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Pe Teodoro Ratisbonne

ESGOTADO O TEMPO DA PENITÊNCIA, TODO ARREPENDIMENTO SERÁ INÚTIL


À entrada dos quarenta dias consagrados à penitência, a Igreja assume a voz severa dos profetas, para nos exortar à
renovação na graça de Deus. Felizes as almas que respondem ao solene convite; pois aproxima-se a data em que a
trombeta do arcanjo anunciará o fim das provações terrestres. Ter-se-á, então, esgotado o tempo da penitência,
todo arrependimento será inútil. Façamos agora sem dilação o que, no último dia, desejaríamos ter feito. “Agora é a
ocasião, propícia, diz o apóstolo, dias de graça e de salvação”. Roguemos a Deus que em nós excite o
arrependimento de nossas faltas e que nos conceda um coração contrito e humilde.

A penitência não consiste unicamente em abstinências e mortificações corporais; visa sobretudo o coração, a
vontade e a conduta. Fazer penitência é afastar nosso amor de toda afeição viciosa, para amar puramente a Deus; é
renunciar a todas as satisfações passageiras, para obedecer filialmente à vontade de Deus; é reformar as
imperfeições de nossa conduta, para viver santamente segundo a lei de Deus; em suma, fazer penitência é trabalhar
para a destruição do homem caduco, para auxiliar a ressurreição do homem novo. Mas o espírito de penitência não
poderia reanimar os que julgam justos e virtuosos, mas tão somente àqueles que a título de pecadores, imploram a
misericórdia do Senhor. Sirvamo-nos das palavras de Davi para pedir a Deus o espírito de penitência e se não
podemos empregar austeridades voluntárias para nos castigarmos, ao menos aceitemos de bom grado as aflições,
trabalhos, acidentes e sacrifícios que a Providência nos impõe.

Migalhas evangélicas, pelo Pe. Teodoro Ratisbonne

https://capelasantoagostinho.com/2019/03/16/esgotado-o-tempo-da-penitencia-todo-arrependimento-sera-inutil/

21 de Novembro - Apresentação da Santíssima Virgem MARIA !!!


"Felicitai-me, vós, que amais o Senhor,

pois que enquanto ainda era jovem fui agradável ao Altíssimo"

(Ofício da Igreja)

I- A consagração da Santíssima Virgem no Templo abre o caminho das vocações religiosas. Daví contemplara esse
mistério e em seu inspirado salmo 44 canta a aliança nupcial contraída pelas almas eleitas com o Deus de amor:

"Ó Rei! sobrepujais em beleza a todos os filhos dos homens; a graça se expande em vossos lábios e vossas vestes
exalam o perfume da mirra, do âmbar e do aloés. As filhas dos príncipes foram deles perfumadas e inebriadas,
buscaram a honra da vossa aliança. A Rainha conservou-se à vossa destra, adornada com um manto de ouro e de
uma variedade infinita de riquezas. Ouve, filha minha, e sê atenta a minhas palavras; esquece o teu povo e a tua
parentela, e o Rei do céu te cumulará de amor, pois que Ele é o Senhor teu Deus, poderoso e adorável. A glória da
filha do Rei está em si mesma e seu fulgor apaga os esplendores de suas vestimentas. Outras virgens virão após e
consagrar-se-ão ao Rei dos reis; serão apresentadas no templo com transportes de júbilo!"

II- Sob o véu das palavras simbólicas do salmista, entrevemos o glorioso destino das almas que seguem as pegadas
de Maria e formam o cortejo sagrado do Cordeiro de Deus. Apresentam-se no templo para, à sombra do santuário,
prepararem-se às bodas divinas. Vocação sublime que eleva as mais humildes criaturas ao próprio trono de Deus!
Nessa trajetória ascendente, a noiva do Rei dos anjos deixa parentes, família, fortuna, pátria: tudo abandona para
receber o cêntuplo. Um só pensamento a domina, uma única aspiração a impulsiona: satisfazer ao celeste Esposo.
Deve estar morta em meio a todas as coisas do mundo; seus entretenimentos estão no céu, enquanto aguarda o dia
de sua apresentação no templo da glória.

(Migalhas Evangélicas por Padre Teodoro Ratisbonne, 1941)

Texto de Pe Theodoro
Há exatos 154 anos, Pe Theodoro, escrevia esse texto dedicado ao mês mariano, pelo qual tinha grande devoção. Em
seus escritos ele considerava a dedicação de Maria, a Filha de SION por excelência, a vida de humildade, grande
virtude que Maria vivenciava, não só por ser a Mãe do Cristo, mas por amor e respeito ao povo que ela e seu filho
descendiam.

"28 de maio de 1859

Mês de Maria

A humildade de Maria

Nós nos perguntamos às vezes quais eram os pensamentos de Maria. Então, somos levados naturalmente a
relembrar os fatos principais de sua vida e a história de seus ancestrais.

Ela achava nesta meditação grandes motivos de ser humilde; assim, ela pensava em Abraão, o homem mais
favorecido de todos, pois Deus lhe havia dito: ‘Todas as nações da Terra serão abençoadas em ti e o Messias sairá de
tua raça’ (Gn 12,3). Por conseguinte Abraão, é o homem prodigioso; pois bem, quando fala com Deus, ele se exprime
assim: ‘Meu Deus, embora eu não seja senão cinza ou pó, permiti que vos fale’. Toda sua vida não foi senão uma
série de atos de humildade.

E Moisés, como era humilde também, ele que havia sido escolhido para torna-se chefe de um grande povo, que
havia recebido uma varinha que operava prodígios; como ele era humilde, como se defendia diante de Deus, para
não exercer este grande ministério; como temia a responsabilidade de seu cargo, não querendo assumi-lo sozinho e
cercando-se de todos aqueles que podiam ajudá-lo.

E Davi, como era humilde também: assim, se exprime nos seus salmos: ‘Senhor, olhai minha humildade’; pois era
muito confiante, mas também muito humilde: ele fala sempre de seus pecados e quando lemos os salmos, vemos
como era contrito e humilhado. Ele dizia: ‘Meu pecado está diante de mim’. Embora sendo rei, e rei poderoso,
gostava de lembrar que, na juventude, tinha guardado rebanhos: nada o exaltava. E Maria, considerando estes
exemplos, tornava-se dia a dia mais humilde, pois nada é mais capaz de aumentar em nós este sentimento, do que o
exemplo dos outros."

Pe Theodoro Ratisbonne

(Vida Religiosa em SION, 1854-1884, vol IV p.119)

Origem
O nome “SION”

Sobre o nome a ser dado a Congregação, escreve, Pe Theodoro:

“A comunidade se formou, por assim dizer, apesar de mim; mas uma vez estabelecida, era preciso lhe dar um nome;
e esta questão me preocupava seriamente; eu não queria expor esta pequena Comunidade a ser chamada por um
nome de homem, ou por um nome de rua ou por algum apelido ridículo, como isto já aconteceu com outras
comunidades (...).

Fiquei longamente indeciso. Eu sabia somente de uma coisa: que esta obra pertencia a Maria e que ela lhe deveria
ser consagrada. Mas todo o vocabulário e os títulos de Maria estavam esgotados.

Um dia, indo de manhã à capela da Providência¹, onde eu celebrava minha missa todos os dias, eu vi sobre o
genuflexório, onde eu fazia minha ação de graças, um livrinho que tive curiosidade de abrir. A primeira palavra que
me chamou atenção foi SION.

Compreendi imediatamente que este nome bíblico, tantas vezes repetido nos Salmos, era aquele que mais
exatamente caracterizava [a] obra (...), SION é o verdadeiro nome da família da Santa Virgem. Davi reinou em SION e
sua imaculada Filha é a Mãe, o modelo e a protetora das Filhas de SION chamadas a caminhar sobre os seus traços.
Eu escrevi com alegria sobre as portas de nossa casa esta palavra do salmista: ‘Diligit Dominus portas Sion, super
omnia tabernacula Jacob.’²

Nós consagramos então à Notre Dame de SION esta nova pequena família religiosa, as irmãs como as neofitas.”

(Pe Theodoro Ratisbonne, Mes Souvenirs, 1883)


Tradução: Pe José Mª, nds

¹ Capela em Paris, atualmente destruída.

² Salmo 86 (87) “O Senhor ama a cidade que fundou os montes santos; ele prefere as portas de Sião às tendas de
Jacó.”

Cheia de alegria - Theodoro Ratisbonne


Em Maria encontramos, no mais elevado grau, tristezas e alegrias; pois que ela participou de todas as dores de Jesus
Cristo.É sobretudo sumamente feliz, pela missão de espalhar felicidade. Consoante as palavras do Cântico, é seu
gozo transmitir de geração em geração as graças de que recebeu a plenitude. A Virgem santíssima é realmente a
causa de nossa alegria, pois, por sua mediação, é que nos veio a salvação e por suas mãos se propagam as bençãos
divinas, de geração em geração.

A força da Palavra Divina - Theodoro Ratisbonne

Não é preciso arte para regular o amor.Assim como a pomba que pousa à margem do regato para sorver algumas
gotas e, depois, reabrindo suas asas, desfere o voo para as nuvens, a alma dos que crêem tomam as migalhas da
Palavra de Deus e , depois de revigorar suas forças, estende as asas dos seus bons desejos e remontam.

Theodoro Ratisbonne

Ao celebrar a vida daquele que é o bem-amado do céu e da terra, volvamos para ele nosso olhar, nossos desejos e
nossas esperanças. Busquemos nos livros sagrados as palavras que devem animar nossas orações.Digamos com a
Igreja: Ó sabedoria incompreensível, que tudo empreendeis com força e suavidade, vinde mostrar-nos o caminho do
céu! Ó esplendor do Pai, vinde e derramai sobre nós a luz do vosso semblante! Ó sol de justiça, vinde a nós e vivificai
todos os que vegetam à sombra da morte! Ó Salvador do mundo, Rei dos Reis, Senhor das nações! VINDE REINAR
SOBERANAMENTE SOBRE NÓS!Formulemos estas súplicas ardentes e acrescentemos nossas próprias aspirações. Só
em Jesus Cristo se encontra o remédio, o bálsamo, a luz, a unção e os alimentos que nos podem curar, esclarecer,
consolar e saciar.

Theodoro Ratisbonne

"No meio de vós está alguém que não conheceis"

Deus está em toda parte e ninguém pode subtrair-se à sua presença. Assim como o sol, sua brilhante figura no
firmamento, o trono do Altissimo está nas sublimidades do céu. Mas toda a criação subsiste e, por assim dizer, nada
em sua luz indescritível. Ele nos dá o movimento, o ser e a vida. A atmosfera que respiramos, e dentro da qual nos
movemos, pode nos oferecer uma outra imagem dessa presença; aí haurimos o elemento vital que está, ao mesmo
tempo, destro e fora de nós. É assim que nossa vida se alimenta e conserva por suas comunicações incerssante com
DEus, forte única de tudo quando existe. Mas, além da presença universal da divindade, o Filho de DEus, assumindo
a nossa natureza, aproximou-se de nós de uma maneira mais íntima: vive na Igreja, que é seu corpo, reside em
nossos tabernáculos; age pelos sacramentos, habita substancialmente em nós por sua graça e su amor. " O reino de
Deus está dentro de vós - disse Jesus Cristo. Eu estou em vós e vós estais em mim". Recolhemo-nos ao mais
profundo de nossa alma para aí adoramos nosso Deus, em espírito e em verdade.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Joio e trigo

"Quereis, Senhor, que arranquemos o joio?

O grande objetivo da educação e da direção espiritual é de melhorar o terreno das almas , extirpando os elementos
nocivos e cultivando com atenção os germes provenientes do céu.Mas isto não é trabalho para um dia; exige tempo,
ânimo e constância. Um zelo precipitado comprometeria completamente a colheita.Quem pretende corrigir outos,
tem de começar em si mesmo. Precisa experimentar a eficácia do remédio.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Joio e trigo

"Quereis, Senhor, que arranquemos o joio?


O grande objetivo da educação e da direção espiritual é de melhorar o terreno das almas , extirpando os elementos
nocivos e cultivando com atenção os germes provenientes do céu.Mas isto não é trabalho para um dia; exige tempo,
ânimo e constância. Um zelo precipitado comprometeria completamente a colheita.Quem pretende corrigir outos,
tem de começar em si mesmo. Precisa experimentar a eficácia do remédio.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Transformação

"Eis que vem o Esposo , saí ao seu encontro". Mt 25,6

O milagre das bodas de Caná merece uma menção relevante no Evangelho, sob a figura do esposo e da esposa, os
mistérios da Aliança que o Filho de Deus contraiu com a natureza humana. A água transmutada em vinho significa a
transformação que se opera na alma quando se une a Jesus Cristo. Estão, inteiramente absorvida pelo Deus de amor,
não é senão amor, assim como o carvão, transformado em brasa pelo fogo. É claro que nada altera de sua
substância, nem de sua natureza; mas tão profundamente se impregna das qualidades divinas que se torna, por
assim dizer, uma só coisa com Deus.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Participar da bondade de Deus.

"A BOA ÁRVORE NÃO PODE PRODUZIR MAUS FRUTOS NEM A ÁRVORE MÁ DAR BONS FRUTOS" Mt 7,18

Só Deus é bom, assegura o Evangelho. É bom em si mesmo, em sua essência, em sua natureza; e o homem só é bom
pela participação a essa bondade inicial. O homem se assemelha ao que ama: reflete os traços da bondade divina
quando ama a Deus; reproduz a imagem do espírito das trevas quando ama o mal.Assemelha-se ao objeto amado,
diz a Escritura.Se queremos, pois, nos tornar bons e produzir bons frutos, amemos com todo o coração o Deus de
Bondade e sejamos humildes; a humildade conserva os frutos já sazonados e produz continuamente novos frutos;
convém à gloria de nosso Pai celeste que produzamos frutos em abundância.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Caridade nas ações.

Enquanto a caridade for senhora de um coração, a árvore estará sã e com um pequeno cultivo dará fruto saborosos;
mas, não existindo a caridade, péssima é a árvore e seus frutos semelhantes aos que crescem às margens do mar
morto; podem parecer brilhantes, mas são ocos. As ações mais insignificantes, se baseadas na caridade, são aos
olhos do Senhor como frutos preciosos; ao passo que jazem estéreis, por deslumbrantes que pareçam, as obras
destituídas de caridade. É o que lemos na magistral epístola da S.Paulo aos coríntios: "Quando mesmo houvessemos
distribuído os nossos haveres aos pobres, e entregue o corpo para ser queimado, se não tivermos caridade, nada
disto nos aproveitará.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Árvore

"Toda árvore boa dá bons frutos e toda árvore má dá maus frutos" Mt 7,17

O homem mais criminoso é capaz de uma boa ação e o homem mais santo poderá cometer faltas. Por isso é que não
se pode aquilatar do valor de um homem únicamente por suas obras exteriores. Não é o fruto que comunica suas
qualidades à árvore, mas sim a árvore que as transmite ao fruto. Uma árvore só pode ser verdadeiramente boa
quando sua raiz é boa; e verdadeiramente ruim quando está corrupta sua raiz. Ora, duas espécies de árvores há:
uma que produz sempre bons frutos e a outra, frutos ruins; uma tem por raiz o amor de Deus, a outra, o amor
próprio. O amor de Deus, que nos faz preferir Deus e nosso próximo a nós mesmos, produz frutos de caridade, de
dedicação, de santidade. O amor próprio, em sentido oposto,antepõe-se a Deus e ao proximo, é a raiz do egoísmo,
da cupidez , da inveja e de todos os outros vicios.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Unidos ao Cristo.

"Assim como eu vivo por meu Pai, aquele que me come a mim vive por mim". Jo 6,58

Quem recebe dignamente Nosso Senhor, participa em graus diversos das perfeições de Nosso Senhor; pensa, age,
ama com Jesus; tudo sente, vê, aprecia como Jesus; torna-se um mesmo espírito e um mesmo coração com Jesus;
pode exclamar como o Apóstolo: "Jesus é minha vida!" (Fl 1,12).Ora, esta transformação maravilhosa se opera
gradualmente e com tanto mais facilidade quanto maior for o zelo empregado em desfazer os obstáculos que se
opõem às operações da graça. Ó meu Jesus amado! Entrai triunfalmente em minha alma! Desprendei-me
totalmente de mim mesmo; fazei que eu em vós inteiramente me perca, para que a vós fique unido para sempre!

Pe.Theodoro Ratisbonne - Sacrificio

"Meu Pai, eis que venho para cumprir a tua vontade" Sl 39,8

Cossideremos que o altar é, como a cruz, o instrumento da redenção dos homens; pois, conforme ensina o Concílio
de Trento, a oblação do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se renova todos os dias na missa, faz
Deus propício e favorável a nós,atrai-nos as graças do alto, penetra-nos de um salutar espírito de penitência e
purifica-nos de todos os nossos pecados. Para retirarmos, no entanto, esses preciosos frutos do santo Sacrificio,
precisamos nos unir a ele por uma fiel correspondência; significa isto que , sendo Jesus ao mesmo tempo
Sacrificador e Vítima, precisamos ser também sacrificadores, oferecendo nossa vida,nossas afeições, nossos desejos
e nossos pensamentos; e vítima - imolando nossa vontade e fazendo-nos obedientes até a morte.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Memorial

"Fazei isto em memória de mim" Lc 22,19

Depois de instituir o mistério da imolação e da maducação do seu Corpo sagrado, Jesus confere a seus apóstolos o
poder de reproduzí-lo; poder divino que, por sua vez, transmitiram os apóstolos ao sacerdócio católico. É assim que
o sacramento da santa Ceia, bem como o sacrificio da cruz, subsiste para sempre na Igreja. O mistério da missa não é
um novo sacrifício acrescentado ao do Calvário; ele é idênticamente o mesmo e não cessará de renovar-se
misteriosamente até ao final dos séculos. Assim como o espírito e a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo se propagam
nos fiéis, pelo sacramento da sagrada Mesa, do mesmo modo sua paixão e sua morte se perpetuam no sacrifício do
santo altar. A alma cristã participa eficazmente da missa quando se une ao mesmo tempo à vida e à morte de Jesus;
é somente satisfazendo essa condição que dela se retiram os frutos de bençãos e de salvação.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Laços íntimos

Como a Santa Eucaristia nos transmite juntamente a divindade e a humanidade de Jesus Cristo, ela nos une ao
mesmo tempo ao Pai que esta no céu e à Mãe que nos foi dada na terrra; e por sua mediação torna-nos
verdadeiramente filhos de Deus e filhos de Maria. Estes laços íntimos e sagrados são a base do culto de amor que
prestamos à nossa Mãe; e o direito que possuimos de recorrer ao seu coração maternal será tanto maior quanto
mais estreitamente unidos estivermos a seu filho, cuja vida é nossa vida.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Maria é o tabernáculo do sacramento do amor.

Enquanto a primeira mulher, para sua e nossa desgraça, apresentou ao homem o fruto da morte, Maria, a bendita
entre todas as mulheres, apresenta-nos o fruto da vida, visto que em seu seio é que foi gerado este fruto divino.
Maria forneceu ao Filho de Deus a sagrada carne que é nosso alimento e o sangue que é nossa bebida. É, portanto, a
Virgem a Mãe da Eucaristia; nela se formou o sacramento de amor; é ela o vaso insigne que primeiro conteve a
divina Hóstia! É ela a dispensora da santa comunhão, o órgão transmissor da graça e da vida, a Rainha do celestial
banquete.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Dom permanente.

O Divino Salvador não vem a nós como em passageira habitação. Assim como a verdade penetra em nosso espírito
pelo sopro sonoro da palavra, e nele se fixa, assim a vida de Jesus Cristo, que nos vem sob as espécies sacramentais,
habita em nossa alma. A comunhão constitui uma perpétua aliança: une-nos a Jesus Cristo, como à árvore são
unidos os ramos e como ao corpo, de que fazem parte, são unidos os membros. O mistério da sagrada Mesa não é
simples visita; é um dom permanente, uma nutrição, uma maducação, pela qual assimilamos a vida de Jesus Cristo.
Pela santa comunhão Jesus vive em nós e nós vivemos nele.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Formar um

"Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco". Lc 22,15


As pessoas que amam sentem a necessidade de se unirem indissolúvelmente ao objeto amado; pois, como diz
S.Dionísio, o Areopagita: "o amor é uma força atrativa e unitiva que, de dois ou mais corações, só forma um". Esta
verdade deixa transparecer o pensamento do Deus de amor, na instituição da sagrada Eucaristia. Jesus Cristo não se
satisfaz apenas com nossas adorações e com nossas homenagens; dá-se a nós e nos atrai; quer associar-nos à sua
natureza, como se incorporou à nossa, para que não formássemos senão um com ele. Eis o desejo que tâo
ardentemente exprimiu, antes de se entregar à morte por nós.Corresponder ao desejo de Jesus, pelo nosso próprio
desejo; entrar no segredo do seu pensamento, querer o que ele quer, retribuir-lhe amor por amor; esta é a
disposição da alma que aspira a comungar santamente.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Emanuel

Ao contemplar Jesus na santa Eucaristia, chama-o Emanuel - Deus conosco. Este nome inefável revela a glória e a
felicidade do cristão.Possuir em nossos tabernáculos o Deus escondido, que somente respira doçura e delícia!
Circundar esse trono de graça, como os anjos o trono celestial! Viver dos seus olhares, à sobra do santuário, para
amar e o servir...que honra insigne! Que permanente consolo...que antegoso do paraíso! "Ó Sião, ó Sião! -e exclama
o profeta - rejubilai-vos e entoai hinos de alegria! porque o Altíssimo, o Santo de Israel, está no meio de vós!" (Is
12,6)

Pe.Theodoro Ratisbonne - Dá-se totalmente

"Jesus, tendo amado os seus, amou-os até o fim". Jo 13,1

O nosso amantíssimo Salvador, após haver repartido com seus discípulos todos os dons do céu, deu-se finalmente a
si mesmo e quis reunir em um único mistério toda a plenitude das graças. Tal um generoso benfeitor que, depois de
haver distribuido todos os seus tesouros, entrega ainda o vaso que os encerrava, dá-se Jesus totalmente, abre seu
Coração e deixa transbordar sua vida como bebida de amor; não quer que, entre ele e nós, haja o menor
constrangimento, a menor distância; oferece-nos seu amor e pede o nosso; elege em nós sua morada e conosco
habita até à consumação dos séculos.Que ação de graças daremos? Elevemos nossos corações a Ele, como sagrados
turíbulos cheios dos perfumes da nossa mais viva gratidão.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Fonte de água viva.

"Rios de agua viva jorrarão do coração daquele que crê em mim". Jo 7,38

Crer em Jesus Cristo nâo é apenas uma simples crença, um ato de submissão do nosso espírito; é um profundo
consetimento do nosso coração, é adeasão íntima de nossa vontade e de todas as nossas faculdades àquele que é
objeto de nossa fé; de maneira que, pela fé viva, comunicdamos com Deus a fim de nele haurirmos a vida. Crer
cristãmente é, portanto, beber a vida divina, é orar em espírito, é comungar, é gozar a unção da verdade; é amar o
amor; é viver de Deus, em Deus e para Deus. Os verdadeiros discípulos são os homens da intimidade de Jesus; com
ele andam; agem de conformidade com o seu espírito; nutrem-se de sua substância; estacam a sua sede no
transbordamento do seu coração; movem-se únicamente nele e por ele; dele participam de tal modo que podem
exclamar:" já não sou eu que vivo, é Jesus quem vive em mim."Ora, os que recebem efusão desta fonte de água viva,
transformam-se em canais condutores do espírito de Deus.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Como rezar.

"Orarei com o meu espírito, mas hei de orar também com minha inteligência". 1Cor 14,15

A oração é uma elevação porque ela se volta na direção de um objeto que está acima de nós e de todas as coisas
criadas. Ela suspira diante de uma fonte de água viva. Seria um erro faze-la consistir apenas de uma linguagem
articulada ou, o que seria ainda pior ainda, de vê-la apenas como uma recitação piedosa de formulas. O homem
inteiro deve rezar, porque ele deve amar de toda a sua alma e de todo o seu coração e com todas as suas faculdades.
É necessário rezar com todo o poder do seu ser. Que o homem reze com a boca; que ele reze, sobretudo, com seu
espírito e seu coração.

Nós revestimos as palavras de um sentido exterior para nos entendermos entre nós. Mas Deus não tem necessidade
deste veículo sensível. Ele lê nas profundezas de nossas almas e vê o pensamento antes que ele saia de nossos
lábios, ele conhece nossas intenções antes que sejam expressas.
Mas é necessário passar da teoria a pratica e se vos aplicais a rezar com perseverança, vós encontrareis no vosso
próprio coração uma fonte de vida, de unção e de luz.

Pe. Theodoro Ratisbonne - A confiança

A confiança nasce da fé e é dela inseparável; porque, se acreditamos na palavra de Jesus Cristo, temos que confiar
firmemente em seu amor, em sua fidelidade, em seu poder, tríplice alicerce de nossa confiança.O Senhor nos amou
enquanto ainda jazíamos em sua desgraça. Como poderíamos, então, duvidar de seu amor,nós que, por tantos
títulos, somos considerados filhos seus? Ele cumpriu firmemente todas as palavras; como deixaria de realizar suas
promessas mais positivas?Jesus venceu o mundo, governou soberanamente toda a natureza; como seria possível a
seu poder divino encontrar estovos em relação a nós? Se o Senhor tanto enaltece a fé do centurião, se nos concede
suas graças na proporção de nossa confiança, dilatemos nossos corações e lancemos ao coração de Deus o nosso
passado, o nosso futuro, e a nossa eternidade.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Sabedoria divina

A segunda condição para orar com eficácia é harmonizar de antemão a nossa vontade com a vontade do Pai que, por
vezes, atende de modo diverso ao que havíamos desejado. Sua sabedoria divina retifica os nossos desejos
imprudentes; transmuta, com vantagem para nós, a esperança diferida, e concede-nos em tempo oportuno aquilo
que havíamos implorado em ocasião imprópria.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Disposições para orar.

" Pedi e recebereis" Jo 16,24

A primeira disposição para bem orarmos é nos comunicarmos interiormente com aquele que nos ouve e nos atende.
animados da mais humilde confiança e sem abundância de termos, exponhamos nossas necessidades, desejos e
sentimentos, tais como ele os vê e conhece. Se a expansão provoca palavras, o recolhimento exige silêncio. Convém
alternar estes dois movimentos. Depois de abrir a boca para pedir, deve-se abrir o coração para receber; depois de
falar, deve-se escutar; e o melhor meio para ser atendido é executar firmemente o que Deus quer de nós.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Jerusalém.

Esta cidade maravilhosa foi vinte vezes destruída e recostruída; de modo que as ruínas de todas as épocas estão
suporpostas umas sobre as outas no meio de diversos montes de escombros.A cidade inteira é apenas uma reunião
de tumulos ao redor da Sepultura donde saiu a Ressurreição e a Vida.

e. Theodoro Ratisbonne - Oração

Orar não é somente falar: é escutar, amar,esperar,chorar,jubilar; é lancar no coração de Deus todas as efusões de
amor, todos os atos da vontade.Sim a oração é a ligação viva de nossa comunicação com Deus. Ela deve ser
necessariamente contínua e permanente. As vantagens da oração são infinitas. Existirá uma graça mais desejavel
que conversar com Deus? Se a conversa com sábios nos torna sábio, se a companhia dos homens de bem nos torna
bons e venturosos.Que fruto tiraremos do intreterimento com o Deus da ciência, com o Sábio soberano?

Pe.Theodoro Ratisbonne - Quem eu sou?

Eu perteço a raça dos eleitos: eu sou chamado à herança dos Santos; estou ligado a Jesus Cristo como o ramo à
videira. Sou cristão e este título me dá o direito de me apresentar ao tribunal santo para pedir o perdão das minhas
faltas, e à mesa santa para comer o Pão do Céu. Eu participo das orações, das obras e dos serviços de todos os
membros da Igreja.Eu sou rico; porque possuo os meios para ser feliz sobre a terra e para chegar à felicidade do
céu.Eu sou religioso.O Senhor se dignou a me chamar para o seu serviço e eu respondí ao seu chamado.Eu fiz uma
augusta Aliança com Ele. Escolhi a melhor parte.

Pe.Theodoro Ratisbonne - O nome da Virgem.

Sion possui um nome inspirado do alto que é o próprio nome de família de Maria.Nós conhecemos e veneramos os
títulos de Nossa Senhora das Vitórias,N.Sra. das Graças ,N.Sra. dos Milagres, N.Sra. das Misericórdias,N Sra. do Bom
Conselho,N.Sra.do Bom Socorro, N.Sra. de Lourdes, e tantos outros que lembram as maravilhas de seu amor e de seu
poder. Mas todos estes títulos pertecem a Virgem de Sion: Sion, eu voz lembro, é seu nome patronímico, o nome de
sua origem, o nome consagrado nos Livros Santos.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Agir e compreender.

"quem deseja cumprir a vontade de Deus, reconhecerá que a minha doutrina procede de Deus". Jo 7,17

É preciso primeiramente agir, depois vem a comprensão e pode-se estão ensinar.Quem ainda não saboreou as
doçuras da doutrina não poderá compreendê-la; mas depois de tê-la experimentado no fundo da alma, tornamo-nos
verdadeiramente sábios e não haverá força capaz de abalar nossas convicções. Para podermos avaliar o quanto é
suave e leve o jugo do Senhor, é preciso que comecemos por carregá-lo, assim como, para apreciar devidadmente as
delicias do serviço de Deus, é necessário tê-las experimentado. A teoria, sem pratica, projeta apenas uma luz tênue e
fraca.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Prova de amor

"Aquele que me ama guarda a minha Palavra e será amado por meu Pai". Jo 14,21

O Salvador de nossas almas nos pede uma prova de amor. E esta prova única é a homenagem de nossa
obediência.Acolher a Palavra divina, realizar o que ela prescreve, eis como atestamos a união do nosso coração com
o de Jesus.

Pe.Thedoro Ratisbonne - A prece do publicano.

"E o publicano , conservando-se a distância, batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!" (Lc
18,13)

A prece do publicano encerra todos os caracteres da verdadeira humildade. Esse pecador não se prevalece de
vantagem alguma; mal ousa erguer os olhos ao céu.Domina-o realmente o sentimento de sua indignidade,
consrvando-se no último lugar na casa de Deus; bate no peito sem recei de ser reputado pecador. Sua oração é
curta; não põe sua confiança na multiplicidade de palavras; tem fé naquele que as ouve e defere. Somente repete:
"Senhor, tende compaixão de mim, pobre pecador!" Estas poucas palavras, brotam de um coração contrito e
humilhado, exprimem tudo o que ele sente, tudo o que pensa, tudo o que deseja.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Os destinatários dos benefícios do Evangelho.

O fariseu da começo à sua oração por uma recaptulação das virtudes que se atribui: jejua, paga os dizimos, é
rigoroso observador da letra da Torá. E, para dar mais valor à boa opinião que de si mesmo faz, compara-se ao pobre
publicano inteiramente desprovido de qualquer mérito! É próprio do orgulho estabelecer tais paralelos. É pronto em
observar os defeitos alheios, evitando reconhecer-lhes as qualidades boas, que poderiam condenar sua
mediocridade. As almas humildes procedem de modo bem diverso: descobrem, de bom grado, o bem nos outros.Eis
por que alcançam as graças que imploram. Jesus Cristo oferece os benefícios do Evangelho, principalmente aos
pobres; é que ele veio para os pecadores e não para os justos.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Cristo nos justifica.

Ao enumerar seus méritos perante Deus, afasta-se o fariseu da verdadcira justiça; porque a justiça cristã não é fruto
de nossas próprias ações, mas provém de Jesus Cristo, que é o único justo e nos aplica o fruto de sua justiça. Se
pretendemos ser justificados e se queremos orar como justos, devemos, antes de tudo, reconhecer e confessar o
nosso nada, que por nós mesmos nada possuimos e nada somos; que temos, por conseguinte, necessiodade de um
Salvador, e que toda a nossa confiança repousa naquele que cura os enfermos, consola os pobres, fortifica aos
fracos, dá vista aos cegos e ressuscita os mortos. Eis a fé que justifica, pois Jesus não veio para os que se julgavam
justos por si mesmos: veio para os doentes e pecadores.

Pe.Teodoro Ratisbonne - Humildade e graça.

" Dois homens subiram ao templo para fazer suas orações; um era fariseu e o outro publicano". (Lc 18,10)

Os dois personagens, tão diferentes , que se encontram no templo, provam que a casa de Deus é acessível a todos;
tanto abre suas portas para os justos como aos pecadores. Uns e outros necessitam orar, pois a graça lhes é
necessária, seja para superar o mal, seja para progredir e perceverar no bem.Mas a graça somente é concedida à
oração humilde; afasta-se dos que a pedem unicamente para dela se prevalecerem ou se glorificarem. "A oração da
alma humilde atravessa as nuvens; atrai o olhar de Deus e alcança o consolo e a misericórdia", afirma a Escritura.

Pe. Theodoro Ratisbonne - A verdadeira humildade

A verdadeira humildade se forma em uma alma que sente conjuntamente uma justa desconfiança de si mesma e
profunda confiança em Deus. A reunião indissolúvel destes dois elementos constitui a humildade cristã; pois a
desconfiança em si, privada da confiança em Deus, produz unicamente covardia e desânimo; e a confiança em Deus
sem a desconfiança em si próprio finaliza em funesta presunção. Esses dois elementos devem portanto, desebvolver-
se simultâneamente nos corações e se manter em equilibrio, para salvarguardar o verdadeiro carater da humildade.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Parábola do fariseu e do publicano. Lc 18,10-14

Da narrativa desta parábola concluímos que Deus prefere o pecador humilde ao justo presunçoso. Altíssima lição
que nos faz claramente compreender o preço da humildade, companheira inseparável de todas as virtudes
evangélicas. Sem ela, estas virtudes degeneram em vícios. Está escrito que Deus resiste aos soberbos e concede sua
graça aos humildes. Os raios do sol deixam áridos os cumes das montanhas, ao passo que aquecem e fecudam os
vales. O que dá ao homem a glória e a nobreza não são nem o ouro, nem a ciência, nem os títulos; é na humildade
cristã que se incerra o germe da verdadeira grandeza.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Generosidade

“Aconteceu que, terminando ele de falar com Saul, a alma de Jônatas apegou-se à alma de Davi. E Jônatas começou
a amá-lo como a si mesmo. Jônatas tirou o manto que vestia e o deu a Davi, e também lhe deu sua roupa, a sua
espada, o seu arco e o seu cinturão”. 1Sm 18,1,4

É assim que nos apegamos a Jesus, filho de Davi, quando ouvimos sua palavra; e o amamos até nos desapegarmos
de tudo e oferecer-lhe tudo o que temos e tudo o que somos; porque o amamos como a nós mesmos, e, com efeito,
ele é outro “nós-mesmos”, ou antes, nós somos outros “Ele-mesmo”...Não sou eu vivo, é Jesus quem vive em mim.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Israel

Existe um povo não menos antigo do que os Gregos, mais nobre em sua origem, mais interessante por suas longas
misérias, mais extraordinário por sua vida, mais milagroso por sua história, mais admirável por seu destino; e esse
Povo é Povo de Israel. Esta Nação normal parece ter sido escolhida para servir, nos tempos primitivos, de tipo e de
modelo para a civilização humana:teve, no decurso dos tempos, de servir de exemplo, de instrução e experiência a
todos os Povos da terra.Mas a época virá, e já não esta muito longe, em que os P0vos terão tirado proveito das
lições que uns dão aos outros, e formando uma só e única família, reconhecerão os desígnios da Providência,
dobrarão sob a vontade do Deus Todo-Podroso, ciumento em seu Amor, fiel em suas promessas, inesgotável em
suas graças e suas misericórdias.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Fogo do amor

" O fogo que consome o holocausto sobre o altar não se apagará jamais. Cada manhã o sacerdote lhe acrescentará
mais lenha. Um fogo perpétuo arderá sobre o altar, sem jamais apagar-se".

Lv 6,5-6

Este fogo sagrado, o qual se encontra também o culto no paganismo, é a figura do fogo imortal do amor, que deve
arder em nossas almas assim como em nossos altares; devemos entretê-lo com cuidado pelo sopro e a substância da
oração, pela oferta de nosso ser .

Pe.Theodoro Ratisbonne - A fé.

"Os discípulos, procurando Jesus a sós, disseram: " Por que razão não pudemos expulsá-lo? Jesus respondeu-lhes:
"Por causa da fraqueza da vossa fé, pois em verdade vos digo: se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta
montanha: transporta-te daqui para lá, e ela se transportará, e nada vos será impossível." Mt 17,19-20
A causa da impotência do homem é a incredulidade, a causa de seu poder , a fé. A incredulidade é rompimento da
relação do homem com Deus. É a cessação do movimento da vida, pois que sem fé não se recebe mais o que Deus
dá. E então não há mais reação, mais movimento vital, mais religião. A fé é restabelecimento da relação do homem
com Deus. É ela a religião viva que liga o homem a Deus. Mas essa fé não é somente crença. É confiança e
obediência, abertura profunda da alma para receber dentro de si o dom de Deus, a semente da vida, adesão forte da
alma à substância de Deus, união, comunhão, comunicação interior, íntima com Deus. A união com Deus é a meta e
o termo da Redenção, e a fé é o único meio dessa união. Digo único porque reúne todos os outros para atingir esse
termo: a fé viva não é somente crença, apego, adesão profunda, é adoração, é oração, é comunhão, é ação pratica, é
obra, ela é todo o cristianismo.

Pe.Theodo Ratisbonne - Amor

"O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para
aqueles que o amam". 1Cor 2,9

Ame. O amor é a substância de toda a religião, o resumo e o apanhado da Tora e dos profetas . Ame, pois o amor é
fonte de todas as virtudes, o princípio da dedicação e o esquecimento de si próprio, o penhor da fidelidade e da
perceverança, o meio sagrado pelo qual nos unimos a Deus e nos tornamos um só espírito com ele. O amor afugenta
o escrúpulo e o temor servil. O amor nunca vai sem temor, mas o purifica: suaviza-o e o regula de maneira que seja o
temor de um filho e não o de um escravo.

(Carta à Senhora Sofia Stoulher - Agosto 1838)

Pe.Theodo Ratisbonne - Gratuidade

De graça recebeste,de graça dai. Mt 10,8

A palavra "gratuitamente" tem diversos matizes: o primeiro e o mais simples é de não dar por dinheiro o que se
recebeu sem dinheiro. Mas em outro sentido, é preciso administrar e distribuir os dons de Deus, sem exigir como
retribuição nem estima, nem gratidão, nem honrarias, nem glória, nem considerações; porque a esse preço os dons
não seriam nada gratuitos: é preciso dar gratuitamente, isto é, sem voltar sobre nós mesmos. Em outro sentido
superior, as palavras "recebestes gratuitamente" não mostram ainda a maneira gratuita com a qual a graça nos
preveniu, sem acepção de pessoa sem mérito algum de nossa parte? É assim que é preciso dar imitando Jesus Cristo
mesmo: dar gratuitamente, sem nos voltarmos sobre nós mesmo, mas também sem consideração pessoal.

(Primeiros escritos)

Pe.Theodoro Ratisbonne - fome e sede saciadas.

“Se alguém tem sede, que ele venha a mim e beba”. Jo 7,37

É a Jesus Cristo que se deve ir para saciar a sede e acalmar a fome de nossa alma. Nós vamos a Jesus Cristo quando
nos ligamos a ele por meio de uma fé viva e que fazemos frutificar suas palavras em obras. Do momento em que nos
unimos a ele, sua justiça nos justifica, sua santidade nos santifica; a medida que esta união se aperfeiçoa, nós nos
tornamos mais justos e mais santos.Por meio da comunhão nosso Senhor é a árvore da vida à qual nós devemos ser
enxertados , a fim que a seiva divina, saindo de seu coração, circule através de todos os galhos para vivifica-los e
torna-los mais frutuosos.Por meio deste inefável Sacramento, nos alimentamos do amor, bebemos a
caridade,aspiramos o Espírito de Jesus Cristo, assimilamos seus sentimentos, nossa vida se torna, de uma certa
maneira, prolongação da sua.

Pe.Theodoro Ratisbonne - A gratidão de Maria

“ Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus em meu Salvador” Lc 2,46

Virgem cheia de graça expande divinamente seu amor e suas ações de graças no cântico sublime, cujo texto sagrado
o Evangelho recolheu. Cada palavra deste hino traduz um sentimento de gratidão profunda. A Filha real de Sion
(Sião) arranca de sua alma e não só de sua boca as palavras com que canta as glórias do Senhor; humildemente
proclamava nada haver feito para merecer os favores de Deus; que o Senhor olhou unicamente a pequenez de sua
serva e que os prodígios nela operados manifestam a grandeza e o poder d`Aquele que é o único grande e poderoso.
Faz reverter toda a glória ao Deus três vezes santo; e é para exaltar sua bondade infinita que desenrola a corrente de
misericórdia, da qual é o primeiro elo. Seja-nos permitido confessar com a doce Virgem Maria no seu Magnificat,
que Deus olhou a nossa humildade! Este testemunho aumentará nossa gratidão; far-nos-á apreciar melhor o
benefício, e mais claramente sentir o que devemos ao celeste Benfeitor.

Pe. Theodoro Ratisbonne - Todos os tesouros da Graça.

" Se conheces o dom de Deus e quem te pede de beber". Jo 4,10

"Se conheces o dom de Deus!" Diz Jesus à samaritana. Mostra-lhe a fonte das águas vivas, mas não a obriga a beber.
A graça, gratuitamente oferecida, deve ser espontâneamente aceita. Quantas almas, no entanto, a rejeitam por
desconhecer-lhe o valor e os salutares efeitos! Como são lastimáveis! São desgraçadas e desconhecem o segredo da
consolação; sucubem ao peso do fardo e rejeitam a mão que se lhes estende em auxílio.Sedentas e famitas,
procuram por toda parte forças para lhes reparar os desfalecimentos; mas, em sua cegueira, não percebem o
Salvador que é o único capaz de saciá-las, e não alçam seus olhares para o monte de onde vem o socorro. Somente
após inumeraveis a amaríssimas decepções, é que vêm a compeender que todos os tesouros da graças se encontram
em Jesus Cristo.

Pe.Theodoro Ratisbonne - A Graça se oferece a nós.

"Uma mulher da Samaria chegou para tirar água". Jo 4,7

A samaritana, ao deixar sua casa em demanda do poço de Jacob, desconhecia o feliz encontro que a aguardava.
Jesus, no entanto, o sabia, e esperava-a para lhe oferecer as águas vivas da graça. Assim é que, no decorrer da vida,
há lugares, momentos, sítios, ocsião em que a Voz divina se faz ouvir súbitamente em nossa alma; ela nos desperta e
ilumina; a graça nos aparece sob a forma mais adequada à disposição de nosso espírito; e, por um movimento
imperceptivel, inclina nossa vontade. A samaritana não comprende imediatamente o valor dos dons divinos; mas vai
gradativamente saboreando-os, à medida que sua atenção se fixa nos ensinamentos sagrados; e sua fé cresce por tal
forma que, animada de chama evangélica, arrebata para Jesus Cristo uma multidão de discípulos. Procuremos
apreciar a importância de não deixar escapar as ocasiões em que a graça se nos oferece; pois, se a negligenciarmos,
fogem e talvés não voltem mais.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Perfeita penitência

" Muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou" Lc 7,47

Conhecemos o triunfo da graça no coração de uma pecadora! Madalena muito havia amado,mas amara a criatura
em lugar do Criador; eis por que muito pecara, pois a adoração à criatura é o pecado da idolatria.Arrancando o seu
coração às coisas caducas para restituí-lo ao seu Deus, reparou ela o amor profano por um amor sagrado, e foi está a
sua perfeita penitência. Afirma a Sagrada Escritura que o verdadeiro amor cobre a multidão dos pecados. Assim
Madalena, doando seu coração a Jesus, não cessou de amar, mudou apenas o objetivo do seu amor e, em lugar de
um sentimento falso e passageiro, que traz sempre decepção, dores e aborecimento, fixou-se no eterno amor, fonte
de dignidade, paz e santidade.

Pe.Teodoro Ratisbonne - A verdadeira piedade.

"Nem todos os que me dizem : Senhor, Senhor! entrarão no Reino dos céus; mas somente entrará aquele que fez a
vontade de meu Pai." Mt 7,21

O texto que se apresenta à nossa meditação prova que é vã toda devoção, seja qual for seu caráter, que não tenda a
corformar nossa vontade com a vontade de Deus; pois o Senhor pede o sacrifício de nossa própria vontade e é
somente pela obediência que executamos este sacrificio. A verdadeira piedade não consiste nos jejuns, nem nas
mortificações, nem nas consolações,mas esclusivamente na conformidade de todos os nossos atos com a vontade
divina. A mais perigosa ilusão nos caminhos de Deus consiste na prática da virtude fora da obediência; encobrimos
nossas próprias vontades com o véu da vontade de Deus e temos a pretenção de obedecer ao Senhor, quando, na
realidade, não cumprimos mais do que a nossa própria vontade. Os que se entregam a essa falsa devoção têm
sempre sobre os labios o nome do Senhor.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Morada permanente. (2)


" Jesus, tendo entrado em uma barca, voltou para a sua cidade". Mt 9,1

Ensina-nos o Evangelho que o reino de Deus está dentro de nós e que precisamos entrar em nosso coração para
ficamos unidos ao Deus de amor. Como o Senhor é o Santo dos Santos, não é admissível que coabite com os ídolos e,
por conseguinte, não podemos possui-lo na cidade da nossa alma, a não ser sob a condição de a purificamos e de lha
consagrarmos inteiramente, a fim de que, a exemplo de Sião, seja ela uma cidade forte, santa, onde reine a paz, a
ordem e a concórdia. Jesus Cristo é o prícipe da paz e entrega-se ás almas purificadas. "Estas em nós, ó Senhor, e
vosso santo nome foi sobre nós invocado", dizia o profeta Jeremias. Sussurrou a voz à Esposa: "Prepara tua alma,
porque eis vem o Esposo! Abre tuas portas; eis o Deus das virtudes!"

Pe.Theodoro Ratisbonne - Morada permanente. (1)

" Jesus , tendo entrado em uma barca, voltou para a sua cidade" Mt 9,1

Qual é a cidade de Jesus de que fala o evangelho? Pois não possuia nem pedra onde repousar a cabeça!... A cidade
de Jesus Cristo, explicam os intérpretes é o simbolo do coração humano, onde o salvador fixa morada permanente.
Ele não desceu do céu para ficar nas habitações terrestres; e se permanece nos templos a ele consagrados, aí fica
somente de passagem, transitoriamente, como a um lugar de repouso, onde nos espera. O vasto mundo é um
templo onde refulgem as maravilhas de sua onipotência; mas o coração humano é o lugar sagrado onde se realiza o
mistério do seu amor.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Cooperar com vontade.(2)

“Se alguém quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” Mc 8,34

A Verdadeira boa vontade - frente ao chamado – é essencialmente pratica; ela abraça de coração, com uma coragem
perseverante, todos os meios que apontam para o fim que ela persegue; se fortifica na luta como a virtude cresce na
adversidade, como o gênio se desdobra em face ao obstáculo. A grande qualidade que caracteriza a vontade é a
coragem. Mas à coragem é necessário acrescentar a perseverança. É necessário perseverar hoje, perseverar
amanhã, perseverar dia após dia se comprazendo na graça prometida em razão da fidelidade. O fogo sagrada esta
aceso mas é necessário manter e renova-lo a cada dia.

Pe. Theodo Ratisbonne - Cooperar com vontade. (1)

" Se alguém quiser me seguir , negue-se a sí mesmo , tome a sua cruz e siga-me". Mc 8,34

Podeis ouvir, o Senhor não força ninguém ; ele não aceita senão as oferendas voluntárias : se alguém quiser. É
necessário querer. Porque todo o valor de um homem, bem como sua força, reside na sua vontade. Quem poderia
constranger o amor? E qual seria o preço se alguém o pudesse arrancar com violência? Seu mérito consiste em se
doar voluntario e livremente.

Os homens que chamamos - homens de fibra - são aqueles que sabem querer com energia. Eles são mais raros do
que pessamos. A maior parte deixa enferrujar, na capa, o gládio da boa vontade; eles ignoram a potência da qual são
providos e sua indolência os torna nulos no campo de batalha da vida.

Pe.Theodoro Ratisbonne - Mútua ajuda entre os discípulos do Senhor.

“ Os apóstolos fizeram sinal aos seus companheiros que estavam em outra barca, para virem ajudá-los” Lc 5,7

Para chamar em seu auxilio os companheiros, bastou aos apóstolos um pequeno sinal; à caridade não era preciso
mais. Os servos de um mesmo Senhor, unidos em um mesmo espírito, não necessitam muitas palavras para se
compreenderem. Ocupam, em verdade, barcos diferentes, mas não estão ali encerrados como em esferas fechadas,
nem tão pouco integralmente absortos em seus afazeres que não se interessem com simpatia pelos trabalhos
alheios. Antes, pelo contrário, comprazem-se até em se prestarem mutuamente seus serviços, e trocam provas de
amizade fraterna.

Pe. Theodoro Ratisbonne - As núpcias do Filho do Rei

“ E enviou seus servos a chamar às núpcias aqueles que convidara”


Pelo orbe imenso, desde o oriente até ao ocidente, estende o Senhor uma mesa santa, onde as almas escolhidas
comem o pão do amor e tomam a bebida da imortalidade. O festim e comparado aos regozijos núpcias, porque esse
mistério nos une ao Senhor e permite-nos sentir o grande amor de Deus pelas suas criaturas, feitas à sua imagem.
Possa este amor excitar o nosso!

Pe. Theodoro Ratisbonne - Migalhas Evangélicas (comentario de textos biblicos)

" Comeram e ficaram fartos". Mc 8,8

Nenhum alimento, por mais saboroso e espiritual que seja, poderia satisfazer-nos enquanto não saciasse nosso
coração. Ora, uma só coisa pode encher a profundidade do coração humano. Esta coisa única é o amor infinito; e
este amor é Deus. “ Deus é amor” , lemos no Evangelho, e “ o amor se fez carne” . O amor encarnado é Jesus Cristo e
Jesus Cristo tornou-se nosso pão, nosso alimento e nossa bebida. Só ele, por conseguinte, responde às mais íntimas
necessidades da nossa alma. Somente ele cumula nossos desejos, aplaca nossa fome, estanca nossa sede e enche
totalmente a capacidade de nosso coração.Se temos o coração farto de amor, que nos resta mais desejar.

“Consideremos a bondosa tolerância de Jesus para com os fariseus. Tolerância esta aplicada somente às pessoas e
nunca à doutrina. Condescendente, Nosso Senhor suporta criaturas atacadas de cegueira e chega-se a elas para as
instruir e edificar; quanto a seus erros, combate-os e fulmina-os. É este o espírito da Igreja Católica: combater sem
tréguas o pecado e a heresia, demonstrando, ao mesmo tempo, indulgência caridosa para com os pecadores e
hereges. Ao passo que no campo adversário, sucede justamente o contrário; os hereges toleram todas as doutrinas
errôneas, guardando sua intolerância apenas para os que professam a verdade.” (Pe.Teodoro Ratisbonne, Migalhas
Evangélicas, Vozes, 1941, página 349)

Evangelho - Meditações
MEDITAÇÕES

Seguem algumas meditações do Padre Teodoro Ratisbone, um ex banqueiro judeu que se converteu diante de uma
imagem de Nossa Senhora, ordenou-se sacerdote e foi o fundador do Padre de SION. Nossa Mãezinha desde o início
de nosso carisma pede para que façamos ressurgir SION, que afundou-se nos caminhos da má teologia e precisa
voltar ao verdadeiro carisma, que é a busca pela conversão do povo judeu, ainda na lei antiga. Deus quer precisar
destes sacerdotes, e por isso eles precisam de muitas orações, inclusive pelos seminaristas que lá se acham. Terrivel
a batalha dos meninos.

QUINTO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA

Parábola do trigo e do jóia (MT 13,24-30)

I – Nosso Senhor nos ajuda a compreender os mistérios do mundo sobrenatural, pela consideração das leis que
regem a natureza visível; porque as coisas que se vêem, diz São Paulo, são imagens das realidades que não caem sob
os sentidos. A natureza é, sob este ponto de vista, uma escola de ciência e de sabedoria cujas lições nos repetem,
sob formas simbólicas, os ensinamentos da Palavra de Deus. Esta admirável concordância nos foi explicada pelo
próprio Senhor, na parábola do trigo e do joio. O campo de trigo é o mundo; a boa semente é a imagem dos filhos
de Deus; o joio representa os frutos do espírito do mal; a colheita é o julgamento de Deus; os ceifadores são os
anjos; o fogo que deve consumir o joio é o inferno; os celeiros onde são recolhidas as espigas de trigo é o céu.
Observemos os diversos graus de profundeza desta parábola. Aplica-se ao mundo, que Deus criou puro, e que o
demônio perverteu; aplica-se à Igreja, que Deus formou cheia de graça e de verdade, e em que o inimigo fomentou
escândalos; aplica-se a cada fiel que Deus santificou, e que o demônio procura corromper.

Aprendamos a discernir o que em nós e fora de nós vem de Deus ou do demônio, a fim de resistirmos ao mal e
cultivarmos o bem.

II – A semelhança do campo de trigo com a vida do cristão sobre a terra induz-nos a refletir nas condições dos nossos
eternos destinos. Nossa existência atual é o início de uma vida que jamais se findará. Aqui estamos no tempo da
sementeira, da cultura e dos primeiros desenvolvimentos; mas a maturação só é atingida no termo da vida e a
perfeição completa somente se alcançará no mundo do além. Vivemos na esperança; o campo está semeado; mas
quantas ervinhas inúteis, quanto joio se entremeiam ao trigo! Serão reconhecidos pelo produto. O dono é paciente:
espera. E somente ao fim da colheita, quando todos os germes houverem atingido seu pleno desenvolvimento, é
que Deus dará a cada um segundo suas obras.

Que deslumbramento nos inebriará no grande dia da colheita, se, fiéis à graça e vitoriosos do inimigo, nos virmos
admitidos na sociedade dos santos e dos bem-aventurados.

OUTRA

Jesus aparece aos apóstolos na Galiléia (Mt 28, 16-20)

I – Os apóstolos reunidos na Galiléia sobre o monte que lhes fora designado, viram novamente o Senhor e
receberam de sua boca o ministério da pregação evangélica: “Ide, ensinai a todas as nações, batizai-as em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinai-lhes tudo o que vos ordenei!” Vão eles se espalhar por todas as regiões
do globo e, como o sol, irradiar a palavra da vida. Não quer isto significar que, antes de Jesus Cristo, Deus não
ensinara ao mundo, mas é que a revelação, confiada aos patriarcas e transmitida pelos profetas aos pontífices de
Israel, não transpusera ainda os limites da Judéia. “Deus falara a nossos pais em diversas circunstâncias e por
diversos modos: ultimamente falou-nos por Seu próprio Filho” (Hb 1, 1.2). A doutrina da salvação rompeu então os
diques e alastrou-se como um caudaloso rio, a fim de congregar todos os povos e uma só unidade.

Esta unidade, objetivo máximo do cristianismo, só pode estabelecer-se e subsistir, lá, onde a palavra divina cativa a
submissão do espírito e a adesão do coração.

II – Os doze apóstolos são os patriarcas do povo de Deus. Recebem e transmitem a seus sucessores a missão de
fecundar as almas pela palavra e regenerá-las pelo batismo. O Senhor apóia a missão apostólica sobre uma poderosa
promessa: “Eis que estarei convosco até a consumação dos séculos”. A presença de Nosso Senhor em Sua Igreja não
será mais visível após a sua ascensão; mas é real e permanente no Santíssimo Sacramento do Altar, no mistério da
infalibilidade da Santa Sé e nas funções sacramentais do sacerdócio católico. Jesus continua a dirigir realmente a Sua
Igreja e a manifestar nela a sua assistência quer em meio de conquistas, triunfos e obras divinas. Eis o motivo da
inquebrantável coinfiança cristã; ela é inacessível ao temor e à dúvida; firma-se no rochedo da promessa de Deus; é
sólida como a montanha de Sião, diz o salmista real.

Maria é a salvação dos enfermos

Quando a caridade dos habitantes de Decápole obteve a cura milagrosa de um surdo-mudo, que poderemos esperar
da intervenção de Maria em prol dos enfermos, dos pecadores, dos aflitos de qualquer espécie?

É a Mãe do Médico; é igualmente a Mãe dos enfermos. Sob estes dois títulos, solicita os remédios divinos e
apresenta-os aos que lhos imploram. Vai ainda além: compadece-se dos surdos que não escutam, empresta sua voz
aos que não falam. Seu coração supre o que falta ao nosso e, por sua caridade poderosa e ativa, concorre para
reerguer as almas abatidas.

Lembremos à nossa divina Mãe que, segundo a linguagem das Escrituras, foi em Israel que ela deitou profundas
raízes; e supliquemos os favores de sua intercessão em benefício dos descendentes do seu povo que permanecem
surdos e mudos.

Pe. Teodoro Ratisbonne, Migalhas Evangélicas, Editora Vozes, 1941

http://www.recadosaarao.com.br/artigo_ler.asp?id_artigo=3896

" O cristão confiante na divina Providência possui sua alma em paz constante. Com filial submissão, recebe tudo das
mãos de Deus, tudo, seja prosperidade, seja adversidade. De ambos saberá tirar proveito, porque ama; e o amor
contém o segredo de tudo reverter para o bem. Soe a hora da tribulação, rujam tempestades, estremeça-lhe a terra
sob os pés... o cristão permanece de pé, firme, apoiado no rochedo da confiança!"

(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne)

QUARESMA: Esgotado o tempo da penitência, todo arrependimento será inútil


À entrada dos quarenta dias consagrados à penitência, a Igreja assume a voz severa dos profetas, para nos exortar à
renovação na graça de Deus. Felizes as almas que respondem ao solene convite; pois aproxima-se a data em que a
trombeta do arcanjo anunciará o fim das provações terrestres. Ter-se-á, então, esgotado o tempo da penitência,
todo arrependimento será inútil. Façamos agora sem dilação o que, no último dia, desejaríamos ter feito. "Agora é a
ocasião, propícia, diz o apóstolo, dias de graça e de salvação". Roguemos a Deus que em nós excite o
arrependimento de nossas faltas e que nos conceda um coração contrito e humilde.

A penitência não consiste unicamente em abstinências e mortificações corporais; visa sobretudo o coração, a
vontade e a conduta. Fazer penitência é afastar nosso amor de toda afeição viciosa, para amar puramente a Deus; é
renunciar a todas as satisfações passageiras, para obedecer filialmente à vontade de Deus; é reformar as
imperfeições de nossa conduta, para viver santamente segundo a lei de Deus; em suma, fazer penitência é trabalhar
para a destruição do homem caduco, para auxiliar a ressurreição do homem novo. Mas o espírito de penitência não
poderia reanimar os que julgam justos e virtuosos, mas tão somente àqueles que a título de pecadores, imploram a
misericórdia do Senhor. Sirvamo-nos das palavras de Davi para pedir a Deus o espírito de penitência e se não
podemos empregar austeridades voluntárias para nos castigarmos, ao menos aceitemos de bom grado as aflições,
trabalhos, acidentes e sacrifícios que a Providência nos impõe.

Migalhas evangélicas, pelo Pe. Teodoro Ratisbonne, editora Vozes, 1941

"Nosso Senhor não nos diz que nossa tristeza será substituída pela alegria, mas sim que se transformará em alegria;
porque, efetivamente, contém os germens da verdade felicidade, assim como a nuvem encobre o raio luminoso,
como o cálice da flor contém o perfume. Mas é preciso que a nuvem se rasgue para que jorre a luz; que o botão se
rompa para que desabroche a flor. Da mesma forma, sobrevém a alegria à tristeza após as provações pelos
sofrimentos e pela paciência. A árvore da cruz distila bálsamo que, com o tempo, troca em doçuras todas as
amarguras."

(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne)

Caros amigos, permitam-me reproduzir aqui um trecho de uma meditação do Padre Teodoro Ratisbonne (1802-
1884), judeu convertido, que foi fundador das Religiosas de Nossa Senhora de Sion:

“Consideremos a bondosa tolerância de Jesus para com os fariseus. Tolerância esta aplicada somente às pessoas e
nunca à doutrina. Condescendente, Nosso Senhor suporta criaturas atacadas de cegueira e chega-se a elas para as
instruir e edificar; quanto a seus erros, combate-os e fulmina-os. É este o espírito da Igreja Católica: combater sem
tréguas o pecado e a heresia, demonstrando, ao mesmo tempo, indulgência caridosa para com os pecadores e
hereges. Ao passo que no campo adversário, sucede justamente o contrário; os hereges toleram todas as doutrinas
errôneas, guardando sua intolerância apenas para os que professam a verdade.”

(Pe.Teodoro Ratisbonne, Migalhas Evangélicas, Vozes, 1941, página 349)

"A inveja, amargo fruto do amor próprio, é o vício capital em oposição à caridade evangélica. Esta se dedica
totalmente ao próximo, enquanto a inveja concentra tudo em si. A caridade é um sentimento expansivo, que se
regozija com a felicidade alheia; a inveja, pelo contrário, é uma paixão que retrai o coração e o empedernece. Pela
caridade, permanecemos em Deus, e Deus em nós; pela inveja, afastamo-nos de Deus e isolamo-nos de nossos
irmãos. Para triunfarmos das tentações da inveja, devemos ser generosamente abnegados. A humildade unida à
oração assídua é que alcança essa vitória, porque atrai o espírito de Deus. Vencerão o mal pelo bem e crescerão para
o céu, aqueles que preferirem os últimos lugares na terra."

(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne)

"A verdadeira devoção é, antes de tudo, desinteressada; isto significa que, visando unicamente Deus, não se busca a
si e, como a Deus tudo reverte, nada sobra para a vanglória. Por conseguinte, não ambiciona nem as homenagens,
nem os louvores humanos. É humilde, antes de tudo; e, em vista disto, é-lhe preferível um defeito que a humilhe, é
também caridosa. A humildade não admite nem interpretações maliciosas, nem comparações desfavoráveis; ela não
julga, não murmura, não se lamenta, não nutre pretensões; logo, não sofre decepções. Que a nossa piedade se
abrigue sob o manto da humildade, afim de alcançarmos de Deus nosso Senhor o perdão e a misericórdia, como o
publicano do Evangelho."

(Migalhas Evangélicas por Padre Teodoro Ratisbonne)


21 de Novembro - Apresentação da Santíssima Virgem MARIA !!!
"Felicitai-me, vós, que amais o Senhor,

pois que enquanto ainda era jovem fui agradável ao Altíssimo"

(Ofício da Igreja)

I- A consagração da Santíssima Virgem no Templo abre o caminho das vocações religiosas. Daví contemplara esse
mistério e em seu inspirado salmo 44 canta a aliança nupcial contraída pelas almas eleitas com o Deus de amor:

"Ó Rei! sobrepujais em beleza a todos os filhos dos homens; a graça se expande em vossos lábios e vossas vestes
exalam o perfume da mirra, do âmbar e do aloés. As filhas dos príncipes foram deles perfumadas e inebriadas,
buscaram a honra da vossa aliança. A Rainha conservou-se à vossa destra, adornada com um manto de ouro e de
uma variedade infinita de riquezas. Ouve, filha minha, e sê atenta a minhas palavras; esquece o teu povo e a tua
parentela, e o Rei do céu te cumulará de amor, pois que Ele é o Senhor teu Deus, poderoso e adorável. A glória da
filha do Rei está em si mesma e seu fulgor apaga os esplendores de suas vestimentas. Outras virgens virão após e
consagrar-se-ão ao Rei dos reis; serão apresentadas no templo com transportes de júbilo!"

II- Sob o véu das palavras simbólicas do salmista, entrevemos o glorioso destino das almas que seguem as pegadas
de Maria e formam o cortejo sagrado do Cordeiro de Deus. Apresentam-se no templo para, à sombra do santuário,
prepararem-se às bodas divinas. Vocação sublime que eleva as mais humildes criaturas ao próprio trono de Deus!
Nessa trajetória ascendente, a noiva do Rei dos anjos deixa parentes, família, fortuna, pátria: tudo abandona para
receber o cêntuplo. Um só pensamento a domina, uma única aspiração a impulsiona: satisfazer ao celeste Esposo.
Deve estar morta em meio a todas as coisas do mundo; seus entretenimentos estão no céu, enquanto aguarda o dia
de sua apresentação no templo da glória.

(Migalhas Evangélicas por Padre Teodoro Ratisbonne, 1941)

http://swytztavares.blogspot.com.br/2011/11/21-de-novembro-apresentacao-da.html

"O exemplo de São João Batista, enviando seus discípulos a Jesus, deve servir de regra aos pais e a todos que
instruem ou dirigem almas. Ai dos pais e a todos que instruem ou dirigem almas. Ai dos que, por interesse
mercenário ou para obedecer a um impulso do amor próprio, trouxerem presas em suas malhas as almas que
deviam formar para Jesus Cristo! Jesus é o Esposo, o Deus zeloso, o único Senhor e Mestre, o foco único para onde
deve convergir todo o amor. Colocar outro em Seu lugar é adorar a criatura, renovar as prevaricações da idolatria, é
destruir a ordem da criação. Por conseguinte, o amor filial, bem como o amor fraterno, só é legítimo, salutar e
sagrado, quanto tem por princípio e por fim: Jesus Cristo, o Deus do amor. É em Jesus Cristo que os laços de amizade
se purificam, consolidam e se perpetuam na eternidade.

Meditemos a conduta de São João e a dos seus discípulos. Estes não violam os direitos de Jesus Cristo pelo amor que
dedicam ao santo Precursor; João não usurpa os títulos de Jesus Cristo pelo amor que o une aos próprios discípulos.
O mútuo amor que se dedicam só tem por fim Jesus Cristo."

(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne, 1941)

" O cristão confiante na divina Providência possui sua alma em paz constante. Com filial submissão, recebe tudo das
mãos de Deus, tudo, seja prosperidade, seja adversidade. De ambos saberá tirar proveito, porque ama; e o amor
contém o segredo de tudo reverter para o bem. Soe a hora da tribulação, rujam tempestades, estremeça-lhe a terra
sob os pés... o cristão permanece de pé, firme, apoiado no rochedo da confiança!"

(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne)

"Nosso Senhor não nos diz que nossa tristeza será substituída pela alegria, mas sim que se transformará em alegria;
porque, efetivamente, contém os germens da verdade felicidade, assim como a nuvem encobre o raio luminoso,
como o cálice da flor contém o perfume. Mas é preciso que a nuvem se rasgue para que jorre a luz; que o botão se
rompa para que desabroche a flor. Da mesma forma, sobrevém a alegria à tristeza após as provações pelos
sofrimentos e pela paciência. A árvore da cruz distila bálsamo que, com o tempo, troca em doçuras todas as
amarguras."
(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne)

"O Deus do nosso coração se afasta ou se aproxima de nós, conforme for preciso ao nosso aperfeiçoamento; e, em
ambas as alternativas, proporciona Suas graças à nossa felicidade. Muitas vezes, somos nós que afastamos Jesus, e
nós que O fazemos voltar. A Sagrada Escritura afirma que a graça foge dos presunçosos e repousa nos humildes.
Queremos atrair Jesus e desfrutar as delícias de Sua presença? Expulsemos do nosso espírito tudo que Lhe
desagrada e arranquemos do nosso coração tudo que possa ofendê-lO. Tomemos, pois, a resolução de, quer
sejamos consolados por graças sensíveis, quer nos vejamos molestados por privações e sacrifícios, sujeitar-nos
humildemente à vontade divina e não cessar jamais de amar, louvar a Deus, sempre a Ele implorando

e nEle confiando."

(Migalhas Evangélicas por Padre Teodoro Ratisbonne)

"Há duas espécies de tristeza: uma procede do amor de Deus, a outra do amor próprio. A primeira é um sentimento
sobrenatural que invade a alma amorosa; tristeza calma e santa que excita as lágrimas da compunção e da prece. A
outra esconde o veneno da oposição à vontade de Deus ou de agastamento contra o próximo ou de egoísta
susceptibilidade. É denominada na Sagrada Escritura: má tristeza, porque descolora a piedade, enerva o ânimo e
desseca a vida interior. Observa São Bernardo que a má tristeza devora a substância da alma, como o cupim corrói a
madeira."

(Migalhas Evangélicas por Padre R. Teodoro Ratisbonne, 1941)

Tempo de Quaresma
“Fazei soar a trombeta e,

Sião, e ordenai um jejum sagrado”

(Joel 2,15)

I – À entrada dos quarentas dias consagrados à penitência, a Igreja assume a voz severa dos profetas, para nos
exortar à renovação na graça de Deus. Felizes as almas que respondem ao solene convite; pois aproxima-se a data
em que a trombeta do arcanjo anunciará o fim das provações terrestres. Ter-se-á, então, esgotado o tempo da
penitência, todo arrependimento, será inútil. Façamos agora sem dilação o que, no último dia, desejaríamos ter
feito. “Agora é a ocasião, propícia, diz o apóstolo, dias de graça e de salvação”. Roguemos a Deus que em nós excite
o arrependimento de nossas faltas e que nos conceda um coração contrito e humilde.

II- A penitência não consiste unicamente em abstinências e mortificações corporais; visa sobretudo o coração, a
vontade e a conduta. Fazer penitência é afastar nosso amor de toda afeição viciosa, para amar puramente a Deus; é
renunciar a todas as satisfações passageiras, para obedecer filialmente à vontade de Deus; é reformar as
imperfeições de nossa conduta, para viver santamente segundo a lei de Deus; em suma, fazer penitência é trabalhar
para a destruição do homem caduco, para auxiliar a ressurreição do homem novo. Mas o espírito de penitência não
poderia reanimar os que julgam justos e virtuosos, mas tão somente àqueles que a título de pecadores, imploram a
misericórdia do Senhor. Sirvamo-nos das palavras de Davi para pedir a Deus o espírito de penitência e se não
podemos empregar austeridades voluntárias para nos castigarmos, ao menos aceitemos de bom grado as aflições,
trabalhos, acidentes e sacrifícios que a Providência nos impõe.

(Migalhas evangélicas, pelo Pe. Teodoro Ratisbonne, editora Vozes, 1941)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/03/tempo-de-quaresma.html

Tempo de Quaresma

“Fazei soar a trombeta e,

Sião, e ordenai um jejum sagrado”

(Joel 2,15)
I – À entrada dos quarentas dias consagrados à penitência, a Igreja assume a voz severa dos profetas, para nos
exortar à renovação na graça de Deus. Felizes as almas que respondem ao solene convite; pois aproxima-se a data
em que a trombeta do arcanjo anunciará o fim das provações terrestres. Ter-se-á, então, esgotado o tempo da
penitência, todo arrependimento, será inútil. Façamos agora sem dilação o que, no último dia, desejaríamos ter
feito. “Agora é a ocasião, propícia, diz o apóstolo, dias de graça e de salvação”. Roguemos a Deus que em nós
excite o arrependimento de nossas faltas e que nos conceda um coração contrito e humilde.

II- A penitência não consiste unicamente em abstinências e mortificações corporais; visa sobretudo o coração, a
vontade e a conduta. Fazer penitência é afastar nosso amor de toda afeição viciosa, para amar puramente a Deus; é
renunciar a todas as satisfações passageiras, para obedecer filialmente à vontade de Deus; é reformar as
imperfeições de nossa conduta, para viver santamente segundo a lei de Deus; em suma, fazer penitência é trabalhar
para a destruição do homem caduco, para auxiliar a ressurreição do homem novo. Mas o espírito de penitência não
poderia reanimar os que julgam justos e virtuosos, mas tão somente àqueles que a título de pecadores, imploram a
misericórdia do Senhor. Sirvamo-nos das palavras de Davi para pedir a Deus o espírito de penitência e se não
podemos empregar austeridades voluntárias para nos castigarmos, ao menos aceitemos de bom grado as aflições,
trabalhos, acidentes e sacrifícios que a Providência nos impõe.

(Migalhas evangélicas, pelo Pe. Teodoro Ratisbonne, editora Vozes, 1941)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/03/tempo-de-quaresma.html

PENSAMENTO DO DIA 04/10/2011


"A verdadeira devoção é, antes de tudo, desinteressada; isto significa que, visando unicamente Deus, não se busca a
si e, como a Deus tudo reverte, nada sobra para a vanglória. Por conseguinte, não ambiciona nem as homenagens,
nem os louvores humanos. É humilde, antes de tudo; e, em vista disto, é-lhe preferível um defeito que a humilhe, é
também caridosa. A humildade não admite nem interpretações maliciosas, nem comparações desfavoráveis; ela não
julga, não murmura, não se lamenta, não nutre pretensões; logo, não sofre decepções. Que a nossa piedade se
abrigue sob o manto da humildade, afim de alcançarmos de Deus nosso Senhor o perdão e a misericórdia, como o
publicano do Evangelho."

(Migalhas Evangélicas por Padre Teodoro Ratisbonne)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/10/pensamento-do-dia-04102011.html

PENSAMENTOS DO DIA 08/10/2011

"A inveja, amargo fruto do amor próprio, é o vício capital em oposição à caridade evangélica. Esta se dedica
totalmente ao próximo, enquanto a inveja concentra tudo em si. A caridade é um sentimento expansivo, que se
regozija com a felicidade alheia; a inveja, pelo contrário, é uma paixão que retrai o coração e o empedernece. Pela
caridade, permanecemos em Deus, e Deus em nós; pela inveja, afastamo-nos de Deus e isolamo-nos de nossos
irmãos. Para triunfarmos das tentações da inveja, devemos ser generosamente abnegados. A humildade unida à
oração assídua é que alcança essa vitória, porque atrai o espírito de Deus. Vencerão o mal pelo bem e crescerão para
o céu, aqueles que preferirem os últimos lugares na terra."

(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/10/pensamentos-do-dia-08102011.html

PENSAMENTO DO DIA 11/10/2011

"Nosso Senhor não nos diz que nossa tristeza será substituída pela alegria, mas sim que se transformará em alegria;
porque, efetivamente, contém os germens da verdade felicidade, assim como a nuvem encobre o raio luminoso,
como o cálice da flor contém o perfume. Mas é preciso que a nuvem se rasgue para que jorre a luz; que o botão se
rompa para que desabroche a flor. Da mesma forma, sobrevém a alegria à tristeza após as provações pelos
sofrimentos e pela paciência. A árvore da cruz distila bálsamo que, com o tempo, troca em doçuras todas as
amarguras."

(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne)


http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/10/pensamento-do-dia-11102011.html

PENSAMENTO DO DIA 20/10/2011

PENSAMENTO DO DIA 20/10/2011

" O cristão confiante na divina Providência possui sua alma em paz constante. Com filial submissão, recebe tudo das
mãos de Deus, tudo, seja prosperidade, seja adversidade. De ambos saberá tirar proveito, porque ama; e o amor
contém o segredo de tudo reverter para o bem. Soe a hora da tribulação, rujam tempestades, estremeça-lhe a terra
sob os pés... o cristão permanece de pé, firme, apoiado no rochedo da confiança!"

(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/10/pensamento-do-dia-20102011.html

PENSAMENTO DO DIA 23/10/2011

"O Deus do nosso coração se afasta ou se aproxima de nós, conforme for preciso ao nosso aperfeiçoamento; e, em
ambas as alternativas, proporciona Suas graças à nossa felicidade. Muitas vezes, somos nós que afastamos Jesus, e
nós que O fazemos voltar. A Sagrada Escritura afirma que a graça foge dos presunçosos e repousa nos humildes.
Queremos atrair Jesus e desfrutar as delícias de Sua presença? Expulsemos do nosso espírito tudo que Lhe
desagrada e arranquemos do nosso coração tudo que possa ofendê-lO. Tomemos, pois, a resolução de, quer
sejamos consolados por graças sensíveis, quer nos vejamos molestados por privações e sacrifícios, sujeitar-nos
humildemente à vontade divina e não cessar jamais de amar, louvar a Deus, sempre a Ele implorando

e nEle confiando."

(Migalhas Evangélicas por Padre Teodoro Ratisbonne)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/10/pensamento-do-dia-23102011.html

PENSAMENTO DO DIA 06/11/2011

"Há duas espécies de tristeza: uma procede do amor de Deus, a outra do amor próprio. A primeira é um sentimento
sobrenatural que invade a alma amorosa; tristeza calma e santa que excita as lágrimas da compunção e da prece. A
outra esconde o veneno da oposição à vontade de Deus ou de agastamento contra o próximo ou de egoísta
susceptibilidade. É denominada na Sagrada Escritura: má tristeza, porque descolora a piedade, enerva o ânimo e
desseca a vida interior. Observa São Bernardo que a má tristeza devora a substância da alma, como o cupim corrói a
madeira."

(Migalhas Evangélicas por Padre R. Teodoro Ratisbonne, 1941)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/11/pensamento-do-dia-06112011.html

Apresentação da Santíssima Virgem

Nota do blogue: Aproveito o tema deste post para parabenizar o blogue Alexandria Católica pelo seu primeiro
aniversário. Que a Santíssima Virgem seja luz para seus passos.

21 de Novembro

Apresentação da Santíssima Virgem

"Felicitai-me, vós, que amais o Senhor,

pois que enquanto ainda era jovem fui agradável ao Altíssimo"

(Ofício da Igreja)
I- A consagração da Santíssima Virgem no Templo abre o caminho das vocações religiosas. Daví contemplara esse
mistério e em seu inspirado salmo 44 canta a aliança nupcial contraída pelas almas eleitas com o Deus de amor:

"Ó Rei! sobrepujais em beleza a todos os filhos dos homens; a graça se expande em vossos lábios e vossas vestes
exalam o perfume da mirra, do âmbar e do aloés. As filhas dos príncipes foram deles perfumadas e inebriadas,
buscaram a honra da vossa aliança. A Rainha conservou-se à vossa destra, adornada com um manto de ouro e de
uma variedade infinita de riquezas. Ouve, filha minha, e sê atenta a minhas palavras; esquece o teu povo e a tua
parentela, e o Rei do céu te cumulará de amor, pois que Ele é o Senhor teu Deus, poderoso e adorável. A glória da
filha do Rei está em si mesma e seu fulgor apaga os esplendores de suas vestimentas. Outras virgens virão após e
consagrar-se-ão ao Rei dos reis; serão apresentadas no templo com transportes de júbilo!"

II- Sob o véu das palavras simbólicas do salmista, entrevemos o glorioso destino das almas que seguem as pegadas
de Maria e formam o cortejo sagrado do Cordeiro de Deus. Apresentam-se no templo para, à sombra do santuário,
prepararem-se às bodas divinas. Vocação sublime que eleva as mais humildes criaturas ao próprio trono de Deus!
Nessa trajetória ascendente, a noiva do Rei dos anjos deixa parentes, família, fortuna, pátria: tudo abandona para
receber o cêntuplo. Um só pensamento a domina, uma única aspiração a impulsiona: satisfazer ao celeste Esposo.
Deve estar morta em meio a todas as coisas do mundo; seus entretenimentos estão no céu, enquanto aguarda o dia
de sua apresentação no templo da glória.

(Migalhas Evangélicas por Padre Teodoro Ratisbonne, 1941)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/11/apresentacao-da-santissima-virgem.html

Pensamento da noite de 04/12/2011

"O exemplo de São João Batista, enviando seus discípulos a Jesus, deve servir de regra aos pais e a todos que
instruem ou dirigem almas. Ai dos pais e a todos que instruem ou dirigem almas. Ai dos que, por interesse
mercenário ou para obedecer a um impulso do amor próprio, trouxerem presas em suas malhas as almas que
deviam formar para Jesus Cristo! Jesus é o Esposo, o Deus zeloso, o único Senhor e Mestre, o foco único para onde
deve convergir todo o amor. Colocar outro em Seu lugar é adorar a criatura, renovar as prevaricações da idolatria, é
destruir a ordem da criação. Por conseguinte, o amor filial, bem como o amor fraterno, só é legítimo, salutar e
sagrado, quanto tem por princípio e por fim: Jesus Cristo, o Deus do amor. É em Jesus Cristo que os laços de amizade
se purificam, consolidam e se perpetuam na eternidade.

Meditemos a conduta de São João e a dos seus discípulos. Estes não violam os direitos de Jesus Cristo pelo amor que
dedicam ao santo Precursor; João não usurpa os títulos de Jesus Cristo pelo amor que o une aos próprios discípulos.
O mútuo amor que se dedicam só tem por fim Jesus Cristo."

(Migalhas Evangélicas pelo Padre Teodoro Ratisbonne, 1941)

PS.: Grifos meus.

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/12/pensamento-da-noite-de-04122011.html

Homenagem à Todas as Mães


Invocações das Mães Cristãs

· Ó Maria Santíssima! Virgem Imaculada, Mãe das Dores, falai de nossos amados filhos ao Coração adorável de
Jesus – Intercedei por eles!

· Santos Anjos da Guarda, rogai por eles!

· São José, nosso poderoso Protetor, rogai por eles!

· São João, Discípulo querido do Coração de Jesus, rogai por eles!

· Santa Ana, mãe de Maria Santíssima, rogai por eles!

· Santo Agostinho, serafim de amor, rogai por eles!


· São Luís de Gonzaga, anjo de pureza, rogai por eles!

· Santa Mônica, o amor em lágrimas, rogai por eles!

Oremos: Fazei, Senhor, que as orações e preces das mães cristãs unidas ao Coração de Maria Santíssima, a Mãe das
mães, subam ao Vosso Trono de Graça e obtenham para os nossos filhos a verdadeira virtude, os Dons de piedade e
os Penhores da prosperidade espiritual e temporal; que todos os membros da nossa família conheçam Nosso
Salvador, Jesus Cristo, O amem com fidelidade, O sirvam com perseverança e andem no caminho da salvação eterna,
dignos dos Vossos olhares, cercados da Vossa proteção, cheios de bênçãos e coroados de obras meritórias, a fim de
que os seus nomes se inscrevam com os nossos no Livro da Vida. Amém!

1 Pai Nosso, 1 Ave Maria, 1 Glória ao Pai.

Fonte: Rev. Pe. Theodoro Ratisbonna, “Novo Manual das Mães Cristãs”, 2ª Parte, pp. 390-391; Typographia das
“Vozes de Petrópolis”, Petrópolis – Rio de Janeiro, 1930.

Este blog é composto de textos extraídos do belíssimo e raro livro de 1938 chamado "Novo Manual das Mães
Cristãs" do Reverendíssimo Padre Theodoro Ratisbona da Editora Vozes.

Direção Espiritual

Prefácio

A sociedade.

Quando um navio impelido pela tempestade, encalha no areal, aceitam-se os serviços de quem quer que seja para o
fazer flutuar de novo.

Permita-me, pois, na qualidade de peregrino e humilde viajante, embora, juntar os meus esforços a outros mais
vigorosos, para conjurar os perigos que ameaçam a sociedade.

Eu deixo a outros a missão de restaurar as ciências, as leis, a política, as artes e a literatura: limito-me a falar
diretamente ao coração das mães, pois dai é que partem, com efeito, os impulsos que mais poderosamente
contribuem para a educação dos filhos, para a moralidade das famílias e para a prosperidade dos estados. Este fato
tem produzido impressão em muitos espíritos sérios e sobretudo na atualidade tem sido o objeto de um grande
número de boas obras.

Quantas graças, esperanças e consolações piedosas se ligam a um blog piedoso que concentre em si tudo que há de
mais terno e de mais forte nas efusões de piedade de tantos corações maternais!

Todo mundo conhece o vêemente fervor de uma mãe que reza por seu filho. O Evangelho atesta que o grito do
coração materno toca o coração de Jesus e d´Ele arranca milagres.

Se é tal o poder de uma só mãe, qual será o de uma mutildão de mães unidas na Divina Caridade?!

Há nessa união evangélica um poder vivo, que pode ser organizado em Nossa Senhora, que poderá produzir
resultados maravilhosos. Mas, para consolidar esse blog e mante-lo, é necessário que um mesmo espírito o anime e
dirija. É por isso que oferecemos às mães um manual destinado a nutrir-lhes a piedade, a sustentar-lhes a coragem e
a estimular-lhes a confiança.

Que a Imaculada Virgem, a Mãe das mães, a quem oferecemos esse blog se digne de o abençoar, a fim de ele
produza frutos de consolação.

XI Teologia prática
Nos livros sagrados está escrito que os filhos de Deus formam uma nação que vive de amor e de obediência. Estas
breves palavras resumem a doutrina pregada por Jesus Cristo ao mundo; porquanto, no cristianismo, tudo é amor e
caridade e a felicidade do homem, bem como a sua glória imortal, consiste em apreciar, compreender e praticar esta
divina teologia.
Os mistérios da religião, os sacramentos, os mandamentos, os preceitos da Igreja, em uma palavra, todo o
cristianismo, partem de um princípio de amor e têm por termo último a vida de amor. O próprio Deus não é mais
que amor; e não se poderia melhor defini-lo do que dizendo com o Apostolo: “Deus est caritas”, “Deus é amor”. Nós
achamos nesta palavra inefável a idéia da Trindade, pois que, segundo a observação dos doutores, o amor supõe
Aquele que ama, Aquele que é amado, e a conexão substancial que une um ao outro: três termos distintos em uma
mesma vida, em uma só unidade.

O mistério de amor se encontra em todos os atos exteriores de Deus. A criação inteira não é senão um ato de amor.
Era como que uma necessidade para Deus, diz Santo Agostinho, ter seres aos quais pudesse fazer bem: “ut habert
quibus benefacet”.

E o impulso irresistível do amor não é , com efeito, dar felicidade, fazer felizes?

O homem não compreendeu este benefício supremo. Ingrato e indócil, ele se arredou orgulhosamente do seu
Criador, para se perder nas vias da infidelidade. Mas Deus, longe de o condenar a um eterno esquecimento,
facilitou-lhe a sua graça, estendeu-lhe a mão protetora e ofereceu-lhe o perdão.

A Redenção é, portanto, um novo ato de amor.

Por que é que o Filho de Deus se encarnou na natureza humana?

Por que se encarregou de expiar os pecados do mundo?

Por que morreu como uma vítima sobre a cruz?

A todas estas perguntas o Evangelho não dá senão uma só resposta: “Sic Deus dilexit mundum”. “Assim é que Ele
nos amou”.

Estas divinas graças que se chamam sacramentos, o que são elas, senão atos de amor?

É por estes canais misteriosos que a vida, brotando do coração de Jesus Cristo, chega até nós com uma profusão
perene, para nos purificar e nos santificar.

Os mandamentos e os conselhos evangélicos são igualmente atos de amor: “Tu amarás, tu perdoarás, tu serás
misericordioso! Tu serás perfeito como teu Pai celeste é perfeito!”

Todas as palavras, como todos os atos evangélicos, são efusões do divino amor. Escutemos o Salvador. Quantas
vezes Ele nos diz: Eu vos amo! Ele faz mais: para no dar a medida do seu amor, declara que nos ama como seu Pai
celeste o amou. “Sicut dilexit me Pater et ego dilexi vos”: isto é, que Ele transporta a nós toda a imensidade de amor
de que Ele próprio é objeto; de sorte que a voz do céu que proclama que Jesus Cristo é o Filho bem amado em que o
Pai depos o seu amor e delicias, esta voz celeste se pode aplicar de ora em diante a todos os filhos de Deus. O
Senhor, diz o Evangelho, tendo amado os seus os amou até ao fim; isto é, até as ultimas extremidade de um amor
infinito. Ele justifica esta palavra pelas maravilhas do seu poder. Como uma mãe que nutre seus filhos de seu próprio
sangue transformando em bebida maternal, Jesus Cristo abre o seu coração para se derramar em seus discípulos! Ele
os nutre de sua própria vida e do suco do seu amor.

Como relatar os inumeráveis testemunhos da ternura de Jesus Cristo? A sua predileção é pelos pequeninos: Ele os
acaricia, os abençoa e os chama ao Seu coração. A cegueira de Jerusalám, em vez de indignar a sua justiça, excita a
sua compaixão. Ela acolhe os pecadores e os perdoa: “Que aquele que não tem pecado – diz Ele – lhe atire a
primeira pedra!” Ele é acessível aos pobres, aos enfermos, a todos os que sofrem e gemem; soluça com Marta e
Maria sobre a sepultura de Lázaro; e comove-se a vista das lágrimas de uma pobre mãe que seguia tristemente o
caixão do filho. Ele consola essa mãe aflita e em seu favor opera um milagre: Não choreis, diz-lhe. E entrega-lhe o
filho ressuscitado.

Que diremos nós da sua inexaurível benevolência, mesmo para com os seus detratores, os seus inimigos e os seus
algozes? Que bondade! Que misericordiosa paciência! Até sobre a cruz, no meio dos tormentos e das angustias, Ele
não tem senão pensamentos de amor.
No momento em que expira, Ele roga por aqueles que o crucificaram; e, ao exalar o seu último suspiro, por cumulo
de todas as suas dádivas, lega-nos sua própria Mãe! Ele quer que sua Mãe seja nossa Mãe; e, enquanto acende no
coração de Maria o sol do amor maternal, abrasa o coração dos discípulos de todos os ardores da ternura filial.

Tal é a religião; tal é a doutrina da vida cristã! Certamente, não é com frias palavras que se pode dar uma idéia
dela. Para bem apreciá-la, é preciso a amar; e para a amar, é preciso pô-la em prática.Os verdadeiros discípulos não
são os que dizem: Senhor! Senhor! São os que, dóceis à palavra divina, traduzem a sua fé em ações vivas. Quando a
fé se inflama, ela esclarece o espírito e se manifesta por uma vida santa.

Que a mãe cristã medite estes ensinamentos! São penosos os seus deveres, e o seu cálice se enche as vezes em
demasia. Mas a ciência sagrada lhe dará forças, consolações e esperanças. Se, conforme o Evangelho, tudo é possível
àquele que crê, quão poderoso deve ser aquele que ama! Amai, e vós tereis a chave da Divina Teologia. Amai, e o
Espírito de Deus vos instruirá diretamente com uma unção luminosa.

X - Humildade e mansidão
A virtude evangélica por excelência, a que sustenta todas as outras e de algum modo as substitui, quando elas
faltam, é a humildade.

A gente pode santificar-se e entrar no céu, diz São Clímaco, sem nunca ter feito milagres Nem ações
brilhantes; mas ninguém será jamais admitido na celeste pátria, sem ter sido manso e humilde de coração, a
exemplo de N. S. Jesus Cristo.

O cume das montanhas fica estéril porque as águas do céu não se demoram nele e descem, ao contrário,
para banhar e fertilizar os vales. Assim também os raios do Altíssimo, resvalando apenas nas almas presunçosas, vão
pousar sobre os humildes para os iluminar e enriquecer. Está escrito que Deus resiste aos soberbos e não concede a
sua graça e a sua luz senão aos humildes.

O conhecimento experimental de nós mesmo deve produzir a humildade. Entregues unicamente as nossas
forças e aos nossos próprios pensamentos, seriamos impotentes e incapazes de virtude, de progresso e de perfeição.

Acrescente a isso o peso de nossa natureza terrestre que gravita incessantemente para o mal e desde a
infância, instintos funestos se insurgem contra as atrações nobres de uma natureza mais elevada.

Reconhecer estes fatos, encará-los sob todos os seus aspectos e confessá-los sem restrição e sem
fingimento, é permanecer na verdade e fazer justiça a si mesmo, eis no que consiste a humildade.

Sem dúvida que, no íntimo, geralmente se testemunha isto. Consente=se mesmo em confessar algumas
verdades a face do mundo, dizendo-se por exemplo: Eu sou fraco e incapaz; não tenho virtudes, nem talento! Mas
porventura esta linguagem é sincera? Não; e a prova de que a vossa confiança não se acha de acordo com as vossas
palavras, é que vós não suportais na boca dos outras a mesma opinião a vosso respeito.

Nós, de bom grado, afirmamos as nossas fraquezas, exageramo-las mesmo; mas com a condição de que os
outros o não acreditem, ou de que acreditem justamente o contrário. Salvo o caso de uma completa obcecação, nós
sabemos muito bem quão pouco valemos; mas não queremos que os outros o saibam e ainda menos que se atrevam
a dizê-lo.

Somos pequenos e queremos parecer grandes; somos ignorantes e queremos parecer instruídos; somos
pobres, e queremos parecer ricos; somos obscuros, e queremos a todo o preço atrair a atenção e as homenagens do
mundo. A verdadeira humildade condena estas enganadoras aparências; ela mantém na simples verdade os
sentimentos inferiores e os põe em harmonia com as palavras e com as obras.

A humildade é o princípio de todos os atos de N. S. Jesus Cristo. Ela é que O faz descer do céu sobre a terra;
que O faz nascer em um presépio; que O faz obscuro e submisso em Nazaré, penitente no deserto e confundido sob
as vestes ignominiosas dos crimes do homem. Ela inspira todas as Suas palavras, dirige todas as ações da Sua vida
pública, e O rebaixa aos olhos do mundo inteiro sobre o Calvário. E é porque Ele se aniquilou até ao ponto de se
fazer semelhante ao último dos homens, que o seu nome tem sido exaltado acima de todos os nomes.
A Virgem santa, sempre unida aos sentimentos de N. S. Jesus Cristo, era penetrada de uma humildade não
menos profunda. Ela própria nos revelou a causa da sua grandeza quando a sua boca pronunciou esta frase do
sublime cântico: “Respexit humilitatem ancilǽ suǽ”.

De onde se vê que a humildade, longe de ser um baixeza, é ao contrario a condição da elevação e da dignidade
cristã. Nota-se contudo que a humildade é, dentre todas as virtudes, justamente aquela cujo exercício deveria ser
mais fácil para nós, e ao contrário dificílimo para Nossa Senhora; porquanto, se ela se funda sobre a consciência de
nossas imperfeições, basta a cada um lançar os olhos sobre si mesma, para se tornar humilde.

Estas imperfeições não existiam na Virgem Imaculada.

Ela foi concebida sem pecado, viveu sem mácula, e era em tudo pura e perfeita. E entretanto não se atribuía
nenhuma das graças de que tinha à plenitude: era humilde de coração, humilde de espírito, humilde nos seu
pensamentos, humilde nas suas palavras e em todos os atos de sua vida.

E nós que, segundo a Escritura, fomos “concebidos na iniqüidade e nascidos no pecado”, que estamos
sujeitos a todas as misérias morais que degradam a natureza humana, e que em milhares de circustâncias, quase a
cada instante do dia, damos uma triste prova da nossa fraqueza, nós todavia não temos humildade, exaltamo-nos a
nós mesmos, e ergemos em face de Deus uma fronte soberba!

Quando nos trazem a Virgem das virgens para exemplo e nos convidam a imitar as suas admiráveis virtudes,
não imaginemos que este modelo está acima de nosso alcance. Pelo lado da humildade ele é bem acessível a nós; é
tornando-se humildes e mansas que almas cristãs se assemelham a sua mãe do céu.

A humildade solidamente adquirida desenvolve por sua vez e salvaguarda todas as outras virtudes; ela só
por si atrai a Graça que as fecunda e as bênçãos que a coroam. A humildade é a guarda da fé porque exclui a
presunção que sonda temerariamente os mistérios da ordem divina. Ela teria vergonha de elevar-se acima dos
ensinamentos sagrados da Igreja; e submissa e confiante, aceita sem hesitação os incontestáveis testemunhos da
palavra revelada.

A humildade, além disso, protege a caridade.

Oh! Como as almas humildes conservam facilmente relações com toda a sorte de pessoas!

Despidas de amor próprio elas não se irritam, nem se formalizam; posto que isentam de certas
susceptibilidades, absetem-se, com delicadeza, de ferir os outros; desculpam com sinceridade os defeitos alheios,
porque estes lhes recordam seus próprios defeitos; e são indulgentes, enfim, porque elas mesmas tem necessidade
de indulgência. Perdoam para que se lhes perdoe; e desinteressadas e generosas, dão de boa vontade o bem pelo
mal. Amam, não para serem amadas, o que seriam um ato de amor próprio, mas amam para amar, com esse
desinteresse e magnanimidade que caracterizam o verdadeiro amor.

A humanidade sustem principalmente a esperança.

O que é que muitas vezes extingue este sentimento da alma do pecador? O que é que perturba, até sobre o
leito da morte, a paz do cristão? É a lembrança das faltas cometidas, é a imperfeição das obras; é a pobreza dos
méritos. Mas a alma humilde não se aterra, nem se aflige com isso.

Ela bem sabe que por si mesma nenhum titulo tem as celestes recompensas e não conta em nada com seu
mérito pessoal. Contando, porém, com a virtude do sangue de Jesus Cristo que a justifica e a santifica, ela crê, ama e
espera; e com o publicano do Evangelho lança-se cheia de humilde confiança no seio do pai das misericórdias. Não é
o ouro, nem a ciência, nem são os títulos de nobreza, que dão glória e felicidade. A verdadeira grandeza sai da
humildade. Jesus Cristo no-lo diz: “Aquele que se humilha será exaltado”; e quanto mais a alma cristã se abaixa
perante Deus, confiada nele, tanto mais força adquire em seu vôo para o céu. A mãe, compenetrada desta virtude
terá nela um preservativo contra todas as tentações e um remédio infalível nas mais graves circunstâncias da vida.
Todavia, a inseparável companheira da humildade, sua irmã gêmea, por assim dizer, é a mansidão. Uma não anda
sem a outra e ambas mutuamente se auxiliam e se abraçam. A verdadeira mansidão não reside senão numa alma
forte, e a força sobrenatural provêm da humildade. Só a fraqueza se enfurece ou se exalta. Não se pode por em
prática a verdadeira mansidão, a mansidão evangélica, quando não se tem energia para resistir ao mal e fazer o
bem.

As almas humildes tendem ao seu fim com firmeza e suavidade, “Suaviter et fortite”. Elas são dotadas de
uma virtude oculta, atrativa, vitoriosa, que toca o coração de Deus e o coração dos homens.“Bem aventurados os
mansos, porque estes possuirão a terra”, o que quer dizer que se fordes brandas e humildes conquistareis tudo que
vos cerca e sereis na sociedade, como em vossas famílias, os anjos do aperfeiçoamento e da salvação.

IX. Fé e confiança
A fé não tem o significado restrito em que vulgarmente é tomado. A fé será incompleta se consentir apenas em crer
e em recitar o símbolo. A fé viva implica ao mesmo tempo a crença e a confiança; e tal é também a significação da
palavra latina fides. Quando dizeis: - Eu possuo um amigo verdadeiro, creio e tenho fé nele – não pretendeis
somente exprimir a vossa fé ou crença na existência deste amigo; mas quereis dizer: - Eu conto com ele, descanso
sem temor nos seus sentimentos e tenho confiança em sua palavra e em sua afeição.

Ora, é com esta plena e universal confiança que se deve manifestar a vossa fé em Jesus Cristo. A fé sem a confiança
não é mais que uma fé histórica, especulativa; é a fé dos sábios: é uma fé abstrata, quase sem influência sobre a
piedade prática e que não dá senão um impulso muito fraco à vida cristã.

Crer em Jesus Cristo não é somente crer que o filho de Deus se fez homem para nos salvar; mas é crer em toda a
extensão do seu amor, é crer em sua presença e em todas as promessas consignadas nas santas Escrituras; e é
esperar firmemente e contar indubitavelmente com a realização de todas as Suas palavras.

Quantas vezes, levados por uma humildade mal entendida, vós duvidais do seu coração! Esta dúvida é um golpe que
vibra na esperança; ele fere o coração de Deus e não é menos repreensível do que as dúvidas em matéria de
doutrina. Acaso a esperança não é tão necessária para a salvação como a própria fé?Não é preciso conservar
ambas na mesma integridade? A fé confiante, diz São Bernardo, tem uma tríplice base: apóia-se sobre a bondade de
Deus que nos ama como seus filhos: “Caritas adoptionis”; sobre a verdade de Deus que é fiel às suas
promessas: “Veritas promissionis”; e sobre o poder de Deus, que cumpre infalivelmente as suas palavras: “Potestas
redditionis”.

Deus nos ama. É um dos primeiros artigos de fé, o qual está acima de toda demonstração. Deus é pai; ele nos ama
como seus filhos e seu amor é insondável. Ele ama! Mas é o coração de um Deus. As expansões desse imenso
coração são imensas, infinitas; e toda a história humana atesta a sua inesgotavel liberalidade. Ora, esta crença
quando é viva, deve necessariamente desenvolver em nós a confiança.

Deus é verdadeiro em suas promessas; outro motivo de confiança. Vós acreditais num homem quando ele é verídico
e credes mais fortemente ainda em seu testemunho quando o possuis em documentos escritos.

Como, pois, duvidar da palavra divina consignada nos livros sacros? Estes livros, fundamento dos arquivos do
mundo, nos atestam a fidelidade das promessas que pertencem ao tempo e à eternidade. A realização de uma
grande parte destas promessas nos garante a realização de todas as outras.

E para não citar, em apoio desta verdade, se não um só fato que é um milagre permanente, considerai o sucessor de
São Pedro! Jesus Cristo não prometeu que “ele não falharia jamais e que as portas do inferno não prevaleceriam
contra ele”? e ei-lo, com efeito, sempre de pé sobre o rochedo da palavra de Deus.

Bem que o seu poder temporal seja humanamente o mais fraco dos poderes, ele comanda o universo e subsiste
infalível, inabalável, coroado de uma auréola de majestade no meio das ruínas acumuladas a seus pés.

Há outras promessas divinas que se realizam visivelmente. Umas dizem respeito ao gênero humano inteiro; outras
dizem respeito somente à Igreja; outras, a cada cristão em particular. As promessas concernentes à salvação do
mundo foram feitas a todos os homens, porque Jesus Cristo morreu por muitos. Ele prometeu à Igreja consolações,
revelações e uma eterna assistência: promessa de que a história nos mostra o perpétuo cumprimento. Ele disse a
cada um dos seus discípulos: “Procurai antes de tudo o reino de Deus com a sua justiça, e o resto vos será dado em
demasia”. E disse-lhes ainda: “Tende confiança; não vos dêem cuidado a alimentação e vestuário. Vosso Pai celeste,
que veste os lírios e nutre os passarinhos, saberá prover a todas as vossas necessidades. E não tenhais medo dos
perigos que vos cercam; da vossa cabeça nenhum fio de cabelo cairá sem a vontade de Deus”.

Estas promessas positivas são o objeto da nossa fé; mas sendo profundamente compreendidas, admitidas e
experimentadas, vivificam a confiança cristã. A onipotência de Deus é ainda um motivo de confiança.

Deus testemunhou-nos o seu amor e ele no-lo prova pela fidelidade de suas promessas; mas tanto as suas
promessas como o seu amor tem por auxiliar o seu poder soberano.

Nós nos confiamos naturalmente aos homens que têm poder, posto que neles o poder e o querer nem sempre
estejam em harmonia. De fato, alguns querem e não podem, os outros podem e não querem; sucedendo, além
disso, que os próprios que hoje são poderosos e benévolos para conosco, não o serão talvez amanhã.

Em Deus, porém, querer e poder não são se não um mesmo ato. “Ele ordena e tudo se faz”: “Dixit et facta
sunt”. Portanto, a dúvida não é admissível jamais; e a nossa fé seria imperfeita, se não confiássemos firmemente
no poder invencível com que Deus executa as promessas da sua Verdade e as palavras do seu Amor. É por isso que
o rei-profeta nos exorta sem cessar a uma inabalável confiança, e a compara, por causa da sua força, à santa
montanha da cidade de Deus: “Qui confidunt in Domino sicut mons Sion”.

Conforme esta doutrina, seria difícil marcar os limites da confiança cristã, pois esta deve ter as dimensões infinitas
do amor, da verdade e do poder; e não degenera em presunção senão quando deixa de apoiar-se sobre Deus para
buscar outros apoios e outras bases.

Toda confiança em nós mesmos é presunçosa; mas a confiança em Deus não deve ter limites. Também, na história
evangélica nada se vê que nos autorize a restringi-la; Jesus Cristo acolhe indistintamente com terna benevolência
todos os que a Ele se chegam, mesmo os estrangeiros, mesmo os filhos pródigos, os pecadores e as mais culpáveis
pecadoras.

Ele diz a todos: “Não temais!” e a todos dirige esta palavra divina: “Confide, filia mea!” “Minha filha, tende
confiança!” desenvolvei, pois, com uma segurança fundada sobre o evangelho, este sentimento cristão; aplicai-o
sem restrição ao passado e ao presente, ao futuro, a eternidade. Eu sei que por vezes o passado vos inquieta.
Perguntais talvez então: Deus terá me perdoado? – Esta dúvida não vem seguramente do espírito de Deus, pois que
gera a inquietação, compromete a fé e faz cessar as preces: Nestes tristes efeitos, deveis reconhecer a tentação que
os produz.

Quando é Deus que nos inspira, radia a confiança e esvaecem-se as dúvidas; e então cremos de todo o coração na
eficácia do perdão sacramental e confiamos firmemente nos méritos do Sangue de Jesus Cristo. As preocupações do
presente nos experimentam por seu turno. Desconfia-se da Providência; e nos atos positivos da vida escuta-se a
razão mais do que a fé; Tem-se confiança nos homens imprudentes, na fortuna tão caprichosa e na terra tão ingrata
e só não se sabe confiar nas assistências do céu. Quantas mães cristãs se vêem aflitas e agitadas, como se elas
próprias fossem o deus de seus filhos! É que se confiam ao Senhor as coisas espirituais, nas da ordem temporal
duvidam da Sua intervenção. Todavia, se vós amais os vossos filhos deveis crer sem hesitação que Jesus Cristo, Vosso
Salvador, os ama ainda mais do que vós. E, pois que Ele dá a vossos filhos o Pão do céu, como lhes recusaria o pão
da terra? Mas o futuro? Eis ai sobretudo o que é preciso encarar com fé e confiança.

Quantas almas se afligem com a perspectiva de desgraças que elas receiam e que não se sucederão talvez jamais!
Estremeceis diante do mistério de um futuro distante, e não tardará talvez a chegar a vossa última hora. Esta
perigosa fraqueza não se cura senão por atos de confiança; De outro modo, se se torna habitual, arriscamo-nos a ser
vítimas dela até sobre o leito da morte. O hábito de não ter fé e de duvidar de Deus enerva a alma cristã, despoja-a
dos méritos de Jesus Cristo e impele-a ao desespero.

Entregai vossos dias a Deus, aconselham os mestres da vida espiritual. “A cada dia basta o seu mal”; a cada dia basta
o seu pão cotidiano. A Providência que produziu os nossos passos até a idade a que chegamos, nos guiará até ao fim.
Confiemos-lhe também o destino de nossos filhos. Sua ação será mais segura, mais constante, mais eficaz do que a
nossa; ela sobreviverá as nossas previsões.
Abandonemos-lhe o cuidado do que nos diz respeito; lancemos no seio de Deus as nossas apreensões, os nossos
pesares e as nossas solicitudes. Este é o conselho da Divina Sabedoria.

Fé e confiança! Eis o que sustenta as famílias cristãs.

Que estes dois sentimentos com a misericórdia e a verdade que os justificam, se reúnam em nós num santo ósculo.

VIII. A boa vontade


Nossa vida presente e por vir depende da direção da nossa vontade: será boa ou má, segundo o móvel que a leva e o
fim que se propõe...

É pela vontade que o homem é o que é: ela dá a todos os atos da vida o seu valor e o seu caráter. Onde não há
vontade, não há vícios, nem virtudes, nem pecados, nem méritos. Aos homens de boa vontade o Evangelho oferece
a paz; mas de modo nenhum há paz para a vontade pervertida.

Não confundamos contudo a boa vontade com as frivolidades. Poucas almas há, felizmente, que queiram o mal pelo
mal; mas há muitas que, sem quererem o mal, deixam de querer o bem. A vontade destas é cega ou impotente:
quereriam talvez o bem, mas não sabem querer. Quantos homens há que não sabem o que querem; ou que não
querem o que sabem! São vontades efêmeras, sem raízes e sem frutos, semelhantes a flores que germinam em um
copo d’água.

A boa vontade não é verdadeiramente boa, senão quando se liga por uma adesão enérgica à vontade de Deus, que é
a Bondade soberana. Só assim é que ela visa o bem e se desenvolve em harmonia com tudo o que é bom, com tudo
o que é verdadeiro, justo e belo.

Este acordo fundamental com a Vontade divina é um alto testemunho do amor, pois que Jesus Cristo disse: “Aquele
que me ama guarda a minha palavra”. Sem esta concordância, falta à piedade uma base e o amor é ilusório. “Não
são os que dizem: Senhor! Senhor! Que hão de entrar no reino dos céus, mas os que fazem a vontade do Pai
celeste”.

De todas as práticas da religião, a mais doce e a mais sólida é a que une a vontade do homem à vontade de Deus. O
que poderíamos desejar mais?

No coração de Deus se acham, em sumo grau, todas as solicitudes de um pai e toda a ternura de uma mãe.

A sua vontade não é mais do que a expressão do seu imenso amor. Ele não poderia querer senão a nossa salvação e
a nossa felicidade. Quando nos experimenta, é para nos santificar; quando nos castiga, é para nos curar; quando nos
fere, é para nos salvar.

Oh! Como seriamos mais sábios, mais tranqüilos e mais felizes, se estivéssemos mais compenetrados desta verdade
consoladora! Mas, é preciso confessar, nós não procuramos sempre esta harmonia; duvidamos da bondade de Deus,
desconhecemos seus pensamentos de misericórdia, resistimos em muitas circunstâncias aos seus desígnios sobre
nós, cerramos os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir! Consideramos por vezes a divina Vontade como
uma carga insuportável e não nos conformamos a ela senão quando não temos opção de escapar de suas
consequências.

Há cristãos que fazem longas orações e praticam muitas boas obras, mas que, no meio das suas preocupações,
não se dão ao trabalho de averiguar se andam realmente no caminho de Deus. Outros há que fazem igualmente
profissão de piedade e que julgam e condenam, no ponto de vista da sua estreita razão, os acontecimentos
providenciais. Como, dizem eles, Deus, que é justo, pode querer tão estranhas desordens? Como pode permitir tão
tristes surpresas? E com isso parecem concluir que Deus nem sempre faz bem tudo o que faz e que eles, no lugar de
Deus, fariam melhor. Outros, enfim, se declaram dispostos a seguir a vontade de Deus, mas pretendem que a não
conhecem. Esta objeção desaparece em façe dos testemunhos da Escrituras e da experiência; porquanto, além da lei
positiva que esclarece e dirige os homens de boa vontade, há para cada alma em particular inspirações,
circunstancia, graças do momento que manifesta com evidencia os desígnios do Altíssimo. Deus não deixa em
perplexidade um coração reto, nem tão pouco deixa sem força uma vontade sincera.
Se estais generosamente determinados a realizar o que Deus vos propõe, encontrareis sobre o vosso caminho o
facho, o farol, o guia, o Ananias, que vos esclarecerá a consciência e vos dirá o que deveis fazer. Se, ao contrario, não
encontrais, nem em vós mesmo, nem nos vossos guias espirituais, a direção que vos falta, é porque a vossa vontade
é vacilante, e não procurais a vontade de Deus, senão quando ela concorda com a vossa, com os vossos
pensamentos, projetos e interesses. Estais assim bem dispostos a fazer tudo o que Deus vos disser, contanto que Ele
vos diga tudo o que quereis e que aprove tudo o que desejardes. Eis ai, segundo Fenelon, a razão por que poucas
almas encontram diretores. Não os encontram porque não usam, ou melhor, porque abusam deles. Correm de
diretor em diretor, sob o pretexto de procurarem um dentre mil; mas no fundo, o que elas receiam é a verdade,
assim como os olhos doentes receiam a luz.

Estas considerações se aplicam mais do que se pensa às solicitudes das mães cristãs, quando se trata, com relação a
seus filhos, da escolha de um estado, de uma profissão, de uma vocação superior.

Oh! Se, nestas graves conjunturas, a vontade fosse verdadeiramente boa e se existisse sincera disposição de
conhecer a vontade de Deus para a cumprir, como o futuro do filhos se desenharia com mais nitidez! Como o
destino deles se desenvolveria com mais benção e graça! A harmonia da vontade humana com a vontade de Deus é
a condição fundamental da piedade. Esta harmonia mantém o equilíbrio dos sentimentos cristãos e produz a paz, a
perfeição e a felicidade.

VII. O Gládio do Sacrifício


O homem, em seu estado atual, não é mais o que era ao sair das mãos de Deus. Ele traz ao nascer uma nódoa que
lhe diminui a beleza original e o sobrecarrega de elementos heterogêneos: mistério que explica esse misto de
nobreza e de ignomínia, de luz e de trevas, que caracteriza a sua existência terrestre.

Dir-se-ia que ele participa ao mesmo tempo do anjo e do animal; pois tem aspirações sublimes e instintos grosseiros;
pressente o céu e gravita para a terra.

Daí as contradições, as lutas, os contrastes de sua dupla natureza, que fazem do seu coração um campo de batalha.

Com efeito, duas tendências opostas, que São Pailo chama duas leis, disputam a nossa posse.

Uma nos atrai para o alto e volta as nossas simpatias para tudo o que é bom, luminoso, belo e infinito; outra nos
arrasta para baixo e nos amarra nas vaidades mundanas.

Esta situação complexa tem de terminar por uma vitoria ou por uma derrota. É preciso que a natureza má seja
subjugada, imolada pelo homem regenerado; pois, de outro modo, este é que tombará afogado nas tonalidades da
sua natureza decaída. O sacrifício de si próprio é a condição do triunfo. Ora, o gládio do sacrifício, que Jesus Cristo
põe nas mãos de seus discípulos, é a cruz. “Quem quer ser dos meus – diz o divino Salvador – deve renunciar a si
mesmo, tomar a sua cruz e seguir-me”. A cruz suprime os intervalos que nos separa de Deus; mortifica e vivifica;
despedaça as nossas correntes; destaca-nos da terra para nos elevar ao céu; e a ultima das suas operações, enfim, é
a morte, saldo do pecado e condição da vida, e que pela imolação de tudo o que é imperfeito e disforme,
desembaraça e liberta o homem imortal.

Não nos furtemos as dores da cruz: elas são necessárias e úteis, porque nos arrancam a tudo o que não é conforme a
Deus; por isso é que tanto mais agudas são, quanto mais presos nos achamos aos elementos de que nos devemos
desprender. As agonias da morte são proporcionais ao grau de apego que temos as coisas corruptíveis; de modo que
se o trabalho de separação se não for operando gradualmente no curso da vida, a morte será sempre cruel e
dilacerante.

É a cruz que deve operar este despojamento gradual; ela desata pouco a pouco os laços terrestres e prepara-nos
para o ultimo e supremo livramento. O grande apostolo São Paulo, que é ao mesmo tempo o preceptor e o modelo
dos cristão, todos os dias se ensaiava para a morte: quotidie morior.

Assim, o cristão que aprendeu a morrer, no momento supremo não se sentirá preso à vida senão por um tênue fio
que facilmente se quebra.
As mais dolorosas angustias não provêm aliás da imolação corporal: resultam antes dos esforços heróicos que o
homem precisa fazer para se desprender de si mesmo. Então é que o gládio da cruz penetra até as intimas raízes do
nosso ser, e é muitas vezes por meio de derrotas, de tormentos e das mais humilhantes decepções, que ela nos
arranca os ídolos que trazemos ocultos no coração.

Muito custa para nós abdicar de nossa própria vida e matar o amor de si mesmo. Mas não é esta a fonte do egoísmo,
de todas as concupiscências e das paixões más? É mister que ele morra, pois Jesus Cristo disse: “Aquele que ama a
sua própria vida, a perderá”. É mister que ele morra para que um outro amor, um outro eu, viva em seu lugar. “Eu
vivo – dizia São Paulo – mas já não sou mais eu que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim”.

Sim, a doutrina cristã é uma doutrina de sofrimentos e de lágrimas; mas é também a religião das imortais
consolações. A cruz não fere senão para curar; ela muda as dores em júbilos, como a vara de Moisés transforma em
água doce as águas amargosas.

A cruz nos salva. Não salva porém, senão aqueles que a aceitam voluntariamente como um instrumento de
purificação e de salvação. Para os que sofrem, mas não se resignam, ela seria inútil.

Não basta sofrer; é preciso sofrer com Jesus Cristo. Não é bastante morrer; é preciso morrer com Jesus Cristo. O
divino Salvador não aboliu as dores humanas: ele as santificou, tornando-as expiatórias e curativas para as unir às
suas. “Ele sofreu, porque o quis – diz o Evangelho – e devia passar pelo sofrimento para entrar na glória”.

É unindo volutariamente nossa cruz à Sua cruz, nossa morte à Sua morte que seremos glorificados e coroados com
Ele.

A cruz é a pedra de toque pela qual se conhecem os cristãos. Enquanto uns a repelem, se irritam e blasfemam,
outros a abraçam como uma penitência santificadora, como o instrumento da salvação. “É da natureza da das coisas,
que o mal expulse o mal, o veneno combata o veneno e a dor elimine a dor” Diz Belarmino; o amargo das doenças é
por isso curado com o amargo dos remédios. Pois é assim que a cruz imola o que dever morrer e santifica o que deve
viver.

Compreendamos a grande lição do Calvário. Dois criminosos são crucificados ao lado de Jesus Cristo. Um deles aceita
a expiação em união com a da Divina Vítima, e ele é salvo. O outro padece igualmente a morte, mas revolta-se
contra a cruz; e este espira no desespero. Mistério significativo que nos mostra em que condições a cruz nos salva e
nos abre o céu.

Os Livros Santos o repetem sem cessar: “Para participar da glória de Jesus Cristo, é necessário tomar parte nos Seus
sofrimentos, e para ressuscitar com Ele é necessário morrer com Ele”.

Daí o sentido profundo desta frase: “Eu devo completar o que falta à paixão de Jesus Cristo”.

Que é, pois, o que falta a plenitude dos sofrimentos do Redentor? O que falta e se deve ajuntar é o concurso dos
nossos próprios sofrimentos, é a aplicação dos tormentos expiatórios do Divino Cristo da Igreja a todos os membros
do seu corpo místico.

O Senhor não nos uniu a sua imolação, senão para nos associar a Sua vida e a Seus triunfos.

Tal é a misteriosa operação da cruz: Ela reproduz de alguma sorte o sacrifício voluntário de Jesus Cristo em cada
cristão. A paixão se propaga pela paciência.

A paciência cristã não e efetivamente mais do que a própria paixão de Jesus Cristo sofrida por nós mesmos;
porquanto a paciência, como a paixão, é a cruz voluntariamente aceita.

Também a paciência é a virtude essencial dos discípulos do evangelho; por ela nós possuímos as nossas almas e
ganhamos a alma do nosso próximo. Nela reside a força; por conseqüência, a mulher forte é a que aceita e carrega
cristãmente a sua cruz.

A paciência é o gênio da mãe; ela associa a coragem à dor e a magnanimidade aos sacrifícios. Ocasiões para exercê-
las nunca falta à uma mãe, visto que em torno destas se acham os instrumentos da paixão.
Não há uma fibra em seu coração que não solte um gemido doloroso: ela sofre porque ama e sofre desmedidamente
porque muitas vezes ama sem medida. Ela que não se furte à cruz; se aceitar sem resistência os seus rigores,
ganhará preciosas bênção. As feridas abertas em seu coração maternal atraem os olhares da Divina Misericórdia e
tornam-se fontes de graça para os filhos da dor.

Sem dúvida que a cruz é o gládio do sacrifício e a origem de muitas lágrimas, mas é também o penhor das
consolações divinas e reata admiravelmente na região espiritual os laços que rompe na ordem da natureza. O
mistério da cruz é uma loucura para os que se perdem; mas, para os verdadeiros cristãos, é o mistério do Amor cheio
de esperança e de imortalidade.

VI. Cura das doenças morais


Há duas coisas de que não se deve desesperar jamais: o coração de Deus e o coração do homem.

O homem é um doente curável e Jesus Cristo veio para o curar. “Ó bondade de Cristo!” exclama São Bernardo, ó
salutar remédio que os desgraçados não ousavam esperar! O amor de Deus é tão gratuito e tão pronto, e a sua
misericórdia é tão admirável e tão vasta que ele nunca é surdo para os que o imploram. Ele ouve sempre porque Ele
é bom. E como são inefáveis as transformações que em nós opera a destra do Altíssimo! Ontem sufocavas nas
trevas; hoje exultas no meio de esplendores!

Ontem, nas garras do leão; hoje, nas mãos do teu Deus! Ontem, às portas do inferno; hoje, no seio do paraíso! Como
é que o homem demora na atmosfera do pecado, que é a fonte de todos os males e de todas as agonias, e não
procura com empenho e santo fervor a cura e a salvação, condições únicas da paz, da vida e da felicidade?

O pecado é para a alma o que a doença é para o corpo, e assim como há uma grande variedade de doenças, há
também uma grande diversidade de pecados. Todas essas moléstias corporais, quem sabe, correspondem a
moléstias semelhantes da alma e são destas os tipos exteriores. Neste ponto de vista é que se compreende por que
o Evangelho faz menção particular dos doentes de toda a espécie a que o Salvador restituiu a saúde.

Há, com efeito, para a alma, como para o corpo, paralisias, infecções, febres inumeráveis; há surdos, mudos e cegos
espirituais.

A alma é susceptível de ser ferida da lepra e da morte.

O divino Salvador, multiplicando seus milagres, de certo que não tinha em vista simplesmente operar curas
corporais. “O que Ele realizou de uma maneira visível, era o indício das maravilhas idênticas que Ele produzia
invisivelmente nas almas”, diz Sto. Agostinho. E quando transmitiu aos seus discípulos o poder de curar, Ele tinha
igualmente em vista, não as enfermidades do corpo, mas as doenças bem mais graves e perigosas da vida moral. É
neste sentido que se deve entender o texto sagrado: “Eu não vim para os sadios, mas para os doentes; não vim para
os justos, mas para os pecadores.”.

Toda a história evangélica nos mostra o cumprimento desta divina palavra. Jesus Cristo ai aparece – ora sob a forma
de um bom pastor que corre em busca da sua ovelha deixando noventa e nove ovelhas fieis para procurar e trazer
ao redil a única que se havia desgarrado; ora é o pai do filho pródigo que, a vista das lagrimas deste, esquece os seus
pesares e ressentimentos e, lançando-se ao pescoço do filho infeliz e humilhado e cobrindo-o de beijos, deixa
transbordar toda a sua alegria: "Regozijemo-nos! Porque ele estava perdido e o achei! Ele estava morto e ei-lo
ressuscitado!"

Jesus Cristo não se restringe a estas consoladoras parábolas. Seus atos reais vão muito além do que Ele ensina. Ele
acolhe com bondade todos os pecadores. Atende aos rogos da filha de Canaã. Diz à mulher culpada: “Que aquele
que não tem culpa vos lance a primeira pedra!” E diz a todos: “Ide-vos, estais perdoados; não pequeis mais de ora
avante!”

Poderiam tais atos, tais palavras, tais exemplos, deixar subsistir qualquer limite a nossa confiança? Ah! Sem dúvida
há mães que gemem sobre as quedas profundas de seus filhos. Elas tremem com toda a razão, contemplando o
abismo em que se precipitam.

Não desesperem, porém; não cessem nunca de contar com a misericórdia do Deus Salvador!
Que, a exemplo da viúva de Naim, elas acompanhem de suas preces e de suas esperanças o morto que se transporta
para o tumulo; e o Senhor fará o milagre de o ressuscitar. Ele dirá, tocando o esquife: “Mancebo, levanta-te, eu te
ordeno!” e o restituirá a sua mãe.

Escutai essas palavras de São Bernardo:

“Não há alma, por mais carregada de pecado, arraigada nos vícios e mergulhada na lama, estrangeira na terra dos
seus inimigos, segundo a língua dos profetas – infamada de crimes e embora achando-se no número das que vão
para o inferno; não há alma, dizemos nós, caída e degradada de tal sorte que não possa, enquanto ainda está neste
mundo, invocar o nome de Jesus e respirar na esperança do perdão e que no fundo do abismo, não consiga ainda
elevar-se até ao gozo das mais puras delícias da paz.” (São Bernardo. Serm. 83).

Todavia o tratamento de almas, tal como foi divinamente estabelecido na Igreja, se faz nas mesmas condições que o
tratamento dos corpos.

A primeira condição é sentir a doença.

É claro que aquele que não se sentir doente não procurará recuperar a saúde. Ora, desgraçadamente é esta a
disposição de muitos pecadores. Eles não tem consciência de nenhuma falta; julgam-se perfeitamente honestos e
puros só porque a seu modo de ver, preenchem os deveres da justiça para com o próximo.

Dizem-se bons pais, bons filhos, bons esposos. Que o sejam! Mas são acaso bons cristãos?

Admita-se que eles dão a César o que é de César; Mas dão a Deus o que é de Deus?

Eles são fiéis nas suas relações com a terra; mas serão justos e íntegros nas suas relações com os céus?

Não; estes homens cuja consciência se acha assim obscurecida, não se sentem doentes, e por conseguinte não são
suscetíveis de cura.

Aliás, o natural do espírito do mundo é adormecer a consciência e torná-la inacessível as emoções espirituais, como
o fazem certas substâncias soporíferas que adormentam os membros do corpo, permitindo que se os corte
impunemente.

Que é preciso, pois, para obter a cura de tais almas? É preciso rezar por elas e fazer que elas rezem também. É
preciso recordar-lhes a doutrina da salvação e edificá-las com os exemplos dos cristãos que põe essa doutrina em
prática.

A segunda condição do restabelecimento da saúde moral é recorrer ao médico. Se há médicos para o corpo, há-os
também para a alma. Tanto estes como aqueles fazem profundo estudo da arte de curar e, por conseqüência,
conhecem bem as doenças e os remédios.

Foi Jesus Cristo que instituiu o médico da alma: “Eu vos envio como Meu Pai Me enviou”, isto é, eu vos envio para
dissipar as trevas do espírito, para distribuir a paz entre as boas-vontades, para curar as chagas, para reabilitar o
homem e as sociedades e para salvar o mundo.

“Tudo que ligardes na terra será ligado no céu; e o que desligardes na terra será desligado no céu”.

"Os pecados que houverdes perdoado serão perdoados e os que houverdes retido serão retidos."

Eis ai o que constitui o poder do médico espiritual. Eis ai a missão do sacerdote católico. Jesus Cristo projeta um
sopro luminoso Divino na fronte do padre e nela imprime um selo indelével; e esse dom sagrado,
independentemente da ciência dos estudos e das virtudes pessoais, encerra por si só a graça de curar doentes.

É a estes médicos, dotados de uma invencível discrição, que se deve recorrer; é a eles que deveis descobrir a vossa
consciência e mostrar as vossas feridas.

Que alívio nos trás a confissão das faltas! Quando o coração está torturado pelos remorsos, não é como de
imperiosa necessidade transvasar-lhe o excesso em outro coração?
A confissão seria uma prática espontânea da natureza humana, mesmo quando não fosse um ato consagrado pela
religião.

Mas a confissão só por si, não basta para a cura das almas. Também, para as doenças do corpo não basta consultar o
médico. Que é preciso ainda? Seguir-lhe a receita e observar-lhe as prescrições. E ai temos a terceira condição da
saúde moral. Trata-se de tornar a entrar em relações com Deus; e para isto a alma impura tem necessidade de se
purificar. A natureza do mal indica a natureza do remédio; cumpre antes de tudo desfazer das correntes que
paralisam os movimentos, isto é, reparar as faltas, corrigir os costumes, avivar a piedade, elevar a intenção, fortificar
as resoluções e enfim restituir a Deus todas as potências da alma. Tais são as virtudes curativas da penitência.

As mães cristãs, que meditarem essas consoladoras verdades, tirarão delas, para si e para seus filhos, instruções
práticas. Se elas se sentem doentes e acabrunhadas pelo peso das enfermidades espirituais, não tem mais do que
preencher humildemente as condições de que dependem a saúde e a vida; e se ao contrário estão de pé e cheias de
força, devem, em todo caso, usar de cautela, conservando-se vigilantes sempre, a fim de não caírem! Mas sobretudo
não desanimem nunca!

Não duvidem jamais do poder da bondade do Divino Salvador!

“Eu não desejo a morte do pecador; Eu só desejo que ele se converta e que viva!”

V - O Pecado
O homem, criado a imagem de Deus, é um ser essencialmente amante. Ele ama porque é alma e é alma amante
porque Deus é o Amor.

Ora, o amor não é tido em preço algum senão quando se exerce livremente e seria destituído de qualquer valor se,
como o fogo material, se prendesse inevitavelmente a todos os objetos com os quais se põe contato. Eis ai o
mistério da liberdade humana: O homem é dotado de uma vontade livre, porque ele foi feito para amar. Eis ai
também o mistério da prova original, prova que se repete necessariamente para todos os homens: - Todos se acham
na alternativa de escolher entre Deus e o termo que lhe é oposto. Só de nós depende expandir a nossa vida nos
laços da adoração e do amor do Criador, conforme a lei do nosso destino, ou usar do livre arbítrio para dar a
preferência a um objeto que não é Deus.

Adão, o pai dos homens, tinha sido colocado nesta situação. Ele podia ligar-se irrevogavelmente a Deus por
um amor fiel ou ceder a sedução do inimigo de Deus. Cedendo a esta por um ato livre da sua vontade, ele
despenhou-se no abismo do mal, arrastando consigo o mundo onde devia imperar: Totus mundus in malignos
positus.

Todos os homens passam pela mesma prova; um prazo lhes é passado, como a Adão, para fazerem uso da
sua liberdade. A vida terrestre não é mais que um discernimento, uma alternativa, uma escolha voluntária entre o
bem e o mal. “A vida e a morte estão diante de vós, o que tiverdes escolhido, vos será dado”, dizem os Livros
Sagrados. A livre oferenda do nosso coração a Deus constitui a justiça; a recusa desta homenagem constitui o
pecado. O pecado é o desprezo do amor de Deus; ele degrada o coração, apartando-o da finalidade superior para
que foi criado. Esta breve definição do pecado, que nos dá a teologia, bem nos mostra a sua terrível gravidade.

Pois nada há mais monstruoso do que um ato contrário ao próprio fim da criação, um ato que se opõe aos
desígnios de Deus, e que vai de encontro às vias sagradas da Providência!

Pergunta-se como é que Deus pode com isso se ofender? Por certo que Ele não se formaliza a maneira dos
homens. Não é uma tola suscetibilidade, uma vaidade frívola, que se fere com o pecado. É porem, o coração de um
Deus, o coração de um Pai, que se sente ingratamente ultrajado. Julguemos dessa ofensa pelas emoções dolorosas
que nós mesmos experimentamos, quando, por exemplo, os nosso próprios filhos se voltam contra nós. Nada é mais
amargo do que a ingratidão; e com muita razão pode-se olhar como verdadeiros monstros os filhos ingratos que
não reconhecem o sentimento de seus pais. No número infinito das aflições, a mais viva, a mais digna de lástima, é o
desprezo ou ao menos a fria indiferença dos filhos por seu pai ou por sua mãe.

Como se pode duvidar, portanto, de que ofende gravemente a Deus o homem que, em plena liberdade e
com propósito deliberado, diz ao seu Criador, ao seu Pai: Nom servian, “não obedecerei!”Não se diz isso pela boca,
mas diz-se pelas ações, todas as vezes que se viola as leis de Deus, que se rejeita sua palavra, que se contraria sua
vontade e que se desconhecem os direitos do seu amor.

O pecado não é somente uma prevaricação para com Deus, é também uma degradação para quem o
comete; pois que ele se interpõe como a sombra da morte entre o homem e o seu Criador, intercepta as efusões
da graça e os raios da luz, desseca pouco a pouco no pecador a seiva da vida celeste, obscurece a inteligência e
endurece o coração;de modo que a alma cativa se amortalha na natureza decaída a qual, precipitando-se mais e
mais tomba enfim numa abominável animalidade.

Neste estado o desgraçado pecador não sabe mais implorar, nem gozar as coisas de Deus; foge de tudo que
lhe recorda a Verdade e até da atmosfera da Igreja; repele a Palavra santa e as obras sérias; irrita-o o aspecto da
virtude, e a simples vista de um padre o revolta; torna-se, em suma, segundo Davi, semelhante a uma fera, e não
percebe a sua decadência.

“Sicut jumentum factus sum, et ego nesciebam.” Notemos, além disso, que o mal moral é contagioso como
o mal físico. Nenhum homem jamais se perverteu a si só, nem a si só se santificou: os homens desde o pecado
original, se perdem e se salvam uns aos outros. A alma humana não vive isolada, está presa sempre a uma outra
alma; e se, pelas suas preces, pelos seus sofrimentos e pelos seus exemplos, ela é como um elo de uma corrente que
atrai os outros de uma mesma corrente, com maior força de razão a alma que cai arrasta na sua queda mais de uma
triste vítima.

É assim que por culpa de um só homem a corrupção penetra na família, nas cidades e até por vezes nos
frutos da terra. “Até quando a erva dos campos há de murchar?” Pergunta o profeta (Jr 12,4).“Até quando chorará a
terra por causa da iniqüidade dos que a habitam?”

Sem entrar nas considerações que estas verdades comportam, faremos ver somente que famílias inteiras
e muitas vezes numerosas gerações dependem do estado moral da mãe. A sua influência, quando ela é segundo
Deus, exerce uma ação angélica. Mas quando o pecado devasta o seu coração, quando os seus exemplos são
escândalos e quando a sua palavra não é mais do que um reflexo da sedução e da vaidade, ela se torna um anjo
das trevas, um instrumento de perdição e de morte.

Não acusemos a Deus das calamidades que se acumulam em redor de nós. Estas tempestades não se
formam senão em conseqüência das exalações do pecado. Que, em seu ponto de vista particular, os sábios
pesquisem a causa das moléstias estranhas que destroem alternativamente as existências deste mundo!

Para nós, essa causa não está simplesmente nos caprichos da natureza. Não devemos interrogar a ciência
para descobrir o segredo de tantos males, como não é a ela que se deve perguntar a razão porque certas regiões,
outrora ricas e florescentes, se acham hoje mortas e desoladas.

É que não há prosperidade nas sociedades humanas sem que as bênçãos do Altíssimo as torne fecundas; e
onde essas bênçãos faltam, a terra se esteriliza e os que a habitam degeneram e morrem.

Não se diga jamais que, apesar das inúmeras prevaricações que na atualidade se praticam, a vida continua
sorridente e próspera. Perigoso engano! Nada há mais para recear do que uma falsa segurança! Nada é tão horrível
como a noite da consciência! “Iluminai meus olhos, Senhor, a fim de que eu não adormeça no sono da morte”, dizia o
profeta. E em outra parte: “Eles passam seus dias em paz, e num abrir e fechar de olhos descem ao fundo dos
infernos.” Ninguém corre mais perigo que o homem que adormece à borda de um abismo.

No domínio da antiga lei, o castigo seguia de perto o pecado; e estremecemos ao pensar na severidade da
sanção penal correspondente a cada prevaricação. Mas o antigo povo de Deus era um povo profético. O que se
realizava para ele no círculo estreito dos tempos e dos lugares visíveis era a representação do que se deve acontecer
aos cristãos na eternidade e na imensidade.

Se o rei Saul perdeu o cetro e a coroa por ter desobedecido a voz do profeta, qual será, pois, a sorte do
cristão que do seu livre arbítrio transgride a lei de Deus e desconhece a autoridade sagrada da Igreja?
Se Davi acarretou lutos e desgraças à sua família e flagelos a seus estados por não ter evitado a tentação
que o fez sucumbir, em que penas incorrerá o cristão que voluntariamente se deixa cair, não em uma só cilada, mas
em um labirinto de seduções e de perigos?

Se Ezequias, até então fiel e virtuoso, se viu privado de seus filhos e de seus tesouros, por causa da vã
ostentação das suas riquezas, qual será o castigo da alma cristã que, em contrário as condições e aos votos do
batismo, não quer outra coisa senão o luxo e as pompas do século?

Ozias foi ferido de lepra por ter levado a mão temerária ao turíbulo sagrado; que acontecerá aos cristãos
sacrílegos que abusam do corpo e do sangue de Jesus Cristo? “É uma coisa terrível cair entre as mãos do Deus
vivo!” Exclama são Paulo.

Porém o mais triste e infalível efeito do pecado é uma morte funesta. Neste instante supremo, as ilusões se
dissipam. Cá embaixo, na terra, não resta mais do que um cadáver; mas a alma vai mostrar perante Deus a
esterilidade dos seus atos e muitas vezes chagas incuráveis e lágrimas que não se estancarão jamais.

IV. Os chamados e os escolhidos


Peregrinos e viajantes na terra, segundo a expressão do apóstolo, nós não temos aqui residência fixa.

No curso do tempo somos levados: o mundo passa depressa e nós passamos ainda mais depressa que o mundo.
Todavia o homem persiste em se estabelecer sobre a terra e procura ai fixar as suas raízes, como se ai pudesse
permanecer sempre. Obreiros remissos, nós descuidamos da tarefa da salvação assinada à todo católico;
administradores infiéis, não fazemos valer o tesouro que nos é confiado; navegantes imprudentes, nos aventuramos
no meio dos recifes, em vez de seguirmos em direção ao porto.

Nesta perigosa situação, a voz divina não nos falta com as suas advertências. O divino Salvador, cheio de
misericórdia, nos envia a sua luz sob todas as formas, para nos esclarecer sobre os nossos verdadeiros destinos, e os
seus anjos não cessam de nos chamar à verdadeira pátria.

Por que motivo, porém, depois de ter aberto as portas do céu a todos os homens, nos declara, entretanto, o
Evangelho que os chamados são muitos e poucos o escolhidos? Pois seria possível que Deus nos estendesse
compassivo uma das mãos, para nos arredar com a outra? Por acaso não nos chamaria Ele, senão para nos perder? E
Jesus Cristo, mostrando-nos o caminho da salvação, teria por acaso enchido esse caminho de obstáculos
insuperáveis?

Longe de nós tão condenáveis pensamentos!

O Evangelho nos ensina que Jesus Cristo morreu por muitos homens: “pro omnibus mortuus est Christus”. Ele deseja
salvação de todos, a sua graça apareceu a todos, disse o Apóstolo; e a paz do céu foi oferecida a todos os homens de
boa vontade.

Mas, se todos são assim chamados, por que é que os escolhidos são em pequeno número?

Sem entrar aqui nos mistérios incompreendidos, devemos crer que escolhidos são os que respondem fielmente ao
apelo divino.

Ora, como respondem os homens a este apelo? Uns não ouvem sequer a voz de Deus; e não ouvem porque não a
querem ouvir.

Outros ouvem e respondem, mas não caminham; e mesmo entre os que caminham, muitos seguem caminho errado.

Elucidemos estas graves considerações.


Os homens que recusam ouvir a voz de Deus são todos os que fogem ao que lhes poderia perturbar os interesses
ou os prazeres. Estes não conhecem senão a vida atual, não apreciam senão os bens terrestres e como
absolutamente lhes falta o senso das coisas do céu, chegam mesmo a duvidar de que têm uma alma.

E, efetivamente, bem se poderia duvidar disto, pois que em verdade parecem não ter alma os que vivem como se a
não tivessem.

Homens tais tornam inútil o apelo divino, porque não querem ouvir: “Jerusalém, Jerusalém! Quantas vezes tenho eu
desejado reunir os teu filhos, como a galhinha reúne os seus pintinhos, e tu não tens querido!”

Outros há que ouvem a voz de Deus, mas não lhe respondem. Como recebem estes os ensinamentos da Religião!
Que uso fazem da divina Graça? Que efeito lhes produz o verbo cristão, se apenas se limitam a ouvi-lo?

Entendem sem dúvida o que Deus lhes fala e não desconhecem os artigos de lei divina; mas, ligando a tudo com
menos importância, deixam de responder por algum modo ao apelo que lhes vem do alto. Para tais homens esse
apelo é, portanto, vão.

E esses mesmos que respondem a voz de Deus, fazem eles sempre alguma coisa mais do que responder a ela?
Metem eles acaso mãos à obra? Acaso dizem, como o filho pródigo: “Surgam et ibo?” E erguem-se enfim para se
lançarem nos braços do Pai? Ai deles, que adiam indefinidamente o cumprimento do seu dever!

Aguardam muitas vezes para isso uma mudança de posição, uma circunstância mais favorável, uma idade mais
madura, ou a conclusão de um negócio, ou a morte de um parente; e não pensam que os dias da sua vida estão
contados e que a graça adiada quase nunca se torna a achar!

“De que lhes servirá ter ganho o mundo inteiro, se eles vêm a perder a sua alma?”Evidentemente a sorte destes
será igual a dos desgraçados que não ouviram a voz de Deus, senão mais deplorável ainda.

Há, finalmente almas, aliás piedosas e timoratas, que tendo escutado o apelo divino, acodem a ele e se põem a
caminho para seguir Jesus Cristo; mas vacilam e esmorecem ante os primeiros obstáculos, recuam em vez de
avançar e depondo as armas, abandonam a obra começada.

Ora, Jesus Cristo disse: “Aquele que, depois de ter posto a mão no arado, voltar atrás, não é digno do Reino de Deus”.

O que perde estas almas é a falta de coragem; elas não têm confiança nem firmeza.

Marchavam na direção do céu enquanto fluiam as divinas consolações, mas no momento em que pela cruz se ia
provar e purificar o seu amor, começam a retroceder. O divino apelo foi-lhes também inútil.

Agora, se dentre os chamados tirarmos os que se conservam surdos à voz de Deus, os que deixam de acudir ao seu
apelo e os que acodem mas não perseveram até o fim, poderemos compreender a palavra do Senhor: “Muitos
chamados, poucos escolhidos!” Esta palavra não é uma sentença prévia nem uma condenação antecipada: é a
comprovação de um fato, uma conclusão aritmética.

Digamos pois, ao Senhor com o profeta: “Falai, que vosso filho vos escuta!” O nosso grande bem, para este mundo
efêmero como para a eternidade, consiste em escutar a palavra de Deus e em saber guardá-la:“Aquele que a guarda
– diz o Evangelho – viverá eternamente”.

Que a mãe se aplique a escutar a voz de Deus, e Deus por sua vez escutará as suas súplicas. Seja ela fiel à sua
consciência, e Deus será fiel as suas promessas.

Justifique ela, enfim, o seu título de mãe cristã e Deus será seu pai e o protetor de sua casa.
III. A única necessidade
O homem está neste mundo para conhecer, amar e servir a Deus. Eis aí a sua grande ocupação, sem a qual todas as
outras seriam inúteis. Por isso, afirma um doutor da Igreja: -“O homem que quer viver para outra coisa, que não para
Deus, não tem razão de viver”.

“É para Vós mesmo, ó meu Deus! Que criastes todas as coisas; e aquele que se quer pertencer a si mesmo e não a
Vós, certamente, entre todas as coisas se reduz a não ser coisa alguma”.

Assim, pois, a tarefa principal da alma humana é viver em condições de poder alcançar a Salvação Eterna. Preparar a
nossa Salvação é tender ao fim para que fomos criados: é cooperar com Jesus Cristo na santificação da nossa alma; é
fazer frutificar a graça que Ele nos dispensou; é trabalhar por nos desprendermos do mal, afim de nos unirmos ao
soberano Bem.

Ai de nós! São bem raras as almas que preenchem com energia estas condições da verdadeira felicidade! Vêem o
céu, aspiram a ele; e não se levantam nem se põe a caminho para lá. Os pensamentos, as aspirações e as palavras
elevam-se às alturas, mas o coração, as afeições e os cuidados não passam da terra. “Marta, Marta, com muitas
coisas te incomodas, quando uma só te é necessária”. Esta admoestação de Jesus Cristo é aplicável a um grande
número de mães cristãs. Mesmo na esfera dos deveres públicos e das boas obras, há frequentemente mais agitação
do que progresso, mais tribulações do que proveito. Cada dia nos devia aproximar mais do nosso fim sublime e,
contudo, quantas horas perdidas, quantos esforços inúteis, quantas obras estéreis e mortas!

A nossa inconstância nesta grave tarefa da salvação é a causa principal dos nossos desalentos. Fascinados com o
falso brilho das coisas mundanas descuidamos das coisas eternas , e, desorientados, assim tornamo-nos incapazes
de guiar aqueles que nos são confiados.

Não é a Graça que nos falta; nós é que faltamos à Graça. A Luz foi nos dada para nos aclarar o caminho; Mas, diz o
evangelho, “as trevas não O compreenderam”.

Sabemos que Deus enviou Moisés ao faraó e ao seu povo para lhes promulgar os decretos do céu e que essa missão
foi confirmada por uma infinidade de prodígios. Mas Satanás suscitou magos que, por seus sortilégios, imitaram de
algum modo as obras Divinas, a fim de lançarem os egípcios nos encantamentos da vida e do orgulho. É a história do
nosso tempo. Nunca os meios de sedução foram mais numerosos nem mais requintados para desviar os homens do
seu fim verdadeiro e privá-los dos frutos da redenção.

Antigamente os dois campos estavam separados: Distinguiam-se claramente os que pertenciam ao mundo e os
que pertenciam a Deus. Hoje as diferenças se alteram e se apagam. A própria piedade se torna mundana,
enquanto que o espírito mundano se reveste das formas da religião.

A força de exaltar o homem fora de Deus, acima de Deus e a custa de Deus, deixa-se de reconhecer, de amar e de
servir a Ele. Vive-se neste mundo, como se a vida presente fosse o último termo dos destinos humanos.

O cristianismo, doutrina de coisas futuras, não se poderia harmonizar com estas idéias terrenas. Também por toda a
parte em que o Evangelho declina, vê-se o antigo paganismo despertar e insinuar-se em todas as ordens de coisas:
Vêmo-lo na educação, nos costumes, nas ciências, nas artes, nos espetáculos, na literatura e em todos os usos e
práticas sociais. E ai está, forçoso é reconhecer, a funesta magia que estorva a grande obra de nossa salvação.
Enquanto nos acharmos sob o jugo do espírito mundano, como seremos capazes de livrar dele os nossos filhos e de
os educar para o céu? “Assentar a felicidade entre as coisas que passam, diz São Gregório, é construir um edifício
sobre a torrente.”

Compenetremo-nos antes de tudo de que a salvação eterna e o amor do mundo são duas coisas irreconciliáveis. Que
aliança se poderia formar entre o cálice de Nosso Senhor Jesus Cristo e a taça de Belial? “Aquele que ama o mundo
já não tem em si o amor de Deus” – disse o apóstolo São João. O Salvador intercede pelos seus discípulos e não pelo
mundo.
Foi aos seus discípulos e não aos partidários do mundo que Ele disse um dia: “Tudo que em meu nome pedirdes vos
será dado”.

A vossa missão, ó mãe cristã, é cooperar na salvação do vosso esposo e dos vossos filhos.

Procurai, pois, antes de tudo, para eles como para vós, o que é necessário; e então, conforme a promessa positiva
dos Livros Sagrados, Deus abençoará a vossa solicitude e atenderá as vossas súplicas e nem as assistências temporais
nem as consolações celestes vos faltarão jamais.

II. A Mãe Cristã


Toda criatura, ao nascer, traz consigo as disposições felizes ou fúnebres recebidas com o sangue dos que lhe
transmitiram a vida.

Como seria interessante a história dos homens celebres, se a ela se juntasse o estudo das influencias particulares
que presidiram ao nascimento e a educação de cada um deles e aos primeiros passos que deram!

Ora, entre essas influencias, nenhuma há mais profunda que a de uma mãe. À mãe pertence a tutela dos primeiros
anos, como incumbe a missão de verter na alma ainda tenra do seu filhinho o leite das verdades primordiais. Ela
consagra as primícias do desenvolvimento futuro; ela faz desabrochar o primeiro sorriso, o primeiro pensamento e o
primeiro amor ; ela é a preceptora natural e providencial da criança e a esta comunica, mesmo sem o sentir,
impulsos que se perpetuam através de todas as fases da vida.

Conta-se que uma mãe gostava de enfeitar com ramalhetes e folhagens o berço do filho. E este filho, que na infância
brincava com as flores, foi mais tarde o grande botânico Linneu. Um tal exemplo, apanhado entre mil outros,
demonstra a importância das primeira impressões. A maior parte das tendências e aptidões que se desenvolvem no
homem provém destas influências iniciais. A mãe é a dispensadora dos primeiros dons de Deus; ela não exercerá,
porém, com facilidade a esta prerrogativa, se não com a condição de se conservar ligada e submetida a seu Deus,
que é o foco das graças, certa de que, quanto mais a Ele estiver unida, tanto mais salutar será sua ação.

As mães sobretudo devem meditar e refletir nessa doce frase de Jesus Cristo: “Manete in dilectione mea”,
“Permanecei no Meu Amor!”.

Se permanecerdes em mim e guardardes fielmente a Minha Palavra, vós frutificareis como os ramos da vinha e todas
as vossas preces serão atendidas.

É, pois, verdadeiramente augusto sacramento que liga os esposos entre si e que os torna a ligar por um laço
indissolúvel, a Jesus Cristo, seu Salvador. Este laço sagrado é a primeira condição da propagação da graça nas
gerações cristãs. “Óh! Que aliança – exclama Tertuliano – a dos esposos cristãos, unidos numa mesma esperança,
num mesmo juramento, numa mesma norma de proceder, numa mesma dependência! Eles não devem formar
senão uma só unidade; tudo é comum entre eles, os cuidados, os sofrimentos, os dissabores e as alegrias. A sua vida
deve ser uma mútua exortação e uma solidariedade de bons exemplos”

Nestas condições, os matrimônios são felizes e granjeiam as bênçãos que de raça em raça se propagam.

Com efeito, estas alianças fundamentalmente cristãs, melhor compreendida outrora do que hoje, glorificavam a
Igreja, nobilitavam a sociedade civil e povoavam o céu. Não nos admiremos do número considerável de santos e de
grandes homens que floreceram nessa época de fé. Eles eram nascidos de casais fiéis e se formavam na escola das
mães piedosas.

A mãe não é completamente mãe, no sentido profundo da palavra, se não quando é mãe cristã. Este último título
é que exalta e consagra sua dignidade; pois o sentido puramente natural também se acha nas demais criaturas,
mesmo nas de ínfima espécie, e, quando não procede de um princípio religioso, é um amor desarrazoado que
degenera em egoísmo e redunda muitas vezes em idolatria. É preciso que o amor maternal se purifique,
harmonizando-se com o espírito de Deus, e que ele se banhe nas claridades superiores. A mãe não é a proprietária,
senão apenas a depositária do seu filho; ela o deve amar como Jesus Cristo o amou, amá-lo para Ele e não para si só,
e educá-lo voltando-o para a Celeste Pátria e não só para a terra. Tal é a missão da mãe e sempre que ela a
desempenha com consciência e com a sua incomparável ternura, lança no coração do filho o sólido fundamento da
religião, da moral e da felicidade.

Oh! Como é feliz o filho que, ao lembrar-se de sua mãe, sente vibrar no íntimo de sua alma as emoções religiosas. Ele
dirá então como Santo Agostinho: “Tudo que sou, a minha mãe o devo; ela não me deu somente a vida corporal,
deu-me também a vida da alma”. Um outro doutor da Igreja, o doce São Bernardo, atesta que, no meio das
seduções do mundo e das ilusões que lhe perturbavam a consciência, um pensamento irresistível o impedia de se
desencaminhar e perder: Era o pensamento de sua mãe. São Gregório de Nazianzo gostava de recordar as lições
maternas e os exemplos edificantes que o tinham tocado desde a mais tenra idade.

A história dos santos está cheia destes testemunhos de piedade filial.

Um dos maiores vultos do cristianismo, Santo Atanásio, tinha uma mãe que, no momento em que deu a luz, logo o
consagrou a Deus, pronunciando as seguintes memoráveis palavras: “Eu quero, com o socorro da graça, fazer de
meu único filho um homem de Deus!” e ela desde cedo lhe inspirou por Jesus Cristo um tão delicado amor e tão
perfeitamente o nutriu da doutrina evangélica, que teve a fortuna de ver realizadas as suas mais caras esperanças.
São Basílio, esse prodígio de ciência e de santidade, fala igualmente com um orgulho todo cristão das graças de que
ele era devedor a sua mãe e reconheceu verdadeiramente este dom inestimável como um dos maiores benefícios de
Deus. São Gregório de Nyssa não cessou nunca de celebrar sua mãe e até se fez historiador e panegirista dela. São
João Chrisóstomo, cognominado “boca de ouro” por causa de sua admirável eloqüência, era filho único de uma
jovem mulher que enviuvou aos vinte anos. Esta mulher cristã, formada na escola de Jesus Cristo, desprezou, por seu
filho como por si mesma, todas as frágeis prosperidades deste mundo e, animada de uma mais alta e pura ambição,
não procurou senão os bens imortais. Uma outra mãe, não menos feliz, soube educar seus três filhos com uma
inteligência tão perfeita, que chegou a fazer três santos e um deles foi o venerabilíssimo Santo Ambrósio. De uma
santa nasceu o grande Santo Hilário, a glória do antigo cerco de Poitiers e a honra da Gália cristã. Enfim, São
Gregório Magno presta uma homenagem magnífica a Santa Silvia, sua mãe, e de tal modo que, sendo Soberano
Pontífice, ele a manda pintar sentada ao seu lado em atitude contemplativa. Seriam preciso numerosos volumes
para reunir os traços esparços de santidade das mães cristãs, imortalizadas por seus filhos. A conclusão que disto se
tiraria é bem significativa: Ela mostraria que, se os filhos reproduzem geralmente a imagem de seus pais, é a mãe
sobretudo que lhes forma a índole e que a influência materna lhes atinge as fibras mais íntimas da alma,
comunicando-lhes uma impulsão que eles mantém até ao derradeiro suspiro.

I. A Mulher
A Escritura Sagrada nos ensina que o castigo da mulher foi mais severo que o do homem: tinha ela chamado sobre si
mais anátemas e sofrimentos. Jesus, o Salvador do mundo, a reabilitou. Se, pois, o reconhecimento deve ser
proporcional ao benefício, a mulher cristã, sem dúvida, tem imensas ações de graças a render. Que era a mulher
antes do cristianismo? Que é ela ainda hoje nas regiões onde o Evangelho não triunfou? Votada a servidão e
profundamente degradada, parecia-se duvidar outrora que ela tivesse uma alma. Em parte alguma se lhe
reconheciam direitos, nem categoria, nem dignidade.

O Evangelho mudou radicalmente esta situação lastimável. A abjeção de Eva desapareceu ao aspecto de Maria,
como ao despontar da aurora se dissipam as trevas. – “Uma mulher, diz Santo Irineu, tinha oferecido ao homem o
fruto da morte, outra mulher lhe ofereceu o fruto da vida”.

Desde a era da renovação, dois caminhos se acham abertos em frente da mulher: o caminho de Maria e o caminho
de Eva.

Entre estes dois caminhos não há meio termo: ou descer, a exemplo da mãe do pecado, a ladeira fatal da vergonha,
ou seguir os passos da mulher imaculada, elevando-se ela ao mais alto cume da perfeição. A mulher, ou perpetua a
vida de Eva, exercendo sobre os que a cercam uma influência perniciosa, ou imita e propaga a vida de Maria pelo
ascendente das suas virtudes.

Se fosse preciso corroborar com fatos esta última asserção, bastaria lembrar as mulheres do Evangelho, primeiras
companheiras de Maria.
Elas constituem um núcleo sagrado de um apostolado íntimo e são as mais ativas colaboradoras da obra da
Redenção. Um doutor da Igreja não hesita em lhes conferir o título de evangelista dos evangelistas, por quanto a
estas intrépidas e generosas mulheres, reunidas em torno de Maria ao pé da cruz, foi com efeito dado o inefável
privilégio de anunciarem a ressurreição de Jesus Cristo aos apóstolos e ao próprio São Pedro.

Ora, este núcleo de santas mulheres existe sempre na Igreja. Elas conservam em depósito no seu coração, a exemplo
de Maria, as sementes da piedade cristã e rivalizam em magnanimidade com os mártires, em zelo com os apóstolos,
em abnegação com os eremitas e em caridade com os anjos.

Sem dúvida o seu ministério não se exerce na vida pública; ele é obscuro e misterioso, mas é também persistente, e
a sua ação penetrante acaba sempre por triunfar de todas as resistências.

A história atesta esta verdade: “Há sempre uma mulher no fundo de todos os acontecimentos” – dizia José de
Maistre.

E para não citar aqui senão nomes geralmente conhecidos, relembremos a missão de Santa Helena, que restaura os
muros de Jerusalém e comunica o ardor de sua fé ao grande Constantino.

No campo de batalha de Tolbiac, Clóvis invoca o Deus de Clotilde, o que foi o sinal das conquistas do cristianismo nas
Galias e a consagração do valor dos Francos. Quase pela mesma época, uma outra mulher, uma mãe cristã, a célebre
Mônica, dava a luz, pelas suas orações e pelas suas lágrimas, esse grande oráculo de teologia – Santo Agostinho.

Nós vemos aparecer, nos sombrios dias da Igreja, o doce vulto de Genoveva, anjo visível que só pelo ascendente da
sua santidade detém Atila as portas de Paris e dispersa o exercito dos bárbaros. Conhece-se a missão da grande
condessa Matilde: foi ela que dilatou o augusto domínio temporal que a Providência quis constituir para o vigário de
Jesus Cristo, e a sua ativa piedade ilumina todo o pontificado de São Gregório VII. Branca de Castella, a mãe de São
Luiz, uniu em seu coração o gênio político às mais ternas solicitudes maternais.

Joana d´Arc, humilde pastora, salva miraculosamente a França.

Isabel d´Espanha, a rainha católica por excelência, preside a descoberta do novo mundo.

Mas onde iríamos parar, se interrogássemos os anais da vida monástica? Que maravilha se ofereceriam a nossa
imaginação, se o véu que oculta os santuários da virtude nos deixasse perceber as grandes almas consagradas a
Deus! O mundo quase nada sabe acerca dessas humildes existências e quase nunca lhes é reconhecido. E, todavia,
que benéfica influência não exercem elas sobre a terra pelas comunicações incessantes que entretêm com o céu! Os
reis, os pontífices, os príncipes da ciência e da palavra não se dedignavam de recorrer outrora a uma Catarina, a uma
Hildegarda ou a uma Isabel, para escutarem as lições da Divina Sabedoria. Santa Teresa, toda abrasada no fogo
apostólico, tornou-se luzeiro mesmo para os que tem missão sublime iluminar o mundo. A santa viúva de Chantal,
filha espiritual de São Francisco de Salles, dá as mulheres de seu século o exemplo da mais eminente perfeição.

Uma outra mãe, a bem-aventurada Acaria, deixa por sua vez iluminosos traços nas diferentes condições que podem
pertencer à mulher cristã. Luiza Marillac é auxiliadora de São Vicente de Paulo, e a respeito desta basta dizer isto: O
impulso que ela imprimiu a caridade nunca mais afrouxou e as obras por ela inauguradas se desenvolvem ainda hoje
com inesgotável fecundez.

Quantas mulheres mais, ignoradas sobre a terra, mas bem conhecidas de Deus, se ligam como anéis de ouro a esta
cadeia viva que remonta a Maria!

Uma observação que a história justifica é que todos os homens chamados a dirigir o movimento do mundo tiveram
por auxiliares algumas mulheres superiores.

Nada de grande se tem feito jamais no decurso dos séculos sem a cooperação das mulheres.

Deus tornou a dedicação uma necessidade para elas e deu-lhes a inteligência da caridade: Virtudes sublimes estas,
que o sopro do Evangelho fez desabrochar no coração das mulheres evangélicas ao mesmo tempo que no coração
dos apóstolos, e que se encontram na origem de todas as grandes obras da Igreja como junto ao berço de todas as
crianças.

A Divina Providência quis que Maria fosse ao mesmo tempo virgem, esposa e mãe, a fim de que ela pudesse servir
de modelo em todas as situações da mulher cristã. Que a donzela aprenda, pois, com a Rainha das virgens, a
permanecer casta e vigilante! Que as esposas imitem a sua paciência e a sua doçura! Que as mães sejam, a maneira
dela, mulheres fortes, caritativas e magnânimas! Que as que são de idade avançadas deixem cair sem pesar sobre a
terra as flores efêmeras da vida presente e produzam frutos para a eterna vida!

É assim que, em todas as fases de sua existência a mulher cumprirá sua missão admirável. E se neste mundo seu
nome ficar sem brilho, a sua memória será imortal, pois ela se terá inscrito no Livro da Vida e transmitirá a seus
descendentes as bênçãos divinas que edificam as famílias e consolidam a sociedade.

I. A Mulher
A Escritura Sagrada nos ensina que o castigo da mulher foi mais severo que o do homem: tinha ela chamado sobre si
mais anátemas e sofrimentos. Jesus, o Salvador do mundo, a reabilitou. Se, pois, o reconhecimento deve ser
proporcional ao benefício, a mulher cristã, sem dúvida, tem imensas ações de graças a render. Que era a mulher
antes do cristianismo? Que é ela ainda hoje nas regiões onde o Evangelho não triunfou? Votada a servidão e
profundamente degradada, parecia-se duvidar outrora que ela tivesse uma alma. Em parte alguma se lhe
reconheciam direitos, nem categoria, nem dignidade.

O Evangelho mudou radicalmente esta situação lastimável. A abjeção de Eva desapareceu ao aspecto de Maria,
como ao despontar da aurora se dissipam as trevas. – “Uma mulher, diz Santo Irineu, tinha oferecido ao homem o
fruto da morte, outra mulher lhe ofereceu o fruto da vida”.

Desde a era da renovação, dois caminhos se acham abertos em frente da mulher: o caminho de Maria e o caminho
de Eva.

Entre estes dois caminhos não há meio termo: ou descer, a exemplo da mãe do pecado, a ladeira fatal da vergonha,
ou seguir os passos da mulher imaculada, elevando-se ela ao mais alto cume da perfeição. A mulher, ou perpetua a
vida de Eva, exercendo sobre os que a cercam uma influência perniciosa, ou imita e propaga a vida de Maria pelo
ascendente das suas virtudes.

Se fosse preciso corroborar com fatos esta última asserção, bastaria lembrar as mulheres do Evangelho, primeiras
companheiras de Maria.

Elas constituem um núcleo sagrado de um apostolado íntimo e são as mais ativas colaboradoras da obra da
Redenção. Um doutor da Igreja não hesita em lhes conferir o título de evangelista dos evangelistas, por quanto a
estas intrépidas e generosas mulheres, reunidas em torno de Maria ao pé da cruz, foi com efeito dado o inefável
privilégio de anunciarem a ressurreição de Jesus Cristo aos apóstolos e ao próprio São Pedro.

Ora, este núcleo de santas mulheres existe sempre na Igreja. Elas conservam em depósito no seu coração, a exemplo
de Maria, as sementes da piedade cristã e rivalizam em magnanimidade com os mártires, em zelo com os apóstolos,
em abnegação com os eremitas e em caridade com os anjos.

Sem dúvida o seu ministério não se exerce na vida pública; ele é obscuro e misterioso, mas é também persistente, e
a sua ação penetrante acaba sempre por triunfar de todas as resistências.

A história atesta esta verdade: “Há sempre uma mulher no fundo de todos os acontecimentos” – dizia José de
Maistre.

E para não citar aqui senão nomes geralmente conhecidos, relembremos a missão de Santa Helena, que restaura os
muros de Jerusalém e comunica o ardor de sua fé ao grande Constantino.
No campo de batalha de Tolbiac, Clóvis invoca o Deus de Clotilde, o que foi o sinal das conquistas do cristianismo nas
Galias e a consagração do valor dos Francos. Quase pela mesma época, uma outra mulher, uma mãe cristã, a célebre
Mônica, dava a luz, pelas suas orações e pelas suas lágrimas, esse grande oráculo de teologia – Santo Agostinho.

Nós vemos aparecer, nos sombrios dias da Igreja, o doce vulto de Genoveva, anjo visível que só pelo ascendente da
sua santidade detém Atila as portas de Paris e dispersa o exercito dos bárbaros. Conhece-se a missão da grande
condessa Matilde: foi ela que dilatou o augusto domínio temporal que a Providência quis constituir para o vigário de
Jesus Cristo, e a sua ativa piedade ilumina todo o pontificado de São Gregório VII. Branca de Castella, a mãe de São
Luiz, uniu em seu coração o gênio político às mais ternas solicitudes maternais.

Joana d´Arc, humilde pastora, salva miraculosamente a França.

Isabel d´Espanha, a rainha católica por excelência, preside a descoberta do novo mundo.

Mas onde iríamos parar, se interrogássemos os anais da vida monástica? Que maravilha se ofereceriam a nossa
imaginação, se o véu que oculta os santuários da virtude nos deixasse perceber as grandes almas consagradas a
Deus! O mundo quase nada sabe acerca dessas humildes existências e quase nunca lhes é reconhecido. E, todavia,
que benéfica influência não exercem elas sobre a terra pelas comunicações incessantes que entretêm com o céu! Os
reis, os pontífices, os príncipes da ciência e da palavra não se dedignavam de recorrer outrora a uma Catarina, a uma
Hildegarda ou a uma Isabel, para escutarem as lições da Divina Sabedoria. Santa Teresa, toda abrasada no fogo
apostólico, tornou-se luzeiro mesmo para os que tem missão sublime iluminar o mundo. A santa viúva de Chantal,
filha espiritual de São Francisco de Salles, dá as mulheres de seu século o exemplo da mais eminente perfeição.

Uma outra mãe, a bem-aventurada Acaria, deixa por sua vez iluminosos traços nas diferentes condições que podem
pertencer à mulher cristã. Luiza Marillac é auxiliadora de São Vicente de Paulo, e a respeito desta basta dizer isto: O
impulso que ela imprimiu a caridade nunca mais afrouxou e as obras por ela inauguradas se desenvolvem ainda hoje
com inesgotável fecundez.

Quantas mulheres mais, ignoradas sobre a terra, mas bem conhecidas de Deus, se ligam como anéis de ouro a esta
cadeia viva que remonta a Maria!

Uma observação que a história justifica é que todos os homens chamados a dirigir o movimento do mundo tiveram
por auxiliares algumas mulheres superiores.

Nada de grande se tem feito jamais no decurso dos séculos sem a cooperação das mulheres.

Deus tornou a dedicação uma necessidade para elas e deu-lhes a inteligência da caridade: Virtudes sublimes estas,
que o sopro do Evangelho fez desabrochar no coração das mulheres evangélicas ao mesmo tempo que no coração
dos apóstolos, e que se encontram na origem de todas as grandes obras da Igreja como junto ao berço de todas as
crianças.

A Divina Providência quis que Maria fosse ao mesmo tempo virgem, esposa e mãe, a fim de que ela pudesse servir
de modelo em todas as situações da mulher cristã. Que a donzela aprenda, pois, com a Rainha das virgens, a
permanecer casta e vigilante! Que as esposas imitem a sua paciência e a sua doçura! Que as mães sejam, a maneira
dela, mulheres fortes, caritativas e magnânimas! Que as que são de idade avançadas deixem cair sem pesar sobre a
terra as flores efêmeras da vida presente e produzam frutos para a eterna vida!

É assim que, em todas as fases de sua existência a mulher cumprirá sua missão admirável. E se neste mundo seu
nome ficar sem brilho, a sua memória será imortal, pois ela se terá inscrito no Livro da Vida e transmitirá a seus
descendentes as bênçãos divinas que edificam as famílias e consolidam a sociedade.

XII. Duplo laço da Religião

A religião, na sua acepção geral, é o laço que nos liga a Deus: o fim sublime dela é a união.Ora, esta união inefável se
realiza por duas vias simultâneas e se consolida por um duplo laço.
De um lado, Deus se inclina para o homem; e de outro lado, o homem se eleva para Deus.
Pela comunhão, Deus se dá ao homem; pelasubmissão o homem se dá a Deus.

Estes dois atos se completam um ao outro.

Sem a submissão do homem a Deus, a comunhão seria infrutífera; sem a comunhão que faz viver Deus no homem,
a submissão seria insuficiente. A união perfeita não é possível, senão quando a alma cristã vive da vida de Deus e
obedece a sua Divina Vontade.

Comungásseis embora todos os dias, a união não se estabeleceria se não praticásseis também uma humilde
submissão a Vontade de Deus. Não se atende a esta prática essencial; e por isso muitas comunhões ficam sem
efeito.

Sim, se a virtude é fraca, de nada adianta comunhões freqüentes; se os bons desejos desaparecem, se a piedade
esmorece e definha e se a vida cristã muitas vezes não é mais do que um curso monótono em um círculo sem saída,
cumpre reconhecer que é porque a nossa vontade não comunica com a de Deus. Eis ai por que muitas almas ficam
distanciadas de Deus, praticando embora atos que deveriam ao contrario uni-las inseparavelmente a seu
Amor. Oferecemos-lhe as nossas obras, os nosso pensamentos e pesares; mas reservamos, para nós somente, a
posse e a disposição da nossa vontade; queremos nos conservar, enfim, senhores de nós mesmos.

As nossas oferendas, então, não passam de piedosas ilusões. O dom supõe necessariamente o abandono, pois que
não se pode ao mesmo tempo dar e reter.

Para nos darmos a Deus realmente, é preciso que nosabandonemos a Ele. Este abandono se realiza pela obediência.

Também a condição que Nosso Senhor impõe a quem o quer seguir, é a abnegação da vontade própria.

Compreende-se que nas celestes harmonias, de que a musica terrestre não é mais do que o eco imperfeito, não
possa existir senão uma só vontade dominante com a qual todas as outras devam concordar. Nenhuma vontade
entrará neste imenso concerto, se não se despojar, cá na terra, do egoísmo da sua própria vitalidade.

Daí as vantagens de um vida de subordinação na esfera em que a Providencia nos colocou: o amor de Deus torna
amável essa vida. A obediência cristã impede muitos enganos, embaraços e dúvidas, deixando-nos calmos e
confiantes no meio de todas as vicissitudes. Submetidos a direção providencial e abandonando a Deus o cuidado dos
nossos interesses, experimentamos com São Paulo que tudo se torna em bem para aqueles que amam o Senhor; e
então as adversidades como a boa fortuna nos encontram em uma disposição constantemente igual e tranqüila.

O Senhor, que é o nosso modelo, dá-nos o exemplo desta humilde dependência. A sua entrada no mundo, Ele
declara que vem cumprir a vontade de seu Pai: e, a sua saída, Ele exprime o mesmo sentimento: “Seja feita a vossa
vontade, e não a minha!” Os trinta anos da sua vida privada se resumem nestas palavras: “Erat subditus illis. Ele
estava submetido” a São José e a Sua Mãe e não rejeita a lei senão na memorável circunstancia em que deseja
mostrar para a almas chamadas ao serviço de Deus a lei mais alta de uma submissão sobrenatural.

Nesse caso, a obediência a Deus prevalece sobre a obediência que se deve aos pais e as mães.

Deus falou, e então a voz do céu domina a voz da terra e a Graça sobrepuja a carne e o sangue.

“Por que me procurais vós?” – dizia o menino Jesus a seus pais – “não sabeis que tenho de estar ao serviço de meu
Pai?” Grande exemplo que determina com clareza o limite onde pára a obediência do filho e onde começa a
submissão do cristão.

Na Sua vida intima como na Sua vida social e na Sua vida evangélica, o divino Salvador não cessa jamais de obedecer.
Ele se submete ao poder dos magistrados, do mesmo modo que a autoridade dos pontífices. E toda a história da sua
carreira terrestre se resume neste texto sagrado: “Ele se fez obediente até a morte”.

A Santa Virgem, por sua vez, este tipo incomparável de todas as virtudes, oferece para nós a mesma obediência,
também para que imitemos. A sua vida inteira se exala nesta palavra: Fiat! “Eu sou a serva do Senhor, faça-se em
mim segundo a Sua vontade”. É pela sua adesão renovada a todos os momentos e em todas as circunstancias, que
ela se corresponde com o Divino Amor e a Ele se conserva para sempre unida.

Estas grandes lições interessam mais particularmente às mães cristãs.

Há quem pense exercer os atos de uma devoção fervente por meio de contínuas comunhões, sem tratar de se unir
mais intimamente a Jesus Cristo pela prática da submissão. É uma piedade insuficiente.Marcha-se, mas sem fazer
progresso! E bem feliz será quem por esta forma não recuar em vez de avançar! Sempre incertas, vacilantes ou
impacientes, vós não vedes os traços d’Aquele que vos diz:Segue-me! Vós o perdeis de vista, porque não estais no
caminho em que Ele marcha adiante de vós. Ficais muito atrás ou correis muito adiante, porque seguis as impulsões
irregulares do vosso próprio espírito, em lugar de obedecer com simplicidade ao espírito de Deus.

A submissão cristã é fácil e suave. Em vias extraordinárias recebe graças extraordinárias. E embora fosse preciso o
Senhor enviar-vos um Anjo do céu, diz S. Francisco de Sales, Ele não deixaria que ficásseis sem luz na via por onde
vos chama. No curso ordinário das coisas não se admitem incertezas. É a nossa posição na família, na sociedade e
na ordem providencial que põe em relevo a norma de proceder que devemos observar. A mãe de família não está
reduzida a procurar a vontade de Deus no vago das teorias. Ela acha no lar doméstico indicações certas e a sua
consciência atenta não pode ignorar nenhum dever. Ligada religiosamente a Deus pelo duplo laço da comunhão
freqüente e de uma submissão perseverante, ela resiste a todas as provas; e sempre vitoriosa nos seus combates,
inabalável na sua confiança, reina em sua casa, cercada dos respeitos do céu e da terra.

XIII. O Mandamento novo


O Filho de Deus, descido do céu, ensinou seus discípulos a viver sobre a terra como se vive no céu: e
resumindo em uma só palavra toda a lei do celeste reino, disse-lhes: “Eis ai o mandamento novo que vos dou: amai-
vos uns aos outros”.

Na sublime expressão desta lei encontram-se os fundamentos de todos os deveres da vida futura. É
manifesto que ela exclui as causas dos cismas e das divergências; e se fosse acaso bem compreendida e bem
praticada, ver-se-iam desaparecer da sociedade e do mundo os conflitos irritantes e as guerras sangrentas. Ela não
se limitaria a banir o mal; desenvolveria por toda a parte o bem, o belo, o verdadeiro e todos os raios benfazejos da
caridade evangélica.

Os filhos de Deus, que se amam uns aos outros, evitam o choque dos interesses e abstêm-se de tudo o que
fere, magoa ou aflige o próximo; fazem em atenção a todos o que cada alma amante faz em atenção a aquele que
ela ama; e daí os obséquios delicados, a assídua cortesia, as solicitudes engenhosas, os respeitos mútuos e tantos
outros testemunhos de honra e de ternura que abundam nas relações verdadeiramente cristãs.

Mas a lei que rege o amor fraternal não é uma lei temporária; ela deve subsistir nos séculos dos séculos; isto
é, os cristãos, fiéis a este divino mandamento, que se amam uns aos outros na terra, continuarão a amar-se
eternamente no céu. A morte não rompe o laço sagrado que os une; pois, diz São Bernardo, quando eles se
despojam da corrupção de seus corpos, conservam as entranhas da misericórdia; e revestindo-se do manto da glória,
não se cercam de um muro de separação e de esquecimento. Os esplendores divinos em que se embebem não lhes
poderiam obscurecer a memória.

Não, as lembranças e as santas afeições, que se vivificam, não se apagam nas almas que sobem a uma
estância melhor. A Igreja é uma família de irmãos. Aqueles que nos antecedem na Pátria deixam cair sobre nós
olhares simpáticos; são nossos mandatários junto ao Todo-Poderoso, são canais por onde sobe a prece e por onde
desce a graça, e como os fios vibrantes que transmitem e propagam misteriosas faíscas, as suas comunicações
conosco são continuas e instantâneas.
Na lei desta divina caridade encontra-se a explicação das relações que subsistem, de uma parte, entre nós e
as almas detidas no purgatório, e, de outra parte, entre os habitantes da terra e os habitantes do céu.

Pergunta-se se no céu nos reconheceremos? Evidentemente, se o amor se perpetua, o conhecimento não


pode cessar.

Não se ama o que se não conhece; e seria absurdo pensar que os que se conheceram na terra não se
tornem a encontrar no céu senão como estranhos uns aos outros. O Evangelho não nos deixa nenhuma duvida a tal
respeito. Quando os apóstolos foram testemunhas da transfiguração de Jesus Cristo, um deles exclamou num
sublime êxtase: “Senhor, bom é estarmos aqui: Vamos erguer três tendas, uma para vós, outra para Moisés e outra
para Elias”. Esta exclamação, constante do livro sagrado, prova que, pelo fulgor da luz de Deus, logo se conhecem as
almas glorificadas. E, se ao primeiro aspecto se conhecem as almas que nunca se viram sobre a terra, quão mais
facilmente se reconhecerão aquelas que aqui se conheceram e amaram! A dissolução do corpo livra a alma das suas
peias, mas não muda em nada o seu caráter, a sua forma, a sua expressão, nem extingue os seus sentimentos. Além
do tumulo, a chama que Jesus Cristo concentrou em nossos corações brilhará mais desembaraçadamente e
vivamente; os sentimentos legítimos se perpetuarão sem fim e os laços da amizade não se desatarão jamais. Nós, cá
em baixo, diz um piedoso autor, não somos mais que insetos defeituosos; mas um dia a nossa formação se
completará, e então teremos asas para voar até o Bem supremo. Nós não somos mais do que míseras larvas; mas as
borboletas que saírem dessas larvas serão seres celestes.

Quem, de fato, poderia acreditar que os filhos, arrebatados à sua mãe, não continuem a amar, fora deste
mundo, aquela que eles ai deixam aflita e inconsolável? Quem poderia duvidar da permanência da amizade entre
dois verdadeiros amigos que a morte separa? Separados momentaneamente, eles continuam unidos por laços
imortais.

Aqueles dentre nós que se vão para Deus, levam consigo um pouco de nós mesmos; e nós de igual maneira
aqui guardamos uma porção de sua vida. É que nada poderia separar o que Deus uniu em seu amor. Na eternidade,
sobretudo, é que o mandamento novo de Jesus Cristo se cumpre em toda a sua perfeição e completa a beatitude
dos bem aventurados. Mas, para gozar esta felicidade suprema, é preciso praticar desde este mundo a lei de Jesus
Cristo.

A caridade fraternal é o sinal distintivo dos verdadeiros cristãos; ela deve caracterizar os filhos de um
mesmo Pai, os herdeiros de um mesmo reino e os companheiros de um mesmo destino.

Oh! Exclama São João Crisóstomo, se existisse na terra uma região onde o mandamento evangélico fosse
religiosamente observado, que espetáculo feliz se contemplaria! Que admirável concerto de vontades e de afeições!
Que harmonia de sentimentos, de boas obras e de belezas!

O que nos encanta na música é a justeza dos acordes, é a união na diversidade e na multiplicidade. A
orquestra, composta de tantas vozes e instrumentos, obedece a uma só impulsão e canta um mesmo pensamento.
Que silêncio ao redor! Que solenidades de emoções extasiantes! Toda esta multidão não parece formar senão uma
só alma, um só coração, um só organismo.

Tal é o espetáculo que ofereceriam a Deus e aos anjos as famílias cristãs, as comunidades religiosas e as
cidades terrestres, onde o mandamento do Evangelho fosse fielmente observado.

XIV – Organização do Coração


Nosso coração, diz São Thomaz é um foco de vida; é o Santuário do amor. É ai que Deus habita e se regozija.

O coração, diz Santa Hildegarda, é um instrumento de música simbolizado pelo saltério de Davi. Mas, ai de nós! No
seu estado atual, ele tem notas mudas e discordantes; faltam-lhe oitavas. O grande e delicado trabalho da vida cristã
consiste em reorganizá-lo.

Qual é a função do coração na hierarquia das potências e das faculdades mentais? Ele ama; eis ai a sua lei e a sua
vida. É um fogo: precisa arder, quando não arde, extingue-se e morre.
A religião tem por fim vivificar esta chama e dirigi-la para o seu termo superior. “Fili, præbe mihi cor tuum!” “Meu
filho, dá-me o teu coração”, diz o Deus de Amor.

Nada exige mais vigilância e precauções do que a organização das forças intimas que saem do coração. Se o fogo
material, abandonado a si mesmo, produz desastres, muito mais devemos temer os desvarios do coração quando o
amor se expande sem regra nem medida.

Deus coordenou em mim todos os poderes do amor, diz o salmista: “Ordinavit in me caritatem”. Como há no sol um
foco de onde partem infinitos raios luminosos, também do centro do nosso coração dimanam inúmero sentimentos
e expansões que correspondem a objetos múltiplos. Estes diferentes objetos podem ter direitos ao nosso amor, mas
todos não poderiam participar dele no mesmo grau. A boa regra no amor consiste em amar cada um segundo a sua
situação em relação a nós, dando a cada um a porção de afeto que lhe é devido, sem transportar a este o
sentimento que pertence àquele.

Assim, quando o Evangelho preceitua que amemos a todos, sem exceção dos nossos inimigos, não se segue daí que
devamos amar a todo mundo da mesma maneira. Nosso coração não projeta, como o fogo terrestre um flama cega
que se aplica indistinta e necessariamente a toda a espécie de coisas. Ele ama com discernimento, com liberdade e
com inteligência. É o que a mãe compreenderá com o seu coração cristão.

Amais a Deus; e deveis amá-Lo acima de tudo e de todos. Amais vosso esposo, vossos filhos, vossos parentes,
vossos amigos e vosso próximo. Mas estes amores são distintos, de modo que o raio destinado a um não poderia,
sem desordem ou perversão, dirigir-se a outro.

Cada amor tem a sua natureza, o seu caráter, o seu destino especial e o seu maior ou menor grau de intensidade e
profundeza. Vós amais seguramente a vosso esposo de uma maneira diversa da que amais a vossos filhos: o amor
que a estes tendes é diverso do que tendes a vossos pais e assim por diante. Não podemos alterar os graus dessa
hierarquia. É dando a cada um integralmente a sua parte legítima que a vida do coração se regulariza e brotam deste
as alegrias, a paz e a ventura.

O coração humano tem sido admiravelmente comparado a este instrumento de dez cordas que o Salmista
arrancava tão encantadoras melodias. Cada uma de suas cordas produzia um som particular sob os dedos do cantor
real, e todas juntamente vibravam em uma harmoniosa unidade. Assim se devem exercer alternada ou
simultaneamente as diversas afeições do coração; e, desse modo, longe de se embaraçarem umas às outras ou de
comprimirem a sua ação recíproca, elas mutuamente se sustêm, se completam e se dilatam na plenitude de sua
perfeição.

O amor de Deus não exclui o amor de uma mãe; não enfraquece o amor de uma esposa; não diminui as amizades
santas e não impede as relações sociais. Todos esses sentimentos, ao contrário, se realçam uns aos outros e se
desenvolvem num mesmo concerto.

Apliquemos esta medida a nossa consciência. Talvez que, se nos examinarmos com atenção, possamos verificar em
nossas vibrações íntimas mais de uma dissonância que seja a causa de nossas agitações e secretas tristezas.

De que modo amais a Deus? “Tu amarás teu Deus, com todas as tuas forças, com todas as tuas faculdades, com
toda a tua alma”.

Eis ai o grande mandamento promulgado ao coração do homem; é a nota Tônica a que devem corresponder todas
as outras notas da alma. Somos nós fiéis a esta lei? Amamos o Senhor nosso Deus acima de tudo mais? Admira que
em geral nos examinemos tão pouco acerca desse preceito capital, quando nos aproximamos do tribunal da
penitência; ao passo que muitas vezes andamos a calcular minuciosamente o alcance das fragilidades secundárias!
Não se trata de pronunciar simplesmente atos de amor; é um amor real e substancial, vivido e ardente, que Deus
reclama. E na verdade lhe damos nós esta parte principal de nosso coração?

Depois da afeição por vezes apaixonada e cega que a vossos filhos consagrais, restam ainda para Deus alguns
sentimentos?
Esquecemos que tudo o que se apodera do amor que lhe devemos é uma idolatria, e que a idolatria é, dentre todas
as prevaricações, a mais perigosa e a mais condenável. “Filioli, custodite vos a simulacris”. “Meus filhos, guardai-vos
dos ídolos” diz o Apóstolo.

O verdadeiro sentido do primeiro mandamento, segundo observa São Francisco de Sales, nos é indicado pela palavra
“dilectio”, que o concílio de Trento emprega em sua doutrina sobre o amor de Deus. A dileção é um amor de escolha
e preferência; de sorte que o amor de Deus deve ser um amor de predileção que domina e abrange todos os outros
amores.

Tal é a grande lei da vida. Só Deus, fonte de amor, é capaz de preencher o vasto âmbito de nosso coração. “Se
alguém tem sede, que venha a mim”, disse Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele, manancial perene da graça, verte em
nossas almas o que há de mais doce, de mais delicioso e excelente; e, quando essa vivificante unção nos alimenta,
nós temos do nosso lado muito para dar aos outros do muito que em nós transborda, pois que as nossas almas
saciadas de amor saberão por sua vez amar superabundante e divinamente.

Lê-se em certos livros de devoção que não devemos amar a criatura. Que quer isto dizer? Pois, se de uma parte o
Evangelho manda que nos amemos uns aos outros, como é que de outra parte nos proíbem esse amor? Como
conciliar estes dois preceitos tão contraditórios na aparência? – A contradição ai não é mais do que um mero
equívoco. Não amar a criatura é recusar-lhe o amor que só ao Criador devemos. Mas, quando cedemos a Deus o Seu
lugar supremo e Ele ocupa o santuário do nosso coração e regula todas as afeições que ai se formam, então o amor
flui benéfico e podemos nos amar uns aos outros com segurança, com generosidade, com magnanimidade, como o
próprio Jesus Cristo nos amou.

Partindo deste princípio superior, a esposa amará seu esposo, e o seu amor será mais sólido e durável por se não
basear somente em simpatias que mudam e vantagens que desaparecem; ela amará seu esposo porque ela é a sua
companheira, o seu auxílio, a sua coadjutora, diz a Escritura; Irá amá-lo porque deve ser o seu anjo de consolação e
de salvação.

Não digais pois: Ele me faz infeliz; ele não me compreende; nossos gênios não combinam. Nada disso justifica o
afrouxamento das afeições cristãs. Se tal homem tem defeitos, estes desagradam seguramente a santidade de
Deus muito mais do que a vós, que do vosso lado também tendes defeitos.

Todavia Deus não cessa de o amar; Deus o suporta e o perdoa. Imitai o proceder de Deus; amai a vosso esposo tal
qual ele é; educai-o pela vossa afeição doce e indulgente; oponha a seus defeitos as vossas boas qualidades; e
quanto mais imperfeições ele tiver, mais méritos tereis vós. A vossa longanimidade tocará sua alma, santificará a
vossa e atrairá bênçãos ao lar da família.

Seria preciso falar aqui no amor que a mãe deve ter a seus filhos? Este preceito em honra da natureza humana, não
se acha em trecho algum da Escritura Sagrada; mas de tal modo está ele gravado no coração que, não obstante a
queda do homem de que resultou a ruína de tantos sentimentos nobres, o amor maternal subsiste sempre com
incomparável energia. Deus não teve necessidade de dizer a uma mãe: Tu amarás a teu filho.

Convém ainda assim regular esse amor, pois que freqüentes vezes a exaltação o alucina e cega.Amai a vossos filhos
segundo Deus e para Deus; mas não os ameis para vós mesmas, não os considereis como propriedades que
houvésseis para sempre adquirido, nem os transformeis em objetos de gozo e adoração. Estes excessos redundam
infalivelmente em decepções.

Não, as mães que amam a seus filhos com essa ternura impetuosa e desordenada, não sabem mais amar a Deus;
quando muito algum amor lhes restará ainda para seu marido e para seus parentes. Há nessa ternura excessiva uma
espécie de embriaguez que as atordoa e cega, provocando muitas vezes remorsos e lágrimas. Não raro se vêem,
entretanto, pobres crianças, órfãos de mãe, que crescem e prosperam, graças ao bom anjo que invisivelmente as
acompanha e guarda; ao passo que outras, com as quais se empregam tão exagerados desvelos, ficam enfermiças,
caquéticas e sem desenvolvimento. Algumas até, apesar de tantos carinhos, ou mesmo por causa deles, vem a
desabonar mais tarde um nome que deveriam honrar.

Há mães que não se contentam em idolatrar os filhos; querem elas próprias ser por estes idolatradas. Cruéis ciúmes
se misturam ás suas exigências, e elas se fazem como que o objeto exclusivo ou o fim único da vida de seus filhos.
Inquietam-se e afligem-se com tudo; querem tudo prevenir e dispor, como se fossem as únicas encarregadas de lhes
fixar o futuro; e nessa atividade veemente, esquecendo o papel da Providência excluem a parte que a Deus toca nos
seus destinos. Que é que daí resulta? Deus deixa fazer; e a prudência humana sossobra!

Os próprios filhos, oprimidos pelos constantes abraços de uma afeição egoísta decididamente se aborrecem desses
excessos de amor, e sacodem afinal o jugo, dilacerando, as vezes, o coração de suas mães. Amai aos parentes, amai
aos amigos, amai aos próprios inimigos; mas rezando por eles. Nós não podemos amar, a todos, de igual maneira,
nem o devemos fazer.

Cada um tem os seus direitos e os seus títulos ao nosso afeto; cada um se acha para conosco em uma situação que
atrai um raio da nossa alma e marca a medida dos nossos sentimentos.

Nosso Senhor nos oferece no Evangelho exemplos notáveis destes diferentes graus do amor. Ele ama toda a
multidão dos seus discípulos; mas ama de preferência os doze apóstolos. Dentre estes doze, há três que são
manifestamente o objeto de uma distinção especial: só eles assistem à divina agonia e só eles são testemunhas da
cena do Tabor. E enfim, dentre estes três preferidos, ainda há um que é o objeto de uma predileção mais singular: é
aquele que o Evangelho designa sempre pelo nome de bem-amado.

Tal é a graduação das afeições santas.

É assim que os sentimentos se harmonizam em uma ordem sagrada, sem se confundirem entre si e sem que
nenhum exclua os outros. O coração cristãmente organizado ama a todo o mundo e, acima de tudo, ama Aquele que
é o foco do eterno amor.

XV. Vida interior


A grandeza do homem não consiste em brilhantes façanhas, mas deriva do fundo do coração, manifestando-se
por uma eflorescência maravilhosa de virtudes: ela é o fruto da vida interior, raiz oculta de tudo que é belo e
perfeito.

Sob o invólucro da nossa natureza decaída, há um gérmen celeste, um ser sobrenatural, um homem novo,
no dizer de São Paulo; e este homem novo é um novo Jesus Cristo.

Assim a vida interior é a própria vida de Jesus Cristo que se comunica misteriosamente a seus
discípulos: “Ego in vobis, ET vos in me”. “Eu estou em vós e vós em mim”. Como se forma o fruto e a flor, no coração
do cristão se forma a vida de Jesus Cristo; e esta vida celestial é o amor. Tombam a casca e os envoltórios; mas o
fruto é imortal. A fé passará, desaparecerá a esperança; mas a caridade subsistirá eternamente: “Caritas numquam
excidit”. Ó mistério incompreendido! Mistério difícil de compreender! Porque nós vivemos mais pelos sentidos,
perdemo-nos em sombras fugitivas e habitualmente nos conservamos tão apartados do coração que a inteligência
das coisas divinas nos escapa: de maneira que os ensinamentos mais sublimes do Evangelho, nós os lemos sem os
aprofundar. “Não sentis – brada o Apostolo – que Jesus Cristo está em vós?” (Cor. cap. XIII, 5)

Os mistérios da vida interior, foi o próprio Senhor quem nos revelou. “O reino de Deus está dentro de vós.
Permanecei em mim, que eu permanecerei em vós. Aquele que permanece em mim e no qual eu permaneço, dará
fruto” (S. João cap. XV)

Assim o Verbo encarnado habita em nós; “incorpora-se em nossa natureza”, como diz São João Crisóstomo;
cresce em graça e sabedoria em nossas almas, como ainda diz um outro doutor (São Paulino in epist. III ad Server.), e
progride até a plenitude do homem perfeito. Ele absorve pouco a pouco a nossa própria vida, para nos penetrar da
sua, e de tal modo que o grande apóstolo, devidamente transformado, pôde dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu que
vivo; é Jesus Cristo que vive em mim”.

Esta doutrina nos patenteia o caráter augusto do cristão. Jesus Cristo é a vinha e nós somos os ramos; da
seiva divina nos nutrimos. O cristão é um outro Jesus Cristo, “alter christus”, diz São Gregório de Nazianzo; ele é,
segundo a acepção da palavra, um cristo, isto é, um membro de Jesus Cristo, “a carne de sua carne, os ossos de seus
ossos”, “ossa de ossibus” (Ef. Cap. V, 30).
Entre o chefe e os membros deve existir uma incessante comunicação de espírito e de vida, um perpétuo
fluxo e refluxo de graça e de amor. Assim como os múltiplos ramos da árvore, nutridos de uma mesma seiva, não
constituem no seu conjunto senão uma só unidade, assim as almas radicalmente vinculadas no amor de Jesus Cristo
frutificam sobre a árvore da vida e reproduzem na Igreja Católica todas as magnificências da santidade.

Oh! Que felicidade inestimável viver interiormente unido a Jesus Cristo! Poder conversar com Ele a toda
hora e em todo o lugar e colher nesta santa intimidade a graça que fortifica, ilumina e consola! Quem achou o
segredo deste céu interior possui o tesouro oculto do Evangelho; não mais será levado a procurar fora de si
consolações passageiras, pois no fundo do coração, como sobre o altar dos perfumes sagrados, arde um incenso
inalterável; e a sua vida exterior, misteriosamente sustida e alimentada, se distinguirá pela paz, pela mansidão, pelo
amor do próximo e pela igualdade e integridade de uma virtude sempre forte e tranqüila.

A frutificação das boas obras glorifica o Pai celeste, mas não é possível sem a adesão íntima e perseverante
Àquele que vivifica e fertiliza nossas almas. “Sem mim nada podeis”, diz o Senhor: e os esforços do homem são
inúteis. “Mas eu posso tudo nAquele que me fortifica” acrescenta São Paulo.

Seria preciso entrar nas profundezas da teologia, para expor estas grandes e fecundas verdades. Limitemo-
nos a tirar delas uma única conseqüência que diz respeito ao exercício prático da vida interior.

Na ordem moral, bem como na ordem física, os seres criados, para poderem subsistir, são obrigados a ir
buscar a alimentação em um alimento análogo á sua natureza. Sem nutrição, não há força nem crescimento nem
consistência.

O homem regenerado pelo evangelho não se desenvolve pois em sua plenitude, sem estar intimamente com
o Deus do seu coração que o nutre da vida divina e transmite a graça pela via dos sacramentos. Só então, cristão
completo, ele se torna apto para produzir os frutos da santidade, as obras da caridade e da justiça. A Eucaristia,
Maná do céu, é que é a substância nutritiva da vida interior. Mas para a Eucaristia é indispensável juntar a prece e a
oração, veículo das comunicações entre o nosso coração e o coração de Jesus Cristo. “Eu abri a minha boca – dizia
David, - e atrai o Espírito”. É esta atração ou esta aspiração de que fala Santa Teresa, que nos dá o verdadeiro
sentido da prece interior; e, sob este ponto de vista, a prece ou oração é uma comunhão contínua e perpétua: ela
une todas as forças do nosso amor ao Amor eternal. Como a aspiração e a expiração do peito, ela atrai e exala, faz
descer do céu, como um balsamo, o orvalho vivificante que o coração de Deus goteja, e faz subir para esse Coração
Divino o incenso que se queima no coração do homem.

Tal é o duplo impulso que põe em atividade as forças de nossa alma. Em vão, se descuidais deste exercício,
reclamareis o amor de Jesus Cristo. O amor supõe relações vivas e mútuas fusões entre aqueles que se
amam: “Admirabile connerciun!” Exclama a Igreja. O homem e seu Deus se aproximam, se fitam, se enlaçam nos
amplexos de um inefável amor.

Só pela experiência própria se poderiam compreender estes mistérios. A piedade sem vida interior não lhes
conhecem as consolações, está presente sim, mas não a experimenta; possui o incensório, mas não tem a brasa que
lhe desprende os perfumes.

Não há nenhuma arte para ensinar os segredos da vida interior; a alma amante os aprende na escola do Espírito
Santo; ela os penetra e os experimenta pelo exercício da prece, mais do que por meio de teorias.

Não digais: Eu não sei rezar mentalmente. Dizer isso seria o mesmo que dizer: Eu não sei amar. Rezar é amar, rezar é
esperar, é chorar, é desejar, é render graças; rezar é contemplar a Deus em suas infinitas perfeições. Por acaso não
sabeis conversar com as pessoas de vossa afeição, mesmo quando se acham ausentes? Ora, Jesus Cristo, nosso
amigo do coração, não está ausente; está, ao contrário, presente a todos os que O invocam e particularmente
àqueles que sofrem. Para O achardes não é preciso que galgueis até o céu, nem que percorrais os espaços da terra:
“Ele reside em vós mesmas e o seu tabernáculo é o vosso coração”. É ai que Ele vos ouve e vos atende, vos fala e vos
santifica.

Ditosa é a mulher cristã que, no outono da vida, sente amadurecer dentro de si mesma o fruto imortal que ela tem
cultivado com felicidade. As graças exteriores se apagam e a beleza desaparece; e depois, que restará mais, se o
coração estiver vazio?
A grande consolação da alma, na hora da morte, é a viva esperança que se justifica na eternidade. A vida interior, se
desdobra à proporção que as amarrações terrestres se desatam e a alma comparece perante Deus com os traços de
Jesus Cristo. “Meus bem-amados nós somos presentemente os filhos de Deus; mas o que seremos um dia, não se
pode ver ainda: Nós sabemos que, quando Ele aparecer, haveremos de ser semelhante a Ele, porque então O
veremos tal qual É.” – Diz São João, Epístola cap. IV.

Terminemos. Para compreender os castos segredos desta vida de amor, é preciso pô-los em prática. Ora, esta prática
exige a comunhão freqüente, juntamente com a prece interior que se exerce pela oração e pela meditação.
Consagrai em cada dia um tempo conveniente a este santo exercício. Os momentos para isto não vos faltarão, se os
souberdes com prudência escolher.

XVI. O pão da palavra


O homem não se alimenta só do pão material: ele come também o pão da palavra de Deus.

A palavra difunde a substancia daquele que fala; é a irradiação do coração, do pensamento e de todas as
potencias do ser. Eis ai por que o próprio Filho de Deus é chamado o Verbo. Ele é a viva manifestação do Pai, o
esplendor de sua substância, e o amor, que emana eternamente do eterno Amor, Luz da luz.

O Verbo se fez carne; a Vida divina na carne se manifestou; o Filho de Deus, incorporado na natureza
humana, conversou com os homens; e quando nós o escutamos, quando sua palavra vivificante se expande em
nossos corações, ela nos transmite a graça e a verdade; nós bebemos a luz e saboreamos a existência Divina.
Receber a palavra de Jesus Cristo e nutrir-se dela, é comungar espiritualmente, é unir-se a Deus.

Também o eloqüente Bossuet, e antes dele o santo bispo de Hipona, compara a palavra de Deus à
Eucaristia. Insistem ambos sobre as condições em que é preciso estar para receber o Maná Divino, debaixo destas
formas. A piedade cristã tremeria ao deixar cair na terra as menores partículas do sacramento Eucarístico. Como se
deixam perder com tão culpável imprudência as migalhas preciosas da palavra de Deus? A palavra, como o
sacramento, se compõe de sinais sensíveis e de um espírito invisível.

Os sinais são o hálito, som e ruído, são as silabas que ressoam sob o timbre da voz. A substancia é o espírito
da vida, o pensamento, a luz e a graça que jorram da palavra e se comunicam misteriosamente aos que a escutam.

Os sinais se percebem pelos olhos e pelos ouvidos, mas, sem nenhum valor só por si, toda a vitalidade lhes
vem unicamente do espírito a que servem de veículo. Evidentemente, quando o homem fala de si mesmo ou dos
seus interesses, a sua eloqüência não saberia transmitir senão o pensamento humano. O homem não é órgão das
verdades divinas senão quando Deus o inspira e ele se torna assim um porta-voz consagrado e autorizado do Espírito
de Deus.

É fácil experimentar a diferença profunda que existe entre a palavra do homem e a palavra de Deus. A
primeira nos pode encantar por alguns instantes, mas não dá nem tranqüilidade à alma nem firmeza ao espírito;
pode adormecer a consciência, mas não a apazigua! Pode excitar o entusiasmo, mas não saberia inspirar a
abnegação nem as virtudes sobrenaturais. Depois de se ter por muito tempo procurado a verdade nas escolas
humanas, chega-se a reconhecer a insuficiência destas. Ao fervor das investigações e dos debates sucedem o
cansaço e o desânimo; e a prova de que não se tem achado ainda o que se procurava, é que se continua a procurar
sempre e não se achará jamais.

A palavra divina, o que tem de particular é que o coração reto que a põe em prática encontra nos seus
preceitos a solução de todas as dúvidas, o termo de todas as inquietações e o alimento das aspirações mais
sublimes. Pode ele então exclamar, como o profeta: “Eu recolhi a vossa palavra, ó meu Deus! Dela me nutri e fiz dela
as minhas delícias”.

Com efeito, a palavra humana é impotente para resolver os problemas que atormentam o espírito dos
homens em todas as idades da vida. Não pode ela desvendar os segredos das coisas futuras nem mitigar as nossas
dores, iluminando as nossas esperanças; como não poderia jamais nos pôr em contato íntimo com um amor infinito.

A sua ação é superficial e incerta; e nós temos a necessidade de uma substancia que sacie as aspirações da
alma, aclarando-lhe o abismo insondável, e que dê ao espírito o repouso que ele busca na verdade.
Só a palavra divina satisfaz esta necessidade. Não se trata simplesmente de reter formulas ou conservar na
memória as expressões textuais. Da palavra divina é preciso recolher a substancia, assimilá-la à nossa alma, digeri-la
por assim dizer pela assídua meditação e sobretudo praticá-la em todos os atos da nossa vida. É pelos seus frutos
que ela prova a sua divina origem. “Aquele que puser em prática a minha palavra, disse Jesus Cristo, reconhecerá
que a minha doutrina é de Deus”.

O Evangelho caracteriza toda a perfeição da Imaculada Maria por este testemunho: “Ela guardava a palavra
em seu coração e a meditava”.

A exemplo de Maria, habituemo-nos a uma alimentação que santifica a alma; procuremos o pão da
imortalidade. É no isolamento do nosso coração que agrada a Jesus Cristo vir instruir-nos. Ele se revela de boa
vontade àqueles que o seguem e que docilmente o escutam; mas a sua graça se afasta dos espíritos presunçosos.

Abramo-nos ao sopro das suas inspirações. Escutemos a voz divina; quer esta se faça ouvir intimamente em
nós mesmos com uma unção misteriosa, quer se ofereça à nossa meditação nas santas paginas da Escritura, quer
desça enfim, como um orvalho benéfico, do alto do púlpito cristão. Escutemo-la, não somente para aprender a
ciência dos mistérios, mas para fortificar a vida moral, aperfeiçoar a nossa alma na divina sabedoria e torná-la
frutífera no caminho da santidade. Todos os tesouros do amor, da felicidade e da luz se acham encerrados na
palavra de Jesus Cristo.

XVII. Progresso Espiritual


“Sêde perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Este preceito divino não foi formulado somente para as almas
seletas que, seguindo os conselhos do Evangelho, deixam as vias ordinárias do mundo para se consagrarem
exclusivamente ao serviço de Deus. Este preceito é obrigatório para todos, porque nada de imperfeito entrará no
céu.
Para ascender ao esplendor das regiões angélicas e viver na imortal companhia dos bem aventurados, é preciso que
a aureola da santidade brilhe na fronte do cristão. Por isso o trabalho da santificação é sem dúvida o grande e nobre
fim da vida cristã sobre a terra.

O Evangelho no-lo ensina, e a própria natureza, nos seus símbolos vivos, nos revela a lei do aperfeiçoamento. Tudo
que nasce na terra se desenvolve, cresce e se aperfeiçoa. Da semente sai o caule; do caule irrompe a flor; a flor
desabrocha e dá lugar ao fruto; e o fruto por sua vez atravessa diferentes fases até chegar à sua maturidade. O
movimento da vida é um progresso pausado, mas incessante, que não pára senão quando atinge o seu termo.
Assim deve proceder a alma cristã. Ela passa do mal ao bem, das trevas à claridade. Se já é boa, é preciso que aspire
a tornar-se melhor; e os progressos realizados, elevando-se de grau a grau, não se contentariam com outros limites
senão com os de uma perfeição toda celeste. Aquele que não sobe, desce; aquele que não avança, recua – eis o que
diz São Bernardo. Não há ponto nenhum de parada na viagem ascendente para a perfeição evangélica.

O Filho de Deus, que abriu a seus discípulos a verdadeira estrada, conferiu-lhes também a graça de a saber
percorrer. Ele se humanou: nasceu para nos servir de modelo, foi menino e “cresceu em sabedoria e em idade
diante de Deus e diante dos homens – crescimento misterioso que se reproduz em cada um de seus discípulos.
A alma cristã deve elevar-se no amor e dilatar-se na caridade; deve progredir na luz e amadurecer na virtude, ao
mesmo tempo que avança na vida. É assim que ela atinge o fim de sua missão na terra.

A mãe, principalmente, deve marchar nesta estrada com o passo firme e infatigável, lembrando-se de que é cristã;
foi regenerada pelo sangue de Jesus Cristo e, incluída entre os filhos de Deus, aspira também ao Paraíso. Cumpre-
lhe, na qualidade de filho da Igreja, desviar-se das vaidades do século, às quais tem já implicitamente renunciado por
ocasião do batismo, e sobretudo pela graça a natureza, liga-se intimamente a Jesus Cristo para viver em
conformidade com o espírito do Evangelho.
Que estranho desvario é este que nos leva a preferir o tempo atual à eternidade, a terra ao céu, as coisas do corpo
aos bens incorruptíveis da alma? Escravizar a rainha e fazer reinar a escrava, diz São Bernardo, é uma
monstruosidade. O mundo, com todos os tesouros que encerra, não poderia pagar o preço de nenhuma alma, pois
que, pela nossa, Jesus Cristo deu a sua. O Filho de Deus, baixando de seu régio assento, veio arrancar a nossa alma
do poder do demônio, quando ela já se achava agrilhoada e condenada à morte eterna; chorou sobre ela que não
sabia chorar; deixou-se prender para que ela fosse salva; e morreu enfim para lhe dar a vida. “Reconhece, portanto,
ó cristão, a alta dignidade da tua alma (exclama São Leão) e considera quão profundas foram as suas feridas, pois
que, para as curar, o teu Salvador ficou coberto de chagas! Submete-te, não mais às tiranias da lei do corpo, mas às
prescrições da lei de Deus.

Então, gloriosa será a tua vida quando, purificada do pecado, limpa das suas manchas e liberta de todas as peias, tua
alma se eleva resplandecente até ao trono de Deus.
Essa linguagem é muito mal compreendida por essa espécie de meio-cristianismo que se introduziu nas sociedades
modernas e que paralisa todo o impulso para o céu. Daí a fraqueza e o acobardamento de tantas almas que não
vivem senão à superfície da Igreja. Estas não progridem nem se aperfeiçoam; conservem-se, até ao ultimo dia,
imóveis no seu ponto de partida. Elas dormem o sono da incúria, e no dizer da Escritura, “se acharão de mão vazias
no grande dia em que acordarem”.

Evitai o contagio destes exemplos, não somente porque sois cristão, mas também porque sois mães. Quando Deus
vos formou o coração, diz o eloqüente bispo de Meaux, ai pôs primeiramente a bondade como próprio caráter da
natureza divina e como a marca da mão benfazeja de que saímos. A mãe está identificada com a sua família; cada
um de seus atos, cada um dos seus movimentos, para o bem ou para o mal, reflete nos seres que vivem em união
com ela. Quando ela se eleva, aproxima a todos de Deus, e quando se abaixa, tudo em torno dela se degrada. À mãe
é que Deus confiou a tutela e a primeira instrução da criança, e o seu olhar é como o sacramento da primeira graça.

Ela é quem abre nos lábios infantis o primeiro sorriso, no tenro cérebro o primeiro amor.
Duas qualidades, sobretudo lhe são necessárias; e, quando as possui, ela é capaz de levá-las até ao heroísmo. Estas
qualidades são a ternura e a paciência.
O homem excede à mulher pela sua força e pelo seu gênio, mas não poderia igualar-se a uma mãe nos prodígios
daquelas duas virtudes. A mãe cristã sofre, mas não perde a coragem; chora, mas não se lastima. Acaricia o filho das
suas dores e o cobre de beijos, ainda quando ele é a causa do seu martírio. Quem imagina que tudo lhe são prazeres
na companhia dos filhos, não conhece a vida de sacrifícios de uma mãe.

As crianças realmente não se parecem em nada com os pequenos heróis de Berquin.


As solicitudes que reclamam, dia e noite, exigem uma paciência maravilhosa junto a uma ternura inesgotável. Uma
mãe no meio dos filhinhos não tem folga nem descanso: ela escuta com atenção palavras sem nexo, responde sem
se enfadar a perguntas importunas, previne os perigos, exorta com meiguice, repreende com indulgencia e banha
enfim estas débeis plantas de doçura e carinhos, fazendo-as desabrochar como botões de rosa ao sol da primavera.
Seria preciso que a mãe cristã fosse buscar meios de santidade fora da esfera de sua atividade? Ela tem diante dos
olhos, nas suas mãos e em seu coração, objetos e instrumentos capazes de a aperfeiçoarem.

Vossos filhos são santuários que se destinam a ser os templos vivos de Deus. Sois vós, ó mães, que haveis de
responder pela integridade e pelo augusto destino desses templos, confiados à vossa guarda e vigilância e onde
deveis fazer reinar a santidade.
Assim como Moisés teve de construir o tabernáculo conforme ao modelo que Deus lhe havia mostrado sobre a
montanha, assim também os vossos filhos, objetos de tão piedosas solicitudes, se devem formar à imagem de vossas
mães.
De tudo isto resulta que mãe cristã é obrigada a se tornar perfeita para poder aperfeiçoar os filhos que Deus lhe deu;
e é obrigada a se tornar santa para os poder santificar. Só assim resplandece ela no seio da sua família como o arco-
íris entre as nuvens luminosas.

XVIII. A Verdadeira Devoção


Há uma devoção, verdadeira, como há uma falsa devoção.

A primeira, violeta das almas amantes, enche de fragrância muitas existências obscuras, e é pouco
conhecida porque, modesta e humildemente, se furta aos olhos do mundo. A segunda, porém, pactua com o amor
próprio; é egoísta e cheia de si, procurando a estima e os aplausos do mundo, mais do que a aprovação de Deus.
As suas práticas são, por vezes, minuciosas, importunas e farisaicas, porquanto ela nota um pequenino
argueiro nos olhos do próximo e não repara nas traves que cobrem seus próprios olhos. Semelhante a uma múmia
sem entranhas, esta espécie de devoção só se prende às exterioridades: adorna-se nos dias de festa e ostenta-se em
todas as cerimônias, mas sob os ornatos e as galas que a envolvem, não palpita a vida, porque falta o espírito da
verdade e da caridade.

Quando a devoção é verdadeira, conforme o espírito do Evangelho, ela tem três atributos que a distinguem:
é sólida, amável e sobrenatural.

Que há de mais sólido, com efeito, do que um sentimento que resulta do acordo íntimo de todas as
potencias da nossa alma com a vontade do Criador? As práticas de piedade são bem frágeis quando não assentam
neste fundamento. Viver em harmonia com Deus e procurar em todas as circunstâncias ser-lhe agradável: eis aí o
que consiste a solidez da devoção cristã. Nesta via simples não há ilusões nem decepções; a alma permanece igual a
si mesma, sempre feliz e alegre, e todos os seus desejos se realizarão, porque não tendem senão ao cumprimento da
vontade de Deus.

Fora desta concordância só há o mal estar, o aborrecimento e a tristeza.

A alma cristã que procura em Deus a sua luz e a sua força conserva um bom humor inalterável no meio dos
incidentes do dia-a-dia.

Submetida à vontade Divina, nada a faz tremer, não se altera com as variações de temperatura, não se
transforma quando os ventos lhe são contrários, nem se descuida dos seus deveres e dos seus exercícios quando lhe
faltem consolações.

Ela é inflexível na sua fé, constante no seu amor e inabalável na sua adesão à Igreja. Tal é o primeiro
carácter da verdadeira devoção.

Mas a conformidade com a vontade de Deus, que torna a piedade sólida, também a torna amável. Não se
trata aqui de certas graças artificiais que se vêem brilhar no mundo e são comuns e de pouco valor. Há uma outra
amabilidade que é intrínseca à piedade cristã: esta procede da caridade.

Evidentemente a alma que procura tornar-se agradável a Deus, por uma conformidade humilde e fiel com a
divina vontade, goza uma satisfação perpétua, que se reflete, como a uma auréola doce e serena sobre todos os
seus atos.

A verdadeira amabilidade não consiste em ditos engraçados e frases espirituosas, mas em certo perfume de
delicadeza que exala do coração e embalsama todos os pensamentos e todas as palavras.

Ela é sóbria nos seus juízos e apreciações, evita a maledicência e se esquiva de boa vontade para fazer valer
aos outros. Aos olhos do mundo, a amabilidade é uma arte; mas na religião ela é natural. Para bem dizer, ela não é
uma qualidade isolada, mas uma reunião de qualidades; não é uma flor, mas um ramalhete.

Que as mães cristãs tornem amável a sua devoção pela maneira como a praticam!“Que a sua luz brilhe
diante dos homens, não para se realçarem aos olhos destes, mas para glorificarem com ela o Pai celeste”; isto é,
para fazerem que a religião seja amada e apreciada por seus maridos, por seus filhos e por todos os que a cercam.

Não receamos afirmar que o que muitas vezes afasta os homens das práticas piedosas é a pouca simpatia
que lhes inspira certo gênero de devoção.

De um lado, vós intercedeis por eles, mas, de outro lado, não os edificais. Falai-lhes das consolações que dá
a religião, mas vos mostrais habitualmente fracas, tristes e abatidas. O que pensam eles a respeito desta espécie de
cristãs que, todas as semanas, se aproximam do tribunal das misericórdias, mas que, entretanto são insensíveis para
com o próximo? Que correm com ânsia a todos os sermões, mas não se mostram menos apressadas a correr a todas
as festas mundanas? E que, mesmo ao saírem da Santa Missa, não trazem para as suas famílias senão uma fronte
agitada e coberta de nuvens ou um ar tristonho e abatido? Os homens do mundo querem atribuir tais contradições a
uma causa lógica e concluem daí, pelo menos, que a piedade nada tem de agradável. Oh! Quanto a influencia da
mulher seria ao contrario benéfica e proveitosa, se as graças da sua piedade se insinuassem brandamente nos
corações e se a devoção bem entendida infundisse a estima e a simpatia!

Acrescentamos que a piedade deve ser sobrenatural; e se perguntardes em que difere esta piedade
natural, seria curta a resposta: uma se detém neste mundo, ao passo que a outra visa à eternidade. Esta linha de
demarcação notemos bem, distingue profundamente os cristãos de todos os tempos. Uns não vivem senão para a
vida presente; procuram a felicidade sobre a terra apenas e só têm em vista os interesses, as recompensas e os
gozos temporais. Outros aspiram a uma fortuna mais alta; o seu reino não é neste mundo, e como vivem para o céu,
uma elevação habitual de idéias e de sentimentos enobrece todos os atos da sua vida, tornando-os mesmo
sobrenaturais.

A piedade natural, por uma estranha aberração, dá uma importância muito secundaria às lições
evangélicas: esquece as coisas da eternidade para não pensar senão nos bens deste mundo ; e no encalço da
felicidade, como nos sonhos do futuro, bem raramente eleva as suas perspectivas acima dos horizontes da terra.

A piedade sobrenatural prefere os bens que não passam àqueles que o tempo arrebata; coloca as condições
da salvação eterna acima de quaisquer outras considerações; deixa predominar a Graça sobre a natureza e
subordina a lei da carne e do sangue à Lei mais alta, mais pura e mais desinteressada do espírito cristão.

Vós, mães de família, vós que vos instruís nas escolas de Jesus Cristo, erguei bem alto as vossas
esperanças, desembaraçai-vos dos laços terrenos, procurai antes de tudo as coisas imortais e contai firmemente
com a Divina assistência. A vossa primeira conquista há de ser vosso esposo; vós o salvareis, que tal é a promessa
formal de São Paulo: “a mulher fiel salvará seu esposo infiel”. Com mais forte razão, ela o salvará se ele é cristão.
Suponhamos que ele esteja apartado de Deus e da Igreja; ainda assim, não desanimemos porque em todo o caso ele
se acha incluído entre os membros da Igreja, enquanto não tiver a desgraça de renegar expressamente o seu
Salvador. Uma gota de sangue de Jesus Cristo gira em suas veias e a chama sagrada não se apagou ainda nele; uma
sopro pois a reanimará, e é a vós que caberá talvez reacender esta chama que apagou. Este triunfo pressupõe,
todavia , sentimentossobrenaturais.

" Vós não cumprirás jamais a vossa missão, se preferires a vaidade mentirosa ao invés da verdade pura, se
tratais apenas de alimentar as vossas paixões e as dos outros, aspiras o mesmo que uma borboleta dourada,
reluzindo as luzes efêmeras do mundo. "

Em nenhuma hipótese alie a devoção cristã a uma vida leviana, pois seria comprometer a honra do
cristianismo, dar ao mundo o espetáculo de uma religião que faz uma monstruosa mistura da taça de Belial com o
cálice de Jesus Cristo e que de manhã se nutre do Pão dos anjos para à tarde entregar a vida as coisas vãs, senão
criminosas.

Esta aliança heterogênea da luz com as trevas é um dos abusos que atualmente bradam mais alto perante o
trono supremo: “Sede ardentes ou frios – diz a voz de Deus - pois, se fordes tíbios apenas, sereis rejeitados da minha
boca. Aquele – diz Jesus Cristo – que não é comigo é contra mim; aquele que comigo não ajunta, desperdiça”. E
acrescenta: “Aquele que com o meu pão vive em mim”. Ora, viver de Jesus Cristo é viver da vida sobrenatural; e
abusa portanto da Graça, quem da à vida uma finalidade que não é conforme a Deus.

Se a falsa devoção da mulher é a causa freqüente da perda dos homens, a verdadeira piedade, ao contrário,
com as suas qualidades características exercem atrativos irresistíveis sobre os corações.

Sólida, amável e sobrenatural, o seu valor excede ao dos maiores tesouros, é utilíssima em todos os
assuntos, segundo o testemunho do apóstolo, a contêm em si as promessas da vida presente e os penhores da vida
futura.

XIX. Paz Celeste


A paz! Eis ai a primeira e a ultima palavra do Evangelho!

Os anjos a cantam em redor do berço de Belém: “Paz aos homens de boa vontade!” E o próprio Cristo, ao
deixar a terra para subir ao céu, diz aos Apóstolos: Que a paz seja convosco: “Pax vobis!” Assim a paz é o dom
evangélico que abre e encerra a serie de graças proporcionadas ao homem. É o doce fruto da santidade, mas é
também a condição de seu amadurecimento.

Todo o progresso da alma não é mais do que uma dilatação gradual na paz de Deus.

Consideremos, todavia, que ela pressupõe lutas e vitórias. É por isso que Jesus Cristo, o “Príncipe da Paz”,
nos declara que ele veio trazer a espada ao mundo. Enquanto há inimigos a combater, o repouso completo não é
possível.

“A paz – diz a Escritura Sagrada – não é concedida senão aos vencedores”; isto é, àqueles que superam o
mal, triunfam de si mesmos e removem os obstáculos que se opõe ao reino de Deus. “Não há paz para os ímpios”,
acrescenta o Livro Santo.

Como de fato, poderiam gozar as delícias da harmonia e da paz os que violam a lei divina e se põem em
contradição com a Vontade soberana que dirige o universo? A paz, este sopro do céu que sai das páginas do
Evangelho, se oferece com liberalidade às almas retas; mas deve mui particularmente ser procurada pelas mães
cristãs. Se o coração da mãe não é um foco de paz, tudo que a rodeia é mal estar e confusão. Os membros da
família necessitam achar juntos ao coração materno a calma, a tranqüilidade de espírito e a serenidade que as
ocupações da vida comumente perturbam nos homens do mundo. E é um triste e desgraçado obstáculo ao
desenvolvimento do espírito de família e à perfeita educação dos filhos, achar-se uma mãe perpetuamente
inquieta, preocupada e aflita. Contudo, isto é infelizmente, muito comum nos tempos que correm.

Múltiplas causas atuam no seio das famílias para destruir o desejado sossego doméstico. A mãe que
intimamente não possui a paz, como a poderá dar aos outro? Demais, a alma não é susceptível de nenhuma
consolação religiosa, se não conservar disposições verdadeiramente pacíficas. A ausência destas disposições é a
principal causa das distrações durante a oração, da indiferença nas leituras religiosas e da ineficácia da Santa
Missa. Deus não se manifesta no meio das agitações: “non in commotione”, diz a Escritura. A sua voz não se faz
ouvir senão no regaço da paz, porque ele não fala senão aos que o escutam e não verte a sua graça senão na alma
recolhida para receber e corresponder a esse dom.

Por vezes dizeis que Deus não vos fala nunca. É um erro. Deus vos fala sim; vós é que o não ouvis porque,
em vossas orações, só vós quereis falar, julgando perdido o tempo em que o não fazeis e não vos concentrais
seriamente para receber do alto as inspirações que vos enchem de coragem, de confiança, paciência e bondade. A
linguagem de Deus é diferente da nossa.

Deus toca delicadamente as fibras da alma, inunda o espírito de luz, excita a nossa vontade, inclina para o
bem o nosso coração e interiormente nos instrui com uma suave unção. Para discernir a voz divina é indispensável a
calma, o silêncio, um brando recolhimento e certa disposição moral que muitas vezes nos falta. As Santas
inspirações, tão desejáveis ao ministério maternal, não são jamais recusadas à prece, mas nós é que poucas vezes
estamos em estado de distinguir o doce clarão que luz nas trevas. Isto é prejudicial não menos à própria mãe do
que à família e à casa que se acham sob a sua responsabilidade. Carregada de apreensões e no desassossego do
seu espírito, ela muitas vezes confunde o capricho com o dever; cai alternadamente em excesso de severidade ou de
indulgência; as repreensões e as admoestações se multiplicam a esmo e fatigam os filhos; toleram-se grandes
abusos, enquanto pequenas faltas não encontram desculpas e tantas palavras e esforços desordenados ficam sem
efeito. Às vezes nem se atende à idade e à condição particular de cada filho, e continua-se a tratar um filho já
crescido como se ainda estivesse em tenra infância.

As impaciências mal contidas, enfim, destroem os bons frutos, que com os recursos moderados de um
espírito calmo e pacífico se poderiam colher.

Estes defeitos provêm de uma solicitude impetuosa e contraria aos preceitos divinos. Se a mãe de família
está sempre fora da sua esfera, o fogo do seu lar se apaga.

Ao verem-na constantemente entregue às preocupações extravagantes que a atormentam, os seus, ao


princípio, a lastimam e depois a fogem. O esposo não se resolve facilmente a suportar para sempre tal suplício e
vai procurar em outra parte, se não a paz, ao menos diversões que o façam esquecer a sua desgraça; e os filhos,
por sua vez, apressam-se em seguir o exemplo do pai, sem embargo do amor que à sua mãe consagrem.
Como, ao contrário, descansariam todos sob o olhar tranqüilo de uma mãe feliz! O só aspecto de uma alma
simples e cândida e, em geral, a vista de tudo que está em paz, basta para apaziguar o coração do homem, mesmo o
mais violento.

Mães cristãs, pedi a paz, “pedi o que vos pode trazer a paz”! É dom de Deus por excelência. A vossa
missão, como a dos anjos, é serdes mensageiras da paz. Vós sereis o conforto dos que se acham preocupados com
os negócios do mundo, se, ao voltarem dos seus labores, os receberdes com um ar satisfeito e tranqüilo; e eles
assim se fixarão no lar onde encontram ao mesmo tempo a doçura e a força da paz evangélica.

Ninguém seguramente põe em dúvida estas vantagens; mas pergunta-se como se pode adquirir ou
conservar a paz. A resposta está no Evangelho: “Pax hominibus bonae voluntatis!” A paz é dada “aos homens de boa
vontade”.

Ora, boa vontade pressupõe uma boa consciência, sem o que não há senão confusão e trevas. Se, pois,
tendes sofrido alguns choques na consciência, recorrei à misericórdia de Jesus Cristo na Santa confissão, que veio a
terra, não para vos condenar, mas para vos perdoar, purificar e absolver. “Ide em paz – diz-vos Ele pela boca de seus
ministros – e não pequeis mais de ora avante”; palavra de vida esta, que o vosso Salvador vos repete todas as vezes
que vos dispondes a ouvi-lo. Um sacramento vos restitui a paz; um outro sacramento a alimenta e a faz crescer em
vós. Acalma-vos a penitencia e a comunhão vos fortifica.

Então, com todas as suas forças, a alma cristã se levanta e firme se encaminha para a perfeição; as suas
relações com Deus, como com o próximo, se tornam fáceis e agradáveis; a confiança se desenvolve; e ela,
aprendendo a unir-se a Deus, gozará nesta concórdia intima e santa uma paz imperturbável, que sobrepuja
vitoriosamente qualquer outro sentimento em contrário.

XX. Caridade Evangélica


Restringem-se, muitas vezes, as dimensões da caridade cristã, confundindo-a com a esmola.

A esmola é um ramo da caridade e não a própria caridade. De outro modo seria preciso recomendarem
somente aos ricos, mas entretanto, o Evangelho foi pregado principalmente aos pobres.

Pode-se ter muita caridade, sem se estar em condições de dar esmolas: e reciprocamente, podem-se dar
esmolas, sem se terem sequer os primeiros elementos da caridade.

A caridade e a esmola são, pois, duas coisas distintas, bem que na hierarquia das virtudes cristãs, elas se
filiem ambas num mesmo princípio.

Que é a caridade Evangélica? O Apostolo traçou-lhe os caracteres divinos, mas não a definiu. A raiz da
caridade é o próprio Deus: “Deus est caritas.” E, quanto às suas manifestações e às suas aplicações infinitas, irradiam
estas do coração de Deus, de onde brotam torrentes inestancáveis de benefícios sobre todas as criaturas.

O cristão não é verdadeiramente caridoso senão quando participa desta efusão da Divindade; só então se
torna ele por sua vez um foco radioso, um sol de fervoroso amor, de que dimanam todas as doçuras celestes. Bem
se vê que não é somente pelo esforço da nossa própria natureza que se produz esta virtude magnânima. Ela está
acima das forças do homem; é sobrenatural e sobre-humana, e vem só do céu. “Caritas diffusa est in cordibus
nostris per Spiritum sanctum qui datus est nobis”. “A caridade é incutida em nossos corações pelo Espírito Santo que
nos foi dado”.

Este dom sagrado caracteriza os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo; e a alma cristã que deles fosse
privada, tivesse embora as qualidades mais eminentes, não seria digna de comer o Pão do céu. Não se é membro
vivo de Jesus Cristo, senão quando se está animado do Espírito de Jesus Cristo; e o espírito de Jesus Cristo é o
espírito da caridade. “Aquele – diz São João – que pretende viver em Jesus Cristo, deve viver como Jesus Cristo
viveu”. Ora, o Cristo viveu de caridade. “Aqueles que diz estar na luz e odeia seu irmão, marcha nas trevas; ele não
sabe aonde vai, porque as trevas o cegaram”.

“Nós sabemos que passamos da morte à vida, porque amamos os nossos irmãos. Aquele que os não ama jaz
na morte”.
“Conhecemos o amor de Deus para conosco no fato de haver Ele dado a sua vida por nós. E também
devemos dar a nossa vida por nossos irmãos. Meus filhos – acrescenta o amável apostolo – não amemos em
palavras e nos lábios, mas em ações e em verdade.”

A estas lições apostólicas dá Jesus Cristo uma sanção suprema: “É assim que reconhecereis meus discípulos,
se reciprocamente se amam”. E São Paulo, apoiando-se na palavra do Mestre, nos declara que os mais sublimes dons
e as mais esplendidas obras seriam inúteis sem a caridade.

“Falasse eu a linguagem dos homens e dos anjos, sem ter caridade, eu não passaria de um bronze sonoro ou
de um sino retumbante. Tivesse eu o dom da palavra e o de sondar todos os mistérios com uma ciência universal e
uma fé capaz de transportar as montanhas, não tendo eu a caridade, nada sou. Desse eu todos os meus bens aos
pobres e abandonasse o meu corpo às chamas, faltando-me a caridade, tudo isso seria inútil”.

O grande apostolo, para nos premunir contra as falsas interpretações em um assunto tão elevado, e para
banir as ilusões de uma caridade fingida e superficial, nos traça nitidamente as qualidades que distinguem a
verdadeira caridade: “Ela é paciente e mansa. Ela não é presunçosa; não procura os seus próprios interesses. Não
arrebata, não suspeita o mal, nem se regozija com o que aflige os outros. Ela ama a verdade; tolera tudo, crê tudo
e espera tudo. As profecias terão seu termo, as línguas acabarão e a ciência passará, mas a caridade subsistirá
eternamente”.

“Há três virtudes: A Fé, a Esperança e a Caridade; a última é a maior de todas”.

Como se adquire uma virtude tão perfeita? Como se desenvolve ela quando já se lhe têm as primícias? É
unicamente pelas transmissões de Deus e pelas comunicações do homem com o céu, que a divina caridade se
difunde numa alma cristã. Há canais misteriosos, invisíveis artérias, correntes elétricas que põem os nossos corações
em contato com o coração de Jesus Cristo. Estes veículos por onde circula o espírito da vida são os sacramentos,
porque regularizam o fluxo da vida, a ação de Deus e a reação do homem. O sacramento da penitencia é uma das
condições essenciais do amor celeste, pois que purifica a urna do nosso coração, preparando-a para receber os dons
divinos e as puras emanações do espírito de caridade. Só quando o coração está limpo e expurgado de todo o
ressentimento, amargor e rancor, é que a comunhão produz nele os seus efeitos sobrenaturais.

A Eucaristia é o fogo que Jesus Cristo veio trazer à terra. “E qual é o meu desejo – diz o Salvador – senão que
este fogo se acenda?” – É preciso abrigar esta chama sagrada; pouco a pouco ela invade os nossos sentidos, o nosso
espírito e os nossos pensamentos, insinua-se até as mais íntimas profundidades do nosso ser, e por fim, triunfando
do egoísmo da nossa natureza, irrompe luminosa de nós, para manifestar exteriormente os esplendores secretos de
Jesus Cristo.

Quando a alma, arrancada a si mesma, é nutrida com a Divina caridade, reveste-se da beleza de Jesus Cristo
e produz uma vegetação de virtudes que se desenvolvem e rescendem amplamente, como as flores e os frutos de
uma terra de bênçãos. Cheio de um fervor veemente, o discípulo de Jesus Cristo não limita o seu zelo a se vencer a si
próprio; ele é dominado pelo amor ativo do próximo; luta incessantemente pela salvação dos outros; é impelido,
sem descanso, para os atos de abnegação, de dedicação e de sacrifício; sofre com os que sofrem; chora com os que
choram; e sente uma inexprimível simpatia por todos os infortúnios e por todas as dores. “Caritas urget nos”.

É o Pão do céu que incute e desenvolve em nós esta virtude heróica, desconhecida antes do Cristianismo e
que não existe nas regiões em que o Cristianismo não penetrou ainda.

E tão certo é ser a caridade o fruto da Eucaristia, que não se vê mesmo nas sociedades cristãs em que este
sacramento é desprezado.

Em tais sociedades não se recua de certo ante os sacrifícios monetários; dá-se dinheiro e demais até; mas
ninguém se dá a si mesmo, física e moralmente, o que é próprio só da caridade católica. Podem-se exagerar as
esmolas e multiplicar as generosidades; não se ultrapassariam, porém, os limites ordinários da natureza humana,
sem esse ponto de apoio, sem o impulso que nos vem desse princípio da vida sobrenatural. As águas vivas nunca
se levantam com ímpeto de sua própria força, senão quando tombam do alto.
As seitas que rejeitam a Eucaristia se refugiam só no Antigo Testamento. Podem por isso praticar as virtudes
naturais; mas ignoram as Virtudes Apostólicas, conservam-se alheias ao heroísmo da fé, da abnegação e da
imolação e não compreendem os prodígios sobrenaturais da caridade.

Os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo são os que tomam lugar e comem à sua Santa Mesa; estes é que
são as pessoas de Sua intimidade. Jesus Cristo lhes serve de modelo; e eles seguem as Suas pegadas, participam de
Seu Espírito e reproduzem as Suas obras. Não vivem mais, enfim de sua própria vida; vivem somente da vida de
Jesus Cristo.

Avalie-se o poder do cristão quando esta virtude real o vivifica! É para a caridade que são dirigidas todas as
promessas do Salvador, e é a elas que o Evangelho assegura o cumprimento de todos os votos e de todas as preces.
Não foi a todo mundo, indistintamente que Jesus Cristo dirigiu as seguintes palavras: “Tudo o que em Meu nome
pedirdes, vos será dado”. Ele não fez esta promessa, senão aos Seus discípulos, isto é, aos que praticam a Divina
caridade. Estes são o que possuem o segredo de tocar o coração de Deus e nada por isso lhes é impossível.

Ó mães cristãs! Tomai em vossas mãos esta chave de ouro do céu. Sede compassivas, caridosas e ternas.

Cercai de desvelo os vossos próprios filhos, mas também os filhos dos outros, e sobretudo os que não tem
mãe. O que tiverdes feito por eles Jesus Cristo vos pagará.

Inspirai a caridade aos vossos filhos e as vossas filhas: Ensinai-lhes a amar como Jesus Cristo ama, e perdoar
como Jesus Cristo perdoa, e a ser dedicado como ele o é.

Iniciai-os nos doces mistérios da piedade, da compaixão e das simpatias evangélicas. E os vossos filhos, a
exemplo de suas mães, se tornarão anjos de caridade.

XXI. A prece do coração


A reza ou a oração é o amor em ato e em exercício; é o movimento vital da alma amorosa; de modo que, segundo
vários teólogos, a alma que não reza deixa de viver: Cessam as suas pulsações e morre.

O coração, como um lar, é preciso estar aceso. Jesus Cristo é quem lhe ateia a sagrada chama e quem a
alimenta e a atrai ao céu.

Nós chamamos prece do coração às efusões de amor que, sob qualquer forma que seja, emanam de Deus e
do homem para se confundirem e unirem indissoluvelmente. A prece do coração é a via pela qual nós nos
comunicamos com Deus e entramos no seu alto reino; não é pelas agitações, mas pelas afeições íntimas, que sobe
ao céu para ir até Deus: “non pedibus, sed affectibus, non migrando, sed amando”. E Santa Teresa diz, com mais
simplicidade ainda, que “orar não é mais que testemunhar, nas freqüentes relações que temos a sós com Deus, o
quanto o amamos e o quanto nos sentimos felizes em sermos por ele amados”.

Segundo Santa Teresa, a prece é uma elevação, porque o alvo desejado está acima de todas as coisas deste
mundo, e para atingi-lo, é preciso que o espírito se eleve, quebrando os laços que lhe embaraçam o vôo.

Vários métodos aprovados nos ensinam as formas da prece ou da oração mental; mas o grande mestre
desta ciência é o Espírito Santo e a condição do aproveitamento em sua escola é uma prática perseverante. Todas as
coisas se aprendem pelo exercício; pela paciência é que nos tornamos pacientes e pela mansidão é que nos
tornamos mansos, como é pelo cultivo assíduo das ciências e das artes que nos tornamos sábios. Do mesmo modo
aprende-se a rezar, rezando; como se aprende a amar, amando.

A alma que ama a seu Deus quase não tem necessidade de métodos nem de regras, pois orar é amar e,
quando se ama, o coração se expande naturalmente, sem o auxílio de nenhuma arte. Que há de mais doce e de mais
fácil do que amar o Amor e conversar com o ente amado?!

É por se limitarem às orações estudadas, que tantas almas se afastam da prece interior. Ide com
simplicidade a vosso Deus e falai-lhe com um coração sincero e ingênuo, que uma só palavra, que assim
balbuciardes, tocará mais vivamente o coração de Deus, do que todas as frases que tiverdes aprendido de cor.
A prece deve ser sentida, singela e espontânea. Pouca ou nenhuma impressão causam as saudações que os
vossos filhos vos recitam, quando o seu professor foi quem as compôs, e preferis certamente a sua linguagem
ingênua e simples aos discursos antecipadamente preparados.

É útil, contudo, recorrer às lições dos guias espirituais; mas, conforme os seus próprios conselhos, cumpre
segui-los com um espírito de liberdade, sem se sujeitar maquinalmente a eles. As frias considerações que a nossa
razão elabora com trabalho, são operações lógicas, mas não orações. Orar não é meditar os mistérios do amor – sem
amor; o mistério das dores – sem dor; e a paixão de Jesus Cristo – sem compaixão. Se as meditações frias têm a sua
utilidade para certos espíritos graves, a maior parte das pessoas as evitam por exigirem um esforço intelectual de
que poucos são capazes. Trata-se de entrar em comunicação com o Deus que em nós habita; e para isto o melhor, o
mais excelente livro de rezas é o nosso próprio coração.

A alma humilde pode contar com a assistência do Espírito Santo; e tanto mais feliz será o seu êxito na via das
ascensões interiores, quanto maior for a fidelidade, a confiança e a simplicidade com que ceder aos atrativos
celestes. Tal é o resumo das lições de São Francisco de Sales, de Santo Ignácio, de Santa Teresa e dos mais
experimentados doutores da Igreja.

Assim, pois, sempre que vos aproximardes de Deus para expandir o coração na prece, invocai o Espírito de
amor e atraí-o a vós por um desejo veemente e perseverante. A perseverança é que triunfa dos obstáculos, mas é
preciso ajuntar-lhe a paciência. “É bom esperar em silencio a saudação do Senhor”.

Não exijais que a lenha verde se inflame depressa; suportai o fumo das distrações sem impaciência e sem
desânimo. Esforçai-vos por guardar a alma na cela estreita e fechada de vosso coração; e o Pai Celeste, que é o único
a penetrar neste secreto recôndito, atenderá aos vossos ardentes votos. Se ele provoca em vós este grito de
amor: “Abba, Pater”, abandonai-vos aos impulsos do amor filial e não perturbeis a ação Divina com os vossos
próprios pensamentos, nem com as inúteis demonstrações de uma sensibilidade fugitiva. Lançai-vos com Madalena
aos pés do Senhor, ou com São João sobre o seu peito. Aí é que se colhem palavras vivificantes, que se meditam
sublimes verdades, que sesaboreia um divino maná e se bebem as águas vivas da graça.

Podeis abrir também o livro dos Salmos ou dos Evangelhos, e quando houver oportunidade, qualquer
capitulo dos livros inspirados;mas convém ler pouco e apreciar muito. Procurai sob a casca do texto Sagrado o
celeste alimento; em seguida, fechai o livro, aplicai o pensamento e o coração inteiro às lições divinas que ai
recolhestes e exalai depois para o céu o perfume de uma prece inflamada. “In meditatione mea exardescet ignis”. “O
fogo do amor- exclama Davi –se acendeu na minha meditação”.

Oh! Como seria para desejar que os fiéis pudessem ler os livros Santos na língua da Igreja! Mas, bem que as
diversas traduções desses livros sejam geralmente defeituosas, o fiel achará nelas inesgotáveis inspirações; e a alma,
quer gemendo ao peso do temor e do remorso, quer estremecendo de júbilo e de esperança, terá no divino salmista
o admirável interprete de todos os seus sentimentos.

Seria um erro acreditar que a oração mental convém somente aos religiosos e que é impossível ou inútil na
vida do mundo. Desenganai-vos: esta prática salutar é recomendável a todos, e as pessoas envolvidas nos negócios
do século têm necessidade dela ainda mais do que as almas consagradas a Deus. Estando estas subtraídas às
influencias enervantes do espírito do mundo, têm menos tentações, menos paixões, menos quedas a recear. Como
os círios que ardem no santuário, elas se consomem docemente ao fogo da caridade e se unem a Deus pela direção
habitual da sua vida. Mas no tumulto das sociedades mundanas encontra-se o contrário, tudo que arruína o espírito,
enoja a alma, e interrompe a nossa conversação com o céu; e se no meio de tantos perigos não recorreres ao
recolhimento da oração, a vossa fé esfriará pouco a pouco e a vossa piedade se cobrirá de gelo.

As dificuldades que se opõem a estes salutares exercícios provêm sempre da inconstância e do desanimo.
Abandonam-se as primeiras tentativas, porque não produzem imediatamente o fervor; e é por falta de fidelidade
que se reza sem obter o consolo almejado; quaisquer que sejam, pois, as vossas ocupações e as condições que vos
cerquem, reservai sempre algum tempo para a prece do coração.

São Paulo aconselha a “resgatar o tempo”, o que quer dizer segundo a explicação de Santo Agostinho,
que, para ganhar tempo, é preciso ganhá-lo no tempo que se perde. Tirai alguns minutos a um sono muito
prolongado, outros minutos às conversações frívolas, às leituras ociosas e às visitas inúteis e outros mais cuidados
excessivos da vaidade, e tereis, por fim de contas, somando estes diferentes bocados de tempo perdido, o lazer
necessário à oração.

O Apóstolo vai mais longe: ele quer que o cristão reze a todo o tempo e em todo o lugar, pois que o incenso
não deve jamais cessar de arder no santuário da alma. O verdadeiro amor não admite pausa, nem parada, nem
intermitência; e sempre ora, porque ama sempre.

É preciso pelo menos atiçar todos os dias a celeste fagulha, afim de que, nos instantes consagrados ao
recolhimento e ao silencio, possa a oração desatar-se e voar, como a brisa matinal, e responder docemente por ecos
de amor aos altos favores da graça.

Os frutos desses entretenimentos sagrados são ao mesmo tempo saborosos e saudáveis; pois se a
conversação com os sábios e a ciência destes nos tornam sábios, se a sociedade e a convivência dos bons nos tornam
bons e na companhia das pessoas virtuosas nos tornamos virtuosos, que efeitos não produzirão em nós estas
freqüentes comunicações com o Deus da ciências, com a sabedoria eterna?

Mães cristãs, se quereis atrais as bênçãos de Deus sobre vós e sobre as vossas famílias, sede fiéis à prece,
perseverai na oração e não desanimeis jamais.

XXII. Os pobres
"Feliz do homem que se compadece dos sofrimentos do seu irmão! – diz a Escritura – aquele que tem a compreensão
das necessidades do seu próximo."

Ele será por sua vez assistido nos seus maus dias e o Senhor será o seu galardão. As obras de misericórdia foram, de
algum modo beatificadas por Jesus Cristo mesmo; porquanto o soberano Juiz, identificando-se com os pobres, dirá
um dia àqueles que houverem praticado tais obras: “Eu tive fome, e vós me destes de comer; eu tive sede, e vós me
destes de beber; eu estive enfermo e encarcerado, vós me fostes visitar: entrai, pois, na alegria do vosso Deus”. Os
pobres são nossos irmãos segundo a natureza; são nossos condiscípulos na escola de Jesus Cristo; e são pedras vivas
no templo de Deus. Por todos estes títulos, nós os devemos amar e honrar com toda a sinceridade de nossa alma. Na
qualidade de homens, eles se ligam a nós pelos laços da carne e do sangue. Eles são, como nós, peregrinos viajantes
sobre a terra, acessíveis às tribulações e às dores, sujeitos à morte e chamados ao mesmo julgamento.

Eles participam conosco das fadigas da vida, de que tomam sobre si a parte mais pesada; conhecem as nossas lutas e
as nossas lágrimas; aspiram ao mesmo destino.

Entre eles e nós há a solidariedade que existe entre os membros de um mesmo corpo; e por isso é que um filósofo
do paganismo pôde dizer com razão: "Eu sou homem e nada do que é humano é estranho a mim". Assim a própria
natureza, antes de tudo, fala ao coração e faz nascer entre nós uma irresistível simpatia. Os nossos próprios
sofrimentos nos dão a medida dos sofrimentos do próximo e as contemplações que, em nossa fraqueza,
reclamaríamos para nós, são as que devemos conceder aos outros. Basta ser homem para se comover à vista das
chagas e das dores de outro homem, e só quem não tivesse coração olharia para elas sem piedade ou com
indiferença.

Mas, sendo nós cristãos, o sentimento natural se faz sobrenatural e se eleva a um poder mais alto. O pobre, não
menos que o rico, é filho da Igreja: foi resgatado pelo sangue de Jesus Cristo, e tornando-se por isso herdeiro do céu,
tem o seu lugar marcado no festim dos anjos, e entre os nossos juízes se achará no derradeiro dia. Desde o presente,
ele faz parte da vasta família dos cristãos da terra e do céu que põem em comum seus inesgotáveis tesouros;
participa das virtudes, das obras e dos méritos de todos e está associado às riquezas de Jesus e de Maria. Um mesmo
espírito, uma mesma esperança, uma mesma vida anima em variado grau os membros da família católica; e o pobre
na sua dignidade, tanto quanto em sua caridade o rico, pode aspirar às mais eminentes prerrogativas.

Todos conjuntamente filhos da Igreja, nós somos os ramos de uma só árvore, nutridos de uma mesma seiva e
vivendo de uma mesma raiz que é Jesus Cristo. Nós devemos pois, em virtude do laço intimo e santo que nos liga uns
aos outros, suportar reciprocamente os nossos fardos, prestando-nos em tudo mutua assistência. Quanto mais
cristãos formos, isto é, quantos mais penetrados estivermos do espírito de Jesus Cristo, tanto mais sentiremos os
males dos outros e os gemidos alheios acharão eco em nós. "Aqueles que se tocam das misérias de outrem," - diz São
Bernardo, "são verdadeiros membros da Igreja; mas merecem ser desta eliminados aqueles que não conhecem a
compaixão". A Igreja não tolera os corações duros, os homens sem afeição, sem entranhas, sine affectione, que são
insensíveis aos padecimentos de seus irmãos. – Os ramos em que a seiva não circula, já não pertencem à arvore viva,
são ramos mortos; do mesmo modo os cristãos que não têm sentimento para os desgraçados, ficam estranhos à
comunidade dos fiéis e deixam de ser contados entre os vivos.

O amor dos pobres é pois um dos sinais da vitalidade da alma e o que torna mais saliente a nossa semelhança com
Jesus Cristo. O divino Mestre amava particularmente os pobres; Ele mesmo se fez pobre, nasceu e viveu entre os
pobres e entre os pobres escolheu os seus primeiros discípulos. Os pobres formavam o seu cortejo e aos pobres é
que o Evangelho foi primeiro anunciado.

A pobreza foi assim nobilitada; elevou-se à ordem das virtudes heróicas; tornou-se o atributo dos santos, e uma
multidão de discípulos voluntariamente a abraçaram para imitar o Senhor.

Por conseguinte, se os sentimentos de Jesus Cristo são os nossos sentimentos, se as suas idéias animam as nossas e
se os nossos corações estão vivificados pelo seu, nós faremos o que ele fez, amaremos o que ele amou,
continuaremos as suas solicitudes e proporcionaremos aos membros sofredores de Igreja os testemunhos afetivos
da nossa caridade. Demais, os bens terrestres não passam de um usufruto que a Providencia confiou aos ricos; e
assim como as águas são acumuladas nos reservatórios para oportunamente regarem e fertilizarem os campos,
assim a Providência não pôs a fortuna na mão dos ricos senão para fazê-los seus ministros e dispensadores.

Mas acaso somos nós generosos, caritativos e ternos, conforme o espírito do Evangelho? As nossas obras de
misericórdia são acaso abundantes e superabundantes como prescreve a lei de Deus?

Não mortifiqueis o pobre, diz a escritura, e não tardeis em consolar aquele que sofre. “Se tu tens muito, dá muito; se
tens pouco, dá pouco; mas dá sempre de bom coração” (Tob. Cap. IV)

O Senhor nos recomenda sobretudo que demos com alegria; Ele aceita para si mesmo a nossa esmola e repara bem
mais no coração que se abre do que na mão que despende.

Oh! Como é doce a missão de diminuir e suavizar os sofrimentos dos infelizes, de prover as suas necessidades, de
enxugar as suas lágrimas, de adivinhar com a inteligência da caridade as suas privações dolorosas e de trazer um raio
de luz às suas sombrias tristezas.

Ó Mães cristãs! É sobretudo nesta esfera da caridade que deveis manifestar os vossos dotes e é nesta ciência da
divina compaixão que precisais iniciar os vossos filhos. Conduzi vossas filhas a esses pobres casebres, fazei-lhes ver
de perto os leitos da dor. O espetáculo de tantas misérias ignoradas lhe fará conhecer melhor do que os livros as
tristes realidades da vida.

Vossas filhas aprenderão nesta escola a amar os pobres e a serem boas e compassivas. Elas se exercitarão à vossa
vista na pratica da abnegação, da dedicação e da caridade evangélica; semearão nas lágrimas e ceifarão na alegria,
recolhendo com júbilo doirados feixes de bênçãos.

Vamos recordar aqui um caso lido nos anais da Igreja.

Acusava-se a certo nobre de Milão, cristão fervoroso, de reduzir à pobreza a sua família com as esmolas excessivas
que dava aos pobres. E ele respondeu: “Eu cuido dos filhos de Deus e Deus cuidará dos meus”.

Com efeito, um dos filhos desse homem se tornou santo: foi São Carlos Borromeu.

XXIII. A Providência
O Todo-Poderoso que criou o universo preside aos destinos do homem e dirige todas as existências para o
seu fim.

A idéia de Deus implicaria uma estranha contradição se, reconhecendo nós as suas perfeições soberanas,
puséssemos em dúvida a solicitude e a proteção que Ele dispensa a todas as criaturas. Como supor um Deus a quem
faltasse o querer e o poder no governo dos seus filhos e dos entes que criou? Negar a Providência seria negar o Pai
que está no céu.

A Providência é a ação divina que conserva a obra da criação, que regula a marcha de todas as coisas com
suavidade e firmeza e que conduz o homem, por entre as provações deste exílio, aos triunfos da celeste Pátria.

Mas o racionalismo faz objeções a tal respeito. Diz-se, por exemplo, com ênfase: É lá possível que o
Altíssimo, no fastígio da sua glória, desça a preocupar-se com as menores particularidades da vida terrestre? Atribui
a Deus as grandes iniciativas, as fortes impulsões e os mais importantes acontecimentos; mas não rebaixeis a idéia
pura, elevada e sublime que formamos da Divindade, misturando-o aos fenômenos mais tristes.

Esta objeção cai por si, pois que a intervenção de Deus nas coisas deste mundo é uma conseqüência da
criação e é evidente que o mesmo ato que deu a vida, a conserva e protege.

Deus ama suas obras e não é indigno dele o velar pelo que fez.

O sol, brilhante imagem da Divindade na natureza, não se limita a iluminar os grandes espetáculos; e pelo
fato de presidir as galas da primavera, aos esplendores do verão e as riquezas do outono, se digna de reanimar a
menor ervinha ou o ínfimo verme perdido no espaço, nem de penetrar qualquer terra ignorada para ai depositar um
raio de vida no mais pequeno grão ou na mais humilde semente.

É assim que a Providência abraça com a sua onisciente atividade a todas as existências. Demais, é um
engano supor que, para glorificar Deus, é preciso colocá-lo muito distante de nós, em uma longitude inacessível.

Sem dúvida que este misterioso foco de bondade, de paternidade e de amor brilha no mais alto dos céus;
mas a sua vida enche a imensidade. “Nós vivemos em Deus – disse São Paulo – nós respiramos em Deus, nós nos
movemos em Deus”; e coisa nenhuma poderia esconder-se ao seu olhar. Todos os homens e todos os mundos e
todos os sóis subsistem nesta infinita resplandecência. O nada não existe; o homem vive em Deus, como os peixes
no oceano e os pássaros do ar.

Sob este aspecto, que é o da verdade, não seria lícito desconhecer a intervenção incessante da Providência;
a não ser que se acuse Deus de uma indiferença cega e cruel, é forçoso admitir ao mesmo tempo a possibilidade e a
necessidade do governo divino.

Mas as objeções continuam. Considerai, dizem, a marcha dos acontecimentos na terra! Considerai os
acidentes inexplicáveis que ocorrem na história do mundo!

Que faz a Providência, enquanto a injustiça triunfa e as mais santas coisas perecem? Como reconhecer a
mão de Deus nos contrastes e nas desigualdades das condições humanas? Ninguém nega estes fatos, mas longe de
desmentirem a ação providencial, eles a explicam. Deus não suprime o livre arbítrio do homem, não impõe a este a
fatalidade, não o liga a necessidades inflexíveis, nem desnatura a vida deste mundo, que é uma vida de provações e
de preparo e transição para outra.

O homem pode livremente decidir-se entre o bem e o mal.

A Providência o guia no meio das suas dúvidas e esclarece-lhe o entendimento, mas não o constrange nem
a seu pesar o dirige: oferece-lhe a mão amiga para secundar, mas não o força a aceitá-la nem lhe violenta a vontade.

Sim, o mundo em que estamos é cheio de contradições e em seu seio fermentam promiscuamente todas as
espécies de elementos bons e maus. Mas não é aqui que a Providência conclui a sua obra, nem é aqui o desfecho das
últimas cenas da vida. As nossas falsas apreciações provêm somente das proporções estreitas e incompletas que nós
damos à nossa existência sobre a terra, pois não vemos senão o limitado espaço que separa o berço do túmulo e
nossa fraca ciência não vai além disto. As vias providenciais se desenvolvem em uma esfera mais ampla;
compreendem a vida humana em sua totalidade; e, lúcida e plenamente, se hão de justificar no dia da conclusão de
todas as coisas.

Estranha-se que o homem de bem seja carregado de tribulações e desgostos, enquanto as prosperidades
enchem a casa do mau e do pecador. Segue-se daí que este seja digno de inveja ou que a Providência possa faltar
ao homem fiel?
Ah! Se a terra fosse a nossa única pátria ou o último termo de nossa carreira, seria admissível isto; mas o
cristão iniciado na doutrina da verdade espera assistir em outro lugar ao desfecho da história humana, porque
sabe que a última palavra da Providência não será compreendida senão além da sepultura.

Os felizes e os desgraçados deste mundo foram representados no Evangelho pelo famoso rico de Jerusalém
e pelo pobre Lázaro. O primeiro tinha recebido neste mundo todos os bens desejados e vivia satisfeito e repleto, ao
passo que o outro gemia na humilhação e na extrema penúria. Alguns anos decorrem, e soa a hora fatal em que
cada um deles vai recolher os frutos das suas obras. Os gozos do rico se mudam em prantos, e a paciência do pobre
é indenizada com o galardão eterno. É assim que se justifica a Providência e que, segundo a palavra do Eclesiástico, a
explicação de cada coisa se manifesta a seu tempo.

Guardemo-nos de circunscrever o vasto plano providencial e não pretendamos encerrá-lo no circulo


obscuro da nossa débil razão.

A providência não falta nunca aos homens que lhe são fiéis! Ela só falta aos que vão de encontro às suas
vias, os quais, abandonados a si mesmos, batem nos recifes e naufragam.

Que a mãe cristã, intimamente penetrada da bondade Divina, seja o instrumento da Providência para o
seu esposo, para os seus filhos, para todos os seus! Que ela seja também uma providência para os pobres e, à
imitação do Pai das misericórdias, procure espalhar ao redor de si os largos benefícios de uma diligência
verdadeiramente cristã, incessante e dedicada.

XXIV. O senso cristão


Todo o cristão, em virtude do próprio ato de sua regeneração espiritual, adquire um senso novo. É o senso
da verdade, de que fala o Apostolo São João: “dedit nobis sensum ut cognoscamus verum Deum” (São João V, 20).
Este dom sobrenatural nos é concedido para conhecer o verdadeiro Deus: conhecimento que é o principio de todas
as outras ciências.

Deus é luz; Deus é verdade. Ora, não é pelos nossos órgãos externos que nos podemos pôr em contato com
o Ser imortal, que está acima de todas as formas deste mundo. A nossa razão tem limites muito estreitos para
concebê-lo e o nosso pensamento, um alcance muito fraco para se elevar até ao trono da Majestade sublime.
Também, para se fazer amar e conhecer, o próprio Deus abriu no fundo de nossa alma uma capacidade nova,
faculdade sobrenatural que comunica com a luz suprema e percebe os aspectos da verdade revelada.

É como um novo sentido de que não é fácil definir as operações. Tão difícil é fazer que o compreendam os
homens que deles são privados, como fazer compreender aos cegos o uso da vista e aos surdos o uso do ouvido.
Basta saber que este eminente sentido em seu misterioso exercício encerra as aptidões de todos os outros sentidos;
isto é, participa de algum modo, mas em grau superior, das qualidades do ouvido, da vista, do gosto, do tato e do
olfato.

Com efeito, a fé do cristão, nutrida pela divina palavra e desenvolvida pelas obras, não é uma fé superficial
e vaga, mas implica uma inabalável certeza e esta certeza provém menos das demonstrações exteriores do que do
acordo dos ensinamentos sagrados com o senso intimo da verdade. “Aquele que crê no Filho de Deus possui em si
mesmo o testemunho de Deus” (I. João. V. 10.)

Sim, há na alma regenerada um ouvido que escuta e instintivamente absorve a verdade, um olho que vê e
reflete simpaticamente a luz, um gosto que saboreia com delicia as divinas virtudes, um tato que se dirige
espontaneamente para o bem e que repele o mal e um olfato espiritual que aspira o perfume da piedade e o bom
odor do Evangelho. Todos estes modos de percepção residem em um só órgão, que é o órgão do sentido cristão.

Ainda mais: a estas diferentes aptidões acresce um critério pronto e seguro que domina as sensações do
verdadeiro, do justo e do belo; de sorte que, por um movimento espontâneo, a alma discerne os espíritos, e admite
o que é conforme a verdade e rejeita o que é falso, distingue a luz das trevas, separa o trigo do joio e submetida
sempre à autoridade da Igreja, se conserva integra e incólume na fé.

A primeira condição do desenvolvimento de uma tão admirável faculdade é um coração puro e limpo: “Bem
aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus!” A pureza de coração reside principalmente na boa
vontade, que se aplica a Deus sem vacilações e que não sofre a ação dos prismas deste mundo. Por isso é que se
encontra este sentido bem mais afinado em certas almas humildes que vivem na simplicidade da fé, do que entre
os doutores e os sábios. “A alma de um homem santo – diz o Eclesiástico – descobre melhor a verdade, do que
sete sentinelas do alto de uma torre que observam o que se passa” (Eccli. XXVII, 18).

Quantas vezes, realmente, se nota entre os espíritos menos cultos uma admirável intuição das coisas
divinas e humanas e esse critério seguro que na linguagem vulgar se chama bom senso! E o que é mais raro hoje em
dia é precisamente o bom senso. Procuram-se, em geral, por meio de longos e complicados rodeios, soluções que
saltariam aos olhos com evidencia, se com mais simplicidade e justeza fossem procuradas.

O obscurecimento do coração nos faz muitas vezes perder a justeza do ponto de vista. Outras coisas
contribuem para enfraquecer o senso cristão, que é como um olho delicado que se fecha subitamente ao menor
átomo de poeira e que não se alia com as impressões dos sentidos corporais. Este senso adquire uma perfeição
tanto mais alta, quanto mais puro e extremo é ele e quanto mais se eleva acima do que é sensível e material.

Tão exato é isto que, para melhor escutar a voz divina que fala à nossa consciência, se cerra o ouvido
exterior e para melhor contemplar as coisas do espírito, se cerram os olhos da carne.

É o rumo do mundo, é o atrativo das opiniões vulgares, é o habito de admitir sem exame e de repetir sem
reflexão os pensamentos dos outros; é sobretudo a influência dos interesses, dos preconceitos, das paixões e das
considerações humanas que ocasionam de ordinário a alteração do senso cristão.

O que é preciso fazer para corrigi-lo quando ele se embota e para esclarecê-lo quando ele se turva? Pouca
coisa. Trata-se menos de fazer do que de desfazer. Não é nunca o sol que se escurece, são os nevoeiros da terra que
o ocultam a nossos olhos. Voltar à simplicidade da fé e receber a palavra da Igreja em um coração humilde, sem
deixar ai se embeberem as tintas cambiantes da imaginação; aceitar a doutrina da salvação com as suas
conseqüências práticas sem se curvar às interpretações de uma razão presunçosa: eis ai o que torna o cristão capaz
de atrair a luz do céu. E, sob a ação desta luz, o senso íntimo se abre, se apura, se retifica e percebe claramente as
coisas da ordem divina.

Será preciso dizer o quanto este senso é necessário às mães cristãs? Onde pois se deveria ir buscar um
bom conselho, senão no coração de uma mãe?

As mulheres insignes, de que a história guardou os nomes abençoados, eram verdadeiros oráculos em
suas famílias, na sociedade e até às vezes na Igreja. Mesmo a vários reis e pontífices aprouve consultá-las. Que
distinguia estas grandes almas?

Não era a ciência, nem os talentos, nem a experiência dos negócios públicos; elas viviam ao contrário,
humildes e obscuras. O traço saliente que as recomendava ao respeito e à confiança de todos era o seu senso
cristão. Transformadas pela contemplação divina, elas brilhavam como focos luminosos, como espelhos puros da
verdade, como vivas imagens do Deus de que refletiam as virtudes e os esplendores.

Feliz o jovem, feliz o filho que encontra esta inapreciável vantagem no seio da sua própria família! Felizes
os que em seu lar materno acham sempre uma luz a arder na lâmpada sagrada.

XXV. Norma de procedimento


Uma boa norma de procedimento, precioso privilégio de sabedoria cristã, é particularmente necessária à mãe
de família.

Para se dirigir a si mesma e para dirigir os outros, ela necessita de uma luz que, esclarecendo a sua própria
consciência, projete serena claridade sobre tudo o que a cerca. Sem isto a vida não é mais do que uma marcha
aventureira, semelhante à de um carro sem condutor.

Ora, o que revela uma boa norma de procedimento é o olhar reto, a palavra branda e a mão firme.

A primeira qualidade é a retidão do olhar, que supõe o conhecimento do fim que se deseja atingir, pois a
escolha dos meios, o discernimento das circunstancias, o desfecho das complicações, as decisões refletidas e todas
as determinações do pensamento e da vontade dependem evidentemente do termo final a que todos estes atos
devem tender.

Quando o ponto de vista está nitidamente fixado, a linha reta se desenha por si mesma e todos os
movimentos da vida seguem a direção do móvel inicial.

“Se o vosso olhar é simples – diz o Evangelho – o vosso corpo é todo luminoso”; o que quer dizer que toda a
esfera da nossa atividade se clarifica quando a nossa intenção é pura. As perplexidades e os passos falsos não se
multiplicam senão quando no nosso proceder falta princípios. Então o espírito flutua no vago; a nossa marcha é
incerta; avançamos e recuamos; ligamos e desligamos; começamos e recomeçamos, mas sem acabar jamais a obra
começada; e o tempo se passa assim a desfazer e a tornar a fazer o que tinha sido mal feito.

A retidão, além disso, é o mais seguro, o mais breve e o mais digno de todos os caminhos e é geralmente a
condição do êxito e da honra.
As linhas retas, na verdade, podem encontrar oposições e atravessar interstícios, mas como nada lhes
mudaria a direitura, acabam sempre por triunfar; ao passo que as linhas obliquas se quebram de encontro a
obstáculos imprevistos e trazem quase sempre a falsa prudência que as traça.

Se, pois, a mãe cristã se quer dirigir conforme às vistas de uma prudências superior, é preciso que ela se
apóie na fé e siga em linha reta a verdade.

A segunda qualidade de um bom teor de vida é a mansidão. “Bem aventurados os mansos, porque eles possuirão a
terra!” Não se trata aqui de uma certa mansidão que procede mais do temperamento do que da virtude. Esta, como
as plantas que crescem apenas à superfície da terra, não dá fruto.

A verdadeira mansidão tem uma origem mais alta; é como que um fluxo da graça divina, infusa e
liquefeita no coração dos cristãos. “Diffusa est gratia in cordibus nostris per Spiritum Sanctum qui datus est
nobis”; virtude delicada que tem a sua fonte no céu e que tanto mais copiosamente se difunde quanto mais vazio
de amor-próprio está o coração e mais arredado dos elementos da natureza má.

A mansidão sobrenatural não se adquire sem íntimos esforços e combates. E é preciso violentarmo-nos; é
preciso possuirmo-nos a nós mesmos na paciência; e é preciso ainda , para a desenvolvermos, o exercício habitual
da prece e da comunhão.

Então ela se produz gradualmente com todas as suas propriedades comunicativas e é como essa substância
de que as crianças tanto gostam, que não somente é doce em si mesma, mas que também adoça todas as outras
substâncias com as quais se mistura.

A mansidão evangélica tem sido perfeitamente figurada pela unção de óleo que penetra com suavidade as
matérias mais opacas, nutre e transmite a luz, cura as feridas mais inveteradas e reina sobre os outros líquidos,
mantendo-se sempre acima do nível deles. De igual modo a verdadeira mansidão se insinua nas almas e as
transforma, domina pelos seus atrativos e pelos seus encantos e, segundo a palavra do Evangelho, possui a terra,
pois que conquista os corações, impondo-lhes o império da sua amenidade e das suas simpatias.

Lê-se na Escritura que uma língua suave é mais melodiosa do que os sons da flauta e as vibrações da harpa
ou da cítara e lê-se ainda ai que o homem brando tem mais forças do que o poderoso e intrépido. Queremos nós
adquirir esta virtude soberana? Dirijamo-nos Àquele que é o ao mesmo tempo o nosso Mestre e o nosso Modelo.
“Aprendei de comigo – diz-nos Ele – a ser manso e humilde de coração”.

Esta divina virtude não é o mel, como diziam os antigos; não é o açúcar que a abelha procura nas flores; não é
mesmo o doce sorriso que a mãe pede a seu filho. Tais imagens não sã

o bastante expressivas, pois não há nada na terra que possa dar uma idéia exata da mansitude evangélica. O
Salvador no-la mostra nos seus atos: Ele distribuía constantemente o bem pelo mal; não respondia aos que o
ultrajavam; não tinha nos lábios senão palavras de benevolência e perdão; e marchava a espalhar em torno, como
um sol de bondade, os raios carinhosos do seu inexaurível amor.
Educada na escola de Jesus Cristo, a mãe cristã será mansa e amável se, despida de todo o ressentimento
e aspereza, atrair a si as efusões da verdadeira caridade. O mel e o absinto não se hão de misturar no mesmo
coração. Mais espinhos terrenos se arrancarão de uma alma, mais flores do céu aí germinarão, graciosas e
fragrantes.

Todavia, a indispensável companheira da mansidão é uma máscula firmeza. Estas duas virtudes evangélicas
se chamam uma à outra, mutuamente se ajudam e estreitamente se abraçam. A firmeza é a terceira condição de
uma boa norma de procedimento.

Com efeito, se a mansidão é uma emanação da bondade divina, ela repelirá necessariamente todo o contato
com o mal. O próprio da bondade é rechaçar a maldade, como o próprio da verdade é rejeitar o que é falso. A
firmeza cristã se manifesta, sobretudo ao tratar-se de Deus, da religião e da consciência.

Nestes assuntos as concessões não são possíveis. O próprio Jesus Cristo não infringia a lei da mansidão,
quando fulminava com a sua palavra severa o vicio, o orgulho e a hipocrisia.

Sem dúvida a mãe piedosa não oporá, aos ataques da impiedade, discussões mordazes; nem pretenderá
converter a multidão estúpida e os incrédulos satisfeitos consigo mesmos; mas, quando lhe provocam a fé, ela deve
encontrar em seu coração acentos firmes e convencidos. Ela tolera os homens com as suas fraquezas, as não suporta
o vício, não transige com as falsas doutrinas e, longe de se deixar abalar pelo desalento dos que tombam, permanece
de pé e estende-lhes a mão para os reerguer.

O Eclesiástico nos oferece em termos simbólicos os traço da mulher forte. “Ela vigia em sua lâmpada; ela
maneja o fuso; ela rirá no derradeiro dia”.

Sob o véu destes emblemas, todos os caracteres se descobrem de uma boa norma de procedimento. A
lâmpada é o símbolo da consciência; é uma luz que se não deve jamais extinguir e que reclama por isso uma
vigilância ativa e constante.

O fuso representa os humildes misteres do lar e dos deveres que a mulher desempenha com temor e com
amor; o temor de Deus, que afasta os perigos da ociosidade e das preocupações frívolas e com o amor de Deus,
que atrai a graça e assegura a fortuna.

Estas alternativas de temor e de amor, segundo a interpretação engenhosa de Santo Agostinho, são
figuradas pelo trabalho do fuso: “O fio atravessa o pano por meio do fuso que o conduz. A agulha entra primeiro
para tornar logo a sair, afim de que o fio a vá seguindo. Assim o temor de Deus penetra a alma, não para ai demorar,
mas para introduzir o amor.” Tratado IX in Joan.

Seria um erro acreditar que a força da alma consiste em fazer grandes coisas: consiste antes em fazer
grandemente as pequenas coisas e quando se aplica seriamente à ordem interior da família e às particularidades
obscuras do serviço domestico, ainda mais virtudes exige do que as ações brilhantes.

“A mulher forte rirá no derradeiro dia”, acrescenta o livro sagrado. Mas ai de tantas que choram no
derradeiro dia! Por que choram elas? Porque em tudo o que fizeram nunca procuravam senão uma vida de risos.

Chega enfim a hora em que as realidades sucedem aos sonhos, aos enganos e às miragens. Então é que, já
muito tarde, se reconhece a irremediável loucura que preferiu os gozos efêmeros desta vida às alegrias da
eternidade.

Uma boa norma de proceder é que nos preserva de maus passos e desvios; e com a retidão, brandura e a
firmeza é que nos podemos manter na vida cristã e preparar a rica messe do futuro.

XXVI. Regra das ações meritórias


Os alquimistas da idade média procuravam, com incríveis esforços, o segredo de transformar em ouro os
metais mais comuns; e tantos labores não tinham outra intenção senão descobrir a maravilhosa e famosa pedra
filosofal.
Um segredo existe, de importância bem mais considerável: é o de tornar nobres as ações banais,
quotidianas, dando-lhes um valor que por si mesmas não têm. “Buscai tesouros que se não gastem, que não excitem
a cobiça dos ladrões e que os vermes não roam” diz o Evangelho.

É certo que as ações mais vulgares podem ser convertidas em méritos preciosos e recompensar-nos por
conseqüência em indestrutíveis riquezas.

Para operar esta transformação, três coisas são necessárias. Distingui-las-emos com três palavras: a
intenção, a atenção e a execução. A intenção é que dá aos nossos atos o seu valor intrínseco, a atenção é que os
consolida e aperfeiçoa e a execução é que os conclui e realiza.

A obra mais obscura aos olhos dos homens pode avolumar-se magnificamente diante de Deus, ao passo que
as grandes coisas que espantam o mundo, muitas vezes aos olhos do Senhor não são mais do que uma vã fumaça.

Pouco vale uma migalha aos pobres; e, todavia, aquela migalha que a viúva do templo oferece com intenção
pura, obtém os elogios de Jesus Cristo.

Custa pouco dar um copo de água: e, toda via, diz o Evangelho, um copo de água oferecido em nome de
Jesus Cristo não fica sem recompensa.

A intenção bem dirigida tem, pois, o poder de consagrar os nossos menores atos; e se ela fosse
habitualmente pura e reta, cada dia da nossa vida se encheria de boas obras e de méritos.

Ora, se a regra soberana das nossas ações é a vontade de Deus, esta é que deve dirigir todas as nossas
vistas. A nossa intenção permanece, muitas vezes renovada, se deve referir sempre a Jesus Cristo. A Ele é que nos
cumpre agradar e para Ele cumpre agir, sofrer, morrer e viver. Nestes termos, as intenções são santas, os
sofrimentos abençoados, as preces atendidas e as esperanças justificadas; e ainda mesmo que os homens nos
condenassem, Deus, que vê dentro do coração, nos faria justiça.

Mas à intenção é preciso juntar a atenção, predicado este bem pouco comum, pois o defeito ordinário dos
homens é serem desatentos e distraídos. “O ouvido que escuta é um dom de Deus” diz a Escritura. Se nós não
escutamos a voz divina é porque nos falta a atenção, ou porque esta é momentânea, ligeira, caprichosa e fugitiva
como a borboleta que esvoaça entres milhares de flores, sem se deter em nenhuma. Este defeito dispersa os raios
do espírito e destrói a sua energia, o que é quase sempre a causa da nossa obscuridade, das nossas inquietações e
da nossa aridez espiritual.

Se não somos atentos em nossas relações com Deus, também não o somos em nossas relações com os
homens; do que se segue o levarmos, tanto para o nosso trato com o próximo como para os nossos exercícios de
piedade, um pensamento vago, dúbio, ou alheio ao assunto.

A atenção, qualidade dos espíritos sérios, é particularmente desejável na mãe cristã. Ela é o início de uma
consciência delicada e a condição da boa ordem e do bem-estar. Como é bonito ver uma mãe piedosa que,
dedicada inteiramente aos seus deveres, à sua família e à sua casa, é tudo para todos e chega a se esquecer de si
para não deixar de atender a ninguém.

Onde falta a atenção, não há, não pode haver regularidade nas ações, lucidez na inteligência nem igualdade
no gênio e no procedimento. E como discernireis as aspirações de Deus, ou aproveitareis a oportunidade das
circunstâncias, quando não sabeis reagir contra essa multidão de influencias que por todos os lados vos agitam e
fazem vibrar tumultuosamente as molas da vossa vida?

Uma excelente prática para conservar o vigor da atenção e a presença do espírito é consagrar freqüentes
instantes ao repouso, ao recolhimento e ao silêncio; prática fácil, agradável e digna de ser recomendada à mãe, à
dona de casa.

“Tornai a entrar na cela, fechai a porta, ficai atenta e tranqüila; e o vosso Pai celeste que vê no incógnito –
acrescenta o Evangelista – não vos negará as forças, as graças e as luzes de que careceis”.

Contudo a atenção, mesmo quando se junta a uma intenção reta, não é suficiente. É preciso levá-la a efeito,
pô-la em execução; e eis aí o ponto difícil. Os homens de ação são raros em todo o tempo. Há muitos que pensam e
dizem coisas admiráveis, mas que não passam da teoria à prática: os bons desejos goram, os belos planos se
malogram, e fica tudo por fazer ou por acabar. Em ocorrendo obstáculos, os braços desabam e interrompe-se a
tarefa que não estava sequer na metade; e Deus que, segundo a linguagem da Escritura, não aceita as vitimas
estropiadas, recusa às obras imperfeitas a bênção que as teria feito prosperar.

Quantas vezes a mãe cristã, animada aliás da melhores intenções e sabendo claramente o que Deus lhe
indica, recua diante de atos reclamados pelo sentimento do seu dever e pelo interesse de seus filhos! Ela conhece os
perigos de certos lugares públicos, de certas companhias e de certos divertimentos; receia ai levar as suas filhas; e,
todavia, não chega a uma salutar determinação!

São as opiniões do mundo que a embaraçam e desanimam e ela as teme ainda mais do que os juízos de
Deus. Ela conhece, sem dúvida, o bem que é preciso fazer e o mal que é preciso evitar; mas, covarde e irresoluta,
esmorece no momento da execução.

O respeito humano, isto é, a deferência inconsiderada que se dispensa à opinião dos homens é uma das
causas mais freqüentes de se frustrarem os bons projetos. Em frente desse frágil obstáculo as melhores intenções
naufragam.

Se os nossos atos quotidianos fossem executados com direita intenção, atenção conscienciosa e mão
firme, eles se desdobrariam brilhantemente perante Deus e se transformariam em ouro puro que seria uma rica
herança para os seus filhos.

“Aquele que é fiel – diz o apostolo São Tiago – e que faz o bem que deve fazer será beatificado”

XXVII – Transes do coração materno


Há na vida de uma mãe difíceis lances e provações que pedem conselho e balsamo.

Referimo-nos especialmente aos transes por que ela passa no momento de se fixar o estado ou a posição social dos
filhos; transes que mil apreensões sobre as probabilidades de futuros perigos tornam por vezes dos mais dolorosos e
terríveis. As ilusões que mais frequentemente comprometem a obra da educação se acham quase sempre nos
projetos de casamento. Sonha-se uma grande fortuna, um nome brilhante, uma existência opulenta e farta e
desgraçadamente as aspirações giram todas neste sentido.

Um perigo mais comum ainda se vem juntar a tão mundanos projetos: é a incrível precipitação com que são
realizado; e daí uma tremenda responsabilidade perante Deus e perante os homens! A quantas lutas e cuidados
assim muitas vezes nos entregamos, só para preparar, no entanto, futuras decepções e lágrimas.

Se nenhum negócio exige mais cautela e mais prudentes delongas do que a conclusão de um casamento, este, uma
vez realizado, não requer menos, da parte de uma mãe, sobretudo, um delicado tino e uma abnegação generosa.
Aceitar as condições da situação nova, ceder a outrém o primeiro lugar que se ocupava no coração de um filho,
abdicar de algum modo os direitos e as prerrogativas da autoridade maternal; ah! É uma necessidade que às vezes
custa muito, mas a que ninguém, contudo, se poderia subtrair sem provocar, mais cedo ou mais tarde, grandes
dissabores e inevitáveis conflitos. A ternura de uma mãe não cessa nunca, mas deve então modificar-se e conter-se,
pois a intervenção maternal que convém à jovem esposa é já diferente da direção vigilante que a filha solteira
pedia. A prudência nos aconselha sempre a evitar complicações; e, em tais alternativas quanto mais circunspecção
e modéstia uma mãe souber guardar, tanto mais assegurará ela os seus títulos à confiança e ao culto filial.

Estes transes se reproduzem, sob uma outra forma, mas com um caracter mais grave, quando se trata da vocação
religiosa.

Em geral, uma vocação não poderia ser compreendida senão por aqueles que a tenham experimentado; é preciso
ter sentido em si mesmo a força do chamamento de Deus, para se saber quanto esta força é atrativa e misteriosa.

Quando o Salvador se digna de escolher uma alma para colocá-la entre os seus discípulos preferidos e lhe conferir na
Igreja a mais honrosa e a mais santa de todas as consagrações, essa escolha deveria encher de júbilo a piedade de
uma mãe cristã; porquanto “a salvação entrou na sua casa” e ela possui diante do trono de Deus um anjo que
protege a família. Mas ai de nós! O enfraquecimento da fé tem obscurecido, nos tempos que correm, uma tão
consoladora verdade. Muitos se afligem em excesso com esta graça insigne; consideram quase como uma
calamidade o que é o cúmulo das graças; e contrariamente à leviandade com a qual se precipitam os casamentos,
retardam indefinidamente o dia em que se deverá consentir talvez em uma aliança com Deus. Quantas mães
atestam com lágrimas que não poderiam viver sem suas filhas! Mas, quando um rico partido se apresenta, há toda a
pressa em aceitá-lo, embora o jovem par tenha de ausentar-se logo, para ir habitar em país distante. Há nestas
contradições um grave perigo para os filhos, uma grave ofensa a Deus e uma fonte oculta de remorsos para os pais.

Que terrível falta essa de rejeitar os obséquios de Deus, de estorvar as vias da Providência e de fechar a estrada por
onde uma alma cristã se devia encaminhar para o auge da glória! Ó homens! – exclama a esse respeito um dos mais
celebres doutores da Igreja, se temeis a condenação divina, não embaraceis as vocações. Todos os interpretes do
Evangelho são unânimes em lembrar aos pais os deveres, os interesses sagrados e responsabilidade que eles
esquecem em tais circunstâncias e insistem sobre o alto alcance desta palavra de Jesus Cristo: “Aquele que deixa
tudo para me seguir, receberá o cêntuplo neste mundo e a vida eterna no outro”.

Há outras situações não menos aflitivas para o coração das mães; provêm das afinidades e das simpatias íntimas que
as fazem participantes em todas os males dos filhos.

Na série de provações que compõem a vida terrestre não há nenhuma talvez mais pungente do que a dor de uma
mãe que aperta contra o seio o ente querido a cujos sofrimentos não sabe dar alivio. Os sofrimentos daqueles a
quem amamos nos doem muito mais do que os nossos próprios sofrimentos; por isso, nada poderia consolar a mãe
que chora pelo filho. O Excesso, porém, que se deve evitar nestas cruéis angustias, é uma desolação sem medida e
sem esperança. A alma deve dominar-se na resignação e desta virtude evangélica tirar graças proporcionais às suas
mágoas. Deus nunca está longe dos corações aflitos, diz a Escritura.

Que as mães se voltem, pois, para o Senhor crucificado e lhe peçam essa submissão cristã que mitiga e santifica a
dor. É certo que uma disposição calma teria sobre elas e sobre seus filhos uma influência salutar; e os seus olhares,
gestos e palavras produziriam à cabeceira do enfermo uma ação mais curativa do que quaisquer outros remédios.

É aqui a ocasião de lembrar o medicamento evangélico que tão poucos observam e que muitos temem sem razão
experimentar. Jesus Cristo proporcionou as nossas almas inúmeras graças para restaurá-las, fortificar e curar, mas
não deixou de ocupar-se também das enfermidades do corpo e instituiu na Igreja um sacramento especial para
aliviá-las.

“Se alguém dentre vós está doente – diz o apóstolo São Tiago – que se chamem os padres da Igreja e que estes
rezem por ele, juntando as suas preces unções de óleo em nome do Senhor; e a prece da fé salvará o doente e o
Senhor o aliviará; e se ele cometeu pecados, estes lhe serão perdoados”.

Estas palavras estão cheias de consolação; mas, por um deplorável equívoco, provocam sustos e terrores nos
espíritos pusilânimes.

Sem dúvida que o divino bálsamo do sacramento nos confere a mais desejável de todas as graças, a graça de uma
boa morte, se a nossa última hora chegar, mas segundo a doutrina da Igreja, as santas unções possuem também a
virtude de reanimar a vida corporal e de restabelecer a saúde. A experiência de todos os dias serve de apoio a esta
verdade, atestando que em muitas circunstâncias em que a arte médica se mostra impotente, o sacramento triunfa
e opera prodígios.

Não receeis, pois, fazer nenhum mal aos doentes, proporcionando-lhes esta graça que, pelo menos, purifica sempre
a alma, dispõe o enfermo para a resignação e lhe verte no seio uma onda de paz celeste.

Que as vistas providenciais, nesses momentos decisivos, prevaleçam sobre as opiniões desarrazoadas.Bem haja a
mãe verdadeiramente cristã que, depois de ter dado a seu filho a vida deste mundo, lhe proporciona ainda o bem
mais precioso da vida no céu.

Se, todavia, a morte rouba o filho da sua mãe, quem poderá crer que ela rompa o laço das afeições? O amor filial
não se extinguirá jamais com a morte: a memória do coração não se ofusca na luz de Deus, onde, ao contrário, as
lembranças se iluminam e se eternizam. Essas queridas almas nos guardam lá todos os seus sentimentos e simpatias;
são os nossos interpretes junto de Deus, que por Seu turno as expede a nós como invisíveis mensageiras.

Elas levaram consigo, ao saírem do mundo, uma grande porção de nós mesmos; e pelos vínculos indissolúveis de um
íntimo e terno afeto, continuam ligadas a nós e vivendo conosco misteriosamente.

Não choreis os mortos como fazem aqueles que não têm fé! O Senhor vos levou o filho para subtraí-lo à corrupção
do século e salvar a sua alma. Dizei antes com Jó: “Deus me havia dado; Deus me tirou; que o Seu santo nome seja
louvado!”

Dizei aos mortos como a mãe dos Macabeus: “O Criador do mundo, que formou o homem e deu origem a todas as
coisas, vos dará por sua misericórdia o espírito e a vida” II Mac. VI.

É assim que a mãe cristã, nas suas dolorosas provações, adora os desígnios de Deus.

A humilde aceitação das penas muda em doces alegrias as mais amargas tristezas; e em seguida as adversidades
que fortalecem a virtude, a alma consolada admira as vias da divina Providência e exclama com Davi: “As vossas
consolações, ó meu Deus, excederam o grande número das minhas tribulações e dos meus sofrimentos!".

XXVIII - Tato maternal


A mãe dotada de um espírito ativo de ordem e direção possui um tato particular que, em suas mãos, é
como uma varinha mágica a operar prodígios.

Melhor se mostra do que se define esse tato delicado, próprio das mães, que conhece a primeira vista,
como o olhar de um médico hábil, os pontos vulneráveis, os momentos em que convém agir ou abster se, as
circunstâncias em que é preciso falar ou guardar o silêncio e que, em seus engenhosos expedientes, acha de pronto
o calor que aquece, o raio que ilumina, o balsamo que alivia e o sorriso que consola.

Nada poderia substituir este admirável discernimento; nem a ciência, nem o talento, nem o gênio. É um
dom que se desenvolve naturalmente, por si mesmo, e que parece inato no coração das mães que têm inteligência
da sua missão e a consciência dos seus deveres. A sua sede é nas fibras íntimas do coração; e a sua ação, quase
imperceptível, se exerce bem mais pelo silencio do que pela palavra. O tato vê tudo sem olhar; adivinha os
pensamentos; responde sem interrogar e dispõe de artifícios infinitos. Contudo deve estar sempre associado à
paciência e a prudência, por que a sua arte consiste em aguardar a ocasião propícia e o seu triunfo resulta menos
das combinações acertadas do que da felicidade de chegar a propósito e aproveitar o momento oportuno.

As mães a quem falta este fino tato ou que não desenvolvem estas impulsões espontâneas, apesar de
toda a piedade e de todos os bons desejos, vêem infelizmente os seus cuidados e solicitudes se frustrarem.
Fiando-se por demais no seu juízo, que nem sempre é sólido, comprometem as melhores causas, ou pelos passos
intempestivos que dão, pelas volubilidades de um gênio caprichoso, ou pelas irresoluções de uma natureza fraca.

O principal móvel do tato maternal é um critério direito, isto é, mantido sempre na linha da simples
verdade. A mãe, cujo espírito se apoia nos fundamentos da fé e que encara todas as coisas da vida sob o ponto de
vista dos seus fins imediatos, não tem que recear os desconcertos da imaginação, nem os desvios do procedimento,
nem as alucinações da vaidade.

Para adquirir este precioso tato ou para o aperfeiçoar, quando se é ja dotado dele, alguns conselhos podem
ser úteis.

Primeiramente, quanto às relações com as pessoas que vos cercam, se desejais sair-vos bem, é mister que
vos coloqueis ao alcance delas, pois só vos poderão compreender quando as tiverdes compreendido, e, sem que
vades até elas, não virão até vós.

O Divino Salvador, todas as vezes que ensinava aos povos, descia da montanha. O Evangelho insiste sobre
esta frase, e, com efeito, a condescendência que se inclina para a fraqueza é o melhor meio de ganhar os corações.
Cada idade, cada estação, cada situação tem as suas exigências. O tato atende a essas diversas circunstâncias,
regrando por elas o seu proceder.
Dá a cada flor do jardim os cuidados que ela reclama, levanta as hastes que pendem, decota os ramos que
se entrelaçam, preserva do ardor do sol a violeta tímida e umedece o cálice que se abre a exalar o seu primeiro
perfume.

O grande apóstolo soube fazer-se tudo: fraco com os fracos e pequeno com os pequenos. Como uma mãe
amorosa, ele nutria de leite a idade de leite e distribuía à idade viril o pão dos fortes.

Este discernimento, fruto da uma inteligente caridade, exerce sobre os espíritos poderosa influência, a
ponto de cativar e abrandar os mais rebeldes e indomáveis. O que há de mais vantajoso e de mais desejável para a
mãe do que possuir a confiança dos seus filhos? Inutilmente ela a procurará possuir se não tiver tato. Não se força a
confiança, como não se impõe o amor; estes sentimentos não correspondem senão a delicadezas e agrados. Do
mesmo modo que o amor filial se desenvolve espontaneamente sob a ação do materno amor, a confiança do filho
cresce em harmonia com a confiança da mãe. Muito mais se consegue, em geral, com uma bondade indulgente, do
que com as exigências de uma autoridade minunciosa. Queires vós penetrar nos segredos dessas jovens almas?
Desejais conhecer suas inclinações, as suas preocupações e os seus pensamentos íntimos? Não é difícil isto. Lembrai-
vos do que fostes na sua idade. O haveis sido então, eles o são hoje; e o que em outro tempo experimentastes, eles
por seu turno experimentam agora.

Não deixes que se reproduzam em vossos filhos as más impressões que dantes sofrestes. Procurai para eles,
ao contrário, o bem que teríeis apetecido e as satisfações que teríeis almejado.

Governar uma família, educar almas, e formar caracteres é uma arte custosa; é a arte das artes, diz um
santo doutor. Os que imaginam a ver só encantos e alegrias no meio de louros filhinhos, não conhecem de certo a
vida de abnegação e cuidados de uma pobre mãe.

Os desvelos que os seus filhos dia e noite reclamam põem à prova esse incomparável espírito de dedicação
que só as mães possuem. Ser mãe é um pesado e trabalhoso ofício em que não há folgas nem feriados.

Todavia, se nos múltiplos afazeres maternos, faltar o dom precioso a que nos referimos, as melhores intenções
ficarão estéreis.

O mau êxito tem por causa muitas vezes o demasiado rigor ou a demasiada indulgência. “Não poupeis a
correção a vossos filhos – diz a Escritura – Ela dá prudência e juízo; ao passo que o filho indisciplinado será a
confusão de sua mãe”. Não comprometais porém, a correção com os caprichos da severidade; abstendo-vos
sobretudo, escrupulosamente, de exercer tal ato nos momentos de irritação e de mau-humor.

Corrige vossos filhos, não porque eles humilham o vosso amor próprio, mas porque ferem a consciência e
transgridem a lei de Deus. Por vezes exiges de vossos filhos uma perfeição que vós mesma não tendes, e assim, a
força de serdes justa, injusta vos tornais. Os filhos se fatigam com as repreensões que não cessam e acabam por
aborrecê-las. A palavra severa não produz salutares efeitos, senão quando é sóbria e oportuna e quando a verdade a
sanciona e a bondade a suaviza.

A experiência de todo o dia contribui para o desenvolvimento do tato maternal, pois as ocasiões em que
vos não sairdes bem vos farão evitar cirscunstâncias análogas. As faltas pesadas devem esclarecer a prudência e
aperfeiçoar o critério, e os remédios de que se reconhecem a ineficácia indicam a urgência de recorrer a remédios
melhores.

Os bons espíritos não desdenham jamais os conselhos e os exemplos, pois bem sabem tirar proveito, tanto
do bom êxito dos outros, quanto do malogro dos seus próprios atos. Consideremos como amigos sinceros aqueles
que nos chamam a atenção para os nossos defeitos e acolhamos as observações e advertências, de onde quer que
elas venham; a verdade sai as vezes da boca de uma criança. Esta humilde disposição de espírito será extremamente
proveitosa para as mães de família, por quanto muitas vezes a excessiva ternura transtorna e cega mesmo as que
tem mais penetração, fazendo-as ir de um extremo ao outro, prostrando-as ante o objeto da sua idolatria ou
torcendo-as nos vértices do desespero. Não exagerem as mães nem as qualidades nem os defeitos dos filhos;
aceitem com reconhecimento os conselhos de uma imparcialidade experiente e desinteressada, e renunciem, se
preciso for, a suas próprias opiniões, para adotar as dos outros: é assim que procede a sabedoria cristã.
Há, enfim, uma prática recomendada pelos mestres da vida espiritual e que concorre mais que todas as
teorias para aperfeiçoar o tato das mães. Esta prática é o exame de consciência. Uma vista de olhos lançada
sériamente, no fim de cada dia, sobre os atos cometidos durante ele; uma reflexão particular a cerca das faltas mais
habituais e um estudo atento e detido dos pontos fracos do nosso caracter e das causas ordinárias das nossas
culpas: eis o que forma a mais importante de todas as ciências – a ciência de nós mesmos.

À medida que nos formos conhecendo melhor, tomaremos também, com um experiência mais madura,
resoluções mais perfeitas; e se firme e severamente nos propusermos corrigir-nos, ficaremos aptos para corrigir, por
nossa vez, os outros e para os dirigir com verdadeiro tato, circunspecção e felicidade.

XXIX. Vigilância maternal


Não há exortação mais repetida no Evangelho do que esta: Vigilate, orate. “Vigiai e orai!” Estas duas
palavras resumem todas as regras da sabedoria cristã e tendem a evitar-nos as surpresas da morte. “Estai atentos –
diz Jesus Cristo – pois não sabeis nem o dia nem a hora”. Vigiai sobre vós mesmos afim de que a morte não chegue
no momento em que menos a esperardes: Ei-la a bater à vossa porta! “Insensatos, de que vos servirá conquistar o
mundo inteiro, se perdeis vossa alma! O sol se porá ao meio dia – continua o profeta – e a terra se cobrirá de trevas
na hora da luz” (Amós VIII).

Quer isto dizer que, quando o homem se julgar em plena posse da vida, quando sonhar fortuna, gloria e
prazeres, quando supuser, enfim, que nada mais lhe resta fazer, senão gozar, repousar e amontoar tesouros verá ele
desabar com horrendo estrondo, inesperadamente, todo esse frágil edifício. Que pavoroso trovão num céu sem
nuvens! Que irremediável decepção para o insensato que tudo havia previsto, exceto esta terrível catástrofe!

Pelo seu lado, a Igreja não cessa de repetir, com as palavras do Evangelho, as advertências do príncipe dos
apóstolos: “Sêde vigilantes e circunspectos, porque o vosso maior adversário, satã, vos rodeia a bramir, procurando
perder-vos”.

A vigilância cristã é uma consciência atenta; é a circunspecção da alma previdente; é a lâmpada que alumia
os nossos passos e a sentinela que se posta à entrada do coração. O serviço é observar tudo o que entra e sai. Ela
afasta as impressões perigosas, impede os atos de presunção e soberba, evita as ciladas, foge às ocasiões de pecar,
repele os impulsos tentadores, resiste ao inimigo infernal e protege todas as virtudes.

A vigilância é a companheira da prece; exercendo-se juntamente, mutuamente se ajudam e não se pode


contar com uma, quando a outra a não acompanha.

A prece e a vigilância não se aplicam somente à vida intima da alma; devem ambas estender a sua ação
sobre todas as forças e funções da alma e dominar todos os sentidos.

E isto, para uma mãe, ainda não é suficiente, pois não lhe basta velar sobre si mesma: cumpre-lhe velar
sobre seus filhos e sobre a sua família e, semelhante à estrela da manhã, esclarecer com o doce olhar todo o
firmamento da sua esfera de atividade. Eis ai o seu grande dever, apreciado sempre, e tantas vezes negligenciado.

Atualmente, exalta-se a mulher, poetiza-se a sua missão, querem-se mulheres livres e artistas sábias e
ilustres: não se trata, porém, da mulher cristã, esquecendo-se assim a condição principal que protege e salvaguarda
a família.

A vigilância maternal se deve exercer no lar doméstico, dirigindo-se a todas as perspectivas do presente e
do futuro; mas o serviço que mais imperiosamente reclama essa vigilância é o da educação. E aí, contudo, quanta
negligencia e quantos abusos, que são a causa mais ordinária dos desgostos que sofremos com os desregramentos e
desvios dos entes que amamos mais!

Seguramente, queremos que os nossos filhos sejam cristãos, isto é, filhos de Deus e herdeiros do céu, mas,
ao inverso dos meios que poderiam conduzi-los a este destino glorioso, educamo-los como se só tivessem sido
criados para a vida presente; e os cuidados que lhes prodigalizamos são mais para os fixar sobre a terra, do que para
os elevar um dia ao céu. Fascinados por uma inconsiderada ambição, mais cogitamos nas vantagens de uma
existência fugitiva, do que nos bens imortais e nos dons do Espírito de Deus. Desejamos que, desde a mais tenra
idade, os filhos se tornem pequenos prodígios para que os triunfos do seu precoce talento projete sobre nós um
reflexo de glória. Vaidade impensada que ordinariamente sofre decepções cruéis. A vigilância cristã saberia
preservar as famílias de tão frequentes desgraças.

O assunto é grave! Assinalaremos, sem os atenuar, alguns dos mais vulgares abusos. Há mães, aliás ternas e
dedicadas que, menosprezando os mais sublimes conselhos da prudência, confiam seus filhos a pessoas de costumes
duvidosos ou a educadores que vivem fora dos princípios da fé. Prescindem elas do menor escrúpulo em tal caso,
sob o pretexto de que os filhos, pela sua pouca idade, estão ainda isentos de sofrer influencias perniciosas; mas
esquecem que as impressões recebidas na meninice são vivas e duradouras e que muitas vezes se conservam na
alma, durante todo o curso de uma longa vida, germens que nos primeiros anos a envenenaram.

Se vos censurarmos por levardes os filhos ao teatro, replicareis dizendo que São Francisco de Sales tolerava
esse passatempo.

Pois bem, mais se seguísseis com a mesma docilidade os conselhos de São Francisco de Sales, o perigo seria
talvez menos para temer-se. O nosso grande santo não quis de certo proibir essa espécie de distração à idade
madura, mas duvidamos que a tivesse permitido aos adolescentes. Demais, é bom considerar que naquele tempo o
teatro não era o que hoje é. Os próprios títulos das atuais obras dramáticas, só por si, indicam a degradação do bom
gosto e a deplorável decadência dos costumes públicos. E como se poderão educar jovens almas embotadas nesses
monstruosos espetáculos que superexcitam a imaginação, ferem o pudor e destroem o senso moral? As crianças
que vão a teatros meditam as cenas a que assistem e procuram imitá-las. A inocência ai recebe fundos golpes quase
sempre e sobeja maus exemplos para perverter lastimavelmente os tenros filhos com grande magoa para os pais
que lhes permitem semelhantes distrações. Mas quem semeia ventos, colhe tempestades... outro abuso é o dos
bailes infantis, que se consideram uma diversão muito inocente, mas que nos parece das mais perniciosas, por ser
uma triste iniciação da criança nos tumultos da vida. Estes divertimentos precoces, a que as próprias mães
conduzem os filhos, foram inventados para a perda das almas. Neles é que a vaidade começa a germinar com todos
os seus espinhos e que se contraem as inclinações, os atratativos e gostos que mais tarde hão de explodir, quiçá em
paixões, ciúmes e cóleras.

Ouvimos já dizer algumas jovens almas: Eu gostava do trabalho e da oração e era feliz; mas, depois daquele baile,
não pude mais trabalhar nem rezar e sou muito desgraçada.

Há certos brinquedos infantis que consistem em vestir e enfeitar bonecas e em que as meninas aprendem a
ensaiar as diferentes modas de vestuários e adornos e as várias combinações de luxo moderno. Para que aplicar um
espírito ainda novo aos mistérios da casquilhice (o que é da última moda, muito enfeitado) e das festividades? Isto,
na aparência inofensiva, não passa de uma dessas aberrações cujas más consequências são fáceis de prever.

O certo é que as brincadeiras da infância se tornam realidades na idade madura; pelo que requer esse
assunto, não menos vivamente do que os outros, toda a atenção e vigilância por parte dos pais.

Seria necessário lembrar também às mães cristãs o dever de fiscalizarem as leituras de seus filhos, dever
capital que no entanto dificilmente se concilia com os costumes de hoje? É verdade que se fecham a chave as
bibliotecas de livros perigosos; mas ficam por fora, expostas à curiosidade dos filhos e atraindo-lhes os olhares, as
estampas, as revistas, as brochuras e as publicações ilustradas de que algumas páginas, lidas furtivamente e as
pressas, lhes fazem nascer o desejo de ler outras. Eles se esforçarão por compreender depois o que não puderam
compreender ao princípio, empregando nisto o melhor de sua atenção e os pensamentos de cada dia; confundirão
os romances de fantasias com os fatos do mundo real; sonharão aventuras heroicas; aborrecerão a monotonia da
vida da família; e, daí, as amarguras, os queixumes, os desvarios e os passos desastrosos que lançam em luto e
consternação tantas famílias.

Que a vigilância maternal afaste pois, estes perigos do lar doméstico! Que ela se oponha com coragem às
invasões, como às exigências e aos engodos do espírito do mundo!

Procurai para vossos filhos e para vós mesmas distrações que não molestem a consciência, que não alterem
a piedade, que não embotem o sentimento da verdade e do bem e que não faltem jamais ao respeito devido à
religião e à família.
XXX. Inteligência dos deveres domésticos
A mãe conscienciosa não desdenha descer às menores particularidades da vida doméstica; e não seria capaz de
grandes coisas aquela que se desleixasse nas pequenas.

No cumprimento dos seus modestos deveres, há dois extremos a temer: a lentidão e a precipitação. Mas uma
atividade calma e prudente regulada evitará essa dupla escolha. O agricultor distingue os trabalhos de cada estação,
abstendo-se sempre de inverter as condições da cultura; planta, rega, aduba e limpa, colhendo cada fruto em seu
tempo próprio; não adia jamais para o verão o que deve ser feito no inverno, nem arrisca as ultimas colheitas do
outono pela imprevisão da primavera a vir.

A mãe cristã também tem a seu cargo uma cultura bem delicada. A sua arte consiste em prever o presente
e em prever o futuro; sendo que qualquer adiamento ou descuido nesta grave ocupação se tornaria uma causa de
desordem e de ruína. É imperdoável o desleixo da mulher que, por falta de coragem ou zelo, perturba a
prosperidade da sua casa.

A negligência nos interesses da família é, além de tudo, um péssimo exemplo para os filhos.

Descura-se muito em geral a educação doméstica das moças cristãs. Conviria iniciá-las gradualmente nos
cuidados da economia interior. Como poderá ela dirigir um dia a sua casa, a sua família e os seus criados, se ignorar
os diversos ramos e as particularidades múltiplas de uma administração tão complicada? Bem digna de lástima é a
mulher, e sobretudo o seu esposo e os seus filhos, quando ao lar doméstico falta essa condição de ordem e de
felicidade.

Outro defeito, contrário à lentidão, mas não menos comum, é uma excessiva mobilidade e vivacidade em
tudo, que tudo transtorna e perturba. Um relógio que se adianta de mais tem os mesmos inconvenientes do que se
atrasa. A agitação e as efervescências do espírito são sempre para recear, mesmo na prática do bem. “Marta! Marta!
Com muitas coisas te agitas e uma só te é necessária”!

Esta coisa necessária é a obra atual ou o serviço em que presentemente estamos empregados. É um erro querer
abarcar ao mesmo tempo muitas ocupações diversas, em lugar de exercer separadamente e por sua vez cada uma
delas.

Os excessos de zelo são como um turbilhão que atordoa e desatina, não somente os que lhes servem de alvo,
mas também os que a eles assistem. E quando é uma mãe que se abandona a essa contínua e delirante correria, em
vez de atrair, afasta ela do seio da família os que ai vêm buscar o descanso e o sossego.

Que a mãe cristã evite sobretudo, para si mesma e para os outros, os excessos de zelo religioso. Excitar,
aguilhoar descomedidamente as almas, é ultrapassar o fim proposto e chegar a um resultado contrário àquele que
se tinha em vista. Convém sugerir as boas ideias, mas não as impor; convém favorecer o desenvolvimento dos bons
desejos, mas não os precipitar. Os mais simples exercícios de devoção se tornam fastiosos, quando feitos
constrangidamente ou contra a vontade. Vossos filhos, desde os seus mais verdes anos, têm o sentimento
irreflectido de uma certa dignidade; e quanto mais respeitardes este sentimento, aclarando-lhes em todo o caso a
consciência, melhor favoreceis o desabrochar de uma piedade sólida e verdadeira. A jovem alma que
instintivamente se furta a uma direção imperiosa, de boa vontade cede às impulsões persuasivas, amáveis e
oportunas.

A solicitude material deve imitar os processos da graça. Ora, a graça é paciente, complacente e insinuante, e
nunca se fatiga, nem se perturba, nem se irrita, porquanto ela toda é só mansidão e longanimidade. Pois, com estes
predicados evangélicos, é que deve aparecer a realeza da mãe no governo da sua família e da sua casa.

Todavia, a solicitude de uma mãe seria incompleta se ela a concentrasse unicamente em seus filhos; é
preciso passar além, estendendo mais longe a sua ação. Referimo-nos aos deveres das senhoras com relação aos
criados, deveres de que em geral se faz muito pouco caso, o que é prejudicialíssimo para a família e para a
sociedade. Todo o mundo o diz e a experiência o atesta: são os bons senhores que fazem os bons servidores. Em
outros tempos, quando os costumes eram verdadeiramente cristãos, consideravam-se os servos como membros de
família e, nesta qualidade, eram eles admitidos à prece comum e tratados com paternal benevolência.
Deste modo tomavam os criados interesse pela prosperidade da casa e os amos podiam contar com a fidelidade
e dedicação deles.

O enfraquecimento do espírito cristão tem relaxado estes laços evangélicos; do que resulta ficarem os nossos
filhos frequentemente expostos a tantas influencias maléficas.

É ainda à mãe que pertence obviar a este perigo. Que ela seja mãe, não somente para aquele a quem deu a
vida, mas também para todos os que vivem sob o seu olhar! Que ela tenha para todos, palavras de animação,
simpático gesto e maternal bondade.

Este sentimento de benevolência não seria desejável também para com os jornaleiros que trabalham em vossas
casas? É um hábito mau e muito repreensível não se importar absolutamente com eles; ver só a obra e esquecer ou
desprezar o trabalhador. Como seria fácil, entretanto, com alguma palavra, com alguns sinais de atenção ou com
alguns obséquios mesmo, animá-los e contentá-los! São homens que causam pena, às vezes; pobres e laboriosos
pais de família, ou estrangeiros saudosos da pátria distante, ou filhos que choram a mãe ausente ou morta, ou
corações, quem sabe? Ulcerados por ignota dor; e quão felizes seriam talvez com um simples gesto ou palavra de
simpatia e animação!

Não é uma esmola que vos pedem; eles se contentam só com isto. Por que lhes recusar este pouco?

A caridade tem a inteligência dessas coisas todas e possui segredos cuja mágica virtude traz balsamo às
dores, dilata o reconhecimento e consagra todos os deveres do lar cristão.

XXXI. Princípios da educação cristã


Há duas educações bem distintas: a educação moral e a educação intelectual. A primeira cultiva as potencias
da alma e a segunda desenvolve as faculdades do espírito. Devem ambas concorrer para o mesmo fim, que é
aperfeiçoar o homem, isto é, elevá-lo à altura do seu verdadeiro destino.

Uma das aberrações da nossa época é subordinar a educação moral à cultura da inteligência. Esta absorve o
homem inteiro, deixando a alma estéril.

A educação em geral não é mais do que uma norma, um meio, ou antes um indicador da estrada a seguir.
Nestas condições, ela pode ser boa, salutar e cristã, ou má, perniciosa e pagã, segundo o fim que se propõe e que
busca atingir.

A primeira condição da educação moral é, pois, o conhecimento dos destinos últimos do homem, condição
sem a qual nenhuma direção é possível. Que itinerário quereis vós traçar ao viajante que embarca sem saber a que
lugar vai?

Que direção tomará vosso filho, se ignora o fim a que deve tender?

A linha de conduta de cada um há de necessariamente ligar o ponto de partida à baliza final e, esse termo
superior é ignorado ou esquecido, a vida humana se gastará em inúteis giros e circunvoluções que rematam sempre
no abismo.

Trata-se de conduzir o homem ao seu fim verdadeiro: tal é o grande objeto da educação moral.

Porquanto, se a luz do evangelho vos iluminou o espírito, se não nutris nenhuma ilusão acerca da brevidade
e rapidez da vida e se a fé cristã, enfim, anima as vossas esperanças e as vossas aspirações, deveis fazer que vossos
filhos sejam filhos de Deus e educá-los para o céu ainda mais do que para a terra.

Esta simples verdade deve dominar todos os ensinamento, todos os exemplos e todas as solicitudes. Uma tal
verdade, admitida sem dúvida em teoria, é geralmente renegada na prática onde, longe de lhe aceitar as
consequências, a educação moderna as desmente. Não se forma o cristão senão para este mundo, esquecem-se as
condições do seu desenvolvimento futuro, não se cuida da sua eternidade; e tamanha negligência, que passa do
indivíduo para a família e da família para a sociedade, entibia e deturpa a vida cristã, privando-a ao mesmo tempo da
sua grandeza e da sua energia. A educação segue sempre um caminho errado, quando se coloca fora do princípio
cristão ou vai de encontro a este.
Ponhamos em relevo esta importante observação, sem desprezarmos outras de menor vulto e mais
particulares.

Acreditamos que em geral os pais cristãos desejem antes de tudo a felicidade eterna de seus filhos; mas de
fato e em contrário a isto, impelem eles as jovens almas por um caminho diametralmente oposto ao que deveriam
seguir; e, por uma cega inconsequência, diminuem de um lado os meios de os santificar, enquanto de outro lado
acumulam as causas que concorrem para os perder.

Assim, para tocar de perto os fatos, o Evangelho nos adverte que os bens deste mundo são obstáculos na via
da salvação: “Em verdade eu vos digo que é difícil um rico entrar no reino de Deus” (São Mat. 19,23). Porquanto,
acrescenta um apostolo, “os que se querem enriquecer caem nas ciladas de Satanás e por seus desejos imoderados
são arrojados à perdição” (I Tim. VI). Este aviso é grave; e, todavia, a principal ocupação não tem por objeto senão,
quase que exclusivamente, prodigalizar aos filho as riquezas e os bens da terra.

O amor do mundo, segundo o Evangelho, é uma desafeição a Deus.

“Eu não intercedo pelo mundo – diz Jesus Cristo – escolhi-vos e tirei-vos do mundo, porque este não pode
receber o espírito da verdade”. E o grande apostolo São Tiago declara “que aquele que deseja ser amigo do século
se torna inimigo de Deus” (Epist. São Tiago, IV). Como conciliar a doutrina evangélica com as estranhas impulsões
que a nossos filhos damos? Como combiná-la com uma ambição que não sonha para eles senão os favores, as
homenagens e os aplausos do mundo? Evidentemente, grandes ilusões nos ocultam as perspectivas da verdadeira
felicidade; e nós não nos esforçamos por obter, para as almas que nos são confiadas, os bens da vida
imortal. Iniciamo-las nos segredos de agradar e de captar as glórias, as honras, a fortuna e só a última das nossas
solicitudes é que é empregada naquilo que justamente devia prevalecer a tudo mais.

Nós não somos por certo hostis às belas artes, que ao contrário apreciamos e admiramos, mas o que não
podemos admitir é que se deixem perder com elas as melhores horas do dia e os mais frutuosos anos da vida e sem
outro fim, contudo, senão fazer que um moço ou que uma jovem cristã brilhe entre as pompas fúteis de um salão.
Não se tome por pretexto a importância desses belos dotes, dessas extraordinárias prendas, para atrair a atenção e
facilitar bons casamentos: é um erro. As aptidões artísticas não constituem as qualidades de uma mulher cristã. A
experiência prova aliás que as artes recreativas, que consomem a maior parte da mocidade, se tornam pelo menos
inúteis na idade madura, sendo que muitas vezes introduzem no seio das famílias um elemento de discórdia e de
decadência.

Não queremos dizer com isto que se deva romper com a sociedade ou renunciar a uma cultura intelectual
que é um dos encantos dela.

Longe de aprovar a ignorância das coisas deste mundo, desejamos que a jovem cristã, assim como o rapaz,
estude as artes e as ciências e que a instrução seja completa. Mas as artes são meios simplesmente e não um fim. O
que não compreendemos é este adágio moderno: a arte pela arte! Isto é o mesmo que dizer que não se fala senão
para falar. As artes, como a linguagem, devem ser maneiras de exprimir ou vias de transmissão da verdade e assim
no devem instruir e edificar, simbolizando o verdadeiro, o belo e o bem, sob formas sensíveis e atraentes. Só nesse
caso é que elas são dignas de honras e elogios. Mas quando, inúteis à sua missão, se desviam do ideal sublime pra ir
buscar o seu alimento no baixo realismo da matéria, então caem elas na ignomínia e se tornam semelhantes ao
abutre que desce das nuvens para se repastar em podre carniça. O intuito de um artista deve ser atrair-nos às
regiões celestes e contribuir de algum modo para a nossa educação e aperfeiçoamento. O pintor, o orador, o poeta,
o artista em suma que, encantando-nos com as suas obras, tem por fito único acender o nosso entusiasmo e
regozijar-se com a nossa adoração, bem pode ser um gênio extraordinário, mas, por falta de uma iluminação
superior, pactua com as mais detestáveis doutrinas.

Se quereis inspirar a vossos filhos o amor do bem, preservai-os principalmente dos maus livros, cujo
menor inconveniente é embotar o senso do verdadeiro e o gosto das coisas sérias.

O bom gosto é inseparável do sentimento da verdade.

No plano dos estudos deve ocupar sempre a doutrina cristã o lugar principal, pois que ela é que nos introduz
na ciência de Deus, do homem e do mundo. Ela expõe ao mesmo tempo os princípios da mais alta filosofia e a série
de graças que abraçam os séculos e toda história humana e pelo seu método lúcido, simples e ao alcance de todas as
idades, deposita nas jovens almas os fundamentos da vida moral. Ao estudo da religião é que se devem ligar as
outras disciplinas, como os ramos de uma árvore ao respectivo tronco. Convém que a moça, não menos que o jovem
estudante saiba escrever com facilidade, simplicidade e elegância, não para compor narrações fabulosas, mas para
polir as relações e enriquecer a correspondência dos corações e dos espíritos. Tenha cada um seu estilo próprio e
não imite o dos outros, pois que o estilo epistolar não é uma arte e deve ser portanto a natural expressão do
verdadeiro. Não tomeis por modelo as cartas da senhora de Sévigné, pois o estilo que pretende imitar os encantos
da sua simplicidade, um pouco afetada aliás, não vale mais que a brilhante moeda que pelo tinir se conhece ser
falsa. Leiam-se as cartas de são Jerônimo, de são Francisco de Sales, de Bossuet e de Fênelon e as que o padre
Lacordaire dirigiu aos jovens cristãos, leitura nutriente e instrutiva que forma ao mesmo tempo o coração e o
juízo. Outras obras antigas e modernas exercitarão as faculdades intelectuais e ornamentarão a memória; a religião
vo-las fornece com abundância e os homens de saber vos poderão indicar uma rica nomenclatura delas.

A educação é o trabalho de toda vida.

O homem sofrerá influência dela até ao seu último dia. É desde a tenra infância que se deve endireitar uma
alma, como, desde os primeiros dias o pequenino arbusto que, sem isto, ficaria torto e penderia para a terra, não
podendo erguer nunca mais ao céu a copa virente e coroada de flores.

Que as mães cristãs se esforcem por modificar, tanto quanto lhes for possível, os vícios da educação!
Compete-lhes abrir e desbravar os caminhos em que devem marchar seus filhos e pô-los em harmonia com os
destinos imortais. Elas firmarão nestes entes queridos as raízes de uma virtude sólida, se lhes inspirarem o temor de
Deus, que é o começo da sabedoria. Este temor, sentimento delicado, respeitoso e filial, que se não deve confundir
com o medo, protege a consciência, preserva a inocência e submete o homem a seu Deus.

As primeiras lições maternas não se esquecem jamais; jamais vossos filhos as esquecerão! E quando, no
correr da vida, venham a topar escolhos nunca perderão a esperança, pois hão de lembrar-se de suas mães, e sob os
traços delas verão de novo a religião salvadora. Escusado é dizer que os mais engenhosos cuidados da educação
seriam inúteis, se o exemplo os não viesse corroborar. Sem esta sanção a palavra ficaria sem virtude e sem
ascendente.

Reclamareis em vão o respeito e a submissão dos que vivem sob a vossa autoridade, se desconheceis na
prática uma autoridade superior a vossa e a de todos. Para que o espírito de família se conserve e se comunique,
remova os obstáculos e reine sem oposição, é necessário que ele seja lealmente cristão, isto é, fiel a Deus e dócil a
Santa Igreja.

Que a mãe se compenetre da grande parte que lhe incumbe na obra da educação dos filhos e que a sua
influência piedosa, benéfica e inteligente edifique o lar da família. Nestas condições, seus filhos, amados de Deus, se
tornarão homens íntegros para o mundo e anjos para o céu.

Oh! Benditas são as famílias em que as graças do espírito cristão se propagam de pais a filhos e de geração
em geração! “Eles hão de ser fartos de bens – diz o profeta – hão de saborear em paz os frutos dos seus sacrifícios e
hão de gozar de uma posteridade digna deles”.

XXXII. Transformação do Cristão


As magnificências do Tabor não foram narradas para excitar uma estéril admiração; elas nos fazem pressentir o
esplendor futuro do cristão. Se, entre dores, ultrajes e espinhos, Jesus Cristo é o tipo do homem humilhado,
degradado pelo pecado e ferido de morte, na sua maravilhosa transfiguração nos representa Ele o homem
reabilitado e transformado à imagem de Deus.

O que se operou instantaneamente sobre o monte Tabor, gradualmente se deve reproduzir em cada discípulo de
Jesus Cristo, pois a vida cristã, considerada sob um aspecto elevado, não é mais do uma incessante transfiguração. A
divina semente encerrada em seu seio germina e pouco a pouco se desenvolve, como o botão de flor que se abre e,
tingindo-se de lindas cores, apresenta ao sol, despido já de seus envoltórios exteriores, um ser novo — a corola —
cheio de graça e de encantos.
O coração do cristão é um campo de surpreendente fecundidade; simetrias misteriosas ai existem ocultas e, sob a
casca da sua natureza carnal, palpitam germens esplendidos que não esperam mais que um sinal para jorrarem em
ondas
de luz.

Oferece-nos a natureza uma bela analogia de tão maravilhosa transformação nesse conhecido inseto, que, depois de
haver rastejado vilmente pela terra, rasga a sua nojenta mortalha e desprende as asas azuis para voar cintilante ao
céu.

Toda a ação da graça tende a produzir este movimento de renovação. Os sacramentos não têm outro fim; uns nos
purificam extirpando de nossa natureza os elementos maus, outros nos santificam e nobilitam, transmitindo-nos os
dons sagrados do Espírito de Deus. O papel do homem, nesta operação misteriosa, consiste em secundar a graça; e
ai está, com efeito, a obra da educação cristã, cujo fim último é fazer que a moralidade triunfe sobre os instintos
materiais; a luz, das sombras da ignorância; as atrações celestes, das tendências e dos apetites grosseiros.
Conseguintemente, a educação se exerce sem interrupção durante toda a vida, pois que é a obra de um
aperfeiçoamento progressivo que deve rematar em uma transfiguração total.

O que a educação realiza no homem individual, deve a civilização operar nos povos e nas sociedades. Seria uma
imperdoável inadvertência não ver na civilização senão um requinte de luxo e de gozos terrestres. A Igreja, a
civilizadora do mundo,
sempre se propôs outro fim.

Ela introduziu os princípios do Evangelho nas leis e nos costumes públicos, como os havia incutido na educação
particular, e purificou, esclareceu e poliu as relações sociais pela virtude da palavra evangélica; de modo que a
verdadeira civilização, para bem dizer, não é mais do que uma obra de cristianização.

A história atesta que fora desta via não há real aperfeiçoamento. Os homens podem, pelo seu gênio ou pela sua
indústria, obter um bem estar superficial e criar magnificências, e fictícios esplendores, semelhantes às iluminações
dos fogos de artifício, que produzem um dia pálido e fantástico no meio de uma noite melancólica.

Mas nem estas ilusões brilhantes seriam capazes de substituir a abobada resplandecente do céu, nem os progressos
realizados fora do cristianismo poderiam constituir de fato uma civilização sólida feliz e durável. O homem tem o
pressentimento instintivo de um destino glorioso. Ele se envergonha da sua indigência e da sua nudez, cobiça
vestimentas ricas, gosta de se cobrir de ouro e de pedrarias e sonha coroas e galas; e este luxo mesmo em sua louca
extravagância, não faz mais que atestar a sua ingênita necessidade de renovação e de esplendor.

Mas, ó vaidade das vaidades! Decora-se a fachada do edifício e esquece-se na sombra o santuário que ameaça ruína.
De que serve ornar o que deve perecer, se se abandona e degrada o que ha de subsistir eternamente?

O vivo ideal da verdadeira beleza está dentro de nós: é o tesouro que se precisa desenvolver, afim de que, segundo a
palavra do Apóstolo, o homem apareça em uma auréola de majestade no mesmo dia em que Jesus Cristo aparecer
em toda Sua glória. Observemos, além disso, com S. Bernardo, que a púrpura, as pompas e os ornamentos
exteriores, por mais belos que sejam, não embelezam ninguém, pois a beleza que o vestuário empresta não deixa de
pertencer ao vestuário para pertencer às pessoas que o alardeiam. Quem recorre a falsos atavios, só por isso se
confessa desprovido da beleza. A graça de cada coisa está naturalmente nela mesma e não na matéria estranha que
a ela se acrescenta. Seria um erro insano ou uma estúpida vaidade atribuir alguém a si próprio qualidades e efeitos
agradáveis que provêm simplesmente de algumas peles macias de animais ou de substâncias das larvas que
produzem sedas.

O lustre da verdadeira beleza é um reflexo do nosso ser imortal e, entre os seus encantos, nenhum há mais
amável do que o pudor. Sim, esta pérola das virtudes brilha magnificamente na fronte da jovem; é a insígnia da sua
honra, e a glória da sua consciência e o começo da sua transfiguração.

É necessário que a mãe cristã procure transformar-se de dia em dia para servir de modelo a seus filhos. A sua vida
deve ser como um espelho onde se reflita somente o que é honesto e santo; e pelo exemplo, bem mais do que
pelos conselhos, deve ela influir no coração dos que a amam. Possa ela enfim dizer a seus filhos o que S. Paulo dizia
aos fiéis de Corinto: “Imitatores mei estote, sicut et ego Christi”, “Imitai-me, como eu imito a Jesus Cristo.”
XXXIII. O Tabernáculo
Como são bons os teus tabernáculos, ó Deus das virtudes! A minha alma palpita ansiosa de se abrigar em teus
átrios; pois, se o pardal sabe onde há de recolher-se para passar a noite e a andorinha vai direita ao beiral onde fez o
seu ninho: quanto a mim o que desejo, o que procuro, é refugiar-me em teus altares, ó Senhor, meu Rei e Deus meu!
Bem-aventurados os que moram em tua casa; estes te louvarão eternamente! Sim, bem-aventurados todos os que,
neste vale de lágrimas, buscam refúgio em teu seio e aí, levados nas ascensões celestes, sobem de virtude em
virtude, como de montanha em montanha, até à divina Sião onde em êxtase contemplam a face do altíssimo
(Psalmos. 84). Se assim suspirava o real salmista, quanto se deve a alma cristã enternecer em presença do
tabernáculo! O Deus de amor se acha entre nós; é o “Deus oculto”, de que fala Isaias, que nos oferece o maná do
céu e o cálice da imortalidade. “Eis-me aqui – diz-nos o Senhor – eu convosco estou até à consumação dos séculos”.
Que inefável mistério!

O altar é o trono do Santo dos Santos e o ponto central da devoção cristã. Dele jorram as graças e os dons
de Deus e dimanam as águas vivas que fazem brotar as flores da santidade.

Os esplendores do tabernáculo são misteriosos e invisíveis, velados como ficam pelo mistério do
Sacramento; pois, se na pátria celestial o Altíssimo está rodeado de inúmeros espíritos que lhe rendem adorações
dignas dEle, aqui na erra, Deus não reclama senão a homenagem de nosso coração: “Fili, praebe mihi cor tuum”.
Também o culto do augusto Sacramento é essencialmente uma adoração em espírito e em verdade. A intenção de
Jesus Cristo, tornando-Se assim invisível a nós, é elevar-nos acima das coisas deste mundo para nos atrair com Ele às
regiões sobrenaturais. É para isto, diz São João Crisóstomo, que o Deus do amor, presente no santo altar, esconde
aos nossos olhos as suas magnificências.

Ele não se revela senão na alma recolhida e não reside entre nós senão para conquistar o nosso amor. Ele ai
está, não para se mostrar, mas para nos atrair, para nos ganhar, para nos contentar. Aí está, enfim, porque Ele nos
ama e nos ensina a amar, porque Ele se dá e nos ensina a nos darmos, porque Ele se imola e nos ensina a nos
imolarmos.

Não procureis, em vossas visitas ao Santíssimo Sacramento, sensações de ternura. A devoção sensível
raras vezes é profunda e está sempre exposta a ilusões. Ela provém, segundo a acepção da palavra, do fervor dos
sentidos; quando, entretanto, a nossa vontade é que deve ser fervorosa e ardente. “Não me Toqueis – disse Jesus
Cristo – porque eu não subi ainda para junto de meu Pai”; frase esta que São Bernardo interpreta do seguinte modo:
não vos ligueis aos sentidos corporais que se enganam, nem à razão que se perturba nem à natureza que é limitada,
mas apoiai-vos na palavra de Jesus Cristo, que é a verdade imutável. No céu é que havemos de contemplar as
perfeições da Majestade divina; aqui na terra gozamos apenas as primícias desta felicidade e nos preparamos com
todas as nossas forças para plenamente a possuir e deliciosamente a saborear nos êxtases da eternidade.

Todavia, neste mistério, Nosso Senhor não é diferente do que era durante a sua vida terrestre. Sempre
bom, indulgente, misericordioso e terno, é acessível a todos os que a Ele se dirigem. Como outrora, Jesus quer
sobretudo que se deixem ir a Ele as criancinhas, pois que as ama com predileção, as abençoa e as acaricia e ameiga.

Queremos nós participar destas preciosas prerrogativas? Ele acolhe os homens de boa vontade, ouve-os,
levanta-os e fortalece-os.

A sua mão toca untuosamente o coração abatido para vivificar a esperança e a coragem. Jesus tem um
balsamo infalível para as almas aflitas, que enxuga todas as lágrimas, acalma as inquietações, abranda as penas do
espírito e ativa a seiva da caridade.

Se estais tristes, ide depor ao pé do tabernáculo o fardo que vos oprime; e, se estais alegres, rendei
graças ao Deus das consolações. Onde podereis achar de fato inspirações salutares, pensamentos fortes, motivos de
inabalável confiança a não ser no seio do vosso Pai? Tendes necessidade de repouso, aqui se repousa; tendes
necessidade de amar e de ser amado, aqui se ama e se é amado, aqui é a escola do verdadeiro amor.

O tabernáculo deve ser o principal refúgio da mãe cristã, o asilo do seu coração, o santuário da sua
esperança e o lugar do seu repouso. É ai que ela reza por todos os que lhe são caros; que ela pede e obtém; que
ela procura e acha; que ela bate e lhe abrem. Ela sabe que diante do altar é preciso dar para receber, mas que se
recebe infinitamente mais do que se dá e que o grão de incenso que ai se queima volta a nós desfeito em um
perfume de bênçãos.

Dizeis contudo: Eu tenho pedido, procurado e batido muitas vezes, mas em vão; de modo que, em contrário
às promessas do Evangelho, o Senhor, que, em sua vida evangélica, não deixou de atender jamais às preces de
nenhuma mãe, parece, ai de mim! Insensível às minhas!

Semelhante queixa revela uma tentação. Deus ouve sempre, quer conceda logo, quer demore, quer recuse;
mas corrige os nossos desejos pouco previdentes e por vezes intempestivos, interpreta-os de maneira a que se
tornem em nosso proveito, modera o nosso zelo que nem sempre é conforme à sabedoria e dispõe-nos a uma
submissão paciente. Eis a razão por que São Paulo quer que juntemos sempre ações de graças às nossas preces e
que sejamos reconhecidos a Deus seja qual for o resultado aparente delas.

Além disso há para nós, assim como para os nossos filhos, horas de graças ou ocasiões favoráveis.

Aguardemo-las; esperemos com paciência esses momentos propícios e deixemos obrar a Sabedoria divina
sem lhe pretendermos impor os fracos juízos da nossa própria sabedoria. “Eu esperei muito, mas não cansei de
esperar – dizia o Salmista – e afinal o Senhor olhou para mim e atendeu a minha prece” (Salmo 39). Ser-vos-ia útil
dizer em qualquer circunstância: Seja feita a vossa vontade e não a minha! E eis ai precisamente o que não dizeis, ou
ao menos o que não pensais, se acaso o dizeis.

A vossa inquieta solicitude se afrouxa quando Deus vos não concede imediatamente o que lhe pedis; pois
quereis se atendida à hora que soa na terra, posto que essa hora não tenha soado ainda no céu.

Para vos expandirdes diante do altar, não é mister um grande fluxo de palavras: a devoção ao Santíssimo
Sacramento exige apenas uma disposição calma, submissa e confiante. Exponde silenciosamente as vossas súplicas
perante Aquele que lê no fundo dos corações: “deleitai-vos no Senhor, e ele atenderá aos vossos desejos; esperai
em Deus, e ele satisfará ao que desejais”. Dizem que as flores reproduzem, na sua admirável variedade, as formas
diversas dos astros a que correspondem. Seja como for, elas se conservam tranquilas nos seus pedúnculos, sem se
preocuparem com isso, haurindo suavemente a luz do sol que as aquece; e, pouco a pouco, aponta a sorrir no fundo
dos seus Cálices o fruto saboroso.

É assim que se dilatam as almas amorosas ante os tabernáculos do divino Amor. Tranquilas e recolhidas
ante o sacro foco da bondade divina, elas absorvem com delicia os raios que daí emanam, e tornam-se boas
comungando com a Bondade, misericordiosas, comungando com a divina Misericórdia. A sua atitude humilde e
piedosa, o ardor dos seus santos desejos e as aspirações veementes da suas esperanças fazem partir do altar as
centelhas das virtudes divinas; e assim se reproduzem admiravelmente nelas mesmas os traços da celeste perfeição,
como essas imagens vivas que a luz imprime entre os planos em que reflete.

O Senhor disse no Evangelho: “Aquele que me vê, vê meu Pai”. E com efeito, Ele é a substancia e o
esplendor do Todo-Poderoso. Os reflexos do tabernáculo que se projetam em nossas almas ai produzem um efeito
semelhante; e a mãe cristã, toda repassada dessas graças, se erguerá à imagem do seu Deus, de modo que, ao ver as
suas virtudes, a sua abnegação e a sua doce piedade afável e atraente, cada um poderá dizer também: Aquele que a
vê, vê Jesus Cristo.

A vida humana não é mais do que a flor de um dia, mas quando esta flor se descerra ao influxo da Religião,
uma msteriosa transformação nela se opera, de que resulta um fruto imortal.

XXXIV. O Crucifixo

O crucifixo é o livro de rezas do cristão, é o breviário da fé, o epítome da ciência divina, o instrumento das bênçãos, o
topo de todas as virtudes e o símbolo das esperanças imortais.

Fato admirável! Este símbolo, tão singelo quão sublime, está ao alcance de todas as idades; fala e compreende todas
as línguas; corresponde a todas as necessidades, todas as condições, a todas as situações; instrui e consola; sustenta
os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os fiéis e os pecadores, os sábios e os ignorantes; resume em si todas
as exortações e todas as prédicas; é a figura tangível de todos os mistérios de nossa redenção. Que humano coração
poderá conservar-se indiferente e frio em face de um benfeitor generoso? Ora, o Crucifixo é imagem daquele que
nos salvou e que livrou do opróbrio a nossa família e da servidão todos os nossos antepassados.

Não é para admirar, pois, que lhe reservemos sempre um lugar de honra em nossa vida, que o beijemos com amor e
que lhe não lancemos senão olhares cheios de simpatia, respeito e reconhecimento.

Estas impressões vivas e fortes, a alma cristã as tem mil vezes experimentado. E na verdade, para animar o fervor,
basta considerar o crucifixo com uma atenção calma e serena. Não sei que secreta virtude sai dele então que
brandamente nos toca e se insinua na alma, enternecendo-a, dilatando-a e elevando-a até Deus. Sem dúvida que
emoções tais nem sempre se enlaçam num encadeamento de orações, mas em si contêm luminosas partículas que
ao sopro de Deus se espalham esbraseantes como labaredas de amor. Demais as simples efusões de um coração
comovido têm para Deus um preço infinitamente maior que as orações mais ricas e eloquentes.

Não, não é necessário saber ler para aprender a rezar: o Crucifixo é o livro dos iletrados, dos analfabetos e das
crianças, mas é também para os sábios uma filosofia e uma teologia.

Pois, o que sabem acaso os homens que aprenderam muitas coisas e que, no meio de todas essas coisas, ignoram a
Deus e ignoram o que eles próprios são? A ciência que não esclarece nem as origens nem os fins últimos do homem
é bem insuficiente e estéril. Por que está ele na terra? De onde vem ? Para onde vai? Que caminho deve ele seguir?
Qual a causa das suas lutas e dos seus sofrimentos? Qual é a condição do seu triunfo e da sua reabilitação?

Qual é em definitivo o fim da sua vida e da sua morte?

A estes problemas capitais o Crucifixo dá soluções. Faz-nos ele pressentir a nobreza de nossa origem e a grandeza de
nosso destino, resume ao mesmo tempo a doutrina das lágrimas e a ciência das celestes consolações e tanto ilumina
o passado como as coisas presentes e futuras.

Todos os ensinamentos do cristianismo descem do Crucifixo como do alto de um púlpito sagrado.

Meditando-os com fé, nós contemplamos a majestade da Santíssima Trindade; adoramos o filho de Deus
encarnando na natureza humana, o divino Emanuel, o desejado das nações, a esperança única dos descendentes de
Eva; glorificamos enfim a Vítima que, para nos resgatar, oferece o Seu sangue e expira na cruz “Transpassaram-lhe
os pés e as mãos", dizia o profeta; lacerou-lhe a fronte uma coroa de espinhos e a ponta de uma lança rasgou-lhe o
coração.

O emblema deste augusto sacrifício não nos dá somente a chave da ciência; inicia-nos também no mistério das
virtudes sobrenaturais. A linguagem do Crucifixo, bem a compreendem os que produzem na sua vida cristã a
paciência, a abnegação, a resignação, a caridade e a divina mansidão de Jesus Cristo.

O que é mais capaz de nos inspirar o horror do mal e o amor do bem, do que esta imagem sagrada?! Que tocante
exortação há nela às almas generosas! É

Jesus Cristo quem lhes fala: “Aquele que me quer acompanhar, renuncie-se a si próprio e siga-me!” O crucifixo
estimula a coragem, dissipa o medo e mostra todo o valor dos sofrimentos; desde então cada dor que se junte às
dores de Jesus Cristo, como a gota da água ao oceano, adquire um mérito que faz jus a uma recompensa.

O divino Salvador quer que participemos do conteúdo do seu cálice. Ele, sofrendo por nós, não aboliu o sofrimento,
nem morrendo por nós nos isentou da morte; mas por seu sacrifício voluntário santificou os sofrimentos e deu vida à
morte.

Grande lição que nos indica tudo o que devemos fazer e tudo o que devemos esperar. O crucifixo nos mostra a razão
por que sofremos, o modo como é preciso sofrer e quais são os frutos dos sofrimentos.

Dá-nos, além disso, o exemplo da obediência cristã. Em Jesus Cristo não se veem os murmúrios nem revoltas nem
represálias; ele se submete sem resistência a todas as provas e a todos os ultrajes. Que mansidão e que
magnanimidade! Que bondade imensa e que inesgotável misericórdia!
O Crucifixo fala aos olhos e ao coração, excita os bons desejos, nutre a piedade e abre a fonte das lágrimas. Ele gera
os heróis e gera os mártires.

Ainda mesmo que a alma infiel se ache inteiramente em trevas, a cruz dardeja um rutilante raio que acorda a
consciência, apazigua o desespero e enxota os terrores.

A cruz é como uma ponte misteriosa lançada sobre o abismo; é um caminho por onde se vai à pátria; é a alavanca
que nos ergue acima de nós mesmos e que nos transporta para os braços de nosso Pai. O Salvador crucificado pagou
o resgate do pecador e advoga a nossa causa. Ele é hoje o que era ontem e o que será nos séculos dos séculos; cura
os enfermos e dá vista aos cegos, ouvido aos surdos, palavra aos mudos e vida aos mortos. Habituemo-nos a
conversar com o nosso Crucifixo; estudemos este luminoso símbolo. Ah! Desgraçadamente muitos cristãos o não
compreendem! Amemo-lo como se ama um amigo fiel e um supremo consolador; veneremo-lo como se venera a
venerabilíssima imagem de um Salvador. Ele é o estandarte da nossa religião; cerquemo-lo de ferventes
homenagens e ergamo-lo bem alto nos combates da fé. É o escudo da nossa esperança oponhamo-lo com firmeza às
seduções do mundo. É o para-raios que protege os lares; reunamo-nos em torno dele no dia das tempestades e dos
perigos. E quando soar a nossa última hora tomemo-lo às mãos e apertemo-lo ao seio, que ele suavizará a nossa
agonia, dissipará as trevas que nos rodearem e nos abrirá as portas do céu.

XXXV. As Lágrimas de Maria


Não esqueçais nunca — diz a seu filho o piedoso Tobias — as dores de vossa mãe.

Esta recomendação se entende principalmente com os nossos corações quando se trata de Maria, a mãe dos filhos
de Deus. Nela vemos estampada toda a paixão de Jesus Cristo; pois assim como o disco do sol brilha ao mesmo
tempo sobre as nossas cabeças e no fundo das águas límpidas em que se reflete, assim também se contempla, tanto
na Cruz como no coração de Maria, a plenitude dos sofrimentos do Salvador dos homens.

É necessário que cada cristão, discípulo de Jesus Cristo, tome parte nos sofrimentos do Mestre, reproduzindo-os em
si mesmo: “Hoc sentite in vobis quod et Cristo Jesu”. E si todas as almas fiéis se comovem à vista do Calvário imagine-
se com que intensidade no coração da mãe de Jesus Cristo se deviam ter reproduzido os sofrimentos de Seu Filho.

Todavia não confundamos este mistério da compaixão cristã com a piedade maternal. Sem dúvida sofreu Maria as
angústias da mais extremosa das mães e a sua alma, como um vasto e tranquilo oceano, refletiu em sua
profundidade todas as torturas morais e corporais do Gólgota.

Mas um sentimento sobrenatural a dominava; Ela sofria voluntariamente com Jesus Cristo para a salvação do mundo
e cooperava em todos os atos da Redenção por sua aquiescência ao cruento sacrifício.

Digna filha de Abraão, a Virgem de Sião se conserva em pé no altar do Calvário, na atitude de um profeta, e ai
oferece a vítima e consente na imolação. É assim que Ela coopera para a redenção do mundo, compartindo todas as
expiações e todos os sofrimentos interiores de Jesus Cristo e padecendo com o seu Divino Filho o martírio da cruz e
todas as amarguras que resultam dos benefícios não reconhecidos, do amor desdenhado e da graça brutalmente
repelida.

Consideremos na compaixão de Maria os caracteres salientes do sofrimento cristão. A mãe de Jesus Cristo é objeto
de inauditas aflições, mas nenhuma queixa profere, mantém-se em pé: stabat Mater!firme, calma, submissa e
corajosa. Eis o que a torna sublime, porque não há nada que se possa comparar com a majestade da resignação. A
dor, quanto mais aceita é, tanto mais nos inspira simpatias.

Nós nos compadecemos dos que sofrem, quando sofrem com submissão à vontade de Deus; mas já não nos
compadecemos tanto dos que se compadecem de si mesmos e não sabem conter a veemência dos seus pesares. O
Evangelho, narrando os principais atos da Paixão, se limita a mostrar-nos Maria ao pé da cruz, sem referir nenhuma
palavra de Maria. O silêncio é, com efeito, a linguagem mais expressiva das verdadeiras dores e impõe um respeito
que as confidências imprudentes e as lamentações exageradas não poderiam impor a ninguém. De que servem,
aliás, as cenas de desespero? Esgotam as forças vitais e, longe de comoverem, importunam os que a elas assistem.
Julgamos deplorável o mau gosto de certos livros e de certas estampas que nos representam a Mãe de Jesus a
estorcer-se e a cair desfalecida nos braços das santas mulheres que a amparam. Tais representações são contrarias
ao texto e ao espírito do Evangelho; os seus autores confundem os sofrimentos enervantes da natureza com os
sofrimentos cristãos e, longe de alentarem com isso a nossa devoção, adulteram-lhe o princípio.

Maria não falou, mas desfez-se em lágrimas e as lágrimas são também uma linguagem, pois são palavras do coração.
Há lágrimas redentoras, diz Santo Ambrósio. O próprio Jesus Cristo chorou: chorou por Jerusalém. A sua divina Mãe
chorou igualmente e a Igreja venera as suas lágrimas: juxta crucem lacrymosa.

As lágrimas são mais ou menos puras, nobres e santas, segundo as fontes de onde fluem. As que provêm da
sensibilidade natural podem ser abundantes e impetuosas, mas são estéreis.

As que, ao contrário, destilam da alma cristã repassadas de compaixão, são fecundas e simpáticas e, formadas na
região do céu, possuem, como o sangue, uma virtude que toca e salva as almas e participam da virtude das lágrimas
de Jesus Cristo.

Tais eram as lágrimas de Maria, tais devem ser as vossas.

Chorai, portanto, sobre os filhos que perdestes, ó mães cristãs, mas chorai com Maria e chorai como Maria.

Lembrai-vos, outrossim, desta palavra de um santo: “O filho de uma mãe piedosa não poderá se perder”. Uma
nuvem misteriosa marchará à frente do filho pródigo para o proteger de dia e de noite e essa nuvem protetora,
composta das lágrimas maternas, cairá sobre ele desfeita numa chuva de bênçãos.

XXXVI. São José, o protetor das famílias cristãs


As vocações de Deus são imutáveis: o homem, o que foi neste mundo, se-lo-á eternamente no céu.

Se aplicarmos esta verdade a S. José, pressentiremos talvez a grandeza do seu papel no reino de Deus.

S. José é o homem sublime e a sua missão é incomparável. Herdeiro dos patriarcas e primeiro modelo dos discípulos
de Jesus Cristo, possui as virtudes eminentes de todos os outros santos, mas excede-os a todos, em graça e em
glória; e pode-se afirmar com Suarez que ele é um vulto excepcional e acima de toda a apreciação pelo lugar que
ocupa na hierarquia dos bem-aventurados.

É o justo por excelência, o homem de Deus, o amigo de Deus, o servidor fiel e concentra em si todos os traços dos
mais ilustres personagens do Antigo e do Novo Testamento.

Ele é, como Noé, o depositário da arca da salvação; como Abraão, o herói da fé; como Jacob, peregrino e viajante em
sua tenda; e, como o outro José — o salvador do Egito — ele armazena em si o verdadeiro trigo, o melhor frumento
e guarda as chaves dos celeiros do céu. Como Moisés, ele prefere participar das humilhações do seu povo a gozar
das prerrogativas da nobreza; e, como David, sofre com magnanimidade as provações, as perseguições e as
adversidades do exílio. Como os profetas e como os mártires de que o mundo não era digno, ele viveu pobre,
desconhecido, obscuro e dedicado unicamente à obra de Deus, não tocando enfim a terra senão com a ponta do pé,
pois que o seu coração pertencia ao céu e só no céu estava.

É um erro muito comum representar o virgíneo esposo da Virgem sob o aspecto de um simples operário ou de um
homem vulgar. S. José era um príncipe do povo de Deus; nascido da raça de David, ele contava entre os seus
antepassados uma longa série de príncipes e de reis. Já não existia em verdade a antiga dinastia, mas continuava a
ser honrada ainda e os seus augustos descendentes não tinham perdido os títulos que lhes garantiam o respeito e a
veneração das tribos de Israel. Se S. José, cheio de divinais revérberos, escolheu entretanto uma humilde
obscuridade, foi porque, rico dos bens do céu, menosprezava as fortunas e as glórias deste mundo. Ele era santo
muito antes de a doutrina da santidade ter sido pregada aos homens. O carpinteiro de Nazaré vivia do seu trabalho,
é bem certo; mas isto mesmo era um dos caracteres da sua perfeição.

Qual devia ser a preeminência de virtudes e a supereminência moral deste varão eleito entre todos para servir de
pai ao menino Jesus e para servir de esposo a Maria, a Virgem Imaculada?

Não há nada mais admirável do que o segredo inerente a esta dupla vocação. De tal segredo foi S. José por muito
tempo o confidente único; mas o Evangelho o descobriu à luz do dia e, se acaso não é compreendido pela fraca
razão humana, revela-se com uma lucidez maravilhosa àqueles que têm o coração humilde, simples e reto.
Eis aí o mistério, tal como o explicam Sto. Ignácio de Antioquia, S. Jeronimo, Sto. Agostinho e vários outros Padres da
Igreja. Os livros santos tinham anunciado que uma Virgem conceberia, que daria à luz um filho e que o fruto das suas
entranhas se chamaria Emmanuel, Deus conosco. “Ecce virgo concipiet et pariet filium, et vocabitur nomen ejus
Emmanuel”.

Este anúncio profético, oráculo das esperanças humanas, era um motivo de angústias para Satan. O irreconciliável
inimigo de Deus e dos homens espreitava com perfídia a realização da misteriosa profecia para estorvar as vias da
redenção do mundo, e não é difícil fazer uma ideia das violências, dos ardis e das traições que ele meditava, pela
horrível carnificina que ensanguentou Belém desde os primeiros dias do nascimento do Messias.

A sabedoria divina fez que se malograssem os estratagemas da serpente; e para lhe ocultar o alto plano da
Providência, impedindo-a de conhecer o prodígio da maternidade imaculada, quis que Maria contraísse um
casamento legal; de sorte que, sob a égide de S. José o mistério da Virgindade não pode ser suspeitado e as divinas
promessas se realizaram sem ruído e sem resistência.

Assim este grande santo guarda o segredo de Deus. Mandatário do Altíssimo ele concorre para a execução do
projeto sagrado, torna-se o depositário único dos tesouros do céu e da terra e tem em suas mãos o preço da
redenção do mundo! Eis aí o sacramento misterioso, concebido, desde a origem, no silêncio dos conselhos de Deus e
confiado ao silêncio de S. José.

A Escritura diz: “há o tempo de calar e o tempo de falar”; pois a missão de S. José foi ocultar a Encarnação do Filho
de Deus, como a dos apóstolos foi proclamá-la ao mundo.

Que celestial favor! que alta dignidade lhe foi confiada! que prodigiosa missão e também que insigne felicidade! José
pôde contemplar, pôde ver com os seus próprios olhos Aquele que fez as delícias dos anjos e exultou de jubilo à voz
de Jesus e de Maria. Ele era o chefe venerado da Santa Família e quem a protegia e guiava no meio das provações e
dos sofrimentos. Anjo visível da Mãe e do Filho, ele executou os decretos do Altíssimo, subtraindo os dois as
perseguições do inimigo, levando-os a país estrangeiro e trazendo-os de novo para a pátria. Iniciado nos
pensamentos de Deus, ele esteve em comunicação constante com o céu, sem que ao mesmo tempo deixasse de
prover pelo seu trabalho material às necessidades da vida terrestre.

S. José é o homem humilde e manso de coração e todas as suas perfeições se acham envoltas em uma casta
modéstia; mas ele guarda em si o mistério do amor, vive de amor e morre de amor; vive e morre nos braços de Jesus
e de Maria!

E assim foi a vocação de S. José, vocação augusta que se perpetua nos séculos dos séculos. O que José visivelmente
há sido para a pequena família de Nazaré, ele incessantemente o será também para a grande família da Igreja. José,
tanto no céu como na terra, é o órgão poderoso da Providência. Ele intercede por nós junto ao solo de Deus,
interessa-se pelo objeto das nossas solicitudes, provê às nossas necessidades espirituais e temporais, vela pelo filhos
de Deus, dispensando-lhes copiosas graças e a sua voz, como a de Maria, e sempre ouvida no céu.

À imitação do próprio Jesus Cristo, sejamos finalmente submissos a S. José! Com a Virgem Maria, prestemos-lhe um
culto honroso e elevado de confiança e de amor. Com todos os santos da corte celeste, invoquemo-lo em outras
necessidades e, sobretudo à nossa última hora, pois ele nos conduzirá à eterna pátria.

Ele é um pai e por este só titulo é o modelo dos pais, o arrimo das mães, o protetor vigilante das famílias e o
patriarca de toda a Igreja.

XXXVII. A mãe de Sto. Agostinho


A mãe do grande Santo Agostinho oferece exemplo de perfeição às esposas, às viúvas e às mães cristãs. Seu próprio
filho é quem nos ensina a conhecê-la e a apreciá-la.

Santa Mônica era de tal modo cheia do seu Deus que ninguém se podia aproximar dela sem se possuir do desejo de
ser bom, pois nela brilhavam reunidas todas as qualidades da mulher forte da Escritura. Não soube jamais retribuir o
mal nem ter nos lábios uma expressão áspera, senão doces e benévolas palavras que lhe vinham diretamente do
coração, tesouro inesgotável de bondade e doçura.
Oh! Como é amável a mulher evangélica, quando a estrela da piedade lhe ilumina o semblante!

É uma providência para milhares de aflitos e o seu simples aspecto infunde veneração e a santa suavidade que lhe
banha o rosto cerca-se de uma estranha auréola de graça e de simpatia. As intrigas e as conversações fúteis do
mundo não despertam a sua curiosidade nem excitam as suas atenções e as vãs homenagens não a ostentam, nem
as injustiças dos outros lhe arrancam murmúrios e queixas, porque ela é sempre igual a si mesma e pelo seu silêncio
como pela sua voz, por todos os seus atos e pelos sacrifícios de cada dia e de cada instante, honra a religião, edifica a
sociedade e brilha diante dos homens com uma luz serena, pura e ideal, que parece um lampejo de Deus.

Mônica não é propriamente uma dessas almas excepcionais, cuja perfeição espanta a fraqueza humana e que por
suas obras heroicas escapam à nossa imitação. Não nos aparece sob as formas de uma severa austeridade, nem a
sua vida se assinala por milagres.

A sua santidade se manifestou, porém, no circulo dos deveres de uma situação comum: Mônica aperfeiçoou sua
alma no meio dessas dificuldades ordinárias em que se encontram a maior parte das mulheres cristãs.

Como esposa, qual foi a sua vida? O seu biógrafo confessa que ela tinha um marido insuportável. Digamos tudo: este
marido era pagão. Ai de nós! Que o paganismo ainda existe nos tempos modernos, pois não poucos cristãos se
tornam estranhos a Jesus Cristo, adoram a fortuna e incensam ídolos, reduzindo a essa miséria toda a sua religião!

Quantos homens, aliás, honrados e instruídos, não conhecem mais o cristianismo e andam arredios deste! Eles
tinham aprendido, talvez, nos seus primeiros anos, os rudimentos da religião, mas depois fecharam para sempre o
catecismo, imaginando já saberem tudo. Pronunciaram-se então sobre esta vasta doutrina de que nada sabem,
considerando-a indigna dos espíritos sérios, muito abaixo dos progressos da ciência e em desacordo com as luzes do
século. Que estranha apreciação! É como se quisesse julgar das proporções de um homem pelas dimensões de um
berço. Disto resulta que, inteiramente absorvidos pelos negócios e coisas da terra, que lhes fazem esquecer tudo
que respeita à eternidade, eles repelem a religião como inútil ou embaraçosa para si, tolerando-a apenas para as
mulheres e as crianças. Não se lembram de que a doutrina católica cativou os mais eminentes gênios que tenham
honrado o mundo, quer pelas suas investigações e descobertas no domínio da ciência, quer pelos seus feitos
grandiosos, e consideram talvez como espíritos fracos os Agostinhos, os Jerônimos, os Crisóstomos, os Bernardos e
Tomás de Aquino e Inácio de Loyola e Vicente de Paulo e Fénelon e tantos outros luzeiros da ciência divina. E ainda
bem, quando esses a que nos referimos não são mais do que simples indiferentes e não se lançam a perseguir com a
sua hostilidade ou as suas zombarias as práticas da piedade cristã. Muitas esposas se encontram atualmente nas
mesmas condições em que vivia Santa Mônica. Qual deve ser, porém, a regra do proceder delas em tão difíceis
circunstâncias?

Seja a mãe cristã, para seu esposo, um catecismo vivo e um compêndio de teologia! Seja, para ele, a exemplo de
Santa Mônica, um anjo de edificação e de salvação!

Sem dúvida que lhe não compete pregar ou doutrinar, porquanto a sua graça é, ao contrário, a do silêncio; mas este
silêncio , só por si, vale uma boa pregação, quando é manso, afável e simpático. Não há eloquência nem lição tão
capaz de revelar sob formas atraentes as belezas do cristianismo como a piedade serena e afável da mãe cristã, pois
assim a sua vida inteira, opulenta em virtudes, se torna uma pura manifestação do Evangelho.

Vós chamareis a vós os homens de bem e os salvareis, não por solicitações reiteradas e inoportunas, mas por atos de
generosa abnegação, pelas vossas secretas e perseverantes orações, pela vossa dedicação e, sobretudo por um
espírito cheio de mansidão evangélica!

Ela opera maravilhas que a mais assombrosa magia do mundo não saberia imitar jamais. É um singular talismã que
assegura à esposa infalíveis triunfos. “Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra”.

Foi assim que obteve Mônica o seu primeiro triunfo: ela salvou a alma do esposo pela distinção do seu espírito, pela
mansidão e brandura da sua piedade. Mas Sto. Agostinho, o santo bispo de Hippona, continuando a referir-nos as
qualidade eminentes de sua mãe, não quis que ficássemos ignorando o modelo de vida que ela abraçou depois da
morte do marido.

Entregando-se toda a Deus, Mônica fechou o coração às seduções de terra, para o não abrir nunca mais senão às
inspirações do céu.
Segundo os livros sagrados é este, com efeito, o compromisso que a viúva cristã deve firmar. A mulher que passa a
sua viuvez em festas e prazeres, diz o grande Apóstolo, parece estar viva, mas de fato está morta; está morta diante
de Deus.

A verdadeira viúva, segundo a significação da palavra, é a que se sente vazia, vidua; vazia de toda a paixão, vazia de
toda a afeição desordenada, vazia de todas as recordações importunas e de todos os apegos mundanos, para só se
encher, como um vaso de honra, vas honorabile, do balsamo do amor divino. Ela só pode aspirar às consolações
imortais e, por isso, é unicamente para o céu que o seu coração e as suas esperanças se devem voltar. Speret in
Domino!

Que a viúva se abstenha, continua São Paulo, de usar mal da sua liberdade, consumindo o seu tempo em ir de casa
em casa, a ostentar a sua ociosidade em visitas inúteis e a sacrificar ao luxo as oferendas a que tem direito a
caridade. Não tem justificação perante Deus a que perde assim o seu tempo e o faz perder aos outros. É preferível
tornar a casar-se a arriscar a alma; mas, casando-se de novo, acrescenta o Apóstolo, ela sofrerá aflições que eu
desejaria evitar-lhe.

A vida é uma prova rápida e grave em que se prepara o futuro destino. Que loucura é prender-se às ilusões do
mundo, em vez de procurar as realidades do supremo e eterno júbilo! A viúva desligada dos laços do mundo está
bastante livre e desembaraçada para se consagrar, como as virgens, ao serviço do Senhor, e, quando ela é fiel e
zelosa, torna-se digna de uma glória imperecível perante Deus e perante os homens.

Santa Mônica compreendeu as recomendações evangélicas e as executou no meio das circunstâncias difíceis da sua
viuvez. Ela tinha um filho de vinte anos; e quando a mãe carrega sozinha com o peso de uma responsabilidade tão
grave, precisa possuir mais do que uma virtude ordinária: precisa se mãe e pai ao mesmo tempo, isto é, juntar uma
prudente sagacidade à sua natural ternura e uma firmeza masculina a uma delicada indulgência.

O filho de Mônica, bem que muito jovem ainda, gozava já de grande retórica nomeada pela sua eloquência, arte esta
que ele professava com brilho nas mais célebres academias do tempo, aonde o povo afluía de todas as partes, só
para o ouvir falar. Tanta glória seria mais que suficiente para fascinar a vaidade do jovem Agostinho e de qualquer
mãe menos cristã do que Santa Mônica. Esta, porém, inteiramente desprendida das vãs satisfações do amor próprio
e colocada muito acima das ambições vulgares, não somente se mantém inacessível aos ataques da vanglória
humana, como também de algum modo serviu sempre de contrapeso às exaltações juvenis de seu filho, sobre cuja
soberba e vigorosa inteligência não deixou nunca de conservar um verdadeiro ascendente. Se a não desvaneciam os
louros triunfantes do filho, também os desvios deste não conseguiam desanimá-la. As suas constantes preces, as
suas piedosas lágrimas e a virtude das suas dores e da sua paciência fizeram surgir na Igreja o grande Santo
Agostinho.

Feliz a mãe que, ao sair deste mundo, recebe as últimas consolações da boca de um filho consagrado ao Senhor! Ela
abençoou seu filho e o filho abençoou sua mãe! Seus nomes se entrelaçaram no santo altar, inscrevendo-se ambos
no livro da vida. As glórias que os homens reciprocamente se conferem, depressa passam e se esvaem; e a mãe que,
para seus filhos, tão frágeis e fugitivas glórias ambiciona, nenhuma vantagem colherá perante Deus. Mas vós, ó mães
cristãs, que introduzis vossos filhos na senda real da salvação, onde os haveis precedido; vós sim é que os sabeis
amar verdadeiramente, pois granjeais para eles uma incorruptível e imarcescível coroa de honra. Desde então
recebeis, em paga do vosso amor, o mais profundo, o mais delicioso de todos os sentimentos, o amor filial que não
se altera jamais e que jamais se esgota e que não cessará de celebrar, tanto no céu como na terra, a vossa
dedicação, os vossos sacrifícios e os vossos piedosos desvelos.

Se Mônica não tivesse ambicionado para Agostinho senão fúteis glórias humanas, nem ela seria Santa Mônica nem
seu filho viria a ser o santo que é, o grande Santo Agostinho. Ela preferiu, seguido os conselhos da alta sapiência, os
bens imortais do céu a todas as fortunas da terra; e é por isso que a sua memória, juntamente com a de seu filho,
será eternamente abençoada.

XXXVIII. A mãe de São Gregório de Nazianzo


No meado do século IV venerava-se em Nazianzo uma família, de que todos os membros se inscreveram,
cada um por sua vez, no catálogo dos Santos. A bem-aventurada mãe destes santos se chamava Nonna. Deus lhe
havia dado três filhos: S. Gregório, S. Cesário e Santa Gorgonia. Seu marido, chamado também Gregório e
igualmente santo, por seus vastos conhecimentos se tornara ilustre; mas, infelizmente, se havia deixado seduzir
pelas seitas heterodoxas que nesse tempo viciavam as igrejas do oriente.

A sua admirável esposa é que o fez voltar ao bom caminho, não por meio de contínuas exortações, senão
pelas suas ardentes preces e pelos encantos da sua piedade. Ela exercia uma irresistível influência tanto sobre a filha
e os dois filhos como sobre o marido. Àqueles, desde os mais ternos anos, inspirou ela o horror ao pecado e o amor
à virtude e, ao mesmo tempo que lhes aperfeiçoava a vida moral, desenvolvia-lhes o espírito pela cultura das
ciências, das artes e das letras.

O jovem Gregório, todo o tempo que estudava em Atenas, cuja célebre academia era frequentada por um
mocidade licenciosa, nutriu na alma, sem se esquecer jamais os princípios que sua mãe lhe havia insinuado. Sempre
em guarda contra as tentações desta famosa e corrupta cidade, ele se soube conservar íntegro e firme na sua fé no
meio de uma sociedade essencialmente pagã. Felizmente a Providência ai lhe deparou um jovem companheiro e
amigo que também se esforçava por seguir à risca os exemplos de uma santa mãe. Este amigo inseparável do nosso
santo também veio a ser santo mais tarde: é o ilustre São Basílio Magno, um dos mais brilhantes fachos da fé
católica.

Quanto a Gregório, a Igreja o denomina o teólogo por excelência. Ele próprio nos conta a santa intimidade
que prendia o seu coração ao coração de Basílio. Morando e trabalhado juntos, tornou-se-lhes comum o que a cada
um deles pertencia. Posto que cercados de idólatras e de sofistas, os jovens conservaram ilesa sempre a pureza da
doutrina e dos costumes e viviam de tal modo afastados das mundanas agitações que, na grande cidade, não
conheciam senão dois caminhos: o que os levava à Igreja e o que os levava à Academia.

Não escreveremos aqui a história deste grande bispo de Constantinopla que se tornou o oráculo de todas as
igrejas do Oriente. Diremos apenas que reproduziu em si as nobres virtudes de sua mãe, a quem tomou por modelo,
e a sua santidade eminente é como o belo fruto que nos faz conhecer as qualidades da árvore.

Gregório fala-nos de sua mãe com fervoroso entusiasmo, tanto em seus discursos, como nas graciosas
poesias que compôs e todas as suas fibras pulsam vivamente sempre que se abandona às efusões da piedade filial.
Aqui temos algumas provas disto, colhidas em vários trechos esparsos das suas obras.

Minha mãe – escreve ele – era filha de uma raça de santos, mas excedeu em muito a santidade dos seus
avós. Era indulgente e modesta, sabendo porém, desenvolver em certas circunstâncias uma força e energia de alma
superior à coragem dos homens. Bem que fosse de sangue e estirpe nobre, o maior título de nobreza, a seus olhos,
era o seu título de cristã e filha de Deus. Era mui bela, mas desprezava o falso brilho da vaidade e, deixando às
atrizes e comediantes os adornos artificiais, para si mesma não procurava mais do que um simples crucifixo ou
imagem divina que, aliás, já tinha gravado no coração. Os exercícios de piedade, a que se entregava com fiel
vigilância, não a impediam de se ocupar dos serviços da casa e o admirável é que, quando desempenhava os seus
deveres domésticos, parecia não cogitar no serviço de Deus, como também quando se absorvia em seus exercícios
religiosos, se poderia supor que esquecia todos os encargos do lar; tanto é certo que essas duas ocupações, na
aparência opostas, se confundiam sempre em sua consciência calma, serena e vigilante.

“A oração era todos os dias o seu primeiro e principal alimento; e com tão vivo sentimento de confiança se
entregava às suas preces que parecia estar mais segura do que assim pedia e esperava, do que os outros o estão dos
bens em cuja posse se acham”.

“E, oh! Como era caridosa a minha querida mãe – continua este ditoso filho – Ela era a providência dos
órfãos, dos desvalidos e dos aflitos; e tão largo e tão ardente era o seu desejo de os aliviar, de os contentar, de os
saciar, que ela teria descido às profundezas do oceano para daí tirar o que fosse necessário a todos os que padeciam
sede e fome. Muitas vezes lhe ouvi dizer que, sendo preciso, de bom grado se venderia para não negar nunca uma
esmola aos pobres que lhe causavam mais compaixão.

A sua vida, como a de todos os eleitos de Deus, foi bastante atravessada de dores e provações; muitas vezes
bebeu ela o cálice amargoso de Jesus Cristo. Nessas dolorosas conjecturas, Nonna evitava que qualquer pessoa de
sua casa fosse testemunha das suas penas; dissimulava-as delicadamente, reservando-as só para si, afim de poupar a
sensibilidade dos que a amavam.
Demais, ela considerava a cruz como a chave do paraíso e como o instrumento da santificação.

No meio das piores vicissitudes não fraqueava nunca; sempre firme e de pé se mantinha, como forte
coluna, animando a todos com o seu exemplo, de que se irradiava a esperança e a paz.

Ardia inextinguível no seu coração, o fogo do divino amor, que ela atiçava pela meditação assídua dos
textos sagrados, sopro vivificante que a enchia de uma lucidez e de uma dignidade toda celeste. Concebe-se a
salutar influência de uma tão perfeita mãe sobre a educação dos filhos. As suas palavras, as suas lições e os seus
conselhos, sustentados por constantes exemplos, repousavam sobre os princípios imutáveis dos livros santos, de
sorte que seus filhos, obedecendo-lhe, obedeciam ao próprio Deus. Ela se mostrava particularmente zelosa em
afastar da sua casa tudo que pudesse alterar a fé ou comprometer a moralidade, compreendendo que um elemento
profano ou pagão se aliasse jamais com os hábitos das almas destinadas a serem as companheiras dos anjos. Não
admira pois que todos os seus filhos se tornassem santos. Também nenhuma benção faltou a esta família cristã. A
bem-aventurada mãe e o bem-aventurado pai de S. Gregório de Nazianzo chegaram à mais avançada idade, pois
tinham ambos cerca de cem anos quando deixaram este mundo para irem no outro receber a eterna palma.

O real salmista deu um dia à sua harpa sonora este belo tema: “Generatio rectorum benedicetur”. A
geração dos corações retos será bendita!

Não há nada melhor do que verificar o cumprimento desta profecia. Preciosíssima é a herança que os pais
fiéis transmitem à sua posteridade. As mais sólidas fortunas da terra se desmantelam, as mais ricas vantagens
desaparecem e as mais brilhantes pompas, como os mais vivos prazeres, não duram mais do que um dia; ao passo
que a benção de Deus atravessa as idades e os séculos, semelhante a um largo rio que espalha longe, bem longe, a
fecundidade, a exuberância e a vida.

XXXIX. A mãe de S. Bernardo


A bem-aventurada Aletha teve sete filhos que foram todos santos. O mais velho de seus filhos se chamava Guido e a
este se seguiam Gerardo, Bernardo, André, Bartholomeu, Nivardo e uma filha chamada Umbelina. Os
contemporâneos que pessoalmente conheceram esta nobre família são unânimes em prestar grandes tributos de
veneração a cada um de seus membros.

Eis o que diz um piedoso cronista do século XII, abade de Saint-Thierry.

“O filho mais velho de Aletha tinha um caráter grave e justo. Amado de Deus e cheio de modéstia, era dotado de
uma notável inteligência que brilhava em todos os seus atos como em todas as suas palavras. Gerardo, o segundo
filho, gozava da estima geral; tinha costumes simples e castos e uma rara prudência junto a uma não menos rara
penetração de espírito. Bernardo, o terceiro, farol e modelo de seus irmãos, tornou-se uma forte coluna da Igreja.
André, o quarto, tinha uma alma ingênua e terna, temente a Deus e infensa ao mal. Bartholomeu, na flor da idade,
em saber e prudência avantajava os velhos e possuía todas as qualidades de uma vida sem mácula. Nivardo, o mais
moço, preferiu os bens do céu às riquezas da terra. Umbelina, nascida em último lugar, soube fugir às atrações da
vaidade mundana e chegou a ombrear em virtudes com os seus irmãos”.

A digna mãe dessa grande família de santos pode a todos os respeitos ser oferecida como um tipo das mães cristãs.
É verdade que ela teve a vantagem inapreciável de viver em uma época em que as famílias reproduziam, tanto
quanto era possível, a imagem da santa casa de Nazaré.

A Igreja com a sua divina inteligência, regulava a vida privada do mesmo modo que a vida publica, fixava os princípio,
da educação e intervinha nas relações civis para as nobilitar e consagrar; de sorte que tudo concorria para fomentar
a fé, fortalecer a virtude, exaltar os corações e incitar o amor dos grandes cometimentos.

O papel da mulher, nessa obra de civilização cristã, era verdadeiramente belo. A religião determinava todos os seus
deveres; e dignificava-os. A mãe não julgava terminada a sua tarefa depois de ter provido a todas as coisas da vida
temporal: as suas vistas se erguiam mais alto e a sua ação se estendia mais longe. Mãe cristã, ela iniciava na vida da
graça aqueles a quem tinha dado a vida material, e a sua felicidade, como a sua glória, consistia em os ver progredir
na virtude ao mesmo tempo que cresciam em idade.
“A mãe de S. Bernardo — diz um santo bispo — tomava os seus filhos nos braços, logo após o nascimento, para os
oferecer a Jesus Cristo; e amava-os desde então com respeito, como si fossem um depósito santo que Deus lhe
houvesse confiado. E disto resultou tornarem-se santos os sete filhos que teve.

Felizes os filhos que se desenvolvem sob esta influencia cristã e maternal! Aletha havia desposado, muito jovem
ainda o nobre Teulino, senhor de Fontaines, perto de Dijon. Ela tinha quinze anos apenas e já a sua alma, inspirada
pela graça, visava um outro destino. Mas a Providência destinara-a a ser esposa e mãe e propagar em sua numerosa
família as bênçãos que a enchiam. O seu mais ardente desejo foi transmitir ao coração de seus filhos a vocação
religiosa que ela havia apreciado tanto em seus primeiros anos. Unida profundamente a Jesus Cristo, fonte de todo o
amor, ela comunicava a seus filhos, com o leite maternal, uma virtude toda celeste ; formou-os para o céu bem mais
do que para a vida deste mundo e ensinou-lhes, desde a mais tenra idade, a discernir o bem e o mal, a preferir o
melhor e a amar acima de tudo o Pai das misericórdias e das eternas consolações. Esta piedosa mãe era como um
anel sagrado que ligava seus filhos a Deus, prendendo-os à Igreja e fixando-os na vida de salvação eterna. Ensinava-
lhes a amar, a rezar e a esperar, inspirando-lhes o temor de Deus, a confiança e o reconhecimento, o horror do mal e
o desejo da virtude e da santidade. Aletha havia estabelecido no interior da sua casa a ordem perfeita e a disciplina
prescrita pelas santas leis da Igreja. Eu não posso esquecer, diz o já citado biógrafo, quanto se esforçava esta distinta
mulher por servir de exemplo e modelo a seus filhos. Dentro ou fora da sua casa, ela imitava de algum modo a vida
religiosa pelas suas abstinências, pela simplicidade do seu vestuário e pelo seu afastamento dos prazeres e das
vaidades do século. Furtava-se o quanto possível às agitações exteriores, observando os jejuns e as vigílias,
perseverando na oração e resgatando por obras de caridade o que podia faltar à perfeição de uma pessoa ligada à
sociedade por diferentes laços.

Compreendem-se as impressões profundas que estes exemplos edificantes deviam ter gravado nas jovens almas que
diariamente os testemunhavam. A fidelidade que os pais guardam à autoridade da Igreja é para os filhos o melhor
meio de consagrar a fidelidade a todos os outros deveres.

Aletha amava os seus com uma ternura desinteressada, sem nada ter desse egoísmo natural que procura nisto a sua
própria satisfação e, cultivando as ricas faculdades de seus filhos, evitava provocar-lhes à superfície do espírito certa
florescência precoce e brilhante que lisonjeia a vaidade, mas que não produz nenhum fruto. A historia refere que ela
os habituava a uma prática generosa de renunciação e de sacrifício; que procurava ensinar-lhes a mais útil de todas
as ciências, a de sofrer com calma e dignidade; e que se aplicava sobretudo a fazer reinar entre eles, por um
constante exercício de caridade fraternal, uma santa harmonia de gostos, de costumes, de ideias e de simpatias.

A austeridade desta educação cristã, temperada por tudo o que há de afetuoso e de suave no coração de uma mãe,
desenvolveu as qualidades doces e vigorosas que se admiram em Bernardo e em seus Irmãos. Cada um deles
manifestou as mais solidas aptidões e as mais nobres faculdades. Mas, entre as virtudes destes filhos abençoados, a
piedade filial reluziu sempre como um diamante no meio das mais ricas pedrarias.

S. Bernardo, ainda mais que seus irmãos, prezava sua mãe e se deleitava com a unção religiosa do coração maternal.
Bem jovem ainda, ele imitava em segredo as boas obras de sua mãe, apiedava-se dos pobres e dos aflitos, era
serviçal para os irmãos e condescendente, obsequioso para todos e, pelos seus progressos de cada dia, na carreira
da virtude, preludiava a santidade que mais tarde lhe encheu a vida de celestial magnificência.

Um outro contemporâneo faz ver o quanto a venerável matrona era solicita em acudir a toda a espécie de
infortúnios Aletha não se limitou a acolher os pobres com bondade; visitava-os nas choupanas, pois neste ofício de
caridade gostava de fazer tudo por si mesma e servia os enfermos nos hospitais, distribuindo a uns e a outros
remédios e vestidos e oferecendo a todos os perfumes das consolações evangélicas. Si fossemos a narrar tudo o q
ela fazia — acrescenta o biógrafo — talvez não acreditassem (1).

Progredindo, dia a dia, de virtude em virtude, ela estava completamente preparada à sua última hora. Bernardo
tinha vinte anos somente, quando Deus a levou. Foi um golpe terrível para o seu jovem coração, porque, nesta
quadra da vida, a piedade filial está como que em plena florescência. O filho, nos seus primeiros anos, ama a sua
mãe sem avaliar o preço de uma mãe; ama-a infantilmente, quase que por instinto apenas. Mas na mocidade já ele
sabe apreciar a mãe, e à sua extrema ternura se junta uma estima, uma confiança, um respeito que nenhuma frase
poderia exprimir. A morte da venerável Aletha foi rodeada de circunstâncias tão tocantes que as não devemos omitir
aqui. Por isso vamos deixar falar um santo monge que assistiu a esta comovente cena e que com toda a singeleza a
conta:

“A mãe venerabilíssima do abade de Claraval costumava celebrar todos os anos magnificamente a festa de Santo
Ambrósio, padroeiro da igreja de Fontaines, com um banquete solene para o qual todo o clero era convidado. Deus,
querendo recompensar a particular devoção desta santa mulher pelo glorioso Ambrósio, fez-lhe conhecer por meio
de uma revelação misteriosa que ela havia de morrer no mesmo dia da festa. Certamente que não é para espantar
que uma tão digna cristã fosse dotada do espírito de profecia. Aletha disse então tranquilamente e com segurança a
seu esposo, a seus filhos e a toda a sua família reunida que o momento da sua morte era próxima.

“Todos, estremecendo embora, recusaram crer o sombrio anúncio, mas não tardou que a realização deste
dolorosamente os alarmasse. Na véspera de Santo Ambrósio, Aletha foi atacada de uma febre violenta. No dia
seguinte, que era o da festa, pediu humildemente que lhe trouxessem o Sagrado Corpo de Jesus Cristo e depois de
receber o Santíssimo Viático e a Extrema Unção, sentindo-se confortada, instou para que os eclesiásticos convidados
não faltassem ao festim. Quando eles se achavam à mesa, Aletha mandou chamar Guido, seu filho mais velho, e
recomendou-lhe que fizesse entrar no quarto, depois do banquete, todos os membros do clero que ali estavam.
Guido executou fielmente o que a sua piedosa mãe lhe havia ordenado.

"Estávamos todos reunidos em torno do seu leito, quando a serva de Deus nos declarou com ar sereno que era
chegado o seu último momento. Ajoelhamo-nos logo todos a rezar a ladainha que Aletha ia também entoando
enquanto tinha voz. Mas no instante em que o coro pronunciou esta frase: “Per passionem et crucem tuarn, libera
eam, Domine”, a agonizante, recomendando-se ao Senhor, ergueu a débil mão para fazer o sinal da cruz e, parando
nesta atitude, rendeu a sua santa alma que os anjos receberam e levaram para a mansão dos justos. É ai que ela
espera, na paz de Deus, o despertar do seu corpo no grande dia da ressurreição, quando o supremo Juiz vier julgar
os vivos e os mortos e o século pelo fogo.

“Foi assim que esta alma santificada deixou o santo templo do seu corpo; a mão direita permaneceu erguida na
mesma posição em que estava quando ela fez o seu último sinal da cruz, o que impressionou muito a todas as
pessoas presentes.

“A feliz transmigração desta mulher cristã foi objeto de jubilo entre os anjos do céu; mas cá na terra este
acontecimento mergulhou na desolação os pobres de Jesus Cristo, as viúvas e um grande número de órfãos que ela
protegia” (2).

Esta narração singela e tocante indica só por si a perfeita delicadeza do gênio desses séculos de ardente fé.

Sobre a lápide funerária da cripta de São Benigno, onde foram depositados os restos da Bem-aventurada Aletha. um
piedoso escultor gravou o retrato de cada um de seus filhos. Mãe nenhuma teve jamais um epitáfio tão eloquente
como este da mãe de São Bernardo.

A morte não termina, porém, a missão augusta de uma mãe piedosa. Esta missão se perpetua, debaixo de outra
forma, no mundo angélico.

Na vida do grande S. Bernardo nós encontramos irrecusáveis provas das relações que subsistiram além do túmulo,
entre a bem-aventurada Aletha e seus filhos.

Ela apareceu visivelmente a S. Bernardo, segundo o testemunho de um doutor contemporâneo, dizendo-lhe:


“Acaba, meu filho, com coragem, o que começaste a fazer: eu te espero na glória divina".

Uma aparição semelhante a esta determinou a vocação do jovem André, irmão daquele santo.

Em um momento em que ele resistia mais obstinadamente às impulsões da graça, exclamou de súbito:Vidi Matrem!
“Vi minha mãe!” E, imediatamente, se lançou comovido aos pés do irmão, consagrando-se desde então para sempre
ao serviço de Jesus Cristo (3).

Ó meu divino Salvador! suscita, eu vos conjuro, as mães verdadeiramente cristãs, afim de que os santos apareçam
de novo entre nós e a piedade torne a florescer como nos bons tempos de outrora, para consolação da Vossa Igreja.
__________

1) Guill. Vl 1º, cap 2º.

2) Joan Ermita, p. 130. Ed. Mabel.

3) Giull. de Santa Thierry, cap.II

Esgotado o tempo da penitência, todo arrependimento será inútil


À entrada dos quarenta dias consagrados à penitência, a Igreja assume a voz severa dos profetas, para nos exortar à
renovação na graça de Deus. Felizes as almas que respondem ao solene convite; pois aproxima-se a data em que a
trombeta do arcanjo anunciará o fim das provações terrestres. Ter-se-á, então, esgotado o tempo da penitência,
todo arrependimento será inútil. Façamos agora sem dilação o que, no último dia, desejaríamos ter feito. "Agora é a
ocasião, propícia, diz o apóstolo, dias de graça e de salvação". Roguemos a Deus que em nós excite o
arrependimento de nossas faltas e que nos conceda um coração contrito e humilde.

A penitência não consiste unicamente em abstinências e mortificações corporais; visa sobretudo o coração, a
vontade e a conduta. Fazer penitência é afastar nosso amor de toda afeição viciosa, para amar puramente a Deus; é
renunciar a todas as satisfações passageiras, para obedecer filialmente à vontade de Deus; é reformar as
imperfeições de nossa conduta, para viver santamente segundo a lei de Deus; em suma, fazer penitência é trabalhar
para a destruição do homem caduco, para auxiliar a ressurreição do homem novo. Mas o espírito de penitência não
poderia reanimar os que julgam justos e virtuosos, mas tão somente àqueles que a título de pecadores, imploram a
misericórdia do Senhor. Sirvamo-nos das palavras de Davi para pedir a Deus o espírito de penitência e se não
podemos empregar austeridades voluntárias para nos castigarmos, ao menos aceitemos de bom grado as aflições,
trabalhos, acidentes e sacrifícios que a Providência nos impõe.

Migalhas evangélicas, pelo Pe. Teodoro Ratisbonne, editora Vozes, 1941

EDUCAÇÃO CRISTÃ: O cuidado com as filhas


QUE FAREMOS DE NOSSAS FILHAS?

Um jornal norte-americano prometera um prêmio aquele de seus assinantes, que melhor respondesse a esta
pergunta:

Que faremos de nossas filhas?

Aí vai a resposta premiada, que muitas mães poderão meditar com proveito:

Primeiramente faremos delas boas cristãs e depois, dar-lhes-emos uma boa instrução elementar. Ensine-se-lhes a
preparar convenientemente um jantar, a cerzir meias, a pregar botões, a fazer uma camisa e a confeccionar os
próprios vestidos. Saibam elas fazer pão e lembrem-se de que, uma cozinha bem dirigida, poupa muitas despesas de
farmácia. Ensine-se-lhes que um mil réis tem dez tostões e que, para poupar, é preciso gastar menos e que a miséria
é fatal, quando os gastos são maiores do que as rendas; que um vestido de algodão pago, é melhor que um de seda
que se fica devendo.

É preciso que aprendam, desde cedo, a fazer compras e a dar contas do que gastaram. Repita-se-lhes que vale muito
mais um operário à mesa de trabalho e em mangas de camisa, ainda que sem um vintém no bolso, do que meia
dúzia de imbecis e vadios.

Ensinai-lhes a cultivar as flores e a ver a Deus em todas as criaturas. Feito isto, proporcionai-lhes algumas lições de
piano e pintura, se as vossas condições o permitirem, advertindo, porém, que estas artes ocupam lugar secundário e
são de pouco proveito no lar. Ensinai-lhes a desprezar as vãs aparências e acostumai-as a guardarem a palavra
empenhada e os bons propósitos; que o sim delas seja sim e o não seja não. Quando chegar o tempo de casá-las,
inculcai-lhes bem que a felicidade no casamento não depende da fortuna que lhes há de trazer o marido, nem da
posição que ele ocupar na sociedade, mas do caráter, dos dotes e virtudes da alma. Com esses princípios bem
ensinados e aprendidos, ficai certos de que vossas filhas serão felizes, no caminho que escolherem; quanto ao mais,
deixemo-lo a Deus.

E, se depois de tudo isso, um rapaz achar que a vossa filha não corresponde às suas aspirações, não se vos dê com
isso; é a melhor prova de que esse rapaz é destituído de bom senso e não merece a confiança de uma moça bem
educada. Melhor é ficar solteira, do que fazer a desgraça própria e alheia.

Mas, pelo amor de Deus, procurai que as vossas filhas possuam as virtudes e conhecimentos necessários à vida e que
sejam capazes de inspirar a um rapaz honesto e virtuoso, atrativos pelo casamento. Há tantas que lhes metem
medo!

(Extraído de "Novo Manual das Mães Cristãs", do Rev. Padre Theodoro Ratisbona, Editora Vozes, 1938).

Fonte: Mãe Cristã.

QUARESMA: Esgotado o tempo da penitência, todo arrependimento será inútil


À entrada dos quarenta dias consagrados à penitência, a Igreja assume a voz severa dos profetas, para nos exortar à
renovação na graça de Deus. Felizes as almas que respondem ao solene convite; pois aproxima-se a data em que a
trombeta do arcanjo anunciará o fim das provações terrestres. Ter-se-á, então, esgotado o tempo da penitência,
todo arrependimento será inútil. Façamos agora sem dilação o que, no último dia, desejaríamos ter feito. "Agora é a
ocasião, propícia, diz o apóstolo, dias de graça e de salvação". Roguemos a Deus que em nós excite o
arrependimento de nossas faltas e que nos conceda um coração contrito e humilde.

A penitência não consiste unicamente em abstinências e mortificações corporais; visa sobretudo o coração, a
vontade e a conduta. Fazer penitência é afastar nosso amor de toda afeição viciosa, para amar puramente a Deus; é
renunciar a todas as satisfações passageiras, para obedecer filialmente à vontade de Deus; é reformar as
imperfeições de nossa conduta, para viver santamente segundo a lei de Deus; em suma, fazer penitência é trabalhar
para a destruição do homem caduco, para auxiliar a ressurreição do homem novo. Mas o espírito de penitência não
poderia reanimar os que julgam justos e virtuosos, mas tão somente àqueles que a título de pecadores, imploram a
misericórdia do Senhor. Sirvamo-nos das palavras de Davi para pedir a Deus o espírito de penitência e se não
podemos empregar austeridades voluntárias para nos castigarmos, ao menos aceitemos de bom grado as aflições,
trabalhos, acidentes e sacrifícios que a Providência nos impõe.

Citação
Migalhas evangélicas, pelo Pe. Teodoro Ratisbonne, editora Vozes, 1941

“Consideremos a bondosa tolerância de Jesus para com os fariseus. Tolerância esta aplicada somente às pessoas e
nunca à doutrina. Condescendente, Nosso Senhor suporta criaturas atacadas de cegueira e chega-se a elas para as
instruir e edificar; quanto a seus erros, combate-os e fulmina-os. É este o espírito da Igreja Católica: combater sem
tréguas o pecado e a heresia, demonstrando, ao mesmo tempo, indulgência caridosa para com os pecadores e
hereges. Ao passo que no campo adversário, sucede justamente o contrário; os hereges toleram todas as doutrinas
errôneas, guardando sua intolerância apenas para os que professam a verdade”

(RATISBONNE,Theodore. Migalhas Evangélicas, Petropolis,RJ: Vozes, 1941, p. 349)

Conversões: Alphonse Marie Ratisbonne, Judeu e ateu


Conversão de Alphonse Marie Ratisbonne

Fundador da Congregação de Nossa Senhora de Sion

Judeu e ateu, Alphonse Marie (Alfonso) Ratisbonne, jovem estrasburguês, cedendo ao zelo apostólico de um de seus
compatriotas, o barão Teodoro de Bussière, aceitou colocar sobre o peito a imagem da Medalha milagrosa e a copiar
- apenas copiar, porque recusava-se a pronunciar - o "Lembrai-vos", oração criada por São Bernardo de Clairvaux.
No dia 20 de janeiro de 1842, um acontecimento memorável se deu em Roma, na bela igreja de Santo André Delle
Fratte, situada perto da praça de Espanha. Afonso, então com 27 anos, por volta de meio dia, entrou na igreja,
postando-se de pé, logo à entrada, enquanto aguardava Teodoro de Bussière, o amigo católico. Subitamente, sua
vista se embaça, uma força irresistível o arrasta e o lança aos pés do altar do arcanjo São Miguel, situado à esquerda
na igreja, próximo à entrada. A Virgem Maria lhe apareceu. Afonso escreveria mais tarde: "Eu estava na Igreja fazia
pouco, quando, de repente, senti algo inexprimível; levantei os olhos e tudo estava turvo. Toda a luz havia-se
concentrado numa única capela e, do centro desta irradiação (deste esplendor) apareceu, de pé, sobre o altar,
brilhante, cheia de majestade e meiguice, a Virgem Maria. Raios luminosos jorravam de suas mãos, exatamente
como representado na Medalha Milagrosa. Ela fez sinal, com a mão, para que eu me ajoelhasse. Uma força
irresistível me empurrou em sua direção. Ela parecia dizer: 'muito bem!' mas não precisou falar, porque eu
compreendi tudo."

Afonso Ratisbonne estava transformado, com o rosto em lágrimas, sacudido por profunda emoção, incapaz de se
expressar. Balbuciava, apenas: "...eu a vi ...eu a vi ...agora que eu a vi... conduze-me a um padre."

Desta Aparição, Ratisbonne colheu luzes extraordinárias sobre o mistério da Fé. Depois de um breve retiro,
meditação e oração, ele foi solenemente batizado, no dia 31 de janeiro de 1842, em Roma, e recebeu, no mesmo
dia, a Santa Comunhão e o sacramento da Confirmação. Em 1848, tornou-se Padre, acrescentando "Maria" ao seu
nome, que passou a ser Afonso Maria Ratisbonne. Então Sacerdote, ele se instalou na Palestina e consagrou sua vida
ao catecumenato dos convertidos de origem judaica, no seio da congregação (masculina e feminina) de Nossa
Senhora de Sion criada e dirigida por seu irmão, igualmente Sacerdote, Teodoro, por mais de cinqüenta anos.

Pode-se adivinhar a impressão profunda que causou no mundo católico, a repentina conversão deste jovem judeu.
Tanto que a Igreja não tardou em declarar, após pesquisa canônica exigente, que a conversão de Afonso foi um
milagre obtido pela intercessão da bem aventurada Virgem Maria. A imagem da Virgem que converteu Afonso
Ratisbonne foi denominada Nossa Senhora do Milagre, hoje padroeira da Ordem dos Mínimos.

"Conversão de Afonso Ratisbonne - Fundador da Congregação de Nossa Senhora de Sion"


TEXTO: CONGREGAÇÃO MARIANA SEDE DA SABEDORIA: http://sededasabedoria.blogspot.com/

LA CONVERSIÓN DE RATISBONNE
Relación del Señor Barón de Bussieres

Aquel mismo que en el camino de Jericó se sirvió de un poco de lodo para hacer que se abriesen á la luz del día los
ojos de un ciego de nacimiento, me ha escogido por principal testigo de un suceso sumamente extraordinario si le
consideramos sin salir de la esfera de la razón humana.

Refiero un hecho innegable: digo lo que he visto con mis propios ojos, lo que pueden asegurar infinitos testigos muy
respetables; lo que se hará increíble en Estrasburgo; lo que admira toda Roma. Un hombre que estaba en su cabal
juicio, ha entrado á una iglesia obstinadísimo judío, y á los diez minutos ha salido de ella católico de todo corazón, á
impulsos de una impetuosa avenida de aquella gracia que pudo vencer á un Saulo, derribándole en el camino de
Damasco.

Un joven de Estrasburgo, de una familia distinguida por su posición social y por el aprecio de que goza en el país,
llegó á Nápoles á fines del otoño de 1841 de paso para el Oriente, viajando con la mira de restablecer su salud y de
esparcir el ánimo. No era pequeño el sacrificio que hacía en ausentarse de su patria, porque dejaba á su futura,
querida, joven, hermosa y de carácter muy dulce, á quien amaba creyéndola un tesoro de esperanza. Era también
sobrina suya; pero para pensar en este enlace, no se había atendido tanto á las razones de familia como al mutuo
cariño.

Alfonso Ratisbonne era israelita. Destinado á ocupar una posición brillante, se proponía dirigir todos sus esfuerzos á
la regeneración de sus co-religionarios (1), siendo este el blanco de todos sus proyectos, la ocupación de su mente y
el término de todas sus esperanzas, pues le irritaba cuanto podía traerle á la memoria el anatema que pesa sobre los
descendientes de Jacob. Quince años hace que, siendo aún niño, le ocasionó un profundo sentimiento la conversión
al catolicismo de su querido hermano Teodoro Ratisbonne, abriendo en su corazón una llaga enconosa, que se
ahondó con haber recibido aquél los órdenes sagrados, y que el tiempo no pudo cicatrizar, creciendo de día en día el
odio que concibiera contra él: jamás le había sido posible perdonar al que consideraba como á un apóstata , y contra
el cual atizaba incesantemente el terco resentimiento de su familia.

El bellísimo cielo de Nápoles no era capaz de hacerle olvidar el Oriente, objeto de su viaje, y mucho menos las
satisfacciones que le aguardaran á su vuelta. Ya no le quedaban más que algunos meses para ver la Sicilia, Malta y
Constantinopla, pues el verano de 1842 había de volver al lado de su amada, y efectuar un enlace que haría toda su
dicha, fijando su suerte para en adelante. Por tanto era preciso apresurar el viaje. Sale con este fin una mañana para
ir en derechura á tomar asiento en el buque de vapor que ha de llevarle á Palermo; pero en la calle se le ocurre que
no ha visto Roma; que á su vuelta á Estrasburgo, ya casado, enredado en negocios y tal vez asociado á la casa de su
tío, no era muy probable que pudiese volver á Italia. Yendo y viniendo en este pensamiento, entra en el despacho de
los billetes de la diligencia, toma su asiento, y está en Roma á los tres días.

Mas aquí debe detenerse muy poco: así lo tiene resuelto, y su resolución es irrevocable: dentro de quince días ha de
estar de vuelta en Nápoles. En vano le presentará la ciudad eterna todas sus maravillas; no puede permanecer ni un
instante más: el Oriente y su esposa le aguardan.

Vedle pues recorriendo las ruinas, las iglesias, las galerías, y á fuer de verdadero viajero andar todo el día de aquí
para allí, recibiendo multitud de impresiones y recordando confusamente mil cosas. Se da prisa por concluir con esta
capital, adonde más que la curiosidad le ha traído una especie de impulso irresistible que no sabe explicar. Mañana
será la marcha, pero debe una visita de despedida á un antiguo amigo. Gustavo de Bussieres se había educado con él
en el mismo colegio, quedando ambos estrechamente unidos por los lazos de la amistad desde su infancia, á pesar
de la oposición de sus ideas religiosas. Mi hermano Gustavo es protestante celosísimo de la secta de los pietistas, y
varias veces infructuosamente procuró atraer á su secta al joven israelita: sus amigables reyertas concluían
regularmente con estas dos palabras, que expresaban bastante bien la situación moral de los dos interlocutores:
¡Rabioso protestante! decía el uno: ¡Judío empedernido! respondía el otro.

No encuentra Ratisbonne á mi hermano, que había ido á cazar: viene á mi casa; pero no entrará á verme,
contentándose con dejar una tarjeta de despedida. La casualidad, ó mas bien la Providencia, hace que se encuentre
con un criado italiano, que no entendiéndole bien, le introduce en la sala con gran repugnancia suya.

Hasta entonces no nos habíamos visto mas que una sola vez en casa de mi hermano, y á pesar de mis tentativas no
había hallado en Ratisbonne más que los fríos cumplimientos de un hombre fino. No obstante, es el amigo de
Gustavo, es el hermano del abate Ratisbonne, á quien yo quiero muchísimo; le recibo pues con el mayor agrado; le
hablo de sus correrías; él me refiere lo que ha visto, y las diversas sensaciones que ha experimentado. «Me ha
sucedido, añade, una cosa muy extraordinaria: estando viendo la iglesia de Aracoeli, me sentí penetrado de una
emoción profunda que no podía explicar. El hombre que iba conmigo enseñándome los edificios de Roma notó mi
agitación, y me preguntó qué era lo que me sucedía, y si quería que nos retirásemos, añadiendo haber visto
experimentar esta misma emoción á otros extranjeros.”

Parece que en el momento en que Ratisbonne pronunciaba estas palabras, le querían decir mis ojos centelleando de
gozo: tú serás dé los nuestros, porque él se dio prisa á afirmar con una intención bien conocida que aquella
impresión había sido puramente religiosa y de ningún modo cristiana.

Y bien luego continuó: Un espectáculo muy triste reanimó todo mi odio al catolicismo; atravesaba el Ghetto, y al ver
la miseria y degradación de los judíos, me decía á mí mismo que á pesar de ello mas valía ser del bando de los
oprimidos que del de los opresores. Nuestra conversación, cada vez mas animada, iba convirtiéndose en discusión:
en el calor de ella procuraba yo hacerle entrar en mis ideas y convicciones católicas, y él, burlándose de mis
esfuerzos, con una sonrisita graciosa y como compadeciéndose de mi superstición me respondía: Que había nacido
judío y que moriría judío.

Entonces se me ocurrió la idea más extraordinaria, una idea del cielo, que los sabios del mundo la hubieran llamado
locura.

Ya que sois un espíritu tan fuerte, tan entero y tan confiado en la firmeza de vuestros propósitos, prometedme llevar
al cuello lo que os voy á dar.
— Y bien, ¿de qué se trata?

— Nada mas que de esta medalla.

Y le presento una medalla de la Virgen milagrosa. Da él un paso hacia atrás con cierta indignación y sorpresa. Pero yo
sin alterarme le digo: He aquí una cosa que, según vuestro modo de ver, os es del todo indiferente, pero en tomarla
me haréis un favor especialísimo.

— ¡Oh! no consiste en eso, exclamó entonces soltando una carcajada de risa; quiero al menos probaros que es una
injusticia acusar á los judíos de obstinación y de insufrible emperramiento. Por otra parte, con esto me dais material
para añadir un capítulo bellísimo á los apuntes de mi viaje. Y continuó ensartando otras jocosidades de este mismo
jaez que á mí me herían en el alma, porque yo las oía como otras tantas blasfemias.

Entretanto le colgué al cuello la cinta, á que habían atado mis niñas la bendita medalla durante nuestro altercado.
Me quedaba que lograr otra cosa aún mas difícil: quería que rezara la piadosa deprecación de S. Bernardo:
Memorare, o piisima Virgo…. Por de pronto no lo conseguí; se negó á ello rotundamente con un tono que parecía
decir: Este hombre es en verdad demasiado impertinente. Pero me impelía una fuerza interior, y yo luchaba contra
estas reiteradas negativas con una especie de porfiada tenacidad. Le alargaba la oración, suplicándole que se la
llevara, pero que no teniendo yo otro ejemplar tuviera la bondad de copiarla.

La tomó por fin con un ademán irónico, como para librarse de mis importunaciones, diciéndome: Está bien, la
escribiré, os daré mi copia, y conservaré la vuestra. Y se fue murmurando entre dientes: ¡Vaya con el hombre,
indiscreto y original hasta dejárselo de sobra! Quisiera ver lo que diría si yo le hostigase así para hacerle rezar una
oración judía.

Luego que salió, mi mujer y yo nos quedamos mirándonos uno á otro y en silencio algunos momentos. Traspasados
nuestros corazones por las blasfemias que oímos, pedíamos á Dios perdón para aquel hombre, y encargábamos á
nuestras dos niñas que por la tarde rezasen el Ave María por la conversión de Alfonso.

De aquí adelante todos los pormenores son de tanta importancia para testificar la obra del Señor, que es deber mío
referir con la mayor exactitud posible, tanto lo que yo he hecho, como lo que ha hecho Ratisbonne desde el día en
que se llevó el Memorare hasta el momento en que la Madre de las misericordias le arrancó la Venda que le impedía
ver, hasta aquel en que tuvo la dicha de hacer en público profesión de la fe católica.

Ratisbonne no acababa de admirar mi porfía. Sin embargo, había copiado la oración á que yo atribuía tan poderosa
eficacia; la leía y releía con el fin de descubrir en ella lo que la hacía tan preciosa á mis ojos: á fuerza de leerla la sabia
casi de memoria, y no le era posible apartarla de su imaginación, repitiéndola maquinalmente, como aquellos trozos
de ópera, que se quedan tan impresos en los aficionados que los van repitiendo casi sin advertirlo.

En cuanto á mí, no pensaba más que en lo que me había pasado con aquel hombre, con quien no tenía ningún
motivo de intimidad, y con el cual conversé aquel día por primera vez. No atinaba de dónde me viniese la fuerza
interior que me estrechaba á procurar la conversión de aquel joven, y á pesar de tantos obstáculos y de la obstinada
indiferencia que él oponía á mis esfuerzos, me daba una convicción íntima, inexplicable, de que Dios, tarde ó
temprano, le abriría los ojos. Estaba decidido á impedir su marcha á toda costa. Por la tarde fui á hacerle una visita á
la fonda Serny, y no habiéndole encontrado, le dejé una esquelita suplicándole tuviese la bondad de verme á eso de
las diez y media de la mañana del siguiente día, que era domingo.

Aquella noche me tocaba pasar algunas horas velando delante del Santísimo Sacramento con el príncipe M. A. B.,
conforme á una piadosa costumbre de Roma (2), y les rogué que uniesen sus oraciones á las mías para alcanzar de
Dios la conversión de un judío.

Domingo 16 de Enero de 1842

Ratisbonne vino á verme á la hora de la cita, y al saludarme me dijo con un tono de extremada franqueza: Espero
que habréis olvidado aquellos sueños de ayer. Vengo á despedirme: me voy esta noche. — ¡Sueños! Nunca he tenido
mas empeño que ahora en eso que llamáis sueños; y en cuanto á vuestra marcha, no hay que hablar de tal cosa,
pues es absolutamente preciso diferirla unos ocho días. —Es imposible; tengo tomado el asiento. —Qué importa,
vamos juntos al despacho de diligencias á avisar que ya no marcháis. — ¡Ah! Ya no es posible, ya no es posible; me
voy indefectiblemente. —Os quedáis indefectiblemente, aunque tenga que encerraros bajo de llave en mi cuarto.

Y le digo que no puede irse de Roma sin haber visto en San Pedro una función, y que la habrá dentro de pocos días.
En una palabra, se da por vencido, asombrado de mi inconcebible terquedad; y después de haber ido juntos á hacer
borrar su nombre de la lista de los viajeros, le llevé á la iglesia de los Agustinos y á la del Jesús.

Habiendo comido aquel mismo día en el palacio Borghese con el Sr. conde de Laferronays, le hablé aquella tarde del
empeño que había formado, recomendando con instancia en sus oraciones á mi joven israelita.

El mismo me confesó ingenuamente en medio de aquella efusión de nuestros corazones la confianza que siempre
tuvo en la protección de la Santísima Virgen, en una época en que las agitaciones de la política no siempre le
permitían entregarse á esa piedad práctica, de la cual tantos ejemplos nos dio en los últimos años de su vida. Tened
confianza, me repetía, si él dice elMemorare, triunfáis de él y de otros muchos.

Lunes 17 de Enero de 1842

Di algunos otros paseos con Ratisbonne, que vino á sacarme cerca de la una. Notaba con sentimiento el poco fruto
que producían en él nuestras conversaciones, porque no había cambiado nada, siempre el mismo, siempre
hostilizando y denigrando el catolicismo, siempre eludiendo con jocosidades burlescas los argumentos que yo le
hacia, sin tomarse el trabajo de contestar.

El conde de Laferronays (3) murió casi de repente á las once de la noche, dejando, tanto á sus amigos, á quienes
había edificado con el fervor de sus últimos años, como á su familia, que le lloraba con la mayor ternura, el ejemplo
de sus virtudes y la consolatoria esperanza de que Dios le llamó para coronarle en el cielo. Yo, que hacía mucho
tiempo que le amaba como á un padre, mezclaba mis lágrimas á las de su esposa y á las de sus hijas, ayudándolas á
llenar los deberes que de ellas exigía un trance tan doloroso; pero el recuerdo de Ratisbonne me seguía aun hasta el
lado del féretro de mi amigo.

Martes 18 de Enero de 1842

Yo había pasado una parte de la noche en medio de aquella familia sumergida en un abismo de dolor; y conociendo
mejor que nadie hasta dónde llegaba su angustia, no podía resolverme á dejarla. Por otra parte mi pensamiento se
iba á cada instante á Ratisbonne, como si una mano invisible me impeliese hacia él incesantemente. No quería
separarme de los restos de mi amigo; no podía apartar mi imaginación de aquella alma que anhelaba convertir á mi
fe. En medio de esta perplejidad descubrí los combates de mi alma al señor abate G., á quien hace mucho tiempo
que la Providencia ha constituido ángel de guarda y consolador de la familia Laferronays. «Id, me respondió, id,
continuad vuestra obra, pues es cosa muy conforme á las intenciones del señor de Laferronays, que ha hecho
ardientes oraciones por la conversión de ese joven.”

Héteme aquí corriendo de nuevo en busca de Ratisbonne, como sitiándole, mostrándole las antigüedades religiosas
con el fin de fijar su pensamiento en las verdades católicas. Pero era en vano tanto platicar. Quise que por segunda
vez visitase conmigo la iglesia de Aracoeli, en la cual, si experimentó por segunda vez alguna sensación, debió ser
muy fugitiva, porque me escuchaba con frialdad, respondiendo burlescamente á todas mis reflexiones. Decía entre
otras cosas: Pensaré en todo eso cuando esté en Malta; allí tendré tiempo, pues me detendré un par de meses, y
podré distraerme con semejantes ideas en algún rato de mal humor.

Miércoles 19 de Enero de 1842

Dirigí nuestro paseo hacia el Capitolio y el Foro. No lejos de allí se levanta sobre el monte Celio una iglesia de S.
Esteban, cuyas paredes están llenas de pinturas al fresco, en las que se ven representados con admirable verdad los
diferentes y espantosos suplicios que consumaban el sacrificio de los mártires. Horrorizó á Ratisbonne la vista de
semejantes tormentos, y le hizo exclamar como para prevenir mis reflexiones: ¡Este espectáculo es espantoso; pero
no han sido vuestros co-religionarios menos crueles con los pobres judíos de la edad media que los perseguidores de
los primeros siglos con los cristianos!
Le mostré en S. Juan de Letrán los bajos relieves que se ven encima de las estatuas de los doce apóstoles,
representando por una parte las figuras del antiguo Testamento, y por otra su cumplimiento por el Mesías. Estas
semejanzas le parecían ingeniosas.

Nos encaminamos hacia la quinta Wolkonski. Se maravillaba Ratisbonne de mi tranquilidad: no podía conciliarla con
el ardiente deseo que manifestaba por su conversión, siendo él, como decía, más judío que nunca. Le respondí, que
lleno de confianza en las promesas de Dios, yo estaba convencido de que, supuesto que él procedía de buena fe,
algún día sería católico, aunque fuera preciso que el Señor le enviara un ángel para iluminarle.

Pasábamos en aquel momento por delante de la Scala Santa (4), y señalando á mi compañero y quitándome el
sombrero, dije en voz alta: ¡Salve, santa Escalera, he aquí un hombre que algún día os subirá de rodillas! Ratisbonne
se echó á reír.

Nos separamos sin que yo hubiese concebido la mas mínima esperanza de haber hasta entonces abierto brecha en
su empedernido corazón. Pero confiaba en aquel que ha dicho: llamad y se os abrirá. Me fui á orar al lado de mi
querido difunto: arrodillado cerca de su féretro, le conjuraba me ayudase á convertir á mi joven amigo, si, como yo
lo esperaba, se hallaba él mismo en la mansión de los bienaventurados.

Jueves 20 de Enero de 1842

Ratisbonne no ha dado un solo paso en el camino de la verdad; ni en su corazón, ni en su lenguaje, siempre


chocarrero, se nota el mas leve cambio, ni le ocupan mas que pensamientos terrenales. Entra como á las once del
día en el café de la plaza de España á leer los periódicos: encuentra allí á mi cuñado Edmundo Humann, y habla con
él de las noticias del día con una libertad y un abandono, que excluyen la idea de que por entonces estuviese su
mente ocupada en ningún grave pensamiento (5).

Es la una. Yo tengo que practicar una diligencia en la iglesia de S. Andrés delle Fratte para la fúnebre ceremonia del
día siguiente. Pero he aquí que Ratisbonne baja la calle Condotti: vendrá conmigo, me esperará algunos minutos, y
seguiremos nuestro paseo. En efecto entramos en la iglesia, y advirtiendo Ratisbonne los preparativos del funeral,
me pregunta para quién son. Para un amigo que acabo de perder: el Sr. de Laferronays, a quien amaba en extremo.
Se pone entonces á pasear por la nave, y su mirar distraído é indiferente parece que está diciendo: Bien fea es esta
iglesia. Le dejo á la parte de la Epístola , á la derecha del sitio dispuesto para colocar el féretro, y entro á lo interior
del convento. Con dos palabras que diga á uno de los religiosos para que se prepare una tribuna para la familia del
difunto, he despachado, todo ello es cosa de diez ó doce minutos.

Al volver á la iglesia, por de pronto no encuentran mis ojos á Ratisbonne, pero bien luego le descubren arrodillado
delante de la capilla de san Miguel. Me acerco á él, le llamo con fuerza tres ó cuatro veces sin que él me vea ni
atienda. Vuelve finalmente hacia mí los ojos arrasados en lágrimas, junta las manos, y me dice con una vehemencia y
afecto que sería imposible pintar: ¡Oh cómo ha orado por mí este señor!

Yo mismo estaba estupefacto de asombro; sentía lo que se siente en vista de un milagro. Le pongo en pie, le guío, le
saco de la iglesia casi á empujones, le pregunto qué es lo que le pasa, á dónde quiere ir. Llevadme donde queráis,
exclama; ¡ ah! yo obedezco después de lo que he visto. Le ruego que se explique; no puede hacerlo; se lo impide su
conmoción extraordinaria. Saca del pecho la medalla milagrosa, la besa una y mil veces, y la empapa en sus lágrimas.
Le llevo á su casa, y por mas que le insto, no alcanzo de él mas respuesta que exclamaciones interrumpidas con sus
continuos sollozos. ¡ Ah! ¡ Cuán feliz soy! ¡Cuán bueno es Dios! ¡Qué plenitud de gracia y de felicidad! ¡ Cuán dignos
de lástima los que no saben!…. Y se deshace en lágrimas pensando en los herejes y en los incrédulos. Me pregunta
luego si no está loco ¡Pero no, vuelve á exclamar, yo estoy en mi cabal juicio! ¡ Dios mío, Dios mío, yo no estoy loco!
¡Todo el mundo sabe que no estoy loco !

Calmada ya algún tanto esta emoción de delirio, Ratisbonne, con una cara radiante, estoy por decir, casi
transfigurado, me echa al cuello los brazos y me estrecha á su pecho, y me pide que le lleve á un confesor, y me
pregunta cuándo podrá recibir el bautismo, sin el cual no le es posible vivir; y suspira por asemejarse á aquellos
mártires cuyos tormentos ha visto pintados en la iglesia de S. Esteban. Insiste en que le es necesaria la autorización
de un sacerdote para poder explicarse. Porque lo que tengo que decir yo no debo, yo no puedo decirlo sino de
rodillas.
Le llevo pues al Jesús (6), y le presento al padre Villefort, quien le obliga á explicarse. Ratisbonne al momento,
sacando su medalla y estrechándola al pecho, nos la muestra y exclama: ¡ LA HE VISTO!…. ¡LA HE VISTO!…. Y su
emoción le domina todavía. Pero serenándose luego y respirando con alguna mas libertad, ya puede hablar: he ahí
sus mismas palabras:

Hacia un instante que estaba yo en la iglesia cuando me sobrecogió repentinamente una turbación inexplicable.
Levanté los ojos: todo el edificio había desaparecido á mi vista; una sola capilla había recogido por decirlo así toda la
luz, y en medio de este resplandor apareció la Virgen María de pie sobre el altar, grande, brillante y llena de majestad
y dulzura, tal cual está en mi medalla; una fuerza irresistible me impelió hacia ella. La Virgen me hizo seña con la
mano para que me arrodillase; parece que me dijo: Está bien : Ella no me ha hablado, pero yo todo lo he
comprendido.

Esta corta relación nos la hacía Ratisbonne parándose muchas veces, como para respirar y hacerse superior á la
emoción que le dominaba. Le escuchábamos nosotros con religioso espanto mezclado de alegría y gratitud,
admirando la profundidad de los caminos de Dios y los inefables tesoros de su misericordia infinita. Pero sobre todo
una palabra nos había maravillado por su misteriosa profundidad. Ella no me ha hablado, pero todo lo he
comprendido. En efecto, basta oír á Ratisbonne: la fe católica se exhala de su corazón á manera de un perfume
precioso del vaso que le encierra sin poder contenerle. Habla de la real presencia del Verbo encarnado en la
Eucaristía como quien la cree con toda su alma, mal dicho, como quien la siente.

Dejando al padre Villefort, fuimos á dar gracias á Dios, primero á Santa María la mayor, basílica que estima mucho la
Virgen, y después á San Pedro. Imposible es pintar los transportes de Ratisbonne en estas dos iglesias. «¡Ah! me
decía apretándome la mano ; ahora comprendo el amor de los católicos para con sus iglesias, y la piedad que los
obliga á adornarlas y embellecerlas!…. ¡ Aquí sí que se goza! Desearía no salir nunca de aquí Esto no es ya la tierra;
esto casi es el cielo. Al pie del altar del Santísimo Sacramento, le tenía tan fuera de sí la real presencia de la
Divinidad, que sin remedio se hubiera desmayado si no se apartara tan pronto. Tal era el horror que le causaba estar
en la presencia del Dios vivo con la mancha original, que se fue á refugiar á la capilla de la Santísima Virgen
diciéndome: “Aquí no puedo yo tener miedo: me siento protegido por una misericordia inmensa.”

Estuvo orando fervientemente junto al sepulcro de los santos apóstoles. Lloró muchísimo mientras yo le contaba la
historia de S. Pablo.

Le admiraba el lazo poderoso y póstumo, según su misma expresión, que le unía al Sr. de Laferronays; quería pasar la
noche junto á su féretro, diciendo que era un deber que le imponía su gratitud; pero el Padre Villefort combatió
prudentemente este piadoso deseo, aconsejándole al mismo tiempo no pasara sino hasta las diez de la noche sin
recogerse á dormir (7).

Ratisbonne nos confesó entonces que no había podido dormir la noche anterior, y que tuvo constantemente delante
de sí una gran cruz de una forma particular y sin Cristo. «Yo hacía, dijo, increíbles esfuerzos por apartar de mí esta
imagen sin poderlo lograr. ” Viendo por casualidad algunas horas después el reverso de la medalla milagrosa, ha
reconocido su cruz.

Entretanto estaba yo impacientísimo por ir á ver á la familia de Laferronays. Me corría prisa llevarle un consuelo muy
dulce en el mismo momento en que á aquella tierna esposa y á aquellas hijas desconsoladas iba á arrebatárseles el
venerado resto del que era causa de sus acerbas lágrimas y dolorosos suspiros. Entro en la habitación mortuoria en
un estado de agitación y aun hasta de alegría , que al momento fija en mí la atención de todos, no habiendo quien no
imagine que traigo alguna cosa importantísima. Todos me siguen á la habitación inmediata , y cuento
apresuradamente lo que acaba de pasar.

Noticias del cielo eran las que yo llevaba. El llanto del dolor se cambia por un momento en llanto de gratitud. Ya
aquellos angustiados corazones pueden sobrellevar con toda la resignación de verdaderos cristianos el sacrificio mas
cruel, el último de los que impone la muerte, el último adiós á los despojos mortales de aquel objeto de su
entrañable amor

Mas yo debía volver en busca del hijo que el cielo acababa de darme; me había rogado que no le dejara solo; tenía
necesidad de un amigo para desahogarse y confiar al corazón del amigo todo lo que el suyo había sentido aquel día.
Le pedía que me hablase mas circunstancialmente de su milagrosa visión. Él mismo no podía explicar cómo pasó
desde el lado derecho de la iglesia á la capilla que está al lado izquierdo, y de la cual se hallaba separado por el
catafalco y demás preparativos del funeral. Se había visto repentinamente arrodillado y prosternado cerca de
aquella capilla. En el primer instante pudo ver á la Reina del cielo con todo el esplendor de su belleza sin mancha;
pero sus miradas no pudieron resistir el brillo de aquella luz divina. Tres veces procuró contemplar de nuevo á la
Madre de las misericordias, y tres veces habían sido inútiles todos sus esfuerzos, no pudiendo levantar los ojos sino
hasta aquellas manos benditas, de donde salía entre torrentes de luz un torrente de gracias.

¡O Dios mío! exclamaba. ¡ Yo que media hora antes aún blasfemaba ! ¡ Yo que tenía un odio tan violento á la religión
católica! Pero todos los que me conocen saben bien que, humanamente hablando, me asistían las razones mas
fuertes para permanecer judío. Mi familia es judía, mi futura es judía, mi tío es judío Haciéndome católico rompo con
todos los intereses y con todas las esperanzas de la tierra, y sin embargo ¡yo no estoy loco! ¡Yo no estoy loco! ¡Es
bien sabido que jamás lo he estado! Por consiguiente se me debe creer.

Viernes 21 de Enero de 1842

La noticia de este asombroso prodigio principió á circular por Roma. Mil y mil gentes corrian á preguntarse unas á
otras lo que había sucedido: en todas partes se hablaba de lo mismo; cada cual refería los pormenores que habían
llegado á sus oidos. Era en vano el estar muy sobre si para no creer nada con ligereza; muy luego se hacía imposible
dudar en vista de unos hechos tan evidentes, tan irrefragables. Muchos, muchísimos daban gracias á Dios de hallarse
en Roma en el momento en que plugo á su bondad infinita despertar nuestra confianza en la Santísima Virgen,
manifestando de un modo tan admirable el poderío de su intercesión. No había quien no quisiese ver y hablar á
aquel joven mil y mil veces dichoso, por quien había bajado del cielo la Madre de la divina gracia.

Estábamos en la habitación del padre Villefort cuando el general Chlapowski entró diciendo: Señor, ¿con que habéis
visto la imagen de la Santísima Virgen? Decidme cómo ¡La imagen, Señor! Le interrumpió Ratisbonne, ¡la imagen!
¡Ah! Yo la he visto á ella misma, en realidad, en persona, del mismo modo que os estoy viendo ahí.

No puedo menos de observar aquí que si hubiera sido posible alguna ilusión con las circunstancias de carácter, de
educación, de antipatía, de interés de corazón y de fortuna que llevo referidas, no hubiera podido ser obra de
ninguna representación exterior, porque no hay en la capilla donde se hizo el milagro ni estatua, ni pintura, ni efigie
alguna que represente á la Santísima Virgen (8).

Quise llevar á Ratisbonne al seno de la familia Laferronays. El suceso mas importante de su vida tenía tanta relación
con la desgracia de la angustiada familia, que para él era un deber el templar la amargura de sus lágrimas,
revelándole él mismo cuán misterioso vínculo de eterna gratitud le unía con el alma de aquel justo; pero estaba
demasiado conmovido para poder hablar con algún orden; estrechaba con una agitación indecible aquellas manos
que se le tendían como á un hermano, como á un hijo querido.

¡Ah! creedme, creed á mis palabras, repetía cuando se le estrechaba con preguntas; ¡á las oraciones del Sr.
Laférronays es á quien yo debo mi conversión!

En mi casa fue donde el recién convertido pasó los pocos días, que precedieron al retiro con que había de prepararse
para el bautismo. Me leía algunos trozos de las cartas que escribía á su futura, á su tío, á todos los de su familia, con
el fin de descubrirme hasta lo mas recóndito de su alma. En nuestras cordialísimas conversaciones no se le caían de
la boca las pruebas evidentes que á los mas incrédulos debían convencer de su propia sinceridad, y de la milagrosa
intervención del cielo en su conversión. «Los motivos mas graves, decía, los intereses que ejercen mayor imperio en
el corazón del hombre, me tenían encadenado á mi religión. Se debe pues creer á un hombre que todo lo sacrifica á
una convicción, que no puede venir sino del cielo.

Si lo que he afirmado no es absolutamente cierto, cometo una culpa muy execrable á la par que insensata.

Entrando en mi nueva religión con una mentira sacrílega, no solo arriesgo mi suerte en esta vida, sino que también
pierdo mi alma y tomo sobre mí la formidable responsabilidad de todas las que siguieren mi ejemplo ¿Adónde pues
está mi interés?…. ¡Ay de mi! Cuando mi hermano se convirtió al catolicismo y se hizo sacerdote, entre todos los de
la familia yo fui el que le perseguí con más encarnizamiento. Estábamos enemistados; yo al menos le detestaba,
aunque él me había perdonado. Cuando pensé en casarme me pareció que debía reconciliarme con mi hermano
escribiéndole algunos pocos renglones bastante fríos, y él me contestó con una carta que no respiraba mas que
caridad y ternura.

Hace diez y ocho meses que murió uno de mis sobrinitos: mi hermano el abate quiso bautizarle, y yo me puse furioso
cuando lo supe.

Espero que Dios me pruebe atribulándome con rigor, para que yo le glorifique y manifieste al mundo que procedo de
buena fe.

Sí; procede de buena fe el hombre que á la edad de veintiocho años sacrifica todas las delicias y encantos de su
corazón, todas las esperanzas de su vida, por obedecer á su conciencia. Pues ha pesado todas las consecuencias de
su resolución; pues ya no ignora que el cristianismo es el culto de la cruz; se le ha dicho y repetido todas las pruebas
que le esperan, todos los deberes que impone la nueva religión, en la cual ya no ve la hora de entrar.

En el momento en que pidió el bautismo se le llevó al venerable Padre que dirige una sociedad muy querida de todos
los amigos de Dios, quien después de haberle escuchado con amorosa bondad, pero al mismo tiempo con suma
gravedad, le hizo considerar atentamente los sacrificios que tendría que hacer, las graves obligaciones que tendría
que cumplir, los combates particulares que le esperaban, las tentaciones, las pruebas de todo género á que iba á
exponerle semejante resolución; y mostrándole un Crucifijo que estaba sobre su mesa, le dijo:

Esta cruz que aquella noche habéis visto, no solamente deberéis adorarla, sino también llevarla desde el momento
que recibáis el agua del bautismo.

Abriendo luego el libro de las santas Escrituras, buscó el segundo capítulo del Eclesiástico, y leyó al Sr. Ratisbonne
estas palabras:

Hijo: en consagrándote al servicio de Dios, persevera en la justicia y en el temor, y prepara tu alma para la tentación.
Humilla tu corazón, espera con paciencia; inclina tu oido, y recibe las palabras de la sabiduría, y no te agites en el
tiempo de la oscuridad. Aguarda con paciencia lo que esperas de Dios; estréchate á él y aguarda, á fin de que tu vida
sea dichosa en el término. Acepta de buen grado todo lo que te sobreviniere: y espera en medio del dolor, y ten
paciencia en medio de la humillación; porque en el fuego se prueba el oro y la plata, y los siervos de Dios en la fragua
de la tribulación. Confía en Dios y te salvará; dirige tu camino y espera en él. Conserva su temor y envejécete en él.”

Hizo una profunda impresión en Ratisbonne la lectura de estas divinas palabras. Lejos de desalentarle, le hicieron
más firme en su propósito, inspirándole los sentimientos mas dignos del verdadero cristiano. Él sin embargo las oyó
en silencio; pero concluido el retiro que precedió á su bautismo, fue al anochecer la víspera de aquella gran
solemnidad á ver al respetable sacerdote que ocho días antes le había leído aquellas palabras, y le pidió una copia de
ellas, diciéndole que quería conservarlas y meditarlas todos los días de su vida.

Tales son los hechos que ofrezco á la meditación de todos los hombres reflexivos. Los he expuesto sin ningún
artificio, con toda su sencillez, con toda su verdad, para edificación de los que creen, para enseñanza de los que
todavía buscan la tranquilidad de su conciencia. ¡Me tendré por muy dichoso sí después de haber andado yo mismo
errante por largo tiempo en las tinieblas y contradicciones de las sectas protestantes , llego á conseguir con tan
sencilla relación que algún hermano extraviado exclame finalmente como el ciego del Evangelio: Señor, haced que
yo vea; pues el que pide bien pronto abre los ojos al sol de la verdad católica!

***

Notas del traductor

1º Más adelante nos dirá el Sr. Ratisbonne qué debemos entender por esta palabra regeneracion.

2º En la oración de las Cuarenta Horas no se reserva al anochecer como en España á su Divina Majestad, que
permanece manifiesto para recibir desde las nueve ó diez de la noche las fervorosas oraciones de los cofrades de la
vela del Santísimo Sacramento, que de cuatro en cuatro y por espacio de cuatro horas están adorando á Jesus
Sacramentado con devotísimos ejercicios, dirigidos por alguno de los muchos sacerdotes del seno de la misma
congregacion.
3º A la Unión católica, periódico religioso de París, daba su corresponsal de Roma, entre otros muchos, los siguientes
pormenores acerca de la edificante y casi repentina muerte del conde de Laferronays.

“El mismo dia que el Señor le iba á llamar á sí estuvo el conde en San Juan de Letran larguísimo rato en oración
delante del Santísimo Sacramento, según lo tenía de costumbre, y al anochecer se halló también en la reserva del
Santísimo en la capilla de la Adoracion perpétua. A las nueve de la noche quejábase bastante del dolor que
habitualmente padecia en el pecho; se le hicieron dos sangrías, pero agravándose lejos de aliviarse con ellas, se
llamó inmediatamente á su confesor el abate Gerbet, quien acercándose á su lecho le bendijo y le hizo diversas
preguntas, á las cuales contestaba el enfermo con extraordinaria ternura y admirable fervor: ¡Ah sí, Ah si! ¡Me
arrepiento de todas mis culpas! Si, amo a mi Dios de todo corazón, de todo corazón! Y tomando el Crucifijo le
estrecha amorosamente á sus labios, y no cesa de repetir esta sencilla y patética invocación: Dios mío, tened piedad
de mi! ¡Virgen santísima rogad por mi, venid a auxiliarme!

Había tenido la dicha de comulgar el día antes, y viéndole tan de peligro su confesor le absolvió sin pérdida de
tiempo; absolución que recibió con intenso dolor, como bien lo mostraban sus muchas lágrimas.

Pero bien luego brilla en sus ojos la calma y paz divina, la celestial alegría que inundaba su alma. ¡Cuan dichoso soy
ahora! exclama varias veces con voz apagada y con sonrisa como de predestinado, ¡cuan dichoso soy! Adiós, dice á
su amada esposa estrechándole la mano, adios, hijos míos queridos…. y á los pocos minutos aquella alma tan
hermosa, tan pura, tan noble y tan angelical se exhala al seno de su Dios.

Aquel mismo dia al volver á su casa había dicho á su esposa: He estado en Santa María la Mayor, me he arrodillado
delante de Nuestra Señora, y después de haberla invocado he dicho a su divino Hijo: Señor, aquí me tenéis, estoy
pronto a cuanto queráis de mi. Si ya queréis llamarme a vos, venid, Señor y recibid mi alma; pero si aún me dejais por
mas tiempo en este valle de lágrimas, no emplearé mi vida sino en vuestra gloria.»

4º Scala santa, o Escalera santa. Llámase asi, por ser tradición que se compone de las mismas gradas que formaban
la del pretorio de Jerusalén, y por las cuales subió nuestro adorable Salvador después de su flagelación, derramando
las preciosísimas gotas de su sangre divina. Estas gradas son de marmol blanco y en número de veinte y ocho, y solo
se suben de rodillas con profunda veneracion. Clemente Xll las bizo cubrir con madera, á fin de que no sufriesen el
menor detrimento. El santuario á que conducen, y al cual tambien se sube por otras cuatro escaleras, está dedicado
por Sixto V al Santísimo Salvador, cuya imagen, obra de pincel griego, y salvada de la persecucion de Leon Isauro, se
venera en aquel lugar con una devocion tierna y respetuosa.

5º Dejemos hablar al Sr. Edmundo Humann. “El jueves 20 á eso de las doce y media hallé casualmente en el café á
Ratisbonne, y á la verdad que no me pareció que estaba de humor de hacerse católico, ni con ningun pensar
religioso. Ha mucho tiempo que le conozco. Es de un carácter frío, nada entusiasta, y es de todo punto imposible que
quien le haya tratado algún poco atribuya su conversión á consideraciones humanas. (El Conde Teobaldo Walsh.)

6º Casa profesa de la Compañía de Jesus, contigua á la magnífica iglesia de este mismo nombre.

7º El conde de Walsh dice que Ratisbonne estuvo orando al lado del cadáver de Laferronays desde el anochecer
hasta las diez de la noche en San Andrés delle Fratte, solo y cerradas las puertas de la iglesia.

8º En Roma ha adquirido mucha celebridad é interés la capilla en que Ratisbonne tuvo la milagrosa vision … San
Andrés delle Fratte se ha vuelto en nuevo lugar de peregrinacion, y se va allí á admirar un hermoso cuadro regalado
por el mismo convertido, que representa la Inmaculada Concepción, y aquella mano bienhechora que le mostró el
camino de la verdad. A derecha é izquierda del altar se han colocado dos piedras de mármol, en las cuales se lee la
siguiente inscripcion en francés é italiano. El 20 de enero de 1842, Alfonso Ratisbonne, natural de Strasburgo, entró
aquí judío obstinado; apareciósele la Santísima Virgen tal como aquí la ves, y arrodillándose judío se levantó
cristiano. Extranjero, lleva á tu patria el precioso recuerdo de la misericordia de Dios v del poder de María. (El
Católico núm. 1162 del sábado 6 de mayo de 1843.)

***

Historia de la milagrosa conversión del judío Mr. de Ratisbonne. Editor Impr. de E. Aguado, 1845

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