acontecerá com um homem que se crê de boa fé no caminho da verdade, ainda que
ele esteja realmente no do erro; ainda uma vez, Deus o julgará, e é singular que tenhamos tanto medo de que Deus
não saiba apreciar a conduta de todo mundo.

Trata-se, e trata-se unicamente de saber o que deve fazer o homem que professa uma religião qualquer, e que vê
claramente a verdade em outro lugar. Eis aqui a questão; e não há nem razão nem boa fé em mudá-la para examinar
outra diferente, visto que ambos estamos de acordo de que um homem que muda de religião sem convicção é um
covarde e um celerado.

Isso posto, que imprudente ousará dizer que o homem a quem a verdade se torna manifesta deve se obstinar em
repeli-la? Não há nada de tão terrível que o império de uma falsa máxima uma vez estabelecida sobre algum pré-
julgamento que nos é caro: à força de passar de boca em boca, ela se torna um tipo de oráculo que subjuga os
melhores espíritos. Deste número é aquela que eu examino neste momento: ela é a almofada que o erro imaginou
para descansar sua cabeça e dormir confortável.

A verdade não é, independente do que se diga dela, tão difícil de se conhecer. Cada um, sem dúvida, é mestre para
dizer não, mas a consciência é infalível, e seu aguilhão não pode ser afastado nem mitigado. O que se faz, então,
para se sentir confortável, e para contentar ao mesmo tempo a preguiça, que não quer examinar, e o orgulho, que
não quer se desdizer? Inventa-se a máxima de que um homem de honra não muda de religião, e logo em seguida se
tranquiliza, sem querer perceber, o que é, contudo, da maior evidência, que esse belo adágio é completamente um
disparate e uma blasfêmia.

Um disparate: pois o que se pode imaginar de mais extravagante, de mais contrário à natureza de um ser inteligente,
que a profissão de fé expressa e anterior de impelir a verdade se ela se apresenta? Enviar-se-ia ao manicômio aquele
que pretendesse tal compromisso nas ciências humanas; mas que nome dar àquele que o toma a propósito das
verdades divinas?

Um blasfemo, pois isso é absolutamente e ao pé da letra a mesma coisa do que se a gente dissesse formalmente a
Deus: "Não estou nem aí com o que o senhor me diz; revele o que quiserdes, eu nasci judeu, maometano, idólatra,
etc., e assim permaneço. Minha regra sobre esse ponto é o grau de longitude e de latitude. Podeis ter ordenado o
contrário, mas pouco me importa".

A senhora ri, madame, mas não há aqui exageração nem retórica, há a verdade completamente pura; julgue isso na
calma da reflexão.

Em verdade, trata-se, pois, de um ponto de honra inútil e de um compromisso de orgulho em uma matéria que
interessa à consciência e à salvação.

Mas não pretendo ficar nisso, e tenho a pretensão de lhe mostrar que a própria honra, tal como nós a concebemos
no mundo, não se opõe de forma alguma à mudança de religião. Para isso, voltemos aos princípios.
Já há hoje mil e oitocentos anos que sempre houve no mundo uma Igreja católica, que sempre se acreditou no que
ela crê. Vossos doutores lhe terão dito mil vezes que teríamos mudado; mas preste atenção, inicialmente, que se
tivéssemos realmente mudado, seria muito singular que fosse necessário tantos livros volumosos para provar isso
(livros, ademais, refutados sem réplica por nossos escritores). Bem! meu Deus, para provar que vocês mudaram,
vocês que só existem, contudo, há pouco tempo, não é preciso se dar a tanto trabalho. Um dos melhores livros de
um de nossos maiores homens contém a história de vossas variações. As profissões de fé se sucederam entre vocês
como as folhas se sucedem sobre as árvores; e hoje a gente seria apedrejado na Alemanha se sustentássemos que a
confissão de Augsbourg, que era, contudo, o Evangelho do século doze, obriga as consciências.

Mas vamos ao encontro de todas as dificuldades. Partamos de uma época anterior a todos os cismas que hoje
dividem o mundo. No princípio do século dez, havia apenas uma fé na Europa. Consideremos esta fé como um
conjunto de dogmas positivos: a unidade de Deus, a Trindade, a encarnação, a presença real; e, para colocar mais luz
em nossas ideias, suponhamos que havia cinquenta destes dogmas positivos. Todos os cristãos acreditavam,
portanto, então, em cinquenta dogmas. A Igreja grega, tendo negado a processão do Espírito Santo e a supremacia
do Papa, não tinha mais que quarenta e oito pontos de crença: por onde a senhora vê que ainda cremos no que ela
crê, ainda que ela negue duas coisas que cremos. Vossas seitas do século dezesseis impeliram as coisas muito mais
longe, e negaram ainda mais dogmas; mas aqueles que elas mantiveram nos são conhecidos. Enfim, a religião
católica crê em tudo o que as seitas creem, o que é incontestável.

Essas seitas, independente de quais sejam, não são, portanto, religiões, são negações, ou seja, nada por si mesmas,
pois a partir do momento que elas afirmam, elas são católicas.

Segue daí uma consequência da maior evidência: é que o católico que passa para uma seita apostasia realmente,
porque ele muda de crença, e porque ele nega hoje o que ele acreditava ontem; mas o sectário que passa para a
Igreja não abdica, ao contrário, de nenhum dogma, ele não nega nada do que ele acreditava; ele crê, ao contrário,
no que ele negava, o que é muito diferente.

Em todas as ciências, é honrável fazer descobertas e aprender verdades que se ignorava. Por qual singularidade a
ciência da religião, a única absolutamente necessária ao homem, seria excetuada? O maometano que se faz cristão
passa de uma religião positiva para outra do mesmo gênero. Ele pode, portanto, ao custo de seu orgulho, abdicar
dos dogmas positivos, e confessar que o próprio Maomé, que ele via como um profeta enviado de Deus, foi apenas,
contudo, um impostor.

O mesmo ocorre com aquele que passa de uma seita cristã para a mãe Igreja. Não lhe pedem para renunciar a
nenhum dogma, mas somente para confessar que além dos dogmas que ele acredita e que nós cremos como ele, há
outros que ele ignorava, e que, contudo, se encontram verdadeiros.

Todo homem que tem capacidade de pensar deve sentir a imensa diferença destas duas suposições.

Agora lhe suplico para deter vosso espírito sobre a seguinte consideração, que é digna de toda a vossa atenção. Por
que a máxima de que nunca é preciso mudar de religião está excomungada para nós como uma blasfêmia
extravagante? E por que essa máxima está canonizada como um oráculo de honra em todos os países separados? Eu
lhe deixo o cuidado de responder.

Eis o que eu tinha para lhe dizer sobre esta grande questão. Não emprego, como a senhora vê, nem o grego, nem o
latim; invoco apenas o bom senso, que fala tão elevadamente que é impossível resistir-lhe. Por menos que a senhora
reflita nisso, a senhora não pode duvidar de que o católico que passa para uma seita é necessariamente um homem
desprezível, mas que o cristão que de uma seita qualquer volta para a Igreja (se ele age por convicção, ouve-se muito
isso) é um grande homem honesto que cumpre um dever sagrado.

Abbé Rohrbacher. Motifs qui ont ramené à l'Eglise catholique un grand nombre de protestants. Plancy, Paris, 1850,
p.29-35.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2013/06/de-maistre-uma-senhora-protestante.html
Condenações lançadas por Deus
Embora as leis reveladas por Deus ao povo de Israel, através de Moisés, possam ser resumidas nos Dez
Mandamentos, elas são muito numerosas e minuciosas. Para que o leitor possa ter uma idéia clara de como elas
desciam ao concreto, reproduzimos neste e nos próximos números algumas delas. Veremos primeiramente as
condenações dardejadas por Deus contra certos pecados.

"Até então a Lei não escrita era lida na vida dos Patriarcas. Daí em diante ela também estará escrita no livro de
Moisés" *.

Magia e Espiritismo –– "Não deixarás viver os feiticeiros" (Ex. 22, 18). "Não vos dirijais aos magos, nem interrogueis
os adivinhos, para que vos não contamineis por meio deles" (Lev. 19, 31). "O homem ou mulher em quem houver
espírito pitônico ou de adivinho, sejam punidos de morte. Apedrejá-los-ão; o seu sangue caia sobre eles" (Lev. 20, 27).
"Não se ache entre vós quem consulte adivinhos ou observe sonhos e agouros, nem quem seja encantador, nem
quem indague dos mortos a verdade. Porque o Senhor abomina todas estas coisas, e por tais maldades exterminará
estes povos" (Deut. 18, 10-12).

Blasfêmia –– "O que blasfemar o nome do Senhor, seja punido de morte" (Lev. 24, 16).

Homossexualismo –– “Não te aproximarás de um homem como se fosse mulher, porque é uma


abominação” (Lev.18, 22). “Aquele que pecar com um homem, como se ele fosse uma mulher, ambos cometeram
uma coisa execranda, sejam punidos de morte; o seu sangue caia sobre eles" (Lev. 20, 13).

Incesto –– "Aquele que toma por mulheres a filha e a mãe, cometeu um crime; será queimado vivo com elas, e não
será tolerada entre vós tão grande iniqüidade” (Lev. 20, 14). "O que tomar a sua irmã e vir a sua nudez, e ela vir a
nudez de seu irmão, fizeram urna coisa execranda; serão mortos na presença do seu povo" (Lev. 20,17).

Bestialidade –– “Aquele que peca com um animal grande ou pequeno seja punido de morte; matai também o animal.
A mulher que pecar com qualquer animal será morta juntamente com ele; o seu sangue caia sobre eles” (Lev. 20, 15-
16). “Maldito o que peca com qualquer animal” (Deut. 27, 21).

Adultério –– "Se algum (homem) cometer adultério com a mulher de seu próximo, sejam punidos de morte, assim o
adúltero corno a adúltera" (Lev. 20, 10). "Se uma mulher cair em falta e, desprezando o marido, tiver dormido com
outro homem, e o marido não puder prová-lo, ele a levará ao sacerdote. E estando a mulher de pé diante do
Senhor, (o sacerdote) terá (na mão) as águas amaríssimas sobre as quais pronunciou as maldições com execração. E
a esconjurará e lhe dirá: 'Se nenhum homem estranho dormiu contigo, e tu não te manchaste, abandonando o leito
de teu marido, não te farão mal estas águas amaríssimas sobre que eu cumulei as maldições. Mas se te manchaste e
dormiste com outro homem, cairão sobre ti estas maldições. O Senhor te faça um objeto de maldição, faça apodrecer
a tua coxa, e que teu ventre inchado arrebente’. E o sacerdote lhe dará a beber aquelas águas” (Num. 5, 11-24).

Prostituição –– "Não haverá prostituta entre as filhas de Israel, nem fornicador entre os filhos de Israel” (Deut. 23,
17).

Trajes contrários à natureza –– "A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher, porque
aquele que tal faz é abominável diante de Deus” (Deut. 22,5).

Perda da virgindade –– Se um homem casar com uma mulher “e a donzela não foi encontrada virgem, os homens
daquela cidade a apedrejarão e ela morrerá, porque cometeu um crime detestável em Israel” (Deut. 22, 20-21).

Filho revolucionário –– “Um filho contumaz e rebelde, o pai ou a mãe pegarão nele, e o conduzirão aos anciãos e
lhes dirão: 'Este nosso filho despreza ouvir as nossas admoestações, passa a vida em comezainas, e em dissoluções e
banquetes'. O povo da cidade o apedrejará, e ele morrerá, para que tireis o mal do meio de vós” (Deut. 21, 18-21).

Seqüestro –– “Aquele que tiver roubado um homem, e o tiver vendido, morra” (Ex. 21, 16).

Deixar-se levar pela maioria –– "Não seguirás a multidão para fazer o mal, nem em juízo te unirás ao parecer do
maior número, para te desviares da verdade” (Ex. 23, 2).

___________________________________________________________________________________
Padre Rohrbacher, Histoire Universelle de l'Eglise Catholique, Gaume Frères, Paris, 1842, tomo I, p. 454.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/E55507B3-3048-313C-
2E69BFF62ADCA264/mes/Novembro1992

Santa Mª. Madalena de Pazzi - Regras de perfeição


Num (de seus) êxtases, o Salvador lhe prescreve as regras de perfeição seguintes:

I. Quero que, em tôdas as ações exteriores e interiores, contemples sempre a pureza que te fiz ver: pensa que cada
uma de tuas palavras e ações poderá ser a última.

II. Zelarás, na medida de tuas fôrças e da graça que te darei, por tôdas as almas que eu te der.

III. Não darás jamais ordem ou conselho, ainda que te seja permitido, sem te lembrares de mim crucificado.

IV. Não notarás defeito de criatura alguma, sem antes te assegurares que é desta mesma criatura.

V. Sejam tuas palavras sinceras, verdadeiras, graves e despojadas de tôda adulação: sempre me citarás como
exemplo das obras que as criaturas devem fazer.

VI. Lembrar-te-ás, na conversa com tuas companheiras, de que tua afabilidade não deve ser em detrimento de
gravidade, nem a gravidade da humildade e mansidão.

VII. Tôdas a obras tuas deverão ser feitas com mansidão e humildade, de molde a serem como um amante para
atrair a mim as almas; e com tanta prudência que sejam regra para os meus membros, vale dizer, as almas religiosas
e o teu próximo.

VIII. Noite e dia estarás sedenta, como um cervo, a exercer a caridade com os meus membros, estimando a
debilidade e o cansaço de teu corpo como a terra da qual é formado.

IX. Empenhar-te-ás, na medida que te conhecer, em ser o alimento dos que têm fome, bebida dos que têm sêde,
vestimenta dos que estão nus, jardim dos prisioneiros e alívio dos aflitos.

X. Com os que deixo sôbre o mar dêste mundo, serás cautelosa como serpente; e com os meus eleitos simples como
pomba, temendo aquêles como a face de um dragão e amando êstes como o templo do Espírito Santo.

XI. Domina as paixões, pedindo-me esta graça, a mim, o mestre de tôdas as criaturas.

XII. Condescenderás com as minhas criaturas, como uso de soberana caridade, ao conversares no mundo,
lembrando-te sempre destas palavras do meu Apóstolo: Quem é que doente está, sem que com êle eu esteja?

XIII. Não privarás ninguém de algo que possas dar, se to pedir: não privarás tampouco criatura alguma do que lhe foi
concedido, sem antes haveres considerado que sou o perscrutador dos corações e que te julgarei com poder e
majestade.

XIV. Estimarás a regra e suas constituições, com os votos, na mesma medida que quero estimes a mim,
empenhando-te em imprimir em todos os corações o amor pela vocação à qual os chamei, e da religião.

XV. Desejarás ardentemente ser submissa a todos, e terás horror de ser preferida a alguém.

XVI. Não acreditarás existir alívio, repouso e consolação senão no desprêzo e na humildade.

XVII. Não cessarás de levar ao conhecimento das criaturas os teus desejos e minhas vontades, senão quando eu te
chamar, e meu Cristo, teu confessor.

XVIII. Perseverarás em contínua oblação de todos os teus desejos e obras, com meus membros, dentro de mim.

XIX. Desde a hora em que deixei minha mãe puríssima, que é a vigésima- segunda, até a hora em que me receberás,
permanecerás em contínua oblação de minha paixão, de ti mesma, e de minhas criaturas, a meu Pai Eterno; e isto te
servirá de preparo ao recebimento sacramental do meu corpo; dia e noite visitarás o meu corpo e meu sangue trinta
e três vêzes (contando que a caridade e a obediência não o impeçam).
XX. A última regra consiste em que, em tôdas as ações, tanto exteriores como interiores, que eu te permitir, sejas
transformada em mim (1).

Notas:

(1) Vita 1, c. III, n. 27.

***

Livro: Vida dos Santos


Autor: Padre Rohrbacher, Volume IX, páginas 246, 247 e 248.

São Simeão Estilita: Uma vida extraordinária


***

A vida de São Simeão foi escrita por três autores, não sòmente contemporâneos, senão também testemunhas
oculares da maior parte dos fatos. São êles o bispo Teodoreto, que compôs o seu trabalho dezesseis anos antes da
morte de Simeão; Antônio, discípulo do santo, e o sacerdote Cosmas, seu amigo, que governava uma paróquia das
cercanias, e que, em nome de tal paróquia, lhe escreveu uma carta que ainda possuímos.

Nascera Simeão numa localidade da Cilícia, chamada Sisan, na fronteira da Síria e, desde a idade de treze anos,
guardou ovelhas pertencentes ao pai. Um dia em que o rebanho não podia sair em virtude da neve, foi à igreja com
os pais e lá ouviu ler o Evangelho que diz: “Bem-aventurados os que choram, ai dos que riem; Bem-aventurados os
que têm puro coração”. Perguntou a um ancião como se podia adquirir tal felicidade. O outro lhe disse que era pelo
jejum, pela prece, humildade, pobreza, paciência, e lhe aconselhou a vida monástica como sendo a mais elevada
filosofia. Tendo recebido no coração essa semente da palavra divina, Simeão entra numa igreja de mártires, prostra-
se no chão, roga Àquele que quer a salvação de todos os homens, que o conduza ao caminho da perfeição. Tendo
permanecido longamente em tal postura, sobrevém-lhe um suave sono durante o qual tem uma visão que êle soía
narrar assim: “Parecia-me estar cavando um alicerce, e que alguém me dizia que cavasse mais. Desejando repousar,
não podia, porque êle me ordenava que continuasse a cavar. Assim procedeu quatro vêzes. Finalmente, disse-me
que o alicerce era bastante profundo, e que eu podia, sem temor, erguer uma construção da forma e da altura que
me aprouvesse.” A predição, observa Teodoreto, foi verificada pelo fato, pois os fatos superam a natureza humana.

Depois dessa advertência interior, entrou Simeão num mosteiro vizinho, e lá ficou dois anos. Mas o desejo de uma
vida mais perfeita o fêz passar a outro, governado por um santo varão chamado Heliodoro, que para êle entrara com
a idade de três anos, transcorrendo sessenta e dois sem sair. O mosteiro contava oitenta monges. Simeão demorou-
se dez anos e a todos ultrapassou em austeridade, pois, enquanto os outros comiam um dia sim, um dia não, êle só
comia uma vez por semana. Os superiores o repreendiam, como se se tratasse de uma irregularidade, mas não
conseguiram persuadi-lo, nem diminuir-lhe o ardor pela penitência. Um dia, pegando uma corda trançada de fôlhas
de palmeira e, por conseguinte, duríssima, com ela cingiu o corpo desde os rins até os ombros, de tal modo que ela
lhe entrou na carne. Levou-a sob o hábito bastante tempo para que todo o corpo se transformasse em úlcera.
Perceberam-no finalmente pelo cheiro e pelo sangue que dela escorria. Tiraram-lha com muito esfôrço; a roupa
estava colada à carne pelo sangue; para arrancá-la, foi mister umedecê-la durante três dias; quanto à corda, houve
necessidade das incisões dos médicos. A operação lhe causou dores tão vivas que o julgaram morto durante algum
tempo. Quando sarou, disseram-lhe os superiores que se fôsse, de mêdo que o seu exemplo se tornasse prejudicial a
homens mais fracos que pretendessem imitá-lo. Retirou-se para o deserto da montanha, e desceu a uma cisterna
sêca, onde continuou a louvar a Deus. Ao cabo de cinco dias, os superiores, repreendidos por visões, arrependeram-
se de o haver repelido, e mandaram procurá-lo. Encontraram-no e retiram-no da cisterna com uma corda. Algum
tempo depois, rumou êle para Telanissa, localidade situada aos pés de uma montanha perto de Antioquia. Numa
pequenina cabana, encerrou-se durante três anos.

Quis, então, imitar o jejum de Moisés e de Elias, e passar quarenta dias sem comer. O abade Bassus, superior de um
mosteiro vizinho, estava incumbido de inspecionar os sacerdotes do campo. Simeão rogou-lhe que tapasse a porta
com barro, sem lhe deixar nada na cela. Respondeu-lhe Bassus que matar-se não era um a virtude, e sim o maior dos
crimes. “Meu pai, retrucou-lhe Simeão, deixai-me, então, dez pães e uma jarra de água; se tiver necessidade de
alimento, tê-lo-ei à mão”. Assim se fez. Ao cabo de quarenta dias, voltou Bassus, tirou o barro com o qual estava
fechada a porta e, entretanto, viu todos os pães intactos, a jarra ainda cheia de água e Simeão prostrado, sem voz,
sem movimento, sem respiração. Pedindo uma esponja, o superior umedeceu-lhe os lábios, e lhe ministrou os
divinos mistérios. Fortalecido, Simeão levantou-se e tomou algum alimento, isto é, alface, chicória e semelhantes
verduras, que mastigou e engoliu, pouco a pouco. Bassus, arrebatado, regressou ao seu mosteiro, que contava mais
de duzentos monges, e lhes narrou a maravilha. Desde então, continuou o nosso santo a jejuar dessa maneira todos
os anos, quarenta dias seguidos, e já havia transcorrido vinte e oito anos em tal modo, quando Teodoreto compôs o
seu trabalho. Ficava de pé nos primeiros dias, em seguida sentava-se, continuando a orar, depois estendia-se,
semimorto.

Depois de passar três anos na cela perto de Telanissa, subiu ao tôpo da montanha, e mandou fazer um cinto de
muralhas sem teto, no qual se encerrou, com uma corrente de ferro, de vinte côvados de comprimento, prêsa por
uma extremidade a uma grande pedra, e pela outra ao pé direito, a fim de, mesmo que o quisesse, não poder sair
daquele espaço. Lá, entretinha-se na meditação das coisas celestes. Melécio, então vigário de Antioquia,
aconselhou-o a tirar a corrente, mostrando-lhe que a vontade bastava para manter o corpo parado com liames
intelectuais. Rendeu-se Simeão e, mandando chamar um ferreiro, livrou-se da corrente.

Espalhou-se por tôda parte a reputação de Simeão, e todos acorriam a êle, não sòmente da vizinhança senão
também de lugares distantes vários dias de caminhada. Levavam-lhe paralíticos, rogavam-lhe que curasse
enfermidades. Os que recebiam o que tinham solicitado voltavam com alegria, e publicavam os benefícios, o que
atraía ainda maior número de pessoas. Tôda espécie de povos aparecia: ismaelitas, persas, armênios, iberos,
homeritas e árabes dos mais longínquos. Vinham das extremidades do Ocidente, da Itália, da Gália, da Espanha, da
Grã-Bretanha. A reputação do santo estendia-se até os etíopes e os citas nômades. Em Roma, era tão grande que os
artesãos tinham pôsto pequeninas imagens do santo na entrada de tôdas as lojas, para atrair a sua proteção.
Teodoreto afirma que assim ouviu dizer.

Sentia-se Simeão importunado pela incalculável multidão que se apinhava em volta dêle para tocá-lo e tirar uma
bênção das peles que o cobriam. Parecia-lhe impertinente submeter-se a tão excessivas honras, e penoso ser
constantemente daquela maneira instado. Foi o que o levou a ficar de pé numa coluna, em
grego style ou stylos, donde lhe veio o nome de Estilita. No ano de 423, mandou fazer uma de seis côvados de altura,
na qual viveu quatro anos. Mandou erguer uma de doze côvados, depois outra, de vinte e dois. Ficou treze anos em
ambas. Os últimos vinte e dois anos de vida, passou-os numa quarta coluna de quarenta côvados de altura. A coluna
terminava com uma balaustrada, formando um pequeno recinto de três pés de diâmetro. Foi lá que Simeão se
mantinha de pé, noite e dia, inverno e verão, exposto aos ventos e à chuva, à neve e à geada.

Os monges do deserto mandaram perguntar-lhe que modo tão estranho de vida era aquêle, ordenando-lhe que o
abandonasse e seguisse o caminho trilhado pelos pais. Tinham dito ao enviado: “Se êle obedecer de boa vontade,
deixai-o viver ao seu modo; ser resistir e se mostrar escravo da própria vontade, tirai-o da coluna à fôrça.” O enviado
expôs a Simeão a ordem dos Padres, e Simeão avançou imediatamente um dos pés para descer. O enviado disse-lhe
que permanecesse lá e se animasse, visto que o seu estado vinha de Deus. Os monges do Egito, escandalizados com
tal novidade, mandaram dizer-lhe que estava excomungado. Melhor informados, porém, do seu mérito, de novo
com êle se comunicaram.

Estranhava-se então, e ainda hoje se estranha um gênero tão extraordinário de vida. Pergunta-se qual a utilidade
disso, e quais podem ser os objetivos da Providência. Os biógrafos contemporâneos de Simeão mostraram tais
objetivos nos resultados para a humanidade e a Igreja. O padre Cosme, em particular, nos dá a conhecer a especial
vocação de Simeão. Por duas vêzes lhe apareceu o profeta Elias num carro de fogo, e lhe recomendou fortemente
duas coisas, o zêlo pela Igreja e a defesa dos pobres. “Cuida, disse-lhe, de que ninguém despreze o sacerdócio, e que
todos obedeçam aos ministros sagradas. Sobretudo, porém, cuida dos pobres; saibam os infelizes de tôda espécie,
os oprimidos, os órfãos e as viúvas que o teu auxílio jamais lhe faltará, e que serás sempre para êles pai e defensor.
Cuida de jamais cederes às ameaças dos prefeitos e dos reis, ou de parecer ambicionar o favor dos ricos. Mas
repreende com a mesma eqüidade, e em público, tanto o rico como o pobre. Sê, pois, firme, e está pronto a tudo
sofrer. Arma-te de paciência e de doçura, a fim de que nunca possa coisa nenhuma arrancar-te ao dever. Depois
dessa advertência celeste, Simeão decuplicou as austeridades. Durante nove anos, sofreu, entre outras coisas, de
uma horrível úlcera no pé esquerdo. Todos, os sacerdotes, os bispos e o próprio imperador, por cartas, lhe rogavam
descesse da coluna até que se curasse. Lá ficou êle, embora a tal dor se unissem ainda várias outras; e quando, no
fim da quaresma, que êle, como habitualmente, passou sem comer nem beber, julgavam encontrá-lo morto, viram-
no milagrosamente curado; recebeu a comunhão pascal das mãos do bispo de Antioquia, Domnus, sobrinho e
sucessor de João.

Em breve teve o santo a oportunidade de desempenhar o novo mister. Trezentos pobres obreiros de Antioquia
foram ao pé da coluna queixar-se do prefeito da cidade. Devia a corporação dêles, todos os anos, tingir de vermelho
para a cidade de Antioquia, certo número de peles. O prefeito, varão cruel, teve a triste idéia de exigir três vêzes
mais. Os obreiros, vendo-se arruinados por aquêle impôsto tirânico, sobretudo se se tornasse perpétuo, enviaram
trezentos dos seus a Simeão o qual, comovido, mandou dizer ao prefeito que não oprimisse os infelizes, e se
contentasse com o tributo comum. Riu-se o prefeito do santo, e ameaçou os obreiros de os fazer apodrecer no
calabouço. Não teve tempo para isso. Ainda não tinha os trezentos legados saído do recinto de Simeão, quando
alguém trouxe a notícia de que o prefeito, atacado de súbita hidropisia, rolava pelo chão torturado por espantosas
dores; chegaram imediatamente cartas em que se rogava ao servidor de Deus que dêle se apiedasse; finalmente,
todos os sacerdotes do seu govêrno rumaram para o pé da coluna pedindo ao santo que lhe devolvesse a saúde.
Respondeu Simeão que era preciso deixar a questão a Deus; ao mesmo tempo, benzendo um pouco de água, disse:
Se Deus prevê que êsse homem, uma vez curado, se há de portar melhor, desde que o molhem com esta água,
sentirá a graça de Jesus Cristo; mas se Deus prevê o contrário, eu vos predigo, o enfêrmo não verá absolutamente
esta água. Um mensageiro, imediatamente enviado, envidou todos os esforços; mal, porém, entrou na casa, soube
que o prefeito acabava de expirar no meio de espantosas convulsões. O exemplo espalhou um salutar terror entre os
maus, e reanimou a esperança dos oprimidos (1).

Uma rainha de árabes tinha um ministro que tiranizava viúvas e órfãos, bem como o país inteiro. Os habitantes
enviaram legados a Simeão, que mandou dizer ao cruel ministro: Cuida de te corrigir dos crimes de que te acusam,
para que, roubando o bem alheio, o teu não percas. Mas o homem, longe de aquiescer a tal censura, maltratou o
enviado que lha transmitira. O castigo não tardou. Nem ainda partira o legado, quando o ministro caiu como que
petrificado, e morreu dizendo: Simeão, por favor, tende piedade de mim (2).

Entretanto, foram contar a Simeão que inúmeras pessoas se queixavam das suas advertências e das suas importunas
intercessões nas causas de viúvas, órfãos e outros desventurados. Tratava-se de criaturas que, pouco temendo os
juízos de Deus, oprimiam o povo. Resolveu êle, então, nada mais fazer, e deixar tudo à Providência; proibiu aos
discípulos que admitissem queixosos ao seu recinto, pelo menos até que lhe fôsse dado conhecer de maneira mais
precisa a vontade de Deus. Vários foram, pois, obrigados a voltar tristemente. Não tardou o nosso santo em ter uma
visão, na qual foi severamente repreendido pela fraqueza, e ameaçado de ver passar a outro a vocação e autoridade;
a fim de reparar o êrro, foi-lhe ordenado fazer o possível para a defesa dos pobres e aflitos, e deixar o resultado a
Deus.

Pouco depois, dois irmãos, ainda moços, chegaram de Antioquia para lhe rogar proteção contra o conde de Oriente,
crudelíssimo varão, que os perseguia em virtude de uma velha inimizade como o pai dêles que morrera. Simeão, que
fôra amigo do pai, admoestou o conde nestes têrmos: “Não façais mal nenhum a êstes rapazes, pois me pertencem.”
Respondeu o conde que, longe de lhes querer mal, estava pronto a prestar a êle, com os dois rapazes, os mais
humildes serviços. Era um gracejo. Aproximava-se a quaresma, em que Simeão não admitia ninguém ao seu recinto.
Tendo os jovens regressado à cidade, o conde mandou prendê-los, ameaçou-os de prisão se se não submetessem a
tôdas as suas exigências, e de tudo informou zombeteiramente o santo, mediante uma carta. Respondeu-lhe Simeão
estas palavras: “Advirto-vos pela segunda vez; não façais o menor mal a êstes rapazes, para que não suceda sejais
vós próprio levado perante a justiça, sem terdes a quem recorrer. Replicou o conde: “Sei que, durante êstes
quarenta dias, fechais o vosso recinto, para passá-los no retiro. Far-me-eis, pois, o favor de empregar todo êsse
tempo em me desejar o mal, pois se me desejardes o bem, não quero me sobrevenha. Simeão disse: Infeliz! Desejou
a maldição em vez da benção. Deus há de ouvi-lo antes de que êle pensa.” No terceiro dia da primeira semana do
jejum, dois dias depois de se haver Simeão encerrado, atravessava o conde, num carro, a praça pública, quando
subitamente o detiveram cinco oficiais do palácio. Com uma corda ao pescoço foi levado ao tribunal, onde
numerosos acusadores exigiam vingança pelas suas inúmeras iniqüidades. O mestre da cavalaria, que recebera as
ordens secretas do imperador, condenou-o a uma grande multa e mandou que o atirassem ao calabouço. O homem,
então, suplicou humildemente aos dois jovens que por êle intercedessem com Simeão, e obtivessem missivas ao
imperador. Responderam-lhe os dois que era precisamente o tempo em que o santo não recebia ninguém; que, a
não ser tal, trataria indubitàvelmente da sua questão com o imperador e os prefeitos do pretório. Abandonado por
todos, foi o infeliz ignominiosamente conduzido por tôdas as cidades até Constantinopla, onde o imperador o privou
de todos os bens e o condenou ao exílio. Não chegou sequer ao lugar de exílio, uma vez que morreu mìseramente
em caminho (1).

Após semelhantes fatos, a acorrência de infelizes de tôda espécie tornou-se prodigiosa. Reclamava-se a intercessão
do santo, não sòmente contra a injustiça dos homens, senão também contra tôda espécie de calamidades. Assim, o
território de Afsão foi devastado por uma multidão de ratos que atacavam os próprios animais, e os habitantes não
tiveram dúvida em recorrer a Simeão. Mostrou-lhes êle, em primeiro lugar, que se tratava de um castigo pelos
pecados cometidos; depois, ordenou-lhes que lhe levassem ao pé da coluna um pouco de pó, com êle fizessem três
cruzes em cada casa, e uma nos quatro cantos da cidade, celebrassem as vigílias, com o santo sacrifício, durante três
dias, e abrandassem a Deus mediante orações. Obedeceram-lhe e no terceiro dia não se viu mais um sequer
dos inúmeros bichos (2).

No meio da multidão de homens que afluíam de tôda parte, Simeão era sempre um apóstolo no trono, a pregar
constantemente tanto para os cristãos como para os pagãos. Aos primeiros, lembrava a perfeição do Evangelho, com
os meios de correção dos defeitos. Assim, para desabituá-los de jurar pelo nome de Deus, pedia-lhes jurassem pelo
seu (1).

Várias vêzes, em seguida às suas exortações, uma paróquia, uma localidade inteira, empenhava-se por escrito em ser
fiel ao trato. Vimos um exemplo na carta que lhe escreveu a localidade de Fanir. Está em nome do sacerdote Cosme,
dos diáconos, dos leitores e de todo o povo, com os seus magistrados; todos, unânimemente, subscrevem aos
preceitos que êle lhes impôs: santificar o domingo e a sexta-feira, não ter duas medidas, mas apenas uma, justa, não
deixar ultrapassar os limites do seu campo, não recusar o salário aos obreiros, reduzir à metade o juro do
empréstimo, devolver os penhores aos que pagam, julgar, segundo a eqüidade, a causa dos pequenos e dos grandes,
não ter nenhuma deferência com a justiça, e não receber presentes contra quem quer que seja, não caluniar
ninguém, não manter relações com malfeitores e ladrões, reprimir os desdenhadores das leis, de freqüentar
assiduamente a igreja. Seja anatemizado quem violar essas regras, quem se apoderar do bem alheio, oprimir os
inocentes, subornar os juízes, tirar qualquer coisa aos órfãos, às viúvas, aos pobres, ou raptar mulher. Pois tudo
quanto nos prescrevestes, e que nós ratificamos, queremos seja observado no futuro. E o que prometemos, juramos
cumprir, juramo-lo por Deus, por Cristo e pelo Espírito vivificante e santificante, e pela vitória dos nossos
imperadores. Se alguém ousar desobedecer, seja anatemizado segundo a vossa palavra; nós o repreenderemos, não
teremos ligação com êle, a igreja não lhe receberá a oferta, não assistiremos ao sepultamento dos seus (1). Vê-se
por êsse exemplo a salutar influência de Simeão nos contemporâneos. O padre Cosme, que lhe dirigiu a carta
assinada por todos é o mesmo que lhe escreveu a vida.

Pelas suas pregações e pelos seus milagres, convertia Simeão particularmente milhares e milhares de infiéis: iberos,
armênios, persas, árabes, especialmente árabes ismaelitas. Iam vê-lo em grandes grupos de duzentos ou trezentos,
às vêzes de mil, renunciavam em voz alta aos erros dos antepassados, particularmente ao culto de Vênus, e
quebravam os ídolos na sua presença; recebiam o batismo, e aprendiam dos seus lábios as leis segundo as quais
deviam viver. O biso Teodoreto assistiu um dia à conversão de um grupo de ismaelitas. Quase foi sufocado até, pois
tendo Simeão dito que fôssem pedir-lhe benção episcopal, acudiram os ismaelitas com selvagem afoitamento; uns o
puxavam pela frente, outros por trás, outros pelos lados; os mais afastados, montando nos outros, alongavam os
braços, pegavam-no pela barba ou pelas vestes; ia ser esmagado, quando Simeão gritando, os afastou (2).

Muitas vêzes, ao pé da coluna, os credores perdoavam as dívidas aos devedores, os amos libertavam gratuitamente
os escravos (3). Quando, no fim da quaresma, se reabriram as portas do seu recinto, não sòmente a montanha de
Telanissa, senão também as montanhas das cercanias fervilhavam de gente. Vê-lo de longe bastava a grande número
de pecadores e pecadoras para abraçarem a penitência e retirarem-se em mosteiros. Invocavam-no, tanto ausente
como presente. Os marujos iam agradecer-lhe havê-los socorrido na tormenta e salvado do naufrágio (1). Os cristãos
da Pérsia lhe enviavam cartas e legados para agradecer-lhe haver libertado da prisão trezentos e cinqüenta dêles, e
feito cessar a perseguição com o trágico fim do mago que a instigara (2). O próprio rei da Pérsia concebeu pelo santo
a mais elevada estima. A uns legados que lhe falavam do santo, perguntou como vivia êste e quais eram seus
milagres. A rainha, sua espôsa, pediu azeite abençoado por Simeão e o recebeu como grande presente. Todos os
cortesãos, apesar das calúnias dos magos, cuidavam de se instruir com êle, e lhe chamavam varão divino.
No meio dessa glória, era êle tão humilde que se julgava o último dos homens. De fácil acesso, doce e agradável,
respondia a todos, fôsse artesão, camponês, mendigo. Dizia aos que libertara suas enfermidades: “Se alguém vos
perguntar que vos curou, dizei que foi Deus; guardai-vos de falar de Simeão, pois recaireis no vosso mal”. Teodoreto,
que o vira e com êle conversara várias vêzes, e que lhe escreveu o resumo da vida, bem via a dificuldade de acreditar
em tais maravilhas. É por isso que diz: “Ainda que eu disponha por testemunhas, se assim devo falar, de todos os
homens vivos, temo que a minha narração pareça à posteridade uma fábula inteiramente destituída de verdade. O
que aqui se passa está acima da humanidade; entretanto, costumam os homens medir o que lhes diz pelas fôrças da
natureza, e quando alguma coisa lhe ultrapassa os limites, afigura-se mentira aos que desconhecem as coisas
divinas” (1).

No ano de 459, sofreu a cidade de Antioquia espantoso desastre.

Foi, na narrativa de uma testemunha ocular, durante a noite de 7 para 8 de junho, durante a noite do domingo de
Pentecostes para a segunda-feira (2). O povo acabava de se entregar a tais desordens e brutalidades que superavam
em muito a ferocidade das feras, segundo a expressão de Evagro (3). De súbito, pelas quatro horas da noite,
verificava-se um tremor de terra tão furioso que fez desabar quase tôda a cidade, e sobretudo a parte mais rica e
povoada. Várias localidades dos arredores tiveram a mesma sorte. O refúgio dos infelizes, na época, era o grande
Simeão Estilita. Viu êste chegar ao pé da sua coluna uma multidão em pranto, sacerdotes e leigos, trazendo grandes
cruzes, archotes e incensórios fumegantes. A afluência durou cinqüenta e um dias. Era tão grande o terror que
ninguém ousava entrar nas casas nem trabalhar nos campos. Por tôda parte se ouviam gritos e gemidos. A única
esperança da turba era Simeão. Estava pronta para tudo quanto êle ordenasse.

Após os cinqüenta e um dias de luto, houve, no mês de julho, uma grande solenidade, a última do bem-aventurado
Simeão. Não creio, diz o autor da sua vida, testemunha ocular, que jamais tenha havido reunião tão numerosa; era
como se Deus tivesse arrancado dos seus países todos os povos do universo para os reunir num mesmo lugar, a fim
de dizer o derradeiro adeus ao seu amado servidor. Êle, como pai que dita as últimas vontades a filhos dóceis, tendo
mandado chamar os sacerdotes e o povo, consolou-os a princípio, e em seguida os exortou muito a observar os
mandamentos de Deus. Acrescentou, então: “Agora, voltai para vossos lares, e celebrai vigílias cristãs durante três
dias; depois, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ide, sem temor, cuidar dos vossos afazeres, e retomem os
artesãos o seu respectivo trabalho; tenho a certeza de que Deus se apiedará de vós no futuro.” Disse, e a todos
despediu.

Trinta dias depois da partida dêles, em 29 de agôsto, um sábado, às onze horas, na presença de alguns dos seus
discípulos, o servidor de Deus foi repentinamente atacado de um mal que, alastrando-se-lhe pelo corpo todo, em
breve se fêz mortal. Do domingo à têrça-feira, o seu estado foi, pouco mais ou menos, o mesmo. Entretanto,
emanava-se-lhe do corpo uma suavidade e uma variedade de odores incomparáveis. Finalmente, na quarta-feira, 2
de setembro, às nove horas, estando presentes todos os discípulos, prepôs dois dêles aos demais, e recomendou
todos ao Senhor. Em seguida, ajoelhou-se três vêzes e, depois de se levantar, olhou para o céu. Gritando-lhe de
todos os lados a multidão: “Abençoai-nos, Senhor!” êle volveu o olhar para as quatro partes do mundo, e, erguendo
a mão, o abençoou e o recomendou ao Senhor por três vêzes; depois, erguendo de novo os olhos ao céu e batendo
três vezes no peito, pousou a cabeça no ombro do primeiro discípulo e expirou. A multidão continuava a lhe
contemplar o rosto, sem saber se estava vivo ou morto. Um dos discípulos valeu-se do tempo e daquela incerteza,
para mandar avisar às ocultas o bispo de Antioquia. Temia-se que o povo lhe raptasse o corpo. Pelo mesmo motivo,
os discípulos não o baixaram da coluna para colocá-lo no relicário; pelo contrário, mostraram o relicário sôbre a
própria coluna, aguardando o dia do funeral.

A nova da sua morte divulgou-se imediatamente por todo o mundo. Houve, ao mesmo tempo, luto e júbilo. Os
órfãos e as viúvas perguntavam, entre lágrimas e soluços: Aonde iremos encontrar-vos agora, Simeão, vós que, após
Deus, fôste a nossa única esperança? Os que se viam oprimidos pelos poderosos e privados dos seus bens
exclamavam com amargura: nós, os mais infelizes dentre os mortais, agora é que iremos temer a cólera e a cobiça
dos lôbos! Como livrar-nos de tais angústias? Que auxílio invocaremos? Ah, quem despertará do sono êste leão cuja
voz formidável fazia tremer todos os animais ferozes? Os enfermos diziam, chorando: aonde poderemos ir,
encontrar um médico igual a vós, Simeão, vós que expulsáveis a enfermidade antes de ver o enfermo? O clero o
lamentava como firme sustentáculo da fé e da disciplina. Ao mesmo tempo, todos se alegravam, refletindo que,
após uma vida tão santa, fôra coroado no céu.
No seu funeral, houve incontável multidão. O patriarca na Antioquia, Martírio, apareceu com vários bispos.
Ardaburo, que governava o Oriente com um poder quase soberano, também apareceu com vinte e um condes, um
grande número de tribunos ou generais, seguidos das tropas romanas. Os habitantes de Antioquia tinham lhe pedido
a honra de conservar na cidade as relíquias do santo, para lhes substituírem as muralhas que haviam desabado. Foi
com tal pompa que o corpo foi transportado, a princípio pelos sacerdotes e bispos, desde o recinto da coluna até a
primeira aldeia, pelo espaço de quatro milhas; em seguida, puseram-no num carro escoltado por guardas de honras,
pelos príncipes, por todos os magistrados da cidade, pelas tropas romanas e por uma multidão sem fim de povo. Ao
canto dos hinos, ao esplendor dos archotes, misturava-se o perfume que ardia à passagem do cortejo. Homens e
mulheres, anciãos e moços, plebeus e nobres, desertavam as cidades para venerar as relíquias do santo, e receber
dêle a sua derradeira bênção. O cortejo durou cinco dias, sendo a distância de quinze léguas. Na segunda-feira,
tiraram-no do recinto, na sexta-feira entrou em Antioquia, onde o corpo foi depositado na grande igreja. Um
energúmeno, que fôra curado durante a passagem do corpo, o acompanhou até lá. O patriarca e o seu clero
instituíram um ofício cotidiano em sua honra. Verificaram-se ainda mais milagres no seu túmulo do que os realizados
durante o tempo em que vivera. O imperador pediu aos habitantes de Antioquia que lhe deixassem transportar os
seus restos a Constantinopla. Mas êles lhe rogaram deixasse o corpo do santo na sua cidade, para substituir as
muralhas ruídas pelo tremor de terra, o que lhes foi concedido. Eis a narração do padre Cosme, testemunha ocular, o
qual, quinze anos depois da morte de Simeão, terminou de lhe escrever os atos ou a vida, em sírio.

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Notas:

(1) Assemani, Acta S. Simeon, Stylit., pág. 311.

(2) Ibid. pág. 343.

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(1) Assemani, Acta S. Simeon. Stylit., pág. 315.

(2) Assemani, Acta S. Simeon. Stylit., pág. 318.

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(1) Bolland, 5 de janeiro.

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(1) Assemani, Acta. S. Simeon. Stylit., 396.

(2) Teod. Pág. 883.

(3) Assemani, 345.

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(1) Ibid. 331-335.

(2) Ibid. 329-332.

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(1) Teod., 877, 887.

(2) Acta S. Simeon. Stylit. Evod. Assemani, p. 404. Romaem 1748.

(3) Liv. II, c. XII.

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-Dados da Obra-

Livro: Vidas dos Santos


5° dia de Janeiro - São Simeão Estilita

Paginas:165-183

Autor: Padre Rohrbacher

Edição atualizada por Jannart Moutinho Ribeiro sob a supervisão do Prof. A. Della Nina (Bacharel em Filosofia)

Volume I

Editora das Américas - São Paulo

Nihil Obstat Padre Antônio Charbel. S.D.B

Iprimatur São Paulo, 10 de Julho de 1959

† Paulo Rolim Loureiro Bispo Auxiliar e Vigário Geral

Santa Escolástica, Virgem


São Bento e Santa Escolástica em pintura da Abadia de Elchingen.

Pe. René François Rohrbacher

Tinha São Bento uma irmã chamada Escolástica, consagrada a Deus, desde a infância, e que vivia a certa distância do
Monte Cassino. Ia visitá-lo uma vez por ano; e São Bento ia recebê-la bem perto do mosteiro, numa granja que deste
dependia. Rumou, pois, um dia para lá, com os discípulos, e, depois de passar o dia a louvar Deus e falar de coisas
santas, comeram todos juntos, ao cair da noite. Estavam ainda à mesa, e já se fazia tarde, quando Escolástica dirigiu
ao irmão esta prece: “Por favor, não me deixeis esta noite, para que possamos falar da alegria celestial até o romper
do dia”. Respondeu ele: “que dizeis, minha irmã? Não me é dado, de maneira nenhuma, ficar fora do mosteiro”.
Estava bastante sereno o tempo. A santa, entristecida com a recusa, juntou as mãos sobre a mesa, e sobre elas
apoiou a cabeça; depois, desatando a chorar, rogou ao céu que a ajudasse. Mal findara a prece, sobreveio uma
tempestade acompanhada de raios e estrondosos trovões, de tal sorte que nem São Bento, nem os seus religiosos
puderam sair da casa. Queixava-se o homem de Deus, dizendo: “Que Deus vos perdoe, minha irmã! Que fizestes?”
Respondeu-lhe ela: “supliquei-vos e não quisestes dar-me ouvidos; supliquei ao Senhor, e ele me atendeu. Agora,
deixai-me, se o podeis, e voltai para o vosso mosteiro”. São Bento viu-se, pois, obrigado a ficar com sua irmã.
Velaram a noite inteira, entretidos unicamente em conversar da ventura dos santos. Separaram-se no dia seguinte,
logo de manhã, e três dias depois, morreu a santa no seu retiro. São Bento, que se achava então na cela, erguendo
os olhos, viu a alma da irmã entrar no céu, sob o aspecto de pomba. Embevecido com aquela glória, deu graças a
Deus, anunciou a morte aos irmãos e mandou-os trazer o corpo para o mosteiro, e colocá-lo no túmulo que mandara
preparar para si próprio, a fim de que, diz São Gregório, do qual recebemos os pormenores, não separasse a morte
os corpos daqueles cujos espíritos tinham sido sempre unidos em Deus.

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